Você está na página 1de 8

A DIGNIDADE DE UM HOMEM ELEFANTE- A HISTÓRIA DE JOHN MERRICK

À LUZ DO DIREITO CONTEMPORÂNEO

Bernadete Schleder dos Santos1

Em 1980, com direção de David Lynch, numa produção do cinema norte-


americano e do Reino Unido, , foi lançado o filme O Homem Elefante (The Elephant
Man), ambientado na cidade de Londres, no final do século XIX, ilustrado em preto e
branco, apresentando assim um retrato sobrio da época.

Baseado numa história verídica, com argumento de Eric Bergren, Christopher


DeVore & David Lynch, The Elephant Man constitui um dos retratos humanos mais
emocionantes alguma vez vistos no cinema. O filme conta a história
real do inglês John Merrick (1862-1890), interpretado por John Hurt, portador de uma
doença que deformou de maneira irreversível 90% do seu corpo, chamando a atenção
do anatomista Frederick Treves (Anthony Hopkins), que o encontra num circo de
aberrações, onde se alimenta apenas de batatas e é seguidamente espancado.

O tratamento desumano dado a Merrick o equipara a uma mercadoria, não só por


gerar lucros ao seu proprietário, mas por ter sido coisificado e receber tratamento
incompatível com sua condição humana. Ao chamá-lo de criatura e ao apresentá-lo
como aberração, o dono do circo desconhece a sua qualidade identificadora de ser
humano: um ser de dignidade que o torna superior sobre todos os seres irracionais, pelo
simpes fato de pertencer à espécie humana, independentemente de quaisquer outros
atributos que venha a ter. O mesmo tratamento de mercadoria é dado pelo público que o
assiste, não reconhecendo naquele ser o seu semelhante, merecedor de respeito e titular
dos mesmos direitos inerentes à personalidade humana. Mario Delgado (2006, p 705)
afirma que os direitos da personalidade são direitos inerentes e essenciais à pessoa
humana, decorrentes de sua exclusiva humanidade , e que protegem todas as suas
projeções, nos planos físico ou espiritual, possiilitando, assim, ao ser humano, a defesa
daquilo que lhe é próprio (honra, vida, liberdade, intimidade, privacidade, etc...).

Ao pagar ao “dono” da “criatura” uma quantia monetária de modo a fazer


alguns testes médicos, o Dr Treves busca aumentar a sua reputação profissional. Após
usar a “criatura” para os seus propósitos, entrega-a de novo ao “dono” que, num acesso
de fúria, espanca o Homem Elefante. Muito ferido e com uma grave bronquite a agravar
ainda mais a sua situação, o médico acaba por admiti-lo no hospital para tratamento.
Com o tempo, o Dr. Treves acaba por descobrir que a suposta “criatura” esconde um
homem que, não só consegue falar, como apresenta-se como um indivíduo
extremamente culto...

O aspecto de John Merrick não é somente grotesco, mas um fenômeno da


anatomia que desperta o interesse científico. Ele tem o crânio dilatado em grandes bolas
ósseas protuberantes, metade do rosto completamente desfigurando com sobras de pele
por toda a parte, uma bronquite aguda que o faz respirar como se fosse uma besta
assassina, além de grossas saliências escamosas expostas na espinha dorsal, que dão a
sua pele a aparência de uma couraça. As únicas partes do seu corpo que escapam da
deformidade são, por ironia, suas genitálias e seu braço esquerdo. O filme apresenta
1
Mestre em Direito. Professora de Direito Civil UNIFRA/SM; UFSM/SM E ULBRA/Cachoeira do Sul.
essas imagens duras, mas o que o torna inesquecível é que mostra tudo que um ser
humano é capaz de sentir, todas as suas ambigüidades, desvios de caráter, quando
exposto às situações mais extremas. Por outro lado, apresenta uma crítica à sociedade
que apresenta uma curiosidade mórbida com relação ao diferente, chegando ao ponto de
comercializar a imagem da pessoa doente, esquecendo-se da sua essência humana que é
bem caracterizada pela personagem através de cenas como a em que Merrick revela ao
médico que decepção ele deve ter sido para sua mãe quando nasceu.

Rodrigo da Cunha Pereira (2005), ao citar Kant, ministra que o homem jamais
deve ser transformado num instrumento para a ação de outrem, eis que isso se constitui
numa afronta a própria dignidade humana..

Embora o mundo da prática permita que certas coisas ou certos seres


sejam utilizados como meios para a obtenção de determinados fins ou
determinadas ações, e embora não sejam incomuns historicamente
que os próprios seres humanos sejam utilizados como tais meios, não
se torne instrumento da ação ou da vontade de quem quer que seja.
Em outras palavras, embora os homens tendam a fazer dos outros
homens instrumentos ou meios para suas próprias vontades ou fins,
isso é uma afronta ao próprio homem. É que o homem, sendo dotado
de consciência moral, tem um valor que o torna sem preço, que o põe
acima de qualquer especulação material, isto é, coloca-o acima da
condição de coisa . ( 2005, p. 96)

A crítica especializada chama a atenção para o mérito do diretor David Lynch ao


provocar um processo de auto-análise no espectador, que ao fim percebe que a piedade
é um passo para exploração, dissimulação e alívio de consciência quando apresenta o
argumento do "dono" de Merrick, Mr. Bytes, ao tentar convencer o médico a liberar
"seu tesouro" de volta ao seu show de horrores: "O que ele vai fazer? É uma aberração,
coitado. Somos sócios. Eu ajudo ele e ele a mim. Nós entendemos um o outro". Para o
público, John Merrick chega até a ficar bonito, ao se perceber quão interessante, apesar
de utópica, é sua personalidade desprovida de maldade, talvez por tanto ter sofrido maus
tratos – o que, a crítica aponta como algo muito improvável para se acreditar na história.
(http://paginas.terra.com.br/noticias/fachada/reportagens/cinema/05_08_27_elefante.ht
m)

O filme traz cenas chocantes e dramáticas, representando o que há de bom e de


ruim no comportamento humano. O close do rosto dr. Frederick Treves (Hopkins)
quando vê o Homem Elefante pela primeira vez em sua jaula, durante uma apresentação
particular que o dono do circo, Mr. Bytes (Freddie Jones) faz do seu "tesouro", como se
refere ao rapaz de 21 anos que foi pisoteado por um elefante ainda no útero da mãe; a
cena da crise moral do médico quando, depois de livrar John Merrick do circo de
horrores, se questiona se não está fazendo a mesma coisa que o mercenário Mr Bytes,
expondo seu paciente para os alpinistas sociais da alta classe londrina e para doutores
da cúpula médica da cidade, que aparecem para conhecer a mais nova celebridade –
antes presa numa jaula, agora presa a xícaras de chá e encontros banais – e não deixam
de demonstrarem seu menosprezo, mas felizes por aparecerem nos noticiários.

De objecto bizarro de circo, Merrick passa a objecto do voyerismo cruel dos que
pagam por uma foto mais ‘exótica’, mas também tem a oportunidade de conhecer a
bondade da atriz Mrs Kendal, interpretada por Anne Bancroft, que esquecendo o seu
aspecto medonho o acha um belo e consegue enxergar sinais de uma sensibilidade
extrema.,uma inteligência tímida, pura e incompreendida, despertando a sua auto-
estima.

A maldade humana é retratada de forma marcante em momentos como quando um


porteiro aproveitador do hospital promove um espetáculo no quarto de Hurt, trazendo
uma multidão de bêbados e prostitutas para embebedá-lo, e também como na cena em
que Mr. Bytes açoita Merrick em cima de um picadeiro com uma bengala, numa
apresentação em Paris, quando ele já não consegue mais ficar em pé devido a sua
doença degenerativa e cai exausto no chão, sofrendo a reação do público francês que
cospe no palco e Bytes joga Merrick dentro de uma jaula com babuinos furiosos, como
castigo.

A infração ao bem jurídico fundamental, que é a dignidade humana, é expressada


nestas cenas com um realismo chocante. O termo dignidade, conforme destaca
Groeninga (2006, p.442), designa tudo aquilo que merece respeito, consideração,
mérito... Para a autora, a dignidade é acima de tudo uma categoria que se relaciona
com a própria representação que fazemos da condição humana, ou seja, ela é a
qualidade ou o valor particular que atribuímos aos seres humanos em função da
posição que eles ocupam na escala dos seres. Groeninga ressalta que, na História, não
faltam exemplos de indignidades cometidas contra a humanidade. Produto de mentes
sem alma, sem conhecimento de si e do outro, sem capacidade de empatia, sem noção
de Dignidade- uma consciência, um conceito que tem uma inserção histórica, como
mostra a evolução dos Direitos Fundamentais (2006, p. 443).

Por outro lado, a cena em que Mrs. Kendal recita Romeu e Julieta aos prantos
com John Merrick e por fim, emocionada com o instinto dramático de Merrick, olha
para seu rosto desfigurado e diz: "Você não é o Homem Elefante... Você é Romeu!",
demonstra exemplos da contradição do espírito humano que se debate entre o bem e o
mal, entre uma natureza mercantilista, sórdida e egoísta e um espírito de solidariedade,
empatia e generosidade.

Groeninga ensina que empatia é o poder de sentir-se dentro do outro, por meio de
identificações incorporadas na identidade pessoal. É a capacidade de apreender o outro,
o seu sofrimento. É uma forma elaborada, superior de sentimento, constituindo-se numa
qualidade da personalidade que só pode ser desenvolvida se forem dados ao indivíduo
condições para al- familiares, sociais, intelectuais e afetivas. (2006, p. 445). O respeito à
dignidade humana é uma forma de olhar a realidade e agir, resultando na compreensão
emática do outro.

Nenhuma cena consegue superar a emoção e a humanidade do que quando ocorre


a passagem de John Merrick para a morte. Feita de uma viagem por estrelas e a mais
antiga lembrança positiva das palavras da sua mãe, dizendo que “nada jamais morrerá”,
quando ele finalmente termina de construir sua maquete da Saint Philip’s Cathedral no
seu quarto de hospital e resolve, por fim, dormir com a cabeça encostada no travesseiro,
como qualquer pessoa normal.

Ao dar-se o direito de acomodar-se como qualquer pessoa normal, Merrick exerce


o seu direito de igualar-se aos seus semelhantes. O direito à igualdade de todos perante
a lei é considerada uma conquista da humanidade. Afastou os privilégios da razão da
origem, do sangue, do estamento social, e dotou a todos de iguais direitos subjetivos.
Por outro lado a sua diferença física também se constitui em um direito, pois cada
homem é um ser diferente, e a construção da cidadania só é possível na diversidade. A
formação e a construção de uma identidade se fazem a partir da existência de um outro,
de um diferente.

Para se produzir um discurso ético, respeitar a dignidade humana e


atribuir cidadania é preciso ir além da igualdade genérica. Para isso
devemos inserir no discuro da igualdade o respeito às diferenças.
Necessário desfazer o equívoco de que as diferenças significam
necessariamente a hegemonia ou a superioridade de um sobre o outro
[...] Em outras palavras, a formação e a construção da identidade, se
fazem a partir da existência de um outro, de um diferente. Portanto, é
a partir da diferença, da alteralidade, que se torna possível existir um
sujeito. Enfim, é a alteralidade que prescreve e inscreve o direito a ser
humano. ( Rodrigo da Cunha Pereira, 2006, p. 141)

No circo de horrores apresentado no filme, além do homem elefante, eram


atrações a mulher barbada, o chinês que sangrava pelos dedos, as irmãs siamesas e o
grupo de anões corcundas, capazes de atrair multidão sedenta de coisa extraordinárias e
bizarras, eis que o povo que pedia mais deformidades, mais aberrações, retratando uma
sociedade do século XIX que, diante de cenas que provocam emoções fortes, consegue
se desvincular do instinto humano da solidariedade e da piedade pelos seus iguais.
Talvez exatamente porque não os veja como iguais naquele momento, pois são
apresentados como diferentes. Essa realidade não foge muito aos padrões atuais,
especialmente pela luta de melhores índices por audiência nas emissoras de televisão.
Reportagens como “menino-peixe”2; pessoas com deficiência física e mental que se
apresentam de forma bizarra3, o close no rosto de familiares que acabam de receber
notícias trágicas relacionadas ao entes queridos, são exemplos recentes de espetáculos
2
Publicação na Folha de S. Paulo de 1/11/01:"Deputada vai à Promotoria contra exposição na TV de
menino doente":A Frente Parlamentar Contra a Violência e a Exploração de Crianças e Adolescentes, de
São Paulo, irá entrar com representação no Ministério Público contra o programa ‘Hora da Verdade’, da
TV Bandeirantes.A atração, comandada por Márcia Goldschmidt, mostrou ontem à tarde o drama de um
menino com uma doença rara, não-identificada pelos médicos. Ele tem escamas pelo corpo, não consegue
fechar os olhos e precisa ficar constantemente na água.Chamado de ‘menino-peixe’ pela apresentadora,
R.,10, foi a principal atração do programa e ficou no ar por mais de uma hora. Em uma pequena piscina
de plástico montada no palco, o menino, a pedido da apresentadora, andou e até cantou. ‘Hora da
Verdade’, que costuma ter médias de 5 pontos no Ibope, ontem chegou a 7.Para especialistas, a exposição
de crianças doentes na TV é uma infração ao Estatuto da Criança e do Adolescente e demonstra falta de
ética.Segundo a deputada Maria Lúcia Prandi (PT-SP), coordenadora da frente, usar imagens de crianças,
sobretudo doentes, em programa televisivo é ‘abominável’.‘Vamos requisitar uma cópia do programa
para que possamos entrar com uma representação no Ministério Público contra a emissora de TV que
expôs a criança.’Segundo a deputada, o estatuto proíbe a exposição de crianças a situações vexatórias ou
constrangedoras. ‘Acredito que isso seja um absoluto desrespeito ao ser humano, ainda mais em se
tratando de uma criança.’A promotora da Infância e Juventude Luciana Bergamo Tchorbadjian concorda.
Segundo ela, os próprios pais podem ser punidos por concordarem com a exibição da criança. ‘Usar o
argumento de que precisam da TV para receber tratamento não é real, é só procurar a Promotoria da
Infância que nós providenciamos ajuda.’Para Laurindo Lalo Leal Filho, presidente da ONG Tver, além da
infração ao estatuto, o programa também cometeu uma infração moral. ‘Do ponto de vista ético, há
violação da dignidade humana, mais uma vez ferida pela TV.’Antonio Teles, vice-presidente da Rede
Bandeirantes, afirmou que ‘o quadro é chocante, mas compatível com a realidade chocante da miséria
brasileira’.Não vejo nada que seja chocante para alguém que não seja hipócrita. Não vejo por que não
mostrar a verdade em um país em que há liberdade de expressão.’ Segundo ele, graças ao programa, o
Ministério da Saúde assegurou tratamento a R. no Hospital São Paulo (zona sul paulistana)."(in
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/,acesso em 10 de setembro de 2007)
semelhantes. Porém, nada se compara às divulgações feitas via INTERNET de corpos
destroçados como resultados de graves acidentes, como o que vitimou o grupo musical
Mamonas Assassinas, e, mais recentemente, as vítimas do acidente aéreo no Aeroporto
de Congonhas, envolvendo avião da TAM.

Entre os precedentes históricos relacionados como direitos integrantes à esfera da


intimidade da vida privada na jurisprudência francesa, a partir de julho de 1970,
destacam-se os aspectos relacionados com o corpo, no que diz respeito ao estado de
saúde, e mais especificadamente,as enfermidades como parte da intimidade da vida
privada; assim como não pode ser objeto de publicação: um defeito físico decorrente de
um acidente; uma simples intervenção cirúrgica; ou o estado de convalescência de uma
pessoa ( Sampaio, 1998, p. 136). O direito à privacidade e à intimidade é previsto dentro
da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, na Constituição Federal de
1988, em seu art. 5º, inciso X, que dispõe serem invioláveis a initimidade e a vida
privada das pessoas, e ainda no art. 21 do Código Civil Brasileiro, que dispõe: a vida
privada da pessoa natural é inviolável, e o juiz, a requerimento do interessado poderá
adotar as providências necessárias para impedir ou fazer cessar ato contrário a esta
norma.

Em recente decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro foi deferido o pedido


de ressarcimento de danos sustentando pela publicação na capa da Revista Amiga os
seguintes dizeres: "AIDS – Os doentes da TV e da Música – como os artistas se
defendem da doença", publicando uma fotografia do autor ao lado das de outros artistas.
Também havia uma, manchete do teor seguinte: "A AIDS de Ney Matogrosso, Milton
Nascimento e Caetano Veloso". além de diversos posters espalhados pelas bancas de
jornais e revistas, e a veiculação de chamadas pela televisão com ênfase na AIDS dos
referidos artistas. O autor com indignação e revolta por ver seu nome associado à
terrível doença, e com fulcro no artigo 5º, X, da CF, c/c o artigo 159 do CC, pediu
indenização por dano moral.O Tribunal entendeu não é lícito aos meios de comunicação
de massa tornar público a doença de quem quer que seja, pois tal informação está na
esfera ética da pessoa humana, é assunto que diz respeito à sua intimidade, à sua vida
privada, lesando, ademais, o sentimento pessoal da honra e do decoro. entende a Corte
que o apelante deve ser indenizado pelo dano moral que sofreu em decorrência do ato
ilícito positivo das apeladas, violador do inciso X do artigo 5º da Consituição Federal.

3
Publicação na Folha de S. Paulo de 11/10/01"TV Globo é condenada a pagar R$ 1 milhão para
'Latininho':"A TV Globo foi condenada a pagar indenização de R$ 1 milhão por danos morais a Rafael
Pereira dos Santos, conhecido por ‘Latininho’. Portador da síndrome de Seckeel, Santos tem 87
centímetros de altura e sofre de problemas mentais. Ele foi apresentado no programa de Fausto Silva, no
dia 8 de setembro de 1996, como uma das atrações do quadro Recorde do Domingão.Segundo a juíza
Gisela Gastesi Chevrand Folly, da 21.ª Vara Cível do Rio, o apresentador humilhou o rapaz, comparando-
o ao ‘ET de Varginha’. A juíza entendeu que Faustão e seus convidados expuseram Santos, na época com
15 anos, a situação ‘vexatória’ e ‘aviltante’, em rede nacional, ‘sendo sua imagem explorada com nítida
intenção de ridicularizá-lo, destacando suas restrições físicas e mentais através de lamentáveis e
reprováveis comentários despidos do que se pode tolerar como admissíveis com um mínimo de bom
senso’. A ação foi movida pelo próprio Rafael Santos e a sentença foi proferida no último dia 11." )."(in
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/, acesso em 10 de setembro de 2007)
Entre os argumentos utilizados pelo relator, destaca-se a seguinte crítica à atuação
irresponsável de alguns meios de comunicação de massa:

O ser humano tem uma esfera de valores próprios que são postos em
sua conduta não apenas em relação ao Estado, mas, também, na
convivência com os seus semelhantes. Respeitam-se, por isso mesmo,
não apenas aqueles direitos que repercutem no seu patrimônio
material, mas aqueles direitos relativos aos seus valores pessoais, que
repercutem nos seus sentimentos. Não é mais possível ignorar esse
cenário em uma sociedade que se tornou invasora porque reduziu
distâncias, tornando-se pequena, e, por isso, poderosa na
promiscuidade que propicia. Daí ser desnecessário enfatizar as
ameaças à vida privada que nasceram no curso da expansão e
desenvolvimento dos meios de comunicação de massa. .(Apelação N.
3.059/91 1ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de
Janeiro,Des. Carlos Alberto Menezes Direito, Relator, 19 de
novembro de 1991)

Existe um relação íntima entre direitos da personalidade e direitos humanos,


conforme Ingo Sarlet, se chegou a afirmar que o princípio da dignidade humana atua
como o alfa e o ômega dos sistemas de liberdades constitucionais e portanto dos
direitos fundamentais (2004, p. 77).

Mário Luiz Delgado (2006) afirma que o conteúdo do princípio da dignidade


humana, tal como contemporaneamente plasmado na maioria das Constituições do pós-
guerra, foi construído e consolidado, sobretudo a partir da última metade do século XX.

Esse período certamente não foi dos mais felizes para a espécie
humana, principalmente porque imaginávamos nos encontrar em um
elevado nível de civilização. Os fatos históricos demonstraram, no
entanto, o quanto era ilusório o nosso estágio civilizatório. Duas
guerras mundiais em um intervalo de apenas 30 anos, o genocídio
perpetrado pelo nazifacismo pelos judeus, ou pelos japoneses contra
os chineses, a guerra fria, que por pouco não extinguiu a vida na
terra, e mais recentemente a Guerra dos Balcãs, demonstraram até
onde o ser humano pode chegar em matéria de degradação ética e
moral. O mundo assistiu a um verdadeiro retorno à barbárie. Nunca
se cometeram de forma tão fria e sistemática, tantas violações aos
direitos humanos como nesse período. (2006, p.702)

Para Paulo Luiz Netto Lôbo (2007) o objeto dos direitos da personalidade é o
bem jurídico da própria personalidade, como conjunto unitário, dinâmico e evolutivo
dos bens e valores essenciais da pessoa , destinados fundamentalmente ao exercício da
tutela da dignidade da pessoa humana, que é a titular dos direitos da personalidade,
como decorrência da garantia maior do direito à vida.

A Constituição brasileira, do mesmo modo que a italiana, prevê a


cláusula geral de tutela da personalidade que pode ser encontrada no
princípio fundamental da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III).
Dignidade é tudo aquilo que não tem preço, segundo conhecida
exaustiva, e sempre atual formulação de Immanuel Kant. Kant
procurou distinguir aquilo que tem um preço, seja pecuniário seja
estimativo, do que é dotado de dignidade, a saber, do que é
inestimável, do que indisponível, do que não pode ser objeto de troca.
(<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=4445>)

A lista dos direitos da personalidade não é exaustiva e jamais o será, pois a


evolução social sempre apresentará inéditas formas de atentar contra esses direitos, seja
por força da tecnologia, por força dos costumes, ou mesmo por características inéditas
que o fato pode apresentar. Porém um ponto sempre se fará presente, a agressão à
dignidade humana.

A história de John Merrick, ocorrida no longínquo século XIX tem uma grande
similitude com a decisão do Tribunal Administrativo relatado por Gustavo Tepedino no
texto, Direitos Humanos e Relações Jurídicas Privadas, in Temas de DireitoCivil
(2001, p. 55) , onde é apresentada a decisão favorável ao Prefeito de Morsang-sur-Orge
que, valendo-se do seu poder de polícia, interditou o espetáculo, em cartaz numa
discoteca, constituído pelo arremesso de um homem de pequena estatura - um anão -
pelos clientes, de um lado a outro do recinto, em certame com objetivos de
entretenimento. Apesar do recurso interposto pela próprio anão, litisconsorciado com a
empresa interessada, onde era argumentado que aquela atividade não perturbava “a boa
tranqüilidade ou a salubridade públicas”, e também no fato de que a atividade
econômica privada e o direito ao trabalho representam garantias fundamentais do
ordenamento jurídico francês, o caso acabou sendo submetido, em grau de recurso, ao
Conselho de Estado, órgão de cúpula da jurisdição administrativa que,alterando o
entendimento dominante, confirmou a decisão administrativa, assentando:

[...] o respeito à dignidade da pessoa humana é um dos componentes


da (noção de) ordem pública; (e que) a autoridade investida do poder
de polícia municipal pode, mesmo na ausência de circunstâncias
locais específicas, interditar um espetáculo atentatório à dignidade da
pessoa humana” Observou-se, ainda no exame da mesma hipótese,
que o Conselho de Estado, ao se valer de princípio insculpido na
Convenção européia, adotou orientação em sentido análogo à
tendência do Conselho Constitucional da França, o qual, na ausência
de norma expressa, decidiu, em 1994, “ao examinar a argüição de
inconstitucionalidade de uma lei versando sobre doação e utilização
de elementos e partes do corpo humano, ‘elevar’ o princípio da
dignidade da pessoa humana ao status de ‘principe à valeur
constitutionelle’. E o fez utilizando-se não de uma disposição da
Constituição em vigor (de 1958) mas de uma declaração de princípios
inserida na Constituição do pós-guerra (1946).( TEPEDINO, 2001, p. 55)

Considerando-se a necessidade de ampliação interpretativa da proteção da


pessoa humana em face da impossibilidade de regulamentar exaustivamente os direitos
da personalidade, decorre a necessidade de se descrever nos textos normativos os
parâmetros hermenêuticos, a identidade cultural a ser protegida, os contornos da tutela
da pessoa humana ao lado de normas que permitam a facilitação de sua aplicabilidade e
a necessária comunhão entre o preceito normativo e as circunstâncias do caso concreto.
Certamente o melhor de todos os parâmetros é o da priorização da preservação da
dignidade humana, princípio fundante do ordenamento jurídico.
BIBLIOGRAFIA

DELGADO, Mario Luiz. Direitos da personalidade nas relações de família. Familia e


dignidade humana, anais do V Congresso Brasileiro de Direito de Familia, coord.
Rodrigo da Cunha Pereira, São Paulo:IOB- Thompson, 2006,p.684.a 739..

GROENINGA, Giselle Câmara. O Direito à integridade psíquica e o livre


desenvolvimento da personalidade- Familia e dignidade humana: anais do V
Congresso Brasileiro de Direito de Familia, coord. Rodrigo da Cunha Pereira, São
Paulo:IOB- Thompson, 2006, p. 439 a 455.

LÔBO, Paulo Luiz Netto. Danos morais e direitos da personalidade . Jus Navigandi,
Teresina, ano 7, n. 119, 31 out. 2003. Disponível em:
<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=4445>. Acesso em: 01 ago. 2007.

PEREIRA, Rodrigo da Cunha, Princípio fundamentais norteadores do direito de


família, Belo Horizont: Del Rey , 2006,

SAMPAIO, José Adércio Leite, Direito à intimidade e à vida privada. BH: Del Rey,
1998
.
SARLET, Ingo W. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na
Constituição Federal de1988, 3. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004,

TEPEDINO, Gustavo, Temas de Direito Civil, Rio de Janeiro, Editora Renovar, 2001,
2° ed.

RIO DE JANEIRO- TRIBUNAL DE JUSTIÇA