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Anna de Assis: História de um trágico amor: Euclides da Cunha, Anna e Dilermando de Assis CIP-BRASIL.

CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. A865h Andrade, Jeferson de, 1947Anna de Assis : história de um trágico amor: Euclides da Cunha, Anna e Dilermando de Assis / Judith Ribeiro de Assís ; em depoimento a Jeferson de Andrade. - Belo Horizonte, MG : Soler, 2006 ISBN 85-60004-06-8 1. Assis, Anna de, 1913-1951. 2. Cunha, Eucides de, 1866-1909. 3.Assis, Dilermando de, 1888-1951. 1. Andrade,Jeferson de, 1947-. II. Título. Copyright - Judith Ribeiro de Assis e Jeferson de Andrade, 2006 Editor S. Justo Junior Projeto Gráfico Fernanda Amarante Revisão Ortográfica Maria de Lourdes Costa (Tuch a) Todos os direitos reservados à Soler Editora Rua Flor de Jequitibá, 12-2° andar União - Belo Horizonte - MG Cep 31160-280 Tel.: (31) 3486-7006 wwvso1ereditora.com.br CDD 920.72 CDU 929:-055.2 06-2708 "Enquanto a mulher do fim do século se escondia na cozinha, preocupando-se em servir ao seu todo-poderoso marido ou se recolhia à cadeira de balanço e a tricotar esperava a vida passar, Anna de Assis foi para a sala de visitas palestrar com um Machado de Assis, um barão do Rio Branco, um Sílvio Romero, um Coelho Neto. Natural, já que na casa do pai se habituou a ouvir um Quintino Bocaiúva, um Rui Barbosa, um Benjamin Constant. Mulher audaz, independente, morando numa cidade pequena e provinciana como uma São José do Rio Pardo, teria seus movimentos ímpares confundidos pela mente pequena e bitolada daqueles que não enxergam o horizonte, já que as estradas têm curvas. Ali naquela cidadezinha, Anna de Assis deixou a imagem de mulher fútil e namoradeira. Conclusão a que se chegou porque se postava à janela e, alegre e "moderna", não se escondia dos homens." Dedico este livro aos descendentes de Anna de Assis. Quero deixar aqui consignado o meu repúdio a tudo que já foi escrito sobre ela. Anna de Assis foi uma mulher excepcional, como

amante, como esposa, como mãe. Com muito respeito e admiração, sua filha Judith *** O autor jeferson de Andrade registra a colaboração de Denise Mordenel na revisão da obra quando inédita. Sobre este livro Meu nome registrado em cartório é Jeferson Ribeiro de Andrade. Judith era Ribeiro de Assis. Como foi casada com Andrade, por muitos foi conhecida apenas como Judith de Andrade. Tudo coincidência. Sou Ribeiro de Andrade, filho de Donato Leite de Andrade e Irene Ribeiro de Andrade, mineiros. Judith era gaúcha. Também Dilermando e Anna. Judith faleceu em 1995, no Rio de Janeiro. Quando constatamos, em nosso primeiro encontro, no ato da apresentação, esse parentesco de nomes, escancarou-se a porta do entendimento. O acaso costuma unir corações. Já havia escrito, em meu romance Um Segredo de Verão, que muitas vezes julgo a vida tão tola porque tantas vezes a felicidade depende de um imprevisto. O encontro inicial se dava porque, no meu trabalho de editor de livros, obtive a indicação de que Judith desejava publicar revelações sobre a vida de sua mãe. Mas a obra não estava escrita. As funções de editor cederam lugar à atividade de escritor. E durante três anos, após sucessivos encontros, várias horas de diálogo, pesquisas no Arquivo do Ministério do Exército e Biblioteca Nacional, surgiu o sonho de Judith - ANNA DE ASSIS - HISTÓRIA DE UM TRÁGICO AMOR: EUCLIDES DA CUNHA, ANNA E DILERMANDO DE ASSIS. Depois dessa nova experiência de minha vida literária, posso afirmar que escrever este livro foi como exercitar o dom de cantar em dueto. Creio que consegui fazer o texto exatamente no tom desejado por Judith. Como insisto em afirmar que escrevo de ouvido, exatamente como alguns músicos tocam seus instrumentos, esta obra, mais do que qualquer outra, foi assim 1 executada. Tenho escrito meus contos e romances nos tons das próprias histórias, das próprias personagens. O leitor perceberá que, em várias oportunidades, foi concedido grande espaço para transcrições de entrevistas e depoimentos de Dílermando de Assis, o que se fez necessário por dois motivos. Primeiro, suas entrevistas e livros falam também, e constantemente, de Anna de Assis. Segundo, apesar de seus esclarecimentos divulgados pela imprensa e dos livros publicados, seus filhos e netos ainda deparam com notícias equivocadas e fatos deturpados todas as ocasiões em que se trata da morte de Euclides da Cunha. Sobre Anna de Assis, o que tenho a revelar está na comunhão que existiu entre as revelações de Judith e o que procurei verter para uma linguagem literária. De nossa união, surgiu este livro. Minha admiração pela mulher Anna de Assis está nas páginas seguintes. É o que desejo passar ao leitor e à leitora. E cada um, após a leitura de ANNA DE ASSIS HISTÓRIA DE UM TRÁGICO AMOR: EUCLIDES DA CUNHA, ANNA E DILERMANDO DE ASSIS, sentirá se o consegui. Jeferson

de Andrade Introdução à 8 edição A primeira edição deste livro saiu em agosto de 1987. Foi um êxito de crítica e de público, permaneceu alguns meses nas listas de mais vendidos e teve seis edições sucessivas. Alcançou plenamente seu principal objetivo, que é mostrar a personalidade e a vida desta extraordinária mulher que foi Anna de Assis. Em nenhum momento teve como intuito denegrir a imagem de Euclides da Cunha, como os autores deste livro foram acusados por familiares do escritor, que lhes moveram até mesmo ação judicial. Qualquer homem pode ser o mais sábio do mundo, e nem assim estará a salvo das fraquezas humanas, principalmente quando suas emoções se embaraçam nos mistérios do amor e do ódio. Compreendo todas as atribulações familiares dos envolvidos nas tragédias, porque também vítimas de tantos equívocos, muitas vezes provocadas pelas paixões de fanáticos e de cegos que se confundem no emaranhado de suas pequenas batalhas e de suas pueris ilusões. Após a publicação deste livro, outros surgiram tratando do drama vivido por estas três pessoas: Euclides, Anna e Dilermando. Deu origem ainda a uma minissérie na televisão. Que cada um procure dar a sua versão, mas creio que basicamente posso reafirmar: não se pode alguém erguer e julgar Euclides, Anna e Dilermando. Apenas a palavra fatalidade pode cobrir a imagem dessas três pessoas e lhes servir de epitáfio. Índice 1 Um trem que chega é uma história que começa 13 2 A menina Anna Emília émais bela que a República 17 3 Anna e Euclides da Cunha: depois da poesia, filhos e angústias 23 4 Pensão Monat, Rua Senador Vergueiro, 14. Primeiro endereço de uma tragédia 25 5 Três vidas se encontram: Anna, Euclides e Dilermando 32 6 Cartas inéditas revelam a paixão de Dilermando de Assis 37 7 Uma criança morre de inanição 41 8 Nasce uma espiga de milho no meio de um cafezal 44 9 Tudo acontecia além do vôo da Águia de Haia 48 10 Treze tiros e uma tragédia 51 11 Meu depoimento sobre a morte de Euclides 55 12 Ele chegou para matar ou morrer 59 13 Um coração de mulher não se devassa com palavras e razões 64 14 Pedido de casamento em bilhete de 2-10-1909 67

136 29 Manoel Afonso: um filho e irmão preocupado. 126 27 A vida isolada de Anna e filhos na ilha de Paquetá. 118 26 Monteiro Lobato consulta a sua consciência. 112 24 Onde estão as outras vítimas deste trágico enredo? 116 25 A vítima esquecida de Euclides da Cunha. 147 32 Anna. Rio Grande do Sul 104 22 E éramos tão felizes no Rio Grande do Sul. 177 38 O sinal da cruz de S'Anninha é o perdão. 181 39 Não se vive e não se morre em paz neste País. imprensa e livros escreveram os equívocos sobre a morte deEuclides da Cunha. 190 e morre com um segredo 42 Dilermando e Anna viveram um grande amor. 152 33 Laudo da necropsia de Euclides da Cunha apresenta uma trágica sentença. 197 . 140 30 Anna e Dilermando não se viram durante anos. 108 23 O mistério se escondia numa rua do Encantado. Dilermando e filhos: condenados por mentiras e vinganças. 167 36 Eu é que posso falar sobre Euclides da Cunha: vivemos juntos! 173 37 Anna e Dilermando se reencontram sem testemunhas. 130 28 Anna de Assis e filhos nunca viveram separados.15 Surge uma nuvem sangrenta 73 16 Declarações prestadas por Dilermando ao Conselho de Investigação 77 17 Quidinho foi instigado a matar Dilermando 80 18 Anna vende bolos de milho para comprar livros 89 19 A defesa histórica do Dr. 159 34 O último depoimento de Dilermando de Assis. Evaristo de Morais 92 20 Um livro para preservar a justiça 99 21 A vida tranqüila de Anna em Bagé. 164 35 Mais uma entrevista injuriosa contra Anna de Assis. 144 31 Inquérito. 184 40 Uma coincidência no cemitério como derradeiro lance da fatalidade. 188 41 Dilermando não faz a sua última revelação.

O conflito terminou no primeiro semestre de 1870. até a sua capitulação em 20 daquele mês. 201 *** 1 Um trem que chega é uma história que começa Mulheres ansiosas esperam. Mas muitos militares brasileiros permaneceram nas fronteiras. exclamações. rapidamente se retiram. que . tantos anos ausentes. A Guerra do Paraguai começou em 12 de novembro de 1864 e só terminou com a morte de Solano López. ainda em território do Paraguai. O trem finalmente estaciona e há um ligeiro movimento entre as pessoas que esperam na plataforma. Na plataforma da estação. sorrisos e choros de alegria. Nos primeiros dias do mês de fevereiro. E a guerra foi de sete anos para Frederico Solon. Ele transpôs a linha divisória entre a província do Rio Grande do Sul e o Uruguai em 2 de dezembro e em 8 de janeiro de 1865 estava marchando em direção a Montevidéu. são mães e mulheres aflitas e saudosas que sonham com um abraço apertado. sob o comando do general João Propício Menna Barreto. Em outubro desse ano dirigiu-se ao Quaraí Grande para fazer parte do exército em organização. Este é o caso do tenente Frederico Solon de Sampaio Ribeiro. É um movimento incessante e desorganizado. pois um homem na guerra sofre o suficiente para envelhecer além do tempo que se conta com o movimento do relógio. O trem se aproxima. em 1' de março de 1870. Somente foi desligado do 2Â Regimento em Humaitá em 11 de maio de 1871 a fim de retirar-se para o Brasil. Elas se aproximam mais dos vagões como que impelidas pela ânsia de logo abraçar e afagar os seus entes queridos que regressam. mas em 6 de agosto ele embarcava em Assunção e desembarcava em 7 em Humaitá. várias vezes elogiado pelo 13 comportamento exemplar e promovido a capitão por ato de bravura praticado na batalha de 16 de agosto de 1869 nos campos de guerra. já com a guerra declarada. Ele traz os últimos combatentes da Guerra do Paraguai. apressado. E porque todos têm pressa. e em 25 de novembro. como se todos desejassem em alguns minutos viver alguns longos anos de saudades e ausência. aliado do Brasil no conflito contra o Paraguai. na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai. A Guerra do Paraguai começou para ele quando deixou a mulher Túlia grávida e marchou com o seu regimento. e para estes a história da guerra só terminou algum tempo depois. condecorado com a Medalha de Mérito Militar. permanecendo aí por longo tempo. Logo aqueles homens fardados começam a desembarcar. cessam os alaridos. Crianças assustadas observam. o tenente Frederico Solon fez parte das forças sitiadoras de Montevidéu. muito mais velho que apenas sete anos. deixando a estação com aquela urgência de esquecer logo os momentos de aflitiva espera. para Santana do Livramento. então ocupada pelas forças de Solano López. em maio de 1864.43 Anna de Assis escreveu todas as frases de sua história. O capitão Frederico Solon sai para a guerra aos 24 anos de idade e retorna sete anos depois. todos impacientes para os abraços de reencontro. seguiu com a tropa para o Estado Oriental do Uruguai. São gritos. Homens calados estão atentos. são pais que orgulhosos querem abençoar os filhos e crianças que. curiosas. Restam alguns. desejam conhecer os pais. Paulatinamente.

conhecer o seu filho com seis anos de idade. Túlia. sem que ele o soubesse. duradoura e feliz. O capitão Frederico Solon de Sampaio Ribeiro chega da guerra para abraçar seu filho Albino e pela primeira vez ouvir alguém chamá-lo de pai. como se dois desconhecidos estivessem prestes a se tocar. Ele partiu moço. ela o teria como morto na guerra. e Frederico olha para a mulher e o menino. Imagina que são Túlia e o seu filho. e nessa escolha surgiu a primeira ironia do destino dessa menina que iria crescer bela. Por trás de sua barba. e exatamente em seu trajeto está uma mulher que dá a mão a uma criança. Primeiro ela se chamou Anna Emilia Ribeiro.Frederico? Aproximam-se.Túlia? Ela responde: . se locomovem mais devagar. Ou algo teria sucedido a ela e ao seu filho. resta um rosto desiludido. Ela começa a caminhar. um menino. A última notícia recebida é de que ele regressaria aquele dia a Porto Alegre. que viveram casados com outras temporárias separações impostas por algumas missões militares do marido. O capitão Frederico Solon não encontra ninguém a esperá-lo. marido e mulher. não teria sido avisada de seu retorno? Teria acontecido alguma coisa? Tantas vezes a comunicação entre eles esteve interrompida que. diria a seus filhos. timidamente. negra e espessa. O capitão Solon está a alguns metros da mulher. Mas nenhuma outra separação foi tão longa como esta. tentando encontrar lá dentro do trem o seu marido. no Rio Grande do Sul. voltou com a barba crescida. regressando da Guerra do Paraguai e que se estendeu até o seu nascimento. obrigada pela Guerra do Paraguai e por isso mesmo. nascida em 18 de junho de 1875. determinando de forma implacável o destino de muitos que viveram em torno dela e transmitindo a seus filhos e a outras gerações um sentimento de veneração. é como um segundo casamento. mas não a vê. marcado pelas mortes da guerra. os movimentos de um e de outro despertam-lhes a atenção. 15 A menina nasceu e o nome foi escolhido segundo os estranhos desígnios de uma tradição da época: chamar a pessoa por um nome e este revelar uma significação ímpar e transcendente. finalmente. gorda e com as marcas de saudades e sofrimentos numa fisionomia alterada. Aproxima-se e indaga: . lá no interior e longínquo Paraguai. O nome Anna Emília significa rival da graça. diminui o movimento na plataforma. com as marcas de ferimentos e cicatrizes de guerra. Sua mulher. Ela ficou ainda uma menina-moça. e nem ele nem Túlia se reconhecem marido e mulher. no século seguinte. iniciada a 14 de junho de 1871 quando o seu pai se apresentou em Porto Alegre. modificado. ainda doentes. que tinha nascido depois da segunda lua-de-mel de seus pais. ou aqueles que. na cidade de Jaguarão. Afinal. provavelmente. O novo encontro de Frederico e Túlia. Os olhos daquela mulher também perscrutam os vagões vazios. estranhos um para o outro. grávida e radiosa. Tornou-se . Afinal.são mais lentos nos abraços. tornar-se mulher culta e voluntariosa. com aqueles gestos que buscam evitar novas dores. a filha Anna Emília. Assim se deu o reencontro do capitão Frederico Solon e sua mulher Túlia. Caminha 14 em direção à saída. um rosto limpo e alegre. e ele a revê mulher. tão diferentes. pondo fim a sete anos de ausência e podendo. Frederico Solon ainda tenta encontrar a mulher entre algumas poucas pessoas que circulam pela estação. cessa a confusão.

Este livro conta a vida de Anna de Assis. em circunstâncias diversas e várias oportunidades: Tanto nos momentos felizes de sua vida como naqueles em que a tragédia a feriu e mortificou. Com a morte do rapaz. o rapaz apaixonado por Alquimena descuidou-se da saúde e definhou até morrer. apresentando-se a 26 de setembro. 16 *** 2 A menina Anna Emília é mais bela que a República Quando Anna Emília nasceu emJaguarão. Ele não cedeu aos rogos da filha e não permitiu 17 a realização do casamento. E se os casamentos na época se faziaim segundo a escolha do pai. quando se casou com Euclides da Cunha. renunciando à vida mundana. auxiliando sempre o seu primeiro marido. Viveu sempre ordenada ao seu voto de pobreza. . em 10 de setembro de 1890. não se pode afirmar que ela teve mais sorte do que a irmã ao se casa com alguém escolhido.dele jamais se afastaria. Por infelicidade e desgosto. Esse padrinho poderoso se tornará o seu protetor. afinal. Não teve esta sorte a moça Alquimena. A carreira militar de Frederico Solon é histórica. Depois ela se casou com Dilermando de Assis e passou a se chamar Anna de Assis. seu pai encontrava-se novamente ausente do lar. para alegria e felicidade dos apaixonados. Estava em Porto Alegre. Intimamente foi sempre S'Anninha. mesmo quando se viu obrigada abandonar a vida de clausura religiosa. Os três filhos do major seriam matriculados em escolas militares para seguir a mesma carreira do pai e as duas moças estavam destinadas ao casamento. tal não se deu com a irmã. Ele foi promovido a major em 14 de julho de 1881 e só então se transferiu do Sul do País para a Corte. não se pode afirmar também que ela tenha concorrido para o evento com a sua vontade. aquele que foi um dos proclamadores da República. Sem dúvida. Ela se apaixonou por um rapaz e o eleito não satisfazia as vontades do austero militar Frederico Solon. O destino de Anna Emilia se ligava à cidade do Rio de Janeiro. Essa determinação de personalidade e inflexível comportamento é uma herança paterna que. Muitas se casavam seguindo as determinações do pai e segundo a vontade dos familiares. matriculado no curso de Cavalaria e Infantaria da Escola do Exército do Rio Grande do Sul. um juramento mais forte e pertinent . designado para o I Regimento da Cavalaria Ligeira. vítima da tuberculose. Alquimena selou o seu juramentco: jamais se casaria e se tornaria freira. Se Alquimena não pôde se casar com quem escolheu. E fez votos de pobreza. Diante de tudo o que aconteceu. e ele figura nos compêndios escolares como o major Solon Ribeiro. Ela chegou ungida pelo prestígio. se manifestou também em Anna Emília. tudo conforme os padrões e costumes da época. porém. a menina se apaixonar e o homem escolhido coincidir com a preferência paterna era um lance de sorte. em 15 de novembro de 1889. O major Solon Ribeiro tinha convidado o seu grande amigo barão do Rio Branco para padrinho de batismo da filha.Anna da Cunha. A mulher se casava quase menina e nem sempre ela escolhia o companheiro.

no Rio de Janeiro. encontravam-se descontentes e se manifestavam rebeldes às ordens imperiais. em que se aprovou o Memorial à Princesa Isabel. general José Clarindo de Queiroz. prestigiando a Guarda Nacional. Ele escolhia a eleita. à Escola Militar da Praia Vermelha. Naturalmente. demais jovens oficiais e até mesmo na Escola Militar. pôde acompanhar as reuniões que se realizaram em sua casa. principalmente os jovens. Pelo que se depreende das afirmações de Anna de Assis a seus filhos. considerado um exímio disciplinador. presidida por Deodoro. no entanto. que ela sentiu um grande entusiasmo pelo jovem cadete Euclides da Cunha. A cerimônia dirigida pelo comandante da Escola.já que quem se apaixonava era o homem. como no abolicionismo.Só se ama uma vez na vida. nada poderia modificar o desfecho feliz programado pelos monarquistas para aquele evento. Ela sempre repetia: . Não se pode ignorar. os militares. Se o seu pai vivia os momentos históricos que antecederam a Proclamação da República. ministro de Dom Pedro II. É no mesmo mês de dezembro de 1888 que se organiza a visita do conselheiro Tomás Coelho. bem como dos jovens militares da época. intensificou-se a propaganda republicana. se atendesse às vontades deste. A intenção do governo monarquista era dar a impressão ao País de que mantinha sob seu domínio a disciplina no Exército. E se o que ele fez despertou a admiração do major Frederico Solon. Afinal. podia se considerar um homem favorecido pelos deuses. fazia o pedido de casamento ao pai e. naquele período. em frágil equilíbrio e tudo é feito para demonstrar força e domínio. Na área militar. fugidos do cativeiro. entre os cadetes. outras questões surgem para abalar o Império. Mas o governo monárquico colocava o Exército em segundo plano. no qual o Exército considerava repugnante a tarefa que lhe queriam atribuir de "capitão do mato" na captura dos negros. também o jovem Euclides participa de forma efetiva desses acontecimentos. consegue desagradar ao nomear o marechal Deodoro para comandante de armas do Mato Grosso. O Clube Militar foi fundado em junho de 1887 pelo marechal Deodoro e pelo major Benjamim Constant. apesar da pouca idade. No entanto. Nada melhor que promover uma pomposa solenidade no pátio de um quartel. misto de inofensiva formatura de cadetes para prestar continência ao . a princesa Isabel assume a regência do Império e assina a Lei Aurea em 13 de maio de 1888. Por isso. E confessava: o grande amor de sua vida tinha sido Dilermando de Assis. Consta de todos os registros históricos como memorável a reunião de outubro de 1887. tomando consciência de sua força política. O Império é uma instituição que se mantém. seu primeiro casamento não foi por amor. era retirado da Corte um dos líderes militares enviado para verdadeiro "exílio" em 27 de dezembro de 1888. assumindo uma posição de destaque não só na questão militar. no século seguinte. abolindo a escravidão no Brasil. O sentimento republicando já se havia espalhado entre tenentes. Dessa forma. colocar a tropa perfilada e passá-la em revista. o governo presidido por João Alfredo. visando à queda do Império. 18 Depois da Guerra do Paraguai. ministro da Guerra. E o Exército se organizou. certamente atraiu também a atenção daquela menina de quatorze anos que.

Não se poderia creditar aquele gesto como mais uma manifestação de desagrado aos governantes. e realizou a sua primeira façanha na história do Brasil. outras reuniões se deram com a presença dessas mesmas figuras. inutilmente. Euclides foi recolhido à enfermaria da Escola e. A espada.19 ministro da Guerra e exibição destinada a impressionar as pessoas incautas que talvez sonhassem com a queda do Império. uma coisa e realizando. decidido e histórico. O seu protesto é um golpe firme. Quintino Bocaiúva. aquele que viria a escrever ( os Sertões). De repente. Antes da célebre reunião a 11 de novembro. Francisco Glicério. Aquele simples e desconhecido soldado. O seu nome era também falado e lembrado nas rodas civis. tentando abafar aquilo que. principalmente. na casa de Deodoro. exceto Deodoro. Era um simples soldado. dos oficiais militares que organizavam o evento que culminou em 15 de novembro de 1889. Para os colegas que permaneceram na Escola. como José do Patrocínio. Por isso. que deveria subir em saudação e respeito à autoridade ministerial. fiéis ao Império. Lopes Trovão. chamando a atenção. de Anna Emília. enviado ao Hospital do Castelo. excluindo-o das fileiras militares. vergá-la. à vista dos familiares do major Solon e. então com apenas quatorze anos. Não é um simples soldado perfilado para prestar continência. um herói. Antônio Silva Jardim. o gesto do cadete se instala na cerimônia como um ato de rebeldia e como mais um brado a favor da proclamação da República. mas um jovem que tem os seus ideais republicanos e interpreta aquela cerimônia como um ato de humilhação a que tem de se curvar a escola. exatamente na casa do major Solon Ribeiro. à qual compareceram. 20 Quando se aproximava o momento da revolução republicana. Por mais que ajudante de-ordem e comandantes corram nervosos para se agrupar em torno do ministro. outra. além de Benjamim Constant e o major Solon Ribeiro. Rui Barbosa e muitos outros. dentre outros. acontece o imprevisto. a seguir. Euclides da Cunha não era louco. inesperadament ocorre nas fileiras. que aquelas figuras de escol na revolução. O cadete Euclides da Cunha não se contém e se revolta em vista da encenação. a seguir. E em todas estas reuniões os acontecimentos que exacerbavam os ânimos republicanos foram discutidos e comentados. é simplesmente atirada aos pés do atônito conselheiro depois de alguns segundos em que o jovem cadete se esforçou para quebrar a arma tentando. não deveria empanar a cerimônia. E essa áurea de heroísmo acompanhou aquele rapaz até a Proclamação da República. e sim. Não poderia ser de outra forma a reação dos comandantes militares. que providenciou incontinenti um atestado de louco para o jovem cadete. consolidar a autoridade do poder imperial. Era a monarquia que engendrava um ardil para esconder sua fraqueza e sua fragilidade. Rui Barbosa. primeiro. mas uma curiosidade invulgar e uma vivacidade além do normal para as meninas da . os alunos da Escola Superior de Guerra relembravam o nome e o feito imponente de Euclides. É de se supor. prometendo lutar para a sua volta ao Exército. principalmente. Quintino Bocaiúva. quando ele se viu convencido a participar da proclamação da República. então. e no momento de realizá-lo se confundiu nervosamente tentando. tão logo instituído no País um novo poder. Ele sabia que deveria erigir um protesto. soubessem do feito daquele rapaz. que tinha como finalidade justamente. Aristides Lobo.

filhos e angústias Nem tudo na vida é poesia. no dia 16 de novembro.. por um decreto dos novos mandatários do País. acompanhou toda a movimentação de seu pai. 22 *** 3 Anna e Euclides da Cunha: depois da poesia. E a importância do major Solon no movimento é tão grande e insofismável que exatamente foi destacado por Deodoro para. um dos destacados líderes da revolução. no seu encantamento de menina e euforia de mocinha. Os alunos da Escola Superior de Guerra comemoram a Proclamação da República e desejam consolidar o movimento com atos que apaguem da história do País os desmandos da monarquia. Nessa ocasião. em que se organiza o primeiro governo da República. vibrou ao conhecer um jovem herói. assim. .. a chance de conhecer aquela figura importante que está conseguindo mudar os rumos de uma nação. Por essa ocasião. sem dúvida. a menina Anna Emília ouviu todas as teorias da filosofia positivista que influenciaram os homens que proclamaram a República. A euforia se alastra pelo País e. E Anna Emília. o que se dá logo a 19 de novembro. A história registra apenas a manifestação poética e oportuna do escritor Euclides da Cunha que. assim. cognominado Governo Provisório. Imediatamente. Tudo foi registrado em sua memória e ressurgiria tempos depois para determinar também o seu destino. levar a mensagem ao imperador Dom Pedro II. Entrei aqui com a imagem da República e parto com a sua imagem. sob a chefia de Deodoro. em que se traçam os destinos da nação brasileira. sendo que dois dias depois ele passa a alferes-aluno. Quando é anunciada a presença do jovem cadete Euclides da Cunha na casa do major Solon. ao lado da mãe e irmãos. uma testemunha constante e atenta das marchas e contramarchas da proclamação da República. tudo é regozijo e apenas um assunto domina as rodas e ambientes: a Proclamação da República. muitos compêndios escolares ilustram as páginas dedicadas à Proclamação da República com o quadro célebre que registra exatamente a entrega da mensagem de Deodoro ao imperador pelo barbado major Frederico Solon de Sampaio Ribeiro. Com ansiedade de filha. Ao se retirar da residência do major Solon Ribeiro. às 9 horas da manhã do dia 15 de novembro. a bordo do navio Parnaíba. conquistou a bela Anna Emília. cruzando o Atlântico com destino a Portugal. pois aquele rapaz também foi alvo de muitos comentários e admiração. certamente. conheceu todas as causas e relacionou em sua memória todos os eventos que surgiram na época e se sucederam até o gesto histórico de Deodoro no campo de Santana. 21 Hoje. São momentos de festa e comemoração. Acompanhou todos os lances. Ela foi. também começa a se delinear a vida de personagem de outra história. Euclides deixou para a jovem Anna Emília um bilhete.época. Um casamento se faz com o dia-a-dia. solicitam a Benjamim Constant a reintegração do cadete Euclides da Cunha ao Exército. um júbilo especial toma conta de todos. filhos e angústias. naturalmente entregue com as precauções necessárias a um primeiro encontro. um alvoroço se espalha pela casa. solicitando-lhe que se retirasse imediatamente do País. entre os militares. Um colega do soldado Euclides se oferece para levá-lo à casa do major Solon e ele tem. pois não é senão um galanteio brilhante.

em São Paulo. nomeado chefe da comissão de reconhecimento do Alto Purus. artigos e ensaios. Retornará apenas em 1906 ao Rio de Janeiro. Ela tem 15. A primeira a nascer é Eudóxia. sendo convidado pelo O Estado de S. estudada por meio de inúmeras reportagens. chegará a marechal Frederico Solon Ribeiro. José do Rio Pardo da residência do doutor Euclides da Cunha nesta cidade. Se a primeira filha levou o nome da avó. para se dedicar à engenharia. em 1904. Em 15 de novembro de 1925.O meu silêncio é a minha defesa. Circulam edições sucessivas de Os Sertões. em Cantagalo. Euclides morou. Em meados de 1898. homenagem ao famoso avô materno que. não deixando. o filho nascido a seguir se chamará Solon. Ela começa a gerar filhos. 24 *** . Em janeiro do ano seguinte. a Câmara Municipal resolve consagrar à memória do preclaro cidadão Dr. A vida do escritor Euclides da Cunha é muito conhecida. o prefeito da cidade sancionou o seguinte projeto da Câmara Municipal: O Coronel José Pereira Martins de Andrade DD. construiu a ponte e fez a história da cidade. uma demorada viagem pela Amazônia. depois com a família. realizando. o nome do avô paterno. nada se pode saber sobre Anna da Cunha. esquina da 13 de maio. Este é o nome da mãe de Euclides. apesar disso. Em São José do Rio Pardo. uma vez que foi sempre acusada de ser a responsável pela trágica morte do marido. seguindo a sua brilhante carreira militar. uma homenagem a dona Eudóxia da Cunha. Na Bahia. onde escreveu Os Sertões. informando que ele se desligou do Exército em 1896. concluída em maio de 1901. analisada. que recorda o seu desaparecimento do cenário da vida. Se a vida de Euclides da Cunha pode ser facilmente levantada. Manoel Rodrigues Pimenta. ele permaneceu de 7 de agosto a 1º de outubro de 1897. Foi o engenheiro responsável pela construção de uma ponte. uma linha contraargumentando apenas o testemunho verbal. Euclides da 23 Cunha mudou-se para São José do Rio Pardo. figurando nos livros escolares que tratam das letras nacionais e constantemente citado em amplas reportagens da imprensa brasileira. Nasceu a 20 de janeiro de 1866. A princípio só. foi fundado o Grêmio Euclides da Cunha de São José do Rio Pardo. Anna ainda foi mãe de mais dois filhos em seu primeiro casamento: Euclides Filho e Manoel Afonso. A menina morre aos quatro meses de idade. Ele está com 24 anos. Instalou-se na rua Floriano Peixoto. Tornou-se colaborador de diversos jornais. vítima da varíola. sempre ressalvado pela afirmação: . Nesse mesmo ano. Paulo para ser correspondente em Canudos.Anna Emília casou-se com Euclides da Cunha em 10 de setembro de 1890. publicado em dezembro de 1902. estudando até dezembro de 1891 na Escola de Guerra. No ano seguinte à publicação de Os Sertões. logo após a conclusão do curso de artilharia do jovem militar que já em abril desse ano era nomeado segundo-tenente. Prefeito Municipal fez a seguinte indicação que foi unanimemente aprovada: Considerando a glória que adveio para S. Euclides da Cunha. o livro mais admirado da literatura nacional. considerando mais que este poeta trouxe para esta cidade uma grande fama. então. o dia 15 de agosto. Rio de Janeiro. e em todas surgem notas sobre o autor. Ele prossegue a sua carreira militar. passa a primeiro-tenente. o autor era eleito para a Academia Brasileira de Letras e.

Eu aconselhei a seguir para a companhia do José na Bahia. além de tudo. Anna da Cunha será sempre uma mulher independente . pelo que se pode vislumbrar. muito contribuiu para a tranqüilidade do desenvolvimento da vida profissional do marido. Pareceu-me assim a melhor solução. Apesar de alguns versos escritos pelo marido. E todas que tentaram ser independentes naquela época. se os últimos anos o comprovam. surgidas logo nos primeiros anos de casamento. Penso que ela irá em agosto. onde estará muito bem e os meninos poderão ter um bom colégio. Trechos de cartas de Manoel Rodrigues Pimenta. no entanto. preocupar-te mais com isso. Anna. 14. resta-nos apelar para alguns testemunhos importantes. visto ser-me quase impossível tê-la aqui.. onde esteve com tua irmã. Outro depoimento importante é o do escritor mineiro Júlio Bueno. igual ou pior que o de Lorena. além de se tornar uma bela mulher. segundo combinamos e lá esperará o teu regresso. Alguns trechos destacam a vida conjugal de Euclides e . Os choques se sucedem. A carta. o casal nunca se entendeu bem. nunca foram segredo. estudiosa e intelectualmente acima do normal para as simples donas de casa do fim do século passado. pois tu existes! O convívio com o homem intelectual se mostrou complexo. revelam como ela se comportou na ausência do marido com referência à educação dos filhos. Como te mandei dizer. Rua Senador Vergueiro. Primeiro endereço de uma tragédia Anna não foi feliz em seu casamento de quase 19 anos com Euclides da Cunha. Esteve aqui dezoito dias e fui com ela até São Carlos. como porque teria de ficar longe dos meninos. ela não deixou de ser mãe. é de Trindade. Ela sempre o afirmou. à medida que vai crescendo como mulher. Não deves. não só porque me embaraçaria muito em sair daqui. Nem faz falta Deus. em 22 de agosto de 1909. e. Enquanto ele se ocupava com seus compromissos e se preocupava em construir sua obra literária. que seriam colocados em algum colégio de São Paulo. Ela veio sozinha do Rio com os meninos e voltou da mesma maneira. possuidora de uma feminilidade graciosa e espontânea.4 Pensão Monat. portanto. foram castigadas pela discriminação dos costumes machistas e conservadores. Se não temos o depoimento de Anna para narrar a sua vida conjugal com o famoso escritor. publicado no jornal Muzambinho. Na verdade. tendo eu verificado que os meninos estavam bem vestidos e tratados con venientemen te. a seguir transcrita. Uma faceta da personalidade da menina Anna Emilia se desenvolve e. pois. os primeiros não teriam sido menos difíceis. como estes: Trancam-se os céus: eu tenho o teu olhar. datada de 16 de julho de 1905. As desavenças domésticas. compreendi que a Aninha tem bastante expediente para arrumar a sua vida. na sociedade brasileira.o que não era comum. surgirá com destaque e primazia. para tratar dos meus negócios.. a Anninha veio aqui com os meninos e regressou no dia dez do corrente para São Paulo e Rio. 25 Essa forma de proceder de Anna da Cunha. e tampouco de tratar da educação dos filhos. ainda se conservou alerta para os acontecimentos do mundo. pai de Euclides da Cunha.

inutilizando-o. Vizinhávamos e era raro o dia em que não jogássemos uma partida de inocente gamão. faune et climats du Bresil. percebi que Euclides ficava exacerbado. flore. na Campanha. encarregado da adaptação da Santa Casa para quartel do 8 Regimento de Cavalaria. como isto sucedesse várias vezes seguidas. Porém. Nesse tempo. Ele contava. dizendo-me: . de seu espírito agitado. não querendo extinguir aquela alegria. ministro da Guerra de Prudente. ouviu? Isto é mera convenção. eu fazia o meu jogo. que. retorqui: . levanta-se e me intima que deixasse uma aberta por onde pudessem sair as suas. Disse-lhe simplesmente.Você. um grande ascendente sobre o marido. Eu concordei com o caro amigo. procurando arredá-lo das bancas de jogo. visto lhe conhecer o gênio arrebatado. Euclides era o único que se rebelava contra aquela atmosfera de formalismo. terminando sempre por sair pisando forte e sem se despedir. o coronel Cristino Bittencourt. fechando todas as casas desse lado. A princípio. além de identificar o gênio temperamental do escritor. muito radiante. mais circunspecta. vá aprender para jogar comigo. Compreendendo o que desejava o meu adversário. Do contrário perderia todo o interesse a batalha. o moço. quando ali estivera como engenheiro militar. cujos surtos intelectuais não tardavam a desabrochar. com a maior bonomia: . Giologie. era verdadeiro tipo de oficial. Não ria nunca. na quietude da cidade sul-mineira. Eu. um lhe fez grande mossa e talvez fosse o inspirador dOs Sertões: é o livro de E. Conheci na intimidade o notável autor dOs Sertões.Mas. Fica para nós estabelecido que não se deve bloquear o adversário. levantou-se muito ufano. conheci a esposa do malogrado moço. . Fique sabendo que eu sou invencível no gamão. vou relatar uma feição característica do seu temperamento nervoso. Uma vez que prendi suas távolas no canto extremo do tabuleiro. dr. assenti na adoção de uma regra nova no mais velho dos jogos.Seja assim. devotado à disciplina a mais rigorosa. pilhérias picantes. aconselhando-o. o seu temperamento de impulsivo. Então. Já nessa época distante. transfigurado. Era verdadeira dona-de-casa. mesmo com as mais elevadas patentes do Regimento. que provocavam do tenente Arduíno boas gargalhadas. uma neurastenia incipiente começava a perturbar a vida agitada do moço militar.Eu não sou escravo de regrinhas de jogo. a conversa era mais sóbria. quando o coronel Cristino chegava. com a maior calma. 26 Para provar que a neurastenia já nessa ocasião começava a minar latente o organismo vibrátil de Euclides da Cunha. deixando-o na atitude vexatória de um inativo. Nas rodas oficiais e de civis. 1895. com a maior satisfação.Anna. Exercia ela. Dr. lhe ocorre escrever Os Sertões. trêmulo. mais disciplinada. Entre os livros que lhe emprestei e que ele devorava numa grande ansiedade. Dentro em breve compreendi que tinha diante de mim um doente. que o tinham de imortalizar. O próprio comandante desenrugava a fronte e sorria. Aí. felizmente para a felicidade do lar. Euclides ganhou a partida. advertindo-o. Bramou ele: . Era comandante do 8 Regimento de Cavalaria. Euclides. empenhado em ganhar a partida. isto não é permitido. Liais. como o seu ilustre irmão.

Á Sra. esse senão. porque não a posso fazer a viva voz. essa caverna escura. de carinho. tinha uma jaça. Se aos 14 anos ela era uma menina passiva às determinações paternas. Antes de novos fatos. que sabia aquilatar do valor do grande patriota. Lá está a praça que fica em frente à Santa Casa com o nome imortal de Euclides da Cunha. de dedicação para os fracos.essa falha. não significa que a sua união conjugal tenha de ser feliz e maravilhosa. Se a vida profissional de um homem é brilhante. Não veja nestas linhas o mínimo traço de rancor. não será a mesma aos 30 anos. apaixonada e romântica. aquele Himalaia de patriotismo. de dedicação. o herói de Homero. para os infortunados. Fui a São Paulo e trouxe a Saninha e o filhinho. Rio. se a mulher nas primeiras décadas do século XX. daquela que. era uma simples geradora de filhos. aquele imenso coração tinha um ponto. transcorridos quatro anos do casamento. cheia de sustos. Estou bem certo de que o meu velho amigo o general Solon considerar-me-á sempre co mo mereço. de um vizinho e de quem conviveu com o casal. era o abandono moral da companheira. escrevo-as perfeitamente . mais conhecedor desta vida e mais experimentado. tendo o seu desfecho fatal na cena da Piedade. para os pequeninos. cheia de afeto.. Anna da Cunha exercia grande ascendência sobre o marido . 7-01-1894 D. de zelo. como mãe de minha mulher. aquela alma adamantina. Mas aquele grande espírito tinha uma falha. entendo fazer esta participação. o advertia. o arredava dos perigos. como um novo Gulinan. mas que seria inevitável. Anna quis ser muito mais do que uma submissa esposinha. do genial autor dOs Sertões. Faço-a 28 por escrito. cena que nos enche de pavor e de imensa comiseração. ele aquilatará melhor acerca destas coisas. Daí a tragédia que durou tantos anos a ser representada. Euclides da Cunha teve a prova da estima daquele povo generoso. o aconselhava. essa jaça. impossibilitado como estou de entrar numa casa em que se me fez a mais dolorosa injustiça e onde se ouviram complacentemente as calúnias lançadas por um beleguim sobre um rapaz honesto. apresentamos uma carta de Euclides da Cunha em que ele nos informa que sua vida familiar era conturbada também no relacionamento dele com os parentes da mulher. tinha uma caverna escura. Túlia. dados os precedentes que a determinaram. procurando cercá-lo de uma atmosfera de calma e de repouso. correspondia mal a essas disposições da esposa. tinha um senão: . Estão em Palmeiras. por uma fatalidade idiossincrásica. esse ponto vulnerável. ou seja. aos 25 ainda preocupada em organizar a vida familiar. Jamais deixou de ser uma mulher sonhadora. Se a mulher no fim do século passado.27 Na Campanha.é a conclusão de um amigo íntimo. para os oprimidos. Esta carta data de 1894. tinha um ponto vulnerável. fatal. Porém o grande homem. como Aquiles. esse ponto negro. aquele cultor apaixonado do dever.

tão agitada. retirei-me daí apressadamente contrariado. coisas perigosas. a minha consciência. na nossa sociedade. de Manoel Rodrigues Pimenta. fala da vida conjugal de Anna e Euclides. sobretudo a Solon. que levam ao martírio. e. às vezes. a mesma desordem de outrora. eu realizarei ainda melhor este objetivo. Seu genro respeitador Euclides da Cunha. mas encontrei os mesmos destemperos. Terminando estas linhas acredito que a Sra. E se tal não se der. como eu os esqueço. justificará a minha ausência enquanto persistir sobre mim o juízo ofensivamente dúbio que fez de mim e ao qual absolutamente repilo. ser-me-ia fácil e até agradável dar uma direção vantajosa a esse recursos. pois. deixando apenas o nome S'Anninha na forma escrita por Euclides da Cunha: Saninha. sua ânsia de partir e cumprir a missão foi tamanha que simplesmente se esqueceu de deixar recursos financeiros para sua família de forma que pudesse subsistir na sua ausência.sereno. não só por isso. visto como convenci-me de que a dignidade e toda a sensibilida de mesmo dos que vivem constantemente preocupados da própria honra. Terminando. a quem mais estimo. é o seu cunhado Adroaldo Solon. Desculpe-me a extensão desta explicação. Temos estado juntos algumas vezes. um último e grande favor: que o meu nome não seja mais pronunciado na sua sala. se eu tivesse conhecimento pleno da tua vida. que o meu sogro. cujo nome dei ao ente que mais estimo. Quando Euclides da Cunha se viu nomeado chefe da Comissão de Reconhecimento do Alto Purus e viajou para a Amazônia. mas eu não compreendo que tentem aviltar-me. sabem quanto tenho sofrido. a que Euclides se refere na carta. cujo nome pois eu desejaria por isso mesmo ver bastante elevado. A desordem conjugal foi uma constante na vida daquele casal. em suma. como esta não se impõe a ninguém. eu aí estive ultimamente até retirei-me bem aborrecido e até hoje não conheço nada dos teus recursos. Os meus amigos. Quando se terminar a agitação da nossa terra. de 1905. Não tens sido franco nem leal comigo. perder-me na obscuridade a mais profunda e fazer todo o possível para que os que tanto me magoam esqueçam-me. proprietário do Bazar . como também pela forma estranha como tratas tua mulher e filhos. Pensei que o trato que tens feito e sobretudo os meus conselhos tivessem modificado a tua maneira de viver. Anna confessou que teve de se valer do sr. são. Mais uma vez devo dizer que me resta a consolação de acreditar que o venerando amigo. Sei apenas que tens quantia não pequena 29 em um banco de Manaus. me fará justiça. Encontrei os mesmos destemperos. restando-me permanecer num silêncio altivo e sobranceiro. É uma coisa deliberada. procurando um recanto qualquer dos nossOs Sertões. E outra carta. para isso. devo pedir a Sra. O beleguim. mas. entretanto. a mesma desordem de outrora. Fonseca. Eu compreendo que me odeiem. que felizmente sabem o que valho. está neste momento perfeitamente lúcida. então. Depois da triste desilusão que sofri só tenho uma ambição: afastar-me. Nada me disseste. desejo ser inteiramente esquecido. é porque vai muito adiantada já a surda e traiçoeira conspiração que pressinto em torno de mim. Atualizamos a grafia da carta. eu compreendi somente que havia falta de confiança. sobra-me experiência.

Esta e sua irmã Angélica Rato seriam peças de capital importância na tragédia. rumo à Amazônia. Passa. Mas não um homem rico. nesse endereço. Euclides e Dilermando O outro lado do laço tem a seguinte história: Dilermando de Assis ficou órfão de pai aos quatro anos de idade. Euclides da Cunha é um nome famoso. Ela receberá amparo justamente do seu sogro. para a manutenção do seu lar. na rua Senador Vergueiro. que teve de abandonar a vida religiosa de clausura para se dedicar aos afazeres domésticos e servir como enfermeira domiciliar. no navio Alagoas. Ela busca uma solução. n 14. foi transferido para São Paulo.América. para ter reduzida as suas despesas. Já não tem seu pai vivo. morando no bairro Cosme Velho com os seus três filhos. D. que reside no Estado de São Paulo. a quem pudesse recorrer. junta-se a doença incurável. era uma mulher doente. onde era o comandante do Arsenal de Guerra. Lucinda Rato. Anna resolve viajar para São Paulo e internar os dois filhos mais velhos num colégio inglês. que faleceu a 1 de maio de 1892. Um rascunho escrito por Dilermando de Assis e deixado para os seus filhos registra a ocasião com esta frase: Aí morava também sua velha conhecida (de Anna). No ano seguinte. Aos seus infortúnios de ordem econômica e financeira. interessado em cumprir zelosamente a tarefa de demarcar os limites do Brasil com o Peru. Rio Grande do Sul. em Belém do Pará. com a família. no Acre. na cidade mineira de Uberaba. além de um rapaz bonito e atraente. 30 E com os irmãos Anna não poderia buscar auxílio. ingressando nas forças armadas pelas . uma vez que ou se encontravam fora do Rio ou não aceitariam colaborar com a mulher e filhos de um homem com o qual não se davam. a esperança e os anseios românticos de outro. transferiu-se para o Rio. Ora. Aquela daria o primeiro nó da trama terrível. inteligente.. também para colégio religioso. às suas alucinações e desvarios de homem culto e inteiramente voltado ao saber. por muitas dificuldades.. Aos 9 anos de idade. Anna está no Rio de Janeiro. ela seria feliz e viveria o início de um grande amor. Em 1898. Manoel Afonso e. aos cuidados da filha Alquimena. O marechal Frederico Solon faleceu a 10 de janeiro de 1900. 31 *** 5 Três vidas se encontram: Anna. completamente enredada em suas dificuldades financeiras. plenamente saudável e com todo o seu vigor feminino florescendo aos 30 anos de idade de um lado e a solidão. Retorna ao Rio com o caçula. Nessa rua. resolve morar com o menino na pensão Monat. nessa ocasião. Dilermando foi internado em colégio religioso. uma tuberculose crônica. na Rua Uruguaiana. permanecendo no mesmo educandário até 1902. Sua mãe. em Santa Vitória do Palmar. na região do Alto Purus. Ao se ver envolvida em outras premências financeiras. mas mesmo assim não hesita em embarcar a 13 de dezembro de 1904. Aos 37 anos. Esse homem se vê constantemente ameaçado por hemoptises imprevistas. aí ela começaria a se chamar Anna de Assis e daria o primeiro impulso à roda dos infortúnios e tragédias que ilustram a vida de tantas pessoas. Era filho do tenente de Cavalaria João Cândido de Assis. o nó de uma tragédia se faz com uma mulher bonita.

que deixou livros publicados e falou à imprensa. mãe de Dilermando e de Dinorah. Dirigiu-se a São Paulo e encontrou-se com outros parentes antes de embarcar para o Rio. Em 1905. desempenado e garboso em sua Farda apertada de cadete da Escola Militar. sua tia materna. ao embate da prepotência dos viciados. na casa do tio João Carlos Rato. De São Paulo. é nomeado tutor dos menores.mãos do seu tio e padrinho. em condições de grande desconforto. Os lampiões de iluminação a gás espalhados pela cidade foram destruidos. Uma das irmãs de João Carlos Rato incumbe Dilermando de levar para o Rio um álbum de músicas para ser entregue a uma tia. dona Joaquina Carolina de Assis. então. tal aceitação se impunha. alto. Dilermando encontrava-se em São Paulo. a esposa de Euclides. dezessete anos e nenhum mal se me afigurava ir naquela decisão. aonde fora em rápida viagem. e nunca a de meu desconhecido. Estava em Santos. era uma gleba amorfa e estéril ao cultivo dos sagrados sentimentos de família: a educação moral doméstica deixava muito a desejar. como se apaixonaram e como tudo aconteceu. que surge como contundente justificativa para alguns acontecimentos de sua vida. O caráter em forma ção sofreu. começam os contornos de todas as tragédias. Ele escreveu: No Fim de setembro de 1905. Forças legalistas invadiram a Escola Militar e abafaram a rebelião. Havia participado da revolta do "quebra-lampião" e por isso excluído da Escola de Guerra no Rio de Janeiro. Euclides da Cunha. que estava no salão. já porque me emancipava do rigoroso horário dos escaleres daquela praça de guerra. A pensão Monat era ótima e barata. a peste bubônica. Lucinda. Em 30 de abril de 1904 faleceu. por isso. a varíola e a malária. decorrente do meio em que medrava e se desenvolvia. O irmão da falecida. Podia morar aí. sempre dominantes. assim. Nessa passagem por São Paulo. quer noutro estabelecimento. Já porque Ficava mais próximo à Escola. em companhia de S'Anninha. Um instante para um parêntese . dr. Joaquim Nicolau Rato. surge na Pensão Monat um elegante rapaz de dezessete anos. Pensão Monat. aonde devia ir ter em breve. Convinha-me. major José Pacheco Assis. díspar pelos costumes e procedência. o decalque natural. Oswaldo Cruz. A idéia é pressurosamente acolhida pelo jovem. louro. pois via ali a casa de uma parente e de uma amiga de minha mãe. A rebelião foi fomentada também nos quartéis. foi anunciado um projeto de anistia aos revoltosos e Dilermando de Assis se viu em condições de regressar ao Rio. Essa rebelião se deu quando a população do Rio se voltou contra o decreto do governo Rodrigues Alves determinando obrigatória 32 a vacinação para erradicar epidemias como a febre amarela. mora numa fortaleza. ao invés de seguir diretamente para o Rio. O meio colegial. n. Por ocasião da morte da mãe. Sabe. trouxera um pacote de livros para D. órfão recente. Amotinou-se a escola da Praia Vermelha. que agiu como toda a população. as noções de lar e de família eram aí preteridas pelos dogmas da crença e teorias da ciência. Ao se recorrer a Dilermando de Assis. em São Paulo. perto da Escola Militar. desde logo perturbada com a atraente presença do rapaz. 14. O saneamento estava sob o comando do dr. a cólera. Quer nuns. O endereço é rua Senador Vergueiro. que o cadete Dilermando de Assís. então. que contrariava vários interesses. que ali se instala. Contava.a transcrição de um comentário escrito por Dilermando de Assis. cujo nem ouvia . Dá-lhe conselhos: não devia sacrificar a saúde. entre pessoas amigas. sabemos como se deu o seu encontro com S'Anninha. Feitas as apresentações. faz-lhe várias perguntas.

com os empregados da casa. tal havia de suceder de setembro a outubro de 1905. o escritor não sabia sequer onde morava sua mulher. julguei que assim deveria proceder. Era a fatalidade. na rua Humaitá. Pensando que assim dissiparia as suspeitas do marido. imperceptivelmente se consumou o meu crime. meses de uma paixão intensa e exaltada. as leituras em comum despertando fantasias. Ao jornalista Francisco de Assis Barbosa. Jamais imaginara desse passo me adviesse tanta desventura nem no que podia degenerar. já morais. Porque é só onde vejo a transgressão à Lei: no ter amado. pela primeira vez. que visava produzir um bem. a falta de experiência ou malíci permitindo a aproximação mais íntima. Euclides da Cunha. correspondente do marido. No entanto. receber Euclides. nessa ebriez incontível. O certo é que sofri bastante. a vida não mais de enclausurad abrindo novos horizontes. Parti em março. O caixeiro trazia-lhe um telegrama que lhe fora dirigido aos cuidados da firma. sim. semanas. os espetáculos inviscerando deva neios. Em janeiro de 1906. Retornemos à descrição do próprio Dilermando de Assis. então. seria denunciar o extremo a que chegaram nossas relações. Eu tive que o fazer. não há dúvida. Um compromisso de honra obrigoume a esse vexame. evitando mal maior ou a catástrofe. Vez e outra telegrafava ao amigo Domício da Gama e pedia notícias de suas "quatro enormes saudades". o cadete e o escritor. Era um mal. Dizia: "Estou na baía a bordo do "Tennyson" Mande-me buscar. que passei a visitar aos sábados. a ausência de um conselho protetor que advertisse do curso da idolatria prestes a converter-se em paixão e tanta outras circunstâncias. E assim. Batista da Fonseca. Dilermando de Assis revelou: Foi quando vim a conhecê-lo. para evitar mal maior. em paragens longínquas. tudo concorreu para o despertar de novos sentimentos. 33 A convivência acarretando a intimidade. Era o fim do idílio. da rua Uruguaiana. em 6-11-1941.Falar. Retirar-me naquele instante. sequer por inanimada fotografia. sendo-lhe apresentado como um "filho da irmã de sua comadre Angélica Rato". Já não morávamos mais na pensão de madame Monat e. pela visita de um empregado do bazar América. na Amazônia. uma mulher casada cujo marido que não conhecia se achava ausente. quase não se correspondi com S'Anninha. O que se passou. até que a Escola de Guerra terminou a sua transferência para Porto Alegre. S'Anninha aluga uma casa na rua Humaitá e lá vive dias. Dilermando vai ao cais. Euclides. tinha de ser assim. sem mesmo ser lembrado. encontram-se. já materiais. entre esposos e que muito revelaria da energia e . aos dezessete anos. porém. puberdade vislumbrando encantos. Contudo. Nesse dia. certa manhã. o retir facilitando o império da natureza. recebia os recursos necessários para viver. S'Anninha foi surpreendida. coincidência de predileções esportivas trazendo o embevecimento. ora de menor monta que seria ocioso enumerar. Errei? Não errei? Quem poderá dizê-lo? O maior erro já estava consumado. através de cujo proprietário. em seu ninho de amor. quase três meses após a chegada de Euclides. para a revista Diretrizes. A pensão Monat deixa de ser a residência ideal para os enamorados. tendo permanecido em 34 companhia de sua mulher durante tantos meses. ora de maior.

Na sua idade nunca se é um homem baixo. Não creia que lhe houvesse feito uma tal injustiça. ela. Quando souber a razão do meu aborrecimento. 36 *** 6 . diante da pergunta. Meus irrefletidos 17 anos fizeram com que lhe dirigisse uma carta. não sabendo se pelo bem-estar que tinha livre dos maus tratos e pela falta de carinho com que ele a tratava. dizendo que. informante. cuja resposta aliás não se fez esperar.que ela. ao que ela respondeu. Euclides da Cunha Era uma bela lição de moral que eu recebia. Não poderá fechar-se para você. Ainda que o escritor Euclides da Cunha estivesse ignorando os acontecimentos. Mas que fazer naquela contingência? Tinha que ficar calado. ela. certo de que me desculpará. não esquecendo que muitos deles tiveram de vir a público. chamando-a depois de entregue a carta. informante. Como foi. Seria deselegante e mesmo desnecessário. um telegrama comunicando que seu marido se achava a bordo de um vapor chegado ao porto desta capital. absoluto engano no que imagina. Estude. que. havia profanado o seu corpo. achava que ele devia prolongar a separação. A questão é muito outra . são fatos que não precisam ser relatados em todas as suas cruéis minúcias. ele. já que ele era um homem de grande talento e estudos científicos. Além disso. seja sempre o mesmo rapaz de nobres Sentimentos.. Veja o inconveniente de se tirarem deduções de fatos e palavras isoladas. Em todo caso. escrevo-lhe neste papel. devo dizer-lhe que logo nos primeiros dias de sua chegada do Acre. Assim: . Anna. julgo que não o tratei mal.. como se julgasse indigna dele. pois constam dos autos. Depois de uma das minhas costumeiras visitas à rua Humaitá. informante. Até sábado. seria pior. Senti que não andava bem. que essa carta. de volta do Acre. apesar de aborrecido por um sem número de contrariedades.da dignidade de D. É a seguinte: Dilermando. notei-lhe que traía essa desconfiança. informante. crd. A minha resposta é simples: há grande. obri. à força das circunstâncias. recebeu da Casa Fonseca da rua Uruguaiana.. nesse transe. Euclides já desconfiava de tudo.. informante. Não faltou mesmo quem anonimamente o denunciasse a ele. lhe perguntou seu marido se ela.e você é inteiramente estranho a ela. teve de S'Anninha uma meia confissão. e disponha dos poucos préstimos du am. seu marido. Que no dia 1ªde janeiro de 1906. ela teve de relatar a um delegado de polícia anos mais tarde. conhecia a incompatibilidade de gênios entre ela. Não querendo demorar a resposta à sua carta de ontem. avaliará a injustiça que fez a si próprio e a mim. A minha casa continua aberta sempre aos que são dignos e bons. que havia profanado só o espírito. do contrário. Fiquei profundamente chocado com essa carta. 35 . por havê-lo traído espiritualmente na ausência dele. entregou a seu marido no dia de sua chegada de noite. ou por meio de uma nova comissão ou pelo divórcio. "Bazar América" correspondente da informante. nessa data escreveu uma carta a seu marido.

hóspede da casa. porém. onde tratarei da vida com todos os esforços. podendo perceber apenas a imagem querida de teu semblante adorável e a dor do teu terno coração. É Dilermando quem escreve: Ao marido parece ter faltado a agudeza necessária para compreender que a incompatibilidade alegada não era fingida. não podendo dominar as lágrimas que em borbotões jorravam-me dos olhos. lê em voz alta. mas assim é preciso. E. dando o braço ao meu companheiro. despede-se do casal. Bordo do Itaítuba em viagem para Paranaguá Minha nunca esquecida e queridinha S'Anninha. lança-lhe os maiores insultos e rasga-lhe. trêmula. Isto. esperando sempre uma fase mais feliz e prazenteira. encaminhei-me para a nossa separação. Após a primeira humilhação na presença dos criados e de uma senhora. uma vez que seu corpo não fora profanado. perante as pessoas da casa e hóspedes ocasionais. Guarda as tuas lágrimas que valerão mais noutra ocasião. Não chores. em fúria. não é por isso que não podemos imaginar correspondência de paixão no mesmo nível. Os meses que se seguem são terríveis. sem sentir o calor de teu rostinho formoso. S'Anninha não consegue disfarçar o seu abatimento. logo se tornava impossível: a verdade não confessada surgia. se não temos as respostas. Faltou-lhe coragem para uma confissão completa. Foi aí. Evitou novos encontros com o jovem amante e procurou por todos os meios e modos dissimular a gravidez. quando o marido exclama. dói muito. brutal e acusadora. Era preciso que assim triste fosse a nossa cruel despedida. a suavidade de teus seios. Dói. sem me molhar em suas queridas lágrimas. chorei.. certo da traição. Dilermando. longe de ti. enquanto eu. con vencido então da realidade. Não te deixei só ao passo que eu encaminho-me para o exílio onde sentirei tristes dores. o último adeus.Cartas inéditas revelam a paixão de Dilermando de Assis Quando S'Anninha confessa ao marido sua traição espiritual. mas real e profunda. de ameaças e de pavores constantes. Eis as cartas: Carta n2 1. Foste-te pela avenida em fora. Ainda com a tua frágil e delicada mão me acenaste dando-me. S'Anninha ouve. E ela se encontrava grávida de três meses. Admitindo. Euclides tinha razão ao afirmar que aquele era o semblante de quem se desprendia do ente que mais amava. Para termos uma exata idéia da paixão do jovem cadete por S'Anninha.. Euclides abre-o. num bilhete cerimonioso. de nome Zulmira.. para que nada deixássemos transparecer do nosso intenso amor. a validade das razões por ela apresentadas contra ele. te peço. que não me pude conter e. Foi triste o nosso adeus!. transtornada com aquele golpe. ou o divórcio. as vestes. argumenta que só há uma solução: prolongar a separação entre eles por meio de uma nova ausência do escritor. quem sabe. contemplando-lhe o rosto desfeito: .Vejam a cara dessa mulher! E me digam se não é a de quem está se desprendendo do ente que mais ama! A resposta de S'Anninha é uma desesperada crise de choro. Euclides disse-lhe que não dava importância o que tivesse podido pensar. . talvez.. O marido. Chorei lágrimas ardentes que me incandesceram as faces. Continuou a esposa a partilhar o leito conjugal. basta examinarmos as suas cartas que agora são 37 transcritas pela primeira vez. que se transfere para a Escola Militar do Rio Grande do Sul.

Já te mandei dizer que o vapor partiu às 2 horas e chegamos em Paranaguá ontem. falta-me uma causa que não vejo. Em cima. Que fazer. Bordo do Itaítuba. Carta n 3. de bombordo a boreste. O dia seguinte passei na cama até a hora da janta. de onde te enviei a carta n. salvo aquele ligeiro temporal de que já te falei. Talvez não acredites porque estás longe e . e às escondidas. sentei-me no banco em que estiveras e pedi a meu filhinho que te conserve com saúde e que te proporcione todas as felicidades que almejares. até Florianópolis.. caminho para um lado e para outro.. para o duradoiro até a volta. procurei no leito acalmar a exaltação de minha alma tão apaixonada por esse anjo que desgraça ni ente descrê. 112. querida. beijo-a. a caixa da navalha que ele deixou na rua General Câmara.Não repares a letra pois o vapor está jogando muito. as saudades e a crueldade do exílio a que me destino. não satisfeito. acordado até às 3 horas. Carta n. É com grande ânsia que às pressas delineio estas palavras para darnotícias minhas. que não sinto. no tombadilho. Não podendo dormir e só. já era noite e na volta fui dormir.. sinto-me sempre mal. pois o mar tem (Seguem-se trechos ilegíveis) faz pouco dos meus juramentos. o dia foi agradável. mandando-te 38 as minhas dores. ainda aí não me acho bem. onde foi afiada a navalha. à entrada da Barra do Rio Grande. Donde te escreverei. tão meu querido. Tudo estava escuro e então convencido da dura realidade. 1. que não posso abraçar e beijar com aquele intenso amor com que havias e fazia contigo. olho para o que foi teu. Começou então o temporal que durou até Paranaguá. como também. que tanta falta tem sentido e há de sempre sentir de ti. choro. levantei-me cedo e almocei às dez horas. E assim. Adorada e saudosa esposinha. vou te comunicar o que tenho passado a bordo. É a terceira vez que. procuro outro companheiro. Como hás de querer. depois que cruel e friamente te deixei. Adeus. docemente embalado nas águas do Atlântico.. minha queridinha. abro as malas. converso com um. meu Deus? Esperar que proporcione-se a ocasião para que todas as dúvidas sejam então dissipadas. antes que frondosos. No primeiro dia estive. digo. Que saudades?!. dormi. Decididamente. do convés ao tombadilho. contemplo tua imagem querida. Nada!. Poucas são as pessoas que saem dos camarotes. seus ramos tentem cobrir os raios do sol que já tantas vezes tem sido ofuscado pelos arrebentos de ciúme sarcástico que te orla o coração. com grande satisfação tomo da pena. não só para cumprir um dever para contigo. Deixei a terra. para contentar o meu pobre coração. mas qual. A bordo. Hoje. n.. Só saímos do Rio às 2 horas da noite. e mais ainda. só ficamos 3 rapazes.. registrada. 2 Bordo do Itaituba no porto de Florianópolis 9-IV-07 Minha adorada e sempre idolatrada esposinha. buscar a minha navalha. A viagem tem sido maravilhosíssima . só a teu lado poderei viver satisfeito. Aceit mil beijinhos do teu Amado.até aqui. depois de procurar nas trevas da noite divisar a poética igrejinha em que parecia-me estares ainda à minha espera. Mandes o Ant. vou a um camarote. É um horror a minha vida.

E grita. separado por extensos 39 mares e talvez. mantém afastados os filhos. exasperado. Entre vômitos. E prove assim que me ama. No Rio. por toda a eternidade?! Será possível?! Poderei morrer sem te ver? Não. Anna procura acalmá-lo e desfazer suas dúvidas. ele murmura pedidos de perdão..É um dia comum na vida da cidade.não podes apreciar. um alvoroço estranho agita o ambiente. tenta se reconciliar com a mulher." O restante da carta está ilegível. que não se afaste. simplesmente. hei de ver-te. promete-lhe ser fiel. dois. Anna da Cunha não sabe se atende o marido doente. que alterna momentos de paz com alucinadas atitudes de homem traído. Ele chama a mulher e confessa que ainda a ama. amedrontada. seu confidente. Euclides tem certeza de tudo que aconteceu. mistura frases e pede-lhe que não lhe abandone. Em outros momentos. Ela não poderia supor que o pior ainda estaria por acontecer. a sua companheira. e. Isso ela deveria fazer. n2 Desde a madrugada. desvairado. que permaneça a seu lado e lhe prove ser a sua mulher. 40 *** 7 Uma criança morre de inanição É manhã de sol no Rio de Janeiro. Mas em vão ela tenta apaziguar o marido. Euclides dialoga com a mulher. ele afirma que não quer se ver envolvido num escândalo público que se refletiria também sobre os filhos. enfraquecido pela crise da hemoptise. vitimado por aguda crise de hemoptise. S'Anninha recebe as mensagens apaixonadas de Dilermando e sofre sua gravidez acusadora. São dias de angústia e desespero. Intimidada. Já vejo de perto os belos montes de areia que orlam as praias dos nosso queridos pampas e então sinto-me bem longe de ti. Afinal. Calmo. desde que ela não mais falseie a fé conjugal. o dr. Ninguém dorme há horas. Euclides chega ao último desespero. ainda que moribundo mal possas ouvir o rouquear do peito de quem tanto [. A pequena bacia serve para colher o sangue doente que escorre da boca de Euclides. Anna pede ajuda aos empregados da casa. Cândido . S'Anninha chora a ausência de quem ama. Perdoa-me esta letra tão triste. ou se busca socorro médico. não os quer ouvindo os desvarios do pai. não posso escrever bem. com o jogo do vapor. Em 11 de julho de 1906 nasce o menino Mauro. Não há calma e tranqüilidade na casa da Rua Humaitá. Mas não pode. Anna foge e. levanta-se da cama e caminha na direção da mulher. por um. correria. quem mo dirá. Euclides registra a criança como seu filho chamando para testemunhas um amigo íntimo. três anos. ela cede. declara que a perdoará magnanimamente. Mesmo debilitado. Ele a chama de traidora.. Ele não permite. passará dias afastada de Euclides. gera um filho dessa união e tem de se submeter às imposições do marido. Estende a pequena bacia de sangue e diz à Anna: .Beba.

Anna se lança contra a porta trancada. extenuada. morre o menino. que conta como viveu. As dores do parto recente já não a torturam. Ela se vê prisioneira em seu próprio quarto. defendidos pelos advogados Nilo Batista e Felipe Amadeo. É impedida de amamentar a criança. registro essas revelações neste livro. Euclides da Cunha. antes de se prostrar entregue às suas dores. durante toda a sua vida. sofreu e amou Anna de Assis.Assassino. Os autores. A porta do quarto permanece trancada. Ela reclamou aos filhos. filho de Anna e de Di ler mando. Em vão ela implora ao marido que lhe traga a criança. Ela está só. o sofrimento maior vem da incerteza do destino de seu filho. O marido se instala numa vigilância obstinada e não cede. no primeiro momento dos acontecimentos dramáticos vividos naqueles dias. uma fraqueza enorme a domina e.A criança morreu porque fui impedida de amamentá-la. de nome Francisco Alves. grita a sua acusação: . tudo o que sabemos é o que se dispôs a revelar Anna aos seus filhos. impedidos de auxiliá-la. No entanto. É importante esclarecer que para Anna de Assis ficou-lhe em mente os primeiros procedimentos de Euclides da Cunha logo após o nascimento da criança. ela teria sobrevivido. Perdi o meu filho que morreu de inanição.41 de Siqueira Campelo e o caixeiro de um armazém próximo do cartório. anos mais tarde. esmurrando-a. Euclides comunica à mulher a morte da criança e afirma têla enterrado no quintal da casa. o que se pode comprovar é que a criança foi enterrada no cemitério São João Batista. Ninguém pode sequer se aproximar daquele quarto. E repetirá. tanto quanto possível. a seus outros filhos: . filhas de Manoel Afonso. quando realmente foi enterrada em cemitério. gritando e chamando pelo filho. Como escritor. 43 *** . Até os empregados da casa são mantidos afastados. Ela não consegue fugir. Não sabe o que está acontecendo e ninguém surge para socorrê-la. Anna. verdade 42 que se elucidou para Anna tempos depois. confinada na sua própria casa. abriga-se em seu leito. Tudo o mais que se passou entre Anna e Euclides naquele atribulado mês de julho de 1906 será para sempre ignorado. promovidas por duas netas e respectivos maridos de Euclides da Cunha. conservando-se indiferente ao desespero da mulher. E. procedendo de forma cruel e sádica. livraram-se dos questionamentos com o arquivamento do processo no Fórum do Rio de Janeiro. Após sete dias de vida. lhe afirma ter enterrado a criança no quintal da casa porque não queria escândalos. tudo às ocultas. Esse filho. que se não tivesse sido impedida de amamentar a criança. Os fatos aqui relatados são versões de Anna de Assis passadas à sua filha Judith Ribeiro de Assis. Anna terá nos braços uma única vez. Nota do Autor Jeferson de Andrade: Este capítulo foi objeto de reclamações judiciais contra os autores.

o escritor chamava "espiga de milho no meio de um cafezal. amigos. Sofria pressões de todos: mãe. Dilermando regressa ao Rio de Janeiro mais adulto. Encontrei-me com Euclides em um bonde. tão distante. ela tece o destino para ser feliz ao lado dele. de olhos azuis. nada mais me é dado fazer. também meu filho. ternamnente acalentando o pensamento de nosso tão desventurado quão terno amor. porém o meu coração reflete-as e eu sinto. constatará que ainda tem o amor daquela mulher.declarou Dilermando de Assis ao jornalista Francisco de Assis Barbosa. mas úmidas de lágrimas quentes ainda. na rua Humaitá. mas lhe garanto que dona Anna a suportou como verdadeira heroína . porque sinto também que trazidas talvez pelas ondas. conseguindo novas forças para enfrentar a sociedade que se opunha àquela união. sob o jugo massacrante da saudade. 32. mantendo viva a sua união com Dilermando. S'Anninha. Beijo-as. No entanto. ignorava tudo. Os anos de 1907 e 1908 serão o tempo de espera. no Sul." A criança loura. Francisco. que se desenrolou durante a curta existência de Mauro. ele cordialmente me cumprimenta. S'Anninha. separar-se de Euclides. n.A tragédia doméstica. não deve ser recordada.Eu. nessa ocasião. 44 . apesar das provas que se apresentavam claras e insofismáveis da sua infidelidade. recebi em novembro a participação do nascimento de Luiz. Talvez também com o pensamento te transplantes a estas plagas balbuciando perfumadas frases de terníssimo carinho bordado com arte pela nobreza e celestial fantasia de tua alma sentida e emocionante. Em começos de 1907. Durante o breve período de férias de Dilermando no Rio. Em 1907 ele tem 19 anos. elas são úmidas. Terminado o curso. irmãos. Dilermando de Assis envia do Sul novas cartas durante o ano de 1908. de meu horizonte querido. e eu respondo. e. destacava-se dos demais filhos de Euclides: morenos. segundo divulgou Medeiros e Albuquerque. Anna tenta. Eu não ouço. Silencio sobre esse triste episódio. Entre as minhas talvez não . de olhos escuros. Além de se inteirar dos acontecimentos. continuou a viver com a esposa. E acrescentou: . pressões. Todos os passageiros acham-se já acomodados e eu velo lembrando-me de ti. convive desordenadamente com o escritor. sofrimentos e muitos conflitos.8 Nasce uma espiga de milho no meio de um cafezal . quando este carro oscilante desliza sobre águas paranaguaenses com rumo do S. Carta n 4 Bordo do Itapacy. convidando-me a aparecer em sua residência. portanto. as tuas palavras. 4-5-08 Perene lembrança de meu coração. Dilermando não atende ao convite feito por Euclides. e eu choro de saudades. Com surpresa para mim.De volta a Porto Alegre. Escrevo-te às 11:35. fortalece essa união. recordando ainda aqueles alegres momentos que discorreram juntos. No entanto. Só então me inteirei do que ocorrera após o nascimento e a morte imediata de Mauro. apesar das ameaças. que não era seu filho. vim ao Rio em gozo de férias. promovido a tenente. Ele se encontra com S'Anninha em outro local. cabelos negros e lisos. Ele sabia. a estas horas caladas em que hás de embalar certamente em teus soluços e bem torneados braços. que se passava aqui. o menino que. ou quase tudo. familiares. Minha surpresa não podia ser maior. 67. E enquanto ele ainda estuda no Rio Grande do Sul. busco o alívio à minha dor conversando contigo agora.

em 1908. no Colégio Anchieta. Quando encerrou o seu curso na Escola Militar no Sul. assim o quis o destino. fora eu. Se procuro esta hora em que a natureza passa em trevas. Já é a 32 carta que te escrevo. apesar dos pesares. como também porque. do dia.sintas as gotas quentes envoltas de dor. E a própria S'Anninha. E ele tivera conhecimento de que. que se movimentam em seu favor. ao concurso para a cadeira de lógica do Colégio Pedro II. constituem um derivativo. vive Euclides transe dramático. Adeus. Os estudos em que se empenha. Bordo do Itapacy. receba-as pois e com este fino estilete aninha aos pés mimosos de nossa gentil florzinha. Tem amigos poderosos. A última frase da carta está ilegível. longe das distrações espontâneas. em plena Rua Humaitá. Tira no concurso o segundo lugar. vai ao presidente da República. além do revólver regulamentar de tenente. porque são de amor. Chega a querer desistir. Que fazer?! Assim o quis a fatalidade. beija-a e suga-lhe o perfume e o mel como as abelhas para ouvir-me. 6-6-08. O inferno doméstico que vive se torna ainda pior. beijo-te muito. Acha que invalidara o direito de um candidato mais capaz. internar o filho mais velho. Haverão de nos consolar e de nos amar ainda mais. em Friburgo. acompanhando dona Anna. além de mais pobre e desamparado. 45 saudadas por um sol cheio de vida e calor como para nós é a esperança que nos dá alento e conforto. Ao retornar à capital do País. Solon. Pois bem. de meu amor sem ser importunado pelas amabilidades dispensáveis que os companheiros proporcionaram cotidianamente. embora não mais trocássemos cumprimentos. eu posso lembrar-me ternamente de ti. Abraça bastante a nossa flor por mim. Volta antigas . Nomeado. mas ainda que frias. (ilegível) ainda que pouco.Dos encontros posteriores que tive com Euclides. pois eu só amo a ti e cada vez mais. elas te farão lembrar que só de ti e por ti eu vivo. mais terno.Euclides concorre. Mas Euclides é Euclides. a hora da concentração e das saudades. outra arma excelente. jamais resultou de sua parte a menor manifestação agressiva à minha pessoa. nas férias de 1908 e no primeiro semestre do ano seguinte. realizado em 1909... por insistência de amigos. são frias. com o agravamento da tuberculose. A decisão do governo é criticada. Ele próprio tem a consciência pesada. . mais enlaçado em que nos haveremos de rolar como umas conchas levadas e trazidas pela maré que beija as areias da praia. Praia Rio Grande às 11 horas Minh'alma que tanto adoro. prêmio ganho campeonato em que provou a segurança de sua pontaria. aliviando um pouco a tensão. também republicano histórico pedir a nomeação do marido. Nilo Peçanha. as preocupações de ordem intelectual que o absorvem. E ele vira dona Anna em minha companhia. são também cristalinas. não é? Pouco tempo haveremos de estar separados e este servirá para aumentar a sede de nosso amor mais irracional. traz na bagagem. Dilermando havia conquistado evidência como campeão de tiro. é não somente porque é a hora da dor. Declarações de Dilermando de Assis à Diretrizes: . Muito sinto não poder abraçar-te em adeus. e sou só teu. eu sinto e juro-te. a tese que tem de escrever. pois não sou egoísta. conquistando o primeiro cearense Farias Brito.

predominava o que se denominou política dos governadores. foi impossível sustentar o segredo e imediatamente ela lhe propôs uma nova separação: pelo divórcio. os deputados eleitos pelo apoio dos governadores. E tudo se passou exatamente igual a tantos casos semelhantes de rompimento de uma união conjugal. Ela imaginou os seus argumentos fortes o suficiente para demover a teimosia do marido com um Atlântico separando-os. mineiro. Já os governadores se apoiavam nos coronéis municipais. irmã de S'Anninha. estava com uma excursão para Roma marcada para a segunda quinzena do mês de agosto de 1909. a provisória solução. o mar. Pinheiro Machado. no outro lado do Atlântico. 47 *** 9 Tudo acontecia além do vôo da Águia de Haia Em 1907. o Brasil era governado pelo Presidente Afonso Pena. fez-lhe apenas uma velada confissão. Dois Estados economicamente mais fortes ditavam os rumos da nação: São Paulo e Minas Gerais. Nessa época. previam apenas cartas para o marido no Brasil.hemoptises. Davi Campista. S'Anninha viu na Itália. não se sujeitou aos compromissos de um casamento acabado. no primeiro momento. pois o nome não obteve apoio sequer entre políticos de Minas. dos municípios à Câmara Federal. assim. também mineiro. do outro o homem exigindo sua subserviência. O escritor não aceitou nem uma nem outra das propostas. frases e pedidos. Seus planos. Esta escolha gerou uma crise. Diante da atitude intransigente de Euclides da Cunha. Por aí se vê como S'Anninha era uma mulher voluntariosa. Uma viagem. uma atitude decidida falariam muito mais que algumas palavras. E ela inacessível aos seus acessos de fúria e loucura. a ausência. Não sabia a duração da viagem. Apenas um líder gaúcho. O poder central era mantido pelas oligarquias estaduais. ou seja. Só que antes de uma terça-feira há um domingo. Tudo ela fez para convencer o marido da conveniência de uma separação. de um lado a mulher tentando se desvencilhar do compromisso. Anna da Cunha deliberou ausentar-se ela do Rio de Jane iro. não acatando as suas ponderações. ou ele conseguiria mais uma comissão. caso S'Anninha não fosse uma mulher ousada e plenamente consciente de seus desejos. acertando o divórcio e a separação definitiva. ausentando-se novamente do Rio. Tudo teria se arranjado conforme as intenções do escritor. que escolheu como candidato a seu sucessor o seu ministro da Fazenda. A data da viagem estava marcada: 17 de agosto. 46 Quando Euclides da Cunha retornou do Acre. S'Anninha. Logo. A Câmara Federal reconhecia somente os diplomas dos candidatos eleitos pelas situações em cada Estado. a distância. Contentou-se em atormentar a mulher e transformar o casamento em um caos doméstico. A corrente se formava. vagos ainda. Insistiu em seu relacionamento com Dilermando de Assis. um gesto definitivo. detinha . Comprou uma passagem para ela e o filho Luiz no mesmo navio que levaria a Roma a sua irmã Alquimena e outras religiosas. A freira Alquimena.

os militares pretendiam retornar ao poder. O Exército certamente o sabe. Pinheiro Machado apoiava a candidatura do marechal. Os velhos chefes da política mineira. obedece. a meu ver. Outros Estados se posicionaram a favor do candidato militar. E a Aguia de Haia trovejou: . classificando-se os Países em categorias conforme o poderio militar. O ministro das Relações Exteriores era o Barão do Rio 48 Branco e o nome do vice-presidente do Senado para a Conferência de Haia foi sua indicação. não se manifestaram. Afonso Pena ainda se batia por seu candidato: Davi Campista. o resultado da Segunda Conferência da Paz teria sido o de inverter o curso político do mundo no sentido da guerra. é inestimável o seu papel. fomos convidados a entrar pela porta da paz.A nação governa. teve o apoio do governador mineiro Venceslau Brâs. pela inteligêncía e pela riqueza. Mas o embate se dava entre Rui e Hermes. Mas se nos decepcionarmos. Por essa via tomamos parte nessa conferência. Dessa forma. Rui Barbosa insurgiu-se argumentando: . por culpa vossa. porém. como os demais órgãos do País. Bias Fortes e Francisco Saies. Não tinha a simpatia de Pinheiro Machado. O Exército. Ficou clara a situação política. Não quererá outra 49 função. O candidato Davi Campista era apoiado apenas por alas jovens de políticos sem muita sustentação nas oligarquias estaduais. Já os paulistas e baianos se colocaram contrários ao marechal e apoiaram Rui Barbosa. Era uma conferência pela paz e quando o representante dos Estados Unidos opinou pela formação de uma corte permanente de justiça internacional. a condição de sua popularidade. Rui Barbosa foi o representante brasileiro na Segunda Conferência de Paz. Duas novas candidaturas despontaram nas campanhas préeleitorais: Rui Barbosa e Hermes da Fonseca. Evidentemente.poder de influência e coordenava na Câmara uma facção que desejava influir na escolha do próximo presidente. Minas Gerais e os liderados por Pinheiro Machado. então ministro da Guerra. um passo em sentido oposto. Os paulistas. também não apoiavam Campista. . então. líder político paraense que obteve apoio nos setores militares. da América Latina.Quanto a nós. e na observância deles reside o segredo. O baiano alcançou celebridade internacional e ficou conhecido como a Águia de Haia. Foram convidados 44 Países. Nesses limites é necessário. O outro nome lançado para presidente foi o do marechal Hermes da Fonseca. se nos descorçoarmos desiludidos. as forças se dividiram entre São Paulo. com a convicção de que a grandeza internacional não é avaliada senão pelas forças das armas. Rui Barbosa regressou ao Brasil como líder dos Países fracos e sua defesa da igualdade das nações não foi refutada pelos poderosos. que foi incluído como vice na chapa de Hermes. Começamos a ser conhecidos como operá rios da paz e do direito. convocada pela rainha da Holanda e pelo czar da Rússia. iniciada a 15 de junho de 1907. de início. A aclamação da candidatura do ministro da Guerra seria. impelindo-nos a procurar através de grandes exércitos e nas grandes armadas o reconhecimento de nossa posição pretendida em vão pela população. de onde saíram com Floríano Peixoto. numa sugestão de Lauro Sodré.

Que me importa a mim. Dilermando de Assis. Não fui do trono. decorridos alguns anos. apenas procuravam defender suas paixões. Pela primeira vez na República um candidato a presidente se dirigia diretamente ao povo pedindo-lhe o voto. Apoiado pelos mineiros. de São Paulo e da Bahia. E morreu. sobreviveu e foi julgado pela morte do outro. a candidatura Hermes da Fonseca teria a seu favor a máquina eleitoral montada a partir dos coronéis municipais e o tradicional voto de cabresto. Era um intelectual brilhante. que discursou nos teatros e nas praças públicas dizendo ao povo: . à Diretrízes. Nessa situação política brasileira se deu o encontro de dois homens rivais que nada disputavam. Depois. Rui iniciou a Campanha Civilista. 50 *** 10 Treze tiros e uma tragédia A imprensa brasileira da época fartou-se com a repetida chamada: A Tragédia da Piedade. o militar Dilermando de Assis se viu proibido pelo Exército de se manifestar por meio da imprensa e como a tragédia da Piedade deixou de ser assunto. tornou-se histórico. tenente do Exército Dilermando de Assis. em Piedade. senhores. Não se diga que houve deliberação por parte de todos os que redigiram matérias para contar os fatos. lutando contra a poderosa máquina governamental que o derrotará.Perderemos. candidato oficial da oposição por uma convenção reunida no mês de agosto de 1909. E assim. O outro. Contou de várias maneiras o que teria se passado na casa n 214. militar. O marechal passou a ser. ficou de pé a versão da morte de Euclides da Cunha como assassinato. pelo gaúcho Pinheiro Machado que liderava os Estados nordestinos. o candidato da situação. Contra essa situação se insurgiu Rui Barbosa. mas a confusão dos acontecimentos e a exacerbada paixão dos envolvidos numa campanha presidencialista serviram para obscurecer a verdade e erigir mistérios e dúvidas onde só existia fatalidade ou tristeza. não quis ser da ditadura. com o apoio do novo presidente. em 1941. O número da revista de 13-9-1941 registra assim o acontecimento UM DEPOIMENTO DE ALTO VALOR HISTÓRICO . apoiado pelos Estados do Rio de Janeiro. Daí que o depoimento do então coronel Dilermando de Assis ao jornalista Francisco de Assis Barbosa. da própria nação não o sou. aliado de Pinheiro Machado. A imprensa brasileira fazia sistemática campanha pró-Rui Barbosa para presidente da República e a morte do civil Euclides da Cunha por um militar. acabou servindo de reforço aos argumentos civilistas contra as armas. A luta sucessória de 1910 se fez com a Campanha Civilista de Rui Barbosa de um lado e os militares. da Estrada Real de Santa Cruz. não o serei das baionetas. quando Afonso Pena morreu em 14 de junho de 1909 e assumiu o vice-presidente Nilo Peçanha. além de velhos políticos e coronéis do interior. . escritor e intelectual: Euclides da Cunha. Mas o princípio da resistência civil se salvará. Só que um era civil. de outro.O marechal Hermes da Fonseca continuou candidato e mais forte ainda. o espantalho? Não nasci cortesão.

E de súbito vejo Euclides que me aponta o revólver.D.Adiantando-se de meu irmão. o pequeno Luiz e eu . Avanço com a mão esquerda. E. estou ferido no peito. ouvi distintamente apenas as palavras "matar ou morrer". Euclides da Cunha entrou precipitadamente em minha casa.. Caio. Caído à porta do meu quarto (C). procuro tomar-lhe a arma. valendo-se dos indícios que encontrou. doutor?! . sem dúvida. exibiu-o em sua defesa perante o júri que o julgou. quase à queima-roupa. comunicando que o Dr..Vim para matar ou morrer. Anna. não chegaram.Constituiu um acontecimento histórico na imprensa semanal do Brasil a publicação do depoimento histórico do coronel Dilermando de Assis em torno da morte de Euclides da Cunha.Bandido!. Anna e dos meninos. Solon. Fez um desenho para facilitar a compreensão de sua exposição.perguntei-lhe. Embora ferido. a maior prova do interesse público suscitado pela reportagem "Euclides da Cunha não foi assassinado". 214 da Estrada Real de Santa Cruz e. uma segunda edição em papel de jornal. este corre pelo corredor (B) e ao aproximar. Euclides ouve os gritos de D. declarando: . Ambas as edições. Euclides estava à porta e queria falar-me. enquanto este retornava á sala de visitas (A). então. guardou-o e a revista Diretrizes publicou-o juntamente com o seu depoimento sobre como se desenrolou a tragédia do dia 15 de agosto de 1909. de autoria de nosso companheiro Francisco de Assis Barbosa. Recebo. Corja de bandidos! . constitui. Era domingo. fator esse que vem aumentar ainda o valor histórico de uma edição esgotada duas vezes em menos de sete dias. No interior do meu quarto (C).Que entrasse . escondidos na . logo depois. Desta vez. que lhe abriu o portão do jardim e a porta da sala de visitas (A). contudo. A porta se abre com um pontapé. tudo rodava à minha volta. Seriam dez horas da manhã. . Euclides recua o braço direito e eu consigo agarrar a manga do seu casaco.disse a meu irmão. Euclides acerta-lhe um tiro na coluna vertebral. Ele responde: .na sala de jantar (E). Dinorah. Tomávamos café . . inutilizando meu desventurado irmão para o resto da vida. . Vendo-me em perigo. conseguiu reconstituir matematicamente a trajetória dos sete tiros de Euclides e dos seis que disparou em represália. Dói-me horrivelmente. embora representassem algumas dezenas 51 de milhares de exemplares. A circunstância de nos vermos obrigados a lançar. 52 Tudo isso é muito rápido. fui ao meu quarto (C) a fim de vestir minha túnica. Dinorah tenta desarmar Euclides.Que é isso. Dinorah vai até à sala de visitas (A) buscar cigarros e volta. Desarmado. para atender aos numerosos pedidos que recebemos de todos os cantos do Brasil. que dispara contra meu irmão.se da porta do seu quarto (D). um segundo tiro. Dilermando de Assis pôde retornar à casa n.atirando contra mim. dois dias após a publicação da mencionada reportagem histórica.

no pulmão direito. porém. Digo-lhe ainda: . Que pretendia ele? Caído à porta do meu quarto (C). mais uma vez. saí da luta com quatro ferimentos recebidos de frente. Num movimento rápido. junto à escada. Quanto a mim.um testemunho valioso -. encostado à parede. junto à nuca. acompanhara Piragibe na fundação do jornal que seria mais tarde aquirido pelo dr.despensa (F) e caminha até à sala de jantar (E). Desferi o primeiro tiro na direção oposta à em que se encontrava o meu agressor.Bandidos. Olhando para o corredor (B) tive a impressão de ver Dinorah caído e vi também Euclides. de novo. procurando ainda desarmá-lo. sem alvejá-lo. Euclides levanta a mão. Chegara do Norte dois anos antes e logo ingressara no Correio da Manhã. Precavidamente. pois minha intenção era de amedrontar Euclides. Temia. causa Mortis. 54 *** 11 Meu depoimento sobre a morte de Euclides Com este título . veririquei-o depois. mostrando-lhe que estava em condições de reagir. de onde.. atirando contra mim. Ele não me ouve. Eu vi Euclides atirar em Dinorah pelas costas. no úmero. À detonação. Anna e dos meninos. junto à sala. Disparo pela terceira vez.Fuja.No momento da luta . alvejando o seu revólver. Em suma. publicado pela primeira vez na revista Dom Casmurro. na virilha. como depois revelou a autópsia. com outros e dentre eles o Manuel Duarte. levantei-me como pude. Fonseca Hermes . no pulso e sobre uma costela. temendo uma possível emboscada.. saí nas pegadas do tio Toletano que. 53 Sigo-o. alvejar-me.. a sorte de D. . Odeio. doutor.. procurando. Sabia que meu irmão estava ferido. embora sem desarmá-lo. em 1946: Naquela época eu era revisor de Folha do Dia. penetro na sala de visitas (A). fere-o no pulso. Foi quando apanhei o meu revólver. Eu aí também atirei contra Euclides. Fere-me.termina Dilermando . Fui infeliz.. como que à procura do local de onde partiam os gritos. Honra. de acordo com o exame médico. Ele insiste. meses depois. o depoimento de Mário Hora.é evidente que não sabíamos o número de tiros que havíamos trocado. Dinorah foi ferido por Euclides na coluna vertebral. em seu número especial de aniversário.. que não lhe quero matar!. matutino fundado por Vicente Piragibe. Este ainda no corredor (B). de revólver em punho. Euclides volta pelo corredor (B) em direção à sala de visitas (A). Euclides retoma o ataque. Contra minha expectativa. no pulso e no pulmão direito. por outro lado. movendo agitadamente a cabeça. O sexto tiro de Euclides. Euclides está agora no início do corredor (B). acionando desesperadamente a tecla do gatilho e pronunciando palavras confusas: . Chego até à porta e vejo Euclides caído.. A bala. Surpreendido. disparo pela segunda vez. a autópsia acusou em Euclides os seguintes ferimentos: no flanco direito. feriu-me nas costelas.. recua de costas e desaparece pela sala de visitas (A) afora.

relacionando-me com Dilermando e Dinorah de Assis. somente aos domingos passava algumas horas com eles e distraía-me ora a jogar para o alto. com Canudos e Acre no costado. tocava violão e o guarda-marinha. o médico disse estas duas palavras: . Morava na Estrada Real. quase sempre. o alferes-aluno fazia exercício de tiro ao alvo. Uma manhã de domingo. Não esperei mais. A vizinhança. hoje Avenida Suburbana. ora praticando a esgrima de florete de que eu adquirira rudimentos com os oficiais do 40º Batalhão de Infantaria. no ar. cerca de 10 horas. ao lado do limoeiro. Aflita ela indagou: . o mais velho dos seis irmãos para cujo sustento meu Pai. à feição das casas de Aracaju e de Recife. no últímo quarto.eu. Nunca penetrei no interior da casa. os dois irmãos. onde foram morar. da sala de visitas saíam os sons de um violino acompanhado por um violão. limões verdes para que o Dilermando os acertasse. com ninguém. E.A senhora saberá depois. eu dormia àquela hora. O doutor acompanhou-me. Chame o Mário. embora apagados. exceção de mim e de minha família. ora ouvindo-os executar os seus instrumentos.Para não morrer atirei num homem. com o peito coberto de sangue. dizendo-me: . cabelos e bigodes negros. Esses moços só eram vistos pelos vizinhos ao entrarem ou saírem da residência. com o seu Nagan.para a defesa da candidatura do marechal. Eu era órfão. de olhos nostálgicos e gestos lentos. Dilermando. se habituando. Eles não fizeram relações. disse-me: . Da sala de visitas saía-se ou entrava-se por uma porta lateral e por esse flanco da casa ia-se até o quintal. com a ampla testa aljofrada de suor e os olhos abertos e fixos vagamente. Trabalhando na Folha do Dia durante a noite e durante o dia em um vespertino há vários anos desaparecido . de compleição atlética. em Recife.Meu filho. Depois de um rápido. militarmente belo. violino. dois jovens militares. Minha Mãe acordou-me. todas as manhãs. mesmo de simples cumprimento. que deparei. pela janela da cozinha.Que foi isto? . Foram certamente. em todas as direções. o alferes. Vá depressa chamar um médico. indo-se pela Rua Berquió. viu o Dílermando com o peito ensangüentado e muito pálido. vá ter com o Dilermando.só tinha de meu os domingos. havia três ou quatro meses. Daquele ponto à estação da Piedade espichava-se um bom quilômetro. elegante. havia três anos. Da janela da cozinha de minha casa viam-se as janelas do último quarto e da sala de jantar da casa em apreço. Chuviscava. na primeira de um grupo de pequenas casas alugadas por setenta mil réis mensais e que está à direita de quem entra de uma casa maior com duas janelas na fachada e vários quartos no seu interior. vencemos o corredor e. minha Mãe. o médico se debruçou sobre um homem tipo de caboclo. a princípio. estranhou o tiroteio. moreno. Fui correndo à estação e embarafustei pela primeira casa com tabuleta de médico. Acabou porém. porque nunca fui convidado para isto. mais franzino. mas detido exame. 55 deixara um montepio de 145 cruzeiros . de um oficial do Exército e vivi minha adolescência dentro de quartéis. E às tardes. Desde que mudaram para aquela casa. armado no fundo do quintal. um alferes-aluno e o outro guarda-marinha um alourado. É que um dos rapazes. Tendo chegado do trabalho madrugada feita. na famosa Campanha Cívilista. (ele não perdia um só). Ele está todo ensangüentado! Pulei da cama e corri até a porta da casa. comunicando-se com um corredor longo. Penetramos na casa pela porta lateral. as calças "garante" do alferes que me atraíram para os dois irmãos habitantes solitários do casarão. o outro. As janelas da frente mantinham-se fechadas.

Está morto. O médico ouviu em silêncio. ao quarto dos fundos. comunicando-lhes a morte de Euclides. não havia.. Quando regressei cerca de uma hora depois. era a expressão da verdade. sem pinga de sangue no rosto e como que desacordado. Os jornais e. vi uma mulher de feições satisfeitas. quase ipsis litere repetido nestas linhas.Ainda não. eu. Volvi os olhos em derredor. Dilermando pediu-me para telegrafar ao barão do Rio Branco e a Coelho Neto. Logo acrescentou: 56 . esposa do assassinado. Veja. havia lido referências altamente *?encomiásticas a Euclides. com o prosseguimento do inquérito.O dos Sertões? Dilermando acenou com a cabeça afirmativamente e eu notei uma críspação nos lábios do médico. Ele devia saber de tudo. que exploraram vastamente o crime. graças à lentidão do "maria-fumaça" em que viajei na ida e na volta (não havia bonde para Cascadura. Ia acompanhá-lo até a saída. o delegado insistiu para que eu declarasse que vira a mulher do assassinado na casa dos irmãos Assis. atônito. . doutor. Depois. abraçada a Dilermando que apertava contra o peito um pano já encharcado de sangue.Quem é este homem? . Naquela trágica manhã. Na Piedade.Meu irmão está também ferido. a primeira vez que a vi foi ao penetrar na casa acompanhando o médico. só então. Uma folha houve que chegou a empregar a expressão "cúmplice". na virilha. também sangrando. Hora fosse apertado. O Paiz. na delegacia. "a única pessoa que freqüentava a casa do criminoso". Ele teve tempo de acertar-me duas vezes. Euclides. Em meio do silêncio em que essa rápida cena se passou. insistiam para que o tipógrafo M. . agência telegráfica. abrigado por uma pelerini. e perguntou: . Euclides jazia. eu escutei o médico perguntar: . pois que era. E. indaguei: . E me mandou em paz. em particular. filha do célebre major Solon. A mulher chorava. em fortes soluços.É o doutor Euclides da Cunha. E. O médico se retirou sem mais uma palavra. a polícia ali estava. que na minha profissão de revisor. Fui a Cascadura e expedi os telegramas para o Itamarati e para a rua do Rosa. O senhor poderá fazê-lo. batera as palmas à porta da casa onde sabia estar a mulher. naquele tempo) e penetrei na casa da tragédia.Desgraçadamente. realmente.Já se comunicou com a polícia? . como o senhor vê. Ao ouvir este nome. Anna. Mantive firme a negativa porque. Abrindo a blusa reiúna que vestia ele mostrou ao médico um ferimento no peito de onde o sangue escorria e. impressionantemente imóvel. Dinorah abriu a janela e o reconheceu. a que empunhava o revólver. então. no intuito de desarmá-lo e errei o alvo. quando no primeiro quarto dei com Dinorah caído sobre uma cama.Foi o senhor quem o matou? . e para não morrer. Durante 48 horas de detenção na delegacia. com a palidez da morte no rosto de traços fortes. E o delegado tanto "me apertou" que acabou convencido de que o meu depoimento. pálida e trêmula que se amparava em Dilermando. onde morava Coelho Neto. num movimento rápido. vim a saber de tudo. no local. arriou as calças e indicou outro. A mulher era d. agora. os braços estendidos ao longo do corpo. que eu acompanhei até o encerramento. Fui logo detido e arrolado entre as testemunhas "de vista". os olhos pregados no morto. Eu alvejei a mão do doutor Euclides. Voltei.

absorvente e insaciada.Dilermando está? E recebendo resposta afirmativa acrescentou: . janeiro de 1946. palavras suaves e declarações apaixonadas. disse ao irmão: .O doutor Euclides está aí e quer falar com você.contra o gênio que não encontrara no amor conjugal o ramo de loureiro que merecia. transcorridos tantos anos. não tinha direito de exigir o fim deum casamento infeliz. Reviver aqui o prólogo dessa tragédia que o inquérito pormenorizou.Quero falar-lhe. Raras linhas foram escritas no sentido de afirmar que também o genial escritor nunca soube entender e amar a mulher Anna. . no fim do século XIX e no principio do seguinte. pela segunda vez. Como vai ser? . Euclides avançara e se colocara à entrada da porta lateral. E Dilermando. O que hoje. sozinho. Não. E ele deu-lhe as costas e correu. que empunhava o revólver e deu ao gatilho. E mal o fez. mande-o entrar. carinhos. A sociedade brasileira tinha os seus padrões de comportamento e a mulher não podia amar e desejar um divórcio. Os jornais e os biógrafos do famoso escritor estiveram constantemente de acordo que a mulher. mas a coroa de espinhos dos desencantos e das incompatibilidades. o emérito atirador alvejou a mão de Euclides. evidentemente. apenas de raspão. Euclides fez o disparo que o atingiu no peito.Ele perguntou. contra o homem de quem ele recebera desvelos paternais . A esse tempo. Essa afirmativa e outras semelhantes sempre estiveram nos registros históricos que tratam da vida e morte do autor de Os Sertões. que já empunhava um 57 pequeno revólver. A bala passou. O tiro partiu atingindo-lhe a nuca e à porta do corredor que dava entrada para a sala. pulando sobre o irmão caído. Dilermando. e já prevendo uma tragédia. Euclides. 58 *** 12 Ele chegou para matar ou morrer A bela Anna nunca conseguiu entender nem amar direito o estranho e difícil homem que era Euclides da Cunha. alvejou-o. Um outro projétil atingiu-lhe a virilha e ele.Vá abrir a porta. que acabara. minutos antes. a posteríori. com os dois ferimentos sangrando. é a mão inexorável do Destino armando o braço de um moço perseguido por uma paixão doentia. correu também: e ao penetrar na sala. de uma união carnal satisfatória. Euclides caiu pesadamente. colaborar na defesa do autor forçado de sua morte defesa lavrada pelo tribunal que o julgou em memorável reunião. Dinorah fechou a janela. Não foi para Camões que Bilac escreveu o verso. tomou-o nos braços e o conduziu à cama onde eu e o médico o encontramos já morto. o guarda-marinha caiu de bruços. Além. Dinoráh abriu-a. o exercício de tiro ao alvo e carregava o Nagan. eu sinto em toda essa tragédia. tentou desarmar o autor de Os Sertões. livrar-se do jugo de um homem que não amava e se unir a outro de quem recebia beijos. fecho sublime daquele soneto: "O gênio sem ventura e o amor sem brilho." Méier. Desorientado e já ferido. seria o mesmo que atirar um punhado de lama na auréola da glória que cerca a figura imensa do gigante que tombou naquela manhã chuvosa depois de legar ao Brasil o maior livro da literatura continental e seria. já transpondo o portão do jardinzinho fronteiro: .

em pleno vigor de seus 30 anos. Apenas a palavra fatalidade pode cobrir a imagem dessas três pessoas e servir de epitáfio a seus túmulos.Estão em questão os direitos do homem e da mulher. . irmã de Euclides. mas infeliz sou eu que choro por ter trazido ao mundo essa pobre infeliz" Que acusação se pode lançar sobre S"Anninha? De que foi uma bela mulher e que tenha amado um homem. Não se pode alguém erguer e julgar Euclides. Anna e Dilermando. O Conselho Nacional dos Direitos da Mulher alerta. É oportuno reafirmar que a Justiça no Brasil ainda decide que se pode matar para defender a honra. constantemente. oitenta anos decorridos dos acontecimentos. Ele foi absolvido pelos tribunais. assim se expressou Anna: Euclides pretendia matála também. Não só para Judith Ribeiro de Assis e seus irmãos. sociais e religiosos.afirma Judith. a mulher deveria se apaixonar e ser feliz. posicionando-se contra a filha: "Você chora a morte do seu irmão. também Justiça. Se. o mesmo não se pode dizer de tantos que giraram ao redor da tragédia e deixaram de ser apenas simples espectadores para intervir de forma a acirrar os ânimos e determinar que alguns 60 acontecimentos se sucedessem não por simples coincidência. No entanto. Até mesmo a sua mãe. Soltam-se criminosos mediante a máxima "em legítima defesa da honra". faculta-se a exceção: "Poderás matar a tua mulher e com esse crime resgatar uma suposta honra" Muitos casos ainda acontecem no Brasil quando há crime passional: os tribunais condenam as vítimas e absolvem os culpados. mas porque . em seu livro Euclides. Paulo Dantas. bem como para amigos.E a meu pai. ontem e hoje. escreveu uma carta a dona Adélia. para as conseqüências de decisões semelhantes: sobre a regra geral "não matarás". ansiando ardentemente pela felicidade. estas palavras sobre Anna: Euclides era um gênio-sensitivo. Foi no que ela acreditou e ignorou simplesmente todas as vontades contrárias. E também por sua personalidade determinada em acreditar que. apesar dos ditames dos costumes. 59 Os tribunais não pairam acima da consciência de uma sociedade. Dilermando de Assis? Para a sociedade brasileira trata-se de um crime. .Não aceito esta condenação. Opus 66. imagine-se o que sofreu Anna de Assis para se manter fiel aos desígnios de sua paixão? Vamos encontrar em um biógrafo de Euclides da Cunha. nem tinha jeito para amar aquela bela menina da forma que ela queria e desejava. Estou aqui para contar a vida de minha mãe e afastar para sempre esta monstruosidade que fizeram com ela . um temperamento telúrico e não podia. Assim se entende por que Dilermando e Anna foram os condenados da tragédia da Piedade. um cerebral. São o reflexo dela. dona Túlia. Anna vivia só. certos segmentos de nossa sociedade ainda punem a mulher que ousa abandonar o lar por amor. embalada por seus arroubos românticos.

Arnaldo e Nestor. Euclides saiu de sua residência. Regressou à Copacabana e enviou o filho com a missão de trazer a mãe para casa. Na noite de sábado. conta: Visita tão matinal exigia uma explicação. Euclides. deu-a simplesmente: . calibre 22. 14 de agosto. também biógrafo do autor de Os Sertões.Anda lá por perto um cão hidrófobo que me tem inquietado. Anna combinou os detalhes da viagem com sua irmã e se decidiu por refugiar-se em Piedade. com a incumbência de trazer a mãe de volta. os seus desvarios foram assustadores.Do tio Antônio? Que coincidência. o irmão de Dilermando. Podemos perceber como Euclides da Cunha guiou os seus passos naquela manhã de 15 de agosto de 1909. Vocês não dispõem de um revólver?. perturbado.sofreram a interferência de vontades malignas. escreveu em seu depoimento para Dom Casmurro.. na noite anterior. Dinorah de Assis. ao mesmo tempo que. em 1946. e se dirigiu à Rua Mena Barreto. a reconciliação. Euclides. número especial de aniversário. . fazia o trajeto inverso. Anna fugiu aos movimentos insanos do marido e seguiu para a casa da mãe.. Isto posto. tio de Euclides. quando ele soube de sua viagem para a Itália. em São Cristóvão. Euclides escolheu um revólver Smith and Wesson. que a sua preocupação constante era de se sentir nobre a seus próprios olhos. entre ameaças e imprecações. que ato deixaria ele de praticar desde que o julgasse necessário para se livrar do risco de poder ser acusado de uma fraqueza ou de uma transigência com seus princípios? Bem sabemos que ele não aceitou que os seus ideais republicanos fossem humilhados pelos monarquistas. O general Cândido Rondon. Ele havia enviado. 61 Anna temia retornar à sua casa. Ela estava certa de que Euclides voltaria à casa da sogra. onde morava a tia Carolina e seus dois primos. Anna notava a exacerbação de Euclides. o seguinte tópico: Ele mesmo disse de si. e saiu rumo à Central do Brasil. Afinal. A mulher recusou-se acompanhá-lo e Euclides retirou-se. considerava-a adúltera e indigna de permanecer ao lado dos filhos. Ela se apavorou com o desespero de Euclides da Cunha. que conviveu com o escritor na mocidade. De duas armas mostradas pelos primos. Discutiram.. na terça-feira. Ele queria a sua volta ao lar. Enquanto Solon se encaminhava de Copacabana para Piedade. na Rua Nossa Senhora de Copacabana. Euclides descobriu que Anna se encontrava em Piedade. Levava consigo a intenção de lavar com sangue sua honra. em vista da ausência da mulher em casa. Sylvio Rabello. Ao estar com dona Túlia. seu filho Solon para o endereço em que morava Dilermando. afirmou: . Os primos tentaram conversar. Euclides foi buscá la. possesso. tentando convencê-la . E de fato isso ocorreu..Amanhã hei de pôr tudo em pratos limpos! Era um domingo chuvoso. Lembrou Nestor que aquele dia era o aniversário da morte do seu pai. 324.

o historiador Paulo Dantas retira o seguinte trecho: Quem definirá um dia essa maldade obscura e inconsciente das causas. chegou à janela. Emocionado. Dinorah. Desceu e veio abrir o portão.Entre.. encaminhouse para a Estrada Real de Santa Cruz. o irmão mais moço de Dilermando.e aconselhava cuidados. Ele não sabia o endereço do rival. da Marinha .. A noite de sábado era feia . que inspirou aos gregos a concepção indecisa de Fatalidade? Às vezes julgo necessário um Newton na ordem moral para fixar numa fórmula formidável o curso inflexível da contrariedade. Mesmo assim. nos dias subseqüentes à manhã de 15 de agosto de 1909. 63 *** 13 Um coração de mulher não se devassa com palavras e razões Se. Para Euclides. mais ainda. E ele chegou para matar ou morrer. Ao ouvir alguns gritos alucinados de Euclides da Cunha. que. conversar com o escritor e perceber-lhe o estado de ânimo. de venda em venda. um do Exército e outro da Marinha. seu coração estremeceu mais uma vez. nessas alturas. já não sabia mais o que estava "fazendo". o dono indicou: .Ou mato ou morro. Tocou a campainha. Pediu-lhe que aguardasse o regresso de Dinorah. onde moravam dois cadetes. doutor. Não há alternativa nessa altura dos acontecimentos. ela prometeu ao filho Solon que retornaria com ele no dia seguinte para sua casa. Humilde. ajeitando-se num cômodo de fundos. batendo palmas logo em seguida. xingando e amaldiçoando a mulher. apenas tinha certeza de que a mulher estaria numa casa da Estrada Real de Santa Cruz..muita chuva e frio . Deus haveria de ter dele. E ela tinha razão. queria entrar. viu que o grande escritor. promovido recente. De uma carta do próprio Euclides ao poeta Vicente de Carvalho. Deixou Anna mais apreensiva ainda. Ele só não quis dormir no interior da casa.os irmãos Dilermando e Dinorah de Assis. Solon aceitou permanecer ao lado da mãe. Na terceira venda. a professor de lógica no ginásio Pedro II. "Piedade. num concurso. perguntava. o outro. Era preciso botar tudo em pratos limpos. em frente ao jardim.a cancelar a viagem e. sob o sortilégio da palavra. naquele chalé.um do Exército. demovê-la da idéia de separação. Completamente alucinado. tudo teria de ser colocado em ordem. Diante do portão. de qualquer jeito. Saberia encontrar os seus algozes indagando pela rua afora sobre a moradia de dois militares . 62 Quando o trem parou na estação Piedade. Euclides desceu com uma certeza: . Este foi a à Copacabana com o objetivo de sondar o ambiente. as páginas policiais e sensacionalistas dos jornais se ocuparam dos acontecimentos . voltou assustado ao subúrbio. Ouviu o filho Solon e não quis sair de Piedade. . O historiador Paulo Dantas conta assim as ocorrências seguintes: Desceu na plataforma. Nem notou como ele estava visivelmente nervoso e tremia. Uma vaga sensação levava Anna a supor que o marido partiria para atitudes e passos inverossímeis. Dinorah nem entrou na casa do escritor.É logo ali..

pelo fundado amor que dedico à minha santa mãe. a opinião pública desfere contra Dilermando. se viu forçado a publicar um repto no Correio da Manhã. que eu jamais solicitei o réclame da fraquíssima e humilde advocacia que venho exercendo 64 há 18 anos. Evaristo de Morais. É absolvido. quando. auxiliado por Euclides da Cunha. demonstrar que Dilermando feriu atirando de revólver. criado. apresentar uma só página contrária às afirmações de Dilermando.atual aspirante a oficial . alimentado.narrando a tragédia da Piedade. Toda gente sabe que eu nunca forneci discursos forenses aos jornais.se. registra o assunto: A paixão política espouca para todos os lados. afinal. . de Rio Grande. Não posso. o mesmo grande escritor pelas costas. direta ou indiretamente. em 14 de agosto de 1914. o que me impõe o dever de patrono e a convicção de jurista. uma ocasião azada de patentearem a justeza da perseguição movida ao acusado. tudo. posteriormente o tema mereceu até mesmo espaços editoriais. nada". recuar no caminho que estou trilhando. Pois bem. se alguém sustentar. acerca da minha defesa perante ao júri. a sério. na sua maioria. não quero.ajudado. no outro negadas . desde almirantes e generais até soldados. se alguém ABRINDO OS AUTOS DO PROCESSO. em 7 de maio de 1911. e quase mendigos. em favor de representantes de todas as classes sociais.do tribunal do povo. deixando fora de dúvida sensata. são notáveis manejadores da pena. alegava ter agido em legítima defesa. Os civilistas encontram ensandras no caso para todas as explorações. consigo um resultado na justiça. A imprensa acompanhou os trâmites legais para o julgamento do tenente Dilermando de Assis e tentou influenciar a opinião pública contra o militar. Venho à imprensa provocado pelos amigos e admiradores da ilustre vítima. protegido. A tragédia da Piedade se misturou à Campanha Civilista. no qual entrei a contragosto no princípio. dominadores da imprensa. sem grandes lucros. sou forçado a dizer.. no jornal Gazeta da Tarde.um dia afirmadas. quando." Como se deduz. ferido. como "contra o tenente Dilermando. na imprensa. entretanto. Dilermando de Assis vai a Júri. e mais: "Nem que o senhor nos pague contos de réis. apresentar a prova de ter sido Dilermando Cândido de Assis . se alguém ousar defender a teoria da tolerância dos maridos complacentes ao ponto de suportarem filhos alheios no lar doméstico. todo o peso de sua carga. A campanha dos jornais contra Dilermando de Assis assumiu tal grau de contundência e destilou tantos equívocos que o seu advogado. desde capitalistas e homens diplomados até simples proletários. 1Que Dilermando Cândido de Assis fora protegido. tendo como advogado Evaristo de Morais. Eis aí.. que eu nunca redigi notícias dos meus aparentes triunfos. com este meu repto. nesse ambiente tremendo. não devo. alguém. neste caso famoso de Dilermando. são. convicto de me haver empenhado em uma defesa justa. eu. ainda crente nas virtudes . E é isto que vale por verdadeiro e solene repto: . Como uma derivação natural do ambiente de então. a favor. com responsabilidade de um nome digno. nunca respondido nem contestado em seus fundamentos: O CASO DILERMANDO Eu não discuto nem argumento. Eles são literatos. que um homem de talento e excepcionalmente ilustrado pode acreditar na própria paternidade de um filho nascido a termo estando junto à esposa desde 6 meses antes. me comprometo a abandonar a causa. Os jornais negam-se a publicar qualquer artigo. se alguém. O jornalista Angelo Cibela. existindo palavras textuais com referência a isso.

Ela esperou a absolvição de Dilermando de Assis em silêncio. destacando a campanha movida contra Dilermando de Assis envolvendo Anna. o que se disse de Anna? Tudo que se possa dizer para caluniar.cuja glória constitui toda uma riqueza nacional . 66 . com seu filho Luiz. que Dilermando não era e não é um militar brioso. 2 Que ele o conhecera familiarmente antes de haver a lamentável união adulterina de que lhe resultou a atual desgraça. Dilermando FOI . não teve sequer o apoio de seus familiares. Deixou um breve e definitivo testemunho: . como se vê. de perfeita calma. falando juridicamente. diminuir e difamar uma mulher. opinou desta forma: Toda essa deplorável tragédia não passaria de um fato banal .Eu não errei. nascida de sua união com Dilermando. cumpridor dos seus deveres profissionais. por nome Mauro.se o autor de Os Sertões não fosse um instrumento passivo de uma campanha política difamatória contra o Exército provocando luta de classe. ela pacientemente aguardou o resultado do julgamento de seu futuro marido. tem o direito de aventurar o resultado da apelação. Eu amei.da mulher que engana o marido . Só. 3 Que Euclides não desconfiara da paternidade que a custo se lhe atribuía de um filho. Se ele recebeu por parte da imprensa uma sistemática campanha difamatória. Os seus filhos lhe foram retirados pelos familiares de Euclides da Cunha. comparado com os demais. por Euclides da Cunha. de Manaus. suposto filho.não dissera a amigos que o seu último. tornará impossível a defesa de Evaristo DE MORAIS.. Bem se deve compreender que eu não lanço repto apaixonado nem faço desafio para armar ao efeito. falecido após sete dias de nascido: 4 Que o mesmo excelso e ditoso escritor . Um coração de mulher não pode ser devassado com palavras. amado dos seus chefes e respeitado de seus companheiros.ABSOLVIDO. apenas uma criança. argumentos e razões.educado. de indiferença absoluta por meu lado. evidentemente preocupados em não ter o nome importante do marechal Solon Ribeiro enxovalhado pelo escândalo. 65 5 Ninguém. não participou das cenas minuciosamente descritas pela imprensa das reuniões de júri. E adiantaria ela sair de seu silêncio para enfrentar hostes poderosas. A situação é.a contragosto dos seus acusadores públicos e privados . Qualquer prova concludente e convincente virá a tempo. explorada pela soberba velhacaria dos magnatas da política. robustecerá acusação fortíssima dos jornais. Dilermando de Assis foi absolvido e posto em liberdade em 5 de maio de 1911. parecia "uma espiga de milho no meio de um cafezal".. desamparada. O jornal O Tempo. machistas e preconceituosas? Seus argumentos iriam de encontro às leis dos homens e da sociedade conservadora. puritana e inflexível daquela época. Não concedeu entrevistas.

mas também curiosos. Anna caminha pela Estrada Real de Santa Cruz e leva a sua criança de quase dois anos no colo. juntando-se a seus familiares por parte de pai. A mesma chuva de sábado. S'Annínha sofreu. Seu desespero e a incerteza pelo estado de saúde de Dilermando de Assis não valiam peso algum na balança torta dos primeiros acusadores. . Era filha caçula dos barões de Teffé e personagem proeminente da alta sociedade brasileira. e figura. na história da caricatura no Brasil. Leva em seu íntimo a resolução de tudo suportar e a tudo enfrentar em defesa daquela criança em seus braços. Os irmãos feridos foram hospitalizados. implacável perseguição por parte de muitos que a rodeavam. Tudo começou naquela mesma manhã de 15 de agosto. não tem uma direção estabelecida. colaborava na revista Fon-Fon! como caricaturista. S'Anninha não conseguiu permanecer na casa de sua mãe em São Cristóvão. O cadáver de Euclides da Cunha foi encaminhado ao necrotério público da cidade. tornando-se primeira dama do País ao casar-se com o marechal Hermes da Fonseca. Apenas uma amiga lhe estendeu os braços e deu muito mais que carinho e apoio espiritual. S'Anninha precisaria mesmo do apoio. e se o seu jovem amante sobrevivesse. não sabe em que porta bater e pedir um abrigo. Solon se retirou para a companhia de seus dois irmãos. Teve de enfrentar muitas dificuldades para não se abater e se deixar guiar por mãos traiçoeiras. repórteres e amigos. Além dele. Para onde se voltava. perguntas e acusações. nessa época. A casa ficou sob a guarda da policia. Ela chega até a estação da Piedade e espera o mesmo trem que trouxe aquele homem para dar sete tiros e. hoje. Nair de Teffé. dores de quem sabia ser vítima de uma desgraça. escolher o seu novo caminho e se comunicar com Dilermando de Assis. buscar os seus haveres em sua residência. com grande destaque. muito mais uma garoa. num quarto de sua casa. de Euclides e dos donos. presidente do Brasil de 1910 a 1914. E quando Anna precisou comparecer à delegacia de polícia. partir também em sua defesa e esperar por um dia de felicidade a seu lado. apenas uma trouxa de roupas. Quando Anna embarca naquele trem suburbano. da madrugada e da manhã. Euclides Filho e Manoel Afonso.*** 14 Pedido de casamento em bilhete de 2-10-1909 Até a absolvição de Dilermando de Assis. além de angústias das incertezas. assinando Rian. abriu-lhe casa e escondeu-a. deparava com acusações e era julgada como a principal culpada pela morte do mais famoso 67 escritor brasileiro. loucamente. molha o chão mansamente. Nair de Teffé protegeu-a durante a primeira semana após o domingo trágico. Um homem não tem o direito de determinar os rumos de uma paixão de mulher. ainda recebeu de Nair de Teffé 10 mil réis para as suas eventuais despesas. Além do dinheiro e de proteção. Não só a polícia invadiu a casa dos jovens militares. Longe de curiosos. É uma tarde fria de domingo. e ela não teve respeitadas as suas dores. Nair de Teffé emprestou a Anna de Assis uma decidida solidariedade de mulher. desgraçar o seu destino e seus sonhos de felicidade.

e este é o meu maior lenitivo. desse teu futuro marido a quem te entregas de pés e mãos. a minha vida é um desespero que não tem alívio. Não quero. De tal forma os planos avançam que o casal apaixonado raramente se pode encontrar. senão o teu espírito vacilante manobrado convenientemente e astutamente por essa víbora que aí anda farejando. a esse cujo conhecimento e tamanha intimidade hás de chorar ainda. com raridade e os mais diversos empecilhos. Advogados e familiares de Euclides da Cunha também se movimentam procurando cercar "os culpados". a fim de satisfazer o seu bem formulado plano de descobrir tesouros. ainda que nas galés. Coragem! Dilermando 68 Os dias transcorrem tumultuados.09 Minha Eulina. não te amofines que eu. aos meus infames desígnios. Dilermando recebe alta no Hospital e é transferido para o 1 Regimento de Artilharia. Acho muito conveniente seguires os meus conselhos. Eles são de tal ordem que. coragem. os jornais apenas relembram a tragédia através de depoimentos dúbios.Somente no final de agosto ela recebeu a primeira mensagem de Dilermando de Assis. O que te ordeno. aguardará o seu julgamento. A seguir. sem te ouvir. Assim. As saudades são muitas e o teu sofrimento. para se comunicarem. que suponhas que eu não padeço também. que não tem fim. Tenho. se é que ainda és minha . tentando a minha condenação a fim de destruir o único empecilho. forte. não? Pois bem. a idoneidade das pessoas que me procuram uma grande guarda avançada. pois só os dou com grande convicção e certeza. ao passo que tu não tens ninguém. Se é grande a dor que agora me aflige mais ainda é o meu amor por ti. Sirvam-te de conforto as infâmias e as ofensas que sabes nunca pesam. entrevistas maldosas e sistemática campanha visando à condenação do "criminoso" no momento do julgamento. nunca a tua imagem se apagará de meu coração. ninguém me desvia da verdade e sei como devo agir. A tudo suporto em tua memória e a ti ofereço esta dor. para dar. algumas cartas de Dilermando para S'Anninha. para agir. Quisera ver-te. Os encontros com S'Anninha prosseguem. as infâmias que desgraçados e espíritos miseráveis procuram lançar sobre ti muito me revoltam. mas não é possível. em certas ocasiões. a esse mesmo que já foi procurar o meu advogado tentando desorientálo. manda-me dizer que ainda me amas e todas as minhas lágrimas se secarão. ver ao nosso querido Luiz. Estou ciente também de tudo que por aí se passa. têm de se valer de cartas clandestinas e emissários amigos. Dilermando e Anna. onde. preso. e então os meus padecimentos se dissipariam incontinenti. pretendendo-te. ao menos. Longe. 29-VIII-09 Querida S'Anninha. pondo-me num estado de revolta horroroso. manda-me uma palavra de conforto. para verificar. felizmente está mais lúcido que o teu. Não sou nenhum bobo. sempre serei teu. por essa ave de rapina que aí estendeu a suas negras asas. não me deixo guiar senão por meu espírito que. sólido. se é que ainda me amas. Ando muito bem informado e não me deixo iludir. 29-IX. Enquanto Dilermando ainda se recupera de seus ferimentos no Hospital Central de Exército.

.. as flores que me mandaste. esperar-te-ei hoje. por mentiras e calúnias. Tenho estado com imensas saudades.. tão poderoso que se me afigura uma ascensão aos píncaros da glória.. 21-5-1910 . a fim de conseguirem o que sem esse resultado não obteriam. Ah! Será possível?!. a que tanto devemos. Atendes-me? Sou teu. até de tua honra. não o receies.. à proporção que as tuas palavras me envolvem o coração. Estás cercada de amigos que por minha intervenção te procuram. pois só uma legítima consorte poderá assim inundar de prazeres e consolações a alma angustiada de um proscrito. Vem cá. Não duvides deles enquanto te não 69 mentirem.09 Quanta satisfação acabo de experimentar com a leitura de tua cartinha. banir-me de teu espírito. Experimento mesmo um saboroso deleite que me invade a alma. Expulsa esse explorador. Pelo correio. em companhia dos nossos amigos e protetores. se é que reconheces como nosso sangue esse pequeno mártir que por aí devaneia. Juro-o pela memória dos mortos e por ela peço-te que me ouças e não duvides de teu Dilermando de Assis Recebi os livros que têm o perfume do Império. Manda sempre notícias. 70 I Regimento de Artilharia Montada. por isso previno-te de que não me escrevas por essa repartição. e eu te falarei. Expulsa de perto de ti essas águias. Muito espírito há interessado em. as dores da ausência. como tal se não desse. é difícil duvidar. mais se me despertam as saudades. I Regimento de Artilharia 2-X-09 S'Anninh a Seja esta testemunha de teu bom estado de espírito e de corpo. Não duvides de mim. Vem á tarde. É uma infelicidade . Esperei que viesses ontem. Sinto-me tão teu que me custa crer nesta ingrata separação. é meu defensor. entretanto. Agrada-me também esta prova de lembrança e de cuidado que tens comigo que me sinto orgulhoso possuindo-a. á noite e te mostrarei clara e patentemente a nossa situação. Cuidado!. defender-te-á também. Recebi os conselhos e as lágrimas. não. Quero que te abras francamente ao Evaristo. Mais do que nunca o sou agora que a nossa situa ção nos atrai. Reconheço-te. Ele é sério. Lembra que quem quiser me defender.. Não te deixes levar por falsas afirmações que só têm um fim explorar-te! Cuidado!. mais te quero ver.esposa. O correio viola as cartas que me são dirigidas. no momento em que choro. se queres ser do teu marido. Sabes que sou o teu marido e desde há muito. Sentido! Tu estás sendo roubada.. tamanha. sim? 6-X. é o que deves fazer. enganada!.. que tenho-te como esposa. Deves sair daí dessa casa o mais depressa possível. sou o teu marido..quanto mais te vejo..

porém que sou inocente. Está uma beleza. Daí as dores de cabeça. Não deixes de mandar o Luiz já. Quero vê-lo. pois não quero que ele se suje por aqui. Todos admiram-no. O estrado só poderá estar pronto. . tornaremos oficial o enlace que lhe proponho. Deve ter chegado. quero mostrá-lo. aí. Ninguém avalia que tudo isso me persegue. pois não? Reconhecendo o mal que lhe fiz.Continuo passando mal de saúde. avalias o meu padecer. 72 *** 15 . oferecendo-lhe o meu nome. a encomenda que fiz de um colchão e travesseiro para a tua e para a cama do Luiz. Ninguém se lembra da péssima alimentação.manda-o. a 12 de maio. a fim de fazer economias. pretendo recuperá-lo. me fará seu marido. depois de segundafeira. daquela época. e me persegue há mais de nove meses insistentemente. cercada de mais um pouco de conforto material. Compraste-lhe um chapéuzinho novo? Neste momento acaba de chegar o Luiz. risonho. os bilhetes. quando foi absolvido e posto em liberdade. Já estou fatigado. O que eu sinto.09 S'Anninha Sabe que sou um condenado. deveras aborrecido. Mas um bilhete mereceu sempre um desvelo especial.Minha filha. bem limpinho. de Assis A resposta foi sim. Sem mais. Compraste roupas para ti? Manda o Luiz dar um passeio de 10 mil metros até aqui. E as cartas. con quanto quase bem de alma. Dilermando C. além da minha constante anormalidade fisiológíca.. como te disse. Aceita-o? Espero breve resposta que. é nada mais nada menos que meu desarranjo orgânico natural em minha organização sempre afeita ao movimento e ao exercício. um proscrito da sociedade. de que faço uso diariamente. ou está prestes a isso. Todas as cartas enviadas por Dilermando de Assis foram guardadas por S'Anninha e entregues por ela a sua filha Judith. eu não estou habituado a passar assim tão mal. Tenho nisso tamanho prazer como em estar a teu lado. 72 Assim que me veja livre da iniqüidade dos meus algozes. por toda a próxima semana. Este: 1 Regimento de Artilharia 2-X. Não posso continuar. Abraça-te Dilermando Mando-lhe o Luiz já. do mundo. Tu. mais ninguém. uma vez positiva. Ora. bem vestidinho. sou o grato amigo Obdo. que tu conheces. e que me perguntaste maliciosamente se era remorso. Decorridos sete dias.. Estou com tanta saudade dele!. as febres. Dilermando ficou preso até 5 de maio de 1911. Adeus. ele se casava com S'Anninha. Gozo muito por saber que estás melhor em tuas condições domésticas. A provação é grande demais e já basta. Manda me dizer se precisas de mais dinheiro e quanto gastaste ontem. esta é a herança de um amor. e alguns futuro seriam todos passados por Anna a sua filha Judith com recomendação: . as tonturas e todos os males que me flagelam.

pela Doutora Anna Ficher-Duckelmann. isto é. em 16 de Novembro de 1907.Surge uma nuvem sangrenta Em março de 1912. às 8 horas e 20 minutos da noite. Despontou meu filhinho Carlos Frederico na Capital Federal . às 3:30 da tarde. a 4 de julho.Largo da Câmara. baixando a H.Rua Figueira de Mello. do Exército. em São João Del Rei. Minas Gerais.Rua Huinaitá. Faleceu este relicário de aladas esperanças. Dilermando de Assis presenteava a mulher com a obra A Mulher Médica de Sua Casa . Mais uma vez. Lá esteve o réu. compareceu. em 29 de outubro de 1914. em S. Nasceu minha filhinha Laura em São João D'El-Rei . Antônio Gonçalves Moreira. entretanto. n. 117. A falta de alguns jurados deu motivo a mais esse adiamento. 20. Assistiu-o a mme parteira Philomena. fui gravemente ferido. para satisfação da sociedade de um delito monstruoso. publicação da Antiga Casa Bertrand-Livraria Editora. Março 1912 Usou as páginas brancas do início do livro para os seguintes registros: Veio ao mundo meu filhinho Luiz na Capital Federal . defronte a esta. Viu a luz minha filhinhaJudith em São Luiz Gonzaga de Missões . à barra do júri. Anna de Assis tem um de seus desejos concretizado: mudar-se do Rio de Janeiro.. sendo momentos antes batizado pelo Reverendo Séves (Ricardino). O jornal Folha do Dia registra o acontecimento na forma habitual: insultuosa. 251. em I de agosto de 1910. . O marido é designado para servir no 51 B. Foi registrado como filho de Euclides da Cunha.Praça da Matriz. Francisco Catão. com um abraço ofereço Dilermando de Assis S. Quatro dias depois. Ermelinda Leão.20 do nefasto 16 de março de 1915. Escreveu a dedicatória: A minha amiga e esposa S'Anninha. tendo como padrinho o amigo José Rodrigues de Carvalho e sua irmanzinha Laura. Logo após seu casamento. tudo à rua Frabick n. às 18 horas. que morreu com sete dias de vida. na Fazenda José Maria (dos Macacos). Lisboa. o assassino de Euclides da Cunha. Cristóvão. Assistiu-a dr. 1907. Assistiu-a o dr. às 6 horas e 40 minutos da manhã. Maria das Dores. às 2. Assistiu-o mme. Mais uma vez ainda ficou adiado esse julgamento tão imperiosamente reclamado pela voz pública.Livro de Higiene e Medicina Familiar. João D'El-Rei. às 15:30 passou aos viventes meu filhinho Frederico Guilherme. Nessa cidade ele permanece até 3 de maio de 1913. Realengo. Dilermando de Assis. em 14 de setembro de 1913. anjo de doce fulgor e ninho de tantos afetos. ontem. C. às 0 horas e 20 minutos. A 11 de julho de 1906 nasceu o menino Mauro.Rio Grande do Sul . em 30 de março de 1912. 73 A 30 de junho de 1916. Assistiu-o Maria Mercedes. Surgiu meu filhinho João Cândido na Capital Federal . 66. quando é obrigado a retornar ao Rio para comparecer à nova sessão de julgamento pela morte de Euclides da Cunha. Assistiu-o a dra. a2 67. Que vele por nós.Avenida Pedro Ivo. G.

audacioso e cínico, a cuspir os seus olhares de escárnio sobre a multidão que o espreitava como um ente desprezível e asqueroso. A campanha contra Dilermando, envolvendo sua mulher, nunca se arrefeceu. Foi sempre tão sistemática e cruel que eventualmente surgiam artigos em jornais das províncias em defesa de um e de outro. Um jornal do interior paulista publicou uma nota paga e anônima: A esposa de Euclides da Cunha era, em Lorena, mãe extremosa e desvelada, que seguia com carinho e solicitude a educação dos filhos e, freqüentava com assiduidade os atos de devoção na capela do próprio colégio de S. Joaquim, hoje Santuário de S. Benedito. Grata memória o padre conserva de um gesto dela. Quando em 1903, faleceu no isolamento de Guaratinguetá, vitimado por febre amarela, o padre José Fausoni, então diretor do Colégio de S. Joaquim, as autoridades sanitárias não permitiram que fosse o seu cadáver removido para Lorena, nem mesmo sepultado no cemitério de Guaratínguetá. Teve de ser enterrado nos próprios terrenos do Isolamento, pelo receio de transmissão de febre amarela. Pois foi D. Anna da Cunha que, piedosamente, providenciou a colocação de uma lápide de mármore sobre essa triste sepultura do bondoso sacerdote e manteve, enquanto residia em Lorena, o cuidado de sempre a trazer zelada e florida. 74 Cuidado de que depois se incumbiu o dr. Gama Rodrigues, até que os anos decorridos permitiram a transladação de seus ossos para o cemitério de Lorena, onde aguardam a ressurreição. Adiado o julgamento, Dilermando de Assis é designado para servir, já como 2 Tenente, no Q G. da 1 Brigada de Cavalaria, em São Luiz das Missões, no Rio Grande do Sul. Lá ficará até ser transferido novamente para o Rio de Janeiro e ir a segundo julgamento em junho de 1914. Confirmada a sentença de absolvição, Anna de Assis vê de perto a sua esperança de uma vida regular e normal ao lado de seu marido que lhe devota atenção e amor. Em 1915, ela está com 40 anos, ele com 27. Neste ano, ela perderá dois filhos: o caçula Carlos Frederico, nascido em 29 de outubro de 1914 e o seu primogênito, Solon, misteriosamente assassinado no Amazonas, onde trabalhava. Ela ainda ficará grávida mais uma vez, nascendo Frederico Guilherme em 30 de junho de 1916. Na ocasião, Dilermando de Assis encontra-se matriculado no curso de engenharia e recebe louvores pelos importantíssimos serviços prestados ao 5 R. C.. O casal reside na fazenda dos Macacos, em Realengo. A casa abriga, além dos filhos Luiz, João Cândido, Laura, Judith e o recém-nascido Frederico, o caçula de Anna e Euclides, Manoel Afonso. Na noite de 3 de julho, sobressaltada, S'Anninha chama pelo marido e reclama de barulho ouvido nas imediações da casa. Por ser um local ermo, ela julga que estão sendo assaltados. Dilermando abre a janela, vasculha a escuridão e faz dois disparos. Os tiros acordam todas as crianças e aquela noite está marcada pela agitação e o medo. Ninguém poderia supor que o dia 4 de julho seria vivido com maiores e terríveis transtornos. Anna de Assis está no leito, enfraquecida pelo parto recente e frágil como uma doente. Assim ela vê a sua casa invadida por amigos e recebe as piores notícias de sua vida: o seu filho Quidinho está morto e o seu marido gravemente ferido. Apesar de sua fraqueza e superando algumas dores físicas, Anna de Assis

foge da cama e corre desesperada por toda a casa. Tentam contê-la. Em vão. Por gritos desvairados, ela busca explicação para a nova tragédia de sua vida. E para mãe nenhuma 75 haveria pior. Um filho morto pelo próprio marido, o homem de sua vida. Os filhos, pequenos e infelizes, percebem a mãe aflita, corren como louca pela casa, vestida num enorme camisolão branco, os cabelos longos, que iam até o chão, revoltos e despenteado criando uma imagem mais forte de dor e alucinação. Os amigos tentam consolá-la. Saem e regressam com novas informações que possam tranqüilizá-la. Impossível. Tudo, naquele momento, é muito confuso e truncado. Ela apenas tem certeza da morte do filho. E quem atirou foi o seu marido. Busca um papel velho e rabisca algumas palavras, acrescentando outras alguns dias depois: Miserável! Evita te encontrares comigo aqui dentro desta casa maldita até que eu tenha meios para abandoná-la. Eu juro-te por meus pais e filhos que hoje sinto por ti o mais horrível ódio. Realengo Fazenda dos Macacos Anna. Esse juramento foi feito no dia em que um miserável tirou a vida de meu filho Euclides, desde esse dia que sua imagem é para mim uma nuvem sangrenta! 76 *** 16 Declarações prestadas por Dilermando ao Conselho de Investigação Em 28 de julho de 1916, no Hospital Central do Exército, Dilermando de Assis, Inquirido, respondeu que no dia 4 do corrente, aproximadamente às 13 horas, chegando ao cartório do 2 Ofício da 1 Vara de Órfãos, dirigiu-se ao escrevente Meilhac e, inquirindo-o sobre que decisão havia por parte do Juiz respectivo a propósito da tutoria do menor Manoel Afonso Cunha, visto o sr. General Dantas Barreto, pessoa inculcada pelo indiciado para exercer aquela função, não a ter podido assumir, - respondeu aquele escrevente que, além do despacho mandando permanecer o menor em casa de sua mãe, só havia novas declarações de Nestor da Cunha, declarações estas que ato contínuo apresentou ao indiciado sem que este as solicitasse; que, perguntando ao mesmo escrevente se lhe era permitido tomar conhecimento das referidas declarações, como este lhe respondesse afirmativamente, descansando o braço esquerdo sobre o corrimão da grade que divide em duas partes o pavimento onde funciona o cartório, conservando-se de pé e mantendo a linha de seus ombros numa certa inclinação aproximadamente paralela à diagonal da parte anterior da sala e, segurando com a mão esquerda os papéis que lhe foram apresentados, iniciou sua leitura; que ainda não havia lido quinze linhas quando, ouvindo uma detonação por trás de si, sentiu-se ferido, por isso que suas pernas fraquejaram, a vista

se lhe turvou e grande mal-estar interno se manifestou; que, voltando-se para a direita, viu recuando, um vulto trajado de escuro e notou brilharem, pendentes da cintura, alguns metais, coligindo daí tratar-se de um aspirante de Marinha; que, apesar de não ter distinguido o seu rosto, presumiu tratar-se do aspirante Euclides da Cunha Filho: - era o único aspirante de Marinha que podia tentar contra sua existência, dados os precedentes já remotos deste epílogo; que, sendo a sua posição muito crítica, pois achava-se como que encurralado, cercado entre a aludida grade à frente, vão de uma escada e parede lateral à esquerda, uma mobília à retaguarda e seu agressor à direita, portanto muito à feição para ser plenamente sacrificado e, além de tudo isso, lembrando-se de que se tratava de um filho de sua esposa, o que quer dizer, um irmão de seus próprios filhos - levado por estas considerações e 77 acreditando não haver nisso sacrifício de seu pundonor, procurou retirar-se, afastando as peças do mobiliário e dirigindo-se para a porta da rua a passos rápidos, sem, no entanto, correr, pois era esse o único caminho que lhe ficava à mercê para esquivar-se à agressão, na esperança de que, tantos homens havendo naquele recinto, algum se interpusesse e evitasse a consumação do atentado; que, entretanto, percebeu que todos ou quase todos corriam fugindo e o seu agressor continuava a disparar sua arma e feri-lo; que ainda pelas costas fora alvejado, razão por que, sentindo-se já bem mal e esgotadas as esperanças de socorro, quer por parte da força pública, quer das pessoas presentes e, conhecendo a iminência do perigo em que estava sua vida e refletindo em que não podia mais prolongar aquela esquivança para o seu nome militar, pois não lhe podia ser exigido correr, o que revelaria pusilanimidade incompatível com a farda e corresponderia à sua morte moral, ao pleno desdoiro e quebra de seu brio, reconheceu a necessidade de agir por suas mãos no sentido de evitar continuação do ataque; que nestas condições, já com o braço direito enfraquecido, mesmo caminhando procurou tirar do bolso traseiro de suas calças o revólver Smith and Wesson, calibre 32, de sua propriedade e que consigo trazia; que, dados os ferimentos já recebidos, o seu estado de fraqueza conseqüente e a grande emoção devida à surpresa da agressão, foi a custo que logrou empunhar sua arma; que não percebeu ter chegado a sair à porta do cartório, mas lhe parece inverossimilhante ter ido até ao meio da rua; que, no entanto, ao voltar para defender-se tinha a impressão de que continuava a ser visado pelos tiros de seu agressor; que nestas condições, mais ou menos no centro da área anterior do recinto, a distância superior a dois metros, divisou o vulto de seu agressor, ainda de revólver em punho e dirigido para o indiciado, fazendo-lhe, então, o primeiro disparo; que sucessivamente e da mesma posição, ao que se lhe afigura, fez os dois restantes, porém, dado o seu estado de enfraquecimento crescente, não pôde perceber bem as condições em que estes últimos foram dados; que não se recorda de ter visto quem quer que fosse junto ao seu ofensor, nem tampouco que este lhe houvesse voltado as costas e, muito menos, caído, pois neste momento sentia fugir-lhe a vida, parecendo-lhe que eram os últimos de sua existência, o que parece perfeitamente comprovado com sua imediata perda dos sentidos e conseqüente queda

na ocasião. em da para não que. cujos vestígios poderão ser lá verificados. no máximo de três segundos. um confronto dos projéteis extraídos de seu corpo com os próprios à sua arma. perceber se o seu inimigo havia apenas voltado a cabeça. pois na arma apenas três balas possuía. o que se não verificou. em que ela mesma condenou o marido. pressentindo rumor no quintal. por ter com elas tratado três vezes. na véspera. tempo este em que lhe não seria possível. ou se lhe dera as costas. à noite. embora do mesmo calibre. próximo ao cotovelo.túnica. compreendeu quão absurda era aquela nova tragédia. . mesmo devido ao seu estado atual. pois seria o quinto dos que lhe foram atirados. Perguntado se conhece e tem algo em contraditar as testemunhas? Respondeu que apenas conhece. sua residência. ou mesmo se já ia caindo. tal queda se daria sobre o corpo do seu ofensor. bem como. de que o revólver Smith and Wesson é o de sua propriedade. dois disparos contra o tronco de um tamarineiro a esquerda existente. por isso que. que dos vestígios encontrados e verificáveis nas peças de roupa que trazia . tendo em que contraditá-las todas. fizera da segunda janela face esquerda do prédio. e refez a carga.se poderá constatar a veracidade de sua afirmativa relativamente ao ferimento recebido pelas costas quando se retirava para poupar-se ao desgosto de ter de agir contra seu enteado. e que se lhe afigura conseqüente do ricochete de algum projétil. pois são diferentes as balas do revólver Colt das do Smith empregadas. podem dar testemunho seu tio e padrinho major José Pacheco de Assis e sua esposa. que pode afirmar categoricamente estar o seu revólver. do indiciado. tendo desfalecido em seguida e caído ibidem. em segundo. o que oportunamente fará.asseveradas por várias testemunhas deste Conselho. colete e camisa . em primeiro lugar porque o médico legista que fez a necropsia afirma o contrário e. para sanar completamente toda dúvida. não precisava senão de um espaço de tempo muito pequeno. 79 *** 17 Quidinho foi instigado a matar Dilermando Anna de Assis se encontrou com Dilermando antes de 28 de julho. que depois disso só deu acordo de si quando pensado pelos médicos da Assistência. 78 que a afirmação feita por testemunha de ter disparado o tiro causa mortis a queima-roupa ou a "a um palmo de distância" lhe parece absurda. quando ele prestou suas declarações ao Conselho de Investigação. Meilhac. assim como a causa do "ferimento contuso" encontrado na face posterior do braço. Passado o primeiro momento. carregado apenas com três balas. porque. que faz acentuar que para desfechar os únicos três tiros dados.

Euclides Filho foi internado no Granbery. quase meia-noite. à mesa. Recusou-se a regressar ao educandário e persistiu no desejo de retornar ao Rio de Janeiro. Solon e Euclides Filho foram confiados. nem da de seus irmãos.provocou a série de perseguições que culminariam na tragédia de 4 de julho. Agentes da polícia visitaram a fazenda dos Macacos para retirar de lá o menor Manoel Afonso. parentes de seus filhos e até mesmo figuras importantes da imprensa. sendo encaminhado a seu tutor. Ele foi transferido para o interior do País e ao levá-los. mudou-se para o Estado do Mato Grosso. ficou aos cuidados da tia Alquimena. Todos foram educadamente repelidos. Tudo era feito irregularmente. em seus meninos. O caçula. Por ocasião de uma visita de Alquimena e Manoel Afonso à casa de Anna de Assis. respectivamente. E acrescentou que. Logo após seu casamento com Dilermando de Assis. É possível perceber que. ambos revelaram que o tutor dos três filhos de Euclides. Antes de seguir para o norte do País. para essa tragédia. abraçado à mãe e . existiram combinações além da maldade humana. Em dado momento. colégio de Juiz de Fora. em seguida. chegaram a residir. Apesar da sistemática campanha contra ela. Essas declarações de Manoel Afonso constam. Anna de Assis sempre soube que falsos amigos. para trabalhar na Comissão de Linhas Telegráficas.E que razões existiam para o seu próprio filho atirar em Dilermando? O rumo do raciocínio de Anna de Assis. já que durante uma refeição. Pouco tempo residiu com o seu parente. levava-a para difícil posição. chegando alguns à confissão de que agiam atendendo a pedidos de Nestor da Cunha. ainda pior. Solon. ao marechal Cândido Mariano Rondon e ao sr. ainda menores. procurou sua mãe. fugiu da casa de Nestor da Cunha e. com ela e sua nova família. perdoar-lhe e assim mesmo continuar ao lado de seu marido. inclusive. que eles a repudiassem e a execrassem publicamente. constantemente manifestava-se contrário às relações de seus tutelados com a mãe. estaria prejudicando-os na vida escolar. 80 tentavam incutir. estaria condenando seu filho? Caso contrário. E. afirmando que não mais se afastaria de sua mãe. José Carlos Rodrigues. Manoel Afonso fugiu do colégio em que estava interno. palestrou com Dilermando de Assis. já empregado do governo. declarando não existir de sua parte. A 13 de junho de 1916. Ao perceberem a posição do menor. Manoel Afonso. além de não querer morar na companhia de Nestor da Cunha. Se perdoasse ao marido. os seus três filhos com Euclides da Cunha. de qualquer forma. dos autos de inventário de Euclides da Cunha. Nestor da Cunha. nenhuma ordem judícíal cobrindo tais investidas. certo tempo. intenções de qualquer violência como desforra pela morte do pai. não seria injusta? Mas ela poderia chorar o filho perdido. desejos de vingança. na cidade de São Paulo. ele acusou sua mãe de "assassina de seu pai e de seu irmão". Dilermando julgou inconveniente a permanência dos rapazes em sua companhia. A estada do menino Manoel Afonso na casa de sua mãe. batia à porta da fazenda dos Macacos. Solon regressou do Mato Grosso. sendo internado e educado em colégios religiosos de São Paulo. cartas e atitudes dos filhos revelam como eles a queriam e a buscavam. além das idéias homicidas. não o queria como tutor.

várias vezes. até mesmo a anulação de um papel com falsa assinatura do menor Manoel Afonso.. então. imobilizada pelos últimos dias de gravidez. O delegado. já numa idade de compreensão e de vontade própria. Depois de tal deliberação. recusava-se acompanhar a autoridade e retornar à casa de seu tutor. tentando mudar o rumo das declarações e procurando contradizê-las. a 4 de julho. em que este o declarou: "Não me bato contigo porque tu és um covarde. mostrou a ordem judicial para levar o menor Manoel Afonso e se desculpou por tamanho vexame. Anna de Assis. que o rapaz já estava convenientemente estimulado para pôr fim à "ignomínia" que era o seu irmão metido na casa do "assassino de seu pai". Machado Guimarães. comparecesse. como uma ameaça. que ele continuasse ao lado da mãe. antes de se retirar. ocorrendo. a respeito de vires visitar-me. estava abraçado a ela o menino Manoel Afonso. agindo unicamente por indicação do advogado de Nestor da Cunha. Pois se ainda não tiveste coragem de matar o assassino de teu pai. além de esclarecimentos para muitas e dúbias acusações. Até que um dia. Após algumas deliberações. Mais uma vez. o encontro com Quidinho. Quando Dilermando de Assis chegou. um escrivão e um policial. Para tal fim. final de junho. surgiu este advogado de Nestor da Cunha. Nunca acreditou que seu filho atirasse contra seu marido. fiquei muito satisfeito. Rodrigo São Paulo. tantos conselhos inúteis. compreendendo ter perdido a questão. andava muito neurastênico e que era preciso uma providência" Pode-se depreender. primeíramente indagou dos motivos para todo aquele aparato. de acordo também com a vontade do menor. mas tenho uma objeção a fazer: como sabes a língua é pérfida . que "Euclides Filho estava muito nervoso. à presença do juiz de Órfãos. Atônita. às vésperas de dar à luz. 82 Dilermando de Assis teria de completar algumas declarações iniciadas nessa audiência. então. ouviu do marido a assertiva de Quetelet: "É a sociedade que arma o braço do criminoso". expondo-lhe tudo o que acontecia. como a rixa de seu filho com um colega. de modo a ser ouvido por todos..recusando-se a abandoná-la. Compreendendo a ridícula situação." E esta carta mostra como Quidinho era inseguro. Ela chorou então. Quanto ao que escrevestes. declarou. ao Cartório do 2 Ofício da 1 Vara de Órfãos. compareceu. Foi indicado o general Dantas Barreto. O menino. o delegado ordenou que toda a força policial se retirasse. Sua sala foi invadida pelo delegado do 23 Distrito. juntamente com o menor. À vista de documentos exibidos. ela só pôde implorar ao delegado que aguardasse a chegada de seu marido. Anna de Assis percebeu sua casa sitiada por praças armados e 81 realizando verdadeira operação de guerra. no dia seguinte. o juiz decidiu. uma vez que este desconhecia completamente todos os fatos. Dr. e relembrou alguns fatos. sozinha com os filhos menores. Dr. pediu a Dilermando de Assis que. até a nomeação de um novo tutor. Quando Dilermando de Assis se apresentou ao juiz de Ó rfãos. o advogado de Nestor da Cunha. compreendiam terem sido enganados e se retiravam constrangidos. entendeu não existir nenhuma razão para cumprir aquela equivoca missão.

sob o império do instinto já.Naturalmente. então. na cegueira da dor. marque o dia. reconhecesse no vulto escuro donde se destacavam a chama do segundo tiro e o brilho dos metais do espadim. o horror do crime ou o crime da fuga? Conheço-as bem. voltando-se em seguida. Vindo aqui poderão os espíritos obnubilados falarem. Não quero falar contigo aqui em Juiz de Fora. abraça-te o filho afetuoso Quidinh o. Terrível. Em casa. porque só a Natureza pode ser culpada. "Querida mãe Saudades Pode mandar o necessário para eu ir até aí. O Jornal do Brasil deseja conhecer a sua impressão sobre a tragédia em que foi envolvido naquele fatídico dia de julho. pois. ente cuja dor respeitava e a quem Qual havia de ser a sensação daquele tétrico momento em que. As respostas ficaram guardadas. qual o trem que toma e mande o preciso para eu ir. No entanto. um irmão dos 83 pequeninos entes que são toda a sua preocupação na vida . Sua mãe jamais passou um dia sem evocá-lo e aos outros. não publica a entrevista. Quidinho era relembrado. A seguir. porquanto os jogadores daqui irão jogar futebol em Petrópolis no dia 11 e eu falarei com o Diretor... com amor e com saudades. como sabes.." Portanto. parte dessa entrevista não publicada. seja como for. porque. profundamente. como pode verificar por este bilhete postal. E tanto avanço sem me deixar influenciar pelos conceitos de Quetelet. nesta cidade (como em todas) há muita gente que só gosta de "bater língua. naturalmente..e injuriosa. Correspondiam-se mesmo. indescritível. Qual pode ser a impressão de quem. o filho do homem a quem teve a desdita de causar a morte? Porque. A repercussão do novo julgamento de Dilermando de Assis é grande. mandado de Juiz de Fora. .. o esposo ou o soldado. E penitencio-me. desenganado do socorro. o espírito abalado pela surpresa. O Jornal do Brasil encaminha-lhe algumas perguntas. distraído e tranqüilo. turvada a vista pela natureza e sede da lesão. o lugar. Adeus. horrorosa. na ausência da calma. dominando o fundo troglodita que nos lembra Taine. ela que me fez um frágil e pobre joguete do despotismo dos instintos. como já disse.sangue do sangue de seus filhos. ouve forte estampido de um certeiro tiro dado às suas costas e se sente gravemente ferido? Qual seria a emoção de que. não poderei ter muita liberdade. aquela tragédia foi uma inominável loucura e uma grande desgraça. via apenas o bicorne dilema: a afeição ou a honra. pois estás casada com ele.. o cérebro anarquizado pela brutalidade e o imprevisto da agressão. . Só o não sabe quem ainda aquele transe não se encontrou para. Dirão que dou-me com o assassino de meu Pai. empenhado num ação meritória para satisfazer. desinteressadamente solicitações de entes caros. a 9 de outubro de 1911. era um filho de sua esposa. cumprindo deveres e praticando o bem. Solon e Afonsinho. arquitetada pela sociedade. mostrar que procederia segundo suas idéias contra mim tão revoltas. Toda a imprensa brasileira reproduz os acontecimentos e retorna aos detalhes da morte do escritor Euclides da Cunha. A minha impressão é que.

para ter o valor visado. Tarboux. pois eu tenho momentos em que perco as forças dar expansão às minhas dores. até aí no dia 11 porque 12 é feriado. vejo o meu marido. em tornando-se oficial. portanto irei até sem o consentimento do Diretor. só poderia ir visitar-te. me transportava para a sua condição de filho da "mulher do assassino de seu pai". é Enfim tenho que sofrê-las. carpe hoje sua cruel desdita. pela frente. nunca do modo porque o empreendeu. devia ser leal. em apoteose. porém. em luta honrosa. espalharei os pensamentos e o meu espírito ao túmulo de meus filhos e ao teu leito sangrento. aceite um abraço do filho e amigo Quidinho. Dr. atendendo à sua incapacidade para julgar das causas determinantes daquela catástrofe e à situação em que ficaria aquela (fosse com fosse. Di-lo Júlio Bueno. sua mãe). senão de formalidades.. aprimorando seu espírito nos sãos princípios de honra e cavalherísmo professados em nossas escolas militares. Jamais supus que. Passarei aí o dia onze (11) e doze (12) vindo a treze (13) de manhã. como de emboscada.. Outras cartas de Quidinho: Querida Mãe Saudades Recebi agora mesmo sua carta. foi sempre uma boa mãe. que ele fosse capaz de uma víndíta? . calculava que (pondo o caso em mim). outras. sempre imaginei que. senão coragem e resignação! Outra. que eu aqui. Esposa fiel triste. velando nossos filhinhos. procurar-me para um desforço. pelo Dr.. precedido de advertência. e amante. sim. Ademais. Ela estremecia-os. é pura. Mandei-te ontem uma carta. Estas cartas o revelam: Deves perdoar. baleado! É único! e tenho de de mãe!. ora. choro os pedacinhos da minha carne! Dores de esposa!. perdido para sempre. nesses momentos. pelos jornais salientado. não há remédio. como foi boa esposa. Uma lágrima de tua mulher. afetiva e sincera. com o consentimento do mesmo. um encontro leal. Falei com o Sr.para aproveitar este dia para ir visitar-te. depois de sua inclusão na Escola Naval.. Quando se recolheu ao absoluto mutismo. algumas vezes. alguma vez. Passou-se pelo espírito a possibilidade de. pudesse um dia vir a acometer-me pelas costas e de surpresa. porquanto eu durmo numa casa separada . não. É digna. Dores Mãe. Adeus. Euclides da Cunha. Peço mandar o necessário. Mas imaginava. Como mãe. Pensou. O diretor não achará falta minha. José Carlos. não. chorando. como um pleito à memória de seu pai" a possibilidade de uma revanche. quando admitia. um íntimo e um grande amigo do Dr. diretor daqui. Quando.Enquanto se correspondia com sua progenitora. meu pobre marido. que talvez sejam únicas. Recebeste? Adeus. eu não quero de maneira alguma deixar de ver-te. o qual disse-me que tendo sido eu matriculado aqui. se dissuadiria do intento pelos seus amigos insuflado como um ato digno e heróico a ser. dorme tranqüilo com o meu perdão. 84 E ainda há quem satanicamente tripudie sobre esta magna infelicidade.

irrefletida.Reputo-a precipitada. José Carlos...: Não sei o preço da passagem. quatro dias ..com outros alunos.. Mas pouco ligo eu a esta vida!... não esperava. alimentando estas idéias. Com franqueza. Disseram-lhe. é claro.. sapateiro.Nada... revelando estes sentimentos. ele arranjará este pretexto para me largar de mão. portanto devo ser-te grato primeiro que aos outros. tendo a certeza que tenho mãe. a de um instigado. Peço mandar resposta hoje. Por isso irei ver-te no dia 11... que ele tanto queria!. caso alguém fale. sim? Até breve. Não vacile em mandar-me dinheiro para eu ir porquanto não me prejudicará em nada esta visita. sr. pedreiro. E. Quíd. Esta vida é curta. Irei ver-te. de um arrastado sem forças para vencer o maquiavelismo dos que o impeliram à morte.. enfim até criado somente para possuir a paz de espírito. Que dor horrível se estivéssemos separados! . suplantando-os. O que quero é ser estimado e provar que estimo a quem verdadeiramente me estima... Trabalharei para ser homem. Não devo ficar sob o jugo e sustento de outrem.. ardilosamente. a quem disse. Machado Guimarães. Que diz de sua última atitude? . corrompê-lo quiçá. para desorientá-lo.. a não ser que o dedo do Mal viesse intervir para torcê-los.. portanto quer vá quer não vá será bastante eu lhe fazer este pedido para abandonar-me.. quiçá inutilizá-lo. 85 Trecho de mais uma: De todo jeito eu fico proibido de ver-te. Estou tão nervoso que escrevo esta carta sem mesmo procurar indagar. poderia eu preocupar-me de vinditas? Pois se estas viriam ferir mais fundo sua própria mãe. se eu pedir ao Dr. Que acha de seu carter? . Dizei-me. Ignorava que eu defendia seus próprios interesses que acautelava seus bens e os de seu irmão. Julgai veres-me um dia morto. pouco se me dá. Seu fílhinho Quidinh o. Que lágrimas amargas não se desprenderiam dos olhos ao lembrares de mim ou eu te ti!. vive-se com o trabalho e com boas obras. Serei lavrador. agora. sabe bem o exmo. ou eu a ti!. Não se vive com o ouro nem com o nome. sr. E se esperasse não teria sido surpreendido apenas com três balas em meu revólver. Talvez que pretendia mantê-lo em minha casa. 8-10-1911 PS. pois quero saber sua resposta logo... visto como. Abraça-te o filho e amigo Quidinho Juiz de Fora. que eu disputava a tutoria de Manoel Afonso. tu fostes quem me pôs no mundo. apenas assisto e estudo as aulas aqui. peço perguntar por aí. dr. Tenho 17 anos..

Octávio Meilhac o declarei. é suficiente prova dizer que. Euclides avaliada em. venho solicitar a publicação destas linhas. ante os fatos (até assinatura visivelmente apócrifa. não vêem que os seus veneráveis ossos vão ser atirados à cremação comum por falta de quem pague a sepultura. correr o processo à revelia. tudo caminhava para a mudança de tutor o que. ao sr. aguardar a decisão. o tenente Dilermando de Assis pode se considerar absolutamente fora de perigo. a biblioteca do dr. intimado pelo juiz a dar parecer sobre a partilha. e Euclides Filho reservado. frase repetida ao já mencionado Juiz e por esse escrevente confirmada. desesperava. Euclides da Cunha. resolvendo. acrescentando: "Não enchafurdarei o meu nome neste tremedal".. foi por esta desistida a favor de Quidinho. E. Cícero Monteiro tomará o seu depoimento sobre a tragédia do Fórum que vitimou o aspirante Euclides da Cunha Filho. telegramas pedindo dinheiro como documentos. parece. . dignos de meditação. a fim de amenizar a dor funda que neste momento fere o meu infortunado amigo Dilermando de Assis. algumas surpresas surgiriam daqueles autos..Ainda sob a impressão terrível dessa tragédia dolorosa desenrolada no Fórum. perdia a causa. para eximir-se à responsabilidade. Era um verdadeiro conluio. Posso garantir aos meus colegas. Rio-me. fora do Rio. quinhentos mil-réis!). não pôde deixar de concordar com as minhas razões e apreensões e intenções. basta lembrar o nome apontado para seu tutor: Dantas Barreto. tornando-se preciso que um jornal de 86 São Paulo entrasse com a quantia respectiva para evitar a consumação da irreverência. Lá está. não convinha a certa gente porque. em suma. publicou a seguinte matéria: TRAGÉDIA EMOCIONANTE O estado do tenente Dilermando de Assis UMA CARTA Devido a sua constituição robustíssima. com advogado constituído. de 13 de julho de 1916. que o tenente Dilermando jamais viveu na residência do pranteado dr. Euclides. muito mais do que o dos que seus amigos e protetores se intitulam sem nunca se haverem preocupado com a sua instrução e suas necessidades. E de que absolutamente nada quero nem querem os meus. De que me interessava realmente pela sorte de Afonsinho.salientissimos amigos do dr. à voz do dinheiro os nos jornais . 87 Outra infâmia clamorosa é a alegação de que Dilermando foi educado por . Sobre essa desgraça recebemos do nosso colega de imprensa Orestes Barbosa a seguinte carta a que daremos publicidade: "Meus caros confrades. A facção oposta. desafiando o cinismo das contestações. nos autos. A biblioteca. tendo travado relações com a hoje sua esposa ao tempo em que o escritor dos "Sertões". O Juiz. Amanhã ou depois o Dr.o meu intuito era bem diverso e bem nobre.. que tocou a minha senhora. .. Deixava.antes: "Não posso. Eis como explico a sua última atitude. não devo e não quero assumir estas responsabilidades". que Afonso devia. e foi ao último golpe. do inventário do dr. O jornal A República. pois. É que. uma declaração sua neste sentido. não ouvem. escrevia o livro "Peru versus Bolívia". nestas condições. Euclides desaparecem. em minha casa.

Fico só com o bolo de milho. Teria sido fácil enfrentar perseguidores. Com café. guardando moedas e trocados num . Tão sediças denúncias colocam Dilermando antipático. Seu filho estava morto. Não procurou jornais.Menino. ninguém sabe.Euclides. já que ele procurou não interferir em nada.Menino. não quis destruí-los. . E teria. venha cá. então. passe todos os dias nessa hora aqui no nosso serviço que compramos de você. derrubar mistificações.O senhor quer doce também? Alguns compram doces. senhor. a solução estaria na morte de Dilermando? Por que. existindo documentos que provam quão torpe é tal afirmativa. levando-o a tamanha brutalidade? E se o menino Manoel Afonso queria ficar a seu lado. tentando matar o seu marido exatamente quatro dias após o nascimento de Frederico? Que forças poderosas agiram contra ele. procurando recuperar a felicidade ao lado do marido e dos filhos. Apesar do depoimento público de uma personalidade ilustrada como o jornalista Orestes Barbosa e tantos outros desmentidos e depoimentos de que Dilermando de Assis jamais dependeu do escritor Euclídes da Cunha. outros. por que a insistência em retirá-lo de seus braços? Se irregularidades existiam no inventário do escritor Euclides da Cunha. alvejar tolos argumentos.O que você está vendendo aí nesta cestinha é o bolo de milho de dona Anna? .Me dá dois. . Não tem bolo mais gostoso que este feito por dona Anna. certamente. . O garoto se aproxima do grupo de militares e se dirige ao sargento que o chamou. não usou seu prestígio nem recorreu a nomes influentes e ilustres. seu desespero de mãe seria um grito mais forte contra calúnias e mentiras.Quanto custa? O menino responde e atende aos pedidos. sem justificativas e alardes. meu Deus do céu. Se perdoou. . Foi uma resolução em silêncio. reiteradas vezes repetiram a versão depreciativa e mentirosa. senhor. não. como um perverso matador daquele que o lançou na vida. sim. seu confrade e amigo Orestes Barbosa. E lá segue o garoto. enquanto ela a tudo cedia. 88 *** 18 Anna vende bolos de milho para comprar livros . . isto é uma delícia! .Sim. Não enfrentou seus perseguidores. Um outro pergunta: .É. objetivando apenas a paz e a tranqüilidade? Quando Anna de Assis optou por permanecer ao lado de seu marido após a morte de Quidinho. satisfeito. Confiante na justiça dos honrados colegas que não tomaram parte nas fileiras daqueles que vivem alimentados na desgraça alheia. Por que o seu filho Quidinho não respeitou suas dores de um parto recente. articulistas na imprensa e até mesmo biógrafos do autor de Os Sertões. o certo é que ignorou detratores. Enquanto a dor de mãe de Anna de Assis ficou ignorada portodos. gritou em seu intimo o amor por aquele homem. algumas perguntas.

E.Não tenho boa memória para nomes. inclusive para comprar . Ela passava por uma dor de dente terrível. dona Anna. marechal Solon Ribeiro. Tamanha é a sua pertinácia e afinco a seus deveres domésticos que se esquece de suas vaidades femininas e se deixa abater e envelhecer pela rotina do fogão. principalmente pelo quartel e vila militar. sem descanso. além dos trocos de gorjeta. Anna de Assis produz suas guloseimas. do primeiro casamento. E seus doces e bolos de milho agradam tanto que a produção é redobrada e outros meninos acorrem para vendê-la e também auferir lucros. Manoel Afonso. e o rosto vermelho. Cinco horas da manhã Anna já acende o fogão e reinicia a sua labuta diária. inchado. preso no 1 Regimento de Artilharia. ela não teve dúvidas. . Resolveu arrancar o dente.saquinho de pano. Uma coragem tremenda. Pois bem. mas é uma quantia irrisória diante de tantas despesas com a manutenção da casa na Fazenda dos Macacos e com os seis filhos.Mais livros. E aqueles meninos todos saindo logo de manhã lá de casa com as suas cestinhas cheias de bolos e doces. leva uma trouxa de roupas e é questionada pela guarda: 89 . fornecido pela dona Anna. lá estava novamente na beira do fogão. Tem o mesmo das outras semanas. Pegou um espelho. nasci em treze.Pode. portanto em dezesseis ou dezessete. Os livros são obras de engenharia que ela leva para o marido. Mal se recuperou desta operação primitiva. E é dessa época. produção caseira de Anna de Assis. para que no fim do dia as contas sejam feitas e ele receba a sua porcentagem. Ali na beira do fogão. preparando bolos e doces. que me lembro de um dia em que vi minha mãe agonizando de dores. Anna. estava com três para quatro anos. O soldo do marido preso mal atendia às despesas com advogado de defesa. Anna de Assis encoraja o marido. posso examinar a trouxa? .Então. aguardando julgamento militar pela morte de seu filho Quidinho. continuou do lado dela por mais longo tempo. dona Anna? O tenente Dilermando vai perder as vistas de tanto estudar. em suas visitas a Dilermando. com a mão direita e o alicate puxou o dente. Mesmo aqueles da minha infância. aquele calor do fogo agravava a dor de dente. invariavelmente. Sem 90 anestesia. Ela conseguiu ganhar dinheiro suficiente. não podia parar. Ela chorava de dor. também em algumas festas de domingo. Naturalmente. E ela recebe a sua parte da pensão do pai. segurou-o perto da boca. Datam da época alguns fatos que me voltam à memória. Os bolos de milho e doces fazem sucesso não só na hora do lanche no quartel. Tinha muitas encomendas. E. a filha Judith irá recordar-se de uma imagem de criança: . mexendo o doce com a colher de pau. Setenta anos depois. numa atividade incessante e sem tréguas. assim. Esse menino e alguns outros circulam por Realengo. o rosto afogueado na beira do fogão. auxiliando-o para que possa se formar em engenharia. alguns bem remotos. Usou um alicate. pois o sangue se esparramava por todo lado. À noite. Lembro-me muito bem de minha mãe fazendo doces e bolos de milho. ela gemendo de dor. É como ela arrecada dinheiro para as despesas domésticas e ainda reserva uma parte para adquirir livros. num tacho enorme. sem nada. Mas tenho memória irrepreensível para acontecimentos. vendendo doces e bolos de milho. sabendo que no dia seguinte passaria pelo mesmo calvário.

Ele sempre foi agradecido a ela por tal gesto.) Passados os atordoados primeiros dias da morte do filho. vítimas do verdadeiro Amor! Sim! Amor que resiste a todas as provações. posteriormente transcrita em livro. cartas e bilhetes. que resiste até a injúria. após apresentar a sua própria defesa. O Jornal do Commercio. dr. A exposição minuciosa dos fatos sinceramente elaborada pelo próprio acusado e não contrária. O anel de grau que ele usou quando se formou em engenharia foi presente de minha mãe. As despesas são grandes. não foi testemunha. reproduziu a defesa do dr. apenas se viu obrigada a algumas declarações na polícia. Uma manifestação de solidariedade. Além dos gastos com a justiça. confio o dizer o resto. O seu apoio a Dilermando não foi apenas com palavras.E ao meu ilustre patrono. posteriormente. se não nos ocorresse que no ânimo de algum juiz pudesse. compreendida por outras mulheres. Evaristo de Morais O tenente Dilermando de Assis coloca o seu soldo à disposição do advogado dr. foi sedimentado no fogo brando que cozeu doces e bolos de milho. Arquivou seu bilhete em que deixou registrado seu desespero e consignada a sua dor de mãe. minha senhora. Manteve-se em silêncio após a morte do escritor Euclides da Cunha. a mãe do rapaz procedeu de forma diversa. persistir qualquer . . apenas vítima. Anna Solon Ribeiro Muitos corações existem. para comprovar: Exma. Se a imprensa. Ela jamais fez qualquer declaração à imprensa. Anna de Assis compreendeu a trama que o encaminhou à morte. que partilham da sua dor. Evaristo de Morais. aliás. ainda existem outros. seria suficiente para formar as bases de sua absolvição. heroína do verdadeiro Amor! Uma Senhora Brasileira Rio. anônima. ainda. Já na morte de seu filho.o anel de formatura de meu pai. de 28 de setembro. ao que consta dos autos. necessários para a sua recuperação dos ferimentos recebidos de Quidinho. Evaristo de Morais. Situação. Evaristo de Morais que mais uma vez sai em sua defesa. 8-07-1916 (Bilhete cuidadosamente guardado por Anna de Assis e. até a morte! Como a sociedade é vesga e cruel! Coragem. nos pontos essenciais. Ele se tranqüiliza ao perceber que tem uma retaguarda e sabe que a mulher angaria recursos. Em 27 de setembro de 1916 ele é absolvido. e tratou de inocentar o marido e se preparar para mais um embate com o destino. O Destino tem sido cruel para a sua família e muito principalmente para V Excia. com a medicina.Coragem e resignação! Coragem! Anna e Dilermando. ardendo do amanhecer ao findar do dia. encerrando-a com estas palavras: . sra. em que descreve todos os antecedentes de seu encontro com Quidinho no cartório. por sua filha Judith. semanas e meses seguidos. articulistas e historiadores gastaram argumentos e retóricas para julgar e condenar Dilermando de Assis pela morte de Euclides da Cunha Filho. sanando a minha incapacidade jurídica. publicado por Dilermando de Assis e revisada pelo próprio advogado. 91 *** 19 A defesa histórica do Dr.

92 preciso. Fugir era. o fígado e a espinha dorsal. embora vagamente. notou que ele mantinha a atitude anterior. Disparados três tiros. mediante as provas adquiridas e o raciocínio calmo e imparcial. uma criatura extraordinária. lendo um papel forense. Todos os fatos aqui resumidamente narrados se passaram. Quando dava alguns passos na direção de uma das portas do cartório. cumpre ter em vista que a lei não pode ser interpretada desumanamente. Aplicando a lei ao fato. básico da existência. sentiu-se ferido pela terceira vez. quando recebeu o quarto tiro. que imediatamente fez um disparo de revólver contra Dilermando. visto fugirem as pessoas que deveriam detê-lo. e. despreocupado e desapercebido. dada sua posição. Só na porta da rua. é o último a abandonar a criatura humana. logo. pois. da qual resultou a morte de Euclides da Cunha Filho. dispondo da caridade evangélica dos mártires que morrem pedindo a misericórdia divina para os seus algozes! É. buscam alguns na pessoa do acusado um superhomem.dúvida acerca da legitimidade da ação. sair do local. não podia aumentar o mal da sua morte com o da sua desonra. Tendo de decidir acerca de um fato capitulado crime e que se afirma cometido por um homem. expelidos pela arma de Euclides e que lhe haviam atingido os pulmões e as pleuras. o seguinte: Dilermando estava no cartório da Vara de Órfãos. que. seguidamente. atingindo o projétil o alvo. incumbindo-se as pessoas presentes de conter o agressor. da doutrina e da jurisprudência? A defesa privada deriva psicologicamente do instinto de conservação. ao mesmo tempo. aliás com dificuldade. então. os dois outros. Aproximando-se do agressor imediatamente. O que aqui temos é. no momento em que era empurrado pelo escrivão interino Fernandes. sacrificando-se a verdade às ficções doutrinárias ou às hipóteses irrealizáveis. em resumo. seguramente. compreendendo. talvez. do tempo e da situação recíproca dos protagonistas. em menos de um minuto. conseguiu armar-se. consideradas as circunstâncias essenciais do lugar. que atingiu Euclides Filho no dedo. Por uma das portas penetrou ali. produzindo abundantíssima hemorragia interna. Desde logo o dominou o instinto de conservação. encarar os fatos como eles se dão geralmente. uma compostura que só se depara nos heróis da lenda e nos do Agiologio. nem imaginada. Considerava-se mortalmente atingido. inexoravelmente. sem a menor interrupção. empunhando a arma. Voltava-se Dilermando para ver quem o agredia. respectivas. Há de o julgado ajuizar do acontecido. instinto primitivo.o tresloucado Euclides. em desar. os juízes em atitude do crime. medir os indivíduos pela bitola comum. Disparou o acusado o primeiro tiro. como militar e como homem. pelas costas. colocando-se às vezes. tendo no corpo nada menos de quatro projéteis. Disposto a não reagir por haver percebido de quem se tratava. O último atingiu a cabeça de Euclides. em face da boa interpretação da lei. sem que Dílermando o pudesse ver. não raro surgem objeções relativas a cada um dos seus elementos jurídicos. sendo o primeiro a aparecer. A cena tem de ser realmente vivida e não sonhada. que nenhum impedimento encontrara o agressor. a arma do bolso. o diafragma. supôs que poderia. na calçada. reportando-se ao momento da ação e reconstituindo o drama. tendo a mansidão divina de Jesus para dar a face à bofetada. . já transido de dores e perturbado. Nos casos em que se debate a legítima defesa. pusilânime e inútil. ou. Procurava tirar. Pergunta-se: é ou não é de admitir a justificativa da legítima defesa. baixar à realidade da vida normal. Por isso Cícero viu . caiu. o acusado. em casos como o dos autos. com quem se agarrara. quando recebeu segundo tiro.

vol. É o chefe incontestado da chamada "escola clássica". defendendo sua vida. Contra o louco. ensina Fiorettí . mas.Se alguém agora mesmo. O indivíduo que age em estado de legítima defesa representa um instrumento de defesa do qual a sociedade se utiliza em uma situação de perigo iminente." Por seu turno. que faria. não escrita (non scripta. Respondam por nós os mestres do direito penal. o agredido se encontra na situação de quem. 40-41). naquele momento. pág. se objetivamente. 4° edição. 483). homem justo? Buscarias saber se o assassino era teu pai. não segundo o que. parte geral. Delitto e Pena nel pensiero dei Greci. que não tem consciência da injustiça do ataque. apreciará de sangue frio. págs. de pronto? Seguramente.assente no instinto da própria conservação . sobretudo na situação súbita e delicada de um homem que se defende contra um agressor". com frio cálculo e maduro exame.se apresenta como uma forma abreviada de juízo penal e da sua execução. pág. imprevista. ou. 7). o professor Garraud. se praticamente. pergunta: . um função social.o trágico grego Sófocles. à frente de todos. tanto se funda ela na necessidade de conservar o atacado a própria vida. pág. ed. perguntava: "Qual é o homem que. castigarias o agressor. Passe o eminente Francesco Carara. (V. as contemplações para com o infortúnio e para com a inconsciência. Dada a agressão injusta." (Su la legitima difesa. a justiça repressiva que não poderia acudir a tempo. sem te inquietar com a legalidade do teu ato?" (V. o eminente professor da Faculdade de Direito de Paris. 1.na legítima defesa uma prescrição da lei natural. na perturbação e na impetuosidade de sua defesa. dizendo: "A ciência dá uma regra abstrata. (Elements da droitpénal. de 1863. 2 edição. 1903. sustentava o princípio da legítima defesa . (Programa dei corso di diritto criminale. exerce. se o golpe que ele desfere ultrapassa ou não o que necessário seria para a mesma defesa? É preciso encarar os fatos tais como comumente se apresentam e não exigir penalmente do homem mais do que sua natureza comporta. na aplicação. como de rigorosa justiça. Resta saber como tem de ser apreciado esse perigo iminente. vem a ser conhecido posteriormente pelo juiz. nem tudo pode ser calculado matematicamente. as injunções do respeito filial. se ligas importância à tua vida. pág. 196). "A legítima defesa. da Faculdade de Direito de Lyon. o punirias. quando a acusava pelo homicídio do próprio pai: "Responde-me a esta pergunta: . aqui. é legítima a defesa. com exatidão. 1871. sed nata le i). se há algum meio mais suave. vol. 172). cedem os sentimentos 93 mais afetivos. Certo. Em seguida. Doutrina ele que a reação do agredido deve ser medida. Haus. Droit Pénal Belge. Tão imprescritivel é essa lei suprema que diante dela. se aproximasse de ti e te quisesse matar. segundo a opinião razoável do que é ameaçado na sua existência. pelo contrário. se há algum recurso a chamar. pondo na boca de Édipo as seguintes palavras em respostas às imprecações de Creonte. Ortoian abunda na mesma ponderação. também. por Alessandro Levi. se teoricamente. substituindo. 1. impelido pela própria coragem.

Mas a lei e a doutrina. Fioretti: "Em se tratando de defesa. Ora. completamente perturbado. não só se referindo à condição da necessidade. por exemplo. que não se lhe apresentara. não aconselham a fuga a um homem nas condições do acusado. a efetivação do dano à integridade física do agredido. depois de desaconselhar a fuga ao homem gordo (homo carnousus) débil. pois. do Cantão suíço de Neufchatel (art. mas não era licita a um soldado ou a um nobre secular. que ninguém continha. isto é. ou de lhe atenuar grandemente a penalidade." (Obra cit. A atualidade da agressão pode-se afigurar ao agredido persistente .que alguns legisladores adotaram o critério de tornar impunível o ato criminoso praticado com excesso de defesa.observa Alimenta . mas. beneficiam os acusados com a absolvição. buscava a porta e era ainda alvejado pelo agressor. 50). julgando o tenente Dilermando de Assis. avaliando tais condições de acordo com a consciência do homem que foi atacado e que se defendeu. 373). das quais quatro. prevendo os casos de excesso de legítima defesa. Outros códigos. Farinacius. evitando-o por outros meios. também. a propósito. por mais rigoroso que se pretenda ser. 2. 83). vol 1. cumpre ter em vista que o primeiro tiro fora disparado com surpresa e os três seguintes enquanto Dilermando não se tinha armado e estava à mercê do agressor. Os códigos alemão (art. págs. 184). ao espírito. A fuga não mais evitaria.quando para os circunstantes ou para os futuros julgadores já tenha desaparecido. já gravíssimamente ferido. 95 Já os glossadores e os criminalistas dos primeiros tempos da Idade Moderna distinguiam as classes e as situações sociais. outro meio de escapar à morte. 53). enquanto que. em verdade. Covarrubias ensinava que a fuga se deveria realizar quando não infamante. Assim. quando. 1910. 41). sim. professor na universidade de Modena. recomenda que o julgador se coloque na situação do acusado. extreme de dolo. fosse um plebeu. quando. que ele tinha sérios motivos para sentir sua vida em perigo. considerando-o culposo. 39) e o italiano (art. é difícil imaginar um caso no qual não se deva admitir como existente tal perturbação. não se pode desconhecer: 1. proporcionando a defesa ao ataque?"(Précis de Droit Criminel.que vinham sendo feitas desde muito tempo . pelo menos. quais o português (art. em razão das graves lesões recebidas. eram mortais. O código holandês (art. se o agredido era militar . insistia na idéia de que não era tolerável. (Príncipii di diritto penale. 3. 41) torna impunível o excesso se resulta de emoção violenta causada pelo ataque. a necessidade da repulsa ou da reação poderá parecer inexistente a posteriori. como à condição da atualidade. quando cogitavam da fuga. atenuam consideravelmente a penalidade no caso de excesso de legítima defesa.94 "Terá o agente conservado sua liberdade de espírito para medir o perigo. Em primeiro lugar. quando já passado o perigo. que ele não estava apenas emocionado. que assim evitasse a luta. Comenta. não é menos sensato quando. era evidente no espírito emocionado do agredido. ou mau corredor (non aptus ad currendum). Alimenta. pois infamava. Não cremos haja aí quem pense na possibilidade da fuga para escapar à agressão. 1895. diverso do que empregou. cd. 554-556). pàg. húngaro (art. no momento da agressão. Foi atendendo a estas considerações doutrinárias . naquela ocasião. diante de uma agressão violenta. um clérigo. pág.

é inevitável a colisão. vol. 229). mesmo pertencendo o individuo a uma classe subordinada aos princípios da honra. A lei não pode regular ou determinar as ações de uma pessoa colocada de improviso em uma situação perigosa." (Vol. 1. T. e acrescenta: "tanto mais quanto o ânimo agitado do agredido dificilmente poderá discernir os casos em que a fuga seja possível e útil". da coragem e da bravura. 96 No caso do tenente Dilermando de Assis. Responde: não. nenhum criminalista aconselha a fuga. "A possibilidade de uma fuga vergonhosa ou perigosa não exclui a legalidade da defesa: mas a defesa deixa de ser legal. pág. (Obra cit. o Professor Florian. da Universidade de Siena. não está longe de concordar com ele e quanto à situação especialíssima do militar fardado (militaire en uniform e) entende que. tornados . que não lhe deixa nem tempo. se for dado ao indivíduo conhecer as intenções do inimigo. se for possível. Se quer fugir. no seu monumental Tratado de Direito Penal Alemio. Não é diferente a manifestação doutrinária de Franz von Liszt. também primordiais na mantenção da harmonia vital. Uma vez. repugna a muitos homens. O legislador deve ter em conta este sentimento. seria desonrosa. pág. Os modernos criminalistas também não sustentam a absurda obrigação de fugir à agressão. um oficial militar apenas atacado por um seu inferior. como na hipótese. da Universidade de Pádua. ocasionada pela hemorragia interna." Haus. nem liberdade de espírito necessário para apreciar o que convém fazer ou não fazer. se é possível escapar agressão sem ignomínia ou sem perigo. 1908. vol. (Trattato di Diritto Penale. em tais circunstâncias. ia além de todos os penalistas. Trattato di Diritto Penale Italiano. 1. 1885. pág. quando materialmente possa fazê-lo. estava prejudicado. se quer resistir. O acusado tinha lesados os dois pulmões. ainda que a fuga. O ultimamente citado (Manzin i) pergunta se o agredido deve fugir ou esconder-se.de Nypells. que. (V. de cuja função depende essencialmente a vida. todas estas ponderações jurídicas são acrescidas de uma importantíssima ponderação médicopsicológica: ele não era. ao menos. o diafragma e o fígado. escrevendo: "A pessoa atacada tem o direito de recorrer ao meio de defesa que as circunstâncias lhe sugerirem. isto é impossível. pág. seu aparelho respiratório. já. De par com a depressão física. em cujo organismo se operavam fenômenos depressivos e perturbadores de inegável gravidade e de alta significação. Seria preciso. que ela não seria mais perseguida.. uma pessoa apenas agredida. resista. e nota 13). Demais. Evitar. 231). pois tem tal direito. refletindo na sua inteligência e na sua vontade. não possa ser considerada vergonhosa. pelo Professor Vincenzo Manzini. não o estavam menos os órgãos circulatórios. era.para nós acertadíssima . porém. achando muito extremada a opinião . adota a opinião contrária à fuga. que a pessoa atacada pudesse estar certa de que a fuga desarmaria seu agressor. não procurada. 231-232). nem prevista. fuja. 1. edição da Casa Valiadrido. sim. dada a fuga. a anemia cerebral consecutiva tinha necessariamente de dificultar a formação das idéias e influir na determinação dos atos. fazendo-se afastar do seu caminho e não facilitar o encontro. isto é. págs. II. Nypells.. Um jurista contemporâneo. no momento de principiar a reagir. Ora. 3° ed. O mais autorizado comentador do código belga. um homem mortalmente ferido. 524).ou pessoa nobre. 479. (Droit Pénal Belge.

Ele. desfechando contra seu agressor o seu revólver. A condenação do acusado. quando não está juridicamente provado o excesso. que atira inconscientemente uma sobre outras as pessoas que tentam fugir de uma casa incendiada. desmoralizando a farda que até hoje tem sabido honrar. até mesmo. Na hipótese. Para ele. e só deve a vida à força de resistência do seu organismo e aos solícitos cuidados médico-cirúrgicos que lhe foram prodigalizados. Desde que o derrame interno do sangue. a lucidez bem depressa se dissipou. conforme dissemos. ele também caiu. Pode-se. tinha tão-somente em vista não morrer como um covarde. o homem que o ferira mortalmente. nem deve ser imputado a quem agia. Quando o agressor tombou. se estivesse. que lhe permite expor compridamente os fatos e descrever. a impunibilidade dos que se defendem mesmo com algum excesso. se a doutrina e a legislação admitem. O decorrer da ação não pode. se a arma do atacante continha ou não continha outros projéteis. em Países cultos. o tenente Dilermando antevia a morte. desde o Conselho anterior.e com os raciocínios deduzidos destes elementos de convicção. a cena deplorável. Mas. quando ainda lúcido. a um triste conselho de covardia e de vilipêndio pessoal. francamente é favorável ao tenente Dilermando de Assis. com a palavra quase tolhida pela dificuldade de respiração. alheio aos carrilhos de intrigantes e de perseguidores apaixonados. com a visão diminuída. como recusar a absolvição ao tenente Dilermando. e.reflexos. além de tudo. ajudando as suas reminiscências com os fartos recursos dos autos . desde que ele se sentiu combalido física e intelectualmente. ferido de morte. pela recusa da justificativa da legítima defesa. em vista das contradições manifestas das testemunhas. resultante das lesões recebidas antes de principiar a agir? A opinião do público sensato e imparcial. em verdade. Ora. transmitido aos oficiais do brioso Exército Brasileiro. com maior ou menor precisão. não podia perceber. esse que leva o náufrago a arrancar ao companheiro de infortúnio a tábua de salvação. desfalecido. se bem que movido por um impulso legítimo. porque cada um julga o caso em sã consciência e não pode negar que ele procedeu como humanamente lhe era dado proceder. já em estado de semi-inconsciência. impulsivos. motivando a perturbação do aparelho circulatório. Ele pôde vir fazendo isto. aspirando às bem-aventuranças da outra vida e por isto entregando a terrena à sanha incontida de um agressor injusto. pouco ou nada conscientes. em tais condições. a agressão era atual. Exigir o contrário fora o mesmo que querer enxergar na figura do acusado um tipo de sacrificado super-humano. o ultimus moriens. lhe anemiou o cérebro. quando 97 esse excesso não lhes é bem consciente por estarem tomados de simples emoção. porque estava diante de si. ( a) EVARISTO DE MORAIS 98 . afirmar que. e no começo da sua ação. até certo ponto. se verificou um caso em que a legitimidade do ato foi entrevista no começo da ação e o resto resultou das condições anormais em que a agressão colocara o agredido. Nem se argumente com a calma atual do acusado. depoimentos de testemunhas . só persistiu o instinto de conservação. militava em favor do acusado o seu estado de profunda anormalidade psicofisiolôgica. equivaleria. arma em punho.exames periciais. apenas carregado com três balas.

Mas ele quis deixar tudo convenientemente registrado. Eis porque o adultério. dela e do marido. Dilermando de Assis só teve em redor de si a curiosidade infernal dos que procuravam rebaixá-lo em meio da tragédia monstruosa duas vezes representada. pelo menos. conheceu aquele lar infeliz. que é sempre uma vítima também. e o mais nobre. Poderemos julgar com justiça o que foi Euclides da Cunha como esposo. n. caráter adamantino e inteligência de escol. Não quer . Júlio Bueno.. Porque até o próprio Barão de Werther teve por si um jornal que demonstrou claramente o procedimento miserável dos que deixaram absolutamente impunes os responsáveis pela sua morte. No primeiro ato da tragédia de que fez parte Dilermando. transcendentalmente. Afinal. na opinião de quem. na verdade. Creio que ninguém mais admira Euclides da Cunha do que eu próprio. 41 . o que é caracteristicamente brasileiro. fosse o que fosse. é necessário lembrar o que um seu amigo íntimo. e se. porém. foi a popularidade de que gozava o autor de Os Sertões. já se opera. entre nós. em artigo publicado na revista Brasilea. E a última vez sabe Deus quais foram os encenadores.1916). José. quando está em jogo o que de mais alto devemos a nós mesmos e aos nossos semelhantes . popularidade que nos honra. em torno de quem houve essa sucessão de desgraças. O livro foi saudado pelo escritor Jackson Figueiredo. o milagre de estimarmos seriamente o que é nosso. Aceito o que disse Júlio Bueno. Entretanto.*** 20 Um livro para preservar a justiça Dilermando de Assis tinha sido absolvido pela justiça dos homens e estava em paz com a sua mulher e filhos. tão de perto. porque caímos no domínio infinito das conjecturas. mesmo porque deve cessar a ação de toda 99 admiração de ordem literária.A morte do Aspirante de Marinha Euclides da Cunha Filho Defesa do tenente Dilermando Candido de Assis (Rio de Janeiro Tipografia dos Anaes . Um deles.o que é o amor á verdade. As suas preocupações intelectuais. a verdade é que Euclides da Cunha não era um bom esposo. ou não. de altas qualidades. é caso comum das adúlteras pela força do abandono em que se vêem. isto é. pois é demonstração de que. de vez em quando. disse de público. é também impossível um julgamento seguro. concorreu para o estado deplorável do seu lar? Não. impelido tragicamente para a maior desgraça que temos presenciado nestes últimos anos. mais das vezes. Seria longo analisar os motivos da campanha injusta de que foi alvo constante. em maio de 1917: Um Conselho de Guerra (Defesa do tenente Dilermando de Assis) Jackson Figueiredo O tenente Dilermando de Assis foi talvez o único personagem da tragédia que não fez partido no jornalismo desta capital. fica no quadro do que os criminalistas italianos chamam de passiva. mas o meu amor pela sua obra me impõe o dever de acautelar-me contra mim mesmo e não tem o poder de impedir o que julga de justiça com relação ao tenente Dilermando de Assis.. vemos dois personagens mais: Euclides da Cunha e sua esposa.Rua S. que a sociedade tem maior culpa do que a criminosa. o que de mais justo se poderá induzir. escrevendo e publicando o livro Um Conselho de Guerra . Da mulher. Mas a verdade é que essa admiração por Euclides da Cunha não devia ter incidido com o ódio a um moço.

que fraqueá-la é morrer. No caso de Dilermando de Assis. pois.. Ninguém sabe que peso a impeliu. desviou-a. banhado no seu próprio sangue. se tem. Quantos os que de boa fé. Dilermando de Assis matou defendendo-se. E eis porque muitas vezes um ato livre pouco reprovável pode ter consequêncías funestas. como certo. em que saiu morto o pobre rapaz insultado por tantos Ventos maus.. o mais Justo. mais do que o podemos julgar de nós mesmos. Só Jesus Cristo se deixou matar sem um protesto . feriu. determinando uma mudança. uma mulher casada. cujo marido não conhecia e se achava ausente. teve que bater-se contra esta coisa cega que traz em si a sabedoria dos séculos. o amor por esta vida tão triste. pequena que seja. refletir-se-á mais claramente no estado depressivo em que caso estamos. As sociedades são sistemas de equilíbrio à beira do abismo que rodeamos desde as nossas origens. Euclides da Cunha. despedaçou e morreu. Não. aos 17 anos. sem mesmo ser lembrado sequer por inanimada fotografia". Tanto na vida das nações. apesar do seu gênio. a mais desesperada. e isto acaba por não nos deixar forças para resistir às tentações maiores. e só nos cabe sofrê-la com dignidade. Nos dois atos sangrentos. é quase sempre pela violência que se rompem os laços que ele dá. o instinto de conservação do homem. como o preconceito é fórmula enigmática da nossa estática social. os mais terríveis que nos jugulam. lutou. a figura de Dilermando obedece à mesma fatalidade. A miséria da nossa natureza vê no Calvário o ideal supremo. e sacudiu-a ao abismo. Daí o crime e a tragédia de todos os dias. por maiores que sejam os seus erros. ao mesmo instinto de defesa. 100 Entretanto. que esta é a maior grandeza do ser pensante. pagando assim quase com a vida um erro com que outros passeiam em ostentação de luxo e cinismo. é justa a defesa. Na outra cena. Quanto a Dilermando de Assis ao que se reduz tudo que dele se disse é que seu crime "é ter amado. A poesia adivinhando as conclusões da ciência já o dizia pela pena do velho Hugo: Nunca insulteis uma mulher caída. e por sua vez caiu ensangüentado. era superior ao seu desvario. isto é. O livro que acaba de . em paragens longínquas. porque a fatalidade instintiva. tenho sempre em mente a palavra de Pascal . e seguros de si mesmos o apedrejarão? Depois as cenas de sangue vieram como conseqüências de preconceitos sociais. O maior sábio na sua maior sabedoria. o crime foi mais um produto da fatalidade social que a objetivação da sua vontade. quando os julgo com serenidade. Quem sabe o que criou tal preconceito? Quem nos dirá que os males causados por eles não são menores do que os que nos assaltariam se não nos protegêssemos com a aparência absurda desses mesmos preconceitos? Eu. Dilermando de Assis em plena adolescência. somente vivificado em sua pessoa por uma coragem acima do comum.mas era isto coragem de ordem divina.isto dizer que nego a liberdade do indivíduo e aceite as conclusões materíalistas da escola chamada positiva. foi ali como uma pedra desprendida do alto da montanha social. como na dos homens. O que é admissível é que esta liberdade pode deparar-se com maior ou menor número de circunstâncias que a diminuam. Ia cego. no mundo exterior. Não será nunca com justiça que se dirá de um homem como Dilermando que é um miserável. A vida humana é um mistério inexplicável. e é o que constitui a sua liberdade.de que "a natureza é eminentemente dogmática". A pedra ia esmagá-lo. Foi o que fez Dilermando de Assis. ia matar. E é preciso notar que eu não os condeno. nunca poderemos condenar que o maior criminoso conserve em si o que é fatal em todo homem. a mesma que existe em todos nós.

tal o inopinado da agressão e suas conseqüências imediatas. que sacara do bolso traseiro da calça durante o seu movimento de retirada e alvejou por três vezes o seu agressor. não creio que exista quem. procurando fazer do corpo do escrivão José Luiz Fernandes. 28 do Código Penal Militar. e mais considerando que pela mesma razão de surpresa do ataque se lhe tornara prevenir ou obstar a . concorrendo em seu favor os quatro requisitos exigidos pelo art. mas considerando que a agressão da qual resultou o homicídio do Aspirante foi imediatamente precedida de um ataque inopinado e imprevisto por parte deste contra o réu. visto como está provado que estando o réu a ler um documento ou ato judiciário no referido cartório de pé e de costas para a rua. O réu não estava em calma nem raciocínio podia ter para calcular se finda a agressão por parte do aspirante. com quem se agarrara. interrogatório e mais peças desse processo. ferimentos gravíssimos produzindo hemorragia interna na sede dos mesmos ferimentos: pulmão. o aspirante ali penetrou empunhando um revólver e imediatamente e de surpresa desfechou contra o réu 5 a 6 ininterruptos tiros que causaram as lesões descritas nos autos de corpo de delito e sanidade a que foi o mesmo réu submetido. aluno de uma escola militar. pleura e diafragma. acusado de crime de homicídio por haver no dia 4 de julho do corrente ano. a perturbação da inteligência. isto é. e o falecido. depoimentos de testemunhas. das muitas acusações infames de que foi vítima. aspirante de Marinha. visto como. junto à mesa do escrevente Octávio Meilhac. de Conselho de Guerra. cerca das treze horas. Mas no seu caso o desrespeito se fez tão violento que. 190 do Código Penal Militar) e "de meretis" considerando que o fato acusatório está absolutamente provado (auto de autópsia. documentos. ainda considerando que ante o inesperado ataque.). situação que se pode considerar e definir como compete. serenados os ânimos. 2 tenente de Cavalaria do Exército. Em seu livro Um Conselho de Guerra. Dilermando de Assis transcreve a sentença que o absolveu: Sentença: Vistos e examinados os autos. depoimento das testemunhas e confissão do réu). de defesa. dada a situação anormal do réu no momento em que agiu. fígado. no cartório do 21 ofício da 1° Vara de Órfãos e na rua Menezes Vieira. que se mantivera no mesmo local a principio em atitude de provocação e após primeiro tiro. considerando mais que o réu assim procedendo agiu em defesa legítima de sua pessoa. Parece impossível que haja quem desrespeite a desgraça. desta capital. e no correr dele o réu caminhando a passos rápidos e céleres até a calçada fronteira ao cartório que fica situado nuu andar térreo voltou incontinenti ao local da agressão empunhando un revólver Smith and Wesson. em que é réu o V Tenente do 12a Regimento de Cavalaria Dilermando Cândido de Assis. não se revolte contra tanta injustiça. produzindo-lhe três ferimentos. barreira contra os tiros desfechados pelo réu. considerando 101 preliminarmente que o delito militar é porque o agente e o paciente são militares: o réu. com efeito considerando que houve atualidade da agressão na rigorosa técnica da lei e de acordo com a jurisprudência dos tribunais e com a interpretação dos escritores direito e dos jurisconsultos. um dos quais foi causa eficiente de sua morte (auto de autópsia a fls.publicar é a exposição dos fatos que antecederam as duas cenas dolorosas e a sua defesa. sujeito a tribunal e penas militares (art. hoje em dia. desfechado três tiros de revólver contra a pessoa do aspirante a guardamarinha Euclides da Cunha Filho.

auditor. acovardando-se sob pena de desonra. Júlio de Almeida. Agrícola Câmara Lobo Béthem. só almejo render-te. Recebe-o. finalmente. assim. Argolo (president e). Tem a seguinte dedicatória: A ti. disseste. como não fizeste. pertence este livro. Auditoria de Guerra do Departamento da Guerra. esposa amiga. mais do que a ninguém. 103 *** 21 A vida tranqüila de Anna em Bagé. com os fundamentos aludidos. Supremo Tribunal Militar. responsabilizaste. ainda considerando que o réu empregou meios adequados a proporção da agressão: revólver contra revólver. se acaso à lucidez de teu equilibrado espírito algo de minha conduta se houvesse menos digno afigurado. 8 de novembro de 1916. o Supremo Tribunal Militar se pronunciou por meio de extenso acórdão. que sofraldarás toda a cruel verdade. major. presidente. (Assinados) Joaquim de Moraes Jardim. 2 tenente. mais uma homenagem de veneração. e inermes. Em sessão realizada a 8 de novembro. Manoel Liberato Bittencourt. a página mais importante de Um Conselho de Guerra seja exatamente a primeira. com estas palavras finais: Um organismo ferido de morte. no conjunto dos elementos que fornece o processo. Carlos Eugênio. Desse modo. capitão. 26. o Conselho de Guerra. e à tua bondade. Como eu. reage irregularmente sobre o que o rodeia e assim sem condições de medir a reação. 27 de setembro de 1916. Conheces-me a alma e as intenções. mais um preito da grande estima que te consagro. portanto. de Arrochelas Galvão. a sociedade: fui-lhe passivo instrumento mecânico. em conseqüência da apelação necessária interposta para o Supremo Tribunal Militar. tendo sempre como proeira a tua imagem dolorida. Vespasiano de Albuquerque. Rio Grande do Sul . pela tua magma dor. Alberto Glória Puget. e nenhuma injustiça me poderias fazer. ou ficaram inertes. e considerando que a provocação que houve partiu ela do Aspirante. mas. absolva o acusado 21 tenente Dilermando Cândido de Assis. Marques Porto. Alvaro Guerreiro Bogado. 2 tenente. exammino o caso dos autos em suas frases de direito. com restrições quanto à interpretação dada ao art. sob esse aspecto encarada ainda a questão da proporcionalidade da reação. F. pois. E. considerando que ao militar não é permitido fugir a uma agressão. Disponho já de tua franca e sincera absolvição. sendo de notar-se que o imprevisto e a brutalidade do ataque produziram estupefação e pânico nos presentes. Chrístiano Alves Pinto. por unanimidade de votos. que ou se retiraram sob a ação do pavor. Capital Federal. L. 102 Fica suspensa a execução desta sentença. Elaborado foi para julgamento humano. Vicente Neiva (relator).ação ne invocar nem receber socorro da autoridade pública. Interrogante. em quase desfalecimento. Luaz Santiago. na forma da lei. parágrafo 2 do Código Penal Militar. Ao teu mártir coração de mãe ferido seria uma pretensa reparação. Medeiros. 77 da Constituição. do que uma satisfação. Talvez. mandam que seja o réu posto em liberdade. Júlio de Noronha. caldearam-no as tuas lágrimas e o meu sangue injustamente derramados. negando provimento à apelação e confirmando a decisão proferida pelo Conselho de Guerra. Acyndino Vicente de Magalhães. da acusação que foi intentada por julgar o crime justificado pela justificativa da legítima defesa. 2 tenente. prevista no art. 2 tenente. e medita-o. Olympio Fonseca.

A Tragédia da Piedade. Veja a sua reação através daquele bilhete que escreveu. assim. Primeiro teve de convencer seus irmãos a aceitar a idéia. onde. Mas a minha mãe continuou casada com Dilermando. O banheiro dos meninos era fora da casa. mesmo depois daqueles inúmeros sofrimentos? Quando Anna de Assis teimosamente insistiu com o seu primeiro marido pedindo o divórcio. permaneceu a seu lado. Dilermando de Assis matriculou-se no curso de engenharia no princípio de 1916 e diplomou-se com distinção no ano de 1918. quando ela enfrentou a sociedade e todos os ataques. Um ano antes tinha sido promovido a 12 tenente. Sua atuação destacada como engenheiro não se restringiu apenas a Bagé. na fazenda. Dilermando de Assis ainda publicaria outros dois livros abordando novos aspectos da tragédia da Piedade. pegando em cada ponta da toalha e passando-a nas costas. pois tantos atacaram esta mulher.Da maior felicidade. Era lindo. que teve três edições. dormia lá. E a minha mãe? A tragédia que se abateu sobre a minha mãe. a minha mãe. tenta matar o meu pai. Lembro até de um detalhe. como foi? É assim recordada por Judith: . E foi assim que aprendi a me enxugar.Papai foi a julgamento e foi absolvido. Tínhamos . com o seu próprio filho tentando matar o marido. como também fez o levantamento da planta da cidade de Castro e o seu projeto de águas e esgotos. A promissora carreira de engenheiro de Dilermando de Assis se iniciou em Bagé. ele pôde ser designado para servir no sul do País.Após a publicação de Um Conselho de Guerra. Foi o 12 lugar da turma. momentos depois da tragédia. a seguir. é morto. Afinal. Na bibliografia da tragédia da Piedade faltava um livro. Uma Vida. Tinha apenas três anos de idade. uma cidade bem distante do Rio de Janeiro. A vida toda me acompanhou a pergunta: será possível que não há sentimento. saiu Um Nome. E este rapaz. Na cidade. no governo do general Waldomiro Castilho de Lima. submeteram-se à persistência de Judith. ele freqüentava a nossa casa. mais tarde. Uma Obra. Nunca alguém se levantou em defesa desta mulher que. Lá estava Quidinho. no Rio Grande do Sul. a sociedade. poderia supor um acontecimento daquele? Nunca ela poderia imaginar que o seu filho tentasse vingar Euclides. construiu o Quartel de Bagé. merecendo destaque também a elaboração do plano rodoviário do Estado de São Paulo. E a sua vida familiar. ela apenas lutava pelo seu direito de amar e de ser feliz. Em 1946. Lembro-me dele lá em Realengo. Foi em Bagé. Era uma vida maravilhosa. mesmo sabendo que o 104 seu marido havia matado um filho seu. . os jornais da época nunca se cansaram de agredi-la. E ela conseguiu alguns anos de felicidade. ele foi o responsável pela urbanização e locação do bairro Leblon e construção de prédios residenciais. No Rio de Janeiro. realizou outras obras de engenharia. E por isso. em colaboração com o jornalista Angelo Cibela. continuou ao lado daquele homem que matou o seu filho. num lançamento de O Cruzeiro. E através das frestas eu ia espiá-los tomar banho. altiva e senhora de uma personalidade invulgar. e. Formado em engenharia. era de tábuas. No curriculo de engenheiro de Dilermando de Assis ainda constam muitas outras realizações. Como. Vi os meus irmãos esfregando a toalha nas costas. Judith Ribeiro de Assis considerou publicá-lo como uma tarefa de sua vida. Enfim. Enxugo-me até hoje dessa forma e lembro da cena vista quando criança. primeiro a desnorteou completamente. uma vez que ainda optavam pela vontade da mãe de jamais divulgar a sua participação nos acontecimentos.

o tio Dinorah. ouvia as conversas e. tinha falecido e deixado uma herança para minha mãe. minha mãe ficou contra e a ouvi várias vezes dizer a ele: "Dilermando. Daí que papai comprou três casas conjugadas e transformou-as numa só. lavava os pés dele. fazia-nos 105 cantar. afirmando que o faria um craque de futebol. Eu aprendi a jogar pôquer no colo do meu pai. Era pequenininha. de nada adiantaram os argumentos de mamãe. Enfim. já muito doente e quase que inteiramente aleijado. Família mesmo. implorou. E a vida transcorria serenamente. pôquer. reduzido a uma cadeira de rodas. Muito conforto. . O papai se encontrava numa situação financeira muito boa. o que dia a dia se tornava quase impossível. resolveu montar uma olaria. De forma que. Procurava sempre minimizar o seu sofrimento. depois ceávamos. morava em nossa companhia. Esteve muito mal. O meu pai não atendeu a seus rogos.tudo. buscava uma bacia. O Rio é a nossa desgraça. os fins de tarde eram calmos. Era canto. tio Dinorah. quando ele já tinha dez anos. Papai tudo fazia por ele. quando ele voltava. A nossa situação na sociedade de Bagé era invejável. Papai ia para o trabalho. E mamãe fazia chocolate. E éramos tão felizes lá. Nós estamos tão bem aqui. pedia uma bola e queria ensinar ao Luiz como chutá-la. tinha de recitar isto. Esta movimentação era praticamente todas as noites. Foi durante o período em que o casal discutia sobre a volta ou não para o Rio que Luiz contraiu tifo. mamãe o recebia com muito carinho. a Laura tinha de recitar Pintainho do Pato. E a repetiu. tirava as botas dele. Recuperou a saúde e o pai mandou-o para o Rio. brincavam." 106 *** 22 E éramos tão felizes no Rio Grande do Sul . Anna de Assis fez essa afirmação. era uma olaria muito boa. no Méier. dama. não ocorreu nenhuma transformação na vida . Todos os bens imóveis em Bagé foram vendidos. A mudança se deu para a casa da Dias da Cruz. Era uma família. declamação. Éramos papai. se percebia alguma discussão. dependendo de seu irmão para sobreviver. E não foi atendida. Laura e Judith. bolo de milho. na maior felicidade e contentamento. Ela discutiu. Tratavam os filhos com muito carinho. O padre da cidade freqüentava a nossa casa. E os fornos. seus cinco filhos e tio Dinorah.Eu os ouvia discutindo no quarto . internando-o num colégio. um atleta. insistiu com o marido para que permanecessem em Bagé. Toda noite tínhamos em casa verdadeiros saraus. afora a presença de um trágico passado. Pois imagine o que é um ex-jogador de futebol. . a nossa casa era muito freqüentada. Nós éramos uma família muito organizada. A princípio. riam. Era uma casa enorme.diz Judith. Aprendi vendo-o jogar com os amigos. Passado pouco tempo. servia sempre uma ceia. Enfim. ficava aflita e queria saber o que estava acontecendo. quase morreu. que quando papai anunciou a sua intenção de voltar ao Rio para cursar a Escola Superior de Guerra. tudo corria tão bem. toda a família se transferiu para o Rio. Tanto conforto. apoiado em uma bengala. não vamos. Tinha três compartimentos. os dois cantavam juntos. punha-se de pé. ele batizou com os nomes de suas três mulheres: era S'Anninha. Nesta época. amargurado por uma vida inútil? Luiz sempre se recorda que nesta ocasião. Jogavam xadrez. papai tocando violão. Era ele e outros amigos de papai.O Rio é a nossa desgraça. Túlia. nossa família passava por momentos de tranqüilidade e paz. aos seus pedidos. É que minha avó materna. 313. mamãe. então.Eu sempre fui muito bisbilhoteira. ia lá jogar gamão.

23. Quando Epitácio decretou a prisão do marechal Hermes. Contra as forças legalistas. diante de iminente derrota. O País encontrava-se em estado de sítio e em tais condições se manteria até o fim do governo de Bernardes. embrenhando-se em território boliviano e desistindo de derrubar o governo Bernardes. O ano é 1922.Papai seguia a sua carreira militar obtendo promoções. Foi na 108 casa da Dias da Cruz. inicia o curso da Escola do Estado-Maior. perseguida implacavelmente pelas forças legalistas de Artur Bernardes. todo dourado. na coluna de operação no Sul. Encerrava. No ano seguinte. Washington Luís Na carreira milítar do general Dílermando de Assis consta a seguinte anotação: 1924 . Era então uma menina de nove anos. E conquista a medalha de honra e o título de Grande Campeão de Tiro do Brasil. desta vez no Rio Grande do Sul. Uma questão de pequena importância levou o presidente Epitácio a punir o marechal Hermes da Fonseca. Em 7 de junho de 1922 era proclamado o 122 presidente do Brasil o mineiro Artur Bernardes. Foi uma festa lindíssima. louvores.familiar de Anna e Dilermando de Assis. acionou o estopim de uma revolta nos meios militares. lutaram os militares descontentes e. na inauguração do estádio militar. que acabou fazendo um governo quase sempre sob o estado de sítio. na cidade do Rio de Janeiro. ex. a vida era mais ou menos a mesma de Bagé. já que este se findou para empossar o novo eleito. conseguindo elogios. Aí veio a revolução de 1924. . Após a revolução é que tudo se modificou. Eu fiquei deslumbrada.se o governo de Epitácio Pessoa. E aquela beleza de festa! Assim. ela uma beleza de mulher. No entanto. sob a chefia do general Isidoro Dias Lopes. No ano seguinte. em 22. É o ano em que se classifica em primeiro lugar na prova de tiro de fuzil. alcançando o primeiro lugar entre os da sua arma. eleito a 12 de março. Por toda a sua vida Dilermando de Assis foi um exímio atirador. encontravam-se no Paraná as tropas de São Paulo e as comandadas por Prestes. Lembro-me da festa de 15 anos do meu irmão Luiz. surgia a perspectiva de paz no País com a posse do novo mandatário. abril de 1925. Foi rapidamente sufocada e ficou conhecida na história brasileira como a revolta tenentista dos "dezoito do forte".presidente do País e de prestígio inabalável nas fileiras do Exército. A. Faz o curso da E. 109 A Coluna Prestes dissolveu-se apenas em março de 1926. eclodiu nova rebelião em São Paulo. recém-empossado. que explodiu em 5 de julho de 1922. durante a revolta. sob a direção do tenente Luís Carlos Prestes. O. uma presença deslumbrante ao lado de papai cheio de medalhas. Em outubro de 1924. Quando se comemorava o segundo aniversário da revolta de Copacabana. eles dançando. valsando. E a sua vida familiar no Rio. ainda era muito feliz. estes se retiraram para o interior do Estado.Comanda o Regimento Provisório "Dilermando". evidenciou-se que entre os militares existiam descontentes também com o presidente Artur Bernardes. seguindo depois para o Paraná. comandante . Vejo ainda a mamãe com um vestido de lamê. todo garboso.. e Dilermando se vê promovido a capitão. Após uma série de desavenças eleitorais. O general Azevedo Costa. outra revolta de forças militares. A revolta não se alastrou entre outros militares descontentes pelo resto do País e se restringiu ao forte de Copacabana. originando-se a famosa Coluna Prestes que percorreria o País espalhando o seu apelo revolucionário.

Estavam em constante desacordo. O cheirinho. Sempre aquele desespero. A mamãe detestava isto. De saudades da mamãe." Dilermando de Assis participou das campanhas militares no período de revoltas e batalhas ao lado das forças legalistas: . Mas na semana que recebíamos visita. 10-X-24. Saíamos de quinze em quinze dias. Assis esperava que. E aconteceu. então dormiu num banheirinho que existia fora da casa. Às vezes. Foi uma revolta. Ele colocou o Luiz e o João interno no Colégio Militar." Anna de. Nós ficamos apenas quatro meses no colégio. O João. como recordação da campanha do Alto Paraná. E todos éramos agarradíssimos com ela. então. certo dia. Eu dormia agarrada com o cinto da mamãe. Era assim. principalmente na forma de educar e criar os filhos. desentendiam-se com maior constância. deu uma surra nele. Para sentir o 110 cheiro dela. A moldura de uma foto que pertence a Frederico tem a dedicatória: "Ao meu traquinas Frederico Guilherme. Brigavam. os dois não se entenderam mais. uma briga mais séria entre ele e a mamãe. Aos seus gestos de autoritarismo. então ela tinha uma aflição. fugiu. Ele voltou da revolução muito diferente. Ela reagia e não aceitava aquele procedimento truculento do marido. papai queria afastar os filhos da mamãe. diante de tanta atenção e cuidado. E datam desta época os seus primeiros desentendimentos com mamãe. Não podia dormir dentro de casa. Então. Porque ficamos doentes. Não sei por que razão.A vida militar de papai não tem um senão. interno no Colégio Militar. Dilermando. Já a sua vida familiar merece alguns reparos. Quando papai levantou-se pela manhã e descobriu o João dormindo lá. dizendo que foi muito perseguido durante a revolução e que chegou a ter a sua cabeça valendo um prêmio de 50 contos. Não sei por que razão. Para os seus acessos de cólera e agressividade. com o passar do tempo. em que por duas vezes seu pai milagrosamente salvou a vida. Ficamos de tal maneira doentes que ele foi forçado a nos tirar do internato. Eu e minha irmã Laura fomos internadas no Colégio Nossa Senhora da Piedade. Dilermando de Assis ainda se desculpava com as seqüelas das batalhas da revolução de 24. Era uma coisa estranha isto. ela não ia. ofereço-lhe esta lembrança. Dilermando se acalmasse e tudo se normalizasse. Mais agressivo. Dormia agarrada com um pedacinho de roupa. O que não . Ela nunca nos visitou no colégio. Mas isto por apenas um dia. Cenas idênticas se repetiram e levaram Anna de Assis ao desespero. Ele se descontrolou de tal forma que mamãe resolveu sair de casa e levou todos os filhos. a mamãe ficou desesperada. Veja. ele ia. ela respondia com sua altivez e valentia. ele se desculpava por seus momentos agressivos. os filhos também queriam estar com ela.da coluna. Ela queria os filhos juntos dela. A partir desta briga. esta coisa inexplicável. Minha irmã também. com medo de papai. Rio. eu e Laura morríamos de saudades da mamãe. Como Anna e Dilermando estavam sempre em desacordo nas questões domésticas. se referiu ao capitão Dilermando assim: "agradeço a esse bravo e valoroso oficial os inestimáveis serviços prestados á legalidade e louvo-o com muito prazer pelas admiráveis qualidades de caráter revelados na angustiosa sítuação em que os acontecimentos o colocaram e onde se houve com tanta nobreza e galhardia. Já tinha perdido quatro filhos.Se mamãe queria os filhos juntos dela. claro. uma noite. um pânico terrível do que poderia acontecer com os demais. o tratamento dispensado aos filhos era também diferenciado: . uma surra de talabarte. Fugiu e veio para casa.

de forma que. além de protegerem as passageiras da chuva. em sua casa. o raiar da velhice. impediam que fossem vistas pelo lado de fora. Judith não saberia explicar o que levou sua mãe a chamála e determinar que a acompanhasse. Certamente. Ao atingir a rua desejada. 111 *** 23 O mistério se escondia numa rua do Encantado O ambiente familiar naquela casa do Méier não era mais de felicidade e paz. na porta de sua residência. Foi com a sua voz pausada que ela indicou um endereço ao motorista. A chuva aumentou e o motorista foi obrigado a arriar os impermeáveis. Foi com certo nervosismo que a mãe percorreu a casa e escolheu uma das crianças para acompanhá-la. não negaceou em agir e desfazer incertezas. curiosa. quando. grande e confortável. Tudo para Anna de Assis era inexplicável e confuso. Muitos anos depois. os caminhos de uma mulher se podem também ordenar por sua ação e desejos. O carro ainda rodou alguns momentos e Anna de Assis pediu ao motorista .É aqui. Judith ouviu o motorista afirmar: . Apenas não atinava com as intenções de sua mãe. Os filhos de Anna de Assis espalhavam-se por aquela casa. Foi ali que ela aprendeu que se os destinos de uma nação se fazem com as vontades do homem. prendê-los aos ganchos das portas do carro. Judith. Pontualmente.aconteceu e a levou a investigar a vida do marido fora de casa. Conseguiu se acalmar. Era uma mulher decidida. A providência satisfez Anna de Assis. Até ali a sua vida tinha sido uma prova insofismável de sua determinação e não seriam os anos. Somente depois de adulta é que pôde compreender a seqüência daqueles movimentos. À véspera daquela manhã de chuva. seguiu a mãe. e seu semblante perdeu o tom angustiado. Anna de Assis já havia combinado com um motorista de carro de aluguel para que a apanhasse. por volta das 10 horas. nos seus 12 anos de idade. O carro se encaminhou para o interior do bairro do Méier. Judith não raciocinou nada. até certa manhã em que começou a se movimentar em busca de uma solução. Sempre foi. presenciou e ouviu aqueles homens importantes. que iriam quebrantá-la. Se Anna de Assis indicou aquele endereço com tamanha certeza e para o local se dirigia naquele dia e hora. A sua angústia vinha muito mais dos gestos ansiosos e 112 tensos da mãe do que da imprevista saída. a ordem dada naquela manhã estabeleceria uma cumplicidade entre mãe e filha que se estenderia até o fim da vida de Anna de Assis. Ainda mais que ela não conseguiu explicar à filha para que lugar se dirigiam e qual a finalidade do passeio. Se lhe passou pela alma o momento de dúvida. Desde menina. seguindo para os lados de Encantado. Naquele momento. tramarem a queda do Império. entre curiosa e aflita. era porque já sabia da cena que iria presenciar e ter a filha como testemunha. Ela sabia que era uma mulher chegando aos 50 anos e que o seu companheiro ainda mantinha a virilidade de quem não chegou aos quarenta. cada um dístraído com os afazeres normais de crianças e de adolescentes daquela época. lá estava o veículo.

ainda se volta e beija outra vez aquela mulher que o deixa sair após alguns afagos e carinhos. De outro. vivendo momentos de dúvidas e incertezas Ele tinha de um lado S'Annínha. A vida corria assim até que mudamos do Méier para a Rua São Januário. Tudo piorou mais ainda depois da descoberta da mamãe.Nenhum dos dois cedia um milímetro de suas posições nos seus entraves domésticos. imediatamente. E as duas ficam na mesma posição. tapa a boca da menina com a mão. Ela olhou para fora do carro e viu uma rua com uma série de casas baixas. não tem com que se distrair. ao ouvir a filha quase gritar. e se vira para se retirar. seguindo-o. ela percebe que alguém sai de uma daquelas casas baixas. A rua está deserta. a responsabilidade de pai e. Eram personalidade muito fortes. a vida familiar se tornou insuportável . impaciente. beijam-se. aquele passado. Nada se ouve. passava por uma rua do Encantado para se encontrar com a amante. . não muito distante do carro estacionado. Naquele momento. Finalmente. Anna de Assis. em São Cristóvão. os impermeáveis continuaram fechados. com acontecimentos constrangedores. Mas fazia as refeições lá em cima. Anna de Assis retira a mão da boca da menina. antes de se retirar. bem como cinco filhos. Não eram refeições amigáveis. mais alguns momentos. Somente quando chegam ao portão e ele beija mais uma vez a mulher. eu fico triste de relembrar tudo isto. Nem mesmo o barulho da chuva. Por isso. que saía para o quartel entre 4 e 5 horas da manhã. Anna de Assis regressava para a sua casa sabendo que o marido. Esta casa da São Januário tinha uma escada de mármore e por baixo desta escada tinha o chamado porão habitável. Eles caminham em direção à rua. apenas observando o silêncio da mãe. um dia a sua grande paixão.que estacionasse. por trás do impermeável embaciado. Ela quase gritou. olha o papai. assim.Vamos voltar para casa. já que Dilermando de Assis. mas não se permite nenhum comentário. muito mais uma simples garoa. sabe que o motorista percebeu todas as intenções daquela pequena corrida. abraçados. a nova paixão? Estaria aí a explicação para a sua radical mudança diante da mulher e dos filhos? . Judith. Hoje. mas preciso contar a verdade. Juntos. antes de voltar para o almoço. 113 . ainda abraçados e completamente distraídos. param. além do mais. como que compreendendo finalmente o motivo daquele estranho passeio. até que o homem desce um degrau saindo da casa e surge uma mulher. seguindo em direção oposta à que estava estacionado o carro com a sua mulher e filha. caminham pela estreita ruazinha do jardim plantado em frente à casa. Dilermando de Assis se afasta da casa. O papai passou a residir neste porão.Mamãe. Lá ficamos por um ano e pouco. A chuva fina persistia. num gesto rápido. mas disse papai com a voz enfraquecida. Ela disse mamãe alto. reiniciam a caminhada. eram refeições com brigas. público e devassado. Judith se conteve calada. mostrar por . Ela apenas ordena: . é que aqueles pingos de chuva permitem que Judith identifique aquele homem. A água escorrendo pelo celulóide amarelado não permite que ela veja melhor. Ele estaria apaixonado e.é Judith que recorda. muito parecidas.Depois que mamãe descobriu a causa daquilo tudo.

Eu vou embora. Nós ficamos espantados. Para se ter idéia como avançaram e a que ponto chegaram os obreiros euclidianos. em entrevista publicada na A Folha dera a denúncia ao sr. o filho caçula de Anna e Euclides. constantemente enredado em assuntos envolvendo a morte e a obra de seu pai. cada um com a sua malinha na mão. nunca fui ouvido a respeito. Não dez. após um desentendimento. abandonando Euclides da Cunha para viver o seu grande amor com Dilermando de Assis. 115 *** 24 Onde estão as outras vítimas deste trágico enredo? Manoel Afonso da Cunha. crescia perseguido pelos falsos protetores. fiquem. Foi em certa manhã que. Não trocávamos idéias sobre aqueles acontecimentos. o mesmo Grêmio entendeu de processá-lo por crime de injúria e calúnia. fundado em 1925 e mais conhecido. ora enfrentando os inimigos de sua mãe. Após esta briga é que mamãe nos chamou e comunicou que abandonaria o papai. Eu jamais contei a qualquer irmão a cena que vi com a minha mãe. pois não comentávamos um com o outro o que se passava. Nunca discutimos a vida deles. Registre-se que o grêmio Euclides da Cunha referido não é o de São José do Rio Pardo. Se quiserem ficar com o pai de vocês. Sei que de certa maneira estou condenando o meu pai. ora aqueles que se locupletavam com a herança deixada pelo escritor. apossar-se do produto da venda dessas obras. transcrevemos um artigo que Manoel Afonso publicou no jornal Rio-Imparcial. ela viu os cinco filhos. sem nem saber para onde ir. E saíram todos. ela esticou o dedo e o condenou: . verdadeiros algozes.que os meus pais se separaram. visto que fora eu quem. A sentença do juiz. três crianças. O principal responsável por tudo quanto foi publicado sou eu. depois de todas as tragédias e sofrimentos.Você é o único homem que não tinha o direito de prevaricar. o sr. Alguns anos mais tarde. Anna de Assis foi a mulher que um dia saiu de casa. Orestes Barbosa. Ao marido atordoado. Ou opinamos. de 24 de fevereiro de 1921. prontos para acompanhá-la. era injusto. injusta porquanto o senhor Orestes Barbosa foi . Nunca um irmão chegou para o outro e comentou por que o papai e mamãe tanto brigavam. Orestes. publicando-as. redator da A Folha. essa mesma mulher não titubeou em chamar os filhos e comunicar: . Momentos depois. meu pai disse um palavrão horroroso. há tempos publicado um artigo em que acusava o grêmio Euclides da Cunha de apoderar-se de obras do seu patrono. Mas eu tenho que falar 114 a verdade.Eu vou embora desta casa. nem vinte. E nenhum filho comentou com o irmão que o pai procedia com maldade. mas inúmeras vezes ele teve de contestar. UMA SENTENÇA INJUSTA Tendo o brilhante jornalista. dois adolescentes. o que acontecia. O processo que correu um tanto tumultuadamente porquanto testemunhas que como eu deviam ser chamadas a depor. visto como o jornalista Orestes Barbosa transmitiu ao público o que lhe relatei.

os seus acusadores lhe pretendiam atirar. vendo que nesta terra não ficam à solta os ladrões. Maurício Jopert. decidindo o caso como decidiu. presidente do grêmio clandestino do qual é advogado Humberto ou Ernesto de Basconcelos Brasil. não pronunciando por calúnia o nosso companheiro Orestes Barbosa. apesar de injusta veio tornar patente que eu só disse a verdade e que aquele jornalista não transmitiu aos seus leitores uma notícia falsa. solidários com um indivíduo que merece a execração pública. que entrevistou o filho do saudoso acadêmico Euclides da Cunha. tanto que o condenou apenas por crime de injúria. 117 *** 25 A vítima esquecida de . por luminosa sentença condenar Venâncio e seus comparsas pelo feio crime de se apoderarem do alheio. como querem fazer crer os que o dirigem e de quando em vez fazem inserir notícias nos jornais. do trabalho e do nome de Euclides da Cunha. Certamente o juiz que condenou o jornalista Orestes Barbosa vai muito breve.. Felizmente. que se constituíram numa verdadeira quadrilha para assenhorar-se do que me cabe por legítima herança. não fazendo como os que inventaram esse grêmio clandestino a fim de viver à custa das glórias. A seguir. o meu inolvidável pai. que são. arranjaram um grêmio donde têm auferidos largos proventos. o juiz Almiro Campos salvou a reputação deste jornal. provando que tal grêmio não tem existência real e nem tem sede.. A Folha publicou esta reportagem: UMA CONDENAÇÃO QUE ABSOLVE O juiz Almiro Campos não reconheceu calúnias nas reportagens da A Folha. É curiosa agora a posição das testemunhas. veio confirmar tudo quanto Orestes Barbosa disse contra os diretores do grêmio. injusta como já disse. por julgar veemente demais a sua linguagem contra os individuos que.muito honra o trabalhador de jornal que vê o seu nome salvo da pecha que além de tudo. os srs. iludindo os incautos e continuando assim a locupletar-se com os rendimentos resultantes das publicações dos trabalhos do saudoso autor dOs Sertões.o excesso de linguagens dos seus artigos . estão sendo gozados por Venâncios e outros seus colegas que vivem à tripa forra à custa do que me pertence. por meu intermédio. Além de Manoel Afonso da Cunha. afinal. Esses bens. O despacho do juiz pronunciando o jornalista por injúrias . veio provar no entanto que Orestes Barbosa é um jornalista que honra a sua classe e trabalha para manter-se. que me pertencem. Edgar Sussekind e comandante Coriolano Martins. demonstrando ao público que os bens do infortunado jovem foram assaltados por um grupo que tem por chefes Francisco Venâncio Filho. à sombra do nome do meu infeliz pai. isto é. alguém mais sofria os efeitos daqueles treze tiros do dia 15 de agosto de 1909: Dinorah de Assis. 116 A sentença do juiz. O juiz.apenas o transmissor da queixa que eu fiz. por cujo pensamento nunca passou a idéia de que semeava para que viessem a colher dos frutos Venâncios e outros indivíduos. Fico aguardando a sentença para elogiar o senhor juiz por esse ato que toda a opinião pública aplaudirá. Raja Cabaglia.

foi espectador. Dilermando de Assis ainda vive. A sua atuação foi magnífica e o seu nome correu logo pela cidade. se possível. paulista também. bem podem compreender que a missa mandada rezar pelo clube alvinegro foi. a fim de que o tormento. ou nada. o ato singelo e tocante não pode ter grande significação e não passou além do registro feito pela imprensa. e quanto mais esse episódio doloroso das letras brasileiras recua.Victor Etchegaray. muito se tem dito a respeito de seu homicídio. Octavio Werneck. fez celebrar. Para os "sportmen" de hoje. uma missa por alma de Dinorah de Assis . Os da velha-guarda. irmão idolatrado de Dilermando. Começa assim: Já lá vão quase quatro décadas que Euclides da Cunha foi morto. em 1908. deliberadamente. nalguns aspectos. e o quadro do América enfrentou com galhardia o Fluminense e o Botafogo. e viveu o bastante para assistir. Muito se fala nas tragédias que motivou Dilermando de Assis. envergando a camisa alvinegra. um artigo sobre Dinorah de Assis. não menos terrível. a se desenvolver. iniciado pelo seu inimigo . naquela. nos moldes da tragédia grega.culpa que parece crescer à proporção que cresce a glória póstuma de sua vítima insigne. e. em todos os detalhes.drama que parece materializar uma maldição. muitas fábulas cresceram à sombra que embrusca. ou os que o assistiam no campo de luta. Puliem. Belford Duarte e Armínio Motta. um preito de saudade ao companheiro que. E Dinorah. é conhecido o tradicjonal clube. envergando a camiseta rubra do América. além de um ato de religião. O jornal carioca O Sport. o acontecimento trágico. atônito e angustiado. sim. A SUA FAMA FOI DESDE LOGO CONFIRMADA. de 24-6-1929. para que se não enodoe o grande nome daquele que a provocou: Euclides da Cunha. sendo que este último foi vencido num dos jogos . É que Belford Duarte. o jornalista Acélio Dauat escreveu para o jornal Folha da Tarde. também. diante de seus olhos qual uma punição propinada às gotas. o matador do maior estilista do Brasil. passado adentro. não se recusou a aceitar o oferecimento de Belford para disputar o campeonato de 1908 pelo referido clube. como fossem: . à concretização de terrível drama. que nasceu da bala assassina. que não tinha ainda predileção. Formou. até hoje. dure toda a eternidade. trabalhou com bravura e lealdade para a conquista do título do "glorioso" com que. os dois mais afamados quadros do ano. capitão do alvirubro. de Porto Alegre. alistou-o logo no seu clube. ainda vive. em 22-10-1946. entretanto. os que lidaram e conheceram Dinorah. pouco. de Euclides da Cunha: a bala que se alojou na espinha dorsal de Dinorah de Assis. menos fácil tem sido separar o fantasioso do verídico. vem sendo furtada à primeira plana da ribalta.dos "players" do célebre conjunto alvinegro de 1910. na matriz de 5. mais entressachados parecem estar os fios da lenda com os fios da história. João Batista da Lagoa. Vinha da Paulicéia com fama de ser excelente zagueiro. de uma terceira tragédia que.Euclides da Cunha Com este título. Dilermando de Assis. cuja única culpa lhe vem sendo imputada . uma zaga formidável com Belford Duarte.C. sendo comparado com os beques da época. publicou a reportagem: 118 UM ASTRO QUE RUTILOU NO CÉU DO PASSADO Não se esqueceram os botafoguenses de Dinorah de Assis O Botafogo F. Foi há vinte e um anos passados que Dinorah surgiu na nossa capital. aos poucos. foi autor involuntário de duas tragédias. E isto ficou demonstrado logo na primeira partida em que tomou parte. "A vítima esquecida de Euclides da Cunha".

como acima já falamos. foi um dos seus maiores baluartes. o grande "player". Dinorah tinha todos os recursos sem que se desviasse das regras do "association". No jogo returno contra o Fluminense. AS QUALIDADES DO "PLAYER" Dinorah de Assis. até que um dia chegou a triste notícia de sua morte. o jovem aspirante de Marinha. nos momentos de "scrimages" perigosas. Em 1911. pretextos fúteis para não jogar. Exemplo de lealdade. não voltou mais. E Dinorah brilhou. como hoje.. "O CORAÇÃO PULSOU.pelo "team" alvirubro. Fez parte. era um zagueiro completo. Dinorah formou com Puilem a zaga do "team" e tornou-se campeão da cidade. honrando a farda gloriosa da Marinha que envergava nas ruas e a camisa alvinegra do valente Botafogo com que aparecia nos campos. Aquele moço forte. Tal. aliás a principal partida do ano. pelo maior entendimento do jogo de conjunto. levou o Botafogo a se afastar da Liga. A sua resistência de moço e o amor ao seu clube levaram-no a tal imprudência. deixando livre o arqueiro. E era belo de ver-se. Em 1910. havia falecido. Dinorah de Assis. o Botafogo foi de rara infelicidade. onde brilha o sol radiante dos . o "Ano do Glorioso". Era um botafoguense de coração.. deixando os seus amigos de outrora envoltos na nuvem da saudade que. o "player" não procurava o jogo violento como caminho de uma vitória que não pode ter significação. nesta temporada. quando se praticava o esporte pelo esporte e os jogadores não tinham sequer o dinheiro para o jantar e o automóvel. entrava em campo para defender o Botafogo. Os anos correram e a sua fama foi desaparecendo. e . deixou o América para envergar a camisa alvinegra. em resumo. como um tipo perfeito de atleta que era. Dinorah. contra toda expectativa. Dinorah estava no apogeu da sua gloriosa carreira. para só voltar em 1913. por questão que não vem ao caso 119 narrar aqui. em jogo isolado pelo menos. Dinorah afeiçoara-se ao Botafogo e.já naquele tempo. logo ao iniciar o campeonato. cheio de vida e mocidade. enviava a esfera para longe entre o delírio da multidão entusiasmada. E Dinorah jogou como mestre. recebeu uma bala que lhe interessou um dos pulmões. fazendo parte. E . pois. embora o Botafogo perdesse pela diferença de um gol. Colocava-se perfeitamente. É que. o que foi. 1909. garboso na sua farda. ao invés do chute a esmo. turva o céu azulado. pois que decidia o campeonato. Neste ano. um brado de guerra nas lutas esportivas.. do célebre conjunto que foi a maior glória do Botafogo e.note-se bem . o que se não pode negar é que. procurava sempre entregar a pelota ao "half" um ardor digno de realce e não tinha. pois que o quadro tricolor logrou triunfar por 2 x 1. porém. o coração falou mais alto. Os "sportemen" do passado lamentaram e o Botafogo se cobriu de crepe. como um astro de primeira grandeza. Bem diz o poeta nos seus versos maravilhosos que a mocidade é como a cotovia de ouro que nasceu e morreu numa manhã de abril. uma semana antes. para murchar como uma flor em plena primavera da vida. como muitos "players" de agora. que já era.. nos tempos de outrora.naqueles tempos que já se foram. entre o delírio da grande assistência adepta do Botafogo. uma questão. de quando em quando. que aqui surgiu em 1908 e desapareceu pouco depois de 1910. Sete dias depois. "players" existiam superiores talvez aos de hoje. garboso na sua farda de aspirante de Marinha. O seu chute firme e seguro. não podendo resistir. no jogo contra o América. em esporte. Dinorah. BOTAFOGO!" No ano seguinte. Se nos tempos atuais os quadros são mais perfeitos em técnica.

o único que resta em cena. no qual apenas entrara. num derradeiro impulso de carinho. Antes. como o desventurado Édipo: . tê-lo quase como um inimigo! Tentou ainda. seu caminho trágico encruzilhou com o do irmão. O jornalista gaúcho Acélio Dauat encerra o seu artigo. Na verdade. teve interrompidas sua carreira na Escola Naval e como jogador de futebol. arrojando-se nágua. E nesses sítios escusos foi que o demônio da tragédia o tomou. "A vítima esquecida de Euclides da Cunha". em sua loucura. seu Dinorah. andrajoso. da mais humilde felicidade. agora. ao cabo de pouco tempo. Mas este. precisamente aquele que mais o amava. Enveredou-se por esse caminho. com ênfase: Aleijado. Restava-lhe. a pedir esmolas. a mesma que guiou a pena. que Dinorah de Assis foi ferido no pulmão. se tem querido deixar sem aplauso. entrou de desavir-se com Dilermando. Dinorah. cuja nobreza. andando. de novo. Um dia. o tiro de Euclides da Cunha o atingiu na nuca. aquele que tudo fora capaz de fazer para tê-lo hígido e trjunfante. comprometido pela toxidez etílica e. Exatamente o quarto. 121 era uma vítima de Euclides. o instrumento escolhido pelo destino para vingar Euclides da Cunha. por isso. Antes. Dinorah. por isso que se considerava como o causante involuntário de mais esta desgraça: a invalidez do irmão. encovilhada nos recessos de uma alma incompreendida. num lampejo de razão. E não mais teve dúvida: dirigiu-se ao cais do porto. obstinadamente. a mesma que premiu o gatilho. pela mão. E. agora. aquele que. ambos nascidos da mesma destra. provocar os gozos fáceis da embriaguez nos contubêrnias de lupanares.botafoguenses. Paralítico. foi alvejado de raspão. O aleijume apartara-o. se o não recusou. diante de três cadáveres. Com o organismo combalido pelas insônias orgiásticas. tampouco o aproveitou. agora. degradava-se mais e mais. já não bastava vê-lo demente. tomou consciência de sua inutilidade. Terminara seu papel na tragédia "Assis". mergulhou na demência. porém. com sua carreira na Escola Naval destruída. Dinorah ficou hemiplégico. implacável ressentimento. Mas. e sem remédio possível. ao chegar nesse ponto. irremediavelmente. apenas. sem dele tirar nenhum proveito. ele próprio. agora. por vê-lo assim.. quando Dinorah procurava fugir do escritor. na sua loucura. dar um pouco de conforto ao malfadado irmão. há-de exclamar. no braço e seu lado esquerdo. tolhido na sua virilidade . pelas ruas. finalmente. Fora.Dinorah carregava o desgosto profundo de precisar deixar o mundo. também ele.. seu querido Dinorah. Sua vida miserável era irmã germana de Os Sertões. Em conseqüência do tiro na nuca. o único por onde o compeliam suas trôpegas passadas. apenas. até necessitar da caridade alheia. precisava. infectado pela sífilis. equivocadamente. Mas a tragédia continua. sofria todas as amarguras dantescas da compunção. remoendo. 120 A reportagem do jornal O Sport informa. E esse personagem. amparado num bastão. o hostilizava! Já não bastava vê-lo aleijado. apenas. não mais quis recorrer. Sim! Seu irmão adorado. Ao irmão. afastado de todos os prazeres singelos e puros da mocidade.

Viveu. pedindo que no sábado. Em notícias sobre Dilermando de Assis. Se uma infeliz manhã de domingo não tivesse existido em sua vida. É mesmo inacreditável que ferido a bala num domingo venha a jogar no seguinte uma partida de final de campeonato. não estando incluído no team que se mediu contra o campeão. Paulo.C. Sua missão era comunicar ao escritor que Anna e o filho Luiz se encontravam em Santa Cruz. devido aos três ferimentos a bala. que chegou a ouvir alguns gritos do escritor amaldiçoando a mulher. nervosa. em vez de considerá-lo um atleta incomum. envolvido na emocionante tragédia da estrada real de Santa Cruz. tornou à delegacia para esclarecimentos. além de sofrida. ao se aproximar da casa de Euclides. Como a que lhe fez Anna. C. Pode parecer absurdo que Dinorah de Assis tenha jogado futebol com uma . Lá no subúrbio havia chegado a notícía de que Euclides procurou pela mulher na casa da sogra. no mínimo."Oh Deus! que quisestes fazer de mim?" A reportagem do jornal O Sport de 1920 está correta quando informa que Dinorah defendeu o Botafogo na partida de domingo. notou-lhe em grande alvoroço e maiores exacerbações de ânimo. informou: Uma nota final Causou grande estranheza e mesmo indignação entre todos que assistiam ontem ao return match do Fluminense contra o Botafogo ter Dinorah de Assis tomado parte nessa festa e o que é ainda mais notável. Devido ao relato de Dinorah. a inclusão como "cúmplice". entre o Botafogo F. resolveu regressar a Santa Cruz e informar a Anna da impossibilidade de um entendimento com Euclides. ainda no noticiário sobre a tragédia da Piedade. o que quer dizer reincidir no escândalo. Sob nossa ótica de hoje. Ao que consta entre os espectadores do match. como um equívoco ridículo. de 23 de agosto de 1909. além do comentário: Seu irmão Dinorah tomou parte no grande match de futebol de desempate. quando ele nunca passou de apenas uma vítima. em Copacabana. ferido pelo tiro de Euclides da Cunha. foi para atender a solicitações. O fato despertou muitos comentários. fosse até à Rua Nossa Senhora de Copacabana. Mais curioso ainda é transcrever as notícias dos jornais da época e perceber que. uma semana conturbada. ou 122 apenas aquela conseguida nos campos de futebol como beque do Botafogo. a que pertence e o Fluminense F. no campo de São Cristóvão. No entanto. Dinorah pretende brevemente exibir-se do mesmo modo em S. esse comentário jornalístico de O Paiz soa. a sua fama teria sido outra. A participação de Dínorah nos fatos elevou-o à posição de cúmplíce na morte do escritor. realmente. Como o seu depoimento foi divulgado pela imprensa com diversas incorreções. se abstivesse de uma tal exibição. 14 de agosto. No domingo anterior. 23-agosto-1909 O jornal O Paiz. Como Dinorah. contra o Fluminense. e ela teve intenção de voltar à sua casa. esperava-se que. O estado de ânimo exaltado do escritor colocou Anna apreensiva. Dilermando e Euclides. na situação especial em que se acha. Se em algum momento agiu buscando auxiliar o seu irmão e à futura cunhada.. Por muito amor que ele tenha ao sport inglês. se duas balas não o atingissem. chamaram-no "escandaloso". seria apenas um simples espectador no drama amoroso Anna. ele foi medicado em hospital militar e no dia seguinte já comparecia à delegacia de polícia para prestar depoimento sobre os acontecimentos em sua casa. Correio da Manhã. Anna decidiu não regressar ao seu lar. 22 de agosto de 1909.

o mais completo apoio de nossa desassombrada diretoria. Dinorah. . absolutamente inocente no tristíssimo caso em que se envolvera um seu parente e o escritor Euclides da Cunha. a última apresentação do jogador Dinorah pelo alvinegro. O Futebol no Bota fogo (1904-1950 . Dinorah de Assis atuou pela última vez no quadro principal do Botafogo. O Botafogo sagrou-se campeão e o time ganhou naquele ano a alcunha de 'glorioso. confirmado pelas notícias dos jornais e até mesmo no relatório do delegado de polícia Oliveira de Alcântara. pela voz da assembléia geral de 15 de outubro. Mimi e Lauro. Em 25 de junho jogou como goleiro do 22 time. que seria o campeão paulista do ano. A História do Botafogo está registrada no livro de Alceu Mendes de Oliveira Castro. a partida final contra o Fluminense. defendendo o nosso bravo jogador. na vitória de 8 x O sobre o 22 time do América.edição do autor). homem próximo de genialidade. teve. registrada no livro O Futebol no Botafogo (1904-1950). Na temporada de 1910. Abelardo. atuou de centro-avante. Formou-se com: Coggin. É o relatório que contém as inúmeras inverdades refutadas por Dilermando de Assis. No entanto. no Velódromo. Lulu e Viveiros. procurou construir a hipótese de que o dr. era um quase demente. como conseqüência da terrível tragédia. Euclides da Cunha. tendo sido este o time: Coggin. Décio. Dinorah. Alceu Mendes de Oliveira Castro pode-se constatar que o craque Dinorah voltou a se apresentar em 12 de setembro contra o time do cruzador inglês Amethyst e em 26 de setembro disputou o jogo oficial contra o América. Dinorah disputou 9 partidas dos 10 jogos oficiais. que ratificou a atitude da diretoria. sem que tivesse a menor culpa. Pulien e Octavio. ousava . no qual o seu time foi vencido por 2 x 1 pelo forte quadro do São Paulo Athletic. contra o tricolor. em seu campo. encerrado a 10 de setembro de 1909 e publicado na íntegra pelo jornal Gazeta de Notícias. Gilbert e Emanuel. impulsivo e insano. a ausência dos elementos que disciplinam os homens normais e lhes moderam a ação basta lembrar que Dilermando ao dar as suas primeiras declarações. cuja Liga pedira sua exclusão da embaixada. quando cancelou uma excursão a São Paulo. nosso grande e infeliz zagueiro. o seguinte comentário do escritor: A 22 de agosto. o fato se deu. feriu-se o encontro decisivo contra este clube e após uma luta gigantesca o Botafogo foi derrotado por 2 x 1. no capítulo referente à temporada de 1909. vencido pelo alvinegro por 3 x 0. num jogo interestadual. e Dinorah. Lulu e Lefévre. depois. Gilbert fez o nosso gol nos últimos momentos e os tricolores resistiram aos nossos impetuosos ataques. em que aparece.bala encravada em sua espinha dorsal. Foi em 25 de setembro. à página 46. Exibe no parágrafo final: 123 Para documentar a insensibilidade moral. ainda ferido. jogando vivaz e alegre com afronta aos sentimentos de piedade de uma sociedade inteira.insensível e risonho comparecer a uma partida pública de futebol de "maíllor" e calção. em São Paulo. 124 Dinorah de Assis jogou pelo Botafogo em 7 de maio de 1911. Pulien e Dinorah. MilIar. E o clube apoiou-o. Afastado do quadro para refazer-se. dor e piedade a cidade do Rio de Janeiro. Venceu por 6 x 1. Rolando. contra o Rio Cricket. Emanuel. Ainda no livro do Sr. no campo do Fluminense. Rolando. em que as circunstâncias envolveram-no acidentalmente. cujo resultado foi empate de 1 x 1. Em 14 de maio daquele ano. poucos dias após o evento que abalou de surpresa. Flávio.

figurou apenas em dois ou três jogos. provar sua inocência e debater a principal acusação que lhe impunham: a de ter sido protegido de Euclides da Cunha. Perduram nos setores de pesquisas dos jornais as frases que condenam: "O assassino de Euclides da Cunha. Respondia apenas: Eu não tenho que me defender. apresentou-Se. embora lhe fosse inferior. estava muito doente. O gol estava ainda sob a vigilância de Ernesto Coggin que. no referido ano.A minha defesa é o meu silêncio. Ou como na Folha de São Paulo. no Cemitério Irmandade do Santíssimo Sacramento da Catedral de São Paulo. astro de grande brilho. onde não havia falhas. jogando-se na água. Já então. 125 *** 26 Monteiro Lobato consulta a sua consciencia Durante anos. Eu não tenho do que me defender. Ribeiro da Silva. em São João Del Rei. de 3 de setembro de 1986: "A infiel Ana era filha de general. ao lado dos pais e do irmão. Puilen. mas ainda assim o apoio do Exército só saiu depois que o roteiro do filme foi examinado por três generais." Se a tragédia se fez com tiros e generais. no cais do Porto. Zagueiro como poucos têm aparecido no Rio de Janeiro. principalmente. publicada quinze anos depois. era o melhor beque do ano. era. sendo que Dinorah de Assis é relembrado como um dos importantes jogadores do time campeão de 1910: É que o glorioso clube alvinegro. com uma formidável equipe. pelo dr. Dilermando de Assis". jamais comprometeu a sua equipe. quando o autor comenta sobre o time glorioso de 1910. Não compareceu às redações dos jornais e não foi aos livros de história para modificar lendas e desfazer equívocos.. já em decadência. o seu jogo firme e a sua calma assombrosa fizeram delirar os muitos apaixonados do glorioso Botafogo. E reforçava o seu raciocínio: . se não foi um guardião de primeira ordem. O primeiro. no jazigo da família. quer na defesa. quer no ataque. Dinorah estava no apogeu da sua carreira esportiva.] Dinorah e Pullen eram os zagueiros. Suicidou-se em 1921. Está sepultado em São Paulo. Pôde. um excelente "full-back". em conseqüência do ferimento. Somente em 1913. do Fluminense. como o ex-militar Euclides da Cunha. a mesma Folha de São Paulo noticiou a 3-9-8 6: As barreiras caíram no começo deste ano. o cadete Dilermando de Assis. foi extraída. Dilermando de Assis escreveu livros. a bala que atingiu Dinorah em sua espinha dorsal. [. Para se aprovar um roteiro de filme sobre a vida do escritor.Em O Futebol no Botafogo. sendo que o grande Vitor. E o amante dela. em 1925. também atingiria o generalato. . por sua vez. ou seja. o certo é que o Exército brasileiro sempre criou obstáculos para veicular notícias não só envolvendo o militar Dilermando de Assís. conhecendo todos os segredos do futebol. em Porto Alegre. Argumentavam que ela possuía motivos relevantes para refutar acusações. publicou cartas e foi entrevistado. Mas os equívocos renascem e se espalham pelas redações dos jornais brasileiros. jornalistas e escritores procuraram Anna de Assis em busca de seu depoimento sobre a tragédia da Piedade.. ele transcreve uma crônica da Ilustração Sportiva.

filhos e netos de Anna de Assis convivem com embargos militares. irretorquível. de probidade absoluta: UMA TRAGÉDIA DE EsQuILo Monteiro Lobato Tivemos aqui entre nós. E a vida desse . Euclides. Não se tem por objetivo atacar e desmoralizar o cidadão Euclides da Cunha nestas páginas. um perfeito "caso de tragédia grega" isto é. Uns somos peões.. tudo se deu ao enleio de atitudes ora violentas. outros. casou e foi infeliz em sua união conjugal. até mesmo. Somos todos nós pedras de xadrez no tabuleiro da vida. E como não ser assim. Até que uma das filhas de Anna de Assis. frases de jornais que simplificam dramas e enodoam memórias. acobertar seqüelas transparentes.tão instrumentos do Algo Superior que os maneja como os reis de xadrez! Pobres peões humanos. Não há como esconder atos. Basta de tantas falsas lendas e tamanhas fantasias. coisa grande. algumas vezes indiferentes. Euclides pai e filho e uma mulher . torres. o reforço de pena mais ilustre.agiram todos como pedras de xadrez em movimento cego no 127 tabuleiro. E nem se deseja nas páginas de um livro sobre a vida de Anna de Assis desmerecer o escritor Euclides da Cunha.. insuspeita. coisa medíocre: era um grande rei por merecimento. outros.e rainha e rei. na realidade são movidas de acordo com os planos concebidos pelo jogador e que jamais serão penetrados. Édipo. não será preciso no dia-a-dia das notícias ressuscitar a sua morte. Jogaram com ele uma tremenda partida . Já o homem merece alguns verbos que o sacralizam no rol dos pecadores. No tumulto do trama tecido pela Fatalidade.Só se ama uma vez na vida. ora mansas. o que é definitivo. Euclides era rei: Dilermando. outros.Dilermando. A sua obra é intangível. bispos. cavalos . o rei enloqueceu e forçou o peão a matá-lo. Dilermando de Assis e Anna de Assis. Judith. O autor de Os Sertões é uma glória da literatura universal. Um regicídio! A sociedade sentiu o mais profundo dos abalos porque Euclides não era rei apenas por direito de nascimento. E sua grande paixão foi Dilermando de Assis. As pedras de xadrez movem-se . E se a obra de Euclides da Cunha cresce no século e se torna clássica. Já o homem Euclides da Cunha é um cidadão que amou. surge e convence seus outros irmãos a romper o pacto de silêncio.e ele sempre a julgar que quem fazia o jogo era ele. Enquanto Anna disse e reafirmou enfaticamente: . Jocasta. Os protagonistas ..126 E assim. Hitler foi um rei de xadrez. Dilermando. tão impotentes quanto os reis de xadrez . em 1909. Reafirma-se: o escritor Euclides da Cunha é inatacável. Orestes.julgam-se mover-se. Mas não se redime a viúva de Euclides desviando-se de fatos e de verdades.. se ele era "rei"? Pobres reis humanos. Vamos buscar. O seu casamento com Anna se deu pelos múltiplos interesses sociais de uma época. imortal. E todas as fulminações choveram sobre a cabeça do peão que teve de matar o rei. O intuito é bem outro. tão manejáveis como os peões de xadrez! ALGUÉM brinca no tabuleiro da vida com o teatrinho de títeres que somos. pequenino peão. de tragédia caracterizada pela presença invisível da deusa Fatalidade. Se ele amou sua mulher.

quando conheci todos os detalhes do processo. nunca se dignando nos revelar os objetivos de suas jogadas? Para a sociedade não há crime maior que o de peão matar um rei. nada disto. Mas. em decorrência da sua separação conjugal. fiador. falava com o proprietário e estava tudo bem. refugiou-se na ilha de Paquetá. a qual se utiliza de nós como simples peças. se somos títeres e quem dirige a trama é a grande jogadora de xadrez Fatalidade. por parte de Dilermando. tomados ambos de acessos de demência. Recorda com facilidade dos acontecimentos na ilha de Paquetá. se chegava e dizia: quero alugar aquela casa. Ela estava com 51 anos e plenamente disposta a enfrentar as incertezas de uma vida solitária. o primo Hidelbrando. que poderia ele fazer senão o que fez? Como agir de outra maneira. 129 *** 27 A vida isolada de Anna e filhos na ilha de Paquetá Quando Anna de Assis saiu de casa. naquele tempo. que. não se defendesse.o maior devoto de Euclides agiria tal qual Dilermando. só então vi. banheiro. além de Hidelbrando Saladino Monterroyos. mamãe e Laura num quarto e no outro. Entramos na casa limpa. ferozmente acossado pelo animal existente no atacante. senti em tudo a mão glacial e inexorável da Fatalidade . Mas ficou difícil sustentar toda aquela gente. Mais nada.e no ímpeto cego da legítima defesa mataria até ao próprio Shakespeare.Chegamos lá sem nada. . sou obrigado a confessar que. Sobre ela meditei muito tempo. não fizesse a mesmíssima coisa? Que atacada por Euclides e o filho. Dormia eu. como Dílermando se defendeu? Se ponho a mão na consciência e me consulto. com a responsabilidade de alimentar cinco filhos. cozinha. Eliseo Monterroyos. mamãe foi e comprou esteiras. Já o homem merece alguns verbos que o sacralizam no rol dos pecadores. o . embaixador do Brasil na França na ocasião. Além de meus três irmãos. dadas as circunstâncias. E uma coisa até hoje me pergunto: haverá uma só criatura normal das que olham Dilermando com horror. dentro daquelas circunstâncias. dentro do quadro daquelas circunstâncias. Não tinha nada. os meninos. conseguiu o estritamente necessário para tornar a casa razoavelmente habitável. Judith está com 13 anos. Mamãe dividia com a tia Alquimena uma pensão do vovô. e pois tal fato só é possível quando a Fatalidade guia a mão do regicida. Não tinha contrato. Em 1926. deixou o filho residindo com o tio Di ler mando. Só aquelas roupinhas. dominado pela incerteza. Lá. 128 O escritor Euclides da Cunha é inatacável. O pai. seguida por seus cinco filhos.a mesma que levou aos seus crimes o inocente Orestes. eu . O animal que há dentro de mim. comprou estrados. Como antigamente se comprava fiado com facilidade. Era primo de seus filhos. Mas. reagiria em pura ação reflexa .peão passou a ser um inenarrável martírio. A casa era dois quartos e uma sala. que também adolescente residia em sua casa e resolveu acompanhá-la. A mim a tragédia Euclides-Dilermando me abalou profundamente.

Ela nunca mais apareceu para ele. ele jogou o pote na parede. através da pressão. fazia tudo. Depois ele nos descobriu. Os filhos. Papai contou de seus sofrimentos de campanha na revolução. Mas ela não cedeu. Daí. e depois a importância enviada pelo papai. Mas ela começou a cozinhar e dar pensão. tendo às mãos um pote de água. ele teve um rompante de raiva. muito gostosa. Ouvia a mamãe. lavava. mamãe. Quando ele esteve em Paquetá nos procurando. Fazíamos nossos pedidos através de cartas. o aconchego da mamãe. ele passou a enviar um mínimo. Aquela comida à antiga. tínhamos apenas o carinho da mamãe. Sem tempo para se cuidar. apertos. que escrevi cartas apelando para papai nos mandar coisas. ela procurou transmitir aos filhos seu caráter. muito barriguda. 131 Relembrados por Judíth. Depois de muito tempo. todas as unhas dela tinham unheiro. Pois ele ficou muito tempo sem saber onde nós estávamos. sobressaem os fatos em que surgem a tenacidade e o estoicismo de Anna de Assis. E ficamos escondidos durante muito tempo na ilha de Paquetá. ela os convocava para preleções. íamos vivendo. espatifando-o. em contrapartida. que se distinguiram para todos que com ela conviviam. desesperos. De certa forma. Ela cozinhava muito bem. Assim. Marcantes. confessou que se encontrava um pouco perturbado. é horrível. eu quero ajudar. dona Regina Nunes da Costa Barbosa. Era no Quartel-General do Exército. Minha mãe saiu fugida mesmo. Com o dinheiro das marmitas. É uma micose que come a unha totalmente. Mesmo assim. esfregar fogão. Enfim. ela não deixava. Ele mandava o que queria. Quis. não vai estragar as suas mãos. brigava comigo. Não deixava a gente fazer nada. Respondeu a ele 130 de dentro do quarto. Até que o papai resolveu colaborar mais. catávamos siris. Aquela mulher que teve tanto conforto. Isto depois que ele nos descobriu. Servia comida em marmitas. Passando fome. Éramos sete para comer. as mãos cheias de unheiro. Eu é que ficava ali no pé dela. pretas de fuligem. Ela trabalhava o dia todo. tornou-se a nossa professora. Algumas moldaram a personalidade de seus filhos que cresceram imunes aos traumas de um . As suas unhas viviam sujas. eu via cozinhar. nós procurávamos o papai. Mas mamãe nunca mais falou com ele. Ela usava pomada basilicão por causa das dores terríveis que sentia. passava. não pode. de ódio. com as mãos calejadas de tanto arear panela. Era uma pensão pequena. Daí. procurou suprir a falta de colégio e assim fomos vivendo. o montepio do vovô. ela se trancou no quarto e não o atendeu. Ganhava um dinheirinho assim. a mamãe reafirmando teimosamente que não voltava de jeito nenhum. Ah. como me lembro de minha mãe daquela época: muito gorda. E ele. Nós pescávamos. por causa de muito trabalho. atendendo aos apelos de seus amigos. que chegou a viver rodeada de luxo. que mamãe voltasse. fomos vivendo até 1930. Durante a discussão. trabalhando. frio. Não sei como. não. sabíamos onde encontrá-lo. que vivia em Paquetá. são muitos os acontecimentos do período de vida isolada em Paquetá. durante os quatro anos que moramos em Paquetá.marechal Solon. assim passamos quatro anos. De repente. E mamãe trabalhando. tudo. a vida foi melhorando. Sem colégio. A senhora de Orestes Barbosa. sentindo falta de tudo da vida confortável de antes. Não dava. E amigos dele procuraram também ajudar. não nos ajudava em nada. pediu que mamãe voltasse para casa. com jornais embrulhados na cintura. Ela cozinhava. Assim crescemos. Habitualmente.

Para suprir a educação escolar. Acredito que ele quisesse reconstruir o lar porque estava prejudicando-o tremendamente em sua vida militar. do tipo. se notava. Dilermando. as crianças precisam disto. Você tem de se alimentar. Então.A princípio. começou aquela briga violenta. Depois. em que o meu pai disse um palavrão. Nunca.Tá na hora da preleção. meu pai agia mais friamente. para dar satisfação à sociedade. a viúva de Euclides da Cunha. Os meninos não podem matar. Não só durante os anos difíceis vividos na ilha de Paquetá. de quem agora vivia separada. Todos sabiam de tudo. ele queria voltar. Porque ele negando tudo à mamãe. o passado dele com mamãe não era segredo para ninguém. Ele estava vivendo um outro amor. Por exemplo. Anna de Assis repetiu o aviso aos seus filhos. E com insistência. Mamãe mandou 132 fazer um vestido para mim e outro para Laura. que culminou na separação. crianças. atingindo a nós. A partir daquele momento. Apesar de uma exposição repetida com freqüência e caracterizada com ênfase especial: . ela não cobrou mais nada e assumiu sozinha o encargo de educar e criar os filhos. principalmente o apoio . para nós ela cobrava. Por isto. Porque depois ele maltratou a mamãe. você tem de dar colégio. Não. e daquilo outro. Nem antes por tudo que sofreu. Isto ela cobrava.Quando mamãe vivia com papai e o relacionamento feliz entre eles havia terminado. você me deve. Daí. Como a mulher se manteve irredutível. você tem de fazer isto por mim. Ainda por cima. Com todas as dificuldades e sofrimentos que se pode imaginar.passado adverso. Agora. Nada semelhante. Afinal. você está sendo injusto. debaixo de excessiva proteção e desvelo. uma referência ao passado. você tem de fazer isto. como antes e depois. você mudou a minha vida. Nem quando ainda vivia com ele e se altercavam diariamente. principalmente negando-se a auxiliá-la financeiramente. eu sofri por sua causa. Ninguém ouviu a minha mãe dizer tal frase. ela era Anna de Assis. observem: as meninas não poderão errar. Nunca cobrou nada para ela. Jamais eu assisti a mamãe cobrar qualquer coisa para ela. Vocês são filhos de Dilermando de Assis. Ela exigia para nós. Não. E mantinha-os ao seu lado. nem depois pela miséria que suportou. principalmente para aqueles companheiros de vida militar. nada. Ela nunca fez um lamento. morto tragicamente em duelo com o seu marido. Era uma vergonha para ele aquela separação. bem como ensinar o convívio social. ele queria refazer a sua vida com a mulher legítima. . carregando aquela cruz. Dilermando de Assis. Ouçam. Jamais ouvi qualquer coisa neste sentido em todas as discussões entre eles. Não acredito que ele quisesse mamãe de volta por amor ou simplesmente para refazer a sua vida de casal. ele respondeu com um palavrão. a inquietação básica de Anna de Assis foi com os filhos. Quando pediu dinheiro para pagar. Exaustivamente. uma raiva da parte dele por aquela teimosia da mamãe. Quando vocês crescerem. ela nunca disse a ele: você matou um filho meu. Até me recordo agora. Não. os filhos. Dilermando de Assis buscou a reconciliação. . Nunca ela disse a meu pai. vocês são filhas de Anna de Assis. a briga dos dois. Logo que ocorreu a separação. até cruzar as pernas ou cumprimentar estranhos. nem depois de separados. por uma questão de vaidade. ela ministrava todas as lições. desde sentar-se à mesa e comer. os meninos estão precisando de roupa. a única preocupação de mamãe era com os filhos. Dilermando. ele procurou demovê-la por meio de pressões. Foi por dois vestidos. Para ela.

O passeio pela ilha de Paquetá. sem dúvida. ela sentia a satisfação de se tornar uma ajudante próxima da mãe e sua cúmplice nas preocupações e lides domésticas. mamãe Foi para o Rio e não te levou. em Paquetá. Lá estava Judith passeando e abrindo sorrisos para as companheiras com as quais cruzava.Hoje tenho de ir ao Rio receber a pensão do papai. ele sacrificava.financeiro. no centro da cidade. E ela saiu. como habitualmente?" A indagação bastou para ela dar meia-volta e regressar a sua casa. vá passear de bicicleta agora de manhã e volte para o almoço. Anna de Assis chamou os dois filhos mais velhos e comunicou: . Bem Feito. a nós. tratava-se de um hábito de turistas e de moradores. bem Feito. normalmente. passeando pelas ruas e caminhos da ilha. Não era por amor. mãe e filha. Assim analiso tudo. E chamou Judith . Conseguiram ainda uma infância normal. pois além dos sorvetes e lanches. serviu para unir os irmãos. já naquela época. Anna de Assis tinha de viajar ao Rio de Janeiro. principalmente. mensalmente. O sol forte do verão carioca não incomodava a menina saudável e cheia de energia. os seus esforços. para forçar a volta dela. 133 Além da rotina de cozinhar e atender a seus fregueses de marmita. afora os sacrifícios de um isolamento e a falta de escola e estudos regulares para seus filhos. sem as pressões de uma sociedade ávida por estigmatizar crianças e condenar inocentes. e ela se lembrou de que os três apitos de partida aconteciam num intervalo mínimo. Mãe e filhos estabeleceram uma rotina de vida em Paquetá e anos depois relembrariam aquele período com certa saudade e satisfação. Enveredou para o lado do ancoradouro e pedalou enfurecida. os seus filhos. mas as duas . Redobrou a pressa. vocês contam para ela que eu Fui. Certa manhã. As viagens mensais constituíam grande alegria para a menina Judith. Frases revanchistas e normais de crianças. Era costume trazer Judith em sua companhia nas viagens. para receber a sua parte da pensão do marechal Solon Ribeiro. antes mesmo de estacionar o seu veículo. Todos os filhos de Anna disputavam uma única bicicleta e aquela ordem da mãe significou para Judith a tranqüilidade de grandes voltas sem confrontos e disputas com os irmãos. No entanto. Depois que eu sair. saudável e que. Não vou levar a Judith. Recebidos os seus proventos na pagadoria do Ministério. satisfeita. feliz. uma vida livre. A preocupação básica de Anna de Assis naquela época era conseguir recursos para manter sua mesa farta e propiciar aos filhos um conforto ao qual se acostumaram quando permaneciam sob a proteção paterna.Bem Feito. 134 Judith nem desceu da bicicleta. autorizando a bicicleta só para ela? E por que os irmãos não reclamaram. No meio do caminho ouviu o primeiro apito de aviso.Minha Filha. Anna de Assis pôde oferecer à família. Vou na barca das dez horas e volto na barca de retorno. Dá tempo de receber o pagamento e voltar. após a visita às lojas. adquirindo o necessário para a vida em Paquetá. quando uma inoportuna preocupação fechou o seu semblante: "Por que mamãe foi tão parcial com ela naquela manhã. pedalando bicicleta. ouviu os gritos alegres e brincalhões dos irmãos: . E. percorriam o comércio.

Foi nadando atrás da barca. muito humilde e desconfortável. Procurou ajudá-la e atendia a todos com muita gentileza. em Ipanema. Assim se fez mulher e mãe. e emocionou-se com aquela prova de amizade. Duas palavras dignificam a memória da mulher Anna de Assis: mãe e amor. Eram treze ou quatorze anos de juventude. Nessa época.Mamãe. Toda a família veio para uma pensão na Rua 2 de Dezembro. Era exímia nadadora. que praticamente foi criado como filho por Anna de Assis. Enquanto Anna de Assis recuperava a saúde . 135 *** 28 Anna de Assis e filhos nunca viveram separados Anna de Assis viveu com os filhos em Paquetá até adoecer. o que a levou. Brigou contra todos por seu amor e contra tudo lutou por seus filhos. no Flamengo. nunca deixou de lutar e pensar nos filhos. Frederico. Dilermando colaborava na vida financeira da família com uma pensão. A barca se afastava indiferente. amor e companheirismo. suas lágrimas já eram várias e gritava "mamãe". Os cinco filhos de Anna e Dilermando acompanharam a mãe por toda a sua vida. posada de joelhos e rezando: Que sua súplica te dê luz para que vejas que todos precisam de instrução e que o tempo não está perdido para eles que são ainda muito crianças. 23 anos. jogou a bicicleta para o lado e mergulhou na esteira da barca que levava sua mãe. E iria até o Rio se os gritos dos passageiros não obrigassem o barqueiro a girar e retornar ao ponto de partida.primeiras lágrimas de mágoa surgiram. Foram alugados dois quartos e a dona da pensão se tornou muito amiga de Anna de Assis. dessa forma. 18. durante os últimos anos de sua existência. enviou um bilhete a Dilermando de Assis.os filhos tiveram oportunidade de conhecer o Rio de Janeiro. Tenho cinco filhos que me adoram. Ele assistiu a toda a vida de luta dessa mulher e sempre a considerou como mãe. Não desistiu. Pedalou e gritou: . lá estava Hidelbrando. Adiou a ida ao Rio de Janeiro para o dia seguinte. determinou a possibilidade de uma mudança definitiva para o Rio. no verso de uma fotografia da filha Judith. 20. A certeza de uma mulher que sofreu muitas tragédias e desilusões. O . A menina chegou ao ancoradouro. João. Foi alugada uma casa na Rua Barão da Torre. E levou Judith. Quando ela ouviu o terceiro e último aviso. as carências de sua hospedaria. seria apenas para tratamento de saúde. em meados de 1930. Anna de Assis desembarcou. Entusiasmaram-se com a cidade e não quiseram voltar para Paquetá. então um bairro em formação. somada ao montepio do marechal Solon. tentando suprir. Ainda aí. Dobrou a esquina e viu a barca se locomovendo. Separada do marido e enfrentando dificuldades. Laura.Sou a mulher mais feliz do mundo. abraçou a filha molhada de mar e lágrimas.provavelmente ela teve impaludismo . Era uma casa de dois quartos. que acolheu as três mulheres em um e os quatro rapazes no outro. Judjth. Primeiramente. 14. 17. constantemente afirmar: 136 . Mudou-se para o Rio. A idade de cada um era: Luiz. E a ajuda.

Anna de Assis recomeçou sua vida no Rio. ainda com professores particulares. Nunca tal separação de filho e mãe seria dramática e motivo de exacerbado desassossego. o mau gênio e até contra os vícios e vence. Eles se fazem ilustres. João empregou-se como escriturário na Caixa Econômica Federal. em decorrência dos anos passados em Paquetá. Depois de seus inúmeros afazeres domésticos. Ele sabia que sua obrigação era permanecer no colégio. mediante um pedido feito a Flores da Cunha. as recomendações foram severas e militares. no final do século anterior. Na Rua Barão da Torre. luta. tanto assim que conseguiram a fórmula de eternizá-la muito além de suas lembranças. bate-se com todos os inimigos dos filhos. estudar e cumprir suas tarefas escolares. Luiz e João estavam em idade de trabalhar. organizando-se para conviver diariamente com a mãe. cidade mineira que nunca foi de difícil acesso ao Rio de Janeiro. Apenas o caçula. Sim. Eis uma verdade na vida de Anna de Assis: ela jamais suportou viver longe dos filhos. não apresentavam currículo escolar para freqüentar colégios. relicário de suas ilusões da vida passada. na época em seu apogeu na política brasileira. Mas isso é assunto para o último capítulo. Luiz. já que no colégio interno obedecia-se a rígida disciplina voltada apenas para os deveres escolares. em Juiz de Fora. É o caso do colégio em Juiz de Fora. os filhos não viviam longe da mãe. ela conseguiu colocação na Marinha Mercante. Encarada mesmo como uma rotina familiar sem graves 137 questionamentos e como necessária para o melhor aproveitamento estudantil do adolescente.pai luta com a instrução para seus filhos como o náufrago contra as ondas coléricas. Laura etc. As duas moças prosseguiram os seus estudos. o meu nome é o de vocês. Se Anna chorava saudades. A saudade da mãe foi maior. Lamuriava-se e reclamava de forma a parecer que seria eternamente infeliz se não tivesse o filho em sua casa. a casa materna. Quando o seu pai o deixou por lá. Primeiro. Uma frase que foi sempre importante para todos os filhos. Era amigo de Anna de Assis desde o tempo em que freqüentava com assiduidade a casa do marechal Solon Ribeiro. Certas escolas se destacavam e atraíam a atenção dos pais. O pai esforça-se. Dilermando de Assis se propôs a pagar colégio para o menino Frederico. providenciou emprego para dois de seus filhos. luta e vence contra todos os ventos. Frederico. Naquela época. E guardou com carinho a carta em que a mãe lhe escreveu a frase mais bonita de todas. o mesmo se dava com o filho Frederico em Juiz de Fora. Fugiu. É com os filhos que os pais velhinhos vão fazer seu ninho. Para Luiz. permanecia em tempo de estudar. vão terminar seus dias. Porque o presente é presente. Anna de Assis se postou na . Pois outro não era o proceder de Anna de Assis. acompanhava-o cartas tão saudosas da mãe que ele retornou um dia ao cais de partida e tratou de providenciar um emprego em terra. a preguiça. Quando Luiz se encontrava empregado na marinha mercante e realizou algumas viagens. recolheu trocados e pagou passagem de trem. A separação de pais e filhos era normal em época escolar. Eu sou o pai do dr. era bastante comum os pais internarem os filhos em colégios. então aos 14 anos. Aprendesse urgentemente as leis da Aritmética e as regras do Português. uma vez que. Internou-o no Colégio Grambery. Tratasse de recuperar o tempo perdido na ilha de Paquetá. O menino Frederico ignorou todas as determinações. Da mesma forma. merecendo a preferência. assustou-se com imprevistos. Chorava diariamente a ausência do filho caçula. Meus filhos hoje. Saiu de Juiz de Fora de carona. da dra. mas sabia o seu destino: Rua Barão da Torre.

Sônia nasceu aos quinze minutos do dia dezoito. Morava numa rua de vila.Esteve sempre presente. sou eu. Nestor da Cunha. E seu desejo foi satisfeito.Sou eu. Se Quidinho tentou matar Dilermando de Assis. ouvindo a mãe reclamar de uma visão. Enquanto Anna de Assis se dedicava aos cinco filhos com Dilermando. Tanto assim que. Foi Nestor da Cunha. E ele também. O meu irmão Afonsinho . As portas se fecharam 138 e todas as crianças desapareceram. o Frederico . Anna de Assis agradeceu a boa vontade e a preocupação do seu filho Manoel Afonso para com os irmãos e argumentou que não aceitaria a ausência de nenhum deles. muito silêncio e paz. ainda era um bairro pequeno. Olha ele ali. residindo em Cordeiro. 139 *** 29 Manoel Afonso: um filho e irmão preocupado A ausência de um filho foi problema para Anna de Assis sempre. pedia: espera só mais um pouquinho. os mesmos que constantemente providenciaram para que a morte de Euclides da Cunha fosse um estigma aguardando vingança. Acho que estou tendo uma visão. orientou o seu filho para vingar a morte do pai. E um dia em que apareceu por lá. que se tornou um perseguidor implacável de Dilermando de Assis.A dedicação de minha mãe aos filhos durou por toda a sua vida .diz Judith . Meninos e meninas corriam e gritavam e para Anna faltava ali o seu Frederico. comigo e meus irmãos. e quero no dia de meu aniversário. se lamentou: . Manoel Afonso. sobre Nestor. no portão da vila. Ana Maria e Tânia. Na sua primeira neta e de papai. além de armar. que. Ipanema. Estava ao meu lado quando nasceram meus quatro filhos: Solon.janela de sua residência e admirava o entardecer carioca. Sônia. minha filha. O Quidinho foi instigado a vingar o pai.o menino dizia. Comecei a sentir as dores de parto na noite de dezessete de junho e mamãe. foi curioso. segurando a minha mão.comentou muitas vezes. quero uma neta. . mamãe. na década de 1930. RJ. . . instigando e armando Quidinho. Ele jamais deixou de repelir falsos protetores.Estou morrendo de saudades do Frederico. de repente. Logo que se viu separada do marido e passando por dificuldades financeiras.conta Judith. Afonsinho. recolhida em seu isolamento da ilha de Paquetá. vivendo em Cordeiro ou Rio. se propôs a custear os estudos de um dos irmãos. estou com tanta saudade do Frederico que até tenho uma visão. foi . espera o dia dezoito. Não há dúvida de que se viu induzido a atirar no padrasto. ele pouco nos visitou. isso não significava que Manoel Afonso vivesse totalmente afastado da mãe ou nutrisse por ela e por sua nova família alguma espécie de aversão. Foi mais um gesto de Manoel Afonso que exemplifica como sempre esteve ao lado da mãe. Lá mesmo em Cordeiro ou no Rio. para ela. não muito distante do mar. não foi por vontade própria. constantemente era recriminado pela 140 família de Euclides por freqüentar a nossa casa. Sônia. numa certa época. Anna continuou olhando a noite e. Anna de Assis várias vezes confirmou à filha Judith que foi o tio do rapaz. Até que anoiteceu e os pais ordenaram que todos se recolhessem. paradinho. As crianças da Rua Barão da Torre brincavam pelo pátio da vila.

como se dava o relacionamento do último filho de Euclides da Cunha. Há tempos tinha eu o seu endereço. após a separação da mamãe e papai. devido a grandes afazeres que tenho tido nestes últimos tempos. Seria para um revanchismo também? Afinal. E este encontro acontecia logo após o nosso regresso de Bagé. papel e um livro e sempre dizendo que será 141 uma escritora igual ao avô. apesar de há muito ter vontade de dar notícias minhas. Eu. posteriormente. Espero carta sua breve. é o testemunho de sua preocupação. aos domingos levo ela a Cantagalo. o nosso temor de que acontecesse algo. porque ninguém sabia se ele ia realmente em paz. Sim. trabalhando feito um leão para dar o conforto a minha família. As cartas de Manoel Afonso. ou se ia para dar um tiro. mas por hora sou obrigado a ir agüentando estas saudades até um dia eu poder ir ao Rio a fim de lhe abraçar. sempre sinto falta dos teus carinhos e das tuas rabugices e esta falta me corta o coração de saudades. pois é uma menina muito viva e só quer estar cercada de livros. creio também que será uma inteligência igual a Norminha. ele disse. manteve até a sua morte um convívio amigável e de irmão para com os filhos do padrasto. creio que Norma puxou o talento do avô. transcritas a seguir. Albertina. o que felizmente veio. eu não vou criar outra tragédia. ele ficou aqui no Rio com a família de Euclides da Cunha. Foi um sobressalto. Mamãe peço que a senhora me escreva sempre. Pelo contrário. querendo assumir a educação de um de nós. tornou-se amigo de todos e provou o seu desvelo para com a mãe. vou indo bem. para o bem. fiquei assim impossibilitado de escrever. Muitas de suas cartas para mamãe podem provar isto. Lembranças de todos e no mais receba um beijo do filho amigo que lhe pede a sagrada bênção. O intuito é apenas evidenciar que este filho do escritor jamais imaginou repetir o gesto insano do irmão ao tentar assassinar Dilermando de Assis. mas por uma eventualidade perdi-o. sua mãe e irmãos. para assim eu poder avivar as minhas saudades. Ele viu o medo da própria mãe de que se repetissem cenas trágicas. coitada tem estado bastante doente. pois sou pobre e se não trabalhar estou perdido. vovô. As notícias que posso dar dos meus é a seguinte: as suas netinhas Norma e Eliet vão indo muito bem. Sei que estou nesta falta gravíssima para com a senhora. em 1923. mas também não pude de pronto lhe responder esta carta. Cordeiro. quem me dera poder lhe abraçar e passar umas horas perto da senhora revivendo as saudades. Cunha . E o gesto dele. não precisam temer nada. E quando ele percebeu aquele nosso medo. política etc. o ideal de brincadeira dela é um lápis. 28 de junho de 1927 Minha sempre lembrada mãe. esperei uma carta sua em que viesse novamente a direção. já foi duas vezes ao médico e com os remédios que está tomando tem estado numa dieta de mingau e leite há quase um mês. Não me foi possível como era o meu desejo de responder com a máxima brevidade a carta que a senhora me escreveu. o encargo é muito grande e tenho que trabalhar muito para dar conta. aliás bem ponderadas para que minha querida mamãe me perdoe desta falta. revelam também. graças ao bom Deus. Ele disse exatamente assim. quando passávamos por privações. além de expor como ele vivia ao lado da mulher e filhas. por si próprias. junto ao monumento de papai e ela fica satisfeita batendo palmas e chamando vovô. Mas desta vez ele nos acalmou e. repetir o gesto desesperado do irmão mais velho. eu venho em paz.um rebuliço. mas vou expor as minhas razões. A Elieth com seis meses e pouco já está gatinhando e muito viva.

Agora a coisa está outra em casa. resolvi que já estava farto dos ciúmes de Albertina. Minha mãe. agora vivemos assim: eu não ponho os pés na casa deles e nem tampouco eles na minha. não temos mais ciúmes em casa. . para mostrar que não me deixo levar assim na sopa. Mamãe. Albertina. mas como eu não vou para esta fita. a única 142 amiga e conselheira deste mundo para mim. se bem que eles nunca gostaram de mim. por conseguinte fiz acabar com isso. porque tenho estado um pouco adoentado. porque eu não me deixo levar na sopa. quem te viu em criança é olhar para a Norma. eu estrilei. vá. que veio encher-me de bastante contentamento. Breve mandarei o retrato das tuas sobrinhas. se eu fosse um bandido. nunca procuro fazer mal a ninguém. A mamãe como vai? Dê muitos beijos por mim nela sim? Quero sempre saber como vai de estudo. é só eu regularizar a minha vida. O bastante e dei uns coices para trás. a única coisa que me prende são as minhas duas Filhas que amo-as como um louco. Minha boa irmã Judith.Minha sempre lembrada mãe Saudades Ontem recebi a sua carta. a senhora tem boas amizades por conseguinte por intermédio seu podia me arranjar aí no Rio uma colocação de uns quinhentos mil réis por mês porque eu não tenho mais vontade de ficar aqui em Cordeiro. um assassino. ficaram na encolha. eles compreenderam que comigo não levavam vantagem. pelo contrário. O filho amigo Cunha. eu queria lhe pedir um grande favor. e olha. Norma e Eliet enviam-te muitos beijos. Diga à Laura que não escrevo agora para ela porque a Albertina também vai escrever. Mamãe. mas não. Vou terminar pedindo que abraces todos os nossos irmãos por mim e no mais aceite muitos abraços e beijos do teu irmão Cunha. então responderei à carta dela domingo.. e estranhei muito. já escreve bem. e foi sopa. Abraços Li e reli a tua prezada cartinha. eles pretendiam pôr a canga em cima de mim. Eu sou tão bom para todo o mundo. eu estou gostando do teu adiantamento. Tens ido muito ao cinema? Eu hoje à noite vou assistir à fita Miguel Strogof que é um assombro. como o Luiz teve ocasião de ver quando esteve aqui. As tuas sobrinhas estão todas boas. Estou completamente arrependido da vida de casado. é preciso ires estudando cada vez mais. pois estou completamente incompatibilizado com o meu sogro e a minha sogra. agora imagina você o meu contentamento quando comecei a ler a tua carta. já vê que não preciso dizer que ela é bonita. não sei por que tenho esta sina tão triste de ser infeliz. entro a hora que quero e saio também a hora que me apetece. pensei que estavas zangada comigo. a Normínha é o teu retrato. porque estava muito triste devido a falta que cometi com você no dia que telefonei aí para casa.. me escreva sempre sim? Lembranças a todos e saudades e abraços do seu filho que te pede a bênção. Quando que for ao Rio vou trazer você e a Laura para passarem uns dias comigo aqui em Cordeiro. A consolação que tenho é que ainda tenho a minha mãe. e eu também fiquei. Albertina também vai te escrever. porque tenho lhe escrito inúmeras vezes sem ter algo de sua resposta e como é que por sua vez a senhora também me escreve dizendo que não recebe carta minha? Acho que isto é simplesmente relaxamento do correio. não posso de pronto marcar o dia que posso ir aí ter a satisfação de lhe abraçar e passar uns dias junto da senhora para assim poder matar as minhas saudades.

Vimos até cenas violentas. Sou mulher. Daí. A palavra "agora" explicou o seu comportamento depois deste ano. que foi viúva de Euclides da Cunha. infelizmente. como sempre foi adorada e amada por todas estas seis pessoas e seus descendentes. são fatos que não me interessam. Quero falar das condições de vida da minha mãe. Havia nascido a sua filha em abril daquele ano. eu vou ser a primeira a casar. e ele respondia que jamais o faria. E posso também afirmar que o meu pai tem motivos para ser venerado e respeitado por seus filhos. Se depois ele se apaixonou por outra mulher. Judith revela: . ela vai ficar só. depois a Laura se casa. Ele disse a Mécio que várias vezes seu tio Nestor dizia a ele para vingar as mortes do irmão e do pai. Ele tentando arrombar a porta para falar com ela. tinha inclusive dois andares. O fato dele ter se apaixonado por outra mulher. O meu noivo ficou num hotel e eu e meu irmão nos hospedamos na casa de Afonsínho. deduz-se que ele superou a campanha dos familiares de Euclides que tentaram induzi-lo a uma vingança. não o recebia. o . . No dia de meu casamento. Afonsinho faleceu. Ele revelou o mesmo também ao meu primeiro marido. Quero dar o meu testemunho da vida desta mulher que viveu muitos anos apaixonada por aquele homem que mudou a sua vida. Tudo dentro de um entendimento perfeito. residia com a mãe e irmãos na Rua Barão de Jaguaribe. Mécio. encontrei-me com papai que subia para me buscar.verdadeiro culpado da morte do rapaz? 143 *** 30 Anna e Dilermando não se viram durante anos Judith casou-se com Mécio de Andrade em 19 de setembro de 1932. e meu irmão João. onde residia e era membro da diretoria do Colégio Modelo. acompanhada de meu noivo. vou sair de casa. Foi o que ele disse. Lá fui. com ela ter uma filha. Ficamos lá durante quinze dias. ele me convidou para passar uma temporada em Friburgo. até mesmo de formas violentas. mas nunca vi uma paixão igual. pois às vezes me confessava que continuava apaixonadíssima pelo meu pai. os filhos se vão. Ele e Mécio ficaram muito amigos e se corresponderam depois.Pela leitura das cartas e pelo comportamento de Afonsinho para com os irmãos. Quero falar da vida de meu pai com a minha mãe. Muito tempo depois é que fui perceber a razão da resposta. por que você não volta para casa? Será que não é possível?" Ele disse: "agora é tarde". vamos deduzir: se ele procedia assim com Afonsinho. Foi quando lhe pedi: "Papai. Antes. preciso mostrar como criou e educou cinco filhos e um sobrinho. Suas vindas à nossa casa eram dramáticas. muita atenção e carinho. sendo portanto.Mesmo quando eu já era moça. ouvi Afonsinho comentar que seus tios tentaram fazer com que ele vingasse a morte do pai. é uma união que 144 . quando vinha descendo a escada. Com uma força de vontade brutal. a mamãe vai ficar sem uma filha. já que em junho de 1932. ele tentou a reconciliação. Na época. Eu que o diga. também muito amei. E mamãe repelindo todos os seus assédios. não procedeu igualmente com Quidinho.Esta nossa casa era melhor. com ela teve uma filha. Isto não quero esquecer. Quando fiquei noiva. por pouco tempo. através de muita pressão. Mamãe se trancava no quarto. passou por várias tragédias. muita agressividade.

imprensa e livros escreveram os equívocos sobre a morte de Euclides da Cunha Durante anos. Aqui cheguei com um atraso de duas horas. Isto. porém dentro de um lar feliz a ouvirem o rir dos queridos filhinhos. tive filhos. ela tinha razões de sobra para afirmar a ele que era o único homem que não tinha o direito de prevaricar. Em cada canto deste florestão. 146 *** 31 Inquérito. ainda murmuram no balanço das folhas e no cair das águas esses dois nomes: Pery! Cecy! Assim eu quero vocês. O fato de amar uma vez. Rio. E para sermos completamente felizes.B. ela esteve pela primeira vez com Dilermando de Assis. o exemplo do amor. separar-se. Ninguém pode e deve julgar ninguém. Eles. Como me senti feliz nesses sete dias! Foi uma semana santa que Deus me ofertou com o bondoso auxílio de vocês. Só que diante de tudo que a minha mãe passou para viver com ele. sendo que então posso acreditar que além de uma vida amorosa tumultuada tenha havido também a influência dos momentos difíceis passados na revolução de 24. sempre e sempre bem unidinhos. porém sem novidades graças a Deus. de seus netos. Como vai o meu Solon? Muitas saudades tenho tido de vocês. Minha mãe só se preocupava com a felicidade de seus filhos. o militar Dilermando de Assis se viu impedido pelo Exército de conceder entrevistas e se defender das muitas calúnias com . casei-me depois com Ivan. a murmurarem: Mé cio! Judith! Não em uma floresta. Casei-me a primeira vez com Mécio. após seis anos de separação. Só lamento as ocasiões em que ele faltou para com os seus deveres de pai e para com as suas obrigações de marido.merece o nosso respeito e está acima de qualquer julgamento.Você é o único homem que não tinha o direito de prevaricar . eu agradecia a Deus a tua união com o Mécio.escreveu uma linha de sua história que se completa com uma determinação invulgar. E novo encontro se daria apenas em julho de 1950. o que é perfeitamente humano. é perfeitamente normal. que os abençoasse. em 1932. assim como deste pedaço de céu caído a nossos pés. S'Anninha (N. Temos direito é de sermos felizes e lutarmos por isto. se casar. no que se refere a obrigações financeiras em determinado momento. No dia do casamento de Judith. As cascatas confundiam-se com as minhas lágrimas de gratidão que sIlenciosas enfileiravam-se gota a gota em meu coração. Ali no Imbuhi eu pedi ás almas de Pery e Cecy. temos de ver a sua memória limpa de falsidades. 10/IV/935 Meus queridos filhos Saudades. preocupada com o nosso futuro. E em soluços íntimos. ou como um homem carinhoso e pai dedicado em outro. tem um pedido meu de paz e felicidades para vocês. Anna e Dilermando não se viram durante 18 anos. Mas acredito que meu pai tenha se apaixonado pela segunda vez.) Mil beijinhos no Solon 145 Quando Anna de Assis disse . Veja a carta tão bonita que me enviou. Eis o que deseja esta velha mãe que os abençoa.

atravessando a sala." O delegado Oliveira Alcântara em todo o inquérito.. Para que esse livro não seja consultado e sirva para reviver falsidades e enganos surgidos pelas mãos de um incompetente delegado de polícia. com que Dinorah estava vestido. Á página 291. Então. Seja. o sr. fora aí para matar ou morrer. E Euclides. Uma Vida. em 6-1-1941. Em resumo. os principais protagonistas da tragédía. edição da José Olympio Editora. afirmado. transcrevemos as declarações de Dilermando de Assis quando trata do assunto: . Foi uma atitude absurda e inexplicável. Efetivamente... a medir de baixo para cima" como se de címa para baixo a medida não fosse a mesma: "quando Euclides e Dinorah" monologavam "na sala. Andou muito mal o sr." E somos. Uma Obra: [. disparando sobre este o primeiro tiro. Entra em minha casa armado e fere-me sem reação imediata de minha parte. Seu relatório não 147 pode servir de base a qualquer juízo honesto e seguro que se pretenda fazer sobre as verdadeiras ocorrências que levaram á morte o escritor Euclides da Cunha. Ressaltamos que a reportagem em Diretrizes foi motivada pela publicação do livro A Vida Dramática de Euclides da Cunha. disse. conclui-se daí. Um Nome. de forma a elucidar melhor. Euclides era deputado. principalmente. à procura de minha residência. Euclides. Dilermando de Assis reproduziu sua entrevista à Diretrizes após uma revisão e pequenos acertos. Uma Vida. pela ignorância e pela má fé. que disparou contra ele dois tiros. Aquele "saudoso escrítor" acima citado. o delegado escreve: "nada há que prove a veracidade dessa atitude do saudoso escritor. dando com o pé. perguntou "se o dr.as quais era perseguido.. de passagem. Uma Obra.. eu e meu irmão Dinorah. Depois de tudo isto. ocorrências ligadas a 15 de agosto de 1909. Euclides. nervoso." É o sr.. Alguns trechos serão reproduzidos a seguir. que nada há que prove a veracidade dessa atitude do saudoso escritor. já de revólver em punho. O dr.É lamentável que um escritor tenha perpetuado numa "coleção de documentos brasileiros" as inescrupulosas informações de um delegado de polícia mentiroso e sem brio.] prosseguindo afirma o aspirante (Dinorah) que o dr. porém. Apenas contribuiu para consolidar ficções em torno da morte do famoso escritor. Euclides da Cunha. Elói Pontes transcrevendo as sandices e as calúnias nele con tidas. segundo as declarações de Dinorah. foi "barbaramente assassinado. Euclides cogita de pôr tudo em "pratos limpos" desde a véspera. de autoria de Elói Pontes. do qual nos valemos em algumas oportunidades para esclarecer acontecimentos da vida de Anna de Assis. Consta do livro de Elói Pontes um trecho que foi destacado por Dilermando de Assis em Um Nome. Segue de trem para Piedade. a túnica branca. Elói Pontes quem se presta a veicular essas inconsistências. Vai à casa de parentes para armar-se de um revólver embalado. Atira e fere pelas costas o meu irmão Dinorah. o delegado não conhecia nem de nome. Elói Pontes transcreve o seguinte: "[. Dinorah agarrou-se com o dr. abriu a porta do quarto de seu irmão." Seu relatório está cheio de tolices assim: "à altura de 50 ctms. constituiu-se um importante documento. em 1946. dirigiu-se para o corredor e. 'detonando a quinta cápsula "com o intuito de tentar um possível cartucho de revólver etc. tendo entrado na sala. Ao chegar à Piedade.. Ao publicar o seu livro. A entrevista de Dilermando de Assis a Francisco de Assis Barbosa à revista Diretrizes. achava-se chamuscada de pólvora e traspassada por bala no braço . primou pela falsidade e pela mentira.

constata-se que. na defesa da minha. terminada a luta. que. E por que. encaminhando-se para a porta do quarto do aspirante do Exército. enfrentava um louco armado de revólver que queria me matar? Não me assistia o direito de matar Euclides. que. Dinorah conseguiu livrar-se do dr. Elói está oitenta). Continuando a leitura: ." Pelo exame da planta da casa. estando eu no "centro do quarto"? Veja-se a planta da casa.. que é o primeiro. Euclides e correu para o seu quarto. ferido. ouviu o primeiro tiro de revólver de Dilermando. repito. já então só. pelo menos a cabeça e o braço de fora. seria preciso que eu chegasse à porta e colocasse. em frente à qual recebeu o segundo tiro. Dilermando observa: Medite um instante. sendo nesta ocasião ferido pelas costas. O laudo da autópsia descreve todos os ferimentos de Euclides como recebidos de frente. em vez de o dar na cabeça ou no tronco. que é o contíguo. sendo que o corpo deste o cobria todo. se é que queria matá-lo? Um "bárbaro assassino" não poupa assim sua "vítima" Por . entre a porta do quarto de Dilermando. feri -lo com outro tiro. e do seu irmão. colocado no corredor. comentando-a: ao mesmo tempo que via Dinorah fechar após si a porta do aposento. Durante esta luta. do que se pensou. no meio do corredor. sobre o bolso do lado direito. o aspirante do Exército (Dilermando) correu a uma prateleira sobre a qual estava o seu grande revólver de calibre trinta e oito (no livro do sr. voltou-se. alvejar o di-. que o atingiu no pulso. apresentava "pela frente " sem que esses projéteis tivessem trans fixado a porta do quarto. uma vez que meu irmão não tinha responsabilidade alguma pela situação. como poderia ter sido ferido no quadril direito. se estava de costas para mim.para o seu quarto? Então.e na cintura. Euclides. apesar dos quatro ferimentos de bala que. Entretanto.o delegado infame é que informa tal coisa . não podendo porém. do que se resolveu praticar? Com que direito Euclides procurava assassinar Dinorah pelas costas quando este corria . Como podia Euclides voltar-me as costas perseguindo Dinorah. tem alguém o direito de dizer que Dinorah foi um "bárbaro assassino"? E o que me cumpria fazer neste caso. Euclides. Nestas condições.Já o projétil foi encravar-se no quadril direito do dr." A mentira é fácil de destruir. cujo forro rasgou em ângulo ao sair. e constate-se o absurdo. vendo em risco a vida de meu irmão. pelas costas. O dr. Euclides porque este estava agarrado com Dinorah. muito menos pelo fato de sua esposa ter ido abrigar-se em minha casa? E as demais vidas que só a mim cumpria defender? Dilermando destacou outra parte do relatório policial. para alvejar Euclides. do centro do quarto (veja bem: "do centro do quarto") o alvejava pela meia porta aberta.. lhe daria eu um tiro no quadril direito. Euclides. constatado tudo isto. o dr. que foi travada no corredor. sendo impossível apontar do "centro do quarto" Mas eu tinha que passar por um covarde. adiante do quarto de Dinorah. na coluna vertebral se eu estivesse já armado e em condições de o alvejar lívremente? Dinorah continuaria a "cobri-lo todo"? Haverá quem de boa fé aceite esta cantilena? 148 Quem poderá fazer a descrição exata do que se passou. O trecho é a transcrição do relatório do delegado Oliveira Alcântara.

disparando o tiro que o fez cair mortalmente ferido. é . é preciso admitir também que para mim continuaria a iminência do perigo. encravando-se uma bala na fechadura da porta que dá acesso da sala de visitas para o corredor. contra quem Euclides disparara mais dois tiros. Se se voltasse. um direito que eu exercia. ou. que quererá dizer "com o intuito de tentar um possível cartucho de revólver"? É impossível explicar. Elói Pontes. transcrito quase que na íntegra e sem comentário pelo sr. admitamos que verdadeiro.Espera. atrás da qual esqueceu que ma havia "entrincheirado". os quais atravessaram-na. dentro de minha casa invadida por um desvairado. se assim de fato 150 houvesse procedido.. quis sair para a rua. através da mesma (como se eu pudesse ver através de corpos opacos) disparou o terceiro e o quarto tiros. deixando o quarto. e este o alvejou mais firmemente do alto para baixo.. não se esmiuçam os acontecimentos em seus detalhes? Por que se diz simplesmente "em frente à qual recebeu o segundo tiro. perseguiu-o. Volta ao relatório: Já então Dilermando. a outra na parede da sala. que o atingiu no pulso"? Que teria feito Euclides e em que posição estaria ele para que eu lhe pudesse dar o segundo tiro nas circunstâncias verificadas pela autópsia? Por que o projétil não atravessou também a porta? Como fui eu ferido. Ele desceu precipitadamente os três degraus da porta de saída e já estava no pequeno jardim da frente. então. não explicou como fui ferido sem que as balas atravessassem a porta. não diz quando já me acertara. ou com o intuito de tentar um possível cartucho de revólver. Não esclareceu como Euclides pôde disparar mais dois tiros. nem onde. Assim o autorizam o Código Penal e a jurisprudência de todo o mundo. o dr. Comenta: É o caso de perguntar-se. então? Dilermando de Assis responde às suas próprias perguntas: 149 Para o delegado. pois.que. Aí termina o relatório policial. detonando a quinta cápsula (si c) de sua arma ao mesmo tempo que proferia: . se entríncheirara atrás da outra meia porta cerrada do quarto. Dilermando. o que é mais acreditável. Voltar-se. Antes de mais nada.pede Dilermando em seu livro. uma vez que fui o agredido e defendia o meu lar. Analisemos detidamente essas tristes conclusões. ferido no amor próprio pelo insulto. quando se trata da minha atuação. mesmo que não tivesse essa intenção. defendia a vida de terceiros. por não poder adivinhar até aonde levaria ele o seu propósito homicida. Euclides no braço. defendia a minha própria dignidade. Sem munição. E admitir-se que Euclides se houvesse voltado. depois de estar fora da casa. tudo ficou em branca nuvem. aonde teria ido ter o projétil? Teria ferido Euclides? Teria eu errado a pontaria? Teria sido de tal natureza que nenhuma testemunha nem os exames periciais a ele se referiram? Nesse momento. quando o perseguidor chegou a essa porta. cachorro. simplesmente por ter recebido um insulto. frutos da fantasia e da indignidade . e. Era. Um desses projéteis ainda feriu o dr. Euclides. o infortunado escritor voltou-se de peito a descoberto para o seu perseguidor. assistia-me o direito de matá-lo.

sob o título A Tragédia da Piedade. e comentam acontecimentos do dia. .possível imaginar. que deixava o Teatro Lírico. 152 Dilermando se mantém a certa distância do grupo. essa minha coragem de enfrentá-lo de peito descoberto. Euclides da Cunha caminha pelo largo da Carioca. Mas. É quase meia-noite.. saindo à sua procura para desfeiteá-lo. reduzindo constantemente Dilermando de Assis a assassino e Anna de Assis a uma adúltera vulgar. ele com os seus 21. De repente. Dilermando saberia que Euclides abandonou a mulher e filhos. Mais tarde. Anna de Assis cruza o largo da Carioca. avista no meio da multidão a sua mulher. até que percebe Euclides se alterar com a mulher e o filho mais velho. uma animação maior. estabelecendo um alvoroço alegre. da época. no mesmo lugar. eminentes políticos. no centro do Rio de Janeiro. aglomerando-se no largo. 151 *** 32 Anna. obrigando Dilermando a se afastar. Dilermando e filhos: condenados por mentiras e vinganças Se quem desejasse escrever sobre Euclides da Cunha cuidasse de apenas analisar o seu talento literário e não se preocupasse em encontrar um culpado ou culpados pela sua morte. Está acompanhada pelos seus filhos Solon e Luiz. também a descoberto? Não seria o caso de "entrincheirar-me" novamente atrás de uma porta? Por que essa afirmativa de "peito descoberto"? Para pôr em foco e realçar a coragem do "infortunado escritor"? Por que escrever "e este o alvejou mais firmemente do alto para baixo"? Acaso será mais segura a pontaria que se faz de cima para baixo? As melhores linhas de tiro. Independentemente de qualquer possível comentário. não o encontrou. e Dilermando. como nas casas balísticas. entretanto. é ainda menos provável. intelectuais e artistas. Mas que houvesse caído imediatamente. E também. agora. e se falam. no meio do povo. compreendendo ser ele a causa da confusão. O relatório policial transcrito em A Vida Dramática de Euclides da Cunha é o mesmo que surgiu nos jornais de 1909. Euclides da Cunha encaminha-se para o lado da mulher. O sr.. indiferente a julgamentos e interpretações maliciosas. Dias antes do trágico 15 de agosto de 1909. ela com os seus 34 anos. estaria contribuindo para o esquecimento de aspectos nada agradáveis de atos praticados pelo escritor em momentos de insanidade. Elói Pontes também. retira-se do local para evitar outros dissabores a Anna e Solon. as falsas acusações e lembranças equivocadas. Um passa ao lado do outro. O delegando nunca estudou balística. ao lado de Dilermando de Assis.. sabendo-se que seu ferimento mortal foi no pulmão.. num momento de grande animação. Tão apaixonados um pelo outro que somente as cartas e os depoimentos divulgados neste livro podem mostrar agora o grau de intensidade. mas Euclides sequer toma conhecimento da presença do rapaz. Encerra-se o espetáculo no Teatro Lírico. A palestra se torna agitada. da noite. são as horizontais. Perduraram. Figuras conhecidas. E como se explica. Também nunca foram campeões de tiro. o público vai deixando o local. encontram-se. Dilermando de Assis. a alta sociedade da capital da República passeiam pelo largo.

porque o revólver continha só seis balas. E assim se explica. Fiz. Meu revólver foi apreendido contendo seis estojos vazios em suas câmaras. esmaga-me.acusação expressa principalmente no inquérito policial. E mais inacreditável ainda um sétimo tiro que o delegado diz ter sido o quinto e cujos efeitos não se tornaram conhecidos. Anna não cede aos argumentos do marido. informando: "Somente hoje deixei de acordar com febre". do corredor ao jardim. tem-se a impressão perfeita de que os tiros foram sucessivos. por isto recebeu o ferimento no flanco direito que ficava mais exposto. discute com a mulher. Em outros trechos de sua entrevista à Diretrizes. Quando ele recebeu esse ferimento mortal. É inacreditável uma solução de continuidade entre o quinto e o sexto disparos." Só mesmo a ignorância procuraria no zigue-zague dos projéteis de arma de fogo nos tecidos orgânicos. seis disparos. estando o busto erecto. em série. Euclides deixa a residência da sogra. Euclides se recusava atendê-la e queria prosseguir um casamento acabado. aludia à sua "miséria orgânica". aprendeu a admirar-lhe exatamente a grandeza de espírito e caráter. Mas o delegado Alcântara não queria e . e o foram de fato. 13. declarando: "O espírito desta mulher suplanta-me. mas jamais julgou que seu marido tomasse uma atitude violenta. Os pronunciamentos confusos e exacerbados de Euclides da Cunha deixaram Anna indecisa. Seu flanco esquerdo apoiava-se à parede e. em São Cristóvão. Dilermando de Assis descreve como se deu o seu encontro com o escritor na manhã de domingo. julgando que não deveria permanecer ao seu lado e ao lado dos filhos. recusando-se a regressar à sua casa. apenas um projétil ficou em seu corpo. e ele mesmo o chamou de "espiga de milho no meio de um cafezal". Na sexta-feira. Anna reiterava sistematicamente o seu pedido de separação. deplora sua atitude de adúltera indigna. É conhecidíssimo o capricho de tais trajetórias. Pela quase eqüidistância desses vestígios. Euclides da Cunha estava ciente havia longo tempo. base para muitas notícias biográficas sobre o autor de Os Sertões: A verdade é bem outra. na vertical. Em 12 de agosto ele chamava S'Anninha de "pessoa de toda a confiança". Ao mesmo tempo que quer a sua volta ao lar e a reconciliação.O que se passava entre Anna e Dilermando. portanto. Luiz nasceu." No capítulo 10 desse livro. alvejando-me ainda e com o busto inclinado para a frente. em parte. Destes. O disparo horizontal incidiu sobre seu corpo com um certo ângulo de inclinação relativamente à linha média do tronco. próximo a meu quarto. em Copacabana. Colocado este na vertical. recuava encostado à parede. na casa de dona Túlia. ter eu disparado quando cheguei à porta da sala. o 'causa mortis Dos cinco restantes foram encontrados os impactos nas paredes do corredor e da sala de visitas. Três dias antes de sua morte. É falso. a trajetória interior poderia parecer o prolongamento de um tiro feito de cima para baixo. o do sexto tiro. na porta do corredor. pois. Euclides da Cunha escreve que S'Anninha é pessoa de toda a sua confiança e quer deixar transparecer que tudo corria bem. a invencionice de Euclides ter recebido um tiro de "cima para baixo. fornece esclarecimentos para rebater a acusação de que assassinou 153 Euclides da Cunha . Mauro nasceu após uma gravidez normal. exatamente seis meses após o seu regresso do Acre. mesmo porque nesse momento Euclides já havia caído. em carta ao seu cunhado Otaviano. Na mesma carta. Em seus muitos anos de convívio. a prova da inclinação e da direção das respectivas trajetórias antes de tocar o corpo humano.

não podia concluir de outra forma. guardasse em seu ato uma imunidade superior e privilegiada. Devo recordar. Foi quando ouviu a resposta a qual Dilermando de Assis fez alusão em sua entrevista à Diretrizes. não só visando orientá-los como ainda estabelecendo o que havia de fato e não o que a maldade forjara. A consciência dos justos e dos sensatos não dirá o contrário. que esse mesmo Oliveira Alcântara foi indiciado cúmplice do assassinato do capitão-de-fragata Lopes da Cruz à porta do Clube Naval. de amargura e de coragem. Dilermando. aqui. na qualidade de atacante e de assaltante do lar de Dilermando. A favor. dada a alta valia de seu muito talento! Não. nada. pela fatalidade cega. na intimidade da sua pessoa. Álvaro Moutinho da Costa escreveu o artigo e tentou publicá-lo.como se Euclides. Álvaro Moutinho da Costa. E a de meus adversários há de reconhecer que ainda não sou um mentecapto nem um desfibrado. Nem que nos pague contos de réis". Deixemos de parte as qualidades personalíssimas de um e outro e encaremos o fato. que lhe apresentara um artigo defendendo-me. de tristeza e de altivez. e com esse fim enviou cartas explicativas e verdadeiras aos jornais. de maneira mais desleal e insincera. Não lograra ser atendido porque. em que. Minha situação não é o resultado de um crime sofri velmente arquitetado. dignos tão-só de desprezo. Por ocasião do depoimento publicado em Diretrizes era juiz. achou-se por dias impossibilitado de uma defesa diária pelos jornais daqui. ferido. Em guarda. esse moço digno de lástima mas também. tem ele sabido resistir altivo a toda crassa de insultos vis e insidiosos. hoje Juiz de direito. tudo. devassar a sua alma enérgica. o alvo da admiração viva e desinteressada de quantos têm procurado. Minha defesa jamais foi aceita pela imprensa. declarou um jornalista a um amigo. Melhorando. "Contra o tenente Dilermando. atirado num quarto de hospital. feita de bondade e distinções. perquirindo-lhe os incidentes pretéritos e as causas preponderantemente fortes que atuaram para o abismo. "ele matara Euclides da Cunha" . Incessante e encarniçada tem sido a fúria com que a imprensa vem bordando. maltratado. infelizmente. Eis seu artigo recusado: Desenrolou-se mais uma vez esse tremendo drama trágico. tornando-se depois destacado ministro do Supremo Tribunal Federal. Alvaro Moutinho da Costa foi sempre um amigo íntimo de Dilermando de Assis e de sua família. responderei diante de documentos legítimos e irrefutáveis: a) que Dilermando entrou nas relações da família de Euclides da Cunha sem o conhecer. Por ocasião da morte do saudoso escritor que foi Euclides da Cunha. na qual eu demandava o primeiro degrau e Euclides da Cunha ultrapassava o último. Achava-se por esse tempo o nosso ilustre escritor em . foi ele pressuroso em lavar-se das infâmias que lhe imputaram. à guísa de informação. os fatos até aqui ocorridos sobre essa tragédia. Forçosamente havia de ser batido. logo após a morte de Quidinho. na posição nobre dos nobres antigos que desertaram à vida. A quem quer que se interesse pela verdade em torno de um montão de afirmativas falsas sobre o caso. tomou destaque a figura possante de Dilermando de Assis. O dr. a campanha difamatória da imprensa e a máxima díferença social e cultural que nos colocava nos extremos de uma escada ascensional. mas a conseqüência fatal de três elementos que se ergueram contra mim: um delegado inescrupuloso. 154 Com o título "O Critério da Imprensa".

um senhor da redação. 155 c) que agiu em defesa própria. puro! d) que jamais Dilerman do foi protegido de Euclides. Por que persistir no insulto aviltante e covarde se ele não se pode defender? Por que persistir. Cinco vezes alvejado. porém. como ainda a de d. sacando outra vez a arma tentava ainda atingi-lo. f) que ao mesmo tempo defendia da fúria inconsciente de um louco.. talvez. o jornal A República mostrou vivo interesse em publicá-la. Por fim. está publicamente provado ter agido.. se desrespeita a pessoa de um justo que agiu como talvez outros jamais agiriam. esse desventurado moço. Dilermando agoniza. ficou. e repórteres e redatores. ele era atingido pelas balas do agressor e do outro não podía fugir. e) que jamais Dilermando. porquanto. então. da mesma forma. defende a conservação da vida posta em perigo por uma agressão iminente? Todavia.. Em face do Exército onde é acatado. Enviada à Gazeta de Notícias. 156 Afinal. como ainda que ninguém procurou evitar que o aspirante Euclides da Cunha Filho o alvejasse e porque a ação da polícia fosse tardia e conseqüentemente inútil. em seu leito mortuário. respeitado e querido. Solon e a de seu filho Luíz. trazendo na serenidade augusta de seus gestos a clareza viva de seu caráter Enquanto assim é. não só a sua pessoa. esquecida entre os papéis inúteis. tripudiam sobre o seu corpo em busca do triunfo para o ganha-pão desonrado das colunas infamantes. Dilermando repousa sobre um leito de hospital e a sua vida oscila como um pêndulo gasto entre parar e não parar. Álvaro Moutinho Campos. procedeu ele da maneira mais honrosa e brilhante. contudo. b) que não existe grau algum de parentesco entre Dilermando e Euclides. se ninguém ignora que a lei garante o direito de ferir ou matar aquele. como ainda patenteando as melhores qualidades que devem preponderar no oficial de cavalaria: a ação enérgica e imediata nas conjunturas mais dolorosas e difíceis que se lhe apresentem.. em face dos homens justos e retos. com o corpo crivado de balas e o coração de pai cortado de dor. que agindo por um instinto reacionário natural... decerto. pela má vontade manifesta epela gentileza notável dos jornalistas de então! . g) que se percorrermos os jornais que datam da primeira tragédia.comissão longínqua. desisti de meu intento. porque o fato de por estar fardado impunha a sua permanência no local. após feri-lo várias vezes. Esta carta foi endereçada ao jornal A Tribuna onde recebeu o desacolhimento frio de sua redação. verificamos que Dilermando não pôde publicamente se defender. em perfeito estado de necessidade. o que não logrou conseguir porque os moldes em que fora firmada estavam em desacordo com a "digníssima" redação. a sociedade cospe ainda sobre esse corpo inanimado de homem que há sabido resistir à sorte fria e à maldade inconsciente dos homens. Agora. Fazendo jus á farda que veste e dando prova esplêndida de quanto é grande a coragem que lhe é peculiar. de um lado. Anna. tomou interesse pela sua publicidade.

Álvaro Martinho da Costa Rio, 6-08-1916 Não só Dilermando de Assis sofreu ataques e perseguições. Anna de Assis jamais foi esquecida pelos adoradores da obra euclidiana. E, pior, julgaram-na e condenaram-na como culpada da morte trágica do marido. Não se pode compreender de outra forma, a não ser como uma reiterada condenação, o sistemático envio de convites a Anna de Assis para os eventos em torno da figura de Euclides da Cunha. Ela morou na Rua Barão da Torre, Rua Barão de Jaguaribe, Rua dos Oitis, mas, em qualquer endereço de sua residência chegavam os convites para solenidades de homenagem a Euclides da Cunha. Todos os anos, principalmente no mês de agosto, ela era assim lembrada da morte do primeiro marido. Por que não a deixavam em paz? Os homens são torpes e mesquinhos. Juntam-se em grêmios e, anônimos, remetem convites. São José do Rio Pardo é mais uma cidade do mapa do Brasil que só entrou para a história por meio da ponte de Euclides da Cunha. E lá fundaram o pomposo Grêmio Euclides da Cunha, que durante anos teve como uma de suas finalidades atormentar a viúva Anna da Cunha, enviando-lhe singelos convites para eventos em homenagem ao autor de Os Sertões. A resposta nunca se alterou: - O meu silêncio é a minha defesa. Os ataques a Dilermando e a Anna sempre atingiram diretamente seus cinco filhos. O que nunca foi levado em consideração pelos fanáticos adoradores euclidianos. Algumas reuniões aconteceram entre Judith e irmãos para se discutir a elaboração deste livro. Num encontro, entre Judith, Laura e Frederico, com a presença do escritor, ocorre o diálogo: - Agosto sempre foi um mês indesejado - comenta Judith. - Durante toda a minha vida - conta Laura - quando olhava para a igrejinha do outeiro da Glória e a via iluminada, eu pensava: aí, meu Deus, está chegando quinze de agosto. Ao alto do outeiro da Glória, ponto conhecido da cidade do Rio de Janeiro, na praia do Russel, localiza-se a pequena igreja de Nossa Senhora da Glória, cuja data santa é 15 de agosto. 157 Com antecedência, a igrejinha é iluminada para a realização de quermesses e outras atividades que se antecipam às comemorações e ritos religiosos, marcados para o dia 15 de agosto. - Você também? - retruca Judith. - Eu sempre pensei a mesma coisa. - Ao olhar para a igrejinha e vê-la iluminada, começava a minha sensação de mal-estar - informa Frederico. - Engraçado, e nós nunca comentamos isso - espanta-se Judith. - Sei que todos nós vivíamos o mês de agosto sentindo forte emoção e muita angústia. Como geralmente evitamos comentar o assunto, só agora estamos sabendo os detalhes sobre a ansiedade de cada um. - Ano após ano, eu rezava para passar logo o dia de Nossa Senhora da Glória - diz Laura. - O mês de agosto foi uma constante aflição. Eu nunca sabia o que estava para acontecer - informa Judith. - De repente, uma nova comemoração em torno de Euclides nos atingia em cheio. - E como sofríamos - lamenta-se Frederico. É relembrado o usual comentário de Luiz sobre a tragédia: - Por que Euclídes não deixou a minha mãe em paz? Não, transformou-se nesta asa negra, nesta sombra que vem perseguindo a memória de minha mãe e a todos nós.

158 *** 33 Laudo da necropsia de Euclides da Cunha apresenta uma trágica sentença Enquanto a mulher do fim do século se escondia na cozinha, preocupando-se em servir ao seu todo-poderoso marido ou se recolhia à cadeira de balanço e a tricotar esperava a vida passar, Anna de Assis foi para a sala de visitas palestrar com um Machado de Assis, um barão do Rio Branco, um Sílvio Romero, um Coelho Neto. Natural, já que na casa do pai se habituou a ouvir um Quintino Bocaiúva, um Rui Barbosa, um Benjamin Constant. Mulher audaz, independente, morando numa cidade pequena e provinciana como uma São José do Rio Pardo, teria seus movimentos ímpares confundidos pela mente pequena e bitolada daqueles que não enxergam o horizonte, já que as estradas têm curvas. Ali naquela cidadezinha, Anna de Assis deixou a imagem de mulher fútil e namoradeira. Conclusão a que se chegou porque se postava à janela e, alegre e "moderna", não se escondia dos homens. Anna de Assis teve sempre muita lucidez para explicar aos filhos que a sua postura, mesmo antes da morte de Euclides, sempre causou estranheza, principalmente perante aqueles que a viam segundo os cânones dos preconceitos e da justeza de idéias. Altiva, superou a tudo e se impôs na vida. Sempre foi uma mulher alegre e vibrante. Naturalmente, assim desgostava o tímido e sisudo Euclides da Cunha. Ela confessou aos filhos que os últimos anos de sua vida ao lado do escritor foram desesperadores. Não havia elementos para provar, mas percebia que certos atos de Euclides eram totalmente insanos. Não só ansiava por uma vida de amor e tranqüilidade ao lado de Dilermando, como também esperava ardentemente pela 159 separação. A vida ao lado de Euclides tornou-se impraticável. Ela o temia, mais e mais, depois de cada manhã. Só a morte do escritor e o laudo médico da necropsia viriam provar que ele caminhava celeremente para a total demência. O laudo de 16 de agosto de 1909, assinado pelos drs. Afrânio e Diógenes, é detalhado, demonstrando a causa da morte como "hemorragia do pulmão direito decorrente de ferimento por arma de fogo, atravessando de um lado ao outro o órgão. Além desta causa, o cadáver apresenta 3 outras lesões por arma de fogo". Consta do laudo, também, a descrição: "Inspeção interna: Crânio e encéfalo. - A calota resistente. Meninges duras pouco aderentes, apresentando-se bastante desenvolvidas as granulações de Pachioni. Placas leitosas de leptomeningite. Ligeiro edema na imediação das circunvoluções rollândicas. O cérebro, pesando 1.515 gramas, foi retirado para ulteriores investigações. Meninges aderentes à base do crânio" O dr. Alves de Menezes, professor-regente de Medicina Legal e de clínica Médica da Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro e médico legista do Instituto Médico-Legal do Rio de Janeiro, analisando o laudo de necropsia de Euclides da Cunha, feito pelo dr. Afrânio Peixoto, considerou que o este apresentava "uma tangível presença emocional interferindo na construção do laudo". É que o dr. Afrânio Peixoto, muito amigo de Euclides da Cunha, seu confrade e companheiro de encontros intelectuais, teve, em mãos, uma penosa missão, ou seja, como afirmou o dr. Alves de Menezes, "a obrigação funcional de eviscerar, na qualidade de médico legista, o cadáver daquele gigante da literatura nacional"

Em sua análise, o dr. Alves de Menezes, considerando que a inquietação emocional do médico transparece no texto do laudo, aponta algumas omissões, bem como descrições mutiladas. Contudo logrou retratar a trajetória dos danos corporais feitos pelo agente lesivo que fulminou a vítima e descrever, no cérebro desta, o aspecto macroscópico de lesões meningo-encefálicas, às quais alguns eminentes psiquiatras da atualidade - apesar da falta de notícia sobre o exame microscópico da peça e de análise sorológica procedida durante a vida - se obstinam em vinculá-las a uma etiologia luética, considerando a coexistência dessas lesões com a série dos sérios desequilíbrios psicológicos, próprios da fase incipiente da Paralisia Geral, que Euclides vinha apresentando, de modo assustador, nos últimos tempos de sua vida. 160 Refiro-me às alterações estruturais das membranas meníngeas e às placas leitosas de leptomeningite assinaladas no laudo, e que, a se aceitar como válida a etiopatogenia aventada, e não tivesse havido o decesso violento, acabariam por ofuscar, como se fossem manchas solares, todo o esplendor da inteligência estelar de Euclides da Cunha, reservando-lhe um fim terrivelmente melancólico: o da abolição global de todas as suas funções intelectuais. Numa sentença trágica: a demência. Tal como sucedeu a Nietzsche, vítima dessa doença e seu êmulo em genialidade. Em artigo publicado pelo Suplemento Cultural da Revista Paulista de Medicina, n 14, o médico dr. Walter P. Guerra comenta também o laudo, após transcrevê-lo: Não olvidar, por outro lado, o comprometimento das suprarenais, que muito sofrem, assim como o cérebro, com as toxinas do parasito atiradas na circulação sangüínea. Desta forma, a atividade mental fica também sujeita à ação maléfica da parasitose. Os observadores de sua fulgurante trajetória intelectual notaram que, a partir de sua estada na Amazônia, declinou sensivelmente a produção literária euclidiana. Ele atribuiu-a, em carta ao dileto amigo Escobar, ao meio em que passara a viver. Tudo indica, porém, que esse apagamento, o enevoamento intelectual de que se queixava, era o fruto de acessos recorrentes da malária que adquirira quando de sua viagem àquelas plagas, ainda hoje, malarígenas. Ou seria conseqüente à sífilis, entrevista por ocasião da necropsia - como querem alguns - no achado de "placas leitosas de leptomeningite"? A paralisia geral progressiva é por demais conhecida. Felizmente menos encontradiça em nossos dias, graças, entre outros motivos, à penicilinoterapia. Com a devida vênia, invadindo seara alheia, pertencente aos psiquiatras e neurologistas, recordemos os principais sintomas psíquicos da neuro-lues. O indivíduo apresenta manifestações delirantes ocasionais e Euclides procedia, por vezes, como se fora um louco. Era possuído de momentos de cólera, seguidos, instantes depois, de estranha placidez. Os deficts de memória também ocorrem esporadicamente. Recordando a vida de Euclides, vamos encontrar inúmeras oportunidades em que se deixou dominar pela cólera. Em sua longa e fecunda epistolografia, em ocasiões diversas, esqueceu-se de datar as missivas. Curioso, todavia, que, como homem obrigado aos cálculos matemáticos de engenharia, ao que tudo indica, jamais confundiu-se. Atestam-no, além da ponte sobre o rio Pardo, obras outras que nos legou. A diminuição ou perda da afetividade é outro componente analisado pelos autores médicos, tal como acontece aos esquizofrênicos. Estes perdem a

quando parecia que estava para carregar o mundo. já era. Donde se conclui que a grande incógnita e os desencontros que apresentou a vida de Euclides. e que o perseguiram até à morte. um estigma a mais a acrescentar na martirizada vida daquele a que tanto admirara.. existe a menção no laudo de que aquelas membranas "estavam aderentes à base do crânio". Mas. na época. 162 Mulher nenhuma tem a obrigação de permanecer ao lado de um homem. não era de atrair o sexo oposto. Em que pese a afirmativa de Afrânio Peixoto. Quantos conhecem Euclides da Cunha. como amigo que fora de Euclides. só poderia ser vista pelos pequenos e obtusos provincianos.afetividade para com os familiares. seguidas da fase contrária. que ainda hoje padece da incompreensão popular. em Euclides? Seu desinteresse pelas mulheres era notório. de euforia extrema. transferindo-a a estranhos. a hipótese de lues inata. ao longo de sua trágica existência. bem como pelos fanáticos adoradores euclidianos. Chegou mesmo a receber admoestação de seu pai. não foi o chefe 161 de família desejável. assim. a magna indagação. tal como a Esfinge. não há notícia de cortes histológicos da matéria nobre e ulterior estudo anatomopatológico. Convenhamos que.. a Afrânio Peixoto. De nada adiantaria pronunciar sua defesa e divulgar suas afirmações. irritadiço. Tuberculoso. onde. ou forma retraída de meningite tuberculosa. Tanto em São José do Rio Pardo. Raiava mesmo pelos limites da castidade. de que um novo Édipo venha desvendá-la. que se restringiram ao meio familiar e amigos. no convívio com os seus. O sexo feminino quase não aparece em sua obra. seria um espinho. Uma mulher que suplantava os rigores dos padrões. Recorde-se que a meningite sifilítica demonstra essa característica: meningite de base. ao lado de alucinações auditivas (a que não há referências). convém recordar. a de excitação. nesse particular. Acham-se à espera. em seu retorno do alto Purus. Não padece dúvida de que. Tímido e introvertido. inquieto. agora. muitos dos quais enquadrou-se Euclides da Cunha Lamentavelmente. Andava sempre ocupado. esquivo. E disso se vangloriava. assim como a tuberculose e a hanseníase. Tudo leva a crer que fosse misógino. aí está o fatídico elenco da paralisia geral progressiva. toda a vida. como em Manaus. O delírio persecutório é outra característica da maligna espiroquetose. Em favor da suspeita de meningite luética. persístem. sabem que. por sua vez. o que se tornou sua angustiante preocupação. a sífilis era doença estígmatizante. de que o cérebro fora recolhido com esse propósito. que. não se procedeu. como fez Anna de Assis. não interessava penetrar mais a fundo no diagnóstico. fases de depressão. fora das relações conjugais. Naqueles tempos. como pessoa que "procedia mal". A grosso modo. pouco representava para ele. Rotulá-lo de sifilítico era constrangedor. apaixonada por outro. não era o homem do lar e muito menos o chefe de família ideal. Além do que. foi vítima de alucinações vísuais. Damos a palavra aos especialistas em doenças sexualmente transmissíveis. A aceitar-se a hipótese de sífilis nervosa. Resta. como explicá-la. Apresentou. uma vez comprovada a suspeita. . Surge. lutou para manter seus familiares dentro de suas escassas posses. sob este aspecto. a outros exames que pudessem aclarar a suspeita de neuro-lues.

ao infortúnío que os acontecimentos lhe reservaram.Deixando de lado qualquer apreciação sobre o melindroso aspecto bio fisiológico feminino. que as mais elevadas qualidades e virtudes excepcionais manifestou sempre para ser uma excelente esposa e mãe exemplar. Verdadeira heroína ante a incomparável brutalidade da tragédia de 1916. uma obra cheia de compreensão humana e brilhante como análise social. mas deixou alguns depoimentos. Anna se dedicou a encontrar serenidade para os dias da velhice. o meu marido. acomoda-se facilmente às contingências domésticas. estava enlouquecendo. E ele reagiu. Assistiu. Não teve oportunidade de conceder muitas entrevistas. a derrocada brutal e impressionante de toda uma organização familiar que soçobrou num extermínio trágico. é uma criatura digna de esmerado estudo por um psicólogo de gênio. Esse depoimento ficou em poder do filho Luiz e foi o último escrito por Dilermando de Assis sobre sua mulher. com a mesma mão. Por isto. todas as fases agrazes da existência. sem atritos. aconteceu a tragédia. Eu o temia. ou sentimental . dominando todas as crises de desequilíbrio mental pelos abalos morais sofridos. é uma criatura digna de esmerado estudo por um psicólogo de gênio. sem revolta nem recriminações. O cérebro mostrou "meninges aderentes à base do crânio". Dia a dia. tentei fugir. Em São Paulo. Tentou matar. estoicamente. sem rusgas nem queixumes. Resignou-se e adaptou-se admiravelmente. o que.uma grande energia e uma estupenda coragem para enfrentar a desdita e a dor das injustiças. galhardamente. Venceu. Espírito muito forte. Ela enviou inúmeras cartas aos filhos e em nenhuma se encontra algum lamento pelo passado ou . Anna? .Esta mulher suplanta-me e esmaga-me. Admirava Euclides. porque incomum. escreveu livros e depoimentos. Incompreendida sempre. 163 *** 34 O último depoimento de Dilermando de Assis Durante toda a sua vida. Dilermando de Assis parece que não teve outra preocupação a não ser provar sua inocência nos dramáticos acontecimentos em que foi mais vítima do que algoz. não por meio da inteligência e dos argumentos. Foi morto. em 8 de maio de 1949. sob a sua orientação. disse o escritor. segundo parecer médico. Inesperadamente. . Incrível lembrar que. significa que se encontrava próximo à demência. escreveu um documento sobre Anna de Assis: O que caracteriza a personalidade moral de D. inteligente. na trepidação turbilhonante da vida atual. O homem. enquanto Dilermando de Assis procurou se defender e. 164 Chama atenção a frase final: Incompreendida sempre. e sim com um revólver na mão. mesmo sacrificando o meu amor por Dilermando. normal e ordenadamente. na mais rude e crua das materialidades.Eu não podia continuar com Euclides. o escritor. sobre as dolorosas recordações da primeira. uma segunda geração que se desenvolve. De temperamento romântico e idealista. pacientemente. além de livros publicados. Tudo prova que Anna de Assis tinha razão. sua vida e seu passado. ele escreveu Os Sertões. principalmente depois da morte do meu filhinho Mauro. para erigir. atingindo idade avançada com perfeita lucidez de espírito e admirável senso crítico da vida. porque incomum Pode-se afirmar que.

tem sido muito criteriosa e prudente em suas manifestações). esteve à morte e se acreditava poder ser a compressão de medula a causa de seu grave estado de saúde de então. com suas dores e sofrimentos. seja dito de passagem. Adeus. Ela pensava mais no presente. Fiquei radiante de alegria ao receber o teu presente. Em outro tópico de seu último depoimento. Carta de Anna para Judith. pensando nos pedacinhos de meu coração que estão desgarra dos como violetas soltas ao vento. resignava-se com os sofrimentos. (A que afetou a espinha dorsal de Dinorah deve estar com os herdeiros do humanitário médico dr. datada do Rio. Ribeiro da Silva. Do carnaval. de mais dois projéteis de 165 arma de fogo. Estão por mim destinadas aos museus euclídianos. pessoa física. arriscou a sua vida para defender a minha (e o encarregado do inquérito policial classificou de cúmplice. . Beijos ao Mécio e netinhos e a bênção da tua mãe que muito te estima Anna O intuito deste livro não é outro senão fornecer elementos para que todos conheçam e analisem a vida de Anna de Assis. não tomei parte. que se revelou um herói a 15 de agosto de 1909. injustamente. grande intelectual que lha extraiu quando. deprimindo. em minhas carnes e em meus ossos.. um verdadeiro anjo de bondade. Dilermando de Assis relembra: "Como disse certa vez. quando. outra conseqüência Foi o sofrimento de novos traumatismos. Góes Monteiro. chorei de gratidão. em meu corpo. Querida filha. Tanto física como psiquícamente.revolta e tristeza pelos dias amargos. verdadeiro viveiro de vitaminas. Acusado e infamado. pois a vida humana. Recebi a tua cartinha que é toda um ramalhete sensível de palavras. sou um homem que só tem encontrado maré pela proa. porém nem pronunciado foi pela Justiça Pública). Ficaram-me. muito mais funestas. duas balas do pai e duas do filho. simples e modesto. pois estás em um lugar privilegiado pela natureza. como católica fervorosa. relevasse as conseqüências dolorosas do abalo psicofísiológico sofrido. pois. trescalando o doce aroma de saudade! Dizes que estás muito bem. nada te posso dizer. vai bem.se-lhe o senso moral. querida. Perdeu a energia muscular. em São João Del Rei. paixões e alegrias. quiçá em São José do Rio Pardo (onde predomina a baleia de Os Sertões ter sido escrito num barraco de sarrafo coberto de zinco). na Academia de Letras (que. pois. novas lesões graves e intervenções cirúrgicas. assim como. inclusive sutura do fígado e o arquivamento. as conseqüências foram. aliás. Hoje tive notícias da Laura.Com relação a Dinorah. Mas que não a julguem. Será muito mais motivo para compreensão e solidariedade. viu-se constrangido a cortar sua fatura carreira aos 20 anos de idade e deixar a Escola Naval e o meio seleto que freqüentava em Bota fogo. numa roda de oficiais. e no famoso "Grêmio Euclides da Cunha":. E. depois de minha morte. desarmado. nas alternanças de seu estado de desequilíbrio mental. ficou gravemente prejudicado pela tragédia. diz: Em minha pessoa. embora tivesse momentos lúcidos e. o gen. não é matéria para julgamento. é justo. para onde o transportei doente.) Quais as conseqüências da tragédia na vida e na pessoa de Dinorah? ." Sobre as conseqüências da tragédia da Piedade em sua vida. em 18-2-1942. passei esses dias em casa. as quais não puderam ser extraídas. tornou-se hemiplégico. sem dúvida para um gênio como Euclides da Cunha.

sob o rótulo "Um jornal completo para o povo"). Mesmo depois de sua morte. aguardando-a em Friburgo inclusive com um carro para transportá-la a Cordeiro. em que pesem as rugas do rosto onde brilham dois olhos que pareceram ao repórter anunciados talvez pela tragédia de que participou. Conseqüentemente. serão precisos outros anos de discursos. argumentos e defesas para acalmar alguns fanáticos que buscam incessantemente confundir a produção literária genial de um homem com fatos de sua vida. estão a merecer de nossa parte apenas a complacência de uma perplexidade diante do mistério da vida humana. tristes e trágicos. seus filhos também.HISTÓRIA DE UM TRÁGICO AMOR .como a última tentativa para se relegar o assunto a um passado remoto. como desejava. não se dignando a vê-lo quando do seu falecimento. E ninguém diz que foi Euclides da Cunha. mesmo porque ela nunca se interessou pelos netos nem pelo seu filho Manoel Afonso. Com certeza. Judith Ribeiro de Assis fez este seu depoimento . a polícia do ditador Getúlio Vargas. na região cervical. pelo contrário. tantas calúnias e mentiras ainda surgem como certezas e verdades. que o tempo não logrou atingir. onde meu marido foi sepultado ao lado de minha mãe. o grande e saudoso escritor. refere-se à sogra e avó sem rancor. que foi fechada em 1944 pelos agentes do DIP. ao mostrar-lhe as últimas fotografias da senhora Anna Solon de Assis. ESPULHADOS OS HERDEIROS DE EUCLIDES DA CUNHA NUNCA SE PREOCUPOU COM OS NETOS. Euclides. . Não só os adoradores literários de Euclides da Cunha sempre estiveram prontos a condenar Anna de Assis e Dilermando de Assis.Não optamos por nenhuma das sugestões oferecidas pela senhora Dilermando de Assis.. como sua filha Norma. chamando mesmo atenção do jornalista. Foi. meu marido. porque sempre se falará sobre Os Sertões e Euclides da Cunha. Acélio Dauat. Anna de Assis. interveio então sua genitora para dizer: . Dona Albertina Santos. não bastará este livro para pontuar verdades. Se não foram simples e corriqueiros. Valendo-se de ligeira pausa feita em sua digres são pela senhorita Norma Santos da Cunha. "a vítima esquecida de Euclides da Cunha": Ninguém recorda sua magna desdita. como escreveu o grande jornalista patrício de Porto Alegre. O jornal Diretrizes circulava diariamente.ANNA DE ASSIS . uma reportagem chamava a atenção dos leitores do jornal Díretrizes (era o jornal. procedendo com dignidade.. Em 23 de novembro de 1946. 166 *** 35 Mais uma entrevista injuriosa contra Arma de Assis A roda da malquerença nunca cessou de girar e perseguir Anna de Assis. não reproduziu para a história a sua vida íntima com o escritor Euclides da Cunha. dentro de nossa casa. cujo um lhe traumatizou a coluna vertebral. e não a revista Diretrizes. para a beleza física 167 da criatura que foi o "pivô" do drama da vida de Euclides da Cunha. não obstante a participação que lhe fizemos. que o alvejou e feriu pelas costas quando corria para seu quarto.graças aos tiros contra ele disparados pelo dr.

José dos Santos. O Itamarati. personalidade e inteligência. erigindo-lhe também uma herma. 268 PRÓ-DESCENDENTES DE EUCLIDES DA CUNHA Cantagalo.. diretor da Superintendência de Obras Públicas "em testemunho de seu inexcedível zelo e dedicação no desempenho de seus deveres". e várias placas de vidro com aspectos fotográficos das diversas fases da construção daquela obra de engenharia.Vovô não vendeu os direitos autorais de sua obra Peru versus Bolívia. Tanto assim que papai. assegurando-lhes pelo menos a educação. Peru versus Bolívia. pela Livraria José Olímpio. Galdino do Vale para negociar a venda dos direitos autorais. datado da Ponte de São José do Rio Pardo. se não me engano ao governo federal. em Cordeiro. na ignorância do que fazia. E tem motivos para tanto.que além das edições em vernáculo foram vertidos para o espanhol. Para perpetuar esse desvanecimento cívico. sr.O CASO DA REEDIÇÃO DO PERU VERSUS BOLIVIA A senhorita Norma Santos da Cunha. a interessante neta do escritor mostrou ao jornalista vários objetos de uso pessoal e lembranças de sua atuação como engenheiro. livro que não caiu em domínio público. tendo ocorrido algo nesse sentido no Senado. porquanto. disse-nos a senhorita Norma que Euclides da Cunha deixou em São Paulo uma propriedade rural.nada recebemos da editora José Olímpio relativo à reedição do Peru versus Bolívia. Contudo. como os demais da autoria de meu avô . em 15 de maio de 1901. nos Estados Unidos . possivelmente vendida após seu assassinato. orgulha-se desse evento.acrescentou a senhorita Norma Santos da Cunha. com um dispositivo para vê-las de encontro à luz. por seu turno. OBJETOS QUE EVOCAM EUCLIDES DA CUNHA Em seguida. seu pai assinara em São Paulo vários papéis. Adiantou mais a senhorita Norma Santos da Cunha que o diploma de engenharia militar conferído a Euclides da Cunha acha-se em poder de seu avô materno. feita na sérje Documentos Brasileiros sob o número 17. apesar de sua juventude.. com um exemplar da primeira edição daquele livro. terra natal de Euclides da Cunha. Inácio Wallace da Gama Cockrane. Ainda a propósito de um esbulho sofrido pela família. casa a que tantos e assinalados serviços prestou Euclides da Cunha ao tempo de Rio Branco. energia. sendo de notar que há oportunidade ainda do resgate dessa dívida para com a memória de Euclides da Cunha. caso não os aproveitasse no quadro de servidores municipais. deu plenos poderes ao dr. principalmente depois da projeção continental de Os Sertões através de sua versão castelhana e mundial com a trasladação para o inglês do livro. Sobreveio. como a melhor e mais significativa homenagem póstuma . pois a glória imperecível do seu grande filho não cabe nas lindes restritas do município. aludiu depois às edições de outro famoso livro de Euclides da Cunha. Mais tarde fomos surpreendidas com a reedição do Peru versus Bolívia. dizendo o seguinte: . na Argentina e para o inglês. deu a uma de suas principais praças o nome do grande escritor. quase criança ainda. esqueceu-se de velar pelos netos de Euclides da Cunha. ressumando em seus gestos e atitudes. jamais moveu uma palha em favor dos descendentes diretos do sociólogo. Como no caso de Os Sertões . inclusive um cartão em prata oferecido a Euclides da Cunha pelo sr. porém a revolução de 1930 e de nada mais soubemos a respeito. quando na companhia de senhora Anna Solon de Assis.

ao seu ilustre ex-auxiliar, tão do afeto do chanceler nome tutelar da casa, dando-lhes uma função condigna na sua biblioteca, senão na Fundação do Instituto Rio Branco. E dizer-se que os netos de Euclides da Cunha, as meninas Norma e Eliete fizeram preparatórios e Maria Auxliadora com o jovem Euclides da Cunha Neto estudam ainda, graças à circunstância fortuita de ser o professor Carlos Cortez, proprietário do Ginásio Modelo, de Friburgo, concunhado de seu pai... No mesmo jornal, edição de 29 de novembro, a coluna "Contra a Mão", escrita por Gondim da Fonseca, comentava a reportagem com tópico final: É de crer que o general Eurico Gaspar Dutra se interesse pela sorte das quatro crianças. Uma delas, Euclides da Cunha Neto, precisa bastante de estudar. Onde? Com que meios? E as três meninas suas irmãs? Que destino terão se o Brasil não as ampara? A tragédia de Euclides continua. Não terminou com o seu assassínio. A repercussão da reportagem prosseguiu. Na edição de 4 de dezembro, Diretrizes anunciava: A CARTA DE NORMA IMPRESSIONA OS DEPUTADOS Euclides de Figueiredo Lê da Tribuna a Carta de Uma Neta de Euclides da Cunha - O Melhor Argumento a Favor do Projeto De Lei sobre Direitos Autorais - Olegário Mariano Ficou Emocionado. 169 "Em reportagem e, logo depois, numa crônica emocionante de Gondím da Fonseca, este jornal ocupou-se, há dias, da situação de permanente apertura financeira em que vivem os descendentes de um homem que enriqueceu, como poucos, a literatura nacional - Euclides da Cunha. As revelações que fizemos, e o apelo que o cronista de "Contra a Mão" endereçou ao governo despertaram o maior interesse e simpatia pelos netos do autor de Os Sertões. Ontem, na Câmara, ao apresentar o projeto de lei sobre direitos autorais no Brasil, o deputado Euclides de Figueiredo apresentou, a favor desse projeto, o melhor dos argumentos: - uma carta de Norma, neta de Euclides da Cunha ao escritor Guilherme de Figueiredo, presidente da Associação Brasileira de Escritores. A leitura desta carta emocionou os deputados. A CARTA DE NORMA Documento impressionante, essa carta, que transcrevemos a seguir, confirma inteiramente o que revelamos, em primeira mão, sobre os netos de Euclides constituindo ainda a melhor justificativa do projeto de lei que visa proteger os escritores brasileiros contra a pobreza. A carta de Norma, em suas linhas gerais, expõe exatamente o que foi revelado à reportagem de Diretrizes e publicado na edição de 23-11-1946. A matéria se encerra ouvindo o poeta Olegário Maciel, então membro da Academia Brasileira de Letras. Na edição de 16 de dezembro, Diretrizes publicava a carta enviada por Luiz Ribeiro de Assis, diretamente a Albertina e filhos, já que nem desta vez a mãe saiu de seu silêncio para se proteger. A propósito da reportagem publicada por Diretrizes sob a epígrafe acima, solicitou-nos o sr. Luiz Ribeiro de Assis, filho do casal senhora Anna Solon de Assis - Coronel Dilermando de Assis, a publicação da seguinte carta, que enviou à senhora Albertina Santos e filhos, respectivamente nora e netos do pranteado autor de Os Sertões:

Rio de Janeiro, 12 de dezembro de 1946 Prezada Cuihada e sobrinhas. Causou-me bastante surpresa Vocês, cunhada e sobrinhos, concederem tão injusta entrevista à ilustre reportagem de Diretrízes, publicada na edição final do dia 23 de novembro p. p., visando, com o seu teor, auferir vantagens sentimentalistas para conseguir uns direitos autorais e muito embora sabendo-se que esses direitos não lhes vão proporcionar a solução de problema de como se viver melhor... 170 A minha muito idolatrada e santa Mãe (já recebeu a extrema unção por ocasião de seu internamento numa Casa de Saúde), essa que Vocês acusam de apropriar-se de direitos que lhes assistem e de indiferentismo à sorte até do próprio filho MANOEL AFFONSO DA CUNHA (Afonsinho), por ocasião de sua morte, é a mesma, hoje anciã venerável, que acolheu Você, ALBERTINA, em sua casa lá no Méier, carinhosamente, e onde Você sentiu de perto as demonstrações de amor dedicadas àquele último filho do grande escritor EuCLIDES DA CUNHA. Do meu próprio Pai, o tão "bárbaro DILERMANDO", você e o AFONSINHO, então recém-casados, receberam manifestações de apreço e carinhos. Antes do AFONSINHO morrer, em casa da minha Mãe, ele era visto freqüentemente e em perfeita comunhão de sentimentos, e em certa vez (creio que a última) ele abraçado à sua mãe e cercado de seus irmãos maternos LAURA,JUDITH, JOÃO, FREDERICO e inclusive eu, não atendia a nossos rogos para ficar em casa mais tempo, alegando que esperavam-no, em Cordeiro, os seus filhinhos dos quais tinha saudades. A Mamãe sempre quis muito bem ao AFONSINHO e hoje em dia sente vontade de ver os seus netos, manifestando-se sobre isto há pouco tempo, antes de Vocês virem a público com essa entrevista injuriosa à sua pessoa. Garanto-lhes que sobre direitos autorais a Mamãe não criaria dificuldades para proporcionar aos filhos do próprio filho o que por ventura lhes fosse de direito, mas, não dará ensejo, em absoluto, de pessoas estranhas como o Dr. MIGUEL SILVA, virem à sua casa interpelá-la a respeito de um passado doloroso. Relativamente a um esbulho sofrido pela família Cunha, com referência a uma propriedade em São Paulo, deixada por EUCLIDES antes de morrer, e vendida após o seu "assassinato", como podem mencionar tão infundada acusação, sabendo-se que foi a Mamãe a esbulhada de todos os seus haveres, e inclusive objetos do próprio EUCLIDES DA CUNHA, encontrados, atualmente, como ínstrumentos de vinganças em poder de diversas pessoas?... Na entrevista Vocês deveriam mencionar o seguinte: - Ao finar-se Euclides a Senhora ANNA SOLON DA CUNHA, foi esbulhada de todos os seus haveres, e abandonada por todos, inclusive os seus parentes mais próximos que a renegaram... Não, NORMA! Antes de qualquer apreciação ou comentários de fatos dessa natureza, devemos, com imparcialidade, sermos justos e apelo para Você (creio que a mais velha da famíli a) não se deixar levar por falsas e malévolas imaginações de mercenários exploradores da desgraça alheia. Cheguei à conclusão de que terceiras pessoas, esgotados os recursos de exploração da tragédia EUCLIDES X DILERMANDO, voltam-se agora para jovens criaturas mal informadas, utilizando-as como instrumentos de ataques em prol de torpes objetivos. Como a sobrinha NORMA, muita coisa ignoro dos detalhes de certos fatos oriundos da malfadada idéia de EUCLIDES DA CUNHA, instruído,

171 ou melhor, instigado por amigos (amigos da onça) ir à Piedade assassinar o aspirante Dilermando de Assis, mas, não ignoro que o notável escritor, absorvido pelos seus trabalhos de engenharia e literários, privava a sua muita jovem esposa, casada sem amor, por conveniência familiar, dos carinhos indispensáveis à sensibilidade de uma mulher romântica e sadia, criando- lhe um ambiente propício à consumação irresistível do que humanamente foi inevitável... Foi lamentável o desfecho desse epílogo e eu afirmo com sinceridade que admiro com respeito e acatamento todos os personagens desse drama da vida, arrastados, implacavelmente, uns à morte, outros à amargura em vida. EUCLIDES, ANNA, DILERMANDO, EUCLIDES FILHO, são vítimas de um destino cruel e todos eles, compelidos pelas circunstâncias, contribuíram, entre si, para as suas próprias desgraças; mas, em meio a essa odisséia dolorosa, emergindo da bruma da provação, todos expiaram os seus crimes e ressurgiram, redimidos, dos seus pecados para não mais merecerem incriminações estúpidas. Aqui termino estas linhas, escritas unicamente em consideração ao fato de Vocês serem a viúva e filhos do meu saudoso irmão AFONSINHO e aproveito a oportunidade para advertir-lhes que a Senhora ANNA DE ASSIS vive hoje cercada dos carinhos de grandes Amigos, filhos, genros e noras; foi e é extremamente bondosa, residindo à rua dos Oitis, número 19 na Gávea, onde Vocês serão recebidas com o máximo carinho e boa vontade. Um dia, por sugestão minha, ela que sempre calou, dará uma entrevista à imprensa, a fim de mencionar a verdade sobre a sua vida trágica e, depois... "atirem a "primeira pedra"... Luiz Ribeiro de Assis Em Diretrizes, Norma, filha de Manoel Afonso, acusa a avó e a condena publicamente pela união com Dilermando de Assis, reforçando todos os equívocos sobre a morte do avô. Isso em 3 de janeiro de 1947, em resposta à entrevista de Anna de Assis publicada em 30 de dezembro de 1946. 172 *** 36 Eu é que posso falar sobre Euclides da Cunha: vivemos juntos! Finalmente, em 30 de dezembro de 1946, o jornal Diretrizes publicava a única entrevista concedida por Anna de Assis em toda a sua vida. Lendo-se a entrevista, que transcrevemos na íntegra, analisando-se as informações de Anna de Assis e sabendo-se que veicularam num jornal de prestígio e ampla circulação, é de estranhar como biógrafos e adoradores euclidianos jamais tomaram conhecimento daquela reportagem e suas verdades. Ignoraram as palavras de Anna de Assis e persistiram em erros históricos que, friamente analisados, só podem significar que existiram com o intuito de mistificar mentiras e torpes balelas, no que os membros do Grêmio Euclides da Cunha de São José do Rio Pardo surgem como

Basta examinarmos sua única entrevista na íntegra. para visitar os meus filhos e netos. com d. Não sou nenhuma "ba bleu". Anna de Assis ainda mostra o que foi aos quinze anos. E meus netos me adoram. Admirava Euclides. o marechal Frederico Solon. Aos 75 anos de idade. Eu. É que a viúva de Euclides da Cunha está escrevendo suas Memórias. Escrevo como converso. data em que conheci Euclides. apenas. Um amor de mulher! E ela própria confessa que foi realmente linda. Pode haver maior ventura na velhice de uma mulher condenada. a viver eternamente infeliz? Não sou Maria Madalena! Não me ralo de remorsos.me disse Euclídes . Meu pai levava muito a gosto o nosso casamento. Também são felizes.sorri dona Anna de Assis.. Há muitos anos. Anna de Assis está escrevendo suas memórias . Casamo-nos. A outra parte só será divulgada em volume. em Buenos Aires. apesar de timido. Fui recebê-lo à porta. "Não sob o aspecto artístico ou literário . "Tipinho esquisitinho!.explicou-nos ela. que gozava. Passo os dias sozinha. aqui por perto. como o meu pai estivesse ocupado. Completamente feliz! Minhas filhas casaram-se bem. excelente bom humor." pensei comigo. Mas vivo feliz no meu ostracismo social. Euclides foi lá em casa acompanhado de um rapaz de nossas relações. Mas. a culpa entre nós também cabe aos deuses. Ficara louco por mim! Depois tive a prova: ele guardava uma folhinha com a estampa de linda rapariga. 173 ENCONTRO COM EUCLIDES E d. na ocasião.Em mocinha era muito despachada. Queria um favor de meu pai. Um livro mais sensacional do que o de Isadora Duncan. desde 16 de novembro de 1889. Era só influência de menina. Não bebe nem fuma. Por isso me recusei em atender a um amigo de Euclides que me . Não somos nós que o dissemos. Mas não estava apaixonada. escrevendo.. e com todos os detalhes. Mas a gauchinha de Jaguarão não era só formosura. até o dia de hoje. Tinha "Sex-appeal" e muita personalidade. A BELA DE JAGUARÃO: Euclides tinha razão. ouvindo rádio. A não ser. Hoje é abstêmia. Outrora fumava três maços de cigarros por dia. de grande prestígio político e social. recebi os jornalistas e dei uma entrevista à imprensa. na juventude. Acorda cedo. Euclides deixou sobre a mesa uma declaração de amor. quando deixou o Colégio das Irmãs para casar com o escritor. Saúde perfeita. uma memória de anjo.. Tive uma vida social muito intensa. Não me queixo dos outros. . que vivo isolada. Ficou combinado. também. Estava a paisana. um ano depois de Rondon. Quase não saio. d. Enchia um salão. e ele escondeu-se timidamente atrás de um pé de manacá. "NÃO ME RALO DE REMORSOS!" D. Contarei tudo. Compreendi logo que tínhamos sido vítimas da Fatalidade. Uma vez. Euclides tinha sido expulso da Escola Militar. durante duas horas. toma banho de chuveiro e é capaz de saltar de um bonde em movimento.No dia seguinte ao da proclamação da República. "Eu só me casaria . Quase todo o Ministério esteve presente à cerimônia. sem me ocupar com as galas do estilo. Como acontece nas tragédias gregas."Eu é que posso falar sobre Euclides da Cunha: Vivemos juntos!" Conversamos hoje. OSTRACISMO SOCIAL . lendo. ímpios e falaciosos. Anna de Assis descreve o primeiro encontro: .quando encontrasse uma criatura assim. na despedida. Anna Solon de Assis. Ainda hoje seus olhos brilham e sua voz tem acentos de mocidade. porém." E então nos casamos. Não faço literatura.verdadeiros réus.. que somente uma parte da longa conversa seria reproduzida neste jornal. numa casa tranqüila da Gávea. nem odeio a ninguém. sim Anna Emília de Assis.

. no entanto. Quanto aos papéis que levaram. nada me coube. era um escritor "para mulher". Nosso meio era fino demais para eles. simples e ao mesmo tempo doentiamente vaidoso. tinha admiração por Euclides. Nunca me esqueço destas palavras de Gaby Coelho Neto: "Seja mentira ou verdade. como o barão do Rio Branco. Aninha. para ele. Esses. Oliveira Lima. pouca falta me fazem como fichário. e não ao literário.Quando ocorreu a tragédia . Outro defeito de Euclides: escrevia a lápis nos punhos da camisa. Preferem amar.Eu é que posso escrever sobre Euclides . Vivemos juntos. e . Ainda assim há pessoas que não julgam. Euclides relutou muito. Mas o escritor era diferente do homem. Mas sou a herdeira legítima das obras de Euclides. concedeu a Diretrizes. Insistimos. EUCLIDES E PAGANINI . neta de Euclides. Tinha muita ambição e. porque Orestes Barbosa procurou aplacar minha justa revolta contra o livro de Eloy numa vitrina de livraria. 175 "DEIXARAM-ME LIMPA" . Foi uma luta para persuadi-lo a escrever o prefácio de O Inferno Verde. Chegava a ser ríspido. Coelho Neto. Livros. Valente e tímido. MENTIRAS DE ELOY PONTES . A ENTREVISTA DE NORMA D. Não achava que o Alberto Rangel fosse um bom escritor. pois tenho boa memória! Reproduzi de cor tudo o que sucedeu nestes últimos 57 anos. Euclides também tinha grande desgosto de ser feio.A tragédia converteu-se em fonte de renda para muitos medíocres . . Quase não elogiava ninguém. inclusive sobre o motivo determinante do grande sucesso de livraria de Os Sertões.continua d. correspondência etc. Machado de Assis. Não fazia carinhos." E Gaby. Só não dei nele. Sílvio Romero. Anna de Assis leu a entrevista que Norma. .Sujeitos que nem conheceram Euclides tornavam-se seus defensores. Não acusei. E depois.pediu que acusasse Dilermando.Direi toda a verdade. nos conheceram de perto. Note que me refiro ao êxito comercial. como era feio! Só uma coisa chamava atenção: seu olhar fulgurante. era um homem complexo. Feito o inventário. Não abro mão dos meus direitos.prediz a viúva de Euclides. Não cuidava de sua aparência. Coelho Neto etc. 174 O SUCESSO DE "OS SERTÕES" . mas prefere não falar sobre o assunto. em causa própria. Nossas relações eram com gente boa. Pois bem: vem agora um Eloy Pontes. Esses tipos nunca privaram conosco. mudando um pouco de assunto .prossegue dona Anna de Assis.os parentes de Euclídes carregaram tudo. A saga da literatura brasileira seria grande sob quaisquer circunstâncias. Como Paganini. sim. era seco de coração.Mas tudo isso será compreendido um dia . serei sempre tua amiga. Nunca soube por que. Seu "copi-right/" me pertence. apontamentos. que nada sabia de nossa vida. como seu marido. Dormimos no mesmo quarto.. Duvido que alguém tenha por ele maior admiração do que a minha. era de uma honestidade absoluta. ele não podia recitar ou discursar na minha presença. Odiava a fealdade e a velhice. e resolve escrever mentiras sobre Euclides da Cunha. E é preciso conhecer para poder julgar. Anna de Assis. Euclides foi a criatura mais orgulhosa que conheci. Nem aos filhos. Deixaram-me limpa. na rua. nem acuso ninguém. Mas. como todo puritano.continua dona Anna de Assis. manuscritos.

ela exclama: . no bairro da Gávea. mas será verdadeiro! O jornal Diretrizes publicou a única entrevista de Anna de Assis. Mas estou muito velha para ir buscá-los. Como tinha uma "letra mesquinha". Euclides trabalhava o dia todo. Mário Campos informou que ela tinha apenas três meses de vida. os "euclidianos" simplesmente afirmaram que Anna de Assis. até mesmo em certas madrugadas. Foi lá que Euclides trabalhou no livro. Encontrei-o banhado em sangue no quarto de dormir. E o resultado comunicado aos filhos: era câncer. Em resposta. em junho de 1950. Ainda que o quisesse.Na Fazenda Trindade. tantas vezes acometida com as suas crises de asma. Entretanto. Não houve festas e comemorações naquele dia. Mas sua mãe. escrevendo dia e noite. Nas minhas "memórias" destruirei as fantasias dos cronistas de Euclides. era transferida para a casa da filha Judith. Sempre que adoecia. No entanto. O dr. não poderia escrever sob o martelar constante das bigornas. quis o parecer de outro afamado médico.. Euclides teve a primeira hemoptise. Aqueles cinco filhos que acompanharam a mãe a vida toda.. Faz uma pausa e prossegue: . Na noite em que a obra ficou pronta. Depois ele foi construir a ponte de São José do Rio Pardo. Anna de Assis: Onde Euclides escreveu Os Sertões? . Se quiserem vir. Passamos ainda três meses na fazenda. 176 *** 37 Anna e Dilermando se reencontram sem testemunhas Em junho de 1950. ERRO HISTÓRICO A esta altura pedimos um esclarecimento a d. a dor e o desespero foram os sentimentos que se alastraram entre os filhos e os netos de Anna de Assis.. que nunca se . Ele foi examiná-la exatamente no dia 30 de junho. o dr. Mário Campos. procedeu à meticulosa consulta. Se conversasse comigo saberia então a verdade. em São Carlos do Pinhal informa a nossa entrevistada. encontrava-se esclerosada. Ao contrário. Por mais que Judith insistisse na sua locomoção. foi chamado para examinar a doente. O dr. Anna se encontrava muito doente e não quis deixar sua casa. data de aniversário de Frederico. médico de reconhecida competência. pagou a um rapaz para passar tudo a limpo em caracteres legíveis. por causa da idade. no dizer do Rangel. segundo ouvi dizer. apesar do convite que lhes mandei. Foi realizada uma biópsia. Nélson Passarelli. ela teimou em permanecer onde estava. residiam com ela.. sempre evitou que meus netos me visitassem.Norma ignora o que se passou. Meu livro poderá não ser muito bonito. um dos mais proeminentes da época. Dois de seus filhos. o que aconteceu em muitas ocasiões. Ele compareceu à Rua dos Oitis. Luiz e Frederico.Ri melhor quem ri por último!. A cabana onde dizem que Euclides escrevera Os Sertões era apenas um ponto de reunião. num ritmo de urgência determinado pelo constante desvelo dos filhos para com a mãe. que se casou com um chofer. continuo às ordens. Minha porta nunca esteve fechada para eles. Anna de Assis morava na Rua dos Oitis.

de que há seis anos sequer falava com o pai. enlouqueceram. Dilermando de Assis se recusa a auxiliar no tratamento de saúde da mulher. diante da morte iminente. o que se dá apenas no diálogo . procuraram assim mesmo agir e cuidar da mãe. Judith não reencontrou o pai. novamente. reagiram identicamente: exasperaram-se. A partir daí. fazê-la menos infeliz em seus últimos dias de vida. A mãe está com a idade de 76 anos e eles a querem viva alguns anos 178 mais. exercendo as funções de Diretor do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de São Paulo. Os médícos aos quais recorreremos serão as maiores sumidades brasileiras. a mamãe está com câncer. Por amor. Judith ficou encarregada de telefonar para São Paulo e fazer a triste comunicação. todos os seus filhos esmeraram-se em cuidados e atenções para com a mãe. porque em 1944 sua mãe esteve muito doente. neste período. movidos por um único sentimento. Não vamos medir esforços. Foi a primeira grave enfermidade de Anna de Assis. A atitude do pai deixou todos os seus filhos revoltados. com o tempo. Anna de Assis está novamente doente e numa situação comprovadamente muito mais grave. Não se pouparam. . A mamãe é a nossa vida. inconsoláveis. Assim. vítima de agudas crises de asma. então. no primeiro momento. O máximo de conforto. Os médicos afirmam que ela tem apenas três meses de vida. desta vez será maior ainda. Judith cumpre a sua incumbência de telefonar ao pai e dialoga com ele de forma direta. Ela se lembrou.separaram dela quando sofreu todas as dores de tantas tragédias. Tânia. Não se conformam com a doença.Vamos chamar tudo quanto é medalhão para examinar a mamãe. o máximo de assistência. Na época. Só Judith e o marido romperam de forma mais drástica com Dilermando de Assis. Anna de Assis esteve internada na Beneficência Espanhola. Ainda desta vez. ignorando-o completamente durante seis anos. e o pai se negou a prestar-lhe assistência. quase matando-a. Tentaremos minorar as suas dores. Agora. A situação obrigou Judith a solicitar a interferência e a ajuda do pai. mesmo reconhecendo que o câncer é uma doença inexorável. na ocasião. pois houve uma troca de correspondência ríspida e rancorosa. um hospital caro por causa da sua excepcional qualidade de atendimento. O então coronel Dilermando de Assis se recusou a dispensar qualquer auxílio de natureza pecuniária para o tratamento de saúde de Anna de Assis. Nem mesmo lhe comunicou o nascimento de mais uma neta. são insuficientes para tudo aquilo que queremos. 177 O general Dilermando de Assis. inclusive utilizando todos os recursos financeiros disponíveis para um tratamento bastante dispendioso. revoltam-se contra a morte. a convite do governador Ademar de Barros. apesar de relativamente bem de vida. Todos os filhos de Anna de Assis são alucinados por ela. coesos. residia em São Paulo. Também nessa ocasião. Mas a mãe recuperou a saúde e. Se antes a conta fora alta. Aparvalhados. Preocuparam-se em transmitir aquela notícia ao pai ausente. As despesas se avolumaram e toda a família se viu obrigada a determinados sacrifícios em seu orçamento doméstico. a revolta filial se desvaneceu naturalmente. peço a sua ajuda. aqueles filhos que adultos nutriam pela mãe a mesma veneração do tempo de crianças. o máximo. no seu proceder habitual: . Nós queremos dar a ela. ocorrido em 1945. ele já residia em São Paulo. O senhor sabe que as condições financeiras de seus filhos.Papai.

A reação de Dilermando é apenas um sorriso. apático. netos. Só eu e ela. vá até sua mãe e diga-lhe que quero vê-la.Judith. Eles se falaram por uma hora ou pouco mais. papai está no Rio. Ele chega oa Rio e se dirige à casa de Judith. cumprimentam-no e se afastam. Fiquei esperando.Minha filha. a filha ouve o pai afirmar que viria ao Rio para. 179 No caminho da casa deJudith. Não ouvi sequer uma palavra do que se disseram. E não sei até hoje o que foi que eles conversaram. E desde 1932. Judith volta à presença do pai e não troca as palavras para transmitir a resposta da mãe. esta será a única e última oportunidade para um diálogo a sós. genros. Não me senti no direito de indagar. o pai ainda lhe repete: . apaixonado. depois da separação acontecida em 1926. Dilermando apenas pede: . Sai e fui para o quintal. Afinal. Dilermando de Assis chega à janela que se abre para o quintal e chama: . O carro estaciona em frente ao número 19 da Rua dos Oitis. de uma aparente apatia. Cuida de melhorar a sua aparência. Um sorriso macio. dolorido. lenta em seus movimentos e perdido todo o seu antigo vigor. que viveram um amor intenso. Eu já vou embora. uma vez que ela não me contou nada. quando ela estava internada. Pelo que aconteceu no Hospital Central do Exército. Judith deixa o pai para trás e entra na casa sozinha. imenso. não reclama das palavras de Anna. No segundo telefonema para São Paulo. seguida pelos cinco filhos. chorava. Anna e Dilermando. para a Gávea. Eu não quis cansá-la. Noras. já então muito magra. pessoalmente. sequer se viam. eu saí. leva-a de volta à cama. todos saem da casa. Ele se vai com a sua dor. Quando meu pai entrou na sala. E faz um pedido: . imperativa: . muito débil. em que na verdade realiza uma fuga ao passado e fala de forma conclusiva. A sua atitude é como se afirmasse: "Eu já esperava por isso. dramático. A filha acompanha o pai até o carro. Era um quintal muito grande. Judith dá permissão para a entrada do pai e retira-se da sala. em Copacabana. A mamãe já estava muito mal. expressando à filha que não há nenhuma surpresa diante das duras palavras da mulher. indagando. Judith transmite a mensagem: .inicial com Judith. E nota-o muito triste. na sala.Diz a ele que a minha porta está aberta até para os cachorros. Assim. que aguarda no carro. perguntando. Passam por Dilermando.Faço questão que não tenha ninguém. E ela retorna até a mãe. pode vir. quando ela deixou a sua casa.Eu quero ver sua mãe sozinho. Solicita a todos que se retirem. . Só deles. Anna de Assis demora alguns momentos antes de responder. empregadas domésticas. filhos. quase vinte anos transcorridos. enfermeira. muito deprimido. Após um prolongado diálogo com a mulher. Eu tenho a impressão que ele pediu perdão e ela não o perdoou. Dilermando não se mostra magoado. Ele veio para visitá-la. grave. Judith tira a mãe do quarto. chegam todos os filhos. também era uma coisa deles. Lá eu andava e chorava. providenciar o melhor tratamento possível para Anna de Assis. Sai de um breve instante de total absorção.Mamãe. Daí a alguns instantes. eu a conheço bem". coloca-a em uma poltrona.

seria uma caminhada amarga. Ele vem. Anna caminha de braço dado com Dilermando. em seus últimos momentos de vida. uma vez que a separação de ambos nunca foi oficializada pelo desquite. Ouve. E de agosto de 1950. tristes. alguns sorrisos. alegres. Seria um momento para extrema tristeza. Anna de Assis será internada como dependente do general Dilermando de Assis. Lá ela terá o melhor atendimento que a medicina brasileira da época poderia oferecer. apóia-se no pé da cama. É uma cena bonita. Dilermando de Assis. Anna de Assis. pousa no lençol.e por tudo que aconteceu quando ele teve seus sucessivos derrames cerebrais. eu penso isso.S'Anninha. ainda em 1951. Dilermando de Assis retorna a São Paulo e às suas obrigações de Diretor do Instituto Histórico e Geográfico do Estado. envelhecida. assim. praticamente se mudaram para o hospital. permanece quieta. Ela não o perdoou. muito singela. Consegue levantar o braço direito. Até que o general recebe um chamado urgente. cercada pela tenda de oxigênio. E ela move a mão. lá não deixaram de ir um dia ao menos. Judith. . Por todas as leis dos homens ainda permaneciam casados. imediatamente. Que mãe e pai se dessem os braços e andassem juntos num último instante da vida. também. Ela é levada para o hospital por todos os seus filhos. época em que se deu o internamento. Quer ter uma participação efetiva no seu tratamento de saúde e sugere o internamento no Hospital Central do Exército. dolorosa. Preocupa-se com ela. E. certa alegria equilibram os sentimentos. Dilermando entra no apartamento e lá estão os seus filhos. lentamente. Por isso. João. enquanto choram. Luiz e Frederico. genros. simples apenas. talvez fosse a realização de um desejo de todos os filhos. noras e netos. para o gesto de um sinal-da-cruz. No entanto. ele volta outras vezes ao Rio para visitar Anna de Assis. Ela já não fala. todos percebem o seu grande esforço. compreende e faz um movimento com as mãos. respirando com dificuldade. após o seu encontro com Anna de Assis. 181 Cumprida a primeira etapa de seu dever de assistir à mulher. comparecendo ao Hospital Central do Exército para aquela que será a sua mais importante visita à mulher. Todas as providências e acertos são realizados. se tantos desajustes e tragédias não fossem o ponto fínal desse encontro. Encontra sempre os filhos em torno da mãe. O braço desce. E Laura. No período. ambos velhos e doentes. a maio de 1951. além de alguns netos. me perdoa. Consegue-se para a enferma o melhor apartamento do hospital. permanece imóvel. acompanham Anna e Dilermando pelos vastos corredores do hospital. 180 *** 38 O sinal da Cruz de S Anninha e o perdão O general Dilermando de Assis não regressa imediatamente a São Paulo. Essa caminhada dos pais. conseguem sorrir. Um solene cortejo penetra no prédio. Dilermando se aproxima. Marca-se a data de internamento. débil. ela fecha os olhos. E a data ficará na lembrança de todos os familiares de Anna e Dilermando. olha tristemente para Anna e pronuncia a frase que dói em todos: .

Vendo-se alvejado. já fui perdoada. Aquela idéia obsessiva. se eu errei. O filho de Euclides falhara nos seus propósitos. insinuações sobre o dever que tinha de vingar a morte do pai.. derradeiro transe. 182 Um fio de sangue escorre-lhe dos lábios. chama por um de seus filhos. Alguns trataram de revolver o passado e criaram fantasias. Dilermando não pronuncia mais nenhuma palavra. foi vingar a morte do pai. Enquanto ele volta a São Paulo. seu padrasto então. Frederico se aproxima. já me perdoou. Do primeiro matrimônio houve um filho varão. Como exemplo. intimamente chamada Saninha. Ela desfalece. Vários jornais noticiaram sua morte. mas este acertara em cheio e . No último momento de lucidez. mulher e mãe. transcrevemos a nota da Revista da Semana de 2/6/1951. não encara os filhos. Anna de Assis entra em estado de coma e agoniza. cheio de flores. O forte edema é o seu último sacrifício. os filhos de Anna de Assis constatariam que nem depois de morta a mãe teria paz e seria esquecida como a viúva de Euclides da Cunha.Meu filho. Um dia. não matando Dilermando. Só lamento deixá-los. E na data de 12 de maio. data tantas vezes o segundo domingo do mês de maio. rapaz de grande futuro e reconhecidos dotes morais e intelectuais.. Anna de Assis balbucia sua despedida da vida: . trabalhando pela voz da tradição e recebendo. Esse jovem. dia de seu casamento com Dilermando. que abate a tiros o imortal autor de "Os Sertões" vindo depois a casar-se com ela. Mas Dilermando de Assis sempre foi um grande atirador. Vira-se. Quem tinha de me perdoar. é lançada na viuvez por Dilermando de Assis. principalmente. irreprimível não lhe saía do pensamento. cravando-lhe as unhas fortemente. um dia decidiu matar Dilermando de Assis. com seus erros e imperfeições. 183 *** 39 Não se vive e não se morre em paz neste País Perplexos. que por toda a sua vida soube ser.apenas a respiração ofegante. não medindo as conseqüências que esse ato traria à própria mãe e aos demais membros da família. a mãe se agarra firmemente a uma de suas mãos. Nem todos foram isentos. dá um romance trágico. nem todos procuraram apenas registrar seu falecimento. armando-se de revólver. diariamente. Eu vou para um lugar muito bonito. abre a tenda de oxigênio. Casada em primeiras núpcias com o grande escritor Euclides da Cunha. morre Anna de Assis. puxou de sua arma e disparou-a contra o enteado. O seu sopro final de vida são as mãos apertadas na mão do filho. tantas vezes coroada com os festejos do dia das mães. ANNA SOLON DE ASSIS A vida de Ana Solon de Assis. retira-se.

sempre a cumulou de conforto e dedicação. a mãe dos Gracos. elegante e vaidosa. viúva de Euclídes da Cunha. Há no Brasil vários casos de mães devotadas aos filhos.o exemplo da virtude. a manicure e uma funcionária de institutos de beleza lhe aformoseavam a velhice. que. Da. Anna. já era ela mãe de cinco filhos do novo matrimônio. Da. Apresentou-os às matronas vaidosas. e. que trouxera no deu destino o signo da tragédia e do sofrimento. porém. e. Certa vez. Da. no Brasil ou em . morreu em fins de maio último. criou as crianças. Na edição de 16 de junho. Um desses exemplos foi dessa figura tão conhecida e recentemente falecida no Rio de Janeiro: Anna Solon de Assjs. E coisa curiosa: morreu sem saber qual a doença que a matava. não pôde viver em companhia de Dilermando. um dia antes de morrer. e refutar as mentiras torpes que ocuparam as linhas finais da notícia. Logo que tomou conhecimento dessa notícia. na intimidade da família era conhecida por Sanninha. filha do general Frederico Solon. Não se entibiou com os reveses da vida. pediram à mãe dos Fracos: "Mostrenos agora. sua vida e seu passado. 184 Ele. Era a repetição da tragédia de 1908. Judith compareceu à redação da Revista da Semana e durante horas dissertou sobre a mãe. Anna Solon de Assis. sendo visitada por outras senhoras da alta roda. e. pelos quais lutam e se sacrificam estoicamente. em sua velhice." A senhora romana as atendeu e foi ao interior da casa. Dama da mais alta estirpe. da coragem de trabalhar para nutrir e educar os filhos pequenos e encaminhá-los na vida. volta a sofrer com este novo ato de um drama que se sabia como iria terminar. Ana Solon de Assis. traduzido em todas as línguas civilizadas. contando apenas com a sua disposição. Afastada. casou em segunda núpcias.fuzilava o filho do grande brasileiro que também caíra morto por suas balas. Da. depois. que já passara pelas amarguras de uma viuvez trágica. querida Cornélia. do segundo marido.. lhe fizeram as unhas. a fim de prestar esclarecimentos. Todas as semanas. cujo nome passou à História do Brasil no episódio da queda do segundo reinado. enfrentando o destino com aquela coragem moral da mãe dos Gracos. vieram à baila as jóias caras que usavam então. era dotada de virtudes peregrinas e de beleza fascinante. As visitantes mostraram a Cornélia os adereços mais fulgurantes. porém. dizendo com sorriso afetuoso: "Eis aqui as minhas jóias. deixando no seio da família desolada um dos maiores exemplos de dedicação materna diante das contrariedades da vida: . trazendo pelo braço os seus filhos. S'aninha foi internada às suas expensas no Hospital do Exército atacada de câncer. depois. a maior glória de uma mãe. tendo tido a felicidade de ver. por motivos que não há interesse em apreciar aqui. vencendo os maiores obstáculos.. estóica contra tudo." O episódio foi registrado pelos cronistas e atravessou os séculos. o oficial brasileiro que entregara a Pedro II a ordem de exílio após a proclamação da República. filha do general Frederico Solon. mulher de uma beleza fascinante. as suas jóias. separando-se amigavelmente. corrigindo inclusive o ano da tragédia. educou-as dentro dos preceitos das virtudes cristãs. Em novembro do ano passado. a revista publicava outra notícia: ANNA SOLON DE ASSIS Uma das facetas mais belas da história de Roma antiga é aquela em que lemos o episódio de Cornélia. as filhas dignamente casadas e adorando-a como a grande autora de suas felicidades. a vida do casal continuou normalmente vindo outros filhos do segundo matrimônio. Anna. Serenados os ânimos.

longe de ser inclinada a frivolidades e mundanismos. Além das flores. recebendo depois. citaremos a reportagem "A tragédia que abateu Euclides da Cunha". em favor de Euclides da Cunha Filho. de autoria de Raimundo Magalhães Júnior. nós queríamos tudo para a nossa mãe. Judith esteve com o historiador Raimundo Magalhães Júnior. a minha sina nos anos cinqüenta. sessenta. devia ler-se o seguinte: "A 11 de julho nasce um menino. ao tempo moça e bela. Envolvida por trágicos acontecimentos e enfrentando árduos sacrifícios. 185 . desenganada pelos médicos. Pedi não. da revista Manchete: A TRAGÉDIA QUE ABATEU EUCLIDES DA CUNHA A reportagem publicada sob esse título. anos mais tarde. Judith se atracou com jornalistas por meio de violentos bate-bocas. evitava o escândalo. registrado na 7 Pretoria como filho legítimo de Euclides da Cunha. Fica patente. ficara já esclarecido a sem razão dos rumores de que. uma corbelha de flores e seus cumprimentos. solicitando que trouxessem o remédio também para a mamãe. na publicação Um Conselho de Guerra.qualquer parte do mundo. pois à página 73.Não cessaram aí as minhas peregrinações pelos jornais e revistas. Várias vezes. o que espontaneamente fazemos. pois. Quanto ao segundo ponto. Quanto ao temperamento de D. uma nota divulgada pela edição de 29 de agosto de 1959. no processo anterior. Aliás. O falso pai. em torno de cinqüenta anos da morte do escritor. Anna Emília de Assis nem Dilermando tiveram que ver com o espólio de Euclides. E de falta de cuidados. o jornal Última Hora. tendo cuidado de todos os filhos com o maior desvelo e . com três meses de vida apenas pela frente. publicada pela revista Manchete. por causa das calúnias veiculadas na imprensa a respeito de sua mãe. de debilidade congênita. Na verdade. confidenciará. propondo-se buscar no exterior um remédio que possivelmente curaria o câncer de eminente figura política da época. tendo aquela senhora renunciado inteiramente a qualquer benefício. Judith esteve num jornal movida pelo desespero e seu amor à mãe. numa clara mensagem de pedido de desculpas pelos enganos cometidos na reportagem. ou seja. Apenas como ilustração. falou sobre sua mãe e seu pai. criou uma prole numerosa. tem três pontos a serem retificados. O primeiro refere-se à morte do menino Mauro. nesta vez. foi o de uma mulher de fibra excepcional. Após a veiculação da matéria. de Samuel Wainer. Nessa ocasião. A criança odiada. Um lapso ocasionou alteração do texto. do ano de 1916. da parte do escritor. desaparecido no sangrento encontro com o padrasto. no nosso primeiro número de agosto. Não tive dúvidas. Implorei Afinal. com isto. nas outras ocasiões ela iria também explodindo raiva e ferocidade. que não podia sequer banhá-la e alimentá-la regularmente. Se. em agosto de 1959. Procurei a direção do jornal. dando a impressão de que a esposa do escritor concorrera para a morte de um filho. a defesa deste fora custeada com os recursos provenientes de direitos autorais de Euclides da Cunha. testemunho vivo do adultério. trancada num dos quartos da casa. morre sete dias depois. Seria oportuno recordar que meu acesso a jornais se deu durante o período em que minha mãe se achava enferma. de seus dois matrimônios. Ocultava a sua vergonha. Anna Emília. empreendia uma campanha. a mãe. que não foi a mãe que concorreu 186 para a morte da criança. foi comparecer às redações para falar de minha mãe. está a documentação de que nem D. como prisioneira".

Depois é que se descobriu a nova e trágica coincidência. 187 *** 40 Uma coincidência no cemitério como derradeiro lance da fatalidade Não só os homens brincam com o destino de seus semelhantes. Superou. apenas os corpos de ambos foram transferidos para a cidade de São José do Rio Pardo. como se o seu cadáver desaparecido nas selvas amazônicas significasse que o seu nome também devesse desaparecer. Dilermando de Assis aquiesceu aos argumentos dos filhos e esperou que eles mesmos determinassem o local onde seria sepultada a mãe. Dilermando de Assis se dispôs a assumir a última dívida para com a mulher. Se se incorresse num engano e tomasse a outra direção. Assim foi ao se escolher o local para o túmulo de Anna de Assis. também em agosto de 1982. na mesma sepultura da sogra. Seguindo-se por uma direção. no cemitério São João Batista do Rio de Janeiro. 189 *** . Já o de Solon. com seu trabalho constante e honrado. Só que mais uma vez foi lembrada a tragédia que matou pai e filho. O desejo de todos era visitar o local constantemente. estaria a própria morte. no fundo do cemitério. Como em toda bifurcação. após a separação do segundo marido. permanecendo mais uma vez a insinuação de que ocorreram nas duas ocasiões um puro assassinato. fazendo-se um certo trajeto. chega-se a uma bifurcação. Escolheu para o túmulo um local de difícil acesso. Ocupa vasta área encravada no bairro de Botafogo. mas ignorou-se como os fatos verdadeiramente aconteceram. não naquele primeiramente escolhido. 188 Quando se desfez a nova trama do destino. Manoel Afonso. Os filhos reclamaram.procurado proporcionar-lhes excelente educação. ninguém lembrou-se. e até os restos mortais do escritor e de seu filho serem transferidos para São José do Rio Pardo. chegava-se ao túmulo de Euclides da Cunha e de seu filho Quidinho. ali permaneceram como que para brincar com a perplexidade dos que descobriam a coincidência. Argumentaram que desejavam a sepultura da mãe num ponto do cemitério de fácil acesso. assim. Citou-se o nome de Dilermando de Assis. em 18 de agosto de 1982. mas. tudo aconteceu com muita pompa e divulgação jornalística. mencionando-se as causas de forma sucinta e equivocada. a nos guiar como misteriosa bússola. O cemitério São João Batista é enorme. E como que para reforçar o mito dos fatos e entronizar pai e filho como mártires. efetuando-se a transferência do túmulo de Euclides da Cunha e de seu filho para São José do Rio Pardo. o seu pé é a ponta de um V. enquanto o do outro filho de Euclides da Cunha. cobrindo-o sempre com flores e o carinho da lembrança. O cemitério São João Batista tem os seus inúmeros caminhos e ruas. vicissitudes que só poderiam ser vencidas por uma grande energia e firme vontade. até o seu fim de vida solitária. Realizamos alguns atos simples e sem maiores explicações. para depois. continua ignorado e esquecido em Cordeiro. chegava-se ao túmulo de Anna de Assis. A própria vida nos reserva certos caminhos e direções que. escreveu-se que foi ele quem matou o escritor e o filho. descobrirmos um traço secreto comandando tudo.

preocupava os filhos e os obrigava a constantes viagens do Rio para São Paulo. Não. tropeçava nas vicissitudes da vida. A notícia transmitida aos filhos foi de sua morte iminente. ele se viu vítima de outro enfarte. e por toda a sua vida. um perdão. ou algumas palavras de amor. Da mesma forma. Ele confundiu a filha com a mãe. Dilermando não se sentiu perdoado. a primeira pessoa que ele divisou na multidão foi a filha Judith. sair do Rio para São Paulo. Novamente. imediatamente deslocou-se para o Rio. por uma série de problemas. naquela última visita à Anna de Assis. Dilermando de Assis demorou algum tempo para compreender o que se passava com ele e não soube explicar o que lhe aconteceu ao penetrar na capela do velório. no entanto. é ela" e desmaiou. Luiz tinha pânico das viagens aéreas e. Ele apenas pronunciou as palavras "É ela. exatamente 41 anos após a tragédia da Piedade. Mas em 12 de julho. Apenas a filha Laura. Avisado da morte da mulher. regressaram ao Rio e só não tornaram em 12 de agosto porque houve apenas a ameaça de novo enfarte. a saúde do general estava mesmo abalada. No dia 12 de junho. Esperaram a sua melhora. Todos os filhos se deslocaram para São Paulo e permaneceram juntos do pai até ele se recuperar. me perdoa" é que ele desejava o perdão realmente. certas vezes não viajava para lá o filho mais velho. ou um aperto de mãos. Enfim. O sinal-da-cruz não o aquietou. dois meses após a morte da mulher. determinando os repetidos enfartes do general. todos correram para São Paulo. os filhos seguiram para São Paulo. após 25 anos de separação. o primeiro em que esteve a sós com a mulher. A outra coincidência é a sua morte em 12 de maio. finalmente. E carregando ainda no corpo duas balas desferidas por Euclides da Cunha em 1909 e outras duas por Euclides Filho em 1916. exatamente um mês após a morte da mulher. Aquele homem que tinha um vigor invulgar. Dilermando de Assis teve o seu primeiro enfarte de vários sucessivos. mas não tão consistente como seria talvez um abraço. Quando entrou na capela do cemitério São João Batista. Agora. o coração fraquejava. Nesse dia.41 Dilermando não faz a sua última revelação e morre com um segredo Dilermando de Assis teria ficado satisfeito com aquele débil movimento de mão de Anna de Assis. Dilermando de Assis teve um derrame cerebral. Judith. Ele ainda irá implorar perdão e viver a sua atroz dor por algumas faltas cometidas para com aquela mulher a quem tanto amou. 35 anos decorridos. Dilermando de Assis encontrava-se em São Pau lo. via terrestre. o sinal-da-cruz como o gesto do perdão? Sem dúvida. em 1951. foi amado e. não ia a São Paulo com assiduidade. 190 Mas não saberia distinguir Judith da mãe em outra oportunidade. ou ele viu a mãe na filha. ainda disse "S'Anninha. onde era velado o corpo de Anna de Assis. E se ele. Teve de ser retirado do local e se submeter a cuidados médicos. não era fácil. Em 12 de setembro. juntos. E não seria tão-somente por Anna de Assis? Aquela coincidência de datas. jamais . sofreram muitas dores. é preciso registrar que foi no mês de agosto o internamento de Anna de Assis no HCE. E se para se escrever uma história de amor e tragédias necessitamos de alguns acasos. procurado no encontro de 1950.

O modo de caminhar. O beijo do perdão". aproximei-me da cama. Tive vontade de me jogar pela janela. Me deu um beijo de amor. no Rio. Eu queria apenas te ver". é ela. Quando o meu pai me viu. Pois isto aconteceu sucessivas vezes. Voltei. No entanto. Fiquei desesperada. Em 1951. o físico. vai embora. é ela". a minha filha Ana Maria. para atendê-lo e recebia aquelas respostas. estavam presentes dois enfermeiros. o meu pai me deu um beijo na boca. Mas o que ficou mais forte em minha lembrança. . ele não revelou o seu último segredo. deixava tudo para trás. Os meus filhos. o próprio médico. a cor morena. nada. Judith completa a sua descrição: . dia de meu aniversário. Mas ele me segurou. marcado para 20 daquele mês. Então. Eu ia. Senti uma emoção tão forte que poderei viver mil anos e não esquecerei jamais. e disse: "Ela me perdoou". Ele dizia que tinha uma coisa para me contar. Frederico. O beijo 191 do perdão. acreditávamos que papai morreria. Eu queria ver este narizinho". sou eu. me seguravam e pediam para que aceitasse o beijo do meu pai. muitas dores. as marcas no rosto. Judith. E gritou: Não. além das marcas da . Afinal. Mas ele gritava. o meu pai. a boca trêmula. de amante que pede o perdão pela última vez. Então. Recebi dele um beijo de amor. E ele compareceu à cerimônia nupcial de sua filha caçula no Rio de Janeiro. sou eu papai". Eu reclamava. Não. "Ela me perdoou". E.Após se recuperar do derrame cerebral. o meu marido. ele era o meu pai. . que nesta época estava com uns problemas nas pernas. Então o médico me aconselhou: Deixa ele te beijar. todos os filhos de Dilermando. é S'Anninha. tudo eram cicatrizes do derrame cerebral de setembro. Recordo-me inclusive que não saí de São Paulo no dia quatorze de setembro. Foi dramático. não puderam me cumprimentar pela data. Eu consegui me desvencilhar e fugir. Todos nós. loucamente: "É ela. Não. Eu fui. perguntava: "Que é.Vivi uma cena bárbara. 192 Pelo dia 12 de outubro de 1951. Papai?" Ele respondia: "Ah. Ele estava completamente alucinado. Judith não percebeu que a data 12 de todos os meses matava o seu pai lentamente. a altura. do rosto dele. por sucessivas vezes. que deixava os filhos no Rio. E repetia alucinadamente: É ela. que também nada lhe indagou. ele gritou: "É ela. chorando. E ele respondeu: "Não. ou mesmo sobre a sua obsessão pelo perdão da mulher. aquilo naturalmente provocaria a sua morte. Ele argumentava: "Amanhã você volta. O meu pai estava numa agitação atroz. erguia os dois braços. eu falei: "Papai. E não dizia nada mais. ele caiu na cama. E apontava para o alto. Depois do beijo. locomoviame com tantas dificuldades. Eu não era.deixará de se lembrar dos acontecimentos de setembro de 1951. telefonou para o Rio e me chamou a São Paulo. Me dá o beijo do perdão. Pois ele me achava muito parecida com a mamãe. Eu tentava sair do quarto e os meus irmãos. Vamos acalmá-lo. com muitas despesas para São Paulo. ele se encontrava debilitado pelo derrame cerebral.Desta vez. a dificuldade para falar. Ele estava muito mais preocupado com o breve casamento de sua filha Dirce. foi a minha chegada ao quarto do hospital. Ele ficou muito mal mesmo. um médico. Luiz. Dilermando de Assis conseguiu se recuperar desse derrame cerebral e jamais comentou a cena com a filha. É aquele beijo. esperando sua possível morte. Que era muito urgente. dei um beijo nele. pegava o avião e ia. estávamos ao seu lado. o general Dilermando de Assis passou incólume. Eu estava com os meus irmãos. Me dá o beijo do perdão". É ela. Chegava lá. apenas os cabelos negros. João.

insistir para que fosse a São Paulo. Fui atendendo a mais um chamado dele. Amanhã. Judith notou outras: . em seguida. tão profundamente se enraizara no espírito público a sua condenação. Nunca tive coragem de lhe contar o fato. por toda a vida. chego lá. morreu dia treze. quando teve o último enfarte. e ele não tinha coragem de me revelar o que queria. pela manhã. já pedi que papai me surgisse em sonho. O crime da Piedade crioú desde logo uma mentalidade de implacável condenação ao seu autor. outro dia doze de julho. Na primeira página do Diário da Noite. seria generosamente esquecido. Eu não vou". eu não posso. mas não sei o que de fato o meu pai desejava me revelar. Ele ligou para o meu irmão Luiz e lhe pediu para me convencer. em São Paulo. A circunstância de ser a vítima um dos maiores escritores brasileiros. Só para a semana. venha a São Paulo. em qualquer outro caso. como os anais criminais sempre nos mostraram. Tenho certeza que era algo com referência à minha mãe. Era a lembrança de minha mãe.O meu pai estava muito triste. agravada ainda tal condenação pelas lutas políticas contemporâneas. Já pedi a Deus. Era a data que o atingia fortemente. A doze ele teve novo enfarte. está a matéria: 193 A TRAGÉDIA DA PIEDADE Faleceu o general Dilermando de Assis O falecimento. Depois da estada dele aqui no Rio. nesse tremendo e incansável libelo. É evidente. do general Dilermando de Assis encerra a última página de uma das mais dolorosas tragédias passionais de nosso tempo. Desta vez recusei. a mínima isenção. Respondi: "Papai. Ficou-se a impressão de que me chamava para me contar alguma coisa. teve um derrame cerebral a doze de setembro e o último a doze de novembro. ficou inconsciente. Era dia dez ou onze de novembro. o reconhecimento da menor atenuante. Argumentei com Luiz: "Não posso. o infeliz oficial. venha. Acredito que agiu inconscientemente. sem que coubesse. O que se notava era que ele não estava aliviado com o perdão da mamãe e talvez ele não se recordasse da cena do beijo. Foi com destaque que a imprensa noticiou o falecimento do general. Eu não posso ir". na morte de Dilermando de Assis não ocorreria de forma diferente. um mês após o falecimento de mamãe. dado o fato de ser o criminoso um oficial do Exército. Ainda há pouco. talvez sentindo a aproximação dos . acentuada pelos que não lhe poderiam perdoar o crime de ter abatido um grande escritor. estive com ele em São Paulo. Pois lembre-se: ele teve o primeiro enfarte dia doze de junho. quando esse procurava vingar o pai. aquela que ficou em nossa crônica criminal como . E agora me recordo de suas últimas palavras: "Venha. Judith. Eu preciso falar com você". constituiu o mais severo e expiatório castigo para o seu ato. com a popularidade do civilismo contra o militarismo. Eu quero te contar uma coisa. novamente ligou-me e insistiu para que fosse a São Paulo. foi certamente a agravante terrível desse assassínio que. autor dessa morte e. eu tenho ido a São Paulo. sem que o conseguisse. Sentia-se a sua amargura. Foi um delírio. fiquei firme.a tragédia da Piedade. Tanto assim que. Pelo amor de Deus. às vésperas do dia doze de novembro. já imaginei tudo. eu ia. por duas vezes absolvido nos tribunais. Sem querer reviver aqui a apaixonada controvérsia determinada pelo assassínio de Euclides da Cunha. o papai fica com essa brincadeira e não me diz nada. Se na morte de Anna de Assis os jornais cometeram enganos. é forçoso reconhecer que a condenação pública que acompanhou.doença. Dilermando de Assis passou toda a sua vida a procurar redimir-se da culpa. passou muito mal a doze de agosto. também da morte do filho de Euclides. falecendo no dia seguinte. autor de uma das obras-primas de nossas letras.

Agora. um culpado. sob o título "A Tragédia da Piedade". sempre. à cuja guarnição pertencia. explicações. De nada vale revolver razões. quando da explosão do movimento revolucionário que culminou com a vitória de 24 de outubro. por exemplo: Dilermando de Assis morre aos 63 anos de idade. para a sentença que não fala nunca. durante sua gestão naquela Secretaria. onde o castigo. já sem esperança de conquistar. E O PANO CAIU A "Tragédia da Piedade" continuaria em cena enquanto alguns de seus personagens estivessem atuando. O pano cai sobre o palco ensangüentado. juízos sobre essa dolorosa tragédia. com a saída do palco da vida de Dilermando de Assis. Em 1930. Cai agora o pano. 195 *** 42 Dilermando e Anna viveram um grande amor Judith Ribeiro de Assis levou alguns anos para convencer seus outros .últimos dias. A notícia completa na segunda página fala da tragédia da Piedade. que pesará sem dúvida seus méritos e suas culpas. exercendo alta função militar no dia da revolução e nos instantes subseqüentes à vitória. possuía diversos cursos regulamentares e exerceu o cargo de secretário de Viação e Obras Públicas do Estado de São Paulo. teve Dilermando de Assis atuação destacada nesta capital. É uma matéria não assinada. onde os fantasmas dos mortos se agitavam entre os vivos. com o desaparecimento do último e mais infeliz personagem dessa tragédia. Quarenta e dois anos depois Ana Solon foi chamada pela morte. de seus contemporâneos. No equívoco em registrar que o tenente conspurcou o lar do amigo está a pista para o libelo acusatório. destacando-se. E ainda mais: faz a crônica de um acontecimento trágico como se encerrasse com a morte de um último personagem. Se o ato do tenente Dilermando. medíocre. qualquer perdão. dos feitos do general. esquecendo-se de todos os filhos e geração nascidos fruto do amor de Anna de Assis e Dilermando de Assis. para a felicidade ou para a desgraça. que tão fundo feriu e abalou a sociedade. tanto ou mais do que o crime. ninguém poderá condená-lo por haver morto para salvar a sua vida. pouco tempo depois da Revolução de 1932. sim. Euclides pai e filho saíram do palco no primeiro e segundo ato. Quatro pessoas tiveram o seu destino marcado. outras tantas paixões. escrevendo para a posteridade. pode ser objeto de condenação. tendo sido organizador do "Plano Rodoviário" daquele Estado. Sua morte vem reviver. não é possível fugir-se aos seus azares. Era o terceiro ato. quando a Deusa Fortuna marca uma vida. uma das páginas mais tristes da história criminal do Brasil. conspurcando o nome e o lar de seu amigo. o relato sereno do brutal acontecimento e fez a defesa de seus atos. todos os seus personagens estão diante do Juízo Supremo. encerrando-se com o último comentário no qual se comete mais uma vez o engano de se considerar o jovem cadete amigo do escritor. conta sobre a morte do escritor Euclides da Cunha e de seu filho. 194 A extensa reportagem reproduz o passado. deixando o seu nome ligado a várias obras realizadas para o Exército. atinge às proporções esquilianas. As paixões humanas engendram. Dilermando de Assis publicou. assinalando nas entrelinhas que Dilermando seria. E. Oficial da arma de cavalaria. pois era ele engenheiro militar competentíssimo.

lá mesmo na ilha de Paquetá. mesmo depois dela morta. que se mostrou uma supermãe. Você é filha de assassino". Levamos uma vida de sacrifícios. homens. Só com muito amor. foi de muita preocupação. por que esta condenação da sociedade? Veja que eu e os meus irmãos crescemos com aquele estigma: são os filhos de Anna e Dilermando.irmãos de que um livro deveria ser publicado para reforçar sua convicção de que pai e mãe. No entanto. que os transeuntes paravam e indagavam que personalidade importante havia morrido aquele dia. Eu pergunto. basta lembrar das inúmeras amizades de minha mãe. da parte da sociedade. quando o seu corpo deixou o Hospital Central do Exército. podemos avaliar: quão admirável foi esta mulher. face à gravidade da doença. Dilermando e Anna. Éramos olhados como filhos de um assassino e de uma mulher infiel. viveram uma grande história de amor. Hoje. depois ela dizia: Hoje. Que foi o papai. elas se afastavam e diziam: "Não. de luta e abnegação pelos filhos. por aquele homem. Quantas pessoas.História de um . E o meu pai foi o único amor de sua vida. quatorze netos. este amor se transformou em ódio. Ela morreu apaixonada pelo papai. Ela era uma mulher muito culta. de admiradores.Apesar de mamãe não ceder aos rogos de perdão de meu pai. pois vamos pensar como é viver com um homem sabendo que efe maou o filho. a reação de minha mãe. Filhos de uma mulher vaidosa. era o seu filho. mulheres. Fez de seus filhos uma família normal. De outro lado. já quase todos moços. constituíram família. injustiças. ela resistiu a tudo. Apesar de que ele pediu perdão a vida toda. Nada. mamãe nos educou para superar tudo isto. falava fluentemente inglês. diga a ele que ele tem. eu tenho certeza de que ela jamais deixou de amá-lo. as amarguras. Avaliem. Em inúmeras oportunidades ela reafirmou que ainda era apaixonada pelo papai. Só nos deu amor e carinho. Por que persistia tal imagem de Anna de Assis?! E tudo mentira. E tinha uma personalidade que atraía a atenção de todos. o que recebíamos: discriminação. Lia muito. sofremos muita discriminação. Todos se casaram. no bairro de Fátima. fomos criados e educados por Anna de Assis. O que me disse muitas vezes. Cresceram como vítimas desta perseguição atroz contra Anna e Dilermando. São os fatos. No dia de seu falecimento. tal era a quantidade de acompanhantes. moços. até a data de doze de maio de oitenta e sete. Analisem tudo que foi narrado em Anna de Assis . existem os descendentes de Anna de Assis. vinte bisnetos e seis tataranetos. carros e mais carros. Com muito amor mesmo. traidora. espanhol. Por isso. Mas tinha mágoa. Ela não o perdoava por tê-la preterido. E que ela só conheceu um amor na vida dela. Ou de que a vida daquele homem lhe era indiferente. isto acontecendo apenas no fim de sua vida. mas de qualquer maneira. doidivana. até os seus últimos momentos de vida. italiano e francês. Veja o que ela sofreu por ele. Quando voltamos 197 da ilha de Paquetá. mamãe não deixa. . a vida do filho que ela perdeu. Quantas vezes. Veja o que a revista A Semana publicou após a morte dela. Era apenas Anna de Assis e aquela era uma multidão de amigos.E se tanto amor existiu entre meu pai e minha mãe. pedindo para brincar também. Somos testemunhas de sua vida à beira do fogão. Nunca vi uma paixão igual. E por isso faço questão de registrar tudo. E os meus irmãos recebiam o mesmo tratamento. Seriam apenas palavras de uma filha? Ora. Ela afirmava: Só se ama uma vez. Obrigou os filhos a visitarem o pai e eu levei o recado: Se ele precisar de enfermeira. ocorrido quando ele ainda residia no Rio. embora em legítima defesa. se a atitude de minha mãe não estava certa? Afinal. Recordo-me que por ocasião do primeiro enfarte de meu pai. quando eu me aproximava de um grupo de meninas. chegando a me confundir com minha mãe. São cinco filhos. . que procuravam a minha mãe para conversar. posso afirmar: Mamãe tinha paixão por meu pai. Mas por ser uma mulher temperamental.

Quando comentávamos. Curioso. evitando assim criar barreiras em nossa convivência. O escândalo todo será por que ela tinha quase trinta anos e ele apenas dezessete? Mas eles se apaixonaram. Teve. Ela é nossa irmã. neste livro transcritas. minha obrigação seria publicar um livro contando tudo sobre Anna de Assis. Pelo contrário. procurava afastar dos filhos as tristezas e tudo fazia para a nossa felicidade. Veja. Meus irmãos. ela estava feliz com o nascimento de mais um filho gerado pelo seu amor a Dilermando. Ela foi soprano absoluto. só posso lamentar a loucura feita por Quidinho. Da parte dela. provam nossa amizade. quando o então major Solon Ribeiro se transferia para a Corte. Ou melhor. dos dias alegres de minha mãe. Falamos de nosso pai com respeito e saudade. de adorada. minha mãe de suportar uma nova tragédia em sua vida. Por que ele tentou matar o meu pai? Para quê? Ele não pensou em sua mãe. a nossa união é a mesma que existiu para com Afonsinho. tanto quanto foi Afonsinho. . a casa de meus irmãos. convivemos com amizade. Minha mãe nunca foi a um enterro. se viu em meio a tempestade tão violenta que o capitão de bordo se julgou perdido e comunicou aos passageiros e . a sua obra. merece também a nossa compreensão.trágico amor e respondam: é possível condenar esta mulher? Não quero mais calúnias para com a minha mãe. Mamãe era muito católica. nós 198 temos a mais respeitosa e terna amizade por nossa irmã Dirce. na ilha de Paquetá. Agora. Nunca. E o meu pai. Ele ignorou a sua mãe. na costa do Estado do Paraná. Sempre foi. então. Ela abandonou Euclides da Cunha por amor. que se apaixonou um dia por outra mulher.Vamos analisar as suas cartas e raciocinar se os seus termos não são de alguém muito apaixonado. Às vezes. pensei. só recebi palavras de incentivo. é o desejo de todos nós. incomum. com quem convivemos. Leiam as cartas em que ele a trata sempre de esposinha. A sua religiosidade e a sua alegria inata de viver ajudaram-na a sobreviver aos momentos trágicos de sua vida. Que admirem o escritor. Se ela tudo fez pelos filhos. Por amor a Dilermando de Assis. um basta para as insinuações. Creio que suas cartas. afinal me apoiaram. a quem sempre amamos e respeitamos. Sonhei durante cerca de trinta anos com este livro que mostrasse a verdadeira face da mulher Anna de Assis. depois de escapar do mar e da morte. Que alegria é essa?. assim. passava o dia cantando ópera. Lembro-me bem. Respeitem os seus sentimentos. Procuramos não remover o passado para comentar e julgar atitudes de nosso pai. principalmente dos famosos euclidianos. o navio em que viajavam. ainda menina. paz e amor. se dão com os filhos de Dirce. E conseguiu graças à sua personalidade forte. E ela estava de resguardo de Frederico. Os meus filhos. Mamãe cantava muito bem. Inúmeras vezes comentei com a minha irmã Dirce que desejava um livro contando a vida de amor de minha mãe por meu pai. aplaudem minha iniciativa. cordialmente. E graças também à sua fé religiosa. Diante de tudo isto. Nunca se queixou da vida. E também jamais ouvi qualquer lamúria da parte dela. as injúrias. mas respeitem a minha mãe. já que há anos ela reside no exterior. Quero que a respeitem. 199 Em sua primeira viagem do Rio Grande do Sul para o Rio. que antes se posicionaram contrários à idéia. é como ele fugia das tristezas. Veja. Dirce freqüenta a minha casa. A tragédia maior da vida de Anna de Assis foi conhecer Euclides da Cunha. tanto quanto possível. Enfim. ela respondia: Quem canta seus males espanta. como tudo agora é diferente.

A imagem de Nossa Senhora da Conceição. Esteve em todas as suas casas. Ao entregar a seu filho caçula. despediu-se das crianças e pediu ao marido que amarrasse à menina Anna Emília. 200 *** 43 Anna de Assis escreveu todas as frases de sua história Uma vida não acaba quando se morre. A tempestade se afastou do navio em questão de minutos e logo a embarcação singrava águas tranqüilas. transferida à filha Judith Ribeiro de Assis como herança e mensagem de fé religiosa. Anna de Assis carregou a sua santa. se esfacelariam com o bater da primeira onda turbulenta. aturdidos. Enquanto todos corriam e ensandecidos imploravam misericórdia aos céus. Diante da menina S'Anninha. Os botes seriam frágeis e inúteis. Abandonaram os seus postos e vieram rezar. cuja imagem se colava ao peito da menina e deveria acompanhá-la ao mar. incontrolável. deitou ali a estátua da santa e teceu com fina corda uma teia que juntou e prendeu a imagem ao corpo de S'Anninha. . Major Solon apanhou uma tábua. sempre iluminada e venerada com respeito e devoção. o esboço de seu livro de Memórias. Por onde foi e passou. revelando até mesmo os seus difíceis momentos de vida ao lado do temperamental Euclides da Cunha. nunca abandonou S'Anninha. dona Túlia. Eu não tenho do que me defender. seu filho Luiz lhe fez um nicho e deu-lhe de presente para abrigar a pequena estatueta. Espero que me esqueçam. minúsculas bóias que de nada adiantariam naquele mar bravio. Os gritos alucinados de homens e de mulheres se ouviam nos intervalos dos trovões e estrondos de ondas gigantescas. um baú de cartas e manuscritos. Frederico. todos se ajoelharam e rezaram. Dona Túlia se abraçou aos dois filhos. queime tudo que escrevi. ela sabia que ali estava tudo o que não só uma imprensa curiosa desejava. aquela imagem de Nossa Senhora da Conceição. Ela poderia se desfazer de todos os equívocos surgidos em seu passado simplesmente mostrando tudo o que deixou por escrito. daquela data em diante. Ela jamais se esqueceria da cena. ela afirmou: Eu não tenho que me defender.aos tripulantes que se preparassem para se lançar ao mar. rezaram e clamaram por salvação. inúmeras vezes repetida. no seu rumo certo e rota estabelecida: o porto do Rio de Janeiro. ajoelharam-se. O navio jogava. major Solon e o filho Albino se ajoelharam diante da menina S'Anninha e rezaram a Nossa Senhora da Conceição. Baseando-se em tal afirmativa. Outros passageiros presenciaram a cena e. além da bóia. que deixem a minha memória em paz. se possível protegendo-a e salvando-a. Após a minha morte. Um dia. No entanto. colocou-a no peito da menina. Foram distribuídos salva-vidas. resistindo e ameaçando soçobrar. Anna de Assis passou toda a sua vida transmitindo aos filhos um sentido para a existência que se determina com honradez e dignidade. rogando pelo fim da tormenta. Também os tripulantes julgaram que aquele seria o último recurso para evitar o desastre e a submersão do barco. mas a verdade que os mistérios do amor guardam como impenetráveis segredos.

. E Judith relembra perfeitamente dos momentos de fugaz felicidade de sua mãe. Novamente. Não me queixo dos outros. uma pequena fogueira desmanchou anos de frases e revelações. E arrematava: a grande paixão de sua vida foi Dilermando de Assis. confirmando: Só se ama uma vez na vida. Completamente feliz! Minhas filhas casaram-se bem. restaram aos filhos. Passo os dias sozinha. No fundo do quintal da casa 19 da Rua dos Oitis. Dormimos no mesmo quarto. E meus netos me adoram. Anna prometeu: Nas minhas "Memórias" destruirei as fantasias dos cronistas de Euclides. Frederico foi leal à mãe. Anna da Cunha e. Quando surgiam comentários nas revistas e nos jornais. Não acusei. acusações. Mas o escritor era diferente do homem. Também são felizes. um artigo. a culpa entre nós também cabe aos deuses. lendo. principalmente à Judith. Anna de Assis bem disse que nunca esteve apaixonada pelo homem com quem se casou pela primeira vez. a Tragédia da Piedade e toda uma vida passada. e ele também acreditou que Anna de Assis seria esquecida pelos cronistas da fantasia. dizendo: Mas vivo feliz no meu ostracismo social. a viver eternamente infeliz? Ela conquistou o direito de dizer "vivo feliz". desfazendo completamente o mito de que a obra-prima literária tenha sido escrita numa rústica cabana em São José do Rio Pardo. Compreendi logo que tínhamos sido vítimas da Fatalidade. Na verdade. Pode haver maior ventura na velhice de uma mulher condenada. S'Anninha. tornou-se mulher. os filhos solicitavam à mãe que se insurgisse contra tudo. Euclides da Cunha escreveu Os Sertões na Fazenda Trindade. aceitou o compromisso porque no final do século passado as mocinhas se casavam por imposição paterna. na juventude. algumas palavras com as quais se consegue recompor a vida e o amor de Anna de Assis. Ela apenas respondia: O meu silêncio é a minha defesa. Criem balelas e aventuras para o escritor. É a afirmação de Anna de Assis.Frederico sequer desdobrou alguns daqueles manuscritos. já muito idosa. Vivemos juntos. Ela tinha apenas 15 anos. um dia ela disse em entrevista: Eu é que posso escrever sobre Euclides. Por isso me recusei em atender a um amigo de Euclides que me pediu que acusasse Dilermando. ouvindo rádio. Anna de Assis. nem odeio a ninguém. 201 Foi ela também que afirmou: Duvido que alguém tenha por ele maior admiração do que a minha. Como acontece nas tragédias gregas. um livro sobre Euclides da Cunha. Sobreviveu ao vulcão da fatalidade. nem acuso ninguém. Ela cresceu. calúnias. efetuou correções em sua obra literária. Afinal. sempre confirmou a versão. deixem sossegada a memória de Anna de Assis. Enquanto ele fez a ponte naquela cidade. Aos filhos. em São Carlos do Pinhal. Se o fogo desmanchou 202 anos de frases e revelações. escrevendo. Eu amei. na velhice. sobrepôs-se aos desígnios dos deuses. foi Anna Emília. sobre a morte do escritor. mentiras. Deixou tudo se queimar. Ela reafirmando: Eu não errei.

José do Patrocínio. . pedindo-lhe que os guardasse. Foi ouvindo aqueles doutos e sábios senhores que a menina Anna Emília aprendeu que. sobre os anos de aflição no princípio do século. audaz. deveriam saber também determinar a direção de uma vida. digna de admiração e respeito. João. cartões-postais. de mãe para filho. Na casa de cada um. Foi separada uma carta que ela enviou ao filho Luiz quando ele trabalhava na marinha mercante e viajava por mares distantes. Judith e Frederico. Sua renúncia ao casamento oficial. perseguindo uma mulher que foi incomum. se os homens governam os destinos da História. não só se dissertou sobre os rumos do País. Tudo de bom os cinco filhos de Anna de Assis arquivaram como lembrança da mãe. Ela pode ser romântica. Minha filha. como os novos caminhos do mundo. ao mesmo tempo ela passou à filha Judith as cartas e os bilhetes de Dilermando. seriam injustificáveis para os padrões da sociedade brasileira do princípio do século. Rui Barbosa e inclusive o seu pai. impulsiva sim. Pensaram sobretudo em revolucionar o País. E. singelas. sua atitude de mulher independente e apaixonada. se espalharam pelas casas de Luiz. lamentavelmente. Cartas. a moral canhestra se arrastaria pelos anos afora. E todos os filhos de Anna de Assis lembram de sua mais terna afirmação.Nunca ninguém percebeu que aos 14 anos de idade a menina Anna Emilia participou das reuniões em que se tramou a Proclamação da República do Brasil e que. Herança são as recordações. tudo culminando com o trágico 15 de agosto. E se o coração masculino apenas se preocupa com a liberdade e a independência. Quando pediu ao filho Frederico que queimasse tudo o que havia escrito a respeito de Euclides da Cunha. porém sempre inteligente. Ela nunca errou. em benefício de sua vida e de sua paixão pelo jovem cadete Dilermando de Assis. a mais bonita menina que freqüentou os salões do Império e depois saudou a Primeira República. A mulher Anna Emilia recordaria os ensinamentos filosóficos daquelas figuras históricas e trataria de colocar em prática. o da mulher também se dedica 203 ao amor. com os enunciados de inéditas filosofias. Principalmente quando amam. E revolucionária quando e onde preciso for. 204 a mais bela da Corte. Ao contrário. as idéias de um raciocínio que pregava libertação. Você é o único homem que não tinha o direito de prevaricar. iluminam os séculos e fazem os novos trajetos da História. sobre os seus desencontros com o escritor. A sua determinação de mulher surgiria novamente no dia em que renunciou ao segundo casamento. pois aqueles que nascem fora de sua época e são revolucionários não cometem faltas. não só discutiram a queda do Império. sobre os seus primeiros anos de vida conjugal. Laura. Mas ela jamais esqueceu o grande amor de sua vida. esta é a herança de um amor. Sou a mulher mais feliz do mundo. sempre existiram paredes que se enfeitavam com fotos da mãe . nessas ocasiões. jamais débil. novas normas sociais. outras inúmeras frases bonitas.a mesma que foi Anna Emília. Quintino Bocaiúva. Tenho cinco filhos que me adoram. no entanto. Benjamin Constant. Aristides Lobo. como também a filosofia positivista. marechal Solon Ribeiro. Eles falaram em erigir outros valores para a sociedade brasileira. estabelecendo que no Brasil deveríam prevalecer diferentes costumes. bilhetes.

De 1997 a 1999. É o autor de Anna de Assis . Foi um dos organizadores do Manifesto dos Intelectuais contra a censura. e fez parte da comitiva que esteve em Brasília para a entrega do documento ao ministro da Justiça da época. em sua fase inicial. Retornou para Belo Horizonte em 1996. Essa frase os filhos escreveram em mármore na sepultura de Anna de Assis: FELIZ DO HOMEM QUE TEM POR BÚSSOLA AS LÁGRIMAS DE UMA MÃE. 207 . O livro foi best-seller e originou a minissérie "Desejo". entre tantas frases de mãe. Dilermando de Assis. 205 O AUTOR E A SUA OBRA Jéferson de Andrade. escreveu crítica literária e fez reportagens culturais para o jornal Estado de Minas. os filhos reunidos escolheram a que melhor servisse para realçar a mulher Anna de Assis. em 1976. nascido a 14 de julho de 1947. lançou publicações mimeografadas em Minas Gerais. É o editor e o proprietário do jornal de bairro Folha do Padre Eustáquio com circulação mensal na região noroeste de Belo Horizonte. a respeito de sua mãe. foi editor de livros da Codecri. exercendo de junho de 1984 a dezembro de 1986 a função de editor de autores brasileiros. contando a história completa do jornal carioca fechado pela ditadura militar das décadas de 1960 e 1970. que matou o escritor Euclides da Cunha em 1909. No Rio. Anna. Como escritor. Passou para a Record em 1979. da TV Globo. depoimento de Judith Ribeiro de Assis.E nesta carta. mineiro de Paraguaçu. a que falasse de suas saudades por um filho ausente.História de um trágico amor: Euclides da Cunha. escreveu Um jornal assassinado . estreou em revistas literárias no início da década de 1970. a única dor que não sabia suportar. a editora do jornal Pasquim. e o pai. Com a colaboração do jornalista Joel Silveira. publicando contos. Como editor. Anna e Dilermando. Veio para Belo Horizonte e saiu para residir quinze anos no Rio de Janeiro e quatro em São Paulo.A última batalha do Correio da Manhã.

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