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As Mulheres e a EJA

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Relatório da palestra realizada por Aline Lemos da Cunha na noite do dia 18 de Março, no Salão Nobre da Prefeitura que teve como temática “As mulheres e a EJA”
Relatório da palestra realizada por Aline Lemos da Cunha na noite do dia 18 de Março, no Salão Nobre da Prefeitura que teve como temática “As mulheres e a EJA”

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05/25/2011

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As Mulheres e a EJA Município de Esteio Professoras(ES) da modalidade EJA

A palestra realizada por Aline Lemos da Cunha na noite do dia 18 de Março, no Salão Nobre da Prefeitura teve como temática “As mulheres e a EJA”. Aline começa relembrando o ponto principal da palestra da aula inaugural, falando sobre “a pergunta”, ou seja, qual a reflexão que @s professoras(es) levam os estudantes a terem se já estão com a resposta pronta? Ou ainda, o que se faz quando não conseguem lidar com a resposta do outro? Ressaltou que esta resposta do outro às vezes incomoda muito, porque vai de encontro e não ao encontro daquilo que se espera que o outro responda. Passou o informe que se reuniu com professores no dia anterior, que trabalharão nas respectivas áreas de conhecimento, destacando o trabalho destes em um curso pré-vestibular e pré-Enem Popular da UFRGS. Salientou que estes cursos, dentro da perspectiva teórica que adotam, valorizam princípios como cidadania, democracia e participação. Diante dos tencionamentos externos, provocados por instâncias distanciadas do ambiente escolar (exames nacionais, vestibular), acaba sendo um grande desafio pensar um currículo ao mesmo tempo preparatório para estas provas e que seja estimulante, tenha sentido e crítica social. Por esse motivo, pensando na EJA, na juvenilização que vem ocorrendo nesta modalidade em Esteio e a forma como estes professores que também são jovens se organizam e pensam o currículo e formas de discussão, surgiu a idéia de trazê-los para compartilhar suas práticas nos encontros por áreas do conhecimento. Dando início à discussão da temática “As Mulheres e a Educação de Jovens e Adultos” Aline pergunta às(aos) professoras (es) se suspeitam o porquê de ela ter pensado em abordar este assunto e logo pede que olhem para a platéia e analisem quem compõe a maioria dos participantes. Prontamente o grupo responde que são as mulheres. Questiona ainda sobre como são formadas as turmas, chegando também à constatação de que são turmas com muitas mulheres. Partindo destas breves análises, destaca que dependendo da modalidade de ensino e dependendo também do nível, esse número de mulheres em sala de aula tende a ser de 80%, um número muito elevado. Então, se as mulheres compõem a maior parte do contingente dos trabalhadores na Educação e se as mulheres hoje, na Educação de Jovens e Adultos, tem composto um número bastante significativo de discentes nos bancos escolares, é importante pensar no que isto significa. Logo, pensando historicamente, politicamente, socialmente,

pedagogicamente, o que significa dizer que nós temos uma maioria de mulheres na EJA e na docência da EJA? Faz um breve levantamento das escolas presentes no encontro e da quantidade de homens que trabalham nas mesmas e parte para os slides onde há algumas frases com “coisas que se ouve”, pedindo para a platéia de professores lerem o exposto. São lidas uma a uma as frases e a palestrante pergunta se aqueles discursos ainda são ouvidos. Alguns respondem que “não tanto”. Complementa a professora que “não vivenciar um ambiente machista, não significa dizer que o machismo não existe mais”. Podemos não compactuar com a idéia expressa na frase “Por trás de um grande homem, sempre existe uma grande mulher” questionando porque ela tem que estar atrás, porque não pode estar "ao lado do grande homem" ou "junto com o grande homem sempre existe uma grande mulher", ou "na frente de um grande homem conduzindo está uma grande mulher", mas não significa dizer que isto ainda não esteja presente no senso comum. Crucial nestas análises é a naturalização, a cristalização da condição de que as mulheres devem ser carregadas pelos homens. Para mostrar que o machismo existe e está incorporado pelos jovens, conta um fato contado por uma de suas orientandas: Um aluno bem jovem manifestava várias falas e atitudes machistas. A orientanda chocando-se ao ver que se tratava de um jovem reproduzindo o machismo, fará disto objeto de análise para sua prática enquanto professora que escuta estes discursos. Apesar de haver muitas discussões e avanços, no que diz respeito ao fato de que muitos homens se dão conta que existem vantagens e desvantagens em ser “o machão” (a ereção não pode “falhar”, não pode chorar...), o tempo histórico de 50 ou 100 anos de uma humanidade não é muito tempo para que mudanças mais profundas ocorram e é este o tempo da luta das mulheres contra as opressões, logo é um tempo muito curto para a “desnaturalização” deste pensamento patriarcal que vivemos. Seguindo os slides, chega a um texto extraído de um livro do filósofo Arthur Schopenhauer, do século XVIII ou XIX que descrevia sobre como as mulheres em sua época deveriam ser, sendo base para outras idéias. Dois slides seguintes apresentavam frases retiradas de revistas femininas (Jornal das Moças e Revista Cláudia) que circulavam no Brasil no século XX, ditando como as mulheres deveriam ser. Por exemplo a orientação: “Se desconfiar da infidelidade do marido, a esposa deve redobrar seu carinho e provas de afeto, sem questioná-lo”. (Revista Claudia, 1962) A partir da idéia de Schopenhauer, dita pela platéia como antiga, e das frases dos anos 50 e 60, onde o magistério feminino no Brasil estava em alta, Aline diz que para as mulheres professoras também era ordenado serem boas, não reivindicarem, não reclamarem. A platéia

de docentes acaba por perceber que alguns destes discursos permanecem até os dias atuais, então, a palestrante salienta que pensando a partir daí, pode-se perceber o porquê da condição hoje do magistério, dos salários baixos, podendo se pensar também em outras profissões que tem mulheres como protagonistas, já que este era um pensamento circulante na época. Destacou que é possível uma relação entre a desvalorização de algumas profissões ou a dita “facilidade” em exercê-las, por estarem vinculadas ao feminino. Não perdendo o viés de questionar os professores da rede de Esteio, pergunta sobre “que outras idéias surgiram quando ouviram os discursos anteriores que poderiam ser associadas ao exercício da docência?”. Um professor da platéia lembra que quando o magistério era exercido somente por homens, estes ganhavam bem. No momento que as mulheres começaram a lecionar, o salário diminuiu. Aline continua perguntando por que isso aconteceu se as mulheres demonstravam força, destreza, habilidade, disciplina? Responde dizendo que é algo cultural, onde a mulher complementava a renda da família e, sendo assim, salário complementar não “deve” ser maior que o principal. Para a mudança dessa lógica patriarcal, onde o preconceito se “metamorfoseia” é necessário que os sujeitos que não se beneficiam desta idéia questionem e mostrem o quanto é prejudicial para a existência humana relações sexistas, sectárias, excludentes e perversas, onde o feminino está sempre como secundário. Inclusive, salientando a perversidade de falas que onde o xingamento para os homens remete ao feminino (Veado, Florzinha, Mulherzinha). A idéia de a mulher ser o “segundo sexo” está naturalizada nas relações culturais e sociais de homens e de mulheres há séculos, por isso Aline deixou como provocação para a continuidade do encontro o título/novidade: “Algumas mulheres que disseram alguma coisa e ninguém ficou sabendo”. Citando exemplos de vivências suas, comenta o fenômeno social que tem sido hoje as mulheres conseguirem se colocar e aparecer no cenário como pessoas, sujeitos e ainda a dificuldade de se apresentarem como promotoras de conhecimento. Das mulheres que “disseram alguma coisa e ninguém ficou sabendo”, inicia por Elsa Freire, cuja contribuição na obra de Paulo Freire foi fundamental. Tanto para o sustento deste como para os filhos em tempos de perseguição na ditadura militar brasileira, como para ampliar o olhar deste

pedagogo o qual, sempre questionava as visões de mundo dos educandos e educadores (conforme ele mesmo destaca no livro Medo e Ousadia) e apresenta uma visão restrita sobre as possibilidades de contribuição para o seu trabalho do que fora produzido por intelectuais norte-americanos. Elsa contribui também no método de alfabetização freireano, que é bastante conhecido, com sua experiência como professora primária. Assim também, contribuiu para a

“lucidez” de Karl Marx, Jenny Marx, sua companheira, que o influencia a dar aulas particulares de Filosofia, para com elas garantir o sustento da casa. A palestrante apresentou a foto de outra mulher, Mileva Einstein, que foi companheira de Einstein. A platéia lê o resumo da vida de Mileva contido no slide salientando que esta mulher contribuiu com o pensamento de Albert Einstein, corrigindo e checando cálculos das suas produções. Provoca a platéia ironizando ao dizer que pensava que o cérebro das mulher derretesse ao estudar matemática e completa dizendo que Mileva era uma mulher de uma classe social que permitia que as mulheres estudassem, mas esta abandonou os estudos devido ao seu casamento, algo comum no século XIX, e em tom de pergunta novamente provocativa e um tanto irônica, diz que hoje isso está superado, ao que os docentes da platéia reagem apontando como presente nos dias atuais. Salientaram que muitas mulheres desistem da Educação de Jovens e Adultos porque seus maridos não querem que estudem. Frisa, então, a importância de pensar essa questão no cotidiano da EJA e as alternativas que se tem para alterar o quadro. A última mulher destacada é Ana Freud. Filha do psicanalista, questiona sua Teoria, seus achados e suas afirmações. Da mesma forma que Elsa Freire, Ana não se restringe a

uma verdade e pensa sobre outros prismas, o que sugere que o pai, em seu tempo histórico, não o fez. Surge, a partir disto, uma indagação: por que as mulheres fazem mais questionamentos, lançam dúvidas, não ter um olhar estreito (obviamente muitas mulheres também tem o olhar restrito)?. Alguns professores falam algumas alternativas e Aline prossegue dizendo que o erro é visto pela sociedade de forma diferente para homens e para as mulheres. As mulheres “têm o direito de errar”, de ter o coração mole, os homens não, talvez por isso a elas seja mais permitido (ou esperado) expressar “sandices” como por exemplo, questionar Freire, Freud e Einstein. Vivemos em uma sociedade onde se cobra atitudes, definições. Se a todos fosse dado o direito de “desarmar” teríamos muitos ganhos científicos, sociais e de vida. A palestrante segue na mesma linha de análise falando que quando se fala em conhecimentos masculinos, não podemos esquecer dos conhecimentos femininos que se atrelaram ao conhecimento masculino, porém é muito fácil esquecê-los. Para exemplificar a situação citou o fato de alguns médicos e médicas considerarem os cursos de licenciatura muito fáceis, de segunda mão, esquecendo que para estar onde estão passaram por séries iniciais e finais e, muito provavelmente, por uma grande maioria de professoras mulheres, e mais, não consideram que muitos dos conhecimentos que hoje a Medicina utiliza, como puericultura, ginecologia e pediatria são conhecimentos que eram dominados pelas mulheres. Todas estas são construções sociais que envolvem relações de poder entre homens e mulheres

as quais se apresentam também nas turmas de EJA, onde muitas vezes professoras não são respeitadas em sala de aula, diferentemente de professores homens, e isso tende a se agravar se a mulher é negra, loira... a sociedade é uma sociedade de marcadores. Após o breve intervalo, Aline propõe que baseados nas “denúncias” feitas no decorrer da palestra, os professores formem grupos de seis componentes para pensar sobre duas questões: “Como nós poderíamos transformar essa realidade? e Qual a contribuição desse tipo de discussão que fizemos para a prática pedagógica no cotidiano da EJA?” As respostas dos grupos foram sendo agregadas aos slides para discussão em grande grupo. No momento da socialização das respostas de cada grupo, Aline destaca que o que eles escreveram e agregaram à palestra não é qualquer coisa, é produção de conhecimento, é ciência, porque são percepções de professoras(es) que estão na escola, no cotidiano da EJA e que pensaram sobre as várias questões com o auxílio pedagógico trazido pela palestra. Salienta que foi um processo de ensinar e aprender que culminou na sistematização que estavam fazendo e termina falando que a segunda pergunta é uma avaliação do encontro para ela poder pensar nos próximos que serão de discussões mais práticas pro cotidiano escolar, visto que até o momento foram trabalhados e discutidos os fundamentos sobre os sujeitos da Educação de Jovens e adultos.
Elaine Luiza F. Montemezzo Bolsista de Iniciação Científica Estudante de Pedagogia - UFRGS

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