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ESTADO DE MATO GROSSO

POLÍCIA MILITAR
DIRETORIA DE ENSINO, INSTRUÇÃO E PESQUISA
ACADEMIA DE POLÍCIA MILITAR COSTA VERDE
(CIM – 1951)

BALÍSTICA

Várzea Grande – MT
MAIO/2011
Índice
1. Balística
2. Balística interna
2.1 Iniciação
2.2 Seguimento do projétil
2.3 Gráficos de pressão
3. Balística intermediária
3.1 Fenômenos sobre projéteis
3.2 Manipulação dos gazes
4. Balística externa
4.1 Força atuante os projéteis
4.2 Resistência do ar
4.3 Deriva
4.4 Efeitos do ar
5. Balística Terminal
5.1 Classificação de alvos
5.2 Alvos duros
5.3 Alvos moles
Balística
Balística é a ciência que estuda o movimento dos projéteis, especialmente das armas de fogo, seu
comportamento no interior destas e também no seu exterior, como a trajetória, impacto, marcas, explosão,
etc., utilizando-se de técnicas próprias e conhecimentos de física e química, além de servir a outras ciências.
Pode-se analisar o movimento de balística como uma composição de movimentos. Desconsiderando forças
de caráter dissipativos, na vertical, o projétil está exposto a um movimento retilíneo uniformemente variado
em decorrência da aceleração da gravidade. Na horizontal, o projétil está exposto a um movimento uniforme
uma vez que não há aceleração na horizontal. Apesar de tudo, a balística é uma ciência tudo menos linear,
com inúmeras variáveis.
A Balística subdivide-se em quatro secções principais:
• Balística interna
• Balística intermédia ou de Transição
• Balística externa
• Balística terminal

Balística interna
Entende-se por Balística Interna a secção da Balística que estuda os fenômenos que ocorrem dentro do cano
de uma arma de fogo durante o seu disparo. Mais especificamente estuda as variações de pressão dentro do
cano, as acelerações sofridas pelos projéteis, a vibração do cano, entre outras coisas.

Iniciação
Uma arma ao disparar começa por iniciar a carga de pólvora da munição. A queima da pólvora origina gases
que por estarem confinados vão originar pressão que por sua vez atua na base do projétil, fazendo força nele.
É graças à obturação que os gases não escapam para mais lado nenhum a não ser a boca do cano. A rapidez
de queima é proporcional à pressão, logo, as altas pressões geradas vão acelerar a própria queima. No
principio das armas de fogo só existia a pólvora negra. Atualmente existem inúmeras pólvoras diferentes,
onde entre cada uma pode variar a sua vivacidade característica, tamanho e forma. Uma pólvora muito viva,
queima rapidamente que origina altas pressões rapidamente que por sua vez aceleram a queima.

Seguimento do projétil
O projétil só inicia o movimento depois de ter ocorrido o seu forçamento para fora do invólucro e nas estrias
do cano (a não ser que seja um cano de alma lisa) que lhe conferem um movimento rotacional. O projétil vai
então adquirir uma enorme velocidade em pouco espaço ( na espingarda de assalto HK G3 a bala sai do cano
com uma velocidade de cerca de 800 m/s que adquiriu em apenas 45cm).

Gráficos de pressão
Os gráficos de pressão são o tema central da Balística Interna. Para que uma arma tenha um bom rendimento
dos gases da queima e ao mesmo tempo tentar ter canos leves e menos resistentes há que olhar para os
gráficos de pressão. Se usarmos uma grande carga de pólvora na munição, as pressões máximas são
proporcionalmente maiores. Deve-se então jogar com a forma da pólvora de maneira a que queime
lentamente ao principio, quando o projétil avança com pouca velocidade e com maior velocidade quando o
projétil já começa a deixar espaço livre atrás de si devido à sua velocidade. Existem inúmeras maneiras de
obter isto, ora com cargas de pólvora menos vivas, ora com a sua quantidade, ora com a forma dos grãos de
carga, ora com o peso do projétil, etc. Estes conceitos não se aplicam tanto a armas portáteis, tanto porque a
variedade de pólvoras para estas armas não é muita, e uma boa resistência dos canos não é difícil de atingir.
Balística intermédia
Entende-se por Balística Intermédia o estudo dos fenômenos sobre os projéteis desde o momento em que
saem do cano da arma até o momento em que deixam de estar influenciados pelos gases remanescentes à
boca da arma.

Fenômenos sobre os projéteis


A reter sobre esta secção da Balística é que o mais importante é o efeito dos gases imediatamente à saída do
cano. Os gases da queima saem do cano a uma velocidade maior que a do projétil, envolvendo-o. Basta haver
uma pequena falha na boca do cano, para que uma grande quantidade de gases saiam por essa falha
provocando um efeito muito grave na precisão do tiro. O projétil é desviado significativamente. Mesmo sem
falhas, estes gases querem-se com menor pressão possível à boca do cano.

Manipulação dos gases


Na balística intermédia outro fator de estudo e aplicação são os aparelhos que atuam na boca do cano, tais
como tapa-chamas, silenciadores e afins.
• Silenciadores são, de uma maneira básica, um tubo com várias câmaras separadas de maneira que os
gases, por viajarem mais rápido que o projétil, percam a sua velocidade nessas câmaras antes de
chegarem ao fim com uma velocidade que se quer menor quanto possível. Iato, para evitar a
explosão sônica (produzida quando a velocidade dos gases ultrapassa a velocidade do som). Apesar
dos gases, uma arma para ser silenciosa precisa que a munição não possua velocidade supersônica
pela mesma razão, e os mecanismos da arma sejam também "silenciosos" na sua operação.
• Tapa-chamas são dispositivos com o objectivo de reduzir o tamanho e intensidade da chama à boca.
Existem também uma espécie de "travões" (muzzle-brake) e compensadores que projetam os gases
de maneira a que contrariem o recuo, ou salto vertical da arma respectivamente.

Balística externa
A balística externa é o estudo das forças que atuam nos projéteis e correspondentes movimentos destes
durante a sua travessia da atmosfera, desde que ficaram livres das influências dos gases do propulsante, até
aos presumíveis choques com os seus alvos.

Forças atuantes nos projéteis


As duas principais forças que atuam sobre os projéteis durante as suas viagens na atmosfera e valor relativo
dessas forças, no caso dos projéteis modernos são
1. A força da gravidade ou atração terrestre;
2. A resistência do ar aos seus movimentos, sendo que esta, para as balas e granadas de artilharia
modernas pode ser considerada como tendo, grosso modo, um valor igual a 100 vezes o valor da
atração terrestre.
Analisando matematicamente a trajetória balística no vácuo, ela caracteriza-se por: ter a forma de uma
parábola; o ângulo de queda é igual ao de projeção; velocidade de queda é igual à de projeção; tem alcance
máximo para um ângulo de 45º. A realidade porém é bem diferente. Apesar de a atração terrestre ser bastante
similar à do vácuo, a força a ter em conta é a resistência do ar, que tem três componentes: a força de sucção
provocada pelo vácuo na base do projétil; uma componente de compressão sobre a ponta do projétil, devida a
uma compressão do ar naquela zona; uma componente de fricção do ar sobre as superfícies e protuberâncias
laterais do projétil. Para velocidades subsônicas do projétil a componente de resistência mais importante é a
de sucção, enquanto que para velocidades supersônicas a resistência por compressão é a mais importante. No
ar, as principais características da trajetória são: tem a forma assimétrica em relação ao plano vertical e
transversal que passa pelo vértice dessa trajetória; tem uma velocidade de queda menor que a velocidade de
projeção; tem um ângulo de queda maior que o ângulo de projeção; tem o alcance máximo sempre bastante
menor do que seria a sua trajetória no vácuo com aquela velocidade inicial e ângulo de projeção; tem o
alcance máximo para um ângulo de projeção sempre menor que 45º. Apesar disto, para projéteis com
velocidades baixas (menor que 250 m/s) e suficientemente pesados a trajetória assemelha-se em muito à do
vácuo.

Resistência do ar
As leis da aerodinâmica impõem que a resistência do ar ao movimento de um projétil seja igual à massa da
coluna de ar deslocada por esse projétil na unidade de tempo. Esse mesmo resultado é o indicado pela lei de
Prandtl que diz que Ra = Cr x ρ x V2 x d² / 8
Em que Cr é o coeficiente de resistência, ρ é a densidade do ar, V é a velocidade do projétil e d é o seu
calibre verdadeiro. Qualquer que seja a forma do projétil, o seu coeficiente de resistência tem um valor que
variará com a velocidade, sendo porém que em todos os casos o valor de Cr será máximo para o valor da
velocidade do som.

Deriva
Designa-se por deriva o desvio, para fora do plano vertical que contém a linha de projeção, sofrido pelos
projéteis que são estabilizados por rotação. Esse movimento, que resulta da "queda" constante dos projéteis e
do facto de essa queda fazer com que o ar sob os projéteis fique a uma pressão superior à do ar sobre eles,
será para a direita se o sentido do movimento de rotação do projétil for, visto do lado da base, o dos ponteiros
do relógio e vice-versa.
De modo semelhante, no caso dos projéteis estabilizados por rotação com uma rotação no sentido dos
ponteiros do relógio quando vista do lado da base, um vento que sopre da direita para a esquerda deverá
(para além de o deslocar para a esquerda) fazer o projétil subir. E vice-versa para um vento que sopre da
esquerda para a direita.

Efeitos dos ventos


Os efeitos dos ventos longitudinais são tais que:
• Um vento longitudinal que sopre de frente, ao fazer com que a velocidade relativa dos projéteis seja
menor e com que eles levem mais tempo a chegar ao alvo e estejam portanto mais tempo sujeitos à
ação da gravidade, fará com que eles venham a bater mais baixo;
• Por outro lado, um vento longitudinal que sopre de trás para a frente, ao fazer com que a velocidade
relativa dos projéteis seja maior e com que eles levem menos tempo a chegar ao alvo e estejam
portanto menos tempo sujeitos à ação da gravidade, fará com que eles venham a bater mais alto;
• Um vento lateral da esquerda ara a direita fará o projétil deslocar-se para a direita;
• Um vento lateral da direita para a esquerda fará o projétil deslocar-se para a esquerda.

Balística terminal
A Balística Terminal é o estudo da interação entre os vários gêneros de projéteis e os seus alvos.

Classificação de Alvos
Estes classificam-se em alvos duros e alvos moles, conforme são ou não difíceis de penetrar, ou seja,
conforme dispõem ou não de uma armadura ou couraça qualquer. A balística terminal divide-se na que estuda
a interação com os alvos duros e a que interage com alvos moles, também conhecida por balística das
feridas.
Alvos duros
Podem-se considerar como alvos duros desde armaduras de tanques até coletes à prova de bala. Para a sua
neutralização existem vários tipos de munição, desde projéteis cinéticos chamados APDS ou APFSDS que
devido à sua alta densidade aliada com uma área transversal baixa conseguem uma boa perfuração, até
cargas focais, como p.e. os RPG’s, que usam uma carga explosiva em forma de cone que quando atinge o
alvo, projeta a explosão para um único ponto, conseguindo temperaturas elevadas a uma alta velocidade de
impacto.
As armaduras “falham” de diversas maneiras, sendo essas:
• Falha dúctil (material macio);
• Falha por fractura (material muito duro);
• Falha por vazamento (quando o material é de dureza intermédia e é “arrastado” para dentro por um
projétil de ponta oca);
• Falha por destacamento de uma face interior (causado por munições HESH, que consiste numa
“crosta” da parte interior da armadura ser destacada a alta velocidade devido à onda de choque
causada pelo projétil).

Alvos Moles
Consideram-se como alvos moles animais assim como seres humanos. Aqui já não se considera o emprego
de explosivos porque não é preciso tanto para a incapacitação do alvo, mas mais porque é proibido o uso de
munições explosivas contra seres humanos e animais. No contexto da Balística das feridas, as energias
denominam-se:
• A Energia de Impacto como sendo a energia restante do projétil no instante em que entra em contato
com o alvo
• A Energia Emergente como sendo, no caso de o projétil atravessar completamente o alvo, a energia
cinética com que o projétil emerge do alvo
• A Energia Transferida como sendo no caso anterior a diferença entre a energia de impacto e a energia
emergente e no caso em que o projétil fica dentro do alvo é igual à energia de impacto.
Pretende-se sempre que a energia transferida seja a maior possível pelo que se pretende sempre que ou os
projéteis nunca venham a emergir ou que, vindo a emergir, o façam transportando o mínimo de energia
cinética.
Fala-se do termo “Potência do impacto” para referir o espaço / profundidade da ferida produzida após um
dado impacto. Neste contexto, fala-se de uma grande potência do impacto quando, apesar duma grande
energia de impacto, a ferida vem a ter apenas uma pequena profundidade. E diz-se que os valores altos de
potência de impacto provocam estados de choque, sendo que este termo designa um conjunto complexo de
efeitos fisiológicos e psicológicos que tendem a incapacitar muito rapidamente o indivíduo (ou o animal)
atingido.
Para a incapacitação de uma alvo os factores determinantes são: a localização e direção do ferimento; a
velocidade de impacto; a energia de impacto; A densidade energética (em J / mm2, é praticamente sinônimo
de capacidade de perfuração); o desenho da ponta; a estabilidade do projétil após o impacto; a estabilidade da
forma do projétil ao longo da perfuração. Ainda sobre este tema há que referir as cavidades temporárias que
são uma espécie de espaço vazio que se forma à volta da passagem (cavidade permanente) por onde passa
uma bala a alta velocidade, que entretanto desaparece. Ou seja, pode haver lesões em órgãos não perfurados
pela bala, mas que tenham sido comprimidos por uma cavidade temporária. O tamanho da cavidade é
proporcional à velocidade da bala.