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Aula 1

Seminário avançado
mediação pedagógica
Lílian Anna Wachowicz

Curso de Especialização para Formação de Docentes


e de Orientadores Acadêmicos em EaD
www.grupouninter.com.br

Diretor-Presidente Wilson Picler

Coordenação Geral e autoria do projeto Onilza Borges Martins

Coordenação Geral do Projeto Gráfico Juliana Cristina Faggion Bergmann

Autoria Lílian Anna Wachowicz

Análise Pedagógica Onilza Borges Martins

Projeto Gráfico Marcelo Weige Camargo


Mauro do Couto Costa Filho
Elaine Yanagui ak

Diagramação Elaine Yanagui ak

Capa Marcelo Weige Camargo


Elaine Yanagui

Revisão Editorial Juliana Cristina Faggion Bergmann

Dezembro/2009
Apresentação do professor

Titulação:
Pós-doutorado (1991):
Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), Espanha.

Doutorado em Educação (1981):


Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Brasil.

Mestrado em Educação (1977):


Universidade Federal do Paraná (UFPR), Brasil.

Principais experiências profissionais em educação:


Magistério no Ensino Médio — Curso de habilitação para o magistério/Instituto de Educação

do Paraná — 18 anos

Magistério nos cursos de Pedagogia e Licenciatura — UFPR — 12 anos

Magistério no Mestrado em Educação — UFPR — 12 anos

Magistério no Mestrado em Educação — PUCPR — 12 anos

Magistério no Ccrso de Pedagogia — PUCPR — 2 anos

Magistério no Mestrado em Educação — UEPG — 6 anos

Diretora superintendente da FUNDEPAR — 2 anos

Diretora do Centro de Estudos e Pesquisas Educacionais da SEEDPR

Membro titular do Conselho Estadual de Educação do Paraná, terceiro mandato em vigência.

Livros publicados:
O método dialético na didática. 4. ed. Campinas: Editora Papirus, 2001.

A relação professor/Estado. São Paulo: Editora Cortez, 1984.

A interdisciplinaridade na universidade (Org.) Curitiba: Editora Champagnat, 1998.

Pedagogia mediadora: a reforma de uma ilusão. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2009.

Plano de ensino

Curso de especialização para formação de docentes e de orientadores acadêmicos em EaD

Disciplina: Seminário avançado mediação pedagógica

Ementa: Concepção de mediação pedagógica nos processos educativos. A educação a distância e os proces-

sos interdependentes e interativos na (re)construção do conhecimento.

Docente:
Lílian Anna Wachowicz
Aula 1

Titulo:
Concepção de mediação pedagógica nos processos educativos.

Meta da Aula 1:

Essa aula se propõe a introduzir, no pensamento dos alunos, os conceitos de mediação pedagógica

no contexto da cultura escolar e da sociedade na qual a escola é mantida como instituição. Para

isso, utiliza o método histórico e a lógica dialética.

Objetivos:

Ao final da aula, os alunos serão capazes de apresentar o conceito de mediação pedagógica e

os principais elementos que constituem esse processo, a saber: diversidade, conhecimento,

complexidade, aprendizagem e desenvolvimento da inteligência.

Referências bibliográficas

MEIRIEU, P. (1998) Aprender... sim, mas como? 7. ed. Porto Alegre: Artes Médicas.

POZO, J. I. (1998) Teorias cognitivas de aprendizagem. 3. ed. Porto Alegre: Artes Médicas.

SOUZA, A. M. M., DEPRESBITERIS, L.; MACHADO, O. T. T. A mediação como princípio educacional.

Bases teóricas das abordagens de REUVEN FEUERSTEIN. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2004.

Leitura complementar da aula 1:

WACHOWICZ, Lílian Anna. Pedagogia mediadora – a reforma de uma ilusão. Petrópolis, RJ: Vozes,

2009.

Atividade Inicial:

Leitura de todo o texto por duas pessoas, na forma de diálogo. Ou por dois grupos

de pessoas, alternados, como numa espécie de jogral, sem interrupção para a

realização das atividades.

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Índice das seções

Introdução:
O objeto do trabalho do professor é o conhecimento..................................................p. 3

Seção 1:
A diversidade e a cultura....................................................................................p. 5

Seção 2:
A história da escola como instituição social...............................................................p. 7

Seção 3:
O método para entender as contradições na história...................................................p. 9

Seção 4:
A lei do mercado e as escolas brasileiras.................................................................p. 12

Seção 5:
A educação a distância e a mediação pedagógica.......................................................p. 16

Seção 6:
As fontes para o ensino......................................................................................p. 18

Seção 7:
Os instrumentos para a mediação pedagógica...........................................................p. 20

Seção 8:
Uma teoria de aprendizagem fundamentada na mediação.............................................p. 21

Seção 9:
Categorias da teoria de aprendizagem....................................................................p. 23

Seção 10:
O desenvolvimento humano é social.......................................................................p. 24

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Introdução:
O objeto do trabalho do professor é o conhecimento

A pedagogia trabalha com a aprendizagem e a mediação

pedagógica trabalha com a aprendizagem mediada.

O que é aprendizagem mediada?


É a conquista do conhecimento realizada pelas pessoas individualmente, ou seja, cada

pessoa aprende por si mesma.

Quem faz a mediação, o professor ou o aluno?


Mediado é quem aprende ou quem realiza o processo da mediação. Mediador é quem

promove a mediação.

Então o aluno é o mediado e o professor o mediador?


Pode ser. Mas é preciso lembrar que o professor também aprende enquanto ensina.

Já ouvi dizer que a melhor maneira de aprender é ensinar.


É bem isso, porque, para ensinar, é preciso compreender os nexos internos do conteúdo

que se está aprendendo.

O que são nexos internos?


São as conexões que existem entre os conhecimentos, em todas as áreas do conteúdo da

cultura. Só quando você consegue compreender como se relacionam os conhecimentos

de determinado tema é que aprende aquele conteúdo.

Por exemplo?
A chuva. Por que chove? É um fenômeno natural, mas existe uma explicação teórica

que, em si mesma, não faz sentido. Só faz sentido quando relacionamos a explicação

com suas várias causas.

Então a explicação é a resposta a um porquê?


Sim, mas nunca existe somente uma reposta. Sempre são várias e é por isso que a

aprendizagem não é simples. A aprendizagem é complexa não só porque trabalha com

várias respostas, mas também porque se passa na mente das pessoas.

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Por exemplo?
No mesmo caso, da chuva, não basta explicar o fenômeno da condensação do vapor. É

melhor começar pelo que está acontecendo no mundo: chuvas torrenciais em algumas

regiões, secas em outras, enchentes, frio ou calor intenso.

As notícias que são transmitidas pela televisão...


Sim, a televisão dá a notícia dos fatos. Mas as explicações para esses fatos só a escola

pode dar, porque depende do entendimento.

E não dá muito trabalho entender o porquê?


Dá muito trabalho para a inteligência das pessoas. Seria mais fácil fazer como os povos

antigos faziam. Eles diziam que os deuses estavam com raiva das pessoas e as castigavam

com esses fenômenos naturais...

É verdade. Mas isso foi há mais de mil anos. Só que até hoje há pessoas
que pensam assim.
É o que os psicanalistas chamam de pensamento mágico. É muito mais fácil do que tentar

compreender as explicações da ciência... Então existem muitos tipos de pensamento.

Como? Já sei: mais de cinco bilhões de pessoas no planeta não podem


pensar todas do mesmo jeito.
Isso mesmo. E é por esse e por outros motivos que as culturas de cada povo são

diferentes.

Atividade 1:

Escreva um exemplo de conhecimento explicado pelos seus nexos internos.

Pode ser qualquer conhecimento sobre o qual você já tenha domínio. Por

exemplo: por que é preciso deixar o feijão de molho antes de cozinhar?

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Seção 1:
A diversidade e a cultura

Há cinco bilhões de pessoas no planeta, vivendo em cinco continentes diferentes. Cada povo

tem sua maneira de ser, a que chamamos cultura, e as culturas de cada povo são determinantes

do sistema de educação. É uma das manifestações da chamada diversidade.

O que é diversidade?
É a capacidade de ser diferente, inerente a todas as pessoas e também a todas as

culturas, porque estas são compostas de pessoas que vivem em sociedade. Ao longo dos

anos e séculos, o significado da vida em cada sociedade é construído por pessoas que

têm uma identidade comum em cada local.

Também é por isso que a ciência mãe de todas as outras é a história?


Veja o exemplo da escola. A escola, tal como a conhecemos hoje, tem uma longa

história, que foi preparada por acontecimentos anteriores a ela. O primeiro desses

acontecimentos foram as invenções e as descobertas marítimas do século XV no

Ocidente. Com elas, surgiu uma nova classe social, a dos comerciantes, que viviam

da atividade de trazer do Oriente e vender mercadorias necessárias e não existentes

nas terras conhecidas, como as especiarias. Os povos orientais conheciam muito mais

do que os do Ocidente. Das Índias vieram as especiarias e os tecidos, da China veio a

pólvora, e assim por diante.

Espere, espere! Você já me deu três acontecimentos importantes: as


invenções, as descobertas e o aparecimento de uma nova classe social.
Vamos mais devagar?
Na verdade, foram três fatos, mas estou apresentando os dois primeiros, os

descobrimentos e as invenções, como um só, porque os efeitos desses dois fatos é que

produziram um grande acontecimento no século XV: a possibilidade de expandir o mundo

conhecido para outros continentes, para um espaço muito maior. E a nova classe social

levou pelo menos dois séculos para consolidar-se e fortalecer-se. Surgiram os burgos

como núcleos de população junto às aldeias existentes, principalmente nos territórios

que hoje correspondem à França, à Inglaterra, à Alemanha, à Espanha e a Portugal. O

mundo inteiro foi ficando diferente. Até então, a organização social era extremamente

fechada em duas classes das quais não se podia sair e às quais se pertencia desde o

nascimento: a nobreza, com os senhores feudais e suas famílias, ou os servos, que

trabalhavam em condições de extrema exploração, quase como escravos, nas terras

dos senhores feudais.

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Fatos e acontecimentos não são a mesma coisa?
Não. Fatos são o que acontecem, sem interpretação. Acontecimentos são o registro

histórico dos fatos interpretados pela pessoa que os registra.

Que pessoa?
Em geral, um historiador. Pode ser um jornalista... Ou uma pessoa que tenha o

conhecimento dos fatos e seja capaz de interpretá-los. Mas vamos em frente: com o

fortalecimento da classe dos comerciantes ou burgueses, organizaram-se reações a tal

ordem de coisas, sendo a Revolução Francesa, que ocorreu em 1789, a máxima expressão

da nova ordem social, por esse motivo também chamada de Revolução Burguesa.

O que tem isso a ver com a história da escola?


Tudo a ver, você vai ver. E também tem tudo a ver com o método histórico. Como

eu já disse antes, nunca um acontecimento tem uma só causa. São vários fatores

que acontecem num tempo determinado, e a forma como esses acontecimentos se

relacionam é que faz surgir um acontecimento novo, que chamamos histórico.

A escola é um acontecimento histórico?


Claro que sim! E em história o surgimento da escola é considerado recente, porque tem

só cerca de 200 anos...

Mas é muito tempo!


Na história, é preciso muito mais para se formar uma cultura.

A cultura escolar já está formada?


Sim, mas, como toda cultura, sempre está sendo transformada.

Por isso é que é preciso entender como ela surgiu?


Exatamente. É a chamada metáfora da chave da anatomia do macaco: a humanidade

somente compreendeu a anatomia do macaco quando estudou a anatomia do homem.

E por que voltar?


Porque a versão atual de uma cultura contém todas as versões anteriores e por isso uma

cultura é tão complexa que, para entendê-la, é preciso recorrer às suas origens.

Atividade 2:
Responda a duas perguntas: Por que os descobrimentos e as invenções do século XVI

fizeram aparecer a escola? E por que a escola somente apareceu depois da Revolu-

ção Burguesa, dois séculos depois?

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Seção 2:
A história da escola como instituição social

Então, além do surgimento dos burgos, o que aconteceu para que


a escola surgisse?
Ao mesmo tempo em que a classe burguesa se afirmava como mais forte, em outro país

do Ocidente, na Alemanha, preparava-se a Reforma Protestante, liderada por um frade

chamado Martin Luther, Lutero para nós.

Mas a Reforma Protestante é um acontecimento religioso. E a formação


dos burgos é geográfica...
Aí é que começa a complexidade: nós separamos as áreas do conhecimento em vários

campos: geografia, economia, religião, política..., porém, os acontecimentos envolvem

todas elas, ou melhor, não se alinham uma na outra. Nós é que alinhamos a realidade

nesse ou naquele campo do conhecimento. E justamente com essa separação dos

campos de estudo é que trabalhamos nas escolas, pensando que estamos trabalhando

com a realidade.

Então é por isso que o que aprendemos na escola é tão diferente do que
presenciamos na vida?
Nunca se esqueça do que já vimos: nunca é só uma causa. Essa é apenas uma das

causas, mas existem muitas outras. E também nunca se esqueça de que não são as

causas que fazem os acontecimentos aparecerem num tempo determinado, mas sim as

relações entre elas.

É muito complicado...
É mesmo: as perguntas que temos podem ser simples, mas as respostas nunca o são.

Se quisermos dar respostas simples, vamos reduzir o entendimento da realidade a uma

coisa artificial.

E por que precisamos tanto conhecer?


Para não apelar para as soluções mágicas, como as dos povos antigos. É preciso um

pouco de magia para viver bem, mas não do tipo que aprisiona nossa inteligência aos

azares da sorte...

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Então vamos em frente.

A Reforma Protestante aconteceu no primeiro quartil do século XVI e pregava, contra

a Igreja Católica, que a salvação das almas dependia de cada pessoa, e não das

indulgências que a Igreja preparava e vendia na época para as pessoas que podiam

comprá-las. De acordo com os protestantes, para conquistar a salvação de sua alma,

cada pessoa deveria ler a Bíblia, principalmente os evangelhos, e orientar-se pelos seus

ensinamentos.

Mas a leitura individual da Bíblia não era possível sem sua tradução para a língua natural

de cada país e principalmente sem sua publicação em grande escala, o que somente

foi possível pela invenção da imprensa por Gutemberg, no século XV. Antes disso, os

livros eram escritos à mão e copiados em pergaminhos apenas nos mosteiros, pelos

copistas (monges cujo trabalho era copiar livros), que reproduziam principalmente

livros sagrados. Por esse motivo, a população, em sua quase totalidade, não sabia ler

nem tinha acesso aos livros.

Espere: agora já apareceu outro acontecimento, a invenção da imprensa.

Isso mesmo: esses três fatores, que aconteceram na história ao mesmo tempo, fizeram

surgir uma instituição social chamada escola. Por um lado, a classe burguesa, ao se

fortalecer, tomou a instrução como uma forma de ascensão social, a qual somente se

tornou possível com a Revolução Francesa e a nova ordem social que, aos poucos, foi

sendo estabelecida nos países do Ocidente.

Atividade 3:

Em que aspectos a Reforma Protestante contribuiu para o

aparecimento da escola? O primeiro fator foram as invenções e

descobertas, porque o mundo ficou maior e a imprensa permitiu

que os livros fossem impressos e multiplicados. O segundo foi a

Revolução Francesa, ao criar uma nova ordem social, na qual as

pessoas podiam mudar de classe. E a Reforma Protestante, em que

contribuiu?

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Seção 3:
O método para entender as contradições na história

Agora é que eu entendi a diferença entre fatos e acontecimentos.


Os acontecimentos são o que fazem a história, que você chamou de
fatores.
Correto. Mas não esqueça que o registro dos fatos tem a interpretação de um sujeito,

e por isso a história é objetiva porque aconteceu, mas também é subjetiva porque é

interpretada por um sujeito.

Por favor, não complique mais ainda! Objetiva e subjetiva ao mesmo


tempo? Como a história pode ser assim?
Porque ela registra a vida da sociedade no tempo. Imagine a vida de uma pessoa, que

já é tão complexa. Agora imagine a vida de uma sociedade, que tem múltiplas relações

entre as pessoas e cria ao longo do tempo instituições para cuidar disso...

Instituições?
Sim, instituições sociais como a família, a escola, a igreja, os hospitais... São formas

sociais que existem para regular as relações entre as pessoas na sociedade. E tem mais

um detalhe: cada sociedade faz suas instituições segundo sua cultura. Por isso é que

a família, por exemplo, tem um significado aqui no Brasil, outro na Índia, outro na

China.

E a escola?
Também. A história que estou lhe contando é a história da escola no Ocidente. Estou

fazendo isso porque é nesse contexto que vivemos.

O que é a cultura?
Cada grupo social faz uma seleção dos significados de sua vida para compor uma cultura.

Com o tempo, esses significados se consolidam e se tornam senso comum, como se

fossem naturais.

E não são naturais?


Não, eles são culturais.

Qual a diferença entre natureza e cultura?


Natureza é o que existe antes e independentemente das pessoas. Cultura é o significado

que se atribui ao que acontece na sociedade, ao longo do tempo.

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A cultura parece ser importante para a existência da escola...
É a primeira instância da mediação pedagógica: a mediação da cultura. Tudo passa por

ela.

Vamos voltar à história da escola?


Dizemos que, por um lado, a instrução virou bandeira da nova ordem social, no sentido

de fazer as pessoas acreditarem que poderiam ascender socialmente por meio da

escola. Por outro lado, a Reforma Protestante valorizou o aprendizado da leitura, para

que a população tivesse condições de estudar individualmente as Sagradas Escrituras.

Finalmente, a invenção da imprensa tornou possível essa difusão da Bíblia e, aos poucos,

de muitos outros livros.

Mas você disse antes que o tempo é que estabelece as relações entre
os fatos. Então, como pode um acontecimento do século XV, que foi a
invenção da imprensa, juntar-se a outro acontecimento do primeiro
quartil do século XVI, que foi a Reforma Protestante, para fazer aparecer
a escola?
É que estamos falando do tempo histórico, não do tempo de cada um. O tempo histórico

se expressa em séculos, é o tempo que a sociedade precisa para ter as condições reais

para os fatos acontecerem.

Mas a Revolução Burguesa foi somente no final do século XVIII!


É que a Revolução Burguesa ocasionou uma grande mudança na ordem social e política,
que é mais complexa ainda do que as mudanças técnicas e religiosas. A escola depende

de uma política pública, por isso é que somente a nova ordem social permitiu o

aparecimento da escola para todos, ou melhor, pelo menos na proposta, era para ser

para todos...

E não foi para todos? Se era para cada um salvar a sua alma, tinha que ser
para todos...
Pois aí está o que apontamos como outra categoria central do método histórico: a

contradição. A revolução tinha por lema a igualdade, a liberdade e a fraternidade. Foi

uma grande inovação para a época, mas no decorrer desses mais de duzentos anos, a

história se revelou cheia de contradições.

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Por quê?
Porque o motivo principal da Revolução Burguesa foi o comércio e o surgimento de uma

nova classe, a dos burgueses ou comerciantes. E o que tinha valor para essa nova classe

era a moeda de troca e não a salvação da alma...

E como fica a história da escola?


Durante muito tempo, a escola ficou no discurso dos políticos. Até mesmo usada como

uma bandeira para conseguir o apoio da população, a escola aparece na história como

uma ilusão liberal.

O que é liberal?
A nova ordem social era o liberalismo, segundo o qual cada pessoa poderia ascender

socialmente. Não era mais como antes, quando quem nascia servo morria na servidão e

quem nascia nobre morria na nobreza.

A escola foi usada para deixar as pessoas pensarem que poderiam ascender
socialmente por meio do estudo?
Exatamente. E de certa forma é verdade, podemos ascender socialmente pelo

conhecimento. Mas não é assim automaticamente, porque a ordem social tem

desigualdades, a liberdade não dá conta de superá-las e a fraternidade não existe em

nível importante, para ser modelo de sociedade.

Por exemplo?
As leis do mercado: todo mundo sabe que para vencer uma concorrência é preciso antes
derrubar os concorrentes. Mas isso é o contrário do que dizia o ideal de fraternidade,

igualdade e liberdade.

A escola não obedece às leis do mercado? Atividade 4:


Em geral, não. Mas no Brasil apareceu um tipo de escola-empresa que segue, sim, as
Por que é necessário
leis do mercado.
destacar as contra-

dições para utilizar


E como é que fica?
o método histórico?
Não fica. O que se faz ali não tem mais a mesma natureza da educação escolar que
E a crítica que disso
fez a escola aparecer na sociedade e fortalecer-se como instituição social. Por isso
resulta, para que
nos limitamos somente a compreender a história, para ao menos nos libertarmos dos
serve?
enganos que nos cercam.

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Seção 4:
A lei do mercado e as escolas brasileiras

Voltando ao século XVIII!


O século XVIII foi chamado de século das luzes, porque a fé, que antes era vista como

determinante para o destino das pessoas, foi substituída pela razão, que a partir da

Revolução Francesa passou a ser o parâmetro da organização social.

Isso tudo é muito complicado...


Claro está que nenhum desses acontecimentos foi simples na sua expressão social, e

principalmente nas relações que se estabeleceram entre eles. Essas relações no tempo

e no espaço se revelaram extremamente complexas. As consequências foram muito

fortes e até hoje se podem perceber os resultados dessas relações estabelecidas séculos

atrás. Uma dessas consequências históricas é que, nos países que adotaram a Reforma

Protestante, o Estado e a Igreja Luterana sempre se mantiveram associados nas políticas

públicas, entre as quais situamos a da educação escolar.

Por isso é que até hoje, na Alemanha, não existem escolas particulares?
Em países de tradição católica, como a Espanha, existem escolas particulares

confessionais, escolas concertadas e escolas públicas. Nas escolas concertadas, toda a

estrutura do ensino é particular, menos o pagamento dos professores, que é feito pelo

Estado, que assim controla a política pública da educação. As relações de trabalho do

professor são mantidas nessa esfera, das políticas públicas.

Isso pode ser bom...


Na verdade, é uma grande diferença, porque o professor fica mais livre para cumprir o

papel de mediador.

Mais livre?
Sim, a escola tem sempre um ideário e, por natureza, esse ideário é voltado para

a educação, que é o contexto no qual o professor trabalha. Se as leis do mercado

atingirem o trabalho do professor, não há como ele ter liberdade para cumprir o ideário

da educação.

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É isso que acontece? As leis do mercado mandam no trabalho do
professor?
Em algumas escolas, sim. No Brasil, desde sua colonização pelos portugueses, a escola foi

mantida por ordens religiosas no princípio católicas, principalmente jesuítas. Somente

no século XIX as escolas foram sendo organizadas pelo Estado na época imperial e, desde

a proclamação da República em 1889, por um governo leigo e adepto das proposições

do século das luzes, voltado para a racionalidade e para a caracterização da educação

escolar como forma de ascensão social.

Então no Brasil a escola tem uma boa história...


Não tanto, porque a ascensão social era apenas uma bandeira utilizada pelos governos,

que na realidade não criavam escolas suficientes e muito menos com qualidade. Somente

no final do século XX, com a aprovação da mais recente Constituição da República , em

1988, a educação escolar passou a ser vista como um direito público subjetivo, ou seja,

como uma atribuição do Estado, que deveria proporcionar a todo cidadão brasileiro

condições para frequentar a escola e ali permanecer no mínimo durante oito anos, mais

tarde ampliados para nove anos.

Agora a criança tem de ficar na escola durante nove anos?


Desde 2006, a população brasileira tem o direito de frequentar a escola durante nove

anos. É a chamada escolaridade obrigatória: dos seis aos catorze anos de idade.

E a mediação pedagógica, mudou?


Nos conteúdos, deveria mudar, porque ocorre nesse ínterim o avanço das ciências e os

currículos escolares vão sendo modificados, atualizados e aperfeiçoados, porém sem

conseguir acompanhar o avanço acelerado do conhecimento. Por outro lado, as teorias

de aprendizagem e o aparecimento da pedagogia e das licenciaturas vão conseguindo

seus espaços na comunidade científica, que reconhece a necessidade da formação de

professores em nível superior em todo o país, desde a Lei de Diretrizes e Bases da

Educação (LDB), em 1996.

Essa história já está muito comprida, é difícil entender tanta coisa. O


que tem a ver tudo isso com a mediação pedagógica?

A mediação pedagógica acontece em vários níveis: o primeiro é da cultura em relação à

aprendizagem. Tudo depende da cultura, na sociedade onde está a escola. Outro nível

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é da escola na sociedade, como política pública. E, finalmente, o nível da sala de aula,

onde o mediador é o professor e os alunos são os mediados. Não adianta querer entender

a mediação que acontece na sala de aula sem compreender a escola na sociedade, nem

a sociedade sem sua cultura própria.

A política pública depende das leis do mercado?


Mais ou menos.

Deve ser por isso mesmo que algumas escolas, quando saiu a lei dos nove
anos obrigatórios, em 2006, só trocaram as plaquinhas na porta das salas:
tiraram o Pré III e colocaram o Primeiro Ano. Mas isso é como pensar que
os deuses provocam as tragédias ecológicas...
É isso mesmo. Não há outra forma de escapar dessa ignorância se não for pelo

conhecimento, com a intencionalidade de aprender e compreender.

Lá vem você com mais um elemento nesse emaranhado:


a intencionalidade...
Pois é: se não houver a intenção, não há vontade suficiente para a transformação.

Estou lhe apresentando os acontecimentos nas suas relações. E não se preocupe: sua

inteligência vai se acostumando a acompanhar o movimento que o conteúdo faz, ao se

apresentarem as conexões. De repente, o significado vai ficando claro, por mais difícil

que seja.

Quer dizer que ficamos menos inteligentes se não acompanharmos esse


tecido?
É uma boa palavra, essa do tecido: estamos tecendo as relações entre os fatos. Veja bem:

como num tecido, é preciso fazer os nós, nada pode ficar solto. O tecido é um só, mas

os fios são muitos, de muitas cores e espessuras. Tudo junto. Estou agora introduzindo a

história da formação de professores no Brasil, porque tenho uma intenção clara, que é

falar sobre a importância de um profissional formado para trabalhar na escola.

Deve ser importante mesmo, se a mediação pedagógica é feita por ele...

Não só por ele. O mediado é quem faz o processo, lembre-se disso. O professor só dirige

esse processo, é ele quem dá a direção.

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Tem de ser um pedagogo?

Não, o pedagogo é aquele que organiza o trabalho dos professores na escola. O professor

tem de entender, e muito, o conteúdo que vai ensinar e, ao mesmo tempo, como o

aluno aprende.

Então é preciso um professor para fazer a mediação pedagógica?

Claro! Claríssimo! Veja bem: o curso de Pedagogia em nível superior surgiu no Brasil em

1939. Nos setenta anos de sua história, vem trabalhando na definição do papel social

do educador escolar e ultimamente ampliando o espaço desse profissional para outras

áreas, como administração, saúde, arte e informática. Enquanto isso, a escola vai

demonstrando modificações trazidas pela evolução social, porém mantendo-se como

instituição social destinada a proporcionar à população a instrução necessária para uma

vida com qualidade. Desde o início do século XX no Brasil, organizada em diferentes

grupos de alunos segundo a idade e o aproveitamento escolar, administrada por um

diretor e tendo como principais protagonistas do ensino os professores, os alunos, os

pais dos alunos e os funcionários tanto técnicos quanto administrativos, a escola é

respeitada como uma instituição importante à qual toda a população tem direito de

acesso e permanência.

Então há vários personagens: pais, alunos, funcionários, professores e o


pedagogo...

Atividade 5:
Por que é importante que o trabalho do professor seja

o mais livre possível em relação ao conhecimento?

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Seção 5:
A educação a distância e a mediação pedagógica

O ensino e a aprendizagem do conhecimento pelos alunos são a principal finalidade da escola. No decorrer da

existência desta, essa finalidade foi sendo clarificada, apontando-se hoje a enorme capacidade que a escola

tem na formação integral das pessoas, tanto em conhecimentos como em atitudes. Não existe outra instituição

social que mobilize tantas pessoas durante 200 dias letivos e 800 horas de trabalho por ano em nosso país.

Por que então a escola é tão criticada? Vai ver porque ela apareceu dessa
forma já faz mais de duzentos anos...
Justamente por essa capacidade de mobilização, a escola foi alvo de muitos interesses

e nossos governos permitiram que a omissão do Estado em criar escolas públicas em

número suficiente e com a qualidade necessária favorecesse o aparecimento de uma

organização tipo empresa, destinada à mesma finalidade desta, de acesso e permanência

da população ao conhecimento.

Já sei. Você já disse: principalmente pela relação de trabalho do professor,


que nessas organizações de mercado passa a ser comandada pelas
mantenedoras, o ensino e a aprendizagem vêm sendo transformados em
mercadorias que atendem ao ideário dos clientes.
É por isso que a questão cultural surge como determinante: porque os principais

clientes da organização particular chamada escola são os pais, na sua maioria de classe

média. Esse ideário contempla a educação escolar como meio de ascensão social e,

recentemente, com a acentuação dos efeitos da globalização, tomou como metas o

sucesso no mundo do trabalho, traduzido por dinheiro e poder, ou influências para obter

vantagens pessoais.

Então a finalidade da escola foi sendo desvirtuada...


Essa é a palavra certa: se a escola foi criada para que as pessoas compreendessem a

realidade e pudessem situar-se nela, imagine agora querer que a escola faça as pessoas

terem sucesso e ganharem dinheiro!

Se a escola obedecer a essa finalidade, servirá apenas para prender a


inteligência dessas pessoas dentro de uma gaiola cheia de pretensões que
raramente se concretizam.
E se ela continuar a trabalhar pela libertação da mente das pessoas, então sua finalidade

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será cumprida. Inicialmente criada para que as pessoas pudessem compreender a

Bíblia e salvar suas almas, mais de duzentos anos depois a escola pode libertar, pelo

conhecimento, a inteligência das pessoas.

E até salvar essas pessoas, pelo menos do estresse.


É por isso que pretendo explicar como funciona a escola e nela a mediação pedagógica.

Recentemente, com o avanço das tecnologias, foi criada a modalidade de educação

a distância. E a informática é considerada hoje tão importante quanto a invenção da

imprensa.

Então a escola vai desaparecer, restando só a tecnologia?


Não esqueça que existem outros fatores. A escola não vai desaparecer, apenas se

transformar, como já vem fazendo.

Na educação a distância, por exemplo, não existe mais o professor,


apenas um conferencista e a televisão; como pode acontecer a mediação
pedagógica?
A televisão é só um instrumento. O conferencista também não pode ser o mediador, porque

traz somente as fontes. O mediador, nesse caso, é o tutor. É por isso que a normatização

da educação a distância, no Paraná, exige que o tutor seja um professor.

Que, além do campo específico do conhecimento, tenha aprendido como


acontece o processo de aprendizagem.
Exatamente. E é por isso também que a educação a distância no Brasil foi desvirtuada:

o negócio deixa de ser lucrativo se for necessário manter, em cada sala de transmissão,

um professor preparado para dirigir a aprendizagem e ser o mediador pedagógico.

Qual é o papel do mediador pedagógico?


Dirigir o processo de aprendizagem dos alunos. Não é possível descrever esse processo,

porque cada pessoa tem sua própria estratégia de aprendizagem. Atividade 6:

Por que o tutor tem


Mas, então, como é que a mediação pedagógica pode ser feita por uma só
de ser professor?
pessoa?
Essa pessoa está presente na sala que recebe as informações e tem sensibilidade o

bastante para movimentar essas informações no pensamento dos alunos, pela palavra

e pelo silêncio.

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Seção 6:
As fontes para o ensino

Palavra e silêncio não são contrários?


Sim. E por isso mesmo ambos são necessários. Um grande autor de Didática, Philippe

Meirieu, já dizia que “é preciso despertar no aluno o desejo de aprender e mostrar-lhe

as bases do conhecimento, mas calar-se a tempo, para que os alunos possam decifrar

os enigmas do conhecimento” (MEIRIEU 1998).

E eles vão fazer isso sozinhos?


Não, é muito difícil decifrar o conhecimento individualmente. Em geral, eles discutem

em grupo e assim nasce a compreensão daquelas relações entre os fatos.

Isso está parecendo uma aula...


E é mesmo uma aula: por ela ser construída pelo grupo e dirigida pelo professor, partindo

das fontes que ele tem na sala, não dizemos mais que os professores estão na escola

para dar aulas.

Então para que eles estão lá?


Para fazer as aulas com os alunos. Em algumas áreas, já é comum dizer “Vou fazer uma

aula de natação” ou “de piano” ou “de direção de carro” na autoescola.

Aulas não são dadas, mas feitas?


E nunca estão totalmente prontas. Cada aula é feita na hora, durante a mediação

pedagógica.

Os livros, os filmes, as teleconferências, o que são?


Fontes para o mediador pedagógico movimentar a inteligência dos alunos. São muito

importantes, mas não podem fazer a mediação pedagógica.

Por quê?
É como uma fonte de água: está lá, jorrando sem parar. Se a água estiver limpa, pode

ser bebida. Mas é preciso ter um copo, um instrumento para pegar a água e beber. E

alguém que saiba se a água está realmente limpa.

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As fontes para o ensino têm de ser “limpas”?
É uma boa palavra, limpas. Os materiais para o ensino têm de estar livres de toda sujeira,

que são os erros de conteúdo. Mas não podemos tomá-los diretamente; precisamos de

instrumentos para isso.

O que são esses instrumentos?


São os procedimentos usados pelo professor para que os alunos tomem os ensinamentos

e os transformem em pensamento próprio.

Já ouvi dizer que os alunos se apropriam dos conhecimentos.


Sim, é comum dizer isso, mas não é a expressão mais adequada, porque, se você toma

um conteúdo e pensa que se apropriou dele, então você acredita que ele está pronto.

Mas nunca um conhecimento pode ser apropriado de forma pronta. É próprio da natureza

do conhecimento transformar-se quando um aluno se defronta com ele e começa a

processá-lo por meio de sua inteligência. Faz parte da natureza do conhecimento a

transformação em pensamento.

Então o melhor seria dizer que o conhecimento tem de ser conquistado,


não apropriado.
Isso mesmo: conquistar é diferente de apropriar-se, que pode mais parecer capturar do

que conquistar.

Atividade 7:
Agora você já sabe dizer o que é uma aula?

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Seção 7:
Os instrumentos para a mediação pedagógica

Posso saber quais são os procedimentos para a mediação pedagógica?


Então vamos falar sobre a interação em sala de aula. Esse diálogo que estamos fazendo,
por exemplo, é um procedimento para a mediação pedagógica.

Então já estamos fazendo mediação?


Acredito que sim, e isso é ótimo, porque não adianta apenas falar sobre a mediação;
é preciso vivenciá-la primeiro e depois tirar dessa vivência as explicações teóricas
necessárias.

Você pode me dar uma definição científica da mediação pedagógica?


Claro! Tirei de um livro recente: Na aprendizagem por mediação, a criança não aprende
apenas pela exposição direta ao estímulo, mas por intermédio de alguém que serve de
mediador entre ela e o meio ambiente. A situação mediada consiste numa interação
interpessoal que possui características estruturais especiais. Em vez de relações
causais com diversos componentes fragmentados do meio ambiente, na experiência
de aprendizagem mediada existe um mediador, desempenhando o papel educacional
de atuar sobre o estímulo. O mediador seleciona, assinala, organiza e planeja o
aparecimento do estímulo, de acordo com a situação estabelecida por ele e com a meta
de interação desejada. Pela mediação, o mediado adquire os pré-requisitos cognitivos
necessários para aprender, beneficiar-se da experiência e conseguir modificar-se. Dessa
maneira, a aprendizagem mediada caracteriza-se como um processo intencional e
planejado (SOUZA, DEPRESBITERIS e MACHADO 2004: 40).

Vamos por partes: o que quer dizer “exposição direta ao estímulo”?


Quer dizer que uma pessoa tem contato direto com a fonte de aprendizagem, no
nosso caso, um livro, um filme, um texto no computador, um vídeo. Mesmo assim, esse
contato já tem a mediação da cultura, porque alguém escreveu o livro, produziu o
filme, programou o computador, editou o vídeo.

Então não existe aprendizagem que não seja mediada?


Dificilmente. Só mesmo as aprendizagens muito simples, quase instintivas, como retirar
a mão de um objeto muito quente. A pessoa olha e não coloca a mão. Sabe que se
Atividade 8:
colocar a mão vai se queimar. Nem precisa um mediador para dizer-lhe que não ponha
a mão no fogo. Você pode dar exemplo

de um instrumento
Mas eu já ouvi dizer: por ele, ou ela, eu ponho minha mão no fogo.
de mediação simples
Isso já é uma expressão simbólica. Você sabe o que quer dizer?
e outro de mediação
Sei, quer dizer que tenho confiança na pessoa de quem se fala.
simbólica?
Os símbolos são instrumentos de mediação culturais. Existem instrumentos de mediação
simples. Quem explica a diferença entre esses instrumentos é Vygotsky.

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Seção 8: Uma teoria de aprendizagem
fundamentada na mediação

Quem é VYGOTSKY?
É o autor de uma teoria de aprendizagem. Nasceu em 1896, na

Rússia, e morreu em 1934, com 38 anos de idade. Sua teoria

tem a mediação como principal categoria.

E o que é categoria?
Vygotsky
É o conjunto de elementos que organizam nosso pensamento

em torno de uma interpretação. Nós pensamos sobre um

assunto usando essa organização.

Então a mediação é a forma de organização que Vygotsky encontrou para


criar sua teoria de aprendizagem?
É uma das formas, a principal. A mediação é a categoria central da teoria de Vygotsky.

Mas lembre-se que, para criar uma teoria, são necessárias várias categorias, assim como

para a história registrar acontecimentos são necessários estudos de vários fatores.

E como é que Vygotsky conseguiu tudo isso, se morreu tão cedo?


É verdade. A teoria de Vygotsky não foi completamente elaborada por ele. Mas suas

ideias foram tão importantes que um grupo de seguidores conseguiu elaborar a teoria

completa. Até hoje suas ideias continuam sendo a base de várias pesquisas sobre

a aprendizagem. Pode-se dizer que a teoria dele é muito atual, mesmo não sendo

completa.

Atual? Mas ele viveu no começo do século passado!


Na época em que ele viveu, a psicologia soviética (assim conhecida a psicologia

russa), que sempre foi muito desenvolvida, tinha uma orientação essencialmente

associacionista, e por motivos políticos.

O que é associacionismo?
É uma corrente da psicologia que afirma ser o estímulo, atuando diretamente sobre o

sujeito, o que provoca a resposta de aprendizagem.

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E quais foram os motivos políticos
para a oposição a Vygotsky?

Havia, na mesma época na Rússia, outra

corrente, a de Pavlov, que servia melhor


Pavlov
aos interesses do governo soviético,

porque era mecanicista. O estímulo

atuava sobre o sujeito, que produzia

uma resposta.

Pavlov não era aquele que fazia os cachorros salivarem?


Isso mesmo. Suas experiências consistiam em estimular cachorros trazendo carne para

eles e tocando uma campainha. Com a repetição do toque da campainha, sempre

no mesmo momento de trazer a carne, os cães começavam a salivar mesmo sem ver

nem sentir o cheiro da carne. Isso foi chamado reflexo condicionado, e para qualquer

regime totalitário, interessa mais o condicionamento do indivíduo que a aprendizagem

mediada.

Atividade 9:
Por que o condicionamento é diferente
da aprendizagem mediada?

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Seção 9:
Categorias da teoria de aprendizagem

Entendi... E além da mediação, quais são as outras categorias da teoria


de Vygotsky?
Linguagem e atividade são as principais. Vygotsky rejeita totalmente os enfoques que

reduzem a psicologia – e em nosso caso a aprendizagem – a uma simples acumulação de

reflexos ou associações entre estímulos e respostas. Existem aspectos especificamente

humanos que não se reduzem a associações, como a consciência e a linguagem, que não

podem ser desprezados pela psicologia (POZO 1998). Então ele propõe uma psicologia

baseada na atividade: o aprender como fazer.

E a linguagem, como entra nesse processo?


Como um sistema de sinais ou símbolos que medeiam nossas ações, ou seja, são

mediadores entre o que fazemos e a realidade na qual vivemos. A linguagem falada é,

segundo Vygotsky, o principal instrumento simbólico na aprendizagem.

Então voltamos aos instrumentos. Como é que a linguagem pode ser um


instrumento?
Vou utilizar as palavras de Pozo, que é um estudioso das teorias cognitivas de

aprendizagem, para você entender de uma vez por todas a questão dos instrumentos na

teoria de Vygotsky. Pozo diz o seguinte:


Vygotsky diferencia duas categorias de instrumentos em função do tipo de

atividade que a torna possível. O tipo mais simples de instrumento seria a ferramenta,

que atua materialmente sobre o estímulo, modificando-o. O martelo atua de maneira

direta sobre o prego, por exemplo.

Existe um segundo tipo de instrumentos mediadores, de diferente natureza. Além

de proporcionar ferramentas, a cultura está constituída fundamentalmente por sistemas

de sinais, ou símbolos que medeiam nossas ações. O sistema de sinais utilizado com

mais frequência é a linguagem falada, mas existem muitos outros sistemas simbólicos Atividade 10:
que nos permitem atuar sobre a realidade, como os sistemas de medição, a cronologia,
Por que a linguagem
a aritmética, a leitura e escrita, etc. Porém, ao contrário das ferramentas, o sinal
é uma categoria de
não modifica materialmente o estímulo, mas modifica a pessoa que o utiliza como
mediação simbólica?
mediador e, definitivamente, atua sobre a interação dessa pessoa com seu meio (POZO

1998: 195).

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Seção 10:
O desenvolvimento humano é social

Não estou entendendo um ponto em tudo isso: como é que se pode dizer
que o martelo atua diretamente sobre o prego, se o martelo não pode agir
sem uma pessoa?
Ótima pergunta! Você agora matou a charada. Na teoria de Vygotsky, e parece-me que

não só nessa teoria, na verdade, nenhum instrumento pode agir sem a mediação de

uma pessoa. Por isso é que a teoria de Vygotsky se chama interacionismo e por isso

ele é chamado o teórico social da inteligência. Melhor dizendo, sua teoria se chama

sociointeracionismo.

Temos um elemento novo, o social...


É verdade. Vamos tentar explicar, e digo tentar porque é bem complicado: veja a última

frase na citação anterior. Ela diz que um dos instrumentos simbólicos, que é a linguagem

falada, modifica a pessoa que o utiliza e atua sobre a interação dessa pessoa com seu

meio. Então, ao mesmo tempo em que a linguagem atua sobre o meio, também atua

sobre a pessoa que está falando. Isso quer dizer que a pessoa, enquanto está falando,

está aprendendo e ao mesmo tempo ensinando. Melhor ainda: está interagindo com o

meio no qual vive, mas de forma social. Para Vygotsky, o meio no qual a aprendizagem

acontece é social.

Meio social é uma expressão um pouco desvirtuada, parecendo referir-se


à alta sociedade. E meio ambiente é uma expressão muito utilizada.
Nessa teoria, a inteligência humana se faz segundo as relações da pessoa com seu meio,

e esse meio é social, porque o indivíduo vive rodeado de pessoas em um ambiente

impregnado pela cultura. Antes de ele nascer, esse ambiente já tinha os significados da

cultura local.

Então é por isso que a pessoa vai adquirindo as características da sociedade


na qual vive? Se nasce no Brasil, fala de um jeito e, mais ainda, se nasce
no Sul fala de uma forma, se nasce no Nordeste fala de outra...
Mas essa pessoa também vai modificando seu ambiente. É por isso que se diz que a

realidade é uma construção social. E as pessoas são o que são porque se constroem

assim. Quer dizer, ao mesmo tempo em que uma pessoa se faz, também faz a sociedade

ser como é.

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O desenvolvimento da inteligência pode ser um produto dessa convivência,
não pode?
Exatamente. Aliás, você agora atingiu a própria essência da teoria: para Vygotsky, o

desenvolvimento da inteligência e a aprendizagem não somente caminham juntos,

mas também interferem um sobre o outro. Quer dizer: a inteligência cresce com a

aprendizagem e esta cresce com aquela.

Tudo bem, mas o que tem a ver o social nessa estrada de mão dupla?
Boa ideia, chamar essa teoria de estrada de mão dupla. As outras teorias diziam que

uma pessoa nasce com um tipo de inteligência e assim vai aprendendo. Mas essa teoria

diz que quanto mais uma pessoa aprende, mais inteligente fica e também quanto mais

inteligente fica, mais aprende. O social entra no ponto em que a teoria diz que a

aprendizagem é necessária para a humanização da pessoa.

Também é preciso aprender a ser humano?


Precisa. A vida inteira a gente aprende a ser humano. Quanto mais aprende, mais

humano fica. Isso se chama processo de humanização. E para nos tornamos humanos,

temos de aprender numa cultura, que é social.

Isso quer dizer que não somos o que somos por nós mesmos...
Isso quer dizer que somos o que somos pela mediação da cultura, da escola e do

professor. Nenhuma pessoa existe em si mesma. Mas é ela, e somente ela, quem pode

fazer o processo de mediação. Os instrumentos estão todos aí. Cada pessoa faz seu

processo. A mediação é como a aprendizagem: cada um faz a sua, não há como outra

pessoa fazer por nós. O mediado, na mediação pedagógica, é o aluno. O professor

é chamado de mediador e os materiais de ensino são os instrumentos. Assim como

para pregar um prego é preciso ter um instrumento certo, também o professor tem de

escolher os melhores instrumentos. E se a pessoa que empunha o martelo não souber Atividade
utilizá-lo, não adianta o instrumento ser bom, ela não vai conseguir pregar um prego. Final:
Criar perguntas durante

Imagine então a aprendizagem mediada, que é muito mais complexa do nova leitura geral do

que pregar um prego... diálogo que envolve

todo o texto e respondê-

las.

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