Você está na página 1de 7

Sermão do Padre António Vieira proferido S.

João concorriam todas as qualidades, em


na Capela Real em 19 de Março de 1642, algumas era igualado, e em alguma excedido; e
dia de aniversário do Rei D. João IV. para mordomo da Rainha dos Anjos todos o
excediam no atributo da ancianidade. Pois se era
por João J. Vila-Chã a Sexta-feira, 18 de Março de mais moço João, e havia outros amados, e mais
2011 às 23:25 parentes, porque não escolheu Cristo a outro
Cum esset desponsata Mater Jesu Maria discípulo, senão a S. João para este ofício? A
Joseph razão foi; porque o ofício de acompanhar e servir
à Senhora, era ofício de S. José, enquanto viveu:
[Maria, Mãe de Jesus, estava comprometida em e para substituir em ausências de José, quem
casamento com José; Mateus 1, 18.] havia de ser, senão João? Não é menos que de S.
Cipriano o pensamento: Ut non tam Joseph
I. Questão foi mui duvidada entre os Antigos, oneretur tanti ministerii praepositura, sed
qual dia desta vida era mais feliz; se o primeiro, Joannes. Morrera José: vagara no mundo aquele
se o último; se o do nascimento, se o da morte. grande lugar; e para substituir em sua morte,
Daqui veio, que seguindo várias gentes várias para suceder em sua ausência, ninguém havia
opiniões, umas se alegravam nos nascimentos, no mundo que estivesse a caber, senão quem?
outras os celebravam com lágrimas: umas se João, o amado de Deus. João o amado de Deus
entristeciam nas mortes, outras as solenizavam substitui a José: Non tam Joseph, sed Joannes.
com festas. Chegou finalmente a dúvida ao
tribunal de el-rei Salomão, o qual inclinando-se à E isto quando? No dia de seu nascimento. Parece
parte que parecia menos provável, resolveu que que não pode ser; porque nem o real, nem o
melhor é o dia da morte, que o dia do nascimento podem competir a S. João aqui. Ora
nascimento: Melior est dies mortis die tudo foi. Quando Cristo deu a S. João o cuidado
nativitatis [Mais vale ir a uma casa em luto do de servir à Senhora, as palavras que disse foram
que ir a uma casa em festa. Eclesiastes 7, 2]. estas: Mulier, ecce Filius tuus: João, XIX, 26.
Com isto estar resoluto, e definido assim na Mulher, eis aí teu filho. Deinde dicit discipulo:
Escritura, hoje parece que temos a mesma Ecce Mater tua [João 19, 27]. João, eis aí tua
questão ou concordada, ou ressuscitada; porque Mãe. Mãe e Filho, de que maneira? Mãe tinha S.
estamos por mercê de Deus em um dia tão João, mas era Maria Salomé: Filho era, mas do
glorioso por uma morte, tão feliz por um Zebedeu. Pois se estes eram seus pais, como se
nascimento, que bem se pode competir dentro chama João filho da Senhora, e a Senhora Mãe
em si mesmo, ou a vencer feliz suas glórias, ou a de João? É porque João tornou a nascer nesta
vencer glorioso suas felicidades. Consagrou-se hora, e nasceu só da Virgem por força das
este dia às glórias do Céu com a morte do maior palavras de Cristo. Autores houve, e entre eles
santo que nele reina, o divino Esposo da Virgem expressamente S. Pedro Damião, que disseram,
Maria, S. José: e consagrou-se outra vez o que assim como as palavras, Hoc est Corpus
mesmo dia às felicidades de Portugal, com o meum [Isto é o meu Corpo], ditas uma vez por
nascimento felicíssimo do mais desejado rei, e Cristo, tiveram força para converter o pão em
mais benemérito, el-rei nosso senhor D. João, o corpo do mesmo Cristo; assim as
Quarto, para que sobre os trinta e oito, que hoje palavras, Mulier, ecce Filius tuus, tiveram força
conta, continue por muitos e mui compridos para fazer a S. João, e o converterem de filho do
anos as prosperidades que goza. Morre hoje Zebedeu em filho de Maria.
José, e nasce Sua Majestade. Que ventura tão
recíproca! Nem José, morrendo, podia deixar no De maneira, que S. João teve dois nascimentos:
mundo melhor substituto: nem Sua Majestade, um nascimento natural, com que nasceu filho do
nascendo, podia entrar no mundo com melhor Zebedeu; outro nascimento sobrenatural, com
planeta. que nasceu filho da Mãe de Deus. Pelo primeiro
nascimento nasceu nas praias do Tiberíade; pelo
Estando Cristo Redentor nosso na cruz, olhou segundo nascimento nasceu ao pé da cruz. Pelo
para S. João, o discípulo amado, e encarregou- primeiro nascimento nasceu de geração
lhe que tivesse cuidado de servir e acompanhar humilde; pelo segundo nascimento nasceu da
a sua Santíssima Mãe. Reparam alguns santos mais ilustre e real prosápia que havia no mundo,
em não dar o Senhor este cargo a outro filho de uma Senhora, herdeira de um rei morto
apóstolo, senão a S. João, porque ainda que em à mão de seus inimigos: Jesus Nazarenus Rex
Judaeorum [Jesus de Nazaré rei dos Judeus]. depois dele morto: Quo mortuo. Se José quer
Assim nasceu S. João segunda vez, e assim foi dizer crescimento, e os filhos de Israel cresceram
necessário que nascesse, para suceder no lugar por sua influência, porque não cresceram em sua
de S. José como sucedeu; porque, só se pode vida, senão depois de sua morte? A razão é
substituir dignamente a morte de José, com quê? porque para se lograrem as influências de José,
Com o nascimento real de um João, o amado de há-de estar debaixo da terra. Delicadamente o
Deus: Discipulum, quem diligebat: Mulier ecce tirou Hugo Cardeal do mesmo Texto. Diz o Texto
Filius teus: Non tam Joseph, sed Joannes. que: Creverunt quasi germinantes, cresceram os
filhos de Israel, assim como crescem as plantas.
II. Só vejo me podem reparar os curiosos em Bem dito, diz Hugo:Uno grano emortuo, multa
falar no dia de S. José por termos de morte, creverunt: Cresceram os filhos de Israel como as
sendo que mais devia com um, e outro intento plantas; porque assim como as plantas, para
chamar-lhe, nascimento; porque assim chama a nascerem, e crescerem, é necessário que a
Igreja às mortes dos santos: Natalitia Sanctorum. virtude de que nascem, se enterre primeiro
Se eu não fora mais amigo da verdade, que da debaixo da terra; assim para que a virtude de
propriedade, assim o fizera; mas as mortes de José influísse aumentos nos filhos de Israel, foi
outros santos podem-se chamar nascimentos; a necessário que ele morresse e se enterrasse
morte de S. José, não. As mortes de outros primeiro: Quo mortuo, creverunt. Os outros
santos podem-se chamar nascimentos, porque planetas hão-de estar em cima, mas os Josés
quando morreram à vida temporal, nasceram à debaixo da terra.
vida eterna. Não assim S. José. Como não estava
ainda aberta a porta do Céu, quando S. José Grande advertência de Filo. Pode-se duvidar a
morreu, não foi o Santo no dia de sua morte à razão porque José se mostrou tão benigno, e fez
glória, senão ao Limbo. Ao Limbo S. José neste tantos favores e mercês a seus irmãos, de quem
dia? Valha-me Deus; que duvidoso horóscopo! recebera tantos agravos. Digo que se pode
Não sei eu como poderei provar o que entrei duvidar; porque bem mostraram os primeiros
dizendo que não se podia nascer com melhor dois irmãos, Caim e Abel, que não basta a razão
planeta. Dizem os matemáticos, que nascer com de irmandade para abrandar corações. E se um
os planetas debaixo da Terra, é prognóstico de irmão respeitado mata; um irmão ofendido, que
infelicidades. Pois se S. José neste dia seu o fará? Pois se José estava tão ofendido de seus
temos todo debaixo da terra, o corpo na irmãos, como se mostrou tão benigno e liberal
sepultura, a alma no Limbo; que influências com eles? A razão, disse Filo, que foi por umas
podemos esperar deste planeta em tão funesto palavras que disseram a José os irmãos. Quando
sítio? Ora digo que é felicíssimo auspício ter lhe deram conta de si, disseram que eram doze;
neste nascimento a S. José debaixo da terra; os dez que ali estavam, um que ficara com o pai,
porque ainda que os planetas debaixo da Terra e outro que morrera, que era o mesmo José. As
tenham perigosas influências, tiram-se por palavras foram estas: Duodecim fratres sumus:
excepção os planetas que são Josés: os planetas minimus cum patre nostro est, alius non est
que são Josés, para influírem felizmente, hão-de super [“Somos doze irmãos: o mais novo está
estar debaixo da Terra. agora com o nosso pai e há um que não mais
existe”; Génesis 42, 13]. O menor de todos,
Estava o patriarca José em Egipto: morreu, e diz Benjamim, ficou com o pai; o outro, que era
o Texto sagrado, que depois de sua morte, José,Non est super, já não está em cima, está
cresceram muito os israelitas em número e debaixo da terra. Já está debaixo da terra José?
poder: Quo mortuo, creverunt filii Israel quasi Por isso se mostrou tão benigno, e liberal com os
germinantes multiplicati shunt, ac roborati nimis, irmãos, diz Filo: Alius non est super, de se
impleverunt terram [Os filhos de Israel foram loquentes audiens, quid animi habere
fecundos e se multiplicaram; tornaram-se cada potuit? Ouvindo dizer José que já não estava em
vez mais numerosos e poderosos, a tal ponto cima, senão que estava debaixo da terra, que
que o país ficou repleto deles. Êxodo 1, 6-7.] Que outra coisa pode fazer senão amar, favorecer, e
os filhos de Israel crescessem pelos influir beneficamente liberalidades? Os outros
merecimentos de José, não me admira; antes planetas, para influírem benignamente, hão-de
assim havia de ser, que isso quer dizer José, estar em cima; mas José, quando não está em
aumento e crescimento: Joseph accrescens. O cima, senão debaixo da terra, como hoje assim
que me admira é que crescessem os Israelitas tem o hebreu: Hodie non est super no dia em
que não está em cima, senão debaixo da terra, porque convinha, e tinha ordenado a Divina
então influi vida, mercês, felicidades, e Providência, que estivesse encoberto a todos,
aumentos. como com efeito se encobriu no desposório, ou
matrimónio da Virgem Santíssima com S. José,
III. Temos visto o nascimento real de João o parecendo que não tinha mais mistério a
Amado, e o sítio do Planeta, em que nasce conceição, e nascimento daquele Filho, que o
debaixo da terra, no mesmo, ou semelhante dia; comum e ordinário dos outros homens.
e porque os dias, como diz David, também se
falam e se entendem uns com os outros: Dies Que semelhança tem agora, ou que propriedade
diei eructat verbum [“o dia entrega a mensagem em S. José a providência de Deus neste mistério
a outro dia”; Salmo 18, 3.]; com razão com o nascimento de Sua Majestade, que Deus
perguntará o dia do nascimento de Sua guarde, no dia do mesmo Santo? Disse-o
Majestade ao dia, em que nasce, de S. José, que Ruperto com umas palavras, que se lhe
influências pode ou deve esperar de tão divino pedíramos as fizesse de encomenda, não vieram
Planeta. A resposta não é como a dos mais nascidas ao intento:Ut esse Sponsus,
matemáticos, duvidosa e incerta; mas tão certa custosque Beatae Virginis, ac nati ex ea Regis.
e sem dúvida, como tudo o que dizem os Desposa-se José com Maria, e nomeadamente
evangelistas. Vamos ao nosso Evangelho, que é com Maria Mãe de Jesus, porque o fim destes
de S. Mateus, no capítulo primeiro, e ouçamos desposórios foi ser José Esposo da Virgem, e
com admirável propriedade o que diz, como se guarda do Rei nascido: Custos nati Regis. Oh
falara deste dia, e do nosso caso: Cum esset grande excelência! Oh grande glória! Oh
desponsata Mater Jesu Maria Joseph. Estava, diz, dignidade superior a todos os santos a de José!
a Mãe de Jesus, Maria, desposada com José. Que os foros da mesma omnipotência nasçam
Onde se deve advertir, que a palavra desposada debaixo de seu amparo, e que não tendo Cristo
não significa promessa recíproca de bodas Anjo da Guarda, porque é Deus, tenha por
futuras, senão verdadeiro e actual matrimónio Custódio um homem, que é S. José: Custus nati
por contrato, e palavras de presente, como Regis! Grande glória de José, e grande graça
consta do mesmo Texto: Noli timere accipere também do nosso rei, e reino! Que o amasse
Mariam conjugem tuam: [“não temas receber Deus, e cuidasse do seu remédio com tão
Maria, tua mulher”; Mateus 1, 20.] mas a especial providência, que o patrocínio que deu
cortesia do Evangelista não disse, casada, senão em seu nascimento ao Rei que havia de
desposada, como termo mais decente e restaurar o mundo, esse mesmo patrocínio desse
decoroso. O que suposto, era a Senhora já Mãe em seu nascimento ao rei que havia de restaurar
de Jesus, porque tinha concebido ao Verbo a Portugal! Um e outro nasceu debaixo da
Eterno; mas antes de Mãe, primeiro desposada. mesma protecção, um e outro nasceu debaixo
E porquê? Como era, e havia de ser sempre da tutela e amparo de S. José: Joseph custos nati
Virgem, tanto importava ser primeiro desposada, Regis.
como depois: porque razão logo ordenou a
Providência Divina, que não concebesse ao Filho Sendo pois estes dois reis nascidos ambos reis,
de Deus, senão depois de desposada: Cum esset ambos redentores, e ambos encobertos; o
desponsata Mater Jesu? A razão principal é primeiro, como diz a profecia de Isaías: Vere tu
porque convinha e era necessário que a es Deus absconditus, Deus Israel Salvator [“Tu
conceição e parto da mesma Virgem estivesse és um Deus que se esconde, ó Deus de Israel, o
encoberto: Ut virginues partus celaretur. Assim o Salvador”; Isaías 45, 15.][1]. O segundo
dizem S. Jerónimo, S. Basílio, S. João Damasceno, prometido pela profecia, e tradição de Santo
Santo Ambrósio, S. Bernardo, e é comum dos Isidoro a Espanha, não com outro nome, ou
santos padres. Constava da Sagrada Escritura antonomásia, senão a doEncoberto; vejamos
pelo oráculo e testemunho do profeta Isaías, que quão particularmente encobriu a um e outro, o
o Messias, e Rei prometido para Redentor do que a um e outro deu Deus por guarda o cuidado
mundo havia de nascer de uma Virgem: Ecce, e vigilância de S. José. A Cristo encobriu-o, como
Virgo concipiet et pariet Filium [“Eis que a jovem Esposo de Maria, nove meses e treze dias desde
concebeu e dará à luz um filho”; Isaías 7, 14.]. E sua conceição até depois de seu nascimento, em
porque este Rei não só na Terra, senão no que o descobriu a estrela no Oriente aos Magos,
mesmo Inferno, havia de ter muitos émulos e e os Magos em seguimento dela a toda Judeia. E
inimigos, esta era a importância, e necessidade como o encobriu? Spiritus Sanctus superveniet
in te, et virtus Altissimi obumbravit tibi [O anjo que vendo-o, o não viam, nem viram. É, certo
lhe respondeu: “O Espírito Santo virá sobre ti e o que assim foi, mas duvidoso, como podia ser.
poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua
sombra”; Lucas 1, 35.] A Virgem Senhora nossa No dia da Ressurreição ajuntou-se Cristo aos
tinha dois Esposos, um divino, outro humano. O dois discípulos que iam para Emaús, os quais,
Esposo divino era o Espírito Santo; o humano, S. em todo aquele caminho, O viam e ouviam, sem
José. Do primeiro Esposo era obra o Filho O conhecerem. Porventura transfigurou-se
concebido, como disse o Anjo à mesma Cristo, ou mudou as feições do rosto? Por
Virgem: Spiritus Sanctus superveniet in nenhum modo. Pois se eram seus discípulos,
te: acrescentando: Et virtus Altissimi obumbravit costumados a vê-l'O todos os dias, e agora O
tibi: que a virtude do Altíssimo lhe faria sombra. estavam vendo, e no seu rosto não havia
E que sombra foi esta, ou quem foi esta sombra? mudança, como O não conheciam? Responde o
Foi sem dúvida o segundo Esposo, a cuja sombra Evangelista: Oculi eorum tenebantur, ne eum
esteve a Virgem depois de desposada, e com a agnoscerent [“seus olhos, porém, estavam
sombra e nome de Pai, encobriu o que impedidos de reconhecê-lo”; Lucas 24, 16.] A
verdadeiramente não era seu Filho. Assim ficou o palavra tenebantur, melhor se pode entender, do
Rei, e Redentor, que havia de ser do mundo, que declarar na nossa língua: Tenebantur,
encoberto desde sua Encarnação nove meses estavam detidos: Tenebantur, estavam
até seu Nascimento, e treze dias, até que a presos: Tenebantur, estavam
estrela e os Magos, e Deus por eles o descobriu suspensos: Tenebantur, estavam em si, e fora de
ao mundo: Ubi est, qui natus est Rex Judaeorum? si, como extáticos os olhos que O viam, e não
[“Onde está o rei dos judeus recém-nascido?”; conheciam. Fazendo este milagre nos Discípulos
Mateus 2, 2.] a omnipotência de Cristo; e nos reis, que tanto
podiam temer, e acautelar-se do que hoje é
nosso, a mão invisível de S. José. Desde o
princípio em que se fizeram senhores de
Mas se S. José guardou encoberto a Cristo nove Portugal aqueles reis estranhos; Filipe II tinha
meses e treze dias; que comparação tem este diante dos olhos a senhora D. Catarina; Filipe III
tempo, que não chega a um ano, com mais de ao duque D. Teodósio; Filipe IV a Sua Majestade,
trinta e seis anos inteiros em que teve encoberto que finalmente lhe tirou da cabeça a coroa; e
ao rei encoberto de Portugal, desde o dia de seu vendo-os, não conheciam o que neles deviam
nascimento até o felicíssimo de sua restituição? recear e temer, cegando-os S. José com a
Vejo que me respondem, que S. José não só mesma luz de seus olhos; e cobrindo o seu e o
encobriu a Cristo naquele primeiro ano não nosso encoberto com o descobrir.
acabado, mas em outros, cujo número certo se
não sabe. Sabendo pelo Anjo que Herodes entre Assim desempenhou o grande santo a obrigação
os Inocentes de Belém, queria tirar a vida a que tinha de encobrir, e provar o nome de
Cristo, fugiu de Judeia para o Egipto, e depois da encoberto no novo rei, nascido no seu dia: mas
morte do mesmo Herodes, sabendo também por ainda lhe falta, ou nos falta uma maior
aviso do Céu, que reinava em Judeia Arque seu consideração e vigilância deste seu empenho. O
filho, retirou-se para Galileia. De sorte que para ódio, a emulação, a cautela, o receio de perder o
encobrir o primeiro Rei nascido, tomou por meio ganhado em Portugal, que tinham os reis
tirá-lo diante dos olhos dois reis seus inimigos, e estranhos, a grandeza do poder, e a doçura do
escondê-lo em terras estranhas. Porém para possuir, podia lisonjear e adormecer todo este
encobrir o segundo rei, não só no seu cuidado; mas da nossa parte, e em nós, os
nascimento, nem na sua infância, puerícia, ou Portugueses, além da dor do perdido, estava
adolescência, senão na idade de varão perfeito com os olhos abertos ao remédio o amor, o
em tantos anos, a traça com que o encobriu a desejo, e a necessidade. O amor ainda que é
outros dois reis, que não menos lhe podiam tirar cego para ver, é lince para adivinhar: o desejo é
a vida e a coroa, qual seria? Verdadeiramente um afecto sempre ardente e inquieto, que não
milagrosa, e digna da Omnipotência Divina. sabe sossegar um momento: sobretudo a
Dentro na mesma Espanha, dentro no mesmo necessidade da redenção, da liberdade, e de rei
Portugal, e diante dos olhos dos mesmos reis, natural, era a que mais apertava os cordéis a
escondeu e encobriu de maneira ao encoberto, este tormento, e tinha com a soga na garganta
todos estes afectos. E como podia ser, que
sendo eles tão vigilantes, e tendo sempre o IV. Certo que ponderar cabalmente esta
direito da coroa, e a pessoa do rei a quem felicidade, será causa de não faltar nunca
pertencia, diante dos olhos, de tal sorte a Portugal ao eterno agradecimento a S. José. Que
encobrisse S. José, que a ninguém viesse ao uma vida (não sejamos ingratos, por não saber o
pensamento ser ele o que o havia de recuperar"? que devemos a Deus), que uma vida, em que
Mas em encobrir o nosso encoberto neste estavam fundadas as consequências, que hoje
grande perigo de o declararem as evidências, ou se logram, apesar da emulação de dois reis,
conjecturas de algum destes afectos, mostrou o debaixo de sua mesma jurisdição se
Santo, quão alta e delicadamente observou as conservasse! Que nasça a décima sexta geração
obrigações do ofício de o guardar: Custos nati de Portugal tão esperada, e que sendo décima
Regis; equivocando milagrosamente um rei com sexta por três dias, nem o amor dos naturais,
outro rei, e encobrindo um vivo com outro morto. nem os ciúmes dos estranhos em trinta e sete
Perdeu-se, ou morreu na batalha de África el-rei anos o descobrisse! Vivo apesar de tantas
D. Sebastião, e puderam tanto as saudades de advertências políticas, encoberto, apesar de
um rei, que se tinha perdido a si e a nós, que tantas evidências manifestas! Grandes milagres
sem se divertirem aonde deviam, deram em da Providência Divina; e este segundo, a meu
esperar dele, e por sua vida e vinda, a nossa ver, ainda maior. E se não, pergunto: Qual foi a
redenção; e este foi o altíssimo conselho, com razão, porque ordenou Deus que o libertador que
que S. José, debaixo das cinzas do rei passado e havia de ser de Portugal, se conhecesse tantos
morto, conservou e teve encoberto o rei futuro e anos antes no mundo, não pelo nome de
vivo. Não vemos conservar-se vivo o fogo libertador, senão pelo nome de encoberto? A
debaixo das cinzas que o encobrem? Pois assim razão foi; porque maior milagre da Providência
conservou e encobriu S. José a vida de el-rei, que era conservá-lo encoberto, que fazê-lo libertador.
Deus guarde, debaixo das cinzas de el-rei D. Fazê-lo libertador, foi deliberarem-se os homens
Sebastião defunto. É o que diz expressamente a uma coisa muito útil; conservá-lo encoberto,
Isaías, no capítulo 61. Promete Deus ali de foi cegarem-se os homens a uma coisa muito
alegrar os tristes, de consolar os desconsolados, manifesta: e maior milagre é encobrir evidências
de libertar os cativos, e conclui, que pelas cinzas ao entendimento, que persuadir conveniências à
lhes dará a coroa: Ut mederer contritis corde: et vontade. O que todos ponderam, o que todos
praedicarem captivis indulgentiam: ut consolarer admiram, o de que todos fazem maior caso é,
omnes lugentes [Isaías 61, 1, 2 e 3.] e que se unissem, e concordassem as vontades de
finalmente: Et darem eis coronam pro todo um reino, para fazer o que fizeram. Muito
cinere. Assim estava Portugal triste, assim foi; mas bem considerado, não foi muito; porque,
estava desconsolado, assim estava cativo, e que muito que as vontades dos homens se
assim lhe prometia S. José a coroa perdida persuadissem a uma coisa tão útil, e tão
debaixo das cinzas do rei morto reputado por honrosa, como ter reino, ter rei, ter liberdade,
vivo; e assim conservava vivo e encoberto viver sem cativeiro e sem opressão? Porém que
aquele que verdadeiramente havia de restituir o autor felicíssimo de todo este bem nascesse e
aos tristes, desconsolados e cativos a coroa vivesse entre nós tão retratado pelos oráculos
perdida. De maneira que encoberta a verdade divinos, e ainda nomeado pelo próprio nome, e o
debaixo do engano, a esperança, debaixo da tivesse Deus encoberto, sem que o amor, nem a
desesperação, a vida debaixo da morte, e a emulação, que são os dois afectos mais linces, o
coroa debaixo das cinzas, aos príncipes descobrissem! Que o vissem os olhos, e que
estranhos, que tudo isto tinham por riso, não guardasse segredo o entendimento! Que
lhes dava cuidado o remédio; e os vassalos, suspirassem os desejos, e que não bastassem as
amigos e naturais, que o tinham, pouco menos, maiores advertências! Dissimulado a evidências,
quase por fé, com milagrosa providência, e encoberto a olhos vistos! Este é o maior
enganada a sua dor, o seu amor, o seu desejo, e milagre, esta a maior maravilha, mas agora
a sua necessidade, se consolavam e animavam exercitada, e muitos séculos antes já ensaiada:
da falsa e equivocada esperança até que a por quem? Pelo autor da mesma protecção, S.
verdadeira, debaixo dela encoberta, ao tempo José.
destinado pelo Céu, lhe trouxe a felicidade que
hoje logramos. Conta o Texto sagrado no quarto Livro dos Reis,
capítulo onze, que em uma ocasião quiseram
tirar a vida tiranicamente os herdeiros do sangue
real de Israel ao menino Joás; porém que Josabá que apareceu a Moisés na sarça, é ser libertador
o livrou do perigo, e o criou do povo oprimido do poder de um rei estranho, e
escondidamente: Abscondit eum, ut non esta bênção se cumpriu em José, Esposo da
interficeretur até que passados alguns anos, os Virgem; digam-me agora, os historiadores,
nobres do povo se uniram, e todos com as armas quando se cumpriu esta bênção, senão na
nas mãos entraram no paço real, e impedindo as restauração de Portugal. Viu o Santo as aflições
guardas em um sábado, aclamaram por rei a deste povo verdadeiramente seu; e desceu do
Joás, e o meteram de posse do reino, que lhe Céu a libertá-lo, guardando com particular
pertencia, lançando do paço a Atalia, uma providência a vida do nosso felicíssimo
senhora que então governava. Desta maneira libertador, como fez à de Cristo, segundo a
refere o Texto este caso, e bem se vê, que é tão protecção que tomou em um e outro
próprio do que sucedeu em Portugal, que se ao nascimento: Custos nati Regis, que foi o fim com
nome de Joás se mudara o s, em m, se pudera que se desposou com a Virgem:Cum esset
trasladar este capítulo, e escrever-se em nossas desponsata Mater Jesu Maria Joseph.
crónicas. Bem está: mas quem fez isto? A quem
se deve esta façanha! Quem há-de levar a glória V. Tenho acabado o sermão; de todo ele quisera
desta maravilha? Quem? S. José. Diz Isidoro tirar somente uma coisa, queira o Senhor que
Isolano que Josabá, a cuja indústria deve sua seja tão bem recebida nos ânimos de todos,
vida e restituição Joás, foi figura de S. José, como é a todos necessária e importantíssima. O
Esposo da Virgem Joseph profecto in Josaba que concluo de todo este discurso é, que deve o
praefiguratus est, quae Joas Infantem clam reino de Portugal tomar solenemente a S.
nutrivit, et aluit, ao regem Israel tandem José por particular advogado, e protector
constituit. Hei-de construir as palavras ao pé da de sua conservação e aumentos. A razão que
letra, para maior glória de S. José, e maior tenho para isto, é a mais eficaz, que pode ser:
evidência do nosso caso. Joseph profecto in querer Deus que seja assim, nem nós devemos
Josaba praefiguratas est. Verdadeiramente S. querer outra coisa. Sonhou el-rei Faraó que
José foi figurado em Josabá: Quae Joas infantem haviam de vir a seu reino aqueles catorze anos
clam nutrivit, et aluit: que guardou ao infante de vária fortuna, e dizendo-lhe que importava
Joás vivo e encoberto: Ac regem Israel tandem prevenir-se de algum varão de grande
constituit: e finalmente o fez rei de Israel, prudência, que superintendesse à conservação e
metendo-o de posse do reino, que lhe tocava. E remédio do reino, Placuit Pharaoni consilium [O
não é isto mesmo, o que fez S. José com o rei e conselho agradou ao Faraó» Génesis 41,
reino de Portugal? Nem o caso pode ser mais 37], contentou o conselho ao rei, e voltando-se
próprio; nem eu quero dizer mais nesta matéria. para José, disse: Nunquid sapientiorem, et
consimilem tui invenire potero ? [“não há
Estas são as obrigações em que S. José tem ninguém tão inteligente e sábio como tu”;
empenhado a Vossa Majestade, Senhor; e as Génesis 41, 39.] Porventura, José, posso eu
consequências delas são, que assim como S. achar algum que seja mais sábio, mais prudente,
José não só foi Salvador do Salvador, senão e em cujas mãos e conselho esteja mais segura
também do mundo; assim não foi só Salvador do minha monarquia? O ceptro e a coroa ponho
nosso Libertador, senão também do Reino debaixo do vosso patrocínio, mandai, ordenai,
libertado. Espero em Deus que o hei-de provar despendei, não como vassalo, mas como pai. O
literalmente. Benedictio illius, qui apparuit in mesmo digo no nosso caso.
rubo, veniat super caput Joseph [Deuteronómio
33, 16.] A bênção daquele que apareceu na Isidoro de Isolano já acima alegado, autor, que
sarça, desça sobre José. Esta bênção foi lançada há muitos anos que escreveu, admirando-se
ao patriarca José, e diz o Pelusiota e outros, que muito de que em seu tempo não fosse celebrado
se cumpriu em S. José, Esposo da Virgem. E qual na Igreja o glorioso S. José, conclui
foi a bênção daquele, que apareceu na sarça a assim: Suscitabit Dominus sanctum Joseph ad
Moisés? Ele mesmo o disse: Vidi afflictionem honorem nominis sui, caput, et patronum
populi mei, et descendi ut liberem eum [“eu vi, peculiarem imperii militantis Ecclesiae.Esteja
eu vi a miséria do meu povo, por isso desci a fim embora esquecido por agora S. José, e não seja
de libertá-lo” Êxodo 3, 7 e 8.] Vi a aflição do meu sua memória tão celebrada como merece; que
povo debaixo do poder de um rei estranho, e Deus levantará este grande santo a seu tempo,
desci do Céu a libertá-lo. Pois se a bênção do para que seja particular padroeiro do seu império
na Igreja militante: Patronum peculiarem imperii
militantis Ecclesiae. Duas coisas havemos de
saber para entendimento destas palavras: uma,
quando se começou a celebrar S. José; outra,
qual é no mundo o império de Cristo. O tempo
em que se começou a celebrar S. José, foi
pontualmente depois da perda de el-rei D.
Sebastião, de triste memória, e antes da
felicíssima restituição à coroa de el-rei D. João
nosso senhor; para que posto entre a ruína do
Reino, e o remédio: compadecido da ruína, a
remediasse. E o império de Cristo qual é? O
mesmo Senhor foi servido de no-lo explicar,
quando disse a nosso fundador, o senhor rei D.
Afonso Henriques: Volo in te, et in semine tuo
imperium mihi stabilire. Quero em vós, e em
vossa descendência estabelecer o meu império.
Pois se Deus levanta no mundo a S. José, quando
quer levantar a Sua Majestade por rei: se o
império de Cristo na Igreja militante somos nós;
e S. José há-de ser particular padroeiro deste
império: que resta, senão que efectivamente se
conclua de nossa parte, que é o constituir e
reconhecer com pública solenidade a S. José por
protector particular do reino de Portugal, e sua
conservação; dizendo a este José, o que os
Egípcios disseram ao outro: Salus nostra in
manu tua est, respiciat nos tantum Dominus
noster, et laeti serviemus regi [“Tu nos salvaste
a vida! Achemos graça aos olhos de meu senhor
e seremos os servos do Faraó.”; Génesis 47,
25]?

Gosto · · Partilhar