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A Festa de Ivan Angelo

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Assis Brasil Ivan Angelo estreou em 1961, com uma coletânea de contos, Duas Faces. Escrevemos na época, para louvar o ficcionista “feito, definitivo”, que surgia. Seu nome entrava para o pequeno grupo, mas significativo, de contistas brasileiros novos, tais como Trevisan, Rawet, Louzeiro, Veiga, Fonseca, Scliar, Vilela. Alguns anos mais tarde, quando preparávamos a edição de A Nova Literatura, parte dedicada ao conto, escrevíamos em relação à estréia de Ivan Angelo: “Depois dessa sua experiência, de 1961, Ivan Angelo não voltou a publicar ficção; falou-se que estava escrevendo um romance e a julgar pelo tempo de silêncio, e com base no seu primeiro livro, esperamos que a nova obra do autor venha sacudir mais uma vez a pasmaceira que às vezes se abate sobre nossa ficção”. O novo livro de Ivan Angelo não veio sacudir a tal pasmaceira, porque atravessamos uma fase realmente rica em nossa ficção, com inúmeros autores, consagrados e novos, dando o melhor de sua experiência. Mas o fato é que o romance de Ivan Angelo, A Festa (Vertente Editora), é uma cacetada, como diria João Antônio, uma obra rica de significado social e expressiva como experiência estética. O autor, já amadurecido no volume de 1961, dimensiona seu novo livro com a visão ampla dos problemas humanos e a mestria dos técnicos e artesãos. Ivan Angelo continua a dominar, amplamente, os recursos narrativos, e em A Festa, que o autor subtitulou de Romance: Contos, tem um espaço maior e de domínio mais largo, para exercer o fascínio de sua inventiva. Sem dúvida que a experiência anterior, da narrativa curta, lhe deu a matriz e o ponto de partida para o novo livro. E é na aparente diversificação temática e técnica que Ivan Angelo constrói o seu mundo artístico, que é dialeticamente o “real empírico” e o testemunho que se faz documento. A Festa é um painel, um caleidoscópio, uma montagem de fatos, narrativos, e depoimento de um personagem (o escritor) que inquire a própria obra e a põe em discussão. Dessa soma de falas, diálogos (ótimos), narrativas, monólogos, “recortes” de notícias, sai o romance inteiriço, uno na sua diversificação, uma obraprima.> O depoimento é do personagem-escritor: “Não é um livro sobre uma geração, mas sobre várias gerações que um dia se encontram no 1970 brasileiro”. A abertura, o núcleo e fechamento do romance mostram a figura dramática e sofrida do nordestino Marcionílio, migrante da terra ressequida, escorraçado e enxotado numa estação de trem numa capital brasileira, junto com inúmeros companheiros. Embora a figura de Marcionílio apareça pouco no romance, a sua presença subjaz em todo o decorrer da narrativa, que é feita de vários pontos-de-vista, com enfoques variados: o painel, de implicação social, cresce e se enriquece. Os personagens, todos bem configurados, são vários nesse caleidoscópio da vida brasileira. Embora o perigo do documento se sobrepor à criação, da informação jornalística e fria afogar a dimensão narrativa (ambiente, personagens, ação), a realidade do romance de Ivan Angelo consegue o distanciamento necessário, a

com as possibilidades de as palavras representarem (ou não) as sensações. Ou seja. O que se tem depois é a ficção propriamente dita. Lóri é de família de posses. A habilidade narrativa. este início fragmentado pode ser interpretado da seguinte maneira: a narrativa apanha um determinado momento da personagem Lóri. trabalhando como professora primária. a sua concepção de obra literária. com uma vírgula antes de qualquer palavra. o domínio da linguagem (ou das linguagens). Assim. enfim. Ivan Angelo.resumo A obra apresenta um narrador em terceira pessoa e tem como personagem principal uma mulher. Em seu aspecto global (unidade. estando ocupada. o nordestino injustiçado.. com alguns achados extraordinários. E entre a informação “jornalística” e a informação criativa (eleição de uma linguagem literária) o romance cresce em seu corte profundo de tempo histórico e realidade social. que leva o título de Documentário. O saldo positivo é para a ficção brasileira. na abertura de seu romance. Marcionílio. É uma literatura agradável. a observação aguda. em que Ivan Angelo como que “complementa” a biografia psicológica de vários de seus personagens. os diálogos espontâneos. completa o painel. Lóri recebe mesada do pai. sem "começo". A ficção (a poesia) não precisará. O que veio antes daquele momento. quando da publicação de seu primeiro livro. a condição humana. Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres . a técnica narrativa exemplar. pensou na empregada.Clarice Lispector .eqüidistância entre a obra e o fato. A Festa reafirma o ficcionista. Vive no Rio de Janeiro. lugar este que ele já havia conquistado. dão a Ivan Angelo um lugar destacado na ficção nacional. e. Esta parte é tambem o veio que une o documentário da primeira parte.)” Este início. disto a narrativa não se ocupa. etc. um período longo. que é o resultado da experiência real e estética do ficcionista. apareçam como peças da engrenagem. o livro fala sobre Lóri a partir daquele momento em que ela estava ocupada.estando tão ocupada. com amplos recursos. viera das compras de casa que a empregada fizera às pressas porque cada vez mais matava o serviço.. os personagens que nos são desnudados pela inventiva do autor. inteligente e inquietante. as percepções. nem depois. A . cujo nome é Loreley. Não se torna mais verdadeiro um romance pelo simples acúmulo de informações reais. É uma adição. O ponto de partida é aqui: . faz parte da estrutura formal da obra e demonstra um dos traços dominantes na obra de Clarice Lispector: a preocupação com a escrita. Quer o burguês desocupado ou o delegado de política social bombástico ou a jovem prostituta ou o jovem militante político. acontecimentos do domínio público. São reais tais personagens? Não interessa. sozinha.. que enriquece o livro e lhe dá uma tonalidade mais vibrante e crítica. como a gente fica emocionado e agradecido diante daquilo que nos sensibiliza. atuante. Os dados reais estão lançados. necessariamente. a situação do pormenor. separada da família. de origem agrária. pois eles agora servem na condição de tipos num determinado meio. Vejamos o começo da obra: “. concepção) o romance é perfeito. Para manter um padrão de vida acima das possibilidades de uma professora. do dia a dia. como se toda esta parte servisse de epígrafe para o livro. lança para o leitor certos dados objetivos da realidade social e política: vários instantes da vida brasileira. embora só viesse para deixar almoço e jantar prontos(. Ela se faz documento vivo. nem antes. mesmo que tenha a seu dispor um mínimo de informação.. na seqüência. O resto é suprido pela sensibilidade do romancista. a posição do homem e do artista. justificar o seu compromisso com o real empírico. O leitor sairá “tocado” do romance de Ivan Angelo. como é a parte Depois da Festa. No livro em estudo. o escritor. aparentemente incompleto. mas é chamada de Lóri. este livro capta um momento de Lóri.

vestida com uma camisola. machucada. Em meio a este percurso. dá-se. Clarice Lispector parte do discurso mítico amoroso mais banal para operar uma reestruturação. uma "plenitude". Lóri pretende dar um "passo à frente" na sua vida. Logo na primeira página do livro. A aprendizagem de que nos fala o título é o caminho que percorre Lóri enquanto dura a narrativa. existiam antes e existirão depois do livro. apenas viesse". Falam em filhos e casamento. ocorre algo como uma purgação de tudo aquilo em que a literatura de massa está viciada ao tratar do tema. A decisão de Ulisses causou um primeiro impacto em Lóri. sabe os momentos em que ele estará em casa. com Ulisses. solidão. com a personagem sentindo-se "plena". Não é uma história de amor comum. Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres nos fornece pistas de como vivenciar a idéia de amor. iniciado na intencional duplicação do lugar-comum. Era um corpo a corpo consigo mesma dessa vez. a trajetória a ser percorrida pela personagem. mas como relacionamentos inconsistentes ou superficiais. a esta altura. que hesitou. a partir daquele momento. aproximados pela conjunção. Estava tão fresco e bom na rua! Onde não passava ninguém ainda. Ulisses diz a ela. ou a "ter prazer". acaba por estabelecer articulações ainda mais abrangentes que a da diferenciação sexual. sua vida. Escura.. estando "mansamente feliz". sexo. teve o desejo: imediatamente. e foi até a casa de Ulisses. interrompeu o homem e sua voz estava lenta e abafada porque ele estava sofrendo de vida e de amor. Na obra. vendo. Amaram-se. Lispector não reproduz padrões tradicionais de oposição masculino/feminino. querendo que ela não telefone avisando: "Queria que você. demorou. olhar. As características deste relacionamento vão sendo desvendadas ao longo da narrativa. eu penso o seguinte: Posta nestes termos. Ela sabe os seus horários de aulas. Não se pense que este "pronta" significa uma virgem preparando-se para seu primeiro amor. encontros e desencontros com Ulisses: é a angústia d busca. Ulisses diz que vai esperá-la. Este processo terá sua conclusão quando Lóri estiver "pronta" para dormir com Ulisses. Ao longo da escrita. Trata-se de uma busca que. Aqui está o final do livro: -Eu penso. cujo ápice se dará quando estiver "pronta". com Ulisses. Ao processar investigação existencial a partir da condição de seu gênero.representação parcial da vida de Lóri. não mais a procurará.como achar nesse corpo-a-corpo um diamante diminuto mas que fosse . Segue-se um diálogo no qual Lóri e Ulisses conversam sobre o amor. "Ulisses determinará quando ela estará pronta para dormir com ele". medos. logra no decorrer da história alçar-se a outros sentidos. sabemos que Lóri mantém um relacionamento com Ulisses (tendo um encontro com ele. cega . hesitações. e em jejum mesmo caminhou até a praia. O caminho escolhido é o da paródia. Depois de vários encontros nos quais conversavam sobre a "aprendizagem" de Lóri. Narrado em terceira pessoa. Ela está "pronta". aprender ou descobrir o prazer para além do meramente sexual: algo como um amor total. recobre-se de um significado especial. a narrativa dá a idéia de continuidade: Lóri. apanhou um táxi. busca entre as suas roupas um vestido para ficar "atraente"). que ela desqualifica. Vestiu o maiô e o roupão. Lóri tem que se haver com inseguranças. sem uma palavra. não como amantes. não se resume apenas no ato de "dormir" com Ulisses. A evolução da personagem feminina desse romance é plasmada pela transformação do discurso que. Continuou a andar e a olhar. Deus e a obra termina com a frase em letras itálicas acima. Aos poucos vamos sabendo que Lóri está "aprendendo a amar". num dado momento que. seu mundo. Ulisses é professor universitário de filosofia. São vários os momentos narrativos em que isto fica explícito: ela está sendo "preparada para a liberdade por Ulisses". Sugere possibilidade alternativa de ser vivida uma relação amorosa. Trecho: ". anunciam a tensão entre duas possibilidades: repetir ou inventar. senão ao longe a carroça do leiteiro. Esta é a travessia do livro.. Trata-se de. olhar. no plano da escrita. mas numa madrugada chuvosa. O relacionamento com Ulisses. Lóri já teve outros amantes. por uma parcialidade formal: o romance começa com uma vírgula e termina com dois pontos. sem sequer trocar a roupa. Os dois títulos do livro.

querias Margarida. ou será que queria a proteção de Santo Antônio para a porca? Caroba negocia uma comissão com Eurico para ajudá-lo a tirar vinte contos de Eudoro Vicente. Caroba. quando é a do jantar que se encomendou para receber Eudoro. Benona. que fica apreensivo. armar um encontro entre Eudoro e Margarida na penumbra. Euricão queria a porca. Na sala da casa de Eurico. Como o ser humano fizera um dia uma pergunta sobre si mesmo. a quem ele dedica especial atenção e que logo o público saberá que esconde maços de dinheiro. Acertam-se. Aí estava o mar. Então ela arma um circo para alcançar alguns objetivos: ganhar algum dinheiro. porque este age estranhamente. Assim conquistou Eurico. Mesmo que não os achasse agora. queria Eudoro. há uma estátua de Santo Antônio.feérico. pois quer casar com Pinhão. percebe que Eudoro pedirá margarida em casamento. pois ouve falarem em devorar porca e pensa ser a sua. a irmã de Eurico. finge-se de torto. ficar no lugar de Margarida. onde as cenas se desenrolam. a empregada Caroba e. Na casa do comerciante.. e uma antiga porca de madeira. ela sabia. com o vestido dela. fazendeiro. pai de Dodó. São então tramas de Caroba: fazer Eurico pedir vinte contos a Eudoro para o casamento (na realidade. Euricão desconfia que querem roubar sua porca recheada. ai a carestia". tão feérico como imaginava que deveriam ser os prazeres. mocinha. Ela e o mar. antes que este peça dinheiro a Eurico. fazer Eudoro acreditar que pede Margarida. Dodó vive disfarçado. Ia perder ou ganhar? mas continuaria seu corpo-a-corpo com a vida. Aí Caroba convence Benona que Eudoro virá pedi-la em casamento e se dispõe a ajudá-la. quem Dodó namora às escondidas. tornara-se o mais ininteligível dos seres onde circulava sangue. pois pensa que lhe pedirá dinheiro emprestado. Caroba tranca Margarida no quarto.. de pé. pois pensa que ela irá encontrar-se com Eudoro. quer saber. moram a filha Margarida. Pinhão desconfia de Eurico e o observa." O Santo E A Porca (Ariano Suassuna) Eudoro Vicente manda uma carta a Eurico dizendo que lhe pedirá o seu bem mais precioso. enfim. para um jantar). pois o amava. Na hora do encontro entre Margarida e Eudoro. Eurico insiste em de dizer pobre. empregado de Eudoro e noive de Caroba. convencer Benona de que Eudoro viria pedi-la em casamento. Pinhão sente ciúme de Caroba quando sabe que ela irá em lugar de Margarida. deformado e sovina. o mar. . Margarida queria Dodó. filho do rico fazendeiro Eudoro. empregada de Euricão.. viúvo. O desenrolar dos fatos se desencadeira com a carta enviada por Pinhão. é assim que ela entende o bem mais precioso de Eurico que o fazendeiro. casar Dodó e Margarida além de Eudoro e Benona. Conseqüências das armações de Caroba: Dodó sente ciúme de Margarida. o mais ininteligível dos seres vivos. solteirona. repetindo as frases: "Ai a crise. a mais ininteligível das existências não-humanas. Eudoro. Alguma coisa se desencadeara nela. E ali estava a mulher. sua exigência se havia tornado infatigável. Caroba e Pinhão se queriam. Dodó. muito esperta. fazer Eurico crer que Eudoro pede Benona. Eudoro informa que fará uma visita para pedir esse bem tão precioso a Eurico. E aí estava ele. Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões. já há algum tempo. que lhe atribuiu a função de de guardião da filha. Benona. de quem Eurico é devoto. que já tinham sido noivos há muitos anos.

O corpo Esse é um livro de contos. Com o vale do dinheiro na mão. Dodó e Margarida saem do quarto e pensam ter sido surpreendidos por Eurico. quando adulto planejou. Eudoro faz Eurico perceber que aquele dinheiro era velho e havia perdido o valor. jogar soda na cara de uma. mas ele manda todos embora e fica só. que se insinua a ele. Pinhão e Caroba saem do quarto.manda Benona permanecer também no seu e vai. enquanto Eurico fala da porca que desapareceu. Eurico se desespera. Caroba então veste roupa de Benona e esta a de Margarida. Ela reage e bate em Pinhão e o manda esperar por Caroba. o primeiro chama-se: Os seios de Sofia: conta a história de dois noivos que se encontram em um barzinho. Benona e Eudoro. no entanto o noivo buscava uma forma de se livrar do compromisso. que tira as roupas de Benona e diz que acompanhou toda a cena. no dia da mulher. Margarida desconfiou de Pinhão e afirmou que ele pegara a porca. Meu cão: um menino pobre que com um “feitiço” fez um capeta para si. mas exige vinte contos para dizer onde escondeu a porca. bate outra vez em Pinhão. Eurico lhe salta no pescoço e Pinhão acaba contando.Na verdade Eurico havia saído para enterrar sua porca recheada dentro do cemitério. mas na confusão começam a se beijar. Eurico pensa que o rapaz lhe roubou a porca. Eurico finalmente revela que a porca estava cheia de dinheiro guardado há tantos anos. na penumbra não percebe que é Caroba. Pinhão ao sair do esconderijo onde estivera observando a cena. Graças a Caroba os casais se entendem sem Euricão nem Eudoro perceberem o engano de que foram vitimas. Em seguida: A-mãe-te: conta brevemente a história de Leila uma mãe solteira e seu filho deficiente. ela começa um namoro e só depois conta sobre o filho que é bem aceito pelo namorado. mostra a porca que estava na casa mesmo. Então. receber Eudoro. pois está com o vestido dela. No desespero. brigou por conta da espuma do chope. Caroba então recebe Eudoro vestida de Benona. bebeu pra criar coragem. A conversa entre Eurico e Dodó é engraçada. Dodó vê Caroba e pensa ver Margarida. que entra em casa dizendo estar perdido. tudo encorajado pelo capeta dele. Tentam dissuadi-lo da importância do dinheiro. a noiva se encontrava animada com a data que se aproximava. os vinte contos que Eurico conseguiu emprestados de Eudoro com a ajuda de Caroba. qual o sentido de tudo que houvera. Com seu capeta aprontava muitas. a . Ele é enganado: pensa estar conversando com a antiga noiva. Para não ter que se explicar. tentando entender o que aconteceu. A cena é divertida: são três casais que de repente estão juntos e felizes ante Euricão lamentando a perda da porca. o que não conseguiu. roubova bola de gude e enganava os outros quando criança. pois ambos se enganam: Dodó fala de Margarida. e entram em outro. vê Caroba e pensa ser Benona e tenta seduzí-la. Ela o leva ao quarto de Benona e o tranca com a ex-noiva. Com os gritos da discussão. com a porca e o Santo. Aí destrancam as portas dos quartos de Margarida e Dodó. vestida de Margarida. já que este o traiu. Caroba o empurra e tranca no quarto com Margarida. por quem agora já está novamente interessado. Depois Eudoro e Benona do seu.

e a polícia vem. todos que esperavam estavam absorvidos pela televisão. um dia deixou um vizinho entrar em casa. quando matava lagartixa e passarinho e passou a ter dó de porco e galinha. assim fez. Era o dia de seu anivérsario. sua mulher espera no carro. Sara. Dente de ouro: uma forte chuva causou um raio que matou os primos Jerônimo e Bento Matos.Plínio. Pré-Tensão: numa reunião de família. Estela sempre o esperava. mas a mulher já estava “alta”. um ex-juíz e sua esposa fiel. pára. apanhava na rua e trancava-se em casa. foi até a casa de uma. de tal forma que apenas um homem e uma menina notam a chegada de mais uma pessoa. ele se manteve sóbrio. A pequena morte de Martinha: esse narra um pequeno momento de recordação. mas mulher ainda não. teve os dedos da mão direita arrancados e assim os empedimentos e a vergonha que tal desfalque lhe causava. o irmão de um dos dois. Sozinho ele entra e busca o . Nariz de gelo: narra apenas a visita de um rapaz a um necrotério e a descrição das coisas horríveis que lá viu. Mão-de-Pilão. onde muitos fumavam e os jovens usavam “brinquinho”. sempre fora motivo de piada pela sua altura. Ai-de. mas como sempre vão a um barzinho e bebem chope. relembrou as festas surpresa que já tinha ganhado. Touro sob espora: um homem tinha matado muitos animais. no dia da vigília pelos mortos buscou Benevides para retirar os quatro dentes de ouro de um dos falecidos. Bentevino vendo isso esperou por um crime por parte do marido.vítima escolhida foi embora. acontece um crime. como castigo. e por fim ele só acabou bêbado. no dia de seu anivérsario planejou matar quem entrasse em seu apartamento. no entanto nada aconteceu. A morte ao vivo é divido em cenas que mostram um homem que morre acompanhado da série de informações fornecidas pela sua televisão ligada. ainda lembrava-se que no tapete dormia um gato. em determinado dia relembra de seu cão companheiro Faniquim e deseja não ter que sair Estela. esperou. O baixinho é a história de um senhor que completa cinqüenta anos. levou-a à banheira e ali matou-a. na espera relembra a infância. Ai-dos: em uma sala de espera de exames. mas ninguém apareceu. João Batista. Bunda! Bumbum: Raimunda era bunduda e chamava a atenção. Vênus de Milo é a história de Dr. ele fica apenas lembrando o passado junto a sua fascinação por braços. Um irmão já casado e totalmente ocupado com os serviços do tribunal passa por um cemitéio no campo. saindo da casa pouco andou morreu por conta de um raio. juntos beberam. Mindinho seu vizinho: um rapaz que depois de um roubo. Faniquim: um homem rotineiramente trabalha durante o dia e sai às cinco e quarenta e cinco.

) Para tanto.. descobriu. fato que nunca imaginara. O crítico Mário da Silva Brito afirmou. no caminho vai fazendo da paisagem da cidade a paisagem antiga de quando ainda ali era campo. as poesias de Gilberto Mendonça Teles alcança um grande amadurecimento formal e técnico sem. A caminho do antes: narra a ida de um homem para o escritório. Carlos Drummond de Andrade. de Gilberto Mendonça Teles Recomende esta página para um amigo Versão para impressão Gilberto Mendonça Teles publicou seu primeiro livro de poesia. ou decompô-los e recompô-los. predominantemente. João Cabral de Melo Neto. vive recordações e depois vai embora. por isso não viu o carro e por isso talvez não chegou em casa. o escritório era tão escuro e não se acostumava com a claridade do lado de fora quando ia embora. Alvorada. Pré-amar e pré-amor: Helena. Os Melhores Poemas. no entanto. fica na cadeira. tinha se tornado surda e muda. ele prefere não parar a leitura muitas vezes enterrompida. Raul de Leoni e Raymond. a mãe fica cuidando dele. Tem influência da poesia de Apollinaire. era natal." Com mais de 40 anos de percurso. um jogo de armar. Manuel Bandeira. quando sua mãe sumiu e ele nem percebeu. telefone e CEP viu que tinha se esquecido de si mesmo no endereço antigo. em 1955.túmulo de sua irmã que morreu ainda jovem. Camões. ele iniciou um discurso e ela simplesmente foi e nunca voltou. e criou-se sozinho na praia dos pescadores. uma adolescente apaixonada por seu professor. García Lorca. Ciscos nos olhos: O homem estava lendo. em casa e paralítico. e assim também reencontra a todo. Rita sua melhor amiga. aparece então à sua frente um menino ensangüentado. o menino fica imóvel desconcentra o homem que não cede. quando esse fecha a história o menino não estava mais lá. ela aos nove anos fora trabalhar de doméstica-babá. Heitor. ter de abandonar as conquistas vanguardistas e experimentais. (. Sua escrita procura aliar o amplo cabedal que . Pediu a ele uma entrevista. lhe falou com franqueza. Olavo Bilac. ou remontá-los. chama a atenção ao máximo. então vai em busca dos amigos passados. Peixe-mãe: fala sobre um homem que ficou rico e vivia em uma mansão. É um oleiro a lidar o idioma como um barro que se pode amoldar em variadas formas. ou cruzá-los. ou fraturá-los. Jorge Guillen. Boca mouca: Uma mulher que depois de mudar de número. Pertence à Terceira Geração do Modernismo (1945/1962). não hesita em casar vocábulos. aos quinze virou recepcionista. Então lembra sua infância. Cruz e Sousa.. Uma flor no meio do caminho: O pai sofre um derrame e não leva mais a vida de bebida e mulheres. sobre sua obra: a poesia tem sido para ele [Gilberto Mendonça Teles].

a bananeira. no meu Goiás. onde valoriza o signo e a materialidade da palavra. eu li o teu suspiro. Poema escolhido: Meus Outros Anos Eu me lembro. nem os dissipa como o pródigo: conhece a boa medida. eu me lembro. e todo mundo sabe de cor.. uma vez que lhe dá o poder da criação através da linguagem. senhor de vastos recursos. por exemplo. Em virtude de sua grande habilidade técnica.que apontam para um e. na aurora da minha vida. li teus versos de amor que leio agora. Contigo comecei a ver e vi as coisas mais comuns . Isso significa que. no medo. de ouvido. de coração. como. seus poemas podem ocupar a página numa configuração gráfica inusitada.. Casimiro. Além da vertente poética propriamente dita.lhe confere a participação ativa na vida literária do país. a uma disposição de estar continuamente fazendo o novo. Fala do autor sobre o fazer poético: A poesia mostra ao homem outros sentidos da existência. ao mesmo tempo. Seus melhores poemas traduzem o ideal equilíbrio entre essas duas forças. o trabalho com a visualidade do poema. E não é à toa que para Hölderlin ela é ao mesmo tempo a mais inocente das ocupações e o mais perigoso de todos os bens. se a alma é pequena. nem os retém como o proprietário avaro ou inepto. quase sempre utópico. como a Sibila o poder encantatório de nos fazer jogar com o sobrenatural. desde que sinta o apelo mais profundo de tudo que tem força e tem sentido. a juriti e a tarde que cismava no quintal. de cunho universal. Contigo descobri a travessia do tempo na manhã. É por isso que os tiranos de todos os tempos e lugares temem os poetas e a poesia. E que meu filho lê. para outro lugar. Gilberto Mendonça Teles. amplia portanto o seu universo e lhe restitui a ilusão de sua divindade. no amor. integra-o na plenitude da sua cultura. O poeta também se excede na construção de sonetos e de poemas de maior rigor métrico. É uma poesia altamente intelectual. a poética de Gilberto Mendonça Teles vai com bastante naturalidade do regionalismo de sabor originário à uma postura mais experimentalista. . Ela tem a força natural dos álibis . além do cuidado com o sentido. dá ênfase ao visível e escancara as janelas do invisível. tanto como poeta quanto como ensaísta e professor. no meu São João. e tem. destacam-se importantes ensaios sobre a poesia brasileira e seus poetas mais importantes. a de Mendonça Teles.o natural: o rio. e por ela vem talhando uma obra que o situa entre os melhores poetas de sua geração. Mas também sabe ele que a inteligência não vale a pena.

E até este confuso sentimento. teu lar. ler a poesia desse céu aberto que continuas a escrever no mar. teu São João. Eu me lembro. triste era imaginar o poeta enfermo. no momento em que tudo era belo e apenas triste era pensar no exílio e ver no termo um motivo de doença e de pecado.nos olhares da prima que sabia a dimensão maior do meu brinquedo. veio de teus poemas. esta idéia de pátria. tossindo os seus silêncios no passado. eu me lembro! e quis de perto ver o teu rio. . que persiste.

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