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CONCEPÇÃO DE LEITURA

A importância da leitura na nossa vida, a necessidade de se cultivar o hábito


de leitura entre crianças e jovens, bem como o papel da escola na formação de
leitores competentes, são questões frequentemente discutidas. No bojo dessa
discussão, destacam-se questões como: O que é ler? Para que ler? Como ler?
Essas perguntas poderão ser respondidas de diferentes modos. E as
respostas dependerão dos seguintes pontos de vista..
A língua como representação do pensamento. Neste sentido a leitura é
entendida como a atividade de captação das idéias do autor, sem se levar em
conta as experiências e os conhecimentos do leitor.
Língua como estrutura ou como código. Nesta concepção, o texto é visto como
simples produto de codificação e decodificação de um emissor a ser
decodificado pelo leitor/ouvinte, bastando a este, para tanto, o conhecimento
do código utilizado.
Língua como interação autor-texto-leitor. Os sujeitos são vistos como
atores/construtores sociais, sujeitos ativos que – dialogicamente- se constroem
e são construídos no texto.
Nessa perspectiva, A leitura é uma atividade na qual se leva em conta as
experiencias e os conhecimentos do leitor; e exige do leitor bem mais que o
conhecimento do código linguistico, uma vez que o texto não é simples produto
da codificação de um emissor a ser decodificado por um receptor passivo.

Vários autores definem duas posições opostas na leitura, que correspondem


aos dois tipos básicos de processamento de informação: a hipótese top-down,
ou
descendente, e a hipótese bottom-up, ou ascendente (Kato 1985; Carrell,
Devine
& Eskey, 1989; Leffa 1996; Grabe & Stoller 2002). A primeira dá maior
importância ao leitor e a segunda ao texto. A primeira veria o leitor como a
fonte
única do sentido, de forma que o texto serviria apenas como confirmador de
hipóteses; a segunda enfatizaria o texto e os dados nele contidos como ponto
de
partida para a compreensão e provém de uma visão estruturalista e
mecanicista da
linguagem, segundo a qual o sentido estaria ligado às palavras e às frases,
estando
desse modo, na dependência direta da forma.
De acordo com Kato (1985) esses dois tipos de processamento podem servir
para descrever tipos de leitores. Teríamos um tipo que privilegia o
processamento
descendente, utilizando muito pouco o ascendente. É o leitor que apreende
facilmente as idéias gerais e principais do texto, é fluente e veloz, mas por
outro
lado faz excessos de adivinhações. É o tipo de leitor que faz mais uso do seu
conhecimento do que da informação efetivamente dada pelo texto. O segundo
tipo
de leitor é aquele que se utiliza basicamente do processo ascendente, que
constrói
o significado com base nos dados do texto, fazendo pouca leitura nas
entrelinhas;
que apreende detalhes detectando até erros de ortografia, mas que ao
contrário do
primeiro tipo, não tira conclusões apressadas. É vagaroso e pouco fluente e
tem
dificuldade de sintetizar as idéias do texto por não saber distinguir o que é mais
importante do que é meramente ilustrativo ou redundante. O terceiro tipo de
leitor,
o leitor maduro, é aquele que usa, de forma adequada e no momento
apropriado,
os dois processos complementarmente (cf. item 2. 2.1, a seguir).
Kato (1985) menciona uma outra concepção de leitura que considera o ato
de ler como um processo discursivo no qual se inserem os sujeitos produtores
de
sentidos – o autor e o leitor, ambos sócio - historicamente determinados e
ideologicamente constituídos. É, segundo a autora, o momento histórico-social
que determina o comportamento, as atitudes, a linguagem de um e de outro e a
própria configuração do sentido.
Nas aulas de língua materna ou estrangeira, muitas vezes o texto é usado
como pretexto para o estudo da gramática, do vocabulário ou de outro aspecto
da
linguagem que o professor (ou o livro didático) querem enfatizar. Assim, o
texto,
parte do material didático, perde sua função essencial de provocar efeitos de
sentido no leitor-aluno para ser apenas o lugar de reconhecimento de unidades
e
estruturas lingüísticas cuja funcionalidade parece prescindir dos sujeitos.

Leitura racional – para muitos só agora estaríamos no âmbito do status letrado,


próprio da verdadeira capacidade de produzir e apreciar a linguagem, em
especial a artística.

Enfim, leitura é coisa séria, dizem os intelectuais.

Para muitos, relacionar a leitura às nossas experiências sensoriais e


emocionais é reduzir a leitura, revela ignorância.

Essa a postura intelectualizada e dominante – mantida por uma elite.

Obviamente, faz-se necessário distinguir essa idéia de intelectuais que


estamos utilizando em nossa aula.

Entre outras coisas, esse tipo de intelectualismo limita a leitura à noção do


texto escrito, pressupondo educação formal e certo grau de cultura e erudição
do leitor.
Nós estamos vendo a leitura como um processo de compreensão abrangente,
no qual o leitor participa com todas as suas capacidade a fim de apreender as
mais diversas formas de expressão.

Nossa proposta é observar a competência para criar ou ler tanto por meio de
textos escritos quanto de expressão oral, música, artes plásticas, artes
dramáticas, realidades cotidianas etc.

Também não estamos restringindo a leitura a atos de caráter científico,


artístico… enfim, eruditos.

Então, a leitura racional é intelectual quando elaborada por nosso intelecto –


estamos falando de um processo eminentemente reflexivo, dialético.

Ou seja, ao mesmo tempo que o leitor sai de si, em busca da realidade do texto
lido, sua percepção implica uma volta à sua experiência pessoal e uma visão
da própria história do texto, estabelecendo um diálogo entre o texto e o leitor
com o contexto no qual a leitura se realiza.

Isso implica dizer que os demais níveis de leitura são válidos. Entretanto, a
leitura racional acrescenta o fato de estabelecer uma ponte entre o leitor e o
conhecimento.

A leitura racional implica em reflexão, em atribuir significado ao texto e


questionar tanto a própria individualidade como o universo das relações
sociais.

A autora Maria Helena Martins cita um exemplo da professora Marilena Chauí


que ajuda a compreender essa questão. Exemplo: estatueta de barro
nordestina representando uma fábrica de farinha de mandioca.

(faxineira – a estatueta era para ela a reprodução de algo concreto e memória.


Ela contemplava a estatueta, mas sua contemplação e a da professora
Marilena nada tinham em comum).

(havia uma obra e dois destinatários – uma via a obra e o outro nada via).

Não significa necessariamente que haja uma leitura verdadeira e a outra


errada.
O episódio e sua reflexão exemplificam o quanto significam para a leitura a
história, a memória do leitor e as circunstâncias do ato de ler.

O relato ainda coloca por terra a ilusão de que só os intelectuais têm condições
de assimilar certas formas de expressão, especialmente a estética.

Continuando…
Freqüentemente confunde-se a leitura racional com a investigação de um texto,
com o exame de sua estrutura interna enquanto sistema de relações que o
compõem…
Esse tipo de leitura, sem conectar o texto com o mundo e com as experiências
do leitor, elimina a dinâmica da relação leitor-texto-contexto, limitando
consideravelmente a compreensão maior do objeto lido.

A leitura racional difere das outras formas de leitura porque, por exemplo,
diferente da leitura sensorial, permite conhecer o texto sem apenas senti-lo.

Já na leitura emocional, o leitor se deixa envolver pelos sentimentos que o


texto desperta.

Na leitura racional o leitor visa mais o texto, tem em mira a indagação; quer
mais compreendê-lo, dialogar com ele.

A leitura racional é algo exigente, pois implica no desprendimento do leitor, em


vontade de aprender, num processo de criação.

Essa leitura requer um esforço especial; não pode simplesmente querer se


apropriar do texto ou aceitá-lo passivamente.

A leitura racional é estabelecida a partir da quantidade de leituras feitas ao


longo da vida.

Por exemplo, quem leu um único romance, pode ter opinião sobre literatura de
ficção. Mas não tem parâmetro para julgar se é um bom livro.

Portanto, ao se ampliares as fronteiras do conhecimento, as exigências, as


necessidades e interesses também aumentam… As possibilidade de leitura de
qualquer texto, multiplicam-se.

O intercâmbio de experiências de leituras desmistifica a escrita, o livro,


levando-nos a compreendê-los e apreciá-los de modo mais natural… tornando-
nos leitores efetivos nas inúmeras mensagens do universo em que vivemos.

A leitura racional é feita a partir do preparo do leitor e também das pistas


deixadas pelo texto.

Todo texto conta alguma coisa… nada é gratuito; tudo tem sentido – é fruto de
uma intenção consciente ou inconsciente.

A leitura racional se dá a partir do reconhecimento dos indícios textuais.

Aprendemos a ler esses indícios à medida que nossas experiências de leitura


se sucedem… começamos a perceber como são construídos… a intenção do
autor…

No entanto, mesmo sabendo como e porque são armados os indícios não quer
dizer que o texto se torne transparente para nós (sempre haverá
ambigüidades…).
A INTERAÇÃO DOS NÍVEIS DE LEITURA
Não há uma hierarquia entre os níveis de leitura. Entretanto, a tendência é de
que a leitura sensorial anteceda a emocional e tenhamos, por fim, a leitura
racional.

Também não se deve supor a existência isolada de cada um desses níveis.

Curioso é que mesmo que o leitor esteja se propondo uma leitura a um certo
nível, é a dinâmica de sua relação com o texto que vai determinar o nível
predominante.

Salientamos que, há tantas leituras quantos são os leitores – há também uma


nova leitura a cada aproximação do leitor com um mesmo texto (ainda quando
mínimas as suas variações).

A LEITURA AO JEITO DE CADA LEITOR


Para se efetivar, a leitura precisa preencher uma lacuna em nossa vida, vir ao
encontro de uma necessidade (vontade de conhecer mais).

A isso se acrescentam os estímulos e os percalços do mundo exterior, suas


exigências e recompensas.

Concluindo, a leitura mais cedo ou mais tarde sempre acontece, desde que se
queira realmente ler.

Conteúdo extraído do livro O que é leitura (Maria Helena Martins)

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Os sentidos, as emoções e a razão – 03


junho 12, 2007 por ronaldonezo

O propósito é compreender a leitura… não é dar uma receita ou chegar a


conceituações.

O leitor pouco se detém no funcionamento do ato de ler, na intricada trama de


inter-relações que se estabelecem.

Há três níveis de leitura… sensorial, emocional e racional.

Esses três níveis são inter-relacionados – mesmo um nível ou outro sendo


privilegiado.

Como dissemos, cada pessoa reage a um estímulo de seu próprio modo; irá ler
a seu modo.

(Exemplo: você vai ao shopping. Como você age? Há produtos que


encantam… ignoram…)
Com a leitura acontece a mesma coisa. Por isso, a leitura tem mais sutilezas e
mistérios do que a simples decodificação das palavras escritas. Tem também
um lado de simplicidade que os letrados não se preocupam em revelar.

SENSORIAL – relaciona-se diretamente com os nossos sentidos (a visão, o


tato, a audição, o olfato e o gosto/paladar).

Representa as nossas respostas imediatas às exigências e ofertas que esse


mundo apresenta.

Relaciona-se com as nossas primeiras escolhas e motiva as primeiras


revelações. Por isso mesmo, marcantes.

É através dessa leitura que vamos nos revelando para nós mesmos.
(Descoberta das coisas agradáveis; rejeição das desagradáveis).

Ela vai dando a conhecer o leitor do que ele gosta e do que não gosta…
mesmo inconscientemente e sem a necessidade de racionalizações.

Leitura sensorial começa muito cedo e nos acompanha por toda a vida.

Na criança, essa leitura, através dos sentidos, apresenta/revela um prazer


singular (maior que a do adulto) e curiosidade (mais espontânea).

Vejamos, por exemplo, a relação de uma criança com um livro. Como se dá a


leitura sensorial?

Antes de ser um texto escrito, um livro é um objeto. Tem forma, cor, textura…

Esse jogo com o universo escondido do livro vai estimular na criança o


aprimoramento e o desenvolvimento da linguagem, desenvolvendo sua
capacidade de comunicação e reação ao mundo.

Já os adultos tendem a uma postura mais inibida – em relação ao livro e


também outros objetos passíveis de leitura.

Isto acontece até em função do culto ao livro… status adquirido.

Interessante é que, mesmo com o advento de outras formas de comunicação


(rádio, tevê, Internet etc), o culto ao livro foi acentuado.

Esse raciocínio alimentado por letrados e intelectuais ajuda a sustentar o culto


à letra e aos livros.

Isto ocorre porque ajuda a manter o sistema de dominação. Explicando… os


possuidores da palavra escrita possuem uma aura mística / leva os demais à
submissão.

Exemplo: censura por parte dos governos; no passado, censura da igreja etc.
Voltando à questão do nível sensorial, por conta da importância que tem os
nossos sentidos para a atração ou rejeição ao livro, a aparência de um livro é
fundamental (impressiona bem ou mal – inclusive, a diagramação).

Racionalistas dirão: o importante é o que está escrito.

É verdade, mas num primeiro momento o que conta é a nossa resposta física
aos sentidos – a impressão de nossos sentidos sobre aquilo que nos cerca.

Só que aquela primeira impressão passa. O que era bonito, fica feio… Assim,
quando uma leitura nos faz ficar alegres ou deprimidos, desperta a curiosidade,
estimula a fantasia, provoca lembranças etc, estamos entrando noutra área.
Significa que deixamos de ler com os sentidos para ler também no nível
emocional.

EMOCIONAL – a leitura emocional também tem seu teor de inferioridade…


implica falta de objetividade, subjetivismo.

No terreno das emoções, as coisas ficam ininteligíveis.

Possuem relação direta com o nosso inconsciente.

A leitura emocional tem aspectos curiosos. Por exemplo, certas coisas tem o
poder de libertar nossas emoções; levam-nos a outros tempos e lugares.
(Lugares, cheiros, músicas… provocam lembranças, sentimentos…)

Diante disso, muitas vezes, quando nos percebemos dominados pelos


sentimentos, nossa reação tende a ser negá-los (Freud explica como
mecanismo de defesa).

Por tudo isso, tentamos escamotear ou justificar uma leitura emocional. Mas
por que negar?

Por um lado, não queremos parecer comuns (queremos parecer donos de


nossos sentimentos… conduta pré-fabricada…. queremos apresentar
personalidade); por outro, somos intolerantes a manifestações que fogem
aquilo que chamamos de reação equilibrada.

Ocorre também lembranças mais prosaicas, desagradáveis. Leitura para uma


prova, por exemplo. Se for algo que não nos agradou, pode sempre remeter-
nos à lembranças desagradáveis.

Isso também pode acontecer em relação a pessoas, lugares…?

No nível emocional, é preciso pensar a leitura como algo que provoca – ou não
– empatia (participação afetiva – às vezes, até nos sentimos na pele do
personagem).

Neste contexto, é preciso pensar o texto não mais como algo que o leitor sente,
mas como algo que acontece com o leitor – o que ele faz, provoca em nós.
Às vezes, temos uma semiconsciência de estarmos lendo algo medíocre, mas
gostamos; outras, algo importante, mas nos desagrada. Temos uma ligação
inexplicável, irracional com o objeto de leitura.

Há explicações para isso. Geralmente tem a ver com a formação e o


condicionamento ideológico.

Essas aparentes predileções ou rejeições são explicadas pelo universo social e


individual de cada um.

Há também os aspectos projetivos. O leitor sente-se atraído pelo objeto lido por
se assemelhar à imagem que o leitor faz de si… ou o contrário, quando sente-
se atraído pelo oposto.

Mesmo quando começa a ter uma leitura consciente, em alguns momentos, há


recaídas. Isto se explica por causa da criança que ainda está dentro de nós…
ela se emerge e possibilita essas recaídas.

E quanto às fotonovelas, mundo-cão? Há todo um processo de identificação


com o público. Geralmente ligado às frustrações e angústias de cada leitor.

(Processo catártico – se há agruras na vida, há outros piores que eu. Por outro
lado, há aqueles que alimentam a ilusão de tirar “o pé da lama”).

Exemplo: investigação de leituras de operárias na cidade de São Paulo


(revistas sentimentais). Resultado: busca de uma compensação.

Este nível de leitura é bastante interessante do ponto de vista investigativo,


porque possibilita a identificação do universo social e do inconsciente
individual.

Também se trata de uma leitura de passatempo, já que representa uma leitura


de evasão. Onde o leitor permite-se desligar das circunstâncias concretas e
imediatas.

Esta a razão pela qual não se pode simplesmente imputar à leitura emocional a
característica de alienante.

Este é um modo encontrado para extravasar emoções, satisfazer curiosidades


e alimentar as fantasias (às vezes, válvula de escape).

Importante é entender que tudo que lemos e a forma que lemos é resultado de
nossa visão de mundo.

Problema: sempre há uma intencionalidade na criação. Permitir-se a leitura


passiva, deixar-se envolver pela ideologia expressa são alguns problemas da
leitura emocional.

Por fim, importa considerar o quanto em geral reprimimos e desconsideramos a


leitura emocional, muito em função de uma pretensa atitude intelectual.
É comum as pessoas se deixarem envolver emocionalmente – isso só, não é
bom.

A convivência social, cultural e política nos ajuda a caminhar para um outro tipo
de leitura – a racional.

Conteúdo extraído do livro O que é leitura (Maria Helena Martins)

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Ampliando a noção de leitura – 02


junho 12, 2007 por ronaldonezo

Como vimos, o conceito de leitura está geralmente ligado à decifração da


escrita – ler e escrever.

Mas é muito mais que isso… está ligado ao processo de formação do


indivíduo, à sua capacidade para o convívio e atuações social, política,
econômica e cultural.

Já, no passado, entre os gregos e romanos era assim.

Ler e escrever, ligado a idéia de homens livres… estar integrado efetivamente


à sociedade – à classe dos homens efetivamente livres.

O problema é que, semelhante ao passado, ainda hoje ler e escrever não é


privilégio de todos.

Porém, capacidade de leitura vai muito além da decifração dos signos… fato
nem sempre compreendido por muitos educadores.

Tem-se a pedagogia do sacrifício, já que não se sabe colocar o porque, como,


para quê… As pessoas não sabem a verdadeira função da leitura (isso inclui
vocês, estudantes de Jornalismo).

Também é sabido que uma vez alfabetizada, a maioria das pessoas, limita-se à
leitura com fins específicos (profissionais etc)…

Ignora-se que ler significa inteirar-se do mundo – uma forma de conquistar


autonomia, de deixar de “ler pelos olhos dos outros”.

Sem investir na leitura, permite-se assim que o mundo seja visto pelos olhos
dos outros (dominação).

Cabe a minoria dar sentido ao mundo.

A libertação do ser humano passa pela sua capacidade de leitura (e não


apenas da leitura de textos).
Nosso tempo é o da cultura de massa – isso implica em manipulação e
consumo.

Continuando…
Fala-se muito hoje em crise da leitura. Mas que crise? (abrir para alunos) //
livros.

Essa idéia nasce nos bancos escolares… contato com livros, geralmente,
dados nos manuais escolares…

Textos condensados da escola… nem sempre cultivam o hábito de ler…


geralmente alimentam mais a ignorância, inibem mais do que incentivam o
gosto de ler.

Há um receio do diálogo franco e crítico entre o professor e aluno…


bloqueando oportunidades raras de leituras efetivas.

É verdade que falta acesso a livros… (bibliotecas, livros caros, salários baixos,
qualidade questionável).

Hoje, isso não é uma verdade… Há livros.

Por isso, a questão é mais ampla. Volta-se à instituição escolar. E vem ainda
dos jesuítas… formação livresca, defasada em relação à realidade…

Temos uma elitização da cultura… Um interesse vivo de manter o


conhecimento restrito a apenas alguns…

Por isso, cabe ao indivíduo romper com essa prática. No caso de vocês, futuros
jornalistas, como pretendem se comportar?

Do contrário, crianças e jovens vão envelhecer sem a chance de crescer.

Observação: Contra-senso insistir na leitura, restringindo-a aos livros.

A verdadeira leitura deve propiciar descobertas… formação da consciência.


Ampliar a noção leitura é ampliar a visão de mundo e da cultura (as noções que
se têm geralmente ligadas às noções impostas pelas instituições).

Precisamos compreender e valorizar melhor cada passo do aprendizado das


coisas…

A verdadeira leitura só tem sentido quando as relações humanas são


compreendidas e pode-se transferir o que está sendo lido a essas relações.

Portanto, leitura não é mera decodificação (embora seja necessário decodificar


o código-signo).

Leitura é um processo dinâmico de compreensão, e passa por componentes


sensoriais, emocionais, intelectuais, fisiológicos… culturais, econômicos.
Leitura é decodificação e compreensão. O que seria decodificar? O que seria
compreender?

Não é só a capacidade de decifrar sinais, mas principalmente dar sentido a


eles.

Decodificar sem compreender é inútil – e o inverso também é verdadeiro.

A leitura começa antes do texto e vai além dele… leitor tem um papel atuante.

Leitura se dá a partir do diálogo do leitor com o objeto lido… mas considerar a


leitura apenas como resultado dessa interação seria reduzi-la
consideravelmente.

Por isso, aprender a ler significa também ler o mundo… é dar sentido ao
mundo e também a nós.

Conteúdo extraído do livro O que é leitura (Maria Helena Martins)

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O que é leitura – aula 01


junho 12, 2007 por ronaldonezo

O que é leitura???

O ato de ler geralmente é relacionado com a escrita, e o leitor visto como


decodificador da letra.

Mas é só isso? Basta decifrar palavras para acontecer a leitura?

Como explicar expressões de uso corrente como, por exemplo, “fazer a leitura”
de um gesto? Ler a mão?

Se alguém na rua me dá um encontrão… minha reação é uma leitura ou não?

Mais uma pergunta: a leitura é única? Sempre será igual? Toda vez que ler
alguma coisa vou interpretar sempre do mesmo jeito?

* Todo ato será lido sempre da mesma forma?

Com o tempo as coisas não fazem sentido diferente para nós? Passamos a
enxergar sob um novo ângulo…

Com o tempo se descobre o sentido, um novo modo de ver a mesma coisa… É


quase como se fosse uma revelação.

Com freqüência nos contentamos, por economia ou preguiça, em ler


superficialmente, “passar os olhos”, como se diz.
Não acrescentamos ao ato de ler algo mais de nós além do gesto mecânico de
decifrar os sinais.

Interessante é que geralmente reagimos assim ao que não nos interessa no


momento – um discurso político, uma conversa, uma aula expositiva, um
quadro, um livro uma música…

A tendência natural é ignorar, rejeitar como nada tendo a ver com a gente.

O problema é que quando não lemos, não o compreendemos, torna-se


impossível dar um sentido aquilo… porque diz muito pouco – ou nada – para
nós.

COMO E QUANDO COMEÇAMOS A LER


Desde os nossos primeiros contatos com o mundo – tão logo nascemos –
começamos a ler. Como isso acontece?

É neste contato com o mundo externo que começamos a compreender, a dar


sentido ao que e a quem nos cerca. Esses são também os primeiros passamos
para aprender a ler.

Para entender melhor essa idéia, Paulo Freire diz o seguinte: “ninguém educa
ninguém, como tampouco ninguém se de educa a si mesmo: os homens se
educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”.

Na prática, ninguém ensina ninguém a ler; o aprendizado é solitário – embora


se desencadeie e se desenvolva na convivência com o mundo.

Isso quer dizer que, mesmo precisando dos professores, temos condições de
fazer uma série de coisas sozinhos.

Na prática, aprendemos a ler lendo. Maria Helena Martins diz que “vivendo” –
ou seja, depende do quê lê – do que experimenta na relação com o mundo.

Aprendizado do Tarzan…

Aprendizado de Jean Paul Sarte…

Embora o aprendizado, o desenvolvimento da capacidade de leitura possa ser


algo mais complexo, ambas experiências evidenciam a curiosidade se
transformando em necessidade e esforço para alimentar o imaginário. Ou seja,
a necessidade de desvendar os segredos do mundo e dar a conhecer o leitor a
si mesmo através do que lê e como lê.

Muito da nossa capacidade de leitura se dá pela motivação em ler. O que


quero dizer com isso?

* Algo muito simples: quando começamos a organizar os conhecimentos


adquiridos, a partir das situações reais, coisas que a realidade nos impõe,
procuramos estabelecer conexão com as experiências e a tentar resolver os
problemas apresentados.
(exemplo: teoria no Jornalismo X prática profissional – problema é que hoje
para estar no mercado muitos precisam ter um mestrado, um doutorado).

Continuando…
O ato de ler e escrever têm sido valorizados. Entretanto, muitas vezes têm se
transformado num instrumento de poder pelos dominadores – mas também
pode vir a ser a liberação dos dominados.

Muitos não querem desenvolver a capacidade de uma leitura crítica, racional.


Preferem o comodismo. Acham melhor não entender, por isso significa um
ruptura com a passividade – talvez por lhe causar maiores frustrações em face
da realidade.

O problema é que o não querer ler, vem ao encontro dos interesses das
minorias dominantes.

Conteúdo extraído do livro O que é leitura (Maria Helena Martins)