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Resenha - Do Contrato Social[1]

Resenha - Do Contrato Social[1]

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Resenha do clássico livro de Rousseau.
Resenha do clássico livro de Rousseau.

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Published by: Ezequiel Schukes Quister on May 26, 2011
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LIVRO I

Capitulo I ASSUNTO PRINCIPAL Aqui o autor procura estabelecer o cerne da questão político-social que fundamentará suas idéias com relação ao estabelecimento dos governos e sua origem estatizada, formada pelas convenções: familiares, sociais e individuais.

(REFUTAÇÃO DAS FALSAS DOUTRINAS DA AUTORIDADE)

Capitulo II DAS PRIMEIRAS SOCIEDADES Colocando a família como pilar e principal exemplo de estrutura política, o autor demonstra que o Estado segue o mesmo padrão de domínio exercido pelo pai dentro do circulo familiar, sendo este o cabeça da família, ou o próprio governador; tendo seus filhos sob seu jugo assim como são os governados e, todos alienados a uma utilidade comum familiar. Diferentemente do Estado, o pai nesta situação se vê recompensado pelo amor dos filhos e pela progressão da família, porém, as autoridades do Estado se locupletam no simples prazer de dominação.

Capitulo III DO DIREITO DO MAIS FORTE Visto como uma das principais características do Direito, o autor demonstra que força, na verdade, não encontra qualquer sustentação na aplicação e execução deste. Demonstra a idéia de que o emprego da força no intuito de se obter obediência gera, se não, apenas um ceder pela prudência, certa cautela. Tal atitude se torna frágil e inevitavelmente ineficaz, sabendo que o cessar da força torna derradeira a real intenção: Mostrar que o Direito deve ser empregado e respeitado como dever, não como necessidade ou conveniência. Ratificando: força não produz o Direito. Capitulo IV DA ESCRAVIDÃO Dos males vividos e sofridos pela humanidade a escravidão sem dúvida foi e ainda é uma das mazelas geradas pelo poder de déspotas e, da frouxidão daqueles que se deixaram escravizar. Grócio
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diz a respeito da cessão da liberdade feita por

um particular e ressalta que tal atitude pode ser uma questão apenas de subsistência. Tomando este exemplo faz equiparação aos súditos de um rei, que apenas alienam suas liberdades à promessa de segurança civil. Ignorância tal atitude demonstra, pois a alienação também traz as conseqüências de se arcar com as ambições do déspota, bem como os atos praticados por este, que podem trazer certa tranqüilidade, mas também lhes trazer os infortúnios de guerras e o peso da ruína. A liberdade é da natureza humana e não pode ser subjugada pelo seu semelhante. Não se pode aceitar o poder absoluto nem a obediência ilimitada. Igualmente se aplica o contexto nas guerras, cujo fundamento maior se encontra não na relação entre seres humanos, mas na relação entre as coisas destes. Assim, pode
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Hugo Grócio (1583-1645) jurista holandês

se dizer que as guerras são na verdade conflitos entre estados e seus representantes – soldados – de modo algum entre homens ou cidadãos.

Capitulo V DE COMO É MISTER REMONTAR A UMA CONVENÇÃO ANTERIOR A questão deste capitulo é reflexiva e busca o entendimento na questão do assentimento por parte de um povo, que sem questionar se entrega aos encargos de um representante déspota, que se utiliza do poder de governo para seus próprios interesses. Cabe ressaltar que o povo aqui descrito como uma unidade de conjunto se submete a obediência civil e não tem por anseio o arbítrio de idéias, nem procura a liberdade de opiniões, porque se assim o fora, não se deixariam subjugar pelo poder, no mínimo o fariam, por prudência, não por querer. Conforme se pode notar nas argumentações finais deste capítulo, o autor discute a legitimidade das eleições, colocando a questão da democracia como ponto principal, mas deixa claro que esta só aparece nos textos e se expressa na vontade dos demais, pois ainda não é o sistema político predominante à época. (DO FUNDAMENTO DA AUTORIDADE) Capitulo VI DO PACTO SOCIAL Estabelecem-se aqui as bases para o que é chamado de contrato social. Um conjunto de idéias e normas aplicadas a um grupo de pessoas com interesses em comum: a unificação de um grupo, um Estado. Com o intuito de conservarem seus direitos, seus bens e a si próprios, buscam um equilíbrio de forças necessário à

manutenção do esquema, sempre lembrando que se tal associação tem caráter livre, cada indivíduo por si só tem sua liberdade em grau mais elevado, pois esta condição já é inerente do ser humano. Portanto, a cautela na aplicação das normas e no cumprimento delas deve ser total, para que não haja desequilíbrio e conseqüentemente a ruína do sistema. Os direitos de cada indivíduo não necessitam de juízes para arbitrá-los, pois cada indivíduo passa a ser juiz de si mesmo e de suas coisas. O Direito de cada indivíduo não sobrepuja o do outro, pois cada um recebe e se dá na mesma proporção, tornando nulas as dissensões. Tal coletividade é tomada de exemplo pelo autor, quando a submetem as comparações com o Estado, senão vejamos: “Esta pessoa pública assim formada pela união de todas as outras era designada outrora pelo nome de cidade, atualmente pelo nome de republica ou corpo político, o qual é chamado por seus membros de Estado quando é passivo, soberano quando ativo e potência quando comparado aos seus semelhantes. Quanto aos associados, tomam coletivamente o nome de povo e se denominam particularmente cidadão”. Capitulo VII DO SOBERANO Há uma relação de reciprocidade entre o indivíduo com o Estado e com o soberano. A obrigatoriedade no cumprimento das normas deve atender não somente ao interesse individual dos membros que compõe o grupo, mas principalmente da coletividade. Entendido como um corpo, a homogeneidade deste também deve perdurar quando neste houver dissensões, pois conflitos entre indivíduos podem afetar a sua integridade, bem como conflitos isolados entre seus indivíduos ressoar-se-ia aos demais membros, sendo necessária à assistência mútua entre ambos. Sendo o soberano formado pelos indivíduos, particulares não têm nem deve haver garantias destes para com ele, pois ninguém, mesmo dentro do seu Direito de liberdade, poderá querer prejudicar os demais por interesses próprios. Assim se justifica o poder do soberano e compromissado com os seus integrantes, busca

instituir o Estado, garantindo aos seus cidadãos os direitos e deveres sociais e individuais.

(DOS EFEITOS DO PACTO)

Capitulo VIII DO ESTADO CIVIL O estado de civilidade do homem gera transformações profundas em seu modo de ver as coisas como simples conotação individual, e passa a lhe atribui um pensamento antes ignorado no estado natural: a coletividade. Na verdade agora, ele deixa de pensar em si próprio e na condição livre da natureza que lhe é intrínseca. Encara como perdas algumas das condições que antes lhe eram comum no estado natural, porém, se recompensa nas que lhe são outorgadas com a civilidade: ampliação das idéias, sentimentos de nobreza, liberdade civil e propriedade de tudo que possui. Capitulo IX DO DOMÍNIO REAL O autor demonstra que o domínio do Estado está presente no momento em que aqueles grupos de indivíduos passam, talvez não de forma espontânea, sua alienação ao soberano. As cidades são agora o reduto dos grupos e por eles ela é formada, bem como sua condição de Direito agora é centralizada no Estado, pois este governa as cidades e tem todos os fundamentos de Direito que esta requer. A individualidade neste caso já não se sobrepõe ao coletivo, pois são estabelecidos os limites do singular e estes não são maiores do que os da cidade. Errado dizer que o cidadão passa a ter menos direitos do que outrora pensara ter no

estado natural. O pacto fundamental neste caso traz uma igualdade moral à desigualdade física que a natureza poderia ter colocado entre os homens, sabendo que a força os diferencia, mas a convenção os iguala.

LIVRO II (DA SOBERANIA) Capitulo I A SOBERANIA E INALIENÁVEL Chega-se no ponto principal do livro, ou talvez num dos principais, onde se estabelece o conceito de soberania em relação ao conjunto social. A sociedade estabelecida aqui, como forma de organização cujos interesses são da coletividade, passa a ser o pilar da soberania. Os interesses individuais aqui não são as premissas do interesse soberano, mas o interesse do povo como uma nação constituída; sendo a soberania o exercício da vontade do povo, pode alienar-se ao soberano. Não se encara o Soberano como senhor, porque se assim o fosse, certamente teríamos a falência do sistema político, visto que a soberania não precede a tirania, mas a agremiação. Capitulo II A SOBERANIA É INDIVISÍVEL Além de inalienável a soberania é indivisível, considerando esta como vontade geral2 podemos exemplificar: geral é a vontade de todos os membros e quando parcial, no máximo se pode chamar de decreto.

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Para que a vontade seja geral, nem sempre é necessário que seja unânime.

A forma como foi organizada a esfera política, onde temos o legislativo e executivo e atualmente o judiciário, é considerado por alguns como poderes soberanos, mas não o são. Podem no máximo, ser uma ramificação do poder, mas é um erro chama-los de soberania. O que os políticos buscam na verdade é a divisão dos conceitos de soberania, para que cada um possa ter ao menos a sensação de participar deste, como se fosse algo para utilização ao bel prazer dos déspotas.

Capitulo III SE A VONTADE GERAL PODE ERRAR Da vontade geral e da vontade de todos, que são coisas diferentes entre si, pois a primeira busca a harmonia de opiniões e a segunda o atendimento aos anseios individuais da maioria, pode-se matematicamente chegar a um resulto em comum, subtraindo de cada uma delas o meio termo. Das associações de indivíduos para tornarem unas as opiniões; das associações deste em grupos coletivos maiores e, da unificação de suas opiniões em algo previamente combinado, não se extrai bom fruto; não se tem a vontade geral estabelecida. O contexto mostra assim que há poucas divergências e muitos estratagemas para garantir a um pequeno grupo o domínios das massas. Quanto mais se tem diferenças e divergências de opiniões, mas provável é chegar-se a um consenso que estabeleça realmente a vontade de todos.

Capitulo IV LIMITES DO PODER SOBERANO Respeitando os interesses individuais, mas zelando sempre pelo interesse coletivo, a soberania se faz da aplicação de regras e deveres comuns a todos. Se acaso as normas de controle do soberano tendessem para algum lado, sobrecarregar-

vos-ia com um peso não suportável ou inútil, não atendendo aos anseios coletivos. O trabalho neste caso deve servir ao interesse do soberano e dos indivíduos de forma eqüitativa e qualitativa. Novamente se frisa que os desejos individuais não devem sobrepor-se aos do conjunto social estabelecido. A vontade, como meio de exposição de idéias, deve respeitar a generalização de opiniões sempre que estas rumem a sentidos opostos aos de sua natureza. A generalização de idéias e opiniões também deve ser examinada com cautela, pois tende a ser contenciosa e transformar-se em juiz dos fatos, quando deve ser mediadora. Entende-se então que a soberania como força e vontade estilizada de um povo, deve proteger a esses e por eles zelar. Não deve ter outra finalidade senão o bem estar geral. Também aqueles que dela são súditos, devem zelar e trabalhar em prol do grupo, sendo a sua força o elemento motriz que faz a soberania avanças e progredir. Capitulo V DO DIREITO DE VIDA E DE MORTE De forma explícita, o autor demonstra o poder soberano desigual sobre aqueles que fazem parte do contrato social: os indivíduos, que não podem sequer dispor de suas vidas. A conservação mutua depende da conservação individual. Se se consente em matar alguém para a proteção dos demais, se acha justa a soberania, porque cumpriu seu papel em zelar pelo todo. Porém, se um particular mata alguém, para se proteger, a este recai as sanções do Estado, que por fim também pode designar-lhe a pena de morte, seja, por exemplo, aos demais como para impedir, no futuro, que o condenado venha a fazer outras vítimas, por acharem que ele desequilibrou o sistema pactuado. Claro que aqui estamos falando de um sistema que contempla o período moderno na Europa, não tendo sentido lógico em nosso país na mesma época. O autor não define de forma clara a concepção da pena de morte estabelecida a uma pessoa. Não estabelece quem tem o poder de assim dispor da vida desta. O poder do soberano, mesmo acima dos poderes dos juízes, se mostra incerto e não

aponta a verdadeira justiça deste ato. A debilidade do Estado assegura a impunidade que consequentemente assola o povo e o sujeita a atitude extremas. Basta nos reportarmos ao período Romano, que ficou muito conhecido, além de sua organização, por sua rigidez nos julgamentos, que não davam qualquer possibilidade de graça àqueles que ferissem o sistema, sendo executados sem piedade.

(DA LEI E DO LEGISLADOR) Capitulo VI DA LEI Demonstrada pelo autor toda a sistematização e conceitos para alicerçar o pacto social e deste a estatização das vontades (normas), chega-se ao quesito fundamental do sistema: dar-lhe mobilidade e ação. O autor, de forma objetiva declara que toda a lei provém de Deus; que esta lei, emanada por Ele, serie suficiente para regimentar as condições sociais, políticas e civis, caso fossemos capazes de recebê-la. Tal capacidade seria a razão, como guia na solução de problemas e mediadora de conflitos. A lei é definida como a vontade geral, que nem sempre tende à integralidade de opiniões de todos os indivíduos, mas estatiza-se na maioria. Nesse ponto então se defini que a lei são produtos da vontade coletiva, registros dessa vontade. Dizer que a lei é injusta é dizer que alguém é injusto consigo mesmo. Cabe ressaltar que a vontade particularmente dita bem como a ordenação dessa vontade, seja por um particular ou por algum ato do Soberano, não deve ser confundida com lei, mas sim como decreto ou magistratura. Assim, conclui-se que o ato de vontade geral, como principal instrumento criador de leis, também deve ser examinado e principalmente, avaliado pelo próprio povo que o produz, visto que a vontade por ser correta, mas o julgamento desta não. O conhecimento e discernimento do particular será a principal ferramenta para avaliação das necessidades coletivas, particulares e se estas estão em harmonia com

o senso coletivo. A ausência desta capacidade na maioria dos indivíduos gerou a necessidade de um legislador.

Capitulo VII DO LEGISLADOR Primeiramente o autor, com certa religiosidade que lhe é latente, demonstra que o cargo de legislador, bem como de seu papel no Estado, tem fundamentação histórica no mundo antigo, quando reis, imperadores e príncipes se utilizavam desse “sábio” para consultas. Estas consultas também se faziam através dos oráculos, deuses e outras formas de sabedoria religiosa. Eles eram os elos de ligação entre o soberano e a fonte da justiça. Tido como um operador da máquina que se transformara o Estado e a justiça. Não se constitui de poder de magistratura, tampouco de soberania. É uma função particular e desvencilhada do Estado. Não pode o legislador ter poder de decisão ou de controle, caso isso ocorra há a ruptura do pacto social, do qual o povo ou a vontade geral deste deve ser o princípio fundamental do Estado. Assim, seria preciso que o efeito possa se converter em causa, fazendo com que o princípio do pacto, que é a obra da instituição, presidisse a própria instituição e que os homens fossem antes da lei, aquilo que deveriam se tornar mediante ela. (DOS DIFERENTES POVOS)

Capitulo VIII DO POVO

De tudo que foi tratado até aqui, o povo, ou os tipos de povos, são a essência para as leis e para o sistema estatal criado a fim de organizar os indivíduos e suas vontades. Platão3 já dizia que as diferenças de classes e prosperidade em relação aos demais, criavam desigualdades além das materiais, mais de ordem social – insubordinação. Dizia também que os vícios e os preconceitos, enraizados na mentalidade do povo, tornam-no um empreendimento perigoso a sua reabilitação. Semelhante situação encontramos na atualidade, onde a corrupção enraizada na mentalidade dos políticos, tornam qualquer medida ou esforços da população para corrigir estes problema, um fardo insuportável, sendo necessário gerações e gerações de pessoas com força de vontade para mudar a mentalidade do povo e abrir-lhes os olhos, porém, há mais fatores que integram este conjunto que resulta neste flagelo que é a corrupção em um país. As guerras civis e revoluções nos mostram a capacidade de regeneração que existe em um povo. Também nos mostra que tais assolas servem para um despertar de consciência e renovação, porém, como já foi dito anteriormente: pode-se obter liberdade, mas recuperá-la jamais.

Capitulo IX CONTINUAÇÃO Quanto à administração exercida pelo Estado, o autor coloca de forma clara as diferenças entre um Estado pequeno, auto-suficiente ou não, bem como as dificuldades de se administrar um Estado grande e disperso. Considera também a onerosidade de se ter um Estado afastado do povo, gigante nos seus graus. Assim como há inúmeros tipos de povos, também é necessários governos específicos para cada um destes povos, onde seus costumes são os ditames de sua
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Platão foi convidado pelos habitantes de Cirene para elaborar para estes uma legislação escrita, mas ele teria se recusado, alegando que seria difícil redigir leis para um povo que vivia em tal estado de prosperidade. Este fundamento pode ser remetido ao diálogo de Platão em, As Leis, no qual ele deixa claro que a presença de cidadãos excessivamente ricos torna impraticável a preservação e legislação de um Estado socialista justo, onde haja suficiente prosperidade para a totalidade dos cidadãos.

organização. Leis que são aplicadas de formas abrangentes tendem à desigualdade, já que cada povo é impar. Assim é que este corpo político demasiadamente grande por sua constituição se debilita e perece esmagado sob seu próprio peso. Necessário dizer que se vêem razões para expandir e para recuar. Desse movimento é necessário analisar o que será bom para a preservação do Estado. Capitulo X CONTINUAÇÃO Dos movimentos de expansão ou retração mencionados anteriormente, o autor propõe a determinar qual o conceito para se medir a grandeza de um povo, para isso, se utiliza de uma medida de suficiência onde, o indivíduo entra na proporção de manutenção da terra em relação à capacidade desta em nutrir os seus habitantes. Russeau não via o comércio com bons olhos. Acreditava que a agricultura era a base de uma economia. Interessante observarmos que o autor, mesmo na época anterior a revolução industrial e da aglomeração dos indivíduos na cidade, tinha ciência da falta de alimento predominante na Europa da época. A formação dos Estados e a utilização dos espaços são ações que geralmente não foram planejadas. Isso torna fácil o entendimento de evolução de países montanhosos, com terras ingratas (inférteis), geografia tosca e recursos naturais pobres, ascender e tornar-se tão prósperos como aqueles países onde a abundância de recursos naturais, acidentes geográficos isolados e extensa faixa de terra bem como orlas marítimas – como o Brasil, por exemplo. As desigualdades causam nas pessoas sentimentos de fracasso e desânimo, criando uma atmosfera de incertezas e de necessidade de algo novo, de um salvador, de um governante que seja o espelho dos anseios dos indivíduos. Nesse contexto perigoso é que surgem, conforme nos mostra a historia, déspotas que se aproveitam da fragilidade do povo para colocar em prática seus planos tiranos, suas vontades torpes e sua ganância por poder. Vejamos o que foi o governo de Hitler, Mussolini, Fernando Color de Mello e tantos outros infames, que se locupletaram à custa do poder e da ignorância do povo. Não quer dizer que bons governos não possam ter

nascido de situações semelhantes as detalhas aqui, mas é prudente ficar atento, pois se distingue a obra do bom legislador da do tirano, exatamente pelo período em que ela é apresentada. (DOS SISTEMAS LEGISLATIVOS) Capitulo XI DOS DIVERSOS SISTEMAS DE LEGISLAÇÃO A liberdade e igualdade encerram o propósito de toda legislação, segundo o autor, que defini a liberdade civil4 em capitulo anterior, restando a definição de igualdade. Quanto à igualdade, cabe dizer que a palavra em sua essência não significa a riqueza e poder na mesma proporção, mas com relação ao poder, que este esteja no mesmo patamar de igualdade e aplicabilidade a todos os indivíduos, sem exceção. A especulação em torno da igualdade é vista como mera teoria, sem uso prático. Porém, havendo então a certeza de que não há igualdade, devemos ao menos regulamentar a desigualdade. Aqui entra o papel das leis e dos legisladores, que serão os responsáveis pela convenção de normas. A idéia de uma legislação baseada nos costumes de cada povo é uma necessidade pontual. Entende-se a necessidade de se cultivar, industrializar de acordo com cada necessidade local. O autor exemplifica as qualidades de uma região de planícies férteis, porém, não cultivadas pelo homem, que vê seus interesses na industrialização, não considerando as condições que lhe favorecem à volta. De forma natural a constituição de um Estado só se solidificará quando Este assistir as necessidade e conveniência de seu povo, mantendo harmoniosamente leis e natureza das coisas. A modificação destes princípios traz a desigualdade e esta, traz a inevitável anulação das leis principiando o fim do Estado.

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Livro I Capitulo VIII

Capitulo XII DIVISÃO DAS LEIS Dentro do corpo político constituído temos a necessidade de leis para se ordenar os poderes e relações entre soberania e Estado. Tais leis podem ser boas para o pacto social como também pode ir contra os princípios destes: cabe ao povo, como força motriz, determinar os ditames das boas e más leis. Eis que temos então o primeiro princípio de regras entre os poderes – leis políticas O segundo principio a ser discutido tange a relação entre os indivíduos e entre estes e o corpo político. Neste caso entre o primeiro a relação deve ser estrita e entre o segundo, o maior possível. A independência do indivíduo só se deve limitar à dependência da cidade. Desta relação nascem as leis civis. Como terceiro ponto discutido pelo autor recai sobre as penalidades impostas àqueles que por ventura quebrem as normas determinadas pelo pacto social, imputando-lhe penas, que serão o princípio das leis penais. Ainda há de se mencionar o quarto tipo de lei gerada pelo povo, talvez a maior e mais fidedigna delas: os costumes e a opinião. Esta sem dúvida vai moldar ou interferir em tudo que já está, de certa forma, pacificado em entendimento e organização normativa. O avanço e a modernização do Direito estão intimamente ligados e, se pode dizer até dependentes deste último tipo de lei. Se o Direito existe para normatizar todas as vontades e anseios de um povo, os costumes vêm para refinar e persuadir as mudanças quando as normas se tornarem obsoletas. LIVRO III (DA TEORIA DO GOVERNO) Capitulo I DO GOVERNO EM GERAL

Governo => definição: “Um corpo intermediário estabelecido entre os súditos e o Soberano para mútua correspondência, encarregado da execução das leis e da manutenção da liberdade tanto civil quanto política.” Esta definição se fez necessária para que se possa extrair dela alguns conceitos: Quando se fala em intermediário, se fala no elo de ligação entre o poder do Estado e do Soberano. Aqui o governo exercerá o papel de ministro deste, na execução e aplicação das leis, no controle do cumprimento destas e na aplicação de penalidades às regras violadas. Ao mesmo tempo em que o Estado garante a liberdade civil aos indivíduos, também exige deles a submissão, como súditos de um sistema pactuado desde a criação. O indivíduo como principal fator de geração de leis, pois este é, ou deveria ser, o motivo e encerramento de cada lei ou norma imposta, tem papel figurativo como legislador, porém, agora estabelecida as diretrizes do governo, esse papel passa a ter um número de legisladores escolhidos pelos demais indivíduos. Estes serão as vozes do povo dentro do sistema governamental, com definições de poder e conduta previamente definido no que conhecemos hoje como os três poderes: legislativo, executivo e judiciário. Estabelecidos os poderes, cabe ressaltar que cada um, na sua individualidade e na esfera em que atua no corpo político, tem seu poder limitado ao poder do outro. Ou seja, cada qual tem poder, mas nenhum deles, pelos menos em teoria, pode intervir no outro, devendo ambos trabalhar em conjunto. De forma aritmética o autor explica que cada indivíduo tem um percentual de poder estabelecido entre os demais, sendo esta proporção cada vez menor conforme o crescimento do Estado, gerando então menos liberdade. Esta forma matemática de explicar a divisão do poder não encontra fundamento prático, visto que não se pode mensurar nem extrair produto lógico e exato de relações morais. Capitulo II DO PRINCÍPIO QUE CONSTITUI AS DIVERSAS FORMAS DE GOVERNO

Ao contrário do exemplificado acima, o corpo político, formado pelos magistrados, tende a enfraquecer o governo na proporção inversa do que foi falado anteriormente. Isto é, se o governo possui um numero grande de magistrados, tende a ser mais fraco, por ocasião da força interna que lhe é dispersa. Isso nos mostra que a vontade particular de cada um, dentro de um governo, deve ser nula. A vontade individual ainda está no seio das ordens estabelecidas, porém, deveria ser a última delas, já que falamos de coletividade. (DAS DIFERENTES FORMAS DE GOVERNO) Capitulo III DIVISÃO DOS GOVERNOS - Democracia – forma de governo onde o maior grupo de pessoas tem o poder limitado de governo - Aristocracia – forma de governos que concentra uma minoria no poder. - Monarquia – governo regido pelo por uma única pessoa Não há consenso sobre qual a melhor forma de governo. Capitulo IV DA DEMOCRACIA De forma brilhante o autor expõe a idéia sobre a divisão e distinção de poderes entre o legislativo e executivo. Poderes estes que deveriam seguir cada qual no seu rumo e sob a supervisão do Soberano. Um, produzindo as leis de interesse geral. O outro executando tais leis e coordenando sua aplicação social. Para que este sistema fosse perfeito, ou que pelo menos fosse eficiente, seria necessária a anulação da vontade individual.

É contrária a ordem natural o menor governar o maior. Essa afirmação busca expandir o conhecimento de todos e abrir-lhes os olhos para a idéia de que se houveram menos vontades individuais, menos abusos da população, talvez não precisássemos de governo. Ao contrário do parágrafo anterior, utópico por sinal, concordo com o autor quando remete a análise do sistema dito democrático à análise das mazelas que este causou em vem causando a população. De forma pessimista o autor diz que “o verdadeiro governo da maioria nunca existiu e nunca existirá”. Creio que a desilusão nesse sistema deve-se a impossibilidade de citar-se um caso sequer para exemplificar a forma positiva deste governo. Nem daqueles que o criaram, os gregos, se tem notícia de que a democracia foi exercida exatamente em favor do povo.

Capitulo V DA ARISTOCRACIA Interessante observar a analogia que o autor faz com relação ao início da aristocracia, quando os mais jovens, respeitavam a experiência dos mais velhos que, além de chefiar suas famílias também se ocupavam dos assuntos públicos. Porém, as desigualdades com o crescimento da população trouxeram consigo as diferenças sócias e desigualdades, que por si só geraram a desigualdade do sistema, fazendo da aristocracia uma forma eletiva de governo. Fazem-se necessário a explicação das divisões dentro da aristocracia e suas particularidades, feitas pelo autor. 1º - Natural => convencionada aos povos simples. 2º - Eletiva => tachada como a pior forma da aristocracia. 3º - hereditária => considerada a melhor delas.

De maneira simples, pode-se dizer que a forma hereditária é a melhor porque limita o número de candidatos ao governo, fazendo com as assembléias decorram de forma mais livre e focada nos assuntos, ao contrário do que ocorre nas demais assembléias onde um numero exagerado de políticos discutem sem chegar a um consenso. Também se tem mais prestígio diante do povo e maior credibilidade nos negócios internacionais, pois se sabe que aquele membro já é figura conhecida do mercado e do povo, diferentemente do que se ter uma multidão de membros desconhecidos e desprezáveis. Resumindo: Trata-se de um modelo de governo e gestão compacto e conciso, onde há possibilidade de diálogo direto e consensual; numero reduzido de membros que consequentemente tende a ter maior poder de decisão e maior fluidez nas deliberações. Considerar também a redução de gastos públicos com folhas de pagamento! Capitulo VI DA MONARQUIA É necessário enfatizar a principal característica que em relação aos demais, nos remete a um raciocínio diferente do exposto até aqui. O poder legislativo e executivo, concentrados no corpo do Estado como vimos até aqui, e o Estado, ministro do soberano e da vontade geral, representa, através de uma coletividade de membros, a individualidade de cada particular, de cada cidadão. Então, pensemos de forma contrária, onde toda a concentração de poder e a personificação deste, inclusive a faculdade de dispô-los, serão concentradas na figura de uma pessoa singular, que será o representante de uma coletividade. Esta pessoa denomina-se monarca ou rei. Nos governos democráticos ou aristocráticos ou qualquer governo que comporte membros no seu poder, a principal necessidade é zelar pela vontade coletiva, deixando de lado os interesses particulares. No governo monárquico, dificilmente se pode extrair este interesse daquele que, em sua onipotência sobre os súditos, tende primeiramente a ver suas particularidades

resolvidas, deixando o povo em segundo plano. Para exemplificar basta analisar as conjecturas do pensamento de um monarca. Quereria ele que o povo fosse forte, pelos menos aparentemente, pois demonstrada a face poderosa de um povo, poderíamos dizer tratar-se do fruto de um governo na mesma proporção. Porém, é justamente ao contrário que se vê. O que o monarca quer na verdade é um povo fraco, submisso, sem condições de reagir ou oferecer resistência ao governo, semelhante ao que foi dito por Maquiavel5. Capitulo VII DOS GOVERNOS MISTOS De forma clara o autor afirma a impossibilidade de exercício do governo sem a dependência de outros, sejam magistrados, legisladores ou membros do executivo. Sobre as divisões do poder e das alçadas distribuídas a cada um deles, é preciso distinguir cada modelo e demonstrar a necessidade recíproca entre ambos e suas dissensões. Sem dúvida há dependência entre os poderes e esta dependência geralmente é prejudicial ao conjunto, quando não organizada. Há necessidade de certa burocracia para controle, porém, burocracia com desorganização e insubordinação é ruína. O autor ainda coloca a necessidade de “tribunais” que não verdade entende-se por órgão fiscalizadores e reguladores independentes, como o intuito de harmonizar as forças e estabelecer a ordem. (DO GOVERNO E DO PAÍS) Capitulo VIII QUE TODA FORMA DE GOVERNO NÃO É APROPRIADA A TODO PAÍS

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Ver O Príncipe, de Maquiavel.

A liberdade, igualdade e fraternidade, relatadas por Montesquieu 6, tendem a ser uma utopia pregada a muitos dos povos espalhados pelo mundo, porém, o próprio autor citado relata em sua obra a maneira pela quais os povos do norte se mantiveram livres, como se o frio e as dificuldades geográficas os fizessem fortes e intolerantes. Quanto aos povos da América do Sul, banhados pelo sol e pela suposta fartura e condições favoráveis, justificam a escravidão o autoritarismo e desigualdades pela simples lógica de que não tivemos de enfrentar situações inóspitas e com isso não desenvolvemos nossa capacidade de lutar pela sobrevivência e por justiça. Logo se vê tratar-se absurdo, não passando apenas de certo preconceito enrustido. Sabemos que fatores como clima, fertilidade do solo, geografia e claro, pela necessidade dos indivíduos, contribuem para a prosperidade e crescimento de um país. Os fatores que os levam a ruir tem muito mais haver com aqueles que os governam, do que com a covardia de muitos. Outro fator que também desequilibra um povo é a voracidade de certos governos, que não medem esforços para arrecadar cada vez mais, pilhando a economia dos estados e empobrecendo os cidadãos. O ciclo da moeda - economia, que deveria ocorrer entre governo, Estado e cidadão não ocorre, ou melhor, ocorre de forma totalmente ineficiente; seja por questões de corrupção, interesse privado, jogo político e etc. A quantidade paga em tributos já não é tão relevante quanto a aplicação destes recursos; para que o povo usufrua daquilo que ele próprio cedeu em favor da coletividade. Assim o autor explica que das formas de governos citadas anteriormente, podemos classificar a democracia como governo dirigido a pequenos e pobres Estados. A aristocracia aos Estados de riqueza e a monarquia as nações opulentas. Finalizando a idéia de que as condições climáticas e geográficas de certas regiões influenciam no tipo de governo que esta criará, o autor equipara algumas dessas áreas e estabelece um vínculo político entre trabalho na geração de riquezas (alimentos, sustento) como, por exemplo, a larga extensão dos países tropicais, que por essa característica, torna mais difícil as revoltas sem que o governo tenha ciência prévia. Bem como a países menos extensos, porém, mais populosos, sendo essa característica a principal arma contra as espionagens do governo, que não consegue

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Ver O Espírito das Leis.

penetrar no seio de tais grupos devido sua organização, proximidade geográfica e possibilidade rápida de avanço. Capitulo IX SINAIS DE UM BOM GOVERNO Julgando pelo passado e pelo aumento da população, o autor co-relaciona o crescimento da população com sinais de um bom governo. Analisando o período e o contexto social da época em que o autor escreveu esta obra, podemos dizer que sua teoria tinha fundamento lógico, porém, devem-se analisar sob um contexto macro os sinais que indicam prosperidade. A quantidade de indivíduos não pode ser relacionada diretamente como algo bom, ou bons frutos de um governo. A paz ou a tranqüilidade aparente não caracteriza o bom governo, pois sabemos que das dificuldade e das desavenças também se podem retirar bons frutos e aprendizados que fortalecem e proporcionam o desenvolvimento e capacidade as pessoas. O bom governo é aquele que dá condições sociais favoráveis ao crescimento, proteção aos indivíduos e, justiça aos menos afortunados. (O ANTAGONISMO ENTRE O GOVERNO E O SOBERANO) Capitulo X DO ABUSO DO GOVERNO E DE SEU PENDOR A DEGENERAÇÃO Entre a vontade geral e a particular, temos o governo, buscando sempre sufocar a vontade geral. Isso mostra claramente que o ponto crucial, em que o pacto social será quebrado, ocorrerá quando o governo se dissolver ou reduzir. A redução neste caso será mostrada como ausência de poder para controle e aplicação das normas bem como o enfraquecimento ante ao soberano. A redução também se faz pelo

menor número de membros, retrocedendo ao modelo aristocrático, conforme visto anteriormente. Quando esta redução se expande ao Estado, podemos dizer que a usurpação do poder soberano gera o sistema semelhante ao que tivemos no Brasil na época da ditadura militar, onde o pacto social literalmente foi quebrado e os cidadãos, sem a liberdade civil que antes lhes era garantida, se vê forçada a obedecer. A desorganização neste caso se transformará em anarquia, que é contrária a democracia. Capitulo XI DA MORTE DO CORPO POLÍTICO O fundamental ponto neste capítulo diz respeito à possibilidade de morte de um sistema. Morte esta devido a falência de seus órgão. Assim como no corpo físico natural, um corpo político também tem suas bases e necessidades fundamentadas numa estrutura organizacional em que cada órgão exerce uma função primordial para sobrevivência do corpo. Se o Estado é o corpo, o executivo o cérebro e o legislativo o coração, sabemos que um corpo sobrevive aos problemas e até ausência de cérebro em alguns casos, porém, sem coração jamais. Vemos que o legislativo é o ponto fundamental de funcionamento de um sistema. A elaboração, preservação e modernização das leis cabem ao legislativo. Se a lei é boa e perdura, sinal de que esta atingiu seu objetivo. Porém, se a lei não cumpre sua função, morre inevitavelmente. Assim cabe ao legislador manter viva a essência das leis antigas, perquirir para elaboração de novas leis e, principalmente, aplicar o conhecimento na melhoria e na evolução do país. Capitulo XII COMO SE MANTÉM A AUTORIDADE SOBERANA

Nos dias atuais não há como reunir o povo nas praças como se fazia nos tempos da Grécia Antiga. A autoridade soberana se mantém através da vontade do povo, que raramente, nos dias atuais, é levada em consideração. Poderíamos dizer neste caso que a Soberania é parcial, visto que a vontade é parcialmente atingida, porém, o cumprimento de sua totalidade só se faz através de reivindicações e pela busca de direitos. Capitulo XIII e XIV CONTINUAÇÃO Além de cobrar pelos direito e pela correta execução das leis, o povo deve participar da criação, aplicação e avaliar a eficácia da lei imposta, pois não é o povo o objetivo das leis ? Sendo a lei e o poder soberano uno, não se pode dividir a participação do povo pelas cidades que formam o Estado, pois o poder soberano é indivisível. Tal divisão seria interpretada de formas diferentes pelas cidades, pois cada lugar tem seus costumes e suas peculiaridades. O autor, e tom de sentimentalismo e inconformismo, fala sobre a necessidade de se povoar os territórios de maneira uniforme, bem como utilizar-se de direitos idênticos. Profundo admirador da vida campestre, demonstra repulsa pela vida urbana, principalmente nas metrópoles, que segundo ele é o resumo de todas as paixões do ser humano, pois nela residiam os déspotas a nobreza, e onde se via a ostentação e luxúrias de um mundo regado a dinheiro e poder. Capitulo XV DOS DEPUTADOS OU REPRESENTANTES Partindo do princípio de que o representante do povo, deve literalmente representa-los, este não deve fazê-lo por dinheiro ou qualquer outra forma de pagamento que lhe extirpe a verdadeira causa: interesses coletivos.

A autora remota aos tempos antigos, ainda nos feudos, quando os cidadãos eram obrigados a prestar serviços ao estado, para explicar que hoje há menos liberdade do que se tinha naquela época. A pesada carga tributária, que assola as pessoas, a falta de investimento público e principalmente a indignação de ver aqueles que seriam os representantes do povo, locupletando-se com dinheiro público. A constituição de um Estado forte, equilibrado produz no povo confiança, fazendo com que os negócios do Estado sobrepujem os particulares, com isso teremos uma parcela maior de pessoas felizes, que não precisam buscar em outras fontes, seu sustento e sua dignidade como cidadão. Quanto melhor for o governo, maior confiança o povo depositara nele. Maior também será sua participação, pois sabem que suas vontades serão ouvidas e discutidas, mesmo que não atendidas, quando contrariarem a vontade geral. As leis neste caso deverão ser muito melhores elaboradas, pois os legisladores terão a ajuda dos principais interessados – leis boas produzem leis ainda melhores. Leis más conduzem a piores. Fica evidente que o interesse particular dos representantes e a vontade de uma minoria governista rechaçam qualquer possibilidade de intervenção do povo, bastando a esse somente cobrar daqueles que na verdade não os representam, mas são meramente comissários, se partirmos da idéia de que a soberania é alienável, como vimos anteriormente. (DA INSTITUIÇÃO DO GOVERNO) Capítulo XVI QUE A INSTITUIÇÃO DO GOVERNO NÃO É, DE MANEIRA ALGUMA, UM CONTRATO Como vimos anteriormente a instituição do governo foi uma conseqüência do contrato social, então, porque não se pode estabelecer um vínculo contratual entre governo e cidadão?

O que o autor procura explicar neste capítulo e o entendimento que cada cidadão tem sobre lei e como ele a recebe. Primeiramente se faz necessária atribuir uma explicação rápida sobre o poder que regulamente e cria diretrizes para aplicação das leis: o poder executivo. Este tem a tarefa de analisar a aplicabilidade da lei e garantir sua eficácia. Tem atos isolados do poder legislativo, por isso naturalmente é isolado deste, pelo menos em teoria. Se cada cidadão recebe a lei e num ato particular tenta obrigar a outrem que o faça aquilo que ele próprio não faz, pode se dizer que realmente aqui não há contrato estabelecido. Primeiro porque falamos desde o início em grupo, coletividade e associação. O governo deve ser estabelecido sobre o último dos exemplos, onde cada indivíduo tenha noção de sua obrigação e saiba cobrar a obrigação do outro, mas não obrigá-lo a fazer. Então se conclui que o contrato tem obrigações mútuas, mas sua execução requer o exercício de ação do indivíduo e dos governantes, ambos na reciprocidade.

Capitulo VXII INSTITUIÇÃO DO GOVERNO Ainda reportando ao capitulo anterior, o autor procura estabelecer uma característica ocasionada pelo poder do povo na instituição do governo. Como vimos anteriormente, o legislativo é o produtor das leis enquanto o executivo as executa. Antes mesmo de o governo ser instituído, se faz necessário que o povo escolha aqueles que serão os chefes do poder e que serão os mesmos a aplicar e regulamentar as leis que são dirigidas aos próprios cidadãos. Parece contraditório à primeira vista, mas é uma característica interessante do corpo político e principalmente da democracia. Capitulo XVIII MEIO DE PREVENIR AS USURPAÇÕES DO GOVERNO

No final do texto deste capitulo o autor comenta a necessidade de se instituir assembléias para controle e analise da qualidade e eficácia do governo instituído. Cabe analisar nos dia atuais se tais assembléias teriam este poder e se isso poderia de alguma maneira ser considerada ilegal ou inimiga do Estado, pois ocorrendo alguma delas, facilmente o Estado a desmantelaria. Voltando ao ponto principal do capitulo, sabemos que a usurpação por parte do governo é algo comum. O autor de certa forma profetiza o que vemos hoje no cenário político. O povo deve acompanhar com cautela a mudança dos poderes e daqueles que fazem o poder dentro do governo. Deve ainda procurar identificar quais os atos que identificam este ato de usurpar e quais as formas de contê-lo. Contudo, deve o cidadão ter consciência de que tudo o que for feito pelo governo, deve ser de acordo com o pacto que foi firmado, sendo sua reciprocidade obrigação de ambos, mas quando um extrapola os limites impostos no contrato, pode-se rescindi-lo. Livro IV (PERMANENCIA DA VONTADE GERAL) Capitulo I QUE A VONTADE GERAL É INDESTRUTÍVEL Que a vontade geral é indestrutível é possível afirmar, porém, indestrutível porém pode ser subjugada. Indestrutível não quer dizer que ela seja aplicada, pois pode ser contida, muitas vezes no âmago de muitos. Um Estado que tem harmonia entre seus membros e seus poderes, sem dúvida geram bons frutos e os beneficiados sem dúvida são os cidadãos, que tem sua vontade atendida. Esta máxima pode e deve existir não somente na filosofia de pensamento, mas deve-se buscar concretizar esta vontade. Um Estado organizado e voltado para o povo não teme a queda, tampouco os que fazem parte dele se deixam enganar pelas sutilezas do poder e astúcia de alguns. Poder-se-ia dizer que qualquer cidadão faria valer as vontades coletivas em um governo sadio como se vislumbra.

Uma organização onde tudo seja pensado no coletivo, onde tudo seja organizado e parametrizado para solução de conflitos, qual o montante de leis que se faria necessário para assegurar a eficácia desse sistema? Provavelmente um número ínfimo, pois se cada indivíduo sabe o seu papel nessa organização, sabe também de suas obrigações. Neste caso a lei seria apenas um registro da vontade que já se manifesta por si só, não sendo necessária sua imposição. Então quando falamos da indestrutibilidade da vontade geral, devemos pensar que a única coisa que pode talvez abalá-la, é a vontade individual. Esta sim, tende a ser a ruína de um Estado democrático, quando não controlada e contida. Se predomina a vontade individual, predomina o interesse mesquinho, as manobras políticas, as dissensões e as contradições de opinião. A unanimidade não encontra abrigo no seio dos votos e assim está instalada a desordem. Apesar de tudo isso, a vontade geral continua a existir, mas como dito anteriormente, subjugada, encoberta. (O FUNCIONAMENTO NORMAL DAS INSTITUIÇÕES) Capitulo II DOS SUFRÁGIOS As dissensões e tumultos em uma assembléia deliberativa já demonstram de antemão o estado de saúde de um governo. As contradições existem e vão sempre existir. Não se pode obrigar uma pessoa a aceitar uma ordem ou uma lei da qual ela não consentiu. Na verdade não está totalmente errado pensar assim, porém, quando isso ocorre, dizemos que a vontade individual está em ação. As vontades coletivas nem sempre estarão alinhadas com as vontades individuais. Isso ocorre freqüentemente e o melhor a se fazer é buscar nesse contexto, extrair o melhor da decisão geral. Unanimidade tem valor bem diferente de igualdade!

Capitulo III DAS ELEIÇÕES O cerne da questão deste capítulo trata da melhor forma de eleição daqueles que farão parte do governo. Seja pela escolha ou pela sorte, a questão é: teremos representantes que realmente possam colocar a vontade geral em primeiro plano? Na primeira opção (escolha) devemos colocar aqueles membros que sejam previamente avaliados, sob a ótica da capacidade, vontade e hombridade ligadas aos assuntos mais sérios de um governo. Da segunda opção (sorte) podemos estabelecer apenas o bom senso como critério, e deixar que a sorte se mostre boa ou ruim. (AS MAGISTRATURAS PARTICULARES) Capitulo IV DOS COMÍCIOS ROMANOS 7 De forma extensa e detalha o autor faz referência aos sistemas de governos criados pelos Romanos e de sua extrema organização política-social. Desde os primórdios até o fim da republica, pode se ter como exemplo as divisões - trinta e cinco no total - entre grupos de poder e súditos que existiam na época da fundação de Roma. Também se faz justo a referência ao instituidor8 de um sistema de divisão onde os indivíduos eram libertos quando trocasse a servidão por serviços laborais rústicos e militares. Não me convém explicar aqui os detalhes deste sistema arcaico, porém, eficaz à época. Detenho-me tão somente neste pequeno resumo. Capitulo V
7 8

Comícios ou assembléias eram onde se realizavam em Roma as eleições dos altos magistrados. Rômulo.

DO TRIBUNATO O tribunato por assim dizer, assemelha-se ao poder judiciário, mas o autor não o descreve dessa forma. Como regulador dos sistemas do poder executivo, protetor das leis e conseqüentemente do pode legislativo, cuida para que ambos sejam justos e intervém se necessário nos domínios de cada um. Esse ponto é fundamental na análise desse contexto, pois o poder exercido por este tribunato pode facilmente corromper-se em tirania. Tem sua fragilidade e também pode ruir, quando, assim como o governo, encontra dissensões dentro de seu corpo político. As diferenças entre o sistema judiciário atual são apontadas pelo autor quando comenta sobre a ausência de ligação deste sistema com o governo. Na verdade, por ser um instituto à parte do governo, este não depende dele e pode facilmente o excluir ou limitar sua ação ou ainda, estabelecer mudanças periódicas, para que não se possa usurpar do poder, cabendo ao novo magistrado agir do poder que lhe foi conferido, não do predecessor. Capitulo VI DA DITADURA Neste capitulo o autor faz comparações entre tipos de ditaduras, como por exemplo, as de cunho emergencial, cuja finalidade é reestruturar ou salvar o governo. Esta ação na verdade é a derradeira tentativa em casos de inevitável ruína. Tente a ser algo provisório, até que tudo esteja harmonizado ou pelo menos, que se possa instituir novamente o governo geral. A problemática desta situação é possibilidade desta ação perpetuar-se e o ditador, após ter saboreado o gosto do poder, queira exercê-lo de forma plena. No passado a ditadura foi usada como instrumento para assegurar e alicerçar o Estado instituído, que ainda não se sustentava sobre a sua constituição. O que

ninguém esperava era que os ditadores tomassem o poder e dele não abrissem mão, julgando ser um fardo grande a investidura que lhe outorgaram, imaginavam que o peso desta nomeação lhe fosse grande para ser suportado por apenas um indivíduo. Mas a história nos mostra que os ditadores suportaram e abusaram dessa investidura. Capitulo VII DA CENSURA Poderíamos dizer que quando usada para fins de preservação da cultura a costumes a censura foi uma aliada da população. O próprio autor nos dá uma idéia quando diz: “A censura preserva os costumes excluindo a corrupção das opiniões, conservando a retidão destas por meio de prudentes aplicações , por vezes fixando-as quando forem incertas”. Se a dita liberdade de expressão pode se tornar a banalização da cultura e sua ação tenha influência negativa sobre o povo. Digo que bem vinda seria a censura em nossa época ! (A RELIGIÃO E O ESTADO) Capitulo VIII DA RELIGIÃO CIVIL Intimamente ligada aos povos da antiguidade e ainda hoje com certa relevância dentro dos regimes políticos, a religião e os deuses que dela faziam parte estava posta intrinsecamente às leis do Estado e suas jurisdições. As guerras entre os primeiros povos eram decididas pela força bélica de cada exército bem como pelo poder de cada Deus, que de seu exército cuidava e intercedia na possibilidade de vitória. Claro que isso soa fabuloso nos dias atuais, mas muito desta crença perpetuou até os dias atuais. Talvez não como uma Epopéia, mas no seu

âmago, quando permite que a religião possa caminhar lado a lado com os governos e tomar parte das decisões que deste emana. O poder da religião foi levado ao extremo durante a Idade Média, quando o poder da igreja era tanto quanto o do próprio Estado instituído. Aliás, cuidava a igreja de sempre opinar e ter a última palavra sobre todos os assuntos que dependiam de solução. Sua argumentação sempre rezava que as leis vinham de Deus e por isso eram habilitadas para decidir também. O cenário atual nos mostra claramente o poder e a discórdia que se instaura entre conflitos no Oriente Médio, regados a ataques suicidas em nome de Deus ou assassínios massivos em razão da descrença ou intolerância religiosa. Certo que há conflitos por posses de terras e delimitações territoriais, porém, o que se percebe é uma imensa intolerância. A religião ainda tem forte influência na economia, na política e no mundo social. Basta pensarmos que o que foi o império mais poderoso da antiguidade hoje está estabelecido na forma de uma das religiões mais atuantes no cenário político e econômico-social, cujo líder religioso também é um astuto político. Há diversas formas de religião, cada uma com suas crenças, seus dogmas e práticas. Reporto-me ao que disse o autor para exemplificar a utilidade ou inutilidade de cada religião, quando diz: “Todas as instituições que levam o homem à contradição consigo mesmo de nada valem”. CONCLUSÃO Ao fim, entendo que o contrato social meticulosamente explicado pelo autor resume-se na vontade de um povo; porém, tal vontade é pouco exercida e quase sufocada pelos regimes governamentais autoritários, corruptos e déspotas instaurados.

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