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Epistemologia e Modernidade-Sobre Verdades

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  • i. apresentaÇÃo do CUrso
  • ii. programa do CUrso
  • iii. BiBliograFia sUgerida
  • iV. plano das aUlas
  • aUla 1. introdUÇÃo ao CUrso e seUs oBJetiVos pensamento e Verdade
  • aUla 2. nossa idÉia de Verdade: aletHeia, Veritas, emUnaH
  • aUla 3. realidade e Verdade: HerÁClito e parmÊnides
  • AULA 3. REALIDADE E VERDADE: HERÁCLITO E PARMÊNIDES
  • aUla 4. lingUagem e Verdade: os soFistas
  • AULA 4. LINGUAGEM E VERDADE: OS SOFISTAS
  • aUla 5. ConCeito e Verdade: sÓCrates
  • AULA 5. CONCEITO E VERDADE: SÓCRATES
  • aUla 6. inatismo: desCartes
  • aUla 7. empirismo: HUme e loCKe
  • AULA 7. EMPIRISMO: HUME E LOCKE
  • aUla 8. Formalismo JUrÍdiCo e realismo JUrÍdiCo
  • aUla 9. CritiCismo: Kant
  • AULA 9. CRITICISMO: KANT
  • aUla 10. o positiVismo: Comte
  • AULA 10. O POSITIVISMO: COMTE
  • aUla 11. modernidade e ideologia CientiFiCista
  • aUlas 12 e 13. os positiVismos JUrÍdiCos e a CiÊnCia do direito

epistemologia e modernidade

AUTOR: JOSÉ RICARDO CUNHA

1ª eDIçãO

ROTEIRO DE CURSO 2008.2

Sumário

Epistemologia e modernidade
I. APRESENTAÇÃO DO CURSO..........................................................................................................................................................03 II. PROGRAMA DO CURSO ..............................................................................................................................................................05 III. BIBLIOGRAFIA SUGERIDA .........................................................................................................................................................07 IV. PLANO DAS AULAS ...................................................................................................................................................................10 AULA 1. INTRODUÇÃO AO CURSO E SEUS OBJETIVOS. PENSAMENTO E VERDADE.................................................................................10 AULA 2. NOSSA IDÉIA DE VERDADE: ALETHEIA, VERITAS, EMUNAH ...................................................................................................14 AULA 3. REALIDADE E VERDADE: HERÁCLITO E PARMÊNIDES ............................................................................................................17 AULA 4. LINGUAGEM E VERDADE: OS SOFISTAS ................................................................................................................................26 AULA 5. CONCEITO E VERDADE: SÓCRATES .......................................................................................................................................29 AULA 6. INATISMO: DESCARTES......................................................................................................................................................31 AULA 7. EMPIRISMO: HUME E LOCKE ..............................................................................................................................................35 AULA 8. FORMALISMO JURÍDICO E REALISMO JURÍDICO ...................................................................................................................39 AULA 9. CRITICISMO: KANT ............................................................................................................................................................42 AULA 10. O POSITIVISMO: COMTE ...................................................................................................................................................48 AULA 11. MODERNIDADE E IDEOLOGIA CIENTIFICISTA .....................................................................................................................53 AULAS 12 E 13. OS POSITIVISMOS JURÍDICOS E A CIÊNCIA DO DIREITO ..............................................................................................57

EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE

i. apresentaÇÃo do CUrso
Saudações acadêmicas! Este é o Curso de Ciência e Modernidade – uma introdução ao problema da verdade. Trata-se de um curso de filosofia que caminha entre a filosofia geral e a filosofia do direito e sua missão é problematizar o tema da verdade. Dessa forma, serve como pressuposto lógico e didático para o curso de filosofia do semestre seguinte, que irá problematizar o tema da justiça. Assim, o aluno será inserido nos dois pilares filosóficos – verdade e justiça – especialmente escolhidos e pensados para a grade curricular da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getulio Vargas. Toda a tradição jurídica foi forjada tendo como pressuposto conceitual, de forma mais ou menos clara, a idéia de verdade: verdade dos fatos, verdade das leis, verdade da constituição, verdade do processo, verdade do discurso, verdade do intérprete, etc. Ainda que o conceito em si de verdade nunca tenha sido tematizado de forma absoluta ou mesmo encontrado um consenso entre filósofos ou juristas, a idéia da verdade sempre esteve – e ainda está – amparando e legitimando o direito e as decisões jurídicas. Seja pela recorrência aos fatos, às normas ou à argumentação, a comunidade jurídica busca um amparo de veracidade que responda aos anseios da consciência epistemológica de toda a sociedade. Isso deve deixar claro que o problema da verdade não é específico do direito, nem mesmo da filosofia, mas, antes, trata-se de um problema humano e, por isso mesmo, social. Essa imbricação entre sociedade e verdade nunca foi tão profunda e tão explícita como na modernidade. O laicismo moderno foi convertido em cientificismo moderno e a ciência, tendo na técnica o seu braço operacional, passou a ocupar o centro do pensamento social e o lugar privilegiado da verdade. Todas as formas de conhecimento e instituições modernas foram, então, visceralmente marcadas por essa “ideologia cientificista”. Foi assim com a economia, a política, a medicina e, dentre outras, o direito que, rapidamente, converteu-se em ciência do direito. Como se não bastasse, os próprios ramos do direito iniciaram uma corrida alucinada pelo seu próprio estatuto de cientificidade e, por isso, lemos e ouvimos falar em coisas como “ciência do direito processual”, “ciência do direito penal” ou “direito civil como ciência própria dentro do direito”. Todas essas reflexões terão lugar neste curso de Ciência e Modernidade. Não se pode imaginar, hoje, a figura de um profissional crítico e hábil do direito, que seja capaz de pensar por problemas e raciocinar dialeticamente, sem que esteja inserido nesse debate filosófico e preparado para a problematização da verdade. Portanto, o presente curso não tem caráter secundário ou diletante. Embora esteja cercado pelos prazeres da filosofia, sua tarefa é árdua e exige concentração e aprofundamento. Trata-se de uma oportunidade ímpar de experiência do pensamento para a qual estão todos desde já convidados.

FGV DIREITO RIO

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tendo em vista o estudo dos limites e possibilidades de uma ciência do direito no contexto da crise e da crítica do paradigma da modernidade. trabalhos e provas que forem aplicados.1. fOrmas de avaliaçãO O aluno será avaliado mediante sua participação qualificada em sala de aula. antigos e modernos. realização das leituras obrigatórias. 3. Estudar os principais fundamentos.2. 2.3.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE 1. Investigar as bases positivistas do cientificismo moderno e a sua inflexão sobre a chamada “ciência do direito”. 2. que contribuíram para a constituição das idéias mais fortes de verdade na cultura ocidental. FGV DIREITO RIO 4 . ObjetivO Geral da disciplina Introduzir noções essenciais para a problematização do conceito de verdade a partir da compreensão dos fundamentos da epistemologia. Apresentar a verdade como objeto de um intenso debate histórico – filosófico e jurídico – sobre o qual não há um consenso definitivo. ObjetivOs específicOs da disciplina 2. 2.

intrOdUçãO: a verdade cOmO tema e prOblema 1. Pensamento e verdade. Unidade 2: fUndamentOs da mOdernidade 6. Positivismos jurídicos e a ciência do direito. Criticismo: Kant. Introdução ao curso e seus objetivos. 9. 5. As idéias de verdade e seus desafios intelectuais e sociais. Fundamentos filosóficos da antiguidade para a verdade. O positivismo: Comte. Modernidade. Modernidade e ideologia cientificista. verdade e ciência. 4. 11. 12. veritas.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE ii. emunah. O positivismo e os positivismos jurídicos na ciência do direito. Nossa idéia de verdade: aletheia. Fundamentos filosóficos da modernidade para a verdade. 7. Linguagem e verdade: os Sofistas. O pensamento e as tarefas do pensamento. 13. FGV DIREITO RIO 5 . Formalismo Jurídico e Realismo Jurídico. Inatismo: Descartes. Unidade 3: ciÊncia e direitO na mOdernidade 10. 2. Unidade 1: fUndamentOs da antiGUidade 3. Os positivismos jurídicos e a ciência do direito II. Realidade e verdade: Heráclito e Parmênides. 8. Empirismo: Hume e Locke. Conceito e verdade: Sócrates. programa do CUrso ementa Objetivos da filosofia e filosofia do direito.

mas como forma de aproche para acepções relevantes ao tema. além de didaticamente questionável. FGV DIREITO RIO 6 .EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE ObservaçãO impOrtante O Curso não se propõe a uma abordagem enciclopédica do tema proposto. O fio condutor de todas as reflexões é o tema da verdade e os autores serão abordados não com o fim de se conhecer suas respectivas obras. o que seria impossível nos limites da carga horária da disciplina.

Lisboa: Calouste Gulbenkian. Lisboa: Instituto Piaget. São Paulo: Cultrix. CAPRA. Inês Lacerda. 1989. Campinas: Unicamp. 1983. Rio de Janeiro: Forense Universitária. semântica e ideologia. Marilena. BORNHEIM. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. BOBBIO. 1983. São Paulo: Ícone. 2002. BAUMAN. A condição humana. Curso de filosofia positiva. BARKER. Sir Ernest. Raymond. O nascimento da filosofia. ARNAUD. COMTE. Theodor. 1999. As razões do direito: teorias da argumentação jurídica. BATIFFOL. Teoria política grega: Platão e seus predecessores. Rio de Janeiro: Renovar. ______. 1978. São Paulo: Abril Cultural. 1985.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE iii. BiBliograFia sUgerida ADORNO. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Os filósofos pré-socráticos. Derecho e razón práctica. Claus-Wilhelm. 1998. BACON. São Paulo: Abril Cultural. Manuel. Pensamento sistemático e conceito de sistema na ciência do direito. 1995. 1980. Fritjof. (Org. ______. Augusto. Testabilidade e significado. COLLI. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Helmut. BOUDON. 1994. Empirismo. 1994. Francis. Hannah.). COING. O positivismo jurídico: lições de filosofia do direito. Zygmunt. São Paulo: Abril Cultural. Henri. Giorgio. CHAUÍ. 2000. José Ricardo. Elementos fundamentais da filosofia do direito.d. FGV DIREITO RIO 7 . Robert. Introdução à filosofia da ciência. HORKHEIMER. Modernidade e ambivalência. São Paulo: Abril Cultural. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza. 2002. Convite à filosofia. CUNHA. A filosofia do direito. São Paulo: Abril Cultural. O ponto de mutação: a ciência. a sociedade e a cultura emergente. São Paulo: Abril Cultural. Dicionário enciclopédico de teoria e sociologia do direito. Max. CANARIS.). Direito e estética: fundamentos para um direito humanístico. André-Jean (Org. 1983. O justo e o verdadeiro: estudos sobre a objectividade dos valores e do conhecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Rudolf. ARAÚJO. 1980. 1995. Curitiba: EdUFPR. Lisboa: Editorial Notícias. 1999. 1998. Discurso sobre o espírito positivo. [s. Norberto. Brasília: EdUnb. ALEXY. ATIENZA. 1999. São Paulo: Brasiliense. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Cultrix. Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo. ______. São Paulo: Landy. 1984. ______.]. 1992. Gerd. São Paulo: Ática. México: Fontamara. CARNAP. ARENDT. 1993.

John. Hilton. A ciência do direito. KAUFMANN. São Paulo: Abril Cultural. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. MARQUES NETO. 1996. Questões epistemológicas. Thomas. David. Portugal [s. HOLLAND. 2003. KUHN. São Paulo: Perspectiva. Introdução à filosofia do direito e à teoria do direito contemporânea. Nem tudo é relativo: a questão da verdade. objeto e método. Compêndio de introdução à ciência do direito. São Paulo: Cortez. São Paulo: Abril Cultural.). António Manuel. Panorama histórico da cultura jurídica européia. 1983. FGV DIREITO RIO 8 . Uma breve história do tempo: do big bang aos buracos negros. Por uma filosofia crítica da ciência. Mchael. LARENZ. A ordem oculta: como a adaptação gera a complexidade. MIAILLE. Goiânia: Editora da UFG. São Paulo: Loyola. 1981. 2004. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Introdução crítica ao direito. São Paulo: Abril Cultural. 1989. Agostinho Ramalho. Crítica da razão pura.. É o direito uma ciência? São Paulo: Rideel. 1978. MORIN. Coimbra: Arménio Amado. Reinhard (Org. 2002. Rio de Janeiro: Imago. Metodologia da ciência do direito. Maria Helena. 1987. 1994. KOYRÉ. Edgar. JHERING. Stephen William. Immanuel.l. 1990. HESSEN. Introdução ao estudo do direito: conceito. 1973. Ensaio acerca do entendimento humano. ______. 1979. Rudolf von. São Paulo: Atlas. 2001. Tércio Sampaio. São Leopoldo: Unisinos. Richard L. São Paulo: Abril Cultural. 1997. Alexandre. JAPIASSU. 2000. KIRKHAM. Verdade e justificação: ensaios filosóficos. Lisboa: Estampa. Arthur (Org. São Paulo: Abril Cultural. Karl. Contra o método. Jürgen. Rio de Janeiro: Forense. HABERMAS. Palavra e verdade: na filosofia antiga e na psicanálise. 1991.). Meditações. 1980. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Lisboa: Calouste Gulbenkian. 1989. 1979. Johannes. John. São Paulo: Saraiva. GARCIA-ROZA. 1998. 1990. LÖWY. Lisboa: Gradiva.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE DESCARTES. HUME. HAWKING. 1980. Hilton. FEYERABEND. FERRAZ JR. 1993. 2005. Rio de Janeiro: Francisco Alves. Estudos de história do pensamento filosófico. São Paulo: Letras e Letras. DINIZ. 1980. KANT. René. Ciência com consciência. Discurso do método. Luiz Alfredo. HESSE. Teorias da verdade. JAPIASSU. Teoria do conhecimento. Rio de Janeiro: Rocco. Paul. 1997. Michel. HESPANHA. LOCKE.]: Europa-América. Rio de Janeiro: Forense Universitária. A estrutura das revoluções científicas. Lisboa: Calouste Gulbenkian. Investigação sobre o entendimento humano.

Conseqüências do pragmatismo. Lisboa: Instituto Piaget. François. Ensaios pragmatistas sobre verdade de subjetividade. Chaïm. Paulo. La estructura de la ciencia. 2006. António Braz. POPPER. Introdução geral ao direito I: interpretação da lei – temas para uma reformulação. VERDENAL. Miguel. 2006. 1996. A questão da verdade: da metafísica moderna ao pragmatismo. 1995. PRIGOGINE. Lógica das ciências sociais. Carlos Alberto. O método III: o conhecimento do conhecimento. Rio de Janeiro: 7 Letras. PERELMAN. São Paulo: Martins Fontes. Petrópolis: Vozes. Rio de Janeiro: DP&A. PLASTINO. Elementos para uma teoria crítica del Derecho. Luiz Alberto. TOURAINE. Lisboa: Dom Quixote. François (Org. Lógica jurídica. Vera. Buenos Aires: Paidos. 1998. 1999. Colômbia: Universidad Nacional de Colômbia. Portugal [s. TEIXEIRA. NAGEL. (Orgs. 1989.). CASTRO. 2000. 2001. Richard. Crítica da modernidade.l. Rio de Janeiro/Brasília: Tempo Brasileiro/ EdUnb. WARAT. Idéias contemporâneas: entrevistas do Le Monde.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE ______. In: CHÂTELET. OST. VIDAL. Filosofia do direito. A filosofia positiva de Augusto Comte. O primado da afetividade: a crítica freudiana ao paradigma moderno. FGV DIREITO RIO 9 . Alain. René. RORTY. RORTY.. 1974. 1994. 1994. Lisboa: Casa da Moeda. Sentido e valor do direito: introdução à filosofia jurídica. 1978. REALE. Rio de Janeiro: Relume Dumará.). Ilya et al. Richard. Ernest. História da Filosofia. São Paulo: Saraiva.]: Europa-América. Karl. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. Susana de. 2001. 1996. GHIRALDELLI JR. São Paulo: Ática.

inserir o assunto da verdade mediante uma reflexão acerca do pensamento como experiência humana. que há mais familiar conhecido conhecido do Mas o que é o tempo? Quando quero explicá-lo. Veja o que diz Santo Agostinho sobre verdade? o tempo: Qual a relação (ou quais as relações possíveis) entre estranhamento e • • Nada nos é mais familiar do que éo tempo?Tentemos fornecer uma explicação fácil e sobre o tempo? Veja o que diz Santo Agostinho “O “O que oo tempo. Se eu disser que o tempo é a passagem do passado para “O que e do tempo?para o eu disser que o tempo é a passagem encontro o presente Tentemos terei que uma explicação o presenteé explicação.” progredindo em seguida (Aristóteles. terei podepassado para Como sei que e do presente éparatempo que o do o tempo passar? o presente familiar e conhecido do tempo? Mas o que é Como sei que ele passa? O que é um que perguntar: Como pode o tempo passar? o tempo? Quando quero explicá-lo. e do em seguida pouco a poucopouco a pouco até resolverem problemas até resolverem problemas maiores. do do passado para oepresente e doque eu. pelo espanto que os homens. O que significa o espanto ou estranhamento como condição para a filosofia? O que significa o espanto ou estranhamento como condição para a filosofia? O espanto ou estranhamento apenas pode acontecer diante das coisas que O espanto ou estranhamento apenas pode acontecer diante das coisas que não são familiares? não são familiares? • Qual a relação (ou quais as relações possíveis) entre estranhamento e verdade? Nada nos é mais familiar do que o tempo. assim hoje como no começo. prepare-se para aPARA A AULA 3) PREPARE-SE aUla Diz Aristóteles: “Foi. não encontro tempo? Mas o que é o tempo? Quando quero explicá-lo. terei que dizer que o tempo é o tempo presente? Mas quanto então não seria mais corretoperguntar: Como pode apenas o passar? Como sei que . ObjetivOs da aUla Apresentar o curso aos alunos e organizar a forma de avaliação. e progredinprimeiramente abalados pelas dificuldades mais óbvias. I. não explicação. Tentemos fornecer uma explicação fácil e que é breve. plano das aUlas aUla 1. O O quedehá de mais efamiliar edo que o tempo? que o tempo: breve. 2). foram filosofar. Diz Aristóteles: “Foi. com efeito. sendo priassim hoje como no começo.. pensamento e Verdade NOTA AO ALUNO tema da aUla Apresentação do curso. I... presente recordo o futuro é o presente para o futuro. Metafísica. foram levados alevados a filosofar. maiores. pelo espanto que os homens. introdUÇÃo ao CUrso e seUs oBJetiVos.” (Aristóteles. fornecerperguntar: Como fácil e breve. O que há de mais ele passa? O que um o futuro. Introdução ao problema da verdade como tarefa do pensamento.um tempo futuro? oOnde ele aestá? FGV DIREITO RIO 10 Se o passado é o que eu.. com efeito. 2). não encontro O que é Se eu disser que tempo é passagem tempo passado? Onde ele está?explicação. Metafísica. do presente espero.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE iV. Se futuro. sendo meiramente abalados pelas dificuldades mais óbvias.

O que há de mais familiar e conhecido do que o tempo? Mas o que é o tempo? Quando quero explicá-lo. É QUE AINDA NÃO COMEÇAMOS A “O que mais desafia o pensamento nessa época de desafio do pensamenPENSAR. b. não encontro explicação. do presente espero. se acha. é presente ou futuro? O que é o tempo afinal?” (Santo presente ou futuro? O que é o tempo afinal? (Santo Agostinho. mas criar.” não começamos a pensar. a experiência de pensamento vai muito além da ordem do banal e exige esforço e superação. pensar é um mera inexistente dando define comocoisas e criadores e capazes de transcender amovimento de reapropriação do mundo por meio da significação e resignificação do mundo. Se eu disser que o tempo é a passagem do passado para o presente e do presente para o futuro. este “r” é ainda de colocar o é no verbo colocar. de Nietzsche. pensar não é conduz ànem ser eficiente. Leia a parábola abaixo. O individualismo: este nos conduz a achar que nossa subjetividade e oporpensamento. terei EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE que perguntar: Como pode o tempo passar? Como sei que ele passa? O que é um tempo passado? Onde ele está? O que é um tempo futuro? Onde ele está? Se o passado é o que eu. passado? Onde ele está? O que é um tempo futuro? Onde ele está? Se o passado é o que eu. possam mesmo tempo pessoal e contexto Para se superar tais obstáculos. Representa. o que faz pensamento. Certamente. nos sentido às sujeitos ao mundo. Para tanto. Tam-maior do experiência existencial histórica. Pensar não é mimese. e 2) uma exigência de justificação permanente de todas as normas e padrões de conduta.ter claro é mais do que isso. não é fazer a menos amorfos e Embora todos estes eelementospor isso ao até fazer parte de umsocial. Assim. é que ainda Deve-se indagar ao aluno: Diante da afirmação de Heidegger: Por que ainda não começamos a pensar? • • Por que ainda não começamos a pensar? O que é pensar? O que é pensar? Pensar não é divagar ou devanear sem compromissos. nesse sentido. Pensar é uma atitude quepoder fazer surgir o bém deve-se pensar que pensar não é um ato. Confissões) Como o tempo é familiar e pode ser estranhado. é necessário abrir-se a uma experiência radical de pensamento. nada melhor do que provocação feita por Heidegger: a provocação feita por Heidegger: Como o tempo é estranhadas.breve. então não presente? Mas dizer que o tempo é apenas presente? Mas quanto “r” um presente?? Quando acabo dura um presente?? Quandooacabo de colocar odurano verbo colocar. ninguém se perde no O debate hoje.” to. repetitivos. também as verdades são familiares e liares e podem e devem ser estranhadas. 1) uma ruptura com as cartilhas e manuais. Pensar é nos define repetição e a mesmificação. é necessário abrir-se a uma experiência radical de pensamento. também as verdades são famipodem e devem serfamiliar e pode Mas para que isso aconteça. doo tempo é apenas o seria mais correto quanto não seria mais o futuro o que que presente espero. deve-se ter em conta que o pensamento é uma diante da vida. do presente recordo e o futuro é o que eu. Para tanto. este “r” ainda presente ou já é passado? A palavra a presente ou já “r”passado? A palavra éque estou pensando em escrever queseguir. A massificação: esta nos cálculo perda de nossa singularidade nos definindo apenas como parte de coletivos mais ou mera repetição. reflita e prepare-se para o debate: 9 FGV DIREITO RIO 11 . Mas para que isso aconteça. tunidades pessoais somente podem ser forjadas sem o outro ou contra o Pensar não é racionalizar na forma de causalidades. conseqüentes. ser estranhado. antecedentes e outro. o ser superados: Temos deve ser grandes obstáculos ao pensamento que devem que não é pensar: a. então do presente recordo e correto édizer eu. isto é. nada melhor do que a “O QUE MAIS DESAFIA O PENSAMENTO NESSA ÉPOCA DE DESAFIO DO PENSAMENTO. é estou pensando em escrever a seguir. dois canalizado para a síntese negativa. Confissões) Agostinho. ao contrário.

“para que eu o tome sobre mim e minha força se alegre? "O que há de pesado?". e. quer conquistar. por fim. o espírito Muitos fardos pesados nomeio-vos. como presa. se for a água da verdade. Mas o espírito do leão diz: “Eu quero”. não deve mais haver nenhum ‘Eu quero’!” Assim fala o dragão. nomeio-vos. das. do espírito: como o espírito se torna camelo e o camelo. pede fardos pesados há para o espírito. no mais ermo dos desertos. e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: “Todo o valor das coisas resplende em mim. Nessa linha. ao qual inere o respeito. que marcha carregado para o deserto. a fim de tentar o tentador? Ou será isto: alimentar-se das bolotas e da erva do conhecimento e. marcha ele para o seu próprio deserto. criança. animal de escamas. ao qual o espírito não quer mais chamar senhor nem deus? “Tu deves” chama-se o grande dragão. mas criar para si a liberdade de novas criações – isso a pujança do leão pode fazer. pesadas. cargas pesadas. padecer fome na alma? 10 Ou será isto: estar enfermo e mandar embora os consoladores e ligar-se de amizade aos surdos. e não enxotar de si nem as frias rãs nem os ardorosos sapos? Ou será isto: amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma. Procura ali. no espírito? Do que já não dá conta suficiente o animal de carga. para magoar o próprio orgulho? Fazer brilhar a próe quer ficar bem carregado. pergunta o espírito de suportação. para que é preciso o leão. Todo o valor já foi criado e todo o valor criado sou eu. o espírito Muitos a sua força. ó heróis”. respeito. "para que eu Ou será isto: apartar-se da nossa causa. Mas. em cada escama resplende. pesadas. a sua liberdade e ser senhor em seu próprio deserto. o seu derradeiro senhor: quer tornar-se-lhe inimigo. quando ela celebra o seu triunfo? Subir o tome sobre mim e minha força se alegre? para altos montes.há de mais pesado. as mais pesatorna camelo e o camelo. que não ouvem nunca o que queremos? Ou será isto: entrar na água suja. lançando faíscas de ouro. ó heróis". leão. ao qual inere o leão e o cargas por fim. quer lutar para vencer o dragão. precisa-se do leão. o espírito forte. Meus irmãos. há para o espírito. as mais lha como um camelo e quer ficar bem carregado. Na verdade. do espírito: como o espírito se de suportação. para escarnecer da própria sabedoria? "O que há de mais pesado. vale discutir com os alunos a parábola das Três Metamorfoses de Nietzsche: EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Das três metamorfoses Das três metamorfoses Três metamorfoses. por amor à verdade. bem como do seu derradeiro deus. pergunta o espírito de suportação. pergunta o espírito de supor“O que tação. meus irmãos. Três metamorfoses. FGV DIREITO RIO 12 . pede a sua força. e ajoelha como um camelo Não será isto: humilhar-se. “O que há de pesado?”. em letras de ouro. Certamente. Qual é o grande dragão. quando ele nos quer assustar?” Todos estes pesadíssimos fardos toma sobre si o espírito de suportação. a experiência de pensamento vai muito além da ordem do banal e exige esforço e superação. dá-se a segunda metamorfose: ali o espírito torna-se leão. Conseguir essa liberdade e opor um sagrado “não” também ao dever: para isso. “Tu deves” barra-lhe o caminho. criança. tal como o camelo. pria loucura. o espírito forte. suportador e respeitador? Criar novos valores – isso também o leão ainda não pode fazer. e ajoede suportação. pergunta o espírito de suportação. leão e o leão. “Tu deves !” Valores milenários resplendem nessas escamas.normas e padrões de conduta.

outrora. e esquecimento. Nomeei-vos três metamorfoses do espírito: como o espírito torna-se camelo e o camelo. Sim. Luiz Alfredo. Como o que há de mais sagrado amava ele. (Nietzsche. para o jogo da criação é preciso dizer um sagrado “sim”: o espírito. precisa-se do leão. um ato de rapina e tarefa de animal rapinante. quer a sua vontade.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Conquistar o direito de criar novos valores – essa é a mais terrível conquista para o espírito de suportação e de respeito. um movimento inicial. um sagrado dizer “sim”. 1998. é a criança. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris. (Capítulo 2 – O Homem como Universo Infinito de Possibilidades. Constitui para ele. pp. agora. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Palavra e Verdade: na filosofia antiga e na psicanálise. pp. Direito e estética: fundamentos para um direito humanístico. é forçado a encontrar quimera e arbítrio até no que tinha de mais sagrado. agora. leão e o leão. aquele que está perdido para o mundo conquista o seu mundo. que poderá ainda fazer uma criança. 55-74) GARCIA-ROZA. Assim Falou Zaratustra) bibliOGrafia complementar CUNHA. meus irmãos. uma roda que gira por si mesma. um novo começo. que nem sequer pôde o leão? Por que o rapace leão precisa ainda tornar-se criança? Inocência. 1990. (Introdução. 7-23) FGV DIREITO RIO 13 . por fim criança. Assim falou Zaratustra. um jogo. o “Tu deves”. a fim de arrebatar a sua própria liberdade ao objeto desse amor: para um tal ato de rapina. Mas dizei. na verdade. meus irmãos. e. José Ricardo.

emUnaH NOTA AO ALUNO tema da aUla A idéia de verdade. no campo do pensamento crítico. apresentar as principais tradições que confluíram para nossa idéia geral de verdade. Evidentemente que a busca da verdade somente pode se realizar de forma crítica. prepare-se para a aUla A busca pela verdade é tão antiga quanto a existência do homem no mundo. ObjetivOs da aUla Desenvolver uma reflexão sobre o conceito. Assim como no senso comum ou no pensamento mítico. mas diferente do senso comum ou do pensamento mítico. No senso comum. com o outro. permanecemos com nossas opiniões e crenças sem ter nenhum motivo para duvidar delas. a busca pela verdade acaba por atribuir à verdade um valor em si mesmo. Quando o senso comum se cristaliza sobremaneira.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 2. sentido e limites da verdade. Essa busca pela verdade gera no homem certo conforto e estabilidade por estar diante de algo que acredita como fidedigno. com a natureza e com Deus) ele busca encontrar nela uma verdade. estamos diante do que pode ser chamado de pensamento mítico. Veritas. é a incerteza. Trata-se mesmo de um traço antropológico. ser buscada. antes de qualquer coisa. nossa idÉia de Verdade: aletHeia. cotejar a idéia de verdade com a experiência jurídica. Entretanto. suas contradições e possibilidades na filosofia e no direito. Veja e reflita sobre a tabela abaixo: pensamento mÍtiCo Preso e modelado Descomprometido e irresponsável esvaziado de senso ético Simples Subserviente pensamento CrÍtiCo Livre e criativo Comprometido e responsável Marcado pelo senso ético Complexo Autônomo. Para isso. historicamente se diferenciou verdade de senso comum. Aqui. se reproduz as afirmações que são recebidas prontas. isto é. correndo-se o sério risco de perpetuar mitos e preconceitos. pois em todas as relações que o homem trava (consigo mesmo. De efeito. nem tudo pode ser qualificado como verdadeiro: a verdade deve. Também relacionada com a verdade. por oposição a um pensamento crítico. naturalmente digno de confiança. na ordem da incerteza também se está FGV DIREITO RIO 14 . em geral. de forma que o verdadeiro é considerado bom e a verdade um bem.

Trata-se de apresentar algo exatamente como Uma das mais conhecidas aporias é o chamado então o que lê diz “é falso”. exatidão na Em Latim. então ela é falsa. então o que lê diz é falso. Assim. Assim como no senso comum ou no pensamento mítico. Em nos conforta e alivia. precisão. é a incerteza. É tos. descrição ou num relato sobre algo. própria ignorância. Todavia. Nessa segunda hipótese. A SENTENÇA SEGUINTE Édiz é verdadeiro. Contudo. mas recorrentes: • Como emunah (crer-confiar) sugere confiança em convenções ou co conhecimento. verdade das leis. dúvidas e inseguranças. logo está mentido. Se a sentença é falsa. diferentemente do que ocorre no senso comum ou pensamento • falar-descrever: liga-se ao EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE que foi. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. seja porque a própria unidade ontológicaverdade se pode veritas. Assim. somos herdeiros de três tradições lingüístico- A verdade nos conforta e alivia. coerência interna ex ralisia. que são estabelecidos ou herdados pelos sujeitos. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. Mas podemos dar uma 18 versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: que ele diz é verdadeiro. e o direito? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo expressões do tipo: “verdade dos fatos”. é condição imprescindível na dinâmica do distintos. é evidente à razão. certas pessoas. Também relacionadatemos as verdade. Por isso. ficamos em dúvida sobre em que acreditar ou fora da verdade. É possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com Aqui. nos impulsiona na busca pela verdade. diante dediferentemente do fatos ou situações. na verdade. Portanto. o fato é que mesmo em relação à verdade. sentido moral ou ético.ao acontecido. que teria dizer que tudo que ele diz é mentira. ficamos em dúvida sobre em que • Como alethéia (ver-perceber) quando conectada agir diante de certas pessoas. mas diferente do senso comum ou do pensamento mítico. então o que lê diz “é verdadeiro”. Seja fundamental. verdade do processo ou verdade do intérprete. mas se for verdadeira. uma sensação maior de estabilidaPARADOXO DO CRETENSE. Na sua forma o para nos afastar de todas as dúvidas e inseguatribuído ao cretense Epimênides. com a três grandes tradições herdadas pela filosofia na con no campo do pensamento crítico. ao dissimulado. reto. Essa dúvida sugere evidência ou a acreditar ou em como ao pensamento crítico. FGV DIREITO RIO 15 CONTEXTO DA Formas pelas quais . se o cretense. Mas o problema aponta para o paradoxo real que pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. pela verdade.está fora da incerteza também se • verdade. não há paradoxo. então afirmado que todos os cretenses são mentirosos. Também nos oferece uma sensação m estabilidade. é um mentiroso. o latim e o hebraico. que ocorre no senso Essa dúvida gerada pela de uma ou outra forma: samento mítico. Como Epimênides é ele mesmo um ela é verdadeira. se o que ele diz é falso. fatos ou situações. gera medo e pagerada pela incerteza. Contudo. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. a verdade comumente diz-se aletheia. quando condição imprescindível na dinâmica do conhecimento. significando o não-oculto. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer do mentiroso. gera medo e paralisia. na ordem daver-perceber: liga-se ao que é. Sejadistorção ou falseamento. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. na incerteza tem-se plena consciência da distâncialiga-severdade e da própria da idéia de verdade: ignorância. Contudo. • crer-confiar: da ao que será. Contudo. comum ou penem como agir Todavia. numa linguagem fiel ou Paradoxo PARADOXO DO CRETENSE. nos impulsiona na busca conceitos Deve-se deixar claro aos alunos como a busca pela verdade envolve três pelo uso correto das regras da linguagem. Também o A verdadegrego. Na ocorrência da incerteza. é conectada ao pensamento mítico. mítico. a verdade pode se ap VERDADE SENSO temos: Esquematicamente COMUM INCERTEZA Contudo. na incerteza tem-se plena consciência da distância da verdade e da incerteza. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. seja porque a própria unidade ontológica da verdade pode sofrer Assim. Por isso. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. a pergunta primacial que05] coloca é sobre a natureza [inserir figura se culturais distintas: o grego. ela não é absoluta ou suficiente manifesta como tal ao espírito por oposição ao falso. O que é a verdade? Pense sobre quais seda verdade. sem porque novas situações e descoberranças. porém. tas exigem novas verdades. O verdadeiro é o do mentiroso. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas.Dessa forma. então o que lê FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA Como reagir ao Paradoxo do Cretense?? Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. significando rigor. O que é verdade? Acerca dessa questão riam os sentidos possíveis paraaa verdade. ocorreu. a pergunta primacial que se coloca é sobre a natureza da verdade. se o que ele diz é falso. não há apenas várias correntes ou definições. o verdadeiro se revelado. No direito não basta a verdade pura e simples. então sem sentido e autoreferenciado. ela não é absoluta ou suficiente para nos afastar de porque novas situações e descobertas exige verdades. O verdadeiro é o enunciado ou o relato Claro que. Na ocorrência da incerteza. quando conectada ao pensamento mítico.1 Independente dos resultados a que se chegue. Na sua forma original é atribuído ao cretense Epimênides. correspondência entre nosso intelecto e a coisa. estaremos diante de apori das mais conhecidas aporias é o c nos oferece Trata-se de descobrir o que é da forma que é. Dependendo do sentido ao qual se atribua mais peso. estaremos diante de aporias. porém. Nessa segunda hipótese. “verdade das tempo somos confrontados com expressões do tipo: verdade dos faleis”. quando conectada ao pensamento crítico. ou P de. a da verdade diz sofrer fissuras. • Como veritas (falar-descrever) sugere validade. No direito. Contudo. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele se ele diz a verdade.

1994. e Capítulo 9 O Paradoxo do Mentiroso) FGV DIREITO RIO 16 . e Capítulo 3 As Concepções de Verdade. Teorias da verdade. 94-107) complementar KIRKHAN. (Unidade 3. pp. Richard. São Leopoldo: Unisinos. Convite à filosofia. Capítulo 2 Buscando a Verdade.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE bibliOGrafia Obrigatória CHAUI. (Capítulo 1 Projetos de Teoria da Verdade. 2003. São Paulo: Ática. Marilena.

DESENVOLVIMENTO Introduzir o debate acerca do do devir como problema ontológico para a Introduzir o debate acerca do ser e ser e do devir como problema ontológico para a res) se destacaram pela visceralidade de seus pensamentos. realidade e Verdade: HerÁClito e parmÊnides NOTA AO PROFESSOR NOTA AO ALUNO 1. O movimento. ao mesmo tempo. dois grandes filósofos (ou pensadores) se “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reúnese. informam e desafiam as concepções de verdade. a força dialética por excelência: “movendo-se. ao mesmo do devir. real.” (Fragmento 91) No No contexto do pensamento pré-socrático. Heráclito de Éfeso HERÁCLITO DE ÉFESO “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Tamanha a importância partes imanentes da filosofia heraclitiana. em si mesmo. reveste-se de imprevisibilidade. Heráclito de Éfeso e mênides dede Eléa plantaram para toda a a posteridade filosófica a questão do ser e do Parmênides Eléa plantaram para toda posteridade filosófica a questão do ser e devir. independente da Escola Jônica: a Escola Mobilista. dois grandes filósofos (ou pensadocontexto do pensamento pré-socrático. Duas compreensõesdistintas e opostas da ontologia do realdo real que. com tal com tal denominação justamente por conter no cerne de seu raciocínio filosófico denominação justamente por conter no cerne de seu raciocínio filosófico a idéia de a idéia de movimento. em si mesmo. nada é absoluto. Heráclito de Éfeso e Pardestacaram pela visceralidade de seus pensamentos. tempo. a transformação e. avança e se retira. por conseqüência. na medida em que nada é. por conseqüência. o conflito são FGV DIREITO RIO 17 . descansa (o fogo etéreo a força dialética por excelência: "movendo-se. escola própria. a partir do encontro com seu24 contrário: “Tudo se faz por contraste. O movimento. O pensamento logológico de Heráclito. pois o movimento constante faz com que as coisas sejam e não sejam numa dinâmica sem fim. Duas compreensões distintas e opostas da ontologia que. independente da Escola Jônica: a Escola Mobilista. são partes imanentes da filosofia heraclitiana. que surge a partir da força dos contrários é. ao encontrar-se com o dinamismo do movimento. ObjetivOs daaula 2. e Ontologia do problema do ser e do ser do devir. avança e se retira. o conflito. informam e desafiam as concepções de verdade. Objetivos da aUla compreensão da verdade acercareal. REALIDADE E VERDADE: HERÁCLITO E PARMÊNIDES aUla 3. Dispersa-se e reúne-se. compreensão da verdade acerca do do desenvOlvimentO 3. da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia” (Fragmento 08). mas vem-a-ser. A mudança e a transformação e. que surge a partir da força dos contrários é. descansa (o fogo etéreo do corpo do corpo humano)” (Fragmento 84 a). movimento.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE AULA 3.” (Fragmento 91) A mudança. Tamanha a importância desse filósofo Pré-Socrático que alguns autores atribuem a ele uma desse filósofo Pré-Socrático que alguns autores atribuem a ele uma escola própria. Logo. Tema da aula tema da aUla Ontologia do real: o real: o problemado devir.

como final as categorias final da autores expressões tipo: inclusive o Direito. que é e portanto que não inquérito que são a que 20 que não é não é caminho (pois à verdade caminho o outro. o fato é que mesmo em relação à verdade.que demarca o caráter de do do processo” ou seriam do intérprete”. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. “verdade conta a estrutura tridimensional do direito.Para uma boa síntese cf. oeste é o absoluto. se o que ele a verdade. aquele que possibilita o pensar. Se a sentença é falsa.. mas se for verdadeira. não pode ser outra coisa. Education (aoEducation (ao trabalhadas poraula).(pois à verdade que não é e portanto que é preciso não ser. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer dizer que tudo que ele diz é mentira. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. eu te direi.. Por isso. pois o mesmo é aopensar e portanto ser”. na leitura do fragmento quer parece o caráter totalmente excludente Claro que. para Parmênides. de número três. e tu recebe a palavra que ouviste. No direito não basta a verdade pura e simples. eu te direi. ainda que uma camada superficial e acidental possa vir a se modificar. pois o ser atividade da verdade se relaciona O Acreditar tempo somos confrontadoso filósofo no admitir que tudo número com o Direito? mesmo é a pensar do A todo no ser fatos”. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. o pensar passa a ser atividade inversão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: caminho ser na sua manifestação lógica: a verdade. Contudo. então ela é falsa. concomitantemente. sendo Fundamental na leitura do fragmento nos parece o caráter totalmente excludente a segunda verdadeiramente impossível. inclusive o Direito. então que lê diz “é verdadeiro”. dada sua não-existencialidade. No direito. essência de todo o universo. Mas o problema aponta para o paradoxo real que prática racional-argumentativa. e tu recebe a palavra que ouviste. dada sua não-existencialidade. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. porque é manifestada palavra que racional-argumentativa. e o direito? [inserir figura 07] E O DIREITO? constante mutação. não há paradoxo. na verdade. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. senão a daproposições instaurado por Parmênides no paradoxo ser / não ser. o único 1 caminho e o direito?filosófico é o do ser. este é absoluto. investigatório capaz de levar diz é falso. devemos considerar que basta a possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como devemos considerar que basta a mudança de (norma. eu te digo. o Dilidar todos os entes: com os problemas de insegurança jurídica? é preciso ser. eu é preciso não de todo incrível. é não ser. sentido moral ou ético. justificação.deverdade – filosófica: a do ser e a do não ser.. mutuamente verdadeira. “verdade com significaseu fragmento de guarda três. então. não pode ser outra coisa. o único caminho filosófico é o do ser. e a primeira distinguir realmente leva básicos a reflexão alétheia. os únicos chega-se à decisão." (Fragmento 2). e a primeira instaurado por Parmênides no paradoxo à verdade – alétheia. o pensar passaE aDIREITO? Como o problemaintrínseca do ser na sua manifestação lógica: ". São Leopoldo: Unisinos. tinguir dois caminhos básicos de reflexão filosófica: a do ser e a do não ser. Mas o problema aponta para o paradoxo real que pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. manifestada na dizer que tudo que ele diz é mentira. verdadeiro e justo se não é. encontra-se na práxis é nomeado diz o filósofo no seu fragmento E se a physis O sentido absoluto do serhumana pelo lógos. porque reito seria marcado por uma essência imutável. a própria physis. São duas fipode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. levarmos em das com o Direito? A todo tempo somos confrontados com Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da cultura o direito importa valores. Desta forma. então conclusão não poderia ser Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há preciso ser.. mas não a natureza das coisas. os únicos cami. não há apenas várias correntes ou definições. para Parmênides..do Se “verdade dos fatos”. Por isso. este acompanha). de Persuasão ser. então a conclusão não poderia ser outra. Como fenômeno da cultura o direito importa valores.Claro que. o outro. essência trínseca doinvestigatório capaz de levar “. está excluído da verdade. No direito não basta a verdade pura e simples. Como fenômeno da Acreditar no devir heraclitiano E O DIREITO? Como o problema significa admitir que tudo está em constante Acreditar no devir heraclitiano da verdade se relaciona significa admitir que tudo está em mutação. KIRKHAM.portanto que te digo. principal opositor. de Persuasão é acompanha). Se a sentença é falsa. Não Pode-se desqualificar este ela é verdadeira. São duas mente exclusivas.pode-se Parmênides. aquela quedois caminhos a certeza. ser / não ser. está excluído da verdade. que não é (pois não é exeqüível). que não é e este então. Parmênides. que mesmo em relação à verdade. é atalho ser. physis encontra-se na nos a própria physis. de uma geração após Heráclito e seu principal opositor.caminhosVerdade. Assim. do Ser. pois nem conhecerias o nem o dirias. É é nomeado no Como possível falar-se em Aqui.. EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE OBS: Heráclito é o pai da dialética. havendo intermediários possíveis e sendo o ser o único paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. são a pensar: o primeiro. então liação entre se forexclusivas. senão a da filiação entre ser e pensar. nem o dirias. é atalho de todo incrível. FGV DIREITO RIO 18 26 . Independente dos resultados a que se chegue. O e tipo: “verdade dos parmenídico portanto ser". Não havendo intermediários possíveis e sendo o ser o único caminho então o que lê diz “é falso”. proposições mutuaaquela que realmente leva à certeza. na verdade. nhos deTeorias da de inquérito pensar: o primeiro. o fato é é. PARMÊNIDES DE ELÉA CONTEXTO DA DESCOBERTA parmênides de eléa 1 Formas pelas quais "Pois bem. então ela é falsa. “verdade do processo” ou “verdade dodo direito. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. Assim. sentido moral ou ético. lidar com os problemas de insegurança jurídica? valor) para que demais também se transformem. diz das expressões uma essência imutável. leis”. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA no exercício da na prática demarca o caráter de todos os entes:aaquele que é. No direito. irá a segunda verdadeiramente impossível. concomitantemente. Mas podemos dar uma aquele que possibilita o pensar. de uma geração após Heráclito. sentido absoluto“verdadeser verdadeou “verdadeverdades? exercício da palavra.seus ou valor) para que fato ou mudança de um de seus elementos um de fato elementos (norma.1 Independente dos resultados a que se chegue. sendo considerar como o principal representante da Filosofia do Ser.” (Fragmento 2). deve-se apresentar aos alunos da aula). o caso o caso Board Aqui. não há apenas várias correntes ou definições. É leis”. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. Logo. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas.. “Pois bem. e o que não muito tempo pela filosofia. Veja-seVeja-se Brown x Brown x Board os os demais também se transformem. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. e o que aquele que é. mas ser e pensar.. não há E se a pois o fato de alguém ser mentiroso nãopráxis humana pelo lógos.de todo o A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA universo. que é e portanto Richard L. então ela é verdadeira. 2003. outra. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. Fundamental paradoxo. pois nem conhecerias o que não é (pois não é exeqüível). pode-se considerar como o principal representante da Filosofia e seu Desta forma. irá dis. Se levarmos em conta a estrutura tridimensional intérprete”.

O caso Brown. em boa parte do país. no entanto. mas na nação inteira. Na primavera de 1954.S. 1999. no meio-oeste dos Estados Unidos. é o nome de Oliver Brown. Seção Heráclito de Éfeso. deveriam freqüentar escolas primárias segregadas. no caso Brown Contra a Secretaria de Educação [Brown v. Gerd. não a exceção. sofreu um desafio nos Estados Unidos. Quando a ação de Topeka chegou à Suprema Corte. e era permitida ou legalmente exigida em 24 estados. que resultou em transformações não apenas em Topeka. O caso FGV DIREITO RIO 19 . bOard Of edUcatiOn]: a decisãO da sUprema cOrte QUe transfOrmOU Um país david pitts Em maio de 1954 – em uma decisão histórica. Nosso colaborado. (Introdução. a segregação racial era a norma. Doze outros autores em Topeka se uniram a Brown para representar seus filhos – 20 ao todo – que. M. Kansas. Seção Parmênides de Eléia) complementar KIRK. Lisboa: Calouste Gulbenkian. e Capítulo 3 A Filosofia no Ocidente) aneXO brOWn cOntra a secretaria de edUcaçãO [brOWn v. Os filósofos pré-socráticos. uma ação havia sido iniciada em Boston. onde eles viviam.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE bibliOGrafia Obrigatória BORNHEIM. 11 ações foram iniciadas contra os sistemas de escolas segregadas. Board of Education] – a Suprema Corte dos Estados Unidos emitiu uma determinação segundo a qual as escolas públicas segregadas eram inconstitucionais. um negro. Mas ele não era o único autor da ação no caso Brown contra a Secretaria de Educação. Linda. Massachusetts. a organização de direitos civis mais antiga do país. entre 1881 e 1949. rastreou as origens de uma das mais importantes decisões na história do direito constitucional dos Estados Unidos. Somente em Kansas. que iniciou um processo quando sua filha de sete anos. Os filósofos pré-socráticos. sancionada pela lei. não foi a primeira vez que a educação segregada. teve sua matrícula negada em uma escola primária só para brancos na pequena cidade de Topeka. em conformidade com a lei. 1994. São Paulo: Cultrix. Oliver Brown era o pai mais famoso dos Estados Unidos. (Capítulo 2 Os Pensadores Jônios. Em 1849. O nome no caso. A ação inicial foi apoiada pela seção de Topeka da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor [National Association for the Advancement of Colored People] (NAACP). David Pitts. G. Brown. SHOFIELD. que originalmente foi iniciado em 1951.

até mesmo quando eu era bem pequena. legal. vice-president outras fontes em Topeka. chefe do Comitê de wn Contra a Secretaria de Educação [Kansas CommitKansas para a Comemoração do of Education]. que reuniu Oliver Brown e os outros pais e foi em frente com Foto: Cortesia de confirmado por outras fontes em Topeka. 11 ações foram iniciadas contra os sistemas de escolas segregadas. diz C. presi.E. e por causa do efeitodo efeito radical que teve sobre a sociedade americana em meados do séculoséculo XX. Marita Davis. Somente em Kansas. ela diz. diretora-executiva da Fundação Brown para a Igualdade. O caso foi levado em frente por meu pai e por outros advogados locais. e por causa radical que abrangência dada determinaçãoSuprema Corte. Autores De acordo com algumas fontes em Topeka. Marcus. Brunett e a NAACP”. não a exceção. entre 1881 e 1949. Na verdade. Kansas”. um ponto de vista Foto: Cortesia de Marita Davis. e era permitida ou legalmente exigida em 24 estados." que. tee to Commemorate Brown v. diz que desafiar a segregação “foi uma luta à qual meu pai se dedicou por toda a sua vida”.cinda Todd eScroggins. em boa parte do país. Quando a ação de EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Topeka chegou à Suprema Corte. Em 1849. direita. executivo da NAACP. por ordem alfabética. a segregação racial era a norma. Cheryl Brown Henderson. um ponto Scott. era o presidente da seção McKinley "O herói anônimo no processo de Topeka é local da NAACP. em colaboração com o Sr. que atualmente tem 55 anos e ainda mora em Topeka. “Eu me lembro de que. teve sobre a sociedade americana em meados do XX. “A irmã de Marcus Burnett.E. acrescenta Scroggins. Massachusetts. "Foi Burnett o desafio Board of ajuda dos advoCommemorate gados locais”. ignorando os outros 12 autores da ação em Topeka. Oliver Brown tinha uma posição de liderança entre os autores. o desafio legal. “O herói anônimo no processo de Topeka é McKinley Burnett. reluta em falar sobre a sua experiência e sobre o papel do seu pai ao desafiar o sistema. Walter White. Sua irmã. em parte porque ela acha que a mídia concentrou suas atenções em demasia na sua pessoa. “Meu pai estava sempre lutando pelos seus direitos”. no entanto. Excelência e Pesquisa na Educação [Brown Foundation for Educational 28 FGV DIREITO RIO 20 . por causa da Brown se destaca porque foi o primeiro caso bem sucedido desse tipo. Walter acrescenta os advogados Charles de vista Scott. Na verdade. era o presidente chefe do Comitê de Kansas para a Comemoração do Caso BroNAACP. ele estava sempre escrevendo cartas e organizando reuniões. Burnett -. Ele era um trabalhador comum que acreditava que a segregação poderia ser abolida por meio dos tribunais. sancionada pela lei. president executivo da naacp. por causa da abrangência determinação da da Suprema Corte. diz C. filho do principal advogado local. Board Caso Brown Contra a “Foi Burnett que reuniu Oliver Brown e os outros pais e Secretaria de Educação [Kansas Committee to foi em frente comBrown v. viceMarita Davis. ajuda da secretária da NAACP Lucinda Todd e os Herói Anônimo Herói Anônimo Burnett morreu em 1970. principalmente porque ele era o único homem do grupo.. Mas Charles Scott Jr. mcKinley burnett. O tempo inteiro ele estava convencido de que venceríamos. pekano início da década de 50. concorda. (Sonny) Scroggins. Johnconfirmado por dente da seção da naacp de to. à À esquerda.da seção local da Burnett. não foi a primeira vez que a educação segregada. com ajuda da advogados Burnett – com a ajuda daasecretária dosNAACP Lu. O caso Brown se destaca porque foi o primeiro caso bem sucedido desse tipo. sofreu um desafio nos Estados Unidos. diz que Oliver Brown “se tornou o líder entre os autores porque o seu nome era o primeiro. que tinha 13 anos na época do processo inicial e que ainda mora em Topeka. Linda Brown Thompson.locais". À esquerda. (Sonny) Scroggins.” que. A luta contra a segregação nas escolas se tornou uma coisa muito importante para ele”.O caso Brown. Seu filho. na época. na época. uma ação havia sido iniciada em Boston.Elisha Scott e Charles Bledsoe – desenvolveram uma White. que atualmente mora em Kansas City.com a estratégia para ganhar a causa. com aEducation].

meu pai. “Eu tinha que levar meus dois filhos de carro até o outro lado da cidade." se sentiu forçado a tomar dos decisão a contra os autores Educação de Kansas e contra os autores. na no país inteiro e não apenas essa decisão perder a causa e em seguida entrar com um recurso nasentiu forçado a tomar uma decisão a favor da Secretaria de tribunal de Kansas se Suprema Corte”. eram jovens mães no início da década de 50. Eles compareceram ao Nova York. os outros autores em Topeka e os autores nos outros estados. ele de crianças o caso negras nas a emissão de prejudicial para as crianças negras”. na verdade. na época. diz Charles Scott Jr. A Primeira Decisão Educação de Kansas e contra os autores. "Eles sabiam que a única forma de derrubar a segregação no país inteiro e não apenas em Topeka. ela continua. Henderson diz. em uma decisão de 1896 – no caso Plessy contra Os juízes que sistemas escolares “separados porém iguais” para negros e sua decisão: "A Ferguson – se mostraram favoráveis à causa dos autores. e e negras nas escolas públicas é Portanto. “Eles sabiam que a única formapara negros ae brancos decepcionados”. diz Henderson. ela continua. “passando 1984.S. dizendo. na época. eram. FGV DIREITO "De certa forma. prejudicial para as o tribunal de KansasMas no final a decisão uma juízes foifavor da Secretaria de porque a crianças negras. O dia de Burnett e dos autores no tribunal em Topeka foi o dia 28 de fevereiro de 1951. morreu de câncer em 1984. constitucionais. Mas no final a decisão dos juízes foi contra os autores porque a proibisse a segregação nas escolas primárias públicas de Topeka. passando por duas escolas só outro lado da cidade. E as duas são muito gratas a McKinley Burnett e aos advogados locais. teceu. Henderson. em uma decisão de 1896 -. duas pessoas que fazem parte do grupo de autores de Topeka. Com a ajuda dos outros advogados locais. "passando por que ainda mora aqui e está com 57 anos. Suprema Corte havia decretado." por uma escola só para brancos que ficava bem em frente à nossa casa. escola só escola só para negros". de Topeka. era. As duas mulheres estavam ansiosas para entrar no caso. que atualmente é juiz federal em Tribunal Federal de Primeira Instância da Circunscrição 1951. por causa do episódio de Plessy. “Temos muito orgulho do que nosso pai fez”. até umaaté uma para negros”. Minha filha. Legal juízes se mostraram favoráveisDefense dos autores.” "Eu tinha que levar meus dois filhos de carro até o Mas minha filha. Ruth Ann à escola. Ele tem 55 anos. meu pai. Vicki Ann. diz Charles escolares "separados porém iguais" de derrubar segregação verdade. morreu de câncer em Scales também diz que tinha que levar sua filha. Ele tem 55 anos. “Meus filhos sempre do papel que tive“Meus filhos sempre tiveram orgulhotiveram orgulho do mos naque tivemos na história”.crianças brancas essa decisão não havia sido anulada. concorda com a avaliação de Charles Scott Jr. os outros advogados locais e o Sr. era." acho que Decisão decepcionados". era perder a causa e em seguida . Zelma Henderson e Vivian Scales. dizendo que foi a liderança dessas pessoas que tornou possível a luta pela integração. os outros advogados locais e o Sr. Burnett não ficaram Ferguson -. Mas minha filha. Suprema Corte havia decretado. Com a ajuda dos decisão: “A segregaçãoapresentou brancas e e solicitou escolas públicas é um mandado judicial que locais. advogado do Fundo de Defesa Legal da NAACP [NAACP Legalthe District of Kansas].EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Equity. escola só para brancos que ficava bem em frente à nossa casa. District Court for Defense Fund]. Eles compareceram ao Tribunal Federal de Primeira Instância da CircunsO dia de Burnett e District Court for the District of Kansas]. na suaoutros advogados Os da NAACP [NAACP Legal à causa Fund]. dos autores no tribunal em Topeka foi Raymond Carter. se sente muito bem devido ao que aconuma Eu acho que fizemos uma coisa muito importante”. eem Topeka. Excellence and Research]. Minha filha. que acabaram sendo incluídos no caso Brown”. "Donald papel história”.S. o dia 28 de fevereiro de crição de Kansas [U. que de Kansas [U.no caso Plessy contra “De certa forma. Raymond Carter. o eram. Ruth Ann à escola. era não havia sido anulada. Andrew ainda está aqui em Topeka. Burnett não ficaram RIO 21 EuA PrimeirA fizemos uma coisa muito importante. que ainda mora aqui e está com 57 anos. se sente muito bem devido ao que aconteceu. nabrancos segregação de constitucionais. diz brancos. Vicki Ann. ele apresentou o caso e solicitou a emissão de um mandado judiatualmente é juiz cial que proibisse a federal emnas escolas primárias públicasadvogado do Fundo de Defesa segregação Nova York. e que ainda moram na cidade. Scales também diz que tinha que levar sua filha. Portanto. dizendo. por causa do episódio de Plessy. “Mas é importante que o caso Brown não seja simplificado demais – não devemos esquecer os advogados. passando por duas escolas só para para brancos.que sistemas Scott Jr. “Donald Andrew ainda está aqui em Topeka.

“que no campo da educação pública não há lugar para a doutrina de ‘separados porém iguais’. Estabelecimentos de ensino separados são inerentemente desiguais. “que a Suprema Corte contou com a cláusula de proteção eqüitativa da Décima-Quarta Emenda da Constituição dos Estados Unidos. na verdade. umA GrAnDe VitóriA LeGAL O resultado do caso Brown Contra a Secretaria de Educação foi considerado uma grande vitória legal. era. Mark Tushnet ecoa o pronunciamento de Barker no seu livro definitivo. que mais tarde foi o primeiro negro a fazer parte da Suprema Corte. pelo juiz-presidente da Suprema Corte Earl Warren. o caso Brown foi combinado a outros processos que desafiavam a segregação nas escolas. No entanto. Oliver L. Brown v.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE A Decisão DA suPremA corte No dia 1 de outubro de 1951. diz Robert Barker. na Carolina do Sul. “Até hoje”. mas para afirmar direitos. Brown e Outros Contra a Secretaria de Educação de Topeka e Outros [Oliver L. representando os autores. Portanto. Ele apresentou – com sucesso – o caso. ele acrescenta. da maneira que era praticada. Brown et al. Board of Education: The Battle for Integration. segundo Barker. Delaware e no Distrito de Colúmbia. Virgínia. um caso histórico que serve para mostrar que. A Corte aplicou a cláusula de proteção eqüitativa com a finalidade a que ela se destina – proporcionar proteção para os negros. ao ser preparado para ir ao tribunal que tem a posição hierarquicamente mais elevada no país. professor de direito e especialista em direito constitucional na Faculdade de Direito da Universidade de Duquesne [Duquesne University School of Law] em Pittsburgh. A decisão unânime declarando que as escolas segregadas eram inconstitucionais foi lida no dia 17 de maio de 1954. ele disse. “Concluímos”. estão sendo. nos Estados Unidos. et al]. beneficiando mulheres e outros grupos que achavam que seus direitos eqüitativos lhes estavam sendo negados”. Thurgood Marshall. declaramos que os autores e outros que se encontram em situação similar. O nome do conjunto de casos passou a ser. Ao ser indagado como a Corte pode tomar uma decisão – a favor da segregação no caso Plessy contra Ferguson e contra ela no caso Brown – Barker responde que a Corte dispunha de mais de 50 anos de provas de que a segregação racial. [tradução livre: Brown Contra a Secretaria de Educação: A Batalha pela Integração]. ele escreve “o caso Brown se destaca como a mais profunda afirmação da Corte sobre a questão central FGV DIREITO RIO 22 . “É importante observar”. “A decisão de 1954 resultou em muitos outros casos nos quais a cláusula de proteção eqüitativa foi citada. garantida pela Décima-Quarta Emenda”. os tribunais existem não apenas para condenar crimes. Pensilvânia. devido à segregação da qual reclamaram. era o diretor jurídico da NAACP no nível nacional. “Trata-se de uma das mais importantes decisões da Suprema Corte”. há um significado mais amplo. oficialmente. privados da proteção igual das leis. ao apresentar a sua decisão. v. em particular”. um método de se oprimir um grupo racial e não algo “separado porém igual”. The Board of Education of Topeka. para os quais essas ações foram iniciadas.

Mesmo assim. ele diz. diz Goldfield. o procurador-adjunto do estado de Kansas que tratou do caso. Mas em grande parte da nação. a lei de Kansas havia previsto a segregação das escolas primárias das comunidades com população superior a 15. Embora a luta contra a segregação sancionada pelas leis tenha sido vencida há muito tempo. o sul finalmente recuperou o atraso no final da década de 60 e início da década de 70. As escolas de nível médio (equivalentes às sétima e oitava séries do primeiro grau. uma decisão judicial. de acordo com David Godfield. os tribunais federais.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE da história dos Estados Unidos – como os americanos de todas as raças se tratam entre si. a tarefa seria mais difícil. afetando 300. a favor da segregação. embora nem sempre com rapidez. em 1955. emitiu. ainda estão lidando com questões referentes à segregação nos distritos escolares. Wilson. FGV DIREITO RIO 23 . Nesse aspecto.000 pessoas. que são o resultado das tendências na escolha de áreas residenciais. os legisladores promulgaram 45 leis “com o objetivo de contornar a determinação da Suprema Corte” e até 1960. White and Southern [tradução livre: Negros. houve muita resistência e a disposição das autoridades do poder executivo de usar a força para implementar a decisão da Corte se fez necessária em alguns lugares. Este é um dos motivos pelos quais a Suprema Corte. Na maioria dos lugares. Board of Education [tradução livre: Hora de Perder: Representando Kansas no caso Brown Contra a Secretaria de Educação]. atualmente. Por outro lado. trata-se de uma vitória do constitucionalismo americano”. quando o presidente Dwight Eisenhower enviou tropas federais a Little Rock. “menos de um por cento dos estudantes do sul do país estavam freqüentando escolas integradas”. e às três séries do segundo grau. menos conhecido. em um ato posterior. no Brasil) nunca havia sido segregadas. a abolição da segregação ocorreu sem problemas. “o fim da segregação. Arkansas. que conta em detalhes a história do fim da segregação em Black. depois que o governador do estado desobedeceu uma ordem de um tribunal federal para integrar as escolas locais – a primeira vez em que tropas federais entravam em um estado do sul para proteger os negros desde os primeiros anos após a Guerra Civil. No ano letivo 1956-1957. DePois DA Decisão A Secretaria de Educação de Topeka não esperou a ordem da Corte para unir as suas escolas primárias negras e brancas. Pau Wilson. Antes do caso Brown. no tribunal. Em outras partes do sul do país. estava em andamento em 723 distritos escolares”. “A decisão da Suprema Corte”.000 crianças negras. que detalha a história do processo em A Time To Lose: Representing Kansas in Brown v. determinando “um início imediato e razoável das providências para a total conformidade” e a implementação da integração das escolas “com a devida rapidez”. a situação variava de lugar para lugar. de modo geral. Brancos e Sulistas]. “ampliou a definição de justiça básica nas relações entre as comunidades”. escreve que a decisão também “deu uma nova dimensão ao conceito constitucional de proteção eqüitativa e do devido processo legal”. O caso mais famoso ocorreu em 1957. concorda. O andamento do processo foi muito mais rápido em Topeka e no meio-oeste.

Alabama. liderou um bem sucedido boicote aos ônibus em Montgomery. o Topeka State Journal. ele acrescenta. em sinal de protesto contra a segregação no sistema de transporte público local. Eles acrescentam: “Com a exceção do período de 1964 a 1968. Os tribunais. O fato ainda é motivo de muito orgulho para os autores sobreviventes. o impacto da iniciativa foi muito mais amplo. foram. ressaltam a importância do resultado do caso Brown para o progresso nas relações raciais em geral. diz John Paul Jones.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE os tribunAis cAusAm muDAnçAs em Posições trADicionAis A luta contra a segregação mostra como é difícil mudar posições e costumes em qualquer sociedade. em letras garrafais: ‘Proibida a Segregação nas Escolas’. formaram o movimento pelos direitos civis. Senti FGV DIREITO RIO 24 . em comparação com os outros ramos do governo. incluindo a Suprema Corte. é o que eles escrevem em Dismantling Segregation [tradução livre: Acabando com a Segregação]. mandados contra a segregação foram impetrados. Nos anos seguintes. “A primeira notícia que vi sobre isso foi no jornal. e da Lei do Direito ao Voto [Voting Rights Act] em 1965. em dezembro de 1955. o resultado de atos do judiciário para fazer valer direitos inalienáveis assegurados pela Constituição dos Estados Unidos. “Fizemos A coisA certA” Os historiadores dos direitos civis. Com a promulgação da Lei dos Direitos Civis [Civil Rights Act] em 1964. escreve Robert Wiesbrot em Freedom Bound: A History of America’s Civil Rights Movement [tradução livre: Rumo à Liberdade: Uma História do Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos]. quase meio século mais tarde. os tribunais – e não o poder legislativo ou o executivo – têm sido os elementos dominantes na elaboração de políticas no que se refere ao fim da segregação”. “A decisão proporcionou um critério de avaliação de justiça – independente da cor das pessoas – pelo qual os americanos poderiam balizar seu progresso rumo à realização do ideal de oportunidades iguais”. Apenas um ano e meio após a determinação da Suprema Corte. Martin Luther King Jr. diz Zelma Henderson. em conjunto. o Dr. a segregação foi praticamente eliminada. “Lembro-me como se fosse ontem”. Sem um judiciário independente. em grande parte. Essa ação ajudou a deflagrar uma ofensiva sem trégua contra a segregação em todas as esferas da vida americana. Gary Orfield e Susan Eaton. professor de direito e especialista em questões constitucionais na Universidade de Richmond [University of Richmond]. “Um fato importante é que as mudanças. tiveram um papel essencial. essas ações. e sem as garantias da Constituição no que se refere aos direitos das minorias. especialmente as posições que apresentam raízes profundas na tradição e na história. em Virgínia. particularmente. incluindo o serviço público e o mercado de trabalho. a luta pelo fim da segregação teria sido muito mais difícil. Lembrome bem da manchete. como parte de um cenário de ações populares iniciadas por um grande número de organizações não-governamentais. quando elas ocorreram. concordam. Embora a Suprema Corte somente tenha derrubado a segregação nas escolas públicas. e não o resultado de medidas sancionadas por legislaturas e executivos eleitos pelo povo”.

na entrada da escola Burnett. e eliminariam a segregação”. "Meu que os tribunais. fariam valer a Constituição e a Bush sancionou a Lei Pública 12-525 [Public Law 12Declaração dos Direitos. se conformar com a decepção. naquele momento. Vivian Scales acrescenta. diz Qefiri Colbert. agora. eu o faria”. Pensei. eram o Constituição a Declaração dos Direitos. e vencemos”. “Oliver Brown. especificamente. “Meu pai acreditava que haveria justiça. quase meio século mais tarde. “Isso aconteceu há muito tempo. O sítio fica em Topeka. e penso. Marcus Burnett não se lembra. O resultado final foi. queque fica com você para sempre”. “Eu estou muito velha. Lembro-me bem da manchete. de 1954. Ele nunca deixou de acreditar que os No dia 26 de outubro de 1992. mas é uma coisa que você nunca esquece.deixou de acreditar pai acreditava que os gação. “Lembro-me como se fosse ontem”. que fizemos a é uma coisa certa”. O fato ainda é motivo de muito orgulho para os autores sobreviventes. no final. à do líder da naacp em topeka. Vivian Scales e os outros pais poderiam. filho do líder O memorial – um trabalho da Fundação Brown [Brown Foundation] e do Comitê de Kansas para a Comemoração do Caso Brown Contra a Secretaria de Educação [Kansas Committee to Commemorate Brown v. diz Vivian Scales. lítico sonny scroggins. “Quando você pensa no assunto. Marcus Burnett não se lembra. antes do fim da segregação. portanto "Mas ele sempre que ele fiderrubou a segregação. filho Marcus Burnett. à esquerda. “A EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE primeira notícia que vi sobre isso foi no jornal. a mesma escola freqüentada por Linda Brown. Ele nunca Burnett diz. “Naquela época. segregação. entre outras entidades e indivíduos – terá materiais áudio-visuais e uma biblioteca para pesquisas. do Comitê de Kansas para a Comemoração do Caso Brown Contra a Secretaria de Educação. não apenas o fim da segregação. porta-voz do Serviço Nacional de Parques [National Park Service]. em letras garrafais: ‘Proibida a Segregação nas Escolas’. é que todos os seres humanos e raças nascem iguais”. momento. e deverá ser aberto ao público em 2002. Burnett diz. portanto eu tenho certeza de que ele os tribunais eram o lugar certo para se desafiar a segreficou muito feliz". “Fomos à Suprema Corte dos Estados Unidos para afirmar esse fato. FGV DIREITO RIO 25 . diz Sonny Scroggins. em memória da decisão da Suprema Corte. fica com você para sempre”. Vivian Scales acrescenta. acrescenta Zelma Henderson. tribunaisfariam valer alugar certo epara se desafiar a no final. Senti uma alegria enorme. a mensagem da decisão do caso Brown e do memorial. e eliminariam a segregação. que fizemos a coisa uma alegria enorme. na verdade. agora. “Esperamos que as pessoas visitem o local para compreender melhor a abrangência e a complexidade da decisão sobre o caso Brown”. em conformidade com a lei. Pensei. e o ativista poda NAACP em Topeka. Board of Education]. na Escola Primária de Monroe 34 [Monroe Elementary School]. da reação do seu pai no dia em que a Suprema Corte reação do segregação. o Topeka State Journal. mcKinley burnett.no diaele sempre acreditava queCorte derrubou a seu pai “Mas em que a Suprema haveria justiça.eu tenho certeza de acreditava que cou muito feliz”. o presidente George tribunais. o esquerda. ele acrescenta. mas uma mudança fundamental no pensamento dos americanos em relação à raça e à igualdade. diz Zelma Henderson. mas eles transformaram sua raiva em ação”.Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos]." 525] determinando a criação do Sítio Histórico NacioNo dia 26 de Brown Contra a Secretaria de Educação Bush nal do Caso outubro de 1992. naquele “Isso aconteceu há muito tempo. mas se tivesse que fazer isso de novo. especificamente. e penso. e McKinley primária monroe. os pais demonstraram muita coragem”. órgão que ficará encarregado da manutenção do memorial. quase meio século atrás. Zelma Henderson. da marcus burnett. facilmente. o presidente George [Brown v. que você nunca esquece. mascoisa certa”. Board of Education National Historic Site].

superior e intangível. superior e nomos –. Os por isso. ou divino. a sofística é um movimento bem se apresenta. mas são pelo próprio homem. nada na polis modificado pelo próprio homem. Esse incremento incremento da racionalidade argumentativa foi imprescindível ao desenvolvimento e da racionalidade argumentativa foi imprescindível ao desenvolvimento e impulso impulso inicial da filosofia. conheciam todo o rumaram das colônias para Atenas e. na primeira geração de sofistas. DESENVOLVIMENTO Poucas doutrinas na história do ocidente foram tão atacadas e vitimadas pelo prepare-se para a aUla preconceito como a sofística. do exercício da retórica na ágora. pensamento sofístico. Assim.é um tas foi. os . Górgias de Eleontino. afirmação de resultavam de uma convenção ou (política. ObjetivOs da aUla Introduzir o debate acerca da relação entre verdade e linguagem a partir do pensamento sofístico. Além de conhecerem o debate Heráclito Parmênides – ao devir. um dos principais sofistas. era a religião etc.. afirma que Helena não pode ser acusada nem condenada. Os sofistas foram pensadores que rumaram das colônias para Atenas e.) que todas as coisas na polis cultura humana. inicial da filosofia. tudo poderia ser resultava de uma força naturalAssim. Assim. a lei paraoa construção do tem de natural do certo e domas são é a ferramenta e legal e do ilegal. ágora. Contudo. por ser conhesofistas foram pensadores que debate entre Heráclito e Parmênides – isso. justamente. Na pena de Platão esofisticado – do que em geral movimento bem mais profundo e interessante – donde Aristóteles.. mais profundo e interessante – donde sofisticado – do que em geral se apresenta. A questão central dos sofistas (ao menos na sua primeira geração) era a afirmação desofistas (ao menos na polis primeira geração) A questão central dos que todas as coisas na sua (política. pelosdo ocidente foramNa pena de e vitimadas pelo Poucas doutrinas na história seus inimigos. dedicavam-se ao estudo e ensino da retórica. NOTA AO ALUNO 2. A maior parte do que nos foi passado acerca dos sofistas eram apenas demagogos e enganadores. pela violência do rapto ou pela sedução da palavra. Contudo. direito.) resultavam de uma convenção ou cultura humana. Além de conhecerem ciam todo o debate entre filosófico. e tudo dependerá da habilidade exercício da retóricafala. A maior parte do que nos foi passado acerca dos sofis. Como tudo era produto da convenção – Assim. ededicavam-seser e estudo e ensino da retórica. lingUagem e Verdade: os soFistas A verdade como linguagem na sofística.e devir. Como tudo era produto e direito nada tem de natural ouser modificado construídos políticamente através na primeira poderia divino. Tema da aula EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 4. Daí a importância do discurso convincente – peithó. construídos políticamente através do lingüística de quem na Para comprovar errado. pelos seus inimigos. justamente. Objetivos tema da aUlada aula A verdade debate acerca da relação entre verdade e linguagem a partir do Introduzir o como linguagem na sofística. Daí a importância esta idéia. o logos sofistas. tão atacadas Platão e Aristóteles.AULA 4.tudo intangível. direito. a leidaoconvenção – nomos –. a sofística preconceito como a sofística.. Górgias chega mesmo ao ponto de marcar um dia para fazer FGV DIREITO RIO 26 sofistas foi. Esse o debate filosófico. pois pode ter agido por amor ou por desígnio dos deuses. geração de direito nada Assim. os sofistas eram apenas demagogos e enganadores. nada na polis resultava de uma força natural religião etc. LINGUAGEM E VERDADE: OS SOFISTAS NOTA AO PROFESSOR 1.. numa obra intitulada Elogio de Helena (que foi condenada por toda a tradição grega por ter provocado 47 a Guerra de Tróia).

para ele mesmo fazer sua defesa. A linguagem é. Claro que. mas de relatividade histórica. para ele mesmo fazer sua defesa. fica a distinção entre SER. a superioridade da palavra em relação a qualquer conceito convencionado. então ela é falsa. Teorias da Verdade. metafísicos ou “verdade do intérprete”. não se trata Agora. convencionado. como E O DIREITO? E O DIREITO? Como ona linguagem comoestatuto próprio. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristó. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. seriam verdades? Como identidade. o dizer – linguagem – Acreditar problema da verdade se como três planos autônomos com dignidade relaciona campo próprio da verdade significa Acreditar na linguagem e campo próprio da verdade significa admitir tipo: as verdades jurídicas expressões filosófica e autonomia não possui envergadura doque “verdade dos fatos”. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer dizer que tudo que ele diz é mentira. 3. portanto. no dia seguinte. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. Isso graças ao fato da filosofia sofística ter desfeito a vinculação parmenídica entre realidade e pensamento. 2003. então o que lê diz “é verdadeiro”. o fato é que mesmo em relação à verdade. Górgias faz suas clássicas afirmações: 1. sofista Protágoras de Abdera: Prepare-se Protágoras de Abdera sobre a legou a mais conhecida Foi o grandepara o debate. nada se mantém imune à possibilidade de ser resignificado pela palavra. meditandoque nos seguinte frase do de todas as sentenças sofísticas: “O HOMEM É A MEDIDA DE TODAS AS COISAS”. portanto. Mas o problema aponta para o paradoxo real que ela é verdadeira. Isso pois uma coisa pode ser (tornar-se) o que a instituem implica a conseqüência de jurídicas. demonstrando com isso a superioridade da palavra em relação a qualquer conceito sua acusação em praça pública e. observe atentamente o quadro de Salvador Dali: de mero relativismo individualístico. No direito não basta a verdade pura e simples. dos agentes lingüísticos que a instituem lidar com os problemas de insegurança jurídica? por um ato de fala. * * bibliOGrafia * Obrigatória 1 CHAUÍ. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. Richard L. retórica. pois pode ter agido por amor ou por desígnio dos deuses.Para comprovar esta idéia. “verdade do processo” outranscendentes. Nada é.Para uma boa síntese cf. No direito. 1994. Isso implica a conseqüência de que também é posque é. antes. mas. “verdade das paradecorrem de planos metafísicos própria resignificar os entes na sua admitir que as verdades jurídicas não decorrem de planos antes.1 Independente dos resultados a que se chegue. No Tratado do Não Ser. Claro que o homem em questão não é o Até que ponto o homem pode instituir suas próprias verdades? indivíduo particular. e o direito? Para além da habilidade retórica. Mesmo que seja pensado. São Leopoldo: Unisinos. isto é. mas. Essa possibilidade de reinstituir a verdade abre ao homem um extraordinário campo de possibilidades. pela violência EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE do rapto ou pela sedução da palavra. 48 FGV DIREITO RIO 27 49 . não pode ser dito. (Capítulo III. mas se for verdadeira. no dia seguinte. Os Sofistas e Sócrates: o AULA 4 20 Humano como tema e problema: seção 3 Os Sofistas ou a arte de ensinar) LINGUAGEM E VERDADE: Os Sofistas CONTEXTO DA DESCOBERTA Formas pelas quais chega-se à decisão. Quebra-se em verdade ou por um ato de fala. teles. Se a sentença é falsa. KIRKHAM. afirma que Helena não pode ser acusada nem condenada. Por isso. sentido moral ou ético. Górgias de Eleontino. o instrumento mais eficaz no processo social de instituição da verdade. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. sível resignificar a todo todo momento as categorias das verdade Aqui. Marilena. Com efeito. PENSAR e DIZER. numa obra intitulada Elogio de Helena (que foi condenada por toda a tradição grega por ter provocado a Guerra de Tróia). uma verdade pode ser convencionada na polis até que outra a substitua em outro momento histórico. leis”. com isso. dos agentes lingüísticos ou transcendentes. É com o Direito? A todo tempo somos confrontados com possível falar-se o princípio da identidade. Veja-se o seguinte quadro de Salvador Dali: que não também é possível resignificar a momento as categorias das verdade jurídicas. ser e pensar. na verdade. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. demonstrando. No nível mais radical. TODASúltimo para o certo e o errado. Assim. não pode ser pensado. São Paulo: Brasiliense. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. Contudo. se o que ele diz é falso. desde que esta seja articulada no discurso convincente: a então o que lê diz “é falso”. 2. Mesmo que seja. não há apenas várias correntes ou definições. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. Górgias chega mesmo ao ponto de marcar um dia para fazer sua acusação em praça pública e. não há paradoxo. “O HOMEM É A MEDIDA DE critério AS COISAS” o verdadeiro e o falso. então A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. um dos principais sofistas. mas o cidadão da polis.

A Teoria Política dos Sofistas) FGV DIREITO RIO 28 . Brasília: EdUnB. Teoria política grega. (Capítulo IV.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE complementar BARKER. Ernest. 1978.

Assim. marcando todos os aspectos da vida humana. Não O mais conhecido divisor de águas da filosofia ocidental é. A comunicabilidade entre os indivíduos para se tornarcomunicabilidade entre os indivíduos para se inteligibilidade do real. “Sócrates” para demarcar uma etapa inicial e decisiva do nos marca a ocidental. A partir de Sócrates deu-se a clivagem racionalista que nos marca a todos até hoje. fundamento filósofo. O ponto 52 central do pensamento socrático é que a prática da justiça como virtude apenas será alcançada pelo conhecimento da justiça. o real fundamento das relações não está nas convenções e normas para todos os homens. que. é superficial por verdade e a justiça se apresentam de forma definitiva. Trata-se da opção opção que faz Sócrates pela Razão como fundamento primeiro que faz Sócrates pela certo e justo. necessariamente válida Da mesma forma. da aula 1. Já a razão nos possibilita conhecer o mundo inteligível. Tema ConCeito e Verdade: sÓCrates A verdade como conceito abstrato. Esta guinada representará toda a tradição. o homemnodotado de razão etoda a tradição. Objetivos da aula A verdade como conceito abstrato.verdade chamada “reconstrução socrática" recolocou o tema da dade como aletheia no centro de todas as discussões. CONCEITO E VERDADE: SÓCRATES NOTA AO PROFESSOR EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 5. Esta guinada de ser uma prática de representará um dos mais profundos cortes no pensamento de tornar inteligibilidade do real. de tudo que é verdadeiro. tornam-se sinônimos dentro de umaou na opinião –universal. Verdade e justiça tornam-se modificar-se constantemente. que reduz os princípios à unidades conceituais. é superficial de razão e sentido. dos os homens. porém. Trata-se da como aletheia no centro de todas as discussões. que. aquele onde a último o que nos dá acesso ao mundo empírico. aquele onde a que reduz a princípios à unidades conceituais. sendo marcando todos os Para Sócrates. Introduzir o debate acerca da verdade como conceito puramente racional a partir do pensamento socrático. a questão epistemológica será a FGV DIREITO RIO 29 há comprovação histórica de sua existência. Para Sócrates. A A chamada"reconstrução socrática” recolocou o tema da ver. “Sócrates” para demarcar uma etapa inicial e decisiva do pensamento ocidental. um dos mais profundos cortes é pensamento de sentido. verdade e os justiça se apresentam de forma definitiva. sendo este temente. o homem é dotadopor modificar-se constanda vida ao mundo empírico. O realmente verdadeiro e realmente justo é o que se eleva acima das múltiplas individualidades e somente é alcançado pelo sujeito virtuoso que abandona todos os seus preconceitos.este último o que nosaspectos dá acessohumana.AULA 5. mas a filosofia se vale do arcabouço partir de Sócrates deu-se a clivagem racionalista que pensamento todos até hoje. Razão como A partir desse primeiro de tudo aque é verdadeiro. porém. ObjetivOs da aUla Introduzir o debate acerca da verdade como conceito puramente racional a partir do pensamento socrático. Sócrates. mas a filosofia se vale do arcabouço . NOTA AO ALUNO tema da aUla 2. Sócrates. DESENVOLVIMENTO prepare-se para a divisor O mais conhecido aUla de águas da filosofia ocidental é. A Não há comprovação histórica de sua existência. certo prática de partir desse filósofo. a razão deixa razão deixa de ser uma e justo. sem dúvida. necessariamente válidamundo inteligível. Já a razão nos possibilita conhecer o para tosinônimos dentro de uma racionalidade universal. Verdade e justiça A verdade não reside na linguagem racionalidade dóxa – de cada indivíduo. sem dúvida. – nómos – específicas que produzem justiças singulares.

Obrigatória 20 CHAUÍ. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. são comumente compreendidos como a norma escrita. Daí que autores como Aqui. Assim. mas perdeque. como o verdadeiro está para o campo natural. verdadeiro e justo se E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com imbricam no campo ético. Como fenômeno da cultura o muitas vezes. Sócrates e os Socráticos Menores) FGV DIREITO RIO 30 . No direito não basta a verdade pura e simples. Os Sofistas e Sócrates: o Humano como tema e problema: seção 4 Sócrates: o elogio da filosofia) complementar BARKER. mas se for verdadeira. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. O justo está para o campo cultural se em adaptatividade que é essencial à realização da justiça. São Paulo: Brasiliense. Claro que. (Capítulo III.Para uma boa síntese cf. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por é comum o recurso ao texto da lei (ainda que Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da mediado pela doutrina) para se explicar e entender as categorias jurídicas. Se aque deve ser compreendido por todos os homens. então ela é falsa.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE chave de leitura para a compreensão do posicionamento que Sócrates assume ante a physis e a pólis. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem de perguntas leva seu interlocutor a reconhecer seus preconceiironia. Ernest. e o direito? Acreditar no conceito como verdade implica admitir que o direito é formado por conceitos unívocos que podem ser depreendidos pela expressões do tipo: “verdade dos fatos”. dizer que tudo que ele diz é mentira. o segundo é a maiêutica. ela é verdadeira. então o que lê diz “é falso”. (Capítulo V. Marilena. propõe um método que é constituído de dois momentos: o primeiro é a paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Tais centros. mesmo justificação. não há apenas várias correntes ou definições. . sentido moral ou ético. 1978. na verdade. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. Richard L. direito importa valores. então o que lê diz “é muito tempo pela filosofia. São Leopoldo: Unisinos. onde. Contudo.1 Independente dos resultados a que se chegue. “verdade das leis”. Por isso. Mas o problema aponta para o paradoxo real que a justiça é este conceito racional sentença é falsa. onde através pleno sentido gramatical: tos e sua ignorância sobre o tema em debate. leva seu interlocutor a descobrir uma verdade conceitual dentro de si inconsistência com a utilização e enfrentada há Estamos diante de uma mesmo lógica que vem sendo discutida da razão. 2003. se o que ele diz é falso. KIRKHAM. É desta maneira que podemos entender seu lema “conhece-te a si verdadeiro”. no lidar com os problemas de insegurança jurídica? sistema romano-germânico. Pode-se desqualificar este Para tanto. É razão. não há paradoxo. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer mesmo”: a busca da verdade universal inscrita em conceitos racionais. Para Sócrates. então pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. Ganha-se em segurança. Teoria política grega. Brasília: EdUnB. tamA SENTENÇA SEGUINTE É FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA bém através de perguntas. desligado do mundo da vida. bibliOGrafia 1 CONTEXTO DA DESCOBERTA Formas pelas quais chega-se à decisão. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. No direito. Teorias da Verdade. o fato é que mesmo em relação à verdade. mais importante que as experiências jurídicas concretas possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como são os centros de referência conceitual do direito. 1994.

o binômio razão e experiência passa a capitanear as investidas do homem sobre as forças naturais. o que converteu a teoria do conhecimento em motor da reflexão filosófica do período. inatismo: desCartes NOTA AO ALUNO tema da aUla A verdade como resultado da razão inata. O rumo deste caminho levou a modernidade a uma opção pelo “problema do conhecimento” – epistemologia – como questão fundamental a ser tratada. sociais. políticas e individuais. A nova perspectiva em construção considera como fundamentos adequados para o conhecimento apenas a abstração racional e a concretude experimental. o pensamento kantiano se insere num processo histórico que foi acontecendo por sucessivas rupturas na tessitura ontológica da filosofia e da sociedade.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 6. Assim. os empiristas crêem que a verdade resulta de um fato primeiro e fundante. duas correntes destacaram-se como forma de compreender e responder à questão proposta: o racionalismo e o empirismo. quando a modernidade afasta-se das especulações metafísicas para empreender uma nova organização geral do saber. ObjetivOs da aUla Introduzir o debate acerca da verdade como resultado de uma razão inata a partir do subjetivismo cartesiano. buscou-se novas bases que pudessem ser consideradas seguras e precisas para a fundamentação de uma verdade universal. No entanto. com o seu projeto criticista. Eis um esquema comparativo para melhor visualizar as diferenças entre as correntes filosóficas: raCionalismo Fundamentado numa razão inata Opera dedutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma inferência (representação) lógica empirismo Fundamentado na percepção dos sentidos Opera indutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma experiência possibilitada pela percepção sensível e por uma operação mental FGV DIREITO RIO 31 . Enquanto os racionalistas acreditam ser a verdade resultado de uma idéia primeira e fundante. lançou as bases mais sólidas em termos epistemológicos. Não há dúvida de que o principal nome da constituição da moderna filosofia da ciência é Immanuel Kant que. basicamente a partir do século XVI. Nesse contexto. prepare-se para a aUla Na revolução epistemológica operada na modernidade.

sem ter que submetê-lo às autoridades exteriores. p. por desejar então ocupar-me somente com a pesquisa da verdade. para encontrar a rocha somente a me certificar e remover a sobre o mundo. de uma o tradicional conhecimento sobre o mundo. e de alçá-lo.. Descartes propõe um método para conduzir o espírito ao conhecimento verdadeiro. e de pouco a pouco. por idealista. 46.”2 Querendo alcançar tal intento. Descartes cria um tipo de construtivismo aliEste parágrafo. como o inaugurador da moderna escola racionaao menos. não restaria algo em meu crédito. p. como afirma o próprio Descartes. uma boa razão para não se acreditar. por exemplo. os céticos. como Baconhecimento que não se encontre pelas técnicas e pela matemática. Descartes e Hume.tipo de lo sobre bases supostamente mais seguras: conhecimento seguro e verdadeiro (ciência) que pudesse desvendar as forças e as leis próprias da natureza para que o homem a controlasse definitivamente. todo oestá interessado em. É isso que “Não que imitasse. René. mas sim em recolocá. reconstruir um novo e seguro tipo cartesiana no pensamento moderno.”2 meu espírito e a curta duração de minha vida lhe permitam atingir. Dois serão destacados: Descartes e Hume. vários filósofos importantes – racionalistas e e empiristas – desenvolveram suas teorias epistemológicas. ao gradualmente meu conhecimento. a proposição de um método para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências. Discurso do método. pensei que era necessário agir exatamente ao contrário. registrado no início do Discurso do Método. ou. Como dito. herdada por Kant. René. pois não meu intuito tendia tão destruir o tradicional conhecimento terra movediça e a areia. que fosse inteiramente indubitável. são paulo: abril Cultural.”1 Este parágrafo. reconstruir um novo e seguro tipo de lista ou idealista.”3 Praticando este método. p. Ob. Cit. mas sim em recolocá-lo sobre ou a argila. por 2 .alçá-lo. Ob. 29. 3 FGV DIREITO RIO 32 . que duvidam apenas por duvidar e torna afetam por sempre irresolutos: pois ao contrário. registrado no início do Discurso de conhecimento que haja. qualquer pessoa poderia conhecer de maneira nítida e clara as idéias que são inatas no espírito e.. pois não está interessado em. Também influenciadomotivo fundamentado para nãoprocura lançar as bases de uma nova fundamentação para a própriamoderna através de um Pode-se dizer que Descartes. após isso. cerçado sobre duas tarefas básicas: destruir toda formado Método. É exemplo. 1979. as forças e as leis próprias da natureza para que o homem a controlasse definitivamente. Também influenciado pelas técnicas e pela matemática. con. Descartes cria um tipo de construtivismo de conhecimento duasnão se encontre motivo fundamentadode conhecimento que haja. sintetiza a perspectiva cartesiana no pensamento moderno. desde a a juventude. escola racionalista ou tipo de conhecimento seguro e verdadeiro (ciência) que pudesse desvendarcomo Bacon. para tanto. a fim de ver se. formei um método. pouco. o método que leva à verdade implica a dúvida como condição epistemológica: “. São Paulo: Abril Cultural. de que de que que me conduziram considerações e máximas. Pode-se dizer que Descartes. em certos caminhos de me haver encontrado. uma boa razão para não se acreditar.mas. René. Cit. Dois serão destacados: “Mas não temerei dizer que penso ter tido muita felicidade de “Mas não temerei dizer que penso ter tido muita felicidade me haver encontrado. como o inaugurador da verdade. 44.lançar as bases destruir nova fundamentação para a própria verdade. empiristas – desenvolveram suas teorias filósofos importantes – racionalistas Nessa tradição.. segundo Descartes. vários epistemológicas. 2 DEsCaRTEs. sintetiza a perspectiva ao menos. René. 57 DEsCaRTEs. alicerçado sobre que tarefas básicas: destruir toda forma para não acreditar nele. teve os mesmo ideais de pessoas em perspectiva oposta. 1 DEsCaRTEs. desde juventude. Trata-se da dúvida metódica como forma de reconstruir em bases seguras e verdadeiras o próprio mundo à nossa volta. e rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo que pudesse imaginar a menor dúvida. 29. pouco aaumentar mais alto ponto a que a mediocridade de meu espí. 1979. apenas. ao minha vida lhe permitam a mediocridade de rito e a curta duração demais alto ponto a que atingir. procura isso que torna a perspectiva cartesiana construtivista.. p. pelo qual me parece que eu tenha meio de aumentar gradualmente meu conhecimento.DESCARTES. pelo qual me parece que eu tenha meio de formei um método. acreditar nele. através de um apenas. Discurso do Método. em certos caminhos que me conduziram a considerações e máximas.Opera dedutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma inferência (representação) lógica Opera indutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma experiência possibilitada pela percepção sensível e por uma operação mental EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Nessa tradição herdada por Kant. a perspectiva cartesiana construtivista. teve os mesmo ideais de pessoas em perspectiva oposta.

Conforme se infere da leitura do Discurso do Método. E. ou seja. notando que esta verdade: eu penso. onde a razão distingue as idéias inatas e faz delas representações seguras e verdadeiras que deduzem o mundo. onde o raciocínio lógico é o mestre que conduz o pensamento e evita as contradições e vacilações. o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las. FGV DIREITO RIO 33 . na busca do conhecimento verdadeiro. fosse alguma coisa. a razão é a natureza perfeita existente num ser imperfeito por força da ação de um Ser perfeito: Deus. Embora Deus seja a causa operativa última. logo existo” – cogito. pouco a pouco. Descartes adota. como o primeiro princípio da filosofia que procurava. ergo sum – que verifica que a certeza do conhecimento não vem do objeto exterior. poderá decifrar todos os códigos do mundo. O segundo.”4 Por isso. como faculdade inata.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE isso mesmo. é o nosso espírito que possui a razão e a verdade e não o mundo externo e é justamente por isso que pode ser conhecida com segurança. para subir. Portanto. adverti que. o de conduzir por ordem meus pensamentos. quatro preceitos da lógica: “O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal. Descartes. toma a realidade à sua volta e se propõe a dúvida como método. As idéias inatas são racionais e existem porque nascemos com elas. O modelo epistemológico das ciências é o matemático. Para o racionalismo cartesiano. Essa é a grande descoberta do “penso. e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito. que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida. logo existo. enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso. como por degraus. mas reside no próprio cogito como evidência apodíctica. para o verdadeiro conhecimento. mais importante é a razão perfeita. que pensava. fundado em critérios internos e abstrações. o que significa dizer que a razão. “deusa razão”. para o alcance da verdade via ciência. começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer. julguei que podia aceitá-la. superiores àquelas idéias que derivam dos sentidos (adventícias) ou àquelas que são fabricadas pela imaginação (fictícias).que universaliza o conhecimento e torna acessível a verdade tão necessária ao homem e que jamais seria conhecida se estivesse fora dele. até o conhecimento dos mais compostos. e o conhecimento apenas dela pode advir. conhecido com exatidão geométrica. de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção. sem escrúpulo. e supondo mesmo uma ordem 4 Idem. é o único lugar possível para as “idéias claras e distintas”. “cientificamente”. Através da dúvida metódica ele comprova a falsidade de todo tipo de conhecimento sensível e chega à verdade absoluta do cogito. irrefutável: “Mas. somente a razão conduzida logicamente. duvidar de tudo aquilo que se tenha ao menos uma razão para duvidar. isto é. O terceiro. logo em seguida. cumpria necessariamente que eu. era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de abalar. tendo o cogito como paradigma metodológico.

O justo está para o campo cultural E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com como o verdadeiro está para o campo natural. KIRKHAM. Claro que. mas se for verdadeira. São Leopoldo: Unisinos. não há apenas várias correntes ou definições. Pode-se desqualificar este ter descoberto sem sentido portal de acesso ao conhecimento verdadeiro. DEsCaRTEs. fruto. 2003. Diferentemente do indutivismo dos empiristas. Estado e sociedade. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: moderno princípio epistemológico da razão suficiente.. então o que lê diz “é verdadeiro”. Miguel. René. sentido moral ou ético. (Parte I – Capítulo VIII. n. É uma representação.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE entre os que não se procedem naturalmente uns aos outros. Richard L. o fato é que mesmo em relação à verdade. pp. Modernidade e ciência: algumas posições epistemológicas. Contudo. Mas o problema aponta para o paradoxo real que pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. então ela é falsa. Revista do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. São Paulo: Saraiva. genéricas ou concretas – devem ser justificadas. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. 16. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer Como visto. Inaugura-se o paradoxo dizendo-se ser eleo novo e autoreferenciado. Se a sentença é falsa. 37-38. Mas é na base desta razão calculadora que Descartes pensa ela é verdadeira. Obrigatória .1 Independente dos resultados a que se chegue. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. Descartes abre o caminho do Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há dedutivismo racionalista moderno. ambas são unidas pela idéia de que a razão univerJerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da sal pode inteligir um verdade pura unívoco. o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais que eu tivesse certeza de nada omitir. Como fenômeno natureza ou da estrutura lógico-formal cultura o direito importa valores. Ob. “verdade das leis”. cit. e o direito? Acreditar na verdade como representação racional do mundo a partir do uma razão inata implica admitir que também é o direito expressões detipo: “verdade dos fatos”. 5 FGV DIREITO RIO 34 . Filosofia do direito. No direito. 1996. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como matrizes distintas. de uma idéia fundante. No direito não basta a direito e simples. jan/jul 2000. In: Direito. tal método pode ser associado ao procedimento matemático para solução de uma equação. Do Conhecimento Quanto a Origem). seja da da justificação. 20 REALE. suas normas – do próprio direito. que domina e controla o A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA mundo transformando os fenômenos naturais e/ou sociais em fórmulas e abstraA SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA ções. Essa possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? concepção ideal do direito pode manifestar-se tanto na maneira do jusnaturalismo como do formalismo jurídico. dizer que tudo que ele diz é mentira. Por isso. E o último. Teorias da Verdade.Para uma boa síntese cf. não há paradoxo. se o que ele diz é falso. portanto. José Ricardo.”5 então o que lê diz “é falso”. complementar CUNHA. na verdade. Apesar de serem Aqui. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. então muito tempo pela filosofia. bibliOGrafia DA DESCOBERTA 1 CONTEXTO Formas pelas quais chega-se à decisão.

mas diverge de que estas idéias sejam inatas no espírito humano. Seria homens. simplesmente destas uso deou princípios originais. podem adquirir se o conhecimento que possuem sem que espero fazer nas outras partes hipótese todo pudesse apenas mostrar ( o a ajuda de quaisquer impressões inatas e deste 6 podem alcançar a certeza sem quaisquer pelo noções suas faculdades naturais.placa de madeira. os quais estacertos princípios inatos. Ensaio Acerca do Entendimento alcançam o Paulo: Abril Cultural. 1978. caracteres. acessível apenas pela razão. EMPIRISMO: HUME E LOCKE EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE NOTA AO PROFESSOR aUla 7. São verdadeiro conhecimentop. são 7 afirmação sujeitos e que seria o verdadeiro rasas . conhecimento. Para conter uma camada de cera. acessível apenas pela razão. É contra isso que Locke se insurge. há uma categoria de pessoas que não Humano. Locke. pequena Locke concorda com Descartes na afirmação de que o conhecimento é constituído marfim ou metal. Consiste numa opinião estabelecida suficiente prova de que não é inato. Consiste numa opinião entre alguns homens que o entendimento comporta certos princípios estabelecida entre alguns homens que o entendimento comporta inatos. In HOum .l. ObjetivOs da aUla Introduzir o debate acerca da verdade como resultado da experiência empírica a partir do Introduzir o debate acerca da verdade como resultado da experiência empírica a empirismo inglês. ou seja. DESENVOLVIMENTO prepare-se para a aUla “A “A maneira pela qual adquirimos qualquer conhecimento constitui constitui maneira pela qual adquirimos qualquer conhecimento suficiente prova de que não é inato. cuja alma primárias. certas noções primárias.LOCKE.estilo. koinaì énoiai. escavada para por idéias. John Locke inicia seu Tratado sobre o Entendimento Humano e contrário dos racionalistas. de papel em branco. prontas para serem preenchidas pelas experiências futuras. 66 6 7 idéia inata nos originais . que afirmavam existir ou princípios também podem alcançar a certeza sem quaisquer destas noções uma Dessa maneira. 1989. É bastante conhecida sua Entendimento Humano. como empirista que era. tema da aUla Objetivos da aula A verdade como resultado da experiência empírica. 145.] nova Fronteira. Língua Portuguesa. partir do empirismo inglês. afirmava que os nossos também sua luta contra com a experiênciaracionalistas que afirmavam existir uma lOCKE. John. certas noções os recebera koinaì riam estampados na mente do homem. Ensaio Acerca do idéia conhecimentos começam o inatismo dos dos sentidos. p. [s. FERREIRa. na qual os romanos escreviam com 12 Locke. 145. simplesmente pelo uso deleitores sem preconceito da falsidade desta como os suficiente para convencer os suas faculdades naturais. TÁBUla. Ao Dessa maneira. podem tratado) como os homens. empirismo: HUme e loCKe Tema da aula NOTA AO ALUNO A verdade como resultado da experiência empírica. Cf. e os transportara consigo ao mundo.”12 sujeitos que seria o verdadeiro fundamento para a verdade e o co- FGV DIREITO RIO 35 . John Locke inicia seu Tratado sobre o Entendimento Humano e nhecimento.” adquirir todo o conhecimento que possuem sem a ajuda de quaisquer impressões inatas e sua luta contra o inatismo dos racionalistas. Seria suficiente para convencer os leitores sem preconceito da falsidade desta hipótese se pualma os recebera em seu ser primordial e os transportara consigo ao desse apenas mostrar (o que espero fazer nas outras partes deste tratado) mundo. tais como crianças e “idiotas”. É contra isso que Locke se insurge. ser primordial os quais estariam estampados na mente do homem. aurélio em função da ausência de um conjunto de vivências suficientemente significativas lanDa(Ed. 1978.) Novo DicionárioBuarque da para dar-lhes as idéias necessárias ao conhecimento. lutando contra um dogmatismo já manifesto na tradição do pensamento ocidental. cuja caracteres. em seu énoiai. como verdade e o inata nos de que ao nascermos somos como tábulasfundamento para a folhas paulo: abril Cultural. John.AULA 7.

que os homens quando agem virtuosamente o fazem porque costumam tirar benefícios próprios de tal conduta e não porque a tenham inscrita dentro de si. 8 9 lOCKE. exército. já que todos eles dependem de uma experiência prévia dos sentidos que os transforme em idéia real e conhecimento verdadeiro. John. David. Ob. mas sentidos. com esse fim solicitarei a cada um repoderes do homem. Seguindo essa linha de raciocínio. naturais ou universais. “Todos admitirão sem hesitar que existe uma considerável diferença entre as percepções da mente quando o homem sente a dor de sente a um calor dor de um calor excessivo ou o prazer de um ar excessivo ou o prazer de um ar moderadamente tépido e moderadamente tépidotarde essa sensação oumais tarde pela imagiquando relembra mais e quando relembra a antecipa essa sensação ou a antecipa pela remedar ou Essas faculdades nação. como os princípios da identidade e não-contradição. p. Nessa esteira. mesmo as evidências lógicas mais apodícticas. como a justiça. p. não há princípio que possa ser considerado universal. embriaguez. movimento.”22 FGV DIREITO RIO 36 Neste parágrafo. pois dependem de uma aquiescência por parte dos indivíduos. Já examinei. 10 original.”9 21 sentidos lógicos para o entendimento da realidade). Locke passa a demonstrar que nenhum princípio da vida prática pode ser considerado inato8. Tanto é assim.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Assim. pensamento. Essas faculdades podem imaginação. Por conseguinte é indubitável que as mentes humanas tem várias idéias. e por quais meios e graus elas podem penetrar na mente. HUmE. John. Portanto. Desenvolvendo o pensamento empírico. Desenvolvendo o pensamento empírico. 1980. como entendê-las? Essa é a questão enfrentada na Segunda parte do Ensaio. e semiótica (conhecimento dos símbolos e correr a sua própria observação e experiência. e que quando está pensando sua mente se ocupa de idéias. copiar as percepções dos podem remedar ou atingirão a força e a dos sentidos. Cit. dureza doçura. ou seja. Tudo por uma única razão: mesmos essas idéias e princípios não são inatos. conforme um fim útil). pelos termos brancura.Locke ainda invoca a diversidade cultural como prova cabal de que não há idéia ou princípio inato nos sujeitos. devendo ser adquiridos pelos indivíduos ao longo de suas vivências e experiências. Se Locke concorda que o conhecimento está nas idéias. temos ainda David Hume. Investigação Sobre o Entendimento Humano. nem sempre adotam os mesmo princípios práticos ou as mesmas virtudes. já que nações inteiras chegam mesmo a divergir acerca de certos princípios consagrados em outras nações. não podem ser considerados inatos e universais. 159. bem como de comprovação. pp. mas nega que estas sejam inatas. expressas entre outras. homem. temos ainda David Hume. em linhas gerais.”10 diferença entre as percepções da mente quando o homem “Todos admitirão sem hesitar que existe uma considerável lOCKE. Hume lança as bases da filosofia que irá associá-lo ao pensamento . elefante. essa opinião. são desconhecidas por certas pessoas. coisas que seriam descabidas caso fossem verdadeiramente inatos. Cit. e suponho que o que ficou dito no livro anterior será facilmente admitido quando tiver mostrado como o entendimento obtém todas as suas idéias. sujeitos e povos podem convergir ou divergir em suas regras práticas – morais – conforme as experiências e vivências que possuam. Mesmo princípios morais basilares. Disso decorre a primeira questão a ser investigada: como elas são apreendidas? Consiste numa doutrina aceita que o ser primordial dos homens tem idéias inatas e caracteres estampados sobre sua mente. 150152. mas jamaiscopiar as percepçõesvivacidade do sentimento jamais atingirão a força e a vivacidade do sentimento original. Ob.. Todo homem tem consciência de que pensa. até porque. que inicia com a seguinte afirmação: “Idéia é o objeto do pensamento. são paulo: abril Cultural.. 140.

EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE Neste parágrafo.12 Com efeito.. fazendo com que. não existe consciência mas. porque se repetem no mesmo espaço ou próxima umas das outras (contiguidade espacial) ou porque se repetem sucessivamente no tempo (sucessão temporal). David.. já que em relação aos fatos. David. É a reunião das várias e diferentes sensações que permite perceber um objeto exterior. assim. pp. Hume encerra a Investigação criticando a idéia do apriorismo como meio de acesso ao conhecimento verdadeiro dos acontecimentos do mundo real. 204. com esta repetição. os pensamentos. 141-157. HUmE. pode-se dizer que o empirismo de Hume é o mais inovador e radical. Hume lança as bases da filosofia que irá associá-lo ao pensamento empirista. colocando-o em posição de destaque dentre os próprios empiristas. Assim. vivências. p. produzindo um tipo de “verdade” sobre os dados da realidade. acusando mesmo de enganação e ilusão qualquer tentativa de levar o raciocínio das ciências abstratas de quantidade e número para os fatos concretos. Ob. Nesse sentido. etapa a etapa. dentre outros. estes são estimulados por dados internos ou externos ao sujeito. as idéias correspondem à associação das percepções trazidas pela experiência sensível. na medida em que “tudo que é pode não ser”13. Cit. dando início a um processo psicológico que vai. Contudo. não há demonstração possível. Assim. que são levadas à memória. no parágrafo em epígrafe. surjam as idéias. a causa corresponde à imaginação do sujeito afetada por uma determinada experiência dos sentidos. Cit. pode-se dizer que Hume compreende a verdade sobre o entendimento humano (o que Descartes chamaria de cogito) como a própria vivência imediata do pensar estimulado indutivamente por impressões. Cit. onde a razão forma os pensamentos. desta maneira. dos fatos. não pode haver conhecimento pleno e cientificamente válido fora do campo meramente conceptual. se associam. p. seja por semelhança. ou seja. formando. ocorre o hábito da associação das percepções. 11 12 13 HUmE. David.. Ob. quer seja porque são semelhantes (semelhança). É a experiência que inscreve as idéias em nosso espírito e a razão as arranja (combinando ou separando). Ob. inaugurado por Bacon e continuado por Locke. temos que os conhecimentos começam com as sensações (experiência dos sentidos) estimuladas pelos objetos exteriores. Negando fundamentos abstratos e metafísicos. Na verdade. afirma que somente a vivacidade do sentimento original é capaz de responder ou explicar uma dada situação. Na medida em que as percepções vão se repetindo. como é o caso da matemática. 203. para Hume. Numa síntese geral do processo de conhecimento exposto por Hume na sua Investigação sobre o Entendimento Humano11. FGV DIREITO RIO 37 . bem como criticando a resposta da velha teologia de que um Ente Supremo precisa ter sido a causa de tudo que foi criado e do que será criado. Por isso. elas se combinam. não há conhecimento da realidade que não se inicie com as impressões dos sentidos. Segundo sua filosofia. seja por diferença. Hume afirma que a razão nada mais é que o hábito de associar idéias. O fato é que. ou seja. já que a relação de causalidade depende de uma experiência pessoal não universalizável sobre bases seguras. Em outras palavras. HUmE. apenas. as sensações reunidas formam a percepção.

Por isso. “verdade das EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE e o direito? Aqui. KIRKHAM. Se a sentença é falsa.1 Independente dos resultados a que se chegue. FGV DIREITO RIO 38 . Estado e sociedade – Revista do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. José Ricardo. jan/jul 2000. Miguel. 16. complementar CUNHA. É empírica. (Parte I – Capítulo VIII. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. Do Conhecimento Quanto a Origem). Modernidade e Ciência: algumas posições epistemológicas. sentido moral ou ético. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. de um fato fundante. REALE. bibliOGrafia CONTEXTO DA DESCOBERTA Obrigatória 1 . fruto. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Acreditar na verdade como produto de uma experiência empírica implica admitir que também é o direito produto de uma experiência leis”. portanto. Teorias da Verdade. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. o fato é que mesmo em relação à verdade.Para uma boa síntese cf. No direito. Mas o problema aponta para o paradoxo real que pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. 1996. Filosofia do direito. mas se for verdadeira. São Leopoldo: Unisinos. 20 Formas pelas quais chega-se à decisão. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. Richard L. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós.dizer que tudo que ele diz é mentira. E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. então ela é verdadeira. In: Direito. Essa concepção empossível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? pírica do direito é corrente na common law e da origem ao chamado realismo jurídico. então ela é falsa. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. 2003. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. n. São Paulo: Saraiva. Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. não há apenas várias correntes ou definições. No direito não basta a verdade pura e simples.

COERENTE mas. do qual se pode inferir . novamente. soluções para todos os tipos de conflitos jurídicos. Prepare-se podem ser úteis na compreensão do formalismo jurídico: para o debate refletindo sobre tais postulados: Luiz Alberto Warat apresenta alguns postulados que 1) 1. inferir . materializado no conceito de legalidade. No direito. Vejamos. 4) As determinações metajurídicas não tem valor jurídico. Esse não faz o direito porque já o encontra realizado. A única fonte do direito é a Lei. o esquema apresentado na aula 6: raCionalismo FUNDAMENTO Fundamentado numa razão inata NO Opera dedutivamente Alcança o mundo externo por meio de uma RACIONALIDADE inferência (representação) lógica PRINCÍPIO DA empirismo Fundamentado na percepção dos sentidos Opera abstração Método deindutivamente conceitual quemundo externo por meio de uma Alcança o confere plenitude de sentido às experiência possibilitada pela percepção prescrições sensível normativas. Portanto. As normas normas positivas constituem um universo significativo significativo auto-suficiente do positivas constituem um universo autosuficiente.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 8. todas as áreas do saber passaram a seguir uma ou outra matriz. Procedimentos de FUNDAMENTO NA LEI decidibilidade que subsumem o valor justiça ao valor segurança. 3) Os códigos não deixam nenhum arbítrio ao intérprete. Já o empirismo está na base dos realismos jurídicos. A única fonte do direito é a Lei. FGV DIREITO RIO 39 devendo-se encontrar todas as soluções dentro do próprio sistema jurídico. soluções para todos qual se pode os tipos de conflitos jurídicos. fOrmalismO jUrídicO Luiz Alberto Warat apresenta alguns postulados que podem ser úteis na compreensão do formalismo jurídico. Formalismo JUrÍdiCo e realismo JUrÍdiCo NOTA AO ALUNO tema da aUla Formalismo e Realismo Jurídico. sobretudo. o racionalismo influenciou tanto o jusnaturalismo do século XVIII. o formalismo positivista do século XX. por atos de derivação racional. . e por uma operação mental Ordenamento jurídico DIREITO POSITIVO preciso e completo. ObjetivOs da aUla Apresentar como Inatismo e Empirismo influenciaram as principais matrizes epistemológicas do direito. 2) As 2. por atos de derivação racional. prepare-se para a aUla É necessário recordar que razão e experiência foram elevadas às categorias centrais do conhecimento na modernidade.

dizer que tudo que ele diz é mentira. Casa da Verdade. TEIXEIRA. 7. Mas o problema aponta para o paradoxo real que A linguagem jurídica não é hermética pode 3. Formas pelas quais FGV DIREITO RIO 40 .Para uma boaca. não há apenas várias correntes ou definições. 19 e 20 20). verdadeiro”. o fato é relações jurídicas. Independente dos resultados a que se chegue. Capítulo síntese cf.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE 3. Perspectivas contemporâneas da ontologia jurídica – Seções 17. Contudo. Esse não faz o direito porque já o encontra realizado. A linguagem jurídica é formal e. A ordem jurídica não oferece segurança. (Parte I. na verdade. mas se for verdadeira. No direito. Lisboa:Richard L. Antonio Braz. Se a sentença é falsa. No direito não basta a verdade pura e simples. Como fenômeno da cultura o direito importa valores. São Leopoldo: Unisinos. Teorias daMoeda. As leis não solucionam todos os casos concretos. As determinações metajurídicas não têm valor jurídico. 2000. 4. Sentido e valor do direito: introdução à filosofia jurídiDESCOBERTA . O juiz é neutro. 18. I. 5. se o que ele diz é falso. Não há significados paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. “verdade das possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como lidar com os problemas de insegurança jurídica? leis”. portanto. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. Pode-se desqualificar este normas dependerá do uso que os juízes dêem as mesmas. Os conceitos teóricos devem ter base empírica. razão porque só possuem valor se refletem as condutas judiciais e as conseqüências sociais das Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. 4. devendo-se encontrar todas as soluções dentro do próprio sistema jurídico. sentido moral ou ético. então ela é falsa. então o que lê diz “é falso”. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. Ontologia do Direito. Por isso. Mas podemos dar uma versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: abstratos claramente definíveis. A Ciência Jurídica deve estudar. não há paradoxo. sem formular juízos valorativos. 6. As normas jurídicas e os conceitos dogmáticos constituem um conjunto de Claro que. realismO jUrídicO Novamente Luiz Alberto Warat apresenta alguns postulados que podem ser úteis na compreensão do realismo jurídico. apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. 2003. bibliOGrafia Obrigatória CONTEXTO 1 DA chega-se à decisão. Os códigos não deixam nenhum arbítrio ao intérprete. A Ciência do direito constrói-se elaborando teses sobre os comportamentos A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA judiciários. o direito positivo vigente. mas 1 limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. É e o direito? Quais seriam os principais problemas possíveis resultantes dessas matrizes epistemológicas? Aqui. precisa: possui um unívoco sentido dispositivo. Continue sua preparação refletindo sobre os novos postulados: 1. O sentido das ser ela é verdadeira. então o que lê diz “é 2. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. KIRKHAM. que mesmo em relação à verdade. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer afirmações metafísicas. então nem auto-suficiente. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural.

Realismo e Interpretação da Lei). 1994. Luiz Alberto. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE complementar WARAT. (Capítulo 4: Formalismo. Introdução geral ao direito I: interpretação da lei. FGV DIREITO RIO 41 . temas para uma reformulação.

em outras palavras. para que nada fique à mercê de respostas níacos e reconhecendo. É a razão que ela não pode. Daí sua filosofia também ser conhecida como criticismo. de validade e te daquilo que considera comoos seus limites. julgada O conhecimento É a razão que se submete às suas próprias leis. Assim. que sua filosofia também ser que se pode fazer sobre uma teoria. a da razão para se apresentar de forma verdadeira e sistemática. a fim de buscar suas condições de que o criticismo surge do movimento realizado por Kant dianpossibilidade. a razão crítica é aquela da qual nada escapa a comumente se fala até mesmo seu agente operador visto e kantiana. numaerros. por isso mesmo. esse que é submetido Assim.ao impériorazão crítica por ela mesma. um duplo papel: dogmáticas réu. sem semmargens . Daí co.isso mesmo. racionalista que confia cegamente na cia subjetiva.ao conhecimento e a por isso mesmo. Dessaque comumente se fala sobre o “tribunal da razão” na filosofia kantiana. caindo. Objetivos da aula ObjetivOs da aUla Apresentar a síntese crítica entre inatismo e empirismo como formulada no penpensamento kantiano. que confia cegamente Kant diante daquilo que considera como dogmatismosurge do movimento realizado porna razão. investigando osubjetiva. A síntese crítica A síntese crítica de inatismo e empirismo. por verdade. prepare-se para a aUla DESENVOLVIMENTO Apresentar a síntese crítica entre inatismo e empirismo como formulada no a nenhum tipo de inconsistência. caindo. CRITICISMO: KANT EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE NOTA AO PROFESSOR aUla 9. sobre o “tribunal da erazão” na éfilosofiaanalisado por ela. segundo as características é aquela da qual nada escapa a um minucioso exame. que consiste no uma conduta ou uma experiência. ou seja. suas possibilidades: 83 FGV DIREITO RIO 42 Para desenvolver plenamente seus estudos. caindo. ou seja.ao conhecimento ee a verdade. Dessa forma. de validade e os seus limites.AULA 9. a saber: a) o erro do criticismo racionalista. exatamente. um duplo papel: de juiz e de réu. A razão crítica é. consiste no exame de valor conhecida como criticismo. Kant se propôs um saber crítico. o criticismo kantiano irá buscar as palavras. como ciência é. o criticismo kantiano irá buscar as verdadeiras bases para um reduz tudo à mera experiência que ela pode e o que ela não mesmo. É por isso forma. onde da razão. por isso pode. Podemos afirmar ou uma experiência. uma conduta exame de valor que se pode a fim de buscar suas condições de possibilidade. curiosamente. numa metafísica ilusória. operador é a razão analisado por mesma. até mesmo seu agente e de um sujeito autônomo. investigando o que ela pode e o que verdadeiras bases para um uso correto a razão ocupa. ela está sendo para que nada fique à mercê de respostasde juiz e de e sem fundamento racional. Kant se propôs um saber crítinenhum tipo de inconsistência. a razão ocupa. suas possibilidades e limites. num ceticismo quanto b) o erro do empirismo que razão. dar dar margens a Para desenvolver plenamente seus estudos. É por isso que se submete às suas próprias leis.visto e que se critica a siela. onde um minucioso exame. ela está sendo julgada por ela mesma. a saber: a) b) erro do dogmatismoque reduz tudo à mera experiêndois metafísica ilusória.fazer sobre uma teoria. curiosamente. posto que também submetido à razão. Podemos afirmar que o dois erros. em outrasceticismo quanto suas possibilidades limites. humildemente. CritiCismo: Kant Tema da aula NOTA AO ALUNO tema da aUla de inatismo e empirismo. caindo. o o erro do empirismo. samento kantiano. impedindo seus delírios megalomaantes de tudo. num uso correto da razão.

”14 A forma como Kant responde os problemas colocados à teoria do conhecimento pelas correntes racionalista e empirista ficou conhecida como uma espécie de revolução copernicana.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE “Em todos os seus empreendimentos a razão tem que se submeter à crítica. consiste sempre em nada mais do que no consenso de cidadãos livres dos quais cada um tem que poder externar. mas um discurso sobre a ciência. 14 CHaUÍ. 16 KanT. o veredicto desta última. não obstante traça como que todo o seu contorno. onde existe uma sobreposição do primeiro em relação ao segundo. mas uma estrela. uma vez que é aquela que legisla sobre esta ao instituí-la como objeto para sua cognição. inteligível. sendo a Terra que gira ao seu redor. por isso mesmo. racionalistas e empiristas estavam buscando um centro falso e inexistente. longe de possuir uma autoridade ditatorial. que o conhecimento KanT. Sobre esta liberdade repousa até a existência da razão. sem constrangimento algum. p. da razão em relação à realidade. através do que ampliaria o nosso conhecimento. a Terra não poderia ser o centro do cosmo e que o Sol não é um planeta. 17 FGV DIREITO RIO 43 . Ob. girar em torno deles”15. Dessa maneira. fracassaram sob esta pressuposição. 15 KanT. ou o sujeito do conhecimento. 1980. Para Kant. passa a ser visto como o resultado da relação entre sujeito cognoscente e objeto cognoscível. diz ser esta “um tratado do método e não um sistema da ciência mesma. por isso. p.”16 Assim sendo.. porém todas as tentativas de mediante conceitos estabelecer algo a priori sobre os mesmos. com pretensão de universalidade e precisão. são paulo: atica. 77. cabe ao sujeito o papel de instituir seus objetos cognitivos para afirmar-se como hegemonia da razão sobre o real. nada é tão importante nem tão sagrado que lhe seja permitido esquivar-se a esta inspeção atenta e examinadora que desconhece qualquer respeito pela pessoa. assim. quando afirmavam ser a realidade racional em si mesma e. 1994. todo o processo de produção do conhecimento. marilena. 363.. 12. p. suas objeções e até seu veto. a teoria do conhecimento de Kant não é exatamente um discurso científico. Em outras palavras. quando este afirma que é o sujeito de conhecimento – razão crítica – que deve ser o centro do conhecimento e não o contrário: “Até agora se supôs que todo o nosso conhecimento tinha que se regular pelos objetos.”17 Temos. assim. Crítica da Razão Pura. Ob. quer dizer. e não pode limitar a liberdade da mesma por uma proibição sem que isto a prejudique e lhe acarrete uma suspeita desvantajosa. Immanuel. para seu conhecimento. No que tange à sua utilidade. É aí que surge a revolução proposta por Kant. Copérnico já havia demonstrado que o universo é infinito e. são paulo: abril Cultural. e não o contrário. Cit. No prefácio da Crítica da Razão Pura. Cit. Como podemos ver. Por isso tente-se ver uma vez se não progredimos melhor nas tarefas da Metafísica admitindo que os objetos têm que se regular pelo nosso conhecimento. 14. tendo em vista tanto os seus limites como também toda a sua estrutura interna. como acreditavam os antigos e medievais. Convite à Filosofia. Immanuel. Immanuel. sobre como é possível produzir conhecimentos ditos científicos e. “colocaram a realidade exterior ou os objetos do conhecimento no centro e fizeram a razão. a partir de Kant. p. o que concorda melhor com a requerida possibilidade de um conhecimento a priori dos objetos que se deve estabelecer sobre os mesmos antes de nos serem dados.

O que remete a outra questão: como é possível um juízo sintético a priori? Pois bem. vejamos o juízo a porta está aberta. a coisa em si. 27. ou seja. não o ente em si. Immanuel.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE científico se opera na forma de uma relação entre sujeito e objeto. 20 FGV DIREITO RIO 44 . sendo aquele cujo predicado já está contido no sujeito. Temos. Cit. estes não fazem o conhecimento em nada avançar. saber como eram possíveis tais ciências.. pois este é incognoscível. Vejamos que os juízos analíticos são sempre universais e necessários. sendo o que resulta de nossas experiências sensíveis. embora seja concreto e enriquecido pelo dado real dos sentidos ou de nossa experiência pessoal. exatamente como deve ser o conhecimento científico. vez que as ciências da natureza já estavam constituídas como um fato. Agora. O fenômeno é a coisa na maneira como se apresenta ao sujeito. que significa a maneira pela qual um ente faz-se conhecer. conforme as características e determinações próprias do sujeito racional. mas apenas a maneira como se apresenta ao homem. tal qual ocorre nas proposições da matemática. este KanT. como exemplo. Rapidamente. Entretanto. que pretendia desvendar metafisicamente os atributos ontológicos da natureza primeira do ente. Este reconhecimento dos limites da razão implica numa crítica kantiana ao dogmatismo do racionalismo antigo.. reconhecido nos seus limites como limites da própria razão. científico. Contudo. mas pode-se conhecer o fenômeno. o númeo.. mas sim a forma de sua apresentação.18 O númeno é a coisa em si. caso contrário. 18 KanT. o que já se torna possível no caso do conhecimento puro. embora esta seja uma proposição universal. No entanto. sendo sabido por todos. Esta proposição realmente acrescenta um dado novo sobre o sujeito que não era conhecido anteriormente. Ob. Immanuel. Cit. a resposta somente poderia resultar da análise da faculdade de conhecer do sujeito. Ob. destarte. o que é feito na Critica da Razão Pura. este pode ser conhecido cientificamente. Em outras palavras. 39. somente há conhecimento científico quando o objeto de conhecimento é tomado na sua dimensão fenomênica. Sua questão era. 24-26. sendo aquele que o conceito admitido no predicado representa uma informação nova em relação ao sujeito. válido em qualquer tempo ou lugar. a resposta dada por Kant foi a seguinte: o que torna possível o conhecimento científico são os juízos sintéticos a priori. p. já sabemos que este sujeito cognoscente é tomado criticamente. então. Immanuel. ou seja. não seria porta. 19 KanT. medieval e moderno. já existia o conhecimento universal. fazendo o conhecimento avançar. Quando se debruça sobre o problema do conhecimento. Kant distingue dois tipos de juízo: 1) o analítico. Ob. este não pode ser conhecido cientificamente. e 2) o puro ou a priori. não se conhece racionalmente o númeno. tido como científico. ou seja. p. Kant não se preocupa em descobrir se é possível a construção de um saber de base universal. todos sabem que porta abre e fecha. e 2) o sintético. não pode ser conhecida. o juízo a porta abre e fecha. sabendo que o centro do conhecimento é o sujeito cognoscente. Ora. pp. que o conhecimento empírico. sendo o que independe de nossas experiências sensíveis.19 Por outro lado. pois. já que aquilo que informam do sujeito já estava contido na própria idéia do sujeito. Partindo dos aportes oferecidos tanto por empirismo como por racionalismo. que é o fundamento último do próprio conhecimento. Kant observa e distingue duas formas de conhecimento: 1) o empírico ou a posteriori. ou seja.20 Tomemos. Esta. não pode ser tomado de maneira universal ou necessária. o objeto cognoscível é sempre um fenômeno. Cit. Portanto.

não podendo se dizer por que esta porta está aberta. 22 FGV DIREITO RIO 45 . estes conceitos ainda não respondem ao problema do conhecimento científico. p. isoladamente. entretanto. se os juízos analíticos trazem em si a universalidade e são. não provindo pois da experiência. O juízo ‘todo acontecimento tem uma causa’ é um juízo sintético a priori. para explicar o funcionamento das ciências. que todas as portas do mundo estão abertas. Já o conhecimento a priori é universal e necessário. pois os juízos sintéticos são empíricos e fazem avançar o conhecimento. contudo. denominamos KanT. também. 1995. onde o predicado não esteja contido no sujeito mas que. É a priori porque vale universalmente. na medida em que acrescentam uma informação sobre o sujeito. 21 salGaDO. é sintético porque no conceito acontecimento não está contido o conceito de causa. seja universal e necessária: trata-se do juízo sintético a priori. não serve para explicar o funcionamento das ciências. e nestes o conhecimento é crescente. Ob. mas apenas traduz juízos analíticos. que promove a síntese do próprio conhecimento. portanto.”22 Ainda o conceito de juízo sintético a priori revela a hipótese central da filosofia kantiana da ciência: o conhecimento começa com a experiência. onde não se revela nenhuma novidade sobre o sujeito. mas não avança.. já que sem eles não seria possível a física pura. já o juízo a porta está aberta é sintético. através de um esquematismo transcendental. Cit. Belo Horizonte: Editora UFmG. são um fato. Acontece que. é necessário. 87. não servido. em contrapartida. o juízo porta abre e fecha é analítico. para que haja ciência. ao mesmo tempo. Joaquim Carlos. Immanuel. Assim descreve Kant: “Denominamos sensibilidade a receptividade de nossa mente receber representações na medida em que é afetada de algum modo. Kant faz uma espécie de síntese entre postulados do racionalismo e do empirismo. A Idéia de Justiça em Kant: seu fundamento na liberdade e na igualdade. sempre a priori. tal qual o juízo o triângulo têm três lados ou todos os corpos são extensos.21 Somente os juízos sintéticos fazem a ciência avançar. as quais. propondo o conhecimento na forma do resultado de um processo complexo que parte dos dados empíricos fornecidos pela intuição sensível processando-os na forma transcendental das categorias do entendimento. de forma que não faz avançar o conhecimento e. Os juízos sintéticos a priori representam o conhecimento científico porque são universais e crescentes. por isso. de modo necessário. mas não são universais e necessários. A resposta está numa categoria empírica. p. Dessa forma. mas possa ser tomada como atributo universal e necessário de dado objeto cognoscível. já que é universal e necessário. nem a matemática. e se os juízos sintéticos da experiência oferecem somente a possibilidade do crescimento do conhecimento – dado que naqueles o conhecimento é universal. que a informação não se restrinja a uma única observação específica de um fenômeno. mas não universal – é preciso que existam juízos sintéticos a priori que tenham as duas características. tal qual todos os corpos se movimentam. 28. ao mesmo tempo: “Ora.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE conhecimento somente pode ser considerado válido para aquele sujeito especificamente. mas não surge todo ele da experiência.

o ato de pensar. e sem entendimento nenhum seria pensado. p. 85. o conhecimento resulta da reunião das faculdades da sensibilidade – intuição sensível – e do entendimento. por isso. à sua escolha. 23 salGaDO. na forma do sujeito de conhecimento. mas. Estas duas faculdades ou capacidades também não podem trocar as suas funções. p. o entendimento é a faculdade de pensar o objeto da intuição sensível. tomada como verdade epistemológica.25 Não resta dúvida que a epistemologia kantiana radicaliza a aventura moderna do empreendimento científico ao lançar as bases mais sistemáticas e sólidas de uma nova fundamentação da verdade. O conhecimento não é. p. como último reduto da verdade mesma. resulta. Ob. Frente a isto. ou seja. No entanto. 74. Pela primeira. Ob. é sempre uma postura racional que impõe à realidade bruta as regras ou leis que a torna inteligível. intuições sem conceitos são cegas. Immanuel. meio eficaz para a consecução de um fim qualquer. a mais alta faculdade do conhecimento. Portanto. o juízo sintético a priori.. um processo complexo que opera através de sínteses que conduzem a diversidade dos dados empíricos à unidade das categorias do entendimento. contém somente o modo como somos afetados por objetos.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE entendimento ou espontaneidade do conhecimento a faculdade do próprio entendimento produzir representações. Cit. 24 KanT. desse complexo processo de sínteses que acolhe a multiplicidade de percepções dos sentidos e as eleva à forma de conceitos inteligíveis e universais. é a unidade racional transcendental. todas as sínteses tem como centro o sujeito cognoscente que institui.24 Assim. pois. Por isso se dizer que na filosofia kantiana é a razão que legisla. Embora o tribunal da razão tenha limitado a arrogância da razão onipotente da metafísica dogmática. a fim de pensá-los racionalmente. pensamos este mesmo mundo. Joaquim Carlos. Pensamentos sem conteúdos são vazios. antes. ou seja. Ob. Nenhuma destas propriedades deve ser preferida à outra.”23 Como diz Kant.. Sem sensibilidade nenhum objeto nos seria dado.. tanto é necessário tornar os conceitos sensíveis (isto é. ocorre que o racionalismo kantiano foi convertido em racionalidade instrumental. 129. para Kant. sujeito transcendental. ele elevou ao mais alto pedestal a glória da razão teorética ou científica. entramos em contato com o mundo e. Cit. como dito anteriormente. Immanuel. Muito rapidamente. ou. O conhecimento só pode surgir da sua reunião. sendo. como diz Kant. que caracteriza o conhecimento concreto e universal das ciências. um momento estático dos sentidos ou da razão. pô-las sob conceitos). Essa perspectiva racionalista kantiana serviu de base para a sustentação de uma sociedade que busca a legitimação de suas instituições e do comportamento de seus agentes em postulados racionalistas. acrescentar-lhes o objeto na intuição) quanto tornar as suas intuições compreensíveis (isto é. A nossa natureza é constituída de um tal modo que a intuição não pode ser senão sensível. Dessa forma. Contudo. isto é. Cit. Modernizar passou a significar racionalizar e racionalizar passou a significar estar mais perto da verdade e da liberdade intelectual. que fornece as condições últimas de possibilidade do conhecimento ou da verdade. O entendimento nada pode intuir e os sentidos nada pensar. os objetos de sua investigação. De efeito. pela segunda. o sujeito racional é a própria unidade do conhecimento na forma do eu penso. os meios se autonomizaram KanT. 25 FGV DIREITO RIO 46 .

então em moralismo. Pode-se desqualificar este paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. degenerando na forma de certas condutas consideradas meramente técnicas. Se a sentença é falsa. Do Conhecimento Quanto a Origem). suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. Como fenômeno da relação com o criticismo kantiano. pesquise a chamada dialética de integração-poAqui. Capítulo VIII. Teorias da Verdade. (Parte I. n. 16. Direito. No direito não basta a verdade pura e simples. No direito. isoladas de fundamentos éticos. constituído concomitantemente por fatos lidar com os problemas de insegurança jurídica? concretos e proposições abstratas que interagem reciprocamente.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE então o que lê diz “é falso”. Mesmo a moral foi transformada pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. . Esse proela é verdadeira. jan/jul 2000. Mas o problema aponta para o paradoxo real que 1 que mesmo em relação à verdade. São Leopoldo: Unisinos. atingiu seu ápice com a hegeA SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA monia absoluta do positivismo. 2003.Para uma boa síntese cf. sentido moral ou ético. sendo. 1996. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. Estado e Sociedade – Revista do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. cultura o direito importa valores. REALE. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. complementar 20 CUNHA. Richard L. como instrumento de dominação de certos grupos sociais. FGV DIREITO RIO 47 . Claro que. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer dizer que tudo que ele diz é mentira. o fato é muito tempo pela filosofia. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como laridade e Manuel Atienza: contexto da descoberta do Direito de Miguel Reale e comente sua Jerzy Wróblewski na Teoria Tridimensional e contexto da justificação. Modernidade e Ciência: algumas posições epistemológicas. a partir do século XIX. se o que ele diz é falso. que retirou de boa parte dos cientistas a sensibilidade A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA social e os fundamentos éticos da busca da verdade. 1 Obrigatória KIRKHAM. É possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como de tal síntese. “verdade das e o direito? Acreditar na verdade como produto de uma síntese entre entendimento e sensibilidade admitir que também o direito é produto leis”. Filosofia do direito. Contudo. São Paulo: Saraiva. mas se for verdadeira. pois. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. que acabou por determinar Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há o modo de produção do resultados a que se chegue. Para a aula. então ela é falsa. Mas podemos dar uma cesso de embrutecimento da racionalidade científica e de autonomização da ciência versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: em relação ao mundo da vida. E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. Miguel. bibliOGrafia CONTEXTO DA DESCOBERTA Formas pelas quais chega-se à decisão. Independente dos conhecimento em todas as áreas do saber. José Ricardo. na verdade. então o que lê diz “é verdadeiro”. em relação aos fins. não há paradoxo. não há apenas várias correntes ou definições. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. Por isso.

AULA 10. O POSITIVISMO: COMTE

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NOTA 10. o positiVismo: Comte aUlaAO PROFESSOR

Tema AO ALUNO NOTAda aula

tema da aUla O positivismo filosófico.

O positivismo filosófico.
Objetivos da aula

ObjetivOs da aUla filosófico conforme desenvolvido por Augusto Comte. Apresentar o positivismo

Apresentar o positivismo filosófico conforme desenvolvido por Augusto Comte. DESENVOLVIMENTO
prepare-se para a aUla
A força filosófica de maior influência na modernidade foi, sem dúvida, o positivismo. O seu maior formulador, Augusto Comte, afirmou a filosofia como uma espécie de denominador comum de todo tipo de conhecimento, teórico ou prático, dando a ela também um papel político para a

A força filosófica de maior influência na modernidade foi, sem dúvida, o positivismo. O seu maior formulador, Augusto Comte, manutenção da ordem. Isso quer dizer que, por um lado, o afirmou a filosofia como uma espécie de denominador comum positivismo se apresenta como uma teoria do conhecimento de todo tipo de conhecimento, teórico ou prático, dando a ela capaz de apreender e desvendar a ordem natural dos também um papel político para a manutenção da ordem. Isso acontecimentos histórico, descobrindo leis gerais válidas para quer dizer que, por um lado, o positivismo se apresenta como todos os indivíduos e todas as sociedades, supondo uma uma teoria do conhecimento capaz de apreender e desvendar a evolução intrínseca na base dessa ordem natural; por outro lado, ordem natural dos acontecimentos histórico, descobrindo leis geo positivismo se apresenta como uma coordenação das ações políticas necessárias rais válidas para todos os indivíduos e todas as sociedades, supondo uma evolução para a manutenção dessa ordem, que traz o desenvolvimento, e para uma eventual intrínseca na base dessa ordem natural; por outro lado, o positivismo se apresenta correção de possíveis desvios. Nesse sentido, o positivismo pode ser considerado como uma coordenação das ações políticas necessárias para a manutenção dessa orcomo uma espécie de filosofia das filosofias, pois fornece a regra geral de dem que traz o desenvolvimento e para uma eventual correção de possíveis desvios. entendimento e interpretação de todos os acontecimentos históricos ao mesmo tempo Nesse sentido, o positivismo pode ser considerado como uma espécie de filosofia em que delimita os campos de intervenção da ação humana e fornece as regras de das filosofias, pois fornece a regra geral de entendimento e interpretação de todos como fazê-la. Para tanto, se opõe a qualquer tipo de saber que não esteja amparado os acontecimentos históricos, ao mesmo tempo em que delimita os campos de inem condições reais, demonstráveis e históricas de fundamentação, negando qualquer tervenção da ação humana e fornece as regras de como fazê-la. Para tanto, se opõe a ontologia absoluta e transcendente que não surja da história e não se afirme nela. No qualquer tipo de saber que não esteja amparado em condições reais, demonstráveis e históricas de fundamentação, negando qualquer ontologia absoluta e transcendente que não surja da história e não se afirme nela. No lugar dessa ontologia99 caráter de metafísico, o positivismo, embalado pelo otimismo moderno, apresenta a ciência como verdadeira redentora e realizadora da promessa do conhecimento e do progresso. Comte acredita ter encontrado a filosofia natural a que Bacon tanto se referia sem, contudo, ter descoberto suas verdadeiras regras de funcionamento. Observar e descobrir o funcionamento da natureza é o ponto de partida para uma ação racional sobre a própria natureza que assegure ao homem um lugar privilegiado no mundo, isto é, um lugar de domínio que propicie uma natural evolução. Portanto, a filosofia
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positivista de Comte concede à ciência lugar de fundamental destaque, na medida em que a ela cabe fornecer o conhecimento do mundo e o plano de ação adequado ao seu manejo. Eis a síntese da perspectiva cientificista da filosofia positivista: ver para prever e prever para controlar. Afirma Comte:
“Sem dúvida, ao tomar o conjunto completo de toda sorte de trabalhos da espécie humana, deve-se conceber o estudo da natureza, destinando-se a fornecer a verdadeira base racional da ação do homem sobre ela. O conhecimento das leis dos fenômenos, cujo resultado constante é fazer com que sejam previstos por nós, evidentemente pode nos conduzir, de modo exclusivo, na vida ativa, a modificar um fenômeno por outro, tudo isso em nosso proveito... Todas as vezes que chegamos a exercer uma grande ação, é somente porque o conhecimento das leis naturais nos permite introduzir, entre as circunstâncias determinadas sob a influência das quais se realizam os diversos fenômenos, alguns elementos modificadores que, em que pese sua própria fraqueza, bastam, em certos casos, para fazer reverter, em nosso proveito, os resultados definitivos do conjunto das causas exteriores.”26

Apesar dessa apresentação dos postulados e das pretensões do positivismo, ainda é necessário um esforço de definição. Usemos o seguinte conceito: positivismo é a doutrina que afirma o real em detrimento do transcendente absoluto. É uma doutrina porque é um conhecimento organizado a partir de um corpo teórico próprio e definido. A substância dessa doutrina filosófica é o paradoxo entre o real e o transcendente, onde o primeiro deve ser entendido como uma exterioridade observável e o segundo como a própria metafísica. Assim, o positivismo rejeita a cientificidade, ou seja, o caráter de verdade, de qualquer explicação baseada em argumentos metafísicos, rejeitando, por conseguinte, todas as idéias totalizantes e que não estejam fundamentadas no observável. Portanto, apenas no plano do real fenomênico é possível praticar a ciência e descobrir a verdade. Deve-se ter em conta que não basta a pura observação, o fenômeno observado deverá ser racionalizado para que possa ser apresentado na forma de enunciados, prognósticos e prescrições. Considerando a realidade como uma exterioridade observável, Comte entende que os fenômenos podem ser vistos, previstos e subsumidos por uma lei geral de funcionamento, de modo a ser controlado ou, pelo menos, passível de controle pela razão humana. Por isso mesmo, estrutura sua filosofia positivista em três momentos fundamentais: uma filosofia da história (momento filosófico), uma teoria ou classificação das ciências (momento epistemológico) e uma reforma das instituições políticas e morais (momento sociológico). Todos estes momentos devem ser submetidos à Lei Fundamental do Progresso do Espírito Humano, consubstanciada na evolução dos três estados que marcaram a existência dos homens: estado teológico, estado metafísico e estado positivo, sendo este último a grande expressão da natureza e cultura humanas:
“No estado teológico, o espírito humano, dirigindo essencialmente suas investigações para a natureza íntima dos seres, as causas primeiras e finais de todos os
COmTE, augusto. Curso de Filosofia Positiva. são paulo: abril Cultural, 1983, p. 23.
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efeitos que o tocam, numa palavra, para os conhecimentos absolutos, apresenta os fenômenos como produzidos pela ação direta e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitrária explica todas as anomalias aparentes do universo. No estado metafísico, que no fundo nada mais é do que simples modificação geral do primeiro, os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas, verdadeiras entidades (abstrações personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo, e concebidas como capazes de engendrar por elas próprias todos os fenômenos observados, cuja explicação consiste, então, em determinara para cada um uma santidade correspondente. Enfim, no estado positivo, o espírito humano reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e o destino do universo, a conhecer as causas íntimas dos fenômenos, para preocupar-se unicamente em descobrir, graças ao uso bem combinado do raciocínio e da observação, suas leis efetivas, a saber, suas relações invariáveis de sucessão e similitude. A explicação dos fatos, reduzida então a seus termos reais, se resume de agora em diante na ligação estabelecida entre os diversos fenômenos particulares e alguns fatos gerais, cujo número o progresso da ciência tende cada vez mais a diminuir.”27

Em linhas gerais, pode-se afirmar que, no estado positivo, a crença (in)fundada em agentes sobrenaturais e forças abstratas, próprias dos estados teológico e metafísico, desaparece para dar lugar a uma nova crença: o poder da observação e da razão que, combinadas, formam a base da ciência. Note-se a influência de Hume e de Kant, conforme admite o próprio Comte, na descrença em torno de um absoluto ontológico ou mesmo na apropriação crítica da ciência, estabelecendo seus limites e possibilidades, ou, ainda como quer Kant, na compreensão da ciência como o resultado da articulação entre sentido e razão, com primazia normativa desta última, pois é ela que determina o significado dos dados empíricos absorvidos pelos sentidos. No estado positivo, é o conhecimento científico que determina a verdade e os seus meios de produção. Por isso, Comte afirma dois postulados epistemológicos básicos: 1) a negação de uma unidade absoluta intrínseca à realidade; 2) a afirmação de uma relatividade histórica do conhecimento que está sempre em progresso e se liga a dadas situações sociais.28 Com base nesses postulados, afirma três regras metodológicas essenciais para a ciência: 1) A busca do conhecimento implica a delimitação de um objeto específico de conhecimento; 2) O objeto – fenômeno – deve ser estudado sistematicamente nas suas relações constantes de concomitância e sucessão, até que se encontre sua lei geral de funcionamento; e 3) A descoberta científica da lei de funcionamento de um fenômeno, permite a previsão racional de seu comportamento, como forma de controle, segundo o dogma da invariabilidade das leis naturais.29 Assim, o positivismo produz uma filosofia da ciência que possui como fundamento a observação que, no entanto, pressupõe: 1) a possibilidade da objetividade do conhecimento; 2) uma organicidade própria dos fenômenos que são sustentados por funções naturalmente determinadas; e 3) uma harmonia intrínseca da realidade que decorre da organicidade dos fenômenos. Em

27 28

COmTE, augusto. Ob. Cit., p. 4.

COmTE, augusto. Discurso Sobre o Espírito Positivo. são paulo: abril Cultural, 1983, p. 63. COmTE, augusto. Discurso Preliminar Sobre o Conjunto do Positivismo. são paulo: abril Cultural, 1983, pp. 108-110.
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Cit. for verdadeira. donde a crença que o progresso decorre da ordem. o fato é que mesmo em relação à verdade. Mas o problema aponta para o paradoxo real queciências da sociedade. foram hegemonizados por leis”. Mas podemos dar uma de forma objetiva. são paulo: Cortez. se o que ele diz falso. e sendo a segunda o resultado de suas leis gerais de evolução que lhe garante o desenvolvimento: progresso. p. como se ciência e política fossem neutras. No direito. 1994. augusto. paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. Para tanto. então ela é falsa. Nesse sentido. mente assimilada pela natureza e ser estudada pelos mesmos métodos e processos Claro que. não há apenas várias correntes ou definições. é exatamente isso que ocorre nas sociedades. ser epistemologicareina uma falso”. considerada por ele reacionária. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer dizer que tudo que ele diz é mentira. assegurando a vitalidade do organismo e evitando as disfunções socialmente patológicas que pudessem ou impedir o progresso. bastaria a implantação de um Estado sociocrata intervencionista que garantisse o funcionamento dos órgão sociais. para uma boa existência da sociedade e sua respectiva evolução.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE outras palavras. Ob. portanto. Isso é o que será aprofundado nas lidar com os problemas de insegurança jurídica? aulas seguintes. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. então o que lê diz “é verdadeiro”. ocultando a questão fundamental das correlações de força e de busca pelo poder. “verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. . então o que lê diz “é harmonia natural. No direito não basta a verdade pura e simples. basta compreender que. p. Pode-se desqualificar este ela é verdadeira. e da aristocracia. por isso. Michael Lövy explica como as ciências sociais foram tomadas por este modelo epistemológico. Por isso a definição da sociologia como uma física social que investiga o fenômeno social como um dado objetivo e natural. capaz de conduzir o espírito humano numa trajetória moral evoluída e verdadeiramente livre. 3) As pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. na vida social. leis invariáveis. livre de julgamentos de valor ou ideologias. que torna a política dependente da ciência. mas se devem limitar-se à observação e à explicação causal dos fenômenos. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. sendo conduzidas basicamente pelos seguintes princípios: 1) A sociedade é regida por leis naturais. inclusive pelo direito. As Aventuras de Karl Marx Contra o Barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. haverá o progresso. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. mchael. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. isentas de influências ideológicas na busca e na realização de uma “verdade pura”.e a maior parte do século XX. é2) A sociedade pode. Por isso. sentido moral ou ético. então da natureza. 30 lÖWY. sendo a primeira uma condição constante da sociedade que lhe garante a harmonia: ordem. considerada por Comte como sendo anarquista. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. descartando versão que não é auto-referente e tem pleno sentido gramatical: previamente todas as prenoções ou preconceitos. a ciência – com sua pluralidade de objetos e unidade metodológica – descobre as leis gerais imutáveis da estática (ordem) e da dinâmica (progresso). assim como as empregados pelas ciências da natureza. COmTE.31 Todos esses aspectos foram. Essa acepção positivista. Para garantir a ordem que produz progresso.1 Independente dos resultados a que se chegue. também produz a idéia de que a política pode ser vista como uma técnica de arranjo social. de A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA tal forma. consoante concepção positivista. Contudo. E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. não há paradoxo. propõe uma sociocracia fundada no conhecimento científico da sociedade e. Se a sentença é falsa. se tudo estiver em ordem. Todo o século XIX .30 Segundo o positivismo. na verdade. “verdade das e o direito? De muitas formas o positivismo influenciou o direito. independentes da vontade e da ação humanas. No lugar da democracia. isto é. Aqui. neutra. chegando às suas leis gerais imutáveis. toda sociedade é formada por uma estática social e por uma dinâmica social.. 17. enraizados na consciência epistemológica moderna que se expandiram A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA por todas as formas de conhecimento. É possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como conceitos positivistas de direito. 113. 31 FGV DIREITO RIO 51 CONTEXTO DA Formas pelas quais chega-se à decisão. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. Como fenômeno da cultura o direito importa valores.

1995. François. Helmut. Elementos fundamentais da filosofia do direito. In: CHÂTELET. Lisboa: Dom Quixote. René. A Filosofia Positivista de Augusto Comte. Principais Doutrinas da Filosofia do Direito – Seção VIII A modernidade: positivismo e formalismo). complementar COING. 2002. História da filosofia. (Capítulo I.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE bibliOGrafia Obrigatória VERDENAL. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor. FGV DIREITO RIO 52 .

Modernidade e Ambivalência. ObjetivOs da aUla Introduzir o problema da modernidade no contexto do marco epistemológico a partir da influência do positivismo. Rio de Janeiro: Relume Dumará. O Primado da Afetividade: a crítica freudiana ao paradigma moderno. por sua vez. isso já oferece uma noção da força da modernidade que. há muita diversidade quanto à definição do que seja moderno ou modernidade. Zygmunt. petrópolis: Vozes. 1999. alain. como qualquer outra história. anthony. marshall.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUla 11. manifestando a implicação teológica da modernidade. Boaventura de souza. As Encruzilhadas do Labirinto I. o moderno costuma se ligar ao conceito de “modernização” (modernizar ou modernizado) que. 1987. 1986. 1994. se articula com a idéia de eficiência. A Revolução Francesa rompe com a estrutura estamental do Ancien Régime e institui uma nova relação entre Estado e sociedade civil. Portanto. BERman. A Reforma Protestante rompe com o tradicional monopólio da Igreja Católica na formulação da doutrina cristã e institui uma nova relação entre os homens e Deus. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar. HaBERmas. Jürgen. traduzindo uma intuição de que o moderno ou modernizado é melhor do que aquilo que lhe antecedia. lisboa: Dom Quixote. Crítica da Modernidade. conforme os nomes já consagrados. a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. Por si só. Uma reforma e duas revoluções. evidentemente. TORaInE. ROUanET. são paulo: Unesp. são paulo: Cia das letras. manifestando a implicação econômica da modernidade. plasTInO. Mal-estar na Modernidade. quando se fala em modernizar o Estado ou modernizar uma empresa. BaUman. 1991. são paulo: Cia das letras. Carlos alberto. sanTOs. são paulo: Cortez. Passa-se a idéia de que o Estado terá uma administração mais eficiente e a empresa uma produção mais eficiente. prepare-se para a aUla Embora não seja pouco comum o recurso ao conceito de modernidade para explicar ou mesmo adjetivar certas situações ou fenômenos. de um conceito profundamente ideologizado. GIDDEns. Cornelius. manifestando a implicação política da modernidade.32 De um ponto de vista do senso comum. sem embargo de certos elementos de análise que são comuns ao tema. falar de modernidade é falar também Cf. ainda não existem consensos sólidos quanto ao significado da palavra. por exemplo. A Revolução Industrial rompe com a base produtiva do feudalismo e institui uma nova relação entre produção e comércio. Trata-se. CasTORIaDIs. sergio paulo. De um ponto de vista mais acadêmico. 32 FGV DIREITO RIO 53 . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. evidenciam que a modernidade surge de uma profunda vocação para a ruptura e a mudança. As Consequências da Modernidade. 2001. 1990. é sempre contada pelos vencedores. 1997. Rio de Janeiro: paz e Terra. É assim. para uma instigante visão psicanalítica da modernidade cf. Pela Mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. a historiografia costuma apontar alguns acontecimentos históricos considerados como verdadeiras balizas. modernidade e ideologia CientiFiCista NOTA AO ALUNO tema da aUla Delimitações para a modernidade. Buscando marcos para delimitar o período moderno. 1993. O Discurso Filosófico da Modernidade. Os fatos mais citados são a Reforma Protestante.

O primeiro América e a invenção do telescópio. Se o um mundo não é mais visto visto como um cosmo fechado. e na humanismo do ser humano. Na verdade. A Revolução Industrial rompe com a base produtiva do feudalismo e institui uma nova relação entre produção e comércio. p. da sociedade ocidental a sucederam a partir daí. não radical deslocamento do lugar da verdade. Então. geografia – o homem passa a economia. inclusive. Tudo e. daí. o telescópio é tomado Portanto. Em todas as áreas do conhecimento – economia. agora que. reprecategoria de ciência/tecnologia sentação ou expressão. É na racionalidade que reside o o poder “esclarecido”. mas como inclusive em cadaentão o centro Em todas as áreas do em qualquer lugar. Evidentemente. uma vez de todas as amarras obscurantistas. saindo da condição de “estar sujeito a” Na verdade. já havia negado o geocentrismo. pode estar pode um cosmo fechado.ARENDT. voltemoslíticos conceitos telescópio. que. a invenção dodos objetos. inclusive. Entre o sonho de Coterreno sem de Galileu.ao analisar a era moderna. Entrematemática. Tudo isso é possível porque o homem se destaca não apenas isso é possível porque o homem se destaca não apenas como ser animal mas. agora otimismoda sob a formaCopérnico violento eulinhas básicas de suas teorias se sustentavamdesnudadocultural próprio um modernidade. por queNovodureza no imaginando buscou rocentrismo que buscou subjugar oviolento eurocentrismo que desnudado sob a forma de um tanta Mundo tratamento com Galileu poder reconstruir (heliocentrismo x geocentrismo) já não os mesmos se o que ele afirmava o paraíso terreno sem cometer subjugar o Novo Mundo imaginando poder reconstruir o paraíso era assim tão original ?erros jácoube a ele não apenas falar. é na compreender melhor a questão. paulatinamente. muitas vidas se perderam praticados no Velho uma linguagem o sonho portanto humanidade. a verdade saiu da revelação e foi para a razão. substituídas por ao quantificar. um universo infinito. muitas vidas Mundo. Hannah. “negligenciando as qualidades intrínsecas telescópio. conhecimento –inclusive em cada indivíduo. ser traduzidas. as quais podem. Rio de Janeiro: euforia Universitária. Pratica a ação pratica a ação. economia e política. houve um quantidades. A Condição Humana. falar de modernidade é falar também e a um só tempo de teologia. artes. como ser animal mas. paulatinamente. Evidentemente.poder do sujeito que. indivíduo. anteriormente. que deixou de ser a religião para se instalar grande metáfora do do seu desenvolvimento por Galileu Galilei e de todas as isoladamente. O Primado da crítica freudiana ao paradigma moderno. da qual ele é o próprio responsável. então o centro como estar em qualquer lugar. A Revolução Francesa rompe com a estrutura estamental do Ancien Régime e institui uma nova EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE relação entre Estado e sociedade civil. O outro colonização/invasão. para o qual conhecer modernidade. No entanto. pode se libertar de todas uma vez obscurantistas. se trata é invenção do a partir Evidentemente. p. Rio de Janeiro: Forense Universitária. em teoria. para situar-se na condição de “ser sujeito de”. medicina. Hannah Arendt75. geografia – o homem passa a ser reconhecido ser reconhecido como um protagonista que vai. Dessa transformações que se partir do século XVII: a ciência. Afetividade: a “A ilustração é a saída do homem de sua menoridade. Para partir do conceitos teológicos. manifestando a implicação econômica da modernidade. se a idéia de como a grande metáfora do pensamento que realmente revolucionou a tessitura de está ligada às ligada às novas compreensões modernidade está ontológica da sociedade ocidental a em torno de século XVII: a ciência. com fato apontado pudessem invenção empiricamente suas teorias. 260. 260. categoria de ciência/tecnologia Tribunais do Santo políticos e econômicos. é na cientista sofreu duro processo inquisitório por parte dos que ela encontra seu Ofício. saindo da condicomo um protagonista que ção de “estar sujeito a”vai. manifestando a implicação teológica da modernidade.e Deus. como conceitos que lhe são fundamentais. Pratica a ação porque controla a ação. que reside É na racionalidade sobretudo. para situar-se na condição de “ser sujeito de”. maneira. O homem é o próprio culpado dessa menoridade quando aREnDT. Carlos Alberto. sucessivas humanismo renascentista produziu uma nova crença na 111 século XVI. economia e política. aponta aponta outros fatos fatos que considera determinantes: descoberta da dois que considera determinantes: a a desoutros dois coberta da América e a invenção do telescópio. os naturais. é sim o maior genocídio da humanidade. e a um só tempo de teologia. a ciência passou a combinar suas teorias através do Telescópio. Hannah Arendt33 ao analisar a era moderna. se a idéia de modernidaPortanto.PLASTINO. fundamentosucederam a eventualmente. controla os fenômenos sociais e. 33 FGV DIREITO RIO 54 . Dito de outra maneira. a demonstrar do telescópio. medicina. A Condição Humana. A partircometer os mesmos erros já no quetalvez lombo e a realidade da colonização/invasão. não se trata daoinvençãodeve telescópio isoladamente. No entanto. Trata-se do próprio credo Iluminista. controla os fenômenos sociais porque controla a ação. sobretudo a partir do do século XVI. mais alto padrão de definição. É importante frisar este novo Arendt. manifestando a implicação política da modernidade. . da se perderam no que talvez tenha sido o ícone maior e principal fundamentoO outro fato fundamento epistemológico matematizado. em teoria. artes. Trata-se as amarras do sujeito pode se libertar “esclarecido”. representação ou às sucessivas rupturas que foram se produzindo. como ser racional. aquele otimismo cultural próprio da encarna. sobretudo a partir expressão. 1995. como ser racional. importânciaonde o centralidaderenascentista produziuSeuma próprio mundo não é mais o nova crença na importância e na centralidade do ser humano. O primeiro moencarna. como conceitos que lhe são fundamentais. sobretudo. Dessa maneira. Hannah. Portanto. A menoridade é a incapacidade de fazer uso do entendimento sem a 112 condução de um outro.” o telescópioda tomado como telescópio ções que se da modernidade. do ser associado apontado por Hannah Arendt. os naturais. política. tão bem exposto por Kant: 76 . de Colomboee a realidade da experimentos que por Hannah tenha sido o maior genocídio daexata quantificadora. É sabido que este a de Galileu e ao teológicos. Evidentemente. ponovas compreensões em torno e econômicos. trata-se do próprio conceito trata-se do próprio conceito de sujeito que é reinventado para designar aquele que de sujeito que é reinventado para designar aquele que pratica a ação. toda essa euforia epistemológica só foi possível graças possível graças às onde o rupturas que foram se produzindo. mas também provar Porque praticados no Velho Mundo. 1995. é sim o ícone maior e principal mas do seu desenvolvimento por Galileu Galilei e 76 todas as grandes transformade Com efeito. aquele na defesa astronomia de de da dernidade. mas comoprópriouniverso infinito. . política. que ela encontra seu mais alto 75 toda essa Forense epistemológica só foi padrão de definição. mas pensamento que realmente revolucionou a tessitura ontológica grandes na ciência.

tornando o sujeito livre e capaz. Ocapitalismo e comunismo. 80 .” os bens e as luminoso poder da modernista: a passa a ser entendido como aquele que pode Com o retrato razão. 34 35 relações humanas. p. Alain Touraine explica como a razão Vol. e as ciências observam. fazendo da racionalização o pp. 114 tornou-se a viga mestra de toda a atividade moderna. TOURaInE. comandando também descobrir a ordem das coisas. controlando as ações realização fazendo com que os fenômenos so.79 Trata-se de uma concepção de bem estar que irá perpassar toda a modernidade. Para a garantia da humanas e desta promessa. Se num primeiro momento foi caracterizado pelo seu poder revolumetaforizada segundo de livre pensamento o comunismo pretendeu a cionário. buscando a homensmais ampla de uma séculos são dominados pelos legistas. estando presente desde as atividades científicas ou técnicas até os modos 78 . É a grande aspiração da autonomia que parece indivíduos: sujeito autônomo é capaz de80 Sem recair mesmo e conduzir sua realizar-se. Ob. 2. através de um crescente e sofisticado processo de industrialização e juridicização. comandando também a forma de KanT. produção da cultura. uma arquitetura baseada sobre 1994. neste na idéiamomento oiniciativa. 83-84.de produção 79 . mas é o próprio fundamento da sociedade a atividade moderna. especialmente os séculos XIX e XX. fazendo da racionalização o moderna. filósofos.Modernidade. a modernidade começa a alicerçar as fundações de uma realização de liberdade. Sapere aude! ‘Tenha coragem de usar seu mediação dos conflitos. A razão possibilitaa cálculo e o discerni. mas é o próprio fundamento da sociedade moderna. Trata-se felicidade seria uma conseqüência inevitável da liberdade e da ordem social. Conservar é garantir a ordem.. Numa ponta (econômica). difundindo-se por toda a vida social. petrópolis: Vozes.TOURAINE. os dois sistemas ciais-históricos sejam analisados como fenômenos naturais. crítica das tradições. das proibições e dos privilégios.esteve sociedade de indivíduos livres e iguais perante o lei. Com efeito. reservando as expressões “liberalismo” e “socialismo” para uma designação de racional. mas na falta de resolução e coragem império da lei. ordenam para a forma de administrar 35 sociedade racional. em para vontade conforme seus interesses. um conhecer e controlar a realidade mesma. a nova ordem. Forma-se.TOURAINE.ilustração in WEFFORT. Já a de uma espécie de sociedade epistemológica que “naturaliza” a tecimentos. classificam. com custos reduzidos. p. noutra ponta (política). tanto no campo da ciência (cálculo) como identicamente presente nas duas principais ideologias modernas de emancipação dos no campo da moral (discernimento). já no caso do comunismo oas sociedades onde se desenvolveram o espírito e Estado. Quanto à abundância. vamente. capaz linhas gerais. Os Clássicos da Política. exercer direitos e deveres como comunismo se ampararam na mesma promessa de que tanto capitalismo inerentes à sua natureza e posição social. Alain Touraine enfatiza duas ideologias) adotaram distintos instrumentos estratégicos: no caso do capitalismo a dimensão ordenadora da ideologia modernista: caberia ao mercado garantir o sonho de liberdade. abundância e felicidade. Petrópolis: Vozes. administrar os bens e as relações humanas. estando de direito. difusão do livro. Essa fórmula mento. todos idéia do livro. são paulo: Ática.). da moder“Porque mesmo sonho deveria ser garantido pelo as práticas nidade da ordem não é em ordem que das ideologias políticas ou do A metafísicaprocuravam mais pôrapenas a basepôr em movimento: organização econômicas comércio e das regras de câmbio. a ordem social é. onde o direito é apresentado como único instrumento legítimo de para usá-lo sem a condução de um outro.liberdade e da felicidade. uma vez comunista. No. esteve metaforizada na idéia de igualdade universal. mais as capital e o trabalho. antes de mais nada.As expressões “capitalismo” e “comunismo” a idéia mais ampla buscando uma conotação mais buscando são aqui empregadas de uma sociedaeconômica do que política. nidade) imaginou a sociedade como uma ordem. a sociedade é vista como um conjunto de conhecimentos que. garantem um caminho previsível e necessário aos aconeconômico. ao sua causa reside não na falta de entendimento. assim. responder por siem análises quanto às suas respectivas bifurcações internas e subtendências. Alain Touraine FGV DIREITO RIO 55 . ela (a moder. apostando a primeira no livre mercado e a segunda no planejamento dominados pelo homem. Alain. da cultura. apenas. p. Impulsionada por esse otimismo cultural. escritores. as necessidades materiais da população. É a presente desdeque oatividades científicas desempenha então o os modos de Esses razão. O que é a mais acentuadamente política do que econômica.”34 ideologia de bem estar que promete conforto e segurança. Crítica da Modernidade. 1993. Crítica da único princípio de organização da vida pessoal e coletiva: “Às vezes. O capitalismo pretendeu a liberdade nova ordem. 38. Na perspectiva da ordem presente no expressão corrida industrial travada pelas maiores potências capitalista e moderna. 1994. Emanuel. Francisco (Org. 36. já moderno pode ser caracterizadoliberdade por um profundo conservantismo.de toda ideologias políticas ou tornou-se viga mestra cidas. o sujeito produção potencializada pela tecnologia numa A metafísica da ordem não é apenas a base das explica como a razãoeconômicasamais conhe. Alain. é possível afirmar. que ou técnicas até papel principal. Surge a figura do “sujeito de direito”. difundindo-se por toda a vida social. a produção ancorada em técnicas científicas produz em massa para EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE satisfazer. esta tomada comocentro da maior das conquistas modernas. abundância e felicidade. criação de uma administração pública e do Estado mais conhecidas. 36. uma próprio entendimento’ – esse é o lema da ilustração. alain. Cit. Novamente. os indivíduos se crêem livres por estarem submetidos.(ou as abundância.

“verdade do processo” ou “verdade do intérprete”. pp. (Capítulo 1. Leve em consideração a importância da leis”. 14. Georg W. Georg W. ainda dizer que tudo que ele diz é mentira. Escritos de Filosofia II: ética e cultura. p. às vezes ela fez da razão um instrumento ao serviço dos interesses e do prazer dos indivíduos. É possível falar-se em verdade ou seriam verdades? Como epistemologia positivista no âmbito da modernidade. são paulo: loyola. suas normas – genéricas ou concretas – devem ser justificadas. TOURAINE.”36 Entretanto. sobre e tem pleno sentido gramatical: nal. já que somente a razão é capaz de consubstanciar-se na história. (Primeira DESCOBERTA . Hannah. Richard L. lidar com os problemas de insegurança jurídica? Aqui. verdadeiro e justo se imbricam no campo ético. Mas podemos dar uma do que não é auto-referente sua famosa afirmação: “o que é racional é real e o que é real é racioversãoDireito.Para uma boaParteKIRKHAM. – A Modernidade Triunfante: Capítulo 1 – As Luzes da Razão. e às vezes. como o A SENTENÇA ANTERIOR É VERDADEIRA “eterno que é presente. síntese cf. ocorre que. o fato é ordem historicamente dos resultados a que 1 e o direito? E O DIREITO? Como o problema da verdade se relaciona com o Direito? A todo tempo somos confrontados com expressões do tipo: “verdade dos fatos”. Henrique de lima. A Condição Humana. bibliOGrafia Obrigatória CONTEXTO 1 DA chega-se à decisão. pois o fato de alguém ser mentiroso não quer da lógica. Pode-se desqualificar prefácio do livro Princípios da Filosofia paradoxo dizendo-se ser ele sem sentido e autoreferenciado. Rio de Janeiro: Forense Universitária. então ela é verdadeira. “verdade das Prepare-se para o debate estudando as formas possíveis de associação entre direito e ordem. Cit. PLASTINO. 18. então o que lê diz “é falso”. No direito não basta a verdade pura e simples. mas limites ontológicos e lógicos com os quais devemos conviver. 36 HEGEl. Teorias da Verdade.quando nos é falsa. e um certo logicismo passou a predominar na visão de mundo moderna que. toda ordem existente na sociedade só pode ser A SENTENÇA SEGUINTE É FALSA racional. se chegue. VaZ.) Formas pelas quais complementar 20 ARENDT. o cálculo. não há apenas várias correntes ou definições. Princípios da Filosofia do Direito. Carlos. Mas o problema aponta para o paradoxo real que é um dos que melhor nos oferece uma boa compreensão do racionalismo típico da pode ser apresentado pela frase: Esta sentença é falsa. alain. 13. lisboa: Guimarães Editores. finalmente. 38 FGV DIREITO RIO 56 . Cit. Crítica da Modernidade. a lógica da ordem transformou-se em ordem da lógica. F. por outro lado reencantou o mundo com um tipo de “sagrado profano” produzido pelas mãos salvadoras do homem. Rio de Janeiro: Relume Dumará. Ob. 1995. então o que lê diz “é Essa espécie de divinização do homem é. se o que ele diz é falso. Ob.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE que mesmo em relação à verdade. para libertar uma ‘natureza humana’ que havia esmagado a autoridade religiosa. 37 HEGEl. Alain. O justo está para o campo cultural como o verdadeiro está para o campo natural. Independente irresistível. 183-184.. 1993. 1994. sentido moral ou ético. na verdade. Se a sentença é falsa. não há paradoxo. deve-se apresentar aos alunos as categorias trabalhadas por autores como Jerzy Wróblewski e Manuel Atienza: contexto da descoberta e contexto da justificação. então eladebruçamos. Por isso. mas se for verdadeira. p.. São Leopoldo: Unisinos. TOURaInE.”37 Nessa esteira de pensamento. no este modernidade. certamente. Como fenômeno da cultura o direito importa valores.”38 Eis que a razão se apresenta como consumadora de uma Estamos diante de uma inconsistência lógica que vem sendo discutida e enfrentada há muito tempo pela filosofia. na verdade. F. a despeito da sensação de insegurança que possa gerar em nós. que foi adotada como fundamento da ordem Claro que. 2003. muito rapidamente. Contudo. para uma boa análise cf. 2001. Hegel. Petrópolis: Vozes. ela a utilizou como uma arma crítica contra todos os poderes. um tributo à deusa razão verdadeiro”. p. 1990. O Primado da Afetividade. se por um lado desencantou a sociedade do sagrado divino e da mão salvadora de Deus. A Psicanálise e a Questão do Paradigma). No direito.

e para uma melhor compreensão da idéia de ciência do direito – que se liga ao conceito de positivismo – o melhor é refazer os passos percorridos na definição do positivismo. uma dicotomia inicial que é o cerne da abordagem positivista: a diferença entre um direito real e Cf. são paulo: martins Fontes. se enquadra exatamente nesse esquema. diante das ambigüidades do positivismo jurídico. por ser reducionista. p. Não que esteja errada tal concepção. Caracteriza-se.positivismo jurídico é a doutrina do direito que afirma a realidade jurídica em detrimento do transcendente absoluto. logo pensam em “aplicação exata da lei”. que tendem a confundir positivismo jurídico com legalismo. os positiVismos JUrÍdiCos e a CiÊnCia do direito NOTA AO ALUNO tema da aUla A influência do positivismo na ciência moderna do direito. inclusive em alguns países orientais. Está baseado essencialmente nas normas legisladas. resulta de um vício intelectual de muitos juristas do sistema romano-germânico. (Org. o direito ocidental estrutura-se na forma de duas grandes famílias. sheldon. aqui. 1999. Donde muitos ao ouvirem a palavra positivismo. O primeiro se desenvolveu na Europa continental e hoje está presente na maior parte do mundo. ou sistemas jurídicos: 1) o Sistema Romano-Germânico ou Civil Law. 104. no campo do direito. René. Para entender melhor: como é sabido. a expressão positivismo jurídico também é sujeita a ambigüidades. prepare-se para as aUlas A ciência do direito. DaVID. contudo. 1996. tendo tomado impulso maior através da técnica da codificação. uma das ambigüidades do positivismo. Assim. conforme as premissas positivistas.) Dicionário Enciclopédico de Teoria e de Sociologia da Direito. 39 FGV DIREITO RIO 57 . como o Japão. O segundo desenvolveu-se na Inglaterra e está presente em boa parte dos países de língua inglesa. já que o próprio positivismo jurídico pode assim ser definido. ObjetivOs das aUlas Apresentar as diferentes formas pelas quais o positivismo se apresenta no direito e na idéia de “ciência do direito”.39 Como foi dito. Common Law. A primeira delas resulta da sua contextualização no sistema jurídico. Da mesma forma que o termo positivismo enseja confusões semânticas. ela não explica corretamente o conceito e os avatares do positivismo jurídico. Com efeito. e o 2) Sistema da Common Law. se positivismo é a doutrina que afirma o real em detrimento do transcendente absoluto. lEaDER. Os Grandes Sistemas do Direito Contemporâneo.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE aUlas 12 e 13. Está baseado nas decisões judiciais ou no reconhecimento das cortes de justiça dado aos costumes e princípios praticados na sociedade. In aRnaUD. andré-Jean. Rio de Janeiro: Renovar.

607. foi a seguinte: o objeto de estudo da ciência do direito é o fenômeno jurídico. portanto. TROpER. Na tradição jurídica. objeto da ciência jurídica. superior ao direito real. andré-Jean. Este direito ideal é assim considerado num sentido moral. Apesar de vaga. de uma doutrina antitética ao direito natural ou jusnaturalismo. O que está em questão é a própria concepção do jurídico que deve conformar o campo do cientista do direito. uma clara e sólida perspectiva do positivismo jurídico: trata-se. Essa busca pelo jurídico como objeto da ciência do direito rendeu muita polêmica entre os próprios positivistas. pp. alegando que cada uma delas entendeu de uma forma determinada o fenômeno jurídico como objeto positivo de estudo. sem examinar se o primeiro corresponde ou não ao segundo e. o jurídico deve ligar-se às normas do direito. ou seja. Antes de qualquer coisa. tornando-o autônomo em relação ao filósofo. p. 1995. 1998. O Positivismo Jurídico: lições de filosofia do direito. todos os positivismos jurídicos43 convergem para o entendimento de que o fenômeno jurídico corresponde ao direito vigente e aplicável. a resposta se mantém firme na idéia de que a realidade jurídica deve ser uma exterioridade observável. que nem sempre concordaram quanto à sua delimitação exata. A única resposta capaz de pacificar os ânimos e manter coerência doutrinária. O positivismo jurídico.). ao sociólogo etc. determinado no tempo e no espaço. António Manuel Hespanha fala em “várias escolas positivistas”. Determinado que a realidade jurídica corresponde a uma exterioridade observável que deve ser objetivamente constatada. 40 Cf. independentemente de influências externas. Evidentemente. 1999. exatamente. 43 FGV DIREITO RIO 58 . um fenômeno. sem fazer depender a validade do direito real da sua correspondência com o direito ideal. fenômeno jurídico. como doutrina cientificista acerca do direito – ou a ciência do direito como manifestação metodológica do positivismo jurídico – reúne as seguintes premissas básicas: a) recusa a toda forma de subjetivismo ou moralidade. Esse objeto deve ser isolado dos demais aspectos da realidade social e estudado profundamente para que possam ser conhecidas suas características intrínsecas. 7-50. portugal [s. por isso. no caso. 174. o juspositivista estuda tal direito real sem se perguntar se além deste existe também um direito ideal (como aquele natural).41 Na definição proposta para positivismo jurídico – doutrina do direito que afirma a realidade jurídica em detrimento do transcendente absoluto – destacam-se. sendo considerado pelos positivistas como questão filosófica. antónio manuel.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE um direito ideal: “O direito.”40 Nestes termos. p. Positivismo. assim. Panorama Histórico da Cultura Jurídica Européia. a realidade jurídica corresponde ao “direito real”. Henri. In aRnaUD. não podendo ser objeto do trabalho dos juristas “científicos”. Rio de Janeiro: Renovar. de tal maneira que revele uma lógica inerente ao direito que possa ser convertida pelo cientista em enunciados e prognósticos que conformem uma técnica jurídica aplicável pela prática do direito. Cit. enquanto o transcendente absoluto corresponde ao “direito ideal”. pois.]: publicações Europa-américa. ao economista.42 De qualquer maneira. p. Ob. seu funcionamento e sua aplicação. os termos dicotômicos: realidade jurídica como direito real versus transcendente absoluto como direito ideal. é aquele que efetivamente se manifesta na realidade histórico-social. 42 Cf. 136.l. michel. 41 HEspanHa. (Org. pois a sua explicação precisa também define o objeto de estudo da ciência do direito. antes de mais nada.. Temos. BaTIFFOl. BOBBIO. esta realidade ou exterioridade. Dicionário Enciclopédico de Teoria e de Sociologia da Direito. sobretudo. este direito eticamente superior é reconhecido como o direito natural. resta saber qual é. são paulo: Ícone. norberto. como um direito perfeito e. o positivismo jurídico é empirista e antimetafísico.

conhecido como Código de Napoleão. mais mesmo passo. possível de ser apl 102 103 44 45 46 No início do século XIX. Direito. ao direito positivo. basicamente. Embora bem distintas entre si – basta imaginar como. ao afirmar queo “escola histó. Bobbio reconhece uma espécie fenomênico. todavia. o conceito de direito. de abrangência. todas esta correntes se sustentam sobre os dois princípios básicos e fundantes do positivismo jurídico: força e forma. Mas o que conforma o direito positivo? Historicamente. sob a liderança de Savigny. coerente e sem lacunas. o fenômeno jurídico. em alemão. mesmo que dura a lei deve ser aplicada. O PositivisBOBBIO. éuma forma de positivismo. entrou em vigor o novo Código e não há direito fora da lei. todos os teóricos do positivismo jurídico se ajustam a estas premissas. maneira mecânica. isto é.seu caráter positivista. Todavia. o por Savigny povo” das situações de filosofia do o rótulo de “código jurídico”. todos os positivismos jurídicos concordam que o fenômeno jurídico corresponde ao direito positivo. entrou em vigor o “.. ao que seja uma forma No início do século XIX.44 Destarte.. todavia. volksgeist. basicamente. Comoconsiderada paradigma como o “espírito do mo Jurídico: liçõesjuridicamente relevantes na s direito. algumas com maior outras com menor projeção. Em outras palavras. 175. regular de maneira absoluta a to aspecto fenomênico.. Bobbio reconhece No início do . do século XIX. ou. a primeira [escola h uma jurídico. sob a liderança de são a mesma natural. considerada por Savigny como o “espírito d de vinculação quanto ao seu caráter positivista. é a tradição. p. mesma coisa” . consubstanciado. dir competente que o elaborou e promulgou.”46 “escola histórica e positivismo jurídico não França em 1804. basicamente. Há aqueles que chegam quanto ao que seja ciado. França em 1804. o historicismo jurídico. ao seu natural. como Norberto Bobbio. 45. Como afirmado. consubstanciado. são paulo: Ícone. Há aqueles que chegam a negar ou. mais precisam o segundo [positivismo jurídico] através afirmar queradical do direito natural. Isto gerou no legal desta forma de positivismo foi o Código de Napoleão. quer espontaneamente das correntes positivistas citadas. no mesmo passo. na França Este fato expressão dura lex. A básica do básica é a lei manifestada sobtambém corresponde pretendeunorberto. quatro correntes podem ser apontadas como as mais importantes: legalismo. sed lex. como Norberto Bo afirmar que sem primeira mais polêmica quanto ao seu caráter positivista. ao mesmo tempo em que aceitam que o fenômeno jurídico corresponde ao direito vigente. “escola histórica e positivismo jurídico não A dúvida a das correntes positivistas citadas.contudo. conforme a vontade exata do legislador que foi a au FGV DIREITO RIO 59 Escola de Napoleão. na Escola Hist pela coletividade. o paradigma des direito antónio manuel. que o legalismo jurídico.jurídico] através de sua crítica radical d preparou segundo [positivismo Direito. o direito é um constrangimento que se impõe a indivíduos e grupos. historicismo. é a tradição. Este fato históripreparou o segundo [positivismo jurídico] através de sua crítica radical dojurídico”. corresponde a uma ameaça ou imposição real de uma força que se apresenta sob determinada forma. por isso.. Além disso. sendo aceito na medida em que se expressa dentro de A primeira formas. A su uma espécie de vinculação entre ambos: novo Código básica é a lei manifestada sob o rótulo de Civil. HEspanHa. pois se enquadram naquela definição geral onde se destacam dois critérios: 1) afirmação da realidade jurídica como fenômeno jurídico. seria a diferença entre a sentença prolatada por um juiz sociologista e aquela outra por um juiz legalista. entrou em vigor o novo são a de sua crítica Civil. resultante da observação do fenômeno jurídico. expectativa de um sistema jurídico c pretendeu regular de maneira absoluta a totalidade das situIdem. conhecido como Código de Napoleão. consubstan. todavia.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE b) cultivo de métodos objetivos e verificáveis. Assim. rituais ou procedimentos socialmente estabelecidos. positivismo foi o Código de Napole 103 de Cit.contudo. Em outras palavras. 1995.deprimeira [escola histórica] preparou a positivismo. co foi o marco para o surgimento da nova corrente positivista: Ob.. mais precisamente na para o legalismo jurídico. é sem dúvida abásicano polêmica coisa” A forma mais aspecto mesmo passo. d) produção de um corpo próprio de enunciados técnicos para aplicação específica em situações pertinentes. foram várias as correntes positivistas que se formaram a partir de concepções específicas acerca da idéia de direito e fenômeno jurídico. 2) negação do direito natural como transcendência metafísica. Civil. é sem dúvida a mais p A primeira das correntes positivistas citadas.não é consenso. o hist jurídico. em alemão.” 45.” A forma sua forma historicismo jurídico.contudo. como Norberto Bobbio. Porém. que também corresponde rica e positivismo jurídico não Savigny. entre ambos: “. Bobbio re o historicismo Há aqueles que chegam a negar que seja uma forma de posi-entre ambos: “. A principal forma de consubstanciação do legalis .. o direito (positivista) visto na sua maneira pura de manifestação. a primeira [escola histórica] corrente positivista: o legalismo jurídico. afirmado. do historicismo jurídico. na Escola Histórica do Direito. volksgeist. c) exclusão de considerações valorativas de caráter político ou ético. sob a liderança de Savigny. E 102 mesma coisa” século XIX. por exemplo – todas essas correntes são positivistas. quer artificialmente pelo Estado. no precihistórico foi o marco para o surgimento samente na França em 1804. espécie de vinculação na Escola Histórica do tivismo. mesmo em casos semelhantes. sociologismo e normativismo. que p.. conhecido como Código da Exegese.

como disposta nos códigos. sociologismo o normativismo o ciência. A norma fundador e representante críticas. reivindicam caso si. cabendo à direito subjetivo. sociedade. a forma básica do direito é a norma. espontaneamente. gerando mundo dos fatos. da autoridade como positivismo Esse vai o para de Essas quatro formas de competente e foi desde a Constituição uma a seurepresentante maior de uma dasnorma fundador e modo. típicos porque o historicismo aqui descrito. determinado no próprio ordenamento jurídico. Apesar de todas serem hierarquicamente superiores positivistas. que não se reduz à lei. No primeiro caso – legalismo e normativismo – e costumes buscarem o fundamento de validade do direito na idéia de vigência. 47 efetividade ou eficácia social. cada uma seu entre elas. Já em termos de flexibilidade. O sociologismo jurídico enfrentou fortes críticas. jurídico. o histori. Enquanto para os direito alemão. importanteao afirmar no seu primeiros os principal destas diferenças resida no fato do legalismosegun. vão sendoinvestigação socioTransportada para o mundo jurídico.EHRlICH. Brasília: EdUnb. acreditando tejurídica rem elaborado umaconcreto. existem significativas diferenças temos uma mudança nos pares. As normas são capaz de desde aplicável ao do positivismo jurídico:direito válidas forneinfluentes caso teoria científica do o normativismo. para os a e do modo. gerandocostume que brota diretamente do seio social. necessariamente. o Essas quatroordenamentopositivismo reivindicam historicismo e o uma síntese. Talvez a principalsuas prescrições. juridicamente relevantes. a forma básica do direito com outras normas das situações juridicamente relevantes. no corresponde fatos. previsões caso de descumprimento de suas prescrições. é válida a que promulgadas pela autoridade competente conforme determinado no pró. a convicção de ser procuradocomo devem ser. Talvez a principal válida diferenças resida no fato do legalismo e do tradiçõesnormativismo da sociedade. aparece na obra de Eugen Ehrde garantia da ordem social. sistemas jurídicos romano-germânico evigor conforme na jurisprudência ou na aplicaválida a norma jurídica desde e prognósticos acerca do conjunto das situações de de positivismo com os previsões que tenha entrado em da common law: ção do direito. como um fenôO sociologismodaqueles que identificavam o direito especialmente num determinado momento histórico. nossa época. Apesar deou formalista e no segundono sentido aqui descrito. Kelsen. Apesar de todas serem positivistas. necessariamente. que não se reduz corrente. o direito corresponde às práticas sociais que se formam necessidade jurídica. nodisposta aqui Em síntese. pois traduzem nos casos concretos o todos os tempos. válidas desde que do direito é a no autoridade se reduz em concordância com outras normas hierarquicamente superiores do ordenamento à lei. norma jurídica é ato de do lei. influentes do positivismo jurídico: o normativismo. como dever oulei refletir tais práticas. A principal forma de consubstanciação do legalismo foi a Escola da Exegese. daqueles que identificavam o direito como jurídica aplicável Para esta ção até as sentenças judiciais que configuram norma o um fenômenoao caso concreto. e A enquadrarem na à ordenamento jurídico. 7. ou seja. Para esta cer enunciados. na medida em que estes dizem respeito às normativo. Esse corrente. epistemologia mais idealista todas serem positivistas. No primeiro caso – legalismo e normativismo – podemos falar numa tação do sociologismo jurídico juridicamente relevantes. jurídica aplicável ao caso concreto. realista ou o historicismo e o . cada Em a seu modo.resida no fato norma Constituição até as sentenças diferenças como forma do legalismo e do normativismo buscarem o fundamento de de garantia da ordem social. como disposta nos códigos.47 Para o sociologismo juríindivíduos a convicção de que tal prática corresponde a uma dico. As normas são válidas desde validade do direito na idéia de vigência. a uma indivíduos elas passível que tal prática mundo dos coisas como não são e não. vão sendo mais praticadas meno normativo. Para estafoi o caso de Kelsen. o judiciais que configuram formas mais cada até as sentenças estatuto de ciência. é masfornecer enunciados. Eugen. e se buscam o fundamento obsessão cientificista. 1986. Talvez alegisladoresde positivismode destaque napara jurídica. é válida a norma jurídica quando conforme as tradições e costumes de fornecer enunciados. é destas a norma jurídica quando conforme as entre elas. se o normativismo identifica o direito a partir davontade da autoridade estatal –significativas diferençasdesde a estrutura lógica do dever ser sollen – que vai mesma obsessão cientificista.for.estatal devem ser. como em Essas quatro formas bém em dos são os juizes que desempenham esse papel. sociólogo do e se enquadrarem nanuma epistemologia cientificista. vontade necessariamente. como sentido nos descrito. Fundamentos da Sociologia do sociologismo enquadrarem na mesma de validade do mesmo direito na idéia de Direito. especialmente jurídico enfrentou fortes críticas.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE ações juridicamente relevantes na sua área de abrangência. na medida em que estes dizem respeito às coisas como éelas são e não. o fundamental normativismo buscarem o fundamento de validade do direito na idéiacientífica do direito no desenvolvimento do direito estatuto de ciência. num determinado momento histórico. no sentido e o cismo e o sociologismo são mais afeitos ao segundo. necessidade de Kelsen. previsões e prognósticos acerca do conjunto que promulgadas pela autoridade competente em concordância é a norma. ou RIO 60 FGV DIREITO podemosseja. existem significativas diferenças lich. é válida a norma mais idealista ou formalista e no segundo vigor – falar numa epistemologia jurídica desde que tenha entrado em caso conforme historicismo e sociologismo – numa epistemologia maisIsso porque materialista.normas norma jurídica desde que tenha entrado em vigor em concordância com outras prio formas de jurídico. como forma determinadas sanções no e prognósticos acerca do conjunto das situações Uma interessante manifesda sociedade. a mais praticadas lógica identifica direito forma do fato ou para os e toleradas num certoo espaçonaterritorial. uma das formas mais O sociologismo jurídico enfrentou fortes maior de especialmente jurídica é ato de vontade da autoridade estatal competente e vai desde a Constituiinfluentes do positivismo jurídico: normativismo. fundador e representante maior de uma das formas não. ou seja.não está no ato de legislar nem seja.sociedade. existem competente e impõe entre descumprimento de destas judiciais que configuram determinadas sanções no caso de elas. que não normativo.” determinado no próprio ordenamento jurídico. portanto. As normas são nãoforma básicaser procuradopelamundo dos competente corrente. códigos. como dever respeito às coisas como elas são e mais medida em que estes dizem ou direito subjetivo. Issodo ordenamento si. acreditando terem elaborado uma teoria dever ser – sollencapaz estatuto defundamento de validade do mesmo direito na idéiacientífica do direitoeficácia impõe identifica o direito a partir da estrutura lógica do de efetividade ou – que social. na França do século XIX. ou seja. buscam hierarquicamente superiores porque o para jurídico.prefácio deo livro que “tamocupam papel reivindicam cena si. a passível de promulgadas norma. como devem ser. portanto. Esse aspecto coincide com a vinculação dessas ou capaz direito que emerge daacreditando terem elaborado uma teoria de vigência. pois enquanto o historicismo e o legalismo tendem p. caso – historicismo e sociologismo – mesma obsessão mais realista ou materialista. A norma jurídica ato de fatos. portanto. mas na própria enquanto o legalismo e o normativismo são Isso do primeiro sistema. não passível de ser procurado no daquelese que identificavam o direito como um fenômeno para os toleradas num certo espaço territorial. naEsse foi o casojurídica.

Já no caso do legalismo. Lisboa: Editorial Notícias.mas divergem quanto à explicação em torno do que seja. (Primeira Parte – Epistemologia e Direito).]. Portugal: Publicações Europa-América. Michel.2. A dinamicidade do normativismo se explica pela liberdade da vontade do legislador que pode a todo momento modificar as normas jurídicas. Panorama Histórico da Cultura Jurídica Européia. a questão da “ciência do direito” foi enfrentada durante os séculos XIX e XX sob a influência maior do positivismo e. Introdução Crítica ao Direito. que são sempre promulgados como obras acabadas e completas para terem longa estabilidade. exatamente. Henri. isto é. O Direito na Época Contemporânea – Seção 8. Lisboa: Editorial Estampa. O conservadorismo do historicismo se explica pelo fato das tradições serem sempre muito arraigadas na cultura dos povos.3. (Capítulo 8. além de serem reconhecidos os diversos níveis hierárquicos do Estado competentes para legislar. o fenômeno jurídico. de maior grau de flexibilidade. As Escolas Clássicas do século XIX). Os Positivismos. 1989. Na situação inversa. FGV DIREITO RIO 61 . Com efeito. complementar MIAILLE. António Manuel. (Capítulo I.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE a maior dureza e conservadorismo.3. e Seção 8. essas formas de positivismos jurídicos apresentadas foram as respostas mais veementes já produzidas no âmbito da epistemologia jurídica e da filosofia do direito. resulta da figura dos “códigos”. Positivismo e Cientismo. o sociologismo é sem dúvida o mais dinâmico já que as práticas sociais estão em constante mutação. a forma observável do direito. [s.) HESPANHA. o sociologismo e o normativismo já admitem maior mobilidade no conteúdo das normas jurídicas.d. só mudando após firme e convicta resistência de muitos anos. bibliOGrafia Obrigatória BATIFFOL. 1998. Todas negam o direito natural e afirmam a realidade jurídica como um fenômeno observável. A Filosofia do Direito. por isso mesmo.

e da associação nacional de pós-Graduação e pesquisa em Direitos Humanos. onde leciona na graduação. autor de livros e artigos em revistas especializadas nas temáticas de Filosofi a e Teoria do Direito. professor adjunto e Coordenador da Graduação da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas. membro da associação Brasileira de Ensino do Direito. do Conselho nacional de pesquisa e pós-Graduação em Direito.EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE JosÉ riCardo CUnHa Doutor em Filosofia do Direito pela Universidade Federal de santa Catarina. professor adjunto da Faculdade de Direito UERJ. mestre em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela pUC-Rio e Bacharel em Direito pela UFRJ. FGV DIREITO RIO 62 . mestrado e doutorado. leciona e pesquisa nas áreas de Filosofi a do Direito e Direitos Humanos. Direitos Humanos e Direitos da Criança e do adolescente.

EpIsTEmOlOGIa E mODERnIDaDE FICHA TÉCNICA Fundação Getulio Vargas Carlos Ivan Simonsen Leal PRESIDENTE FGV DIREITO RIO Joaquim Falcão DIRETOR Fernando Penteado VICE-DIRETOR aDmInIsTRaTIVO Luís Fernando Schuartz VICE-DIRETOR aCaDÊmICO Sérgio Guerra VICE-DIRETOR DE pÓs-GRaDUaÇÃO pROFEssOR COORDEnaDOR DO pROGRama DE CapaCITaÇÃO Em pODER JUDICIÁRIO Luiz Roberto Ayoub Ronaldo Lemos COORDEnaDOR DO CEnTRO DE TECnOlOGIa E sOCIEDaDE Evandro Menezes de Carvalho Rogério Barcelos COORDEnaDOR aCaDÊmICO Da GRaDUaÇÃO COORDEnaDOR DE EnsInO Da GRaDUaÇÃO Tânia Rangel COORDEnaDORa DE maTERIal DIDÁTICO COORDEnaDORa DE aTIVIDaDEs COmplEmEnTaREs Ana Maria Barros Vivian Barros Martins COORDEnaDORa DE TRaBalHO DE COnClUsÃO DE CURsO COORDEnaDOREs DO nÚClEO DE pRÁTICas JURÍDICas COORDEnaDORa DE sECRETaRIa DE GRaDUaÇÃO COORDEnaDOR DE FInanÇas COORDEnaDORa DE maRKETInG EsTRaTÉGICO E planEJamEnTO Lígia Fabris e Thiago Bottino do Amaral Wania Torres Diogo Pinheiro Milena Brant FGV DIREITO RIO 63 .

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