Mia Couto A Chuva Pasmada

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Mia Couto A Chuva Pasmada Ilustrações: Danuta Wojciechowska Design: Lupa (c) Editorial Caminho, SÁ, Lisboa - 2004 Tiragem: 15 000 exemplares Pré-impressão: Textype Impressão e acabamento: SIG Data de impressão: Novembro de 2004 Depósito legal n.° 217151/04 ISBN 972-21-1054-1 Mia Couto com ilustrações de Danuta Wojciechowska CAMINHO

Ante o frio, faz com o coração o contrário do que fazes com o corpo: despe-o. Quanto mais nu, mais ele encontrará o único agasalho possível - um outro coração. Conselho do avô saltar para a água para cair no céu. Neruda, Crepusculário

Um Gotejar Sem Chuva esse dia, meu pai apareceu em casa todo molhado. Estaria chovendo? Não, que o nosso telhado de zinco nos teria avisado. A chuva, mesmo miudinha, soaria como agulhinhas esburacando o silêncio. - Caiu no rio, marido? - Não, molhei-me foi por causa dessa chuva. - Chuva? Espreitámos na janela: era uma chuvinha suspensa, flutuando entre céu e terra. Leve, pasmada, aérea. Meus pais chamaram àquilo um “chuvilho”. E riram-se, divertidos com a palavra. Até que o braço do avô se ergueu: - Não riam alto, que a chuva está é dormindo... Durante todo dia, o chuvilho se manteve como um cacimbo sonolento e espesso. As gotas não se despenhavam, não soprava nem a mais pequena brisa. A vizinhança trocou visitas, os homens fecharam conversa nos pátios, as mulheres se enclausuraram. Ninguém se recordava de um tal acontecimento. Poderíamos estar sofrendo maldição. Que houvesse um desfecho para aquela chuva: isso esperávamos com ansiedade. Nesse aguardo, eu me distraía olhando os milhares de arco-íris que luzinhavam a toda a volta. Nunca nenhum céu se tinha multiplicado em tantas cores. Dizia minha mãe, a chuva é uma mulher. Uma dessas viúvas de vaidade envergonhada: tem um vestido de sete cores mas só o veste nos dias em que sai com o Sol. A indecisão da chuva não era motivo para alegria. Ainda assim eu inventei uma graça: meus pais sempre me tinham chamado de pasmado. Diziam que eu era lento no fazer, demorado no pensar. Eu não tinha vocação para fazer coisa alguma. Talvez não tivesse

mesmo vocação para ser. Pois ali estava a chuva, essa clamada e reclamada por todos e, afinal, tão pasmadinha como eu. Por fim, eu tinha uma irmã, tão desajeitada que nem tombar sabia.

A água fica pesada. voltavam a subir. Todos menos o avô que mal se erguia sozinho. . Nos juntámos na varanda interrogando os céus. num gesto largo. forçá-la a tombar.disse a mãe. Estremecemos. no assento de balanço.Fumos e Névoas E passou-se um dia sem que a chuva descesse.São esses fumos que estão a atrapalhar a chuva.perguntou ele em voz quase viva. Acontecia à água o que sucede aos bêbados: esquecia-se do seu .Não . . as gotas viravolteavam no ar e depois. isto só aconteceu depois dessa maldita fumaça. Ao fim de um tempo. . Mas a chuva não tombava. mas evitando ser ouvido. Deu uns passos por diante e.. calados. vassouras e panos. nossa avó Ntoweni. Por fim. Desde que ela morrera. Sob o alpendre fazia muito silêncio. como aves tontas. não querendo ficar calado.. já não aguenta ser nuvem. chefiava a vigília.Tudo a remexer! Saímos todos com pás. sim.Essa chuva traz água rio bico. meu avô ousou falar. o assento nunca mais fora ocupado por ninguém. socando as gotas como se agredíssemos fantasmas. Meu avô. Foi de repente. . E varremos o ar.Fumos? Pode ser. meu pai se ergueu e anunciou o pensamento: havia que bater naquela água.Deve ser feitiço . . . meu pai se afastou de nós para não vermos uma sombra pousar em seu rosto. a cadeira sagrada de sua falecida esposa. aflitos: a chuva tinha perdido o caminho.sugeriu o avô. E agora ali estávamos nós. incapazes de raciocínio e com medo de entender..De onde vem isto? . . Ao lado. comandou: ..São fumos que vêm da nova fábrica.

Na nossa terra. Assunto de chuvas é da competência dos deuses. os donos da chuva. . É por isso que existem os samvura. Um bêbado pode ser amparado. um mau presságio lhes dava encosto. Mas quem poderia ensinar a chuva a retomar os seus milenares carreirinhos? No poente. Os homens grandes se juntaram durante toda a noite. toda água é benta.destino. Ninguém poderia ter ousado demoniar a chuva. o meu pai e os meus tios se encaminharem para o pátio do régulo. São eles que falam com os espíritos para que estes libertem as águas que moram nos céus. O que sucedia era um jamais acontecido. vimos o avô.

Minha tia. pairando sem peso. ..Somos pobres. você que é o mais senhor.Mas tente falar.. nenhuma sentença. eu já lhe conheço muito bem. por exemplo. . .. mulher? Sou pobre. quem vai escutar um ninguém como eu . Meu pai.. E respondeu: Inimigos? com a idade fui descobrindo que acabamos fazendo coisas bem piores que os nossos inimigos. Entre indagações e suspeitas..Você vai é falar com ninguém. vá à fábrica e fale com eles.Marido.Está maluca. aproveitou a pausa e atalhou: . a chuva permanecia pendurada num invisível cabide. Já estou habituada: nenhuma cabeça. benzendo-se. .. não temos anjos nem santos.. acha que é obra dos nossos inimigos? O avô sorriu.Pobre é estar sozinho.Não vale a pena.Mas temos Deus que é de todos..Diga.. não vão nem abrir a boca.. os nervos floriam na pele de todos. fale com eles.Esse também não é o caminho -. Do espanto passou-se à desconfiança. temperava as suspeitas: . a maior parte ganhou emprego nessa fábrica..Eu sei com quem vou falar. pelo menos com alguns. . .Eu cá sei. disse o avô. meu sogro. . .Pingo Voando Sem Peso De pouco valera a cerimónia dos mandadores das nuvens. Minha mãe era a mais inconformada. .. . Você se junte com os vizinhos. Na manhã seguinte.O que podemos é falar com o senhor Padre.Com quem? . . Seus olhos rodaram como que lhe engordando o rosto.

. A voz de meu pai me trouxe ao mundo: . Do modo que tudo secara. como? . ele me chamou e me segredou ao ouvido: . quando saíamos para o campo. povoado pela labareda bêbada. quieto. o amarrávamos à perna da cadeira. Apoiou-se no muro do poço e ficou espevitando o isqueiro.Não tarda que acabe a água . a chuva se resolvesse a tombar e a despenhar daquela meia dúzia de palmos de altura onde se suspendera. O escuro ganhou paredes redondas. desde que ficara viúvo. sentado. E talvez. Depois. todo inchado. Sentei-me junto dele.Antes ao Sol que mal acompanhado! Certa vez. retirando-se para o pátio. O nosso mais-velho estava minguando.Ntoweni engravidou! . Apenas a cadeira sagrada da avó Ntoweni lhe fazia companhia.. empedernido. E havia um ressentimento quando. Os dois eram como a aranha e o orvalho.Ntoweni? O velho apontou o pé direito. Quando regressávamos. Seus olhos já tinham consumido toda aquela paisagem. quando regressávamos. Lavados pelo fogo. seríamos devorados por um incêndio. . com medo dos ventos da tarde. lançou os olhos na savana.Assim.Vai ser assim que o avô vai morrer.Seu avô vai secar. . Até que ele espetou o braço bem no fundo do poço e acendeu a chama. coberta de gretas e varizes. minha falecida. Ainda me veio à cabeça que ele lançasse o isqueiro incandescente sobre o capirizal. e à varanda.disse o meu velho. fingindo-se ligeiro. o avô ainda ali estava. agora que a água parecia nos manchar. Emagrecera tanto que. Na família reinava a crença de que Ntoweni ainda ali se sentava.Meu velho tesourou a conversa. Era assim que o deixávamos. olhando o rio. a escutar os sonhos do seu não-falecido esposo.. nos atirava: . um fazendo teia no outro. . então.Essa é Ntoweni. no final do dia.

Não podia confessar. Mas ela não gostava de ser bela. . meu neto: você nunca chegou de conhecer essa sua avó legítima? . Todos me falavam da sua beleza. E a outra como se chama? Um risco malandro lhe arredondava o sorriso. A avó sempre respondia: se eu sou bela então maldita seja a beleza! Era assim que ela falava. Cada um baptizado por engenho de seus delírios. Morreria com aquele nome. Um desses pássaros que canta mesmo em cativeiro. Venha cá. dizia. em jogo de marionetas. E como era ela? . aticei-o: .Nunca.Ntoweni era tão bonita que nem precisava ser jovem. E o engano dessas aves é acreditar que o céu fica do lado de dentro da gaiola.Essa é a avó.Para enxotar a solidão. A beleza. avô.Minha saudade existe toda só para Ntoweni.Mentira . só para ele.desdizia em seguida. era uma gaiola que o avô inventara para ela ser pássaro. o avô dera nome aos pés... . Mordido pela curiosidade. Desencontrámo-nos. .

sem o levar da vida. Meu sonho era outro. marido? . Ainda miúdo. Era um vazio. Anos depois.Eu não durmo por preguiça. como se lhe faltasse algum inferno. mais escuro.Sonhou com ele. De tanto enroscar na cama ele cheirava à palha do colchão. E voltou a partir. na nina que . sempre ausente e preguiçosa. Quando. meu pai regressou mas permaneceu ausente. O fundo da terra roubara de mim o meu pai. . Os tristes têm um céu. Nas minas do ouro meu velho descia tão fundo que os meus sonhos já não chegavam nem à sua lembrança. voltara envelhecido. meu pai só tinha um fazer: dormir. acendendo um fantástico presépio. Olhei o seu rosto cansado como se encontrasse nele razões da sua atitude. E partiu de novo. por fim. o estrelar do céu mesmo sobre o nosso tecto.O Fluir do Rio Seco Passaram-se mais dias. meu pai tinha ido para as minas. vinha mais e mais doente. mas céu. Eu durmo de tristeza. entre nós. E regressou. a lua estava cheia. Fumava para que o peito não estranhasse a falta de poeira. Meu pai olhava para trás: era mais o esquecido que o vivido. Em menino. Meu pai sorriu: . Os que ficam órfãos vêem os seus pais serem engolidos pelo chão.. Nunca eu tinha assistido a tanta luz nocturna. Minha mãe acudia. Nessa noite. eu acordava chorando no meio da noite. lá no Johni. o milho amarelecia. O que não lembrava era porque se esquecera de viver? Ou tudo tinha ficado lá. Não era tristeza. definitivo. O rio emagrecera mais do que o avô. meu filho? Não. os terrenos encarquilharam.Já temos lua eléctrica! E nos fez sorrir. Saíra jovem. pronta: . De cada vez que voltava. Cinzento. se estabeleceu. No escuro.Porquê tanta preguiça. Os desesperados têm um deserto. o luar se replicava nas mil gotinhas.

Com aparato. Na minha cabeça. a meio do dia. Nós a vimos transitando da ideia ao gesto: atirava terra para o ar. interrompendo os meus devaneios. a mãe se levantou. uma nova alegria era a nossa tia. até me canso menos. de pijama. me pareceu que meu pai não era senão poeira entre poeiras de Lua. Minha mãe seria a primeira a festejar: . os grãos se prendiam às gotas. ao passar a porta: . crescendo de lado para o lado. Agora.Se a água não vem à terra. meu pai se justificava: . Nasceriam enviesadas. da terrinha suspensa.. Sempre fora ela a ir ao poço buscar água. Apanharíamos milho. Só que ela não entende: se eu estou vivo é porque não tenho alma nenhuma.Viu. As pessoas trabalhariam como pintores. Meu pai acorreu à varanda. A família deu por findo esse aterrar do ar. É que já não tinha costas para cavar no chão. Mas quem vivia. pincelando uma tela feita de pingo de areia e do grão da chuva.. Minha mãe ainda brincou: . brotassem lateralmente umas verduras. Restou um breu de confundir galos. nem saía de casa. homem? Estou a semear grãonizo. mandioca e feijão como se fosse do ramo de árvore.Agora.Sua mãe quer que eu faça dessas coisas que criam alma na pessoa..Tenha vergonha.desmoronou? Quando se cruzava comigo. . E foi tanta a terra lançada à água que. E parecia resultar. de verdade.. E agora. o futuro se antecipava: não tardaria que. Sua alma ficara sepultada entre longínquos minérios. olhando-o sob aquele estilhaçado luar. em redor da casa. a areia se suspendia na chuva. o céu escureceu. mulher! Não vê os vizinhos espreitando? Mas ela prosseguiu chuveirando terra pelos ares. todo consumido: . Parecia que a Lua se avariava nas mil lampadinhas onde se acendera. Já bastava uma estranheza. semeando a chuva de areia. Ela pendurou uma pá no ombro e anunciou.

. O rio era um poço escavado no céu. Um poço à sua privada disposição. ela levantou a mão e fez girar o dedo mostrando desaprovação. noivo. O avô fez que não viu e prosseguiu: .Janela aberta. tudo tão sedento: aquilo era a moeda e sua outra face. tudo num mesmo regaço. um sinal da indisposição divina. minha tia estava proibida de pilar e entrar na cozinha. vociferou: O que essa mulher precisa é de um homem! Era filha dele mas isso não desvanecia o seu parecer. A tia passou a clamar aos ventos: . ao invés. . Não se contemplam tais adiamentos. em curvas cegas. Ela era a fervorosa senhora de cruz e rosário.Vocês não entendem? O que se está passar é uma inundação sem chão. Talvez fosse essa a razão que levava o avô a despejar o seu fel sobre a mais nova de suas filhas: . como se desse umas quantas braçadas. escassez e excesso. Enchente e seca. E ali. Mas a tia cedo amargou a sua ilusão. sempre de reza na boca. nestes nossos lugares. braços flamejando. em voz bem recortada. de dilúvio preguiçoso. enfim.Vejam esse céu tão cheiíssimo! É castigo de Deus. Varava o ar. Ou. como um fruto.Deus trouxe o rio à nossa porta. Uma espécie. marido. A tia fervia em histeria. ela fazia girar a lata. um castigo de Deus! O chão encharcado de poeira. Do inicial sentimento de que um milagre sucedera à porta da sua casa lhe foi despontando dúvida: o chuvilho seria. ainda pior. aquecida por seus interiores martírios. Por falta de cumprimento das estações.A chuva não cai sabe porquê? É pára lhe mostrar o que É ficar solteira! A mãe tentou deitar água na zanga. Sem falar. e a lata logo ficava cheia. A tia amadurecera sem calor de homem. . O avô não teve as meias-medidas. Os alimentos não aceitam mãos de mulher nessa condição. o início do nosso último destino. A mulher tem seus tempos.Quando a boca fica muito tempo sem beijar a saliva se transforma em veneno.

E agora. ela apontou a cruz no telhado da igreja: . . .Mas estou totalmente descalço. nós pecadores. seus olhos vermelhos se espetaram em mim: . Ela considerou os meus favores. Pois. E ali estava eu. à minha espera. E logo nos molhámos por todos os lados.Fica na porta. Ofereci só isso: o estar ali. esse chão era sem gota. castigo de Deus! . quase se afogara no rio. o que lhe restava senão a janela da infinita espera? O cotovelo de certas mulheres foi feito para apoiar nos parapeitos.O avô tem razão! Ainda a tentei dissuadir. certa vez. fazendo altar em ramos de árvore.a tia ladainhava. sobrinho. rosto anichado entre as mãos. sobrinho. Mas ela reiterava suas semelhanças com o desastre da inderramável chuva. crédulos em espíritos e mezinhas. . eu lhe sentia os tremores. me acompanhe à igreja. ele era o mais dado aos ancestrais. pelo caminho: nós pecadores nos confessamos.A tia saiu chorando. Fomos. mal dados uns passos. não pode mais ficar de alma ao relento.Escute bem... com a ponta da capulana a tia enxugou a lágrima. Só há um lugar de fazer milagres: é aqui! Eu que não emprestasse ouvido aos restantes. insistia. Braço dado. . Somos culpados. Enquanto espera também vai rezando. Não havia outro motivo. ela deflagrou a sombrinha e a empunhou como uma espada. a meio caminho entre pestana e o queixo. eu e meu silêncio. fossem feitiços ou maldições. ansiando por a consolar. .A gente cimenta a casa. Que isso não era de civilizado. A tia sempre temera a água. Agora que a rua se convertera num aquário. A água perdera peso por motivo de nossos pecados. abrindo caminho entre as gotas. agora. Quando chegámos. caminho afora..É castigo. que homem mais lhe poderia chegar? Só se fosse um com barbatana e guelra. mas não sabendo que palavras escolher. Seu rosto era sem beijo. . Se abrigou no alpendre.. Sobretudo.Venha. E já ia adiantando reza. desde que. eu não desse crédito ao avô.

santo e ficado seja o vosso nome. até me soube bem aquele respingar de frescura.Veja. Naquele momento. . Fiquei esperando no átrio da igreja. cheios de pedra preta. na pequenina igreja. Noutra ocasião.Pai nosso. viscoso. Depois. despertando-me a mim. Estranharia. Meu pensamento foi enxotado da cabeça como água em pêlo de cachorro: minha tia batia os pés na calçada. ecoavam as rezas e eu escutava perfeitamente a voz da tia: . eu me teria zangado. se aproximou e sacudiu sobre mim a água que lhe pesava no dorso. Matilhas de cães se saracoteassem e talvez o chão ficasse molhado. Lembrei as palavras do avô: não são os cristãos que se fatigam. assustando a cadela. Eu e uma cachorra vadia partilhávamos a solidão do lugar. o tempo se entaramelou. como se um outro modo de chover estivesse ocorrendo. A cadela vadia. a chuva pasmada? Entretanto. Deus é que não tem fôlego para tanta oração.A tia entrou. na espera. o padre me deu este plástico. rezas e cantos. É para embrulhar a Bíblia! Não se vá esborratar a palavra de Deus.Para se cobrir? . Me demorei nos olhos do bicho. tão preta que era água. Seguiram-se cantos e rezas.Não. cristais no Céu. cruz credo! . . sobrinho. A cadela parecia absorta na contemplação da rua. porém. também ela.

O Adiado Príncipe Eu já tinha amontoado suficientes pedrinhas aos pés do avô. Mas não podia. sucedeu: o braço da tia foi cingindo o pobre desconhecido em aperto de jibóia esfaimada. a pedra no elástico da fisga. Me apetecia juntar-me a ele. Tinha sido num baile. mas já sofria da doença de esperar homem. . para espanto de todos. E juntos flecharmos os céus. fazendo pontaria para acertar no nada. Havia. foi rodopiando com ela pelo átrio. primeiro. mulher que toma a iniciativa não o faz por coragem.Não é verdade. Ele baixava-se e colocava. uma por uma. mais fogosa. um forasteiro tinha chegado ao nosso lugar e se decidira a pernoitar. o fulano lá se ergueu e.Sua tia prefere os padres porque eles desculpam o crime dela.Crime? . avô! . A enfermidade lhe deu coragem e. mas por desespero. O forasteiro.Nunca lhe disseram? Sua tia matou um homem! Pousei as escadas para melhor escutar. por cima do último suspiro. meio contrafeito. . eu mais a minha fisga. depois foi perdendo as cores e. rasgava nesgas de céu naquela cortina de água. Tinham-me dado tarefas. e eu já içava um escadote sobre o ombro. A tia era mais jovem. se envergonhou: já se vira mulher tomar as dianteiras? Na nossa aldeia. nessa noite. festa no clube. Então. O que fazia? Abria buracos na paisagem. O velho não esperava por outra coisa: foi soltando as falas. O moço começou por ficar sem fôlego. quando o avô me fez parar: .O que é que disseste? . disparava o projéctil de encontro aos céus. por razão de feitiço. Todavia. O estranho caiu fulminado. ela cruzou a multidão e convidou o moço para rodar. Ou pior. quando se deu conta. a nossa tia já lhe tinha perfurado as costelas. De seguida.

nem tudo é tragédia. Desta vez. . de manhã cedo. mão em pala sobre a testa. Empoleirado na escada. em baixo. que eu quero desafiá-lo para uma surpresa. Como podia ela ter visto um vulto.E quem era? . abençoada chuva. . não se desvanecia o dançarino estrafegado pelo sequioso abraço.Desça. Ou talvez o chuvilho já tivesse aguado a sua cabeça. havia uma convicção que me fazia duvidar. meus olhos lutavam para se manterem abertos. Não disse nada.Venha dançar-me. avô. todo vestido de preto.O que se passa. Perscrutei o horizonte. o colmo começava a apodrecer. A voz da tia quase me fez cair do escadote. . vi um cavalheiro chegando. fazendo soar uma música roufenha. . se tudo desfocava para além do nariz? Miragem teria sido. Lá estava ela. Mas já os meus passos tonteavam. . Mas como é que sabe? . ao compasso do rádio de pilhas.Afinal. tia.Foi há muito tempo.Um desconhecido.É verdade. com a acumulação da água. À minha frente. Foi essa chuva que o trouxe. é porque é mentira.Ah.Surpresa?! A tia ligou o rádio. . Me afastei.Hoje.Nada.Não repeti. tia? . tenho a vaga ideia. sobrinho! O mel na voz me fez arrepiar. . que houve um homem que morreu num baile? . sim. . Vinha pela estrada. fui mudar as palhas do tecto. quase asmática. As recentes revelações do avô ainda em mim ecoavam. sobrinho.Se foi o avô. . A fantasia do mais-velho era sempre tal que ele mesmo de suas falas se estranhava.Num baile? .Foi o avô que me contou. . porém. . tia. com o seu sorriso que nunca desbotava.

E ela me apertou mais. Senti o seu corpo se esmagar de encontro ao meu. .

esmoreceu o sorriso. Em minha mãe fermentava uma insistência como se. no meu pensamento.Nem pensar. De todos. Ela que deixasse o marido.Não é que eu não quero. o ar assobiando entre as coloridas escamas dos peixes. . E atingia o meu pai. Que tinha visto um peixe subindo nos céus. era a mãe quem mais se agitava. A voz. Há outras que nunca tiveram marido.E por que não quer ir? . E cheguei mesmo a escutar o bater de barbatanas. Meu velho se encostou bem arrumado no cadeirão a mostrar que falara tudo. . Como a serpente que asfixiou o dançarino.Visões de Peixes Solares O avô falou como sempre: aos gritos. Mas era inútil.Eu vi. improperiando-o como se nele estivesse a culpa. Mas eu gostei de acreditar e. . naquela cobrança.Você não desperdice o seu homem. rouca. Os da casa riram-se: o avô e seus delírios. não tenho é vontade. O que ele fez foi acender o isqueiro. Ele não desperdiçava palavra. uma invisível mão que sufocava o nosso lugar.E então. não lhe cobrasse nada. homem? Não vai falar? Não vai lá à fábrica? . Havia uma tensão que crescia. rebrilhando entre a sarapintada claridade. nem esbanjava gesto. inundou os cantos da casa: . Era o que fazia quando não sabia o . Minha tia procurava sossegar as ansiedades da irmã. fizesse contas das arrelias de uma vida inteira. imitando o voo de um pássaro. Breve. Ou como dizia o avô: de boca dura. Mas o contentamento era de sol de pouca dura. mana. eu vi Era o falar altissonante de quem não ouve e receia não ser escutado. já cardumes atravessavam as nuvens.

Minha mãe se retirou com passo decidido como se fosse passar um pano pelo céu. o queixo erguido sobre todos nós: .Ninguém vai? Silêncio. Há muito que não fumava. Minha mãe ainda insistiu. sobrara-lhe aquele gesto sem sentido.que fazer. .

parecia um pelicano fixando o peixe. completo.Calçar os dois. Um casca fina. Andar e nadar. mãe? . no entanto. Mandaram-nos sentar num banco das traseiras. Era um modo de mostrar que não falava português como nós. Lá veio um. diferem só pelo lugar de duas letrinhas. da nossa raça. tossiu e falou como se engolisse cada uma das palavras: . Aqueles olhos babões me davam aflição. Ficámos horas em silêncio. eu até coxeei. Depois. Vista-se.Calce-se. . Na outra mão. poupava nos calçados. Minha mãe. Enrolava os erres às cambalhotas com a língua. despertei ao comando ríspido de minha mãe. naquele dia. A chuva mantinha-se suspensa. Até ali eu apenas podia calçar um sapato de cada vez. se prevenira. Não era um sotaque. Por isso. imparmente. polido e maneiroso. rápido! No braço estendido exibia a roupa de cerimónia. Era um homem forte. Por causa dessas duas letrinhas chegámos à porta da fábrica todos encharcados. Entrámos na rua como se mergulhássemos num lago. pingavam os meus únicos sapatos: . E do saco de mão saiu uma toalha com que nos secámos. nesse momento entendi.Venho por causa dos fumos . à espera que um chefe nos mandasse entrar. Sua atenção se afunilou em minha mãe. Falava um português com mais ondas que curvaturas. Assim.disse a mãe. em arranjos de gotas verticais. desabituado que estava de marchar com dupla sola. O homem torceu o cigarro entre os dedos e derramou o tabaco desfeito sobre o cinzeiro.Uma Estranha de Unhas Rubras Na manhã seguinte.

. Sobressaltei-me: era a chuva que se resolvera a tombar? Mas.O meu pai não deixa.Mãe. Completas estavam as três covinhas. Por essa mesma janela me pareceu ver o vulto de minha mãe.. A minha mãe não me deixa brincar no chão Essa terra de África dá doenças.Não quer jogar. . com vocês. Me cheguei a ele e soprei em seu ouvido: . ..Não posso.. Pela janela.. E logo o mundo se resumiu àquelas covinhas mais o bater do vidro contra o vidro.Não posso. Vou ver se ele lhe pode receber. Acabrunhava no banco do pátio quando vi pingarem vidrinhos sobre a areia. o seu pai espreitava. . Fiz uma cova. à minha frente. Reparei como os olhos do branquito brilhavam. menino? . Um menino branco. não se preocupe. Entendi o convite. Os sapatos foram poupados.. sim. e outra e mais outra.. sua mãe. atirava berlindes para o chão onde meus pés se afundavam. Mas cuide de não desperdiçar os sapatos. Eram berlindes. . Só não disse a palavra: pretos. Depois. Eu fico só assistir.. Pode ir. Mas muita areia entrou-me para a alma nesses momentos de espera. a cortina se fechou. eu queria ficar consigo. depois. meu filho. não. Eu já sabia. Não me deixa brincar com. o seu joelho ganhou a terra e iniciámos um jogo. Assentei as mãos na areia e lancei-os à cova. . eles estão aqui para ver? O miúdo apontou a fachada da fábrica.Pode ir.Ora.. seu pai. Mas. desconfiado. Juntei os berlindes numa mão e entregueilhos. . . Nós éramos simplesmente “vocês”. . me ergui e apanhei as esferas de vidro uma por uma.Só o patrão grande pode falar sobre esses assuntos.Aproveite agora que ninguém nos vê! O menino ainda hesitou. Devolveu-me os berlindes.Brinque o menino sozinho.Porquê? . Mas esse miúdo vai ter que sair.

. Uma estranha de unhas vermelhas. . a mãe se agachou até se atamanhar comigo e. Um vermelho triste. autoritária. Uma mãe não tem unha. . como um sangue já pisado. voz contaminada. Reparei. sentenciou: . Olhei de encontro ao sol e o seu corpo surgia aumentado. acertou a roda da saia na cintura e. Estranhei o afiado daquela dor. À entrada de casa. me arrastou pelo braço. poupa os sapatinhos na volta. Mas era só a raiva que lhe conferia tais dimensões. fale disto a seu pai! Pendida sobre mim. ademais. Passou uma mão a ajeitar o lenço.Diga-me. Apenas as suas unhas se espetaram na minha carne. Mas eis que a minha me esgatanhava. Uma estranha ocupava a sua alma.Nunca. aquele senhor escutou as nossas razões? Ela nada respondeu. que as ditas unhas estavam pintadas.. que a sombra de minha mãe se projectasse no átrio. . mãe. porém. cinco fúrias se cravavam no meu braço. como se apressasse um peso morto. sacudindo-me pelo braço.Já se pode descalçar'. É só feita de doçura. capaz de converter o dia em noite.Não tardou. mas nunca. olhar incendiado: minha mãe se desusava.

EU vi! . Suspiros se juntaram. Me custava engolir.E você. olhei o corpo magro de nossa mãe. A água deitando-se no céu: um azul vertendo em outro azul. parecia que se guardava para explodir. Ela estava tensa. a mãe veio à sala pedir contas: . já não havia alma para riso. incrédulos.Viu o quê. os homens.E.Pois eu vi o compadre Mauriciano subir de barco para apanhar fruta. Segredo é coisa que os homens comungam apenas com outros homens. Para ser fiel à minha mãe eu estava traindo a minha masculina condição.Segredos. mulher. quando nos juntámos na sala. Meu pai espreitava a sua tensão como a impala olha a flecha no arco do caçador. Havia algo mais profundo que estilhaçava no nosso lar. As mulheres se ergueram para levantar a mesa. em resguardo. o avô voltou à carga: . Ficámos nós. Não tinha sido um simples quebrar da loiça. . Silêncios De noite. mãos nas ancas. desta vez? . onde foi esta manhã. ancorando nos ramos altos. Das mãos de minha mãe os pratos escorregaram e deflagraram em mil estilhaços. não cai em lugar nenhum. Jantámos sob a nuvem do silêncio. Talvez por isso tenha tomado a dianteira: .Fui visitar minha comadre. Lá há mais chuvilho que aqui. à espera do que se seguiria. a lembrança da visita à fábrica me ocupava o peito. Não era o segredo que pesava. Só eu. De soslaio. lá no Tsilequene. olhei pela janela e vi barcos percorrendo os ares. Foi quando. tão cedo? . no imediato instante. Naquela espasmaceira. mas o partilhá-lo com minha mãe.

Vou procurar o isqueiro. na mata sagrada. deixem amolecer esses vossos cus na porcaria das cadeiras. Meu pai rezava? Acreditei que ele não me tinha visto. que haviam sepultado os nossos antigos. batendo a porta. Sem mais explicar. encosta abaixo? Desta vez.Não. Vou falar é com o rio. rodopiou a esgravatar entre os capins. De rompante. Falou. ajoelhe comigo. Um riscar de dedos fez acender a chama no isqueiro. Ainda a vi adentrar-se na chuva até perder contorno. era diferente..Mas você. . Meu pai. Depois. meu pai saiu. Meu velho entretinha suas pequenas fúrias.Você não pode estar aqui.. Quantas vezes fizéramos aquele caminho.Isso. . A tia barrou-lhe o caminho: .Com quem? .Estou farta! E saiu. fui seguindo seus passos.Eu sei com quem vou falar.Onde vai. cunhado. . por que é que recusa falar com alguém lá da fábrica? . Furtivo como uma sombra.POSSO? . como nada encontrasse desceu a ladeira. Nem passou um tempo. Venha aqui. porém. primeiro. espere. Antes cruzou as penedias. mãos mergulhadas na argila enquanto invocava um rosário de palavras. cunhado. Em vão. senhor meu pai. meu pai também se ergueu e se encaminhou para a porta. Agora.. minha mãe avançou sobre o marido e lhe arrancou o isqueiro. Enganei-me. asperamente. onde era interdito as crianças sequer espreitarem. .Com o rio. . .. sem erguer a cabeça: . Não parou nos lugares costumeiros. para além do bosque. Escondido entre os arbustos. . Deu dois passos e lançou o objecto pela janela.Se aproxime com os respeitos. vai ter com a minha irmã? . Era ali.Eu já vou indo.. Procurava o isqueiro. vi como ele se ajoelhou junto à margem.

a estrada. E se a terra desmoronasse. Logo ele se corrigiu e fechou o gesto no corpo. Meu pai me pediu devoção. o que tombasse fossem as casas. Ninguém diria como o rio já fora reboliço.É um pilão. Um coração batia por baixo do chão? Me assustei: . .. uma juntinho da outra. Pela primeira vez. estendi o braço a meu velho. de noite. Também eu me sentei. Sopram as cortinas. rolando as ancas pelas margens. criando descomunal vala comum para as criaturas de todos os continentes. E é por isso que nunca sai de casa. em arrepio. Eles estão descascando o tempo para nos servir. parecia estar segurando um peixe vivo. Estremeci. como meu pai. esfuracando o planeta. o pesadelo de criança que me fazia despertar e gritar por minha mãe: o desabar do mundo e meu pai preso nos subterrâneos.Não sei. incapaz de sair da interior neblina. . Eu fechei os olhos. pai. Os bancos de areia se exibiam como costelas no corpo da terra. . Ele demorou a darme a mão e. quantas havia? . saem juntas.São os deuses. O caracol fez a casca e ficou tonto. escavada como um oco no vazio? Se em vez da chuva. É então que. Foi um fugaz instante. os bichos e as gentes? Eu já via mil mineiros. meu pai? . Dizem que elas. Já só restava um fio de água. se vislumbram duas luas cruzando os céus. O reviver desse pesadelo me fez estremecer.Sabe quem está enterrado aqui? . levantam as nossas pálpebras e nos insuflam os sonhos. desapertados: tombaram na areia branca do leito.São as Ntowenis.A avó de sua avó também se chamava Ntoweni. As duas estão enterradas aqui.Meus joelhos pareciam.Que ruído é esse. Era esse. Meu pai dissera “as Ntowenis”. afinal. com demasiado medo para ter crença. quando o fez. de súbito. Afinal. Até que senti como que um pulsar debaixo de minhas pernas.Um pilão por baixo da terra? . em pedido amparo. . no plural. por breves instantes..

. Sem conversa. O avô muito elogiava as sábias preguiças. Certa vez me tentou convencer de que o mundo andava tão ocupado em nada fazer que até o rio por vezes parava. O avô. mais os seus ditos. não é? Lá no alto. Tudo aquilo me surgia sem a devida realidade.O Peixar do Tempo Sentado sobre a balaustrada da varanda eu abanava as pernas. Me aprazia pensar que era o rio. Afugentava ócio e mosca. isso é coisa que nunca ninguém viu.Não sabe que é assim que se embala o filho do diabo? Estanquei as pernas.Olha a água pesqueira! A água pesqueira. Enquanto fingia pescar. meu neto? . Está entender. avô.Você também gosta desta pescatez. todos os domingos. . avô. O avô. severo: . sim. sacudi a cabeça. ele mesmo. sempre um peixe que não saberia separar as águas. E sabe porquê? Porque é uma actividade sem nenhuma acção. Haveria.Sim. ele me levava à pesca. os olhos fixavam um inexistente horizonte. .Pescar é muito bom. a águia pesqueira volteava. dizia ele. nos quedávamos na margem enquanto olhávamos o rio e suas eternidades.Porquê? .O rio parado? Mas. O avô me repreendeu. segurava uma cana de pesca. . Pescar é um modo de ser peixe nas águas do tempo. O avô dizia de um modo que soava assim: . Pescava no ar. Pensava no nascimento da bezerra? Recordei os tempos em que. O fio pequeno e o anzol ficavam suspensos a uns palmos do chão.Pare de balançar as pernas! . quem pescava. por exemplo.

Uma decisão? A velhice é uma desistência. sem pio. . o avô sempre dissera: . E agora. Ele entendeu os meus cuidados e se explicou: . Ajeitei a manta sobre as suas pernas que despontavam como galhos pontiagudos. sem cio. E era sempre a mesma cantilena: O rio. Mas secar assim tão completamente é coisa que nunca eu podia imaginar. Por isso. . meu neto: você sabe quem é esse rio? . Aquela rejeição me causava estranheza. mais que a chuva. . é uma decisão. Diga. Desistido. meu avô cedera ao tempo. Nem meu pai nem minha mãe nunca me tinham lustrado em mimos. não se pique! Meu avô era o único que me dedicava cuidados. Mas o avô recusou. agora. meu filho. .Quem é o rio? . Seu estado se precipitara desde que soube que o rio tinha secado. antes. ele não fosse já magro. Eu aguardava um só instante: o de desanzolar o peixe. nunca mais bebeu.. uma vez mais. Nunca mais comeu. nem eu lhe reconhecia o pigarrear grave.Já vi o rio minguar. Era assim que ele dizia.A velhice não é uma idade. um pavio. debico nas gotas.estranhei.Vou-lhe contar uma história.Isso é porque o rio desata a mover-se assim que vê gente chegando. tantas vezes. o escorregadio corpo do bicho prateando em minhas mãos.Uma história com final feliz? Eu já sabia: a única história com final feliz é aquela que não tem fim. Macio. sorrindo: . Não é que. Afinal.Cuidado. se extinguia a olhos vistos. Mas. o tom era outro. me doía agora aquele definhamento dele. eu interrompia a sua imaginária pescaria para lhe levar um copo de água. eu bebo como os pássaros. .Não se aflija. um fio. Desta vez. porém.! Nesse jogo de enganos eu me embalava enquanto o mais-velho cantarolava como se espreguiçasse.

a palavra do rio. de novo. já no fim. . Escute com atenção.Não é isso. .Eu escuto sempre com toda a atenção. Depois. eu me embalava como se.Não é uma história. escutará apenas a voz da água. É que vai ouvir a minha voz. no princípio. É um segredo que corre na família.. Enquanto o avô ia revelando a lenda. me entretivesse em pescarias. .

Beijou os filhos. uma azagaia cruzou o espaço e se afundou nas suas costas. abraçou o marido e despediu-se de todos. Ntoweni era como a neta: uma mulher de extraordinária beleza. Antes de adormecer. desperdiçada. nem rios.Se fugir eu lhe mandarei matar.Só lhe darei água se nunca mais sair daqui. e disse-lhe: . Quando ela se aproximava de sua casa. nem sequer charcos. Assim que deu pela sua ausência. O grande senhor apaixonou-se pela beleza daquela mulher. o rei mandou que a seguissem. o imperador soube da sua chegada. desamparada. Na manhã seguinte. logo.A Lenda de Ntoweni No princípio. os céus todos estrondearam e um rasgão se abriu na terra. Mandaram então Ntoweni. Entregou-se ao rei naquelanoite. quando chegaram aqui os nossos primeiros. este lugar não tinha água. . Mandou que ela comparecesse na sua residência. chovia. Das profundezas emergiu um rugido e uma imensa serpente azul se desenrolou dos restos da cabaça. pelo ar e a água se derramou. A cabaça subiu. o monarca ainda ameaçou: . Hoje mesmo você vai ser minha esposa. Ntoweni pensou e decidiu fazer-se de conta. Só no Reino dos Anyiimha é que. Ntoweni escapou por entre a poeira dos caminhos. a avó de sua avó. só lá é que adormeciam os grandes lagos de Chilua. Foi assim que nasceu o rio. Os primeiros habitantes do nosso lugar sofriam e morriam olhando as nuvens que passavam. Nem lagos. Mas quando a vasilha se quebrou no chão. Ntoweni chegou à cidade e. Pois ela levou uma cabaça grande e prometeu que voltaria com ela cheia. para que fosse ao Reino dos Anyumba e trouxesse provisões de água para a aldeia. deixou que ele dela abusasse.

nos tenhamos banhado. saudade da água pesqueira. Sentiremos sempre a saudade como um mar em que. Mas nada soava.Quando meu avô se calou eu deveria escutar a voz do rio. em outra vida. Apenas um silêncio nos magoava como uma ferida interior. . Talvez fosse saudade da águia pescadora.

Nessa tarde. borboleta é alma. O dedo. Mas não foram apenas os miúdos que compareceram. crespos. Melhor seria não o forçar a que recusasse.A pessoa tem alma. me alvejou: . Era um infindar de asas e cores. filho do dono da fábrica. Nos meus dedos ficou presa uma poeira dourada. que mais podíamos fazer senão brincar ao jogo das adivinhas? . Ainda me veio à boca o convite: ele que se juntasse. Pirilampos No coberto do nosso pátio se passou a juntar a rapaziada da aldeia. Todos os meninos se riram do miúdo. rompanteou-se entre nós.Onde é que foi sua mãe? . Que ele é como o Sol: apenas se põe.O pirilampo morre? . no alpendre se haviam juntado todas as borboletas da região. Os miúdos se encostaram nas paredes a dar espaço à fúria dele. olhar esgazeado.Não. Pareciam pequeninas escamas. Prisioneiros naquele exíguo espaço. menos eu. escamas como as de um peixe sem peso. Magoaram-me seus olhos gulosos invejando os nossos risos. Afinal. Ali podíamos brincar protegidos pelo telhado de colmo. . Sem darmos conta. não se desmanchavam assim tanto. . Ao de leve toquei as asas de uma delas. Parecia mais pálido do que era. Mas qualquer coisa me suspendeu. No flagrante da brincadeira vimos passar o menino branco.Sabem qual é diferença entre borboleta e gente? . minha mãe saiu cedo e os meus assobios logo convocaram a miudagem. em riste. Os nossos cabelos. E vieram crianças aos magotes. cabelos finos encharcados num desalinho.Ela foi ao Tsilequene. meu pai.Borboletas. De repente.

se é mentira. meu pai me libertou. A vergonha doía-me mais que as pancadas que se avizinhavam. A mostrar que eo era coisa. . não pai. Meu velho parou. Relutante. . A mostrar que ele era homem.. . não havia nada no oco de suas mãos.Sim. bem que se pode arrepender. ..No Tsilequene? .. mantendo-me pelos colarinhos. Aproximei-me do moço que estendia as mãos fechadas. Com violência. no. Abriu as mãos nas minhas.Sim. nesse. não gente.Mensagem? Da minha esposa? . Como eu previa. Era a voz descolorida do miúdo branco. senhor: trago uma mensagem da sua esposa.Desculpe.. Disse-me que entregasse isto ao seu filho. ele me puxou pelas roupas. . desculpe. Encontrei-a no mercado.Você. Vá já dizendo adeus aos seus amiguinhos. de costas para todos os outros.Senhor. surpreso. senhor..

. com vigor desmanchou o nó que o atava à cadeira: .Está chorar porquê. atacava com a bengala a cadeira sagrada de sua companheira.. já esqueci. lhe caíam pedrinhas pelo rosto. Não faça isso comigo. inteiro. Ntoweni. Ficou assim um tempo. Minha mãe. Saí correndo para a varanda. ele levanta.Um Homem à Espera de Ser Terra Vou. não vou! Era o avô que gritava. Enquanto esgrimia a bengala. rosto enterrado entre as mãos. Ajudei-o a sentar-se. Contudo. porém. não parava de berrar: . na crença daquele sagrado? Até que ele desabou. Em vez de lágrimas. seu respirar sendo um fio mais sumido que o rio. Corri mais a ampará-lo do que a pará-lo. .Não sei. avô? . mulher. Já basta de coisa estranha! Atirou ao chão as pedrinhas. Não pude acreditar nos meus olhos: meu avô. angustiado. Meu avô chorava. se chegou ao avô e sacudiu a cabeça. Você.Mas. filho.Não diga disparates. seus pés raivosos procuravam ainda atingir a cadeira da falecida. Exibi as pedras choradas por seu pai. A mínima brisa. Gritava alto e bom som para que toda a família escutasse. entretanto.Saudade de quê? . Meu pai ripostou: .Estou com tanta saudade. E eu me perguntei: será que o nosso avô alguma vez tinha morado todo ele. ele vai-se. sacudi o ar para lhe restituir o peito.Nunca mais ninguém amarrará ninguém nesta casa! Que era coisa que nem aos bichos se permite.Espere. trémulo. sem corda.. regressara a casa. não faça isso. depois. vai buscá-lo em cima da árvore? . . Porque a bengala já tombara da sua mão tremente.

Era uma concha enorme.Vai ver que. pega no remo mas não rema que é para não ofender o rio. empurrado pela fome e pela sede.Veja o que fiz. ocultou o barco na margem e se abrigou num esconderijo.Ah. Ficou assim uns dias. desatando-o a ele. A culpa é de Ntoweni. o mar não se pode contar. eu nunca lá estive mas já lá muito me perdi! O avô sempre quisera navegar para o estuário. Num remanso. E o tontear do nada no vazio de um búzio. na espera.O mar como é? Ora. Só depois regressou. displicente: .Você entra na canoa. tem o mar. Mas ainda. águas de arribação. O avô abanou a cabeça: . . .. E divagava. meu neto. Servia de peso e ele. deixou que a demora apertasse em nosso coração. Meus olhos ansiosos o cravejaram. E já não era pessoa.Mas a culpa é dela. Todos sempre se opuseram. Diga uma coisa. esse mar.A mãe não desarmou. como se soubesse de segredos. E. proferiu: . depositou um búzio sobre o colo do avô. . Como que para castigo levantei uma das madeiras quebradas. desses caracóis marinhos que crescem até ser do tamanho de uma rocha. porventura? . meu neto: tenho culpa de não ter morrido? Tenho culpa. Olhei em redor: todos se tinham retirado. antes de sair. frases destoadas: tudo não é senão um ressoar de concha. Quem tem um búzio. quebrei o sustento dessa cadeira. Não passou da segunda curva do rio.Isto repara-se. Ele rebaixou os cantos dos lábios. O mais-velho encostou o ouvido na concha e adormeceu enquanto a si mesmo se embalava. num outro tom. fez pesar a sua ausência.. avô. ele foi. Vai ver! Meu pai se resignou. podia até se entreter. Era um barco volteando por esse mar que ele nunca visitara e de que sempre falava: . continuava sem entendimento. estaremos a desamarrar a chuva. entende? Não entendia. Um dia. Ficara eu reparando os estragos na cadeira de Ntoweni. fingiu que foi. Como agora.

Sabe uma coisa? Um dia iremos os dois a ver o mar. Agora. tranquilizou.Avô. cheio de vida. Se ele aprendera tanta coisa. chegara interrompeu-nos a conversa.. contudo.Quando eu era menino.São verdades que esse miúdo necessita ir amanhando respondeu o avô. sem tristeza. O avô estava secando. posar para a morte. Afinal.Meu pai. meu filho.Não leve no peito. eu sabia morrer. Ao pesar aquela nossa tristeza. . não falemos de coisas tristes. avô. o pai tinha razão. Porque seguiu falando sem se deter. o vi todo desaguado. Cão que ladra é porque tem medo de ser mordido. entretanto.respondeu a mãe. Que a sua tristeza não era o morrer. Do mesmo modo.Sabe o peixe. Não nos lembrávamos nós de como ele inventara a viagem rio acima? . . vencer os medos que o atacavam por dentro. Você vai aprender. . que rosto preparamos para esse momento final? . meu neto: toda a viagem é um faz de conta..Não diga isso. isso é tudo fingimento. fingia pescar. . por que fala de morte com um miúdo desta idade? .Pela primeira vez.Ora. . E virando-se para mim. avô. .Conversa . O avô fingia tudo. Minha mãe que. morremos terra. fingia até viver. até a posar para a fotografia. Devia era ter aprendido com o peixe. ressequido como um deserto. Que palavra.repetiu a mãe. morrer é coisa que ninguém sabe. Já viu como o peixe desfalece? Sem cansaço. . num instante. ela se interrogou: que falas seriam aquelas que tanto ensombravam o meu rosto? . sem protesto. Nele eu assistia à vida e seu destino: nascemos água. . Olhei para o mais-velho e. o avô falava da morte.Eu já não tenho tempo. Era o não saber terminar. Parecia ter aberto uma porta interdita. já esqueci como se morre. Não sabia. que já vou para a despedida. . o avô se apoiava na palavra para ganhar força.Inventei mas não menti.Tudo isso é fingimento .

Quem ele? . ajudando-a nos carregos. na ponte. Era ali que minha mãe lavava a roupa quando o rio levava caudal. sim. no escuro.Tia. E logo dei conta: ela se esgueirava de casa.A Confissão na Ponte Morta Estranhei a tia. como se distraía tanto assim? Pois.Sobrinho. não quero que ninguém me veja. Mas foi interdita de lavar quando notaram que.Não discuta. foi tudo culpa dos meus pecados. leve-me o saco. Todos estranhámos: nossa mãe. que era tão atenta aos seus afazeres. sussurrando: . Encontramo-nos no portão das traseiras. furtiva.Fui eu que trouxe esta desgraça... Ajudei-a nesse seu propósito de sombra. me ajude. . de alma e bagagem. . a tia se sentara na mesma pedra onde antes minha mãe lavava as roupas.. quem sabe aqui ele me pode ver. . Me acenava.Eu vou. Há anos que ninguém ousava apoiar um pé nas suas carcomidas tábuas. em ameaço de desabar. Falava enquanto andava.. Leve este saco. uma ponte velha. Eu a seguia. O olhar dela vadiou pela paisagem enquanto suspirava: .E porquê? . as roupas escapavam ao sabor da corrente. se afastando pela estrada a passos largos. Até que chegámos à ponte do Guazi.Ele. As gentes pescavam as peças de roupa mais abaixo no remanso.Para fazer o quê? .Fico aqui. vai-se embora? . invariavelmente. . .

Quando tentei acalmá-lo. ter gravado o nome do nosso lugar.. Minha tia saía de casa sem despedida? Diz-se que despedir é já partir. . .só pode dar fogo. atado com um cordel. . uma velha tabuleta deveria. Segundo ela. passo lento para dar tempo às ideias. As pernas bambas se erguiam e reerguiam. Sua tia não tem culpa nenhuma. Fui andando. . Minha tia parecia uma mancha esborratada. Tanto ninguém chegava que o cemitério nunca fora chamado a crescer. avô. E lhe diga assim: que pedra contra pedra só pode dar fogo. Talvez por isso ela não dissera nenhum adeus. Enruguei o olhar para apurar a luz entre as luzes.Certo. Passou-me um embrulho tosco. Desembrulhou o presente. a nossa vila se chamava Sembora porque dali a gente só se ia embora. . E até invejei a sua coragem: ninguém a não ser os meus distantes irmãos haviam vencido a estrada. A seu lado. desenho murcho em papel molhado.Ela há-de saber. ele me segurou os pulsos para vincar bem a sentença: . em tempos. Diga só assim: pedra contra pedra.E lhe entregue isto.... Cheguei a casa sem ter dado conta do percurso. Sempre soube tudo. A boca abria e fechava como um peixe fora de água. já entendi. Os dedos tortos tremeram mais do que o costume. Percebi que chegara ao charco de Guazi pelo ruído ensurdecedor das rãs. rumo à ponte. .Regressei a casa deixando-a sob o manto da chuva. A tia dizia que ali estivera escrito “Sembora”.Não estou a perceber.Volte imediatamente à ponte! E fale isto a sua tia: diga-lhe que eu sei tudo.. Um faiscar de metal me ofuscou. Ainda parei na estrada a olhar para trás: a tia parecia ter sido capturada dentro de um vidro fosco. . brilhava o velho isqueiro de meu pai. Mas já não se distinguia nenhuma letra.Ela que volte para casa. Quando contei o sucedido ao avô ele foi como que atingido por um projéctil. Na concha da sua mão. avô.

soltando-se do invólucro de plástico. Mas a tia estava em tal encantamento que nem cuidou que a palavra divina estava tombada sobre o chão. .A Bíblia tombou-lhe do colo.

Como se pode.Pois lhe digo: estou bonita. minha mãe se afastava de si. mãe. frente ao espelho.. Estou a chegar ao fim. Pediu que me aproximasse.Mas. Porque. Vidros e perfume se espalharam por todo o quarto. ela atirou o frasco de cheiro de encontro à parede. filho. mãe. Enxugou as lágrimas.Que tal estou. mão na anca. mulher de valer. de repente.. Sem receio.. . Mas o tom ganhava insistência. que este cheiro não é de mulher? Virei costas. Vocês deviam era ter-me visto mais vezes assim. mas muito bonita.Pode alguém dizer. Ela estava ajustando contas com fantasmas: . Mas não tive tempo. . Estava-se abonitando. a minha pressa era desaparecer. para dizer a verdade eu não gosto de lhe ver assim.Eu não aguento mais. Primeiro. Eu não sabia como contrariar. Menos sabia como obedecer. O meu desejo era sair.Me cheire.Quero só que me diga: você acha que eu cheiro mal? . Mas depois ela sorriu. Pegou no frasco de perfume e já se preparava para se borrifar quando hesitou.A Inundação do Sangue Minha mãe me chamou ao quarto..Não sei. não podia nem ver nem escutar mais. A mãe desabou no chão como se ela fosse o último estilhaço. . cheirar uma outra pessoa? Pior ainda se esse alguém é a própria mãe. cheire esse meu aroma natural. inspirou fundo enquanto eu limpava os destroços de sua raiva.. meu filho? . a pedido. . filho. pareceu sentida. em pose: . via-se que não era comigo que falava. realmente.. gesto suspenso. .

Mais perto. Eu sabia o que era: um arbusto verde-escuro que afasta os relâmpagos e traz bons-olhados. já estou atrasada.Ninguém pode saber. Fazia como se cravasse uma faca no peito do mundo. meu pai se adentrasse pelo corredor. de gato. Penetrou no quarto de casal e farejou com porte de caçador. Juntando a força dos dois braços. só. me ajude. Meus pés descalços..Eu acho que ela foi ao rio. Não era o piar aflito das gaivotas: eram gritos que vinham de nossa casa. Escutou um vidro se esmagar por baixo da sua bota. acariciaram os calhaus rolados. leve como uma sombra. E eu corri com ele para o vale. . . ouviu? Ninguém.. Já desistido.Limpe isso. No quintal. Ficou assim.. Os olhos. até escutar o grito agudo da gaivota. O mesmo sonho de sempre. perdi conta de mim. perscrutaram em redor: . um tempo. Vinha guiado pelo cheiro a perfume. no caminho. quebrou um ramo de kwangula-tilo. meu pai espanejando ameaças: . Água em água. onda em onda. Acordei. Meu pai andou às voltas procurando pela mulher. meu velho espetou o ramo na areia branca. Parecia chorar.Não sabe de sua mãe? . Mas não fui capaz de dizer nada. Mais que um beijo: me entregava a amarra de um juramento. E foi no momento certo. Um tempo tão lento que eu me cansei e regressei. Cansado. E saiu.Ao rio? Bateu a porta com estrondo. Como o rio arredondou a pedra: assim eu queria suavizar a palavra e pedir a meu pai que regressasse para casa. pois não tardou que. para casa. percebi os clamores. Depois. Herdei de meu avô o sonho costumeiro de ir ter com o mar. sentei-me no velho barco do avô. E sonhei. Ou talvez dormisse como se aquela fosse a sua cama primeira. estremunhado. ele próprio se derramou sobre o leito já seco. meu filho. Voltou atrás para me dar um beijo. Eu tenho que ir à fábrica. Ser rio e fluir.

o que esse miúdo falou não é verdade. sem gesto. me fizeram parar. Meu pai irrompeu de novo pela varanda.. Ficámos em silêncio. eu só queria brincar contigo. Depois.. Eles que fossem e fizessem estacar a sangraria.É honra de homem.. apenas com o vozear ranhoso da nossa tia: ... eu mato-a! Cheguei à varanda e me surpreendi: na sagrada cadeira de Ntoweni estava sentado o menino branco. a nossa tia sabia dar uso ao seu regresso. ..Você não pode sentar aí. murmurou: . tremendo e fungando.. com modos sonâmbulos. Falei antes que ele abrisse a boca: . mais-velhos. Sem palavra. E lhe suplicava.Cunhado. Bastou o seu olhar fechado como uma muralha. Aproveitei para me aproximar do miúdo branco. com a voz mais doce. Era o moço branco.Vou à fábrica e mato aquela gaja! Nenhum de nós se mexeu. você ainda vai cair. desatou a abrir e fechar gavetas. enquanto anunciava: . Zonzeei por ali.. meu sobrinho. por amor de Deus! Mas os outros. . Mas todos se recusaram: . já era um vulcão. cristais no Céu. vá parar o seu pai. baixou o rosto para esconder as lágrimas.Pai nosso. enquanto meu pai rodopiava como um corvo em seu redor.. até que um leve toque no meu ombro reclamou a minha atenção. O moço ergueu-se...Você. Esgrimia uma catana na rnão. Entrou na arrecadação. minha irmã deve estar no mercado.Como? . O miúdo chorava. não nos podemos meter. Muitos braços procuravam acalmar o velho. .Essa cadeira está quebrada. Meu pai.Eu vinha para brincar contigo.Eu mato-a. Entre soluços. essa é a cadeira sagrada. E disse-lhe: .. Sobretudo. minha tia implorou aos homens que intercedessem. porém. Assim que se deixou de escutar a gritaria no fundo da rua. Não suportava mais aquele cantochão. o filho do dono da fábrica.. por favor. as mal soletradas orações que só podiam trazer mais desgraça.

sempre a evitara. Ele nada disse. Só quando o vi extinguir-se por entre as gotas é que dei conta de que. Seria mais difícil dizer a palavra no masculino. cabisbaixo.. na circunstância. esfarrapado. Talvez porque a pessoa nomeada fosse mulher. durante todo aquele tempo. Quando me dirigi ao miúdo não havia ponta de raiva na minha voz: . quem mandou dizer alguma coisa? . Eu também não posso pensar que o meu pai ande metido com. pareceu-me que a tia o arrastava para uma dança. meu avô não dera sinal. À saída.. eu estava tão atordoado que nem me movi. Mas não o encontrei na sua eterna cadeira de balanço. cunhado. Escutaram-se choros. com todo seu peso: preta.. Antes. deixei as pernas balançarem: eu embalava o filho do diabo. Apoiado na balaustrada. Apenas lançou um suspiro e se fez desabar sobre o chão. Procurei na varanda. ele disse a palavra. Por um momento. com uma preta. . Meu avô desaparecera. A tia se debruçou sobre o meu velho e disse: . Meu pai se deixou conduzir como um ébrio. Mas a pronunciara por extenso.Nunca mais volte aqui! Ele se retirou. Mas não encontrava palavra nem crença. os braços cobertos de sangue. Eu não encontrava um deus a quem suplicar. rumo a esses embalos fatais com que ela jiboiava os homens. venha que lhe vou lavar.Venha. Minha tia enganavase nas rezas. Desta vez.Meus pais não querem que eu brinque convosco. Dos meus lábios fluía uma espécie de oração.Quem o mandou vir aqui. deixou o saco com berlindes sobre a tábua do portão. Nosso pai voltou horas depois. Seria motivo de alarme mas. Comedidos para não despertar os maus deuses.

Fazíamos exactamente o contrário. em desespero. com clareza. Eu já não corria.Lutavam? Ela respondeu. Escorregámos. .Esse homem nunca chegou de me tocar. foi matá-la lá. Esse destino revivia agora em minha mãe. Nem meio caminho percorri. apenas cambaleava ao sabor da inclinação da encosta. fazê-la pagar pela traição. a consumação do presságio. A primeira Ntoweni sacrificara a sua vida para libertar a água e salvar os seus. O que tinha sucedido? Os dois se despenharam dos rochedos.Ele não me fez mal. Acontecera assim: no início ele queria matá-la. nesses penhascos. Um camponês me alertou: . E lhe disse com o mesmo sossego com que me dizia agora: . incapaz de se levantar. Tudo em redor rodopiava. sorrindo: . sem querer.Procura a sua mãe? Pois. Estava ferida. filho. A ideia de encontrar minha mãe golpeada me roubava as forças. meu corpo pingava como se eu tivesse atravessado um oceano. Minha mãe enfrentou aquela carga com serenidade. Quando pisei a margem. Seu pai não me magoou. foi seu pai que lhe levou para o rio. uma voz de mulher. Então. Ambos ficaram feridos nessa queda. Escutei. Nada sucede de primeira vez. Exausto. tombei. . .A Derradeira Gravidez da Tristeza Saí correndo. mas à minha cabeça chegava. então.O contrário? . tudo é reedição de algo já sucedido. . Era minha mãe que chamava.Nós estávamos namoriscando. Me precipitei para a fábrica. era isso: o renascer da lenda.

Disse-me que eu cheirava à minha raça. Tinha em casa um frasco de cheiro que sobrara de sua festa de noivado. E cortou.Não fui nem vou com nenhum outro homem.Foi com o patrão principal.Afinal? Meu pai parecia ter perdido a razão de sua raiva. Parecia quase repreendê-la por não ter acedido.Não foi? .Para ele sofrer de ciúme! A vocês. A mãe não quis alongar conversa. Vocês são fracos por falta de saber sofrer. mesmo.Desde o primeiro dia. No fundo. mulher? O tom dele parecia. afinal. . esse que tanto se armava em pronúncia de branco que já os lábios se afilavam. não fui. Minha mãe disse que ele suspirou. por que não contou desde o princípio que. nunca esse outro lhe tocou? . . Depois. parecia uma bandeira de orgulho. . por que não disse logo ao pai. Olhei o rosto dela. um frasco de perfume. E lhe quisera oferecer. sim. .Meu pai não acreditou. Suspirei. . mãe. antes. me surgia como uma traição.Verdade. . no momento.E por que não foi. você foi com esse branco? . .Contaram-lhe essa história? . levantou o rosto e “inquiriu: . eu me libertava da obrigação de ser cúmplice de algo que.Não. ele me desejou. Mas o homem não era capaz. O branco ordenou que ela se devia perfumar. mãe? Esse branco não abusou da senhora? .E. E foi esse vidro que ela quebrara de encontro à parede do quarto. Mas ela recusara. preto ou branco. homens. Uma serenidade interior lhe iluminava o semblante. como se fosse em alívio. faz bem uma dor dessas. Também eu sorri.Eu pensava que a mãe estava repetindo a lenda de Ntoweni. de desilusão. Disse que conhecia bem aquele ranhoso desse negro. foi com o branco.Não foi com esse negro que eu negociei meu corpo.Mas. então. . célere: .

. dizermos. Nunca diga que uma mulher foi sua. seus irmãos.É o que lhe dizia. Minha mãe colheu essa gota na ponta do dedo e. olhou o leito seco e sorriu. Voz amaciada. Essas são coisas para nós.. em confissão: nunca ela me dedicara nem mimos nem doçuras. . A senhora está ferida. Tivera filhos. como se tivesse intenção de fazer parte da casa.A primeira vez que eu o vi. . meu filho. venha que eu a ajudo a regressar. mãe? . O que me dizia. Seu rosto me cumprimentava. a semeou entre as pestanas. meu filho. filho.Mãe. . Mas da tristeza. como nunca havíamos conversado. Era por isso que aquela chuva. E ali ficámos falando. . temos uma outra versão.Pois essa é a versão que os homens contam. Eu nascera fora do tempo. disseram.Dou-lhe um conselho. Eu não lhe saí do ventre. foi o avô.E diz o quê.São segredos entre mulher e água. você ainda não tinha nascido. E nunca somos de ninguém. pronto a tomar conta dela. depois. Nessa altura ela prometera: . Sim. mulheres.Sim.Outra versão? . estava falando fundo em sua alma. Ela ficou olhando-me com ar indefinível.. mulheres. Só nós sabemos de quem somos. Da tristeza de ter perdido os outros. aquela chuva que não tombava. agora já chega de falar em coisa triste. Nós. Levantou-se apoiada em mim. ela me vira numa gota que escorria pelo vidro. .Sim. já ela se cansara de ser mulher. .. Eu o vi numa gota de chuva. todos tinham partido. você me nasceu da tristeza. retomou a palavra: . Procurava agora uma desculpa? Que se tinha contido nos afectos para se defender de sofrer.Na próxima tristeza hei-de chorar-te a ti.Disseram-lhe que o imperador possuiu a nossa primeira avó? . ela tomava o gosto de ser mãe e me ver ali filhando.

A roupa que não fluísse.Sabe por que eu soltava as roupas. flutuando na ondeação. meu filho? . essa roupa pertencia ao culpado ou à culpada.Essa vida é cheia de graça.. ela mesma tinha sido despejada naquele remanso como se fosse um pano largado das mãos de uma lavadeira. Era um velho procedimento para se revelar traição. . Se afundou em mim. tantos anos passados. Essa roupa não se afundou na água. Agora. meu filho.Para descobrir com quem seu pai me traía. meu filho. E houve roupa que não seguiu na corrente? Houve sim. . A lavadeira devia soltar os panos na corrente.Como posso saber? . Era ali naquela curva do leito que naufragavam as peças da roupa que ela deixava escapar na corrente.

O velho resvalou com toda a sua ausência de peso.Eu sabia desde o começo: esse chuvilho era ela. para confirmar se meu avô já dera conta de si. Até que reparei no seu vulto. . ela regressou ao cadeirão onde meu pai estava recebendo tratos e inquiriu a minha mãe: . meu velho se entregava aos tratamentos da tia. por entre a cortina do chuvilho.Ajudar. murmurou: .Não diga isso. .Ela? . Então. eu é que faço isso! A tia se arredou. Eu queria ficar um bocadinho mais. Esse concho não sai daqui. Parecia debruçado sobre a canoa como se a empurrasse. . .Deixe.Meu neto. mana? . Minha mãe libertou-se com firmeza dos meus braços e avançou para junto do meu pai.. saborear um tempinho. avô. Mas agora é já momento de eu ir.Posso ajudar. Daí a um momento. junto ao poço. . Dirigi-me ao alpendre... mais lá em baixo. vamos empurrar o concho. Deixei as duas entretidas. pode. eu amparando a minha mãe. Na sala. me ajude a levar este barco até ao rio. Olhei para o céu. cuidando de meu pai. Lá estava ele.Era Ntoweni que me estava chamando. não fosse ter sido arrebatado por alguma brisa. .É Ntoweni que me está a chamar. Mas a sua cadeira permanecia vazia. Tombou como uma folha. avô.A Viagem do Avô Entrámos em casa. retirando os panos e ligaduras das mãos da irmã. .. Ela lhe aplicava limpezas e curativos.Não. porém.

É ela que se mudou para o céu. meus pés se vincaram no chão. depois nunca mais poderia voltar .Não. meu neto.. ainda a embarcação foi cedendo. Não sei que secreta força me fez aceder.. então. . Ainda um riso triste. meu neto. . pronto. Recusei. agora acabou conversa.Eu não estou a partir. meu neto.Juro.. Desta vez é que vou visitar o mar. por força divina.Não podia? .Você não entende? Essa água que está suspensa.Porque aquilo era uma partida desses artimanhosos da sua família. No início. .. se o rio termina. Eu vou só ver o mar. ele resvalasse para o rio. Era demasiado para mim.Como assim.Deixe que eu ajudo. Me ajude a empurrar o barco. O avô. . corpo jogado de encontro ao peso do barquito. . como é que eu poderia voltar? Eu ri-me. E. Foi quando escutei a voz de meu pai: . . avô! . meu filho. Lentamente. . . avô? .Então. Você sabe por que é que. agora me ajude. Segurei o barco como se tivesse medo que. eu nunca fui lá? . O soluço me amarrava a voz. essa água não é nenhuma chuva. é. . Uma partida para se verem livres de mim. Meu avô estendeu-me o braço como se fizesse menção de me erguer do chão. antes.Se eu fosse lá ao estuário. O estuário: não é lá que o rio termina? . mudou suas tonalidades.Mentira. Eu sabia o motivo desse pedido. Tocou-me as mãos como sempre fizera quando pescávamos.Mas qual é o seu medo? O rio não está seco? Eu já não tinha palavra.Essa água é Ntoweni. não sei. Mas logo ganhou um peso intransponível.Esse barco não sai daqui.Como não? ..Me diga. . Juntei músculo e tristeza para empurrar a canoa.Vá.Sim.

arregaçar a alma inteira e tomar a dianteira sobre o destino. o falir da sua esperança. A canoa e mais a viagem fariam a ponte que faltava. o meu pai. Meu pai estava entupido de si próprio. não sendo o mais idoso era o mais envelhecido de todos nós. afinal. Depois voltei a aplicar-me no esforço e juntos conduzimos a embarcação para o leito seco. . fechado nas minas.Os braços fortes dele se aplicaram no ventre da canoa. Foi assim que o avô falou.A ponte entre o rio e a chuva? . sem mais explicação. É por isso que tememos os bichos que vivem nas tocas -. está sempre saindo de um subterrâneo escuro. Eu ajudei-me a mim. Escave agora no céu. Olhei o rosto do pai à procura de algo em seu olhar. Ainda levei um tempo a ajustar-me ao espanto.Eu não o ajudei a si. então: .A ponte entre eu e você. Do outro lado do chuvilho estava um rio parado. fixando a canoa. Aquela chuva se imobilizava junto ao solo? Pois também ele. O verdadeiro motivo daquela modorra não era ele ter estado.Por que me ajudou a levar a canoa? .Você já escavou no fundo da terra. Meu pai entendeu. E lhe mostrara como ele. O braço sobre o meu ombro me dizia para sentar. anos e vidas. o meu pasmado pai. Porque era o mais desistido de tudo. arregaçar as mangas e os braços. . O verdadeiro motivo de meu pai ter desistido era porque ele se pensava como o centro de si mesmo. O avô entendera o porquê da desistência de meu pai viver. Na outra margem estava Ntoweni. Chegados ao rio. partilhamos com eles esse mundo feito de trevas.perguntei. A solução era sair de dentro de si. . Ele fora sufocado pelo seu umbigo. meu filho. segredos mummrados por demónios em chamas. Estávamos cansados ou o cansaço era um modo de disfarçar a nossa tristeza? Perguntei. tinha estancado junto à vida. Meu pai me queria confessar intimidades. exaustos. Que o avô tinha falado com ele. filho. Todo homem. Mas ele guardava o rosto. O avô queria a viagem. nos derramámos na areia. . o mais alheio ao alento e à crença.

O remo sou eu mesmo.Eu me sinto na boca da mina.. Meu velho espiou-me o semblante para confirmar a minha tristeza. . Meu pai apontou a proa em direcção ao mar. Trouxemo-lo nos braços como se ele fosse uma criança. . Sua mãe me dá à luz.Sim. Eu coloquei os remos dentro da canoa.Não fique triste. Abanei a cabeça em recusa desse tempo de verbo mais do que em resposta a meu pai. Era assim que o mais-velho dizia. espreitando a claridade. porque a ponte entre ele e minha mãe já estaria refeita. sem pressa. Depois o deitámos no barco. O nascer é que é para sempre. E fomos buscar o avô. filho.. Mas ele devolveu-mos. . a paixão renascida da cinza pela fagulha do ciúme. para subir a ladeira. Que tudo isso é um engano. Você lembra como dizia o avô? Dizia? Meu pai já falava do avô no passado.O amor não é a semente. Não é o morrer que é para sempre. Nos erguemos. É isso que eu sinto.Não preciso. O amor é o semear. . .

Um silêncio viscoso como a chuva suspensa. E pulávamos. No caminho. Surpreendeu-me meu pai. em silêncio. . isso ambos sabíamos. já não há fumos. De súbito. Subimos a ladeira como quem regressa de um cemitério. ribombaram trovões tamanhos que eu vi o céu rasgando-se como um papel sem préstimo. Mas nós estávamos em pranto. os fumos desvaneciam. O avô ficara dentro da canoa.Lavado seja Deus! Foi a alegria total. deflagraram ventanias e cacimbos. . Depois. apenas para que acreditássemos que nada mais tínhamos que fazer junto dele. pai. Os nossos olhares se cruzaram de espanto. Em nosso pensamento certeiro.Os fumos.Foi o rio. foi o rio! . tudo ganhava razão: a força da água é que alimentava as máquinas. dançávamos.. Perto de casa.A fábrica! Os motores da fábrica tinham parado. em girações e vertigens. Nenhum de nós chorava. tocando-me no ombro: . meu pai e eu evitávamos trocar olhares.O Suspirar do Fumo Regressámos. de repente. O zinco gargalhava com a chegada da chuva. . E ele estava certo. a fábrica desmaiara. eu e meu pai. festejávamos. até se formarem nuvens espessas e cinzentas. As grandes chaminés já não vomitavam fuligens escuras. Fingira adormecer. O rio derrotara a fábrica..gritava meu pai. E logo se iniciaram as mágicas tintilações no nosso tecto. As gotas espessas escorriam por nós como se daquele banho fôssemos nascendo. ancorado no leito seco. gotas e poeiras. A tia tombou sobre os joelhos e se benzeu: . tudo se juntou num remoinho imenso e subiu nos céus. O rio se extinguira. foi como se esbarrássemos num silêncio.

esse costureiro da água que entrelaçava o pingo da chuva com a gota do rio. porém.Sim. O rio refazia as suas margens. Razão tinha a tia. Eu tinha os olhos grudados nele quando inspirou fundo.. de súbito. Quando olhei em volta vi que a família inteira se havia ali ajuntado. instantes antes. descemos até à margem. Me senti um mineiro. a água se vestiu de caudal. Já no fundo do vale. Procurava o lugar onde.. límpido e cristalino. . caminhando rumo à ponte. ele a fez tombar sobre mim. mão na mão. Eu não sabia como se agradece a um rio.menti. a veia de um afluindo no corpo do outro. Meu pai juntou as palmas das mãos. ganhando fôlego na boca do planeta: também para mim o ar se estreava.Vamos ao rio. Essa água nua. para colher aquele primeiro jorro de água. O braço dele ampliava o meu pulsar. ele me deu a mão e. E se escutava já o remoinhar alegre da corrente. Como se me estivesse dando um novo nome. meu pai estacou junto a um tronco de árvore. Era ao fio do tempo. o aceno de um lenço: minha tia ia ou regressava? E. depois. gorgolejando por entre a areia. meu filho. E mais lá. E ele voltou a falar: . Os pés descalços das mulheres chapinhavam. Segui em rumo contrário à correnteza. se debruçou para recolher o ramo de kwangula-tilo. assim. pai . como faria ao sair das profundezas da mina. acabada de nascer. Vamos agradecer. em suas rezas: cristais no céu. Meu velhote. enlaçando meu pai. num compasso de dança. Me aproximei. Então.Sempre foi esse o pilão que bateu por baixo do mundo. À medida. que os meus pés procuravam caminho entre as rochas eu entendia: não era ao rio que iríamos agradecer. Aos poucos. como .Está a ouvir o pilão? . em concha. Ele estendeu o braço para encostar a sua mão sobre o meu peito. Cruzei com a mãe que rodava. Foi quando sucedeu: do buraco onde estava espetada a planta desatou a despontar água aos borbotões. havíamos deixado o avô.

A última coisa que vi não foi a canoa mas a cabaça tombando das mãos da primeira Ntoweni. Mas o barquinho foi. poderia eu recolher o seu corpo magro e o trazer de volta a nossa casa? . sagradeando o nosso lugar. trazendo diante de nós as nossas vidas de antes de nós. junto à outra margem.um faiscar de claridade. perdendo matéria.gritei. sem mesmo eu saber. fluviosa. Meus passos se vão tornando líquidos. a voz submersa no remoinhar da corrente. sem outra finalidade que riachar. E de novo gritei e gritei até deixar de me escutar. como não está o coração. . vogando em nosso peito. E da cabaça irrompendo. Ainda hoje meus passos se arrastam nessa travessia do rio. O coração me atordoava enquanto lutava contra a corrente. se dissolveu no horizonte. diluindo-se no azul da correnteza Assim se cumpre. entrevi a velha canoa. a intenção de meu velho avô: ele queria o rio sobrando da terra. a serpente prateada da água. olhar perdido na outra margem.Avô! . A pequena embarcação já vogava. Um rio assim. Como ele sempre dissera: o rio e o coração. O nosso mais-velho estaria ainda dentro do barquinho? Estaria vivo. sempre nascendo. Milagre é o coração começar sempre no peito de outra vida. o que os une? O rio nunca está feito. Ambos são sempre nascentes. Ou como euhoje escrevo milagre é o rio não findar mais. lenta. ao sabor da primeira ondulação. feito só para existir.

Silêncios O Peixar do Tempo A Lenda de Ntoweni Borboletas. Pirilampos Um Homem à Espera de Ser Terra A Confissão na Ponte Morta A Inundação do Sangue A Derradeira Gravidez da Tristeza A Viagem do Avô O Suspirar do Fumo .Índice Um Gotejar Sem Chuva Fumos e Névoas Pingo Voando Sem Peso O Fluir do Rio Seco O Adiado Príncipe Visões de Peixes Solares Uma Estranha de Unhas Rubras Segredos.

Foi jornalista. pois assim você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras. com pós-graduação em Educação obtida em Inglaterra. foi galardoado. .Mia Couto nasceu na Beira. outros prémios e distinções (de que se destaca a nomeação. biólogo. será um prazer recebê-lo em nosso grupo. Danuta Wojciechowska nasceu no Cuibec (Canadá) em 1960 e é licenciada em Design de Comunicação (Zurique). a venda deste e-book ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. ilustração e cenografia. É professor.com/group/Viciados_em_Livros. de Terra Sonâmbula como um dos doze melhores livros africanos do século XX). o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. Vive e trabalha em Lisboa desde 1984. Moçambique. onde se dedica ao design. escritor. por um júri criado para o efeito pela Feira Internacional do Livro do Zimbabwe. em 1955. de maneira totalmente gratuita. Dessa forma. Entre. A generosidade e a humildade é a marca da distribuição. pelo conjunto da sua já vasta obra. Recebeu o Prémio Nacional de Ilustração de 2003. portanto distribua este livro livremente. Esta obra foi digitalizada e revisada pelo grupo Digital Source para proporcionar. Em 1992 fundou o atelier Lupa Design.google. com o Prémio Vergílio Ferreira 1999. Está traduzido em diversas línguas. Foi a candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen em 2004. Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original. Se quiser outros títulos nos procure : http://groups.

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