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APOTEGMAS

Apophthegma é uma palavra grega que significa "dito breve", por conseguinte se
aplica a sentenças ou máximas. "Apoftegmas dos Padres" refere-se ao conjunto de
sentenças breves proferidas pelos antigos padres cristãos que viviam em sua maioria
no deserto, praticando oração e asceses; eram sentenças que propunham uma
doutrina, uma norma de vida espiritual, ou narravam um episódio instrutivo,
edificante, da vida desses ascetas; referiam assim ditos ou feitos de famosos homens
de virtude. (D. Estêvão Bettencourt)

1. APOTEGMAS DE SANTO ANTÃO

1. O santo Abade Antão, certa vez sentado no deserto, foi acometido de acedia e
grande turbilhão de pensamentos; disse então a Deus: «Senhor, quero ser salvo, e
não me deixam os pensamentos; que farei na minha tribulação ? Como serei salvo ?»
Pouco depois, levantando-se para sair, Antão viu alguém, semelhante a ele mesmo,
sentado e trabalhando, a seguir levantando-se do trabalho e rezando, para de novo
sentar-se e tecer a corda, e mais uma vez levantar-se para a oração; era um anjo do
Senhor mandado para reerguer e robustecer Antão. Ora, este ouviu o anjo dizer:
«Faze assim, e serás salvo». Ao ouvir isto, Antão muito se alegrou e animou, e, assim
fazendo, era salvo.

2. O mesmo Abade Antão, considerando atentamente o abismo dos juízos de Deus,


perguntou:

«Senhor, por que é que alguns homens morrem após breve vida, enquanto outros se
tornam extremamente velhos? E por que é que alguns são pobres e outros ricos? E por
que é que os injustos se enriquecem, enquanto os justos sofrem necessidade?» Veio-
lhe, então, uma voz, dizendo: «Antão, cuida de ti mesmo, pois isto são juízos de
Deus, e não te convém penetrá-los».

3. Alguém interrogou o Abade Antão: «Que devo observar para agradar a Deus?» O
ancião respondeu: «Observa o que te mando- em qualquer lugar para onde vás, tem
sempre Deus ante os olhos; qualquer coisa que faças, procura ter o testemunho das
Sagradas Escrituras: e, de qualquer lugar em que residas, não te movas facilmente.
Observa estas três coisas, e serás salvo».

4. O Abade Antão disse ao Abade Poimem: «Esta é a grande labuta do homem:


assumir sobre si mesmo a culpa própria diante de Deus, e esperar a tentação até o
último suspiro».

5. O mesmo disse: «Ninguém sem tentação poderá entrar no reino dos céus».
«Suprime», disse, «as tentações, e ninguém será salvo».

6. O Abade Pambo interrogou o Abade Antão: «Que farei?» Disse-lhe o ancião: «Não
confies em tua justiça, nem te arrependas do que já passou (isto é, de faltas já
lamentadas e perdoadas), e sê continente de língua e de ventre».

7. Disse o Abade Antão: «Vi todas as armadilhas do inimigo estendidas sobre a terra,
e, gemendo, perguntei: 'Quem escapará a elas?'. Ouvi então uma voz que me dizia: 'A
humildade'».
8. Disse de novo: «Há alguns que consomem o corpo em ascese, e, por não terem
discrição, se afastam de Deus».

9. Disse de novo: «Do próximo dependem a vida e a morte; pois, se lucramos o nosso
irmão, lucramos a Deus. Se, porém, escandalizamos o irmão, pecamos contra Cristo».

10. Disse ainda: «Como os peixes que se demoram na terra seca, morrem, assim
também os monges, permanecendo fora da cela, ou vivendo com seculares, se
relaxam da tensão da vida recolhida, é preciso, pois, que, como o peixe para o mar,
assim também nos apressemos para a cela, para que não aconteça que, demorando-
nos fora, esqueçamos a guarda interior».

11. Disse de novo: «Quem permanece no deserto e lá vive tranqüilamente, liberta-se


de três combates, que são o dos ouvidos, o da conversa e o dos olhos; só lhe resta
um: o da fornicação».

12. Alguns irmãos foram ter com o Abade Antão para contar-lhe visões que tinham
tido, e dele saber se eram genuínas ou demoníacas. Ora eles tinham um asno, que
morreu pelo caminho. Quando, pois, chegaram à cela do ancião, este, antecipando-
os, perguntou-lhes: «Como morreu o vosso burrinho pela estrada ?» Interrogaram-no:
«Donde o sabes, Abade?» Este lhes respondeu: «Os demônios mostraram-mo».
Disseram-lhe então: «Por isto viemos perguntar-te, a fim de que não nos enganemos:
temos visões, as quais muitas vezes correspondem à realidade». Ora o ancião
convenceu-os, pelo exemplo do asno, de que eram visões diabólicas.

13. Estava alguém no deserto a caçar animais selvagens, quando viu o Abade Antão
em conversa alegre com os irmãos. O ancião, querendo então persuadi-lo de que é
preciso de vez em quando condescender com os irmãos, disse-lhe: «Põe uma seta no
teu arco, e deixa-o teso». Aquele assim fez. Disse-lhe de novo: «Entesa-o mais». Ele
o fez. E novamente: «Distende-o mais». Replicou-lhe o caçador: «Se o estender além
da medida, romper-se-á o arco». Ao que o ancião respondeu: «Assim também é para
a obra de Deus: se além da medida entesarmos os irmãos, em breve romper-se-ão. É
necessário, pois, de quando em quando condescender com eles». Ouvido isto, o
caçador foi tocado de compunção, e, levando muito proveito, que lhe comunicara o
ancião, retirou-se, enquanto os irmãos, confirmados, voltavam para sua morada.

14. O Abade Antão ouviu que certo jovem monge fizera um milagre pela estrada:
tendo ele visto alguns anciãos em viagem fatigados pelo caminho, mandou a asnos
selvagens que se aproximassem e carregassem os anciãos até chegarem à cela de
Antão. Ora os velhos referiram isto a Antão. Este disse-lhes: «Para mim este monge
se parece com uma nave cheia de mercadorias; não sei se chegará ao porto». E, após
certo tempo, o Abade Antão de repente pôs-se a chorar e puxar-se os cabelos e
lamentar-se. Perguntaram-lhe então os discípulos: «Por que choras, Abade ?»
Respondeu: «Grande coluna da Igreja acaba de cair» (falava do jovem monge) «mas
ide até ele», disse, «e vede o que aconteceu». Foram-se, pois, os discípulos e
encontraram o monge sentado sobre o seu colchão e chorando o pecado que
cometera. Ao ver os discípulos do Abade, disse: «Pedi ao ancião que rogue a Deus a
fim de que me conceda dez dias apenas, no fim dos quais espero ter satisfeito».
Dentro de cinco dias, porém, o jovem morreu.

15. Certo monge foi louvado pelos irmãos junto ao Abade Antão. Ora este,
recebendo-o em visita, quis experimentar se sabia suportar uma injúria ; e, tendo
verificado que não, disse-lhe: «Assemelhas-te a uma aldeia bem ornada na sua parte
anterior, mas por trás despojada pelos ladrões».
16. Um irmão pediu ao Abade Antão: «Reza por mim». Disse-lhe o ancião: «Nem eu
terei compaixão de ti, nem Deus, se tu mesmo não te encheres de zelo e rogares a
Deus».

17. Alguns anciãos aproximaram-se certa vez do Abade Antão, estando o Abade José
com eles.

O ancião, querendo prová-los, propôs uma palavra da Escritura, e, a partir do menos


velho, começou a interrogá-los sobre o sentido da mesma. Cada qual respondia
conforme a sua capacidade. A todos, porém, Antão dizia: «Ainda não acertaste». Por
último perguntou ao Abade José: «Tu como interpretas tal palavra?» Este respondeu-
lhe: «Não sei». Replicou o Abade Antão: «O Abade José encontrou plenamente a via,
pois disse: 'Não sei'».

18. Alguns irmãos iam da Cétia (NT: Famosa região do Egito habitada pelos monges)
em visita ao Abade Antão. Ao subirem no barco para viajar, encontraram um velho
que lá também queria chegar. Os irmãos não o conheciam. Ora, tendo-se sentado no
barco, estes proferiam ditos dos Padres, da Escritura e falavam também do seu
trabalho manual, enquanto o ancião, do seu lado, permanecia calado. Quando
chegaram ao ancoradouro, evidenciou-se que igualmente o velho ia ter com o Abade
Antão. Ao se aproximarem deste, disse Antão aos irmãos: «Encontrastes boa
companhia de viagem, que é este velho»; e ao velho: «Encontraste bons irmãos
contigo, Abade». Disse o velho: «São bons, sim, mas o quintal deles não tem porta;
quem quer, entra no estábulo e solta o burro». Disse isto, porque proferiam tudo que
lhes vinha à boca.

19. Alguns irmãos chegaram-se ao Abade Antão e pediram-lhe: «Dize-nos uma palavra
pela qual sejamos salvos». Respondeu-lhes o ancião: «Escutastes a Escritura? Está
bem para vós». Eles, porém, replicaram: «Também de ti queremos escutar alguma
coisa, Pai». Retrucou-lhes: «O Evangelho diz: 'Se alguém te esbofeteia na face
direita, oferece-lhe também a outra'» (Lc 5, 39). Disseram-lhe: «Não podemos fazer
isto». Respondeu-lhes o ancião: «Se não podeis oferecer também a outra, suportai ao
menos numa face. Replicaram-lhe: «Nem isto o podemos». O ancião então disse: «Se
nem isto podeis, não retribuais o golpe que recebestes». E responderam: «Também
isto, não o podemos». Então o ancião mandou ao seu discípulo: «Prepara-lhes um
pouco de mingau, pois estão doentes. Se não podeis isto, e não quereis aquilo, que
vos farei? Precisais de orações».

20. Um irmão que renunciara ao mundo e distribuíra os seus bens aos pobres,
retendo, porém, alguma pouca coisa para si, apresentou-se ao Abade Antão. Este, ao
saber disto, disse-lhe: «Se te queres tornar monge, vai àquela aldeia, compra carnes,
aplica-as ao teu corpo nu, e, em tais condições, volta para cá». O irmão tendo feito
assim, os cães e pássaros dilaceravam-lhe o corpo. Ora, ao encontrar-se com o
ancião, este perguntou-lhe se fizera como havia aconselhado. O irmão mostrou-lhe
então o corpo todo dilacerado; ao que disse santo Antão: «Aqueles que renunciaram
ao mundo e ainda querem ter bens, são dessa forma despedaçados pelos demônios na
luta».

21. A certo irmão sobreveio uma vez uma tentação no cenóbio do Abade Elias. De lá
expulso, foi ter com o Abade Antão no monte. Quando o irmão já estava certo tempo
com ele, Antão mandou-o regressar para o mosteiro donde viera. Ao vê-lo, porém, os
monges de novo o expulsaram, e o irmão voltou ao Abade Antão dizendo: «Não me
quiseram receber, Pai». O ancião enviou-o de novo, mandando dizer: «Um barco
naufragou no mar, perdeu a carga, e esta com dificuldade foi salva e levada para a
terra; vós, porém, quereis atirar ao mar o que foi salvo». Ora, os monges, tendo
ouvido que o Abade Antão o enviara, receberam-no logo.

22. O Abade Antão disse: «Julgo que o corpo tem um movimento natural, que lhe é
bem conforme, mas não age quando a alma não quer; esta só lhe indica movimentos
desapaixonados. Há, além desta, outra espécie de movimentos, que provém do fato
de que se alimenta e aquece o corpo com comida e bebida: o calor que o sangue
recebe destas, excita o corpo a agir; por isto o Apóstolo dizia: 'Não vos inebrieis com
vinho, no qual há luxúria' (Ef 5, 18). Também o Senhor no Evangelho mandou aos
discípulos: 'Cuidai para que não se tornem pesados os vossos corações em crápula e
embriaguez' (Lc 21, 34). Há ainda uma outra espécie de movimentos, que é própria
dos que lutam, e sobrevém por maquinação e inveja dos demônios. Assim é preciso
saber que três são as espécies de movimentos do corpo: uma natural, outra província
do consumo dos diversos alimentos, e a terceira causada pelos demônios».

23. Disse também que Deus não permite desçam os combates sobre esta geração
como sobre as antigas, pois sabe que é fraca e não sustenta.

24. Ao Abade Antão no deserto foi revelado: «Na cidade há alguém semelhante a ti,
médico de profissão, o qual distribui aos indigentes o que tem de supérfluo, e o dia
inteiro canta o Trisagion ("Santo, Santo, Santo...") com os anjos».

25. Disse o Abade Antão: «Tempo virá em que os homens enlouquecerão, e, ao verem
alguém que não esteja louco, se erguerão contra ele, dizendo: 'Tu és louco', porque
não será semelhante a eles».

26. Alguns irmãos chegaram-se ao Abade Antão e disseram-lhe uma palavra do


Levítico. Então o ancião saiu para o deserto, seguindo-o às ocultas o Abade Amonas,
que conhecia o seu costume. Tendo-se afastado muito, o ancião de pé em oração
gritava em alta voz: 'Ó Deus, mandai Moisés e ensinai--me esta palavra». E desceu a
ele uma voz que lhe falou. Depois o Abade Amonas disse: «A voz que falava com ele,
ouvi-a, sim; a força, porém, da palavra, não a percebi».

27. Três dos Padres costumavam ir ter todos os anos com o bem-aventurado Antão;
dois deles interrogavam-no sobre pensamentos e salvação da alma, enquanto o
terceiro se calava de todo e nada perguntava. Depois de muito, disse-lhe o Abade
Antão: «Eis tanto tempo há que aqui vens e nada me perguntas». Ao que respondeu:
«Basta-me ver-te, ó Pai».

28. Diziam que um dos anciãos pedira a Deus a graça de ver os Padres. De fato, viu-
os sem o Abade Antão; perguntou, então, a quem lhos mostrava: «Onde está o Abade
Antão ?» Aquele respondeu-lhe: «No lugar em que Deus está, aí está ele».

29. Certo irmão no mosteiro foi falsamente acusado de fornicação. Levantou-se


então, e foi ter com o Abade Antão. A seguir, chegaram os irmãos do cenóbio para
curá-lo e levá-lo; e puseram-se a arguí-lo: «Assim fizeste». Ele, porém, defendia-se:
«Nada disso fiz». Achava-se lá oportunamente o Abade Pafnúcio Cefalas, o qual
contou esta parábola: «Vi à margem do rio um homem metido na lama até os joelhos;
sobrevieram alguns outros para dar--lhe a mão, os quais o mergulharam até o
pescoço». Então o Abade Antão disse-lhes a respeito do Abade Pafnúcio: «Eis um
homem verdadeiro, capaz de curar e salvar as almas». Compungidos pela palavra dos
anciãos, os monges inclinaram-se pedindo perdão ao irmão, e, exortados pelos
Padres, levaram-no para o cenóbio.
30. A propósito do Abade Antão, diziam alguns que se tornara pneumatóforo
(Portador do Espírito), mas não queria falar por causa dos homens; pois revelava o
que acontecia no mundo e o que estava para acontecer.

31. Certa vez o Abade Antão recebeu uma carta do Imperador Constando, que o
chamava a Constantinopla. Deliberava sobre o que faria, quando perguntou ao Abade
Paulo, seu discípulo: «Devo ir?» Este respondeu-lhe: «Se vais, mereces o nome Antão;
se não vais, Abade Antão.

32. O Abade Antão disse: «Já não temo a Deus, mas amo-o. Pois 'a caridade expele o
temor'» (1Jo 4, 18).

33. O mesmo disse: «Tem sempre ante os olhos o temor de Deus. Recorda-te daquele
que 'leva à morte e traz à vida' (1Sm 2, 6). Odiai o mundo e tudo que nele há. Odiai
todo repouso da carne. Renunciai a esta vida, a fim de viverdes para Deus. Recordai-
vos do que prometestes a Deus, pois Ele o pedirá de vós no dia do juízo. Sofrei fome,
sede, suportai a nudez, vigiai, arrependei-vos, chorai, gemei no vosso coração;
provai-vos, a saber se sois dignos de Deus; desprezai a carne, para salvar as vossas
almas».

34. Certa vez o Abade Antão foi ter com o Abade Amum na montanha da Nítria.
Quando se viram juntos, disse-lhe o Abade Amum: «Já que pelas tuas orações se
multiplicaram os irmãos, e alguns deles querem construir moradas longínquas para
ter tranqüilidade, a que distância daqui mandas sejam construídas as novas
moradas?» Ele respondeu: «Comamos à hora nona; depois saiamos, percorramos o
deserto e examinemos o lugar». Tendo eles caminhado pelo deserto até o pôr-do-sol,
disse o Abade Antão: «Façamos oração e finquemos aqui uma cruz; aqui construam os
que o querem, a fim de que os monges de lá, quando visitarem os daqui depois de ter
comido o seu magro bocado à hora nona, venham assim (NT: isto é, assim como nós
viemos: sem ter que violar a praxe do jejum até a hora nona (três horas da tarde), e,
não obstante, chegando em boa hora, ao pôr do sol, ao termo da viagem), e a fim de
que os daqui, quando saírem, façam o mesmo, o nem uns nem outros sofram
perturbarão pelas visitas mútuas» (NT: o que quer dizer: Não sejam os exercícios de
ascese prejudicados pela louvável prática de se visitarem uns aos outros). Ora a
distância era do doze milhas.

35. Disse o Abade Antão: «Quem bate a massa de ferro, delibera primeiro o que fará:
foice, espada ou machado. Assim também nós devemos deliberar qual virtude
procuraremos adquirir, para que não trabalhemos em vão».

36. Disse ainda que a obediência, unida à abstinência, submete as feras.

37. Disse de novo: «Conheço monges que, após muitas fadigas, caíram, e perderam o
controle da mente, porque nutriram esperança nas suas próprias obras e
negligenciaram o preceito daquele que disse: 'Interroga teu pai, e ele te anunciará'
(Dt 32, 7).

38. Disse também: «Se possível, o monge deve confiante dizer aos anciãos quantos
passos dá ou quantas gotas bebe na cela, para se certificar de que não ofende nessas
práticas».
2. APOTEGMAS DE EVÁGRIO

1. Disse o Abade Evágrio: «Quando estiveres sentado na cela, recolhe o teu espírito,
recorda-te do dia da morte, considera o desfalecimento do corpo, pensa na desgraça;
assume a labuta, condena a loucura que há pelo mundo, e isto, para que possas
permanecer sempre no propósito de vida retirada e não fraquejes. Lembra-te
também da situação no inferno: medita como lá estão as almas, em que mui terrível
silêncio, em que acutíssimo gemido, em qual temor, luta e anseio; considera o
tormento que não terminará, as lágrimas da alma que não cessarão. Mas recorda-te
também do dia da ressurreição e do comparecimento diante de Deus; imagina aquele
juízo que arrepia e atemoriza. Revolve em tua mente o que está destinado aos
pecadores: vergonha diante de Deus, dos anjos, arcanjos e de todos os homens, ou
seja, suplícios, fogo eterno, o verme que não dorme, o tártaro, as trevas, o ranger de
dentes, os terrores e os tormentos. Revolve em mente ainda os bens que estão
destinados aos justos: intimidade familiar com Deus Pai e seu Cristo, com os anjos e
arcanjos, com toda a multidão dos Santos; o reino dos céus e os dons deste, a alegria
e o gozo deste. Incute a ti mesmo a recordação destes dois destinos; e, a propósito
do julgamento dos pecadores, derrama lágrimas, concebe dor, temendo que também
tu sejas contado entre eles; a respeito dos prêmios dos justos, alegra-te e rejubila-
te. Procura entrar no gozo destes, e alheia-te daqueles. Cuida para que em tempo
nenhum, quer estejas dentro da cela, quer fora, percas a recordação destas coisas, a
fim de que, ao menos assim, evites os pensamentos impuros e nocivos».

2. Disse também: «Deixa de ter relações com muitos homens, a fim de que a tua
mente não se torne agitada, e perturbe a habitual tranqüilidade (hesychia)».

3. Disse mais : «Grande coisa é rezar sem distração; ainda maior, porém, é salmodiar
sem distração».

4. Disse ainda: «Recorda-te sempre de tua partida deste mundo, e não esqueças o
juízo eterno; assim não haverá pecado em tua alma».

5. Disse também: «Retira as tentações, e não haverá ninguém que se salve».

6. Disse ainda : «Um dos Padres assim falava : 'Um regime de vida duro e não
inconstante (regular), unido à caridade, leva muito rapidamente o monge ao porto da
apatia (apatheia)'» (NT: vitória sobre as paixões).

7. Houve certa vez nas Célias uma reunião de conselho a respeito de determinada
questão. O Abade Evágrio então falou; depois do que, disse-lhe o presbítero:
«Sabemos, ó Abade, que, se estivesses em tua terra, terias sido feito freqüentes
vezes bispo e chefe de muitos; agora, porém, é como estrangeiro que resides aqui».
Evágrio, compungido, não se perturbou, mas, movendo a cabeça, disse-lhe: «Em
verdade é assim, ó Pai; falei uma vez, não voltarei a falar segunda vez» (NT: citação
de Jó 40, 5).

3. APOTEGMAS DE JOÃO CASSIANO

1. O Abade Cassiano narrou o seguinte: «Chegamos, eu e o santo Germano, à cela de


certo ancião no Egito. Acolhidos com hospitalidade amiga, perguntamos-lhe: «Por
que é que, quando recebeis os irmãos peregrinos, não guardais a regra do nosso
jejum, como a recebemos na Palestina?» Respondeu o ancião: «O jejum está sempre
comigo; a vós, porém, não posso guardar sempre comigo. O jejum é, sim, coisa útil e
necessária; depende, porém, da nossa própria vontade; o exercício da caridade, ao
contrário, a Lei de Deus no-lo impõe com necessidade. Portanto, ao receber em vós o
Cristo, devo tratar-vos com toda a solicitude. Quando vos despedirdes de mim,
poderei reassumir a norma do jejum. Pois os filhos da câmara nupcial não podem
jejuar enquanto o esposo está com eles; quando lhes é tirado o esposo, então jejuam
licitamente».

2. O mesmo referiu o seguinte: «Havia um ancião, a quem uma santa virgem servia.
Os homens, porém, diziam: 'Eles não são puros'. Este rumor chegou aos ouvidos do
ancião. Quando, pois estava para morrer, disse aos Padres: Após a minha morte,
plantai o meu bastão sobre a sepultura; se germinar e der fruto, sabei que sou puro
com esta virgem; se, porém, não germinar, concluí que caí com ela». Ora o bastão
foi plantado; e no terceiro dia germinou e deu fruto. Todos, então, glorificaram a
Deus».

3. Contou ainda: «Chegamos à cela de outro ancião, o qual nos fez comer. Quando já
estávamos satisfeitos, convidou-nos a tomar mais alguma coisa. Como eu lhe dissesse
que não podia mais, respondeu-me: 'Por seis vezes que chegaram irmãos, pus a mesa,
e, convidando-os vez por vez, comi com eles; e ainda tenho fome. Tu, porém, tendo
comido uma vez, de tal modo te saciaste que não podes mais comer'».

4. O mesmo narrou de novo: «O Abade João, preposto de um cenóbio, foi ter com o
Abade Paésio, que já por quarenta anos vivia no mais retirado recanto do deserto. Já
que o Abade João possuía grande caridade para com o Abade Paésio e, em
conseqüência, tinha certa liberdade de lhe falar, perguntou-lhe: 'Que fizeste de bom,
vivendo por tanto tempo a sós, sem que os homens te pudessem perturbar
facilmente?' Respondeu: 'Desde que vivo solitário, o sol nunca me viu comer'. Disse
por sua vez o Abade João: 'Nem a mim viu irado'».

5. O mesmo Abade João, perto de morrer, estava animado e alegre por partir para
junto de Deus.

Cercaram-no então os irmãos, pedindo-lhe que lhes deixasse como herança uma
palavra breve e salvífica, pela qual pudessem chegar à perfeição em Cristo. O ancião
gemeu e disse: «Nunca fiz a própria vontade, nem ensinei a alguém o que antes não
tivesse praticado».

6. A respeito de outro ancião, que residia no deserto, o Abade Cassiano contou que
rogou a Deus, lhe desse a graça de nunca adormecer durante algum colóquio
espiritual; caso, porém, alguém proferisse palavras maldizentes ou ociosas, caísse
logo no sono, para que seus ouvidos não recebessem ta] veneno. Dizia que o demônio
é zeloso das palavras ociosas, e adversário de todo ensinamento espiritual; o que ele
ilustrava com este caso: «Certa vez, quando eu falava a alguns irmãos de coisas de
proveito espiritual, foram tomados de tão pesado sono que nem podiam mover as
pálpebras. Eu, então, querendo mostrar a ação do demônio, introduzi um dito ocioso;
eles, em conseqüência, despertaram-se e alegraram-se profundamente. Gemendo,
pois, disse: 'Enquanto falávamos de coisas celestiais, os olhos de todos vós estavam
dominados pelo sono; quando, porém, escapou uma palavra ociosa, todos com ânimo
vos acordastes. Por isto, irmãos, exorto-vos: reconhecei a ação do mau demônio, e
vigiai, guardando-vos do torpor, quando fizerdes ou ouvirdes algo de espiritual'».

7. Referiu mais o seguinte: «Um Senador que renunciara ao mundo e distribuíra os


seus bens aos pobres, guardou algumas das suas posses para seu próprio uso, não
querendo assumir a humildade que decorre da renúncia total nem a genuína
submissão da regra cenobítica. A esse São Basílio dirigiu a seguinte palavra: 'Deixaste
de ser Senador, e não te fizeste monge'».

8. Disse ainda: «Havia um monge que residia numa gruta no deserto, ao qual os
familiares conforme a carne comunicaram o seguinte: 'Teu pai está gravemente
enfermo e prestes a morrer; vem para receber a herança'. O monge respondeu-lhes:
'Antes dele, eu morri para o mundo; um morto não recebe herança de um vivo'».

4. APOTEGMAS DE NILO DO SINAI

1. Disse o Abade Nilo: «O que quer que faças para te vingares do irmão que te
injuriou, isso tudo voltará ao teu coração no tempo da oração.

2. Disse também: A oração é gérmen de mansidão e de carência de ira».

3. Disse mais: «A oração é defesa contra tristeza e desânimo».

4. Disse ainda: «Vai, vende o que tens, e dá-o aos pobres. A seguir, toma a tua cruz e
renuncia a ti mesmo, para que possas orar sem distração».

5. Disse mais: «Tudo que suportares sabiamente, recolherás disso o fruto no tempo
de oração».

6. Disse também: «Se queres rezar como deves, não deixes que a tristeza se apodere
de tua alma; se deixas, é em vão que corres».

7. Disse de novo: «Não queiras que as tuas coisas corram como te parece bem, mas
como agrada a Deus. Assim serás isento de perturbação e agradável em tua oração».

8. Disse ainda: «Feliz é o monge que se julga o rebutalho de todos».

9. Disse mais: «O monge que ama o retiro, fica ileso dos dardos do inimigo. Aquele,
porém, que se junta às multidões, recebe golpes contínuos».

10. Disse de novo: «O servo que negligencia as obras do seu senhor, prepare-se para
os flagelos».

5. APOTEGMAS DE MACÁRIO

1. A propósito de si mesmo, o Abade Macário contou o seguinte: «Quando eu era


jovem e residia numa cela no Egito, apreenderam-me e fizeram-me clérigo na aldeia.
Todavia, já que eu não queria aceitar o cargo, fugi para outro lugar; aí foi ter comigo
um homem secular, piedoso, o qual tomava os produtos de meu trabalho manual e
me servia. Ora aconteceu que uma virgem, tentada, caiu em fornicação na aldeia; e,
como ela estivesse grávida, perguntaram-lhe quem era que a tornara tal. Ela
respondeu: 'O anacoreta'. Foram, então, buscar-me e levaram-me para a aldeia; aí
penduraram-me ao pescoço marmitas escurecidas pela fumaça e asas de potes; assim
me levaram a circular por todos os quarteirões da aldeia, espancando-me e dizendo :
'Este monge corrompeu a nossa virgem; agarrai-o, agarrai-o'. E tanto me batiam que
quase morri. Entrementes, aproximou-se um dos anciãos, que disse: 'Até quando
espancareis o monge estrangeiro?' O homem referido, que me prestava serviço,
seguia, cheio de vergonha atrás de mim, pois também a ele insultavam muito,
dizendo: 'Eis o anacoreta do qual davas testemunho; que fez?' Em dado momento os
pais da virgem disseram: 'Não o soltaremos antes que dê a caução de que sustentará
a jovem'. Então intimei isto ao meu servidor, o qual prestou a caução por mim. Assim
voltei para minha cela, e dei ao servidor todos os cestinhos que eu tinha, dizendo-
lhe: 'Vende-os, e dá de comer à minha esposa'. A seguir, falei comigo mesmo:
'Macário, eis que encontraste uma esposa; é preciso que trabalhes um pouco mais
para sustentá-la'. Em conseqüência, eu trabalhava noite e dia, e mandava-lhe os
lucros. Ora, quando chegou para a infeliz o tempo de dar à luz, ela passou muitos
dias em dores para conseguir gerar. Perguntaram-lhe, pois: 'Que significa isto?' Ela
respondeu: 'Eu sei, pois caluniei o anacoreta e o acusei mentirosamente; não é ele
que tem culpa, mas tal jovem'. Então meu servidor, alegre, veio ter comigo,
comunicando: 'A virgem não pôde dar à luz até confessar': 'O anacoreta não tem
culpa, mas menti contra ele. Eis agora que a aldeia toda quer vir aqui com honrarias
e pedir-te perdão'. Eu, ao ouvir isto, levantei-me e fugi aqui para a Cétia, a fim de
que não me atribulassem os homens. Este é o motivo pelo qual vim para cá».

2. Certa vez Macário o Egípcio foi da Cétia à montanha da Nítria para participar da
oblação do Abade Pambo. Pediram-lhe então os anciãos: «Dize uma palavra aos
irmãos, ó Pai». Ele respondeu: «Eu ainda não me tornei monge, mas vi monges. Pois
em dada ocasião, estando eu na Cétia sentado na cela, atormentaram-me os
pensamentos sugerindo-me: 'Vai para o deserto, e considera o que lá se te deparar'.
Fiquei em luta com este pensamento durante cinco anos, dizendo-me: 'Não seja ele
inspirado pelo demônio'. Visto, porém, que o pensamento persistia, fui para o
deserto; lá encontrei um lago com uma ilha no meio, aonde os animais do deserto
iam beber. Entre os animais vi dois homens nus, o que fez estremecer meu corpo,
pois julguei que fossem espíritos. Eles, porém, vendo-me atemorizado, disseram-me:
'Não temas; também nós somos homens'. 'Perguntei-lhes então: 'Donde sois, e como
viestes para este deserto?' Responderam: 'Somos de um cenóbio; combinamos vir
juntos para cá, e eis quarenta anos que aqui estamos e um de nós é Egípcio, e outro
Líbio'. A seguir, eles, por sua vez, me interrogaram: 'Como está o mundo? Cai a água
em seu tempo? Tem o mundo sua prosperidade habitual?' Respondi-lhes: 'Sim'. De
novo interroguei-os: 'Como posso tornar-me monge?' Responderam-me: 'Se alguém
não renuncia a tudo que é do mundo, não se pode tornar monge'. 'Repliquei: 'Eu sou
fraco, e não posso fazer o mesmo que vós'. Observaram eles: 'Se não podes fazer o
mesmo que nós, senta-te em tua cela, e chora os teus pecados'. Perguntei-lhes
ainda: 'Quando é inverno, não sentis frio? E, quando faz calor, não se queimam os
vossos corpos?' 'Responderam: 'Deus nos fez esta graça: nem sentimos frio no inverno,
nem nos prejudica o calor no verão'. É por isto que vos disse que ainda não me tornei
monge, mas vi monges. Perdoai-me, irmãos».

3. Quando o Abade Macário habitava o pleno deserto, levava absolutamente a sós


vida anacorética, enquanto mais abaixo havia outro deserto, onde muitos irmãos
habitavam. O ancião, que costumava observar a estrada, certa vez viu Satanás que se
aproximava sob forma de homem, devendo passar por ele; aparecia trajando uma
túnica de linho perpassada de furos, dos quais pendiam pequenos vasos. Perguntou-
lhe então o ilustre ancião: «Aonde vais?» Respondeu: «Vou recordar alguma coisa aos
irmãos». Continuou o ancião: «E por que levas esses frascozinhos?» Explicou aquele:
«São iguarias que levo para os irmãos. 'O ancião insistiu: «Isso tudo?» O outro
afirmou: «Sim; se um não agradar a alguém, apresentar-lhe-ei outro; e, se também
este não agradar, apresentarei um terceiro; finalmente, dentre todos ao menos um
há de agradar». E, tendo dito isto, foi-se. O ancião ficou observando as estradas, até
que de novo aquele voltou; ao vê-lo, Macário disse-lhe: «Salve!» Satanás perguntou:
«Como me é possível salvar-me?» Disse o ancião: «Por que assim falas?» O outro
explicou: «Porque todos foram cruéis para comigo, e ninguém me tolera». O ancião
indagou: «Então não tens nenhum amigo lá?» Aquele disse: «Sim, tenho lá um monge
amigo, e ao menos este me obedece; quando me vê, volta-se como vento».
Prosseguiu o ancião: «E como se chama tal irmão?» Satanás respondeu:
«Teopempto». E, dito isto, seguiu caminho. Então o Abade Macário levantou-se e foi
ao deserto que estava mais abaixo. Quando soube da sua chegada, os irmãos
tomaram palmas nas mãos e saíram ao seu encontro; a seguir, cada um pôs-se a fazer
os preparativos, julgando que o ancião havia de se hospedar na sua cela. Macário,
porém, procurava quem era na montanha o chamado Teopempto. Tendo-o
encontrado, entrou na cela deste. Teopempto recebeu-o com júbilo, Quando
estavam os dois a sós o ancião perguntou: «Como estás, irmão?» Aquele respondeu:
«Bem, por tuas preces». O ancião continuou: «Os teus pensamentos não te
atormentam?» O outro afirmou: «Em verdade estou bem», pois tinha vergonha de
confessar. O ancião insistiu- «Eis há quantos anos levo vida ascética, sou honrado por
todos; não obstante, mesmo a mim, ancião, atormenta o espírito da fornicação».
Teopempto então confessou: «Crê, ó Abade, que também a mim». A seguir, o ancião
pôs-se a alegar que ainda outros pensamentos o perseguiam, até conseguir que
Teopempto confessasse o mesmo. Finalmente, perguntou-lhe Macário: «Como
jejuas?» Aquele respondeu: «Até a nona hora». O ancião mandou: «Jejua até o pôr do
sol; luta; recita de cor trechos do Evangelho e das outras Escrituras; e, se te
sobrevier algum pensamento mau, nunca olhes para baixo, mas sempre para cima, e
logo o Senhor te auxiliará. Tendo assim instruído o irmão, o Abade voltou para sua
solidão. Ora eis que, quando estava a espreitar a estrada, viu mais uma vez aquele
demônio; perguntou-lhe: «Aonde vais de novo?» Respondeu: «Lembrar alguma coisa
aos irmãos». E continuou caminho. Quando voltou, o santo perguntou-lhe: «Como
estão os irmãos?» Aquele disse: «Mal». O ancião indagou: «Por quê?» Respondeu:
«São todos cruéis; e o maior mal é que também aquele que eu tinha como amigo
obediente, mesmo esse, não sei como, se voltou; nem ele me obedece; ao contrário,
tornou-se o mais cruel de todos; jurei por conseguinte, não andar mais por aqueles
lugares senão após algum tempo». Dito isto, foi embora, deixando o ancião. E o santo
entrou em sua cela.

4. O Abade Macário, o Grande, foi ter com o Abade na montanha. Tendo batido à
porta, este veio-lhe ao encontro e perguntou: «Tu quem és?» Respondeu: «Sou
Macário». Antão fechou a porta, deixando-o fora. Notando, porém, a paciência dele,
abriu-lhe e disse-lhe com muita graça: «Há muito tempo desejava ver-te, pois ouvira
falar de ti». Recebeu-o então hospitaleiramente, e restaurou-lhe as forças, pois
estava muito cansado. Ao pôr do sol, o Abade Antão umedeceu para si algumas
palmas; o Abade Macário disse: «Manda que também eu umedeça algumas palmas
para mim». Aquele respondeu: «Umedece». Fez, então, um feixe grande, umedeceu-
O; e ficaram os dois sentados desde o cair da noite, falando da salvação da alma e
tecendo, de tal modo que a corda chegava a cair pela janela para dentro da gruta.
De manhã, ao entrar, o Abade Antão viu a grande quantidade de cordame do Abade
Macário e disse: «Muita força procede dessas mãos».

5. O Abade Macário dizia aos irmãos, a respeito da devastarão da Cétia: «Quando


virdes uma cela construída perto do pântano, sabei que a sua devastação está
próxima; quando virdes árvores, a devastação estará às portas; quando virdes
meninos, tomai os vossos mantos e retirai-vos».

6. Disse também, para exortar os irmãos: «Aqui veio um menino possesso do


demônio, com sua mãe. Ora o pequenino disse a esta: 'Levanta-te, ó velha, vamo-nos
daqui'. Ela respondeu: 'Não posso andar'. A criança retrucou entáo: 'Eu te carregarei'.
Fiquei estupefato pela maldade do demônio, que os queria afugentar daqui».
7. Contava o Abade Sisoé: «Quando eu estava na Cétia com Macário, subimos sete
nomes (NT: "Nomes" está em lugar de "homens" ou "irmãos". Sete companheiros, pois,
saíram com o Abade Macário) para fazer a messe com ele. E eis que diante de nós se
achava uma viúva a colher espigas, a qual não cessava de chorar. Então o ancião
chamou o proprietário do campo e disse-lhe: 'Que tem esta velha, pois está sempre
chorando?' Aquele respondeu: 'É que o marido dela tinha bens de outrem em
depósito, e morreu repentinamente sem lhe dizer onde os pusera; agora o
proprietário do depósito quer levar a ela e aos filhos como escravos'. O ancião falou:
'Dize-lhe que venha ter conosco, onde estamos repousando por causa do calor'.
Quando a mulher chegou, o ancião perguntou-lhe: 'Por que estás assim sempre a
chorar?' Ela respondeu: 'Meu marido morreu depois de ter aceito o depósito de
alguém, e, ao morrer, não disse onde o colocara'. O ancião intimou-a: 'Vem, mostra-
me onde sepultaste teu marido'. E, tomando os irmãos consigo, seguiu a mulher.
Chegando eles ao referido lugar, disse a ela o ancião: 'Retira-te para tua casa'. A
seguir, fizeram oração, e o ancião chamou o morto, dizendo. 'Ó tal, onde colocaste o
depósito alheio?' Aquele respondeu: 'Está escondido em minha casa, sob o pé da
cama». O Abade concluiu: 'Dorme de novo até o dia da ressurreição'. Vendo isto, os
irmãos caíram de medo aos pés dele, o qual lhes disse 'Não foi por causa de mim que
isto aconteceu, pois nada sou; mas foi por causa da viúva e dos órfãos que Deus o
fez. Isto é grandioso: Deus quer que a alma esteja sem pecado; e, se ela é tal,
recebe tudo o que pede'. O Abade se foi, pois, e anunciou à viúva onde se achava o
depósito. Esta o retirou, entregou-o ao dono, libertando assim os seus filhos». E
todos os que ouviram isto, deram glória a Deus.

8. O Abade Pedro contou, a respeito de São Macário, que foi ter uma vez com um
anacoreta e o encontrou doente; perguntou-lhe, então, o que queria comer, pois
nada tinha em sua cela. Aquele respondeu: «Uma broinha de farinha». Em
conseqüência, o corajoso Abade não hesitou em ir à cidade de Alexandria e satisfazer
assim o doente. O admirável é que o feito a ninguém se tornou notório.

9. Referiu também que o Abade Macário vivia em simplicidade e inocência com todos
os irmãos; alguns então perguntaram-lhe: «Por que te comportas assim?» Respondeu:
«Doze anos servi ao meu Senhor para que me desse esta graça; e todos vós me
aconselhais que a rejeite?»

10. Diziam do Abade Macário que, quando se permitia certo lazer em companhia dos
irmãos, estabelecia para si o seguinte princípio «Se houver vinho, bebe por causa dos
irmãos, e, em troca de um cálice de vinho, deixa de beber água durante o dia». Ora
os irmãos ofereciam-lhe vinho para restaurar-lhe as forças. O ancião o aceitava com
alegria para mortificar-se. O seu discípulo, porém, que sabia o que se dava, dizia aos
irmãos: «Por amor do Senhor, não lhe ofereçais; senão, ele se macerará na cela».
Informados disso, os irmãos não lhe ofereciam mais vinho.

11. Quando certa vez o Abade Macário se dirigia do pântano para a sua cela,
carregando palmas, eis que lhe foi ao encontro na estrada o demônio, trazendo uma
foice. Este quis espancá-lo, mas não teve vigor; disse-lhe então: «Procede muita
força de ti, ó Macário, pois não te posso agredir. Eis que, tudo o que fazes, também
eu o faço; tu jejuas, eu também; tu vigias de noite, eu também não durmo; há uma
só coisa em que me vences». O Abade Macário perguntou: «Qual é?» Aquele
respondeu: «A tua humildade; e é por causa desta que não te posso agredir».

12. Alguns dos Padres perguntaram ao Abade Macário: «Por que é que, quer comas,
quer jejues, teu corpo é descarnado?» Respondeu o ancião: «O lenho que revira os
gravetos em combustão, é todo consumido pelo fogo. Assim também se o homem
purifica a sua mente pelo temor de Deus, o próprio temor de Deus consome o corpo
dele».

13. Em dada ocasião o Abade Macário foi da Cétia a Terenutim, e entrou no templo
para dormir. Ora lá havia antigos esqueletos de pagãos, dos quais ele tomou um,
colocando-o na cabeça como travesseiro. Os demônios, vendo a coragem do Abade,
foram acometidos de inveja; e, querendo amedrontá-lo, puseram-se a chamar um
nome de mulher, dizendo: «ó tal, vem conosco ao banho!» Outro demônio respondeu
debaixo dele como que dentre os mortos: «Tenho um estrangeiro em cima de mim, e
não posso ir». O ancião, porém, não se aterrou; ao contrário, com muita coragem
batia o esqueleto dizendo: «Levanta-te, e vai para as trevas, se podes». Ao ouvir
isto, os demônios clamaram em alta voz: «Tu nos venceste». E fugiram confusos.

14. A respeito do Abade Macário o Egipcio, narravam que, certa vez, se pôs em
viagem a partir da Cétia, carregando cestos; cansou-se, porém, e sentou-se no
caminho; a seguir, orou dizendo: «Deus, tu sabes que não tenho forças». E logo foi
encontrado junto ao rio.

15. Havia no Egito alguém que tinha um filho paralítico. Levou-o à cela do Abade
Macário,

e, tendo deixado o menino em prantos à porta, retirou-se para longe. Ora o ancião,
abaixando-se, viu a criança e perguntou-lhe: «Quem te trouxe cá?» Respondeu o
menino: «Meu pai atirou-me aqui e foi-se embora». O Abade, então, mandou:
«Levanta-te, e vai-te juntar a ele». E eis que o menino foi imediatamente curado,
levantou-se e foi ter com o pai. Assim voltaram ambos para casa.

16. O Abade Macário o Grande dizia aos irmãos na Cétia, quando despedia a
assembléia da igreja: «Fugi, irmãos». Um dos anciãos perguntou-lhes certa vez: «E
para onde, além deste deserto, havemos de fugir?» Macário então colocou o dedo
sobre a boca e disse: «Fugi isto». A seguir, entrou na cela, fechou a porta e sentou-
se.

17. Disse o Abade Macário: «Se, ao repreender alguém, és movido à ira, satisfazes a
própria paixão. Não é perdendo a ti mesmo que salvaras os outros».

18. O mesmo Abade Macário, estando no Egito, encontrou um homem que,


acompanhado de jumento, roubava as coisas de que se servia o Abade. Este, então,
como um estranho, colocou-se ao lado do ladrão; com ele pôs-se a carregar o
jumento, e, com muita calma, despediu-se dele, dizendo «Nada trouxemos para este
mundo; é evidente que também nada podemos levar (1Tm 6,7). O Senhor deu; como
Ele quis, assim se fez. Bendito seja o Senhor em tudo» (Jó 1,21).

19. Alguns perguntaram ao Abade Macário: «Como devemos orar?» Respondeu o


ancião: «Não é preciso falar muito, mas estender as mãos e dizer: «Senhor, como
queres e como sabes, compadece-te», ou, se estiveres tentado: «Senhor, vem em
meu socorro». Ele mesmo sabe o que convém, e usa de misericórdia conosco».

20. Disse o Abade Macário: «Se se tornarem a mesma coisa para ti o desprezo e o
louvor, a pobreza e a riqueza, a carência e a abundância, não morreras. Pois é
impossível que aquele que crê como deve e age com piedade, caia na impureza das
paixões e no erro dos demônios».
21. Contavam o seguinte: «Dois irmãos na Cétia cairam em falta, e o Abade Macário,
da cidade, os excomungou. Alguns foram então procurar o Abade Macário o Grande,
Egípcio, e lhe referiram o que acontecera. Este respondeu: «Não são os irmãos que
estão excomungados, mas Macário está excomungado». Macário, o Egípcio, amava o
outro Macário. Ora este ouviu que fora excomungado por aquele ancião, e fugiu para
o pântano. Aconteceu então que o Abade Macário o Grande, saindo, o encontrou todo
mordido pelos mosquitos; disse-lhe: «Tu excomungaste os irmãos, e eis que eles
tiveram que se retirar para a aldeia. Eu, porém, te excomunguei, e tu, como uma
bela virgem, fugiste para cá como para a câmara interior. Ora eu chamei os irmãos,
interroguei-os, e eles afirmaram que nada disso aconteceu. Cuida, pois, irmão, de
que também tu não tenhas sido iludido pelos demônios (pois nada viste); antes,
prostra-te pedindo perdão por tua culpa». O outro respondeu: «Se queres, dá-me
uma penitência». Vendo, pois, o ancião a humildade dele, disse: «Vai, e jejua três
semanas, comendo uma vez por semana». Com efeito, esta era a tarefa do Abade
Macário o Grande em todo tempo: jejuar a semana inteira».

22. O Abade Moisés disse ao Abade Macário na Cétia: «Quero viver em paz, mas os
irmãos não me deixam». Respondeu-lhe o Abade Macário; «Vejo que a tua natureza é
delicada e que não podes repelir um irmão; mas, se queres viver em tranqüilidade,
retira-te para o deserto a dentro em Petra, e lá encontrarás descanso». Aquele fez
assim, e conseguiu repouso.

23. Um irmão chegou-se ao Abade Macário o Egípcio e pediu-lhe: «Abade, dize-me


uma palavra pela qual eu seja salvo». Respondeu o ancião: «Vai para junto do túmulo
e insulta os mortos». Ora o irmão se foi, injuriou e apedrejou; a seguir, voltou
referindo o feito ao ancião. Este perguntou: «Nada te disseram?» Aquele respondeu:
«Nada». O ancião continuou: «Volta lá amanhã e dize louvores a esses mortos». O
irmão voltou, pois, e pronunciou louvores aos mortos, chamando-os Apóstolos, Santos
e Justos. A seguir, regressou à cela do ancião e referiu: «Disse louvores». O Abade
perguntou: «Nada te responderam?» O irmão negou «Nada». Aquele retomou: «Sabes
quanto lhes disseste de injuriosos, sem que eles te tenham respondido, e quanto lhes
disseste de injurioso, sem que eles te tenham respondido, e quanto lhes disseste de
glorioso sem que te tenham falado; assim também tu, se queres ser salvo, torna-te
morto; como os mortos, não consideres nem as injurias dos homens nem os seus
louvores. Assim poderás ser salvo».

24. Quando uma vez o Abade Macário passava com irmãos por uma região do Egito,
ouviu um menino que dizia a sua mãe: «Mãe, certo homem rico gosta de mim, e eu o
odeio, ao passo que um pobre me odeia e eu o amo». Ao ouvir isto, o Abade Macário
admirou-se. Perguntaram-lhe então os irmãos: «Que significa essa palavra, Pai, pois
que te admiraste?» Respondeu-lhes o ancião: «Em verdade, Nosso Senhor é rico e nos
ama, enquanto nós não o queremos ouvir. Ao contrário, nosso inimigo, o demônio, é
pobre e nos odeia, enquanto nós amamos a sua impureza».

25. O Abade Poimém, com muitas lágrimas, pediu ao Abade Macário: «Dize-me uma
palavra pela qual eu seja salvo». Respondeu o ancião: «O que procuras, já
desapareceu dentre os monges».

2ô. Certa vez o Abade Macário foi ter com o Abade Antão e conversou com ele.
Quando voltava para a Cétia, acorreram-lhe ao encontro os Padres. Estando todos em
colóquio, disse o ancião: «Referi ao Abade Antão que não temos oblação em nossa
região». Os Padres, porém, puseram-se a falar de outros assuntos, e não perguntaram
a Macário qual fora a resposta do Abade Antão, nem aquele a referiu. Com efeito,
um dos Padres dizia o seguinte: «Quando os Padres vêem que os irmãos se esquecem
de interrogar a respeito de coisas edificantes, julgam-se obrigados a encetar eles
mesmos uma conversa edificante; se, porém, os irmãos não correspondem, não
continuam tal assunto, para que não pareçam falar sem ter sido interrogados nem a
sua conversa seja tida como ociosa».

27. O Abade Isaías pediu ao Abade Macário: «Dize-me uma palavra». O ancião
respondeu:

«Foge dos homens». O Abade Isaías continuou: «Que é fugir dos homens?» O ancião
explicou: «É ficares sentado em tua cela e chorares os teus pecados».

28. O Abade Pafnúcio, o discípulo do Abade Macário, contou: «Roguei a meu Pai:
'Dize-me uma palavra'. E ele respondeu: 'Não faças mal a alguém, nem condenes
quem quer que seja. Observa isto, e serás salvo'».

29. Disse o Abade Macário: «Não durmas na cela de um irmão que tem má fama».

30. Certa vez alguns irmãos foram ter com o Abade Macário na Cétia; não
encontraram na cela dele senão água putrefeita. Disseram-lhe então: «Abade, vem
para a aldeia, e nós te restauraremos as forças». O ancião respondeu: «Conheceis,
irmãos, a padaria de um tal na aldeia?» Responderam-lhe: «Sim». Continuou o
ancião: «Também eu a conheço. E conheceis o terreno de tal homem situado no lugar
em que bate o rio?» Responderam-lhe: «Sim;>. E o ancião concluiu: «Também eu o
conheço. Por conseguinte, quando quero, não preciso de vós, mas vou buscar para
meu uso (o que quero)».

31. A respeito do Abade Macário contavam que, se um irmão o ia procurar com medo,
como a célebre e santo ancião, ele nada dizia. Se, porém, um irmão lhe falava como
que desprezando-o: «Abade, então quando eras condutor de camelos p roubavas sal
para o vender, não te espancavam os guardas?», se alguém o interpelava assim, ele
respondia com alegria a tudo que perguntasse.

32. Do Abade Macáno o Grande diziam que se tornou, como está escrito, Deus sobre a
terra, pois, assim como Deus recobre o mundo, também o Abade Macário recobria as
falhas, que ele via como se não visse, e que ele ouvia como se não ouvisse.

33. O Abade Bitímio referiu que o Abade Macário contava o seguinte: «Quando eu
residia na Cétia, certa vez lá foram ter dois jovens estrangeiros, dos quais um tinha
barba, e o outro um começo de barba. Chegaram-se a mim, perguntando: 'Onde fica
a cela do Abade Macário?' Perguntei a meu turno: 'Por que o procurais?' Responderam:
'Tendo ouvido falar dele e da Cétia, viemos vê-lo'. Declarou então: 'Sou eu' Eles
caíram por terra, dizendo: 'Queremos permanecer aqui'. Eu, vendo que eram
delicados e como que afeitos à riqueza, respondi-lhes: 'Não podeis ficar aqui'. O mais
velho, porém, replicou: 'Se não podemos ficar aqui, vamo-nos para outro lugar'. Disse
então comigo mesmo: 'Por que os hei de expulsar e escandalizar? A labuta os fará
fugir por si mesmos'. Falei-lhes, pois: 'Vinde, e fazei uma cela para vós, se podeis'.
Responderam: 'Mostra-nos um lugar, e nós a faremos'. O ancião deu-lhes um
machado, uma sacola cheia de pão, e uma porção de sal; a seguir, mostrou-lhes uma
rocha dura, dizendo: 'Talhai a pedra aqui, ide buscar lenha no pântano e, quando
tiverdes concluído o teto, morai aí'. — 'Eu pensava, disse o ancião, que, à vista do
trabalho, haviam de partir'. Eles, porém, ainda me perguntaram qual deveria ser a
sua futura ocupação naquela morada. Respondi: 'Tecer cordames'. E fui buscar
palmas no pântano, mostrei-lhes como se começa a tecelagem e como se deve coser,
acrescentando: 'Fazei cestas, e entregai-as aos guardas, os quais vos trarão pães'. A
seguir, retirei-me. Eles, então, com paciência fizeram tudo que lhes mandei; e não
me vieram procurar durante três anos. Neste entretempo fiquei lutando com meus
pensamentos e perguntando-me: 'Que estarão fazendo, pois não voltaram para
interrogar a respeito das suas idéias? Outros de longe vêm ter comigo; estes, porém,
que habitam perto, não voltaram nem foram ter com outros; só vão à igreja, em
silêncio, a fim de receber a oblação'. Orei então a Deus e jejuei uma semana, a fim
de que me mostrasse o que eles faziam. Terminada a semana, levantei-me e fui ter
com eles para ver como viviam. Bati à porta; eles abriram e saudaram-se em silêncio;
fiz oração e sentei-me. Então o mais velho fez um sinal de cabeça ao mais novo para
que saísse, e sentou-se para tecer corda sem dizer coisa nenhuma. À hora nona, ele
fez um ruído; o mais jovem entrou, e, ao sinal do mais velho, preparou um pouco de
mingau, pôs a mesa e sobre esta colocou três pães, deixando-se ficar em pé ao lado e
taciturno. Eu disse, por conseguinte: 'Levantai-vos, vamos comer'. Levantamo-nos, e
comemos; depois o jovem trouxe a caneca e bebemos. Quando caiu o sol,
perguntaram-me: 'Vais embora?' Respondi: 'Não, mas dormirei aqui'. Eles então
estenderam uma esteira para mim de um lado, e outra para si do outro lado, no
canto; tiraram os seus cinturões e se deitaram juntos sobre a esteira diante de mim.
Ora, quando já estavam deitados, roguei a Deus que me revelasse o que eles faziam.
Abriu-se, então, o teto e desceu uma luz como que de dia; eles, porém, não viam a
luz. E quando julgavam que eu estava dormindo, o mais velho cotovelou o lado do
mais jovem; levantaram-se ambos, cingiram-se, e estenderam as mãos para o céu. Eu
os considerava; eles, porém, não me perceberam. E vi os demônios que desciam
como moscas sobre o mais moço; uns se pousavam sobre a boca dele, outros sobre os
olhos; vi também um anjo do Senhor com uma espada de fogo na mão que protegia o
jovem ao redor e dele afugentava os demônios. Quanto ao mais velho, porém, dele
não se podiam aproximar. Ao despontar do dia, eles se deitaram de novo; eu fiz
como se me estivesse despertando, e eles também. Então o mais velho me disse
apenas estas palavras: 'Queres que recitemos os doze salmos?' Respondi: 'Sim'. O mais
novo, pois, cantou cinco salmos de seis versos, e um Aleluia; a cada verso, saía uma
chama de fogo da boca dele, a qual subia para o céu. De forma semelhante, quando
o mais velho abria a boca para salmodiar, desta saiam como que labaredas de fogo,
as quais chegavam até o céu. Também eu recitei um pouco, de cor. Por fim, despedi-
me, dizendo: 'Rezai por mim'. Eles, porém, prostraram-se por terra, em silêncio.
Assim fiquei sabendo que o mais velho era perfeito e que ao mais jovem o inimigo
ainda perseguia. Poucos dias depois, o irmão mais velho faleceu, e, três dias mais
tarde, o mais moço».

Para o futuro, quando alguns dos Padres iam ter com o Abade Macário, este os levava
à cela dos dois, dizendo-lhes: «Vinde, vede o martírio dos pequenos peregrinos».

34. Certa vez os anciãos da montanha mandaram pedir ao Abade Macário na Cétia:
«Para que não se canse o povo todo indo ter contigo, rogamos-te que venhas a nós,
de modo que te vejamos antes que emigres para junto do Senhor». Macário foi, pois,
à montanha, e todo o povo se reuniu em torno dele. Os anciãos pediram-lhe que
dissesse uma palavra aos irmãos; ao que ele respondeu: «Choremos, irmãos, e que os
nossos olhos derramem lágrimas antes que nos vamos para aquele lugar em que as
nossas lágrimas consumirão de fogo os nossos corpos». Puseram-se, então, todos a
chorar, prostrados sobre a face, e disseram: «Pai, reza por nós».

35. De outra feita, um demônio apresentou-se ao Abade Macário com uma


espadazinha, querendo amputar-lhe o pé; mas não o pôde por causa da humildade
dele, e, em conseqüência, disse-lhe: «Tudo que vós tendes, também nós o temos;
apenas pela humildade diferis de nós, e prevaleceis sobre nós.
36. Disse o Abade Macário: «Se guardamos a recordação dos males que nos são
acarretados pelos homens, extinguimos a eficácia da recordação de Deus. Se, porém,
conservamos a lembrança dos males causados pelos demônios, somos invulneráveis».

37. O Abade Pafnúcio, o discípulo do Abade Macário, referiu o seguinte dito deste
ancião:

«Quando eu era criança, apascentava bezerros com outros meninos. Certa vez estes
foram roubar figos, e, quando corriam, caiu um figo, que eu recolhi e comi. Ao
recordar-me disto, sento-me e ponho-me a chorar».

38. O Abade Macário referiu o seguinte: «Certa vez, quando eu andava pelo deserto,
encontrei uma caveira no chão; empurrei-a com o meu bastão de palma, e a caveira
me falou. Perguntei-lhe: 'Tu quem és?' Respondeu-me: 'Eu era sumo sacerdote dos
ídolos e dos pagãos que moravam neste lugar. Tu, porém, és Macário, o portador do
Espírito.

Na hora em que te compadeces dos que estão em penas e oras por eles, são um
pouco aliviados'. O ancião perguntou então: 'Qual é esse alívio e quais são as penas?"
A caveira respondeu: 'Quanto dista o céu da terra, tão intenso é o fogo que arde
debaixo de nós, que, dos pés até a cabeça, estamos em meio ao fogo; e ninguém vê a
outrem face a face; mas o rosto de um adere às costas de outro. Quando, pois, rezas
por nós, acontece que um vê parte da face do outro. Este é o alívio'. Chorando,
então, o ancião exclamou: 'Ai do dia em que nasceu o homem!'' E de novo perguntou
à caveira: 'Haverá outro tormento pior?' Esta respondeu: 'Há um tormento pior abaixo
de nós'. O Abade indagou: 'E quem são os que lá estão?' A caveira continuou: 'Nós, que
não conhecemos a Deus, somos tratados ao menos com um pouco de misericórdia;
aqueles, porém, que conheceram a Deus e O negaram, estão debaixo de nós'.
Macário, então, tomou a caveira e a enterrou.

39. Do Abade Macário, o Egípcio, contavam que certa vez se dirigia da Cétia ao
monte da Nítria. Quando se aproximou do termo da viagem, disse a seu discípulo:
«Vai um pouco adiante». Ora, caminhando este à frente, encontrou-se com um
sacerdote pagão, a quem interpelou, exclamando: «Ai de ti, ai de ti, demônio, para
onde corres?» Este, voltando-se, espancou-o e deixou-o semimorto; a seguir,
recolheu a lenha que carregava, e correu. Pouco adiante, quando corria, encontrou-
se com o Abade Macário, o qual lhe disse: «Salve, salve, ó homem fatigado!» Aquele,
admirado, aproximou-se e perguntou-lhe: «Que viste de belo em mim para me
saudares?» O ancião respondeu: «Vi-te fatigado, e não sabes que te fatigas em vão».
Ao que o outro disse: «Com a tua saudação, comovi-me também eu; e fiquei sabendo
que és da parte de Deus. Encontrei, porém, um outro monge, mau, que me injuriou,
e a quem, por conseguinte, espanquei mortalmente».

Neste o ancião reconheceu tratar-se de seu discípulo. A seguir, o sacerdote,


agarrando os pés de Macário, disse-lhe: «Não te soltarei se não me fizeres monge».
Continuaram, então, o caminho até o alto onde estava o monge; Macário e seu
discípulo levaram ò sacerdote e o fizeram entrar na igreja da montanha. Os que viam
o pagão com o Abade, se admiravam. Finalmente, fizeram-no monge, e, por causa
dele, muitos pagãos se tornaram cristãos. Em conseqüência, o Abade Macário dizia
que a palavra má torna maus mesmo os bons e que a palavra boa torna bons mesmo
os maus.

40. Do Abade Macário contavam que, certa vez, estando ele ausente, entrou um
ladrão em sua cela. Ora, quando aquele chegou, encontrou o ladrão a carregar o
camelo com os objetos de Macário. Este, então, entrou na cela, e tomando os seus
utensílios, pôs-se, com o ladrão, a carregar o camelo. Quando haviam terminado, o
larápio começou a bater o camelo para que se levantasse; o animal, porém, não se
movia. Ora o Abade Macário, vendo que este não se levantava, entrou na cela e aí
achou uma pequena enxada, que ele colocou sobre o camelo, dizendo: «Irmão, é isto
que o camelo deseja». E com o pé deu um golpe ao animal, mandando-lhe: «Levanta-
te». Este levantou-se logo, e caminhou um pouco em virtude da palavra do ancião.
De novo, porém, deitou-se, e não se levantou mais até que o tivessem descarregado
de todos os objetos. Então partiu.

41. O Abade Aio pediu ao Abade Macário: «Dize-me uma palavra». O Abade Macário
respondeu: «Foge dos homens; senta-te em tua cela e chora os teus pecados. E não
tenhas prazer na conversa com os homens. Assim serás salvo».

6. APOTEGMAS DE POIMEM

1. O Abade Poimém, quando era jovem, foi certa vez visitar um ancião a fim de o
consultar a respeito de três pensamentos. Quando, porém, chegava à morada do
ancião, esqueceu um dos três pensamentos. Voltou, então, para a sua cela, e,
quando colocou a mão sobre a chave para abri-la, recordou-se do que esquecera.
Deixou, pois a chave e foi ter de novo com o ancião. Este disse-lhe: «Vieste depressa,
irmão». Poimém explicou-lhe: «Quando coloquei a mão sobre a chave para tomá-la,
recordei-me da idéia que procurava, e não abri: por isto, voltei. Ora a extensão da
estrada era muito grande». O ancião respondeu: «Poimém (Pastor) de anjos (NT: Se
em grego se prefere a forma variante "ageloon" em vez de "aggéloon", deve-se
traduzir: Pastor de rebanhos, sendo o nome Poimêm equivalente a Pastor.), teu
nome será proclamado de boca em boca por toda a terra do Egito».

2. Em certa ocasião Paésio, o irmão do Abade Poimém, tinha colóquios com alguém
fora da cela. Ora o Abade Poimém não queria isto; levantou-se, pois, e fugiu para
junto do Abade Amonas, dizendo a este: «Paésio, meu irmão, tem colóquios com
alguém, e, em conseqüência, eu não sossego». Perguntou-lhe o Abade Amonas:
«Poimém, ainda vives? Vai, senta-te em tua cela e coloca em teu coração a idéia de
que já há um ano que jazes no sepulcro».

3. Em dada ocasião, presbíteros da região foram aos mosteiros em que estava o


Abade Poimém.

O Abade Anube chegou-se então a ele e disse-lhe: «Convidemos os presbíteros a vir


cá hoje». E esperou em pé muito tempo, sem que Poimém lhe desse resposta; após o
que, Anube se retirou triste. Então os que estavam sentados juntos a Poimém,
perguntaram-lhe: «Abade, porque não lhe deste resposta?» O Abade Poimém
explicou-lhes: «Nada tenho que ver, pois morri. Ora o morto não fala».

4. Havia no Egito, antes que lá chegassem o Abade Poimém e os seus companheiros,


um ancião que gozava de grande fama e grande estima. Ora, quando chegaram da
Cétia o Abade Poimém e os seus, os homens deixaram o ancião e iam procurar a
Poimém. Este se afligia com o fato, e disse a seus irmãos: «Que havemos de fazer a
este grande ancião pois os homens nos suscitaram aflição, abandonando o ancião e
dirigindo-se a nós, que nada somos? Como poderemos ser agradáveis ao ancião?» A
seguir, acrescentou: «Preparai pequenas porções de alimento, tomai uma medida de
vinho, e vamos ter com o ancião; comeremos juntos; talvez assim lhe possamos dar
agrado». Tomaram, pois, os alimentos, e saíram. Ora, quando bateram à porta, o
discípulo do ancião, que os escutara, perguntou: «Quem sois?» Responderam : «Dize
ao Abade que Poimém aqui está, querendo ser abençoado por ele». O discípulo
referiu isto e voltou com a resposta: «Vai-te, não tenho tempo». Eles, porém,
permaneceram no calor do sol, dizendo: «Não partiremos antes que sejamos julgados
dignos de ver o ancião». Este, vendo a humildade e a paciência deles, ficou
compungido e lhes abriu a porta. Entraram, então, e comeram com ele; quando,
pois, estavam a comer, disse o ancião: «Em verdade, não somente o que ouvi dizer
de vós, é fidedigno, mas ainda vi o cêntuplo disso em vossa conduta». E tornou-se
amigo deles a partir daquele dia.

5. Em certa época o Governador da região quis ver o Abade Poimém; o ancião,


porém, não o desejava receber. Servindo-se então de um pretexto, mandou prender
como malfeitor o sobrinho, e o pôs no cárcere, dizendo: «Se o ancião vier e
interceder por ele, eu o soltarei». Ora a irmã de Poimém foi ter com o Abade,
ficando a chorar diante da porta; este, porém, não lhe deu resposta. Em
conseqüência, ela se pôs a insultá-lo, dizendo: «Tu que tens entranhas de bronze,
compadece-te de mim, pois é meu filho único». O Abade mandou-lhe dizer: «Poimém
não gerou filhos». Assim se retirou ela. Ao saber disto, o Governador mandou dizer:
«Que o Abade o ordene ao menos com a palavra, e eu soltarei o menino». O ancião
fez saber em resposta: «Investiga conforme as leis, e, se é digno de morte, morra; se
não o é, faze como quiseres*.

6. Certa vez um irmão pecou num cenóbio. Ora havia naquelas regiões um anacoreta
que, desde muito, não saía mais em público. O Abade do cenóbio foi ter com ele e
contou-lhe o caso do delinqüente. O anacoreta respondeu: «Expulsai-o». Saindo
assim do cenóbio, o irmão penetrou numa gruta, onde se pôs a chorar. Aconteceu
então que irmãos, num momento de lazer, foram visitar o Abade Poimém, e, a
caminho, ouviram o irmão que chorava; entraram, então, na gruta e, encontrando-o,
em grande angústia, exortaram-no a ir procurar Poimém. Ele, porém, não queria,
dizendo: «Aqui morrerei». Os irmãos então prosseguiram até a cela do Abade Poimém
e narraram-lhe o ocorrido. Este, em resposta, lhes mandou voltar, dizendo:
«Anunciai ao irmão: «O Abade Poimém te está chamando». Assim se chegou o irmão.
O ancião, vendo-o aflito, levantou-se, abraçou-o e, tratando-o com bom humor,
convidou-o para comer. A seguir, o Abade Poimém mandou um dos irmãos ter com o
anacoreta, para transmitir o seguinte: «Tendo ouvido contar o que fazes, há muitos
anos desejo ver-te, mas, por timidez de ambos, ainda não nos encontramos. Agora,
porém, que se apresenta uma ocasião, se é vontade de Deus, dá-te a pena de vir até
aqui e nós nos veremos». Ora o anacoreta não saía da cela; ouvindo, porém, estas
palavras, disse consigo: «Se Deus não o tivesse inspirado ao ancião, este não me teria
mandado tal recado». E, levantando-se, foi ter com Poimém. Os dois abraçaram-se
mutuamente com alegria e sentaram-se juntos. Disse então o Abade Poimém: «Havia
em certo lugar dois homens, os quais tinham cada qual um morto em sua casa; ora
um deles deixou o seu morto para ir chorar o do outro». Ao ouvir isto, o ancião
compungiu-se, recordando-se do que fizera, e disse: «Poimém, para o alto, para o
alto, penetrando no céu; eu, porém, para baixo, para baixo, penetrando na terra».

7. Certa vez um grupo numeroso de anciãos foi ter com o Abade Poimém. Ora um dos
parentes do Abade Poimém tinha um menino cuja cabeça, por ação do demônio,
estava virada para trás. O pai da criança, vendo o grande número de Padres reunidos,
tomou o menino e sentou-se fora do mosteiro a chorar. Aconteceu que um dos
anciãos saiu, e, vendo-o, perguntou: «Porque choras, homem?» Este respondeu: «Sou
parente do Abade Poimém; eis que sobre o menino recaiu tal maldade do demônio;
desejamos levá-lo ao ancião, mas tememos, pois este não nos quer ver. E, se agora
souber que estou aqui, mandará expulsar-me. Eu, porém, observando a vossa
chegada, ousei aproximar-me. Portanto, Abade, compadece-te de mim, como bem
quiseres; leva meu filho para dentro, e orai vós por ele».

O ancião, levando o menino, entrou, e pôs-se a agir com prudência (sophrosyne -


phronesis): não o levou logo ao Abade Poimém, mas, começando pelos irmãos mais
jovens, disse: «Fazei o sinal da cruz sobre a criança». Tendo conseguido que todos a
persignassem, por último levou-a ao Abade Poimém. Este não queria que o menino se
aproximasse. Os outros, porém, o solicitavam, dizendo: «Como todos, faze também
tu, Pai». Ele, então, gemendo, levantou-se e orou dizendo: «Ó Deus, cura a tua
criatura, para que não seja dominada pelo inimigo». A seguir, fez-lhe o sinal da cruz,
ficando logo curado o menino, que ele entregou são ao seu pai.

8. Em dada ocasião um irmão foi da região do Abade Poimém para terra estrangeira,
onde chegou à cela de certo anacoreta, que, por ter grande caridade, era procurado
por muitos. O irmão falou--lhe do Abade Poimém, de modo que, sabendo das virtudes
deste, o anacoreta desejou vê-lo. Certo tempo depois que o irmão voltara para o
Egito, o anacoreta levantou-se e foi da terra estrangeira para o Egito em demanda do
irmão que outrora o visitara, pois este lhe dissera onde morava. Vendo-o, este se
admirou e alegrou profundamente. Disse então o anacoreta: «Faze a caridade de me
levar ao Abade Poimém». O irmão conduziu-o ao ancião, a quem anunciou nestes
termos as qualidades do visitante: «É um grande homem, dotado de muita caridade e
de muita estima em sua terra. Falei-lhe de ti, e ele veio desejoso de te ver».
Poimém recebeu-o então com alegria, e, depois de se terem saudado, sentaram-se.
O estrangeiro começou a falar da Escritura, de coisas espirituais e celestes; diante
disto, o Abade Poimém voltou o rosto e não deu resposta. Aquele, vendo que Poimém
não lhe falava, ficou triste e saiu, dizendo ao irmão que o conduzira: «Em vão fiz
toda esta viagem. Com efeito, vim visitar o ancião, e eis que nem quer falar
comigo». O irmão entrou, pois, na cela do Abade Poimém e disse-lhe: «Abade, foi por
causa de ti que este grande homem veio, ele que goza de tanta glória em sua terra;
por que não conversaste com ele?» Respondeu-lhe o ancião: «Ele é do alto e fala de
coisas celestes, enquanto eu sou de baixo e falo de coisas terrestres. Se me tivesse
falado das paixões da alma, eu lhe teria respondido; tratando-se, porém, de coisas
espirituais, eu não estou a par». O irmão então saiu e disse ao estrangeiro: «O ancião
não costuma falar de Escritura, mas, se alguém lhe fala das paixões da alma, ele
responde». O visitante, compungido, foi de novo procurar o ancião e disse-lhe: «Que
farei, Abade, pois que me dominam as paixões da alma?» Poimém fitou-o com alegria
e disse-lhe: «Desta vez vieste oportunamente. Agora abre a boca a respeito dessas
coisas, e eu a encherei de bens». O estrangeiro, muito edificado, acrescentou: «Sem
dúvida, essa é a via genuína». E voltou para a sua terra, dando graças a Deus por ter
sido julgado digno de encontrar tal santo.

9. Certa vez o Governador da região mandou prender alguém da aldeia do Abade


Poimém. Todos então foram pedir ao ancião que saísse e libertasse o prisioneiro. Ele
respondeu: «Deixai-me três dias, depois dos quais irei». Nesse intervalo, orou ao
Senhor, dizendo: «Senhor, não me concedas essa graça; pois não me deixariam mais
ficar neste lugar». A seguir, foi rogar o Governador, o qual lhe disse: «Intercedes por
esse ladrão, Abade?» Ora o ancião alegrou-se por não ter recebido o favor.

10 Alguns contaram que certa vez o Abade Poimém e seus irmãos estavam a fabricar
pavios; mas não puderam continuar, por não terem com que comprar os fios de linho
necessários. Ora um deles, caro a todos, contou isto a certo negociante, homem de
fé. O Abade Poimém, porém, nunca queria aceitar algo de quem quer que fosse, por
causa do assédio de gente que seria assim ocasionado (NT: Muitas outras pessoas,
querendo beneficiar o ancião, o procurariam para levar-lhe os seus presentes). O
negociante, então, intencionando fazer obra boa ao ancião, alegou precisar de
pavios; foi, pois, com o seu camelo à cela do Abade, e voltou com os pavios que aí
tomara. Depois disto, o dito irmão foi ter com o Abade Poimém, e, tendo ouvido o
que o negociante fizera, disse, intencionando louvar a este: «Em verdade, Abade,
mesmo que ele não precisasse, teria levado os pavios para nos fazer uma boa obra».
O Abade Poimém, tendo assim compreendido que o negociante levara os pavios sem
precisar deles, disse ao irmão: «Levanta-te, aluga um camelo, e traze de volta os
pavios; senão os trouxeres, Poimém não habitará mais aqui convosco. Não quero
causar dano a um homem que não precisa dos objetos; ele sofreria prejuízo,
tomando os objetos com que eu lucro». O irmão foi-se com muita pena, e trouxe os
pavios de volta; senão, o ancião os teria abandonado. Quando Poimém viu os pavios,
alegrou-se como se tivesse encontrado grande tesouro.

11. Certa vez o presbítero de Pelúsio ouviu, a respeito de certos irmãos, que eles iam
continuamente à cidade, se lavavam (NT: Lavar-se nos balneários das cidades era
antigamente sinal de luxo) e se descuidavam da própria alma. Em conseqüência, por
ocasião da assembléia litúrgica, retirou-lhes o hábito monás-tico. Depois disto,
porém, seu coração o acusou, e, arrependido, foi ter com o Abade Poimém, como
que embriagado em seus pensamentos, tendo nas mãos as túnicas dos irmãos, contou
o caso ao ancião. Este perguntou-lhe então: «Não tens tu algo do homem velho? Será
que já o despiste?» O presbítero confessou: «Participo ainda do homem velho».
Continuou o ancião: «Eis, portanto, que tu és como os irmãos. Pois, se participas,
embora pouco, do que é velho, também tu estás sujeito ao pecado». Então o
presbítero se foi, chamou os irmãos, e pediu-lhes desculpas (eram onze); a seguir,
revestiu-os do hábito monástico e despediu-os.

12. Um irmão disse ao Abade Poimém: «Cometi um grande pecado, e desejo fazer
penitência

durante três anos». Respondeu o ancião: «É muito». Os que estavam presentes


disseram então: «E durante quarenta dias?» Mais uma vez replicou o ancião: «É
muito». E acrescentou: «Digo que, se o homem se arrepende de todo o coração e não
torna a cometer o pecado, Deus o recebe já após três dias».

13. Disse também: «O sinal do monge se manifesta nas tentações».

14. Disse ainda: «Como o espadário do rei a este assiste, pronto em todo tempo,
assim é preciso que a alma esteja pronta diante do demônio da fornicação».

15. O Abade Anube interrogou o Abade Poimém a respeito dos pensamentos impuros
que o coração do homem gera, e a respeito dos vãos desejos. O Abade Poimém
respondeu: «Gloriar-se-á o machado sem aquele que o manuseia? (Is 10,15) Também
tu não dês a mão a eles e serão frustrados» (NT: Isto é, as tentações não nos podem
ser nocivas, enquanto não lhes prestamos nossa cooperação).

16. Disse de novo o Abade Poimém: «Se Nabuzardan, o cozinheiro-chefe, não tivesse
vindo, não se teria incendiado o templo do Senhor (2Rs 25,8-10). Isto quer dizer: se o
deleite da gula não entrasse na alma, a mente não cairia quando impugnada pelo
inimigo.

17. Do Abade Poimém contavam que, convidado a comer quando não o queria,
aquiesceu, embora em prantos, a fim de não deixar de atender ao irmão e não o
contristar.
18. Disse mais o Abade Poimém: «Não habites em lugar onde vês que alguns têm
inveja de ti; senão, não progredirás».

19. Alguns referiam ao Abade Poimém que certo monge não bebia vinho. Respondeu:
«O vinho em absoluto não é para os monges».

20. O Abade Isaías interrogou o Abade Poimém a respeito dos pensamentos impuros.
Este respondeu: «Se tivermos um baú cheio de vestes e as deixamos fechadas,
apodrecerão com o tempo. Assim também são os pensamentos: se não executamos
com o nosso corpo, no decorrer do tempo extinguem-se ou apodrecem».

21. O Abade José propôs ao Abade Poimém a mesma pergunta. Este respondeu: «Se
alguém lança uma cobra e um escorpião no mesmo recipiente e fecha a este, não
resta dúvida de que morrerão com o tempo; assim também os maus pensamentos:
suscitados pelos demônios, desaparecem pela paciência».

22. Um irmão foi ter com o Abade Poimém e disse-lhe: «Semeio o meu campo, e com
os seus frutos pratico a caridade». Respondeu o ancião: «Fazes bem». O irmão saiu
então animado, e multiplicou as suas esmolas. Ora o Abade Anube ouviu contar isto,
e perguntou ao Abade Poimém: «Não temes a Deus, pois que assim falaste ao irmão?»
O ancião calou-se. Dois dias depois, porém, mandou chamar o irmão e perguntou-lhe
em presença do Abade Anube: «Que me disseste o outro dia? Minha mente estava em
outro lugar». O irmão respondeu: «Disse que semeio o meu campo e com os seus
frutos pratico a caridade». O Abade Poimém observou: «Julguei que falavas de teu
irmão que vive no século; se és tu que o fazes, digo-te que isto não é coisa de um
monge». Ao ouvir isto, o irmão entristeceu-se e replicou: «Não sei fazer outro
trabalho senão este; não posso não semear o meu campo». Depois, então, que o
irmão se retirou, o Abade Anube se prostrou diante de Poimém e disse-lhe: «Perdoa-
me». E o Abade Poimém explicou: «Também eu, desde o início, sabia que essa tarefa
não é própria para um monge, mas falei de acordo com as disposições dele, e, com
isto, animei-o a progredir na caridade. Agora, porém, ele se foi abatido, e, não
obstante, tornará a fazer o mesmo».

23. Disse o Abade Poimém: «Se o homem pecar e o negar, dizendo: 'Não pequei', não
o acuses, pois lhe cortarias o ânimo. Se, ao contrário, lhe disseres: 'Não percas
ânimo, irmão, mas guarda-te para o futuro', excitarás a sua alma à penitência».

24. Disse mais: «Boa coisa é a experiência, pois ela ensina ao homem honesto».

25. Disse ainda: «O homem que ensina, mas não pratica o que ensina, é semelhante a
uma fonte, pois a todos oferece com que beber e se lavar, mas a si mesma não pode
purificar».

26. Certa vez, quando o Abade Poimém andava pelo Egito, viu uma mulher sentada
junto a um túmulo, a qual chorava amargamente. E disse: «Ainda que venham todos
os deleites deste mundo, não lhe tirarão a alma da tristeza em que se acha. Assim
também o monge deve sempre trazer a tristeza em si mesmo» (NT: Isto é, a grande
dor de ter pecado).

27. Disse mais: «Há o homem que parece calado, mas cujo coração condena a outros;
esse tal está sempre a falar. E há outro homem que fala da manhã à noite, mas
guarda o silêncio, isto é, nada diz que não seja de edificação».
28. Um irmão foi ter com o Abade Poimém e disse-lhe: «Abade, tenho muitos maus
pensamentos, e corro perigo por causa deles». O ancião levou-o ao ar livre e disse-
lhe: «Dilata os pulmões e detém os ventos». O irmão respondeu: «Não o posso fazer».
Continuou o ancião: «Se não o podes fazer, também não podes impedir que os
pensamentos venham; mas está em teu poder resistir a eles».

29. Disse o Abade Poimém: «Se três se reúnem, dos quais um leva dignamente uma
vida tranqüila, o outro é doente e dá graças a Deus, o terceiro faz o seu serviço com
mente pura, esses três realizam um só e idêntico grau de virtude».

30. Disse também: «Está escrito: 'Como o cervo deseja as fontes das águas, assim
minha alma deseja a Vós, Deus' (Sl 41,2). Ora os cervos no deserto, devoram muitas
serpentes; a seguir, quando o veneno os faz arder de sede, desejam chegar-se às
águas; e, ao beberem, refrescam-se, livrando-se do veneno das serpentes. Assim
também os monges, morando no deserto, são queimados pelo veneno dos maus
demônios, e desejam o sábado e o domingo para se chegarem às fontes das águas,
isto é, ao Corpo e ao Sangue do Senhor, a fim de se purificarem da amargura do
Maligno».

31. O Abade José perguntou ao Abade Poimém como se deve jejuar. Respondeu este:
«Quero que todos comam diariamente, mas pouco, de modo a não ficarem saciados».
O Abade José replicou: «Quando eras jovem, não comias de dois em dois dias,
Abade?» O ancião respondeu: «Sim, e também de três em três, de quatro em quatro
dias, e uma vez por semana. Todas essas coisas, os Padres, fortes como eram, as
experimentaram, e concluíram que é oportuno comer todos os dias, mas pouco;
assim nos entregaram a via regia, porque suave».

32. A respeito do Abade Poimém contavam que, antes de ir para o Oficio, se sentava
a sós, ficando a examinar os seus pensamentos durante cerca de uma hora. Depois
disto é que se punha a caminho.

33. Um irmão perguntou ao Abade Poimém: «Deixaram-me uma herança; que farei
com ela?»

O ancião respondeu: «Retira-te, e volta dentro de três dias, e eu te direi». Aquele


voltou, como lhe determinara o ancião, o qual lhe disse: «Que hei de te responder,
irmão? Se te disser: 'Dá-a à igreja', lá farão ceias; se te disser: 'Dá-a a um parente
teu', não terás recompensa; se te disser: 'Dá aos pobres', tu te descuidarás de o
fazer. Age, pois, como bem quiseres; eu não tenho parte na questão».

34. Um outro irmão perguntou-lhe: «Que significa : 'Não retribuirás o mal pelo mal?'
(1Tes 5,15; 1 Pe 3,9)».

O ancião respondeu: «Esse vício tem quatro modalidades diversas: a primeira provém
do coração; a segunda, da vista; a terceira, da língua; e a quarta é não fazer o mal
em troca do mal (NT: O Abade quer dizer que fazer exteriormente o mal em troca do
mal supõe três defeitos exteriores). Se puderes purificar o teu coração, o mal não
chegará aos olhares; se, porém, atingir os teus olhares, guarda-te de o pronunciares
pela boca; se o pronunciares, preserva-te logo de fazer o mal em troca do mal».

35. Disse o Abade Poimém: «Refrear-se, vigiar sobre si mesmo, e usar de


discernimento, estas três virtudes são as guias da alma».

36. Disse também: «Prostrar-se em presença de Deus, não se comparar, e atirar para
trás a vontade própria, são instrumentos de que se serve a alma».

37. Disse ainda: «A vitória sobre qualquer pena que te sobrevenha, é calar-te».

38. Disse mais: «Todo repouso do corpo é abominação aos olhos do Senhor».

39. Disse também: «A compunção tem dois elementos: ela impele e também
refreia».

40. Disse mais: «Se te vier a preocupação das coisas necessárias ao corpo, e lhe
satisfizeres uma vez; se voltar de novo e lhe satisfizeres; caso volte a terceira vez,
não lhe dês atenção, pois é vã (NT: Isto é: a repetida solicitude das necessidades
corporais não é inspirada pela virtude).

41. Disse de novo: «Um irmão perguntou ao Abade Alônio: «Que significa o
aniquilamento de si mesmo?» O ancião respondeu: «Significa colocar-se abaixo dos
irracionais, e saber que estes não podem ser condenados» (NT: O homem que
renuncia a si mesmo por amor de Deus, deixa de viver conforme a razão natural,
meramente humana, e conforme os seus apetites naturais; a este título, pode ser
considerado inferior aos irracionais. Todavia tal homem pratica essa renúncia para
ser elevado a um nível de vida superior, ditado pelo próprio Deus. Com isto adquire a
segurança de não ser condenado.).

42. Disse de novo : «Preferirá calar-se, o homem que se lembre do que está escrito:
«Pelas tuas palavras serás justificado, e pelas tuas palavras serás condenado» (Mt
12,37).