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“SANTIFICADO SEJA TEU NOME”: SANTIDADE DE DEUS & SANTIDADE DO HO-

MEM.
COSTA, Hermisten Maia Pereira da (Universidade Presbiteriana Mackenzie)

Introdução:

A idéia bíblica de santo e santidade é de se separação. Conforme o emprego co-


mum das Escrituras, "Santificar" significa separar algo do uso comum para um uso ex-
clusivo, peculiar; os termos bíblicos são utilizados exclusivamente no sentido religioso:
a) O sábado é um dia santo: (Ex 16.23; 20.8,11; 35.2); b) Israel é o povo santo de
Deus: (Ex 19.6); c) A Igreja da nova dispensação: (1Pe 2.9).
No Antigo Testamento, Arão, o sacerdote, carregava inscrito em sua mitra: "Santida-
de ao Senhor" (Vd. Ex 28.36-38), indicando a sua consagração total ao serviço de
Deus.
Deus é absolutamente santo, majestoso em Sua santidade (Ex 15.11; Sl 99.9; Is 6.3)
e deseja do Seu povo uma vida de santidade.

1. “A Oração do Senhor”:

Na oração conhecida como Pai Nosso, ensinada por Jesus Cristo aos seus discí-
pulos, inicia assim: “Portanto, vós orareis assim: Pai nosso que estás nos céus, santifi-
cado seja o teu nome” (Mt 6.9).

A. SENSO DE PRIORIDADE:

Jesus ensina os seus discípulos a iniciar a oração com a meditação da glória de


Deus. Aparentemente simples, na prática, nos parece uma dura e disciplinadora lição.
Procuramos Deus nos limites de nossas forças, confessando de forma contundente a
nossa limitação; no entanto, Jesus Cristo nos desafia a esquecer as nossas questões,
os nossos problemas, e a conduzir os nossos olhos para a glória de Deus.
Jesus quer nos educar de tal forma, que tenhamos em tudo, a começar pela oração,
o senso de prioridade e de urgência. Ele nos mostra que por mais sérios e graves que
sejam os nossos problemas e preocupações, Deus deve ter a primazia. Nesta oração,
encontramos uma demonstração prática do ensino de Jesus: “Buscai, pois, em primeiro
lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas cousas vos serão acrescentadas” (Mt
6.33).
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1. Santidade de Deus:

Neste ensinamento há outro ponto que deve se realçado: Quando oramos, es-
tamos falando com o nosso Pai. Todavia, devemos ter em mente também que Deus é
um Pai Santo, que deve ser reverenciado e adorado. Jesus, na oração sacerdotal, as-
sim se refere ao Pai: “Pai Santo” (Jo 17.11).

2. Oração como Ato de Elevar-se:

É impossível louvar a Deus sem que sejamos tomados de um reverente temor


diante da Sua grandeza (Sl 111.10).
O alto privilégio que temos de nos relacionar com Deus através de Jesus Cristo deve
estar sempre associado à visão da grandeza de Deus, que nos conduz ao Seu serviço
com santo temor. “... Por isso, recebendo nós um reino inabalável, retenhamos a graça,
pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor; porque o
nosso Deus é fogo consumidor” (Hb 12.28-29).
Davi inicia o Salmo 25 dizendo: “A ti, Senhor, elevo a minha alma” (Sl 25.1). O sal-
mista sabe a Quem se dirige, daí ele falar de elevar a sua alma: Deus é santo e sobe-
rano; a oração tem sempre o sentido de enlevo espiritual ainda que seja de confissão
de pecados. Falar com Deus sempre é um ato de elevar a nossa alma.

3. Santidade do Nome:

Jesus declara a santidade do nome de Deus. O que significa isto? É necessá-


rio que entendamos que, no mundo judeu, o nome significa a própria pessoa, por isso,
falar no nome de Deus é falar no próprio Deus: a Sua natureza e caráter. Na Oração
1
Sacerdotal Jesus diz ao Pai: “Manifestei (fânero/w) o teu nome (o)/noma) aos ho-
mens que me deste do mundo...” (Jo 17.6-8). À frente: “Eu lhes fiz conhecer (gn-
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wri/zw/) o teu nome e ainda o farei conhecer (gnwri/zw/)....” (Jo 17.26). O Nome

1
O verbo Fânero/w palavra derivada de (
 = “luz”), significa revelar, tornar conhecido, mostrar,
manifestar.
2
O verbo gnwri/zw é derivado de ginw/skw (conhecer, reconhecer, saber). Tanto o verbo conhecer
(ginw/skw) como o substantivo conhecimento (gnw=sij) denota um conhecimento experimental que
faz com que possamos discernir os fenômenos, compreendendo a realidade das coisas. Tem também, o
sentido de conhecimento pessoal. Jesus alega conhecer o Pai: “Pai justo, o mundo não te conheceu
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de Deus é a Sua própria natureza. O nome envolve tudo quanto nos foi revelado a Seu
respeito: Todos os Seus atributos e todas as Suas obras. O nome de Deus está rela-
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cionado à Sua revelação. Por outro lado, a santificação do Seu nome pressupõe o co-
nhecimento daquele a quem o nome representa; ou seja, conhecer experimentalmente
a Deus (Sl 9.10/Sl 20.7).
Nesta oração Jesus enfoca a honra de Deus entre os homens. Quando oramos es-
tamos desejosos de que o caráter santo e bondoso de Deus seja reconhecido e respei-
tado entre os homens, como já sucede nos céus.
Aprendemos aqui que a oração deve ser sempre um ato de glorificação a Deus. Nós
o glorificamos quando reconhecemos quem é Deus e, pelo Espírito, nos dispomos a
cumprir a Sua vontade, proclamando a Sua majestade e glória reveladas no Seu nome
(Jo 17.4,6).

2. Oração e Submissão:

“.... Faça-se a tua vontade (Qe/lhma), assim na terra como no céu” (Mt 6.10). A o-
ração não é uma tentativa de mudar a vontade de Deus, mas sim a manifestação sin-
cera do nosso desejo de submeter-Lhe os nossos projetos, aspirações, sonhos e ne-
cessidades. A submissão a Deus é um aprendizado da fé, através de nossa comunhão
com Ele.
Ao orarmos sinceramente, conforme nos ensinam as Escrituras, estamos submeten-
do a nossa vontade a Deus; isto significa que não pretendemos ensinar a Deus, nem
mudar a Sua vontade; antes, nos colocamos diante dele dizendo: Eu creio que a Tua
vontade é a melhor para a minha vida, cumpre em mim todo o Teu propósito. A ora-
ção revela o nosso desejo de que a vontade de Deus se realize. Portanto, oramos não
para que Deus realize os nossos desejos mas para que Ele concretize os Seus juízos.
A Oração do Senhor nos ensina a pedir a Deus que realize a Sua vontade aqui na
terra como é feita no céu. Oramos para que a vida na terra se aproxime o máximo pos-
sível a do céu, onde os anjos cumprem perfeitamente a vontade de Deus (Sl 103.21).

(ginw/skw); eu, porém, te conheci (ginw/skw), e também estes compreenderam (ginw/skw) que tu
me enviaste” (Jo 17.25).
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Heródoto registra uma tradição, relacionada com os Pelasgos, os quais em tempos antigos, sacrifica-
vam “aos deuses todas as coisas que lhes podiam oferecer (...) lhes dirigiam preces, não lhes dando, to-
davia, nem nome nem sobrenome, pois nunca os viram designados por tal forma. Chamavam-nos deu-
ses, de um modo geral, considerando-lhes a função de estabelecer e manter a ordem no universo. Não
vieram a conhecer senão muito mais tarde os nomes dos deuses, quando os egípcios os divulgaram....”
(Heródoto, História, Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.], II.52).
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3. Santificação: A Vontade Santa de Deus para os Seus:

As Escrituras ensinam enfaticamente que a salvação do homem não é um fim em si


mesma, antes é o início da vida cristã, através da qual nos tornamos filhos de Deus e
progredimos em santificação até à consumação de todo propósito de Deus em nossa
vida.

A. A VONTADE DE DEUS:

Uma das expressões bíblicas para expressar a vontade de Deus é o substantivo


grego Qe/lhma [derivado do verbo Qe/lw], que significa “vontade”, “desejo”, “inten-
ção”. Mesmo sendo esta palavra utilizada para a vontade do homem, ela é predomi-
nantemente atribuída a Deus; e, neste sentido, enfatiza mais o elemento volitivo do que
o deliberativo, assinalando que Deus cumprirá a Sua vontade, o Seu propósito.
A santificação é o propósito de Deus para o Seu povo: "Pois esta é a vontade
(qe/lhma) de Deus, a vossa santificação; que vos abstenhais da prostituição” (1Ts
4.3).

B. O SIGNIFICADO DA SANTIFICAÇÃO:

Cabe, aqui, uma definição operacional:


Santificação é "a graciosa e contínua operação do Espírito Santo pela qual Ele liber-
ta o pecador justificado da corrupção do pecado, renova toda a sua natureza à imagem
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de Deus, e o capacita a praticar boas obras."
Santificação, portanto, é o ato sobrenatural que se inicia com a regeneração, consis-
tindo no progressivo abandono do pecado em direção a Deus.
Deus é absolutamente santo, majestoso em Sua santidade (Ex 15.11; Sl 99.9; Is 6.3)
e deseja do Seu povo uma vida de santidade.

C. CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A SANTIFICAÇÃO:

1. A Santificação e o Conhecimento de Deus:

A santificação tem como motivação primária a contemplação bíblica da majes-


tade de Deus. A tomada de consciência da grandeza, da santidade de Deus, deve nos
conduzir ao desejo de sermos santos conforme Ele é. A santidade de Deus realça o

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L. Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 536.
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nosso pecado, dando-nos consciência da nossa pequenez e impureza; a perfeição ab-


soluta de Deus revela os nossos pecados e as nossas imperfeições. O brilho da glória
de Sua majestade torna mais patente as nossas manchas espirituais. Foi esta a expe-
riência de Isaías diante da revelação de Deus (Is 6.5). A proximidade de Deus, nos faz
mais sensíveis a isto; a contemplação da gloriosa santidade de Deus, conforme regis-
trada nas Escrituras, realça de forma eloqüente a gravidade de nosso pecado. Além de
Isaías, outros servos de Deus ilustram este fato: Moisés, Jó, Ezequiel, Daniel, Pedro,
Paulo e João (Vd. Ex 3.6; Jó 42.5-6; Ez 1.28; Dn 10.9; Lc 5.8; 1Tm 1.15; Ap 1.17), en-
tre outros, tiveram, de modo doloroso, a percepção de sua pequenez, fragilidade e im-
pureza diante de Deus, que é puro de olhos e não pode tolerar o mal (Hc 1.13). .
A vontade de Deus é que O conheçamos – aliás este é o motivo fundamental da Sua
revelação: para que, confrontados com ela, nos rendamos a Deus, O adoremos, e nes-
te ato, sejamos santificados cada vez mais. Jesus, na “Oração Sacerdotal”, diz: "E a vi-
da eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a
quem enviaste” (Jo 17.3).
Paulo considerou todas as outras coisas como perda, diante da realidade sublime do
conhecimento de Cristo; conhecer a Cristo era a sua prioridade (Fp 3.8).
O conhecimento de Deus é mais do que uma simples relação intelectual, antes, é
um envolvimento de fé, pela qual nos relacionamos pessoalmente com Ele, revelando
esta relação em santificação. Este conhecimento revela-se em obediência.
O nosso confronto com a santidade de Deus deve nos estimular ao crescimento es-
piritual (1Pe 2.2).

2. A Santificação é um Processo:

A santificação começa com o nosso novo nascimento; todavia, ela jamais terá
fim nesta vida. Nós não somos perfeitos, nem o seremos, enquanto estivermos neste
modo de vida terreno; todavia, buscamos a perfeição; caminhamos em sua direção (Fp
3.12-14).
O pecado continuará em toda esta existência a exercer influência sobre nós; por is-
so, qualquer conceito de perfeccionismo espiritual, que declare que o crente não mais
peca, é antibíblico. A Bíblia ensina enfaticamente que nós pecamos, mesmo após o
nosso novo nascimento. O que nos distingue da nossa antiga condição é que não mais
temos prazer no pecado; podemos até dizer que o pecado é um acidente de percurso
na vida dos regenerados. Antes o pecado comandava o nosso pensar e agir, agora ele
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ainda nos influencia, todavia não mais reina.


Isto indica a necessidade do convertido adquirir novos hábitos pela prática da verda-
de em amor (Ef 4.15). A graça de Deus é educadora (Tt 2.11-15), agindo através das
Escrituras, nos corrigindo e educando na justiça para o nosso aperfeiçoamento (2Tm
3.16,17). Todavia, continuaremos sendo pecadores até o fim desta existência. (Pv
29.9; Ec 7.20; Rm 6.20; 7.13-25; Tg 3.2. 1Jo 1.8). Contudo, não existem carências em
nossa vida cristã que não possam ser supridas pelo próprio Cristo, nosso Senhor; e Ele
o faz nos renovando através do Seu conhecimento pela Palavra.
Ao povo da Aliança que se desviara do caminho do Senhor, Este lhe diz: “Aprendei
a fazer o bem” (Is 1.17). A santificação é justamente isto; um santo aprendizado guiado
pelo Espírito, tendo como constituição normativa e legislativa do nosso pensar, agir e
sentir, a Palavra de Deus. Portanto, a santificação envolve uma nova “alfabetização”
espiritual guiada pela Palavra de Deus.
O crente é chamado a uma caminhada constante. Os cristãos eram reconhecidos
como aqueles que eram do caminho. (At 9.2; 18.26).
O cristianismo é essencialmente um caminho de vida, fundamentado na prática do
Evangelho, conforme ensinado por Jesus Cristo. A santificação é, portanto, um desafio
a perseguirmos este caminho, nos empenhando por fazer a vontade de Deus. Por is-
so, a santificação nos fala de caminharmos sempre em direção ao alvo proposto por
Deus, com os nossos corações humildes, desejoso de agradar a Deus, de fazer a Sua
vontade com o sentimento adequado.
Esta concepção bíblica conduz-nos a outras:

a) A Santificação envolve um Combate Confiante:


Os cristãos apesar de sua nova natureza, terão que combater o pecado en-
quanto viverem. Este combate será árduo; a Bíblia não poupa figuras para descrever
esta luta com cores vivas; todavia, a Palavra de Deus nos garante, com ênfase maior, a
vitória que temos em Cristo. Daí a nossa certeza de que devemos lutar contra o peca-
do, sabedores que Deus é por nós nesta luta.
Paulo escreve aos coríntios atestando a realidade da tentação mas, ao mesmo tem-
po, indicando que ela não é vitoriosa sobre nós: "Não vos sobreveio tentação que não
fosse humana; mas Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas
forças, pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que
a possais suportar” (1Co 10.13).
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Notemos que a promessa de Jesus se refere ao Seu socorro que nos conduz à vitó-
ria; todavia, isto não exclui a gravidade da tentação, da luta contra a carne, o mundo e
o diabo. Em nosso desejo renovado de agradar a Deus, encontraremos sempre no
pendor de nossa carne uma luta contra este propósito, para que façamos a vontade do
velho homem, surgindo daí, um combate renhido. Todavia, a nossa nova natureza tri-
unfará pelo Espírito de Deus que em nós habita, cuja presença nos identifica como fi-
lhos de Deus (Rm 8.9,14,16).
O escritor de Hebreus, tendo em vista o combate cristão, toma o sofrimento de
Cristo como um exemplo e estímulo para a Igreja: "Considerai, pois, atentamente, a-
quele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não
vos fatigueis desmaiando em vossas almas” (Hb 12.3). No momento seguinte, indican-
do a gravidade deste combate, adverte os seus ouvintes: "Ora, na vossa luta contra o
pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue....” (Hb 12.4).
Contudo, apesar deste combate real – e não devemos minimizá-lo – a Escritura nos
mostra a segurança que temos em Cristo Jesus: "....Aquele que começou boa obra em
vós há de completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6). Pedro, à igreja perseguida e
provada, diz: "....Sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação
preparada para revelar-se no último tempo” (1Pe 1.5). Continua: "Nisto exultais" (1 Pe
1.6).

2) A Santificação e a Consciência do Pecado:


Vimos que a nossa santificação é um processo de crescimento espiritual, sen-
do marcado por um combate violento; e que todavia, apesar disso, temos a vitória em
Cristo.
Faz-se necessário destacar que, em meio a esta luta, muitas vezes nos sentimos
como que totalmente vencidos, tendo a consciência aguda de nossa fraqueza e peca-
do, com a nítida sensação de sermos derrotados, que as nossas provas vão além de
nossa resistência. O próprio Pedro que, conforme já indicamos, recomenda a exultação
da Igreja pelo fato de sermos guardados por Deus (1Pe 1.5-6), diz: "Nisso exultais,
embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias
provações” (1Pe 1.6). Paulo também, ao olhar para si mesmo, declara: "Desventurado
homem que sou! quem me livrará do corpo desta morte?" (Rm 7.24).
Nós também talvez tenhamos nos sentido assim em diversas ocasiões, como o ho-
mem "desventurado" e "miserável" diante da bondade de Deus. E, aqui, não há atenu-
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ante; diante de Deus, da contemplação da Sua augusta presença, da meditação de


Sua majestade, conforme revelada nas Escrituras, todos nós nos sentimos miseráveis
pecadores, homens de lábios impuros, o principal dos pecadores, conforme expressão
de Paulo.
Entretanto, esta consciência de nosso pecado nos acompanhará sempre e, se me
permitem, digo mais: ela é uma das características dos homens regenerados, que
crescem em sua fé. A santificação traz consigo u’a maior consciência da grandeza de
Deus e concomitantemente de nossa pequenez; daí a genuína compreensão de nossa
miserabilidade diante de Deus. Quanto mais perto estivermos do Santo, mais certeza
da nossa impureza teremos. Antes, talvez não julgássemos pecado determinadas prá-
ticas triviais de nossa vida; agora, porém, já não nos sentimos bem neste procedimen-
to, temos uma consciência mais apurada da santidade de Deus e do que Ele requer de
nós; assim, crescer em santidade significa aprimorar a consciência de nossas falhas.
Deste modo, Paulo, nos seus últimos anos de vida, escreve: "Fiel é a Palavra e digna
de toda aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos
quais eu sou o principal" (1Tm 1.15).
O nosso conforto é que mesmo Deus sendo santo, não podendo conviver com o pe-
cado, odiando a iniqüidade (Is 61.8), e nós sendo miseráveis pecadores, Ele nos per-
doa e purifica quando, arrependidos, lhe confessamos os nossos pecados: "Se con-
fessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos pu-
rificar de toda injustiça” (1Jo 1.9).

3) A Santificação tem um sentido escatológico:


Já indicamos que a Santificação é um processo que não encontra a sua per-
feição nesta vida. A sua conclusão se dará em nossa glorificação futura, quando Deus
completar a Sua obra iniciada em nós (Rm 8.29-30: Fp 1.6). Nesse sentido, a consu-
mação da santificação tem dois aspectos: um espiritual e outro físico: espiritual, em
nossa alma quando morrermos; físico, quando Cristo voltar em glória, ressuscitarmos e
tivermos os nossos corpos glorificados. Assim, a santificação será total. A perspectiva
do encontro com Cristo, quando Ele regressar em glória, deve nos motivar hoje, solici-
tamente, à santificação, a fim de vivermos em santidade na Sua presença, puros como
Ele é puro.
A santidade perfeita no céu encontra os seus primórdios na vida dos cristãos aqui na
terra. Isto indica a nossa responsabilidade presente. "Amados, agora somos filhos de
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Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se
manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é. E a si
mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro" (1Jo
3.2-3).
Cristo morreu por nós para que Ele nos apresentasse "a si mesmo igreja gloriosa,
sem mácula, nem ruga, nem cousa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.27).
Dentro desta perspectiva, a Igreja procura viver de forma santa, para se encontrar com
Cristo, conforme o Seu propósito sacrificial.
O desejo da Igreja deve ser de se encontrar com Cristo de forma íntegra e irrepre-
ensível; por isso a Igreja é chamada a viver hoje na presença de Deus, estando sempre
preparada para o Seu encontro final e jubiloso com o Senhor Jesus; este era o alvo da
intercessão de Paulo, conforme vimos (1Ts 5.23).
Jesus Cristo, que se santificou pela Igreja e que se entregou por ela, exerce o Seu
poder para apresentá-la com alegria a Si mesmo, uma Igreja irrepreensível, diante do
escrutínio da Sua glória. O apóstolo Judas encerra a sua epístola com uma doxologia,
cuja primeira parte nos diz: "Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços
e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória” (Jd 24. Ver: Ef
5.25-27).
O nosso padrão de santidade não é um simples “melhoramento” diante dos padrões
humanos, mas, sim, sermos conforme Cristo: Fomos eleitos para Cristo, a fim de ser-
mos “conformes à imagem” dele; portanto devemos ser seus imitadores, seguindo as
suas pegadas (Vd. Rm 8.28-30/ Jo 13.15; 2Co 3.18; Ef 4.32; 5.1-2; Fp 2.5-8; 2Ts 2.13;
1Pe 1.13-16; 2.21).

4) A Santificação é Imperativa:

A santificação é um imperativo expresso por Deus em Sua Palavra, para to-


dos os Seus filhos. De fato, não pode existir vida cristã estagnada, acomodada. A vida
cristã é um desafio à santidade, conforme o propósito de Deus.
Deus nos chama à santidade, conforme o Seu propósito sábio, soberano, santo e
eterno. Sendo assim, a santificação faz parte essencial da vida da Igreja.
A santificação é uma vocação incondicional de todo o povo de Deus. Deus nos ele-
geu na eternidade com este propósito (Ef 1.4). De fato, não há salvação sem santifica-
ção. A nossa eleição e salvação se evidenciam em nossa santificação; em nosso dese-
jo de fazer a vontade de Deus. A Palavra de Deus estabelece uma relação intrínseca
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entre a nossa responsabilidade de santificação e o nosso chamado (Rm 1.7; 1Co 1.2;
Ef 1.4; 2Ts 2.13).

Considerações Finais:

A consideração sobre a santidade de Deus é um desafio constante a vivermos de


modo santo, em todas as nossas relações. A santidade não é simplesmente uma abs-
tração, antes é uma meta de vida para todo cristão na sociedade. Deste modo, quando
oramos "seja feita a Tua vontade", estamos, na realidade, pedindo que o Deus Santo
cumpra o seu propósito eterno de santidade em nós, que realize de forma plena o alvo
de nosso chamamento. E, concomitantemente, estamos conscientes de nossa respon-
sabilidade, pedindo humildemente a Deus que nos capacite a fazer a Sua vontade,
conforme o Seu propósito eterno.

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