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SANÇÃO POR DESCUMPRIMENTO DE ORDEM JUDICIAL

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SANÇÃO POR DESCUMPRIMENTO DE ORDEM JUDICIAL ROGER GUARDIOLA BORTOLUZZI Mestrado em Direito Faculdade de Direito Direito Processual Civil

III – Processo de Execução

Professor: Doutor Araken de Assis

Porto Alegre 2003 PLANO DE TRABALHO Na introdução é feito um resumo acerca do tema, bem como são formulados questionamentos visando à aplicabilidade das medidas coercitivas, via decretação de prisão ou aplicação de multa, por descumprimento de ordem judicial. No Capítulo I, será abordada a origem da prisão civil, desde o direito romano, até os dias atuais, de forma breve e concisa. Na seqüência, veremos a sanção, propriamente dita, por descumprimento de ordens judiciais, elencando o instituto, de forma breve, pois o instituto da Contempt of Court será objeto de um capítulo à parte; outrossim, será feita uma abordagem quanto à litigância de má–fé no processo civil; o novel artigo 14 do Codex Processual Civil pátrio será analisado de forma dinâmica e prática juntamente com o artigo 330 do Código Penal; seguindo, iremos localizar o processo civil de resultado no sistema pátrio; também será feita uma análise do princípio da razoabilidade em face da decretação da ordem de prisão por descumprimento de provimento do juiz cível e por

derradeiro será feita uma abordagem do crime de desobediência à ordem judicial e que se encontra previsto no nosso Código Penal. No Capítulo III analisaremos os meios coercitivos visando ao adimplemento da ordem judicial; analisando, também, os institutos da astreinte (multa coercitiva), bem como da prisão civil por dívida. Na quarta e derradeira parte deste estudo, analisaremos de forma mais completa o instituto da Contempt of Court, com seu conceito, suas classificações, bem como da possibilidade de utilização do referido instituto no sistema positivo brasileiro. SUMÁRIO INTRODUÇÃO I – A ORIGEM DA PRISÃO CIVIL 1. Uma breve passagem pelo Direito Romano 2. Evolução do instituto no Direito Romano 3. Uma breve passagem pelos Direitos Francês, Italiano e Inglês 4. A prisão civil atualmente no sistema brasileiro II - SANÇÃO E MEIOS DE COERÇÃO POR DESCUMPRIMENTO DE ORDEM JUDICIAL 1. Litigância de má-fé 2. O processo civil de resultado 3. Princípio da razoabilidade 4. A situação atual 5. O crime de desobediência por não cumprimento de ordem judicial emanada por agente público e previsto no artigo 330 do Código Penal e o artigo 14 do Código de Processo Civil III - MEIOS COERCITIVOS A FIM DE CUMPRIR O PROVIMENTO JURISDICIONAL

1. Astreinte 1.1. Conceito 1.2. A Astreinte no CPC 1.3. Tutela efetiva e célere 2. Prisão Civil 2.1. Conceito 2.2. Cabimento na CF/88 2.2.1. Dívida por alimentos 2.2.2 Depositário infiel IV - CONTEMPT OF COURT 1. Origem e Conceito 2. Classificação 3. Contempt of court no Brasil? CONCLUSÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS INTRODUÇÃO Partindo do princípio de que “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça de direito”, segundo o que está gravado no artigo 5º, XXXV do Diploma Maior, a sociedade, via controle da legalidade, pois esta é a idéia deste inciso, levará toda a sua angústia ao crivo do judiciário, a fim de que este possa vir a solucionar os litígios que lhes foram propostos. Pois bem, a ciência do direito, através de inúmeras transformações pelas quais passaram as sociedades modernas, torna o Poder Judiciário o último elo de ligação entre a sociedade e o direito (justiça), a fim de solucionar litígios decorrentes destas transformações, ou seja, é este Poder o último meio para resolver tais casos. Com o conseqüente descumprimento de preceitos constitucionais ou da legislação inferior, por parte de alguns setores da administração pública para com o cidadão, este

juízes. ou seja. o Poder Judiciário caia na descrença de seus consumidores. daria certo em nosso país? Indo mais além. defensores públicos e promotores. da própria sociedade. com o conseqüente. sejam eles advogados. Para tanto. assim. o processo deve ser informado. Tal ato vexatório para com a justiça. bem como deve estar calcado por e em princípios éticos. mais do que nunca. sempre de acordo com que os mesmos almejam. visando. com a lide já em curso e com o conseqüente provimento jurisdicional emanado pelo órgão competente.se obrigou a recorrer ao mais forte instrumento capaz de fazer cessar tal barbárie: a ação judicial. A efetiva e célere prestação jurisdicional passa a ser o alvo principal dos operadores do direito. ferindo. mais uma vez. Assim sendo. faz com que. assim. eficaz e rápido provimento jurisdicional. esbarra-se no maior. Portanto. existe a prisão civil decorrente de não cumprimento de ordem judicial? E a Constituição Federal veda a prisão civil em tais casos? Qual a posição que deve ser encarada pelo Estado-juiz quando esbarra em tal situação? Responde o ente público ou o particular por crime de desobediência previsto no art. o que fazer? Será que o juiz brasileiro tem o poder que seu colega da common law possui? Pode o juiz cível pátrio decretar ordem de prisão à parte que descumpre o provimento jurisdicional? O instituto da Contempt of Court. ou não comete crime nenhum em face de não existir lei acerca do tema. senão o mais importante fator da morosidade da justiça: o não cumprimento da ordem judicial por uma das partes. a fornecer aos jurisdicionados um provimento rápido e satisfatório. o . e de larga utilização no direito anglo saxônico. 330 do Código Penal. que nada mais é do que possibilidade de decretação de prisão por parte do juiz em face do descumprimento à ordem judicial emanada pela Corte Jurisdicional da Common Law.

relacionada com algum tipo de crime. (. Seguindo a lição de Sérgio Bermudes: a efetividade do processo será..) [2] Ocorre que a Constituição Federal não veda a prisão por descumprimento de ordem judicial. Na lição de Jorge Oliveira Vargas: se for evidente que o litigante está de máfé.) No direito brasileiro não se conhece a prisão decretada em processo de natureza cível. terão seus anseios resolvidos e aplicados. XXXIX da Constituição Federal e art. 1º do Código Penal). com a intenção apenas de dificultar ou impossibilitar a efetivação da prestação do serviço judiciário. uma das funções do Poder Judiciário é tornar a prestação jurisdicional a mais efetiva e célere possível. consumidores da prestação jurisdicional. só pode decretar a prisão de alguém no caso de depositário infiel ou dívida decorrente de pensão alimentícia. veda a prisão civil por dívida. em mandado de segurança.[3] Pois bem. A nossa Carta Magna. bem como do depositário infiel. O Egrégio Superior Tribunal de Justiça já se manifestou no sentido de que: o juízo cível. no milênio próximo. constituindo um . e não se tratando de obrigação de pagar determinado quantum. seja qual for (. não há vedação constitucional. 5º. pois com a junção destes dois adjetivos. medida cautelar ou ação de natureza cível.. o que o Diploma Maior veda são os casos acima transcritos.princípio da legalidade de que não há crime sem lei? (art. Muitas dúvidas existem a respeito do tema. os jurisdicionados. 5º. quando se despertou para a realidade de que o processo não se exaure em si mesmo. salvo a do inadimplemento por dívida de cunho alimentar[1].. LXVII. a magna preocupação da processualística tanto quanto tem sido no fim deste milênio. em seu art..

ao estudá-lo. impondo uma conduta irrepreensível às partes e a seus procuradores. e o magistério de Ada Pellegrini Grinover tenta resolver tal problema já “que os códigos processuais adotam normas que visam a inibir e a sancionar o abuso do processo. por conseqüência. pois é de conhecimento mesmo do leigo que o nosso direito e o de todos os povos do Ocidente derivam do direito romano. Portanto.[4] Destarte. enorme importância na evolução das sociedades. .instrumento da jurisdição. Uma breve passagem pelo Direito Romano Conforme inicia Thomas Marky: a importância do direito romano não precisa ser explicada. é nesta seara que a prisão civil se destacava naquela época. tanto mais apto quanto assegure com perfeição e presteza a administração da Justiça. da efetividade do processo” [7]. teve e continua a ter.”[6] Seguindo o mesmo raciocínio dos juristas acima mencionados. o direito romano. E após estas breves notas introdutórias passaremos a análise do caso concreto: existe prisão por descumprimento de ordem judicial no direito brasileiro? E o instituto da Contempt of Court daria certo em um sistema jurídico como o nosso e cheio de mazelas judiciais? Passamos as respostas.[8] Destarte. I – A ORIGEM DA PRISÃO CIVIL 1. correto o posicionamento de Habermas em face do tema em tela: “uma decisão jurídica de um caso particular só é correta quando se encaixa num sistema jurídico coerente” [5]. vamos às origens do nosso próprio direito vigente. Luiz Guilherme MARINONI enfatiza que: “O desenvolvimento da temática do acesso à justiça levou ao questionamento do problema da efetividade da tutela dos direitos e.

Uma breve passagem pelos Direitos Francês. na antiga Roma.Pois bem. nos findos dos anos 1200. o Rei São Luiz proíbe tal medida. Com a evolução (naquela época) do instituto e ante a impossibilidade do adimplemento da dívida por parte do devedor. com as tentativas de execrar tal regra jurídica. sua vida. até mesmo porque essa execução implicava a venda dos bens do executado. a ordem de prisão era iminente. Evolução do instituto no Direito Romano Com o passar dos anos. serem perdidas. até que fosse saldado o débito. entretanto. quando o cidadão romano não cumpria a obrigação que lhe era imposta e existindo o nexo (nexum. como posteriormente veio a se conceber) entre a mesma e o descumprimento daquele dever. isto tudo por volta dos anos 118 a. que entendia que o nexum era um ato pelo qual o devedor e as pessoa dele dependentes ficavam obrigados a prestar serviços ao credor.[10] 3. Dentre as teorias determinantes acerca da prisão civil ou do nexum propriamente dito. este via sua liberdade e em outros casos. o .[9] 2. pois naquela época ainda não se conhecia o instituto da obligatio. e a segunda teoria. tanto que se dita obrigação não fosse adimplida. destacamos duas: a primeira e a mais tradicional. dizia respeito ao nexum que serviria como um contrato formal onde um contratante ficava obrigado a entregar a outra determinada quantidade de dinheiro. a norma referente à execução da dívida passa a ser desviada da seara pessoal para o campo patrimonial do devedor.C. Italiano e Inglês No Direito Francês. o ato de prisão civil era expedido pelos pretores romanos. surge a expressão contrainte par corps. Porém. a fim de satisfazer o crédito. que corresponde à prisão civil em nosso ordenamento jurídico. Felipe.

Atualmente.Belo. dizia que o devedor que fosse citado e que não comparecesse à presença do magistrado. tipificando. ainda que alimentar. a prisão civil somente é concebida em casos de dívidas de caráter alimentar. no âmbito do direito civil. poderia ser preso. ou dar algum bem em garantia ao pagamento da dívida. e a sanção de natureza penal. não era mais possível a prisão civil decorrente de dívida. e a partir de 1838. a prisão civil instituída pelo sistema inglês. em caso de descumprimento desta última. por sua parte. Mas em 1848. mas com alguns tipos de abrandamentos. a perda do pátrio poder. 4. previsto em lei esparsa. em crime de abandono da família. resolve que se o devedor não cumprir com sua obrigação. A primeira executa-se o patrimônio do devedor com a conseqüente penhora dos mesmos. o crime de não pagamento de dívida alimentar. mas logo após. podendo apenas a levar. em 1303. assim. e mais. Este instituto na antiga Inglaterra. Já no Direito Italiano. na ótica dos jurisconsultos da época. E atualmente. após a revolução Francesa e sob a seara dos três alicerces que desencadearam tal manifestação. A prisão civil atualmente no sistema brasileiro . antes de ser proferida sentença condenatória. inexiste pena de prisão decorrente de dívida civil. desloca-se o descumprimento civil para a esfera penal. pois a dívida oriunda de alimentos possui dois tipos de sanção: civil e penal. a fim de saldar seu débito. Tal ato se constituía em barbárie. o instituto da prisão civil por dívida era conhecido com arresto personale per debiti. a regra da prisão civil é suspensa. a medida volta à tona.[11] E por derradeiro. de obrigações oriunda de natureza cível e alimentar. pois era implicação imposta ao devedor em face do não cumprimento. consoante regra prevista nos artigos 151 e 330 do diploma civilista italiano. o mesmo pode ser preso até que se cumpra tal obligatio.

deve-se entender. LXVII. Por isso. evidentemente. o devedor – fiduciante. pois não há constrangimento ilegal ou ofensa à Constituição Federal no decreto de custódia. em sentido contrário. que versa sobre os contratos de alienação fiduciária em garantia. a prisão é cabível. aliás. que só estão sujeitos a prisão civil. As únicas exceções. são a prisão decorrente de inadimplemento de dívida de caráter alimentar e do depositário infiel. e estas se interpretam restritivamente. nesse mesmo diapasão. que foi ratificado pelo Brasil em 1992. a prisão civil oriunda de dívida civil é vedada pelo nosso ordenamento jurídico. pois na interpretação da Corte Superior. Entretanto. cria-se uma celeuma em nível de interpretação por parte dos juristas brasileiros. em face da regra contida no art. 5º. posto que ‘em nenhum momento a ele se atribui o bem para exercício do dever de custódia estruturado na guarda e na conservação.728/66.[13] Pois bem. na ótica de Valério de Oliveira Mazzuoli: e para que não ocorram problemas dessa ordem. no sistema jurídico brasileiro. da Constituição Federal. a jurisprudência do STJ começasse a entender que é impossível a prisão civil nos casos de contratos de alienação fiduciária.[12] Todavia. fazendo com que. LXVII da CF. a regra civil prevista no antigo artigo 1287 e do novel artigo 652 do Código Civil pátrio foi derrogada pelo presente tratado. juntamente com o que dispõe o artigo 66 da Lei 4.Atualmente. assim. com a introdução do Pacto de San José da Costa Rica. impossibilitam a prisão civil oriunda de depositário infiel. este último no caso típico de depósito cuja interpretação deve ser restritiva. com a inserção do Pacto de San José da Costa Rica. não é e nunca foi depositário. A interpretação que o artigo 5º. Este. muito menos pelo exercício . o STF não vê com bons olhos tal posição do STJ. não alcançando. o devedor de alimentos e o depositário infiel.

na lição de Mazzuoli: hoje. II . a fim de levar determinada vantagem sobre a parte contrária.’[14] O STF já tem posicionamento pacificado no sentido de que os tratados internacionais ratificados pelo Brasil passam a fazer parte do ordenamento jurídico interno pátrio e na esfera da legislação ordinária. devem agir com lealdade durante todo curso do processo.de um dever de restituição quando exigido pelo credor fiduciante. significa em dizer que as partes. em não mais existindo texto em vigor a continuar a prisão civil do depositário infiel (derrogado o artigo 1287 do CC[15]). Tal expediente viola um dos princípios mais sagrados do processo civil: o princípio da lealdade entre as partes.SANÇÃO E MEIOS DE COERÇÃO POR DESCUMPRIMENTO DE ORDEM JUDICIAL 1. também os advogados. e na nossa ótica. partes e advogados vêm usando deste malogrado expediente. Princípio este que na acepção da terminologia. Litigância de má-fé A litigância de má-fé nunca foi tão intensa como nos dias atuais. como já frisado na . somente é cabível a prisão civil no sistema brasileiro nos casos de inadimplemento de obrigação alimentícia e nos casos de depositário infiel nas ações de depósito e não nas obrigações oriundas de contratos de alienação fiduciária. todo julgamento que vá contra este entendimento será considerado contra legem. Mesmo sendo vedada pelo ordenamento processual civil pátrio. Assim sendo. II do Codex Processual pátrio.” [16] Portanto. como bem prevê a regra processual civil prevista no artigo 14. Mais uma vez salienta-se. cabendo perfeitamente o remédio heróico para sanar visível ilegalidade da liberdade de locomoção.

no Estado do Rio Grande do Sul. O processo civil de resultado é visto e tido como a única solução capaz de devolver a segurança jurídica aos seus jurisdicionados. emanar ordem de pagamento de multa diária pelo descumprimento do provimento jurisdicional. com a novel leitura o artigo 14 do CPC. 2. através da regra contida no parágrafo único desse artigo. alicerçado nos diversos princípios que o regem. a fim de implantar a complementação referente aos valores que faltam.introdução deste estudo. bem como ser expedida ordem de prisão ao servidor público responsável pelo descumprimento da referida ordem. leva ao crivo do Poder Judiciário a última palavra em casos de litígios não resolvidos extrajudicialmente. certeza esta emanada do órgão responsável pela efetiva e rápida prestação jurisdicional.. é que dará certeza aos seus jurisdicionados. estar alicerçado por princípios éticos. pode-se. Os juízes singulares quando do não cumprimento da ordem judicial. ou seja. sem objetivo. Portanto. são as ordens judiciais a fim de agregar e integralizar o pagamento dos 50% que faltam às pensionistas que recebem pensão através do Instituto de Previdência do Estado do Rio Grande do Sul – IPERGS.expedem ordens de prisão a este servidor chefe para que cumpra desde já a referida ordem judicial. pois é este processo. sob pena de privação de liberdade. visando. ou de uma condenação do bem jurídico que está sendo tutelado ou que fora violado. o processo que não busca a verdade torna-se inócuo. que o processo deve ser o fim. . Um exemplo do uso referente ao parágrafo único do artigo ora comentado. e não o meio de uma disputa pelo pronunciamento do Poder Judiciário visando à declaração de certeza. assim à integralização da pensão – por parte do presidente da autarquia . O processo civil de resultado A panacéia pela qual passa a nossa sociedade. Além disso. já que visa a alcançar seu fim comum. v.g.

pode-se conceber a possibilidade de aplicação de multa por tempo de atraso no cumprimento da obrigação. por isso não se concebe mais olhar o Poder Judiciário apenas como um operador da máquina legal criada pelo Poder Legislativo.444 fez no artigo 461 do Codex Processual civil pátrio: a possibilidade de antecipar os efeitos da tutela nas ações que tenham por cunho obrigações de facere e non facere. e de sua conseqüente inefetividade para a tutela dos direitos. a fim de se ver efetiva e desde já. Assim sendo. Com a novel redação do parágrafo 5º do artigo 461. é cada vez mais agregar o efeito mandamental nas ações judiciais. Um exemplo bem claro desta mudança de mentalidade é a introdução que a Lei 10. quanto mais o devedor se exime de .[17] Na lição de Luiz Guilherme Marinoni: o direito processual é imprescindível – em nível de efetividade – para a sobrevivência do próprio direito substancial. para assumir seu poder de império. assim. passiva. em casos de descumprimentos de ordens judiciais expedidas em sedes de antecipação de tutela. o termo inicial para a incidência da multa é o da data de descumprimento da ordem judicial. pois impõe ao devedor da obrigação o pagamento de multa diária. a prestação jurisdicional. o processo civil contemporâneo há de ser visto como um processo civil de resultado. acanhada. Esta regra visa a tornar o processo mais eficaz. Cabe investigar. a tendência da ciência processual. como é possível a tolerância da difundida lentidão do processo de conhecimento.[18] Assim sendo. O poder Judiciário deixa de ter uma posição neutra.Portanto.

pois não pode o juiz. mais ele faz jus ao próprio ônus da regra processual do parágrafo 5º do artigo 461 do CPC. pois somente daí que o julgador. A situação atual A atual situação em face do não cumprimento de ordens judiciais emanadas dos mais diversos juízos e Tribunais do nosso país. Princípio da razoabilidade O princípio da razoabilidade deve vigorar quando o magistrado emana o decreto de custódia da parte que não cumpre determinado provimento jurisdicional.. com a condenação de determinada empresa. Podemos concluir que com a inovação da novel regra do artigo 461. e esta análise só pode ser feita no caso concreto. pois deverá haver compatibilidade entre o meio empregado e os fins visados. o sacrifício da liberdade só será possível se o bem jurídico a se proteger for de tal relevância que o justifique. para não dizer caótica. A decretação da medida coercitiva de privação de liberdade deve levar em conta os valores que estão “em jogo”.g.[20] 4. v.cumprir a ordem judicial. emanar tal ordem. leva a uma incredulidade do Poder Judiciário. e não mais a mera reparação de danos. Destarte. a fim de pagar diferenças salariais ao empregado Reclamante. a seu bel prazer. com base nas circunstâncias do andamento da demanda judicial. pelo intérprete. os bens tutelados levados ao crivo do judiciário.[19] 3. sem que se detenha à razoabilidade da quaestio. A certeza do direito existe. poderá emanar tal decreto sem que tal medida se torne ilegal e desnecessária. passa o credor a ter o direito a proteção específica. mas como fazer para cumprir esta ordem judicial se a própria parte se nega a cumprir tal .

o descumprimento de referido provimento jurisdicional pela parte contrária. a efetivação da providência jurisdicional poderá. no mesmo monte. . ainda. pelo fato de não ter suas ordens cumpridas. como já frisado anteriormente. o Estado que prega a injustiça ao invés da justiça. Tal situação gera o estado de risco para a sociedade consumidora da prestação jurisdicional. O crime de desobediência por não cumprimento de ordem judicial emanada por agente público e previsto no artigo 330 do Código Penal e o artigo 14 do Código de Processo Civil Na lição de Joel Dias FIGUEIRA Junior: dependendo da natureza da demanda e/ou da urgência verificada no caso concreto.” [21] A situação se torna tão catastrófica que o próprio Poder Executivo se nega a cumprir determinados provimentos jurisdicionais. fazendo com estas decisões se tornem inócuas. todas as ordens judiciais que não foram cumpridas levarão o Poder Judiciário ao descrédito perante a sociedade em face da não operacionalização. pois a mesma que tem seu direito reconhecido. com a conseqüente não efetividade do direito. liminares concedidas em mandados de segurança. 5.” [22] Portanto. Destarte. bem como da eficácia da prestação jurisdicional. Mais uma vez Vargas: “Por não ter sido eficiente o processo é que a confiabilidade no Poder Judiciário tem ficado abalada. Este grau de desestabilização fere o próprio conceito de Estado Democrático de Direito. restar comprometida. cai no descrédito da sociedade. tem.g. v.provimento jurisdicional? Como bem observa Jorge de Oliveira Vargas: “Não se pode aceitar que o Poder Judiciário não tenha forças para determinar o cumprimento de suas decisões. A sociedade questiona tal situação: de que adianta determinada pessoa ter seu direito reconhecido se o real benefício ainda não obteve.

não fazer ou pagar determinada soma. existem técnicas a fim de coibir tal afrontamento a ordem judicial.[24] O crime de desobediência previsto no Codex Penal brasileiro e tipificado no artigo 330.sobretudo se não vier acompanhada de medidas coercitivas hábeis a constranger o sujeito passivo eventualmente recalcitrante. reza: “Art. e não mero pedido ou solicitação. Desobedecer a ordem legal de funcionário público: Pena – detenção. [25] Cezar Roberto Bittencourt e Luiz Regis Prado lecionam que o tipo objetivo do crime de desobediência é a conduta incriminada em desobedecer (descumprir. [23] Portanto. e multa. neste caso.” Como se pode observar. Ademais. É necessário que se trate de ordem. e que essa ordem se dirija expressamente a quem tenha o dever jurídico de obedece-la. 330. tais como: a advertência coercitiva de prisão em flagrante e a responsabilidade criminal pelo descumprimento da ordem legal emanada do Estado-Juiz (em caráter excepcional) ao réu recalcitrante em entregar. sendo que o sujeito ativo pode ser qualquer pessoa e o sujeito passivo é o próprio Estado. pois é do próprio Estado-Juiz que emana determinada ordem judicial). trata-se de crime que viola determinado bem jurídico. deve a ordem revestir-se de legalidade formal e . fazer. de 15 (quinze) dias a 6 (seis) meses. desatender) a ordem legal de funcionário público. a administração pública (o Poder Judiciário encontra-se inserido na acepção lato sensu de administração pública.

modificado pela novel Lei 10. se entende aquele que o é no estrito sentido do direito administrativo (HUNGRIA. Forense. a competência é dos Juizados Especiais Criminais. a cooperar com a celeridade do procedimento e com a atuação do órgão jurisdicional na aplicação do direito. sem prejuízos das sanções criminais. na espécie. isto é. de sorte a insta-los. Inobstante tais alegações. tal infração permite a suspensão condicional do processo em razão da pena mínima abstratamente cominada. civis e processuais cabíveis. Pois bem. as astreintes.[27] Outrossim. na ótica de Guilherme Rizzo Amaral: . inferior a um ano.099/95. vol.'[26] Assim sendo. Comentários ao Código Penal.358/01. segundo o art. isto é. dada pela Lei 10. o julgador e os jurisdicionados passam a ter uma importante ferramenta nas mãos. 330 do Código Penal deve ser interpretado juntamente com o artigo 14 do Código de Processo Civil. é o parágrafo único do referido artigo. a fim de ver adimplido a obrigação decorrente de cumprimento de ordem jurisdicional. com a novel redação. por tratar-se de infração de menor potencial ofensivo.substancial. e o ‘expedidor ou executor da ordem há de ser funcionário público. 61 da Lei 9. pois permite ao magistrado. estamos diante de um contempt of court cumulado com a implicação de multas. sendo que a fração legislativa que nos interessa. aplicar ao responsável multa em montante a ser fixado de acordo com a gravidade da conduta. do artigo 14 do CPC. p. o art. Outrossim. sob a ameaça das sanções especificadas nos subseqüentes artigos 16 17 e 18. Nelson. 1959. Rio. 147). IX.358/2001. mas este. Conforme pode asseverar Cruz e Tucci: a lei processual impõe aí uma postura essencialmente ética aos litigantes e aos sues representantes judiciais. no presente estudo.

as astreintes têm origem no direito francês e “consiste numa condenação acessória. na qual o juiz fixa determinada multa que o executado deve pagar por dia de atraso no atendimento da condenação principal.”[29] 1. 1.há a previsão legal.MEIOS COERCITIVOS A FIM DE CUMPRIR O PROVIMENTO JURISDICIONAL 1.1. revertidas para o autor. §§ 4º e 5º. aplicável àquele que não ‘cumprir com exatidão os provimentos mandamentais’ ou ‘criar embaraços à efetivação de provimentos judiciais. diferentemente das astreintes. no CPC. a cumulabilidade da ambas as medidas. obviamente. bem como técnica para a obtenção da tutela. civis e processuais cabíveis. de natureza antecipatória ou final’. no artigo 14 do CPC.[28] III . Ressalta-se que a multa do artigo 14 reverte para a União ou Estado. Conceito Recorrendo à clássica lição de Orlando Gomes. dentre elas. Tutela efetiva e célere . as astreintes. e a fim de efetivar tais medidas específicas ou obter um resultado de forma mais prática.2. está previsto no artigo 461. assim. que faculta ao magistrado a possibilidade de aplicação da referida multa nos casos de: relevante fundamento da demanda e nos casos de haver justificado receio de ineficácia do provimento final. Astreinte 1. para a cumulação da multa pelo contempt of court. Evidente.3. A Astreinte no CPC As astreintes são medidas de coação. Este instituto. com ‘sanções criminais’.

a tutela efetiva e célere passa a ser o alvo principal dos processualistas. Dívida por alimentos . não somente está em ver o seu direito declarado.” E continua a enfatizar o autor sobre a problemática da questão referente a dinâmica da tutela jurisdicional: “a problemática da efetividade do processo está ligada ao fator tempo. da efetividade do processo. para os jurisdicionados. Prisão Civil 2. neste estudo. interessando-nos. Conceito Mister a lição de Álvaro Villaça Azevedo acerca do instituto: Prisão civil. de um dever ou de uma obrigação descumprida e fundada em norma jurídica de natureza civil. Não se pode mais conceber a existência do direito sem a eficiência do mesmo. [30] Como está sendo dito exaustivamente e de forma pormenorizada no transcorrer deste ensaio. pois não são raras as vezes que a demora do processo acaba por não permitir a tutela efetiva do direito. assim.[31] 2. é a que se realiza no âmbito estritamente do Direito Privado.1. mas sim de fazer este ser garantido e cumprido. essencialmente. bem como da novel ciência do direito processual.2.2. ou seja.O desenvolvimento da temática de acesso à justiça levou ao questionamento do problema da efetividade da tutela dos direitos e.1. Cabimento na CF/88 2. a que se consuma em razão de dívida impaga. ou seja. a segurança jurídica. por conseqüência. legisladores. 2.

o juiz suspenderá o cumprimento do decreto de custódia.2.Prevista no art. o cumprimento do provimento jurisdicional que ordenou tal pagamento. § 3º do CPC. de acordo com a regra do art. LXVII do Diploma Maior. visando ao adimplemento da obrigação. independente da propositura da ação de depósito e da observância do correspondente provimento. VIII do Código de Processo Penal. (Prisão civil .2 Depositário infiel Também prevista no artigo 5º. e tão somente. a tese da legitimidade da prisão civil do depositário judicial infiel. 5º. a prisão civil decorrente de não pagamento de dívidas oriundas de alimentos. embora em colisão frontal com a mais autorizada doutrina sobre o tema. no artigo 19 trata da prisão em face do não pagamento da obrigação alimentar pelo prazo de até 60 dias. Assim sendo. a prisão civil decorrente de depositário infiel é permitida pela Carta Magna. A prisão do alimentante pode ser cumprida em prisão especial ou em quartéis. A Lei dos Alimentos. mas não em prisão em prisão domiciliar ou em liberdade vigiada. entretanto se faz mister salientar que o cumprimento desta privação de liberdade seja em regime semi-aberto ou em qualquer outro regime. 733. é a primeira hipótese possível de tal coação. Lei 5. trata-se. 2. inciso. paga a prestação alimentícia. pois este não é o intuito da prisão civil por não cumprimento de obrigações alimentares. LXVII da Lei Fundamental. pode-se conceber que a decretação de prisão civil nestes casos. o devedor não se exime do pagamento dos valores devidos. Adroaldo Fabrício Furtado adverte que Vem-se progressivamente firmando na jurisprudência nacional. de ato estatal visando a parte devedora adimplir a obrigação e pro conseqüência. 295.478/68. Portanto. consoante regra do art.

. em germe. notadamente em face dos influxos do movimento liberal do século XXXVIII. os elementos formadores das modernas ações mandamentais e revela a fonte romana do instituto do contempt of court recebido pelo direito angloamericano da mesma vertente. por influência do direito francês. p. in Ensaios de Direito Processual. 99. Rio de Janeiro: Forense. não tendo. Sendo assim. por se tratar de meio coercitivo. mais uma vez constata-se que o decreto da medida restritiva de liberdade tratase de medida coercitiva a fim de ver cumprida determinada ordem jurisdicional. A pena. mas que deixamos de preservar por influência do direito francês. 2003). encontrando-se.CONTEMPT OF COURT 1. Título 128) continha. . Portanto. será suspensa a medida restritiva de liberdade. deve durar enquanto o depositário não cumprir com sua obrigação e. IV . mas que nós não preservamos. nas ordenações do reino.do executado como depositário infiel. Origem e Conceito A origem do instituto da Contempt of Court. se antes do prazo estipulado pelo juiz houver a devolução da coisa ou em dinheiro. Ovídio Baptista da Silva corrobora que os textos das Ordenações Filipinas que tratava das denominadas ‘cartas de segurança’ (Livro V. mas sim romana. na ótica de Joel Dias Figueira Junior é remota. a medida restritiva de liberdade em relação ao direito do credor aparece como simples meio de coação para obrigar o depositário infiel a cumprir a obrigação assumida através do depósito. um cunho satisfatório ao credor. [32] Também nesta seara. assim. (o grifo é nosso)[33] . não é anglo-americana.. inclusive.

suas decisões vinculavam diretamente a pessoa do réu. sendo que a única saída era a concessão do perdão por parte do Rei: era a chamada Chancery. para cada “caso” novo. . ao se recusar a observar o que lhe determinava uma decisão do Chancellor.. atuando como corte de consciência. Como conseqüência desse comportamento. Marcelo Lima Guerra enfatiza que a Chancery era apta a prestar a tutela específica das obrigações porque.Pois bem. José Rogério Cruz e Tucci prescreve que a expressão contempt of court designa em termos gerais a recusa em atacar a ordem emitida por uma corte de justiça. a fim de ver seu caso julgado pelos Tribunais existentes. era considerado em contempt of court e mandado para a prisão até que se decidisse a cumprir o que determinava a sentença. requisitassem tal pedido ao Rei.[35] René David registra que . na medida em que os direitos iam sendo descobertos. Isso quer dizer que. os writs já não mais concebiam a proteção daqueles.. o destinatário da ordem pode sofrer uma sanção pecuniária ou restritiva de liberdade. sempre com o intuito de constranger a parte a cumprir a determinação judicial.[34] Corroborando o que foi dito acerca do instituto anglo saxão.. na medida que viam seus direitos violados. sendo que os mesmo eram eficientes e completos para a época. Ocorre que. no sistema inglês do século XIII. dependendo da gravidade do contempt. um novo writ era criado. já se concebia um grande número de writs. e assim foi sendo. Tais remédios serviam para que os cidadãos.

e também podem ser divididos em direto ou indireto. para consolidar fortemente na Inglaterra a idéia de que existe de fato um poder judiciário. bem como da sociedade em geral. de seus juízes e de até mesmo de seus funcionários. o . de má-fé ou por má vontade. A primeira classificação diz respeito á ofensa tida contra a parte. Assim sendo. atenta contra a dignidade do Tribunal. É tida como uma forma. não executa uma decisão da Corte torna-se culpado por contumácia e. “a grande diferença entre o civil e o criminal contempt. uma ofensa mais grave.”[36] 2. O contempt of court aumenta o prestígio das Cortes superiores e contribui. [37] Outra diferença entre o criminal e o civil contempt era que no primeiro o processo. corre o risco de ser preso. é a classificação mais branda do contempt. desta maneira. a merecer ênfase. Já a segunda classificação. pois se trata do não cumprimento da ordem emanada pelo Tribunal.àquele. é que aquele trata da oposição a direito de uma das partes. a fim de que a ofensa não mais se repita. O elemento identificador desta classificação é o elemento punitivo. enquanto no último. o criminal contempt of court é a conduta que ofende a autoridade. pois a ação negativa pode gerar a frustração. como sanção. Classificação A classificação do contempt of court se divide em: civil contempt of court e criminal contempt of court. pois visa a atender os interesses do próprio tribunal ofendido. enquanto que este trata da oposição ou impedimento da administração da justiça através de um tribunal ou de um juiz” (o grifo é nosso). bem como a inefetividade do direito declarado pelo Estado-Juiz. era autônomo e instaurado ex officio ou a requerimento da parte.

através do art. o instituto do contempt of court pode ser visualizado no ordenamento jurídico brasileiro. 3. a punição imediata para os casos atentatórios à dignidade da justiça no processo civil. mas modulado no ordenamento jurídico brasileiro. . bem como o artigo 35 e 69 § 5º da Lei das Falências.processo era instaurado mediante provocação da parte interessada e a aplicação se dava nos mesmos autos. LXVII. no princípio constitucional da igualdade e no próprio Estado de Direito. e como exemplos temos o artigo 885 do CPC. além dos já concebidos na Carta Magna de 1988. pois há fundamento jurídico genérico quanto específico para esta punição. pois ocorriam de forma expressa e na presença da Corte. Contempt of court no Brasil? Costuma-se dizer que o nosso ordenamento jurídico não assimilou o contempt of court civil. os fundamentos genéricos encontramos na característica coativa do direito. nos artigos 18 e 19. na nossa tradição prérepublicana. ou seja. na independência e no poder político do Judiciário. bem como de seus representantes. na aplicação do direito comparado. no princípio do acesso à jurisdição no sentido material. Até mesmo na Lei dos Alimentos. [38] Já o contempt de classificação direta podia ser entendido como uma forma mais agressiva de punição. no princípio de que o poder de punir a desobediência está ínsito ao poder de julgar. Porém esta afirmativa não corresponde à verdade. [39] Entretanto o que acontece é a especificação do instituto da contempt. dentre os quais o mais grave é o descumprimento da ordem judicial. 5º. já a forma indireta deste instituto se dava no que concerne a interferência na administração da justiça. no princípio processual civil de dever lealdade processual.

Carlos Maximiliano já lecionava que “deve o direito ser interpretado inteligentemente: não de modo que a ordem legal envolva um absurdo. retirando. consoante ao que foi dito acima.Outro exemplo de contempt no Brasil.[43] Atualmente. e para outorgar esta tutela em cão de que tal direito exista” [42]. fazendo com que a prestação jurisdicional se torne mais célere. compelir a parte a adimplir a ordem judicial emanada pelo EstadoJuiz.”[41] E sendo o processo “método que os Tribunais seguem para definir a existência do direito da pessoa que demanda frente ao Estado. podendo esta ser constituída em desacato. todos os atos tendentes a obstruir o cumprimento das funções de um Juízo ou Tribunal. podemos concluir que o contempt. na ótica de Cândido Rangel Dinamarco. deve o Juiz fazer o papel de criador da norma. deve o mesmo Estado assegurar que a execução deste direito se torne viável. daí. prescreva inconveniências. no Brasil. é a previsão legal contida no artigo 600 do CPC. ou seja. Juiz-criador no sentido de dar interpretação favorável a aplicação da norma ao caso concreto. a própria função deste Poder: resolver as demandas judiciais que lhe são propostas. pois a coerção do ordenamento jurídico brasileiro é diferente dos países anglos – saxãos que adotam na íntegra o instituto da contempt of court. pois esta tem o sentido de repelir o disregard. CONCLUSÃO Em nível conclusivo.[40] Pois bem. negar instrumentos de força ao Judiciário é o mesmo que negar a sua própria existência. pois não há previsão legal para atingir terceiros. constituem uma afronta. efetiva e mais eficaz.[44] Assim sendo. vá ter a conclusões inconsistentes ou impossíveis.[45] . a ser tutelada juridicamente. a multa e a prisão têm por escopo obrigar o devedor ao cumprimento da obrigação. somente atinge autor e réu. enquanto no Brasil.

já pode ser concebido pelo ordenamento brasileiro. 5. o contempt of court. visando assim. de diversos ordenamentos jurídicos no mundo. a fim de ver efetiva a prestação jurisdicional. a maior efetividade do processo e do rápido desfecho deste não admite o não cumprimento injustificado de ordens judiciais. é cada vez maior a existência de regras que visam a coibir tais malogradas condutas de não cumprir as ordens judiciais emanadas pelo Estado-Juiz. 4. mas não como a mesma eficácia da primeiro. bem como as dívidas em face do depositário infiel. ao fim precípuo da demanda judicial: a certeza jurídica emanada pela pelo Poder competente. visando assim. visando a maior efetividade de nossos provimentos jurisdicionais. é vedada em nosso ordenamento a prisão civil por dívidas. mas sim fazer valer e ser cumprida ordem emanada do Estado-Juiz. o processo moderno deve ser regrado e informado por princípios. . após este estudo acerca da sanção por descumprimento de ordem judicial. na maioria dos códigos processuais modernos. a expressão jurisdição deve ser compreendida não apenas em dizer o direito. artigo 5º. 8. previsto no direito anglo-saxão. doutrina e jurisprudência cada vez mais recorrem ao direito comparado. até mesmo pelos próprios Tribunais. devendo os procuradores e as partes agirem de acordo com a lealdade processual. LXVII da Constituição Federal de 1988. 2. podemos citar as seguintes conclusões: 1.Portanto. salvo as que tenham por cunho obrigações de caráter alimentar. 3. a situação atual referente ao Poder Judiciário é de descrédito. 7. mas mudanças vêm sendo introduzidas no Código de Processo Civil. a maior celeridade e eficácia do provimento jurisdicional. 6.

deve o legislador começar a se preocupar de forma mais atenta às mudanças que nossa sociedade vem passando. contemplando a contribuição do direito estadudinense ao nosso ordenamento jurídico. 600. as astreintes podem ser aplicadas à pessoa física do administrador público. 13. 12. bem como de seus representantes. consoante regra do art. o contempt de classificação direta pode ser entendido como uma forma mais agressiva de punição. sendo que deve ser iminente e radical uma mudança na jurisprudência que trata do tema ora estudado. nos países que ainda não a contemplam. observando-se que o referido ato não caracteriza prisão por dívida. mas respeitando os seguintes preceitos: a prisão civil. 11. III do referido diploma. enquanto que este trata da oposição ou impedimento da administração da justiça através de um tribunal ou de um juiz. vedada pelo nosso ordenamento pátrio e proibida pela Convenção Americana dos Direitos do Homem (Pacto de San José da Costa Rica). a ser aplicada pelo juiz civil à parte até o cumprimento de determinado provimento jurisdicional. já a forma indireta deste instituto. consoante regra do novel artigo 14. [46] 10. pois ocorriam de forma expressa e na presença da Corte. a diferença entre o civil e o criminal contempt é que aquele trata da oposição a direito de uma das partes. e que esta mudança deve começar . 14. 15. o nosso Código de Processo Civil já prevê como ato atentatório para com a Justiça a resistência injustificada de cumprimento de ordens judiciais. se dava no que concerne a interferência na administração da justiça. e a existência de multa coercitivas (astreintes). comungamos do mesmo pensamento de alguns autores de ponta que vislumbram a prisão civil decorrente de não cumprimento de ordem judicial.9. parágrafo único do CPC. a possibilidade de se adotar a regra do contempt of court indireto.

In: Revista dos Tribunais. _____________ Comentários ao CPC. Rio de Janeiro: Forense. COUTURE.352 e 10. São Paulo: Revista dos Tribunais.ed. DINAMARCO.. Guilherme Rizzo. Maio. CARVALHO. p. Introdução ao Estudo do Processo Civil. São Paulo: Revista dos Tribunais. In: Revista dos Tribunais. São Paulo: Martins Fontes. Paula Bajer Fernandes Martins da. 2. Milton Paulo de. Ivan Lira de. 9. CRUZ E TUCCI. o juiz “tem que interpretar as leis de modo a reforçar a sua autoridade. v.pelos juízes singulares de primeiro grau. Sérgio. Código penal anotado e legislação complementar./ 1999. São Paulo. 3. DAVID. 16. Cândido Rangel. 2000. 1996.ed. Novo processo civil brasileiro. CARVALHO. 2º sem. Eduardo J. __________________ (coordenador) Abuso dos direitos processuais. 1997). São Paulo: Revista dos Tribunais. COSTA. José Carlos. 1997. 295-301.358. Vol. 4. BARBOSA MOREIRA. 1994. não somente está em ver o seu direito declarado. BERMUDES. São Paulo. ______________ Cumulação de Ações. 1995. O processo civil no terceiro milênio. Araken de. 259 f. Diss. 1987 (Tradução de Eduardo Brandão. Álvaro Villaça. AZEVEDO. 2000. e por derradeiro. Rio de Janeiro: Forense. 2002. 1984. Lineamentos da nova reforma do CPC. 878.ed.. São Paulo. Porto Alegre: Sérgio Fabris. O descumprimento de ordem judicial por funcionário público. 1997. São Paulo: Revista dos Tribunais. n. pois são eles a primeira ligação entre os jurisdicionados e o Estado.ed. Luiz Régis. v..”[47] REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMARAL. 11-34. BITTENCOURT. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2001. p. pois nela é que repousa a garantia do jurisdicionado. a segurança jurídica. Execução Civil.ed.ed. _____________ Da execução dos alimentos e prisão do devedor. 3. In: Revista da Associação dos Magistrados Brasileiros – Cidadania e Justiça – ano 3. para os jurisdicionados. 2002. mas sim de fazer este ser garantido e cumprido. Presses Universitaries de France. da desconsideração do depósito. Rio de Janeiro: Forense. 17. Le droit anglais. O direito inglês. René. v. 368-370. In: Revista dos Tribunais. 4. . Faculdade de Direito. Prisão civil por dívida. São Paulo: Malheiros. Leis 10.. Ainda a prisão civil em caso de alienação fiduciária. 7. 715. (Mestrado em Direito) – PUCRS. 709. São Paulo: Revista dos Tribunais.. 2001.Juiz. As astreintes no processo civil brasileiro. Porto Alegre. José Rogério. 2002. 19. 1994. 2000. Algumas reflexões sobre a desobediência de funcionário público a ordem judicial e a regra constitucional da separação dos Poderes. Cezar Roberto e PRADO. Manual do Processo de Execução. ASSIS. p.

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PASQUEL. 1954./ 1999. bem como art. O leasing de veículo e a prisão por depósito infiel em sede de execução por dívida pessoal do arrendatário. n.. _________ As conseqüências da desobediência da ordem do juiz cível: Sanções pecuniárias e privativa de liberdade. MOSKOWITZ. 2001. in Revista da Associação dos Magistrados Brasileiros – Cidadania e Justiça – ano 3. Desacato à ordem judicial: contempt of court. nº 140. Conflito aparente de normas no descumprimento de ordem judicial pela administração pública. Curitiba: Juruá.478/68 RT 725/505 [3] A pena de prisão para a desobediência da ordem do juiz cível. Curitiba. Cristina Reindolff da. MOTTA. civil and criminal.ed. Porto Alegre.. 2001. 249-257.. 12. OLIVEIRA.ed. Curso de Direito Processual Civil. 128 [6] Ética. Contempt of court. mai/ago. 1998.ed. 14. Da cognição do processo civil. José Afonso da. Vol. Jurisdição Constitucional. II. Direito administrativo sancionador.ed. 13. WATANABE. Revista de Direito Processual Civil. 2000. In: Gênesis – Revista de Direito Processual Civil. in Revista de Processo. São Paulo: Revista dos Tribunais. VARGAS. Título executivo e liquidação. Leonardo Henrique Mundim Moraes. 29. 2000. 3. p. Cezar Roberto. REPRO 92 out. Diss. 2002. Vol. Rio de Janeiro: Forense. Saraiva: São Paulo. 2001. São Paulo: Atlas. Campinas: BookSeller. Alexandre de. 1997. 128 [5] O processo civil no terceiro milênio. (3). São Paulo: Revista dos Tribunais. In: Revista do Centro de Estudos Jurídicos do Conselho da Justiça Federal. 233 f. Joseph. Faculdade de Direito./ 1999. p. 1998. Brasília. 3.-dez. OSÓRIO. 2000. Roberto Molina. setembro/dezembro de 1996.MENDES. Teori Albino. p. Eduardo. in Revista da Associação dos Magistrados Brasileiros – Cidadania e Justiça – ano 3. Código penal anotado e legislação complementar. 1999.ed. 733. abuso do processo e resistência às ordens judiciárias: o contempt of court. São Paulo: Revista dos Tribunais. SILVA.. SILVA. 2. Ovídio Araújo Baptista da. Curitiba. 2. 1997. TALAMINI. 2º sem.. n. Curso de Processo Civil. In: Revista de informação legislativa. PRADO. (Mestrado em Direito) – PUCRS. . Kazuo. México: Fondo de Cultura Econômica. 102. p. v. 19 da Lei 5. in GENESIS. p. Ricardo Perlingeiro Mendes da. Humberto. Contempt of injunction. p. 49 THEODORO JR. [4] O processo civil no terceiro milênio.. 7. § 1 do CPC. [7] Efetividade do processo e tutela de urgência. Direito Constitucional. 8. 1943. Porto alegre: Sérgio Fabris. São Paulo: Revista dos Tribunais. SILVA. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2º sem.ed. Subsecretaria de edições técnicas no Senado Federal. São Paulo: Malheiros.. Brasília. 2002. Prisão civil e penal. Fábio Medina.tiragem. setembro/dezembro de 1996. 37. Jorge de Oliveira. MORAES. v. 1999. [1] [2] Vide art. 1994. Gilmar Ferreira. Luiz Régis e BITTENCOURT. 1. 219-227. São Paulo: Revista dos Tribunais. A pena de prisão para a desobediência da ordem do juiz cível. n. ____________ Comentários ao CPC. 2.. ZAWASCKI. 1998 e 4ª ed.ed. 2000. Curso de Direito Constitucional Positivo. 2000. 7.

p. p. 2ª Turma do STF. 88. São Paulo: Revista dos Tribunais. 12. 75 [24] op. cit p. Min. 2001 [17] Jorge de Oliveira Vargas. . p.248 [14] Prisão civil por dívida e o Pacto de San José da Costa Rica: Especial enfoque para os contratos de alienação fiduciária em garantia. 1994.625-8/SP.358. São Paulo: Revista dos Tribunais. n. 1. cit. cit. [37] Cristina Motta Desacato à ordem judicial: contempt of court. p. 350. Porto Alegre. Rel. 67. 233 f. Ricardo Couto – RT 418/249). Diss. Félix Fischer. 37 [31] op. 180 [21] op. 2. 2000. [18] Efetividade do processo e tutela de urgência. 2002.05. cit. Faculdade de Direito. 76. op. Faculdade de Direito. 2ª ed. 14. 144. 2000. ele não é. [26] Código Penal Anotado e legislação complementar. 69 [20] Jorge de Oliveira Vargas. p. 133. 01. (Mestrado em Direito) – PUCRS. [10] Álvaro Villaça Azevedo.7. 957-958. vol. 77 [33] Ovídio Araújo Baptista da. p. DJ 30. p. 03 Álvaro Villaça Azevedo. Néri da Silveira. Leis 10.03. op. [29] Obrigações. p. Porto Alegre..352 e 10. [25] Em sentido contrário: o delito de desobediência não é suscetível de cometimento apenas por particulares. 10. p. 1997. 1997. op. [28] As astreintes no processo civil brasileiro. Presses Universitaries de France. Min. Lei 10. op. p. cit . 2002. São Paulo: Martins Fontes.94. por si. [30] op. p. [35] Lineamentos da nova reforma do CPC. Rel. [27] Lineamentos da nova reforma do CPC. in Revista Síntese de Direito Civil e Processual Civil. 1994. 2002. O direito inglês. Rio de Janeiro: Forense. 16 [23] Comentários à novíssima reforma do CPC. 51 [32] op. DJU 20. 2002. [19] Jorge Oliveira de Vargas. cit. p. p. in Revista Síntese de Direito Civil e Processual Civil. depositário infiel. São Paulo: Revista dos Tribunais. decidiu por unanimidade de que não é cabível a prisão civil do devedor fiduciante por quanto. Também o funcionário público pode ser sujeito ativo da infração. 102. 17. Curso de Processo Civil. vol. 2001. 19). Porto Alegre: Sérgio Fabris. [36] Le droit anglais. cit. p.[8] [9] Curso Elementar de Direito Romano. Diss. cit. p. 2002. (Mestrado em Direito) – PUCRS. p. p. São Paulo: Revista dos Tribunais.1998. 10. 49 [12] Neste sentido: Habeas Corpus nº 7131/MG. [34] Execução indireta. 9ª ed. cit.444/01. São Paulo: Revista dos Tribunais. 1998.p. 5ª Turma do STJ. Porto Alegre. p. p. 34 [11] Álvaro Villaça Azevedo. São Paulo: Saraiva. 183. Porto Alegre. São Paulo: Revista dos Tribunais . Prisão Civil por dívida. 4ª ed. 1987 (Tradução de Eduardo Brandão. Rio de janeiro: Forense. p. p. 17 [22] op. cit. [15] atualmente é o artigo 652 do novel CC [16] Prisão civil por dívida e o Pacto de San José da Costa Rica: Especial enfoque para os contratos de alienação fiduciária em garantia. [13] Neste sentido: Habeas Corpus nº 70. (TACRIM – SP – HC – REL. 163. p. cit p. p. v. op.

102. Ética. p. 178. Direito Processual Civil. [42] James Goldschimidt. Descumprimento de ordem judicial. outubro de 1989 . México: Fondo de Cultura Econômica. 1998. São Paulo: Revista dos Tribunais. 11 [43] James Goldschimidt. p. abuso do processo e resistência às ordens judiciárias: o contempt of court. 2001.[38] Ada Pelegrini Grinover. p. op. Trad. Curitiba: Juruá. v. p. Contempt of injunction. p. 1954. Rio de Janeiro: Forense. civil and criminal. op. cit. [39] Jorge de Oliveira Vargas. cit. [40] Execução Civil. 1943 [46] Ada Pellegrini Grinover. 219-227. in Revista de Processo. 144. [41] Hermenêutica e aplicação do direito. in Revista Jurídica. de Ricardo Gama. 143. 11. p. Contempt of court. artigo citado [47] Adhemar Ferreira Maciel. [44] Roberto Molina Pasquel. 104-106 [45] Joseph moskowitz.

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