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Introdução sobre a crise dos mísseis em Cuba

Um dos momentos mais quentes da Guerra Fria quase levou o mundo a um longo inverno
nuclear. Durante treze dias em outubro de 1962 a humanidade assistiu a uma disputa
entre Estados Unidos, União Soviética e Cuba que por muito pouco não acabou em
ataques com bombas atômicas e na extinção da espécie humana (e de quase todas as
outras) da face da Terra. O motivo desse cenário de horror e holocausto era a intenção de
Cuba e União Soviética de instalar bases de lançamentos de mísseis com armas
nucleares em território cubano, isto é, a menos de duas centenas de quilômetros da costa
norte-americana.
A crise dos mísseis em Cuba foi um arriscado epílogo de uma série de capítulos que
começou três anos antes. A revolução cubana que levou Fidel Castro ao poder em 1959, a
recusa dos Estados Unidos em aceitar o novo governo cubano e a consequente
aproximação política, econômica e militar da ilha
caribenha da comunista União Soviética, as
tentativas norte-americanas de derrubar Castro
do poder, como na desastrada invasão da baía
dos Porcos em 1961, e, no mesmo ano, a
instalação de mísseis nucleares americanos na
Turquia, que podiam atingir Moscou em menos
de vinte minutos, construíram um roteiro de
confrontos entre as duas então superpotências
que poderia ter um fim apocalíptico.

Apesar das ameaças e manobras militares que


aconteceram durante a crise, foram as variáveis
políticas que determinaram o seu desfecho. Os
líderes das duas superpotências na época - o
presidente norte-americano John Fitzgerald
Kennedy e o primeiro-ministro da União Soviética
Nikita Khrushchev - não queriam tomar decisões
radicais, mas estavam sob fortes pressões
políticas domésticas e tinham de adotar posições
que preservassem o status de superpotência de
seus respectivos países. Além disso, tinham de © iStockphoto.com /Mevans
lidar com informações imprecisas, militares e A crise dos mísseis em Cuba deixou o
políticos linha-dura dispostos a atacar primeiro e mundo à beira de um conflito nuclear
a necessidade de não demonstrarem frouxidão para manterem-se no poder nas disputas
internas em seus países.

A solução desse quebra-cabeça político-militar envolveu negociações e quedas de braço


entre Kennedy e Khrushchev, um perigoso bloqueio naval envolvendo embarcações com
armas nucleares, acordos secretos e uma traição ao camarada Fidel Castro. Mas o que
garantiu mesmo que a crise dos mísseis em Cuba não desandasse numa guerra nuclear
foi a doutrina da Destruição Mútua Assegurada, uma ideia derivada do fato de que, com o
tamanho dos arsenais atômicos de Estados Unidos e da União Soviética e a possibilidade
de que um ataque nuclear seria respondido com outro ataque nuclear, uma guerra entre as
duas superpotências levaria à destruição da civilização.

Crise dos mísseis: a ameaça cubana


Em julho de 1962, os serviços de inteligência dos Estados Unidos notaram um repentino
aumento no fluxo de navios e cargueiros soviéticos rumo a Cuba. Além disso, exilados
cubanos que viviam em Miami fizeram relatos para agentes do governo de que seus
parentes que moravam em Cuba notaram uma anormal movimentação de soldados e
equipamentos soviéticos por lá.
© iStockphoto.com /Panama7
Carro-lançador soviético de mísseis balísticos com ogivas nucleares

Alertado pela Agência Central de Inteligência sobre a possibilidade da União das


Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) estar instalando armas para atacar os Estados
Unidos na ilha caribenha, o presidente John Kennedy preferiu acreditar na promessa do
líder soviético Nikita Khrushchev de que a URSS não tinha interesse em instalar armas
atômicas fora de seu território. Kennedy estava tão confiante na palavra de Khrushchev
que em setembro assegurou ao Congresso norte-americano que não havia armas
soviéticas de ataque instaladas em Cuba.

Mas Khrushchev estava trapaceando. No começo de outubro, os discursos dos


representantes de Cuba na Assembléia Geral da ONU, em Nova York, enfatizavam que
qualquer ataque contra a ilha caribenha seria respondido com armas que os cubanos
desejariam jamais utilizar. Em 14 de outubro de 1962, um vôo de espionagem do avião
militar U-2, da Força Aérea dos Estados Unidos, equipado com poderosas máquinas
fotográficas, registrou a construção de bases de lançamento de mísseis no interior da ilha
e mostrou o que seriam mais de três dezenas de mísseis capazes de carregar ogivas
atômicas, entre eles os SS-5 de longo alcance, que conseguiriam atingir cidades como
Washington e Nova York em menos de dez minutos.

Na manhã do dia 16 de outubro, após uma análise minuciosa das imagens e identificação
dos armamentos, o assessor especial de Kennedy, McGeorge Bundy, mostrou para o
presidente as evidências de que os soviéticos estavam montando bases de lançamentos
de mísseis nucleares em Cuba. Imediatamente, Kennedy convocou o Comitê Executivo do
Conselho de Segurança Nacional (ExComm). Participavam dele os mais importantes
integrantes do alto escalão do governo americano, como o Secretário de Defesa Robert
McNamara e o Secretário de Justiça Robbert Kennedy, irmão do presidente, além dos
chefes militares.

O Comitê apresentou três alternativas a Kennedy: um ataque aéreo imediato às


instalações em construção e aos mísseis em território cubano, antes deles se tornarem
operacionais, um ataque aéreo seguido de uma invasão terrestre para depor o governo de
Fidel Castro - estas duas opções as preferidas dos militares e políticos linha-dura,
conhecidos como "falcões" - ou o bloqueio naval à ilha, que impediria a chegada de quase
três dezenas de navios soviéticos que estavam a caminho. Um cauteloso Kennedy opta
por não decidir na hora e mantém sua agenda de compromissos para não levantar
suspeitas na imprensa e evitar o pânico da população. No entanto, as forças armadas
começaram a preparar suas tropas e a realizar exercícios militares, o que chamou a
atenção.
Em reunião com o embaixador soviético em 18 de outubro, agendada antes da crise,
Kennedy age de forma dissimulada e fica convencido de que o governo da URSS ainda
não sabia que os americanos já sabiam sobre os mísseis em Cuba. O fim de semana
chega e Kenendy ainda estava em dúvida sobre o que fazer. Ele reserva horário para
pronunciamento nacional na segunda-feira à noite e manda preparar dois discursos: um
anunciando o bloqueio e outro sobre o ataque aéreo. Enquanto isso, tenta impedir que os
jornais, que já tinham obtido informações sobre as armas soviéticas em Cuba, adotem um
tom alarmista na cobertura.

Quem começou?
A justificativa para instalar um sistema de mísseis nucleares
soviéticos em Cuba era que a ilha caribenha precisava se defender
da ameaça constante dos Estados Unidos de invasão para depor o
regime comandado por Fidel Castro. Em 1961, financiado e
treinado pela Agência Central de Inteligência (CIA, em inglês) e
com suporte aéreo, um grupo de 1.500 cubanos desembarcou na
baía dos Porcos para colocar em ação tal plano. Mas a tentativa
de golpe contra Castro, autorizada por John Kennedy apesar de
ter sido engendrada no governo anterior, fracassou em menos de
cinco dias. A CIA, no entanto, não desistiu e começou a tramar
formas de assassinar o líder cubano. Além da questão cubana, os
americanos tinham também instalados mísseis com ogivas
nucleares na Turquia, país vizinho da então União Soviética, com
capacidade de atingir Moscou em menos de vinte minutos. Esses
fatos foram usados por Cuba e a URSS como pretextos para
instalar os mísseis soviéticos na ilha caribenha.

Crise dos mísseis: por que não houve a guerra nuclear


O ataque aéreo contra Cuba deixaria entre dez e vinte mil mortos e não garantiria a
destruição de todos os mísseis. Além disso seria considerado um ato de guerra contra a
URSS que retaliaria imediatamente, no mínimo, invadindo Berlim Ocidental. Essas
previsões feitas por militares e estrategistas contribuíram para Kennedy optar pelo
bloqueio. Em 21 de outubro de 1962, o presidente dos Estados Unidos anunciou essa
medida na televisão, com o cuidado de chamar o bloqueio de "quarentena" para não
caracterizar um ato de guerra. Ele também conseguiu uma "autorização" da Organização
dos Estados Americanos (OEA) para isso. No momento em
que discursava, cerca de trezentas embarcações da
Marinha e dezenas de aviões carregados com armas
nucleares foram colocados em ação para impor a
"quarentena" a Cuba.

Khrushchev ao saber da decisão de Kennedy entendeu a


"quarentena" como um ato de guerra e ordenou que os
navios soviéticos não alterassem a rota em direção à ilha.
Ele também teria esbravejado contra seus militares que não
Alfred Eisenstaedt /WHPO
conseguiram manter os mísseis escondidos. A tensão
Presidente John F. Kennedy
cresce à medida que os navios soviéticos aproximam-se das
embarcações americanas na linha estabelecida para o bloqueio. A população norte-
americana prepara-se para a guerra com uma corrida aos supermercados e em busca de
abrigos antinucleares. Para aumentar a tensão, os Estados Unidos iniciam uma série de
testes com bombas atômicas na ilha Johnston, no Pacífico.

Os chefes militares norte-americanos esperavam qualquer pretexto para iniciar um ataque


contra a ilha e, para tentar provocar isso, intensificaram os vôos militares sobre Cuba.
Kennedy era cada vez mais pressionado a iniciar a guerra e sentia-se cada vez mais
convencido de que o bloqueio poderia não ser suficiente. Àquela altura parte dos navios
soviéticos tinha dado meia-volta, sinalizando uma espécie de recuo, mas alguns seguiam
em frente rumo ao encontro com os americanos. Quase nada se sabia a respeito do que
acontecia na Praça Vermelha, em Moscou, sede do poder político soviético. Os analistas
tentavam descobrir se a questão dos mísseis estava ligada a alguma disputa interna pelo
poder na União Soviética. Além disso, sem que Kennedy soubesse, os militares
intensificaram a preparação para a guerra elevando o nível de alerta para Defcom 2, o
mais alto já registrado na História.
No meio disso tudo, Kennedy conseguiu
uma importante vitória política ao
surpreender o embaixador soviético na
ONU com uma apresentação das fotos
que provavam a existência dos mísseis em
Cuba. Enquanto isso, Fidel Castro
autorizou o uso da artilharia antiaérea
contra qualquer avião norte-americano
sobre a ilha. Na sexta-feira, 25 de outubro,
quando tudo parecia caminhar para um
final trágico, com a abordagem do primeiro
navio soviético pela Marinha dos Estados
Unidos, Kennedy recebe uma
surpreendente carta de Khrushchev
propondo um acordo que previa a retirada
dos mísseis de Cuba em troca do
compromisso dos Estados Unidos de não
atacarem a ilha nem ajudarem em
nenhuma tentativa de golpe contra Fidel.
Dane Wirtzfeld © iStockphoto.com
Prestes a aceitar os termos, os A doutrina da Destruição Mútua Assegurada foi
americanos foram surpreendidos um dos principais fatores que evitaram a guerra
novamente por uma segunda carta que ente EUA e URSS por conta da crise dos mísseis
exigia também a retirada dos mísseis da em Cuba
Turquia - pelo tom e teor dessa segunda
carta, ficou claro que havia uma feroz disputa pelo poder entre Khrushchev e a linha-dura
soviética. Além disso, a derrubada de um avião U-2 que sobrevoava Cuba ajudou a elevar
a sensação de que o mundo estava à beira do abismo.

Kennedy, no entanto, manejou politicamente a situação de forma magistral. Despachou


seu irmão e Secretário de Justiça para um encontro com o embaixador soviético.
Simulando que não havia recebido a segunda carta, ele propôs firmar o acordo em torno
do teor da primeira e, no fim, concordou com a retirada dos mísseis americanos da
Turquia, como um "bônus". Mas esse passo seria mantido em segredo para não significar
uma derrota política dos Estados Unidos nem um abandono de um de seus aliados. Em 28
de outubro de 1962, Khrushchev aceitou a proposta e simplesmente informou Fidel Castro
de sua decisão de retirar os mísseis da ilha. Chegava ao fim uma das crises mais graves
da História.

O surpreendente Khrushchev
A ascensão ao poder na União Soviética de Nikita Khrushchev em
1953 fez o mundo descobrir as atrocidades que seu antecessor, o
ditador Joseph Stálin, cometera durante três décadas. O reformista
Khrushchev surpreendeu a todos ao denunciar os "crimes de
Stálin", e a crise dos mísseis em Cuba foi mais um episódio em
que ele se revelou um político surpreendente. Toda a
movimentação militar soviética em relação à instalação dos
mísseis nucleares na ilha caribenha foi provavelmente mais uma
estratégia política do líder soviético para fortalecer seu poder
interna e externamente do que um real desejo de confronto com os
Estados Unidos. Mas os riscos políticos que Khrushchev assumiu
foram bem altos e por muito pouco ele não perdeu a aposta, o que
significaria uma guerra nuclear e a destruição do planeta. Em carta
que escreveu de próprio punho e enviou a Kennedy no momento
mais crítico da crise, ele revelou um inesperado tom emocional,
incomum aos líderes soviéticos. No texto Khrushchev ressaltou
que os soviéticos não queriam destruir os Estados Unidos, mas
sim, apesar das diferenças ideológicas, competir pacificamente.
Ele enfatizou que "somente um louco é capaz de acreditar que as
armas são os principais meios de vida de uma sociedade. Se as
pessoas não mostrarem sabedoria, elas entrarão em confronto, e a
exterminação recíproca começará". No fim, apesar de ter de
recuar e retirar todos os mísseis soviéticos de Cuba, ele sairia com
dois trunfos: a promessa pública do governo dos Estados Unidos
de não atacar a ilha caribenha e o compromisso secreto dos norte-
americanos de retirarem os mísseis que tinham instalado na
Turquia. O resultado da crise, no entanto, deixou Khrushchev
enfraquecido e ele perderia o poder dois anos depois.

Fontes:
BLIGHT, James G. e outros. Cuba on the brink: Castro, the Missile Crisis, and the Soviet
collapse. Maryland: Rowman & Littlefield Publishers Inc., 2002.
CORDEIRO, Tiago. A Crise dos Mísseis: à beira do abismo in Aventuras na História,
edição 18, julho de 2007.
DIVINE, Robert A. The Cuban missile crisis. Nova York: Markus Weiner Publishing, 1988.
GARTHOFF, Raymond L. Reflections on the Cuban missile crisis. Washington: The
Brookings Institution, 1989.

http://pessoas.hsw.uol.com.br/crise-misseis-cuba.htm