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A Galinha Degolada

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A GALINHA DEGOLADA

Título original: La Gallina Degollada (1925) Autor: Horacio Quiroga Tradução: Roberto de Souza Causo O dia todo, sentados no banco do pátio, ficavam os quatro filhos idiotas do casal MazziniFerraz. Tinham a língua entre os lábios, os olhos estúpidos, e volviam a cabeça com a boca aberta. O pátio era de terra, cercado a oeste por um muro de tijolos. O banco ficava paralelo ao muro, a cinco metros, e ali os quatro se mantinham imóveis, com os olhos fixos nos tijolos. O sol se ocultava por trás do muro e, ao declinar, os idiotas faziam a festa. A luz ofuscante a princípio chamava-lhes a atenção, e, pouco a pouco, os seus olhos se animavam. Riam, ao final, estrepitosamente, congestionados pela mesma hilaridade ansiosa, contemplando o sol com bestial alegria, como se ele fosse comida. Outras vezes, perfilados no banco, zumbiam horas inteiras, imitando o bonde elétrico. Os ruídos fortes sacudiam-nos em sua inércia, e, então, eles corriam, mordendo a língua e mungindo, ao redor do pátio. Mas quase sempre estavam apagados na sombria letargia do idiotismo, e passavam o dia todo sentados no banco, com as pernas suspensas e quietas, empapando as calças com a saliva pegajosa. O maior tinha doze anos e o menor, oito. Em todo o seu aspecto sujo e desvalido notava-se a absoluta falta do mínimo que fosse cuidado maternal. Todavia, esses quatro idiotas haviam sido, um dia, o encanto dos pais. Aos três meses de casados, Mazzini e Berta orientaram seu íntimo amor de marido e mulher, e mulher e marido, num projeto especialmente vital: um filho. Que melhor auspício para dois apaixonados que essa honrada consagração de seu carinho, libertado do vil egoísmo de um mútuo amor sem objetivo algum e, o que é pior para o amor mesmo, sem esperanças de possível renovação? Era o que sentiam Mazzini e Berta quando o filho chegou, após quatorze meses de casados, acreditando que a felicidade do casal estava cumprida. Era uma criatura bela e radiante até um ano e meio. Mas, no vigésimo segundo mês, numa certa noite, convulsões terríveis abalaram o menino e, na manhã seguinte, ele já não mais reconhecia os pais. O médico o examinou com essa atenção profissional de quem está visivelmente buscando as causas do mal nas enfermidades dos pais. Depois de alguns dias, os membros paralisados recobraram o movimento. Mas a inteligência, a alma e até mesmo o instinto haviam-no abandonado para sempre. Ficara completamente idiota, babão, pendente, morto sobre os joelhos da mãe. ― Filho, meu filho querido! ― Ela soluçava sobre aquela espantosa ruína de seu primogênito. 1

Mazzini redobrou o amor ao filho. amparar sem trégua Berta. mas não se pôde obter nada além disso. E já não mais pediam beleza e inteligência. Faça com que ela seja examinada detidamente. seu sangue e seu amor estavam amaldiçoados! Seu amor. nem mesmo sentar-se. os pais caíram em profundo desespero. ― Sim. profundamente ferida por aquele fracasso de sua jovem maternidade. Poderá melhorar. em compensação. aos dezoito meses de idade. Então riam. mudar de lugar. ― Ao senhor posso dizer: creio que é um caso perdido. ponto por ponto. acima de sua imensa amargura. Mas toda esta apaixonada ternura não lograra criar um átomo de vida normal. que se exasperava em razão de sua infrutuosidade. Com a alma destroçada pelo remorso. Mas. Até esse momento. tem ela um pulmão que não respira direito. Quanto à da mãe. Ainda teve que consolar. acompanhou o médico à saída de casa. Mas. finalmente. Não vejo nada mais além disso. Tinham. mas há uma respiração um tanto ríspida. viam cores brilhantes ou ouviam trovões. sobretudo! Ele contava com vinte e oito anos.O pai. Desta feita. Tiveram que arrancar. uma nova ânsia de redimir de uma vez para sempre a santidade de sua ternura. mas próprio o instinto abolido. Quando eram banhados. e. com vinte e dois. ela. sim! ― assentia Mazzini. Eles não sabiam deglutir. passados três anos. ― Quanto à herança paterna. Mas. diga-me: o senhor crê que o caso é hereditário? Que. restava a Mazzini e Berta uma grande compaixão por seus quatro filhos. Ora. Ele nasceu. o segundo filho despertou idiota. do limbo da mais funda animalidade. as mesmas convulsões do primogênito se repetiram. Animavam-se tão somente quando comiam. repetiu-se o processo dos maiores. não suas almas. certa faculdade imitativa. . no dia seguinte. desejaram ardentemente ter outro filho. radiantes de frenesi bestial. nesse ardente desejo. mas apenas um filho como todos! Do novo desastre brotaram novas labaredas do amor dolorido. E. por não darem conta dos obstáculos. confiando em que o longo tempo transcorrido houvesse aplacado a fatalidade. desolado.. mugiam até a face injetar-se de sangue. cada qual havia tomado sobre si a parte 2 . Mas nada além disso. já lhe disse o que achava quando vi seu filho. e a saúde e limpidez do seu sorriso reacenderam o futuro extinto. educar-se em tudo que a idiotia permita. o pequeno idiota que pagava pelos excessos do avô. deitando fora a língua e rios de baba. como sucedera no caso do primogênito. azedaram-se. Mas não eram satisfeitas as suas esperanças. Como é natural. a caminhar. Com os gêmeos parecia concluída a aterradora descendência. Aprenderam. Vierem gêmeos e..Mas. mas em tudo esbarravam. o casal pôs todo o seu amor na esperança de outro filho.

E como. com Mazzini. Viveram dois anos com a angústia à flor da alma. deu vazão a essa imperiosa necessidade de culpar os outros. Mazzini voltou ligeiramente a face para ela. todavia. assim. de nossos filhos. ― Como queira! Mas se você estava querendo dizer.. ― Berta! ― Como queira! Este foi o primeiro choque e se sucederam outros. ― Deixe para lá! . Se ultimamente Berta voltara a cuidar de seus filhos. Mas nem por isso a paz havia chegado às suas almas.Berta sorriu. com brutal desejo de insultá-la.Ela ergueu os olhos. que haviam nascido deles. Iniciaram com a mudança de pronome: seus filhos. Nasceu.Mas tampouco é minha. com um sorriso forçado. ― É a primeira vez ― replicou um pouco depois ― que o vejo preocupado com estado de seus filhos. parece-me. Nada aconteceu. com o terror de perdê-la.articulou. secando finalmente as mãos. os rancores de sua prole podre. uma menina. Desta feita. como se eles fossem algo atroz que a obrigaram a cometer. ― Bem. que acabava de entrar e lavava as mãos -. esperando sempre outro desastre. como se não tivesse ouvido. entenda bem! Era isto o que eu queria lhe dizer! O marido a olhou por um momento. havia a insídia. suas almas se uniam com arrebatamento redobrado e loucura por outro filho. não sou eu. não! . muito pálida. ― De nossos filhos.. Mas nas inevitáveis reconciliações.. e os pais puseram nela toda a sua complacência. a atmosfera se carregava. você poderia manter os garotos mais limpos. O mínimo mal-estar da filha desencadeava. suponho! Só faltava esta! murmurou. Berta continuou a ler. Mazzini expressou-se claramente: ― Acho que você não dizer que a culpa é minha. que é patrimônio específico de corações inferiores. ― Acho .que lhe correspondia na miséria de seus filhos. a partir do nascimento de Bertita esqueceu-se quase totalmente dos outros. Haviam acumulado fel tempo demais para que o vaso não 3 . . Assim é melhor? . sob o insulto.. ― Só faltava o quê? ― Se alguém tem culpa. mas em menor grau. mas a desesperança de redenção ante as quatro bestas. Ocorria o mesmo.disse-lhe uma noite Mazzini. Sua tão só lembrança a horrorizava. vai? ― Ah. que a menina levava aos mais extremos limites do mimo e à malcriação.

Pergunte. Com tais sentimentos. mas agora que este havia chegado. ouvi algo de você! Veja: não sei o que disse. não havia para os quatro filhos maiores afetos possíveis. pergunte ao médico quem tem a maior culpa pela meningite de seus filhos: meu pai ou teu pulmão perfurado. a ligeira indigestão havia desaparecido. cada qual. sentia maior a infâmia das quatro aberrações que o outro o havia forçado a criar. jamais. víbora.ficasse distendido e. eles se continham pela mútua falta de êxito. e. privados da mais remota carícia. perderam o recíproco respeito.aos pais era absolutamente impossível negá-las -.. é que me esqueço. como 4 . a criancinha teve alguns calafrios e febre. A empregada os vestia. o que quero lhe dizer. seus! Mazzini igualmente explodiu: ― Víbora tuberculosa! Isto é o que eu disse. tal consiste. como quase sempre. E. Desde a primeira altercação envenenada. o veneno era lançado fora. ― Meu Deus! Você não pode caminhar mais levemente? Quantas vezes. ― Bem. tornou a reabrir a eterna chaga. E o temor de vê-la morrer. dava-lhes de comer e punha-os na cama com visível brutalidade.. os quatro. desdenhosa: ― Não acredito tanto em você! ― Nem eu. À uma da manhã. ― Afinal! .. nesta noite.. você disse o que queria dizer! ― Sim. Antes. em humilhar completamente uma pessoa. acreditei tanto em você. como resultado das guloseimas . víbora! Continuaram cada vez com maior violência. Passavam a maior parte do dia sentados de frente para o muro. com cruel prazer. ou ficar idiota. atribuindo-o a si mesmo. Eu poderia ter filhos como os de todo mundo! Esses são seus filhos. tuberculosinha! ― O quê? O que disse? ― Nada! ― Sim. se há algo a que o homem se deixa arrastar. Quase nunca lhes dava banho. víbora. escuta-me? Sadios! Meu pai não morreu em delírio. Bertita completou quatro anos e. os fortes passos de Mazzini. . Fazia três horas que não se falavam e o motivo foi. Assim.murmurou com os dentes cerrados. sim! Mas tenho pais sadios. ao menor contato. quando já se deu o primeiro impulso.Afinal. Acabou! Não o faço de propósito. até que um gemido de Bertita selou instantaneamente as suas bocas. mas lhe juro que prefiro qualquer coisa a ter um pai como o que você teve! Mazzini empalideceu. Ela sorriu.

nas pontas dos pés. Os quatro irmãos. O sol já havia transposto o muro. ordenaram à empregada que matasse uma galinha. olhava para o alto. podia evitar tão horrível visão. entre as mãozinhas retesadas. estupefatos. Por fim. digo-lhe! As pobres quatro bestas. saíram todos.Berta havia aprendido com sua mãe este bom modo de bem conservar a frescura da carne -.. e eles continuavam olhando os tijolos. não havia dúvida. na cozinha. não queria que eles jamais pisassem ali. vermelho. mais irritado era o seu humor com os monstros. com olhar indiferente. apoiava a garganta na plataforma do muro. olhando. ― Que saiam. De repente. Depois de almoçar. grande culpa. acreditou sentir algo como uma respiração atrás de si. sacudidas. mas sem que nenhum deles se atrevesse a dizer uma palavra. A filha logo escapou para casa. voltaram para o banco. esquecimento e felicidade reconquistada. com os ombros colados um no outro. A irmã. Viram-na olhar para todos os lados. Detida ao pé do muro.. quanto mais intensos eram os arrebatamentos de amor ao marido e à filha..ocorre fatalmente com todos os casais de jovens que se amaram intensamente pelo menos uma vez. no momento em que a empregada degolava a galinha na cozinha. sem dúvida. voltaram. Assim. algo se interpôs entre seu olhar e o muro. os idiotas não haviam deixado o banco durante o dia todo. a reconciliação chegou. brutalmente empurradas. Vermelho. mais inertes do que nunca. e buscar apoio com o pé. dessangrando-a lentamente . viram como a irmã conseguia pacientemente dominar o equilíbrio. Entrementes. 5 . nem mesmo nestas horas de pleno perdão. mas não era suficiente. e como. ― Senhora! Os garotos estão aqui. O dia radiante havia tirado os idiotas do banco. naturalmente.. Berta cuspiu sangue.. Maria! Ponha-os para fora! Ponha-os para fora. começava a afundar-se. ao se levantar. As emoções e a noite mal passada tinham. A empregada foi a Buenos Aires e o casal a um passeio pelas quintas. Voltou-se e viu os quatro idiotas. com o que triunfou. para subir ainda mais. queria agir por conta própria. Porque. enfadada de cinco horas de vigilância. a uma lata de querosene. e ela chorou desesperadamente. Como o tempo era curto. a operação. Amanheceu um esplêndido dia e. então. depois do almoço. Berta chegou. Ao cair do sol. decidiram-se sair. decidiu-se por uma de cadeira sem assento. pensativa. e seu instinto topográfico a orientou a aprumá-la na vertical. tão mais efusiva quanto lacerantes foram os insultos. Queria subir. Recorreu. Às dez horas. mas Berta quis cumprimentar por um momento as vizinhas da frente. E.. Mazzini a reteve abraçada por um longo tempo.

― Bertita! Ninguém respondeu.chorou imperiosamente. mamãe! Mamãe. ao passar em frente à cozinha. inquietos. Mazzini avançou ao pátio. escutou o grito e respondeu com outro. e os outros a arrastaram por uma perna até a cozinha. ai! Ma. lívido como a morte. já desesperado. ― Bertita . Berta..htm – Acesso em: 10 abr. e. onde nessa manhã haviam dessangrado a galinha. Lentamente avançaram até o muro.gritou. viu no chão um mar de sangue. enquanto Berta ia guardar o seu chapéu. Não afastavam os olhos da irmã. Mas foi puxada.elevou mais a voz. se despediram. na casa da frente. 2011. E o silêncio foi tão fúnebre para o seu coração sempre aterrorizado que as costas regelaram com um horrível pressentimento. Mazzini. [Fonte: http://terramagazine. aos fundos. A pequena.com. já ia montar a cavalo e. arrancando-lhe a vida segundo por segundo. ― Solte-me! Deixe-me! . mas sentiuse agarrada pela perna.Não pôde gritar mais. ― Mamãe! Ai.Mas o olhar dos idiotas havia-se animado. Mas. Ainda tentou agarrar-se à borda do muro.br/interna/0. mas se sentiu arrancada e caiu. seguramente.OI4697402-EI6622. Mas. bem segura.terra.. ― Acho que ela lhe chama . Debaixo dela.] 6 . . afastando os cachos como se fossem penas. Só pôde erguer os braços à cabeça e afunda-se no marido com um suspiro rouco. tendo conseguido fixar um pé. acreditou ter ouvido a foz da filha. ― Minha filha! Minha filha! Correu.00Traducao+especial+do+conto+A+Galinha+Degolada. ― Mamãe. enquanto uma crescente sensação de gula bestial ia transformando cada uma das linhas de seus rostos. Prestaram atenção. Contudo. os oito olhos cravados nos seus lhe deram medo. passar ao outro lado. ao ouvir o angustiante chamado do pai. ― Não entre! Não entre! Berta chegou a ver o chão inundado de sangue.disse a Berta. que já de sua vez já correra. ao precipitar-se na cozinha. uma mesma luz insistente fixava-se em suas pupilas. Empurrou violentamente a porta encostada e lançou um grito de horror. sacudindo a perna. Mazzini. papai! . se interpôs. já alterada.. detendo-a. mas não ouviram mais nada. Um deles apertou-lhe o pescoço. um momento depois.

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