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Chagall, Amantes com Flores

Renoir, O Casal Sisley


Escuto o silêncio das palavras. O seu silêncio
suspenso dos gestos com que elas desenham
cada objecto, cada pessoa, ou as próprias ideias
que delas dependem. Por vezes, porém, as
palavras são o próprio silêncio. Nascem
de uma espera, de um instante de atenção, da
súbita fixidez dos olhos amados, como se
também houvesse coisas que não precisam de
palavras para existir. É o caso deste sentimento
que nasce entre um e outro ser, que apenas
se adivinha enquanto todos falam, em volta,
e que de súbito se confessa, traduzindo em
breves palavras a sua silenciosa verdade.
Brown, Romeu e Julieta
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas Julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.
Chagall, Amantes ao Luar
No princípio era o luar, com as suas
veias de leite e os seus seios a arfar.

E vieram os sonhos brancos da madrugada,


que vestiram as folhas de geada.

Nasceu nos teus ombros a manhã,


curvada como a figura anã.

Nada disto se pode dizer


quando não há maneira de te esquecer.
Renoir, Dança em Bougival
É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,

Mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;

E se outras voltas me fazem ver nos teus

Os teus olhos, não é porque o mundo parou, mas

Porque esse breve olhar nos fez imaginar que

Só nós é que o fazemos andar.


Hopper, Manhã
Estar contigo ao acordar, ver como
se abrem as tuas pálpebras, cortinas
corridas sobe o sonho, sacudir dos
teus lábios o silêncio da noite para
que um primeiro riso me traga o dia:

Assim, amor, reconheço a vida que


entra contigo pela casa, escancara
janelas e portas, deixa ouvir os pássaros
e o vento fresco da manhã, até que voltas
para junto de mim, e tudo recomeça
Chagall, O Passeio
Um dia, quando começa, parece igual aos
outros. A mesma luz que entra pela janela,
ruídos de obras e automóveis, vozes… Mas
o que nesse dia me falta é outra coisa: a tua
voz, a surpresa de cada instante que me dás,
uma luz diferente que não vem de fora, da
mesma rua e do mesmo céu, mas de dentro
de ti. Assim, o que faz a mudança do mundo
e das coisas não é o mundo nem as coisas:
somos nós, e a relação que nos prende um ao
outro – isso que, não sendo nada para fora
de nós, é tudo o que temos nesta vida.
Chagall, Os amantes nos Lilases
John Everett Millais, Ofélia
Caravaggio, Baco
Chagall, Aniversário
Podíamos saber um pouco mais

do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar

de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou

amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada

sabemos do amor.
Pedro e Inês
Que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.
Chagall, O Mito de Orfeu
Naquelas tardes em que despias o coração, e mo

entregavas num gesto de orvalho primaveril, o calor

de um sorriso de olhos fechados atravessava-me

a alma, e misturava-se com a terra húmida

das sensações. Podia dizer-se: este é o pólen que nenhum

insecto poderá roubar da corola onde se fabrica o éter

do amor; e ouvir o teu riso, dissipando um temporal

de emocões. (…)

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