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Hey, you look bad, long time no
seeing you in a while. Have you
gotta felling you've been loved?
Alguém além de mim gosta de equipe:
Beat Crusaders? Espero que sim.
Creio que tenham notado a Redação: Gustavo Martins,
Bryan Dias,Matheus de
demora em lançar essa edição.
Souza
Bem, estávamos reformulando
várias coisas e planejando diversas Colaboradores: TAXD,
Hanzo, LukPla60, Emanuel R.
coisas para a revista.
Marques, Wildes Junior,
Para começar temos a estréia Diagramação: Aero,
d'O Engenheiro de Sonhos, a Gustavo Martins
série do Wildes "Alex Crosslight" Artifinalismo: Aero,
Junior cujo prelúdio lançamos na Gustavo Martins
edição passada.
Edição: Gabriel "the gabs"
Também trazemos nessa edição
contos especiais passados nos
universos de World of Humans,
Chantel e Otello.
Outra estréia é da nossa nova
seção de matérias e para começar
trazemos para vocês um texto
sobre o cenário de ficção científica
"Steampunk".
Contato:
Bem, não vou mais enrolar vocês,
projetoredacao@gmail.com
muitas coisas os aguardam.
Boa eitura.
Boa diversão!
(Gustavo Martins)
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Sumário
Apresentação .................................................................. 3

Sumário .......................................................................... 4

Entrevista ....................................................................... 5
Wildes "Alex Crosslight" Junior . ................................. 5

Matéria ............................................................................ 9
Cenários de Ficção - Steampunk................................... 9

Sagas .......................................................................... 12
Chantel . ...................................................................... 12
World of Humans ....................................................... 19
Guerreiros Predestinados . ........................................... 24
O Engenheiro de Sonhos ............................................ 29
Madise Ruf Golum .................................................... 35

Contos e Crônicas ....................................................... 40


Chantel - Hare ............................................................ 41
World of Humans - Zero ............................................ 48
Otello - Passado .......................................................... 50

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ENTREVISTA
Wildes "Alex Crosslight" Junior
por Gustavo Martins

Hoje entrevistamos Wildes Gustavo: Eu tive o prazer de
dos Santos Junior, vulgo Alex ler um trecho da história, assim
Crosslight, nosso mais novo como tiveram todos os nossos
autor. leitores. Pude perceber que os
Falamos com ele sobre seu sonhos serão um aspecto bem
projeto passado, planos futuros recorrente, algo como discussão
e sobre sua série "O da realidade. Tem algum
Engenheiro de Sonhos". ponto em especial que
pretende explorar?
Gustavo: Hoje estou Wildes: De fato, como andei
conversando com ninguém recentemente lendo algumas
menos que Wildes "Alex obras literárias de Agatha
Crosslight" Junior, o novo autor Christie, em especial os livros de
da Projeto Redação! sua personagem Hercule Poirot,
Decidimos adicioná-lo na pretendo explorar mais o ar de
equipe após o sucesso de sua investigação da protagonista
história "Otello", a qual receberá e narradora do Engenheiro,
um conto na nessa edição. Angeline.
Além disso, ele estreará uma Também pretendo explorar
nova série: "O Engenheiro dos mais aprofundadamente e
Sonhos". Pode falar um pouco ao mesmo tempo, elaborar o
sobre ela? conceito do tipo de "dom" que
Wildes: Certamente. O o irmão de Angeline tem na
Engenheiro dos sonhos é história.
basicamente uma versão Mas de resto, pretendo deixar
"contemporânea" do universo de para os próximos capitulos e
Otello. É claro, com adições de deixar que os leitores fiquem na
alguns "trechos" e conceitos de curiosidade até lá.
filmes, livros e outras obras que
admiro. Gustavo: Sobre o irmão da
Em especial a série Angeline, acho que tenho que te
"premonição", da onde eu me agradecer.
inspirei o estilo e o desenvolver Bem, vejo que suas influências
da história. variam bastante. Na sua obras
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anterior, Otello (que você ainda Wildes: Admito que não. Mas
não terminou), havia um lado se for bom, pode acreditar que
sombrio muito forte, algo que eu leio
pareceu presente em todas as
suas outras obras. Gustavo: Acredite em mim, É
Porque sempre utilizar essa bom.
temática sombria? Mas voltando ao assunto da
Wildes: Quanto ao irmão da entrevista, você também terá que
Angeline, eu tenho esse costume escrever um conto. Tem algo em
de introduzir amigos ou outros mente?
autores em meus trabalhos, Wildes: Já estou trabalhando
especialmente quanto a escrita, nisso, posso dizer que esse
por que como posso dizer, o one-shot de Otello trará não
que eu não faço com eles em só o universo de Otello mais
realidade, posso descontar em aprofundado, como também a
história. Ja o fato da minha circunstância daquele lugar estar
temática, como meu amigo como está.
Lucas Felix que é sonoplasta O que posso adiantar é que
esclarece em suas composições: assim como a história original,
"Quem compõe estas obras o spin-off também será em
é o subconsciente do autor". primeira pessoa, admito que
Confesso que tenho medo dessa amo este tipo de narrativa, por
temática principalmente em que você acaba encarnando o
filmes ou seriados, acredito de personagem.
minha parte que a exploro para
superar meus medos quanto a Gustavo: Concordo com você.
isso. Há trechos do Otello que É algo muito… tocante. E como
também me dão medo quando foi seu contato com esse tipo de
os materializo na mente, como narrativa?
o caso do Orpheu caindo de Wildes: A primeira vez que
um precipício e tendo seu corpo tive contato com ela, se não me
todo destroçado, mas como eu falha a memória, foi quando li
disse, meu objetivo é buscar me o livro "Mataram meu pai", o
auto superar nesses meus receios. autor me foge em mente agora.
Ele é dividido em três narrativas,
Gustavo: Isso me lembra de sendo a do irmão caçula, a da
Lovecraft. Já leu? irmã mais velha e da empregada.

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Quando eu comecei a lê-lo, senti sentindo no momento sem fazer
como se as dores e emoções do idéia do que esta mesma tem.
menino fossem transmitidas
até mim. Você observa não Gustavo: Sei exatamente o
só o universo nos olhos da que você quer dizer
personagem, como também Agora que você estreou
imaginando o que pode estar realmente, como está se
passando ao seu redor. O bacana sentindo?
de narrativas em primeira pessoa Wildes: De tanto estar
e que me atrai muito é que elas acostumado ao estilo acabou
trazem um suspense maior para que pra mim fica complicado
mim. Você não sabe o que pode escrever uma história sem ser em
estar acontecendo com outros primeira pessoa. Essa narrativa
personagens fora do "alcance de me deixa mais confortável de
interpretação" do narrador, o que alguma maneira, não sei explicar
me deixa mais curioso e como bem esse ponto.
eu disse, imaginando o que pode Acho que pelo fato de
estar acontecendo por "trás dos descrever o mundo aos olhos do
bastidores". personagem, pois dependendo
Agora, o primeiro contato do mesmo, ele pode não ter uma
quanto a escrita não sei se foi o visão tão complexa quanto a de
primeiro realmente, mas tenho um narrador em outro estilo de
certeza que não, só que até escrita.
meu alcance , foi no concurso
da Santuário RPG Maker Gustavo: Entendo. Essa é
de história de terror. Onde uma pergunta que tento fazer
participei com uma inscrição para todos os autores que
de mesma narrativa, só que entrevisto: Você tem alguma
na visão de uma gestante, lá técnica especial para quando está
comecei a pegar gosto pelo tipo escrevendo?
de escrita, o qual é muito difícil, Wildes: Sinceramente, sim
pois você tem que ter bastante Eu escrevo a maioria das
cautela com a forma que vai minhas histórias quando eu
ditar cada trecho. Mas as vezes é estou morrendo de sono. É lá
inevitável alguns deslizes como o que entra o "WTF" de muitas
personagem que narra a história delas.
saber o que outra pessoa está É claro, quando eu passo

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a um amigo meu para ler, Gustavo: E temos um
especialmente escritor, eu não vencedor!
escapo de um puxão de orelha Wildes: Posso dizer que essa
e um aviso: "Revise! Tem erro minha "técnica" é baseada na
aqui e ali!”, por isso eu tento ao dele. Chega a ser similar como
máximo escrever no horário que você mesmo afirma só que com
me sinto aconchegado a escrever alguns pontos de diferença:
e quando eu estou no pique ou A - Bêbado, realmente estou,
pelo menos com a mente mais de sono...
acordada, reviso elas no word ou B - Clássico pra mim, só OSTs
broffice. de jogos...
C - Bêbado, de sono...
Gustavo: Acho que essa é a Tocando nesse ponto, Otello
segunda técnica mais estranha foi escrito dessa forma, quando
que conheço eu estava ouvindo Nefertiti,
Wildes: É que quando você ta do Original Sound Track de
com a mente "pré-desligada" por Mana Khemia, nestas mesmas
assim dizer, você acaba deixando condições que eu falei.
seus problemas muitas vezes de Para cada história que eu
lado, e do nada algo toma conta escrevo, ela se materializou ou
de sua cabeça e você passa para o pelo menos se desenvolveu a
papel sem raciocinar o que você partir de uma musica diferente.
ta escrevendo. O Engenheiro de Sonhos não
me lembro precisamente qual
Gustavo: É bem parecida com OST ou musica eu tava ouvindo
a outra técnica no momento, mas acredito
A diferença é que ela consiste que seja alguma próxima a
em escrever sobre três condições: característica da que baseei
A - Você deve estar bêbado; Otello.
B - Deve estar ouvindo
algo clássico ou vendo Monty Gustavo: Bem, estamos
Python; acabando nossa entrevista, Alex
C - Você deve estar bêbado. Porém um ultima pergunta
Wildes: Isso me lembra de um antes da sua mensagem final.
dos escritores da revista, o Victor Está pronta para a Pergunta
Biancardine. Final?
Wildes: Pode fazê-la

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a equipe da Projeto Redação
Gustavo: Quem matou Odete por estar recebendo de braços
Roithman? abertos mais um conto meu,
Wildes: Confesso que não fui e principalmente a esta
eu entrevista. Espero que gostem
do Engenheiro assim como
Gustavo: Bem, qual sua gostaram/gostam de Otello,
mensagem final para nossos pois o mesmo empenho que
leitores? estou aplicando nesta história, o
Wildes: Existem certas coisas Engenheiro receberá a mesma
que exigem paciência, dedicação quantidade.
e principalmente fibra. Não
vou entrar em mera melosidade Gustavo: Obrigado pela
porque posso acabar falando entrevista. E nós ficamos por
alguma bobagem. O que posso aqui, pessoal.
dizer é que se você tem um
objetivo, não tenha medo de
quando errar, achar que vai errar
novamente, pois todo mundo
comete erros e isso ao invés
de ser ruim, é algo excelente.
Errar faz com que você saiba
onde está algum defeito no que
fez, e assim te faz não só. As
vezes, começar tudo de novo,
como saber exatamente por
qual caminho percorrer e saber
como percorrer. Isso se aplica
a tudo, na vida, na escrita, em
programação, música... O que
quero dizer é que não encarem
um erro como um receio, mas
sim como um aprendizado, pois
assim que se aprimora mais a sua
técnica e sua experiência com o
que está fazendo.
Eu queria era muito agradecer

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MATÉRIA
científica européia. Outras
Cenários de Ficção obras mais recentes como a
série de Televisão “Wild Wild
Steampunk West” e o livro “Titus Alone”
apresentavam conceitos que se
Por Gustavo Martins
tornariam comuns ao cenário,
mesmo tendo sido feitas muito
Surgido entre as décadas
antes do surgimento do termo.
de 1960 e 1970 (embora o
A popularização do estilo
termo tenha surgido apenas na
é geralmente creditada ao
década de 1980 numa carta de
livro “The Difference Engine”
K. W. Jeter), steampunk é uma
de William Gibson e Bruce
subdivisão do cenário de ficção
Sterlings, na qual conseguem
científica, que pode ser descrito
criar um computador mecânico
como “retrô-futurista”.
movido a vapor em plena Era
Numa visão geral, o
Vitoriana, fazendo todos os
steampunk seria um cenário de
avanços tecnológicos trazidos
evolução cultural alternativa,
por essa invenção com um
na qual a Era Vitoriana
século de antecedência. Desde
jamais perdeu força, assim
então dezenas de obras em
influenciando fortemente a
várias mídias foram criadas em
tecnologia e a moda do mundo.
cima do gênero variando desde
Outra diferença tão ou mais
animações como “Steamboy”, de
importante é a ausência, ou
Katsuhiro Otomo, e “O Castelo
menor uso, da eletricidade, sendo
Animado”, de Hayaho Miyazaki,
o vapor a mais comum forma
até filmes como o “Van
de energia. Esses dois fatores
Helsing” de Stephen Sommers
levam a grandes divergências
e o “Sherlock Holmes” de Guy
do cenário em relação ao
Ritchie, passando obviamente
mundo como os conhecemos.
pela literatura em livros como
Os metrôs, por exemplo, jamais
“Leviathan” e “Behemoth”
existiriam e em seu lugar
de Scott Westerfeld e “Anno
estariam as locomotivas a vapor.
Dracula” de Kim Newman.
Para muitos, as influências
Uma das marcas do
primárias do gênero foram
Steampunk é o exagero. É
as obras de Julio Verne, H.
comum ver em obras desse estilo
G. Wells, Mary Shelley e
máquinas complexas executando
outros autores de ficção
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tarefas simples. Engrenagens à vapor.
vista e vapor são marcas visuais Pelo fato do vapor ser a
muito usadas também, o que principal energia motora
acaba por remeter à revolução do mundo, a contaminação
industrial. Uma predominância ambiental é um fator recorrente
de tons de dourado, marrom e na ficção steampunk. Por ter
preto dá ao todo um aspecto pulado a etapa de descoberta
sujo, contrastante com a moda da eletricidade, a sociedade
sensual onde prevalecem os continuou dependente das
corsets (espartilhos) e saias para fontes naturais não-renováveis
as mulheres e ternos e fraques ao de energia, como carvão e
estilo europeu para os homens, madeira, fazendo com que
tudo incrementado por vários a queima destes materiais
e vários acessórios de metal e gere um atmosfera escura e
couro no melhor estilo inglês do cinzenta, muito similar àquela
século XIX. vista na Londres do início da
A arquitetura e os visuais industrialização. Isso dá ao autor
tecnológicos são, como foi um gancho inicial para sua obra
dito, completamente baseados ou pode muito bem servir de
em metal, madeira e couro, ferramenta de roteiro. O próprio
sempre seguindo a esquemática desenvolvimento acelerado
de cores onde o dourado e o da sociedade pode gerar
preto prevalecem e a madeira interessantes reflexões sobre
serve de referência ao estilo uma sociedade futura imatura,
de época. Os prédios clássicos incapaz de lidar com o próprio
europeus são estilizados com poder. As opções são muitas e
chaminés, grandes portais de aço diversificadas.
e complexas estruturas metálicas Hoje existem grupos como
externas. As máquinas repletas a Liga Steampukn, que tentam
de válvulas de regulagem, disseminar a cultura Steampunk
exaustores, canos de escape e no Brasil, onde ela ainda é
diversas outras partes comuns pouco conhecida, apesar de vir
ao maquinário industrial geram ganhando espaço inclusive em
uma ligação entre o passado e o grandes eventos.
futuro, pois apenas nesse cenário
é possível ver navios voadores
propulsionados por motores a

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Chantel

Capítulo 11
Zona Zero.
Segundo Hans, aquele era o apelido que deram à Sala de Testes do
Instituto.
Normalmente ter de ir para um lugar com um nome como esse me
deixaria preocupado, mas naquele momento chegava a ser reconfortante.
Não sabia se teria coragem de participar de tudo que estava prestes a
ocorrer sem o devido preparo. Não contava com muito tempo, porém
daria o meu melhor para ao menos dominar aquela magia e Chantel e
os outros deviam dar conta de Hipnos.
Ao menos era o que eu esperava.
Era um dia frio e de céu estava nublado em que o vento das
montanhas baixava ainda mais a sensação térmica. Todos que passavam
vestiam agasalhos. Estranhamente todas as blusas, cachecóis e echarpes
eram diferentes e não pareciam em nada como os uniformes, ou melhor,
com O uniforme. Se não fosse a estrutura exagerada do lugar eu poderia
jurar que estava numa praça qualquer da capital.
O vento assobiava ao passar pelas asas da colossal estátua de Galatea
que tomava todo o centro do pátio principal. Não importava quantas
vezes a visse, não conseguia me acostumar com seu tamanho absurdo.
—Galatea… — murmurei.
—A Deusa da Sabedoria e da Vitória. – Chantel adicionou – Sabe
a razão de termos uma estátua dela aqui?
Sorri.
—Sim, eu sei. – disse, colocando as mãos nos bolsos – “Que a
Vitória venha para aqueles que buscam o Saber”. – recitei.
—Daqui saem a maior parte das descobertas do Continente.
Estamos num patamar científico muito superior ao que os mais otimistas
teóricos da década passada supunham que poderia ser atingido nesse
século. – Chantel se virou para mim e sorriu solenemente – Como
magos, nós temos o dever de tornar esse mundo um lugar melhor!
Aquela foi uma frase pela qual não esperava. Não conseguia
compreender a razão por trás daquela frase.
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Chantel
—Por que está me dizendo isso agora? – perguntei.
—Não sei. – disse ela, dando de ombros – Só achei que você deveria
saber que o que está fazendo aqui é importante.
Estava sem palavras. Foi súbito demais para que eu pudesse reagir
então apenas fiquei olhando para o rosto alegre de Chantel. Havia algo
naquela felicidade infantil que doía em mim. Talvez fosse por ela ser tão
parecida com aquela garota. Ambas tinham os mesmos cabelos loiros,
os mesmos olhos curiosos, o mesmo sorriso alegre...
—Obrigado por não ter ido embora! – ela disse fechando os olhos
e sorrindo para mim.
Era exatamente como aquela garota fazia. Mas não poderia ser ela.
Era simplesmente impossível que fosse. Aquela garota estava morta.
Eu a matei.
—Então, vamos em frente? – Chantel disse, fazendo gesto para
segui-la.
Apenas obedeci.
Como nunca havia notado como a semelhança entre as duas?
Antigas lembranças começavam a retornar de seus túmulos.

Meu pai e eu sentados no mirante daquela montanha, observamos


o Sol se pôr. Eu era pequeno, mas sabia que tinha feito algo imperdoável
e aquela sensação esmagava meu peito. Ainda assim, ninguém havia
falado comigo sobre o ocorrido. Até aquele momento. Nós dois ficamos
lá, parados em silêncio, por muito tempo. Abruptamente meu pai
começou a falar.
—Johan… – ele disse sem me olhar – Você sabe que o que você fez
foi horrível, não foi?
Concordei com a cabeça.
—Você sabia desde o início?
Repeti o gesto.
—Sabia disso e mesmo assim fez. – ele disse secamente.
—Eu não queria… – murmurei.
Ele não falou nada. Devia saber que não estava mentindo, mas
aquilo em nada facilitava a situação para ele ou para mim.
—Johan, sabe por que nós somos homens? – Ele perguntou, me
olhando pela primeira vez desde que chegamos naquela montanha.
Olhei para ele com o rosto cheio de dúvidas.

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Chantel
—Nós somos homens porque nosso dever é proteger. – Meu pai
disse – Um homem sempre deve proteger as pessoas que não se defender!
Esse é o nosso dever sagrado e a razão pela qual nossos corpos são mais
fortes! – Ele parou por um instante e olhou para o horizonte – Aqueles
que usam seus corpos para machucar os outros não são homens, Johan.
– ele olhou para mim, sério – E hoje você agiu assim.
Aquelas palavras penetraram em mim como lanças. Não aguentava
mais aquilo. Senti meus olhos arderem e lágrimas correram apressadas
pela minha face. Gritei desesperado e arrependido, tentando aliviar a
dor que me afligia. Meu pai me segurou entre seus braços num abraço
afável.
—O que você fez jamais poderá ser consertado. – disse ele, com sua
voz se anuviando a cada palavra – Mas você pode não errar novamente.
Senti o calor das lágrimas de meu pai caindo sobre mim. Ele me
soltou lentamente, secou minhas lágrimas e me olhou no fundo dos
olhos. Seu aspecto parecia cansado e um sorriso triste estava desenhado
em sua face.
—Prometa-me que de hoje me diante sempre agirá como um
homem, Johan!

Fazia muito tempo que aquilo ocorrera.


Respirei fundo, deixando que o ar frio limpasse as mágoas de
dentro de mim.
—Eu prometo… — sussurrei.

Após mais alguns minutos de caminhada chegamos ao prédio


onde ficava a Zona Zero e todas as salas de testes e equipamentos para
experimentação.
—A Zona Zero fica no décimo segundo andar. – Chantel disse.
—Nesse caso vamos usar o elevador! – disse, apontando para a
grade metálica na parede.
Chantel desviou o olhar, aborrecida. Por alguns segundos tentei
entender a razão daquilo até que algo me ocorreu.
—Não me diga que… – antes que pudesse falar fui interrompido
pelo olhar fulminante dela.
Realmente não esperava aquilo. Chantel, a mulher que enfrentou
um babuíno gigante como não fosse nada e que pretende entrar na

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Chantel
minha mente para enfrentar o “Deus dos Sonhos”, tinha medo de
elevadores. Era um medo tão estúpido, tão ilógico, que senti que fosse
começar a gargalhar no meio do salão. Por sorte consegui me segurar.
—Andar faz bem para o coração! – falei, tentando parecer
compreensivo.
—Desculpe por isso. – ela disse, aborrecida – Esse é um medo tão
idiota! –esbravejou – Me sinto tão boba!
—Não sei se serve de consolo, mas eu tenho medo de palhaços. –
Disse sinceramente.
Por alguns instantes ela ficou parada, fitando-me com um olhar
inquisidor.
—É tão idiota assim? – Disse rindo.
—Na verdade é.
Por algum motivo que não consigo entender senti vontade de gritar
“It’s super effective!”. E por outro estranho e incompreensível motivo,
essa vontade logo passou.
—Obrigado! – exclamei chocado.
Ela sorriu animada e me estendeu a mão.
—Não podemos perder tempo!
Respirei fundo.
Subir até o décimo segundo andar pelas escadas seria difícil. Olhei
para Chantel, que sorria alegre para mim e sorri de volta. Ao menos
tinha algo para compensar o trabalho.
Após algum tempo, chegamos ao corredor onde ficava a Zona Zero.
Seguimos direto, parando apenas ao chegar à porta de acesso ao lugar.
Não havia janelas ou qualquer outra abertura para dentro. Também não
havia nenhum sinal de cadeados, travas, ferrolhos ou qualquer coisa
do gênero. Provavelmente havia algum tipo de sistema de defesa, mas
aquilo não deixava de ser estranho.
—Será que já tem alguém aí dentro? – perguntei.
—Provavelmente. — Chantel respondeu, colocando a mão sobre
o trinco.
—E vamos entrar mesmo assim?
Ela apenas sorriu parar mim e abriu a porta, entrando na sala logo.
Olhei para lá dentro, mas nada vi. Não era como se houvesse baixa
luminosidade ou mesmo como se não houvesse luminosidade alguma,
pois mesmo nesses casos ainda seria possível perceber algo. Era como

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Chantel
se simplesmente não houvesse nada do lado de dentro. Todo o cômodo
parecia uma grande massa inexistente e aquilo me assustava.
Mas não podia recuar. Juntando coragem, respirei fundo e atravessei
o batente.
Por um instante senti como se meu corpo não existisse, como se
nada ao meu redor fosse real. Estava flutuando sozinho na escuridão
profunda.
Inesperadamente senti o peso da gravidade sobre mim novamente
e meu corpo caiu com força sobre… algo. Levantei-me com esforço e
olhei ao meu redor.
—Mas que… – disse atônito.
Para todos os lados que olhava via apenas uma imensidão preta,
riscada por gigantescas linhas brancas formando algo que lembrava
uma rede de dimensões colossais.
—O que é isso? – balbuciei.
—Isso, Johan… – a voz de Chantel vinha de trás de mim. Olhei
para ela que estava parada, segurando aquele mesmo bastão que vi da
primeira vez – é a Zona Zero!

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world of humans

Capítulo 12
“Acorde pessoal... Kim... Leo... Thiago?!” Disse em um tom
empolgante Larissa, passando a mão pelo rosto deles.
“Larissa... Onde nós estamos? O Que aconteceu?” Disse Kimberly
já se levantando de sobressalto.
“Ah, calma Kim, vocês tropeçaram em meta-humanos que nós
matamos e que estavam caídos na escadaria. Nós não sabemos ainda
onde estamos , o João está mais pra frente, tentando abrir uma porta de
ferro que tem ali. Eu ouvi o barulho de vocês caindo e vim ver o que era.”
Disse Larissa, ajudando os outros a se levantarem.
“Ai!” Gritou Leonardo de dor quando Larissa pegou em seu ombro
rasgado.
“Nossa, o que é isso Leo?!” Disse a garota limpando a mão em sua
blusa e apontando uma fraca lanterna de alumínio para o corte.
“Um meta-humano atacou ele.” Completou Thiago, levantando-
se por completo. “Vamos deixar a conversa pra depois, vamos sair
daqui o mais rápido possível, estou começando a ficar com um mau
pressentimento.”
“Ok, me acompanhem pessoal” Disse Larissa indo em direção a um
corredorzinho com a fraca luz vinda da lanterna iluminando o local.
Era um corredor estreito de concreto batido, e ao fim dele estava
João, de frente a uma porta de quase 2,5 metros de altura, de um aço
extremamente rígido.
“Olá pessoal, Thiago! Como você está?” Disse João largando as
ferramentas que utilizava pra abrir a porta e dando um abraço forte em
Thiago.
“Tudo bem, tudo bem, está tudo OK.” Disse Thiago retribuindo
o abraço e indo frente à porta. ”Sei o que fazer. É uma porta de aço
inoxidável. Deem-me suas malas.”
“Estão todas aqui.” Disse João recolhendo todas as malas e dando
ao garoto.
“Agora vou separar todas as granadas, e liga-las por um único fio
que conduzira a energia da explosão por toda a dimensão da porta, e
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world of humans
fará com que a pressão nos vértices das portas fique maior e assim ela se
encurvará para dentro e facilitará nossa passagem.” Disse Thiago a todos,
que fizeram caras de perplexos, e em seguida bateram palmas para ele.
“O que é? Aprendi na escola.” Disse Thiago rindo logo após.
O garoto pegou todas as granadas, fez um pequeno circuito e
colocou em volta da porta.
“Agora voltem para as escadas, e se cubram com os corpos dos
metas-humanos, fazendo uma barreira com eles.” Ordenou o garoto
segurando um fio que daria inicio a explosão.
Logo após todos se arrumarem, o garoto alongou o fio até uma
distância plausível, puxou o fio e saiu correndo se jogando atrás da
barreira de criaturas, posta no pé da escada.
Uma forte explosão foi feita, iluminando toda a área ao redor, e
fazendo os meta-humanos pegarem fogo.
Ao chegarem perto da porta, viu-se que a porta foi totalmente
dobrada para trás, facilitando a entrada dos garotos a outro nível. Eles
foram passando pelo vão da porta, um por um, com suas respectivas
malas.
No outro lado da porta, estava uma sala ampla muito iluminada,
com luzes de emergência, uma série de computadores ligados e arquivos,
todos de última geração, além de uma porta de alumínio no final da sala.
“Enfim chegamos à sala de controle pessoal. Vamos atrás da verdade
agora!” Disse João, sentando em frente a um computador.
Cada um foi a uma área específica do local, procurar algum vestígio.
Foram algumas horas de pesquisa em um silêncio arrematador, até que
um grito mudou entrou em contraste com o ambiente.
“Achei!” Gritou Thiago, pegando uma pasta de papel surrada que
estava no último arquivo da direita.
Thiago jogou a pesada pasta em uma mesa circular que tinha no
centro da mesa e leu a parte que interessava.
“... Para não corrermos o risco de qualquer pessoa achar nosso
projeto, vamos dividi-lo por algumas partes do Brasil. A verdade está
separada pelas nossas bases secretas em lugares estratégicos no país.
Segue abaixo o mapa com as localizações...”.
Logo após ler isso, os garotos se entreolharam, até que João tomou
a palavra.
“Vamos seguir a Juanes até o fim.” Falou firmemente o garoto, e

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world of humans
todos concordaram com ele acenando com a cabeça, e se levantaram,
indo para a porta de alumínio. Thiago pegou a pasta e pôs em sua
mochila.
Ao se levantarem da mesa, podem ouvir grito frenéticos daquelas
criaturas, que avisavam que desciam as escadas com passos apressados
e pesados.
Quando começaram a ouvir os passos, os garotos se entreolharam
e levantaram-se de sobressalto. João assumiu atrás do grupo, indo em
direção à porta de alumínio, com Kimberly e Larissa. Leonardo e Thiago
ficaram à frente do grupo.
“Entrem na porta pessoal, e arrumem uma forma de escapar.” Disse
Thiago, pegando seu AR-15 e se posicionando de frente a porta.
“Eu vou ficar aqui também, esperem 2 minutos lá que nós os
alcançamos.” Disse Leonardo, puxando duas pistolas automáticas.
O restante do grupo adentrou por entre a porta de alumínio, e os
dois aguardavam em alerta a cada segundo que se passava, até que dois
meta-humanos apareceram na fresta da porta forçando-a para fora, para
conseguirem entrar. Os jovens já atirando neles, recuavam cada vez mais,
até encostarem-se à porta de alumínio.
Enquanto isso, João, Larissa e Kimberly passaram por um corredor
estreito até que viram uma luz no final deste. Ao cruzarem o final,
conseguiram ver um carro muito grande. Uma Hammer H2 toda preta
com os para-choques cromados. Suas medidas eram de aproximadamente
4 metros de largura por 2 metros de altura. Era um carro do Serviço
Secreto brasileiro, tinha um emblema igual ao que estava no envelope
do projeto Juanes.
“Vamos pegar esse carro meninas, entrem, agora!” Disse João
rumando para o banco do motorista e já acelerando o carro.
Quando eles entraram no carro, conseguiram ouvir um barulho
muito forte, e em seguida um meta-humano saiu pela porta de alumínio,
e ficou de frente ao para-brisa do carro.
Ele estava pronto para aplicar um golpe no carro, quando tiros
vieram da direção da porta e acertaram-no na cabeça. Era Thiago, que
acertara com seu AR-15 vários tiros na cabeça da criatura, que com o
baque caíra para trás.
“Vamos, abram a porta, estou carregando o Leo.” Disse Thiago,
que ao abrirem a porta, colocou Leonardo atrás e entrou junto com ele.

21
world of humans
Larissa estava na frente com João, e Kimberly atrás com os garotos que
chegaram.
“Vamos sair daqui, logo.” Disse João, acelerando fortemente o carro
e saindo rumo ao túnel a frente dos garotos.
Após alguns minutos subindo o túnel, os jovens puderam, enfim,
contemplar a já esquecida natureza, pelo menos a que restara no
ambiente.
Eles saíram de frente a uma avenida, num local não muito
movimentado. A luz do sol afugentava dentro do carro, e após minutos
de silêncio, uma voz se fez presente.
“Vamos Rumo ao Rio de Janeiro.” Disse Thiago, analisando os
mapas.

22
23
guerreiros predestinados
“Meu Mestre seguiu em fim para as Colinas de Hércule, logo depois
que conseguimos finali-zar o treinamento de seis meses, aprendendo
inclusive uma magia de folhas, porém eu fiquei aqui e o Mestre Samir
irá intensificar o meu treino”.

capítulo 9
Surge o Bárbaro Predestinado

Em um lugar de Terak, nos Vulcões Almeri, um jovem Guerreiro do


Povo do Fogo realiza o teste com os Senhores do Fogo para se tornar um
Bárbaro, ele treinou duro com seu mestre e hoje é o dia do teste. O rapaz
possui cabelos curtos, vermelhos, possui uma Maça de Ouro, Escudo de
Bronze, Peitoral Superior de Bronze, Cinto de Aço, Braceletes de Aço
e Botas de Prata.
Depois de combater e vencer três criaturas do povo do fogo, ficar 3
horas mergulhado dentro da lava dos vulcões e ficar 10 minutos sobre
um corrente de água fria, finalmente ele passa.
Os Senhores do Fogo o chamam:
-Héricles, hoje nós o nomeamos, Bárbaro do Povo do Fogo de Terak
a serviço do rei.
-Depois de três anos treinando, eu fico grato aos Senhores.
-Héricles temos uma missão especial para você.
-O que desejarem.
-Você já ouviu falar na lenda dos Guerreiros Predestinados, que
quando o mal ameaçasse o planeta de Terak, cinco guerreiros especiais
viriam de todos os cantos do planeta para protegê-lo, e talvez, viriam até
de um outro mundo se necessário fosse. No planeta Terak onde até hoje
esta lenda é contada de geração em geração, estes cinco guerreiros são
chamados de Guerreiros Predestinados.
-Sim, todos conhecemos esta lenda, o que ela tem a ver com minha
missão?
-Você é um destes cinco guerreiros, você é o Bárbaro Predestinado.
-Não pode ser, com todo respeito aos Senhores, sou mais fraco
que vocês, mais fraco que meu antigo mestre Zed, mais fraco que meu
último mestre Tork, tenho muito que me fortalecer, não posso ser um

24
guerreiros predestinados
predestinado.
-Ouça Héricles, quando bebê, você nos foi entregue para que se
tornasse um guerreiro, forças acima de nós nos garantiram que você é
um dos predestinados, mas ser predesti-nado não é ser invencível, é certo
que você deve se fortalecer ainda mais. Você já deve ter ouvido falar de
um Cavaleiro poderosíssimo do Espaço Tempo chamado Hércule.
-Sim, ele está espalhando caos e terror, por lá.
-Supomos que ele é o mal que os Guerreiros Predestinados
enfrentarão, por isso, sua mis-são é ir para a Vila I do Povo das Folhas
a Leste daqui, a uns cinco dias, fale com o Mago Heymore, ele é quem
sabe a tarefa que aguarda os Guerreiros Predestinados, seu amigo Samir
é mestre naquela vila, ele lhe fornecerá abrigo.
-Irei para lá hoje mesmo, Senhores.
-Héricles lembre-se, a fraqueza de nosso povo é a baixa temperatura,
a água fria e o gelo podem nos matar com facilidade, cuidado Bárbaro,
torne-se resistente a eles.
No dia seguinte, Héricles segue pelo leste, e depois de caminhar dois
dias chega ao imenso Lago Mafur, ele deve ter uns cinco quilômetros de
raio, é perfeitamente redondo, fica ao norte da Floresta Amir, de onde
Héricles chegara na Vila I:
-Se eu contornar este lago, levarei dias, tenho nadar nele e atravessa-
lo, para poupar tem-po, e será um ótimo treino de resistência.
Héricles mergulha, a dor da baixa temperatura é insuportável para
ele, Héricles sempre na-dou nos Lagos quentes, mas no frio é terrível:
-Meu antigo mestre Zed ficava oito horas em baixo da cachoeira e
por isso é muito forte contra Guerreiros da Água, eu tenho que suportar,
eu sou um Predestinado.
Héricles começa a afundar quando chega no quarto quilômetro, ele
está exausto devido ao frio, seus músculos não respondem mais:
-Não posso morrer aqui, não depois de tudo o que sofri nas mãos de
Zed, não depois de ser traído por minha esposa, eu farei todos os que se
opuseram a mim pagar. – Héricles dá um grito – eu farei todos pagarem.
Héricles usa uma magia do fogo em torno de seu corpo, ele gasta
quase toda sua energia mágica, mas o calor permite que seus músculos
respondam novamente, ele nada sem parar o último quilômetro com
uma dor terrível, quando chega na margem, ele se permite um sorriso e
pensa:

25
guerreiros predestinados
-Zed seu desgraçado, eu serei mais forte que você.
E então desmaia.
Cerca de umas cinco horas depois ele acorda, come algo e acampa
por ali mesmo. Pela manhã ele toma o seu rumo e consegue chegar até
a Floresta Amir, lá ele vê um jovem de cabelos vermelhos longos até o
chão, está fugindo de três homens com espadas e armaduras.
Héricles pula enfrente aos homens, saca sua maça, um golpe para
cada guerreiro e eles ca-em inconscientes, o garoto é Theros, ele agradece:
-Obrigado Guerreiro, você é muito rápido!
-Seu fraco - diz Héricles – como membro do nosso povo você devia
ser mais forte.
-É que eu cresci na Vila I, e estes homens queriam me levar para ser
escravo nas Colinas de Hércule. Você é um Bárbaro, não é?
-Sim, sou o Bárbaro Predestinado, vim até a Vila I procurar o Mago
Heymore.
-Predestinado? Você é um dos cinco guerreiros lendários?
-Não tenho tempo a perder, - Héricles empurra Theros – saia da
minha frente.
-Espere, o mago Heymore está petrificado. Você não o encontrará.
-Como? Está zombando de mim moleque?
-Há um tempo, o Cavaleiro Predestinado chegou a Vila I vindo de
outro planeta, Heymore lhe dava as instruções, mas foi petrificado por
magia, na Floresta dos Muitos Caminhos.
-Onde está este Cavaleiro?
-Foi as Colinas de Hércule para salvar as crianças escravas.
-Eu precisarei falar com ele.
-Por que não fala com o mestre Samir? Ele é de nosso povo e está
na Vila I.
-Tudo bem, me leve até ele, e rápido.
Chegando no forte de Samir, Héricles e Samir se encaram por um
tempo, então se falam:
-Héricles vejo que passou no duro teste dos Senhores do Fogo, o
que o trás aqui.
-Samir, velho amigo, descobri que sou um Predestinado, vim em
busca de Heymore, mas soube que ele está petrificado.
-É verdade, e o Cavaleiro Predestinado está ausente.
-Eu irei até ele nas Colinas, talvez também possa ajudar as crianças.

26
guerreiros predestinados
Tarim aparece. Estava treinando no forte em um local próximo e
ouviu a conversa.
-Este - Diz Samir - é o Escudeiro Predestinado, ele te mostrará a
estrada para as colinas.
Theros e Tarim vão com Héricles até a estrada Norte e Leste que vai
as Colinas. Amesina chega a eles, estava procurando Theros, Samir lhe
contou tudo o que havia se sucedido até agora.
-Mãe - diz Theros – este é o Bárbaro Predestinado.
-Bárbaros são todos iguais filho, todos uns tolos orgulhosos, muitos
deles são maus.
-Desculpe moça, – Diz Héricles, olhando feio para Amesina – mas
há guerreiros bons e maus de todas as raças. Não só da nossa.
-Senhor Héricles – diz Theros – quero que me aceite como seu
Escudeiro de Bárbaro.
-Está louco Theros – diz Amesina – não quero que se envolva com
essa gente, é perigoso.
-Senhor, eu já fui Escudeiro de Bárbaro uma vez, mas meu mestre
se foi em jornada.
-Sua mãe tem razão garoto, é perigoso, e você com certeza é fraco
demais para ser meu Escudeiro de Bárbaro, - Héricles dá as costas e vai
andando.
-Não dê as costas para mim, - grita Theros.
Theros invoca três bolas de fogo e joga nas costas de Héricles. Ele
para, e diz:
-Seu calor interno é muito inferior, e aposto que nem resiste à baixa
temperatura.
Héricles lança uma magia de fogo que joga Theros longe, Tarim
corre a Theros e o ajuda.
-Mas você possui iniciativa, eu atravessei a nado o Lago Mafur, se
você conseguir dar um volta nele, não contornando, mas por dentro, pela
margem aonde a água chega até sua cintura, eu o aceitarei, se sobreviver
ao lago, não sobreviverá a meu treino - Héricles diz e se vai.

“Meu filho aceitará o teste? Hércules está indo bem em sua jornada?
Este Bárbaro Predestinado é mesmo bondoso?”.

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28
O Engenheiro de Sonhos

Capítulo 1
Perguntas
Desde aquele dia eu fiquei imaginando, pensando, refletindo
e até viajando na maionese com várias hipóteses que poderiam
ocasionar aquela morte. Por mais desconhecida que seja a causa, aquela
morte me tomou a atenção, nem conseguia me concentrar direito as
vezes em outras atividades, inclusive transar com meu namorado. A
curiosidade foi aumentado com o passar das semanas, até o ponto
que decidi pôr aquilo em pratos limpos, comecei estudando como o
incidente aconteceu.

Fiz uma trajetória da bola até a cabeça de meu avô, pelo que me
lembrava, a bola havia acertado bem em cheio, como se ela tivesse
sido mirada para acertar na região do nariz. Pela forma que ela havia
quebrado a janela, ficava claro que sua trajetória não foi exatamente
um incidente, ela foi lançada propositalmente, agora só restava saber
por qual razão e principalmente quem havia feito isso.

Fui barrada de meus pensamentos pelo som da campainha, estava


apenas de sutiã e uma saia, então peguei uma blusa e a vesti, ajustando
um pouco a parte dos seios. Desci a escadaria e abri a porta, fui
recebida pela minha amiga Célia. A principio sorri por vê-la, trocamos
uns beijos nas bochechas e a convidei a entrar, ela estava com uma
jaqueta preta cobrindo uma blusa vermelha, com calça jeans um pouco
mais escura que as que gosto de usar, estava com um rabo de cavalo e
prendendo seu cabelo grisalho uma piranha verde-limão. Ela não era
muito de tendências da moda, mas tinha bom gosto para se vestir.

Se acomodou no meu sofá e ofereci um suco de uva que havia


feito, ela deu uma goleada e pôs o copo na mesinha ao lado do sofá
onde estava acomodada. Pelos seus olhos estava preocupada com algo,
recentemente foi demitida de seu emprego de faxineira por assédio e
estava indo mal na faculdade. Eramos colegas do mesmo curso, mas
ela fazia bastante esforço para estudar, apesar de ser incompreensivo o
29
O Engenheiro de Sonhos
porque de ir tão mal.

“Eu não aguento mais isso, acho que vou abandonar tudo e voltar
a morar com meu pai!” - dizia ela amargurada. “Nossa, mal entra
na minha casa e já temos más noticias?” - dizia eu, em resposta ela
suspirou e disse. “Você ainda tem sorte de ser uma aluna exemplar, eu
invejo você” - ela ajeita o cabelo com a mão direita, o colocando para
trás. “Cecil, ultimamente não ando com tanta cabeça pra facul, acho
que logo logo abandono o pedestal de aluna exemplar..” - ela tinha
ficado com o olhar de curiosidade e me indagou -”Ainda noiada com
a morte do seu avô?”, não tive como esconder - “Pois é, essa morte
dele foi surreal, andei estudando dia e noite todos os ocorridos no
momento daquela cena”. Em resposta ela deu um sorriso e fez uma
cara de sacaneadora - “Vejo que temos uma detetive em ação!” - eu ri,
não podia ouvir coisa mais ridícula, - “Claro Watson! ” - em resposta ela
deu uma risada cínica, a partir daí começamos a conversar por umas
duas horas, até ela notar que teria que ir embora, nos despedimos da
mesma forma que nos cumprimentamos e ela desceu a rua da minha
casa, morávamos uma perto da outra, coisa de 7 quadras de diferença,
mas eu não podia ir lá pois o pai dela não ia muito com a minha cara.

Com o bater da porta acabei acordando meu irmão, que saiu de


seu quarto esfregando os olhos de sono, “Já está de pé?” - perguntei a
ele, ele me olhou, com cara de preocupação, parecia que tinha sonhado
mais um daqueles sonhos estranhos. “Pela sua cara teve outro pesadelo
né?” - ele desviou o olhar de mim e depois voltou a me olhar - “Sonhei
com um peixe pulando pra fora do aquário na minha direção”, não sei
por que seria um pesadelo para o meu irmão, ele amava peixes mais do
que tudo, por que aquilo seria um pesadelo para ele.

Curiosa, resolvi tirar mais detalhes com ele, “Como era esse
peixe?”, ele me olhou e por um tempo pareceu estranhar minha
pergunta, já que nunca me interessei quase por nada que viesse dele,
“Ele era colorido, eu o estava segurando e o admirando, mas ai ele
pulou do aquário pra cima de mim...”, eu ficava só me atentando a cada
detalhe, a cada palavra do meu irmão. Depois daquele dia comecei a
achar que toda essa investigação que fazia não passava de uma mera

30
O Engenheiro de Sonhos
coincidência, afinal, ele não sonhou mais algo que convenientemente
poderia acontecer futuramente.

Era um sábado, o parque abria com todo aquele encanto no centro


da cidade, meu irmão ficava bobo só de ver aqueles brinquedos imensos
ao seu redor, estupefato com o que pirralhos da idade dele achavam
que era um mundo encantado. Ele puxa a manga da minha jaqueta e
me mostra uma barraca de tiro ao aquário, uma brincadeira onde você
jogava a bolinha em um dos muitos aquários do lugar e ganhava o
peixe correspondente ao alvo acertado.

Como ele gostava muito de peixes, resolvi fazer o gosto da criança,


paguei três pratas por 3 bolas e tentei arremessar duas, sem sucesso.
Via que meu irmão me encorajava a acertar algumas, então esfriei a
cabeça, mirei e lancei novamente, acertando um dos aquários. O dono
da barraca me deu um sorriso e eu correspondi da mesma forma, deu-
me o aquário com um peixinho bonito, que meu irmão suplicava para
pega-lo. Naquele momento vi que o peixe lembrava-me algo da noite
anterior, uma espécie de de-ja-vu, pois ele era colorido como meu
irmão me descrevera.

Comecei a chacoalhar o aquário, num impulso o peixe pulou para


o meu rosto, eu gritei e deixei o aquário cair no chão e se quebrar,
deixando depois o pobre peixe ficar na grama. Rapidamente o vendedor
pegou um saco plástico com água e colocou o peixe dentro, por sorte
não havia morrido. “Você está bem?” - perguntou ele, “Sim, acho que
estou” - disse eu arfando, aquilo tinha sido um susto muito grande
para mim, por qual razão aquilo teria ocorrido?

“Esse peixe é muito arisco, não é a primeira vez que ele faz isso com
um freguês” - dizia ele com a maior naturalidade do mundo, não sei o
que era mais bizarro, alguém colocar esse tipo de peixe em comércio
ou então o que me ocorreu, já que foi o que exatamente meu irmão
descreveu em seu sonho. Uma terceira vez sendo coincidência era
pertubação demais, mas queria tirar toda aquele nóia de investigação
da cabeça que retornava. O vendedor me entrega outro aquário com
outro peixe, e saímos daquela barraca.

31
O Engenheiro de Sonhos

Ao lado da barraca de algodão-doce via um cara que era me


familiar. Alto, moreno e um sorriso que só eu reconheceria, era meu
querido Hector. Ele me avista e traz três algodões nas mãos, nos
fitamos e depois nos beijamos por alguns segundos, ele cumprimenta
meu irmão e lhe entrega um algodão-doce, dando um sorriso e depois
entregando um para mim. “Açúcar não faz bem pros dentes, sabia?” -
dizia eu, era preocupada com a saúde dos outros, deveria ser herança
de família. “Mas seus lábios ficam tão doces...”, e me deu outro beijo,
havia ignorado a presença do meu irmão ao meu lado, mas ele não.

“Ei! Vamos andar na roda gigante?” - Cassete! Atrapalhar esses


momentos me deixava puta da vida! Se soubesse antes que meu
namorado iria vir, não teria trazido o pirralho comigo! Mas bem, fazer
o que? Fomos até a montanha-russa, eu grudada em Hector e meu
irmão grudado em mim, me sentia como um elo de uma corrente
naquele momento. Dali, pegamos a primeira cabine da fila que já se
formava por lá perto e começamos a subir, mas felizmente meu irmão
havia caído no sono, Hector e eu aproveitamos o momento para nos
beijarmos mais, e conversar sobre as novidades. Ele tinha recebido
uma promoção de seu chefe e havia se tornado gerente de uma
seguradora, sempre foi exemplo para os funcionários de lá e por esse
mérito acabou sendo promovido. Seu chefe era uma pessoa amável,
mas de saúde fraca, pessoas como ela tinham seu peso valido em ouro
e eram raras de se encontrar.

Voltando ao nosso beijo, acabamos não vendo o tempo passar,


meu irmão havia acordado e a nossa volta terminado, saímos da cabine
e aproveitamos que meu namorado estava de carro, fomos para casa
pegando carona. Estava escurecendo e a Lua já dando sua primeira
visita ao céu, meu irmão estava quieto, preocupado com isso, meu
namorado perguntou. “Caiu no sono ein rapaz! Perdeu uma vista
linda!”, meu irmão responde, “Eu já vejo minha irmã todo dia..”, ele
ficou vermelho e emudeceu, prestando atenção no trânsito, eu só ri ali
na minha, pela cortada linda que meu irmão havia dado em Hector.

Estavamos parados num sinaleiro fechado, foi quando meu irmão

32
O Engenheiro de Sonhos
tomou a atenção - “Angeline, você gosta de peixe?” - Não era muito
chegada a frutos do mar, mas gostava sim de peixe - “Gosto sim, qual
a razão da pergunta?” - nesse momento o sinal abre, mas quando
atravessamos a avenida um caminhão de cabine azul marinho colide
com o carro de Hector, finalmente havia ido para o céu.

33
34
Madise Ruf Golum

Capítulo 3
[Entram o cavaleiro, pastores virgilianos.]

CAVALEIRO:
“Ó vós que pasceis, ajudai quem pede!”

PASTOR:
“Quem vem?”

CAVALEIRO:
“A existência que não mede”.

PASTOR:
“Vieste parar-nos da paz tão dileta?
Vejo teu pé, a pata tua tão quieta:
Olha olhos, varrido varão! Vedes?
Fímbrias fazem do campo vasto o verde...
Eia errante! És exânime da existência!

CAVALEIRO [à parte]:
Somos do éter puro e findo a essência,
Influxos na história devoradora,
De si mesma hábil emuladora.

PASTOR [à parte]:
Existimos por nós mesmos... E mais?
Quem diz que existe-se por nós? Com quais?
Tudo de mais belo cede no fim,
Tudo de mais belo não vem a mim...

CAVALEIRO [para as flores]:


As visões que hoje vejo não mais vejo,
Os sonhos que hoje sonho não mais sonham:
Perco logo o controle do existir!
Vago torto no mundo e o mundo em mim...
35
Madise Ruf Golum
Vem, pálida visão doutrora! Vem!

PASTOR:
O que bradas, cavaleiro? Não vês que as flores são nossas falsas confidentes?
Não vês que o que exalam são súplicas mal-acabadas do que nunca desejaram,
do que nunca almejaram? O campo, suas unidades espinhosas, seus dedos
virentes a salpicar o horizonte; tudo isso, ó cavaleiro, é falso e efêmero, é
passageiro. A natura, suposta mãe bondosa e benquista, engana-nos com seus
floreios e suas reviravoltas lúcidas, como o véu ectoplasmático da noiva que
não entrou na igreja e que deixou no ar solene da realização um divagar de
sombras e retalhos mnemônicos... O que faz da vida menos vida, o que faz
da cor da orquídea mais parca, o que faz da silhueta ruidosa da montanha
mais linear é o que nós pensamos ou julgamos ser importante, quando na
verdade o que se nos apresenta é um simulacro perfeito de sensações toscas,
preestabelecidas por padrões que não são nossos, mas sim idílios em terras
distantes, onde a grama que apalpa nossos pés já não é mais a mesma, e os
nossos próprios pés não são mais os mesmos! A vida, cavaleiro, somos nós,
que a sonhamos, que a realizamos na medida do possível e do impossível.
Nossos braços, meros braços, físicos, finos, que mal conseguem abrir uma
porta rangente sem ranger suas junturas, é o que nos resta e é o que devemos
usar para sentir o a corrente boreal passar por entre os dedos sedosos das
roupas quentes e aconchegantes... Recai, falso poeta implícito que governa
o mais falso teatro vivente! Recai! Tuas estrelas não são as mesmas que vejo,
e mesmo que fossem, ai! como poderia sentir seu brilho equidistante nestes
meus olhos falseantes? Vem, inelutável modalidade do visível, vem e extirpa
boa e certa os ramos, as pétalas que nunca caíram sob minha observação, que
nunca cairão e que se algum dia caem, é porque não as desejei...

FLOR:
Quê! Endoidaste? Conclamas disparastes para arruinar nossa parte? Sou
o que sou e não me canso de ser o que sou. Cresço na primavera, enfraqueço
no outono rígido, poeirento, deserto de sensações, e a cada verão sinto os
corcéis de fogo cavalgarem nos recônditos de minh'alma, resfolegantes até a
cabana obumbrada dum inverno rígido sob a brancura límpida do mundo...
Existo por mim mesma, e visto meus vestidos suaves e doces para ser bela,
nota. Meu talo é rígido, é verde, é passagem para insetos benquistos que
me benquistam e me conquistam, e aos poucos sinto os influxos do amor
dominarem e concluírem minhas chagas, passadas com o passar das eras e
suas sagas... Danço, canto, valso. Beijo, sinto, falso. Sou flor, sou flor, e dos
humanos perpetuo o odor nas querelas, nas rapsódias épicas do condor que
de tanto sonhar um dia voou!
36
Madise Ruf Golum

[Sai o pastor, cala-se a flor. Melibeu entrou.]

MELIBEU:
As flores e os pâmpanos desabrocham,
Tudo é belo, tudo sinfonia.
Voa abelhinha, voa casta e pura sempre:
Despeja teu flavo no meu sol(') feio,
Que disto precisamos fortemente...

CAVALEIRO:
Abelha! Canta! Zumbe! Voa! Existi!
Exorto tuas asas ventripotentes!
Teu ziguezaguear zebroide, belo,
Zelo dos povos cálidos, calados,
Desistentes da ciranda pitônica...

MELIBEU:
Deem as mãos debaixo das selvas rochosas,
Na caverna escura, no mar bravio;
Cantem o paul que morreu aquecido,
Cantem o tronco que tombou esquecido,
Cantem do lusco-fusco merecido.

CAVALEIRO:
Cantarei do leão advindo do fim,
Rugidor ruidoso a ruir seus iguais:
Ter a juba jubilosa, ai!, de mim!
Ter as fomes coexistentes: ais!, ais!
Ele voa intrépido varão contente
Pronto pra destilar fúria copiosa,
Da nunca finda a vitória somente,
Do lio concorrente maré morosa.
Vida infanda que este pagão levava!,
Sentindo súplicas inertes virem,
Ao que cruelmente à torto matava.
Mas vedes! As garras em si rirem
No que cravam seu peito descoberto,
Diz o leão: “Morro da flecha que flerto!”

PASTOR:
37
Madise Ruf Golum
Canto contrito o funéreo anoitecer,
Debaixo do chuveiro que não veio,
Esperando de mim as velhas tecer,
Na brisa briosa de floreios cheios...
Entrem, ó palavras secas, incrédulas!
Distancio-me do quadrado no chão,
Loco meus dúbios momentos em cédulas
Que fornecem um simulacro, um pão...
Desce, corda infinda! Desce ao infinito,
Abarca em tuas voltas a languidez,
(...)

MELIBEU:
Canto álacre do cisne aleijado,
Noto por bailar na água translúcida,
Sob das estrelas longínquas os fardos,
Encabeçado duma mata pútrida.
“Que faço”, diz ele, “senão utópico?
Aceitar meu redor morto, jacente?
Ó saudade! Sem ti jamais me fico!
És o que me revira tão querente!”
É o cisne que tão mal baila triste
Sob a superfície do lago pobre,
Com seus olhos cristalinos em rente
A um futuro guardado num alfobre,
Regado por conhecidos cediços,
Som um mar de estoques movediço(s)...

[Exeunt.]

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Hare

Chantel - Hare
O chão tremia violentamente a cada passo da criatura. Quando me
disseram que a missão se tratava de um Daikaiju tive a certeza de que
seria difícil, entretanto não fazia ideia do quanto. Mesmo os Kaijus que
enfrentei antes não eram nada perto daquele.
Sem nenhum aviso, a parede ao meu lado foi completamente
destroçada pela gigantesca cauda do monstro. O choque resultante
impediu que me movesse por alguns instantes, durantes os quais o teto
começou a ceder. Fui puxada pelo pulso, sendo forçada a pular para fora
da construção em que estava e que logo em seguida veio abaixo. Olhei
para o alto e lá estava ele, gigantesco, altivo. Um anticorpo criado pelo
planeta para destruir ameaças contra as quais terremotos e furacões
seriam impotentes.
O imenso corpo réptil, coberto por escamas rubras virtualmente
indestrutíveis, ultrapassava em altura os prédios da cidade. A estrutura
colossal era suportada por pernas mais fortes que qualquer coluna
que a tecnologia pudesse permitir e por uma cauda capaz de varrer
construções em um único movimento. Isso é um Daikaiju, uma forma
de vida superior a todas as outras, protegida pelo mundo e acima da
física convencional.
Guiada pelo meu acompanhante, cheguei ao templo que seria nosso
ponto de encontro, entretanto apenas três pessoas estavam lá.
—Onde estão os outros? – perguntou meu companheiro, nervoso.
—Acalme-se, Andrew. – disse o líder.
—Onde eles estão?
O líder virou o rosto, evitando o olhar de Andrew. Todos lá sabiam
o que aquilo denotava. Por um longo tempo um silêncio pesado pairou
sobre aquele santuário. Pensei que talvez devesse confortar Andrew, mas
quando me aproximei ele meramente ergueu a mão, me dizendo para ir
embora. Aquilo doeu em mim. Sempre soube como ele era orgulhoso e
queria ter dito que não precisava daquilo, não comigo.

40
Hare
Entretanto não consegui.
Envergonho-me de ter sido tão medrosa. Ouvi o barulho de outro
edifício vindo abaixo. A cada segundo que perdíamos parados, a criatura
causava mais e mais dano. O líder então deu um passo adiante, vestindo
uma expressão séria para dissimular a dor sabia que sentia.
—Ainda temos pessoal o suficiente para fazer o ritual! – exclamou
ele – E vamos fazê-lo a qualquer custo! – ele aproximou-se de nós e a
cada um entregou uma das chaves de ativação – Vocês sabem os pontos
onde colocar as chaves. Andrew, Lisa, atraiam aquele monstro para o
meio da armadilha e então vão para seus postos. Will e Stu, você cuidam
de tirar qualquer pessoa que encontrarem no caminho. Eu terminarei os
preparativos para a Magia. Têm meia hora para isso! Mesmo se um de
vocês estiver no meio da área iremos ativar o campo!
O líder marchou até a saída, detendo-se no batente da porta. Ele se
voltou para nós, sorrindo, e apertou a maçaneta da porta.
—Quando isso tudo acabar eu pago um rodada de bebida para
todos nós!
E correndo ele atravessou o limite da porta, sumindo por entre os
destroços. William e Stuart seguiram-no velozmente. Andrew foi até
a porta sem nada dizer. Coloquei-me ao seu lado e ele cerrou os olhos,
voltando o rosto para o céu azul e branco daquele dia.
—É um ótimo dia para morrer. – ele disse, sorrindo.
—Não fale algo tão mórbido! Vamos ficar bem!
—Tem razão… – ele disse, abrindo os olhos.
Aquilo não foi muito persuasivo, mas estava disposta a qualquer
coisa para fazer valer aquelas palavras.
—O líder nunca nos paga nada – eu disse – então é melhor
aproveitarmos o bom humor dele!
—Não é?
Corri quão rápido pude em direção ao Daikaiju. Andrew ia à
frente, usando magias para tentar derrubar um prédio danificado sobre
a criatura, porém nada parecia ser suficiente para chamá-la a atenção.
Mesmo as toneladas de concreto, aço e ferro de um edifício de vinte
andares eram ignoradas como se nada fossem.
—Se eu usar a Espada… – gritei para Andrew – Talvez consiga
41
Hare
atraí-lo!
Inesperadamente, um enorme bloco de concreto caiu entre nós,
cortando o que ele parecia querer dizer. Dei a volta nos destroços,
mas meu parceiro não estava mais lá. Olhei ao meu redor, tentando
desesperadamente encontrá-lo. Tive a impressão de vê-lo correndo
para um prédio caído. Tentei segui-lo, mas fui impedida pela cauda do
monstro vindo em minha direção. Atirei-me ao chão para escapar do
impacto, porém apenas o vento gerado quando ela passou por mim foi
suficiente para me atirar com força contra uma pilha de entulho. Minha
boca se encheu de sangue e minha respiração começou a arder. Havia
fraturado no mínimo uma costela.
Tentei me levantar, porém a dor não me permitia. Arrestei-me
então para dentro dos destroços de uma casa. A parte de trás do meu
vestido estava rasgada, como pude constatar ao tirá-lo. Havia ainda uma
mancha escura de sangue. Procurei de onde ele poderia estar saindo
e senti uma tontura forte ao encontrar um corte nas minhas costas,
provavelmente causado por algum pedaço de vidro. A hemorragia era
profunda e se não fizesse nada ficaria inconsciente em pouco tempo.
Retirei algumas pomadas e ataduras da bolsa que carregava comigo.
Havia preparado aqueles materiais para o caso de termos feridos graves.
Nas faixas havia escrito uma fórmula medicinal e as pomadas eram
os melhores coagulantes e bactericidas que pude produzir. Apliquei
os remédios sobre as faixas e então as prendi em torno do ferimento.
Ainda teria problemas pelas costelas, não havia tempo para restaurá-
las e a ruptura dificultava minha respiração, porém não teria tempo
para restaurá-las.. Apertei as bandagens o quanto pude e vesti minha
roupa quão rapidamente consegui. Havia gasto tempo demais com tudo
aquilo e não restava muito mais até a hora marcada.
Corri para compensar o tempo gasto com meu treinamento, ao
mesmo tempo em que procurava por Andrew e pelo Daikaiju. Um
prédio caindo e a movimentação incomum do ar no mesmo local me
indicaram onde estava a criatura e consequentemente Andrew. Ambos
haviam saído muito de suas marcas.
Quando os alcancei, o monstro estava mais furioso que nunca
antes. Ele tentava insanamente atingir algo que eu não podia enxergar
e acabava destruindo tudo ao seu redor com golpes de sua cauda ou

42
Hare
mordidas. No meio de tanto caos, Andrew tentava mover uma enorme
placa de concreto.
—O que está fazendo? – gritei para ele.
—Ainda há pessoas aqui! – ele respondeu, sem de empurrar.
A situação havia saído completamente dos eixos. Andrew não ia
deixar aquelas pessoas para trás, mesmo que isso significasse que toda
a missão fosse falhar. Para piorar, a criatura não mais estava tentando
acertar o que quer que fosse e se preparava para investir contra meu
parceiro. Não havia outra opção, sabia disso desde o começo. Só possuía
uma magia em meu arsenal que significava algo contra um Daikaiju
daquele nível. Retirei a faixa que envolvia meu braço direito, deixando
Mana correr por dentro da luva que usava. Toda a energia que tinha
correu para até minha mão. A quantidade gigantesca de energia
fazia meus nervos e canais vibrarem ensandecidamente. A Magia das
bandagens cessou e a dor que se seguiu está muito acima das minhas
capacidades descritivas. Creio que meu talento literário é passável, para
dizer o mínimo.
O monstro urrou furioso ao encontrar Andrew. Minha Magia
ainda não estava pronta e não tinha tempo de uma recitação completa.
Cantei as linhas de conjuração restantes em Ária, tentado assim acelerar
a fase de conjuração. A agonia causada pela recitação acelerada, somada
àquela dos ferimentos e à dificuldade de respirar fizeram as palavras
saírem como gemidos entrecortados, algo muito diferente da canção
que deveria estar executando. Porém nada doeu mais do que o que senti
quando o monstro arremessou sua bocarra aberta em direção a Andrew.
—Vá embora! – gritei com todo o ar que me restava nos pulmões.
Eu não tinha ciência do erro que havia cometido. Interromper o
encantamento com aquele grito não foi o bastante para anular a Magia,
mas a fez sair de meu controle. Erguendo meu braço, vi se formar a
“Espada de Galatéa”. A lâmina de Mana se ergueu até os céus, abrindo
caminho por entre o oceano de nuvens. A pressão gerada pela absurda
quantidade de energia fazia meu corpo estremecer.
Queria desistir.
Era doloroso demais. Se me jogasse no chão a espada trespassaria a
terra e quem sabe não cortasse o monstro no processo.
Queria muito desistir.
43
Hare
Mas não podia.
Prometera para mim mesma que não deixaria mais ninguém morrer,
não importasse o preço que tivesse que pagar. E com um esforço do
qual não me acreditava capaz, movi meu braço em direção à aberração,
fazendo a lâmina deslocar-se como um pêndulo reverso.
A espada desceu cortando o ar com um silvo estridente, atingindo o
pescoço do Daikaiju. Meu ombro parecia querer quebrar devido à força
que lhe era imposta. A dor era crescente, estonteante, mas de certo modo
inebriante. A onda de choque gerada pelo choque foi forte o suficiente
para atirar blocos de concreto a metros de distância. O monstro ainda
assim resistiu. Aumentei a força até sentir que minha clavícula ia se
partir e ele ainda assim resistiu. Fui além. Sabia que podia nunca mais
poder usar aquele braço, entretanto derrubá-lo era mais importante.
Ignorando o dano que sofria e com todo o esforço de que era capaz,
trouxe abaixo a cri atura. A colisão fez o chão tremer, derrubando
algumas das construções previamente danificadas. A destruição era
incalculável, porém poderia ter sido ainda maior não tivesse o Instituto
agido rapidamente.
Apesar do impacto, o monstro tentava se erguer e ainda que os
prédios atingidos pela Espada de Galatéa acabassem cortados como
se feitos de papel, a pele da criatura continuava virtualmente intacta.
Aumentei ainda mais a força, fazendo meu ombro chegar mais perto
de se partir do que nunca. Continuei ampliando a força aplicada até o
couro começar a ceder. Abruptamente a energia que me restava foi se
esgotando e a lâmina de luz pouco a pouco se desfez no nada, deixando
para trás a monstruosidade, ilesa e raivosa.
Fraquejei. Meus joelhos não conseguiram mais me suportar e caí.
Havia abusado do meu corpo e agora ele cobrava retribuição. Tudo
parecia tão distante e enevoado que não me sentia mais parte daquilo.
Vi um borrão negro crescendo, marcado por dois pontos flamejantes
em seu alto.
Era meu fim.
Seria esmagada por aquela criatura e tudo estaria perdido. Imagens
do meu corpo reduzido a uma poça de sangue, fragmentos de ossos e
gordura passaram pela minha cabeça. Achei que fosse vomitar.
Não queria que terminasse daquele jeito...
44
Hare
Não tinha que terminar daquele jeito...
Não podia terminar daquele jeito.
Não ia terminar daquele jeito!
Gritando de dor, tentei me erguer. Meu ombro direito doía
insanamente e todo o resto estava absurdamente desgastado e tenso.
Ainda assim me levantei. A criatura agora avançava em minha direção
a passos desmedidos, fazendo a terra tremer a cada pisada. Ainda tinha
energia o bastante para chegar ao meu posto usando movimento por
explosão e era o que faria.
Avancei quão rápido meu corpo tolerava, mas ainda assim o
monstro se aproximava mais e mais. Meus músculos estavam cada vez
mais fatigados pelo esforço continuo e era quase impossível continuar.
Sentia a respiração poderosa do Daikaiju atrás de mim. A bocarra
colossal almejava meu corpo, queria devorar-me. Faltava muito pouco
para chegar ao ponto. Eu tinha de conseguir não independentemente
do que acontecesse depois. Com toda energia que me restava dei o salto
mais longo que pude. Fechei os olhos, com medo de saber o que ia
ocorrer.
E por um segundo, por um efêmero momento no tempo, me senti
voando tranquilamente. Foi sublime.
Quando caí no chão, exatamente por sobre onde deveria ter
caído, a cabeça do monstro passou por cima de mim. Enquanto ele se
reposicionava, entrando por completo dentro do sistema, olhei nos seus
olhos escarlates e ela retribuiu irada, como se soubesse o que faria a
seguir. Abri a chave e ergui meu braço quanto pude.
—Burn, my dread! – Gritei, colocando a chave no lugar.
Energia começou a fluir pelo sistema, fazendo tudo adquirir um
brilho azul. As marcas se formaram rapidamente e uma redoma cobriu
toda a área. A “Pia Obex”, a Magia criada pela própria Galatéa e por
ela usada em sua peregrinação ao redor do mundo caçando Daikaijus.
Woruldfrea, Ilhuicateotl, Aquerus, Shoukyaku… mesmo os Quatro
Grandes foram feridos por seu poder capaz de dobrar o espaço e rasgar
o tempo.
Dentro do círculo toda matéria começou a se distorcer. Ângulos
impossíveis, formas geométricas inexplicáveis e toda sorte de alteração
anormal da geometria espacial se formava com clara nitidez. No meio
45
de todas as indescritíveis imagens o Daikaiju urrava furioso. Sua figura
começava lentamente a se refazer em algo que palavras não poderiam
descrever. Logo tudo que restava era um espaço irreconhecível e nenhum
vestígio de um monstro. Finalmente, havia terminado.
Deitei-me no chão, de olhos fechados. Estava completamente
exausta e dolorida. O Sol gentilmente caía sobre mim e a brisa macia
me acariciava. Andrew estava certo, era um lindo dia para morrer. A paz
era tamanha que achei que fosse cair num sono profundo. Subitamente
senti o calor diminuir juntamente com a luz.
—Ainda está viva? – me perguntaram.
—Acho que sim.
—Se importa se eu me deitar ao seu lado?
—Nem um pouco.
Não sei por quanto tempo ficamos lá e, honestamente, não me
interessa. O que importa é que era um dia lindo para se estar viva.

Elisabeth “Lisa” Anderson

46
Origem

World of Humans - Origem


“Sim, o que tinha uma pequena porcentagem de acontecer,
infelizmente aconteceu.” Dizia um general do exército brasileiro com
uma farda cheia de medalhas, discursando sobre um palanque para
uma plateia de mais ou menos 100 pessoas, entre elas chefes de estado,
comandantes, outros generais, certas pessoas escolhidas a dedo e alguns
cientistas.
“... Nós falhamos. A humanidade falhou. E agora teremos que arcar
com as consequências...”.
“... O Mundo que conhecíamos acabou. Agora temos que garantir
a sobrevivência da espécie humana, assim como todo o conhecimento.
Nós do Brasil temos que garantir um banco de dados de tudo que a
humanidade produziu em cerca de cinco milênios. Grande parte desse
conhecimento estará espalhado pelo nosso país, em diversos pontos
considerados históricos e sagrados, em um local de extrema segurança
desses monstros. O projeto de recuperação destes, caso tudo desse errado,
foi titulado de projeto Juanes, e nosso objetivo agora é ir atrás desses
pontos históricos, portanto, mãos a obra bravos brasileiros!” Completou
seu discurso com louvor, e foi descendo do palanque aos poucos.
Este militar tinha aparentes quarenta e cinco anos, e pelos olhos
dele dava para sentir toda a tensão de uma nação. Tinha curtos cabelos
negros, tal qual a noite que pelas janelas do quartel fazia-se presente. Seu
nome era General Guilherme Rodrigues, natural de Brasília, Distrito
Federal.
“Senhor, seu quarto está pronto, vamos.” Dirigiu lhe a palavra um
sargento, que foi de encontro ao seu general que estava vendo o céu por
as vidraças do quartel.
“Meu deus, olha o que o nosso mundo virou... tudo por causa de
uma decisão mesquinha... e o nosso governo a aprovou ainda... que
governo é esse que promove tal chacina?” perguntou o general olhando
para os meta-humanos que faziam um círculo em volta do prédio do
exército. “Diga-me sargento Gustavo, me diz.”
47
Origem
“Não sei senhor... Mas seu quarto está pronto, queira retornar aos
seus aposentos para descansar. Nós precisamos do senhor.”
“Tudo bem, estou indo sargento.” Terminou a conversa o general,
tornando sua atenção agora, a um toque que recebera no ombro esquerdo,
que ao virar, viu-se que era um cientista.
“Olá, posso ajudar-lhe?” Disse o General.
“Olá senhor, sou o Rafael, cientista e professor da Universidade de
São Paulo, e tenho algo muito sério e importante para lhe falar” Disse
um rapaz alto, de cabelos curtos e castanhos claros jogados para um
lado uniformemente, combinando com o tom de seus olhos, e de físico
razoavelmente forte.
“Acompanhe-me Rafael” Disse o general Guilherme.
O grupo passou pelo hall principal, e em seguida foi para o quarto
o qual o sargento tanto queria que Guilherme fosse.
“Entrem e fechem a porta” disse Guilherme, deixando entrar o
sargento, o cientista e mais 3 amigos dele que estavam com ele.
“Estas são Julia e Natalia” Disse o cientista apontando pra suas
duas assistentes. A Primeira era pequena, com cabelos ondulados até a
cintura da cor da asa do mais negro pássaro de todos. Tinha o corpo que
até com o avental, dava-se para ver as curvas da perfeição. A Segunda
era loira, com os cabelos até a cintura, também com o mesmo corpo da
primeira, usava um óculos preto que lhe dava um ar de mais inteligente
e perspicaz.
“Eu acho que achei a cura para isso tudo. E está neste tubo de
ensaio.” Disse o cientista dando para o general o tubo e um pen-drive.
”Basta o senhor visualizar.”
“Ok, vou ver tudo isso e se você conseguiu você é um gênio! E
salvará toda a humanidade!” concluiu o general em tom de êxtase.
Porém um barulho atrapalhou toda a descoberta. Um sinal vermelho
percorreu por todo o prédio, seguido de um alerta de perigo.
“Eles entraram aqui.” Disse o General. “Agora é em questão de
minutos até chegarem aqui.”

48
Passado

Otello - Passado
Nem sempre esta foi uma terra triste a qual todos suplicam
conseguir viver nela. Não pelo menos na minha visão. Por mais que
pareça ilusão minha, houve um tempo que tão castigado lugar teve um
Sol sorrindo sobre nós. Muitos achavam que na época eu não tinha
consciência do que dizia ou pensava, dou minha palavra que estavam
enganados. Posso estar com os meus 45 anos agora e a ponto de padecer
sobre esse solo infértil que assim como nós suplica por um alimento a
qual possa se fartar.
Prazer, meu nome é Odissey Claire, moro no inferno que um dia
era o paraíso de Prosis, e hoje é conhecida como Otello. O porquê da
mudança do nome será explicado brevemente, mas digo que vou fazer
o máximo para não chegar à tragédia que ocorrera por aqui, e ela tem
haver com esta mudança.
Esse fato não é ligado como nas histórias por conta de um artefato
mágico que foi roubado e levou junto a canção de nosso povo, ou
uma morte de nosso líder, que felizmente morreu. Já começo por esse
ponto, aquele gordo rabugento era tão obscuro quanto o nosso céu
agora, jurava antes que a culpa de nossa tristeza estava vinculada ao
seu reinado corrupto, mas não tinha nada haver infelizmente. Hoje ele
está queimando no fogo do inferno, mas não pelo que queria, porém ele
mereceu o castigo pelo que já fez a nós.
Voltando o trem aos trilhos, Prosis era uma terra feliz, como todas
as outras de nosso amado país. O cultivo era rico e farto, as famílias
cantavam com louvor e harmonia, não literalmente, mas era o que
se dava a interpretar por ali. Prosis ficava entre as distantes terras de
Arquimandes e fronteira com Ternua, local muito bem escolhido para
construção de um reino. Aqui começamos toda essa nostalgia de
tempos que ainda não eram remorsos, e que dá vontade de regressar
ao passado apenas para evitar a merda que eu fiz. A noite brisava, os
campos dormiam, as pessoas cantavam e eu nascia, as belas paisagens
pitorescas que nos cercavam faziam o repertório, enquanto pra bem

49
Passado
longe mantinham afastados o medo e o ódio”. Canção de que nunca me
esqueço desde que eu vim a este mundo, minha mãe dizia que tão épica
utopia iria se estender até as virgens terras que não foram descobertas
pelo homem.
Lembro como se fosse ontem os meus dez anos de idade, meu
pai ainda não teria retornado de uma caçada, enquanto minha mãe
trabalhava em nosso pomar de maçãs, tão vermelhas quanto os meus
lábios. Enquanto eu, pequena de cabelos ondulados, tão lindos como os
da minha mãe, já demonstrava ser útil em casa na faxina, pois mamãe
dizia e repetia que um lar, por mais humilde que seja, será feliz se estiver
limpo. Sempre fui educada e demonstrava afeto pelo meu próximo, até
o dia dela chegar.
Ela veio atrás de minha mãe, com o nariz empinado, e o ego inflado
e um repúdio que exalava de longe. Nunca fui assim com estranhos, pois
não os julgava dessa forma, mas aquela havia me chamado totalmente a
atenção. Fiquei a espreita as observando de maneira discreta, para não
notarem as minhas feições na presença daquela senhora, de uns setenta
e poucos anos e com vestes negras como a da morte, mas não tinha
tanta certeza, pois não a conhecia pessoalmente.

Havia me visto! Notou que eu estava atenta a cada passe seu dado,
minha mãe naquele momento ficou preocupada e me chamou para
conhecê-la, mesmo não indo com sua cara, e talvez por ela já ter notado,
eu era educada e fui cumprimentá-la. Seu nome era Tabita, conhecida
como a joia eterna de Prosis. Muito antes de eu ter nascido ela era a
mulher mais bela e invejada de nosso reino, e nem tão surpreendente,
esposa de nosso “adorado” rei. Ela havia feito uma viagem mundo a
fora e voltara recentemente, dizia estar com saudades de seu amor e ver
como estavam as novas e boas por esta região.
Achou-me uma menina bonita, mas ainda não ia com a cara dela.
Ela me dava calafrios e nojo, não me surpreendia ser mulher daquele
homem. No entanto, por eu ser um doce de um anjo como ela mesma
citara, disse a minha mãe que ia me adotar. E por incrível que parecesse,
ela aceitou! Não acreditava que minha mãe havia me tratado como um
mero objeto naquele momento. Fiz um esforço para não começar a
chorar, era um pouco difícil, mas tinha que aguentar.

50
Passado
O rei Harlon, assim tão odiado por mim, cobrava e exigia muitas
coisas frustrantes, geralmente apenas para sua diversão, ou apenas para
mostrar que tinha poder sobre nós. Desde aquela época o ser humano
era apenas um souvenir para os mais fortes, o que era não tão longe da
realidade de agora. E ai de quem o questionasse ou confrontasse não
estaria com a cabeça no pescoço para pensar e no fim não estaria com
ela após passar pela guilhotina.
Depois de umas semanas, a megera havia vindo me buscar de
charrete, e me levar até o palácio, onde lá eu seria treinada, educada
e direcionada ao ramo de princesa. Não ia muito com a ideia, mas
para não mostrar que eu era uma qualquer, tive que fazer por onde. À
distância do Palácio até onde eu morava dava para observar cenários
que, hoje tão tristes, até sorriam para nós, lagos que hoje são puras
áreas rochosas e reservas que hoje não passam de desertos, dá até pena
ver o estado atual de nossa terra e assistir de perto cada momento de
depressão e perda das mesmas.
Passei sete longos anos ouvindo musicas clássicas, vestindo roupas
refinadas e encarando uma realidade totalmente diferente da que eu
vivia, agora via Prosis por um olhar diferente, mas meus olhos ainda
não me vendavam a tristeza que nosso povo sentia no fundo. Por mais
que não fosse tão notória a tristeza que abalava a cada momento o lugar,
eu sentia de corpo e alma o que os moradores retratavam. Era ter que
aos poucos mandar seus filhos que nunca mais retornavam para locais
seguros e que seriam bem tratados, pois tinham receio de um futuro
nada agradável, que assim se realizou.
Estava com meus dezessete anos, agora quase adulta, fui totalmente
mudada em aparência e um pouco psicologicamente, admito ter me
tornado mais narcisista, mas ainda tinha aquele espírito de sete anos
atrás. Em meio a tantas valsas, duques e reis de outras nações, eu
via como tão diferente destes o nosso rei tratava seus subordinados,
humilhando-os apenas por diversão e impedindo-os de questionar algo
contra sua conduta. Era óbvio que ele não notava o que sua própria mão
fazia, apesar de ainda não entender por qual razão ainda o tratavam tão
bem.
Infelizmente era obrigada a aceitar aquilo dentro do palácio, por
mais nojenta que fosse toda aquela humilhação, o rei era a autoridade
maior e todos os respeitavam obrigatoriamente, querendo ou não um
51
Passado
dia se opor a ele e cortar sua garganta com uma faca. Enquanto Harlon
tratava de assuntos políticos, Tabita me tratava como se fosse sua filha, se
eu realmente fosse, teria um bom motivo para matar minha própria mãe,
da qual nunca mais tive noticias. Passaram-se quase dois anos depois
disso, os meus 19 anos chegaram no momento mais negro do reino de
Prosis, tudo estava mudando para pior, o rei estava envelhecendo e ao
invés de ganhar experiência com seu próprio reinado, parecia regredir
psicologicamente, não sabendo o que fazer e onde atuar . Viam-
se campos verdes semeados ficarem escassos, animais desidratados e
pessoas começando a bater os portões do palácio suplicando melhoras.
O que eles não sabiam era que havia uma crise maior aqui dentro, algo
que eu presenciava. O povo começou a entrar em pânico, e alguns que
podiam, se mudavam, outros tentavam botar fé no nosso rei acreditando
que ele iria mudar aquilo.
Tabita havia falecido após ter ingerido no almoço um porco doente,
infectado por uma praga maldita e incurável,cujo nome nem cito de
tão detestável, sendo este animal criado em uma das melhores fazendas
da região. Harlon começou a entrar num estado de choque e decidiu
importar alimentos para ele, nem estava dando atenção àquelas pobres
almas que ficavam abaixo dele. Passou-se um tempo, e percebendo o
que estava ocorrendo, começou a ser tomando por uma insegurança
enorme, já estava desistindo de viver, e o pior de tudo, queria já deixar
o trono a um herdeiro do sexo masculino que prosseguisse com sua
linhagem. Mesmo não tendo mais condições de educa-lo na situação
aparente de seu reino.
Não havia duvida alguma de que com sua insegurança, eu fui a
única opção dele de conseguir este tal herdeiro, mas era uma chance
entre uma em quatro de eu ficar grávida de um menino. Mas esse trecho
nem quero citar, pois até eu fico com medo de descrever como ele era na
cama. Passaram-se 9 meses e o rei voltou a ter esperanças, um menino
havia nascido, nunca vi o rei se rebaixar tanto, dizia ele que era pra
tratarmos com nossas almas de tal relíquia, pois um dia este seria o
salvador de Prosis.
O batizamos de Ellos, e cuidamos por longos 20 anos até ele estar
maduro, pelo menos eu até uns 15 anos do meu filho, pois nesta idade
Harlon já havia falecido, infelizmente não sendo no momento mais
agradável. Eu não entendia muito dos assuntos que englobavam as
52
Passado
questões políticas de Prosis e seus aliados, acabei deixando tudo um
verdadeiro caos com a minha inexperiência, já que Tabita nunca havia
me educado para ser uma líder, e sim uma dama.
Foi nessa situação que havia notado as merdas por mim criadas,
com tantas ordens sem cabimento vindas de minha cabeça, havia
tornado Prosis um verdadeiro inferno, justamente o que é a situação
de agora. A culpa não havia sido do rei, nem de Tabita, foi totalmente
minha, reclamava tanto da forma de governo de nosso rei, mas não
imaginava que seria tão tenso tomar a liderança de um reinado, e foi
com essa burrice minha que Prosis tornou-se um lugar lamentável.
Poderia fugir e deixar tal local abandonado, mas eu tinha coragem
de continuar e conviver com o meu fracasso, que agora fazia parte do
meu dia a dia, percebi de uma hora para a outra meu filho não saberia
por onde começar, já que como eu, não teria ninguém que o instruísse.
Resolvi mandá-lo para outro reino, onde seria treinado para me auxiliar
na tristeza que estava se tornando o meu reino.
A cada momento via Prosis murchar como uma planta abandonada
e não cuidada ou um tomate apodrecido, nunca mais havia ouvido falar
de meu filho desde a vez que o mandei para outro lugar, agindo como
a maioria dos camponeses, e nem sei se o mesmo estaria bem. Talvez
estivesse agora liderando o reino que eu havia o mandado, por sorte eu
não o deixei aqui comigo, padecendo como a alegria de nosso povo, que
agora ignora a existência de um líder e contavam com a boa vontade dos
deuses. Foi nesse contraponto que dei minha palavra final para o reino
de Prosis, que em memória de meu filho, seja lá como esteja ou onde,
se chamaria, Otello.
Depois de tantas desgraças, percebi que não haveria mais utilidade,
já estava tão cansada e desgastada como Otello, vi que tais jardins tão
bonitos agora eram verdadeiras depressões, e diversas áreas tão bonitas
se tornaram cemitérios. Não aguentava mais olhar para aquilo tudo e
comecei a adoecer juntamente com o solo. Havia me debruçado e vendo
se a terra me aceitava como esperança de uma viva luz e nada. Sentia-
me tão inútil quanto o meu próprio governo.
Fui deixada ali mesmo, por minha própria vontade, no frio mortífero
que me despedaçou com o passar do tempo, só restando lembranças
felizes que já acabavam, e que eu chorava e jurava neste mesmo instante
em voltar no tempo, vendo verdadeiros entes queridos meus morrerem
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juntamente comigo, e nunca ter sido responsável por esta tragédia.
“A noite brisava, os campos dormiam, as pessoas cantavam e eu
nascia, as belas paisagens pitorescas que nos cercava faziam o repertório,
enquanto pra bem longe mantinham afastados o medo e o ódio”.

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