P. 1
Análise Crítica de Comentários sobre o livro de Rute

Análise Crítica de Comentários sobre o livro de Rute

|Views: 1.884|Likes:
Publicado porDilean Melo

More info:

Published by: Dilean Melo on May 23, 2011
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

07/17/2013

pdf

text

original

Sections

1

DILEAN BAPTISTA DE MELO SOUZA
ANÁLISE CRÍTICA DE COMENTÁRIOS SOBRE O LIVRO DE RUTE
Monografia apresentada ao Prof.
Dr. Carlos Osvaldo Cardoso Pinto
em cumprimento parcial dos
requisitos da matéria Trabalho de
Conclusão de Curso
CURSO DE BACHAREL EM TEOLOGIA
SEMINÁRIO BÍBLICO PALAVRA DA VIDA
Atibaia
2008



2
SUMÁRIO

Páginas
1. INTRODUÇÃO ............................................................................... 1
2. O LIVRO DE RUTE – BASES INTRODUTÓRIAS PARA UMA
AVALIAÇÃO CONSERVADORA. ............................................................. 5
2.1. Contexto Histórico ................................................................................... 5
2.2. Data de Composição e Autoria ................................................................. 6
2.3. Estrutura Literária ................................................................................. 12
2.4. Propósito e Mensagem .......................................................................... 16
3. ABORDAGEM PRAGMÁTICA ......................................................... 18
3.1. Carlos Mesters ...................................................................................... 18
3.2. Panorama da obra................................................................................. 19
3.3. Identificação e validação da posição hermenêutico-teológica do autor ...... 20
3.4. Influência da posição hermenêutico-teológica na abordagem pragmática . 31
4. ABORDAGEM EXEGÉTICA ............................................................ 33
4.1. Joyce Elizabeth W. Every-Clayton ........................................................... 33
4.2. Panorama da obra................................................................................. 34
4.3. Identificação e validação da posição hermenêutico-teológica do autor ...... 36
4.4. Influência da posição hermenêutico-teológico na abordagem exegética .... 40



3
5. ABORDAGEM DEVOCIONAL ......................................................... 42
5.1. Ricardo Gondim Rodrigues ..................................................................... 42
5.2. Panorama da obra................................................................................. 44
5.3. Identificação e validação da posição hermenêutico-teológica do autor. ..... 46
5.4. Influência da posição hermenêutico-teológico na abordagem devocional. . 48
6. ABORDAGEM TIPOLÓGICA .......................................................... 50
6.1. Norbert Lieth ........................................................................................ 52
6.2. Panorama da obra................................................................................. 52
6.3. Identificação e validação da posição hermenêutico-teológica do autor. ..... 54
6.4. Influência das pressuposições na abordagem tipológica .......................... 60
7. CONCLUSÃO ............................................................................... 62
8. BIBLIOGRAFIA ............................................................................ 65



1
1. INTRODUÇÃO
Não é difícil encontrar em uma livraria evangélica ou na internet um
comentário bíblico. Existem dos mais variados, desde os comentários versículo por
versículo, que oferecem ao leitor os resultados de um trabalho profundo de crítica
textual, até aos mais simples, que dão somente uma visão superficial e panorâmica
dos livros bíblicos. Outros dois fatores que influenciam diretamente os comentários
bíblicos são a posição teológica do autor e o propósito do autor ao oferecer seu texto
aos leitores. A situação não é diferente com o livro de Rute, que escolhemos como
tema para o trabalho. É possível encontrar comentários inseridos em grandes obras
exegéticas, mas também livretos com comentários sucintos e superficiais.
Com este trabalho queremos oferecer ao leitor uma contribuição
para ajudá-lo a avaliar de forma crítica a grande variedade de publicações
evangélicas disponíveis no mercado. Queremos que o leitor se desperte para filtrar
as informações à luz do conhecimento advindo da boa interpretação da Palavra.
Interpretar corretamente o texto bíblico é importante para todos os que desejam
aplicá-lo devidamente à sua vida e é essencial aos ministros de Deus, que devem
oferecer alimento sólido da Palavra àqueles que Deus confiou em suas mãos.


2
Muito tem sido escrito sobre o livro de Rute. Por ser uma novela, sua
história é usada para ilustrar e dar força a movimentos que visam ações sociais e
políticas. Também é usado para o encorajamento de pessoas que se encontram em
diversas situações de sofrimento, e ainda para ilustrar o plano salvífico de Deus ao
longo da história. Certamente há obras que têm trazido boas contribuições.
Encontramos também obras com aplicações para a atualidade, mas muitas vezes a
custa de um trabalho regido somente por ideais sócio-políticos ou em defesa de
posicionamentos teológicos, sem levar em conta a historicidade do livro e a
mensagem de Deus para o leitor de Rute.
Escolhemos avaliar os comentários do livro de Rute escritos por
quatro autores com posições hermenêutico-teológicas e propósitos diferentes. Para
validar a posição hermenêutico-teológica em cada abordagem, são aplicadas quatro
regras gerais de hermenêutica: (1) literalidade da interpretação – a busca por
compreender o texto de forma natural, na tentativa de identificar o sentido primário
do texto para seu compositor e seus leitores originais, sem alegoria ou busca por um
sentido oculto; (2) contexto histórico-cultural – determinação dos valores e costumes
da época em que foi escrito o livro bíblico; (3) gramática – estudo da língua original,
valendo-se do estudo de vocábulos e análise sintática do livro; (4) interpretação
teológica – a procura por encaixar o livro estudado no todo da Escritura Sagrada,
mostrando como o livro se insere no desenvolvimento progressivo da revelação
divina. Para um dos comentaristas escolhidos, é preciso considerar uma
interpretação específica denominada hermenêutica tipológica, que tem por objetivo


3
traçar correlatos entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento com base em
prefiguração (tipo) e seu cumprimento (antítipo).
Nas quatro críticas, toma-se o texto do capítulo três do livro de Rute
para uma análise crítica mais detalhada, embora nem todos os autores preocuparam-
se em fazer uma exegese do texto.
O corpo do trabalho divide-se em cinco capítulos. O primeiro capítulo
dá uma introdução conservadora ao livro de Rute e oferece as bases para uma
avaliação crítica dos comentários, levando em conta os princípios hermenêuticos
acima citados. O segundo capítulo analisa a abordagem pragmática proposta pela
teologia da libertação, revelando os pressupostos teológicos e seu uso na
hermenêutica bíblica. No terceiro capítulo, avaliamos a abordagem exegética, que se
vale dos princípios hermenêuticos, e mostramos como um bom trabalho de
hermenêutica faz um comentário ser atual e aplicativo para o leitor contemporâneo.
O quarto capítulo avalia uma abordagem devocional, em que o autor impõe ao livro
de Rute suas impressões pessoais, sem se valer de um estudo dedicado da Palavra
de Deus. No quinto e último capítulo, analisamos a tendência comum a muitos
interpretes de criar uma ponte entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento pelo
estudo tipológico, um princípio hermenêutico válido, mas que possui regras que
devem ser observadas quando usado.


4
Auxiliado pelo exemplos apresentados no decorrer deste trabalho,
espera-se que o leitor encontre percepções úteis para a análise crítica de outras
obras.



5
2. O LIVRO DE RUTE – BASES INTRODUTÓRIAS PARA
UMA AVALIAÇÃO CONSERVADORA.
O livro tem como título o nome da personagem principal, uma
moabita chamada Rute. A etimologia do nome é incerta, mas sugere-se uma
associação à palavra hebraica -·.· -·.· -·.· -·.· que significa “amizade, companheirismo,
associação” e tem sua raiz na palavra ¬.· ¬.· ¬.· ¬.· .
2.1. Contexto Histórico
A história inicia com um casal efrateu de Belém de Judá, Elimeleque
e Noemi. Para fugir da fome que assola a sua terra no período em que os juízes
julgavam Israel, eles emigram com a família para Moabe, território ao sul de Israel.
Lá seus dois filhos se casam com as moabitas Rute e Orfa. Após um tempo, morrem
Elimeleque e seus dois filhos.
Na narrativa bíblica, o período dos juízes nos revela que o povo de
Israel enfrentava um constante ciclo de apostasia, que gerava desordem religiosa e,
conseqüentemente, desordens sociais e morais. Mantendo-se fiel à Aliança, Yahweh
castigava o povo pela rebeldia e, após o castigo, levantava um juiz que livrava os
israelitas da opressão e das desordens.


6
O livro de Juízes nos conta que, após a morte de Josué, os israelitas
ficaram sem liderança nacional. Depois de morrer toda a geração que viu os feitos
realizados pelo Senhor com Josué, o texto sagrado nos diz que “... surgiu uma nova
geração que não conhecia o Senhor ...” (Jz 2. 10). O início do livro de Rute retrata
um dos períodos de rebeldia desse povo. Porém, diferente do livro de Juízes, que
destaca as lutas armadas do povo contra os inimigos, Rute mostra os
acontecimentos no núcleo familiar. Estabelece também um contraste, mostrando
judeus fiéis à Aliança de Yahweh e até mesmo uma moabita que se mantém fiel à
sua família e ao Deus da sua família durante um tempo de rebeldia. Joice Every-
Clayton nos diz que o livro
... tem a ver com a ação de Deus durante o período dos Juízes. Foi um
período político um tanto confuso, permeado de idolatria, violência, fome e
imoralidade. Nesse contexto, o livro de Rute relata a história de uma
pequena família. Mas uma família é a célula na qual age o Deus da história;
como conseqüência, o livro e a história da família de Rute também abordam
assuntos de vida nacional e vida religiosa.
1

2.2. Data de Composição e Autoria
Uma das maiores dificuldades encontradas para a datação do livro é
o intervalo de tempo entre os primeiros três capítulos, que nos apresentam os fatos
sucessivos da vida de Rute até o nascimento de seu filho Obede − fatos
declaradamente datados do período dos juízes de Israel − e o final do quarto
capítulo, onde encontramos a genealogia de Davi, bisneto de Rute. O início do livro

1
EVERY-CLAYTON, Joyce W. Rute. Curitiba: Encontrão, 1993. p.11


7
determina o período em que aconteceram os fatos narrados, mas não a data final de
composição do livro.
É difícil estabelecer com exatidão a data dos acontecimentos, mas
sabemos que é “Nos dias em que julgavam os juízes” (cf. 1.1). Os fatos ocorrem,
portanto, em algum momento dentro de um período de aproximadamente 330 anos,
aproximadamente de logo após a morte de Josué (c. 1387 a.C.) até o começo do
reinado de Saul (c. 1050 a.C.).
2

Como no começo do primeiro capítulo encontramos um período de
fome, entendemos que os acontecimentos iniciais deram-se em um dos intervalos de
apostasia do povo de Israel, enquanto que a volta para Belém e os capítulos
sucessivos deram-se em tempo de paz. Uma das possibilidades é que os
acontecimentos sejam da época entre Jefté e Sansão.
3
Reese, em sua Bíblia
Cronológica, situa o livro de Rute entre Eúde e Débora. Reese nos dá uma data
provável para os acontecimentos, entre 1268 e 1251.
4

Na tentativa de datar os acontecimentos do livro, alguns cálculos têm
sido feitos também de acordo com a seqüência das gerações do capítulo quatro. Não

2
PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e desenvolvimento no Antigo Testamento: estruturas e
mensagens dos livros do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006. p. 220-223.
3
WALTON, John H. Comentário bíblico Atos: Antigo Testamento. Belo Horizonte: Editora Atos, 2003.
p. 285.
4
REESE, Edward. The Reese chronological Bible. Minneapolis: Bethany House Publishers, 1980. p. 395


8
temos, porém, uma data conclusiva, apenas suposições e tentativas de encontrar
uma data que seja condizente com a historicidade do livro.
A genealogia no fim do livro nos deixa claro que, apesar de narrar
um acontecimento da época dos juízes, a data de composição do livro de Rute é
certamente posterior ao nascimento de Davi e, possivelmente, posterior à sua
coroação como rei de Israel. Considerando que Davi começou a reinar em Judá por
volta de 1010 a.C., e sobre todo o Israel por volta de 1004 a.C., a composição final
do livro não deve ser anterior a essa data. É mais provável que a composição final do
livro date do inicio do reinado de Davi em todo Israel.
Archer diz que se a composição final do livro fosse posterior ao
reinado de Davi, Salomão, seu filho tão famoso, deveria ter sido mencionado
5
, o que
não ocorre. Pratt concorda com Archer e acrescenta que “Parece mais provável que
as genealogias de Rute se estendessem até o rei que governava na época da
redação final. Se esse é o caso, o livro chegou à sua forma final antes da ascensão
de Salomão ao trono”.
6
Carlos Osvaldo Pinto nos dá outro argumento a favor de uma
data mais recuada, “... a atmosfera amistosa nas relações entre Israel e Moabe, algo
impensável depois da cruel servidão imposta aos moabitas pelo reino do Norte”.
7


5
ARCHER, Gleason L. Jr. Merece confiança o Antigo Testamento: panorama e introdução. São Paulo:
Vida Nova, 1974. p. 314
6
PRATT, Richard L. Jr. Ele nos deu histórias: um guia completo para a interpretação de histórias do
Antigo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 335
7
PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Op. Cit. p. 242


9
Outro argumento para a datação é a posição do livro na LXX. Apesar
de na Bíblia hebraica estar entre os cinco megillôt, motivo que leva alguns teólogos a
não considerarem o livro como histórico
8
, na LXX ele aparece logo depois de Juízes,
entre os livros históricos. Morris nos diz que, quanto à data da ordem dos livros na
LXX,
... é bem antiga. A maioria concorda em que é nossa evidencia mais antiga.
Nesta ordem, Rute é colocado entre os livros históricos, imediatamente após
Juízes. Gerleman observa que o mesmo acontece com outras antigas
versões; ele vê nisto a comprovação da antiga tradição judaica segundo a
qual Rute tem íntima relação com os livros históricos.
9

Mas não só a LXX coloca o livro de Rute entre os livros históricos do
Antigo Testamento. A lista hebraico-aramaica dos livros do Antigo Testamento dada
no MS.54 da Biblioteca do Patriarcado Grego em Jerusalém ordena os livros da
seguinte forma: Gênesis, Êxodo, Levítico, Josué, Deuteronômio, Números, Rute, Jó e
Juízes.
10

Outro argumento é o estilo literário.
11
Morris diz que Myers classifica
Rute “...entre as narrativas ... do Pentateuco ... e afirma: ‘A simplicidade da própria
história, as frases curtas mas impressionantes, usadas como seu veiculo, e as figuras

8
Veremos essa argumentação no capítulo Abordagem Pragmática. Os outros quatro livros são: Ester,
Cânticos de Salomão, Eclesiastes e Lamentações.
9
MORRIS, Leon. Rute: introdução e comentário. São Paulo: Mundo Cristão, 1986. p. 214.
10
Idem, p. 215
11
Trataremos a questão do estilo literário mais adiante. Por hora, citaremos apenas como argumento
para uma datação mais antiga.


10
e imagens gerais criadas na mente do leitor levam-nos a classificar a obra entre a
literatura antiga de Israel’”.
12

Os teólogos liberais tentam defender uma data mais recente usando
argumentos baseados na linguagem do livro. Eles creditam ao livro aramaísmos e
palavras características de época posterior:
... näSä näšîm (1:4), lähën (1:13), o verbo `äGan (1:13), märä em lugar de
märâh (1:20), `änâh B• (1:21), miqreh (2:3) Ta`ªbûrî (2:8), yiqcörûn (2:9),
TidBäqîn (2:21), yäradTy (3:3) šäkäbTy (3:4), Ta`ªSîn (3:4), marG•löt (3:7, 8,
14), Tëd•`in (3:18), P•lönî ´almönî (4:1), qayyëm (4:7), šälap na`ªlô (4:7).
13

Porém, isso não é de forma alguma um argumento conclusivo para
uma data mais recente. No verso 13 do capítulo 1 temos a palavra ¡¬· ¡¬· ¡¬· ¡¬· que em
aramaico significa “portanto”
14
, mas a mesma palavra existe em hebraico e significa
“pois, por isso”
15
. Archer ainda diz que poderia ser “... ‘para elas’, no sentido de
‘para estas (coisas)’”.
16
Quanto a palavra märä´ em lugar de märâh Archer afirma o
seguinte:
Embora seja verdade que mara ‘amarga’ tenha sido soletrada pela maneira
aramaica, o equivalente hebraico, com som idêntico, só teve uma leve
diferença de ortografia. Além disto, têm surgido a lume inscrições que

12
MORRIS, Leon. Op. Cit. p. 220
13
Idem, p. 216.
14
HARRIS, R. Laird; ARCHER, Gleason L. Jr.; WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de Teologia
do Antigo Testamento. Tradução: Márcio Loureiro Redondo; Luiz A. T. Sayão; Carlos Osvaldo
Cardoso Pinto. São Paulo: Vida Nova, 1998. Verbete ¡¬· p. 1706
15
HARRIS, R. Laird; ARCHER, Gleason L. Jr.; WALTKE, Bruce k. Op.Cit. Verbete ¡¬· p. 773
16
ARCHER, Gleason L. Op. Cit. p. 315


11
remontam até o nono século a.C., evidenciando ortografias hebraicas e
aramaicas no mesmíssimo texto ...
17

Contudo, o livro apresenta formas bem primitivas do hebraico.
Myers faz uma lista de arcaísmos. Menciona como formas arcaicas dignas de
nota as seguintes: tidBäqîn (2:8, 21), yiqcörûn (2:9), yiš´ªbûn (2:9),
w•yäradTy (3:3), w•šäkäBty (3:4), ta`ªSîm (3:4), Tëd•`in (3:18), qänîtäy (4:5).
18

Para Morris e Myers, é mais fácil explicar palavras mais recentes em
documentos mais antigo do que o contrário, pois “... a Bíblia Hebraica toda passou
pelas mãos de editores judeus ...”
19

Visto que as expressões mais novas não formam a base da
linguagem do livro, mas prevalece uma forma mais primitiva, o fato de editores
conformarem algumas partes do livro a padrões ortográficos mais recentes explicaria
o uso de palavras recentes no livro de Rute.
O livro é anônimo. Diante da autoria incerta, a tradição judaica
aponta para Samuel como autor do livro
20
. Outro fator que leva a creditar a autoria a
Samuel é sua escrita muito similar à de Juízes e os livros de Samuel. Porém, a
autoria de Samuel não parece ser a mais provável, pois a data da composição final
do livro seria então do período em que Davi era fugitivo de Saul.
21
Duas outras
suposições de autoria são levantadas. A primeira diz respeito aos cronistas-profetas

17
ARCHER, Gleason L. Op. Cit. p. 315.
18
MORRIS, Leon. Op. Cit. p. 220
19
Idem. p. 221
20
Idem, p. 213
21
PINTO, Carlos Osvaldo C.Op. Cit. p. 241


12
Natã e Gade, mencionados em I Crônicas 29.29, que registraram os fatos
relacionados à vida do rei Davi
22
. A segunda é que um mestre narrador tenha sido
encarregado de registrar a história do rei Davi, tanto seus feitos como rei como os de
sua ascendência.
2.3. Estrutura Literária
O livro de Rute é uma novela breve. Uma poesia idílica “... altamente
artística em estilo e estrutura.”
23
House acrescenta que “O livro inclui todos os
elementos de uma excelente literatura: personagens fortes, desenvolvimento de
enredo que inclui suspense e resolução, uso interessante do ambiente e técnica
sutil.”
24

O autor de Rute, embora desconhecido, deixou-nos uma obra
destacada “... pela sua condensação, pela nitidez de seu vocabulário, pela
versatilidade de sua linguagem, pela proporção equilibrada de suas cenas e,
sobretudo, pela vivacidade e integridade de suas personagens principais”.
25

Provavelmente, ele se preocupou com o fato de que o livro seria lido perante uma
grande audiência, conforme o costume judaico e, portanto, deveria manter a atenção
tanto do leitor como de seus ouvintes.

22
Como seus escritos não foram preservados, torna-se impossível dar certeza quanto a essa hipótese.
23
PINTO. Carlos Osvaldo C. Op. Cit. p. 242
24
HOUSE, Paul R. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 2005. p. 582
25
SASSON, Jack M. Rute in: ALTER, R. e KERMODE, F. Guia literário da Bíblia. São Paulo: UNESP,
1997. p. 344


13
A narrativa de Rute flui de forma simples e objetiva, sem perder seu
encanto e excelência literária. Toda a narrativa é serena e agradável, com diálogos
em vez de somente descrições, dando cor e brilho ao livro. O diálogo predomina no
livro todo
26
. Alter, citado por Jang Ho Kim diz que “... quando um evento da narrativa
parece importante, o escritor vai atribuir isso principalmente através de dialogo. Em
muitos casos, a narrativa vai avançar a linha de enredo não através de uma
descrição detalhada de eventos, mas através de diálogos”.
27

As técnicas literárias usadas são diversificadas. É notável como o
autor fez uma perfeita simetria entre o primeiro e o ultimo capítulo, mantendo o
mesmo numero de palavras (71).
28
Além da simetria, ele usa um grande jogo de
contrastes tais como plenitude/esvaziamento, altruísmo/egoísmo,
29

esterilidade/fertilidade, fome/fartura, escape/retorno, isolamento/comunidade,
recompensa/castigo, tradição/inovação, masculino/feminino, vida/morte.
30

O autor consegue prender a atenção do leitor, mantendo um clima
de suspense até o fim. Segundo Carlos Osvaldo Pinto, ele consegue “... com rara

26
Segundo SASSON, Jack M. Op. Cit p. 344, 55 dos 85 versos de Rute são diálogos.
27
HO-KIM, Jang. Hebraico instrumental. Atibaia: Seminário Bíblico Palavra da Vida, 2008. (Apostila
preparada para a disciplina Hebraico Instrumental). p. 3
28
PINTO. Carlos Osvaldo C. Op. Cit. p. 242
29
Idem, Ibid.
30
SASSON, Jack M. Op. Cit p. 344


14
felicidade, combinar narrativa, história e Heilsgeschichte, exaltando as virtudes de
lealdade pactual tanto em Yahweh quanto nos personagens principais”.
31

Outro recurso para prender a atenção do leitor e do ouvinte são as
codas, utilizadas em cada cena do livro. Uma coda é um material utilizado para
complementar o cenário da história. Sasson nos diz que ...
Cada uma das quatro cenas de Rute, equivalentes aos quatro capítulos em
nossa Bíblia, é provida de uma coda cuja finalidade é resumir as atividades
passadas, bem como prefigurar outras por vir. A primeira delas contém uma
unidade inicial (1:1-6) que serve como prólogo à história e a última tem uma
unidade de lastro (4:14-17) que fornece um epílogo satisfatório. A última
coda antecipa um futuro além da estrutura imediata da história e inclui uma
genealogia ...
32


Para Pratt, o livro é uma narrativa de resolução e está dividido em
cinco partes e um apêndice:
33

I. A amargura de Noemi (1.1-22)
II. Rute descobre o possível parente resgatador (2.1-23)
III. Boaz concorda em ser o parente resgatador (3.1-18)
IV. Boaz adquire o direito de ser o parente resgatador (4.1-12)
V. A bênção de Noemi (4.13-17)
Apêndice genealógico (4.18-21)
Gordon Johnston, citado por Jang Ho Kim, faz um gráfico simples
34

para apresentar o livro.

31
PINTO, Carlos Osvaldo C. Op. Cit p. 242
32
SASSON, Jack M. Op. Cit p 345
33
PRATT, Richard L. Jr. Op. Cit. p. 335


15


Para ele o enredo de Rute é chamado “...enredo (plot) baseado [no]
problema...”
35
. Nesse tipo de narrativa, um problema é apresentado e as ações vão
em busca de uma solução para o mesmo. Tudo acontece num clima de tensão e/ou
suspense, onde o clímax é atingido logo antes da resolução.
36

Uma divisão em quatro cenas, tal como encontramos em nossas
Bíblias (os quatro capítulos do livro), parece ser mais contundente apesar de mais
simples.

34
HO-KIM, Jang.Op. Cit. p. 5
35
Idem, Ibid.
36
Idem, Ibid.


16
2.4. Propósito e Mensagem
Embora os comentaristas atribuam diferentes propósitos ao livro de
Rute
37
, na simples qualidade de uma novela Rute tem por bem relatar várias
nuances da vida cotidiana: casamento, viuvez, amizade, relacionamento familiar e
preocupações com a subsistência e a descendência.
É evidente que Yahweh é o personagem principal mesmo que oculto
no clímax do enredo da narrativa. Para pensarmos em propósito do livro, não
podemos ignorar Sua aliança com Seu povo, que se expressa ao longo de toda a
narrativa. House lembra que, no inicio do livro, “... duas mulheres sem maridos e
filhos apegam-se a Yahweh e uma à outra”.
38
A fome que assolava a terra e fez com
que Noemi saísse de sua terra por quase dez anos, terminou porque
:·· :¬· --· :·· :¬· --· :·· :¬· --· :·· :¬· --· ·:. ·:. ·:. ·:. -s ‘¬·¬· ·· e -s ‘¬·¬· ·· e -s ‘¬·¬· ·· e -s ‘¬·¬· ·· e ·: ·: ·: ·: − Noemi ouve que ¬·¬· ¬·¬· ¬·¬· ¬·¬· (Yahweh) havia
visitado seu povo e novamente havia pão em :·· -·z :·· -·z :·· -·z :·· -·z (casa de pão, ou seja,
Belém).
No livro de Rute, uma tragédia nacional e individual transforma-se
em bênção individual e nacional. Isso é o que acontece quando indivíduos e nação
estão dispostos a perseverarem em sua fidelidade a Yahweh. No plano individual,
temos duas mulheres e um judeu que devotam a Ele sua fé. A bênção nacional é
evidenciada pela genealogia encontrada no fim do livro, em que Rute é ancestral do

37
Veremos o assunto em mais detalhes nos capítulos 3 a 6
38
HOUSE, Paul R. Op. Cit. p. 583


17
grande rei de Israel, o rei Davi. Em todo o tempo e em quaisquer circunstancias, “...
Deus está vigiando seu povo, fazendo com que aconteça a eles o que é bom. O livro
é a respeito de Deus. Ele governa sobre todas as coisas e abençoa aos que confiam
nEle.”
39

Considera-se, portanto, que o propósito do livro de Rute leva em
conta a fidelidade de Yahweh às Suas promessas pactuais em ··e ··e ··e ··e (visitar) seu povo,
desde o menor núcleo familiar até a cidade como núcleo maior, trazendo novamente
pão à :·· -·z :·· -·z :·· -·z :·· -·z (casa do pão) e preparando à nação como um todo o seu rei. House
concorda com Robert Hubbard quando afirma que “... Rute expressa como Deus
abençoa a família e, por extensão, as multidões”.
40

A mensagem do livro também leva em conta a aliança de Yahweh
com Seu povo. Da libertação individual à nacional, Deus age de acordo com Sua
aliança. A genealogia davídica no final do livro demonstra a “... intervenção divina na
vida de indivíduos que são leais à aliança.”
41

O que vimos até aqui dá-nos um ponto de partida para avaliar o
trabalho dos comentaristas representantes de quatro diferentes expressões de
interpretação, que indicamos como abordagens pragmática, exegética, devocional e
tipológica.

39
MORRIS, Leon. Op. Cit. p. 226
40
HOUSE, Paul R. Op. Cit. p. 583
41
PINTO, Carlos Osvaldo C. Op. Cit. p. 243


18
3. ABORDAGEM PRAGMÁTICA
Entende-se aqui por abordagem pragmática a práxis hermenêutica
adotada pelos teólogos da libertação. Na busca de uma práxis em prol dos pobres, a
ótica da hermenêutica da teologia da libertação é a realidade concreta dos excluídos,
lutando contra o sistema que os está oprimindo. Sendo assim, a preocupação política
e sociológica se faz presente em toda sua forma de ler o texto bíblico e fazer
teologia. Tais teólogos buscam “... uma síntese teológica e ideológica para mudar o
rumo da história. A palavra práxis tornou-se chave.”
42

3.1. Carlos Mesters
Carlos Mesters é frade carmelita, nascido na Holanda, mas reside há
muitos anos no Brasil, onde ajudou a criar o CEBI (Centro de Estudos Bíblicos)
43
.
Sua formação em Teologia e Ciências Bíblicas foi em Roma e na Escola Bíblica de
Jerusalém. Também é doutor em especialidade em literatura apocalíptica. É
conferencista requisitado em toda a América Latina.

42
CONN, Harvey; STURZ, Richard. Teologia da Libertação. São Paulo: Mundo Cristão, 1984. p. 5.
43
Maiores informações em http://www.cebi.org.br, acessado em out/2008.


19
Sua obra analisada é Rute, lançado pelas editoras Vozes, Imprensa
Metodista e Sinodal em 1986.
3.2. Panorama da obra
A obra é bem objetiva, tendo uma pequena introdução que
apresenta os argumentos para as interpretações e aplicações que o livro de Rute
pode oferecer às pessoas que hoje sofrem com problemas de falta de terra e de
fome. Após a introdução, o livro é bem dividido em capítulos que abrangem todo o
texto de Rute.
O livro levanta questões bem contemporâneas e nisso apresenta
algumas contribuições para o leitor. A primeira contribuição que se destaca é a
preocupação com a aplicabilidade para os nossos dias. A visão de que precisamos
aprender com o livro de Rute lições para o nosso dia-a-dia permeia todas as paginas
do livro. Isso nos leva a uma outra faceta importante, a contextualização que Carlos
Mesters propõe. Sua preocupação é que os leitores consigam tirar lições do livro, o
que faz com que ele constantemente estabeleça correlatos entre a situação das
personagens e as situações enfrentadas hoje pelos oprimidos. Outro fator é a fácil
linguagem do livro. O desejo do autor de que seus leitores possam aprender com seu
trabalho faz com que a linguagem seja acessível a todos. Nas palavras do próprio
autor,


20
... um comentário bíblico, qualquer que ele seja, só pode ter um único
objetivo, a saber, fazer com que a Palavra de Deus possa atingir, para além
das divergências dos estudiosos, o seu objetivo na vida do povo que nela
acredita e confia.
44

O desenvolvimento da obra é claro e a progressão do pensamento se
faz de forma coerente com a proposta e a posição hermenêutico-teológica do autor,
a qual estudaremos no ponto que segue.
3.3. Identificação e validação da posição hermenêutico-
teológica do autor
Conforme apresentado no ponto anterior, a obra de Carlos Mesters
desenvolve um pensamento contemporâneo e contextual para o livro de Rute. Deixa,
porém, de levar em conta a historicidade do livro de Rute e as regras gerais de
hermenêutica. Na introdução do livro, destacamos duas preocupações do autor: uma
com respeito à datação e outra com respeito à mensagem. No comentário,
destacamos a hermenêutica adotada por Mesters na situação do resgate, o ponto de
clímax da narrativa.
Mesters faz um bom levantamento histórico da situação do povo na
época da narrativa e destaca a data dos acontecimentos como sendo o tempo dos
juízes. No entanto, usa esse levantamento de forma confusa quando trata a questão
da data de composição do livro. Isso está evidente no seu capítulo introdutório

44
MESTERS, Carlos. Rute. Petrópolis: Vozes, 1986. p. 17


21
quando, depois de mostrar os conflitos vividos pelo povo como a fome e a
desintegração da família, ele diz que
... duas perguntas surgem e pedem uma resposta: 1. Qual a época desta
situação conflitiva que acabamos de analisar? Ou seja: em que época foi
escrito o livro de Rute? 2. Como a história de Rute toma posição frente a
esta situação? Ou seja: qual a mensagem do livro de Rute?
45

Visto que quanto à época da situação narrada em Rute não resta
duvida, pois o próprio texto bíblico a especifica (Rt 1.1), não há justificativa para a
primeira parte da pergunta de Mesters.
Quanto à datação, Carlos Mesters defende uma data pós-exílica. O
primeiro argumento estabelece a posição de Rute no cânon hebraico (entre os
:·:·-: :·:·-: :·:·-: :·:·-:) e seu uso nos ritos judaicos em contraponto com sua posição no cânon
cristão (livros históricos). Mesters diz que “Nesta diferença milenar entre a bíblia (sic)
judaica e a bíblia (sic) cristã transparece a variedade de opiniões quanto à
mensagem e o objetivo do livro de Rute”
46
.
De acordo com Morris, esse argumento não vai além de nos deixar
com uma pergunta: “Quando foi Rute colocado, pela primeira vez, entre os ketubim?
Nada existe para indicar que este arranjo era primitivo; ao contrario, muita coisa
demonstra o contrário”
47
. O argumento de Mesters de que o cânon hebraico é
anterior ao da LXX não é conclusivo. Conforme mencionado no ponto 1.2, uma lista

45
MESTERS, Carlos. Op. Cit.. p. 10
46
Idem, p. 7
47
MORRIS, Leon.Op. Cit. p. 214


22
hebraico-aramaica dada no MS.54 coloca Rute entre os livros históricos. Outra prova
dada por Morris é Eusébio que cita Melito de Sardes que visitou a Palestina “... e ali
esforçou-se ao máximo para certificar-se (e informar-lhe), a respeito dos ‘fatos
precisos concernentes aos escritos antigos: quantos eram, e qual sua ordem’. Isto
resultou numa lista em que Rute vem imediatamente após Juízes.”
48

O segundo argumento de Mesters mostra uma preocupação em
estabelecer a época de escrita do livro de Rute como pós-exílica para, mais adiante,
estabelecer uma correlação com a atualidade. Mesters apresenta três fatores para
comprovar essa tese. O primeiro fator são os problemas que o povo enfrenta, i.e.,
um povo pobre e marcado pela fome, pela migração e pela desapropriação das
terras. As famílias estão desfeitas, sem garantia de continuidade e com um
sentimento de culpa diante de Deus. A sociedade é basicamente agrária e “... a terra
era objeto de negócios, pois ela podia ser comprada e vendida ...”
49
. Dentro disso,
Mesters vê um total desinteresse do povo para com a observância da lei do resgate,
problema também enfrentado em Neemias 5.8-11. A unidade familiar era o clã, “... a
grande família patriarcal”.
50
Porém, a família enfrentava alguns problemas de
desintegração (cf. Ne 7.4-5) e muitos haviam casado com mulheres estrangeiras (Ed
9.1-2).

48
MORRIS, Leon.Op. Cit. p. 215
49
MESTERS, Carlos. Op. Cit. p. 9
50
Idem, Ibid


23
O segundo fator é que “... o rumo do pensamento do livro de Rute é
o mesmo de outros livros da bíblia (sic!) escritos durante e depois do cativeiro ...”
51
.
Esse rumo de pensamento a que Mesters se refere está ligado ao universalismo e
abertura da fé em Yahweh, ao desejo do povo de ter um novo rei como Davi, aos
problemas do sofrimento e retribuição, e ao tema do servo sofredor.
Com relação ao universalismo, Carlos Mesters procura demonstrar
que a aceitação de Rute pelo povo judeu é uma crítica às tendência que ele
considera exclusivistas na época pós-exílica de Esdras e Neemias. Em suas próprias
palavras, “Transparece aqui uma defesa velada contra a acusação de relaxamento e
infidelidade (Esd 9,1-2; 10,2; Ml 9,11). O texto deixa bem claro que Noemi, ao
permitir a entrada de Rute ... não foi uma pessoa infiel nem relaxada.”
52
Mais
adiante, Mesters tenta reforçar seu argumento dizendo que um dos motivos que
levaram Boaz a acolher Rute foi também uma crítica a Esdras: “Transparece aqui a
polêmica com Esdras em torno da aceitação ou expulsão das mulheres
estrangeiras”.
53


51
MESTERS, Carlos. Op. Cit. p. 11
52
Idem, p. 29
53
Idem, p. 37


24
O terceiro fator refere-se à escrita do livro. Segundo Mesters, “o
jeito de falar ou de escrever do livro de Rute é, na opinião dos entendidos no
assunto, característico da época depois do cativeiro.”
54

É difícil sustentar a hipótese de que a época da escrita do livro de
Rute é a do povo pós-exílico, conforme discorrido no capítulo 2. Quanto ao rumo do
pensamento do livro, questões como o universalismo não encontram sustentação em
Rute. Se o propósito do autor fosse fazer polêmica ou se posicionar contra as
decisões de Esdras e Neemias, o livro daria maior ênfase ao casamento e à aceitação
de Rute na comunidade judaica. Champlim, ao escrever sobre essa polêmica nos diz
que
... há fortes razões para não se aceitar essa opinião. A Canonicidade do livro
dependeu, em grande escala, de judeus que eram herdeiros espirituais de
Esdras e Neemias, pelo que, se esse tivesse sido o propósito do livro, eles o
teriam rejeitado. Conforme dizem alguns comentaristas, a possibilidade de
uma guerra literária em torno de questões ideológicas é muito duvidosa
naquele período tão remoto.
55

Concordando com Champlim, Morris diz que “... se o livro fosse
realmente uma polêmica contra Esdras e Neemias, a recusa do resgatador ... se
basearia, certamente, em que ela era uma moabita. Boaz teria replicado, repudiando
tais preconceitos”.
56
Não obstante, Mesters trata de forma leviana duas situações
diferentes. Em Rute, Noemi adverte Rute a voltar para a casa de sua mãe, mas Rute

54
MESTERS, Carlos. Op. Cit. p. 11
55
CHAMPLIM, R.D. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Hagnos,
2001. p. 1093
56
MORRIS, Leon. Op. Cit. p. 225


25
decide ir com ela e viver entre seu povo e com seu Deus. Em Esdras, o povo do
cativeiro se casa com mulheres da terra, as quais não estavam como Rute decidindo
pela terra e pelo Deus de Israel. Mesters diz o que o texto não diz. Quanto à escrita
do livro de Rute ser parecida com a de escritores pós-exílicos, já foi dada no capítulo
anterior uma lista de palavras arcaicas, que não se encaixariam com uma escrita
mais recente.
Carlos Mesters propõe para o livro uma mensagem baseada em
quatro fatores que mostramos a seguir.
1º. Os nomes dos personagens.
Para Mesters, os nomes possuem um sentido escondido. Cada nome
revela o que a pessoa é e faz dentro da história, e isso é evidenciado, por exemplo,
pelo nome Noemi. Mesters diz que “... dentro da história, Noemi é a imagem do
povo”.
57
Sobre os nomes dos filhos de Elimelec e Noemi, Malon e Quilion, ele diz:
“Israel e Judá ... eles se esqueceram que Deus era o seu Rei e Senhor, e andaram
atrás de outros deuses e outros senhores. Por isso, foram ficando Doentes e
Frágeis.”
58

Os nomes judaicos revelavam algo do caráter da pessoa ou de
alguma situação específica de sua vida. Segundo Atkinson, “... na maneira hebraica

57
MESTERS, Carlos. Op. Cit. p. 21
58
Idem, p. 22


26
de pensar, saber o nome de uma pessoa é conhecer o seu caráter, conhecer a
pessoa”.
59
O próprio Deus mudou o nome de pessoas, como de Abrão para Abraão
(Gn 17.5) e de Jacó para Israel (Gn 32.28). Em todos os casos, o nome foi mudado
depois de algum acontecimento que mudaria a vida e a forma de viver do
personagem bíblico. Porém, dizer que o nome dos personagens do livro de Rute
representam o povo, como no caso de Noemi, é uma inferência ao texto bíblico, que
anula as personagens e a historicidade do livro, reduzindo o livro como a um conto,
uma fábula. Não obstante, não podemos saber exatamente a etimologia do nome de
Rute e Orfa por serem nomes moabitas e não hebreus. São feitas associações com
palavras hebraicas, mas não são conclusivas.
2º. A geografia.
Para Mesters, a geografia ajuda o leitor a memorizar a história e
também contribui para a dramatização. Mesters divide a história em quatro cenas,
nas quais, segundo ele, a geografia revela o verdadeiro centro da história: o retorno
para a terra, a casa e a família. As quatro cenas são: 1ª – a família sai de Belém e
vai para Moab e volta para Belém; 2ª – Rute sai de casa, de junto de Noemi, vai até
o campo e volta para cidade; 3ª – Rute sai de casa, de junto de Noemi, vai até o
terreno e volta para casa; 4ª – Booz sai de casa e vai até a porta da cidade e, no
fim, volta para casa. Agora tudo se passa dentro da casa de Booz, onde o povo se
reúne para festejar o nascimento do filho.

59
ATKINSON, David. A mensagem de Rute. São Paulo: ABU, 1991. p. 34


27
Dizer que a geografia ajuda o leitor na memorização e dramatização
é correto, mas que ela revela o centro da história é atribuir ao ambiente geográfico
peso que ele não tem.
3º. O uso do Antigo Testamento.
Para Mesters, quando Rute foi escrito já havia “... uma grande parte
do Antigo Testamento”
60
e o povo o conhecia praticamente de cor, pois nele
encontrava “... o retrato de sua vida e do seu passado”
61
. Sendo assim, ele presume
que o autor de Rute usa o Antigo Testamento para lembrar ao povo sua história,
desde o tempo dos juízes (Rt 1.1) até evocar a esperança de um novo rei como Davi
(Rt 4.17). Isso fica evidente nas associações que Mesters faz entre frases dos
personagens de Rute e a história do povo judeu, como no caso da frase de Boaz à
Rute “Você deixou pai e mãe; deixou a terra onde nasceu” (Rt 2.11). Ao comentar
esse verso, Mesters diz que “Esta frase lembra Abraão (Gn 12.1). Escolhendo ficar
com Noemi, Rute imitou Abraão, tornando-se filha de Abraão, membro do povo de
Deus”.
62

Considerando que Rute foi escrito no período da monarquia
63
, o povo
já possuía o Pentateuco
64
, mas não muitos livros bíblicos como Mesters argumenta.

60
MESTERS, Carlos. Op. Cit. p. 14
61
Idem, Ibid.
62
Idem, p. 37
63
Conforme ponto 2.2 deste trabalho
64
Coleção dos cinco primeiros livros da Bíblia: Genesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.


28
Em Juízes 2.10, vemos que a geração posterior a Josué “... não conhecia ao Senhor,
nem tão pouco a obra que fizera a Israel.” Embora não possamos negar que sempre
houve um remanescente fiel no povo de Israel, exemplificado por Boaz que mostrou
ter conhecimento da Lei do resgate e das tradições de Israel quando foi à porta da
cidade para tratar dos assuntos relacionados ao resgate, o texto de Juízes demonstra
que Mesters está errado quando diz que o povo sabia quase de cor o texto bíblico
65
,
4º. As divisões do livro.
Para Mesters, as divisões do livro demonstram “... a situação real do
começo e situação ideal do fim ...”
66
, i.e., a descrição da opressão, da fome e da
miséria em que o povo se encontrava e o desejo de libertação, de um final feliz, com
um rei governando em Israel. Cada um das quatro cenas demonstra esse
desenvolvimento para a reconstrução do povo.

1. O Quadro Inicial - descreve a situação real do povo
2. A Caminhada da Reconstrução do Povo
1º. Passo – atraída pela Boa Notícia da visita de Deus ...
Noemi decide voltar para a terra

65
MESTERS, Carlos. Op Cit. p. 14
66
Idem, p. 15


29
2º. Passo – Rute toma a iniciativa de catar a sobra da colheita
3º. Passo – Booz se compromete a cumprir a lei do resgate
4º. Passo – Booz cumpre a lei do resgate
3. O quadro Final – descreve o nascimento do filho ... nele o
problema do povo começa a ser resolvido
4. Apêndice - genealogia de Davi.
A crítica que fazemos não diz respeito ao esboço do livro em si. A
questão é como Mesters usa esse esboço no seu comentário. Para cada parte do
esboço, ele sugere uma associação ao povo pós-exílico. Em seguida, faz uma ponte
entre os problemas do povo pós-exílico e os problemas do povo atual.
Um exemplo do que acabamos de dizer está no terceiro passo do seu
livro, quando Mesters comenta sobre o fato de Boaz cumprir a lei do resgate. Sua
relação entre os fatos e a lei judaica é bem feita. Noemi não tinha outros filhos e
nem mais poderia ter para que se cumprisse a lei do levirato para Rute; precisavam
portanto, da lei do resgate e Boaz se propõe a cumprir a lei. Mas sua aplicação desse
fato bem colocado é que a “... família de Noemi era a imagem do povo sofredor
daquele tempo [pós-exílico]. Como a família de Noemi, assim as famílias dos pobres
viviam desintegradas, incapazes de se defender conta a ambição dos ricos. Eram


30
obrigados a vender suas terras, seus filhos e suas filhas (Ne 5,1-5)”.
67
Conforme já
mencionamos anteriormente, essa ligação do livro de Rute a uma resposta às
sanções de Esdras e Neemias é insustentável. A ponte feita por Mesters entre Rute e
Esdras/Neemias e sua aplicação aos pobres da época pós-exílica é fruto do sistema
ideológico adotado previamente por ele, mas não encontra base contextual.
Conforme mencionado anteriormente, a posição hermenêutica de
Mesters destaca-se em seu comentário sobre a trama de Noemi e Rute para mostrar
a Boaz que este deveria ser o resgatador de Noemi e, conseqüentemente, de Rute.
Para Mesters, Noemi usa da história do povo para preparar seu plano. Em suas
palavras, Noemi “ ... se inspirou na história de Tamar ... esposa do filho mais velho
de Judá [a qual] se fez por prostituta para obrigar o sogro a cumprir a lei ...”
68
. Com
isso, Mesters invalida a ação de Deus na história.
A essa altura, devemos lembrar que o texto bíblico não diz nada a
respeito de relação sexual, como Mesters insinua ao estabelecer uma ligação entre
do plano de Noemi e Rute com o plano de Tamar, que manteve relações sexuais com
seu sogro para que a lei do levirato fosse cumprida (Gn 38).
O pedido de Rute para que Boaz a cubra com seu manto (no
hebraico ·.: ·.: ·.: ·.: “asa”), pode referir-se à expressão de Boaz no capítulo 2.12, quando
ele diz para Rute que deseja que Deus a recompense, o Deus sobre cujas asas ela

67
MESTERS, Carlos. Op. Cit. p. 43-44
68
Idem, p. 45


31
procurou refúgio. A palavra hebraica nos dois versículos é a mesma. Carlos Osvaldo
Pinto, falando sobre a reputação de Rute, lembra que no capitulo 3.11 “… o caráter
de Rute é vindicado e ela é identificada como uma ··· -:s ··· -:s ··· -:s ··· -:s [´ëšet Hayil] (3.11)”.
69

Fora isso, o fato de Boaz mandar embora Rute bem cedo é também para que a
imagem e a moral da moça não ficassem manchadas. Uma outra possibilidade é que
o pedido de estender o manto seja o próprio pedido de casamento que Rute fez a
Boaz. Nessa linha de pensamento, Morris diz que essa metáfora também é usada
posteriormente, em Ezequiel 16.8 “... para tomar alguém em casamento”.
70

3.4. Influência da posição hermenêutico-teológica na
abordagem pragmática
Conforme já dito acima, a obra de Carlos Mesters faz uma boa
contextualização e seu objetivo de aplicar o texto bíblico ao povo brasileiro é digno
de ser mencionado e de ser modelo para comentários que não o fazem. Contudo,
suas pressuposições teológicas da libertação dirigem todo seu trabalho e deturpam
suas aplicações. Seu desejo de situar o livro no período pós-exílico faz com que seu
trabalho transforme o livro de Rute num conto folclórico para debater ideologias
políticas e religiosas, perdendo o foco do livro de mostrar a soberana intervenção de
Deus na vida de Seu povo. Mesmo que houvesse sustentação para o pensamento de
datação pós-exílica, a intervenção de Deus não é levada em conta de forma objetiva,

69
PINTO, Carlos Osvaldo C. Op. Cit. p. 247
70
MORRIS, Leon. Op. Cit. p. 273


32
pois a solução final de Mesters para o problema de Noemi e Rute deu-se por meios
ilícitos, transformando Rute numa promíscua e deixando de considerar o valor moral
que o próprio texto atribui a Rute, uma mulher de valor ··· -:s ··· -:s ··· -:s ··· -:s
Apesar das contribuições positivas, o livro deturpa o contexto, a
historicidade, a hermenêutica e, conseqüentemente, a aplicabilidade para a
atualidade.


33
4. ABORDAGEM EXEGÉTICA
Entende-se aqui por abordagem exegética a práxis hermenêutica que
busca o sentido original do texto valendo-se do contexto histórico, da língua original
e de princípios hermenêuticos. De acordo com Zuck, “O objetivo da exegese bíblica é
descobrir o que o texto diz e quer dizer, e não atribuir-lhe outro sentido”.
71

4.1. Joyce Elizabeth W. Every-Clayton
Joyce Elizabeth W. Every-Clayton nasceu em 1944 na Irlanda do
Norte. É geógrafa e também formada em teologia pela Universidade de Londres e
pelo London Bible College (agora London School of Theology). Desde 1973, trabalha
no Brasil como missionária da Latin Link (antigamente chamada União Evangélica Sul
Americana). Reside em Recife e leciona Antigo Testamento e História Eclesiástica no
Seminário Congregacional e no Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, onde
concluiu mestrado e doutorado. Também leciona na Escola de Missões Transculturais
da JUVEP (Juventude Evangélica Paraibana) as matérias Missões no Antigo

71
ZUCK, Roy B. A interpretação bíblica: meios de descobrir a verdade da Bíblia. São Paulo: Vida Nova,
1994. p.114


34
Testamento e História de Missões. É conferencista nas áreas de teologia e missões
por todo o Brasil.
Sua obra analisada é Rute, da série Em Diálogo com a Bíblia, lançada
pela editora Encontrão em 1993.
4.2. Panorama da obra
A autora faz um bom trabalho ao comentar cada parte do livro de
Rute. Sua preocupação não está em ser exaustiva, mas em mostrar o
desenvolvimento da narrativa a cada nova cena. Para Every-Clayton, Deus está
presente em toda a história, de forma direta ou indireta. Ela diz que “Marcante ... é a
descrição da maneira de Deus agir, ora direta, ora indiretamente. Cada capítulo
destaca uma ação direta de Deus – às vezes não passa de uma mera coincidência –
e uma indireta, mediada por seres humanos”.
72

Every-Clayton faz uma pequena introdução no seu trabalho,
abordando de forma sucinta questões como autoria, estrutura literária e contexto
histórico do livro. Ela situa a história narrada no livro no período dos juízes, e diz que
seu autor desconhecido é da época do início da monarquia.
Sua obra é dividida em quatro capítulos e cada um deles discorre
sobre um capítulo do livro de Rute. Isso ajuda o leitor a fazer uma ponte entre o que
a autora está comentando e o livro de Rute, pois mantém as divisões do texto

72
EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p. 11-12


35
bíblico. Um recurso usado pela autora para ajudar na memorização e no
desenvolvimento do pensamento do livro é dividir os capítulos em trechos e, em
alguns deles, criar quiasmas.
Every-Clayton revela uma preocupação de que seu trabalho seja
aplicativo aos leitores brasileiros, em especial aos que moram no Nordeste, local
onde ela reside e ministra. Contextualizando o problema da fome e migração do
início do livro de Rute, ela diz que “Ainda hoje, a fome freqüentemente obriga um
grupo a mudar-se – o nosso Nordeste que o diga! Fotografias de flagelados magros,
retirantes doentes e encurvados fazem parte do cotidiano do nosso século”
73
. Outra
frase expressa essa preocupação:
A dolorosa realidade descrita nesse prelúdio [os quatro versos iniciais do
livro de Rute] já foi vivenciada muitas e muitas vezes por nosso povo, mais
particularmente nas regiões sujeitas a secas periódicas. Temos Severinos e
Severinas sem fim vivendo ‘vidas secas’ nos vastos sertões: e tentando a
todo custo manter viva uma fé em Deus, apesar das dores e duvidas.
74

Sua habilidade no fazer algumas perguntas orientadoras para nortear
a contextualização e a aplicabilidade do livro ajuda a manter o desenvolvimento do
raciocínio de forma clara:
Como é que nos relacionamos com Deus? Como entender os caminhos de
Deus? Quais são os fatores que promovem relacionamentos interpessoais
feliz e duradouros? Como é que se enfrenta problemas de miséria, de fome?
É possível conhecer e fazer a vontade de Deus num mundo pecaminoso? É
possível viver com integridade pessoal nesse mundo?
75


73
EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p. 14
74
Idem, p.17
75
Idem. p.11


36
Em algumas situações, a autora induz a imaginação do leitor com
base em fatos que ela não afirma por não haver base textual. Um exemplo disso é
seu comentário sobre o verso quatro do capítulo primeiro quando os filhos de Noemi
casam-se com mulheres moabitas. “Há aqui um contraste com Gn 24, e podemos
imaginar Noemi um tanto nervosa quando os jovens não seguiram a orientação de
Abraão, que insistiu em buscar uma esposa para Isaque entre sua própria
parentela...”
76
(grifo pessoal). Em outros momentos, ela levanta argumentos, como
por exemplo o de uma autoria feminina, mas nunca afirma aquilo para o qual não há
base textual ou histórica.
No geral, embora a autora deixe algumas questões em aberto como
as acima mencionadas, a qualidade e fidedignidade do comentário é sustentada pelo
seu trabalho hermenêutico.
4.3. Identificação e validação da posição hermenêutico-
teológica do autor
Na identificação da sua posição hermenêutico-teológica, ressaltamos
a preocupação da autora com o sentido original do texto, considerando o contexto
histórico da narrativa, o estudo da língua original e os princípios hermenêuticos.
Buscar o sentido original do texto é identificar o significado do texto
para o autor e para o seus leitores imediatos, i.e., as primeiras pessoas que teriam

76
EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p.16


37
acesso ao escrito. Uma evidencia dessa preocupação é sua afirmação de que “nos
dias em que os juízes governavam [que] sinaliza que no livro de Rute temos uma
retrospectiva histórica.”
77
. Com isso, Every-Clayton procura situar, assim como fez o
autor original, seus leitores num contexto e situação particular, possibilitando entrar
na história como os primeiros leitores fizeram.
Outra forma de percebermos essa busca é a investigação feita em
documentos antigos como o Talmude e a citação de Campbell do manuscrito
armênio
78
sobre o livro de Rute. Com isso, Every-Clayton procura saber como os
rabinos e interpretes antigos entendiam o livro de Rute.
Quando situa a narrativa no período dos juízes, Every-Clayton não
atesta somente sua preocupação em buscar o sentido original, mas também em
identificar corretamente o contexto histórico. Desta forma, a autora pode criar uma
ponte hermenêutica entre a realidade dos leitores antigos e a dos leitores atuais.
Conforme apresentado no ponto anterior, Every-Clayton faz um comentário simples,
porém suficientemente completo, sobre todas as cenas e desdobramentos do livro de
Rute, preocupando-se, sempre que possível, com aplicar ao contexto do Nordeste
brasileiro. Em resumo, sua obra leva em conta a historicidade do livro e vale-se das
regras gerais de hermenêutica para criar as pontes entre o texto bíblico, seu tempo e
os leitores atuais.

77
EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p.13
78
Idem, p. 34


38
A preocupação com a boa hermenêutica reflete-se também na
identificação da mensagem do autor original afinal, como ela mesma diz, o tema de
Rute “...tem a ver com a ação de Deus durante o período dos juízes”.
79
Com esta
frase, Every-Clayton mostra considerar não somente o contexto histórico, mas a linha
mestra de pensamento que o fundo histórico transmitiu ao leitor original e transmite
a todos nós hoje.
Quanto ao estudo da língua original, destacamos na obra de Every-
Clayton duas situações em que se torna evidente o estudo da língua hebraica. A
primeira diz respeito à ligação da estrutura literária da introdução à do epílogo do
livro de Rute. Every-Clayton comenta que “... esses versículos não somente levantam
questões angustiantes; eles abrem um cenário maior. Suas setenta e uma palavras
no hebraico são paralelas às setenta e uma palavras da narrativa final do livro (4.13-
17). Comparando estas duas passagens percebemos um paralelismo ...”
80
.
A segunda situação é o uso da frase em Rute 1.6 “...o SENHOR tinha
visitado ...” (grifo pessoal), que ocorre em textos onde que existe uma declaração
clara do poder de Deus. Ela ilustra isso com duas passagens. A primeira, Gênesis
21.1, onde “O Senhor foi gracioso [hebr. Visitou] a Sara, como tinha dito, e fez por

79
EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p 11.
80
Idem, p. 17


39
ela o que havia prometido”, exemplifica o aspecto individual. A segunda, Êxodo 2.24
quando Deus diz “... vos tenho visitado”
81
, exemplifica o aspecto nacional.
Como exemplo do bom trabalho hermenêutico, ressalta-se o capítulo
três da obra de Every-Clayton, em que ela discorre sobre a trama de Noemi e Rute
para declarar a Boaz que este era resgatador. A autora começa explicando toda a
orientação que Noemi dá a Rute, desde como se aprontar para o encontro como
também o que fazer durante o encontro:
Tem-se notado a semelhança entre as situações de Noemi quanto
preparação de Rute com a preparação da noiva para o casamento naqueles
dias. Mas as providências recomendadas não se limitavam necessariamente
ao dia do casamento (apesar da ênfase nisso em Ez 16.8-13) e nem
tampouco são, por si só, sinais de promiscuidade ou imoralidade.
82

Every-Clayton procura demonstrar logo no inicio de seu comentário
sobre este texto as intenções de Noemi e Rute, valendo-se de como Rute é tratada
como uma mulher virtuosa
83
. Mais adiante, diz que “Certamente, porém, justificar
promiscuidade ou prostituição a partir deste texto é não conseguir captar o que ele
pretende. E a menção explícita ao início do relacionamento sexual entre os dois só
[aparece] em 4.13 ...”
84
.

81
EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p. 18
82
Idem, p. 52
83
Já explicado no capítulo três deste trabalho.
84
EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p. 53


40
4.4. Influência da posição hermenêutico-teológico na
abordagem exegética
Ao longo de todo o comentário de Every-Clayton, podemos observar
que o trabalho de situar o livro dentro de seu contexto, bem como a busca da
interpretação correta pelo uso da língua original e a pesquisa nos antigos interpretes,
fazem com que a obra tenha um precioso valor tanto interpretativo como de
aplicação atual.
O estudo da genealogia no capítulo quatro é um exemplo de como
seu estudo hermenêutico influencia sua percepção teológica. Em lugar de uma
contextualização histórica atual, a autora busca um entendimento focado na época
da narrativa. Falando sobre as bênçãos pronunciadas pelas testemunhas do
casamento (Rt 4.11-12), ela escreve: “Como estas humildes testemunhas do
casamento conheciam bem o Antigo Testamento, sabendo aplicá-lo à situação
presente!”.
85

Em contraste com Carlos Mesters, cuja abordagem é fruto de um
sistema ideológico-político, e com os autores que veremos a seguir, cujas
abordagens são frutos de uma leitura interior e de sua posição escatológica, Every-
Clayton defende a percepção histórica conservadora. Nas suas próprias palavras:
Essa percepção histórica não deixa de ser uma percepção teológica pois
esses versículos insistem na continuidade da revelação de Deus. O livro de
Rute não é uma mera história bonita, de uma pobre estrangeira que

85
EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p. 76.


41
encontrou seu príncipe encantado. Nem tampouco é uma simples parábola
ensinando acerca de Deus e Seu amor e cuidado por Seu povo, e nem ainda
um tratado político ou polêmico. O livro é, acima de tudo, o relato da ação
salvífica do Deus que intervêm na história humana fazendo convergir vidas
sim, mas, o que é mais importante, fazendo convergir em vidas Seu próprio
propósito último, a salvação. O livro não é uma mera dramatização dessa
salvação – é o próprio registro dela.
86

Ao descobrir por meio da exegese o sentido original do texto, torna-
se possível uma correta hermenêutica e uma aplicação relevante. Visto que para
Every-Clayton a ação de Deus permeia todos os acontecimentos narrados no livro e
constitui-se no próprio tema do livro, ela conduz o leitor a olhar suas situações à luz
da perspectiva divina, e não da contextualização histórica atual.

86
EVERY-CLAYTON, Joyce. Op. Cit. p. 76


42
5. ABORDAGEM DEVOCIONAL
Entende-se aqui por abordagem devocional a dedicação ao estudo
da Palavra de Deus com a preocupação de ser aplicativo primeiramente a si e depois
aos seus leitores. A abordagem devocional tem sido muito mal utilizada e entendida,
conforme nos diz Jay Adams:
Quando as pessoas mencionam um estudo devocional da Bíblia, não sei o
que estão querendo dizer. Receio que freqüentemente queiram dizer: ‘Vou
fechar minha mente para aquilo que a passagem possa significar ou que
todos os comentários possam me ajudar a entender. Vou me limitar a
permitir que as palavras penetrem lentamente em meu ser, e então filtrar
algo que possa ser útil para mim. Seja ou não aquilo que Deus tencionava
de fato dizer, de alguma maneira me fará bem.(grifo próprio)
87

5.1. Ricardo Gondim Rodrigues
Ricardo Gondim Rodrigues é formado em administração de
empresas. Estudou teologia no Genesis Training Center em Santa Rosa, Califórnia.
Pastoreou a Igreja Evangélica Assembléia de Deus Betesda em Fortaleza de 1982 a
1991. Atualmente, pastoreia a Igreja Betesda em São Paulo e é também presidente
nacional da Assembléia de Deus Betesda e presidente do Instituto Cristão de Estudos
Contemporâneos. É evangelista, conferencista e escritor.

87
ADAMS, Jay E. A interpretação da Bíblia e o aconselhamento. In Coletâneas de aconselhamento
bíblico. v.2 Atibaia: SBPV, 2000. p. 9.


43
Ricardo Gondim tem adotado uma posição hermenêutico-teológica
que é criticada por vários teólogos brasileiros, a teologia relacional, que considera a
concepção tradicional de Deus como inadequada. De acordo com Augustus
Nicodemus, seus pontos principais são:
1. O atributo mais importante de Deus é o amor. Todos os demais estão
subordinados a este. Isto significa que Deus é sensível e se comove com os
dramas de suas criaturas.
2. Deus não é soberano. Só pode haver real relacionamento entre Deus e
suas criaturas se estas tiverem, de fato, capacidade e liberdade para
cooperarem ou contrariarem os desígnios últimos de Deus. Deus abriu mão
de sua soberania para que isto ocorresse. Portanto, ele é incapaz de realizar
tudo o que deseja, como impedir tragédias e erradicar o mal. Contudo, ele
acaba se adequando às decisões humanas e, ao final, vai obter seus
objetivos eternos, pois redesenha a história de acordo com estas decisões.
3. Deus ignora o futuro, pois ele vive no tempo, e não fora dele. Ele aprende
com o passar do tempo. O futuro é determinado pela combinação do que
Deus e suas criaturas decidem fazer. Neste sentido, o futuro inexiste, pois
os seres humanos são absolutamente livres para decidir o que quiserem e
Deus não sabe antecipadamente que decisão uma determinada pessoa
haverá de tomar num determinado momento.
4. Deus se arrisca. Ao criar seres racionais livres, Deus estava se arriscando,
pois não sabia qual seria a decisão dos anjos e de Adão e Eva. E continua a
se arriscar diariamente. Deus corre riscos porque ama suas criaturas,
respeita a liberdade delas e deseja relacionar-se com elas de forma
significativa.
5. Deus é vulnerável. Ele é passível de sofrimento e de erros em seus
conselhos e orientações. Em seu relacionamento com o homem, seus planos
podem ser frustrados. Ele se frustra e expressa esta frustração quando os
seres humanos não fazem o que ele gostaria.
6. Deus muda. Ele é imutável apenas em sua essência, mas muda de planos
e até mesmo se arrepende de decisões tomadas. Ele muda de acordo com
as decisões de suas criaturas, ao reagir a suas próprias decisões. Os textos
bíblicos que falam do arrependimento de Deus não devem ser interpretados
de forma figurada. Eles expressam o que realmente acontece com Deus.
88

Desde a década de noventa, Gondim vem sendo criticado por sua
posição teológica, embora ele tenha se posicionado mais abertamente nos últimos

88
http://www.teologiabrasileira.com.br/Materia.asp?MateriaID=140, acessado em out/2008.


44
anos. Talvez seu texto mais criticado seja Quem Deus ouviu primeiro?
89
, em que ele
defende os pontos acima relacionados que caracterizam a teologia relacional.
Sua obra analisada é Creia na Possibilidade de Vitória, publicado pela
editora Abba em 1995.
5.2. Panorama da obra
Ricardo Gondim procura no livro de Rute “... princípios norteadores
para o homem enfrentar adversidades e reverter situações que, aparentemente,
arrasariam qualquer vida. A despeito de qualquer dificuldade, o livro de Rute ensina
que, com a ajuda de Deus, o homem pode ser vitorioso”.
90
Antes de iniciar as
aplicações do texto, ele apresenta quatro princípios gerais: (1) Quando a sua visão
do todo estiver pessimista, tire os olhos do macro e ponha-os no micro; (2) A vida
das mulheres retratadas em Rute mostra a possibilidade do amor; (3) Deus é sábio,
poderoso e bom o suficiente para transformar os desastres de nosso viver em vitória,
e (4) Podemos viver, não apenas sobreviver, mesmo nas circunstancias mais
adversas
91
.

89
O texto pode ser lido na íntegra em HTTP://www.ricardogondim.com.br, acessado em out/2008.
Um exemplo de crítica foi feita por Eros Pasquini e pode ser lida na íntegra no endereço
http://www.monergismo.com/textos/sofrimento/tsunami_gondim_eros.htm#1n, acessado em
out/2008.
90
RODRIGUES, Ricardo G. Creia na possibilidade da vitória: o que o livro de Rute ensina sobre o
sucesso. São Paulo: Abba, 1995. p. 5.
91
Idem, p. 7-11.


45
Ricardo Gondim situa o livro no período dos juízes de Israel, um
período de anarquia, onde não havia rei. Ele destaca corretamente que a terra era
constantemente invadida e os povos vizinhos escravizavam, roubavam e destruíam
os israelitas. Os juízes não conseguiam congregar a nação e formar um governo de
união. Como povo destruído e sem líder, cada um fazia o que parecia correto aos
próprios olhos. Num quadro caótico como o descrito acima, Rute surge como uma
espécie de “... refrigério, de sopro suave, de calma e bonança, no meio de um delírio
de tempestade”.
92

Os capítulos da obra não seguem a ordem de divisão do livro de
Rute, mas decorrem do desejo de Ricardo Gondim salientar uma ou outra lição em
um determinado trecho do texto bíblico. O autor subdivide cada capítulo de sua obra
em princípios práticos, com frases curtas de fácil memorização. Ponto positivo é que
a linguagem é clara e prática, com um português de fácil entendimento para
qualquer público.
O terceiro capítulo de sua obra, que recebe o título do livro, resume
todo seu trabalho:
Uma maneira de sintetizar o livro de Rute é apresentá-lo como a história de
uma família que recomeçou das cinzas, de alguém que acreditou na
possibilidade de reconstruir, de retornar a vida ... Como Rute retoma a
caminhada, a partir dos pedaços, desponta como grande lição desta crônica
bíblica.
93


92
RODRIGUES, Ricardo G. Op. Cit. p. 6
93
Idem, p. 35-36.


46
Aparentemente, a proposta de Ricardo Gondim é ilustrar a novela da
vida a partir da novela de Rute. Não negamos que a história de Rute revela uma
reviravolta na vida pessoal e familiar das personagens, uma caminhada pelos
problemas comuns à época da narrativa e à vida contemporânea. O que falta na
síntese de Gondim é a percepção teológica da atuação soberana de Deus intervindo
em toda a história pessoal e nacional narrada e a resposta de fé dos personagens a
esse Deus que expressa sua ·:· ·:· ·:· ·:· (hesed) e nos chama a expressá-la em nossos
relacionamentos.
5.3. Identificação e validação da posição hermenêutico-
teológica do autor.
Embora Ricardo Gondim situe o livro em seu contexto histórico, a
base de seus comentários não leva em conta nem a historicidade do livro nem o
estudo da língua original. Os versículos do livro de Rute são inseridos no comentário
de forma ilustrativa e não como base de desenvolvimento lógico para uma ponte
hermenêutica entre os acontecimentos narrados e a vida cotidiana do leitor
contemporâneo.
Um exemplo do que foi dito acima é o capitulo quatro: Semeando e
colhendo bênçãos. O texto de Rute 2.8-23 é transcrito como introdução. Após a
transcrição, Ricardo Gondim começa a contar três experiências pessoais: a primeira
sua e de sua família, a segunda de um seminarista amigo seu e a terceira do pastor
Ottis Skinner. Os testemunhos pessoais são adequados, mas o texto bíblico não é


47
trabalhado em momento algum. Não há uma exposição da Bíblia, mas apenas quatro
ilustrações, sendo que a primeira é o próprio texto bíblico. Conforme já dito, o livro
bíblico torna-se uma novela que ilustra a novela da vida. Após os três testemunhos,
Ricardo Gondim desenvolve a Lei da semeadura e da colheita, fazendo uma
paráfrase às palavras de Boaz a Rute no verso onze: “Tu plantaste, está na hora de
colher, Rute”.
94
Isso é tudo quanto podemos encontrar de comentário sobre o texto
do livro de Rute.
Ricardo Gondim levanta uma questão que abordaremos no capítulo
seguinte deste trabalho: a questão da tipologia no livro de Rute. Para ele “Boaz é tão
extraordinário no Antigo Testamento que, todos concordam que Boaz é um símbolo
do Antigo Testamento, da pessoa de Jesus Cristo.”
95

Conforme feito nas duas abordagens anteriores, o texto escolhido
para uma analise da hermenêutica é o capítulo três de Rute, a trama de Noemi e
Rute para anunciar a Boaz que ele é o resgatador que as duas procuram. Ricardo
Gondim trata desse texto no capítulo cinco de sua obra: Como ser extraordinário.
Inicialmente, ele conta duas histórias e depois comenta o fato de que Boaz era um
homem “... cujo exemplo de vida, cujo testemunho de história, nos mostra essa
qualidade [de alguém cujo o mundo não é digno conf. Hb 11.38] de gente”.
96

Ricardo Gondim passa então a explicar o que faz de Boaz uma pessoa extraordinária.

94
RODRIGUES, Ricardo G. Op. Cit. p. 50
95
Idem, p. 63.
96
Idem, Ibid.


48
Alguns questionamentos naturais do texto são sanados, como o ato da noite na eira
e a vindicação da integridade. Porém, não é vindicada a integridade de Rute, mas a
de Boaz. Segundo Gondim, Boaz teria uma “... boa desculpa para ele passar as mãos
nas pernas de Rute. Que boa desculpa para se aproveitar dela sexualmente. Bebeu
vinho, que álibi poderoso! Mas ele age com integridade com aquela mulher, dentro
de sua própria casa”.
97

No trabalho de Gondim, não há referências ao estudo da língua
original nem tampouco o contexto histórico é levantado como significativo para os
comentários práticos. Um exemplo disso é o fato de Gondim provar a integridade de
Boaz ignorando, na situação que acabamos de citar, que a eira era um espaço
público e não a casa de Boaz. Ao longo de todo o livro, podemos perceber apenas a
tendência de usar as narrativas de Rute para estabelecer uma ponte com a vida do
leitor.
5.4. Influência da posição hermenêutico-teológico na
abordagem devocional.
Por usar o livro de Rute para ilustrar situações e promover emoções
nos leitores de sua obra, Ricardo Gondim não revela uma posição hermenêutico-
teológica clara. Podemos perceber em sua obra o reflexo de suas palavras:
Redirecionei minha leitura bíblica. Mais do que saber os detalhes exegéticos
ou técnicos, ansiei que a Palavra me levasse a uma relação mais íntima com

97
RODRIGUES, Ricardo G. Op. Cit. p. 64.


49
Deus. Reli a Bíblia de capa a capa, procurando o coração paterno de Deus.
Dialoguei com pessoas que tratam da Espiritualidade Clássica. Recompus
minha vida devocional. Aprendi sobre oração contemplativa e redescobri a
meditação bíblica. Devorei alguns clássicos como "A Imitação de Cristo" de
Tomás de Kempis, "A Volta do Filho Pródigo" de Henry Nowen, "A Montanha
dos Sete Patamares" de Thomas Merton e o "Schabat" de Abraham Joshua
Heschel. Eles e outros se tornaram meus mentores nessa nova busca
interior.(grifo pessoal)
98

Quero tão somente que meu texto destile verdade, mesmo confusa, infantil,
tosca, mas que espelhe a integridade de minha alma

(grifo pessoal)
99

No que se propõe a ser – um comentário devocional que procura
mostrar, a partir de Rute, princípios para uma vida de vitória – o autor não distorce o
texto, mas também não se dedica ao trabalho hermenêutico.


98
http://palavrasdevida.wordpress.com/2006/02/25/quero-ser-mais-humano/, acessado em out/2008.
99

HTTP://ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=65&sg=0&form_search=&pg=1&id=1
920, acessado em out/2008.


50
6. ABORDAGEM TIPOLÓGICA
Entende-se aqui por Abordagem Tipológica o estudo dos tipos e
antítipos estabelecendo ligação entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento. É
evidente que alguns textos bíblicos estabelecem legitimamente este tipo de relação,
mas os teólogos que enfatizam a abordagem tipológica costumam aplicá-la de
maneira indiscriminada. Zuck nos dá um exemplo dos absurdos feitos por aqueles
que valem-se dessa abordagem, mostrando como são interpretadas as dobradiças
das portas do Templo de Salomão, as quais supostamente “... representam as duas
naturezas de Cristo”.
100

O estudo tipológico é um princípio hermenêutico válido e essencial
para entendermos algumas passagens principalmente do Antigo Testamento. Zuck
nos diz que o estudo tipológico “... nos permite enxergar o traçado divino da história,
pelo fato de ele [Deus] escolher pessoas, acontecimentos e elementos de Israel para
retratar e predizer aspectos de Cristo e seu relacionamento com os crentes de
hoje”.
101
O estudo da tipologia revela sombras deixadas no Antigo Testamento que
foram reveladas de forma clara no Novo Testamento. Um exemplo disso são as

100
ZUCK, Roy B. Op. Cit. p. 197
101
Idem, p. 212


51
palavras de Jesus em João 3.14-15 “... do modo por que Moisés levantou a serpente
no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o
que nele crê tenha a vida eterna”.
A hermenêutica adota os seguintes critérios para validar a tipologia:
(1) a semelhança entre o tipo e o antítipo; (2) a realidade histórica – o tipo deve
surgir naturalmente do texto, cf. Hebreus 8.5; (3) a prefiguração, i.e., num tipo
autentico, a correspondência ou semelhança precisa conter o aspecto de predição,
prefiguração do antítipo; (4) elevação, i.e., o antítipo é superior ao tipo; (5) o
planejamento divino, i.e., não são meras analogias, mas são semelhanças planejadas
por Deus, fazendo que com os tipos tenham forte valor apologético; (6) os tipos
devem ser identificados como tais no Novo Testamento.
102

Este último critério é de extrema importância para que não haja
exageros nas interpretações tipológicas. As vários personagens e as situações
narradas no Antigo Testamento devem ser entendidas como tipos se o Novo
Testamento assim o afirmar. Se isso não ocorrer, concordamos em encontrar
semelhanças, mas não podemos afirmar claramente que são tipos.
Existe uma forte tendência em confundir a hermenêutica tipológica
com a alegorização. Contudo, “... a tipologia é a busca de vínculos entre os eventos
históricos, pessoas ou coisas dentro da história da salvação; o alegorismo é a busca

102
ZUCK, Roy B. Op. Cit. p 200-207.


52
de significados secundários e ocultos que sublinham o significado primário e óbvio da
narrativa histórica”.
103

6.1. Norbert Lieth
Norbert Lieth, suíço, é diretor da Chamada da Meia-Noite
Internacional. Suas mensagens têm como tema central a Palavra Profética, ou seja,
as profecias escatológicas do Antigo e Novo Testamentos. Logo após sua conversão,
estudou na Escola Bíblica da Chamada da Meia-Noite no Uruguai, onde ficou até
concluir seus estudos. Por alguns anos, trabalhou como missionário na Bolívia. Mais
tarde, iniciou a divulgação da literatura da missão na Venezuela, onde permaneceu
até 1985. Nesse ano, voltou à Suíça e é o principal preletor nas conferências da
Missão na Europa. É autor de vários livros publicados em alemão, português e
espanhol.
Sua obra analisada é Rute à Luz do Plano de Salvação, publicada
pela editora Chamada da Meia Noite em 2000.
6.2. Panorama da obra
Na obra de Norbert Lieth não há uma introdução ao livro de Rute.
Questões como contexto histórico, língua original ou debates a respeito do texto
bíblico não são sequer enunciadas. Norbert Lieth faz um prefácio onde explica sua

103
VIRKLER, Henry A. Hermenêutica avançada: princípios e processos de interpretação bíblica. São
Paulo: Vida, 1999. p. 142.


53
abordagem nas palavras abaixo, que comentaremos no início do ponto seguinte do
trabalho:
Neste livro interpretei alegoricamente os personagens do livro de Rute e as
circunstâncias em que viveram... A alegoria não leva em conta todos os
aspectos do assunto, mas apresenta pensamentos de forma figurada para
ensinar uma lição ou iluminar uma verdade, ou apenas um aspecto da
verdade. ... o leitor, por sua vez, não deveria perder de vista que uma
aplicação alegórica é simbólica e deve ser entendida como tal. Pois um
símbolo não pode transmitir todas as facetas do original.
104

Após esse prefácio, a obra começa a fazer aquilo a que se propõe:
tratar de forma alegórica o texto bíblico. Para isso, Norbert Lieth divide seu trabalho
em cinco capítulos que tratam os seguintes temas: (1) a dispersão e restauração de
Israel, simbolizados pela família de Elimeleque; (2) a posição do cristianismo nominal
em relação a Israel, simbolizado por Orfa; (3) a eleição da Igreja e sua posição em
relação a Israel, simbolizado por Rute; (4) o arrebatamento, simbolizado pelo
descanso de Noemi, e (5) a vinda de Cristo para restaurar Israel, simbolizado pela
herança de Noemi.
O livro permanece fiel à proposta inicial do autor. Seu pensamento e
desenvolvimento são claros, e são usadas várias fotos ilustrativas para ajudar o leitor
a entrar na cena.

104
LIETH, Norbert. Rute à luz do plano de salvação. Porto Alegre: Chamada da Meia Noite, 2000. p. 7


54
6.3. Identificação e validação da posição hermenêutico-
teológica do autor.
Norbert Lieth anuncia de forma clara sua posição no prefácio que faz
da obra. A sua intenção é criar uma alegoria com os personagens de Rute, usando
da hermenêutica tipológica para alcançar seu objetivo. Sendo assim, o sentido
autoral do texto não é buscado nem são levados em conta os princípios
hermenêuticos como contexto histórico-cultural ou língua original. Usando o princípio
hermenêutico da tipologia, Norbert Lieth chega a conclusões completamente
estranhas ao texto bíblico. Suas aplicações simbólicas, como ele mesmo adverte,
impedem que o livro de Rute seja entendido pelo seu leitor em seu todo. Seu
trabalho não é um comentário, mas uma tentativa de impor sua posição teológica à
história narrada.
Na primeira alegoria, o autor trabalha a saída de Elimeleque e sua
família da terra de Belém para as terras de Moabe. Segundo Norbert Lieth, “Na
pessoa de Elimeleque vemos figuradamente duas situações: (1) a queda e (2) a
dispersão de Israel”.
105
Elimeleque saiu de Belém, a casa do pão, local onde mais
tarde nasceu o pão da vida, Jesus Cristo. O povo judeu rejeitou o pão da vida, que
nasceu em Belém, a casa do pão, e por isso teve fome espiritual. Quanto à dispersão
e sofrimento, ele diz que “esse trecho [saída de Elimeleque de Belém] representa

105
LIETH, Norbert. Op. Cit. p. 11


55
simbolicamente a tragédia e o sofrimento dos judeus na Diáspora (Dispersão)”.
106
Os
judeus andaram errantes por 1900 anos, sem terra, sem pátria, espalhados pelo
mundo.
Elimeleque rejeitou a terra que Deus havia concedido ao Seu povo
quando saiu de Belém para Moabe. Sua decisão foi pessoal, diferente dos judeus na
dispersão, que saíram de sua terra pela atuação de Deus na história. Não faz sentido
a relação que Norbert Lieth faz da saída de Elimeleque com a história vivida pelos
judeus até 1948, quando Israel torna-se novamente um Estado. Essa história foi
vivenciada por toda a nação, diferente de Elimeleque que sai somente com sua
família.
A segunda alegoria baseada na tipologia trabalha a figura de Orfa,
que simboliza o cristianismo nominal. Norbert Lieth diz que “na vida dessas duas
moabitas, Orfa e Rute, o Senhor nos dá simbolicamente uma visão profunda do
Plano de Salvação ... Rute e Orfa são, segundo o meu entendimento, representações
do cristianismo verdadeiro e do falso cristianismo”
107
. Orfa, que segundo Lieth
significa nuca, demonstra a dureza e teimosia dos cristãos que não querem obedecer
a Cristo. Quando Noemi revelou as possíveis dificuldades do caminho e da vida em
Belém, ela deu as costas e voltou para o seu povo e o seu deus. Assim, Orfa

106
LIETH, Norbert. Op. Cit. p. 18.
107
Idem, p 28.


56
simboliza o cristianismo nominal, que constantemente dá as costas a Deus e anda
por caminhos contrários ao cristianismo.
Outra questão levantada por Norbert Lieth na alegoria de Orfa é que
ela só decide deixar Noemi quando esta resolve voltar para Israel. Com isso, o autor
discorre sobre o fato de muitas nações serem contrárias ao plano de Deus para com
Israel, incluindo as nações chamadas cristãs. Segundo o autor, “Grande parte dos
povos considerados cristãos o são nominalmente. Por isso, eles são incapazes de
entender o plano de Deus com Israel”.
108
Mais adiante, ele diz que “da mesma forma
[que Orfa deu as costas para Noemi], poucos cristãos permanecem decididamente
ao lado de Israel desde a fundação do Estado e desde o início do retorno dos judeus
à sua terra, e poucos reconhecem que é tempo de colheita”.
109
Para ter o antítipo no
Novo Testamento, Norbert Lieth usa a história do centurião romano em Lucas 7.1-6.
Segundo ele, esse centurião romano “...atravessou a fronteira, posicionando-se de
maneira positiva em relação a Israel”.
110

Dizer que Orfa é um tipo do cristianismo nominal implica dizer que
ela havia se convertido ao Deus de Israel, o que o texto bíblico não afirma. Norbert
Lieth é confuso em esclarecer se as pessoas que desistem no caminho realmente
tomaram uma decisão ao lado de Deus. Ele diz que Orfa “... representa os muitos
cristãos que só chegam até a fronteira e, no momento do desafio decisivo, desviam-

108
LIETH, Norbert. Op. Cit. p. 31.
109
Idem, p. 33.
110
Idem, p. 35.


57
se e mostram a dureza do seu coração ...”
111
. Se assim for, essas pessoas que Orfa
representa não chegaram a tomar uma decisão, apenas seguiram por certo tempo as
práticas cristãs, não podendo ser chamadas de cristãs.
A terceira alegoria estabelece o contrário de tudo quanto Orfa
simboliza: Rute representa simbolicamente a Igreja verdadeira e os amigos de Israel.
No retorno de Noemi para Israel Rute representou o cristianismo verdadeiro. Com
isso, segundo o autor, “... nós cristãos somos exortados a nos colocarmos ao lado de
Israel e acompanhá-lo abençoando-o. Os verdadeiros cristãos deveriam estar cientes
de que se converteram ao Deus de Israel”.
112
Para Lieth, o cristão verdadeiro deveria
servir a Israel, pois servimos ao Deus de Israel, ou seja, o cristianismo deveria fazer
o mesmo que Rute fez para com Noemi, tornando-se companheiro, deleite,
refrigério, amigo. Ao deixar tudo e ir para Belém com Noemi, Rute pôde encontrar o
resgatador. Segundo Norbert Lieth, o segundo capitulo do livro de Rute, que narra o
encontro com Boaz no campo descreve “... alegoricamente a história da conversão
da Igreja dentre os gentios a Jesus Cristo, seu Salvador”.
113
Rute estava à procura, e
encontrou Boaz. Norbert Lieth diz que esta é a situação de um bom numero de
pessoas que estão em busca de encontrar “...Aquele aos olhos de quem há graça e
benevolência ...”.
114


111
LIETH, Norbert. Op. Cit. p. 29.
112
Idem, p. 43-44.
113
Idem, p. 50.
114
Idem, Ibid.


58
Rute decidiu favoravelmente ao Deus e ao povo de Israel. Sua
decisão de seguir Noemi no caminho para Belém a fez participante do povo e das
bençãos prometidas por Deus a Israel. Não temos base bíblica para dizer que Rute
representa a Igreja. Sua história apenas mostra a benevolência de Deus ao permitir
que pessoas passassem a fazer parte do povo de Israel ao decidirem pela devoção a
Ele, assim como também Raabe citada na genealogia em Rute quatro.
A quarta alegoria diz respeito ao arrebatamento. O primeiro encontro
de Rute com Boaz deu-se no campo em Belém. O segundo encontro acontece no lar
de Boaz, o que faz “uma representação impressionante do arrebatamento da
Igreja”.
115
Norbert Lieth faz um paralelo entre os acontecimentos do capítulo três de
Rute com os acontecimentos do arrebatamento descritos pelo Novo Testamento. Ele
diz que
É profético o que Noemi incute no coração de Rute, pois Noemi simboliza o
povo de Israel que volta para sua terra. Israel também já sabe hoje
intuitivamente, como Noemi sabia, que Boaz (Jesus) é ‘nosso parente’. O
Senhor Jesus é nosso redentor, e Ele também é o futuro redentor de Israel.
Perguntamo-nos: quando a Igreja entrará no descanso eterno? O judeu
Paulo o revelou: por ocasião do arrebatamento.
116

Lieth procura estabelecer correlatos em tudo que é narrado no
terceiro capítulo de Rute: (1) a ordem de Noemi para Rute para banhar-se, ungir-se
e por seu melhor vestido é o lavar através da Palavra de Deus, a unção do óleo do
Espírito Santo e o andar na santificação respectivamente;(2) descer à eira é o

115
LIETH, Norbert. Op. Cit. p. 55.
116
Idem, p. 57.


59
caminho para encontra-se com o Senhor; (3) o encontro de Rute com Boaz à meia-
noite, o que representa um momento específico (cf. Mateus 25.6): “Mas, à meia-
noite, ouviu-se um grito: Eis o noivo! Saí ao seu encontro!”.
Na busca de estabelecer uma relação tipológica, Norbert Lieth
afasta-se totalmente da verdade bíblica, e chega a absurdos. O primeiro encontro
aconteceu na propriedade de Boaz. O segundo, na eira, local onde os grãos de cereal
eram separados e os talos moídos. A eira localizava-se perto da vila, em ponto alto e
aberto. Como a vila de Belém situava-se no topo de uma colina, a eira estava pouco
abaixo dela, o que explica o fato de Rute descer à eira. As melhores condições para
o trabalho na eira, na primavera e no verão, se davam a partir das quatro ou cinco
horas da tarde, quando o vento era favorável — não tão forte, mas suficiente.
Durante a limpeza do cereal, os proprietários alternavam-se no uso da eira
117
, e o
trabalho prosseguia até tarde da noite, sendo comum que os trabalhadores
acampassem na própria eira. Completada a tarefa do dia, tomavam uma refeição e
se deitavam para dormir. O texto, portanto, não diz nada a respeito da casa de Boaz,
como Lieth afirma. Também não há como deduzir que o primeiro encontro
representa a conversão dos gentios e o segundo encontro representa o
arrebatamento ou volta para casa. Uma vez estabelecido isso, invalida-se os
correlatos feitos por Norbert Lieth na seqüencia da narrativa.

117
REED, John W. Ruth. In: WALVOORD, John, ZUCH, Roy B. The Bible knowledge commentary: an
exposition of the Scriptures by Dallas Seminary faculty. Wheaton, Ill. : Victor, 1986. p. 424.


60
A quinta e ultima alegoria refere-se à herança que Noemi recebe, o
filho de Rute. Para Norbert Lieth esse retrato representa o cumprimento da profecia
da vinda de Jesus para restaurar a nação de Israel. Embora a nação de Israel tenha
vivido muito tempo fora de sua terra, ainda tem direito a ela. Nas palavras do autor
“... assim como Noemi não perdeu sua terra por ocasião de sua ida a Moabe, e
quando voltou pôde reivindicar totalmente a sua posse, também os judeus, ao
retornarem de sua dispersão provocada por Deus, têm o direito de posse total de
sua terra”.
118

Reconhecemos que o nascimento de Obede representa a benção de
Deus sobre a nação de Israel, pois da descendência de Obede nasceu o rei Davi e,
mais tarde, Jesus. Jesus voltará e restaurará a nação de Israel. Isto são fatos e não
alegorias. Norbert Lieth, porém, não trata o texto como uma benção de Deus para a
nação daquele tempo, mas como uma visão escatológica.
6.4. Influência das pressuposições na abordagem tipológica
Norbert Lieth entende todo o livro de Rute como uma novela
alegórica para ilustrar o plano de Deus referente à salvação do homem. Sua teologia
com ênfase nas profecias escatológicas permeia todo o livro. Para apresentar sua
alegoria e sua posição hermenêutico-teológica, o autor vale-se do estudo tipológico,

118
LIETH, Norbert. Op. Cit. p. 69.


61
que é um princípio hermenêutico. Porém, como pudemos observar em sua obra, em
nenhum dos usos da hermenêutica tipológica foram respeitadas as devidas regras.
A falta de um estudo sobre a intenção autoral para o livro de Rute e
a ausência de outras importantes regras da hermenêutica como contexto histórico-
cultural e uso da língua original para um comentário de um livro bíblico, fez da obra
de Norbert Lieth um conto em que o autor manipulou todas as situações e questões
do livro para seu propósito específico. O comentário perde a validade teológica por
não revelar as ações e o cuidado de Deus na história do Seu Povo; perde seu valor
exegético por não levar em conta a língua original e os princípios hermenêuticos para
uma narrativa bíblica e perde seu valor hermenêutico por não dar ao leitor atual as
lições e aplicações que ele poderia aprender com o livro de Rute.


62
7. CONCLUSÃO
Este trabalho se propôs a analisar quatro comentários bíblicos sobre
o livro de Rute, representantes de quatro diferentes abordagens. Seu método de
avaliação foi verificar o uso de princípios hermenêuticos e a influência da posição
teológica de cada autor sobre sua obra, para que o leitor possa desenvolver um
senso crítico − primeiramente, para avaliar seu próprio estudo da Palavra, mas
também para avaliar os comentários disponíveis no mercado editorial evangélico
nacional e internacional.
Verificamos que em todos os comentários houve uma preocupação
em promover uma mudança na vida do leitor. No livro de Mesters, destacamos a
preocupação com que os leitores tenham esperança de uma condição melhor de
vida; na obra de Every-Clayton, destacamos a preocupação com os relacionamentos
com Deus e com outras pessoas mesmo nos momentos de grande dificuldade; no
livro de Ricardo Gondim, a preocupação é com as decisões do hoje, que apontam
para o sucesso do amanhã; e no livro de Norbert Lieth, destacamos a preocupação
com que o leitor tenha um encontro verdadeiro com Deus, através do plano de Deus
para a salvação do homem. Todos os autores propõem-se a anunciar verdades a
respeito da Palavra de Deus e a aplica-las à vida atual.


63
O propósito nobre de edificar e encorajar os leitores, embora não
seja totalmente frustrado, corre o risco de ficar manchado quando o texto bíblico não
é interpretado e aplicado corretamente. Para cada comentário, observarmos a
influência da posição hermenêutico-teológica do autor sobre sua obra. Na
abordagem pragmática, vimos o perigo que o interprete das Escrituras corre ao
aproximar-se do texto bíblico a partir de sua realidade pessoal, sem dar valor ao
contexto histórico-cultural do texto. Também ficou evidente a falácia de impor ao
texto um discurso a que ele não se propõe, atribuindo-lhe uma mensagem que ele
não tem nem transmite. Carlos Mesters transformou uma belíssima história num grito
de reivindicações políticas, invalidando a atuação do Deus da história na história de
Noemi e Rute.
Ao avaliar a abordagem exegética, foi verificado o proveito da
preocupação do interprete bíblico com os princípios hermenêuticos. As aplicações e
comentários fluem do texto, e fazem com que suas aplicações sejam úteis e
relevantes para a atualidade. Em contraste, na obra escolhida para reprsentar a
abordagem devocional, pôde ser observada a interpretação deficiente do texto
bíblico para que as idéias do autor da obra pudessem ser transmitidas. Não foi
levado em conta nenhum tipo de trabalho hermenêutico nem foi considerada uma
teologia, apenas idéias e pensamentos próprios foram transmitidos.
Na abordagem tipológica, vimos o perigo de usar levianamente um
princípio hermenêutico como a tipologia. Quando usado de forma indiscriminada, ele
leva o autor a afirmar aquilo que o texto não diz. O comentário fica desprovido de


64
qualquer embasamento textual. A alegorização é inevitável, dando ao livro a linha de
pensamento desejada pelo autor.
Ao longo da execução do trabalho, foi possível aprender a
importância de um estudo profundo da Bíblia e de uma leitura critica de comentários,
avaliando os argumentos à luz do texto bíblico. Lembramos de Lucas, falando a
respeito dos bereanos que “... eram mais nobres que os de Tessalônica; pois
receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para
ver se as coisas eram, de fato, assim” (At 17.11). Não há duvidas de que um estudo
minucioso das Escrituras para a exposição, para devocionais, para o discipulado e
toda sorte de ministérios da Igreja é essencial para aquele que deseja alimentar seu
rebanho com a verdade da Palavra de Deus. A Palavra é inspirada e útil para todas
as áreas da vida.
O desejo final é que todos os que leram este trabalho possam
debruçar-se diante da Palavra com afinco, analisando todo o texto para tirar dele
lições pessoais preciosas e lições para aqueles a quem ministram. A despeito da
fama e do prestígio do autor de um comentário bíblico, que cada leitor possa ater-se
ao texto da Palavra como única fonte de verdade oriunda de Deus.


65
8. BIBLIOGRAFIA
ALFANO, Maria Cecilia B. Rute. Atibaia: Seminário Bíblico Palavra da Vida, 1999.
(Apostila preparada para a disciplina Rute)
ARCHER, Gleason L. Jr. Merece confiança o Antigo Testamento: panorama e
introdução. São Paulo: Vida Nova, 1974.
ATKINSON, David. A mensagem de Rute. São Paulo: ABU, 1991.
CHAMPLIM, R.D. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. São
Paulo: Hagnos, 2001.
COHEN, A. The five Megilloth. London: Whitefriars Press, 1977.
CONN, Harvey; STURZ, Richard. Teologia da libertação. São Paulo: Mundo Cristão,
1984.
DAVIDSON, F. O novo comentário da Bíblia v.1. São Paulo: Vida Nova, 1963.
EVERY-CLAYTON, Joyce W. Rute. Curitiba: Encontrão, 1993.
HARRIS, R. Laird; ARCHER, Gleason L. Jr.; WALTKE, Bruce K. Dicionário internacional
de teologia do Antigo Testamento. Tradução: Márcio Loureiro Redondo; Luiz A.
T. Sayão; Carlos Osvaldo Cardoso Pinto. São Paulo: Vida Nova, 1998.
HEIJKOOP, H. L. Estudos sobre o livro de Rute. São Paulo: Depósito de Literatura
Cristã, 2007.
HO-KIM, Jang. Hebraico instrumental. Atibaia: Seminário Bíblico Palavra da Vida,
2008. (Apostila preparada para a disciplina Hebraico Instrumental)
HOUSE, Paul R. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 2005.
LIETH, Norbert. Rute à luz do plano de salvação. Porto Alegre: Chamada da Meia
Noite, 2000.
LOPES, Mercedes. O livro de Rute. Petrópolis: VOZES - Revista de interpretação
Bíblica Latino-Americana – nº 52 – ano 2005/3.
MERRILL, Eugene H. História de Israel no Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD,
2006
MESTERS, Carlos. Rute. Petrópolis: Vozes, 1986.
MORRIS, Leon. Rute: introdução e comentário. São Paulo: Mundo Cristão, 1986.


66
PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e desenvolvimento no Antigo Testamento:
estruturas e mensagens dos livros do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos,
2006.
PRATT, Richard L. Jr. Ele nos deu histórias: um guia completo para a interpretação
de histórias do Antigo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
REED, John W. Ruth. In: WALVOORD, John, ZUCH, Roy B. The Bible knowledge
commentary: an exposition of the Scriptures by Dallas Seminary faculty.
Wheaton, Ill. : Victor, 1986.
REESE, Edward. The Reese chronological Bible. Minneapolis: Bethany House
Publishers, 1980.
RODRIGUES, Ricardo G. Creia na possibilidade de vitória: o que o livro de Rute
ensina sobre o sucesso. São Paulo: ABBA Press, 1995.
SASSON, Jack M. Rute in: ALTER, R. e KERMODE, F. Guia literário da Bíblia. São
Paulo: UNESP, 1997
SCHREINER, Josef. Palavra e mensagem do Antigo Testamento. 2. ed. São Paulo:
Teológica, 2004.
VIRKLER, Henry A. Hermenêutica avançada: princípios e processos de interpretação
bíblica. São Paulo: Vida, 1999.
ZUCK, Roy B. A interpretação bíblica: meios de descobrir a verdade da Bíblia. São
Paulo: Vida Nova, 1994.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->