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Cora Coralina - textos

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Assim eu vejo a vida

Cora Coralina

A vida tem duas faces: Positiva e negativa O passado foi duro mas deixou o seu legado Saber viver é a grande sabedoria Que eu possa dignificar Minha condição de mulher, Aceitar suas limitações E me fazer pedra de segurança dos valores que vão desmoronando. Nasci em tempos rudes Aceitei contradições lutas e pedras como lições de vida e delas me sirvo Aprendi a viver.

Minga, zóio de prata
Cora Coralina
Eram elas as senhoras-donas, ali no beco do Calabrote. Quem transitasse pelo beco, tivesse cuidado... Passasse quieto e bonzinho. Não se engraçasse nem fizesse cara de pouco. E quem fosse de entrar, empurrasse a porta de dentro, com fala curta e dinheiro pronto. Escândalo de mulher-dama não dava; nunca deu; também, nunca foram levadas, como tantas, para capinar na frente da cadeia. Família de respeito podia passar toda hora, não via nada. Macho, porém, que não se fizesse de besta... Eram donas e autoridade no beco. O beco era delas. E tinham prestígio. Duas irmãs, morando juntas na mesma casa, de porta e janela aberta aos homens que quisessem entrar; isso a Zóio de Prata. Já a Dondoca, tinha seu homem e era pontual a ele só. Também eram conhecidas por As Cômodas, na roda da macheza. Minga era durona. Não tretasse com ela, saindo sem deixar a taxa... Um que tentou a rasteira, ela alcançou já fora do beco e deixou sem as calças no meio da rua.

Zóio de Prata sabe cinco contos. calça engomada. Zóio de Prata assungou a saia. Estava ela na casa da vizinha depenando o frango.. moeu bem moído. ruindade de pingado ordinário. de fala curta. servindo bem no ofício. saltado... Quem apareceu foi a Zóio de Prata. jogou fora o cacete e entrou de corpo.. de cabelo sarará. apanhei dela. Do meu barro primeiro veio o homem. tipo de rua. Dei'stá — disse ela — sai fora e deixa por minha conta. muié praceada. e era vesga do outro. Entrou no quarto e gritou autoritário pela Dondoca. Estava vingada a Dondoca e consolidada a fama das Cômodas. entrou no olho. Espinhenta. No fim. peito masculino. eu sou a vida.. tou descarado. de mamilos duros. mãos grandes. de cara amassada e beiço partido.. Um dia. Tinha entrado na peia do amigo — o Izé da Bina — à-toa. gravata borboleta.. Atirou-se no mulato com vontade e foi porretada de direita e canhota. de paletó preto.. bateu em mim.. veio a fonte. . xingou nomes. Eu sou a fonte original de toda vida. quebrou as carnes.. êta muié sagais. Bateu com sustância. Quebrou as ventas. partiu dois dentes. Sentou em cima e esmurrou à vontade. apanhei dela. desses de ouvindo dizer o Antônio Meiaquarta. Sou a espiga generosa de teu gado e certeza tranqüila ao teu esforço. Sou a telha da coberta de teu lar. de manga arregaçada e porrete na mão.. todo mandante. De mim veio a mulher e veio o amor. sovou com fôlego. Vem o fruto e vem a flor.. abriu as pernas e mijou na cara de Izé da Bina. Dondoca foi fazer o mandado. rei dos bocas-sujas da cidade: eu sei dois contos e quinhentos de nomes indecentes.. braço forte. fungando. Numa boa sobarbada deu com o crioulo no chão. quando chegou o Izé da Bina. A mina constante de teu poço. Depois de ver o cabra mole. deu de cara com a irmã chorando.. Sou o chão que se prende à tua casa... estirado. de bacia estreita. vai depená esse frango pra nóis na casa da vizinha e só entra quando eu chamá. mulatona encorpada. musculosa. Óia. Veio a árvore. Sou a razão de tua vida.Tinha mesmo um bugalho branco. De mim vieste pela mão do Criador. O cântico da terra Cora Coralina Eu sou a terra. voltava ela do mercado com um frango na mão.

O berço pequenino de teu filho. Fartura teremos e donos de sítio felizes seremos. E um dia bem distante a mim tu voltarás. Mascarados Cora Coralina Saiu o Semeador a semear Semeou o dia todo e a noite o apanhou ainda com as mãos cheias de sementes. Só em mim acharás descanso e Paz. Tua filha. Sou a gleba. Ele semeava tranqüilo sem pensar na colheita porque muito tinha colhido do que outros semearam. Eu sou a grande Mãe Universal. tua foice. ó lavrador. Lavremos a gleba. tudo quanto é meu. A ti. Cuidemos do ninho. do gado e da tulha. seja você esse semeador Semeia com otimismo Semeia com idealismo . tua noiva e desposada. Teu arado. A mulher e o ventre que fecundas.e a mim tu voltarás no fim da lida. teu machado. E no canteiro materno de meu seio tranqüilo dormirás. eu sou o amor. a gestação. O algodão de tua veste e o pão de tua casa. Plantemos a roça. Jovem.

antes da rua passar a 13 de Maio e da casa ser fantasiada de platibanda. Dona Placidina era muito prática. não poupava a descalçadeira quando recebia o marido naquele fogo. que o marido engolia careteando e o empurrava para a rede. dessas antigas que pegavam fogo. amigo de todo mundo e companheirão de boas farras. Seu Maia é um santo homem sem esse diabo da pinga. morava Seu Maia. quebrando pratos e panelas e disposto a lhe chegar a peia. embora achasse. se achou pior. O lampião da Rua do Fogo Cora Coralina Ali. E ensinavam remédios. que melhor seria uma boa hora de morte para ela.. Isso. que já vinha se ressentindo do fígado com passamentos e vista escura. ou antes. Os próprios santos se faziam desentendidos dos responsos. janelas virgens da profanação das tintas. naquele velho canto onde a Rua de Joaquim Rodrigues faz um recanteio. Gostava de uma pinguinha em doses dobradas. há muito tempo. Naquele dia. Dona Placidina. como dizia.. responsos. casado com Dona Placidina. abrindo no velho cais do Rio Vermelho.as sementes vivas da Paz e da Justiça. No dia seguinte. . Tiveram mesmo de o levar para a cama e o meter entre as cobertas. Portão do quintal. Então. Ajeitava logo um café amargo. velas acesas e jaculatórias recitadas. acabou botando o coração ao largo. Esta. que o entregavam aos cuidados da mulher. embora com a sina ruim. numa casa de beirais. era nada para ele. nessas e noutras coisas. para o marido. simpatias. Simpatia que dera certo em outros casos. Seu Maia. Serviçal. se misturava vinho. só voltava para casa carregado pelos companheiros.. isto quando não virava valente. acostumada. rezas fortes. cansada daquele marido incorrigível. Seu Maia piorou. Seu Maia era muito conhecido em Goiás e era porteiro da Intendência. como a dose da boa fosse mais pesada. de pernas moles. Boa pessoa. conhaque e aniseta. onde roncava até pela manhã ou se agitava e falava a noite inteira. Remédios? Inofensivos como a água do pote. porta da rua e porta do meio. esta parte no subconsciente. chamaram Seu Foggia que diagnosticou empanchamento e doença do coração. — Coitada de Dona Placidina. De nada valeu a chazada caseira.. no íntimo. misturado com frutinhas de jurubeba torrada. comentavam as amigas. Os amigos o trouxeram para casa mais cedo. Receitou um purgativo e uma poção. arrastando a língua.

Os companheiros tomaram conta do morto. como de costume. benzimentos. Café com biscoito pelas 10 horas. Afinal. o choro mais difícil que existe.. entregue aos cuidados das amigas. com seu ramo de alecrim. tomando posição e começou o velório. Mais tarde. dobrando a lamentação de finados. bem apertado. à força de chás de arruda. ajuntaram-lhe as mãos no peito. todas. as desavenças. Vento da Santa Bárbara é chuva certa no São Miguel. de casca de tomba e de Água Florida de Murray. Nem valeu promessa de muito boa cera ao senhor São Sebastião. sinapismo. com seu carinhoso abraço e formalíssimos “meus pêsames”. Agasalharam ali o defunto. Cuidou-se do pucarinho de água benta.Dona Placidina se desdobrou em cuidados especiais. para o meio da sala. era a falta que tinha. que tinha sido do casamento. Acenderam-se as quatro velas e. Pelas duas horas. Pearam as pernas e passaram um lenção branco. lá consigo. botou-se um caco de telha com brasa e grãos de incenso. Entre a diligência caseira e suspiros puxados. começou a fazer vento de chuva e um trovão surdo se ouviu ao lado da Santa Bárbara. “Bom marido”. antecipadamente. Dona Placidina se debruçou em cima do morto. os pratos quebrados e passou a sentir. Dona Placidina louvava as virtudes conjugais do finado. “não fosse a pinga. a viúva. voltou a si e. Pela . como era decidida e de espírito prático. nada deu jeito. Os amigos foram chegando. que era Direita. Escalda-pés. Faz-se a conferência médica das vizinhas prestativas. levantava a ponta do lençol que cobria o marido e enxugava umas lágrimas hipotéticas. e requentão quando a noite esfriou mais e os galos passaram amiudar. em crises nervosas de choro seco — sem lágrimas. antigamente. Os sinos das igrejas. os amigos resolveram apressar o saimento. Esqueceu o defeito do marido. E enterro debaixo de chuva era a coisa mais estragada que podia acontecer em Goiás. Não queria deixar sair Seu Maia. havia uma exaltação no choro ressecado da viúva. de vez em quando. Era assim que se arrumava defunto em Goiás. As amigas com chazadas de alecrim.. A cada visita que chegava. lastimava e. subiram e entraram no Rosário para encomendação do corpo.” No dia seguinte. Entraram na outra. Seu Maia morreu. Como o caixão teria mesmo de ser carregado na força dos braços. Chegaram mais amigos e mais comadres. Os amigos não arredaram. no queixo. mal escapava de uma vertigem.Vestiram-lhe o fato preto de sarjão. comido na cozinha. caía noutra. botou de parte o abatimento e passou a cuidar do pessoal que fazia sentinela. Passaram a ponte da Lapa. veio o caixão com tampa solta. coitado. Os amigos tomaram conta das alçadas e ganharam a rua.. Calçaram meias. naquele tempo. largo de palhinha. Chamaram um canapé. nos pés do morto. cobriram com um lençol. Levaram o corpo. deitaram o cadáver. antes que o tempo enfarruscado se decidisse em água. os percalços da viuvez. mexido de lombo de porco e ovos fritos com farofa. Dona Placidina..

Sendo de notar que não havia enterro em Goiás sem acompanhamento de música. Com a doença curta. Queriam ver o caixão descer no buraco. Era um tropeço. O dia inda estava claro. Coisa embaraçosa. saliente. Os sineiros sempre tiveram esmero especial para anjinho ou defunto. somente os muito pobrezinhos. quando se trocavam os que iam carregando. Guardaram o caixão inútil na igreja da Abadia e desceram a rua. a molecada da rua.. agora. fraquejou a perna e. em Goiás. mais esclarecidos. ninguém se lembrou do poste. cada amigo mandava dar um sinal nas igrejas. nem tivera tempo de emagrecer. existiu. os moradores corriam para as portas e só se ouvia: . A essa hora. Encontraram Seu Maia de pé. então. Não foram poucos os esbarros. Essas duas palavras. Ia o cortejo subindo e os homens se revezando nas alças. que o mesmo estava vivo e que era preciso voltar com ele para casa. alegres ou soturnos. resolveram voltar e ver de perto o acontecido. falseou o pé. delimitavam as circunstâncias da idade.intenção do morto. Naquele dia. para o descanso do ataúde. Alguns. Na rabeira.. com desânimo o caixão vazio. com a aflição da chuva que vinha perto e com o peso do caixão que era demais. fora de linha. que ia na alça dianteira pela esquerda. de fardão escuro. que a chuva já tinha posto uma carapuça branca no cocuruto do Canta Galo. carregava a tampa que só ia ser colocada na beira da cova. se divertiam com aquilo. tradicionais. Todas as janelas. escorado no poste. com gente assombrada ante aquele caso novo na cidade. Outros levavam os dois tamboretes. sem mais explicações. já de longe. Reconheceram. encontrões verificados ali. puxando mesmo para o meio da rua. o pessoal do enterro tinha se desabalado. Enterros que subiam. o defunto abriu os olhos. Na esquina da Rua do Fogo com a Rua da Abadia.. gritava: — Evém o defunto. Foi quando o compadre Mendanha. gente pecadora. Anjinho era criança mesma ou moça virgem e. De dentro das casas. Iam depressa.. defunto. um popular. bumba! Lá se foi o caixão bater com toda força no lampião. desarrumou as mãos e fez força de levantar o corpo. em doida carreira pela rua abaixo e largado o morto se soltando da laçada das pernas. um poste de lampião antigo. afeito àquele préstimo. que o morto estava pesado. Na frente. cabeçadas. quanto quisesse. que não tinha outra conseqüência senão atrapalhar. começavam a torcer à direita para se desviar do lampião. Ainda que os sinos tocam como a gente quer. A meninada na frente. tocavam um funeral muito triste. amparando o ex-morto. Com a violência do baque. pisou de mau jeito num calhau roliço. durante muito tempo. muito amarelo. Os músicos. com tremuras pelo corpo e olhando. não era hora de assombração.

Apareceram as clássicas e inefáveis comadres. não. Seu Maia chegou afinal. sobre catalepsia ou morte aparente. mais ou menos conformada com aquela segunda via. daquela ressurreição e conseqüente retorno.” E já pelo choque emocional — vá lá que naquele tempo não havia destas coisas não — já pelo medo de novo ataque e de ser mesmo enterrado vivo. pediu para ver a língua. Concluiu. Falou-se da carestia da vida.. complicada e cheia de boa dialética feminina. e quentão forte de canela e gengibre. Muita língua desocupada levantou a suspeita de que vários fulanos e sicranos daquele tempo tivessem sido enterrados vivos e toda a gente ficou se pelando de catalepsia. Dona Placidina.. o certo é que o homem moderou a bebida. por via das dúvidas. vem ver. Louvaram as virtudes do finado. Contaram-se casos. de que “aquilo fora aviso do céu e castigo de Deus. Passaram a anedotas discretas. Este veio. muito parecido com a morte. aceitado a idéia da viuvez e aquela volta inesperada do marido vivo não melhorou de muito os pontos de vista da ex-viúva. A providência tinha sido o lampião do meio da rua. entrou. o doente recuperava a saúde. Fez-se de novo o velório com todas as regrinhas de costume. Amparado pelos amigos.. Foi bem purgado e lhe aplicaram ventosas e sinapismos. Conferiram-se diploma no assunto e discorriam de doutor e com muita prosódia. lenço na cara e muito devagarinho vinha Seu Maia de volta. que tinha sido um ataque de catalepsia. Seu Foggia então declarou que. no seu foro íntimo. A viúva chorou. Deram-se os remédios. Dona Placidina.. ao que ela só teve expressão sintomática: — Seja pelo amor de Deus. auscultou. Bebeu um cordial. mas que não era morte. Café com biscoito pelas dez horas. Maricota. metido naquele sarjão preto. já havia. Alguns meses depois. apalpou. Óia o defunto que evém voltando. desusado. Seu Maia adoecia gravemente. dos erros do governo e se fez a filosofia da morte. Da botica e extrabotica. Viradinho de feijão e lingüiça comidos. Seu Maia foi entrevistado por todos os sensacionalistas da terra — gente insuportável daquele tempo. Examinou. Os letrados foram até o Chernoviz e Langard. muito prática como sempre. Seu Maia morreu. O . num breve necrológio. quando a noite esfriou e os galos amiudaram. calçado só de meias.. Um portador foi na frente avisar Dona Placidina. Enquanto os comentaristas faziam roda. senão teria sido mesmo enterrado vivo. recebendo um abraço de boas-vindas mais ou menos calorosas da mulher. Vieram os amigos da primeira viagem. com voracidade e discrição na cozinha. no entanto. Meteu-se na cama e de novo foram chamar Seu Foggia. A cidade comentou o caso por muito tempo.. só levassem o morto quando começasse a feder. com sabedoria. Nada serviu. Joaninha.— Vem ver. aproveitou o acontecimento para uma pequena homilia doméstica.

compadre. dá uma vara de pescar. Outros pegaram pelos lados. E foi que veio aquela da roça tímida. indagou. A mulher ouviu.compadre Mendanha tomou conta de trocar as velas que iam se consumindo. Perguntou." Pensando bem. renteando o caixão aberto. a banda do funeral. Contou que o fogo. Não vá acontecer como da outra vez. Você faria isso. O compadre Mendanha. aconselhou. especulou. Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar novo rancho e comprar suas pobrezinhas. carregada por um popular e os tamboretes indispensáveis. Da mesma forma aquela sentença: "A quem te pedir um peixe. tomou posição. viu. os amigos ajuntaram as alças e levantaram o caixão. se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar E não abriu a bolsa. tinha queimado seu rancho. Agrupada com seus instrumentos enlaçados de crepes. Leitor? Antes que tudo isso se fizesse o desvalido não morreria de fome? . muito metódico e apegado aos velhos hábitos de sempre pegar caixão pela alça da frente e da esquerda. Conclusões de Aninha Cora Coralina Estavam ali parados... humilde. Escuta. Qual dos dois ajudou mais? Donde se infere que o homem ajuda sem participar e a mulher participa sem ajudar. Dona Placidina botou o corpo fora da porta e chamou alto: — Compadre Mendanha. adiante saiu a tampa. muito experiente. cuidado com o lampião da Rua do Fogo. Arrumado o cortejo. Esperavam o carro. a isca. despediu-se do morto em soluços alternados. só de homens. lá longe. e tudo que tinha dentro.. de regrar o pucarinho de água benta com seu raminho de alecrim. entregou sem palavra. sofrida. Marido e mulher. Dona Placidina. quando perceberam que não mais haveria engano. a chumbada. o acompanhamento. apontar um poço piscoso e ensinar a paciência do pescador. Espalhado pelas ruas. ao menos até a porta. também a linhada. não só a vara de pescar. Abriu a carteira tirou uma cédula. Teimou com as amigas: dessa vez havia de acompanhar. O homem ouviu.. No dia seguinte. o anzol.

a teoria é outra. .Conclusão: Na prática.

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