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Apostila Teodiceia

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SEDAC ² STUDIUM ECLESIÁSTICO DOM AQUINO CORRÊA TEODICÉIA1 Professor: Pe.

Paulo Ricardo de Azevedo Júnior

Nota-se no homem uma pergunta sobre Deus. O perguntar fala do perguntante. I. INTRODUÇÃO 1. Definição da tarefa: O tema é a pergunta filosófica sobre Deus. Problema: o tema Deus não é empírico e sim metafísico. Vivemos numa época de suspeita à metafísica, suspeita esta iniciada por Kant quando afirma que só é possível o conhecimento empírico (KrV B 806). Aqui podemos notar, porém, a insensatez da afirmação de insensatez. A idéia de que somente afirmações demonstráveis possam valer como afirmações exatas certamente não é demonstrável empiricamente, de tal forma que, permanecendo com o critério de sentido de que dispõe, é ela mesma completamente insensata. Desde o início nos damos conta de que se trata de uma pergunta filosófica. A palavra filosofia indica desde o início uma aspiração amorosa à verdade absoluta e à sabedoria que nos torna felizes, não porém à sua posse. Agostinho fala de dois erros complementares que são empecilho para achar a verdade: a falta de confiaça na possibilidade de encontrá-la e a suposição de tê-la já encontrado2. Trata-se aqui de uma busca científica que é justamente determinada pelo saber de não saber, na medida em que um espírito finito que se interroga sobre o infinito reconhecerá ao final que aquilo sobre o qual se pergunta transcende infinitamente a si mesmo e a sua inteligibilidade. A tarefa é o falar sobre Deus. Antes disso, porém, pode-se olhá-lo sob vários aspectos:  ONDE falo num contexto. Existe um lugar, algo ao redor.  DE ONDE falo a partir do sujeito falante.  SOBRE O QUE no caso, Deus, mas: - a quem? - com que? - por quem? - contra quem?  COMO método 2. Reflexões sobre o método e sobre a realização da tarefa: O pensar Deus na filosofia é uma realidade aporética. À pergunta filosófica sobre Deus não existe uma resposta definitiva e inquestionável. Ela é irrezolvível. Apesar disso, vê-se no homem uma disposição natural à metafísica. Quando olhamos empiricamente para a realidade vemos a aparência das coisas. No entanto, o homem não se contenta com o fenômeno. Os sentidos nos dão o que as coisas são ³para nós´, não o que são ³em si´, o real, o sentido das coisas. Só a metafísica é capaz disso. Deus entra na filosofia porque o homem tem essa disposição natural à metafísica.
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Esta apostila foi elaborada a partir do livro de Norbert FISCHER, L¶uomo alla ricerca di Dio. La domanda dei filosofi. Milano, Jaca Book, 1997, 390p. 2 «Restant duo vitia, et impedimenta inveniendæ veritatis [...] ne te contemnas, atque inventurum esse desperes, aut certe ne invenisse credas» (Conta Academicos, 2,3,8).

Teodicéia

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A pergunta filosófica é uma pura busca que permanece aberta à resposta. Esta busca pode encontra a sua realização na fé religiosa; porém, tão logo começa a pensar em Deus confiando na fé, cessa de ser filosofia. Esta linha de fronteira, no entanto, vale apenas para o puro processo do pensamento, não para a vida concreta na sua inteireza. Fazemos a pergunta filosófica sobre Deus para demonstrar sua necessidade para os que já têm certeza de tudo, seja positivamente, seja negativamente. Este perguntar é a tarefa insolúvel e ao mesmo tempo necessária da filosofia. De tal forma que quem abandona esta pergunta já abandonou a filosofia. 3. A dialética entre o discurso e o silêncio. Em Heidegger, há uma valorização do silêncio como lugar da revelação do ser. Mas, para que haja silêncio é necessário haver palavra, e vive-versa. Uma coisa possibilita a existência da outra. Podemos falar de uma espécie de ³silêncio eloqüente´. A dialética do discurso e do silêncio é constitutiva da possibilidade do discurso filosófico sobre Deus. Deus é inefável (fari = falar). Não podemos falar Deus, mas existe uma dialética entre o falar Deus e o silêncio. A tentativa contínua do falar Deus leva-nos a um silêncio, uma espécie de ³silêncio eloqüente´. Será tentando falar de Deus que chegaremos a algum lugar Deus pode se mostrar no mundo apenas ao homem silente, e somente no silêncio os homens podem encontrar a manifestação de Deus e da magnificência divina. Deus pode se revelar ao homem no mundo somente através da alienação simbólica da sua essência. Porém o homem só pode tornar presente aos outros este evento pela fala. Wittgenstein diz no Tractatus Logico-Philosophicus: «As minhas proposições ilustram assim: aquele que me compreende, no final, reconhece-as insensatas, subiu por elas ± sobre elas ± para além delas. (Ele deve por assim dizer jogar fora a escada depois de ter subido por ela). Ele deve superar estas proposições; então vê corretamente o mundo» (6.54).

Iª PARTE

QUESTÕES PRELIMINARES SOBRE O HOMEM
COMO LUGAR E PORTADOR DA PERGUNTA SOBRE DEUS.
Antes de falar de Deus é preciso falar do homem. Por que o homem faz a pergunta sobre Deus? Que tipo de experiência o leva a isso? Que força assertiva, apofântica, tem o discurso sobre Deus? O encontro do homem com Deus deveria ser considerado como realização do seu ser e de sua busca finitos e como termo de toda pergunta e problema.

Capítulo I
SE O PERGUNTAR A RESPEITO DE DEUS É UMA CONTINGÊNCIA HISTÓRICA OU PERTENCE AO PRÓPRIO SER HOMEM DO HOMEM Trata-se da questão de se o homem que põe a pergunta sobre Deus seja um caso histórico específico ou se este perguntar pertença ao ser homem do homem. Trata-se de decidir se o pensamento sobre Deus deva ser compreendido somente como o sonho religioso da humanidade ou se a pergunta sobre Deus deva valer como constituinte implícito da genuína atuação do ser homem que não pode ser realmente colocado em questão nem mesmo na negação de Deus3.
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Henri De Lubac dedica seu livro De la connaissance de Dieu «a meu amigos que crêem aos que crêem de não crer».

É o drama da liberdade finita. realização que não pode ser concluída. O espírito humano não é capaz de alcançar sua própria identidade. o homem é. O homem não consegue realizar-se completamente.  O querer: O homem é liberdade finita. O homem é dado a si mesmo como uma tarefa. que o conhecimento metafísico.quando faz o que quer se realiza O conhecer: Kant. não tem a mesma firmeza que este.  .1). É uma tarefa inacabada. Da mesma forma.  O agir: O homem busca a realização da ordem perfeita. Deve realizar-se. há uma sede de absoluto. Segundo Kant. Assim. Tem apenas um caráter aproximativo. Mata a Metafísica. Isso tem conseqüências metafísicas? O homem só será feliz se atualizando. um ³saber de não saber´. porém. metafisicamente. de um socratismo. na realidade. Este limite define o homem como um ser insatisfeito. Sartre pode tirar todas as conseqüências de um pensamento ateu. Ele não nasce homem. construir-se. renunciou à posse absoluta da verdade. somente ³amigo da sabedoria´. o homem deve buscar sempre. com um ³saber de não saber´. Surge assim a aspiração pelo sumo bem.quando conhece o que quer se realiza Modos de realizar-se Querer . Assim. Para onde vai o homem? O que ele é realmente? É um problema teorético sério. através de sua crítica. Não consegue por em ato toda a sua potencialidade. sou escravo da liberdade. empiricamente é impossível saber como o homem deve ser. há uma limitação. mas também o homem. fazer-se. 1. Nega a liberdade humana. necessitado de um absoluto. Porém. Confissões. Não se conhece suficientemente. uma missão. não estática. b) Implicações metafísicas da realização prática de si mesmo por parte do homem. já escolhi. Enxerga a liberdade somente como liberdade absoluta. Paulo Ricardo de Azevedo Jr. Metafisicamente. enquanto liberdade finita não realizável. abre espaço para o transcendente. A conseqüência metafísica O homem. Trata-se. Abre espaço à fé. exige o postulado da imortalidade da alma e da existência de Deus. Quando escolho de escolher. Se houvesse conhecimento sobre Deus. Essa é a conseqüência metafísica maior. O homem não é uma realidade dedutível teoreticamente. ele não consegue alcançar isso objetivamente. 1. como perguntante por Deus. este deveria ser empírico. A vida do homem é uma ³vida viva´ (Agostinho. que ultrapassa o empírico. assimptótico. Conhecer .7). Assim. não existe conhecimento teórico sobre Deus. reduzindo o âmbito do conhecimento para dar espaço à fé (KrV B xxxs). Sabe-se. é impossível. apesar dessa dificuldade. Tanto no conhecer.quando tem o que deseja se realiza Agir . é um mistério. O homem não é livre. realizando-se ± passagem para o ato. ele é escravo da liberdade. 3 a) O homem como tarefa posta a si mesmo e teoréticamente insolúvel. que o põe diante da realidade de um cor inquietum. dinâmica.P. não somente Deus. A conseqüência metafísica o homem será eternamente um ³filósofo´. quanto no querer e no agir.O homem é um espírito inquieto e que busca ± ³Cor inquientum´ (Agostinho. Existe no homem um déficit de determinação. Confissões. e isso. Então. no ser do homem. Conseqüência: É muito difícil explicar metafisicamente o sentido de uma liberdade finita sem conceber uma liberdade infinita. Mas. que no entanto.

Vimos a finitude do homem no seu conhecer. absolutamente necessário. mas o homem sabe que tais experiências são muito mais que isso. vive também o desejo daquilo pelo qual está maravilhado. c) O problema da necessidade de a Filosofia interpretar a experiência religiosa. dissimulando a pergunta que transcende o mundo. o estupor: não há outro princípio da filosofia se não este ± ma/la ga\r filoso/fou tou=to to\ pa/qoj. .Não alcança o Absoluto com sua ação. Não é prova. vemos a realidade de que o homem tende a um objetivo que não vai alcançar nunca. c) A impossibilidade de uma completa autocompreensão e de uma realização da vida por parte do homem. O sucesso nas ocupações diárias pode levar a uma certa satisfação. o homem vê sua incapacidade de responder a pergunta sobre si mesmo.7ss). O estupor é o início da Filosofia4. querer e agir. ele não pode ter a função de demonstração da existência de Deus. o sobrenatural (Absoluto) é absolutamente impossível para o homem e. de se realizar na vida. A desgraça pode se abater sobre uma pessoa quando o sofrimento e a morte aparecem em sua vida e quando a liberdade humana produz um agir culposo (cf. Esta.Para a ação humana € impossível chegar lá. É por isso que o homem é essa tensão: . o homem se põe a pergunta sobre Deus. A Felicidade. Teeteto. Esse estupor não é objetivável. . de se compreender e. Maurice Blondel ± recorda a insanável desproporção entre o impulso do querer e a finalidade do agir humano (entre vontade e ação). Portanto. porém. Capítulo II AS ³EXPERIÊNCIAS ORIGINÁRIAS´ DA PERGUNTA SOBRE DEUS E A PERMANENTE PROBLEMATICIDADE DO SEU CONTEÚDO Dois tipos de experiências que conduzem a Deus: a inquietação e o entusiasmo.. É uma luz que ilumina a direção para a qual o homem interroga. Existe um abismo entre o élan (impulso) volitivo e a ação humana. O sofrimento é uma forma de experimentar a presença de Deus. 4. 4 «Este na verdade é o sentimento do filósofo. diante da experiência de estupor e felicidade. O que se vive é muito mais do que a explicação científica.Não se satisfaz se não encontrar o Absoluto. 155d).Para o querer € impossível não buscar. Confissões. ao mesmo tempo. tematizável. é prematura e mesquinha se tentar esconder a falta insuperável de perfeita satisfação do verdadeiro desejo humano. to\ qauma/zein: ou) ga\r a)/llh a)rxh\ filosofi/aj h)\ au(/th»» (Platão. . conseqüentemente. . b) A origem da pergunta sobre Deus na experiência de tristeza e desgraça. etc. Diante do sofrimento a pessoa se faz a pergunta: ³E Deus?´. Portanto. O homem quer muito mais do que consegue fazer. Quando a pessoa vive o estupor. A partir disso.Teodicéia 4 SER DO HOMEM busca de um absoluto que não é ele. Com isso. também é muito mais do que se pode descrever. A ciência pode explicar a inquietação do homem pela falta de um Absoluto e o entusiasmo pela beleza. Ou seja. cujo conteúdo não se pode agarrar e que não é presa no tempo. A mudez do estupor é eloqüente. Há uma desproporção entre a redução científica e o estupor vivenciado. Ambas são qualitativamente superiores à ³redução científica´. a) A origem da pergunta sobre Deus nas experiências de estupor e de felicidade.

mas de um pensamento transcendente limitado. não se trata de um pensamento absoluto. afirmar alguma coisa? Vemos que o homem tem a necessidade de perguntar sobre o Absoluto. A metafísica se reconhece como filo-sofia. ³Círculo Hermenêutico´ (Gadamer). E isso cabe à Filosofia. porém. Nada basta para o homem. jamais teve uma tal pretensão. tem a ousadia de perguntar sobre Deus. porém. assim. é de significado. Não é da evocação científica e sim da interpretação ³hermenêutica´. somos capazes de um pensamento transcendente que reconhece seus limites. mas sempre quer mais. uma mentira (Nietzsche). Porém é necessário não julgar a metafísica a partir de uma falsa identidade. porém. captamo-las dentro de dois transcendentais: espaço e tempo. Então. Para os antigos. Os bens pequenos e passageiros não são suficientes. Capítulo III A ASSERTIVA DO PENSAMENTO TRANSCENDENTE ACERCA DA PERGUNTA FILOSÓFICA SOBRE DEUS. o problema fundamental consistia no ³quid est´. Para o homem moderno é o problema hermenêutico: o que significa Deus? Portanto. então. Tende para o SUMO BEM. a) A proximidade e a distância do espírito interrogante de uma verdade absoluta e perfeita. que querermos pensar o eterno? O transcendental tempo ao mesmo tempo possibilita o pensamento (antes-depois) e o condiciona. ela está marcada pela não realização. Quando existe uma escolha. A experiência religiosa pode e deve ser interpretada. tornando-o incapaz de conceber o eterno. ele não pode ser um investigador. A Metafísica foi acusada como sendo um sonho (Voltaire). um pseudoproblema (Carnap). Ao perguntar sobre Deus. porém. Ele pode ter tudo. Até que ponto o pensamento filosófico sobre Deus é capaz de mostrar. mas absolutamente certa e uma verdade plena em termos e conteúdo. insegura. O iluminismo quis dar à filosofia o mesmo estatuto epistemológico das ciências exatas. O pensamento transcendente tem consciência da própria problematicidade. o fascinans. o limita. Mas. Como é. b) O pressuposto do interrogante livre da mera realidade factual e da finitude da sua força. não é capaz de um pensar o Absoluto. Isso quer dizer que somos incapazes de pensar o eterno. Assim. mesmo diante de sua limitação. se não há liberdade. como saber de não saber. Se pensar o Absoluto. mas escolhe bens limitados. A metafísica tradicional. não é o Absoluto. pergunta-se sobre um eterno. não há busca. já que ela é incapaz de produzir uma tal certeza matemática. Quando recebemos as coisas. c) A temporalidade do homem como horizonte de sua pergunta sobre a eternidade. o esplendor. revelar o significado ou ausência de significado de Deus. 5 Trata-se do problema da hermenêutica da experiência religiosa.P. Essa não realização da finitude do homem é que abre a janela para que enxergue que o que ele busca é o Sumo Bem. O problema do fenômeno religioso é hermenêutico. na busca pela essência de Deus. Nos tempos modernos esse problema não tem relevância. O homem vive numa tensão existencial entre uma verdade pobre em conteúdo. Com isso condenou a metafísica como ilusória. Por que é importante que o homem seja livre? Porque. de uma liberdade limitada. Enquanto estrutura do pensamento não se é possível subtrair-se do tempo. o mysterium tremendum. O homem é livre. o sanctum). Rudolf Otto que estudou a Fenomenologia da Religião se dedicou à análise do numinoso (sentimento criatural. Paulo Ricardo de Azevedo Jr. A liberdade aspira ao Sumo Bem. . O pensamento só funciona segundo um antes e um depois. Não tanto factual. um perguntador e. mesmo diante da morte. que.

O homem é o ponto de partida. por assim dizer. Antes de descobrir se Deus existe ou não é preciso sabre ³quid sit´. É prioritário sobre o homem. Depois. A relativização funcional de Deus faria escapar de nossas mãos o tão buscado absoluto. Deus é a finalidade. ao final das suas cinco demonstrações da existência de Deus diz: ³Et hoc omnes dicunt Deum´ ± e isto todos chamam de Deus. utilitarista. Então. Capítulo IV O PROBLEMA DA PERGUNTA: SOBRE AS PROPRIEDADES E SOBRE A ESSÊNCIA DE DEUS Somente um ser finito pode ser captado como ente determinado. a) O duplo significado de o homem não poder saber a respeito da essência de Deus.Teodicéia 6 Como. então. da delimitação de Deus seria sua destruição. Isso está na nossa mentalidade. visão mágica de Deus. Um Deus funcional é um Deus que não é Deus. Uma realidade infinita que fosse representável pelo finito de maneira determinada daria origem. algo em Deus que é óbvio? Ou ele é algo que muda conceitualmente: hoje é uma coisa. o pensamento transcendente parece cair em uma aporia insustentável quando tenta compreender conceptualmente a verdade incondicionada e infinita. É preciso compreender o que significa ter um Deus. . Proceder de forma diferente no tratado sobre Deus é torná-lo irrelevante. Existem várias visões a respeito de Deus: teísmo. a causa de si mesmo e a finalidade. justamente por causa de sua presumida clareza. então. Existe. um consenso mínimo a que todos chamam de Deus. Se Deus é para mim. ao mesmo tempo. Mas. pragmatista. é destruir o conceito de Deus.Antiguidade partiu do cosmos (abordagem cosmológica) . existe um conceito básico. é o relativo que me ajuda.. A Filosofia moderna nasce do cogito cartesiano. Mas. Então. não se pode deixar de partir do homem. tomo consciência de minha finitude e entro. ele é relativo. partir do homem? Primeiramente. pensar o eterno? Na simples percepção do tempo enquanto tal se pressupõe um momento que ultrapassa esta fugacidade do temporal que parece aniquilar todas as coisas. nulo. uma quimera. entre as várias concepções. De onde então devemos partir? .Modernidade parte do homem (abordagem antropológica) A abordagem antropológica coloca Deus em função do homem. Tomás de Aquino. deísmo. O caminho da definição. o homem é para Ele. já não é o absoluto. Portanto. Como. então. reduzir Deus a um conceito funcional. Porém. o que Ele é. Se há um Deus. a uma simples ficção intelectual. que é o caminho da des-limitação de Deus. na infinitude de Deus. pois o homem moderno busca o significado das coisas para si. IIª PARTE A NECESSIDADE E A DIFICULDADE DOS ENUNCIADOS QUE EXPRIMEM O CONTEÚDO DA ESSÊNCIA DE DEUS.. Deus é importante para o homem função antropológica ± o homem é finalidade. Se existe um Deus ele precisa ser independente do homem. amanhã outra? «Que o homem contemporâneo tenha ou não um Deus é um fato secundário diante do conceito com o qual ele pode ainda compreender o que signifique ter um Deus» (Hans Blumenberg). tendo-o ou não. do sujeito. proceder por infinição. tomar consciência de sua finitude.

L. Deus é a Bondade. quanto ao conteúdo. parece viciada desde a origem.2 ad 11). 2. c) ³via eminentiæ´ ± mesmo caminho da affirmativa: pega uma qualidade positiva nas criaturas e eleva-a ao nível superlativo: o homem é bom. 7 Significado negativo: O homem que quer apreender a presença de Deus partindo do mundo está submetido a um verdadeiro ³suplício de Tântalo´ (o objeto de desejo é inatingível). a hipótese assumida. ilimitado. Significado positivo: Se o homem pudesse falar de forma determinada do infinito. pode existir também uma resposta. sobre Deus. por exemplo. Existem tradições conciliatórias que atribuem a Deus propriedades bem determinadas sem que seja claro a sua fonte: onipotência.P. Ele não vê nenhuma contradição no seu modo de agir. está exposto à crítica de quem vê nos seus resultados o fruto de meras projeções nascidas da negação do finito.5). ou a infinitude de Deus cairia. seguindo a tradição de Dionísio Pseudo-Areopagita (V/VI séc. na Suma Teológica.. positiva ou negativamente. porém. que quer pensar Deus mediante infinições do finito. não fala mais do infinito. assim. ou a sua finitude seria deformada pela infinitude de Deus. b) ³via negativa´ ± atribui-se a Deus conceitos negativos: infinito. um homem finito pode viver a própria vida pensando e crendo no Deus infinito. afirma: ³Não existe para nós nenhum caminho que conduza a Deus. c) A dificuldade na denominação da essência de Deus na passagem para o pensamento infiniente. na medida em que a realização dessa exigência destrói a própria possibilidade de alcançar a finalidade desejada. Três caminhos possíveis: a) ³via affirmativa´ ± acredita que se pode dizer algo positivo sobre Deus. a elaborar um juízo. erra igualmente o alvo. Não considerar a finitude da razão humana desembocaria necessariamente em um otimismo desenfreado. O discurso sobre Deus seria absolutamente insensato. «Quid est Deus nescimus» (De Potentia 7.. aparentemente paradoxal. No entanto. de uma forma unívoca. nas mãos do homem.44). não sem uma certa u(brij. Capítulo V A REALIDADE EM QUESTÃO NA PERGUNTA SOBRE DEUS COMO PONTO DE PARTIDA PARA O ³FALAR ANALÓGICO´ DE DEUS. Agostinho. Portanto.F. De Ordine. Tomás de Aquino (‚1274). por assim dizer. Quem capta o conceito de Deus de forma determinada torna Deus finito e.). porque o reconhecimento da razão humana como limitada não impede a valorização desta mesma razão finita... tenta falar dele de forma indeterminada. para que a sua existência possa ser demonstrada. porém. auto-suficiência. b) A necessária determinação da pergunta sobre o infinito. Se uma pergunta pode ser colocada. mas de forma analógica. podendo apreender a presença de Deus somente no não concebê-lo. Somente renunciando à afirmação usurpada de um conhecimento relacionado com a verdade absoluta do todo. Karl Barth (‚ 1968). 6. considerava evidente que os homens não pudessem conhecer a essência de Deus. nem mesmo a . que seja melhor conhecer Deus no não conhecer encontra a sua justificativa racional na peculiaridade daquilo que visa a pergunta. devemos considerar que o homem se experimenta como uma pergunta para a qual não há resposta. Paulo Ricardo de Azevedo Jr.´ (Wittgenstein ± T. Não há como negar que se tratam de infinições de características positivas do homem. A pretensão de que Deus deva ser pensado. «Deus é aquele que se conhece melhor não conhecendo ± Deus est qui scitur melius nesciendo» (Sto. ³De uma resposta que não se pode formular não se pode formular nem mesmo a pergunta. Tal pensamento. quem. É uma espécie de socratismo cristão. Contra essa afirmação. Não existe enigma. escreve uma questão intitulada ³Sobre a essência de Deus´. Seria a razão que se impulsiona. bondade infinita.

O Deus que estivesse no final de um caminho humano já não seria. À aspiração da boa vontade pertence a tendência a uma infinição de sua eficácia. Erich Przywara (‚ 1972) e Hans Urs von Balthasar (‚ 1988). Segundo Karl Rahner (‚1984). 105-134. se recusa a desprezar a razão. embora admita o limite da razão humana. na incapacidade de realizá-la. infinitamente justo e bom. como via do conhecimento analógico. porém não se trata de uma realidade que afeta a estrutura da própria razão. KrV B 438). conduzindo-o à pergunta sobre Deus. pessimistas em relação à natureza humana. cujo pensamento determinante malogra tão logo busca a verdade incondicionada e absoluta. a natureza e a razão tornaram-se enganosas. seja regressiva) reconduzindo o todo à sua origem. Hörer des Wortes. porém. ao mesmo tempo de temor e reverência. nada é Deus). embora esta permaneça enigmática e misteriosa. Porém. tem a possibilidade de buscar a verdade e de reconhecer a própria fraqueza. no entanto. Divinizá-lo seria cair na ausência de Deus (quando tudo é Deus. quem não tem conhecimento e é fraco. A razão humana está essencialmente em busca da unidade de tudo. Ela. O conhecimento humano supõe uma unificação da multiplicidade dada (seja progressiva. . sem poder porém atingir o infinito (KrV B 546). Aspirando à suprema ordem perfeita ele faz algo de plenamente sensato. ou seja. a possibilidade do perguntar atinge uma amplitude infindável. Cf. Com relação ao limite espacio-temporal do mundo. a) Os pontos a partir dos quais se movem as infinições com relação ao falar analógico de Deus. depois da Queda. o homem não poderia ser um autêntico ouvinte da Palavra. que exige também um assentimento racional6. Deus não criaria um instrumento de engano. Deus´5. não é boa porque quer ser uma boa vontade. mas porque quer a realização do bem (por falta de força e conhecimento). 5 6 Das Problem der Ethik in der Gegenwart. c) Exemplos de infinições tirados do contexto do conhecimento prático. A ascese contribui grandemente para a purificação da razão aprisionada pela filauti/a. Kant. Um falar sobre Deus que nasce destas infinições pode ser interpretado. Cf. Isso. Barth abandona a razão à sua perplexidade e admite somente o caminho da revelação. O ponto de partida condiciona o discurso a respeito do infinito. Esta boa vontade constitui o bem supremo que o homem pode alcançar com suas forças. não significa a divinização do ponto de partida. a diversidade do falar irá depender da diversidade dos pontos de partida finitos. Tais infinições podem ser iniciadas a partir dos conceitos de base da realidade específica do homem. porém. segundo a tradição neotomista. pois. Para os protestantes. Tal afirmação não deixa de conter uma certa verdade. A boa vontade só pode ser pensada como vontade que quer a realização do bem. a da temporalidade ao pensamento da eternidade. ele porém é o sinal da verdadeira situação da razão humana. Trata-se de uma reformulação da doutrina da ³analogia entis´. A tradição católica. embora manchada pelo pecado original. por isto mesmo. estes dois caminhos nos levam ao infinito inconcebível (cf. Este resultado pode ser insatisfatório para a razão teorética que tem em vista resultados unívocos e um saber soberano. ou uma via dialética ou paradoxa. Se a razão humana pode exprimir o Deus infinito somente a partir do finito. 153. Esta boa vontade quer que tudo seja o mais perfeitamente ordenado. b) Exemplo de infinição tirado do contexto do conhecimento teórico. não seria capaz de receber uma revelação. A infinição do conhecimento humano conduz ao pensamento da onisciência.Teodicéia 8 via negativa. Porém. reside o conhecimento de uma falta que pode ser superada somente graças a um Senhor do mundo. O finito que pode ser infinitizado positivamente em Deus deve ser necessariamente bom e verdadeiro. Uma bondade e uma verdade que coloque o homem num estupor apaixonado. a do querer humano ao pensamento da onipotência. se a razão humana não fosse autônoma e livre.

é sempre mais crível do que a morte´9. Tal pergunta é alimentada pela esperança do desaparecimento da fugacidade do tempo na eternidade. a) Deus como origem absoluta da possibilidade da experiência do mundo e da instância moral. c) Deus como fim absoluto esperado. 8 7 . De certa maneira o vazio do nada ameaça devorar a sua existência temporal. a esperança se apresenta como crível. incrível. Endliches und ewiges Sein. se não até mesmo nocivo para o homem. é incrível e. prorrogado. Quem decide por um agir sensato e se aceita como ser livre e responsável vai na direção de uma origem diferente daquele encontrada apenas no mundo. Uma visão mecanicista da origem do mundo (como a de Darwin) pede. ³Diante da inegável realidade de que o meu ser é fugaz. Mesmo assim. neste saber de não saber. no entanto. por assim dizer. a pergunta sobre a origem é determinada em seu núcleo por uma decisão. b) Deus como força absoluta que sustenta a realidade presente do mundo e do homem. 9 Capítulo VI TENTATIVA DE UM ESCLARECIMENTO SISTEMÁTICO DO QUE SE TENTA OBTER NA PERGUNTA SOBRE DEUS. 9 Dolf STERNBERGER. Tal fenômeno pode ser interpretado positivamente pois. Paulo Ricardo de Azevedo Jr. ³A fé é realmente um milagre. tal origem não pode ser conhecida como algo que se encontra no mundo e a sua resposta não comporta uma certeza como um ³saber de domínio´. por assim dizer. Ora. e sempre exposto à possibilidade do nada. por princípio. pois desconhece a si mesmo e a sua origem. O homem sente na sua consciência a proximidade da morte. que chama a atenção. igualmente irrefutável. sou conservado no ser e que eu posso colher neste meu ser fugaz algo de duradouro´8. Este normal sentimento vital oculta conseqüentemente o espetáculo da nadidade da vida. mas não realizável pelo agir. e de instante em instante. o homem chega a uma compreensão de si mesmo. acontecimento e não como um processo mecânico causal. A pergunta sobre a origem absoluta pode ter como sentido a aproximação do homem consigo mesmo. O homem experimenta o mundo como evento. em virtude da minha origem? A compreensão evidente que o conhecimento humano não tenha capacidade de responder a esta pergunta de maneira definitiva não anula o seu sentido. da aspiração humana. ³Nós nos comportamos com grande segurança. a experiência de ser sustentados no nada. 34. não se pode deduzir a esperança. de momento a momento. uma interpretação filosófica. ibidem. Über den Tod. no entanto. O ateu ou indiferente diante da pergunta sobre Deus poderiam justificar o seu ateísmo ou indiferença afirmando que não há motivo algum para se interrogar sobre um além do mundo ou dizendo que Deus seria inútil. Porém. Tem-se. Edith STEIN. ou uma metafísica da vontade de potência. sobretudo porque não possui qualquer fundamento suficiente nas coisas e nas forças mutáveis e caducas que se encontram na realidade mundana. coloca-se uma outra realidade. A experiência do pensamento faz desaparecer a imediata segurança do ser. diante da morte como realidade destruidora de sentido e.P. A pergunta sobre o futuro absoluto é orientada pela consciência da morte. interpretada por Heidegger como antecipação da possibilidade incondicionada da morte. se esconde a tese geral segundo a qual é necessário contentar-se com o mundo humano ou da natureza materialmente fundada. Edith STEIN. não obstante tal fugacidade. então. que. se experimenta no mundo como um ser problemático a si mesmo. 56. como se o nosso ser nos pertencesse de forma estável´7. Também no campo da razão prática. eu sou. O resultado das ciências naturais não responde à pergunta filosófica fundamental: quem sou eu. Em ambos os casos. O homem. A obviedade da existência do mundo é um fenômeno significativo.

a) Os impulsos essenciais na elaboração dos argumentos a favor da existência de Deus. mas de uma µtroca¶ de papéis do único Deus. fundamenta todo sentido. O conhecimento de Deus é uma tarefa difícil. Mas estes mesmos caminhos podem favorecer contra-argumentações. pois necessariamente contrapõe Deus e o homem. para aquele que a vive. ³Não se trata de ateísmo. Embora o pensamento da infinição determine a direção do interrogar. pode-se encontrar pretextos contra e a favor do ser absolutamente necessário de Deus. O homem. Os caminhos para a demonstração podem ser gnosiológicos. no final.Teodicéia 10 A partir da vida humana. a acusação de antropomorfismo cai no vazio pois ela se apóia na infinição do finito. Se e como deva ser pensada esta realização. então. mesmo se são simplesmente indicações do pensamento finito que convidam à transcendência. Deus (sobre o qual se apóiam as esperanças do homem oprimido pelos enigmas) permanece essencialmente distante do pensamento finito. não pode querer que Deus seja Deus. torna possível e leva a termo a intuição de sentido que o homem realiza originariamente. mas ao contrário. mas não de demonstrá-la de maneira objetivamente vinculante. 17. o ateísmo será necessariamente rumoroso. Trata-se de motivações de caráter moral. de tal forma que não basta a pretensão de gritar eu também! A rivalidade só pode ser absoluta´11. portanto. . sine studio et ira. ou seja. sobre o que se deve interrogar quando se trata de Deus no campo filosófico: Deus é buscado enquanto potência que não está absolutamente disponível e que. ontológicos e cosmológicos. não parece ser uma pergunta à qual o homem possa responder. 16. demonstram-se necessárias como contraposição. pois não podemos dissimular como se o coração do homem não dependesse deste problema [de Deus]. Fica claro. ³Non potest homo naturaliter velle Deus esse Deus [. no entanto. O pensamento racional nos permite sim de esperar na realidade de Deus. IIIª PARTE O DEBATE FILOSÓFICO SOBRE A EXISTÊNCIA DE DEUS. o maior dom de todos os dons no mundo. ao assumir a contingência do finito. Hans BLUMENBERG. pensado como o alfa e o ômega do ser e do sentido da liberdade. o seu objetivo último..] Immo vellet se esse deum et Deum non esse Deum´10. Na impostação do nosso curso. Disputatio contra Scholasticam Theologiam. Capítulo VII SOBRE O SENTIDO DA ELABORAÇÃO DAS DEMONSTRAÇÕES DA EXISTÊNCIA DE DEUS E SOBRE O ³CARÁTER MODAL´ DOS POSSÍVEIS RESULTADOS. obtém uma urgência da qual nenhum homem pode se subtrair. assim. Matthäuspassion. o homem desejaria ele mesmo ser deus e que Deus não fosse Deus. A pergunta sobre Deus. A tentativa de provar com espírito de geometria a existência de Deus cria uma ficção. da potência que o mantém no presente e do fim no qual o homem e o mundo encontram sua última realização. direcionadas à 10 11 Martinho LUTERO. por assim dizer. Assim. Devido a esta rivalidade. imparcial. enquanto busca de sentido. Se a esperança de um sentido absoluto encontrasse. à qual aspira o homem enquanto ser finito. Pois. b) O aumento da problemática nas tomadas de posição diante da existência de Deus a partir de motivos práticos. pela sua natureza [decaida!].. as demonstrações da existência de Deus. Deus é. a própria esperança já seria. a partir das motivações da filosofia prática. Iremos agora investigar se existem reflexões racionais a favor de uma tal esperança. em uma avaliação. o pensamento se move na direção da origem de tudo.

P. a negação da existência de uma realidade incondicionada e infinita por parte de um ser determinado pela finitude e pela contingência é. Se é possível: O encontro do homem com a existência de Deus passa por um primeiro nível de dificuldade. Se é lícito assumir a existência de Deus: A esperança de uma realização absoluta pertence à essência de homem. um empreendimento ridículo. e saber. A tomada de posição sobre a existência de Deus possui diferentes graduações modais. acirradas. Como assumir a existência de Deus? No campo moral é dever do homem aceitar a existência de Deus. o saber e o crer. ao final da cadeia argumentativa. 11 realização do próprio sujeito. . c) A questão da modalidade na aceitação e confutação da existência de Deus. 3. que não permite réplica alguma.1. deve permanecer aberto à verdade. coativa. pTrata-se de saber se a existência de Deus seja: . Imperativa 1. que estão na base da distinção geral subsistente entre opinião.2. ela pode ser considerada não impossível. Ao mesmo tempo em que o homem reconhece que não é capaz de um saber absoluto. Necessária. mas de saber se é possível que ele exista e se é possível que o homem assuma sua existência. 2. no início da época moderna. Paulo Ricardo de Azevedo Jr. Não se trata de saber primeiramente se ele existe. A realização das disputas sobre a possibilidade da demonstração de Deus. O próprio Kant faz distinção ente o opinar. pois o homem deve acreditar que a aspiração à realização dos bens supremos (exigida pela razão prática) não se perde no nada. que se tornaram mais agudas. Ora. No entanto. Se uma opinião não pode ser excluída por motivos racionais. Assim. não iremos encontrar a evidência incontestável da existência de Deus. do ponto de vista teórico. isto sim. a opinião em questão pode ser sustentada. Ela põe diante do homem a necessidade de uma confiança sem a qual a sua aspiração seria no fundo insensata. Se o homem deve necessariamente assumir a existência de Deus: A necessidade de aceitar a existência de Deus não ultrapassa o modus deficiens do saber de não saber. mesmo as motivações práticas necessitam de uma elaboração teórica. Iremos perceber. Tomás de Aquino explicita como se dá este assentimento: per seipsum cognitum ab obiecto cum necessitate (a partir do objeto por necessidade) (conhecido por si mesmo) per aliud cognitum assensus (assentimento) (conhecido por outro) cum dubitatione: opinio (com dúvida: opinião) per electionem (por escolha) cum certitudine: fides (com certeza: fé) . que a existência de Deus é possível. 4. .4. Lícita.Se nada pode ser objetado contra esta possibilidade. Possível. . deve-se compreender que uma demonstração da existência de Deus não será uma inferência lógica necessária. mas que neste ínterim foram reduzidas a um significado meramente relativo dentro do âmbito de uma reflexão filosófico crítica sobre o pensamento de Deus.3. fé. lícita e imperativa. Pois.

porquanto a essência de Deus representa a resposta que satisfaz a toda pergunta. na qual aconselha ao leitor de fugir das ocupações e da confusão que tornam a vida mundana inquieta. nisi tu doceas. Na antiguidade. um ser do qual não se pode pensar um maior existe´. o fim de toda dúvida. de tal forma que hoje nos dirigimos à filosofia antiga com um interesse não somente historiográfico.. b) O argumento noológico de Santo Agostinho: Deus como verdade absoluta. o real não contém nada mais do que o simplesmente possível. «Doce me quærere te et ostende te quærenti. as demonstrações da existência de Deus eram fruto de um diálogo entre os crentes. a) O argumento ontológico de Santo Anselmo: Deus como ser supremo e necessário que existe indubitavelmente por si mesmo. 627). se perguntam como a existência de Deus possa se tornar racionalmente evidente. como vivente e cognoscente. desiderem quærendo. ³Assim. necessariamente. O fio condutor do argumento agostiniano é o aforismo: «Ubi inveni veritatem. por isso somente quem parte de Deus pode buscá-lo. Kant faz a distinção entre o real e o possível. o ser do qual não se pode pensar um maior tem. Que eu vos encontre amando. Queriam somente demonstrar como a certeza da fé podia se tornar também uma evidência racional. porquanto esteja enraizada e seja incompreensível. Emanuel Lévinas chama a atenção para o fato que Deus ultrapassa os limites do ser pensado e da possibilidade. No diálogo De libero arbítrio os dois interlocutores. Anselmo parece forçar os limites do pensamento humano. nec invenire. na sua possibilidade)´. Mas isso não é prova da existência desse ser. 1ª crítica: O argumento de Anselmo admite que pode ser pensado um ser cuja não existência seja impensada. quia nec quærere te possum. não tinham por finalidade persuadir um incréu. Prova somente a existência de sua idéia. 2ª crítica: Deus é sempre maior do que tudo que possa ser pensado.. ibi inveni Deum meum ± onde encontrei a verdade. Argumento do Proslogion ± ³penso um ser do qual não se pode pensar um maior. ³Um Deus demonstrado não é mais Deus.35). Uma certeza do ser de Deus.] Que eu vos busque desejando. Por isso. Logo. Esta tese ontológica constitui o fundamento do pensamento de Anselmo de Cantuária (‚ 1109) que tenta expor uma demonstração de Deus no seu Proslogion. mas dirigido á sua efetiva pertinência. nem encontrar. Inveniam amando. 1° passo: antes de tudo demonstra a existência do homem. alvo de toda busca finita da verdade.. em 100 táleres reais há algo mais do que simples conceito (ou seja. ambos crentes. é uma premissa e não o resultado do filosofar´ (Jaspers). (KrV B.] Quæram te desiderando. porém. A questão decisiva é o que significa a pergunta sobre Deus. ..Teodicéia 12 causou o fim necessário do sentimento de superioridade típico do início da era moderna. se não me ensinais. O ente mundano não traz consigo a origem do próprio ser. deseje buscando. porque nem eu posso buscar-vos. nisi te ostendas [. ame encontrando» (Pr 1). ao contrário do ser perfeito e persistente que se caracteriza pela autopossessão absoluta do ser. Capítulo VIII ALGUMAS NOÇÕES DAS MAIS IMPORTANTES VIAS TRADICIONAIS DA DEMONSTRAÇÃO FILOSÓFICA DA EXISTÊNCIA DE DEUS Se o homem pudesse conhecer a essência de Deus a questão de sua existência perderia sentido. Cem táleres reais não contêm nada mais que cem táleres possíveis« Com relação ao estado do meu patrimônio. aí encontrei o meu Deus» (Confissões 10. amem inveniendo ± Ensinai-me a buscar-vos e mostrai-vos ao que busca. O argumento ontológico é retomado por Descartes e criticado por Kant. Deus como «aliquid quo maius nihil cogitari potest». Ora. Anselmo inicia com uma oração. a existência. para tentar buscar um pouco de paz em Deus. se não vos mostrais [.

e) O argumento filosófico-moral: Deus como origem e finalidade do ato de vida responsável do homem. pois ela sabe de não saber. é um momento estrutural da filosofia de Kant. Tomás toma como pressuposto o seguinte princípio: ³tudo que se move é movido por outro´. ou seja. Kant não aprova a sua pretensão de certeza apoditiva. A segunda via parte de um conceito. Liberdade do querer. A característica marcante do ser possível é ter origem e fim. A quarta via se apóia na reflexão gnosiológica e ontológica de Platão. Há dois tipos de ser. algo no mundo se move. fica somente a possibilidade de buscar as causas de modo indeterminado (regressus in indefinitum). Paulo Ricardo de Azevedo Jr. É a via mais evidente. A exclusão dos regressos in infinitum se baseia no fato de que não existiria um motor movido se não houvesse um primeiro motor. mas de um arquiteto do cosmos. 4º passo: algo superior ao espírito finito é necessariamente Deus. esta é a demonstração mais antiga. o possível e o necessário. A terceira via é conclusão das duas primeiras. A perfeição suprema é o pano de fundo dos graus de perfeição mundana. tal como ele é percebido pelos sentidos. De forma análoga ao primeiro argumento. Na ausência da razão as coisas não podem dar a si mesmas uma orientação efetiva. ³A necessidade incondicionada. As causas eficientes no mundo podem ser pensadas somente como causas eficientes causadas. como explicar a espantosa finalidade dos órgãos corpóreos e dos complexos mecanismos que os regem? Tal argumento conduz à necessidade não de um criador (conceito evidente somente à luz da fé). porém é alheio à razão teórica. chega-se à conclusão de que a auto-causação é impossível. Tal perfeição pode ser interpretada no sentido de causalidade final. 13 2º passo: demonstrar a supremacia provisória da razão. os homens são incapazes de um regressus in infinitum assim como são incapazes de um regressus in finitum. ³por isso é necessário chegar a um primeiro motor que não é movido por ninguém e a este. O transcendente. 2ª conclusão: trata de excluir que se possa. que nós exigimos com tal urgência como sustento último das coisas. No entanto. que nos envia a uma transcendência. Se tudo pertencesse ao ser possível em algum momento dever-se-ia constatar o nada. Mas isso não acontece. d) O argumento teleológico de Tomás de Aquino: Deus como a causa final e como autor. Segundo Kant. A quinta via de Tomás de Aquino determina que as coisas necessitam de um princípio de que as governe. regredir ao infinito na série de motores movidos. logo existe um ser necessário. permanece incognoscível (a coisa em si). é o verdadeiro abismo da ação humana´ (Kant. KrV B. é necessária a existência de uma causa primeira transcendente. O conceito metafísico de Aristóteles chamado causa eficiente. Assim.P. Por exemplo. porém. todos chamam Deus´. encontra no âmbito da razão prática um conteúdo rico. c) O argumento cosmológico de Tomás de Aquino: Deus como fundamento da existência da realidade mundana A primeira via parte do movimento. 641). da realidade mundana. Trata-se de um argumento que leva em consideração as certezas teóricas do argumento teleológico. . pois tem como início uma constatação sensível. exige um fundamento racional. 1ª conclusão: algo não pode ser sob o mesmo aspecto movido e movente. que opera finalisticamente. Trata-se da busca da felicidade verdadeira que postula os problemas insolúveis da: 1. mas reconhece que ela corrobora a fé em um supremo criador até transformá-la em uma convicção irrefutável. A contingência dos fenômenos. O fenômeno do movimento. Aristóteles recorda que o primeiro motor imóvel move todo o resto da mesma forma que o amante move o amado. mais clara e que mais se adequa à razão humana. Ou seja. 3º passo: demonstrar que esta razão necessita de algo superior a ela. na busca de um movente.

a) A falta de uma manifestação natural de Deus no mundo e o não saber sobre o ser de Deus. a condição da possibilidade da vida do homem no mundo. admitindo a necessária tarefa racional de busca de Deus e reconhecendo-a como teoricamente insolúvel. existência de Deus. no máximo. Do ponto de vista católico. uma decisão. no entanto. inevitavelmente. As demonstrações não excluem a liberdade. não irá arrogar para si um saber absoluto a respeito do absoluto. O mistério prepara o homem para receber o dom inesperado e gratuito da felicidade pela qual aspira. imortalidade da alma. a mediação da natureza possibilita o caminho das infinições do finito. portanto. de uma existência do conceito de Deus. E uma vida conduzida pelo simples prazer se transforma um instante depois. evidente que uma liberdade finita só pode habitar diante de Deus tendo superado a sua fase decisória. e. g. estamos ligados às coisas do mundo. A problemática se torna mais aguda onde incide a morte com a perplexidade por ela causada tornando duvidosa a possibilidade de gozo da felicidade mundana. Capítulo IX OS FUNDAMENTOS OBJETIVOS DAS REFUTAÇÕES DA EXISTÊNCIA DE DEUS E DE SUA DEMONSTRABILIDADE Kant nega uma demonstração da existência de Deus de caráter científico como a matemática. Esta realidade levou pensadores. Nietzsche toma essa realidade como ponto de partida para não aceitação das provas de Deus. mesmo sem poder apreender o infinito como tal. ele postula a realização desta tarefa no campo moral. A distância entre Deus e o homem não deve ser lamentada. uma blasfêmia´ (M. 366). Deus não é percebido de forma imediata no mundo. pois é a condição da possibilidade de um ser-próprio finito. a sustentar que seja inoportuno um conhecimento certo da verdade absoluta. pois um Deus. cuja existência deve ser demonstrada. assim. de Martinho Lutero a Karl Barth. ³O conceito de felicidade não é tal que o homem possa extraí-lo de seus instintos. mas não rejeita uma argumentação que sustente a aceitabilidade da fé em Deus. Tratase. pode ser construída com todos os meios da lógica formal mais rigorosa. De forma análoga. de uma causa externa. . Tal relacionalidade da liberdade nos põe diante daquilo que é moralmente necessário: um escopo final que não exige um outro como condição de sua possibilidade. para sua atuação. Heidegger. é no fundo um Deus muito pouco divino e a demonstração de sua existência termina por ser. Kant combate a pretensão arrogante da Escolástica de seu tempo. Os maiores prazeres possíveis nos conduzem a uma experiência do limite. Uma pessoa que não tenha esta sensibilidade da pergunta sobre Deus não poderá encontrar nada de satisfatório numa demonstração da existência de Deus. na verdade. A demonstração da existência de Deus também pode ser vista como uma problemática existencial. os ateus não podem afirmar que representam o ³ponto de vista científico´. v.Teodicéia 14 2. porém. p. Crítica do Juízo. O problema de Deus exige. A liberdade humana implica uma teleologia moral.. Esta liberdade não necessita. não demonstra nada. Nietzsche I. (Kant. Assim. b) As vias argumentativas para Deus como problema e a necessidade de uma decisão racional. Quem compreende a si mesmo e a sua vida de forma correta. A ausência de um encontro imediato com Deus é. de sua animalidade´. enquanto seres do mundo. e nem irá renunciar à pergunta sobre o absoluto (tensão socrática). Tal posição levou Feuerbach a acusar a indeterminabilidade e a incognoscibilidade de Deus como sendo fruto da incredulidade moderna. ³Uma demonstração de Deus. 3. derivando-o. É. 388) Isto faz com que Kant desenvolva um postulado da razão pura prática (a necessidade de o homem alcançar sua própria realização) transformando-o numa demonstração moral da existência de Deus. no seu contrário. Se isto acontecesse acabaria para o homem toda não-verdade e maldade. portanto.

a religião não pode ser denunciada como ópio do povo. Mesmo assim. Se assim não fosse. porém. Um ser que fosse a fonte originária do mal não pode e não deve ser tido como Deus. Afastada esta tentação. Trata-se da própria possibilidade do mal enquanto necessidade própria do ser finito enquanto tal. grita sem se dar conta do próprio ser. Trata-se de crer ou não que a vida tenha sentido. por parte de alguns crentes. o recurso a um autor divino deve ser considerado como um princípio da razão preguiçosa. o homem pode responder à pergunta de como deve se comportar diante do sofrimento. A validade de suas teses deve ser garantida independentemente da questão sobre a existência de Deus (etsi Deus non daretur). A liberdade humana não é pensável em um mundo cujo sentido já tenha sido determinado desde o início. . Paulo Ricardo de Azevedo Jr. mas. No dizer de Agostinho. na constituição Dei Filius condena as seguintes posições: o Fideísmo (supremacia da fé e desprezo de todo dado racional). o que leva a alguns ateus a excluírem a existência de um Deus tapa-buraco. contra Deus. 1. De libero arbitrio. o mundo seria menos perfeito se não existisse a possibilidade do pecado (cf. Para o homem. o Racionalismo (confiança irrestrita na razão e desprezo da fé) e o Agnosticismo (crença na incapacidade de a razão humana alcançar qualquer conhecimento sobre o Absoluto). Trata-se de responder à seguinte pergunta: de que forma Deus pode ser autor de um mundo no qual existe o mal? Uma resposta exige a definição do mal. do sofrimento presente no mundo não é o sintoma de um conflito entre o homem e Deus. Sabendo que não é capaz de compreender o sentido do mal.P. A acusação. 15 O Concílio Vaticano I. Para tais cientistas. Como desvincular o conhecimento do mundo da questão do significado do mundo? Permanece.26). Contra esta exclusão de Deus podemos obviamente nos perguntar como seria possível pensar a existência do mundo e do homem se Deus não existisse. Trata-se de postular que as ciências escatológicas devam apresentar os seus resultados permanecendo neutras diante da questão de Deus. que sorri feliz e contente e. se pode ou não acreditar em um Deus onipotente e sumamente bom.21). está geralmente mal posicionado. saciado. Essais de Théodiciée. diante do mal do mundo. o problema da instrumentalização da fé. então. o problema da onipotência e da bondade absolutas. a raiva e o medo diante de uma possível tragédia impulsionam o homem a distanciar-se do mundo e do seu código genético. Mais precisamente do que a funcionalização de Deus nas ciências é a utilização de seu nome para interesses pessoais como o exercício do poder. então devemos confessar que ela é um empreendimento falido. A angústia. c) O Malum como desafio ambivalente da fé em um criador divino do mundo. Coloca-se. o mal é tudo o que contrasta com uma tendência com a qual ele se identifica. Capítulo X REPRESENTAÇÕES CRÍTICAS DE ALGUMAS FORMAS EXEMPLARES DE ATEÍSMO a) O problema do ateísmo metodológico e as formas práticas de descaso de Deus. O homem deve reconhecer de não saber. porém. Tal compreensão depende de uma decisão do próprio sujeito. Se a teodicéia é uma defesa de Deus diante das acusações da razão por tudo o que de mal acontece no mundo. ele permaneceria na condição sonolenta do recém-nascido. às vezes. Leibniz acrescentou à distinção clássica entre o malum morale e malum physicum ao conceito malum metaphysicum (cf. d) A questão não resolvida da teodicéia como exemplum crucis da teologia. o pensamento clássico é unânime em afastar de Deus a possibilidade originária pelo mal. 3. um conflito interno do homem consigo mesmo. no qual está em jogo a autêntica auto-compreensão do homem. Tal questionamento.

que a fé seja a forma de representação da religião enquanto o pensamento seja a da filosofia. exaltando os fracos e os fracassados. Assim. A concepção de identidade entre Filosofia e Religião é insustentável. Já a Religião vive da indedutível confiança na onipotência e na suma bondade do infinito. A Antropologia é elevada à Teologia e os atributos de Deus.Teodicéia 16 Contra a indiferença do ateísmo prático deve-se considerar a abertura do conhecimento do homem que não se satisfaz com a finitude. a consciência do homem é infinita.´ (Schiller) Hegel comenta. Seguindo este método ele descobre na Antropologia o segredo da Teologia. Nietzsche é ateu. a fé na utopia real. De forma semelhante o seu livre arbítrio: ele não escuta . Quanto aos predicados divinos. b) A tentativa de destruição iluminista e de interpretação antropológica da teologia de Ludwig Feuerbach. O cristianismo declarou uma guerra mortal contra este homem superior. é evidente que o homem é pobre e mortal. ³os deuses gregos encontram lugar somente na representação e na fantasia´. Hegel põe a tese da projeção a serviço da verdade do Deus cristão. não haveria diferença entre religião e filosofia. Ele não nos propõe um pensamento sistemático sobre Deus. e muito menos a consciência de um ser infinito. Porém. são transpostos para a essência do homem. A escapatória do homo faber (homem dominado pela razão poiética) termina em um beco sem saída com a sua morte. Assim. Feuerbach faz pouco caso da autolimitação crítica do pensamento filosófico (saber de não saber). arauto da morte de Deus e anticristo. pois a Filosofia sabe de não ser capaz de conduzir a um saber absoluto. Mas esta fé atéia claramente já naufragou e o pensamento não parece poder escapar do niilismo. os homens eram mais divinos. ³Porque o ateísmo hoje? O Pai em Deus deve ser radicalmente refutado. assim. o desengano da busca do incondicionado é o seu contra-projeto para a superação do niilismo. A essência do homem é representada pela consciência. c) Friedrich Nietzsche. incluindo a onipotência. Logo. Ele valoriza o instintivo e o irracional como categorias interpretativas do mundo. Marx critica Feuerbach por não ter dado atenção suficiente à miséria humana e reconhece que a religião permanece necessária enquanto durar esta miséria. O homem e Deus se excluem no que diz à existência. o remunerador. mas nega radicalmente a fé. o pensamento de Feuerbach pode ser avaliado positivamente como uma chamada de atenção para as imagens antropomórficas de Deus. Trata-se do fracasso da metafísica ocidental ao confundir o ser com o ente. o ser de Deus torna-se vão. mas não no que diz respeito à essência. Dizendo isso.mim. ele pode ouvir o contrário de sua própria argumentação. Se o ser do homem é divinizado. assim também o juiz. querido digno de viver. A filosofia platônica e a fé cristã são os adversários de Nietzsche. ³Quando os deuses eram ainda mais humanos. ao dizer ³Deus está morto´. Feuerbach despreza a distinção entre Deus em-si e Deus para.´ Ora. Nietzsche falou em nome do Ocidente. Segundo Heidegger. um Eu e um Tu. mas uma distinção entre fé particular e razão universal. Feuerbach usa uma argumentação para provar que o homem possui uma consciência infinita. Tal argumento poderia ser considerado o antípoda do argumento ontológico da existência de Deus: ³um ser verdadeiramente finito não tem a mínima idéia. Mesmo assim. o homem é. Quando Feuerbach assistiu às lições de estética dadas por Hegel. Crítica: é positiva a veneração do divino. para ele óbvia. o homem tem consciência do infinito. Ele propõe Dionísio como alternativa ao crucificado e como tipo de homem que deve ser alimentado. ao mesmo tempo. A partir dessa concepção de homem. Feuerbach parte da pressuposição. mesmo se limitado à essência do homem. Também para os crentes Deus habita em luz inacessível e a sua verdade pode ser encontrada somente enquanto e porquanto ele mostra-se a si mesmo. A sua meta iluminista é transformar a religião em Filosofia e a fé em pensamento. Marx cria.

P. A falta de paz e a sede de liberdade de Nietzsche atestam o seu coração inquieto. devemos perceber o seu desconforto com tudo aquilo que é mistério. d) Formas exemplares de ateísmo humanístico da seriedade e da responsabilidade. . não abandona a esperança de uma verdade que deve ser esperada quando o tempo do mundo chegar ao fim. Nietzsche perde a esperança de que existe uma verdade. verás como a gente se sente leve´. 1. mas que deve somente apostar. A fidelidade de Nietzsche a terra faz com que ele postule a incredulidade como uma ação consciente e responsável. Considera-se antagonista de Deus. porém. na verdade. da guerra dos camponeses e da reforma. a gratidão pela vida. O personagem principal é Götz (filho bastardo de um pai nobre). mas a uma situação de decisão. Nietzsche responde como uma provocação: ³Aposto que não encontrará nada´. Ele escreve: ³Que direito possuem os veneradores do desconhecido e do mistério em si. Paulo Ricardo de Azevedo Jr. porém. Camus deixa em aberto se o Getsemani humano terá uma resposta ou não. os deuses e o divino são de per si irrelevantes. Camus busca sua resposta à pergunta da existência de uma lógica até a morte. A negatividade do absurdo. à busca da verdade. entregando a chave a Götz. um assassinato de Deus. onde os pobres se revoltaram contra a Igreja. (Para além do bem e do mal). Heinrich desmascara Götz mostrando que os homens não podem evitar o mal. como a verdade absoluta não se mostra no presente. se escutassem não seria capaz de ajudar. centro da crise religiosa e social. nenhuma ditadura pode ser condenada. a existência é insensata e absurda. a nobreza da vida. pois o absurdo aparece. Götz diz a Heinrich: ³nós dois não temos nada e não somos nada desde a infância eu olho o mundo pelo buraco da fechadura renega este mundo que te renega! Faz o mal. no qual o absurdo. 17 e. já no inicio do seu pensamento. Camus realiza um ³suicídio filosófico´. como os antigos filósofos. A morte de Deus conduz a uma morte do homem: se não há verdade e nem obrigação. Götz muda de atitude e aposta com Heinrich que ele poderá fazer o bem e tornar-se um santo. Pa/qoj: a alegria de viver. Para além do bem e do mal) Para compreendermos porque é necessário para Nietzsche refutar a fé em Deus. Camus propõe Sísifo como modelo de homem que tem suas forças absorvidas pela faina diária. O drama de Sartre tem como ambiente o início do século XVI. A sua vida não o conduz a um ateísmo dramático. O pior é que ele parece incapaz de comunicar de maneira clara: Será obscura?´ (Nietzsche. Os antigos valores devem ser substituídos por um novo (pa/qoj). a esperança e a morte debatem entre si. nenhum delito pode ser desaprovado. Nietzsche. mesmo sabendo da carnificina que ele irá provocar. não autoriza o suicídio nem a esperança. Como espectador deste jogo desumano. Se ele quer fazer a si mesmo. do teatro metafísico do mundo. 2. Nietzsche insiste na possibilidade de conhecer agora a verdade absoluta. mas o belo título de fratricida eu o devo a meus próprios méritos´. Um padre chamado Heinrich trai a cidade. de adotar uma interrogação como Deus? Um Deus que se mantém escondido merece medo. O humanismo ateu em O diabo e o bom Deus (Le diable et le bon Dieu) de Jean Paul Sartre. Ele se dá conta de que não pode saber nada. A luta a respeito das teses de Nietzsche não terminou e nem pode terminar enquanto durar o tempo do mundo. Para Sísifo. deverá fazer algo de novo. Götz vê no mal a sua razão de ser. O espírito absurdo em O mito de Sísifo (Le mythe de Sisyphe) de Albert Camus. Trata-se de uma decisão que nenhum homem pode evitar. na região de Worms. O verdadeiro conhecimento revela a ausência de uma realização na vida e se impõe como questionamento da esperança. O arcebispo envia Götz como chefe do exército para assediar Worms. Sendo assim. Götz tenta superar seu isolamento social fazendo o mal por amor do mal (diabo). A quem se dedica. Götz mata seu próprio irmão Conrad dizendo ³eu fiz a mim mesmo: bastardo eu o era de nascença. Assim. mas não adoração´. ³O absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites´. O apetite pelo absoluto é a forca que põe em movimento o drama humano. A doutrina da morte de Deus é.

Götz celebra a sua descoberta com palavras parecidas às do memorial de Pascal.Teodicéia 18 Götz torna-se um grande benfeitor. Götz acusa Deus e nota que ele não existe. A não existência de Deus é uma libertação. Passado um ano. Deus não é digno de fé. Deus concede ao homem a liberdade. Disto deriva o sentido da insensatez do mundo. ³A doutrina teológica da predestinação é uma invenção verdadeiramente diabólica da especulação. 7. permanece fiel à sua vontade de se tornar um ente a partir de si mesmo e. Deus é a finalidade escatológica e o tribunal de toda aspiração humana à sabedoria e à justiça. 2. a responsabilidade e a tarefa. Deus torna possível uma esperança do homem para além da morte. IVª PARTE SOBRE A RELAÇÃO ENTRE O ASSIM CHAMADO «DEUS DOS FILÓSOFOS» E O DEUS VIVO DA FÉ. A divindade representa a finalidade ideal da vida e da aspiração humana. Ele se dispõe a viver uma vida numa esperança sem esperança. mas é perseguido pelos nobres. Capítulo XI A DISTÂNCIA ENTRE O PENSAMENTO HUMANO DE DEUS E A SUA REALIDADE NA FILOSOFIA DE PLATÃO. escondida debaixo do manto protetor da devoção religiosa´. Em ambos os casos. No desenrolar final. 3. 3. um mundo que tivesse sentido desde o princípio seria justamente a completa insensatez. ³Um Deus não pode nem deve existir por causa da liberdade. Inicialmente ele fica prostrado. Sua mulher. A voz de Deus é imediatamente perceptível pela consciência. 6. 5. a potência de Deus nos conduziria à aniquilação de um ser que possa querer e agir responsavelmente. O homem só poderá ser pessoa se ele realizar. Sustenta-se aqui a tese da epigênese do sentido do mundo. tenta convencê-lo de que ele está agindo por desespero. determinar e escolher a sua própria finalidade. ao não consegui-lo. mas tal realidade não é alcançável pelo agir humano. Tal fenômeno é teoricamente incompatível com a presciência e a providencia divinas. A posição de Platão sobre Deus e o divino pode ser resumida assim: 1. da tarefa ± por causa do sentido da existência do homem´. Começou a viver na solidão e na mortificação. o ser por si deseja alcançar o ser em si. Deus é o artífice inapreensível e livre de inveja do mundo. age livremente e se preocupa com o caminho do homem. Se é o homem quem dá sentido ao mundo. Götz. a) As características essenciais do discurso explícito sobre Deus nos escritos de Platão. Götz se reencontra com Heinrich e se dá conta de que fizera o mal como antes. Nicolai Hartmann assume a primazia do dado fenomênico sobre a teoria. Ele vê o fenômeno da ética como indicação da realidade da liberdade e da responsabilidade humanas. mas depois descobre um comportamento que poderíamos chamar de ateísmo humanístico. Deus é sumamente justo. Hilda. O sentido da insensatez e a epigênese do sentido em Nicolai Hartmann. sendo mau. durante toda a peça. não realizável e tal opção o aproxima do marxismo. . O caráter ateleológico do mundo cria a liberdade. Assim. Sartre não crê neste ideal por não ser realizável no mundo. Sartre interpreta este ideal como o homem-deus. ou seja. da responsabilidade. procura fazê-lo sendo bom. Podemos concluir que também para Sartre a realização do homem estaria em Deus. 4. Assim.

dilatou o espaço entre a visão filosófica e a visão religiosa de Deus. Esta não alteridade não significa uma identidade completa. negativo e mito-poiético da teologia filosófica de Platão. a perda de autonomia institucional sofrida pela filosofia na Idade Média fez com que a época Moderna reagisse mudando a imagem que a filosofia tinha de si mesma. no entanto. pois Deus é experimentável e. Na realidade. Segundo Heidegger. Neste campo nascem os conflitos da época moderna. retomando o principio socrático de saber de não saber. b) O caráter fundamental. Os primeiros autores cristãos. As semelhanças entre o Deus platônico e o Deus bíblico são surpreendentes. mas a Filosofia deve falar de Deus. não dogmática e metafísica. a linha de separação entre a filosofia e a teologia. É a fé na ação real de Deus. inapreensível teoricamente. diante dele nenhum homem pode cair de joelhos. durante séculos procuraram a conciliação entre o dado da fé e o lo/goj helênico. A metafísica é o ponto mais elevado da filosofia de Aristóteles: doutrina do ente supremo. Deus tornou-se uma idéia funcional dentro do sistema imanente da visão de mundo cartesiana. Tal instrumentalização da idéia de Deus. Platão erige um altar de pensamento ao desconhecido Deus-Pai. Tal inapreensibilidade convive com a necessidade cientifica de pensar Deus como pode ser constatado nos principais mitos da República: os homens nada podem saber de Deus. embora se deva notar a importante ausência do conceito da graça. No livro da Metafísica. E. Trata-se de um pensamento divino que se compraz em pensar a si mesmo. pode-se falar de motor imóvel como objeto de desejo e pensamento. No livro XII da Metafísica. que combate desde o principio o politeísmo. Ele faz apologia contra os ateus. Agostinho propõe sinteticamente no De vera religione que não existe uma alteridade entre o Deus dos filósofos neoplatônicos e o Deus cristão. a) Pré-história da distinção entre o Deus dos filósofos e o Deus vivo. Para Aristóteles a imutabilidade de Deus não deve ser compreendida como rigidez fixista. como substância suprema e vida suprema. O próprio Kant expressou esta diferença na identidade através do esquema de círculos concêntricos. a partir daí. Assim. onde ele não cala a respeito de Deus. A progressiva matematização da filosofia conduziu a uma visão mecânica dos processos de ordem natural. mas como forma suprema de vida e de energia. Paulo Ricardo de Azevedo Jr. Platão expressa filosoficamente um conceito de Deus bastante próximo ao da religião. Trata-se da afirmação da univocidade do ser. usa uma linguagem apofática contra os presunçosos e produz representações míticas do mistério para aqueles que estão abertos ao infinito. na reflexão não objetiva. É importante notar que tudo é derivado de uma concepção física do mundo. perdendo a noção da a)lh/qeia como revelação livre do ser. .P. pois sabe distinguir a fundação transcendental da filosofia da descrição fenomenológica. c) O caráter apologético. não se pode orar a este Deus filosófico nem fazer sacrifícios em sua honra. Platão possui uma filosofia que procura ser científica. Aristóteles propõe um modelo evidente do Deus dos filósofos: Deus é puro pensamento e pode ser colhido e captado. Aristóteles dá atenção à orientação empírica da filosofia pré-socrática. Heidegger critica Platão: ao fazer do ser uma idéia. corroborada pela ³metodológica vontade de ateísmo´. cheio de reverência ou mesmo produzir música e dançar. mas cala diante de Deus. No entanto. Aristóteles expõe o seu famoso argumento sobre a existência de um motor imóvel. Capítulo XII BLAISE PASCAL E A CONSCIÊNCIA DA TENSÃO ENTRE O DEUS PENSADO E O DEUS EXPERIMENTADO. Platão o teria transformado em objeto disponível e manipulável. Platão não merece tais críticas. da teologia aristotélica. teoricamente reflexivo. 19 A imagem platônica de Deus é paradoxal.

religião: o que devo esperar? Para Kant. portanto. ou tomar o caminho contrário que conduz necessariamente ao caos infinito. . Não se trata de uma simples experiência mística subjetiva. a verdade da filosofia deve se despedaçar. A crítica de Kant leva a dois resultados a respeito do pensamento sobre Deus: 1) negativo: não é possível uma demonstração. teoricamente insolúveis: . Ao considerar a existência de Deus. Kant chega a conclusão de que as demonstrações de Deus não atingem a finalidade proposta e postula.Teodicéia 20 b) O abandono por parte de pascal do espírito de geometria e o seu voltar-se para o Deus vivo da fé. Ao contrário de Descartes. que vêem a filosofia more geometrico (de forma geométrica). É inevitável a aposta: ou aceitar a possível existência de Deus que parece lhe prometer uma vida infinitamente feliz. O homem. Pascal reconduz a filosofia ao espírito de fineza dos antigos. Assim. um tudo diante do nada´. duas tarefas necessárias. Com isto. da refutação de um Deus encontrado intelectualmente como presunção de um saber absoluto o saber. pois conduz à blasfêmia. ³A grandeza do homem é grande quando ele se reconhece miserável´ (P. incapaz de chegar a Deus com a razão. de uma abertura para a possibilidade da revelação. espera a sua intervenção supra racional. Ao renunciar ao espírito da geometria.moral: o que devo fazer? . se abre a uma relação com o Deus vivo. só podemos conhecer coisas finitas. Com isto. A filosofia se coloca como via intermediária entre estes dois tipos de ciência. Capítulo XIII A CRÍTICA DA METAFÍSICA DE IMMANUEL KANT E O PENSAMENTO SEM DEUS DE MARTIN HEIDEGGER COMO INDICADORES DE UMA TAREFA NECESSÁRIA a) A passagem das categorias físicas para as pessoais no pensamento kantiano sobre Deus. A decisão a favor de Deus teria uma força persuasiva infinita. ao tomar consciência disto. O texto insiste em acontecimentos históricos muito concretos. ³O homem é um nada diante do infinito. A verdadeira função da filosofia é preparar o homem para a aceitação da revelação dando a ele a verdade sobre a sua miséria. segundo Pascal. não é a negação de um acesso filosófico a Deus enquanto ele é buscado no saber de não-saber. mas. 146) O verdadeiro objeto da filosofia é a desproporção que está no ser do homem. Podemos concluir que a negação do Deus dos filósofos para Pascal. Pascal chega a resultados semelhantes aos de Platão: o homem é uma realidade surpreendente e. Assim. Para Pascal existem dois tipos de ciência: ciências ligadas à autoridade entre as quais a maior é a teologia. Trata-se. Trata-se. embora a razão sinta a necessidade de recorrer a pressupostos que estão além da experiência. A aposta de Pascal não quer demonstrar uma verdade de razão. Pascal formula a tese de que Deus é infinitamente incompreensível. um comportamento racional. ao contrário. No Memorial de Pascal o encontro com Deus na história é decisivo. ³Caçoar da filosofia é verdadeiramente filosofar´. Como conseqüência. a filosofia pode escolher entre a certeza orgulhosa e o ceticismo que conduz à tristeza. e ciências ligadas à experiência e à razão. mas quer apontar para o fato que a fé é uma escolha racional. c) A experiência crente de Deus por parte do homem que a ele se abre como acontecimento imprevisível. ao lado da filosofia crítica (o que posso saber?). e dar lugar à verdade do Evangelho. A verdadeira atitude do homem está no equilíbrio. É a famosa aposta de Pascal. a coisa em si que não pode ser conhecida é uma indicação necessária de que o conhecimento humano não é absoluto. Assim. o conhecimento nasce da unificação da experiência. os homens não são capazes de saber o que seja Deus ou se Deus existe. a refutação do Deus dos filósofos adquire uma natureza filosófica e se torna a refutação do Deus de alguns filósofos.

Poderíamos inverter seu pensamento: Deus. Heidegger. A poesia de Hölderlin trata de uma fuga dos deuses. Assim. também Heidegger. c) A necessidade de uma renovação da filosofia não dogmática no atual pensamento sobre Deus. Tal encontro é realizado pelo próprio Deus. Por estranho que possa parecer. não tem necessidade de existir´. A confiança do crente põe sua esperança no fato que o desejo seja uma . Esta busca leva o homem a conhecer suas próprias possibilidades e limites. Deus. Nesta visão. ao mesmo tempo. Deus torna-se um postulado da razão prática. b) a refutação por parte de Heidegger do Deus filósofos e o falar não metafísico sobre Deus Para Heidegger. aquilo que é grande e não habitual é nomeado através daquilo que é cotidiano de pouca valia. O pensamento filosófico sobre Deus deve se defender da negação de Deus como se ela fosse cientificamente fundada. deixando de lado o Deus da Filosofia. A atual pesquisa metafísica está marcada pela recusa de toda ontologia dogmática. enquanto os homens não se tornarem pensadores e capazes de habitar na sua vizinhança. em última análise. ou seja. a pergunta sobre Deus abandona o mundo da física e. Baudelaire afirma ironicamente: ³Deus é o único ser que. Capítulo XIV A CONSCIÊNCIA DA INCONCEPTIBILIDADE DE DEUS NO CAMINHO DA BUSCA DE DEUS DE AGOSTINHO E NICOLAU DE CUSA a) A dialética irredutível da busca e do encontro de Deus no pensamento filosófico de Agostinho. Nenhum homem é capaz de encontrar o caminho para Deus. não precisa se impor ao homem pensante. Deus é buscado como aquele que estimula esta busca e que se dá a conhecer quando a eternidade irrompe no tempo. no entanto. pois ela permanece não disponível como dom de um Outro desconhecido e misterioso. no entanto.não obstante a sua inalcançabilidade. Na poesia. Paulo Ricardo de Azevedo Jr. a filosofia no Ocidente está marcada pelo niilismo por ter identificado o ser com um ente perfeitíssimo. Pensar Deus é simplesmente buscá-lo. compreendida como realidade íntima e pessoal. lugar à fé. sem a pretensão de poder saber. através do pensamento poético. pode ser lida como a refutação do Deus dos filósofos e. Não obstante a distância fundamental. Seria igualmente uma catástrofe o pensamento filosófico sobre Deus que se encontrasse uma demonstração rigorosa da existência de Deus. como o poder questionar. Dá-se. Não há mais espaço para um pensamento que tome posse da verdade do todo. o filósofo aparece como um homem a espera de uma proximidade santa entre Deus e o homem. O caminho da busca inicia fora de si e conduz ao retorno a interioridade: ³no homem interior mora a verdade´. para reinar. Filosofar significa o tender a uma sabedoria que nenhum filósofo pode possuir com as próprias forças e que. da metafísica para habitar o espaço da moral. assim. o não saber é constitutivo de todo filosofar. causada pelo homem. 21 A filosofia crítica conduz à possibilidade de crer na existência de Deus. A verdade pela qual o homem anseia é. Este esquecimento do ser deve ser respondido com um pensamento sem Deus. a crítica conduz a um caminho intermediário entre o dogmatismo e o ceticismo. proximidade que ele não pode por em ato. 2) positivo: a constatação de uma abertura infinita que pode ser assumida somente pela fé. a abertura de uma aceitação onde quem crê recebe o próprio ser como dom. A verdade não possibilita a existência de um saber dominante. O caminho para a vizinhança dos deuses está no próprio homem. postula um acesso à pergunta sobre Deus. portanto. Agostinho vê o homem como um coração inquieto. Segundo Kant. embora exista. A sentença de Nietzsche: ³Deus está morto´. trabalha para eliminar o saber e fazer. Deus deve ser pensado como o mais presente justamente porque o mais distante. Assim. como esperança do Deus divino.P. juntamente com Kant. um mistério no qual o pensamento se transforma em ação de graças. pois Deus e o homem se pertencem. constitui a verdade do todo que é buscada pelo homem. ou seja.

o esforço tradicional da linguagem analógico-simbólica da tradição de Ocidente. que caracteriza a Filosofia desde a sua fundação. não pode dizer o Absoluto. nos deparamos com um paradoxo: qualquer resposta obtida ou destruiria o ser do próprio homem enquanto finito. Deus concede uma tranqüilidade que não suprime a diferença entre Deus e o homem. a natureza do objeto pelo qual se pergunta. Aqui. o espírito Santo. Porém. como ser recebido. CONCLUSÃO O nosso itinerário nos levou a uma abordagem fenomenológica do homem enquanto lugar da pergunta pelo absoluto. porém. Esta possibilidade não existe em Deus. Cabe agora ao crente bater à porta e aguardar com paciente esperança a revelação definitiva do mistério. A razão dialética. arrancam o homem da ilusão da modernidade moderna. O cusano vê em Jesus a união entre Deus e o homem. Assim. Tal compreensão nos posiciona numa alegre expectativa de que o Absoluto pronuncie uma palavra. a Filosofia nos deixa na soleira da porta da Teologia. na busca de um conceito de Deus que fosse noeticamente indubitável. o que é característico do pensamento de Nicolau de Cusa é a introdução da reflexão filosófica no pensamento trinitário. que vem de pode + é. O homem do Ocidente se reencontra no socratismo que fundou a sua civilização. . neste sentido. Na esteira de Emanuel Levinás fomos levados a palmilhar o caminho do infinição. Interpretamos.non-aliud: o conceito de não-outro se aplica a Deus na medida em que algo pode ser conhecido em contraposição a outro semelhante. . mas pode apontá-lo. nos últimos anos de sua vida são: . O conhecer a si mesmo e o saber de não-saber.Teodicéia 22 pregustação da felicidade de Deus. mas ai de quem não sonha. Todo este itinerário nos convida a reformular o conceito que temos de nós mesmos e o conceito que temos da Filosofia. mas igualmente demonstra a impossibilidade do abandono da busca. O amor amável do Filho tem uma profunda unidade com o amor amante do Pai. Que não elimina o seu ser humano. Pode parecer um sonho. Exemplo de tais conceitos. Nicolau de Cusa aspirava com incansável fervor ao inconcebível. O Filho é a mediação entre Deus e o homem. ou eliminaria a verdade do Absoluto enquanto tal. para usar uma expressão de Wittgenstein.possest: neologismo criado por ele. Tal opção foi confirmada ao investigarmos longamente a natureza das demonstrações e das refutações da existência de um Absoluto Transcendente: a razão humana. Ao analisarmos. Como não é possível que existam dois deuses vê-se que tal autoridade deve ser pensável como identidade do infinito. fundada sobre uma razão que tudo pode e sobre uma Filosofia elaborada por geômetras. Deus pode ser alvo do desejo humano somente se for concebido ao mesmo tempo como amante e amado. A consciência e o sentimento de que o Absoluto fosse infinito não lhe deixava em paz. b) O insuperável muro do paraíso na busca de Deus de Nicolau de Cusa. Concluímos que tal pergunta faz parte do ser homem do homem. faz com que não seja possível uma posse absoluta da verdade. O perguntar sobre Deus revelou ao homem que ele deve compreender a si mesmo como dom.

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