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Abreu, A. A.

/ Revista Brasileira de Geomorfologia, Ano 4, Nº 2 (2003) 51-67

Revista Brasileira de Geomorfologia, Ano 4, Nº 2 (2003) 51-67

A Teoria Geomorfológica e sua Edificação: Análise Crítica*

Adilson Avansi de Abreu


Departamento de Geografia da USP
Av. Lineu Prestes, 338 -Cidade Universitária
Caixa Postal 05508.000
São Paulo, SP, Brasil
Prceu@edu.usp.br

Resumo

O presente trabalho refere-se a uma exposição da interpretação sobre o desenvolvimento global de ciência geomorfológica. A
intenção é definir um sistema referencial em função do qual possa-se obter parâmetros para a interpretação crítica das diferentes
posturas assumidas pelos geomorfólogos no correr do tempo.
Fornece ainda, uma sinopse interpretativa que identifica linhas mestras da evolução da geomorfologia, através da filogênese da
teoria geomorfológica.

Palavras chave: Teoria geomorfológica,sinopse interpretativa, filogênese.

Abstract

The present work deals with the interpretation about the development of geomorphology as a science.
The aim is to give a referencial system to get a parameter concerning a critical interpretation about the different purposes assumed
by geomorphologists through the years.
The work also presents interpretative synopsis which identify the basic points of the geomorphological evolution through the
geomorphology theory phylogenesis.

Key Words: Geomorphological Theory, interpretative synopsis, phylogenesis.

* Texto republicado do original in Revista do Instituto Geológico (SP), 4 (1/2): 5-32. São Paulo. jan/dez.1983, com
autorização da respectiva Editora e do autor e endereço atualizado; foram incluídas palavras- chave e as citações dos
autores foram readequadas às normas atuais.

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1. O Problema e Seu Enquadramento interpretativa que identifique linhas mestras de


evolução, embora seja talvez mais adequado falar em
Uma análise crítica da bibliografia filogênese das propostas conceituais do que em
geomorfológica, tendo por objetivo a busca de um epistemologia.
sistema conceitual ou um paradigma (aqui utilizado na Devemos lembrar ainda que, para alguns
acepção de Kuhn,1970), coerente, que nos permita pelo menos, é pouco seguro falar-se em uma teoria
manter um eixo referencial em função do qual a para a geomorfologia como um todo, na medida que só
análise geomorfológica possa ser executada, revela certos segmentos de seu objeto são passíveis de uma
um panorama à primeira vista confuso e pessimista. conceituação teórica menos problemática. Neste caso
Há uma grande variedade de conceitos encontram-se por exemplo, os enunciados ligados ao
emitidos, oriundos de posturas freqüentemente ao perfil de equilíbrio fluvial, que justamente, são uma
sabor do momento. Poucos autores revelam das pedras de toque para as proposições vinculadas a
claramente sua posição face às diversas propostas uma das correntes conceituais aqui mencionadas.
teóricas e metodológicas, sendo que via de regra, aliás, Neste caso teríamos enunciados que poderiam se
teoria e método se confundem. A existência de uma enquadrar realmente no nível de formação da teoria,
referência voltada para a epistemologia da segundo a aplicação dos critérios de Hempel, como
geomorfologia (Reynaud,1971) não invalida as registra Kitts (1970). O grosso das proposições que
observações que faremos, dadas as limitações de seu não interessam especificamente a esta postura
conteúdo (Abreu,1978), embora tenha ela o mérito de acabariam caindo então no nível de generalização
alcançar uma outra dimensão, quando a tomamos empírica, segundo o mesmo autor.
como representativa da geomorfologia francesa, que, A apreciação do conjunto de obras aqui
até a II Guerra Mundial, esteve estreitamente relacionadas, (que embora longe de representações
associada ao paradigma davisiano. toda a produção científica voltada de maneira direta ou
Devemos destacar, tratando desta temática, indireta para a geomorfologia, parece ser pelo menos,
uma obra de fôlego abrangendo o estudo da evolução uma amostragem significativa do conhecimento neste
de idéias relativas ao relevo terrestre. Corresponde ao campo), permite-nos constatar que a nível de literatura
trabalho de Chorley et al (1964), voltado para a ocidental (entendendo-se como tal a produção
geomorfologia anterior a Davis e que, embora científica dirigida para a geomorfologia e produzida
valorizando sobremaneira os autores de língua por europeus, seus descendentes e povos
inglesa, não deixa de mencionar fatos significativos europeizados) a teoria geomorfológica, em um sentido
relativos ao papel de pesquisadores de outras origens. moderno originou-se a partir de duas fontes principais,
Todavia o limite temporal da obra impede uma que embora apresentando interferência uma sobre a
avaliação das fases posteriores, que, a rigor, são as outra, evoluem freqüentemente de maneira paralela,
mais expressivas. convergindo apenas nos últimos trinta anos para a
É importante ainda registrar, em nosso meio, busca de um quadro de referências mais global. O não
o excelente trabalho Controvérsias geomor- reconhecimento deste fato cria sérias dificuldades ao
fológicas, de Leuzinger (1948), que fornece um pano estabelecimento de uma epistemologia da
de fundo muito bom para análise que pretendemos geomorfologia atual.
fazer. Todavia ele não a substitui, pois, já apresenta Reconhecemos, inclusive, que poderíamos
claramente um limitação temporal, por um lado, e uma fazer uma análise considerando uma só seqüência, que
forma diferente de encarar a origem e a evolução do iniciasse com a sistematização dos conhecimentos nos
que ele denomina de “escola alemã de geomorfologia” séculos XVIII e XIX, a partir do trabalho de geólogos e
de outro, na medida que julgamos haver um engenheiros europeus e norte americanos e se
superestimação da obra de Walther Penck, em projetasse, de maneira subseqüente, em conceitos
detrimento de outros autores. Vale a pena frisar, emitidos a partir da publicação do “The geographical
porém, que o objetivo de Leuzinger era outro, em cycle” (Davis,1989) ou mesmo de outras obras do
função do que, a divergência certamente deixaria de mesmo autor, anteriores a esta data. De maneira
existir. sumária já acenamos para a existência desta linhagem
Desta forma pretendemos expor, ainda que epistemológica a partir do trabalho publicado por
de maneira sucinta, nossa interpretação sobre o Surell em 1841, apud Abreu (1980).
desenvolvimento global da ciência geomorfológica, Todavia parece-nos mais legítimo e frutífero
mesmo ocorrendo o risco de sermos acusados de reconhecer a presença de certos característicos
simplificação excessiva. É um risco calculado, diferenciando, desde sua gênese, os dois principais
todavia, pois a intenção aqui é definir um sistema centros de origem dos sistemas conceituais que
referencial, em função do qual possamos obter um caracterizam a geomorfologia na primeira metade do
parâmetro para a interpretação crítica da diferentes século XX. É bem verdade que nos últimos trinta anos
posturas geomorfológicas no decorrer do tempo. há um tendência a se apagar os contrates e diminuir as
Queremos sublinhar que o nosso objetivo é arestas destas duas linhagens de posturas, fruto
antes de mais-nada, fornecer uma sinopse inclusive da internacionalização do conhecimento,

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resultante, em boa parte, da expansão do inglês que se que percorrem as áreas além- Apalaches, na Europa a
firma nesta fase como principal língua de uso evolução tem com ponto de partida outro sistema de
internacional. As diferenças, contudo, são ainda vivas referências, embora nem por isso se deve negar a
e significativas, (Hagedorn & Thomas, 1980). participação de engenheiros que também se dedicaram
Parece-nos, inclusive, que especialmente ao estudo dos rios e seu comportamento. Todavia aí
nos primeiros anos do segundo pós- guerra o avanço se preponderou, particularmente na Alemanha, de um
fez, de um lado pela insatisfação interna dentro de um lado, a postura que grandes naturalistas já haviam
desses sistemas conceituais, conduzindo à proposição esboçado desde os fins do século XVIII e de outro, as
de paradigmas substitutivos e de outro, por uma crítica observações oriundas de uma análise sistemática da
mútua mas sistemática entre essas duas linhas de crosta, a partir das engenharias de minas. A busca dos
evolução epistemológica, que parece conduzir, nos combustíveis fósseis para alimentar em fontes de
últimos anos, à uma reformulação mais geral, a qual energia a industrialização do Império Alemão, que
tende a valorizar cada vez mais o aspecto de rapidamente suplanta a Inglaterra, acaba dando o
geociências, voltada para uma interface complexa e acento em uma postura que encara a tectônica de outra
que em termos de aplicação tende a ampliar seus forma. Neste sentido achamos que não é apenas o
fundamentos ecológicos. Neste sentido, aliás, o contexto fisiográfico diferenciado da América do
sistema teórico referencial desloca-se para uma das Norte e da Europa que justifica as óticas divergentes
fontes de origem da teoria geomorfológica. que presidem o início da geomorfologia e dá um
Mesmo ocorrendo o risco da simplificação acento nos processos climáticos ou na dinâmica
excessiva, parece-nos legítimo, entretanto, interna, segundo o autor considerado, no segundo caso
sistematizar a evolução do conhecimento ou nos processos fluviais , no primeiro caso.
geomorfológico da forma que se segue, no A diferenciação das posturas é fruto de um
concernente aos conceitos básicos da explanação, no caldo de cultura que se desenvolve em um contexto
que de resto é, até certo ponto concorde, com as político de definição de quadros nacionais
observações já registradas por Mikesell (1969), que vê contrastantes e que presidem uma orientação diferente
a própria geografia nascendo nos EUA a partir da em cada caso. Basta lembrar que se Humboldt e
geologia, via fisiografia, ao passo que na Alemanha ela Goethe são universais, a solidez da presença desses
nasce no bojo de uma concepção abrangente de nomes é muito maior em um caso do que em outro.
ciências da terra, emergindo de uma perspectiva Não parece necessário insistir, por outro
naturalista mais globalizante. lado, que a Inglaterra e a França aproximam-se, desde
Seguimos aliás uma tradição de contrapor os alvores do século, em relação aos Estados Unidos e
uma escola de geomorfologia à outra, como inúmeros logo emerge em sistema de confrontação que coloca
autores já fizeram. Todavia nossa intenção, se por um freqüentemente Berlim em oposição às 3 capitais
lado é deslocar a interpretação em relação à ocidentais. Porém, é importante frisar que isto se
importância relativa de alguns autores, por outro é reflete também na produção científica e a Segunda
insistir na necessidade de se fazer esta análise Guerra não apaga esta tendência, na medida que a
subordinada a um quadro de referências que incorpore confrontação continua em outro contexto: o poder
as relações internacionais e os centros de poder desloca-se mais para leste, porém Berlim ainda se faz
interferindo de diversas formas na evolução da postura presente.
geomorfológica. De maneira esquemática temos, como já
Assim sendo, embora nos pareça frisamos, duas linhagens epistemológicas balizando a
desnecessário traçar as linhas mestras da história do definição de campo de interesse da teoria e do método
Ocidente nos séculos XVIII, XIX e XX, devemos ter da investigação em geomorfologia: uma de raízes
em mente a evolução destes acontecimentos para norte-americanas e incorporando o grosso da
explicar certas características e originalidades de cada produção em língua inglesa e francesa até a II Guerra
face da moeda. Mundial e outra de raízes germânicas, exprimindo-se
O início do pensamento geomorfológico basicamente de início em alemão (espécie de língua
como de resto a própria geologia, vai ser franca da Europa Centro-Oriental), mas que incorpora
profundamente marcado de um lado pela conquista do também, posteriormente, grande parte da produção
oeste americano e de outro pelos fatos que vieram no publicada em russo e polonês. Tricrat (1965) p.56 a 75
bojo da Revolução Industrial, entre os quais, além, identifica essas duas tendências, porém articula estes
daqueles vinculados à definição dos impérios fatos em outros contexto de análise, o que resulta em
coloniais, emerge um profunda mudança no um empobrecimento da interpretação.
pensamento científico europeu, decorrentes das A evolução dessas duas linhas conceituais é
pesquisas vinculadas à prospecção mineral. bastante diferenciada e apresenta inclusive
Desta forma se na América do Norte desde interferências mútuas: enquanto a primeira de raízes
cedo valorizaram-se as observações que vinculam o norte-americanas, sofreu muito claramente nos
trabalho dos rios ao modelado de relevo, o que é muito últimos anos os impactos das “revoluções científicas”,
destacado nas pesquisas dos geólogos do século XIX com tentativas de ruptura e definição de novos

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paradigmas, a segunda, de raízes germânicas, parece encontrou Davis seus críticos, particularmente no
evoluir de maneira mais contínua, o que se reflete em meio intelectual germânico contemporâneo, que com
um enriquecimento progressivo do paradigma, que ele conviveu durante sua permanência em território
ganha complexidade metodológica e operacional, alemão, em época de grande brilho da Gesellschaft
conservando sempre um núcleo comum desde sua fuer Erdkunde zu Berlin . Para um maior
origem. detalhamento das controvérsias que emergiam nesta
Quando se considera, como o faz Tricart fase entre Davis e seus opositores e que
(1965) p.62 “Davis doit être consideré comme le posteriormente se acirraram, remetemos diretamente
fondeteur de la géomorphologie en tant que discipline para Leuzinger (1948), que faz um bom apanhando do
spécialisée. Il lui donna, en effet un corps de doctrine problema.
coherent et affirma son originalité” , que Davis é o Essas controvérsias, aliás, já tinham chegado
fundador da geomorfologia, o mínimo a se constatar é até nós, mesmo a nível dos manuais de geografia física
que há pelo menos um desvio de ótica, o qual faz com que normalmente estão em grandes descompassos
que se atribua ao primeiro paradigma de uma linha de com a aquisição dos conhecimentos mais recentes da
evolução epistemológica o papel de certidão de ciência através da tradução que Lyon Davidovich
nascimento da geomorfologia. Em sua grande maioria publicou em 1934 da obra de S. Günther, à qual
esses autores pertencem ao quadro daqueles que por voltaremos a nos referir oportunamente.
uma ou outra forma integram esta corrente de As críticas feitas à esse paradigma foram
conceitos, aceitando-a ou constatando-a e buscando incorporadas de maneira parcial e discutível pelo
novos paradigmas. Por comodidade chamemos esta próprio Davis, mas muito mais, provavelmente, pelos
corrente de anglo-americana, embora seja injusto não seus seguidores e não se refletiram na reformulação de
chamar atenção para o fato de interessar também a suas premissas, mas sim na variação dos processos
autores de expressão francesa, que do ponto de vista intervenientes, desenvolvendo então os trabalhos que
epistemológico vão claramente à reboque a língua desembocaram em dois clássicos: um da lavra de
inglesa. Pelo mesmo motivo chamaremos a outra Cotton (1942) e outro de Birot (1960). Este último
corrente de alemã, embora incorpore também autores aliás, registra nesta data e em nosso meio o
de línguas eslavas e escandinavas, interessando ainda, descompasso francês em relação à geomorfologia,
embora de forma menos expressiva, a autores de embora colocando o problema em um contexto
outras línguas. indiscutivelmente mais atual, evidenciando a
Antes de nos determos em cada um destes dificuldade e a problemática da periodização, que é
“troncos” de evolução conceitual da geomorfologia, muito mais válida para as “áreas centrais” do que para
queremos ainda chamar a atenção para o fato de que a as “áreas periféricas” à origem e evolução dos
compreensão da dinâmica temporal das posturas conceitos.
sucessivas, deve incorporar as interferências Evidentemente poderíamos lembrar aqui
permanentes que elas exerceram concomitantemente uma lista enorme de trabalhos feitos por
entre si. Quase que se pode parafrasear Passarge geomorfólogos de grande gabarito, especialmente
(1931) p. 178, dizendo que cada conceito emitido traz ingleses e franceses, apoiados neste paradigma.
consigo mesmo as resistências para sua aceitação pelo Todavia preferimos omiti-los, na medida que em
outro inter-locutor. pouco alteram o dado central da proposta davisiana.
Neste sentido, os dois nomes lembrados são, antes de
2. A Linhagem Epistemológica Anglo-Americana mais nada, exemplos em uma lista de clássicos.
Sem entrar no mérito deste paradigma, por o
Caracteriza-se esta corrente por ter se julgarmos por demais conhecido, seu aspecto finalista
apoiado até praticamente a II Guerra Mundial, e a pouca atenção que dedicou aos processos em
principalmente no paradigma proposto por Davis, em operação, iriam conduzir a geomorfologia norte
trabalhos publicados nas últimas duas décadas do americana a um isolamento crescente nos próximos
século XIX e sistematizado de maneira magistral em anos em relação às ciências da natureza em geral e da
1899 no Geographycal Cycle, no qual o relevo surgia geologia em particular. Dentro da própria geografia
como uma função da estrutura geológica, dos física a geomorfologia pouco ou nada iria se articular
processos operantes e do tempo, dando este último a com a climatologia e biogeografia.
tônica em um modelo que valorizava particularmente À medida porém que novos esforços para se
o aspecto histórico. assimilar as críticas eram desenvolvidos, passava-se
O sucesso da postura davisiana foi grande e também a uma posição de revisão progressiva das
rápido no mundo de língua inglesa e francesa. Sua premissas davisiana e emergia aos poucos uma atitude
permanência no tempo pode inclusive ser avaliada de interesse, pelo menos, em relação às alternativas
através do significado que ele ainda tem na nona sugeridas pelos críticos.
edição da obra monumental de Martonne (1950), que Nesse sentido, um evento do fim da década
tanto influenciou nosso meio científico. de 30 confirma o interesse norte-americano pela
Todavia desde a divulgação de suas idéias crítica à sua postura, que face às características da

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proposta davisiana, aparecem mais claramente na obra Simpósio de Chicago, dado os desdobramentos que
de Walther Penk. Em 1939 realiza-se em Chicago um registrará. Neste sentido já podemos adiantar que se
simpósio sobre a contribuição deste autor à Lester King pode ser explicado com o Simpósio de
geomorfologia. As teses e discussões que marcaram Chicago, os outros devem ser vistos no contexto da
esse evento foram publicadas em um número dos cibernética.
Anais da Associação dos Geógrafos Americanos, Provavelmente o autor e a obra que mais
tendo Engeln (1940) como seu coordenador. refletem uma tentativa de se incorporar o modelo
A análise dos resultados posteriores a esta penckiano a essa corrente de pensamento é King
reunião, não tanto dos contidos nos Anais do (1953, 1956, 1967), que já nos anos cincoenta percorre
Simpósio, mas expressos na produção científica, o Brasil, coletando dados para implementar sua teoria
parece demonstrar que as seguintes considerações da pediplanação, King (1967), p. 159-169, que
feitas por Penck (1953) p. 9 no início da década de 20 posteriormente com modificações tem sido uma das
tiveram seus frutos: “To begin with, it is obvious that pedras de toque de grande número de pesquisadores na
the ideal forms, which are supposed to develop on a interpretação do relevo do Brasil.
stationary block, can be deduced successfully only if O advento desta alternativa, porém, não
there are no gaps in our knowledge of the essential superou a insatisfação que se tornava crescente,
characteristics of the denudational processes. Should particularmente nos USA e alguns autores passam a
this pre-requisite not be fullfilled, the deduction is assumir, progressivamente, uma atitude mais crítica,
nothing but an attempt to find out from the land forms esforçando-se concomitantemente na elaboração de
alone both the endogenetic and the exogenetic outros paradigmas em um contexto que pode ser
condition to which their owe their origin. It is like perfeitamente enquadrado em uma fase
trying to solve an equation having three quantities, two revolucionária, segundo concepção de Kuhn (1970).
of which are unknown; we can expect only doubtful Assim é que se Davis havia valorizado o
results. The American school may be justifiably tempo, a tônica passará a ser dada ao espaço; se Davis
reproached with no considering it their next task to era encarado como responsável por uma postura
eliminate one of the unknown quantities by subjetiva e verbalista, fruto de uma concepção
systematically investigating the processes of bergsoniana dedutivista, passar-se-á a valorizar fatos
denudation all over the world. Un the whole, their part encarados como objetivos, estudados através da
in throwing light upon the exogenetic processes has quantificação; se se julgava que Davis havia
been a very modest one”. desconsiderado os processos, valorizar-se-ão agora as
Já nos anais do referido simpósio merece relações que exprimam esses processos, e assim por
destaque o registro de Leighly (1940), p. 225 sobre o diante.
erro Davis ao assumir que os processos envolvidos na Pode-se, desta forma, de maneira bastante
evolução do relevo seriam conhecidos. Este evento segura, identificar-se uma fase de descontentamento,
acaba também sendo claramente incorporado por crítica e procura de um novo paradigma que
ENGELN (1972), que dedica em capítulo especial de caracterizou a geomorfologia de língua inglesa, de u'a
sua obra ao que ele denomina “sistema maneira permanente, desde os anos quarenta, tendo se
geomorfológico de Walther Penck” , onde chama a revelado muito mais fértil na década de cincoenta e
atenção para a tônica que se deveria dar no futuro ao início dos anos sessenta, coincidindo com a fase de
estudo das vertentes e aos processos elas associados. divulgação e aplicação generalizada da teoria das
Vale a pena, portanto, registrar a redes, da teoria dos gráficos, da teoria dos conjuntos,
interpretação que Penck (1942) deu ao ciclo da teoria da informação, através da cibernética
geográfico e a forma como ela foi incorporada pelos Bertalanffy (1973) e com o uso generalizado de
seguidores de Davis. É o limiar da contestação do quantificação, através de computadores.
paradigma anterior e a preparação do terreno para o Durante esta época valoriza-se
advento de novos paradigmas, dentro de um contexto especialmente a análise espacial e o estudo de bacias
norte-americano. Não se pode inclusive esquecer o de drenagem, estando os resultados mais
papel que a tradução da “Die Morphologische significativos deste período divulgados entre nós
Analyse” para o inglês, publicada em 1953, através de duas traduções publicadas em meados da
desempenhou, na medida que se tornou mais acessível década passada: Modelos Integrados de Geografia
à grande maioria dos geomorfólogos envolvidos nesta Chorley & Haggett (1974) e Modelos Físicos e de
linha de evolução epistemológica da geomorfologia. Informação em Geografia Chorley & Haggett (1975).
Todavia não se pode olvidar que neste Por achar desnecessário maiores detalhes, lembramos
momento eclode a II Guerra Mundial e, à seguir, uma apenas tratar-se da fase de maior impacto entre nós da
boa parte do pensamento científico alemão será chamada “revolução quantitativa” que aqui chegou,
incorporado pelos norte-americanos; particularmente como era de se esperar, com certo grau de
técnicas serão implementadas com posturas retardamento e que já foi bem explorada por outros
filosóficas bem definidas. Este é provavelmente um autores, particularmente Monteiro (1980).
impacto e uma interferência maior ainda que o Pode-se dizer que as posturas novas

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começam a emergir principalmente com Horton teoria do princípio de atividade desigual pouca
(1945), Strahler (1950, 1952, 1954), Crickmay (1959), atenção foi dada, embora ela talvez contenha idéias
Hack (1960) e Chorley (1962). O conhecimento que se extremamente úteis e contestadoras em relação à
desenvolveu a partir se então está, com exceção das postura cíclica.
postulações de Crickmay, bem representado nas obras Mosley & Zimpfer (1976), p. 382, retratam
editadas por Chorley (1972) e na publicação de esta situação de maneira bastante clara: ...“the present
Gregory & Walling (1973), sob o título de “Dainage situation is um comfortably like that during the
Basin: Form and Processes, a geomorphological “Davisian era”, methods such as those of statistical
approach”. analysis are being used without being understood,
Extremamente interessante é registrar que a and ideas have been widely adopted without the
teoria do equilíbrio dinâmico revivida por HACK exhaustive testing necessary for their validation.
(1960) e muito divulgada em nosso meio, retornou à There are disturbing signs in the current literature that
cena no ano seguinte à publicação do trabalho de geomorphology is not making the advances that
Crickmay (1959), que desafiou através de outro seemed inevitable in the 1960's.”
paradigma, o princípio global de atividade igual sobre Segundo os mesmos autores esta situação é
o qual ela se apóia, por meio de sua teoria do princípio reflexo: 1º de uma metodologia pouco sofisticada, 2º
de atividade desigual. Esta perspectiva foi por ele da rejeição do paradigma davisiano sem sua
aplicada em sua pesquisa, sobre a atividade lateral do substituição por outro universalmente aceito e 3º da
rio Penbina, afluente da margem direita do rio tendência em se considerar um método como o
Atabasca, Crickmay (1960) e os resultados parecem melhor, do que decorre uma rejeição dos demais,
ter reforçado seu ponto de vista em relação aos p.382-385. Nós insistiríamos no segundo aspecto
mecanismos globais de evolução do relevo, lembrado, na medida que os métodos freqüentemente
resultantes de processos superficiais de intensidade emanam ou se ajustam às teorias de suporte. O terceiro
muito diferenciadas. É a relatividade dessa diferença aspecto parece ser inerente da condição humana, mas
que o levou a valorizar os termos processos ativos e que na ciência deve ser combatido.
processos estagnados, aplicando os primeiros para Por outro lado é fundamental registrar que
aqueles comandados pela ação dos rios no caso esta situação foi atingida pela emergência de posturas
estudado. que valorizam excessivamente o espaço e as supostas
Com exceção de Scheidegger (1961), este relações entre os processos em operação no presente,
paradigma pouca atenção recebeu, mesmo por parte deixando de lado as considerações temporais, na
dos geomorfólogos norte-americanos, raras vezes medida em que estas eram julgadas comprometidas
sendo lembrado em nosso meio. Parece-nos todavia com o paradigma davisiano. O descabido dessa atitude
que ele tem certa coerência com os fatos observados e foi bem demonstrado por Schumm & Lighty (1965) e
que seu teste deveria ser tentado com mais freqüência, retomado por Thornes & Brunsden (1977).
ainda que, à primeira vista sua postura possa ser tida As posturas de Mosley & Zimpfer (1976) e
como discutível. Thornes & Brunsden (1977), parecem marcar uma
Depois da efervescência dos anos 40 e 50, a forma de rever, na segunda metade da última década,
maior parte dos anos 60 e começos da década de 70 as propostas precedentes. Perseguem o mesmo
registraram, de certa forma, uma atitude de aplicação intento, porém por vias diferentes. Enquanto os
dos postulados anteriormente obtidos, através de primeiros sugerem o conceito de “areal
técnicas quantitativas de sofisticação crescente à differentiation of landforms” como base para um
serviço de uma análise sistemática do relevo. Aos paradigma geomorfológico que incorpore todas as
poucos emerge também uma teoria probabilística para formas possíveis de explanação, através de uma
explicar gênese global das formas, cuja analogia com a análise de variância, os segundos
fundamentação mais recente talvez seja aquela feita procuram classificar os tipos de modelos passíveis de
por Shereve (1975). uso, a partir de uma estrutura têmporo-espacial
Uma análise crítica da produção disposta em ordem que vão de 0 a 4.
geomorfológica dos últimos trinta anos, todavia, não é É, de certa forma, uma atitude de reflexão
muito animadora, como já registraram Mosley & conciliadora, que à rigor não introduz novos
Zimpfer (1976). A rigor ao paradigma de Davis paradigmas, mas que, todavia, procura reinterpretar os
acrescentou-se o de King, que incorpora parcialmente anteriores segundo uma posição crítica mais liberta de
o anterior e a postura penckana (mal compreendida, preconceitos, tendo os problemas de escala como
segundo Thornes & Brunsden, 1977). A teoria do baliza de referência e voltando a revalorizar as
equilibro dinâmico e a teoria probabilística parecem observações em campo, em boa parte eclipsadas no
ter tido o mérito de tentar, através da quantificação, um bojo das posturas que privilegiavam a quantificação à
rigor maior para a explanação geomorfológica, porém partir de dados obtidos, geralmente, de cartas
acabaram caindo, em certos casos extremos, em topográficas, fotos aéreas e anuários estatísticos.
formulações em grande parte estéreis e de aplicação, Os anos oitenta parecem se iniciar com uma
na melhor das hipóteses, pelo menos duvidosa. A visão pluralista da geomorfologia, segundo palavras

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textuais de Graf et al (1980) p. 280, que consideram Se admitirmos ser Von Richthofen o
englobar seu campo agora “not only those with a primeiro a formalizar através de seu “Führer für
geological or geographic background, but also Forschungsreisende” (1986 ) o advento de uma linha
benefits from contributions of hydrologists, epistemológica para a geomorfologia centro e leste
pedologists, foresters, and enginers - and even some européia, vale a pena acenar para a diferença entre esta
who consider themselves to be primarily cultural obra e o “The geographical cycle” (1899). Enquanto
geographers. Other developments are an increased este é uma proposição teorizante, aquele é um guia
dependence on field research (an old tradition para observações. Valoriza-se, portanto, desde o início
revisited) more realistic expectations from search um perspectiva empírico-naturalista, dentro de um
tools, a resurgence of interest in manland relationships sistema conceitual que até recentemente tem insistido
with a concomitant dependence on the historical muito neste aspecto, no quadro das geociências em
approach, an expanded appreciation of the hydrologic língua alemã (Bubnoff, 1954).
cycle, a reinvestigation of morphogenetic regions, Todavia a geomorfologia de uma língua
new interest in planetary surfaces other than earth's, alemã tem igualmente uma origem menos marcada
more detailed investigations of event magnitude and por um só nome e antes que se escoasse uma década
frequency, and an involvement with applied após a publicação do “Führer für Forschungs-
problems”. reisende” aparece, em dois volumes, o “Morphologie
Provavelmente estamos também entrando der Erdoberflaeche” (Penck, 1984). Os autores
em uma fase de incorporação mais refletida de destes trabalhos são, aliás, freqüentemente citados
conceitos originados da outra fonte epistemológica como os “pais” da geomorfologia de língua alemã.
aqui considerada e em uma outra progressiva Um fato importante a destacar é que Von
universalização dos pontos de referências Richthofen e A. Penck tiveram um antecessor, O.
fundamentais para a definição do “construto” Peschel, que todavia vincula-se muito mais às
geomorfológico, ao mesmo tempo que se faz um posteriores proposições devisianas que à subseqüente
esforço sob o patrocínio da NASA, para se ampliar os geomorfologia da tradição (Richthofen, 1886; Penck,
limites do campo de estudo, com o objetivo de 1894) fato, aliás, já levantando por Tatham (1951),
incorporar também a investigação do relevo de outros merecendo registro também por Chorley et al (1964).
corpos celestes (Enzmann,1968). Esta orientação, todavia, não foi a que se
impôs no espaço cultural alemão. As posturas
3. A Linhagem Epistemológica Alemã naturalistas valorizadas pela herança de Goethe e
Humboldt, imprimiram um direcionamento mais para
Deixando de lado as considerações sobre os a observação e análise dos fenômenos em um contexto
predecessores, pode-se dizer que a moderna onde a geomorfologia se relacionava de maneira mais
geomorfologia centro-européia de expressão alemã intensa principalmente com a petrografia, química do
tem em Von Richthofen uma baliza que serve de solo, hidrologia e climatologia. Logo no início a
referência inicial. É, aliás, significativo que julgando cartografia é mobilizada como um dos instrumentos
as classificações das formas de relevo propostas por fundamentais para o pesquisador, o qual tem na
Davis e von Richthofen, segundo transcrição de observação o centro de seu interesse.
Chorley et al (1964) p.619, Mcgee tenha julgado em O grande papel do “Führer für
1888 ambas ...“more acceptable, since they are based Forschungsreisende” foi exatamente o de definir um
in part o conditions of genesis”. conjunto de informações, oriundas dos trabalhos
Todavia é indispensável lembrar que se executados pelo seu autor na América do Norte, Ásia e
Davis tinha em sua retaguarda principalmente grandes Europa, de natureza metodológica no referente à
nomes que eram antes de tudo geólogos, von observação dos fatos. É considerado, por quase todos,
Richthofen tinha como predecessores um conjunto de como o primeiro manual de geomorfologia moderna,
autores que eram antes de mais nada naturalistas e que sendo estranhável que Chorley et al (1964) tenham lhe
tinham em Goethe um ponto de referência dispensado tão pouca atenção, preferindo ressaltar a
permanente. obra sobre a China.
É significativo e merece destaque o fato de Já o papel do “Morphologie der
até hoje ser utilizada com freqüência a expressão Erdoberflaeche” Penck (1984) foi mais o de
morfologia, introduzida nas ciências naturais por sistematizar teorias e formas de relevo, tornado-se um
Goethe, como sinônimo de geomorfologia. Neste clássico da geografia, nas palavras de Leuzinger
verbete é que vamos encontrar, por exemplo, no (1948). Por outro lado não se pode deixar de
“Kosmos Taschenlexikon” de Vogt (1971) a mencionar que sua influência foi tão grande ao ponto
conceituação de geomorfologia e embora o de levar a uma verdadeira dominância dos estudos
“Geologisches Wörterbuch” de Murawski (1977) geomorfológicos no contexto da geografia alemã nas
registre o substantivo geomorfologia, também acena primeiras décadas do século XX.
para uma vinculação com a expressão oriunda da obra É também de se registrar que tanto F.F. von
de Goethe. Richthofen como A. Penck tiveram um papel

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fundamental na orientação da geografia alemã, na trabalhando em uma linha de análise mais global das
medida em que exerceram forte influência durante formas de relevo, integrando-a em uma visão
mais de meio século na condução da Gesellschaft fuer geográfica da paisagem e de um novo método de
Erkunde zu Berlin, fundada em 1828. A. Penck foi, trabalho, baseado na cartografia geomorfológica
aliás, seu presidente até 1930, tendo porém grande (Klimaszewski,1963). De sua obra destacam-se três
ascendência nesta associação científica até bem fundamentais: em 1912 surge a “Morfologia
próximo de sua morte, que se deu a 7 de março de Fisiológica” (“Physiologische Morphologie”), entre
1945, aos 87 anos de idade. Este período coincide, 1919 e 1920 os “Fundamentos da Ciência da
praticamente, com o da ascensão prussiana e a Paisagem” (“Die Grundlagen der Landschaftskunde”)
afirmação alemã. são publicados em três volumes e, finalmente, em
Provavelmente a presença destes dois 1922 vem à luz “As Zonas Paisagísticas da Terra”
cientistas à frente da Gesellschaft fuer Erkunde zu (“Die Landschaftsgürtel der Erde”). Só a titulação dos
Berlin, explique, em parte, a pouca influência que a trabalhos já nos acena para a importância dos
postura davisiana alcançou no espaço cultural- conceitos enunciados, entre os quais o de fisiologia da
alemão. É possível, inclusive, que para isto tenha paisagem desponta como corolário.
contribuído, em parte, uma certa dose de nacionalismo S. Günther não tem a envergadura de
de raízes prussianas, uma vez que a análise das nenhum dos dois autores acima arrolados, todavia, em
publicações patrocinadas por esta sociedade permite certo momento, mereceu um grande atenção que se
perceber claramente a vinculação com certas refletiu na tradução de seu “Lehrbuch der
temáticas desta natureza. (Quelle,1953). Physikalischen Geographie” para o espanhol (onde
Assim embora Davis estivesse presente na recebeu sucessivas edições entre 1925 e 1940) e para o
Alemanha entre 1908 e 1909 e publicasse em 1924 sua português em 1934. Achamos porém justo chamar a
célebre “Die erklaerende Besschreibung der atenção para este livro, uma vez que em seu XI
Landformen”, suas proposições produziram, quase capítulo, intitulado de “Geomorfologia”, desenvolve
que imediatamente, acerbadas críticas por parte de um uma abordagem processual até certo ponto moderna e
conjunto de pesquisadores afeitos à investigação de traz para o nosso meio, às p.167, 168, 169, uma crítica
espaços com natureza climática muito diversificada. O bastante pertinente ao paradigma davisiano, que
próprio A.Penck, já em 1912, estabelecera relações entretanto parece ter tido pouco eco em nosso meio
entre as formas de relevo e os cinturões climáticos do científico e acadêmico.
planeta, no que fora precedido por J.Walther, no Este contexto evidencia que qualquer que
mesmo ano e seguido por W.Voltz, em 1913 e tenha sido a alavanca propulsora da oposição ao
K.Sapper e F. Thorbecke, em 1914 (S tratiL- paradigma davisiano, o resultado foi a emergência de
Sauer,1968). novos conceitos e métodos de trabalho, os quais
Fato também muito importante par desembocaram em dois acontecimentos que
ajustificar essa postura predominantemente na Europa marcaram a década de vinte. Em 1924 é publicado,
Centro-Oriental, em relação às proposições de Davis é postumamente, “Die Morphologische Analyse. Ein
que desde o fim do século passado já havia traçado um Kapitel der physikalischen Geologie” e, em 1926,
panorama global, que sugeria, com bastante clareza, realiza-se o “Düsseldorfer Naturfoschertag”, do
um zoneamento dos fenômenos da natureza na face da qual emerge em um ambiente de consenso geral o
Terra em estreita dependência com os climas. Assim é conjunto de proposições que valorizam o clima como
que V. Dokuchayev já havia publicado em 1883 sua um elemento responsável por uma morfogênese
obra sobre os solos chernozens da Rússia e, em 1900, diferencial em função do balanço das forças em ação
W.Köppen lançava sua primeira versão dos climas da (Eckert et al,1927).
Terra (Chorley et al, 1964). Nesta atmosfera Walther Penck, que desapareceu aos 35 anos
intelectual o solo era pouco propício à semeadura de idade, depois de percorrer vastos trechos da
davisiana. América e Eurásia, vai emergir, em função da natureza
Dentro desta corrente três autores marcaram da sua obra, como o principal opositor de Davis e
sua presença no início do século e merecem, por assumir, para alguns, na corrente de pensamento
motivos diferentes, especial destaque: A. Hettner, S. geomorfológico alemão um papel equivalente de
Passarge e S. Günther. fundador, como lhe atribui Leuzinger (1948).
Hettner (1921, 1927) é sem dúvida alguma, o A rigor sua obra deve ser encarada como elo
grande crítico do ponto de vista do método da importante no pensamento científico moderno em
proposição davisiana. Leuzinger (1948) e StratiL- língua alemã e alternativa paradigmática significativa,
Sauer (1968) resumem suas observações de maneira em função da postura davisiana. No sentido da
bastante clara, que nos dispensa de maiores formalização teórica talvez seja até sensivelmente
comentários. superior a Davis, embora tenha sido muito prejudicada
S. Passarge teve porém um papel mais face às circunstâncias em que foi escrita, motivo pelo
positivo, na medida que se caracterizou nem tanto pela qual sua compreensão é difícil mesmo para os
crítica, mas pela proposição de novos conceitos, alemães, dado o estilo em que está vazada. (W. Penck

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já estava profundamente debilitado em função de um geomorfologia, principalmente através da


câncer, do qual veio a falecer, quando redigiu este formalização do conceito de depósitos correlativo.
trabalho). Todavia a tradução para o inglês em 1935 W. Penck foi extremamente criticado, não só
diminuiu, em parte, essas deficiências, dado o resumo, pelo próprio Davis mas, principalmente, pelos
o glossário e as notas que enriqueceram e facilitaram a seguidores deste e uma boa exposição dessas objeções
leitura deste texto. está claramente formulada por Leuzinger (1948).
O âmago de sua proposta parece-nos contida, Todavia a publicação em 1935 da versão inglesa de seu
em sua essência, na passagem do item 1 para o 2 e no trabalho iniciou um processo de revisão conceitual e
decorrer deste, no capitulo primeiro de sua obra: teve o mérito de levar alguns autores norte-americanos
“Whitch physical methods are concerned, and at what interessados no estudo de vertentes e reverem suas
stage in the morphological investigation they not only opiniões em relação à proposta penckiana. Vale a pena
may, but must, be applied follows from the nature of a esse propósito remeter-se o leitor para Carson &
the three elements which together form the substance Kirby (1972) p.16.
of morphology. Na U.R.S.S. a proposta penckiana foi
2. Basis, Nature and Aim of Morphological retomada por Gerassimov (1946, 1968) e utilizada
Analysis como base conceitual para a análise morfoestrutural e
These three elements are: sua correspondente cartográfica geomorfológica. A
1-the exogenetic processes divulgação desta abordagem fora da União Soviética
2-the endogenetic processes tem sido relativamente pequena, dadas as barreiras
3-the products due to both, which may here lingüísticas, todavia seus conceitos fundamentais
be called the actual morphological features”, encontram-se expostos através do artigo de
conforme pode se ler as p.3 e 4 da versão inglesa de Mescerjakov (1968), sendo as melhores exposições do
1953. Igualmente digna de transcrição parece-nos à método aquelas feitas por Basenina & Trescov (1972)
caracterização que ele faz do terceiro conjunto de e Basenina et al (1976).
elementos acima mencionado: Quanto ao Düsseldorfer Naturforschertag,
“All the actual morphological features can, realizado no contexto do 86º Simpósio da
like the exogenetic processes, be directly observed, Gesellschaft deutscher Naturforscher und Aerzte ,
and are thus an object of inductive research. However, marca o advento dos estudos ditos de geomorfologia
their limits must be extended farmore widely than is climática e climatogenética, de cujos resultados
customary. It is by no means enough to determine and Wilhelmy (1974, 1975) apresentou um balanço
to characterise the forms of denudation as they bastante completo. Entre os resultados desta reunião
actually appear in their various combinations; the deve-se destacar principalmente o esforço de Passarge
stratigraphical relations of the correlated strata para incorporar as condicionantes climáticas no
formed simultaneously, are of just as great importance. estudo das formas de relevo. Uma interessante revisão
Their thicknesse and the way in which they are dos debates então travados e dos avanços
deposited on the top of one another, how they are subseqüentes foi feita recentemente por Busche &
connected with their surroundings in the vertical and Hagedorn (1980), no decorrer do Primeiro Simpósio
in the horizontal direction, their stratification and Teuto-britânico sobre Geomorfologia, desenvolvido
specially their facies, reflect both the type of em Würzburg, de 24 a 29 de setembro de 1979 e que
development in the associated area of denudation, and originou o Supplementband 36 do Zeitschrift für
its duration, and they supplement in essential points Geomorphologie.
the history recorded there. The position of this record A linha de abordagem que emerge de
in the geological time sequence depends entirely upon Düsseldorf consolidou-se através das pesquisas de
investigation of the correlated strata and their fossil Büdel (1948, 1957, 1963, 1969 e 1971), cujos estudos
content. As a rule far too little weight is given to levaram a uma ordenação dos conjuntos morfológicos
working on this stratigraphical material. Because of de origem climática em zonas e andares, produzidos
this, our knowledge about the actual morphological pela interação das variáveis epeirogênicas, climáticas,
features is correspondingly scanty. True, we must take petrográficas e fitogeográficas.
into account that these are not, like denudation, for Aos nomes de Bündel e Whilelmy, devemos
instance, subject to one uniform set of laws; but that ajuntar, pelo menos, os de Louis (1957,1968),
they are peculiar to each individual part of the crust Mortensen (1943/1944) e Machatscheck (1955) na
which will have undergone a special development of consolidação da abordagem climática e
its own. They are individual in their character” climatogenética, que, de maneira muito apropriada
(1953, p. 5). incorporou as noções de depósitos correlativos na
Concebida pelo autor com o objetivo de, análise das formas.
utilizando-se da geomorfologia, atingir a geologia e As propostas conceituais voltadas para a
contribuir para a elucidação dos movimentos crustais, paisagem (“Landschaft”), provalvemente de interesse
a obra acabou por oferecer um paradigma alternativo e maior para a geografia como um todo, do que para a
contribuir geralmente para o avanço da própria geomorfologia e que já haviam recebido a

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atenção de Passarge, evoluem e se consolidam nos mostrar, de maneira esquemática, como a partir de
estudos de geoecologia e ordenação ambiental do duas concepções diferentes, evolui o sistema
espaço (“naturräumliche Gliederung”). Neste setor conceitual anglo-americano e o alemão.
devemos ressaltar o papel de Troll (1932, 1939, 1959, De início queremos ressaltar que a ordenação
1966), o qual continua nesta linha de pesquisa, que dos autores encarada não por eles em si, mas no que
vem a se aprofundar e enriquecer nos últimos anos eles traziam consigo e que poderia ser tomado como
principalmente através das contribuições de Barthel fato representativo em um contexto global de cada
(1968), Haase (1964, 1967, 1973), Klink (1966, corrente. Desta forma, e isto é valido principalmente
1972), Martens (1968), Leser (1971, 1973), para o conjunto alemão, aparentemente cometeram-se
Neumeister (1977), Neef (1967, 1970) e Richter algumas injustiças, na medida que no quadro
(1968). Devemos, aliás, registrar que esta abordagem aparecem alguns nomes que poderiam ser vistos como
está em grande parte apoiada na teoria sistêmica, na “menores” , quando comparados com outros que
base da qual encontramos os conceitos de Bertalanffy indiscutivelmente seriam “maiores”.
(1942, 1965). A justificação para essa situação emerge em
A Cartografia geomorfológica recebe ênfase parte, de uma característica básica da corrente alemã.
especial, principalmente no segundo pós-guerra, Ela é marcada por um aspecto mais coletivo,
adquirindo características próprias em cada país do englobado um número muito maior de nomes, de
leste europeu e emergindo como método fundamental envergadura mais ou menos equivalente, porém em
para a análise do relevo. Devemos destacar neste um contexto de interesses e proposições diferenciadas.
sentido a contribuição que se originou dos esforços Já a corrente anglo-americana é mais marca
desenvolvidos na Polônia, Tchecoslováquia e por nomes de grande destaque, particularmente nas
U.R.S.S. (Klimaszewski,1963; Demek, 1976; primeiras décadas do século atual, apresentando um
Basenina & Trescov, 1972). aspecto mias individualista. O exemplo mais típico é o
A República Federal Alemã iniciou em 1976 próprio Davis, que detém uma primazia quase sem
seu projeto de mapeamento geomorfológico detalhado contestação por longo lapso de tempo.
(Barsch, 1976, 1980) sob o patrocínio da Deutsche Em segundo lugar é fundamental insistir que
Forschungsgemeinschaft,, enquanto na República este quadro resultou de uma interpretação, face ao
Democrática Alemã esta tarefa já foi iniciada há mais material que dispúnhamos, o qual, inclusive, é rico em
tempo (Kugler, 1976b). Devemos aliás salientar o opiniões que nos contraditam. Neste sentido ele é uma
papel deste geomorfológo nos aspectos conceituais opção. Poderíamos até lembrar pelo menos dois
desta problemática (Kugler, 1975 e 1976a). autores de renome que, evidentemente, fariam reparos
É ainda importante registrar que, de certa a esta postura: um deles é Engeln (1942) p. 6 e outro é
forma a II Guerra Mundial não rompeu a tradição da Bulla (1956) p. 167. Ambos, provavelmente,
geomorfologia centro e leste européia nos seus discordariam da posição que atribuímos a S. Passarge.
aspectos básicos. Pelo contrário, o apoio que os O primeiro lembraria que S. Passarge, assim como J.
regimes socialistas deram à pesquisa beneficiou-se Walter teriam aceitado, em um certo momento, a
sobremaneira e o avanço do mapeamento postura davisiana. Ao que responderíamos, que o mais
geomorfológico é um fato que salta as vistas. Por outro significativo do ponto de vista conceitual,
lado ela vai assumindo um papel cada vez mais especialmente no caso de Passarge, emerge de uma
significativo no planejamento regional, o que acaba se postura diferente, eventualmente resultante de uma
refletindo na própria classificação formal da disciplina revisão, pois sua produção está longe de poder ser
que torna-se nitidamente geográfica e voltada para a rotulada de davisiana. Já Bulla discordaria em função
sociedade como um todo, superando as artificiais de uma interpretação diferente no processo de
dicotomias ainda bastante arraigadas na linhagem edificação dialética da geosfera. É uma objeção, sem
conceitual de língua inglesa. dúvida alguma de maior peso, que deve porém ser
julgada em função do conceito de harmonia, o qual
4. Síntese Comparativa permeabilizou boa parte da geografia alemã em certo
período e que parece-nos hoje claramente superado.
Uma revisão crítica da evolução dos Somos de opinião que S. Passarge, pelo que introduziu
principais conceitos, sistemas de conceitos e ou formalizou em termos conceituais e propostas
paradigmas geomorfológicos pode ser feita a partir do metodológicas, deve merecer uma posição de
esquema em anexo. destaque na cadeia evolutiva de posturas assumidas no
Em primeiro lugar, todavia, devemos chamar contexto da geografia alemã.
a atenção para o elevado grau de simplificação que Um terceiro aspecto a lembrar é que as
este quadro traz consigo. Ele tem a intenção de entradas no sistema de análise proposto
correspondem, por assim dizer, a fluxos que se
dispersam em direção à origem. Isto é, se a análise
considerasse um lapso de tempo maior, remontando
1Aqui
aos precursores, haveria uma abertura em leque para o
se encontra a seguir (NE)

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passado com muitos outros pontos de superposição e certas propostas kantianas, via Hettner, embora seja
interferência. Nesse sentido Davis, v.Richthofem e A. irrecusável a vinculação naturalista originária
Penck são, de maneira figurada, catalizadores do particularmente de Humboldt. Isto se expressa
passado que, através de formalizações mais adequadas claramente nos resultados finais de cada fluxo de
lançaram as bases dos conceitos, os quais idéias, que não se resume por uma teoria, mas sim por
progressivamente se aprimoraram e chegaram ate um sistema de conceitos ao nível de generalização
nós, constituindo o conteúdo e as formas de empírica, segundo as propostas de Hempel, como já
abordagem presentes da geomorfologia. Esta figura de registramos ao citar Kitts (1970), tratando da teoria da
linguagem, aliás, é mais pertinente para a corrente geologia. Ao lado disto a principal contribuição ao
alemã. nível do método, provavelmente, é a da cartografia
Outro fato a registrar é que embora geomorfológica. O aspecto positivo desta postura é,
graficamente o encadeamento dos conceitos sugira sem dúvida alguma, sua integração bastante estreita
evolução paralela, sem pontos de contato, isto não em um quadro de referências claramente geográficas,
corresponde à realidade. Procuramos superar este através da geoecologia e da ordenação ambiental
aspecto através de traços interrompidos registrando as (naturräumliche Gliederung). É provável mesmo que
interferências mútuas, cujos resultados, aliás, podem esta direção tenha sido estimulada através da análise
ser facilmente identificáveis na produção científica espacial dos processos geoecológicos, segundo uma
das duas correntes. No quadro apresentado, a ótica marxista, mais facilmente identificável nas
interferência mais nítida é expressa através da propostas oriundas dos países socialistas. De qualquer
proposta de L. C. King, embora pareça-nos legítimo forma, todavia, suas bases já estavam lançadas na
uma expectativa de renovação muito importante, cujos própria Alemanha, anteriormente à II Guerra Mundial
resultados são de difícil previsão, a partir da fase de e a incorporação da análise sistêmica contribuiu para
revisão do lado anglo-americano, que se inicia de aprofundar, ainda mais, suas concepções.
maneira mais clara com Schumm & Lichty e da Já no caso anglo-americano a postura é
realização do Simpósio de Würtzburg. Neste sentido, diferente, na medida que já em sua origem assume,
aliás, o quadro sugere, inclusive, uma possível através de Davis, uma posição bergsoniana em um
tendência à aproximação e produção de resultados que quadro de referências teorizantes. O resultado será um
se baseiam nos dois conjuntos conceituais aqui isolamento da geomorfologia em relação ao resto da
explorados. geografia, particularmente nítido no período mais
Em nosso meio, inclusive, provavelmente aceso da disputa entre possibilitas e deterministas.
fruto do Congresso do Rio de Janeiro (1956) - um dos Nesta fase o grosso dos geógrafos norte-americanos
inúmeros momentos de interferências entre as duas refugia-se nas ciências sociais e os que militam na
correntes- já se esboçou uma tendência conceitual geomorfologia acabam se orientando muito mais em
neste sentido, com a incorporação das diferentes função de perspectivas geológicas e hidrológicas,
posturas em u'a proposição que, salvo melhor juízo, como bem lembrou Burton (1963). Por outro lado a
parece dar a tônica nos postulados de raízes geomorfologia davisiana, embora em certos aspectos
germânicas. Trata-se da proposição feita por AB'Saber não seja contestada hoje em dia por alguns grupos,
(1969) e que, de maneira consciente ou inconsciente se também acabou privilegiando o único e no momento
reflete no grosso da produção geomorfológica que que o excepcionalismo foi maciçamente atacado nos
emana do Departamento de Geografia da F.F.L.C.H. USA, através da chamada revolução quantitativa, seu
da U.S.P. e que a nosso ver é mais séria contribuição paradigma de apoio foi, da mesma forma,
brasileira ao nível da teoria geomorfológica, violentamente contestado, emergindo então as teorias
superando em parte os esforços feitos por outros alternativas. Uma particularidade da geomorfologia
autores também vinculados à contextos estranhos ou de língua inglesa é que desde o início, mesmo segundo
pelo menos periféricos em relação às áreas centrais de Hempel, ela trabalha com conjuntos de conceitos
produção do construto geomorfológico. próximos ou já ao nível da teoria.
Voltando ao quadro de referência em Essa diversidade de caráter da
questão, é igualmente digno de registro que se houve geomorfologia anglo-americana e alemã pode ser
ruptura epistemológica significativa nos sistemas facilmente explorada a partir de autores que
conceituais em análise, isto teria ocorrido do lado interessam tanto ao campo da geografia como da
anglo-americano. Todavia na reflexão científica geologia (Schaefer, 1953; Ackerman, 1963; Burton,
(Mosley & Zimper, 1976; Thornes & Brunsden, 1963; Davies, 1966; Pattinson, 1964; MikeselL, 1966;
1977), parecem procurar harmonizar este quadro, Kitts, 1970; Bubnoff, 1954)
assumindo uma postura crítica baseada em uma O resultado dessa evolução diferenciada é
valorização das variáveis significativas do processo que principalmente do lado anglofônico localizam-se
geomorfológico segundo um sistema referencial as teorias e os métodos de análises quantitativas como
têmporo-espacial (Schmm & Lichty, 1965). instrumentos de pesquisa, ao passo que do lado
A figura em apreço evidencia-nos, também, germanofônico encontramos basicamente um sistema
que a geomorfologia alemã ainda está vinculada a de classificação conceitual do objeto da

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geomorfologia expresso em suas divisões formais, um Geographie und Geologie” (Introdução às


método de pesquisa que valoriza principalmente a observações sobre os fatos da geografia física e
cartografia geomorfológica e uma disciplina que geologia).
incorpora parte do conteúdo formal de seu campo em Outro fato a ser frisado é que o impacto
um sistema de análise ambiental voltado para o estruturalismo e da teoria de sistemas nas duas
homem e que surge como instrumento de articulação correntes teve resultados bastante diferentes. Se é
teórica com a geografia. verdade que em ambos os casos valorizaram-se
Essa constatação é, obviamente, uma contextos espaciais, do lado alemão emerge reforçada
simplificação. É uma busca de aspectos que permitam a visão integradora de ciências naturais com tônica
caracterizar uma corrente face à outra. É evidente, por substancial nas análises geoecológicas processuais, ao
exemplo, que também na Alemanha se busca passo que a perspectiva anglo-americana incorpora a
quantificar; é ali, aliás, que veio à luz a “Theoretical mudança mais com o sentido de ruptura com as
Geomorphology”, Scheidegger (1961). Todavia isto é abordagens historicistas. Até certo ponto representa
o mais significativo da produção alemã, assim como a um esforço dos pesquisadores de língua inglesa para
cartografia geomorfológica também não dá a tônica na absorver a critica de Schaeffer (1953) e superar o eu
corrente anglo-americana. havia ainda de excepcionalismo na geomorfologia por
Uma análise mais abrangente das duas eles produzida.
tendências acima registradas permite-nos retomar O esquema gráfico evidencia, ainda, a
alguns pontos já assinalados, que julgamos, porém, diversidade da posição de W. Penck e de W. M. Davis
importantes ressaltar. Um fato fundamental é que no contexto das duas correntes de pensamento;
ambas evoluíram a partir de pontos de vistas bastante enquanto o segundo é o principal ponto de referência
diferentes e embora se fale hoje em convergência a da geomorfologia de língua inglesa, o primeiro é um
nível internacional do conhecimento, as duas dos grandes entre muitos geomorfológicas de língua
tendências ainda se apresentam razoavelmente alemã. A esse propósito vale a pena lembrar que, em
diferenciadas. grande parte, as objeções que Penck reptou a Davis
Dado importante é que ambas evoluíram não podem ser tomadas como representativas de todo
freqüentemente procurando responder ou superar o conjunto alemão, na medida que o propósito Penck
objeções que emergiram do outro modo de pensar, compartilhava, embora através de outra fonte,
independente do motivo que justificava a busca de algumas noções básicas com a teoria davisiana; uma
uma identidade em relação à outra proposta. Neste delas, inclusive, é a aplainamento de relevo, que A.
sentido pode-se falar, de maneira figurada, que a Penck também conceituara, trabalhando
geomorfologia alemã das primeiras décadas do século isoladamente, sem conhecer ainda a proposta norte-
XX constituiu-se em um dos aspectos da resistência americana e publicando os resultados um ano após
prussiana ao desafio americano. Davis ter divulgado o princípio de peneplanação
Fica muito claro também que a reformulação (Penck, 1953) p. 302, 18 nota dos tradutores.
do pensamento geomorfológico anglo-americano, no Encerrando estas observações queremos
decorrer deste século, foi muito mais profunda do que registrar que, embora passível de reparos, essa visão
se registrou na geomorfologia alemã. Neste sentido é bipolarizada da evolução da teoria geomorfológica
mais fácil argumentar-se em favor de uma ruptura permite uma explicação bastante satisfatória para
epistemológica, pelo menos para certa fase, no caso do certas posições assumidas por diferentes autores no
pensamento em língua inglesa. No caso alemão parece decorrer do tempo, mesmo quando estes não se
que fica melhor caracterizada uma refinação integram claramente em cada uma das duas correntes
progressiva de conceitos, através de uma continuidade identificadas. Através desse sistema de referencia fica-
subjacente que dá a tônica ao conjunto das propostas. nos mais segura a crítica geomorfológica.
Isto provavelmente se vincula ao fato, já mencionado, Este esquema, por outro lado, origina-se de
de que a geomorfologia anglo-americana um esforço no sentido de superar-se uma situação
praticamente emerge para o século XX através de uma incômoda, oriunda de um história que, no caso
postura teorizante, que posteriormente é inclusive, brasileiro, valorizou em boa parte uma perspectiva
internamente contestada, ao passo que geomorfologia tomada a partir da periferia em relação aos núcleos de
alemã, desde o início, valoriza sobremaneira a geração principal da teoria geomorfológica. Isto se
observação e o empírico, o que é valido igualmente reflete inclusive na possibilidade de eliminação da
para a própria geologia alemã (BUBNOFF, 1954). visão antinômica representada pela presença da
Parece-nos significativo que enquanto uma tenha geomorfologia dita estrutural, que corresponde
como ponto de partida um trabalho intitulado “The principalmente a um rotulo de reação, cunhado em
geographical cycle”, a outra possua como referência área periférica ao centro gerador da geomorfologia de
de apoio inicial um trabalho cujo titulo é “Führer für língua inglesa, como já registrou Reynaud (1971)
Forschungsreisende” (“Guia para pesquisadores de p.11, embora se referindo a um contexto diferente do
campo”) , trazendo como subtítulo “Anleitung zur aqui proposto. Nesse sentido o arcabouço conceitual
Beobachtungen über Gegenstände der physischen apresentado, se não é completo, pode ser encarado,

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pelo menos como mais satisfatório, Gebirgsreliefs im Masstab 1:200 000 auf
Finalmente, é importante frisar que a partir Grund einer Morphpstrukturanalyse.
de uma perspectiva têmporo-espacial em relação ao Zeitschrift für Geomorphologie N.F., Berlin,
objeto de estudo da geomorfologia, os conceitos 16(2): 125-1380, Jun.
encadeados no gráfico de maneira aparentemente ______et al (1976) Methoden zur Analyse der
paralela, podem ser articulados de forma harmoniosa, Morphostrukturen auf Grund vorliegender
integrando-se a visão de Davis a King, com a postura Karten und Luftbildaufnahmen. In: DEMEK,
de Büdel face à Geomorfologia climatogenética, J. Handbuch der geomorphogischen
enquanto as análises em lapsos de tempos mais curtos Delailkartierung. Viena, Ferdinand Hirt. p131-
permitem associar, por exemplo a teoria do equilíbrio 151
dinâmico com as posturas da geomorfologia climática BERTALANFFY, L, von (1942) Treoretische
e da fisiologia da paisagem, emergindo as técnicas Biologie, Berlin.
quantitativas e a cartografia geomorfológica, como os
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instrumentos valorizados pelos diferentes autores para
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expressar suas posições face à realidade abordada. Em
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