FISCHER, Rosa Maria; NOVELLI, José Gaspar Nayme.

Confiança como fator de redução da vulnerabilidade humana no ambiente de trabalho. IN: Revista de Administração de Empresas, Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2008, v.48, n.2, p.67-78. Resenhado por: Sandi Rieger O artigo de Rosa Maria Fischer e José Gaspar Nayme estuda como a confiança depositada nos trabalhadores pode influenciar no ambiente organizacional, reduzindo a sensação de fragilidade inerente ao ser humano, e aumentar a produtividade e a coesão do grupo cooperativo, minimizando riscos e danos. Empenhada em conhecer o que os profissionais percebem, a pesquisa usou uma abordagem qualitativa, aplicando um questionário sem estrutura e aberto, estimulando o diálogo espontâneo, em um grupo de oito gerentes de multinacionais do setor de telecomunicação, farmacêutico, agroindustrial e de consultoria, e de empresas de capital nacional, do ramo financeiro, de energia e educação. Os autores investigaram se os gerentes das organizações têm percepção da vulnerabilidade humana em relação a um ambiente com confiança ou sem, como reagem à situação e quais as suas influências no processo de gestão. Foi destacada a década de 1980 em decorrência de mudanças de larga escala e radical profundidade nas áreas econômicas, sociais e interpessoais onde a produtividade nas empresas aumentou, mas o estímulo à busca de satisfação de interesses pessoais contrariou o conceito de grupos cooperativos. O trabalho desenvolvido se estrutura em fundamentação teórica, metodologia de trabalho, análise dos dados e considerações finais. Na fundamentação teórica foram apresentados alguns dados elaborados pelo Dieese em 2000 e 2001 que comprovaram um aumento na produtividade do Brasil, em 2,55% entre 1992 e 1998, devido as mudanças no contexto de organização do trabalho. Na contramão, no mesmo período, aumentou o desemprego em 17% mais 16,4% de trabalho informal. Os autores perceberam que o valor do trabalho se tornou precário por algum motivo. Eles apontam que o ambiente de trabalho se tornou improdutivo para o estabelecimento da confiança, tão necessária, para a coesão entre grupos de trabalho. Então, a confiança foi definida economicamente, psicologicamente e sociologicamente. Assim sendo, conforme os autores: “a confiança reduz a

sensação de complexidade do ambiente, na medida em que propõe ao indivíduo a garantia da realização de determinado compromisso que, isoladamente, ele não teria condições ou informação suficiente para fazer” e “a confiança se dá numa relação que envolve riscos, calculados ou não, de frustração” (p.70). Também foram estudados o que acontece em um ambiente sem confiança, fazendo uma reflexão em cima da obra Ser e Tempo de Heidegger, resultando que o homem fragmentado fica paralisado e a falta de confiança aumenta o temor impedindo-o de superar seus desafios. Nota-se, então, o quanto é importante para o ser humano as relações de confiança entre as partes envolvidas “[...] essa é a solução que pode dar conta da interdependência funcional no interior das empresas” (p.71). A fundamentação prática foi embasada por um questionário aplicado em profissionais com poder de decisão pertencentes às organizações de médio e grande porte, mais diretamente afetadas pelas turbulências e rupturas no mercado de trabalho, especialmente após a dispersão de técnicas que exigem capacidade e habilidade de reação rápida às mudanças de mercado aplicadas a partir de 1970. Conforme os próprios autores, “os temas abordados junto aos respondentes foram: a percepção do trabalho num ambiente economicamente dinâmico, características do ambiente que causam sentimentos de insegurança, trabalho e confiança interpessoal, diferenças entre a percepção atual e a passada sobre confiança, atitudes e práticas que retratam a existência de confiança no trabalho, desafios atuais para a coordenação de equipes, estímulos do ambiente que fortalecem e fragilizam a incorporação de confiança nos relacionamentos e influência do ambiente sobre a percepção de estabilidade profissional” (p.73). A investigação deveria dar valor ao contato direto com o respondente, permitindo observar integralmente os dados e enfatizando o processo e não os resultados, favorecendo a descoberta de significados junto aos dados escolhidos. Na análise dos dados, a competitividade foi confirmada pelos entrevistados como também a pressão por resultados, trazendo sentimento de insegurança e insatisfação com as relações de trabalho. Em relação com o passado foi destacado os aspectos positivos e negativos. Como positivos temos: a “descentralização de atribuições”, “maior disseminação de informações”, “uso mais freqüente de diálogo” e “atitudes de mais respeito e tolerância”. Os negativos são demissões em larga escala, processos de fusões e aquisições levianas. Ainda, a ressaltar que, no

passado, bastavam os contratos verbais. Hoje, as pessoas são obrigadas a fazer registros por e-mail, exigindo maior eficiência e menor tolerância a erros, gerando um clima de desconfiança entre as partes. Uma organização altamente competitiva, sem gestão apropriada, colabora com o crescimento da sensação de vulnerabilidade, fragilizando a instalação da confiança. Já, o compartilhamento de informações, a consistência no discurso/prática e a delegação/autonomia de atividades são alguns fatores especificados como fundamentais que a fortalecem. Portanto, os autores concluíram que o reconhecimento de habilidades, a coerência entre o discurso e a prática e o conhecimento mútuo de expectativas entre o grupo, são fatores da confiança, necessários na gestão das organizações. Entendo que se trata de pesquisa de acurado rigor metodológico, explorando sobre os problemas propostos, sem desvios e distorções. É de muita utilidade, considerando que a concorrência empresarial nos impele a buscarmos mais qualidade, através da mudança, utilizando métodos que deram certo em outros países. O aumento da confiança em toda a organização é fundamental, assegurando o cumprimento dos objetivos da empresa mesmo dentro de um clima competitivo e garantindo a rentabilidade tão necessária para o contexto econômico atual, porém é preciso levar em conta que esse fator depende mais da sociedade ou do grupo que das características individuais. Como aplicar uma gestão de fatores da confiança em um país que tem o povo mais desconfiado? Conforme divulgação no site noticias.terra.com.br em 06 de Abril de 2011, em um levantamento realizado em 18 países da América Latina pela diretora Marta Lagos, em Lima, no Peru, o Brasil é o país que tem o povo mais desconfiado. Por isto, penso que o estudo poderia ser mais aprofundado, levando em conta a cultura do país, e não somente os dados citados, pois como exemplo apresento um trabalhador que confia na capacidade de um colega para a finalização de um trabalho, mas omite certos detalhes por causa de uma desconfiança nas intenções da pessoa. Nessa desconfiança está implícita a afirmação: “o meu parceiro pode usar as informações para se promover”. Portanto, falta na obra averiguar quando uma cultura de trabalho estará pronta para um processo como a confiança interpessoal e isso demanda tempo e mais pesquisa.

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