Você está na página 1de 49

METODOLOGIA DA PESQUISA

E ESTATÍSTICA ELEMENTAR
AUTORA: FABIANA LUCI DE OLIVEIRA

GRADUAÇÃO
2011.1
Sumário
Metodologia da Pesquisa e Estatística Elementar

UNIDADE 1 ........................................................................................................................................................ 8
Ciência e Método Científico .......................................................................................................... 8

UNIDADE 2 ...................................................................................................................................................... 16
Pesquisa Empírica — Método e Técnicas ..................................................................................... 16

UNIDADE 3 ...................................................................................................................................................... 31
Análise de Dados e Estatística ...................................................................................................... 31

ANEXO 1. AS RELAÇÕES ENGANOSAS ...................................................................................................................... 39

ANEXO 2. O USO DE ESTATÍSTICAS E MATEMÁTICA NOS TRIBUNAIS ................................................................................ 42

UNIDADE 4 ...................................................................................................................................................... 45
METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

I. APRESENTAÇÃO DO CURSO

O curso de Metodologia de Pesquisa é uma introdução à linguagem científica e


acadêmica, e às bases metodológicas da pesquisa em ciências humanas e sociais, entre
as quais está o Direito.
E o que é pesquisa? Numa acepção simples, pesquisa é a busca por respostas para
perguntas propostas. Segundo Gil (1999)1, o ser humano valendo-se de suas capaci-
dades e dos seus sentidos sempre procurou conhecer o mundo, a natureza das coisas
e o comportamento das pessoas. E para isso ao longo dos séculos vem desenvolvendo
sistemas mais ou menos elaborados que o permitam atingir esse objetivo.
Mas tanto os questionamentos levantados quanto o caminho para se responder às
indagações propostas devem ser sistemáticos para produzir conhecimento científico.
A pesquisa se constitui, portanto, em uma forma de produção de conhecimento
científico. A partir da percepção de um problema teórico ou prático, o pesquisador
parte para a busca por conhecimento já produzido relacionado a este problema e sua
sistematização, levantando questões e formulando hipóteses a serem testadas, faz obser-
vações e coleta dados, para então tirar conclusões e produzir conhecimento novo.
O curso objetiva justamente o desenvolvimento das competências essenciais para o
processo de pesquisa e produção de conhecimento, não se reduzindo apenas às habili-
dades de interpretação, escrita e apresentação de trabalhos acadêmicos.
Ao aprendizado destas competências chamaremos “treinamento em metodologia de
pesquisa”. A metodologia de pesquisa implica conhecimentos e habilidades necessários
ao pesquisador para a orientação do processo de planejamento e construção do pro-
blema, investigação, seleção de conceitos, hipóteses, técnicas de coleta e observação de
dados adequados.
A pesquisa baseia-se em um método. O método é o caminho a ser seguido para
se atingir um determinado objetivo. A palavra “método” é de origem grega, methodos
(composta de “meta”, que significa “através de, por meio de”, e de “hodos”, que significa
caminho).
Método implica, assim, a ordenação de um caminho, a adoção de procedimentos e
técnicas de forma racional e sistemática. As técnicas de pesquisa proporcionam formas
adequadas de coletar e tratar os dados — isto é a operacionalização.
Na definição do filósofo René Descartes O método são regras precisas e fáceis, a partir
da observação exata das quais se terá certeza de nunca tomar um erro por verdade, e, sem
aí desperdiçar inutilmente as forças de sua mente, mas ampliando seu saber por meio de um
contínuo progresso, chegar ao conhecimento verdadeiro de tudo do que se é capaz 2.
Neste curso focaremos: compreensão, interpretação, desenho, planejamento e im-
plementação de pesquisas empíricas e também algumas técnicas de análise, abordando
conceitos básicos de estatística.
O curso não vai ensinar tudo o que o aluno precisa saber, mas vai sim prepará-lo 1
GIL, Antonio Carlos (1999). Métodos e
Técnicas de Pesquisa Social. São Paulo:
para saber como aprender a identificar e decifrar o que precisará saber. Editora Atlas.
É importante ressaltar que existe uma diferença entre a prática profissional e a pes- 2
Citação extraída da obra “O Discurso
do Método”, publicada em 1637 — ver
quisa acadêmica. E que no transcorrer da formação em Direito o aluno será exposto a DESCARTES — Coleção “Os Pensado-
estas lógicas distintas. res”, Editora Nova Cultural, 2004.

FGV DIREITO RIO 3


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

Segundo o sociólogo Eliot Freidson (1998)3, nas diversas profissões há uma distin-
ção entre os membros a partir das atividades por eles desenvolvidas. As profissões, assim,
se diferenciariam internamente em administradores (que determinam como e onde os
praticantes podem atuar — no caso das profissões do direito temos a OAB), pratican-
tes (que divulgam a profissão, se relacionando diretamente com os clientes — juízes,
promotores, advogados, etc.) e acadêmicos (que produzem o conhecimento abstrato e
formal no qual a profissão se apóia — juristas, professores).
Muitas vezes um mesmo profissional faz parte de mais de um destes grupos, poden-
do mesmo ser administrador, praticante e acadêmico ao mesmo tempo. Neste curso
trataremos da linguagem, dos métodos e das técnicas utilizadas por acadêmicos.
A diferença entre o advogado praticante e o acadêmico é que o advogado pratican-
te busca defender uma causa ou tese, ele é o “advogado da hipótese”. Já o advogado
acadêmico busca testar uma hipótese — e testar implica em que tal hipótese possa ser
comprovada ou derrubada. Nas palavras de Lee Epstein e Gary King4 (2002),

Enquanto um acadêmico é ensinado a submeter a sua hipótese a todos os testes


e fonte de dados possíveis, buscando todas as provas e evidências possíveis contra sua
teoria, um advogado praticante é ensinado a acumular todas as provas para compro-
var a sua hipótese e desviar a atenção de qualquer coisa que possa ser vista como uma
informação contraditória. Um advogado que trata um cliente como uma hipótese se-
ria expulso, um acadêmico que defende uma hipótese como um cliente seria ignorado.
(Epstein and King, 2002: 9-10)

O compromisso do advogado pesquisador é com a descoberta e a verdade. O com-


promisso do advogado praticante é com o seu cliente. Nas palavras do pesquisador
Marcos Nobre5 (2003),

“O advogado (ou o estagiário ou estudante de direito) faz uma sistematização


da doutrina, jurisprudência e legislação existentes e seleciona, segundo a estratégia
advocatícia definida, os argumentos que possam ser mais úteis à construção da tese
jurídica (ou à elaboração de um contrato complexo) para uma possível solução do
caso (ou para tornar efetiva e o mais segura possível a realização de um negócio).
(...) No caso do parecer, o jurista se posiciona como defensor de uma tese “sem in-
teresse ou qualquer influência” da estratégia advocatícia definida. Assim, a escolha
dos argumentos constantes da doutrina e da jurisprudência, combinada com a in- 3
FREIDSON, Eliot. (1996). O Renasci-
mento do Profissionalismo. São Paulo:
terpretação da legislação, seria feita, por assim dizer, “por convicção”. Ocorre que, Edusp.
mesmo concedendo-se que o animus seja diverso, a lógica que preside a construção 4
EPSTEIN, Lee & Gary King (2002).
“The Rules of Inference”. University of
da peça é a mesma. O parecer recolhe o material jurisprudencial e doutrinário e os Chicago Law Review. 69 (1): 1-133.
devidos títulos legais unicamente em função da tese a ser defendida: não recolhe todo Disponível em http://epstein.law.
northwestern.edu/research/rules.pdf
o material disponível, mas tão-só a porção dele que vem ao encontro da tese a ser (acesso em 03/01/2011)
defendida. O parecer não procura, no conjunto do material disponível, um padrão 5
NOBRE, Marcos (2003). Apontamentos
sobre a pesquisa em Direito no Brasil.
de racionalidade e inteligibilidade para, só então, formular uma tese explicativa, o Novos Estudos Cebrap. São Paulo, jul.,
que seria talvez o padrão e o objetivo de uma investigação acadêmica no âmbito do p.145-154, p. 06

FGV DIREITO RIO 4


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

direito. Dessa forma, no caso paradigmático e modelar do parecer, a resposta vem de


antemão: está posta previamente à investigação. (Nobre, 2003: 2)

O advogado que tem como causa questionar a constitucionalidade de uma determi-


nada política pública, por exemplo, apresentará em sua petição apenas decisões favorá-
veis a sua causa, ou seja, citará apenas a jurisprudência que seja no sentido de corroborar
a sua posição. O advogado escrevendo um trabalho acadêmico, por sua vez, deve sope-
sar as diversas posições, contrárias e favoráveis a sua tese6.
Feita a distinção entre academia e prática, outra delimitação se faz necessária. Karl
Larenz7 (1991) afirma que cada ciência lança mão de determinados métodos e técnicas
com a finalidade de obter as repostas às questões por ela suscitadas. O Direito, que
busca soluções para questões jurídicas dentro de um ordenamento jurídico específico e
historicamente constituído teria a jurisprudência como método por excelência.
No curso não falaremos em pesquisa de jurisprudência, de doutrina, hermenêutica, re-
construção dogmática, etc. Focaremos antes em métodos e técnicas de pesquisa empírica.
Por pesquisa empírica entende-se aqui a investigação que se baseia em observações sobre
o mundo, em dados e fatos (Epstein and King, 2002). Sendo que dados não são necessa-
riamente quantitativos (ou seja, numéricos), podendo assumir também a forma qualitativa.
É importante termos em mente também que o dado não fala por si só, mas sim
através de teoria. O papel da teoria é central. É a partir dela que se constrói a questão a
ser pesquisada — o problema de pesquisa — e fornece também pistas para a construção
das hipóteses a serem testadas.

II. ESTRUTURA DO CURSO

O curso está estruturado em quatro unidades. Em cada unidade teremos como exi-
gência a leitura da bibliografia obrigatória indicada, e a sugestão de leitura de uma
bibliografia complementar (para os alunos que queiram se aprofundar no assunto).
Esta apostila é apenas um apoio ao conteúdo do curso, servindo como um guia para
os estudos — sendo essencial a leitura dos textos obrigatórios indicados.
No curso estão previstas 20 aulas em sala (incluindo aulas expositivas, discussão em
grupo e seminários) e 10 aulas em laboratório (realização de exercícios práticos).
Além das aulas, leituras e exercícios, o curso prevê a realização de uma pesquisa em-
pírica e a apresentação dos resultados da pesquisa no formato de relatório a ser entregue
ao final do curso.
A distribuição das aulas poderá variar de acordo com o andamento e rendimento
do curso.
As quatro unidades estão estruturadas da seguinte maneira: 6
Ver OLIVEIRA, Luciano (2004), “Não
Fale do Código de Hamurabi”. In: Sua
Excelência o Comissário e outros en-
1) Ciência e Método Científico saios de sociologia jurídica. Rio de
Janeiro, Letra Legal
Nesta unidade discutiremos a linguagem científica, a definição de ciên-
7
LARENZ, Karl (1991). Metodologia
cia e do método científico. Trabalharemos os métodos de abordagem da da Ciência do Direito. Lisboa, Fundação
investigação científica (dialético, fenomenológico, dedutivo, indutivo e Calouste Gulbenkian.

FGV DIREITO RIO 5


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

hipotético-dedutivo). O direito como ciência, a neutralidade científica e a


crise do paradigma científico na visão do autor Boaventura Sousa Santos.
A unidade se encerra com a discussão crítica do filme “E a vida continua”.
(Estão previstas quatro aulas na unidade)

2) Pesquisa Empírica — Método e Técnicas


Nesta unidade discutiremos os fundamentos da pesquisa empírica em ci-
ências humanas e sociais. Trabalharemos os tipos de pesquisa (de acordo
com a forma de abordagem do problema, os objetivos e procedimentos
técnicos adotados). Conceitos e variáveis. A elaboração de um problema
de pesquisa, o planejamento da pesquisa, a construção dos instrumentos
de coleta de dados e a coleta em si (campo). Como o foco principal do
curso será na pesquisa quantitativa, trabalharemos os aspectos essenciais
e os principais elementos na condução deste tipo de pesquisa, incluindo
noções básicas de amostragem. A unidade se encerra com o planejamen-
to da pesquisa a ser conduzida pelos alunos: a) definição do problema;
b) definição dos objetivos; c) identificação da população e amostra; d)
elaboração do instrumento de coleta de dados; e) planejamento e coleta
(realização do campo).
(Estão previstas oito aulas na unidade)

3) Análise de Dados Quantitativos e Estatística


Nesta unidade trabalharemos com noções introdutórias de estatística,
focando na descrição e exploração de dados. O foco será em distribuição
de freqüência, organização e apresentação dos dados (tabelas e gráficos),
medidas de posição (média, mediana e moda), medidas de dispersão
(amplitude, desvio padrão e variância) e medidas de associação (corre-
lação). A unidade se encerra a partir da tabulação e análise dos dados
coletados pelos alunos na pesquisa de campo realizada na unidade dois.
(Estão previstas cinco aulas na unidade)

4) Comunicação Acadêmica
Por fim, na última unidade do curso trabalharemos a comunicação es-
crita dos resultados de pesquisas empíricas e a forma de estruturar um
relatório de pesquisa. A unidade se encerra com a apresentação do re-
latório da pesquisa conduzida na unidade dois e da análise de dados
conduzida na unidade três.
(Estão previstas três aulas na unidade)

FGV DIREITO RIO 6


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

III. FORMAS DE AVALIAÇÃO

A avaliação será feita a partir da leitura dos textos, da presença e participação em sala
de aula (1/3 da nota), da entrega dos trabalhos ao final das unidades 1 e 2 (1/3 da nota)
e da entrega do trabalho final (1/3 da nota).

O trabalho final será baseado na realização de um exercício de pesquisa empírica.


O exercício consistirá na definição de um problema de pesquisa, na construção do ins-
trumento de coleta de dados, na coleta e análise de dados e na redação do relatório de
pesquisa — o detalhamento do exercício será dado nas unidades dois e três do curso.

FGV DIREITO RIO 7


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

UNIDADE 1

CIÊNCIA E MÉTODO CIENTÍFICO

O começo de todas as ciências é o espanto de as coisas serem o que são.


Aristóteles, “Metafísica”

A crença, ou o valor subjetivo do juízo, com relação à convicção (que tem ao


mesmo tempo um valor objetivo), apresenta os três graus seguintes: a opinião, a fé
e a ciência. A opinião é uma crença que tem consciência de ser insuficiente tanto
subjetiva quanto objetivamente. Se a crença é apenas subjetivamente suficiente e se
é ao mesmo tempo considerada objetivamente insuficiente, chama-se fé. Enfim, a
crença suficiente tanto subjetiva quanto objetivamente chama-se ciência.
Emmanuel Kant, “Crítica da Razão Pura”

BIBLIOGRAFIA OBRIGATÓRIA

1) LAKATOS, Eva Maria; MARCONI Marina de Andrade (1997). Metodolo-


gia Científica: Ciência e Conhecimento Científico. São Paulo: Atlas — capí-
tulo 3: Ciência e Conhecimento Científico

2) GIL, Antonio Carlos (1999). Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. São


Paulo: Editora Atlas — capítulo 2: Métodos das Ciências Sociais.

3) SANTOS, Boaventura Sousa (1988). Um Discurso sobre as Ciências. Porto:


Edições Afrontamento.

1. INTRODUÇÃO

O que é ciência e o que é o método científico? Iniciamos refletindo sobre a colocação


feita por Earl Babbie8 (1999)

Basicamente, toda ciência pretende entender o mundo ao redor. Três componen-


tes principais constituem esta atividade: descrição, a descoberta de regularidades e
a formulação de teorias e leis. Primeiro, cientistas observam e descrevem objetos
e eventos que aparecem no mundo. Isto pode envolver a medição da velocidade de
um objeto que cai, o comprimento de onda de emissões de uma estrela distante ou
a massa de uma partícula subatômica. Tais descrições são guiadas pelos objetivos
da exatidão e da utilidade. Segundo, cientistas procuram descobrir regularidades e 8
BABBIE, Earl (1999). Métodos de
ordem no caos por vezes alucinante e estonteante da experiência. Em parte, isto pode Pesquisas de Survey. Belo Horizonte:
Ed. UFMG.

FGV DIREITO RIO 8


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

envolver a coincidência ou correlação de certas características ou eventos. Assim, por


exemplo, você pode notar que pressão atmosférica se correlaciona com altitude ou que
a aplicação de força a um objeto resulta na modificação de sua velocidade. Terceiro,
cientistas tentam formalizar e generalizar as regularidades descobertas em teorias e
leis. São exemplos disto a lei da gravidade de Newton e as teorias gerais e especiais da
relatividade de Einstein. Teorias e leis são, em geral, enunciados lógicos de relações
entre características e eventos que oferecem explicações para uma ampla faixa de
ocorrências empíricas. (Babbie, 1999: 30)

A partir desta colocação podemos perceber que a ciência é antes de mais nada uma
forma de conhecimento.
Existem diversos tipos de conhecimento, sendo os mais comuns o conhecimento
popular (vulgar, ou senso comum), o conhecimento religioso (teológico), o conheci-
mento filosófico e o conhecimento científico.
O conhecimento popular é aquele que vem da experiência do dia-a-dia, da vida
cotidiana, não metódico e que é transmitido de geração em geração.
A religião, por sua vez, é um conhecimento doutrinário, contendo proposições sa-
gradas não passíveis de verificação nem falseabilidade. Assim, apresenta princípios e
verdades indiscutíveis.
O conhecimento filosófico também apresenta verdades e proposições que não são
passíveis de verificação, mas não por serem sagradas e sim por não serem possíveis de
se observar.
Já o conhecimento científico é aquele obtido de mediante a aplicação de procedi-
mentos sistemáticos e rigorosos (métodos e técnicas).
A ciência, como todo tipo de conhecimento, não é una — não existe uma definição
consensual sobre a ciência e o método científico.
Para Karl Popper9 (1959), por exemplo, a ciência é o conhecimento que pode ser
falseado. A ciência progride de maneira contínua, a partir de aperfeiçoamentos que
vão sendo adicionados por sucessivos cientistas, e avança a partir do ensaio ao erro, às
conjecturas e refutações.
Thomas Kuhn10 (1962), outro historiador e filósofo da ciência, afirma que o pensa-
mento científico está em constante ebulição e não evolui de forma contínua havendo
sim saltos, revoluções. Kuhn desenvolve, assim, a idéia de ruptura de paradigmas cien-
tíficos.
De acordo com Lakatos e Marconi11 (1997), em decorrência da complexidade dos
fenômenos do universo e da sociedade que os homens buscam entender e explicar, a
ciência acabou originando diversos segmentos de estudo. As ciências são divididas basi-
9
POPPER, Karl (1959). A Lógica da
camente em formais e factuais. Pesquisa Científica. São Paulo: Editora
As ciências formais estudam idéias, que não havendo relação com a realidade obser- Cultrix.

vável e desta forma não se valendo da realidade para convalidar suas fórmulas. 10
KUHN, Thomas (1962). A Estrutura
das Revoluções Científicas. São Paulo:
Editora Perspectiva.
11
LAKATOS, Eva Maria; MARCONI Ma-
rina de Andrade (1997). Metodologia
Científica: Ciência e Conhecimento
Científico. São Paulo: Atlas.

FGV DIREITO RIO 9


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

Lógica
Formais
Matemática

Ciências
Física

Naturais Química

Biologia, etc.
Factuais
Direito

Sociais Economia

Sociologia, etc.

Figura 1. Classificação e Divisão da Ciência. Fonte: Lakatos e Marconi (1997)

As ciências factuais por sua vez tratam dos fatos, recorrendo aos dados obtidos atra-
vés da observação e da experimentação para validar suas hipóteses.
O conhecimento científico se diferencia dos demais basicamente pelas técnicas e
processos sistemáticos utilizados tanto para formular quanto para resolver os problemas
propostos.
Apesar de não haver um método único, até mesmo por haver diversas ciências, existe
um ciclo comum de atividades, uma espécie de sequência de atos que orientam o mé-
todo científico.
George Kneller12 (1980) apresenta em seu “A Ciência como Atividade Humana”
uma história de um problema prático que para ser resolvido seguiu a estrutura do pen-
samento científico. O problema a seguir exemplifica bem uma sequência de atos que
orientam uma pesquisa científica.

Numa certa cidade, foi construída uma nova estrada, e a taxa de acidentes re-
gistrou uma subida extraordinária. Houve protestos públicos e seguiu-se uma inves-
tigação. Os investigadores começaram com a hipótese mais óbvia: a de que a nova
estrada aumentou o tráfego, o que, por seu turno, aumentou o número de acidentes.
Mas verificaram que os acidentes tinham crescido de forma desproporcional. Conjec-
turaram então que numa nova estrada os motoristas são mais descuidados. Mas as
estatísticas referentes a outras estradas novas desmentiam essa hipótese. Admitiram,
portanto, que a causa era a velocidade. Entretanto, de acordo com os registros poli-
ciais, menos motoristas tinham sido multados do que o habitual. Estivera a polícia
menos ativa? Não, o mesmo número de agentes estivera prestando serviço. Então os
12
KNELLER, George. A Ciência como Ati-
investigadores notaram que a maioria dos acidentes tinha ocorrido em apenas três vidade Humana. Rio de Janeiro: Zahar
locais da estrada, pelo que recomendaram novas regras de trânsito para esses pontos. Editores.

FGV DIREITO RIO 10


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

Depois disso, o número de acidentes caiu muito abaixo da norma. O problema tinha
sido resolvido (Kneller, 1980: 99).

De forma bastante simplificada, a estrutura básica de pesquisa (a sequência de atos)


consiste em quatro passos: 1) identificar um problema, 2) levantar hipóteses para ex-
plicar este problema, 3) observar sistematicamente a realidade em busca de evidências,
dados e informações para verificar e validar a hipótese e 4) comunicar os resultados de
tal forma que a pesquisa possa ser replicada.
Ainda de acordo com kneller (1980), o pesquisador observa fatos e registra-os na
forma de dados. Essa observação é mais cuidadosa e meticulosamente do que a feita
pelo homem comum. O pesquisador procura pelo inesperado e não deixa passar desper-
cebidas as exceções. A observação científica caracteriza-se por ser sistemática (controla-
da por hipóteses), pormenorizada (uso de instrumentos) e variada (observa fenômeno
ou fato sob diversas condições).
Os fatos observados pelo pesquisador são coisas que acontecem, fenômenos, eventos,
estados. E estes fatos são representados simbolicamente como dados. Os dados devem
ser objetivos (ou seja, qualquer pesquisador executando as mesmas operações chegará
aos mesmos dados), idôneos (recebem descrição que qualquer pesquisador observando
o fato, pode aceitar) e precisos (devem descrever o fato de modo a diferenciá-lo o mais
possível de fatos semelhantes). A interpretação de fatos e dados é dada por conceitos.

2. MÉTODOS DE ABORDAGEM

Os principais métodos de abordagem que fornecem as bases lógicas à investigação


científica e que levam a formação de hipóteses são: indutivo, dedutivo, hipotético-de-
dutivo, dialético e fenomenológico (LAKATOS e MARCONI, 1997; GIL, 1999).
O método dialético é o método do diálogo, através do qual se busca a verdade
formulando-se perguntas e respostas, argumentos e contra-argumentos. No método
dialético proposto por Hegel há a apresentação de uma tese, a qual se contrapõe uma
antítese e do embate teórico entre as duas, chega-se a uma conclusão, ou uma síntese.

Tese Antítese Síntese


• Pretensão • Negação • Resultado
da verdade da tese do embate
apresentada entre tese e
antítese

Figura 2. Método dialético.


Fonte: elaborado com base em Demo (1995)

A dialética pressupõe que o mundo social é um conjunto de processos, em que nada


se encontra pronto, ou acabado, mas sim em processo de formação e transformação.

FGV DIREITO RIO 11


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

Nada neste mundo existe de forma isolada, fatos e fenômenos estão ligados entre si in-
teragindo, e a interação implica transformação. E a transformação no método dialético
se dá pela negação.
O método fenomenológico é o que se volta ao estudo dos fenômenos humanos, tais
como vivenciados e experimentados, considerando o que está imediatamente à frente
da consciência, o objeto. A realidade não é única: existem tantas quantas forem as suas
interpretações e comunicações. O sujeito/ator é reconhecidamente importante no pro-
cesso de construção do conhecimento (GIL, 1999).
O método dedutivo é o que parte do geral e vai para o particular. O raciocí-
nio dedutivo é o silogismo, que é composto de três partes: uma premissa maior (ou
seja, um enunciado geral), uma premissa menor (ou seja, um enunciado particu-
lar de aplicação individual) e uma conclusão que resulta dos enunciados anteriores.

Todo homem é mortal.


Pedro é mortal.
Logo, Pedro é homem.

Figura 3. Método dedutivo. Fonte: Gil (1999)

Popper (1959) fez diversas críticas ao método dedutivo, sendo as duas principais
delas a de que ele é tautológico (ele repete no predicado o que já disse no sujeito) e teria
um caráter apriorístico (ao partir de um enunciado geral implica que já se tenha um
conhecimento prévio).
Já o método indutivo é o inverso do dedutivo, ele parte do particular e vai para o geral.
O raciocínio indutivo baseia-se em premissas verdadeiras que levam à conclusões
prováveis. Por exemplo, o cisne 1 é branco. O cisne 2 é branco. O cisne 3 é branco. O
cisne n é branco. Logo, sou levado a concluir que todo cisme é branco. Ou seja, partir
da observação dos fatos faz-se uma generalização através da lógica.

Antônio é mortal.
Benedito é mortal.
Carlos é mortal.
Zózimo é mortal.
...
Ora, Antônio, Benedito, Carlos, Zózimo,
são homens.
Logo, todos os homens são mortais.

Figura 4. Método indutivo. Fonte: Gil (1999)

FGV DIREITO RIO 12


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

Popper (1959) também criticou o método indutivo, afirmando que ele leva a uma
regressão ao infinito, ou seja, para poder sustentar a afirmação de que todos os cisnes
são brancos seria preciso observar todo e qualquer cisne possível. Ao criticar os métodos
dedutivo e indutivo, Popper defende o método hipotético dedutivo.
O método hipotético-dedutivo foi definido por Popper como aquele que consiste
na construção de hipóteses que devem ser submetidas ao confronto com de fatos para
sua comprovação.
A sequência do método hipotético-dedutivo, segundo Popper (1959), parte de co-
nhecimento prévio (teorias existentes), a partir do qual se identifica uma lacuna, con-
tradição ou problema; propor uma solução para este problema no formato de hipótese;
testar a hipótese; analisar os resultados frente aos quais há duas situações: ou ocorreu
o esperado (hipótese corroborada) ou não ocorreu o esperado (hipótese refutada). Em
caso de refutação, volta-se a formular nova hipótese que explique satisfatoriamente o
problema inicial.

Figura 5. Método hipotético dedutivo.


Fonte: elaborado com base em Popper (1959), Demo13 (1995) e Gil (1999).

Para Popper a principal característica do conhecimento científico é sua testabilidade


e consequente falseabilidade e refutabilidade. Assim, para o autor os resultados científi-
cos são sempre provisórios.

13
DEMO, Pedro (1995). Metodologia
Científica em Ciências Sociais. São Pau-
lo: Editora Atlas.

FGV DIREITO RIO 13


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

3. DIREITO E CIÊNCIA

Discutimos até aqui o que é ciência e o que é o método científico, considerando que
este método foi pensado para e largamente utilizado pelas ciências naturais e formais.
Mas e no caso do Direito? Há uma discussão até mesmo sobre se podemos afirmar ser
o direito uma ciência ou não. Voltamos aqui para a questão posta inicialmente sobre a
dificuldade de definição consensual sobre a ciência e seu(s) método(s).
Lakatos e Marconi (1997) afirmam que todas as ciências caracterizam-se pela utiliza-
ção de métodos científicos, mas que em contrapartida, nem todos os ramos de estudos
que empregam esses métodos são ciências, concluindo daí que a utilização de métodos
científicos não é alçada exclusiva da ciência, mas que não pode haver ciência sem o em-
prego dos métodos científicos.
A ciência implica o critério de objetividade, de considerar, observar e descrever os
fenômenos como eles são e não como deveriam ser. A ciência implica, portanto, “neu-
tralidade axiológica”, afastando-se assim dos valores.
O direito como norma implicaria numa diretiva, descrevendo como os fenômenos de-
veriam ser. Daí muitos afirmarem que o Direito não pode ser considerado como ciência.
Há mesmo uma disputa e uma discussão epistemológica sobre os ramos de conheci-
mento que poderiam ou não ser ciência, com os mais “radicais” afirmando que apenas
as naturais e formais seriam ciências (as “hard sciences”). Excluindo-se, portanto, todas
as ciências sociais.
Nossa perspectiva neste curso é de que, se por ciência entendermos a busca e a pro-
dução de conhecimento a partir da observação, pesquisa e sistematização de fenômenos
e fatos do mundo social, a partir do emprego de um método, não há porque não se
considerar o direito como ciência.
Boaventura Sousa Santos, em “Um Discurso sobre as Ciências” (1988), discute a crise
dos paradigmas da ciência moderna. O autor expõe de forma bastante crítica esta ques-
tão, a partir de uma leitura sobre a forma como o pensamento científico se desenvolveu
e como nos séculos XVIII e XIX esse pensamento passou a influenciar as ciências sociais.

4. ENCERRAMENTO DA UNIDADE

Questão para discussão: A ciência é neutra? Existe neutralidade na pesquisa e na


produção de conhecimento?

Está fora de dúvida que a reflexão crítica sobre a metodologia da investigação


empírica e, em particular, sobre as continuidades e descontinuidades entre cânones
metodológicos e comportamento prático de pesquisa constitui um bom indício do
grau de maturidade alcançado por uma disciplina acadêmica. De fato, uma reflexão
de tal natureza evidentemente implica a fértil premissa de que a empresa científica
não se exaure ou não está totalmente contida na aplicação formal de princípios me-
todológicos e, em consequência, também na importante proposição de que a empresa
cientifica é ela mesma tão histórica quanto os objetos aos quais ela se aplica. Em

FGV DIREITO RIO 14


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

outras palavras, que a apropriação do objeto de pesquisa por parte do sujeito tem a
sua própria história, seus “eurekas” e “serendipities”. Existe ademais outra implicação
que é de particular relevância dentro do contexto atual, a saber, a consciência de
que o processo de criação científica também compartilha de uma dimensão estética:
existe na obra da ciência como na obra de arte um ingrediente de subjetividade, de
iniciativa individual, de interpretação original que não estão contidas a priori nas
fórmulas e nos procedimentos de método. Fora de dúvida está também que a necessi-
dade de refletir criticamente sobre as tensões e descontinuidades entre método formal
e investigação empírica deve-se em parte ao formalismo e mitificação do método pelos
quais o treinamento acadêmico é tão responsável. O divórcio ordinário entre teoria
e prática, divórcio dolorosamente experimentado pelo estudante, tem levado a uma
concepção do método como um conjunto de fórmulas cuja aplicação mecânica “abra-
cadabriza” os achados. (Fernando Uricoechea14, 1978: 201-202)

Discussão do Filme
“E a vida continua (And the band played on)” —
EUA. Dirigido por Roger Spottiswoode (1993).

O filme é quase um documentário, e é baseado no


livro “And the Band Played On: Politics, People, and the
AIDS Epidemic”, escrito por Randy Shilts. Retrata os
primeiros momentos da epidemia da AIDS a partir da
história de pesquisadores que buscam identificar a doen-
ça, a construção de hipóteses, a busca por evidências, as
disputas entre pesquisadores, a escassez de recursos, ques-
tões éticas e os diversos empecilhos no desenvolvimento
de pesquisas.

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

1. KUHN, Thomas (1979). “A função do dogma na investigação científica”.


In: DEUS, Jorge Dias de (org). A crítica da ciência: sociologia e ideologia da
ciência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

2. BOURDIEU, Pierre (1983). “O campo científico”. In: ORTIZ, Renato


(org). Sociologia. São Paulo: Ática.

14
Trecho extraído do texto “Coronéis e
Burocratas no Brasil Imperial: Crônica
Analítica de uma Síntese Histórica”. In:
Nunes, Edson Oliveira. (1978). A Aven-
tura Sociológica. Rio de Janeiro, Jorge
Zahar Ed.

FGV DIREITO RIO 15


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

UNIDADE 2

PESQUISA EMPÍRICA — MÉTODO E TÉCNICAS

Cada peça acrescentada a um mosaico contribui um pouco para a nossa com-


preensão do quadro como um todo. Quando muitas peças já foram colocadas, po-
demos ver, mais ou menos claramente, os objetos e as pessoas que estão no quadro,
e sua relação uns com os outros. Diferentes fragmentos contribuem diferentemente
para a nossa compreensão: alguns são úteis por sua cor, outros porque realçam os
contornos de um objeto. Nenhuma das peças tem uma função maior a cumprir...
Howard Becker, “A História de Vida e o Mosaico Científico”

BIBLIOGRAFIA OBRIGATÓRIA:

1) Rudio, Franz (1978). Introdução ao Projeto de Pesquisa Científica. Petrópo-


lis: Editora Vozes. Capítulo 1. O problema metodológico da pesquisa. Capítulo
2. Comunicação e conhecimento científico. Capítulo 3. A observação.

2) QUIVY, Raymond; CAMPENHOUDT, LucVan (1992). Manual de inves-


tigação em ciências sociais. Lisboa: Gradiva. Primeira Etapa (Páginas 27 a
44) e Terceira Etapa (Páginas 90 a 106).

3) RICHARDSON, R. J. (1985). Pesquisa social. Métodos e técnicas. São Pau-


lo: Atlas. Capítulo 7. Formulação de hipóteses e Capítulo 8. Variáveis.

4) BABBIE, Earl (1999). Métodos de Pesquisas de Survey. Belo Horizonte:


Ed. UFMG. Capítulo 3. Pesquisa de Survey como Método da Ciência Social e
Capítulo 4. Tipos de Desenhos de Pesquisas

5) GOODE, Willian J. & HATT, Paul K. (1996). Como construir um ques-


tionário. In: Métodos em pesquisa social. São Paulo: Companhia Editorial
Nacional.

6) BARBETTA, Pedro Alberto (2005). Estatística Aplicada às Ciências Sociais.


Florianópolis: Editora da UFSC. Capítulo 3. Técnicas de Amostragem.

FGV DIREITO RIO 16


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

1. PENSANDO A PESQUISA EMPÍRICA

Existem cinco pontos centrais quando falamos em pesquisa empírica.


O primeiro deles é o problema de pesquisa, ou seja, a definição da questão que a
pesquisa pretende responder. Mais especificamente, a definição do objetivo e do pro-
blema de pesquisa.
O problema de pesquisa pode ser formulado como pergunta para facilitar o desen-
volvimento da pesquisa. Esse procedimento facilita a identificação do que efetivamente
se deseja pesquisar.
Por exemplo, se estou interessado na no funcionamento do juizado especial cível, for-
mular este problema em forma de pergunta torna meu objetivo de pesquisa mais claro:

PERGUNTA: “Como funciona o juizado especial cível?”

Esta é uma pergunta genérica, ampla demais e sugere apenas um interesse descritivo.
E também a pergunta não apresenta recorte temporal e espacial — ou seja, de que
juizado especial cívil estou falando? E em que momento da história?
Um problema empírico de pesquisa IMPLICA uma problematização e mais, um
recorte temporal e espacial. Por exemplo:

Pergunta: “A instalação do juizado especial cível do Rio de Janeiro contri-


buiu para uma atuação mais eficiente do Poder Judiciário junto à popula-
ção carente?”

Note que esta pergunta de pesquisa envolve uma decomposição de questões:

• O que será entendido por atuação eficiente do Poder Judiciário?


• Qual a definição de população carente utilizada?
• Que tipo de serviços judiciários a população carente do Rio de Janeiro tinha antes
da instalação do juizado especial civil?
• Qual o tipo de atuação do juizado especial civil do Rio de Janeiro junto à população
carente? Etc.

Uma vez definidos o objetivo e o problema de pesquisa, é preciso pensar em como


vou responder a questão (ou às questões) proposta(s). Ou seja, que caminho metodo-
lógico vou adotar.
Definido o caminho metodológico, tenho mais clareza de quais dados serão obtidos
e qual o tipo de dados com o qual trabalharei.
Tendo sido definido o tipo de dado com o qual trabalharei, tenho que pensar na
forma de coletar estes dados, ou seja, na técnica de coleta a ser adotada. Técnicas como
entrevista em profundidade (natureza qualitativa), entrevista estruturada a partir de

FGV DIREITO RIO 17


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

questionário (natureza quantitativa), grupo de discussão focal (natureza qualitativa),


documentos (natureza mista, podendo ser quantitativa ou qualitativa), observação par-
ticipante (natureza qualitativa), etc.
E por fim, após definida a forma de coleta dos dados, é preciso pensar o plano de
análise, ou seja, como os dados serão trabalhados para chegarmos às respostas que bus-
camos.
Charles Ragin (1994)15 apresenta um modelo analítico de planejamento da pesquisa
empírica muito apropriado. Segundo o autor, após a definição do problema de pesqui-
sa, o pesquisador deve responder a dez questões para elaborar seu plano de trabalho:

1. Isso é um caso de que tipo? Definição e delimitação do objeto


2. Quais são as questões envolvidas?
3. Quais os problemas que suscita?
4. Qual a importância disso?
5. O que já foi dito e pesquisado sobre isso?
6. Quais são as comparações relevantes?
7. Quais são as características relevantes?
8. O que está faltando?
9. Quais respostas é preciso dar?
10. Quais perguntas devem ser feitas para se chegar a essas respostas?

Figura 6. Modelo analítico proposto por Ragin (1994)

2. TIPOS DE PESQUISA

Considerando a forma de abordagem do problema, as pesquisas podem ser classifi-


cadas basicamente em dois tipos: qualitativas e quantitativas.
A pesquisa qualitativa é, na definição de Richardson16 (2010), a busca por “uma
compreensão detalhada dos significados e características situacionais” dos fenômenos.
Ela tem caráter eminentemente exploratório, procurando os aspectos subjetivos dos
fenômenos e as motivações não explícitas dos comportamentos.
Seu enfoque é o da profundidade, ressaltando as particularidades e a complexidade
dos fenômenos, comportamentos e situações. A pesquisa “quali” não busca a generali-
zação, mas sim o entendimento das singularidades.
Na perspectiva qualitativa de abordagem do problema há o pressuposto da existência
de um vínculo indissociável entre o mundo objetivo dos fenômenos e a subjetividade do
sujeito — subjetividade esta que não pode ser traduzida em números.
As principais características da pesquisa qualitativa podem ser resumidas nos sete
itens seguintes: 15
RAGIN, Charles (1994). Constructing
Social Research: The Unity and Diversity
of Method. Pine Forge Press.
16
RICHARDSON, Roberto J. (2010).
Pesquisa Social — Métodos e Técnicas.
São Paulo: Editora Atlas.

FGV DIREITO RIO 18


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

1. Busca profundidade;
2. Busca descobrir coisas comuns entre número pequeno de casos;
3. Tem como metas primárias interpretar significados, dar voz, avançar teo-
rias novas;
4. Tem como metas secundárias testar ou refinar teoria, explorar a diversida-
de, identificar padrões amplos;
5. Trabalha com um arcabouço analítico fluido — pergunta “este é um caso
de que?
6. Procura abarcar um fenômeno como um todo;
7. Aplica bastante a indução analítica — busca explicar tudo.

Figura 7. Características da pesquisa qualitativa

A pesquisa quantitativa tem como foco a dimensão mensurável dos fenômenos,


buscando traduzir em números opiniões e informações. É utilizada quando se sabe pre-
cisamente o que deve ser perguntado para atingir os objetivos da pesquisa.
A pesquisa “quanti” permite a realização de projeções e generalizações, viabilizando,
também o teste de hipóteses da pesquisa de forma precisa. Implica no uso de técnicas
estatísticas.
Na perspectiva quantitativa de abordagem do problema há uma grande preocupação
com mensuração, demonstração de causalidade, generalização e reaplicação.
As principais características da pesquisa quantitativa podem ser resumidas nos nove
itens seguintes:

1. Busca descobrir e explicar a covariância entre variáveis a partir de um


grande número de casos;
2. Condensa dados — para isso a parcimônia é fundamental;
3. Tem como metas primárias identificar padrões amplos, testar e refinar
teoria, fazer predições;
4. Tem como metas secundárias explorar a diversidade e avançar teorias novas;
5. Trabalha com um arcabouço analítico fixo;
6. Covariância não quer dizer causação, obviamente, mas insinua essa possi-
bilidade;
7. Preocupação em medir variáveis corretamente — validade e confiança
(validity and reliability)
8. Busca por modelos causais multivariados (caminho esquemático);
9. Define vetor de erro explícito.

Figura 8. Características da pesquisa quantitativa

FGV DIREITO RIO 19


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

Muitos autores definem a pesquisa quantitativa por oposição à qualitativa. Mas se-
gundo Goode e Hatt (1996) “a pesquisa moderna deve rejeitar como uma falsa dicoto-
mia a separação entre estudos ‘qualitativos’ e ‘quantitativos’, ou entre o ponto de vista
‘estatístico’ e ‘não estatístico’. Além disso, não importa o quão precisas sejam as medi-
das, o que é medido continua a ser uma qualidade” (1996: 398).
Richardson (2010) lembra que, independente do tipo de pesquisa a ser utilizado em
relação à abordagem — seja quantitativa ou qualitativa — é indispensável à pesquisa
cumprir dois requisitos: o da confiabilidade e da validade.
Por confiabilidade entenda-se “a capacidade que devem ter os instrumentos utili-
zados de produzir medições constantes quando aplicados a um mesmo fenômeno. A
confiabilidade externa refere-se à possibilidade de outros pesquisadores, utilizando ins-
trumentos semelhantes, observarem fatos idênticos e a confiabilidade interna refere-se
à possibilidade de outros pesquisadores fazerem as mesmas relações entre os conceitos
coletados com iguais instrumentos.” (Richardson, 2010: 87).
Já a validade implica na capacidade do instrumento “produzir medições adequadas
e precisas para chegar-se a conclusões corretas”. Ou seja, temos o instrumento ade-
quado para a questão proposta? “A validade interna refere-se à exatidão dos dados e a
adequação das conclusões. A validade externa refere-se à possibilidade de generalizar os
resultados a outros grupos semelhantes” (Richardson, 2010: 87).

Simplificando…

Pesquisa Quantitativa Pesquisa Qualitativa

Busca extensão X Busca profundidade

Parte de aspectos objetivos X Parte de aspectos subjetivos

Trabalha com amostra extensa, Trabalha com amostra mais restri-


calculada a priori e seleciona as ta, muitas vezes calculada duran-
X
unidades pesquisadas de forma te o próprio campo e seleciona as
não intencional unidades de forma intencional

FGV DIREITO RIO 20


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

Pesquisa Quantitativa Pesquisa Qualitativa

Trabalha com quantidades, núme- Trabalha esmiuçando valores,


X
ros, indicadores e tendências crenças e representações.

Faz inferência X Dá voz

Figura 9. Diferenças entre pesquisa quantitativa e qualitativa

A pesquisa também pode ser classificada de acordo com os seus objetivos. De acordo
com Gil (1991) são basicamente três os principais objetivos das pesquisas:

1) Proporcionar maior conhecimento e familiaridade com o fenômeno ou pro-


blema à pesquisa exploratória;
2) Descrever as características do fenômeno ou problema à pesquisa descritiva;
3) Identificar os elementos que contribuem e explicam a ocorrência do fenôme-
no ou problema, identificando seus “porquês” à pesquisa explicativa.

É ainda possível classificar as pesquisas em tipos a partir dos procedimentos técnicos


adotados (técnicas de coleta de dados). Alguns exemplos são:

• Pesquisa Bibliográfica: elaborada a partir de material já publicado (livros, arti-


gos, teses, etc.), revisando de forma intensa a literatura existente sobre determi-
nado assunto em questão.

• Pesquisa Documental: elaborada a partir da análise de documentos que não


receberam tratamento analítico.

• Pesquisa Experimental: consiste na realização de experimentos, a partir da de-


finição, observação e controle de variáveis e sua influência sobre determinado
objeto.

• Levantamento ou survey: elaborada a partir do levantamento de dados via ins-


trumento de coleta padronizado (questionário ou roteiro), aplicado em contato
direto com a população (amostra ou censo) cujo comportamento se deseja co-
nhecer.

FGV DIREITO RIO 21


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

• Estudo de caso: elaborado a partir de um estudo profundo e exaustivo de um ou


poucos objetos de maneira que se permita o seu amplo e detalhado conhecimento.

• Pesquisa-Ação: realizada com vistas a uma ação para a resolução de um proble-


ma coletivo. Os pesquisadores e participantes representativos da situação ou do
problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.

• Pesquisa Participante: quando se desenvolve a partir da interação entre pesqui-


sadores e membros das situações investigadas.

3. DEFINIÇÃO DE CONCEITOS E VARIÁVEIS

O que é um conceito? Conceito é a definição de um determinado termo, um forma


de buscar uma mediação entre o mundo da linguagem e o mundo das coisas. Tem como
objetivo representar o mundo do fenômeno da forma mais acurada possível.
Por exemplo, o conceito de população economicamente ativa (PEA). Segundo o 17
O IBGE (Instituto Brasileiro de Ge-
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística17) população economicamente ati- ografia e Estatística) é o órgão de es-
tatísticas oficiais do país. É o principal
va são as “pessoas ocupadas na semana de referência (da entrevista) e as pessoas deso- provedor de dados e informações do
cupadas nessa semana com procura de trabalho no período de referência de 30 dias”. país. No que se refere às estatísticas
populacionais fornece os dados oficiais
Nota-se que para definir PEA, o IBGE considera os conceitos de pessoas ocupadas sobre: 1) Perfil demográfico da popu-
lação brasileira (número de habitan-
e desocupadas. Por pessoas desocupadas o IBGE entende “pessoas que não trabalharam tes no país, principais características
na semana de referência, tomaram providência efetiva para conseguir trabalho no pe- da população — sexo, cor, faixa etária,
escolaridade, trabalho e rendimento,
ríodo de referência de 30 dias e estavam disponíveis para assumir um trabalho naquela condições de moradia, nupcialidade e
fecundidade, migração, características
semana”. dos domicílios, etc.) — CENSO DEMO-
Pessoas ocupadas são “as pessoas que exerceram um trabalho remunerado (em di- GRÁFICO (realizado a cada 10 anos)
e PNAD (Pesquisa por amostragem
nheiro, mercadorias ou benefícios) ou sem remuneração em ajuda a membro da unida- domiciliar — feita anualmente). 2)
Indicadores sociais (intermediação
de domiciliar que era empregado, conta-própria ou empregador, durante pelo menos política, crianças e adolescentes, edu-
uma hora, na semana de referência” cação e trabalho, mortalidade infantil,
indicadores sociais mínimos, mercado
Estes são os conceitos, mas para realizarmos uma pesquisa precisamos saber como de trabalho, mobilidade social, popu-
lação jovem, síntese de indicadores
transformar este conceito em uma medida, ou seja, precisamos medir a população eco- sociais, indicadores culturais, etc.). 3)
nomicamente ativa, operacionalizar o conceito. Operacionalizá-lo implica em trans- Pesquisas suplementares (por exem-
plo Vitimização e Justiça — 2010;
formá-lo em uma variável. Uma observação se faz importante: um conceito pode ser Acesso a Transferências de Renda de
Programas Sociais — 2006; Acesso
mensurado por uma ou mais variáveis. à Internet e posse de telefone móvel
E o que é uma variável? Variável é um aspecto ou característica de interesse que é celular para uso pessoal — 2005; Aces-
so e Utilização de Serviços de Saúde
medida em cada caso da amostra ou população. Como o próprio nome diz, os valores — 2003; Trabalho Infantil — 2001).
4) Pesquisa de orçamento familiar
das variáveis variam. (Análise da disponibilidade domiciliar
Há diversas formas de classificar as variáveis. Quando começamos a pensar em um de alimentos e do estado nutricional no
Brasil; Aquisição alimentar domiciliar
problema, e na forma de operacionalizá-lo, pensamos também nas variáveis a serem per capita Brasil e Grandes Regiões;
Medidas Antropométricas de Crianças
observadas e medidas. e Adolescentes; Perfil das Despesas
Assim, uma primeira classificação possível se dá em termos da posição da variável na no Brasil - indicadores selecionados;
Primeiros resultados - Brasil e Grandes
relação. Elas podem ser independentes ou dependentes. Regiões). Todas essas bases de dados
podem ser acessadas via o seguinte link
Variável independente é a que afeta outras variáveis (a variável dependente). Ela no site do IBGE: http://www.ibge.gov.
explica a(s) variável(eis) dependente(s) cujos efeitos queremos medir. br/home/

FGV DIREITO RIO 22


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

Já a variável dependente é aquela explicada ou afetada pela variável independente.


É aquela cujo efeito é esperado de acordo com as causas. Ela se situa, usualmente, no
fim do processo causal e é definida na hipótese ou na questão de pesquisa. De forma
simplificada, a variável dependente é o que se quer explicar e a variável independente é
o que explica.
Depois, podemos classificar as variáveis de acordo com o nível de mensuração. Elas
podem ser qualitativas, ou seja, são variáveis cujas respostas são encaixadas em cate-
gorias. Ou quantitativas, ou seja, variáveis cujas respostas são quantidades numéricas.
As variáveis qualitativas ou categóricas podem ser classificadas em nominais, quan-
do cada uma das respostas possíveis ou categorias é independente, sem ter nenhuma
relação com as outras. Por exemplo, sexo (categorias são: masculino ou feminino); raça
(categorias são: branco, preto, pardo, amarelo ou indígena). E podem ser também or-
dinais, ou seja, quando cada uma das respostas possíveis ou categorias mantém uma
relação de ordem com as outras. Por exemplo, classe social (categorias podem ser: alta,
média, baixa ou ainda A, B, C, D ou E).
As variáveis quantitativas são divididas em discretas e contínuas. As variáveis dis-
cretas são aquelas cujos valores são inteiros, sendo que cada valor resulta de contagem,
e ela constitui um conjunto finito de valores. Por exemplo, idade em anos completos,
número de filhos, número de processos em uma vara. As variáveis contínuas podem
tomar valores infinitos. Por exemplo, a pontuação numa escala de atitude, a nota na
disciplina de métodos de pesquisa.

Figura 10. Definição e classificação das variáveis.


Fonte: Desenvolvido com base em Barbetta18 (2005)

Como definir uma variável na prática? A definição prática da variável se dá pela


sua operacionalização e para isso é necessário observar a variável de forma homogênea,
manter a mesma unidade de medida e estabelecer respostas mutuamente exclusivas.
18
BARBETTA, Pedro Alberto. Estatística
Aplicada às Ciências Sociais. Florianó-
polis: Editora UFSC

FGV DIREITO RIO 23


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

4. OPERACIONALIZAÇÃO DE VARIÁVEIS

Um exemplo: vamos considerar o caso de população economicamente ativa. Como


mensurar? Na figura sete vemos o exemplo de como o IBGE coleta esta informação, ou
seja, como operacionaliza o conceito, transformando em uma informação quantificável.

PE1) O(A) Sr(a) poderia me dizer se trabalha, mesmo que não tenha carteira
assinada, ou mesmo que o pagamento não seja em dinheiro? (SE SIM,
CIRCULE CÓDIGO 1 ABAIXO)
PE2) (SE NÃO) Mas o(a) Sr(a) por acaso trabalha, mesmo sem receber paga-
mento, pelo menos 15 horas por semana, em alguma instituição religio-
sa, beneficente, de cooperativismo, ou então como aprendiz, ou mesmo
ajudando em algum negócio da sua família? (SE SIM, CIRCULE CÓ-
DIGO 2 ABAIXO)
PE3) (SE NÃO) E o(a) Sr(a) chegou a trabalhar em algum momento durante
a última semana, ou chegou a tomar alguma providência para conseguir
trabalho na última semana? (SE SIM, CIRCULE CÓDIGO 3 ABAIXO)
PE4) (SE NÃO, LEIA OS ITENS A SEGUIR QUE SE APLIQUEM) E o(a)
Sr(a) é... [desempregado(a) / dona de casa / aposentado(a) / estudante]?
(CIRCULE CÓDIGO ABAIXO, DE 4 A 7, CONFORME A RES-
POSTA)

1 Trabalha, mesmo sem carteira assinada (PEA)


2 Trabalha como aprendiz, ajudante, etc. (PEA)
3 Trabalhou ou tentou na última semana (PEA)
4 Desempregado(a) (NÃO PEA)
5 Dona de casa que não trabalha fora (NÃO PEA)
6 Aposentado(a) / no seguro (NÃO PEA)
7 Estudante que não trabalha (NÃO PEA)

Figura 11. Questão para mensurar situação econômica do respondente. Fonte: IBGE

No restante do curso vamos trabalhar mais detidamente com a pesquisa quantitativa.

FGV DIREITO RIO 24


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

5. ASPECTOS E ELEMENTOS ESSENCIAIS DA PESQUISA QUANTITATIVA

Quando planejamos uma pesquisa quantitativa é preciso considerar, segundo Bar-


betta (2005), sete elementos:

1. População — assumida como determinada, livre de contexto, bem definida


— (entretanto, geralmente não é o caso).

2. Amostra de observações múltiplas, equivalentes, independentes — quanto


mais melhor — entretanto lei de diminuir lucros se aplica em alguns aspec-
tos — usada para fazer conclusões sobre população.

3. Acessibilidade analítica — aspectos podem ser medidos como variáveis,


quantificados — medidas mutuamente exclusivas e exaustivas.

4. Confiabilidade e validade.

5. Interesse em variação, particularmente em explicar variação em uma variável


(variável dependente) através da “referenciação” de outras variáveis (indepen-
dentes).

6. Homogeneidade causal — cada causa tem o mesmo impacto em cada caso


— não conjuntural — pode ser modificado um pouco com condições de
interação e outras técnicas, mas ainda limitada.

7. Meta de generalização — construir um modelo abstrato que explique todos


os casos por uso de um caso genérico idealizado — variáveis causais são vistas
em competição umas com as outras — teorias de teste através de adjudicação
— um contra o outro em termos do seu poder explicativo.

O planejamento da pesquisa quantitativa é bem ilustrado pela figura 10, desen-


volvida por Barbetta (2005). Ele consiste em se orientar tanto pela teoria quanto pela
estatística: primeiro se define o problema, passa-se ao planejamento da pesquisa, a sua
execução que inclui a coleta de dados, na sequência realiza-se a análise dos dados e por
fim a apresentação dos resultados. Com base nesse esquema, planejaremos uma pesqui-
sa empírica.

FGV DIREITO RIO 25


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

Figura 12. Etapas usuais de uma pesquisa quantitativa. Fonte: Barbetta (2005)

6. AMOSTRAGEM

Em toda pesquisa temos uma população de interesse, ou seja, um conjunto de in-


divíduos (ou fenômenos, objetos) que apresentam pelo menos uma característica em
comum, cujo comportamento deseja-se analisar ou inferir.

6.1. Como fazer para estudar uma população?

Na maioria das vezes não é possível entrevistar todas as pessoas da população de


interesse (ou todos os objetos). Por isso utilizamos a amostragem. Ou seja, procuramos
conhecer o todo, utilizando apenas alguns indivíduos desta população.
Ao conjunto de todas as repetições possíveis de um fenômeno aleatório19 daremos o
nome de população. Por exemplo, se queremos estudar um fenômeno aleatório: o tem-
po de duração de processos no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.
Cada processo tem um tempo de duração específico. O conjunto dos tempos de du-
ração dos processos constitui todas as representações possíveis deste fenômeno. A todo
subconjunto da população (de processos, neste exemplo) daremos o nome de amostra.
Em estatística, população implica em um conjunto de seres ou um conjunto de
representações. A amostragem é necessária, pois ela leva a uma econômica de tempo e
de dinheiro no estudo da população. Assim, quando queremos estudar um fenômeno
aleatório, retiramos uma amostra da população e fazemos observações sobre os elemen- 19
O objeto de estudos da estatística são
tos que a compõem. os fenômenos aleatórios. E o que são
fenômenos aleatórios? Praticamente
Exemplo: todos os fenômenos que ocorrem na
natureza são aleatórios: sexo, estatu-
ra, profissão, número de filhos, etc.
• Objetivo: Estudar a percepção dos usuários do Juizado Especial Civil no Muni- Estes fenômenos se repetem, mas nem
sempre sao os mesmos, portanto existe
cípio do Rio de Janeiro sobre o atendimento recebido. uma variabilidade nos resultados.

FGV DIREITO RIO 26


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

• Pergunta: Como os usuários do JEC do Rio de Janeiro avaliam o atendimento


recebido quando procuram a justiça?

• População alvo: moradores do Rio de Janeiro e dos municípios atendidos pelo


JEC do Rio de Janeiro.

• População de estudo: pessoas que já utilizaram o JEC no Rio de Janeiro.

• Amostra: é um subconjunto da população de estudo — neste exemplo, um


subconjunto dos usuários do JEC do Rio de Janeiro.

6.2. Conceitos importantes em pesquisas que envolvam amostragem:

• Parâmetro: medida numérica que descreve alguma característica da população


(geralmente desconhecido).
Exemplo de um parâmetro: duração média (em meses) de processos judiciais sobre
“desaposentação”.

• Estatística: uma medida numérica que descreve alguma característica de uma


amostra.

Exemplo de uma estatística: duração média (em meses) de processos judiciais sobre
“desaposentação”, calculada com base em uma amostra de 120 processos que tramita-
ram no TJRJ.

6.3. Tipos de Amostra

Existem diferentes técnicas de amostragem, isto é, diferentes maneiras de escolher os


elementos de uma amostra. As amostras resultantes dos diferentes tipos de amostragem
podem ser classificadas em probabilísticas e não-probabilísticas.
Amostra probabilística implica que todos os elementos da população têm probabili-
dade conhecida, e diferente de zero, de pertencer à amostra.
Já nas amostras não-probabilísticas, não podemos determinar a probabilidade que
cada elemento tem de pertencer à amostra.

6.4. Erro amostral

É possível prever o erro amostral, com certo grau de precisão, em amostras probabi-
lísticas. Por exemplo, com confiança de 95% o erro amostral é de +/— 2%

FGV DIREITO RIO 27


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

Existem vários outros tipos erros em pesquisa:

• Erro de Cobertura (não temos mecanismos apropriados para selecionar os res-


pondentes)
• Erro de Mensuração (perguntas mal formuladas ou escalas ruins)
• Erro Sistemático (exclusão de perfis da amostra)

7. ENCERRAMENTO DA UNIDADE — PRIMEIRA ETAPA DO EXERCÍCIO PRÁTICO DE


PESQUISA: DESENHO DO PROBLEMA, FORMULAÇÃO DA(S) HIPÓTESE(S) E COLETA
DE DADOS

Utilizando os conhecimentos adquiridos nesta unidade a proposta é

1) Elaborar um problema de pesquisa


2) Levantar hipóteses
3) Desenhar o instrumento de coleta de dados
4) Planejar a coleta de dados

• Por questões operacionais, o exercício implica a definição, a priori, da popula-


ção a ser pesquisada: os alunos do curso de Direito da FGV Direito Rio.

• O problema — ou problemas — de pesquisa deverá ser construído com base no


estudo desta população de interesse, assim como as hipóteses de pesquisa.

• Lembrando a definição de hipótese de pesquisa, segundo Goode e Hatt (1996:


75), “é uma proposição que pode ser colocada a prova para determinar sua va-
lidade”. Ou seja, é uma suposta resposta dada ao seu problema de investigação.

• O instrumento de coleta de dados neste caso deverá ser um questionário. E


também por critérios operacionais, devemos ter em mente um questionário
de auto preenchimento, ou seja, não há a interação direta entre pesquisador e
pesquisado (não serão feitas entrevistas pessoais).

• Questão importante a ser discutida: amostra versus censo.

Dicas para a elaboração do questionário

FGV DIREITO RIO 28


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

1. Separar as características a serem levantadas


2. Fazer uma revisão da literatura pertinente para verificar como mensurar
adequadamente algumas características (uso do IBGE como referencia
para variáveis socioeconômicas e demográficas)
3. Estabelecer a forma de mensuração das características a serem levantadas
4. Elaborar uma ou mais perguntas para cada característica a ser observada
5. Verificar se a pergunta é objetiva e simples (não ambígua)
6. Verificar se a forma de perguntar não está induzindo a uma resposta
7. Verificar se a resposta à pergunta não é óbvia
8. Tempo de duração (quanto mais longo, menor tende a ser a confiabilidade
e a qualidade das respostas)
9. Forma de aplicação: prezar pela homogeneidade de aplicação
10. Pré-testar

Figura 13. Elaboração de questionário. Dicas elaboradas com base em Ragin (1994)
e Babbie (1999)

Com relação à estrutura geral do questionário é importante atentar para conteúdo


e formato:

I — C0NTEÚDO

1) Fazer como em redações:


• Organizar em tópicos/ordenação lógica
• Desdobrar cada tópico em “parágrafos”, isto é, as perguntas
• Desenvolver cada pergunta

2) Cada pergunta deve ter, a priori, uma função para a análise. Deve referir-se a
hipóteses e objetivos da pesquisa
• Não sucumbir à curiosidade! (colocando questões que não serão úteis aos obje-
tivos da pesquisa)
• Pensar em variáveis dependentes e independentes
3) Guiar-se por três palavras: SIMPLICIDADE, INTELIGIBILIDADE e CLARE-
ZA e Diminuir ao máximo o esforço do respondente. Cada entrevistado deve entender
a pergunta que está sendo feita para então poder respondê-la. E todos os entrevistados
devem entender a pergunta da mesma forma, ou seja, deve-se procurar manter uma lin-
guagem simples e de fácil acepção para que todos entendam a pergunta da mesma forma.
Alguns erros comuns:
• Querer que o sujeito pesquisado seja o tomador de decisão ou o formulador de
estratégias e projetos (vale especialmente para governos e empresas)
• Não investigar possíveis fontes de problema, mesmo que preventivamente.
• Assumir entendimento comum sobre palavras/expressões de caráter central na
pergunta (sem certificar-se disto!)

FGV DIREITO RIO 29


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

• Exigir cálculos, estimativas, memórias distantes, cobrir grandes períodos (tare-


fas cognitivamente complicadas)
• Lembrar que o processo cognitivo do respondente funciona por tarefas. Está-
gios cognitivos: compreensão, lembrança e julgamento.

II —FORMATO

1) ORGANIZAÇÃO VISUAL
• Blocos visíveis
• Instruções de campo destacadas
• Espaço para respostas definido (forma e quantidade)
• Códigos (minimizar erros de anotação)

2) ALGUMAS DECISÕES DIFÍCEIS


• Pergunta Aberta x Pergunta Fechada
• Ponto neutro na escala ou não
• “Não opinião” voluntária ou estimulada
• Leitura e/ou Cartões para estímulo
• Rodízios
• Releitura de alternativas
• Notas/Números ou Categorias/Frases

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

1. RICHARDSON, R. J. (1985) Pesquisa social. Métodos e técnicas. São Pau-


lo: Atlas. Capítulo. 4. Roteiro de um projeto de pesquisa.

2. MOLHANO, Leandro (2010). Estudos Empíricos no Direito: Questões


Metodológicas. IN: CUNHA, J Ricardo. Poder Judiciário — Novos Olhares
Sobre Gestão e Jurisdição. Rio de Janeiro: Editora FGV.

3. BARBETTA, Pedro Alberto (2005). Estatística Aplicada às Ciências Sociais.


Florianópolis: Editora da UFSC. Capítulo 2. Pesquisa e Dados.

FGV DIREITO RIO 30


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

UNIDADE 3

ANÁLISE DE DADOS E ESTATÍSTICA

For the rational study of the law the black letter man may be the man of the pre-
sent, but the man of the future is the man of statistics and the master of economics.
Holmes, Oliver Wendell, Jr. (1897). “The Path of the Law”

It is now generally recognized, even by the judiciary, that since all evidence is
probabilistic — there are no metaphysical certainties — evidence should not be ex-
cluded merely because its accuracy can be expressed in explicitly probabilistic terms.
Posner, Richard A. (1999).
“An Economic Approach to the Law of Science”

BIBLIOGRAFIA OBRIGATÓRIA

1. BARBETTA, Pedro Alberto (2005). Estatística Aplicada às Ciências Sociais.


Florianópolis, Editora da UFSC. Capítulo 6. Medidas Descritivas

2. ROSENBERG, Morris (1968). A lógica de análise do levantamento de da-


dos. São Paulo, Cultrix. Apêndice A. Princípios básicos para leitura de tabelas.

3. SADEK, Maria Tereza (2006). Magistrados. Uma imagem em movimento.


Rio de Janeiro, Editora FGV. Capítulo 2: Magistrados: uma imagem em movi-
mento.

1. POR QUE ESTUDAR ESTATÍSTICA?

Por estatística entende-se o campo do saber ou ciência de obter informações a partir


de dados. Dados são observações ou medidas, expressas na forma de números. A esta-
tística é uma forma de “quantificar” incertezas.

A estatística está por todo canto da vida moderna, e somos diariamente bombardea-
dos por informações estatísticas de todos os tipos. Por exemplo, em 17 de dezembro de
2010 o jornal nacional dava a notícia

“IBGE registra a menor taxa de desemprego no Brasil desde 2002. A taxa caiu
ao longo de todo o ano e chegou a 5,7% em novembro. No mês passado, 1,3 milhão
brasileiros estavam desempregados. É o menor índice desde março de 2002, quando 20
Ver notícia completa em http://
o IBGE mudou a metodologia da pesquisa mensal de emprego. Por isso não é possível g1.globo.com/jornal-nacional/noti-
cia/2010/12/ibge-registra-menor-
fazer comparações com períodos anteriores a este”20. taxa-de-desemprego-no-brasil-des-
de-2002.html, acesso 22/12/2010

FGV DIREITO RIO 31


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

Outras estatísticas fornecidas pelo IBGE21 são:

• Taxa de fecundidade média das brasileiras é de 1,94 filhos por mulher (em 2009).
• Mulheres com até 7 anos de estudo tem, em média, 3,19 filhos. Isso é quase o
dobro do número de filhos (1,68) daquelas com 8 anos ou mais de estudo.
• O Brasil tem 94,8 homens para cada 100 mulheres.
• A taxa de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais de idade baixou de
13,3% em 1999 para 9,7% em 2009. Em números absolutos, o contingente
era de 14,1 milhões de pessoas analfabetas. Destas, 42,6% tinham mais de 60
anos, 52,2% residiam no Nordeste e 16,4% viviam com ½ salário mínimo de
renda familiar per capita.
• 85,2% dos adolescentes de 15 a 17 anos frequentavam a escola em 2009. Mas
a taxa de escolarização líquida (ou seja, o percentual de pessoas que frequenta-
vam a escola no nível adequado à sua idade, neste caso o ensino médio) era de
50,9%. Ainda assim houve melhora quando consideramos que esse percentual
era de 32,7% em 1999.
• Em geral, as mulheres de alta escolaridade (12 anos ou mais de estudo) tem um
rendimento mensal que corresponde a apenas 58% do rendimento dos homens
com a mesma escolaridade.
• Em 2009, o total de mulheres ocupadas recebia cerca de 70,7% do rendimento
médio dos homens ocupados. No mercado formal essa razão chegava a 74,6%,
enquanto no mercado informal o diferencial era maior, e as mulheres recebiam
63,2% do rendimento médio dos homens.
Todos estes dados foram extraídos de uma fonte oficial e confiável, que é o IBGE.
Há outras fontes importantes de estatísticas, como por exemplo, o Banco Mundial.

País Ações/ 100 mil habitantes Juízes 100 mil habitantes Ações/ juiz

Itália 14.000 20 678


Inglaterra 9.800 11 891
Alemanha 15.600 23 678
França 6.200 13 477
Argentina 9.459 10,9 875
Venezuela 2.375 6,3 377
México 2.600 4 650
Brasil 7.161 5,3 1.357 21
Ver indicadores em http://www.
Figura 14. Dados sobre movimentação processual e juizes. ibge.gov.br/home/presidencia/
noticias/noticia_visualiza.php?id_
Fonte: Banco Mundial, 2007 (Apud SADEK, Maria Tereza, 200822) noticia=1717&id_pagina=1 , acesso
22/12/2010
22
SADEK, Maria Tereza (2008). Acesso
à Justiça — Visão da Sociedade. Re-
vista Justitia. São Paulo, 65 (198), pp.
271-279.

FGV DIREITO RIO 32


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

Mas diariamente somos informados sobre coisas do tipo:

• A eficácia média dos preservativos como método contraceptivo é de 96%


• As chances de uma pessoa ser assaltada andando sozinha nas ruas do Rio de Ja-
neiro a noite são duas vezes maiores do que as chances de ser assaltada andando
sozinha nas ruas do Rio de Janeiro durante o dia.
• Carros de cor azul, preto e prateado têm probabilidade oito vezes maior de
serem roubados do que carros de cor verde, vermelha ou amarela
• Pessoas que consomem 20 ml de vinho tinto por dia conseguem prolongar a sua
vida em mais dois anos, relativamente aos que não consomem vinho tinto.
• Há uma chance de 80% que em uma sala cheia de 30 pessoas que, pelo menos,
duas pessoas irão compartilhar o mesmo aniversário.
• A probabilidade de reincidência criminal de jovens adolescentes que ficaram
internados em instituições para menores infratores é de 25% nos 12 meses após
o término do período de internação — ou seja, de cada 100 jovens adolescentes
que deixam as instituições, 25 voltam a cometer algum tipo de infração nos 12
meses seguintes a sua saída.

Como julgar estas estatísticas? Como saber se estas informações estão corretas e fa-
zem sentido? Como saber se estes dados são ou não confiáveis? A informação estatística
é extremamente poderosa, e perigosa se utilizada de forma equivocada.
É preciso distinguir o raciocínio estatístico correto do falho, para não estarmos sus-
cetíveis e vulneráveis a manipulações e a decisões que não são sejam de nosso interesse.
Como se costuma dizer, a estatística é uma ferramenta poderosa e necessária para
reagirmos inteligentemente as informações que recebemos diariamente.

“Existem três tipos de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas” 23.

Esta frase foi atribuída por Mark Twain ao primeiro ministro britânico Benjamin
Disraeli (1804—1881).
Mas muitas vezes a estatística não é utilizada de forma manipulativa intencional-
mente. Algumas vezes o que ocorre é mesmo a imperícia no seu uso. Vejamos.
Edward Cheng24 (2009), afirma que dados estatísticos são elementos poderosos nos
tribunais, usados por exemplo, quando se busca demonstrar que um perfil de DNA
é muito raro e único, ou quando se busca demonstrar estimativas de valor dos bens
danificados, ou ainda determinar a probabilidade de que um réu criminal reincida em
seu crime e portanto defende o argumento de que ele deve ser mantido preso. Embora
tenham um papel relevante nas cortes, as estatísticas levantam uma série de desafios para
o sistema judicial, incluindo a preocupação de que eles são difíceis de entender, e que 23
No original, “There are three kinds of
tem um forte poder de persuasão, recebendo grande deferência por parte dos jurados. lies: lies, damned lies, and statistics”.

As estatísticas são largamente apresentadas visando dar credibilidade a um argumento 24


CHENG, Edward (2009). “Law, Statis-
tics, and the Reference Class Problem”.
ou recomendação. Columbia Law Review ( http://www.
columbialawreview.org/articles/law-
Mas existe algo chamado “problema da classe de referência”, que resulta, na coloca- statistics-and-the-reference-class-
ção de Cheng (2009), de uma constatação básica: Quando se faz inferências estatísticas problem)

FGV DIREITO RIO 33


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

sobre um caso específico, as inferências dependem criticamente sobre como agrupamos


ou classificamos o caso. E exemplifica.

Imagine que o requerente desenvolva um câncer após ter sido exposto a um va-
zamento químico de um conhecido agente cancerígeno. Para estabelecer que o vaza-
mento é a causa de sua condição, o requerente procura demonstrar que o seu risco de
desenvolver câncer dobrou após a exposição. Até aqui, o processo parece bem simples,
mas então um dilema se coloca. Que estatística devemos utilizar para estimar o risco
de câncer do requerente? Devemos utilizar o risco para a população em geral, ou
deveríamos ser mais específicos? Mulheres brancas com idade inferior a cinqüenta?
Moradores do condado de Littleton, sem história familiar de câncer? Em outras pa-
lavras, ao descrever o risco de câncer, como devemos quebrar a população: por idade,
gênero, geografia, profissão, ou outra coisa? (Cheng, 200925)

É preciso saber estatística para ser capaz de efetivamente interpretar dados, realizar
a pesquisa, tomar decisões, entender e questionar argumentos que nos são apresentados
e desenvolver habilidades de pensamento crítico e analítico. A estatística, de forma bas-
tante ampla, implica em entender a coleta, organização, apresentação e interpretação
de dados.
A estatística é um instrumento de grande utilidade na tomada de decisão. Como dis-
se o ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e conselheiro Nacional de Justiça
(CNJ) Ives Gandra Martins Filho em palestra no III Seminário Justiça em Números
em Brasília (24/09/2010), “A informação correta é fundamental para o planejamento
das ações do Judiciário... Aquele que tem que decidir tem que ter informação correta”,
explicando a necessidade dos tribunais criarem e alimentarem bases de dados correta-
mente, para o Judiciário poder contar com informações de qualidade.
Existem dois grandes eixos no estudo da estatística dos quais trataremos neste curso:
a estatística descritiva, que trata dos procedimentos utilizados na organização, resumo
e apresentação de dados. E a estatística inferencial, que implica em métodos e técnicas
utilizados no estudo de uma população a partir de amostras desta mesma população.
A estatística é extremamente útil, pois em geral, não há necessidade de se conhecer
algumas informações individuais. Em pesquisa, estamos na maioria das vezes interessa- 25
Tradução livre do trecho “To illustrate,
dos em “questões coletivas”, por exemplo: imagine that plaintiff contracts cancer
after being exposed to a chemical spill
of a known carcinogen. To establish
• A maioria das pessoas pensa o que sobre o Poder Judiciário? that the spill is the cause of her cancer,
plaintiff attempts to show that her
• Na percepção das pessoas, a polícia comunitária funciona? cancer risk doubled after exposure.2
So far, the litigation seems pretty
• Pessoas de diferentes classes sociais vêem o Poder Judiciário da mesma forma? straightforward, but then we face a di-
lemma. What statistic should we use to
estimate plaintiff ’s cancer risk? Should
we use the risk for the general popu-
lation, or should we be more specific?
White females under the age of fifty?
Residents of Littleton County with
no family history of cancer? In other
words, in describing cancer risk, how
should we break down the population:
by age, gender, geography, profession,
or something else?”

FGV DIREITO RIO 34


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

2. MEDIDAS BÁSICAS EM ESTATÍSTICA

Vamos considerar o exemplo: sala de aula da FGV Direito Rio, com 10 alunos.

Nome Aluno Sexo Idade Altura

Ana Feminino 22 1,60

Beatriz Feminino 20 1,67

Benedito Masculino 19 1,72

Carlos Masculino 21 1,66

Cláudio Masculino 20 1,74

Camila Feminino 20 1,74

Clemente Masculino 20 1,70

Maurício Masculino 18 1,70

Paula Feminino 21 1,60

Wilson Masculino 19 1,74

a) Distribuição de freqüências

É uma contagem de características de interesse, uma forma de representação da fre-


qüência de cada valor distinto da variável em estudo. É útil para entender e interpretar
a natureza dos dados.

Tabela 1. Sexo dos alunos da classe X do curso de Direito

Sexo Frequência Percentual


Homens 6 60%
Mulheres 4 40%
Total 10 100%
Fonte: Secretaria de Graduação Curso de Direito, 2010

b) Medidas de Tendência Central

Servem para termos uma idéia acerca dos valores médios da variável em estudo.
São usados para sintetizar em um único número os dados observados.

FGV DIREITO RIO 35


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

• Média
A média aritmética é calculada somando-se os valores das observações e di-
vidindo este valor pelo número total de observações. No exemplo, se queremos sa-
ber a idade média dos alunos desta classe, somamos a idade dos 10 alunos (22 +20
+19+21+20+20+20+18+21+19) e dividimos o total da soma pelo número de obser-
vações, ou seja, o número de alunos (200/10). A idade média neste caso é de 20 anos.

• Mediana
É o valor da observação que separa 50% dos valores mais baixos dos 50% mais altos.
Para localizar a mediana é preciso ordenar as classificações:

18+19+19+20+20+20+20+21+21+22

Em casos em que o número de observações é ímpar, existe um valor central e este va-
lor é a mediana. Como nesse caso o número de observações é par, para obter a mediana
é preciso calcular a média entre os dois valores do meio (no caso 20+20/2). Portanto,
no exemplo, a mediana é 20.

• Moda
É o valor que se repete mais, que aparece com maior frequência. Neste caso também
é 20 anos.

Obs.: quando uma variável tem distribuição simétrica, temos que média = mediana = moda

c) Medidas de Dispersão

Indicam o quão nossa amostra (ou população) é heterogênea, ou seja, nos dá uma
medida de variação. O critério frequentemente utilizado é o que mede a concentração
dos dados em torno da média, sendo as medidas mais usadas o desvio médio, a variância
e o desvio padrão.

• Variância
Usualmente representada por S2, é a medida que se obtém somando os quadrados
dos desvios das observações da amostra, relativamente à sua média, e dividindo pelo
número de observações da amostra menos um.
n

2 2 2 2 2
∑(x – x)
i
2

s = (x1 – x) + (x2 – x) + (x3 – x) + . . . + (xn – x) = i=1

(n – 1) (n – 1)

No exemplo da sala de aula, se quisermos saber a variância de idade temos o valor


de 1.33.

FGV DIREITO RIO 36


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

• Desvio Padrão

Vimos que a variância implica na soma de quadrados, assim, a unidade em que se


exprime não é a mesma que a dos dados. Portanto, para obter uma medida da variabili-
dade ou dispersão com as mesmas unidades que os dados, tomamos a raiz quadrada da
variância e obtemos o desvio padrão:
n
∑(x – x)
i
2

i=1
s =
(n – 1)

Assim, no caso das idades, temos que o desvio padrão é de 1.15 anos.

• Amplitude
É a diferença entre os valores mais alto e mais baixo da amostra. No caso das idades,
temos a amplitude de 4 (22-18).

d) Medidas de associação e Análise Bivariada

Muitas vezes queremos verificar se há uma relação entre duas variáveis (se as variáveis
são dependentes ou não).
Podemos construir tabelas de freqüência com dupla entrada. Essas tabelas de dados
cruzados são conhecidas por tabelas de contingência, e são utilizadas para estudar a
relação entre duas variáveis.

• Correlação
Medida utilizada para determinar se há relacionamento entre duas variáveis. A pre-
sença de uma correlação pode conduzir-nos a um método para estimar uma variável a
partir da outra.
A correlação mede a força, ou grau de relacionamento entre duas variáveis. Quanto
maior a correlação, maior a intensidade de relacionamento.

• Correlação positiva: as variáveis x e y variam no mesmo sentido, isto é, se x


aumenta, y também aumenta

• Correlação negativa: as variáveis x e y variam em sentido contrário, isto é, se x


aumenta, y diminui.

Obs.: a correlação entre duas variáveis apenas mostra que essas variáveis estão rela-
cionadas, não indicando que uma variável CAUSA a outra — correlação não implica
causalidade.

FGV DIREITO RIO 37


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

• Qui Quadrado

Representado por x2, a medida qui quadrado se destina a encontrar um valor da dis-
persão para duas variáveis qualitativas, avaliando a existência de associação entre elas. O
qui quadrado compara proporções, considerando as frequências observadas e preditas
para certo evento.
Busca verificar se a frequência com que um determinado acontecimento observado em
uma amostra se desvia significativamente ou não da frequência com que ele é esperado.

FGV DIREITO RIO 38


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

ANEXO 1. AS RELAÇÕES ENGANOSAS

Neste anexo apresentamos uma notícia publicada no jornal Folha de S. Paulo em


1998 em que são discutidas algumas associações estatísticas enganosas.
Atenta para o fato importante de que correlação estatística não significa necessa-
riamente uma relação de causa e efeito entre dois fenômenos (por exemplo, estudando
acontecimentos em uma cidade num determinado período de tempo pode notar-se que
houve um elevado aumento no consumo de sorvete e na mesma proporção no número
de assaltos, ainda que nenhum seja causa ou efeito do outro — neste caso uma explica-
ção para ambos poderia ser a época do ano, por exemplo, verão, em que as pessoas estão
mais nas ruas, etc.).

São Paulo, domingo, 11 de janeiro de 1998.


CIÊNCIA
As relações enganosas
Associações estatísticas inadequadas prejudicam a divulgação científica
LUIZ EUGÊNIO A.M. MELLO

especial para a Folha

Dentre as mais comuns publicações de achados científicos que atraem o


interesse dos jornais e do público estão aquelas que apresentam uma corre-
lação. Um exemplo recente é a maior incidência de filhos do sexo masculino
quando o pai tem mais de 60 anos, isto é, pais mais velhos tenderiam a ter
mais filhos homens que pais mais jovens. Outro exemplo, publicado no mês
passado, relata que uma frequência de orgasmos maior que oito vezes por mês
aumenta a expectativa de vida dos homens.
Possíveis piadas à parte, nenhum dos dois achados deve ser entendido ao
pé da letra. Em ambos os casos, está sendo apontada uma correlação e não
uma relação de causa e efeito. Na verdade, relações causa-efeito são extrema-
mente difíceis de serem demonstradas quando comparadas com correlações.
É evidente que a menção da palavra “estatística” pode significar para mui-
tos a possibilidade de burlar dados, alterando, por exemplo, a inflação ou o
reajuste de salários. Mas aí não se trata de estatística, e sim dos famosos “pla-
nos” (Verão, Collor, Cruzado etc.) do nosso país.

A imerecida fama da estatística gera comentários do tipo: “estatística é aquela


ciência que diz que se eu comer um frango e você não comer nenhum, teremos
cada um comido meio frango”. Na verdade, a estatística mal elaborada é que gera
conclusões como a da piada acima.
De maneira séria, uma base de amostra de duas pessoas, em geral, não
permite inferir conclusões (como a que cada um comeu meio frango). Assim,

FGV DIREITO RIO 39


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

a leitura de quaisquer resultados com tratamento estatístico merece sempre


lentes e filtros especiais. Principalmente, quanto às conclusões.
Voltando ao caso das correlações, podemos pegar um exemplo concreto
e didático. Digamos que eu esteja estudando o problema da calvície mascu-
lina. Em meu estudo, quero descobrir quais os possíveis fatores associados à
calvície.
Entre as primeiras coisas a se fazer, está a definição de uma população de
estudo. Com certeza, vou excluir as mulheres e as crianças desse grupo e ficar
com um grupo de homens adultos. Digamos, acima dos 30 anos de idade.
Defino também onde vou estudar: um bairro, os funcionários de uma empre-
sa, qual seja essa amostra.
Iniciado o estudo, decido medir vários fatores. Desses fatores, alguns são
obviamente qualitativos: ser ou não ser calvo. Esses podem até virar semi-
quantitativos: calvície intensa, moderada, leve e sem calvície. Outros são
quantitativos: peso, altura, idade etc.
Terminada a etapa de coleta dos dados, vou para o computador e começo
a avaliar os dados. Nessa avaliação, encontro que o peso tem uma alta correla-
ção direta com a calvície. Isto é, que indivíduos mais gordos são mais calvos.
No dia seguinte, os jornais publicam meu achado e a população em geral
passa a acreditar nesses dados. Afinal de contas, foi uma experiência científica
e até os jornais deram destaque.
Na verdade, uma notícia como essa pode fazer sentido intuitivamente. É
sabido que a calvície pode ter um fundo hormonal. É também sabido que a
obesidade pode ter um fundo hormonal. Assim, nada mais natural que um
maior peso corporal estar associado à calvície.
Esse achado seria extremamente relevante, pois o peso corporal é um fator
que pode ser controlado. Assim, além de mantermos o peso controlado para
diminuir problemas de coração, de pressão arterial, de diabetes e de coluna,
nos casos dos homens, haveria o adicional da calvície.
Estaria tudo muito bonito se o meu estudo não tivesse encontrado tam-
bém que os homens mais velhos são geralmente mais gordos. O problema,
nesse caso, é que todos sabemos que a calvície é mais frequente e intensa em
indivíduos mais velhos.
Com isso, minha conclusão totalmente nova e interessante seria trocada
por outra já conhecida desde tempos imemoriais: a idade é um fator de risco
para a calvície. Ou, de outra forma, quanto mais velhos ficamos maior a nossa
chance de desenvolver calvície.
Nada a se fazer no caso do envelhecimento. Não dá para deixar de en-
velhecer. A não ser procurar a fonte da juventude ou se deixar enganar por
charlatões que dizem tê-la encontrado.
Quanto à calvície, ainda sobram alguns tratamentos sérios, um deles lançado há
pouco nos EUA, e vários outros que parecem piada.
Essa situação esclarece bem a realidade das correlações. Muitas delas são
assim. O ponto importante é que pode haver uma correlação entre calvície

FGV DIREITO RIO 40


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

e maior peso corporal. Mas isso não necessariamente significa que ser mais
gordo facilita o desenvolvimento de calvície, ou vice-versa.
Ainda que pudesse ser formulada uma teoria sugerindo que a calvície de-
prime os homens, estes mais deprimidos “descarregariam” suas frustrações na
geladeira, resultando aumento de peso.
A verdade é que teorias podem ser formuladas aos montes e podem ex-
plicar qualquer coisa. Assim, independente da qualidade dos fatos, as teorias
têm de ser sempre vistas com cuidado.
Voltando à correlação entre orgasmos e mortalidade, ela é também apenas
uma correlação. Muitos outros estudos precisam ser feitos antes de se mostrar
uma relação de causa e efeito, se é que existe uma nesse caso.
A correlação entre beber um copo de vinho por dia e a menor chance de
infarto do miocárdio é outro bom exemplo na mesma linha. Estudos recentes
mostram que ela não se deve ao vinho e ao álcool, mas sim ao beta-caroteno,
corante contido na uva. Para a infelicidade de muitos, tomar suco de uva dá
o mesmo resultado que beber vinho tinto. No caso dos orgasmos talvez se
demonstre que não é necessariamente o orgasmo, mas sim qualquer outra
variável.
Como tudo, as informações científicas também dependem de um espírito
crítico para interpretá-las e dar-lhes um tratamento adequado. Quando esse
não existir nos autores de um trabalho científico ou nos jornalistas, ou ainda
for deturpado por qualquer parte geradora da notícia, resta ainda o último
filtro que é o consumidor da notícia: você, o leitor.
Luiz Eugênio A. M. Mello, 40, é professor do Departamento de Fisiolo-
gia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

FGV DIREITO RIO 41


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

ANEXO 2. O USO DE ESTATÍSTICAS E MATEMÁTICA NOS TRIBUNAIS

O trecho a seguir foi extraído de MLODINOW, Leonard (2009). O Andar do


Bêbado — Como o Acaso Determina Nossas Vidas. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed. É
um relato de um caso ocorrido nos Estados Unidos em que um casal foi a julgamento
acusado de um crime onde as principais evidências eram estatísticas e matemáticas.

“Em 18 de junho de 1964, ao redor das 11h30 da manha, a Sra. Juanita Brooks,
que fizera compras, voltava para casa por uma travessa na região de San Pedro, na
cidade de Los Angeles. Carregava nas costas uma cesta de palha contendo mercado-
rias, e deixara sua bolsa em cima das embalagens. Ela usava uma bengala. Quando
se abaixou para apanhar uma caixa de papelão vazia, foi subitamente empurrada
ao chão por uma pessoa que não chegou a ver, e cuja aproximação não notou. Ficou
atônita pela queda e sentiu alguma dor. Conseguiu erguer os olhos e viu uma mulher
jovem que fugia da cena. Segundo a Sra. Brooks, a mulher parecia pesar cerca de
70kg, vestia uma roupa escura e tinha cabelo entre loiro escuro e loiro claro, porém
mais claro que a cor do cabelo da ré, Janet Collins, quando esta se apresentou ao
julgamento. Imediatamente após o incidente, a Sra. Brooks percebeu que sua bolsa,
contendo entre US$ 35 e US$ 40, havia desaparecido.

Aproximadamente no mesmo momento do roubo, John Bass, que vivia na rua


ao fim da travessa, estava em frente a sua casa, regando a grama. Sua atenção foi
atraída por muitos gritos e choro que vinham da travessa. Ao olhar naquela direção,
viu uma mulher, que fugiu correndo e entrou num automóvel amarelo estacionado
do outro lado da rua. Não conseguiu distinguir a marca do carro. O motor foi ligado
imediatamente, e o carro teve que contornar outro veiculo estacionado, de modo que,
na rua estreita, passou a menos de 2 metros do Sr. Bass. Este viu então que o moto-
rista do carro era um homem negro que tinha barba e bigode.... Outras testemunhas
apresentam descrições variadas do carro, dizendo que era amarelo, amarelo com teto
acinzentado, e amarelo com teto branco. Segundo a descrição, o carro tinha tamanho
entre médio e grande.

Alguns dias depois do incidente, um policial de Los Angeles vislumbrou um Lincoln


amarelo com teto acinzentado em frente à casa dos réus e falou com eles, explicando
que estava investigando um assalto. O policial notou que o suspeitos se encaixavam na
descrição do homem e da mulher que haviam cometido o crime, a não ser pelo fato de
que o homem não usava barba, embora admitisse que às vezes a deixava crescer. Mais
tarde, nesse mesmo dia, a polícia de Los Angeles prendeu os dois suspeitos, Malcolm
Ricardo Collins, e sua mulher, Janet.
As provas contra os dois eram escassas, e o caso se baseava fortemente na iden-
tificação dos suspeitos pela vítima e pela testemunha, John Bass. Infelizmente, para
o advogado de acusação, nenhum dos dois demonstrou muito talento no banco das
testemunhas. A vítima não foi capaz de identificar Janet como a perpetradora do cri-
me, e não chegou a ver o motorista em nenhum momento. John Bass não havia visto

FGV DIREITO RIO 42


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

a perpetradora, e disse, no momento da identificação dos suspeitos, que não poderia


determinar com segurança se Malcolm Collins era o motorista. Assim, o caso parecia
estar se despedaçando.
Entre a testemunha principal, descrita pela Suprema Corte da Califórnia simples-
mente como “um professor assistente de matemática numa faculdade estadual”. Essa
testemunha afirmou que o fato de que os réus fossem “uma mulher caucasiana com rabo
de cavalo loiro... [e] um negro com barba e bigode” que dirigia um automóvel parcial-
mente amarelo era suficiente para condenar o casal. Para ilustrar essa idéia, a acusação
apresentou a seguinte tabela, citada aqui exatamente como apresentada na decisão da
Suprema Corte

Característica Probabilidade individual


Automóvel parcialmente amarelo 1/10
Homem com bigode 1/4
Homem negro com barba 1/10
Garota com rabo de cavalo 1/10
Garota loira 1/3
Casal inter-racial num carro 1/1 mil

O professor assistente de matemática chamado pela acusação disse que a regra do


produto se aplica a estes dados. Multiplicando todas as probabilidades, concluímos que
a chance de que um casal se encaixe em todas estas características distintivas é de 1/12
milhões. Da mesma forma, falou, podíamos inferir que a chance de que o casal fosse
inocente era de 1/12 milhões.
O advogado de acusação ressaltou que tais probabilidades individuais eram estima-
tivas, e convidou os jurados a apresentarem seus próprios palpites e fazerem as contas.
Pessoalmente, afirmou, acreditava que fossem estimativas conservadoras, e a probabili-
dade que encontrou ao utilizar os fatores estimados por ele próprio era mais próxima de
1/1 bilhão. O júri caiu na história e condenou o casal.
O que há de errado nessa situação? Em primeiro lugar, como vimos, para determi-
narmos uma probabilidade combinada pela multiplicação das probabilidades indivi-
duais, as categorias devem ser independentes, e, neste caso, está claro que não são. Por
exemplo, a tabela afirma que a probabilidade de vermos um homem negro com barba é
de 1/10, e a de um homem com bigode é de 1/4. Porém, a maior parte dos homens com
barba também têm bigode, e assim, se virmos um homem negro com barba, a proba-
bilidade de que ele tenha bigode não é mais de ¼ — é muito maior. Essa questão pode
ser sanada se eliminarmos a categoria homem negro com barba. Nesse caso, o produto
das probabilidades cai para cerca de 1/1milhão.
Existe outro erro na análise: a probabilidade relevante não é a citada acima — a de
que um casal escolhido ao acaso se encaixe na descrição dos suspeitos. Na verdade, a
probabilidade relevante é de que um casal que se encaixe em todas estas características
seja o casal culpado. A primeira pode ser de 1/1 milhão. Mas quanto à segunda, como

FGV DIREITO RIO 43


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

a população da região próxima ao local do crime era de muitos milhões, seria razoável
considerarmos que haveria 2 ou 3 casais na região que se encaixavam na descrição. Nes-
se caso, a probabilidade de que um casal que se encaixava na descrição fosse o culpado,
com base apenas nestes indícios (que eram basicamente tudo o que a acusação possuía)
é de apenas ½ ou 1/3. Muito além de uma dúvida razoável. Por estes motivos, a Supre-
ma Corte revogou a condenação de Collins.
O uso da probabilidade e da estatística nas cortes modernas ainda é um tema contro-
verso. No caso de Collins, a Suprema Corte da Califórnia ridicularizou o que chamou
de “julgamento pela matemática”, mas deixou espaço para “aplicações mais adequadas
de técnicas matemáticas”. Nos anos seguintes, as cortes raramente consideraram argu-
mentos matemáticos, porém, mesmo quando advogados e juízes não citam probabi-
lidades explícitas ou teoremas matemáticos, frequentemente empregam esse tipo de
raciocínio, assim como os jurados ao avaliarem as provas.
Além disso, os argumentos estatísticos estão se tornando cada vez mais importantes
em virtude da necessidade de avaliarmos provas por exame de DNA. Infelizmente essa
maior importância não foi acompanhada de um maior entendimento por parte dos ad-
vogados, juízes e jurados. Como explicou Thomas Lyon, que dá aulas de probabilidade
no direito na universidade no Sul da Califórnia, poucos alunos fazem um curso de pro-
babilidade no direito, e poucos advogados acreditam que tal curso mereça ter seu lugar.
Nessa e em outras áreas, a compreensão da aleatoriedade pode revelar camadas ocultas
da verdade, mas apenas para os que possuírem as ferramentas para desvendá-las. ”
(Mlodinow, 2009: 46-49)

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

TRIOLA, M.F (1999). Introdução à Estatística. Rio de Janeiro: Editora LTC.

FGV DIREITO RIO 44


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

UNIDADE 4

COMUNICAÇÃO ACADÊMICA

Os que escrevem com clareza têm leitores, os que escrevem


de maneira obscura têm comentaristas.
Albert Camus

A forma pela qual dispomos o material para apresentação


sempre afeta o conteúdo de nosso trabalho.
Wright Mills, “A Imaginação Sociológica”

Escrever é pretender a atenção dos leitores. Isso é parte de qualquer estilo.


Escrever é também pretender para si um status pelo menos bastante para ser lido
Wright Mills, “A Imaginação Sociológica”

BIBLIOGRAFIA OBRIGATÓRIA

RICHARDSON, R. J. (1985). Pesquisa social. Métodos e técnicas. São Paulo:


Atlas. Capítulo 19. Relatório de Pesquisa

1. RECOMENDAÇÕES NA ESTRUTURAÇÃO DO TEXTO ACADÊMICO

Depois de executar a pesquisa é preciso comunicar os resultados. A redação acadê-


mica é muito importante. É preciso ser cuidadoso com o formato, com a linguagem,
as citações, etc.
A bibliografia indicada trata da estrutura e do formato da comunicação acadêmica.
Aqui na apostila indicaremos apenas alguns cuidados e daremos algumas dicas para a
boa comunicação do trabalho de pesquisa.
O objetivo da comunicação acadêmica é o mesmo do que qualquer outra forma de
comunicação: transmitir o seu pensamento, suas idéias ou argumentos a outras pessoas.
Busca-se na comunicação acadêmica convencer o leitor sobre o seu argumento.
Desta forma clareza, objetividade e consistência do texto são requisitos fundamen-
tais. Um texto academico procura não deixar margem a interpretações diferentes daque-
las que o autor que comunicar.
Um bom texto segue uma estrutura, uma seqüência lógica, com início, meio e fim.
Ou introdução, desenvolvimento do argumento (ou o corpo do trabalho) e conclusão.
Esta é a estrutura mais simples.
Além de uma boa estrutura, o texto precisa ter unidade, coerência e coesão.

FGV DIREITO RIO 45


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

Por unidade entenda-se a interligação entre partes do texto, que deverão convergir
para um direcionamento único.
A coerência do texto, implica que as idéias apresentadas não sejam contraditórias.
E a coesão implica que os elementos do texto, de cada frase, devem estabelecer os
nexos entre as partes do texto em linguagem objetiva, suprimindo palavras desnecessá-
rias (adjetivos e advérbios).
É preciso tomar muito cuidado com a redação: prestar atenção na gramática e na
concordância. Utilizar corretamente a lingua, o texto deve ser escrito em linguagem
simples e direta, não utilizar linguagem rebuscada nem muitos jargoes da área (evitar
“juridiquês, “sociologuês”, “economês”, etc.). A revisão gramatical antes de entregar o
texto é essencial.

Não enfeitar o pavão!


Ou seja, não rebuscar o texto nem exagerar nos qualificativos, não exagerar procurando mostrar
erudição. Diga apenas o necessário para demonstrar o que foi feito e demonstrar seu argumento.

Não reinventar a roda!


Ou seja, não ignore os trabalhos já realizados sobre o tema que você está estudando.

Recomenda-se a utilização de frases curtas. E prestar muita atenção à pontuação.


Evitar achismos — é preciso fundamentar as posições e os argumentos apresentados
no texto.
Explicitar os conceitos, definir quando preciso (no corpo do texto ou nota de roda-
pé). Por exemplo, se estou falando do acesso da população carente aos serviços da jus-
tiça, preciso deixar claro o que entendo por população carente. Quando falo em classe
social, existem diferentes definições, preciso deixar claro para o leitor qual é a definição
com a qual estou trabalhando.
Quando escrevemos estamos comunicando, contando uma história — precisamos dar
todas as informações necessárias para isso (mas não precisamos dar informações em excesso).
Um bom exercício de revisão do texto é para cada seção perguntar-nos:

• “O que quis dizer com isso?”


• “ Por que é importante dizer isso?
• “Este é o melhor local para dizer isso?”

Para isso também é interessante que se organize o texto por idéias. Uma sugestão é
fazer uma estrutura prévia do que será o texto e um resumo do que cada seção tratará.
É importante tabém evitar julgamentos de valor (bom, ruim, perfeito, etc.).
Utilize citações, elas são importantes e rnriquecem o texto. É preciso SEMPRE
dar crédito quando citamos as idéias de outros autores — ainda que indiretamente.
CUIDADO COM O PLÁGIO!
E por fim, é preciso ter um mente que o texto que comunica uma pesquisa acadêmi-
ca é essencialmente diferente do texto de um parecer ou uma petição.

FGV DIREITO RIO 46


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

2. DIFERENÇAS ENTRE A PRÁTICA ACADÊMICA E A PRÁTICA PROFISSIONAL NA


COMUNICAÇÃO ESCRITA

O relatório de pesquisa e texto acadêmico não é igual a um parecer ou uma petição.


O texto acadêmico é produto de uma investigação científica, faz uma análise crí-
tica, descomprometida com causas e construido com base na metodologia científica,
que busca testar uma hipótese. Já o parecer ou a petição é voltado para uso estratégico
e direcionado ao interesse do cliente e busca defender uma causa ou ponto de vista,
valendo-se de argumentos convenientes a essa defesa e da persuasão retórica.
O texto acadêmico procura mapear visões contrárias e favoráveis ao seu argumento,
havendo uma ponderação, um sopesamento de opiniões (sejam decisões, psoições dou-
trinárias e jurisprudência). Já no parecer o autor escolhe apenas as opiniões favoráveis
ao seu ponto de vista ou argumento.
No texto acadêmico não há uma posição correta, mas posições possíveis, com as ar-
gumentos contrários sendo trazidos à tona. Já no parecer ou petição existe a busca pela
posição correta para confirmar a tese pretendida.
Voltamos aqui a diferença essencial entre o advogado acadêmico e o advogado pro-
fissional: o advogado acadêmico busca testar a hipótese e o advogado profissional busca
defender uma tese (atuando como “advogado da hipótese”).

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

1. ECO, Umberto (2005). Como se Faz uma Tese. São Paulo: Ed. Perspectiva.

2. GIL, Antônio Carlos (1996). Como Elaborar Projetos de Pesquisa. São Pau-
lo: Atlas.

FGV DIREITO RIO 47


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

FABIANA LUCI DE OLIVEIRA


Professora de Metodologia de Pesquisa e Coordenadora do Núcleo de Pesquisa do
Centro de Justiça e Sociedade da FGV DIREITO RIO. Possui Doutorado e Mestrado
em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos, com doutorado san-
duíche em Sociologia pela Northwestern University, em Chicago. Pós-doutorado
em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e especialização em Metodo-
logia de Pesquisa pela University of Michigan. Desenvolve pesquisas na área de
Judicial Politics e Opinião Pública.

FGV DIREITO RIO 48


METODOLOGIA DA PESQUISA E ESTATÍSTICA ELEMENTAR

FICHA TÉCNICA

Fundação Getulio Vargas

Carlos Ivan Simonsen Leal


PRESIDENTE

FGV DIREITO RIO


Joaquim Falcão
DIRETOR
Sérgio Guerra
VICE-DIRETOR DE PÓS-GRADUAÇÃO
Evandro Menezes de Carvalho
VICE-DIRETOR DA GRADUAÇÃO
Thiago Bottino do Amaral
COORDENADOR DA GRADUAÇÃO
Rogério Barcelos Alves
COORDENADOR DE METODOLOGIA E MATERIAL DIDÁTICO
Paula Spieler
COORDENADORA DE ATIVIDADES COMPLEMENTARES E DE RELAÇÕES INSTITUCIONAIS
Andre Pacheco Mendes
COORDENADOR DE TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO
Marcelo Rangel Lennertz
COORDENADOR DO NÚCLEO DE PRÁTICA JURÍDICA – CLÍNICAS
Cláudia Pereira Nunes
COORDENADORA DO NÚCLEO DE PRÁTICA JURÍDICA – OFICINAS
Márcia Barroso
NÚCLEO DE PRÁTICA JURÍDICA – PLACEMENT
Diogo Pinheiro
COORDENADOR DE FINANÇAS
Rodrigo Vianna
COORDENADOR DE COMUNICAÇÃO E PUBLICAÇÕES
Milena Brant
COORDENADORA DE MARKETING ESTRATÉGICO E PLANEJAMENTO

FGV DIREITO RIO 49