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TCC --- A INDISCPLINA E A VIOLÊNCIA ESCOLAR - UMA PERSPECTIVA PEDAGÓGICA E JURÍDICA PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA

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JOÃO HENRIQUE DA SILVA

A INDISCIPLINA E A VIOLÊNCIA ESCOLAR: UMA PERSPECTIVA PEDAGÓGICA E JURÍDICA PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA

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SÃO PAULO 2010 JOÃO HENRIQUE DA SILVA

A INDISCIPLINA E A VIOLÊNCIA ESCOLAR: UMA PERSPECTIVA PEDAGÓGICA E JURÍDICA PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro Universitário Claretiano para obtenção do título de Especialista em Direito Educacional. Orientador: Professor Mestre Carlos Alberto Marinheiro.

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SÃO PAULO 2010 JOÃO HENRIQUE DA SILVA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro Universitário Claretiano para obtenção do título de Especialista em Direito Educacional. Orientador: Professor Mestre Carlos Alberto Marinheiro.

A INDISCIPLINA E A VIOLÊNCIA ESCOLAR: UMA PERSPECTIVA PEDAGÓGICA E JURÍDICA PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA

Orientador: Professor Mestre Carlos Alberto Marinheiro. Examinadora: Professora Doutora Aparecida Dinalli

4 São Paulo. DEDICATÓRIA . 04 de dezembro de 2010.

pois me ensinou que educar é vocação. À Escola Estadual “Vinícius Meyer” e à Escola Estadual “Virgília Paschoal”. possibilitando desenvolvê-lo com seriedade e responsabilidade. Carlos Alberto Marinheiro. É um ofício digno para colaborar com o desenvolvimento de todos os seres humanos. a compreensão e o estímulo da Luiza Andreotti. como fonte de valores. Ms. sua experiência de vida apontou-me caminhos para o desenvolvimento integral como ser humano. que contribuíram para o desenvolvimento profissional e o despertar para o ato de educar comprometido com o bem comum. Sua presença amiga confortou-me e direcionou-me para o amadurecimento profissional. minha mãe que sempre me incentivou para prosseguir meus estudos. Também agradeço à Escola Estadual “Presidente Bernardes”. . Agradeço a minha família. em especial. Mesmo sem estudo. que me compreenderam e motivaram a lutar sempre pela concretização dos meus objetivos. principalmente no desenvolvimento deste trabalho. Sou grato a Deus. Agradeço também a paciência. que me guiou no desenvolvimento deste trabalho. Prof. agradeço aos meus amigos professores. AGRADECIMENTOS Agradeço ao meu orientador. Inclusive. Sou grato ao meu amigo Luiz Henrique que me compreendeu nos momentos mais complicados na minha vida.5 Dedico este trabalho ao meu amigo Adriano São João que me abriu as portas para o saber e o desenvolvimento deste trabalho. que me ajudou a caminhar nos trilhos difíceis da vida. Demonstraram que a árdua tarefa de educar é dignificante. que me fez acordar para o trabalho árduo e sério de professor. além de me motivar no desejo da busca pela sabedoria.

Inclusive me mostrou que o exercício da cidadania deve estar presente em todos os momentos da nossa vida. salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda de novos e dos jovens. EPÍGRAFE A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e. também. onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos. com tal gesto. por me ensinar que o trabalho de professor é mais do que “ganhar um pão a cada dia”. O ato de ensinar contribui para o próprio desenvolvimento como ser humano. e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de . Trata-se de amadurecimento enquanto pessoa em vista da formação de outros seres humanos. A educação é.6 E. sou grato à vida. por fim.

é imprescindível que a pedagogia e a juridicidade se reorganizem e resgatem a verdadeira essência da sua presença na instituição escolar. A cidadania pode ser conquistada através da resolução dos problemas escolares. preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum. É por meio dos conflitos que é possível propor valores democráticos e cidadãos para o desenvolvimento da personalidade humana. então. porém. RESUMO A educação escolar é uma instituição fundamental para o desenvolvimento da sociedade. deve-se entender o que é o direito humano e. porque é a partir da garantia deles que a cidadania é consolidada. destaca-se a idéia de que uma postura pedagógica e jurídica deve estar presente nas escolas para remodelar sua organização. Diante desse universo de respostas para resolver este problema. 247). Atualmente. que é formar cidadãos. p. didática e envolvimento com a família e a sociedade. Diversas leituras interpretam e receitam os remédios necessários para superar este obstáculo no espaço escolar. 1992. Tais problemas estão presentes nas mais diversas escolas do país e do mundo. o direito à educação. jurídicas e políticas. ela tem sido objeto de reflexão constante nos mais diversos segmentos da sociedade brasileira. exigindo assim um repensar as posturas pedagógicas.7 empreender alguma coisa nova e imprevista para nós. Há um grande esforço de entender o seu papel na conjuntura atual. contribuindo assim para a remodelação das práticas pedagógicas e jurídicas. concretizar as suas finalidades. É por meio deles que é possível mudar o caráter de uma educação fechada em si mesma para uma mais aberta a todas as pessoas. Urge. consideradas como obstáculos sérios para o desenvolvimento de uma educação com qualidade. em especial. qualificar para o trabalho e para o exercício da cidadania. Por isso. Antes. gestão. a educação exige uma leitura jurídica da solução dos problemas . (ARENDT. Além disso. Um dos problemas que mais tem chamado a atenção dos estudiosos diz respeito à indisciplina e à violência.

principalmente. então é fundamental que a perspectiva jurídica para a solução do ato infracional esteja na presente na escola. Portanto. uma vez que a violência escolar deve ser tratada no fórum do direito. a perspectiva jurídica e pedagógica são elos indissociáveis na prática educativa em vista da formação do ser humano e do cidadão.8 disciplinares. não deixam de se enriquecer entre si e impulsionar a educação para uma ação mais digna e nobre. Direitos. Em seguida. da violência escolar porque ela na legislação ganha o significado de ato infracional. Apesar de suas peculiaridades. a indisciplina. visando à realização da cidadania. A instituição escolar. Palavras-Chave: Indisciplina e Violência escolar. E ainda demonstrar quais são os caminhos pedagógicos coerentes com a missão da escola. cabe ao Direito e à Escola demonstrarem como é que podem ajudar na resolução de tais problemas. compreendendo-se como um crime que repercute no campo penal. contribui para a qualificação do seu serviço. porque esta é a tarefa essencial da pedagogia escolar. Posteriormente. ajudando a superar os conflitos através das leis que ajudam a guiar as relações sociais. é importante ter presente o que a pedagogia da escola entende como indisciplina e violência escolar e. Perspectiva Jurídica. Perspectiva Pedagógica. . em especial. amparada pelo direito. uma vez que a escola é um locus propício à formação humana. Se o Direito é a instância necessária para a legitimação dos direitos. Cidadania.

ATO INFRACIONAL: UMA PERSPECTIVA JURÍDICA NA EDUCAÇÃO 2.1 A resposta da Educação em conformidade com o tempo 3 1 3 3 3. A PERSPECTIVA PEDAGÓGICA NA EDUCAÇÃO 3.1 OS DIREITOS HUMANOS: UM FUNDAMENTO PARA UMA VIDA DIGNA 5 1.1.2 O DIREITO E A CRIANÇA E O ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI 5 2.1.1.2.2 A educação “problematizadora” .2.3 LEITURA SOCIAL DO ATO INFRACIONAL 3 5 5 8 5 9 3.1 A Educação e suas concepções 3.1 A EDUCAÇÃO: À ESCUTA DO TEMPO.2.1 O DIREITO E A EDUCAÇÃO NA VIDA ESCOLAR 2 2.2 DIREITO À EDUCAÇÃO: EM BUSCA DA REALIZAÇÃO DA DIGNIDADE HUMANA 0 2 1 1 0 1 4 2. A PERSPECTIVA JURÍDICA NA EDUCAÇÃO 1.9 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 1.1 A educação “bancária” 3. 7 0 7 4 9 1 9 1 9 3 3.2 A EDUCAÇÃO: À ESCUTA DE SI MESMO 3.

2 O Projeto Político-Pedagógico 5.1.2 Respostas para o dilema da indisciplina e violência escolar 9 4 4.2 A PERSPECTIVA JURÍDICA E A CIDADANIA 10 9 4.2.1.1 A PERSPECTIVA PEDAGÓGICA E A CIDADANIA 5.10 3.4 Articulando ações possíveis na escola CONCLUSÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 11 8 11 9 12 9 13 3 13 9 14 7 15 0 . A PERSPECTIVA PEDAGÓGICA NA EDUCAÇÃO 11 7 PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA 5.2. A PERSPECTIVA JURÍDICA NA EDUCAÇÃO PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA 9 8 4.1.1 O Regimento Interno 10 9 5.1.1. O QUE É SER CIDADÃO? 10 0 4.1 O Contrato Pedagógico e as Assembleias de Classe 5.3 Formação Ética no espaço escolar 5.

interdependentes e universais para a realização humana. Em vista disso. a economia e as tecnologias se transformaram rapidamente. a ciência. familiar e com a sociedade. para que o cidadão tenha uma vida digna. . gerando também problemas para a própria sociedade. A política neoliberal redesenhou a situação política. econômica. A desigualdade social é uma conseqüência drástica de uma economia que quer se desenvolver às custas da exploração do outro. social e cultural do Brasil. Dentre os direitos. Pelo fato de a instituição escolar estar articulada com a instituição política. O transporte. acelerando a vida de todo e qualquer indivíduo. Entretanto. considerado como um direito social indispensável para a conquista de verdadeiro e pleno exercício da cidadania humana. O presente Trabalho de Conclusão de Curso procurará desenvolver uma reflexão sobre os problemas atuais que afetam a realidade educacional. a política. a desigualdade social e a crise da autoridade provocam comportamentos inadequados. As instituições familiares e educativas têm o dever de se preocupar com a educação dos seus filhos e alunos. O mundo globalizado alterou significativamente as estruturas das relações sociais.11 INTRODUÇÃO O século XXI é o início de um novo período histórico. professores e gestores até agora não conseguiram resolver de modo adequado ou satisfatório. merece destaque o da educação. a Constituição Federal da República Federativa Brasileira de 1988 apresenta os direitos fundamentais do cidadão como garantias indispensáveis. bem como demonstrar que a indisciplina e a violência são problemas que pais. O Estado Social Democrático procura garantir todos os direitos inerentes à condição humana. ela enfrenta atualmente um obstáculo que precisa ser superado: a indisciplina e a violência escolar (ou ato infracional).

intelectual e afetiva do aluno. muitas vezes. portanto. A indisciplina e a violência escolar são situações que exigem uma reflexão crítica e séria sobre os procedimentos tomados pela escola e pelos pais. . esse Trabalho de Conclusão de Curso desenvolverá os seguintes pontos: a educação e seus obstáculos no século XXI. o exercício da cidadania através da perspectiva pedagógica. Para atingir esse objetivo. a indisciplina e a violência escolar no espaço escolar. o objeto deste Trabalho é refletir como que a perspectiva jurídica e a pedagógica podem cumprir seu papel no espaço escolar. e. a escola tem a função de compreendê-la como um ponto de partida para a construção da cidadania. Por isso. relação entre perspectiva pedagógica e a indisciplina e a violência escolar. por último. porém não conseguem realizar uma educação crítica e cidadã. o trabalho buscará mostrar que a escola precisa repensar o modo como vem lidando com o problema da indisciplina e violência. Assim. conceitualização e delimitação do termo indisciplina e violência escolar. caso contrário não será capaz de desenvolver uma educação que realmente ajude na transformação dos educandos. analisar a indisciplina e a violência escolar e as perspectivas pedagógicas e jurídicas que podem usadas para a construção de um exercício da cidadania. principalmente na superação dos seus conflitos e na consolidação da cidadania. levando em consideração a dimensão física. uma vez que a educação permanece. a elaboração de uma reflexão sobre a construção da cidadania por meio da perspectiva pedagógica e jurídica. a finalidade das normas jurídicas no ambiente escolar. o comportamento dos professores diante os problemas no espaço escolar. Este estudo visa.12 respectivamente. Tendo presente esses elementos. a contribuição do ordenamento jurídico para o exercício da cidadania. separada da realidade.

políticos e filosóficos pelos quais a escola passa e que influenciam significativamente na convivência escolar e no desenvolvimento da aprendizagem. principalmente. Em seguida. bem como a formação para a cidadania. que é foco constante de crítica. a violência e as perspectivas pedagógicas e jurídicas relacionadas à educação. não para subserviência ou atitude passiva na sociedade. e o modo como a instituição escolar compreende os problemas disciplinares. entre eles a indisciplina. do direito à educação. O terceiro capítulo refletirá sobre a influência da conjuntura atual nas estruturas sociais. este trabalho procurará mostrar como que as leis são imprescindíveis para a aplicação de regras e normas. analisará o papel da pedagogia que deve resolver os problemas da indisciplina e redirecioná-los para a formação da cidadania. O segundo capítulo analisará especificamente como que a perspectiva jurídica pode ajudar a solucionar os problemas da indisciplina e da violência escolar. será possível estudar os dois elementos importantes desta pesquisa: os problemas sociais.13 Através de um levantamento bibliográfico sobre a indisciplina. principalmente. O primeiro capítulo tratará dos direitos humanos. O ponto de partida da reflexão será a perspectiva jurídica. . principalmente. considerada como a base para que a escola assente suas decisões de maneira democrática e justa. Tendo presente essa perspectiva. este trabalho buscará entender como os fenômenos da indisciplina e da violência afetam o espaço escolar. demonstrando seu valor e sua necessidade para a efetivação no espaço escolar. a escolar. Por fim. frustração e imposição. e a dificuldade que as escolas possuem em compreender o que é a indisciplina e o ato infracional. e como redirecioná-los para uma formação humana mais sólida e cidadã. tendo em vista que o ordenamento jurídico é um instrumento de formação para a cidadania. na resolução do ato infracional. econômicos. culturais.

E o quinto capítulo delimitará as diversas tarefas que a perspectiva pedagógica deve resgatar na educação. não porque pune. harmonia. procurando ressignificar a sua missão. . mas porque realimenta a sua função na instituição escolar com objetivo essencial de formar seres cidadãos. além de estabelecer um Regimento Interno que favoreça o clima de união. Portanto. este Trabalho de Conclusão de Curso tem por finalidade mostrar que o direito e a pedagogia são duas molas propulsoras para a solução dos problemas no espaço escolar. transformadores da realidade.14 O quarto capítulo estudará como o direito no espaço escolar pode mudar o caráter de uma escola “bancária” para uma instituição que respeita realmente os direitos humanos. compreensão e solidariedade. reencantar o seu modo de atuação nos conflitos internos para realizar a cidadania.

em especial. tem cabimento a . Então. quando incidirem em determinado preceito criminal ou contravencional. 11). o qual será estudado no segundo capítulo. bem como na educação.15 CAPÍTULO I A PERSPECTIVA JURÍDICA NA EDUCAÇÃO A educação surge como um trunfo indispensável à humanidade na sua construção dos ideais da paz. no Brasil. 2001. A reflexão que se procura desenvolver neste primeiro capítulo tem o objetivo de apresentar as noções gerais sobre os direitos humanos e sua importância na educação. só pode ser atribuída. reflete-se neste capítulo a importância dos direitos na vida social. para perceber como são legitimados estes direitos no momento de solucionar conflitos. Para compreender a indisciplina e a violência é necessário levar em consideração que os educandos são iguais a todo o ser humano. uma vez que tanto os alunos quanto os próprios profissionais da educação não contribuíram para a efetivação destes direitos. Demonstra que os direitos são indispensáveis para superar a precariedade da vida do homem. às pessoas imputáveis. os maiores de 18 anos. além de possibilitar reaver aquilo que é pertencente aos seres humanos. Diante dessa caracterização. como gênero. no sistema jurídico nacional. p. para efeito da respectiva pena. A criança e o adolescente são também sujeitos de direitos. Tais reflexões possibilitam iniciar o assunto temático deste Trabalho de Conclusão de Curso que aborda a questão da indisciplina e violência escolar. da liberdade e da justiça social. das espécies crime ou delito e contravenção. A estes. o ato infracional1. é importante reconhecer que os fatos da indisciplina e da violência escolar devem ser pensados como um confronto à realização destes direitos. que são. sob a perspectiva pedagógica e jurídica em vista da construção da cidadania. Trata-se 1 “A infração penal. (DELORS. em regra.

a conduta descrita como crime ou contravenção penal. Isso também afeta a instituição educativa. padrões e valores de modo intenso. O período histórico atual é denominado de pós-modernidade. São Paulo: Atlas. entendida no sentido cultural. 361. Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado: Comentários Jurídicos e Sociais. significa a concorrência das informações com o conhecimento sistemático. BITTAR. São Paulo: Malheiros. 2008. sociais e culturais que influenciam e determinam a vida de cada ser humano. Trata-se de uma fase de avanços tecnológicos. ed. Munir (Coord. Guilherme Assis de. O desajuste existe. foi denominada por McLuhan de “aldeia global” que. mas de uma entidade jurídica a encerrar a idéia de que o tratamento a ser deferido ao seu agente é próprio e específico. p. 2008. as instituições passam por profundas mudanças. na linguagem do legislador. só pela circunstância de sua idade. políticos.16 agora de um olhar humano para a realização daquilo que torna os educando mais humanos: os direitos. 2009. Segundo Bittar e Almeida2. p.” (AMARANTE. Uma nova condição de vida devido à globalização que. grifo nosso). respectiva sanção. Não se cuida de uma ficção. 199). 1. 7. AMARANTE. mas. Napoleão X. B. p. Desse modo. simples ato infracional. a qual sofre interferências significativas nas suas relações jurídicas com o Estado.. propiciando nesta interação humana circulações de informações. (CASTRO. In: CURY. . financeiros. por se tratar simplesmente de uma realidade diversa. 2007. caracterizado por mudanças rápidas e contínuas. 2 Cf. p. Curso de Filosofia do Direito. mas. na acepção técnico-jurídica.). não constitui como crime ou contravenção. 640-641. Atualizada por Maria Júlia Kaial Cury. 9. a pós-modernidade pode ser caracterizada por: uma nova ordem de mundo e uma nova “constelação de valores” e condições de vida (2009. ALMEIDA. 640641). Da Prática do Ato Infracional. Cf. a conduta do seu agente não configura uma ou outra daquelas modalidades de infração. ed. Eduardo C. Abaixo daquela idade. In CURY. por sua vez. Ele se depara com um mundo neoliberal marcado por dificuldades. principalmente no aspecto jurídico. injustiças e obstáculos.1 OS DIREITOS HUMANOS: UM FUNDAMENTO PARA UMA VIDA DIGNA O ser humano vive num período complexo.

642). Consiste na exigência de que as instituições sociais coloquem em prática certos princípios que não dependem da existência humana. Essa . ALMEIDA. Ela também é uma das mais completas e ricas em instrumentos de direitos para garantir a eficácia do Estado Social que se fundamenta no Estado de Direito. (FERRAZ JÚNIOR. o Direito protege o homem do poder arbitrário. uma vez que a lei ou o direito existe para regular a vida humana. no caso. 2003. Mas como as práticas jurídicas não são efetivadas com justiça. p. ao menos paulatina e parcial que se projeta sobre as práticas jurídicas” (BITTAR. Por meio dele a sociedade se desenvolve e progride. porque “traz consigo uma mudança. a pós-modernidade contribui para profundas transformações na vida social. 1971. A lei escrita maior de um país. o direito estabelece normas para guiar a conduta humana e orientá-lo para uma vida saudável na convivência com os demais. 2009. Contudo. p. pode ser um instrumento de manipulação e alienação. o Brasil. p. p. O Direito refere-se à certa atitude. 47. é a Constituição Federativa que pode ser chamada de Carta Magna ou Carta Política. 2003. 643). 31). 2009. Ao estabelecer regras para organizar a sociedade. “está em curso um revisionismo das insuficiências da modernidade jurídica. um modo de pensar e abordar as instituições humanas em termos ideais. apud FERRAZ JÚNIOR. salvando-o da maioria caótica e do tirano ditatorial. A sua aplicação teórica acontece inicialmente através de leis escritas. ALMEIDA. Através dela organiza-se e fundamenta todas as ações que buscam efetivar um Estado Democrático de Direito. através de técnicas de controle e dominação implementar medidas que desumanizam a vida humana. Destarte. senão radical. Seus princípios e objetivos almejam uma vida digna. exercido à margem de toda regulamentação. 31-32). Também busca equalizar as relações sociais para realizar a justiça.17 Além disso. de seus abusos e de sua obsolescência” (BITTAR. (ARNOLD. p.

Só que o direito positivo tem uma distinção fundamental entre a norma considerada em si e a faculdade que ela confere às pessoas. Assim. (RAO. 4) E a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito. de agir em conformidade com a norma garantidora de seus fins e interesses. 553-554).. 2004. . 2004. lhes for devido”. RAO.]” (RAO. entre a norma que disciplina a ação (norma agendi) e a faculdade de agir de conformidade com o que ela dispõe (facultas agendi).. 102: a argüição de descumprimento de preceito fundamental decorrente desta Constituição será apreciada pelo Supremo Tribunal Federal.18 característica manifesta-se por causa de quatro regras básicas de máxima amplitude que têm como função alicerçar o Estado de Direito: 1) ação de descumprimento de preceito constitucional que se encontra no parágrafo 1° do art. bem como de exigir de outrem aquilo que. Cf. (BONAVIDES. p. Inclusive. 553). na forma da lei. Vicente. direito objetivo refere-se ao “complexo de normas gerais imposta às ações humanas. os problemas constitucionais referentes às relações de poderes e exercícios de direitos subjetivos têm que ser examinados e também resolvidos à luz dos conceitos derivados daquela modalidade de 3 O direito objetivo e subjetivo estão relacionados com o direito positivo. 2008. em termos de eficácia normativa. p. os princípios do Estado social com os do Estado de Direito. 215). na suas relações externas e feitas valer pela autoridade do Estado. 2) Os direitos e garantias previstos na Constituição que não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados ou dos tratados internacional pelas quais a República Federativa do Brasil faz parte. ed. O direito e a vida dos direitos. das quais pouco mais da metade foram aprovadas pelo Congresso Nacional. p. a fim de garantir aos indivíduos e à comunhão social a consecução de seus fins”. Ao passo que o direito subjetivo é a “faculdade concebida aos indivíduos. 215-216). São Paulo: Revista dos Tribunais. ou seja. em muitas das suas dimensões essenciais. 6. de modo formal e material. Dessa forma. de cerca de 200 leis complementares e ordinárias. Essas são as garantias fundamentais do direito objetivo e de direito subjetivo3 que perpassam a nova Constituição do Brasil. por força da mesma norma. 2004. a Constituição de 1988 é fundamentalmente. dependendo. Ela contém 250 artigos acrescidos de um Ato das Disposições Constitucionais Transitórias com 83 artigos. singulares ou coletivas de procederem segundo o seu preceito. p. uma Constituição do Estado Social. com a visão do largo e ambicioso espaço jurídico onde ela traçou a esperança de conciliar. O direito positivo é o “conjunto sistemático de normas destinadas a disciplinar a conduta dos homens na convivência social. asseguradas pela proteção-coerção a cargo o Estado [. 3) As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata. (BONAVIDES. 2008.

E o direito à liberdade concerne aos direitos civis e políticos. Por isso. no Artigo 5° prescreve: “Todos são iguais perante a lei. garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País. sem distinção de qualquer natureza. ao exercício da autoridade. 563). 2010). 2008. p. o Brasil precisou estabelecer direitos e garantias fundamentais para que se firmasse a ideia de um Estado que busque o bem comum. à distribuição da competência. tanto individuais como sociais” (BONAVIDES. cujo objetivo é a proteção dos direitos individuais e coletivos da pessoa humana. o direito ao meio ambiente. p. 2009. Em decorrência disso. a inviolabilidade do direito à vida. 2004). o direito de propriedade sobre o patrimônio comum da humanidade e o direito de comunicação” (BONAVIDES. aos direitos da pessoa humana.19 ordenamento. . culturais e econômicos bem como os direitos coletivos ou de coletividades” (BONAVIDES. 616). 2007. a igualdade e a fraternidade. São pessoas que possuem direitos relacionados intrinsecamente com os ideais revolucionários: a liberdade. Assim. (POZZOBON. o direito à paz. 569). p. 80). à segurança e à propriedade”. 2008. à forma de governo. protegendo-a de lesões ou violações. à liberdade. pois protege os direitos do homem (BITTAR. 2008. Tais ideais são princípios de direito. p. ALMEIDA. Na verdade. em busca da preservação da dignidade humana. p. Este artigo significa o “conjunto de normas pertinentes à organização do poder. O direito da igualdade se refere “aos direitos sociais. é um direito protetivo. 564). Também consiste em direitos fundamentais. Também “efetiva o princípio geral do reconhecimento de todos os seres humanos como pessoas e dá consequência jurídica a esse reconhecimento” (HERKENHOFF. à igualdade. 2008. (BONAVIDES. (HORTA. 184). O direito de fraternidade diz respeito ao “direito ao desenvolvimento. p. este artigo garante todos os direitos consagrados na Constituição.

” Complementando tais fundamentos é importante que se estabeleça os objetivos desta república que estão relacionados intimamente na busca do bem comum. sexo. sem distinção de raça. V . nacionalidade. 2007.construir uma sociedade livre. direitos de créditos diante do Estado que demandam direcionamento dos governos para o cumprimento de necessidades sociais através do desenvolvimento de políticas públicas. 1° [. tendo como meta a igualização de condições de vida assimétricas. em vez de realizar barbaridades na vida social. Tais políticas têm como foco a redistribuição de bens numa sociedade. a saúde. justa e solidária. 3° [.]. A dignidade também é garantida no artigo 6° da Constituição Brasileira que reza: “São direitos sociais a educação. São assim. São direitos que objetivam a dignidade. p. a segurança.os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. o trabalho. a moradia. IV . Aliás. sem preconceitos de origem. 131). (HADDAD. GRACIANO. o lazer. III . Nessa igualização de condições.. 1. II . na forma desta Constituição”. 185). profissão.” . a previdência social. I . 4 De acordo com a Constituição Federal. sexo.. todos devem ter seus direitos garantidos e legitimados para que a dignidade seja resgatada.a cidadania.a dignidade da pessoa humana. cor. o Estado Democrático de Direito do Brasil tem como fundamentos: “Art.garantir o desenvolvimento nacional.o pluralismo político.. um modo de estabelecer a igualdade e a justiça no cenário brasileiro.20 Esses direitos são valores-fonte que complementam outros direitos (HORTA. IV . como meio de realizar a dignidade na vida humana. idade e quaisquer outras formas de discriminação.a soberania. I . destaca-se para o estudo deste Trabalho de Conclusão de Curso o direito social à educação. Assim. III . a dignidade é um fundamento do Estado4 (Art.].erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais. cor.promover o bem de todos. a assistência aos desamparados. pois todos são iguais perante a lei. Os objetivos são: “Art. p. II . 2006. Inciso III). a proteção à maternidade e à infância.. raça.

(1996. 1°. essencial e imprescindível. como brota do próprio art. 210. as incompreensões. Ela é a “via que conduz a um desenvolvimento humano mais harmonioso. p. Educação: um tesouro a descobrir. . 52). Garantir a educação é dar o substrato para que o indivíduo legitime os seus direitos e realize a dignidade humana. p. jan. “a educação surge como um trunfo indispensável à humanidade na sua construção dos ideais da paz. A educação é um bem natural. A sociedade que não cuida da educação de seus membros compromete o seu futuro e destina-se a ser dominada pelas mais desenvolvida. mais autêntico. 5 6 DELORS. São Paulo: Cortez. E mais: a Constituição que não privilegia esse direito e não instrumentaliza os seus titulares para fruí-lo. 6. de modo a fazer recuar a pobreza. Revista Brasileira de Estudos Políticos. Jacques. e a educação é um direito essencial que assegura demais direitos. p. a exclusão social. Belo Horizonte. In CURY. 1996. as opressões. 2001. p. bem como seu desenvolvimento. 11).]” (2001. bem maior objeto de tutela pelos denominados direitos fundamentais. A questão é social por excelência. A sociedade contemporânea civilizada é uma sociedade essencialmente estruturada na educação. é necessário garantir a educação para propiciar a dignidade. p.. da liberdade e da justiça social” (2001. p. atributo da dignidade da pessoa humana. as guerras [. da CF”.2 DIREITO À EDUCAÇÃO: EM BUSCA DA REALIZAÇÃO DA DIGNIDADE HUMANA De acordo com Jacques Delors5. contribuindo assim para a construção da paz na sociedade 6. a educação para Joaquim Carlos Salgado7 deve ser vista da seguinte forma: A educação na sociedade contemporânea adquire importância vital para quantos dela participam. 15-69. Joaquim Carlos. “A educação é a base da construção da cidadania. (SOUZA. põe a perder toda a boa intenção do seu texto. 11. 7 SALGADO. só serão possíveis pela educação. 11). III. Ou seja. ed. e sua subsistência como tal. Os direitos fundamentais. 82.21 1. Se a dignidade efetiva-se por meio da realização dos direitos. n. 2008.. grifo do autor).

muitas das normas de direitos sociais devem ser vistas como princípios “que. exigindo assim a intervenção do Estado na realização de políticas públicas. Porém. não diminuindo assim as possibilidades de sua efetivação. Eles “são mandados de otimização” (HADDAD. porém. . que exigem a realização de algo ‘na maior medida possível’. ao omitir-se. que propicia uma desumanização dos seus objetivos e funções. Revista do NUPE. 134). 37). Inclusive. então. p. (HADDAD. Contra a barbárie: por um direito constitucional insurgente. Logo. que. a Constituição Brasileira é um instrumento jurídico-normativoemancipatório. ela realiza-se de modo disforme. são verdadeiras normas jurídicas e como tais devem ser consideradas” (2006. p. Para Haddad e Graciano.22 A Constituição perderá. 2006. sendo estes regulamentados no artigo 6°. pois vive em circunstância liberal. permitindo que o sistema ideológico e manipulador perpetuem. a Constituição de 1988 traz um capítulo próprio de direitos sociais (Capítulo II do Título II) e um título sobre a Ordem Social (Título VIII). Leandro Corrêa. As regras ou normas dizem o que deve ser feito.134). exigem-se novos métodos de interpretação judicial para a sua aplicação. os direitos sociais devem ser inscritos na Ordem Social. viola tais 8 Segundo Leandro Oliveira (2005). 2006. uma vez que esta interpretação é mecanizada. GRACIANO. mas não limitam os direitos pelo fato de serem princípios. isto é. Cf. formado por diversas normas que têm aplicação imediata. dissociada de sua real função social e jurídica. De acordo com Eliana Teixeira (2001. 134). 04/2005. levando-se em consideração não apenas as possibilidades jurídicas. GRACIANO. apesar de apresentarem alto grau de generalidade. FDSM: N. como os limites reais existentes para a sua concretização” (HADDAD. p. GRACIANO. individualista e normativista do Direito. 2006. mas não realizou seu objetivo de emancipar. os princípios da Constituição não são cumpridos. OLIVEIRA. a educação é entendida como um direito social e torna-se uma política pública fundamental para a vida humana. Os princípios devem ser compreendidos como um “tipo especial de norma. 133). ascética e burocrática. mas sim manipulados. Direcionam ações que regulam a sociedade em vista da realização de tais direitos. p. Na Constituição. p. seu caráter cidadão e de instrumento jurídiconormativo-emancipatório8 se desconsiderar a educação como direito base para vida de todo e qualquer cidadão. porque sua interpretação é descompromissada e a busca da transformação social não realiza seus objetivos.

GRACIANO. Cf. que acentuava seu caráter meramente individual”. GRACIANO. (HADDAD. 2001. porque há a garantia do direito de exigir a prestação estatal e um dever da sociedade para contribuir com o desenvolvimento da educação. p. Desta maneira. conforme dispõe o artigo 5°. tendo como meta a igualização de condições de vida assimétricas” (2006. 2006. 2006. Trata-se de uma lesão de direitos extremamente grave. e a sua proteção é dever da família. In CURY. . VII. no caso de se referirem aos direitos sociais. 2001. Ou seja. 2001. inciso XXXV da Constituição Federal. GRACIANO. A educação entre direitos humanos.143-144). § 1º). como direito social. grifo do autor). 2008. possuem um caráter coletivo. é uma conquista. O direito à educação é um dever do Estado10. Os direitos sociais consistem em “[. criou o Estado como organismo forte.23 direitos e que. 145). “pela primeira vez na história brasileira. como tal. 101). p. o Estado assume uma postura intervencionista. órgão incumbido de apreciá-las. é um direito assegurado e que deve ser exigido. (TEIXEIRA. Sérgio. HADDAD. p. deve ser levada ao Judiciário. Tais políticas têm como foco a redistribuição de bens numa sociedade. da sociedade e do Estado” (AMARAL E SILVA.. 9 De acordo com Haddad e Graciano. mas também da família. (HADDAD. que afeta a integridade do sistema e. sendo promovida e incentivada com a colaboração de todos (Art. p. mas também um direito subjetivo. “o reconhecimento dos direitos sociais contribuiu para que se operasse uma profunda alteração no discurso vigente sobre a natureza dos direitos humanos. É um direito para toda a sociedade que. um papel de prestador de serviços na área de educação. Esse dispositivo constitucional possui um caráter bifronte. por meio de sua organização e em prol de seus interesses. esse direito é um direito público subjetivo. p. 131). 100-101). p. 17. 2006. São Paulo: Ação Educativa. 38). 10 Um dever presente na Constituição Federal de 1988 que. Mariângela. 205 da CF/88). Com isso. (TEIXEIRA. sendo assim acionável e exigível (Art. 208. Não há nada pior em um Estado social do que a omissão dos poderes públicos no tocante à realização das políticas públicas constitucionalmente delineadas. aborda a questão da criança como prioridade absoluta. (TEIXEIRA.] direitos de créditos diante do Estado que demandam direcionamento dos governos para o cumprimento de necessidades sociais através do desenvolvimento de políticas públicas.. p. pois nem sempre esteve presente como um direito social nas constituições anteriores9. Uma violação que não pode acontecer diz respeito ao direito à educação que. tendo por objetivo atender os interesses desta. Inclusive.

a educação torna-se o instrumento integrador. de igualdade e de justiça para todo e qualquer ser humano. o direito de exigir coativamente. no mundo pós-moderno. Haddad e Graciano (2006. 205 da CF/88). 133). fazer ou não fazer algo em benefício de um particular. a prestação devida. 150). p. contribuindo assim para o seu desenvolvimento sustentável. a educação básica busca cumprir a sua finalidade que é: “o pleno desenvolvimento da pessoa. na falta de cumprimento da obrigação. (2006. Sendo um direito público subjetivo. O Estado. já que a educação é a alma da democracia. p. p. pode ser constrangido judicialmente a executar o que deve. Sem ela. em juízo ou fora dele.24 Para Haddad e Graciano. em especial. e a garantia de um Estado Democrático de Direito depende dos investimentos da educação” (TEIXEIRA. Daí a necessidade de os dispositivos constitucionais buscarem legitimar a educação como um direito social.] poder público tem o dever de dar. 2001. 127) afirmam que o reconhecimento do direito à educação encontra-se presente nos principais documentos internacionais de proteção dos direitos humanos: o Pacto Internacional dos Direitos . porque é “do desenvolvimento da educação que todos os demais anseios da sociedade serão resolvidos. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (Art. ou seja. tem contra o devedor uma pretensão. socializador e dignificador da vida humana. Neste caso. O titular. Um investimento adequado reconhece que o direito à educação é uma garantia fundamental para que se realize uma condição de vida digna. Dada a sua importância.. a educação foi tema debatido ao longo dos séculos. nessa circunstância.. o direito público subjetivo consiste no [. Dá o suporte para que o indivíduo desenvolva suas potencialidades e humanize-se. quando se percebe a necessidade de reconhecer os direitos dos homens que foram violados e barbarizados pelos próprios homens no decorrer do desenvolvimento da história humana. não é possível que a sociedade prospere e contribua para o desenvolvimento da humanidade.

este protocolo aborda no artigo 13 o direito à educação pelo qual prescreve. tolerância. 16 de dezembro de 1966.onu-brasil. ciência e cultura. pois foi assinada e aberta na Conferência Especializada Interamericana sobre Direitos humanos.cidh. 2010. in verbis: “Os Estados Partes neste Protocolo convêm em que a educação deverá orientar-se para o pleno desenvolvimento da personalidade humana e do sentido de sua dignidade e deverá fortalecer o respeito pelos direitos humanos. deve crescer num seio da família.idh. 2010.org/dwnld/ac_apoio/legislacao/outros/pacto_internacional_2.25 Econômicos. favorecer a compreensão. no plano interno. a fim de conseguir progressivamente a plena efetividade dos direitos que decorrem das normas econômicas. ONU.org/Basicos/Portugues/e. Ainda. Pacto de San José da Costa Rica. tanto no âmbito interno como mediante cooperação internacional. Acesso em: 31 ago. que se fundamenta no respeito aos direitos essenciais do homem. permitindo que as pessoas possam ter seus direitos econômicos. 12 A Convenção sobre os Direitos da Criança diz que a infância tem direito a cuidados e a assistência especiais. PROTOCOLO DE SAN SALVADOR. 2. na medida dos recursos disponíveis. reformada pelo Protocolo de Buenos Aires. num ambiente de felicidade. Cf. . As regras que se referem ao direito à educação estão prescritas no artigo 28 e 29. 10. no dia 22 de novembro de 1969. 3). foi adotado pela Resolução n. sociais e culturais. principalmente. em 16 de dezembro de 1966. Disponível em: <http://www. para desenvolver sua personalidade de modo pleno e harmonioso. 2.br/casdh. dizem que devem ser adotadas medidas especiais de proteção e assistência para todas as crianças (art. Inclusive. dita algumas exigências que devem ser cumprida para que realize dignamente estes ideais. pela justiça e pela paz. San José da Costa Rica.” CONVENÇÃO AMERICANA SOBRE DIREITOS HUMANOS. igualdade e solidariedade. Disponível em: <http://www. 2010. Convêm.pdf>. amor e compreensão.br/doc_crianca1.htm>. em que a educação deve capacitar todas as pessoas para participar efetivamente de uma sociedade democrática e pluralista. étnicos ou religiosos e promover as atividades em prol da manutenção da paz. 13 A Convenção Americana dos Direitos Humanos é conhecida como Pacto de San José. com espírito de paz. a Convenção Americana de Direitos Humanos13 e o Protocolo de San Salvador14. 2010. sociais e culturais também reconhecidos e legitimados. o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Plano Nacional da Educação (PNE). Acesso em: 31 ago. constantes da Carta da Organização dos Estados Americanos. Cf. Disponível em: < http://www2. É um acordo que busca reconhecer a importância dos direitos humanos. Consiste na consolidação do continente americano. sociais e sobre educação. Prescreve no artigo 26 que os Estados Partes devem se comprometer a “adotar providências. Sociais e Culturais. de um regime de liberdade pessoal e de justiça social.foncaije. dignidade. Em especial.Protocolo_de_San_Salvador. liberdade. 14 O Pacto de San Salvador trata-se de um pacto adicional à Convenção Americana Sobre Direitos Humanos referentes aos direitos econômicos. no Fórum Nacional 11 O Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. deve ser educada de acordo com os idéias da Carta das Nações Unidades. Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. justiça e fraternidade no mundo. Sociais e Culturais11. conseguir uma subsistência digna. uma vez que visam a realização da igualdade. bem como a necessidade da sua legitimação pelo poder público. para poderem assumir plenamente suas responsabilidades dentro da comunidade. ONU. Por isso. por via legislativa ou por outros meios apropriados.php>. e o Brasil tornou-se signatário desse acordo em 24 de janeiro de 1992. a Convenção sobre os Direitos da Criança12. Resolução n. buscando assim. Cf. reconhece que ela. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação representa a participação cidadã dos diferentes segmentos da sociedade civil organizada na área da educação. superar a violação constante dos direitos para legitimar uma vida coerente com princípios que humanizam a vida e ceda espaço a inclusão social e a proteção dos seus direitos. demonstrando que elas são uma prioridade absoluta e merecem proteção integral.org. Convenção sobre os Direitos da Criança. Por isso. Sociais e Culturais. pelas liberdades fundamentais. Este pacto demonstra que os países signatários concordam com o reconhecimento da dignidade inerente a todas as pessoas e dos seus direitos iguais e inalienáveis.200-A. a Constituição Federal de 1988. 22 de novembro de 1969. a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).org. também.200-A (XXI) da Assembleia Geral das Nações Unidas. especialmente econômica e técnica. e.” Consequentemente. em San José da Costa Rica. a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais. apresenta no artigo 13.htm>. Acesso em: 31 ago. Disponível em: <http://www. diretrizes gerais para garantir o direito à educação em todos os níveis da educação. Acesso em: 31 ago. pelo pluralismo ideológico. Estabelece o reconhecimento de que os direitos são atributos de qualquer pessoa humana e é importantíssimo reconhecer a sua dignidade.

Se. uma vez que suas normas somente atingem os grandes problemas enfrentados pela educação. mas não pode ser tomada como um fim em si mesma. toda legislação é também fruto das tensões de interesses. de cada escola. 9. qualidade do acesso e permanência etc. foi aprovada e sancionada em dezembro de 1996. Em razão disso. 05-21. pois ela se encontra distante da realidade brasileira. TEIXEIRA In BRZEZINSKI. como poderá ocorrer com a lei 9. laica e de qualidade. Salvador: Revista de Educação CEAP. e sim na ação de cada professor. . (PEREIRA. Além do mais. As participações populares. ela reflete os usos e costumes da sociedade que a produziu. defendiam uma escola pública. n. 2008. somadas com a das escolas privadas. representadas por intelectuais. 15 Cf.26 em Defesa da Escola Pública na LDB.692/71). ano 5. uma vez promulgada a nova LDB. p. uma lei não é uma diretriz infalível e abstrata a partir da qual tudo o contexto real vai ser ordenado. Isso não ocorreu com a lei anterior (5. gestão escolar. por um lado. 17. acordos e alianças envolvidos no seu processo de elaboração. de cada centro educativo. 99-100). pois as bases dessa responsabilidade social não estão no seu texto.394/96? (RAMAL. e ordena a prática social no sentido de possibilitar seu controle e sua regulação. como Lei. necessita ainda de ser reformulada para corresponder às expectativas do mundo. 1997). jun. todas as reformas propostas serão realizadas. gratuita. salário dos professores. tais como: carga horária. Contudo. por outro ela se propõe assumir a condição de orientadora dessa prática. acenando para modos de agir e de conviver que se distanciam dessa mesma prática. A nova Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional. procurando trazer o ideal para o real. atribuições e responsabilidades. Suas propostas. após 14 anos. A Lei distribui funções. p. de 1997. deve-se evitar um sentimento ingênuo de que.394. investimento. RAMAL. Andrea Cecília. e apresentadas ao Congresso Nacional. assim como todas as práticas pedagógicas sugeridas serão cumpridas. De acordo com Andre Ramal (1997) 15.

Eis o processo educacional: amadurecer-se e transformar-se. coerência e igualdade para realizar democraticamente a sua função. laico. A LDB. no seu artigo 3°. Tal garantia contribui para que os indivíduos tenham as mesmas oportunidades que outros que estudam em escola particular. almejando assegurar o acesso e a permanência do aluno na escola. (RAMAL. Possibilitar a democratização da educação é ajudar a consolidar a cidadania. desenvolver a personalidade e qualificá-la para o trabalho. 1997). destinado à formação comum. mas percorrê-lo é ainda um desafio. Assim deseja ampliar o direito à educação. por meio de uma “garantia de padrão de qualidade” (art. como um direito público. 101-104). liberdade e fraternidade para que estabeleça um ensino público. como a questão da ampliação do direito à educação básica. exige um ensino universal. pois esta lei é como a semente lançada que deve ser regada e adubada por atitudes previstas em lei para que surjam frutos. A educação básica. 101). a educação não se muda por decretos. .27 Aliás. nos últimos anos. Nas entrelinhas dos 92 artigos escritos em linguagem jurídica podem ser encontradas as mudanças com que se sonha no cotidiano no espaço escolar. 2008. 3°. Inclusive. mesmo que lentamente. mas a partir de agora é o conjunto dessas diretrizes que vai fundamentar a ação pedagógica dos brasileiros pelos próximos anos. 2008. Chegou o momento de exigi-las e ousá-las. IX). TEIXEIRA In BRZEZINSKI. (PEREIRA. Tal processo constata-se. dada a exclusão e marginalização cruel que ainda existe. Uma educação para todos aqueles que se fundamentam no princípio republicano de igualdade de oportunidades educacionais. TEIXEIRA In BRZEZINSKI. inclusive. na legitimação dos princípios de igualdade. Além de outras garantias que objetivam reconhecer os direitos de todos com honestidade. gratuito. p. A LDB não é um texto ideal e faltam ajustes. prescreve o princípio da “igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”. universal e único e obrigatório (PEREIRA. p. É claro que um caminho foi trilhado.

[.28 Deste modo. Cada um desses níveis tem uma função social. (LIBÂNEO. Ele foi aprovado pelo Congresso Nacional. 2009. inciso I. De acordo com a lei. Com efeito.. integram-se. I. 4 da LDB). CF de 88/ Art. 208.. objetivando formá-los tanto intelectualmente. de forma que o nível seguinte nunca terá o objetivo de suprir as fragilidades e/ou dificuldades ocorridas no anterior. Essa clareza é fundamental para evitar equívocos prejudiciais à formação do indivíduo. fundamental e médio. sendo acompanhado pela sociedade civil organizada. Municípios e Distrito Federal elaborarem seus planos decenais. o governo precisou criar um Plano Nacional de Educação (PNE) por meio da Lei n°. Antevisto. p. que é uma reavaliação do decênio do PNE . em 9 de janeiro de 2001. uma finalidade educativa delimitada. Por isso. TOSCHI. OLIVEIRA. 105).162. inclusive. Desde ano passado e no decorrer deste ano. 158). um trabalho político-pedagógico a ser desenvolvido junto aos alunos.] a ampliação do conceito de educação básica há de se refletir na integração entre os seus vários níveis – e desses necessariamente com o ensino superior -. de dois projetos de lei. o PNE deve ser avaliado periodicamente pelo Poder Legislativo. Eles complementam-se. (PEREIRA. 214 e presente na LDB no artigo 9°. TEIXEIRA In BRZEZINSKI.172/2001. mas não devem ser mutuamente compensatórios. ao processo de aquisição gradativa e integralizada do saber. Essa lei criou a obrigatoriedade de Estados. 2008. ao efetivar o direito à educação. através da Lei nº 10. o do MEC e o da sociedade brasileira. Com isso existe uma concepção unificada da educação básica que enseja dar oportunidade que o aluno estude desde os 4 até os 17 anos de idade. foram estabelecidas novas prioridades para a Década da Educação no PNE 2011/2020. ao desejar priorizar a educação básica. levando à composição de um bloco de conhecimento e à formação de habilidades e atitudes calcadas em valores éticos e na participação. Ele deve ser resultado da discussão nas duas casas legislativas federais (Câmara e o Senado). e publicado no Diário Oficial da União. quando psicologicamente e afetivamente. efetiva-se as diversas possibilidades de direitos promulgados na carta política. 10. o PNE é uma exigência constitucional através do Art. para aqueles que não tem a idade certa (Art. p. é imprescindível que o indivíduo tenha o direito à educação na garantia dos diversos níveis da educação básica: infantil.

o Plano Nacional da Educação precisa definir diretrizes para a realização das suas prioridades. que introduzir o advérbio "teoricamente" porque. Ele se define. ele define: as diretrizes para a gestão e o financiamento da educação. as diretrizes e metas para cada nível e modalidade de ensino e também na formação e valorização do magistério e dos profissionais da educação. como um conjunto de ações que. TOSCHI. Com efeito. antes. em sentido próprio. b) Garantir ensino fundamental a todos os que a ele não tiveram acesso na idade própria ou que não o concluíram. se constituiriam em estratégias para a realização dos objetivos e metas previstos no PNE. teoricamente. c) Ampliar o atendimento nos demais níveis desse ensino. o Plano Nacional da Educação por si só não realiza as suas metas e diretrizes necessárias. Ele possui os seguintes objetivos: a) a elevação global do nível de escolaridade da população brasileira. b) a melhoria da qualidade de ensino em todos os níveis da educação. Além da realização destes objetivos. confrontando-se a estrutura do Plano Nacional de Educação (PNE) com a do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE). c) a redução das desigualdades sociais e regionais na questão de acesso e permanência na escola pública. de fato. Com efeito.29 anterior. 2009. Tive. d) Valorizar os profissionais da educação. concentrando-se na proposta de mecanismos que visam à realização progressiva de metas educacionais. e) Desenvolver os sistemas de informação e de avaliação em todos os níveis e modalidades de ensino. constata-se que o segundo não constitui um plano. o PDE dá como pressupostos o diagnóstico e o enunciado das diretrizes. porém. Por isso. Todavia. as prioridades que devem reafirmar-se são: a) Garantir ensino fundamental obrigatório. p. sendo necessário que o Plano de Desenvolvimento da Educação esteja articulado com ele para um cumprimento real dos objetivos e prioridades que devem ser legitimadas na sociedade civil. Assim. (LIBÂNEO. prescreve as prioridades para que seja garantido com eficácia o direito social da educação. 159). buscando medidas necessárias para que o direito à educação seja legitimado na sociedade. Segundo Saviani (2007). que devem obedecer aos princípios da participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola e da participação ativa da comunidade escolar e locar em conselhos escolares e equivalentes. o PDE não se define como uma estratégia . d) a democratização da gestão do ensino público nos estabelecimentos oficiais. OLIVEIRA. assegurando seu ingresso e permanência na escola e a conclusão desse ensino.

mas se compõe de ações que não se articulam organicamente com este. o PDE não se configura como um Plano de Educação propriamente dito. Cumpre. Acesso em: 29 abr. antes. aí. não fazia parte do PNE e também não se encontrava nos planos anteriores. universalizar o atendimento público e gratuito da pré-escola. Disponível em: <http://www.. ensino fundamental de nove anos e ensino médio. De acordo com o Ministro Haddad16. deve-se atentar para a singularidade do Plano de Desenvolvimento da Educação para uma melhor apreensão do seu significado e relação com o Plano Nacional da Educação. isto é. constata-se que. aquilo que o distingue de outras peças também ligadas ao termo "plano". portanto. expandir a educação profissional. o nome "plano" evoca. um negativo e outro positivo. na verdade. Trata-se da preocupação em atacar o problema qualitativo da educação básica brasileira. em regime de colaboração entre União. implantar a escola de tempo integral na educação básica. Conae 2010: Ministro sugere metas de qualidade no novo Plano Nacional de Educação. Em sentido negativo. indígenas. ampliar o investimento em educação pública. tais como: extinguir o analfabetismo.. percebe-se que existem alguns desafios que são prementes e buscam a superação desse plano. 2010. democratizar a oferta de vagas no ensino superior. Ele não parte do diagnóstico. valorizar a carreira do magistério. das diretrizes e dos objetivos e metas constitutivos do PNE. pode ser aferida em dois sentidos. estados e municípios. e estabelecer padrões de qualidade para cada modalidade de educação. . o PNE deve trabalhar prioritariamente por uma educação qualitativa através de meios de atendimento e com recursos necessários ao seu 16 SBPC.br/5com/popup/conae_2010_ministro_sugere. Em sentido positivo. a singularidade do PDE se manifesta naquilo que ele traz de novo e que. implantar o Sistema Nacional de Educação.org. um programa de ação. 29 de março de 2010.].adur-rj. o que se revela em três programas lançados no dia 24 de abril: o "Índice de Desenvolvimento da Educação Básica" (IDEB). o "Provinha Brasil" e o "Piso do Magistério". pois. examinar especificamente essa questão. Jornal da Ciência.30 para o cumprimento das metas do PNE.htm>. atingindo 10% do PIB até 2014. É. Ainda de acordo com Saviani (2007). valorizar os profissionais da educação. entendida esta como um processo global que articula a multiplicidade dos seus aspectos constitutivos num todo orgânico [. garantir oportunidades para estudantes com deficiência. Assim sendo. afro-descendentes e povos do campo. mais alguma coisa como o "Plano de Metas" de Juscelino Kubitschek do que a idéia dos planos educacionais como instrumentos de introdução da racionalidade na ação educativa. A singularidade do PDE. Retornando ao Plano Nacional da Educação 2011/2020.

principalmente. o bem comum. gratuita. SILVA. busquem realizar uma educação pública. fundamentado na ética e na participação democrática.31 cumprimento. e no qual nossas práticas pedagógicas e educacionais se constituam alternativas concretas de resistência à destruição dos direitos sociais alcançados e expressos na Constituição Federal de 1988”. bem como da União. o segundo capítulo vai procurar demonstrar que o Estatuto da Criança e do Adolescente é outra “asa” necessária para que o indivíduo possa voar ainda mais alto rumo ao desenvolvimento integral do ser humano. dentro do ambiente educacional. após uma experiência frustrante da Década da Educação de 2001/2020. democrática e de qualidade para todos. por meio da articulação entre a sociedade civil e o governo. Ele reconhece a importância de investir na educação infantil. mas a realidade ainda é de exclusão e marginalização daqueles que não têm oportunidades ou daqueles que mesmo encontrando-se na escola não têm uma educação com qualidade. diversas leis ajudam resolver efetivar o direito à educação. Enfim. da escola e da sociedade. (SBPC. a . os objetivos e as prioridades anteriormente vistas são aperfeiçoadas. 34). acrescentando novas prioridades para a Nova Década da Educação para o PNE 2011/2020. levando em conta a noção de que o Direito é a instituição jurídica necessária para desenvolver e regular a vida em sociedade. Quando os próprios conflitos. Portanto. Espera-se que assim. Um anseio que se encontra presente também no Estatuto da Criança e do Adolescente que procura regulamentar diversos direitos e deveres das crianças e dos adolescentes. são resolvidos democraticamente e juridicamente. dos pais. em busca de um Brasil “mais ‘civilizatório’ e menos bárbaro. 2003. (VIZIM. na solução dos conflitos dentro do espaço escolar. Direito social da educação que ainda encontra grande entraves e obstáculos. universalizar o ensino e valorizar os professores. É necessário pensar num projeto político-pedagógico para a educação brasileira. 2010). p. Por isso.

em especial. Por isso. principalmente. exige sua legitimação na vida social para que se estabeleça uma harmonia na sociedade. (SILVA. não valorizá-la. discordarem dos métodos de ensino empregado e da maneira como os professores se relacionam com eles. Dessa forma.32 igualdade. p. impele para valores e regras que contribuem para a melhor forma possível de convivência. diante de um mundo pós-moderno que se muda continuamente. 2004. que tende a concebê-la como hiperatividade – é decorrente muito mais do fato de a criança e o adolescente não saberem o que estão fazendo na escola. da violência escolar. O Direito. o fenômeno da indisciplina e. consequentemente. pelo conteúdo escolar estar aquém ou além do nível de desenvolvimento cognitivo e de aprendizagem. 203-204). CAPÍTULO II ATO INFRACIONAL: UMA PERSPECTIVA JURÍDICA NA EDUCAÇÃO A indisciplina – contrariamente à visão biológica. a justiça e a dignidade humana que devem deixar de ser meros ideais para se tornarem realidade. é necessário analisar o Estatuto da Criança e do Adolescente que oferecem significativas . provocando transmutação dos valores. por não terem os valores morais como centrais em sua personalidade (ou ter apenas os de caráter mais privado) e por terem o espaço de recreação prematuramente cerceado e. de desenvolvimento por razões ligadas às condições objetivas de vida.

contribuindo para que surja o direito que pressupõe a coexistência social. Kant diz que o direito18 é um “conjunto de princípios capazes de informar uma legislação positiva”. isto é. da sociedade e de outras instituições. cada um pode usufruir da liberdade que lhe é concedida pelo direito de todos os outros de usufruir de uma liberdade igual à dele. 18 De acordo com Cretella Júnior (2008. investigou o sentido da posse e da propriedade. que lhe proporcionam os meios de conservação e desenvolvimento”. . Aliás. criticou o instituto da escravidão. em um determinado território. 147-148). 1997. dos adolescentes. ALMEIDA. mas que deve considerá-lo “em estado de comunhão com seus semelhantes. O Direito. (BOBBIO. O direito natural não se 17 Entender o que seja o direito necessita olhar para a realidade cotidiana pela qual percebe que “a atividade do ser humano sempre se exterioriza através de suas relações com os seus semelhantes. p. a posição do direito como parte da metafísica dos costumes. materiais. bem com sua teoria dos “direitos reais quase pessoais [. a natureza da pena. (RAO.. dos pais.1 O DIREITO E A EDUCAÇÃO NA VIDA ESCOLAR Direito e Educação são duas ferramentas imprescindíveis regular. estudou o direito inato e os direitos adquiridos. ajuda a desenvolver o ser social do homem. porque somente onde a liberdade é limitada. 2004. apud BITTAR.. como parte do todo social. o fundamento do direito de punir. estabelece regras e normas para ordenar melhor a convivência entre os membros da sociedade. a liberdade de um não se transforma numa não-liberdade para os outros. p. a finalidade de proteger a liberdade dos cidadãos. o direito público classifica-se em três partes: direito político.. Kant estudou na área do direito: “O estado de necessidade. Assim. expôs a doutrina dos direitos reais e dos direitos pessoais. 315).]. que tem por sua vez. Direito político refere-se ao conjunto de normas instauradas pelos seres humanos que vivem juntos.17 O direito é o que possibilita a livre coexistência dos homens. 70. ou de sua ação sobre os bens.. p. p. Ele pode ser de dois tipos: natural ou positivo. 2009. 51). como um pacto ou acordo. 2008). direito das gentes e direito cosmopolita. personalizada no Estado. (CRETELLA JÚNIOR. formar e desenvolver a humanidade. para que se coloquem sob uma vontade única. mas ambas têm uma meta comum: estabelecer uma vida digna. para que seja possível a proteção e ao aperfeiçoamento do homem.33 orientações para zelar pelos direitos e cumprir os deveres das crianças. Possuem objetivos diferentes. a coexistência em nome da liberdade. a que pertence”. a equidade.]”. de acordo com o pensador Konigsberg. Analisou a fórmula de Ulpiano [. 2.

F. Isto é. 52-53) demonstra a importância do direito desde a concepção da vida humana: O direito ampara o ser humano desde o momento em que é concebido e enquanto ainda vive no ventre materno. preocupa-se com as relações exteriores ou práticas. . O direito positivo é diverso entre os povos. p. Aliás. regularizando as condições formais e modalidades através das quais se torna possível que as pessoas realizem seus fins e interesses individuais. 2008. (2009. de momento histórico. 2008). e a liberdade de todos estão em relação a uma lei universal. a liberdade. pois se baseia em postulados da razão humana. Rao (2004. 147). todas as legislações se fundamentam num mesmo conjunto de princípios. (CRETELLA JÚNIOR. Kant identificou os direitos naturais com a liberdade. E depois o segue e acompanha em todos os passos e 19 Segundo Nader. 2008).34 mistura com o direito positivo. p. LEITE. Ressalta-se. não sendo assim uma disciplina das volições. refletindo-se no direito positivo de cada povo. direito e faculdade de coagir representam a mesma coisa. O direito é de fundamental necessidade para que as relações estabelecidas na sociedade reafirmem os seguintes valores: o respeito. 145). A liberdade de um ser humano é limitada por causa da liberdade de outro. A coação é o instrumento pelo qual procuram anular as inclinações sensíveis que prejudiquem o uso da liberdade dos outros. Cf. Também é a forma universal da existência de diversas liberdades individuais. não dependendo de nada. Só que o direito não tem o dever móbil. Assim. o direito não regulamenta a matéria da exteriorização dos atos arbítrios. Primeiras lições sobre Kant. não dependendo da legislação externa. buscando equilibrar as relações existentes20. a constituição civil é uma relação de homens livres que se encontram sob leis coativas. visto que não é possível separar a forma do conceito jurídico (CRETELLA JÚNIOR. Tais direitos são conhecidos a priori pela razão. Também é a disciplina nas atividades externas dos seres humanos. dependendo das circunstâncias de tempo. dos pensamentos ou dos desejos. os contratantes são vistos como iguais e livres. No direito. Só que a aplicação deste direito podem se diversificar. In: ______. Por isso. Petrópolis: Vozes. por isso. (CRETELLA JÚNIOR. (LEITE. Já o direito natural19 é um só. de lugar. T. É a canônica que dá origem ao direito e informa-o. que o direito não controla as intenções do homem. a igualdade. é importante uma competência coercitiva que é a fundamentação e preservação da liberdade dos indivíduos. no pensamento kantiano. mas todos são livres. 2007). 2007. a justiça e a dignidade. o direito é uma ciência formal. mas sim o seu aspecto formal. p. Razão prática e direito. porém. 20 O direito também se funda na condição geral que deve aceitar ao mesmo tempo a todos os arbítrios.

o direito. É responsável pela edificação de um mundo mais solidário. que Deus fez à sua semelhança. Por isso. Prevê e segue. fazer. Ubi societas ibi jus. Contempla sua qualidade de membro de grupos sociais e de membro da comunhão política. a educação molda. o direito forma e molda o ser humano. De fato. e um grande espaço dedicado ao conhecimento das culturas e dos valores espirituais das diferentes civilizações e ao respeito pelos mesmos para contrabalançar uma globalização em que apenas se observam aspectos econômicos ou tecnicistas”. Protege-lhe. “com um componente ético essencial. o direito decorre. parente. com o seu nascimento. também da natureza do homem. Se a coexistência social resulta da natureza humana. obrigadas a uma prestação de dar. Define sua atividade profissional. Essa educação moral contribui para desenvolver a dimensão social da criança. nubente. uma vez que a escola amplia a educação moral iniciada em casa. como filho. plasma e forma o ser humano. por fim. já que a educação é um “processo civilizador . contemplando o seu nascimento e. Inclusive. inclusive suas relações com o Estado. esposo e pai. além do campo moral por causa do uso social das capacidades. quer recaiam sobre outras pessoas. a fim de dispor de referências que lhe permitam situar-se no mundo. 2009. Regula suas relações de família. (DELORS.35 contingências de sua vida. Prevê e disciplina as conseqüências patrimoniais e penais da violação de seus direitos. perpetuando-o através de seus sucessores [.. ou não fazer alguma coisa.]. ou seja. ordena e enquadra na ordem da comunhão universal. ou seja. 2001. devem fazer parte os conteúdos atitudinais. com a liberdade. quer tenham por objeto bens corpóreos. De semelhante modo. (TRINDADE. suas relações patrimoniais. nem esta sem aquela. e deve ensinar-lhe o respeito pelas outras culturas”. o início de sua personalidade. Como demonstra o filósofo e educador John Dewey. 90). de grau em grau. p. Ela ajuda na formação da capacidade de julgar.. dispondo sobre sua capacidade progressiva ou sobre sua incapacidade. bem assim. torna o indivíduo mais “consciente de suas raízes. o desenvolvimento da consciência social. seu desenvolvimento físico e mental. que ele. a dimensão formativa dos valores e atitudes. p. E. é que a sociedade e direito forçosamente se pressupõe. a educação deve desenvolver dois tipos de conteúdos: o conteúdo conceitual (conhecimento acumulado) e procedimental (que ajuda no desenvolvimento das potencialidades e habilidades). dispõe sobre a sua morte. 47-49). também cria. a integridade física e moral. não podendo existir aquela sem este. Pode ainda ajudar a nascer um novo humanismo.

a educação ajuda a desenvolver essa consciência social. pais. moldando-o para ser um cidadão consciente e crítico do seu papel na sociedade. igualitário e fraterno. Com efeito. 8. 90). este segundo capítulo irá demonstrar como que o ordenamento jurídico. devem ser estabelecidas normas. regras de convivência que ajudem a desenvolver a sociedade de modo justo.36 de: desenvolvimento. justa e igualitária. Esta lei e a Carta Magna inovam em termos de conteúdo. de transmissão e refinamento da consciência social” (TRINDADE. fundamentando-se em valores e no objetivo de uma vida social mais harmoniosa. escola e sociedade. dá-se com o direito o qual ajuda a lapidar a consciência social. preparando os indivíduos para viver civilizadamente. o direito à educação e a garantia dos demais direitos também estão presentes no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n°. pode ajudar a resolver os problemas na vida educacional do aluno. 2. o Estatuto da Criança e do Adolescente. p. pois o ordenamento jurídico compreende que as . 2009. em especial. busca modos de resolver os problemas. Além disso. Além de ela apresentar as diretrizes gerais na Constituição Federal.2 O DIREITO E A CRIANÇA E O ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI O direito à educação está presente em diversas normas jurídicas internas e externas. mostrando que ao longo da vida. Por isso. De modo semelhante. está presente também na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional que possui normas para regulamentar o Sistema Nacional de Ensino. ou seja. método e gestão.069/90) que prescreve diversas normas para proteger seriamente as crianças e os adolescentes dos abusos cometidos pelo Poder Público.

. estadual e municipal) num todo articulado (na idéia de Rede). no amplo espectro das políticas sociais básicas. de modo novo. p. 23 De acordo com Vasconcelos. apud PEREIRA. b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública. 10-11). ao esporte. Neste caso. das políticas assistenciais e da política de proteção especial” (In CURY. Reconhecendo que há nobreza e dignidade do ser humano criança. trata-se da criança como prioridade absoluta23. ao respeito. (AMARAL E SILVA In CURY. 2008. p. a efetivação dos direitos referentes à vida. Assim. a Convenção Americana de Direitos Humanos e o Protocolo de San Salvador. 2004. Assim reza o artigo 4° e 18° do ECA: É dever da família. p. as “crianças e adolescentes são.10. à liberdade e à convivência familiar e comunitária. à profissionalização. p. assim. 17). p. com absoluta prioridade. destinadas a assegurar os direitos consagrados.697. incluindo as processuais. (AMARAL E SILVA In CURY. 2002.]. d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude. portadores de todo o tipo de garantias. c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas. da sociedade e do Estado. de modo definitivo. ao lazer. b) a política de atenção a esse grupo deve-se dar a partir do concurso das três esferas da administração pública (nacional. este Estatuto rompe. com a doutrina da situação irregular adotada pelo Código de Menores (Lei 6. do qual o Brasil é signatário22. por meio de dois Conselhos. definição e controle das políticas públicas. (PEREIRA. de 10. da sociedade em geral e do poder público assegurar. 23. considerados sujeitos de direitos e com prioridade absoluta. à saúde.. Uma outra mudança significativa refere-se ao caráter da legislação: é para todas as crianças e adolescentes e não mais discricionária como os anteriores que legislavam para “menores em situação irregular. o legislador apresenta uma lei coerente com o texto constitucional de 1988 e documentos internacionais aprovados com amplo consenso da comunidade das nações. [. 2005.37 a) crianças e os adolescentes são sujeitos de direitos e prioridade absoluta das políticas públicas e. c) institucionaliza a participação popular na elaboração. a Convenção sobre os Direitos da Criança. à alimentação. Na Carta Política. 341). à cultura. à educação. 17).79). o Conselho de Direitos (democracia representativa) e o Conselho Tutelar (democracia participativa). procurando estabelecer como diretriz básica e única no atendimento de crianças e adolescentes a doutrina de proteção integral21. 2008. 22 Veja o capítulo um que retrata a relação entre as leis internacionais e o direito educacional nos seguintes documentos: o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. da comunidade. 2008. 21 Proteção integral “constitui-se em expressão designativa de um sistema onde crianças e adolescentes figuram como titulares de interesses subordinantes frente à família. à sociedade e ao Estado” (PAULA. Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende: a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias. agora. p. afirmando que a sua proteção é dever da família. Sociais e Culturais. com a participação decisiva da sociedade civil e.. à dignidade. 25).

crueldade e opressão. Como objeto do Estatuto. punido na forma da lei qualquer atentado. p. solidária e capaz de vencer discriminações. sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei. 2008. vexatório ou constrangedor. 14) 26. 7º A criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde. 1992. exploração. In FESTER. discriminação. 2005. espiritual e social.38 Art. 93). (BIERRENBACH. violência. mental. . pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano. PEREIRA. 24 “Na medida em que a sociedade brasileira praticar este Estatuto. São Paulo. aterrorizante. 25 “O legislador desdobrou o direito ao respeito e à dignidade.. em condições dignas de existência. (PEREIRA. 18. Portanto. 2008. por ação ou omissão. 64). não discriminando ninguém. O objetivo do ECA24 é “garantir direitos de cidadania. p. violento. do prazer e do poder para descobrir a dignidade da pessoa humana e a força do relacionamento fraterno que nasce da gratuidade do amor. 26 Cf. Art. É dever de todos zelar pela dignidade da criança e do adolescente. (OLIVEIRA. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana.. Um país que aprende a valorizar a criança e a empenhar-se na sua formação manifesta sua decisão de construir uma sociedade justa. Tais direitos25 são assegurados por uma política de direitos que deve articular atores e instituições responsáveis pela garantia da doutrina da proteção integral para o conjunto da população infantil e juvenil. [. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação. In CURY. mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso. Art. a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico. aos seus direitos fundamentais. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência. estará superando a tentação do ter. Universidade de São Paulo. de que são titulares de direito subjetivo a criança e ao adolescente. violência e exploração da pessoa humana”. assegurando-se-lhes. Irandi. por lei ou por outros meios. Art. todas as oportunidades e facilidades. a saber: direito à integridade física. em três subtipos. direito à integridade psíquica e direito à integridade moral. p. 19). moral. integridade e liberdade”.]. In CURY. em condições de liberdade e de dignidade. e a condição peculiar da criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento. as crianças e os adolescentes devem ser protegidos integralmente. Esta proteção integral consiste no conjunto de direitos que pertencem a elas pelo fato de estarem em condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. 2005. 6º Na interpretação desta Lei levar-se-ão em conta os fins sociais a que ela se dirige. reconhecida juridicamente pelo Estatuto da Criança e do Adolescente: Art. O Adolescente em conflito com a lei e o direito à educação. p. os direitos e deveres individuais e coletivos. a lei protege a criança e o adolescente contra qualquer ofensa ilícita ou ameaça de ofensa à sua personalidade física ou moral” (MATTIA. as exigências do bem comum.

implementadas e efetivadas para todos. Os adultos agora devem zelar pelos direitos deles. como estava presente nas legislações antecessoras do Estatuto. 19°. 7°. pois deseja assegurar direitos que são violados constantemente pelos adultos. como meio de dignificar a vida destes seres. como no caso do Poder Judiciário através do Juizado da Infância e da Juventude.através do princípio de proteção integral – buscam efetivar as mudanças jurídicas na legislação brasileira. atualmente.se pela garantia de proteger a criança e o adolescente. 15). O Poder Judiciário ou os poderes públicos têm a obrigação de interpretar as normas constantes da ECA e de outras leis. 15°. a luta pelo reconhecimento dos direitos fundamentais também na vida da criança e do adolescente . 167). . é necessário que sejam respeitados os seguintes eixos da política do direito: Promoção-Proteção. Defesa-Responsabilização. Assim. Para garantir os direitos. Além da participação da Sociedade e das instituições do Sistema de Garantia de Direitos. (PEREIRA. Dessa forma. difusos e coletivos da criança e do adolescente.39 Trata-se de uma proteção de caráter positivo. 4º. os Códigos de Menores de 1927 e de 1979. 2005. são regras que devem seres respeitadas. 1516). até para aqueles que vivem em situações sócio-educativas. (PEREIRA. p. 60° do Estatuto. responsabilizando . p. Tal conquista foi possível através do Movimento Social de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (MSDCA) durante a segunda metade dos anos 70 e que almejava uma melhor definição do papel e das atribuições de cada poder do Estado em relação aos direitos individuais. (PEREIRA. p. 53°. Os direitos previstos estão presentes especificamente nos artigos 3º. 2005. p. 2005. resoluções ou decretos externos e internos do país. (PEREIRA. 17). 2005. sem nenhum tipo de discriminação. Vigilância-Controle.

6. Além destes princípios. Diretrizes Técnicas: Prémio Sócio-Educando. em especial. a ser tentado (art. vê-se a necessidade de realizar os quesitos da “Nova Gramática dos Direitos da Criança e do Adolescente” (PEREIRA. não são puníveis. (PEREIRA. p. A infância é concebida como sujeito pleno de direitos.40 Os direitos. 2730 do Código Penal estabelecem essa imputabilidade as crianças e adolescentes. 2) este grupo etário tem direito à proteção integral pelo fato de estarem na condição de desenvolvimento. 3. sujeitos às medidas previstas nesta Lei. Por isso. sendo reconhecidos . numa situação jurídica em relação aos direitos fundamentais. 2004.d. sujeitos às normas da legislação especial”. 17-18). ao passo que as crianças não se aplicam tais medidas. pelo menos. Maringá: UEM/PEC/PCA/CMDCA. PEREIRA. A internação somente é cabível nos casos de delito ou contravenções. 3) e este grupo possui garantias de um desenvolvimento sadio e adequado. 2005. fundamentam-se em três princípios: 1) a criança e o adolescente gozam de todos os direitos humanos garantidos à pessoa humana. Essa distinção está prevista no artigo 2° da ECA: 27 Cf. a determinação ou instigação e o auxílio. 8. O ajuste. 76. O art.. caso o adolescente seja autor de um ato infracional cabe medidas sócio-educativas. 104. salvo disposição expressa em contrário. São penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos. em condições de liberdade e dignidade que os ajudarão a se desenvolver.” . Art. não sendo mais admitida como medida protetiva. 2. se o crime não chega. Exemplo: a internação constitui-se em real medida de privação de liberdade. A situação irregular recai sobre a pessoa ou a Instituição que se omitiu de alguma forma em relação a criança e o adolescente. 7-8). Incorporação dos princípios constitucionais de proteção à pessoa. (Fonte: Doc. 7. 5. é prevista a presença obrigatória de advogado e ao Ministério Público cabe a função de controle e contrapeso. 2004. independente da sua idade. devendo ser aplicada somente nos casos imprescindíveis em resposta a atos infracionais graves. 28 A Carta Magna diz em seu artigo 228 que: “são penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos. p. 27. 10429 da ECA e art. 4. parágrafo único). Programas de sócio-educação aos adolescentes em conflito com a lei. São direitos que visam à consecução de uma vida digna. Eliminação dos eufemismos. 11) 27: 1. p. Definição e hierarquização da função judicial: ao juiz cabe dirimir conflitos de natureza jurídica.então. As legislações se destinam para o conjunto da categoria Infância e Adolescência. s. 29 “Art. uma vez que são penalmente inimputáveis28. Previsão jurídica do princípio de igualdade perante a lei. Irandi.” 30 “Casos de impunibilidade. mas medidas de proteção previstas no artigo 101. aqueles prescritos no artigo 3°.

2º Considera-se criança. O tratamento de suas situações é distinto quando incorrem em atos de conta descritos como delitos ou contravenções pela lei penal. Enquanto. compreende e julga a si própria e ao mundo. 2005. aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade. Nos casos expressos em lei. possui a maturidade suficiente para formar sua 31 Ressalta-se que “[. mitos. que podem implicar a privação da liberdade.. sem que ocorra a privação de liberdade. 101. inaugura a juventude e constitui sua fase inicial”. p. mas sóciopsicocultural. 2008. a criança vá construindo uma representação social do mundo e de si própria.. 31).41 Art. é garantido ao adolescente as garantias do devido processo legal detalhados no artigo 111. Esta prescrição está presente no Livro I. A adolescência na qual a infância é deixada para trás e os primeiros passos são dados em direção à fase adulta. não apenas biológico. apud PEREIRA. normas. . p. reconhecendo-se sua condição especial de pessoas em desenvolvimento32. 1997. 35).. Contudo. (MELUCCI. Parágrafo único. 32 Engel apresenta o que seria esse desenvolvimento vislumbrado nas entrelinhas do Estatuto: “[.] adolescência é a idade na vida em que se começa a enfrentar o tempo como uma dimensão significativa e contraditória da identidade. que acarretam um tratamento através de sua própria família ou na comunidade. como uma fase que se desenvolve entre a infância e a idade adulta31. como também orienta a sua prática econômica e política e a sua conduta social”. valores. p. p. De acordo com Solari (2008. Fixar a idade da criança até os doze anos incompletos explica-se pelo fato de ela encontrar-se na fase da puberdade. Ambos gozam dos mesmos direitos fundamentais. no que concernem as fases delas. o adolescente infrator pode ser submetido a um tratamento mais rigoroso chamado de medidas sócio-educativa. constituída por conhecimentos. (In CURY. costumes. também chamado de cultura. para os efeitos desta Lei. 8. da maturação sexual reprodutiva. tem importância no Estatuto. 20-21). que formam um sistema de significados. observando-se nos demais o procedimento dos arts.348). ao passo que para o adolescente determina a partir de doze até dezoito anos. crenças. a pessoa até doze anos de idade incompletos. essa diferenciação entre criança e adolescente. a criança infratora fica sujeita às medidas de proteção previstas no art. em determinadas situações. (PEREIRA. Este conjunto de significados funciona como um gabarito. presentes no artigo 112. através do qual a criança não só percebe. p. 171 e seguintes. Assim. rituais e linguagem. e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade. Acredita a lei que. a restrição de direitos.. Isto ocorre porque o Estatuto considera que o adolescente. 2005.] a criança e o adolescente são sujeitos em condições peculiares de desenvolvimento. ao relacionar com sua realidade (subjetiva e objetiva).

/ATO_DE_INDISCIPLINA_E_ATO_INFRACIONAL. Para Pereira. além de exigir o cumprimento dos seus deveres. a Carta Política e a ECA apresentam que ser . mas como sujeitos de direitos e garantias jurídicas. 31-34). Ato de Indisciplina e Ato Infracional.seed.gov..nre. 2005. 363). O “menor” ou adolescente e a criança possuem direito à educação. p. Mas nunca se esquecendo do princípio da doutrina da proteção integral. p. é melhor utilizar a expressão adolescente em conflito com a lei ou adolescente autor de ato infracional. (PEREIRA. 33 SACERDOTE FILHO. a etapa da adolescência é aquele período em que devem ser reconhecidos e garantidos os seus direitos.. 2005.pr. independentemente de realizar um ato indisciplinado ou um ato infracional. . 2008.adolescente possui direitos que podem ampliar-se até para aqueles indivíduos que possuem 18 a 21 anos de idade. Octacílio Sacerdote Filho33 (2010) ressalta que o ato de indisciplina (que será estudado no próximo capítulo) deve estar previsto no regimento interno da Escola. por detrás. Acesso em: 23 mar. que representa uma política de cuidado que objetiva zelar pela dignidade do adolescente e da criança. p.pdf>. em vez de desejar uma segregação ou exclusão ainda mais destes indivíduos. adolescente ou jovem referem-se a um critério legislativo que. De acordo com o ordenamento jurídico. Assim. apresenta a situação de que estes indivíduos são considerados como “menores”. (PEREIRA. Por isso. Disponível em: <www. Octacílio. porque chamá-lo de adolescente infrator valoriza o termo infrator imprimindo assim um estigma irremovível. ou ainda deve ser denominado de adolescente a quem se atribua autoria de ato infracional. Aliás. Volpi diz que o adolescente deve “tomar consciência de que existem formas mais eficientes de garantir suas necessidades básicas e de que a exigência dos seus direitos precisa acontecer de forma organizada e socialmente viável” (In CURY. 2010.42 opinião e decidir sobre certos assuntos que o podem afetar e concernem à sua própria vida e destino. 31-32).br/. Mas uma categoria “menor” que não deve ser vista como inferioridade. mas quando for necessário e estiver de acordo com a lei.

(In CURY. E devido ao direito à educação prevista no artigo 205 da Carta Política e do artigo 53 da Lei n°. só pode ser atribuída. c) suspensão da freqüência das atividades normais da classe. Jurandir Marçura (In CURY. na acepção técnico-jurídica. Abaixo daquela idade. Já o ato infracional.Incumbe ao professor e ao diretor aplicar punições em casos menos graves. 2010). por se tratar simplesmente de uma realidade diversa.Tipos de punições: a) advertência verbal. De acordo com Napoleão X. A estes. 8. consiste numa conduta prevista como crime ou contravenção penal. 2008. Amarante: A infração penal. o aluno deverá mudar de turno. mas deve receber os conteúdos programáticos do professor dentro do espaço escolar. o responsável deverá ser punido de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (artigo 232). não pode proibir o aluno ao acesso à educação. grifo nosso). ou propriamente a violência. que são. desde que não prejudique o trabalho do adolescente. Em último caso. na linguagem do legislador. só pela circunstância de sua idade. p. .43 onde é registrado que o aluno que não cumprir as regras deve seguir os seguintes procedimentos: . (SACERDOTE FILHO. quando incidirem em determinado preceito criminal ou contravencional. tem cabimento a respectiva sanção. simples ato infracional. no Brasil.069/90. d) transferência de turma. dentro do ordenamento jurídico penal pátrio. 361. descritos. no sistema jurídico nacional. a conduta descrita como crime ou contravenção penal. mas. não constitui como crime ou contravenção. Não se cuida de uma ficção. a conduta do seu agente não configura uma ou outra daquelas modalidades de infração. . O desajuste existe. em regra. às pessoas imputáveis. b) advertência escrita com comunicação aos pais. para efeito da respectiva pena. 630) esclarece que o ato infracional cometido através de violência ou grave ameaça são os crimes de roubo e estupro. E outras medidas podem ser tomadas com o agravamento da indisciplina. como gênero. (SACERDOTE FILHO. 2010). mas. Caso o aluno seja ridicularizado ou constrangido. a suspensão representa o não comparecimento às aulas. p. das espécies crime ou delito e contravenção. mas de uma entidade jurídica a encerrar a idéia de que o tratamento a ser deferido ao seu agente é próprio e específico. Por isso. os maiores de 18 anos. e) transferência de turno. 2008.

I)”. Ressalte-se que o adolescente não será liberado pela autoridade policial quando se referir ao ato infracional grave e de repercussão social. roubo. mas utiliza esta expressão para justificar a imposição de medida de internação (art. devese buscar na lei penal o balizamento necessário para a conceituação de ato infracional grave. (MARÇURA. (In CURY. reduzido à impossibilidade de resistência”. Mas o que seria grave ameaça na legislação? A lei não conceituou o que seja ato infracional grave. porque neste caso a internação 34 Art. p. nos crimes cometidos mediante violência ou grave ameaça contra a pessoa. Inclusive. 122. 631-632). art. em regra. atentado violento ao pudor. prisão simples e/ou multa. p. Assim. p. a autoridade policial não poderá liberar o adolescente. sem exemplos notórios os crimes de extorsão mediante seqüestro. para ela. imperícia ou negligência do agente. (MARÇURA. latrocínio e homicídio qualificado. ou depois de havê-la. II). como sói [sic] acontecer. Logo. nos arts. aliás. Nos crimes de homicídio e lesão corporal. justificadora da imposição de medida de internação (cf. Nessas hipóteses. 122. estupro. com detenção. exigindo a lei que o ato infracional tenha sido perpetrado mediante violência ou grave ameaça – circunstancia. 103). para si ou para outrem. a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. devendo proceder na conformidade do art. 157 define roubo como “subtrair coisa móvel alheia. por qualquer meio. 157 e 213 do Código Penal34. In CURY. os crimes considerados graves são penas com reclusão. 630). 2008.44 respectivamente. E o artigo 213 conceitua estupro como “constranger alguém. In CURY. 175. Como o legislador fundamentouse nos conceitos de crime e contravenção penal para definir o ato infracional (art. que é aquele que provoca clamor público. deve-se desconsiderar a modalidade culposa. 631). 2008. existe o ato infracional de repercussão social. mediante violência ou grave ameaça. deve compreender por grave o ato infracional a que a lei penal comina pena de reclusão. os crimes leves e as contravenções penais. gerando nas pessoas sentimento de indignação. pois esta violência surge como conseqüência da imprudência. mediante grave ameaça ou violência a pessoa. “não integrando os tipos penais como meio de execução. .

(PEREIRA. 12). atendendo-os e orientado-s através do Plano de Acompanhamento Personalizado (PAP) para o cumprimento da medida sócio-educativa que foi aplicada pelo Poder Judiciário 36 de modo eficaz e eficiente. (PEREIRA. p. 2008. 2004. como indivíduo. Ou seja. receba ela medidas sócio-educativas (portanto. por força do disposto no art. enquanto não criados e instalados os Conselhos Tutelares”. as circunstâncias e a gravidade da infração.45 provisória decorrente do flagrante se impõe para garantir a segurança pessoal do adolescente e a manutenção da ordem pública. Todavia. p. mas na vida educacional todo ato praticado por um aluno dentro das dependências de um estabelecimento de ensino será considerado como um ato de indisciplina. p. buscando realizar uma “política de atendimento em torno da promoção e defesa dos direitos ao contrário dos programas de caráter assistencialista. a ação do aluno que. repressivo e coercitivo” (PEREIRA. 631). no contexto da proteção integral. Esta repercussão no campo penal é realizada juridicamente pelo Estatuto da Criança e do Adolescente por meio dos programas de sócio-educação35 que atende aqueles adolescentes que estão em situação de conflito com a lei. não punitivas). estiver regulamentado de acordo com o Código Penal. 36 “O juiz da infância e da juventude tem competência para administrar privativamente as medidas de proteção aos adolescentes infratores. para o adolescente autor de ato infracional a proposta é de que. p. p. é competente para conhecer da problemática e administrar as medidas específicas de proteção a todas as crianças carentes ou infratoras. In CURY. In CURY. (MOUSNIER. tendentes a interferir no seu processo de desenvolvimento objetivando melhor compreensão da realidade e efetiva integração social. 2008.” (MAIOR. 2010). . 2008. (SACERDOTE FILHO. gera repercussão no campo penal. 262 do Estatuto. p. Este programa deve desenvolver uma educação social dos adolescentes e jovens. 2004. 346). Como é possível perceber. 12). Por outro lado. (MARÇURA. In CURY. 35 “Então. 2004. 403). 12). porque a medida sócio-educativa é aplicada quando se leva em conta a possibilidade do adolescente cumpri-la. se não houver no ordenamento jurídico descrição de tal ato como um ilícito penal. não é todo adolescente que realizou um ato infracional que será privado de liberdade. o ato infracional tratado até agora diz respeito à vida social.

Inclusive. p. art. admitindo-se apenas para o adolescente infrator a restrição do seu direito à liberdade. a “apreensão de qualquer adolescente e o local onde se encontra recolhido serão incontinenti comunicados à autoridade judiciária competente e à família do apreendido ou à pessoa por ele indicada” (art. Se não há prisão em flagrante. a não ser seja 37 Este artigo não se refere “[. 173). art. uma vez “civilmente identificado” o adolescente. e não indiciado. (PRADE.” (VOLPI. “não será submetido a identificação compulsória pelos órgãos policiais. mas quando apreendido em flagrante de ato infracional. proteger a sociedade. 106). In CURY. de proteção e judiciais”. 376). 106 da ECA) 37. art. (ENGEL In CURY. entretanto. 108). de certo modo.] a ‘preso’ em flagrante.. p. 107). sendo irrelevante tratar-se de interrogatório formal (ou informal) ou mera coleta simplificada de informações. 301 e 311 do CPP). art. então. quando for “flagrante de ato infracional ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente” (art. quando não se confunda com a responsável pela apreensão. decorrente da inimputalibilidade”. e assim mesmo somente em casos considerados de extrema gravidade e em condições especificas. há quem diga. para os fins pertinentes e oportuno encaminhamento ao juiz competente. 171) ou à entidade constante do mandado. ficará preso no máximo 45 dias (art. Sabendo-se da lentidão da Justiça. ininvocáveis em nível supletivo. 384). devendo ser informado acerca de seus direitos” (parágrafo único. 2008. In CURY. Tudo porque se cinge ao ato físico de simples apreensão. 2008. além da lavratura do auto. Caso seja necessário aplicar a medida de internação. 172).] assegura-se à criança até 12 anos que comete um ato infracional a preservação de todos os direitos assegurados em lei. a autoridade policial que ouve deve ser identificada. A medida de privação da liberdade acontece. desde logo. p. Além de ter “direito à identificação dos responsáveis pela sua apreensão. preventiva. o mesmo se dá com a prisão preventiva (art.” (PRADE. uma vez que inexiste voz de prisão sendo apenas o adolescente conduzido à delegacia. Só que a “decisão deverá ser fundamentada e basear-se em indícios suficientes de autoria e materialidade. tratando-se de sindicado. 173) na oportunidade da oitivida das testemunhas. Assim. deve ser resolvido logo este ato infracional para liberá-lo imediatamente (parágrafo único. . Caso a apreensão seja “[. p. e. 2008. à autoridade judiciária (ECA..] proveniente de ordem judicial. se houver violência ou grave ameaça à pessoa. sem nota de culpa e lavratura do auto (salvo no caso do art. In CURY. 339). 374). fica assegurado o prazo máximo de 45 dias para a definição da sentença. 107). remetido é à autoridade policial competente (ECA. 2008. esta medida poderia ser pretexto para legitimar a arbitrariedade. Após sua apreensão. demonstrada a necessidade imperiosa da medida” (parágrafo único. art.. art. diretamente. encaminha-se o adolescente. o alegado infrator será ouvido (ECA. antes de ser julgado (sentença judicial).. 38 “A determinação de permitir a internação de adolescente acusado de ato infracional mesmo antes de definida a sentença é uma medida.46 [. 108)38. pois visa a assegurar a integridade física e moral do acusado e... Ocorrendo esta hipótese.

constantes no Código do Processo Penal (art. as crianças não podem ser submetidas a pratica vexatória de serem revistados. que para o exercício dessa tarefa não pode violar os direitos fundamentais prescritos na Carta Magna. Mas sua internação deve seguir um processo legal (art. 106. 110). III . Todavia. Por isso.47 necessário “efeito de confrontação” quando há dúvidas substanciadas e fundadas em lei (art.defesa técnica por advogado. 2008. em relação aos inimputáveis. entretanto. p. quanto a apreensão.igualdade na relação processual. 39 Na apreensão.assistência judiciária gratuita e integral aos necessitados. faz uma identificação que humilha e ofende a dignidade das crianças. 2010). 42 Prade demonstra que “tanto a prisão (abrangendo quaisquer modalidades). nem vestir. p. 40 O artigo 114 do Estatuto da Criança e do Adolescente demonstra que “a imposição das medidas previstas nos incisos II a VI do art. Volpi diz que “é absurdo proceder à identificação compulsória de crianças e adolescentes que não tem o que comer. mas procurando localizar o autor do ato infracional. mediante citação ou meio equivalente. submetendo-os às situações mais humilhantes” (In CURY. tomando pro base a reconhecida condição peculiar de desenvolvimento sócio-cognitivo em que se encontram estes sujeitos”. mas sim. os policiais ao executarem seu trabalho. p. antes de fazer uma apreensão.direito de solicitar a presença de seus pais ou responsável em qualquer fase do procedimento. Ao lado disto. VI. grifo do autor). V . 127. em função de uma dada conduta – crime ou contravenção – reconhecida como ato infracional. “o caráter indiciário da autoria não significa. nem onde morar. mera presunção. 388). podendo confrontar-se com vítimas e testemunhas e produzir todas as provas necessárias à sua defesa. terem que apresentar documentos. IV . II . 339. VI . nos termos do art. Infelizmente. no caso de imputáveis. como se trata de constrangimento ilegal. Em ambas as circunstâncias. (In CURY. 419). consistente esta na desobediência dos requisitos legais autorizadores daquelas constrições à liberdade. a existência de prova circunstancial veemente. 112 pressupõe a existência de provas suficientes da autoria e da materialidade da infração. a mesma lei elege o princípio da inimputabilidade dos indivíduos entre 0 e 18 anos. 112. 103. as seguintes garantias: I . o adolescente em conflito com a lei tem as seguintes garantias processuais: Art. Após obedecer as formalidades e as garantias processuais40 é que podem ser aplicadas as sanções disciplinares41.” (MAIOR. In CURY. se inocorrentes relaxamento e/ou liberação caberá habeas corpus para fazer cessa a violência/coação à liberdade de locomoção. 2008. 111. ressalvada a hipótese de remissão.” (In CURY. 2008. portanto.pleno e formal conhecimento da atribuição de ato infracional. na forma da lei. 380. . 2008. 674) e do Estatuto da Criança e do Adolescente (art. 109)39. convergente e conclusiva no que tange àquele a quem se pode atribuir a infração. buscando garantir o direito do aluno/cidadão contra atos abusivos/ arbitrários da autoridade encarregada da aplicação da sanção disciplinar42. (DIGIÁCOMO. grifo do autor). entre outros). têm como pressuposto a ocorrência de ilegalidade. para o efeito de relaxamento ou da liberação. possam vir a ter direitos ameaçados ou violados. o processo pode passar por uma revisão judicial. a qualquer pretexto. entre outras. p. 41 Engel percebe que a legislação reconhece a necessidade de “que a criança e o jovem.” Desse modo.direito de ser ouvido pessoalmente pela autoridade competente. São asseguradas ao adolescente.

utilizam. escolas e outros estabelecimentos congêneres.qualquer uma das previstas no art. III . auxiliar e orientar o adolescente.internação em estabelecimento educacional. 344). no recesso de seus lares. 425. seja quanto às suas conseqüências. § 2º Em hipótese alguma e sob pretexto algum. antes de instaurado o procedimento apuratório. VII . Parágrafo único. ora para prevenir os filhos acerca de certos perigos e condutas.48 Este rito processual é necessário para apurar adequadamente o ato infracional e aplicar uma medida sócio-educativa ao adolescente.. Em se tratando de ato infracional com reflexos patrimoniais.. p. a advertência.” . na modalidade de medida sócio-educativa. A prestação de serviços comunitários consiste na realização de tarefas gratuitas de interesse geral.. se for o caso. 118. 101. V . via de regra. medida educativa.] a advertência. a autoridade poderá determinar. será admitida a prestação de trabalho forçado.] é comumente capaz de instrumentalizar os objetivos de ambas as áreas. grifo do autor). A liberdade assistida será adotada sempre que se afigurar a medida mais adequada para o fim de acompanhar. da condição do adolescente em cumpri-la eficazmente e da possibilidade de ser aplicada uma medida de proteção especial.” 45 O Estatuto prescreve as seguintes regras para ela: “Art. juntamente com o benefício da remissão. A advertência consistirá em admoestação verbal. pois ela.” (In CURY. a autoridade competente poderá aplicar ao adolescente as seguintes medidas: I . Assim sendo. 112. a adolescentes que não registrem antecedentes infracionais e para os casos de infrações leves. hospitais. ora para coibir comportamentos inadequados à vida em sociedade. ou. que o adolescente restitua a coisa. VI . 117. deve se destinar. Contudo. Verificada a prática de ato infracional. que será reduzida a termo e assinada. 44 Veja o que diz o Estatuto sobre essas duas medidas: “Art. por outra forma. Existem diversas medidas que são aplicadas dependendo do ato cometido. II .inserção em regime de semi-liberdade. compense o prejuízo da vítima. Os pais. Art. 2008. § 3º Os adolescentes portadores de doença ou deficiência mental receberão tratamento individual e especializado. “[. E a medida III e IV é uma medida aberta45. IV . § 1º A medida aplicada ao adolescente levará em conta a sua capacidade de cumprila. junto a entidades assistenciais. pelo órgão do Ministério Público. promova o ressarcimento do dano. As medidas sócioeducativas são as seguintes: Art.” “Art..liberdade assistida. I a VI.prestação de serviços à comunidade. 116. as circunstâncias e a gravidade da infração.advertência. temos administrado cautelarmente à criança infratora a admoestação. deve ser percebida sua importância. mormente para preveni-la quanto às prejudiciais conseqüências da recidiva” (MOUSNIER In CURY. Já a medida V adota o princípio de institucionalização dos adolescentes 43 Lima apresenta que “[. por período não excedente a seis meses. bem como em programas comunitários ou governamentais. Havendo manifesta impossibilidade. Poderá ser aplicada. no curso da instrução do procedimento apuratório do ato infracional ou na sentença final. A medida I43 e II inicia-se e finaliza-se na ação do Juiz44. a medida poderá ser substituída por outra adequada. no exercício do pátrio poder. p. seja quanto à sua natureza. 115.obrigação de reparar o dano. em local adequado às suas condições. e pela autoridade judiciária. 2008.

o Estado deve prover tal assistência judiciária gratuita através da nomeação de dativo pelo poder judiciário (juiz) 48 . ouvido o Ministério Público. ajudando a tratá-los como sujeitos que podem se transformar. § 6º Em qualquer hipótese a desinternação será precedida de autorização judicial. uma vez que as técnicas educativas voltadas à autocrítica e à reparação do dano se mostram muito mais eficazes. deve-se lembrar que deve provar a materialidade ou indícios de autoria do fato e o estabelecimento de defesa (contraditório). o adolescente deverá ser liberado. sua identidade enquanto cidadãos” (In CURY. sujeita aos princípios de brevidade. limitando os poderes do juiz.. § 3º Em nenhuma hipótese o período máximo de internação excederá a três anos. 121. este rito processual deve ser guiado pelos princípios do artigo 1° da Constituição que são: a soberania. Inclusive. acima de tudo. por ser provisória. 392). Olympio Sotto Maior (In CURY. porque produzem no adolescente em conflito com a lei a possibilidade de reafirmação dos valores ético-sociais. Enquanto a medida VI 47 trata-se da institucionalização dos adolescentes em meio fechado.49 combinando privação e restrição de liberdade46. que são capazes de aprender moralmente. § 4º Atingido o limite estabelecido no parágrafo anterior. devendo sua manutenção ser reavaliada. § 1º Será permitida a realização de atividades externas. o processo legal “[. privando-os da liberdade. § 5º A liberação será compulsória aos vinte e um anos de idade. Mas antes de aplicar tal medida. a medida V e IV exigem a organização de programas de atendimento para que os adolescentes sentenciados cumpramnas.. 404) compreende que as medidas de advertência. p. ou como forma de transição para o meio aberto. p. A internação constitui medida privativa da liberdade. p. Enfim. no máximo a cada seis meses. de conservar para os adolescentes infratores. 2008. a critério da equipe técnica da entidade. Com relação a estas medidas de sócio-educação. Ao passo que para as 46 O artigo 120 diz que “o regime de semi-liberdade pode ser determinado desde o início. 47 A regulamentação da internação apresenta que: “Art. § 2º A medida não comporta prazo determinado. 18-20).] trata-se de uma imposição jurídica de estender os direitos processuais básicos aos adolescentes. colocado em regime de semi-liberdade ou de liberdade assistida. possibilitada a realização de atividades externas. independentemente de autorização judicial”. . (PEREIRA. salvo expressa determinação judicial em contrário. Na defesa. mediante decisão fundamentada. Afinal. excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. Esta medida. deve ser resolvida pelo juiz até 45 dias. 2008.” 48 De acordo com Braga. a cidadania e a dignidade da pessoa humana. 2005. obrigação de reparar o dano e prestação de serviços à comunidade indicam nítida prevalência do caráter educativo ao punitivo. aquele que não tem condição.

Parágrafo único. 101. 98. VII . a autoridade competente poderá determinar. o lazer. para que possam realizar-se enquanto sujeitos de direitos e. as seguintes medidas: I . p. Desse modo. eliminam o comportamento só naquele momento em que a punição ocorre. 417). além de prepará-lo como um indivíduo dotado de potencialidades que merecem ser realizadas e incentivadas. em regime hospitalar ou ambulatorial. à criança e ao adolescente. Verificada qualquer das hipóteses previstas no art.inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio.acolhimento institucional. . IV .requisição de tratamento médico.010. psicológico ou psiquiátrico. O abrigo é medida provisória e excepcional.matrícula e freqüência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino fundamental. Além dessas medidas. reaparecendo com mais força e ferocidade. o esporte. a saúde.colocação em família substituta. a educação. de 2009) Vigência IX . In CURY. V . oferecer um caminho de dignidade. VIII . O próprio nome da medida já reflete a essência e os motivos da sua aplicação: as medidas aplicadas ao autor de ato infracional devem ter por objetivo o desenvolvimento da sua sociabilidade e socialização. (Redação dada pela Lei nº 12.orientação.colocação em família substituta. pois forma o individuo. II . orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos. apoio e acompanhamento temporários. de 2009) Vigência VIII .abrigo em entidade.010. III . existem as medidas de proteção especial: Art. consequentemente. Logo. utilizável como forma de transição para a colocação em família substituta.encaminhamento aos pais ou responsável. VI . tais medidas têm um caráter pedagógico. mediante termo de responsabilidade. Também ajuda no exercício do inerente potencial dirigido à sociabilidade e cidadania (MAIOR. VII . não implicando privação de liberdade. para as teorias da aprendizagem.50 técnicas de conteúdo punitivo. (Redação dada pela Lei nº 12. a cultura e demais direitos devem ser efetivados também na realização das medidas. 2008. dentre outras. assim que os controles aversivos sejam retirados.inclusão em programa de acolhimento familiar. Aplicá-las é propiciar o desenvolvimento da conduta destes seres que merecem todo o cuidado e proteção.inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à família. para que contribua para o desenvolvimento da sua maturidade humana.

Participam 49 “O Conselho Tutelar. da família e de outras instâncias. não é órgão de repreensão. 2010).encaminhamento a cursos ou programas de orientação. (Expressão substituída pela Lei nº 12. através das secretarias ou departamentos responsáveis. evitar que a violência continua a ocorrer. fiscalizar os programas. todos da ECA). VI . órgão competente e autônomo. deve colaborar e mobilizar para a realização dos direitos. pela atenção à infância e à juventude. Caso os pais colaborem no ato infracional do filho. VIII . . encaminhar e orientar os pais e criança. eles devem ser responsabilizados e cumprir uma das medidas exigidas pelo artigo 129 da ECA: Art. cc o art.51 Acrescenta-se que o ato infracional deve ser resolvido pelo Conselho Tutelar 49. e 105. São medidas aplicáveis aos pais ou responsável: I . na sua organização e implementação. 98 e incisos. caso o infrator tenha menos de doze anos de idade.obrigação de encaminhar a criança ou adolescente a tratamento especializado. (SACERDOTE FILHO. nem polícia. 23 e 24. 129. promover e ajudar na execução de programas de atendimento.inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio. IX . será analisada pela Justiça Comum. II .advertência.suspensão ou destituição do pátrio poder poder familiar. . Conselho Tutelar e as “redes de atendimento”. terá atribuição para aplicar as medidas específicas de proteção às crianças e aos adolescentes e às crianças infratoras (arts. 2010).obrigação de matricular o filho ou pupilo e acompanhar sua freqüência e aproveitamento escolar. de 2009) Vigência Parágrafo único. ter um planejamento de ação ou programa de uma proposta adequada para a realização dos direitos. a justiça ou Poder Judiciário delega competência ao Poder Executivo para acompanhamento e orientação dos adolescentes com certas medidas. sua função é resolutiva. 2008. 2010. Cf.” (MOUSNIER. p. I. questionar certas posturas da sociedade. 346). 30 set. IV . Na aplicação das medidas previstas nos incisos IX e X deste artigo.encaminhamento a tratamento psicológico ou psiquiátrico. V . é um órgão político que tem uma função pró-ativa e de transformação da realidade. observar-se-á o disposto nos arts. (DIGIÁCOMO. nem de segurança pública. orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos. articular com outras redes de atendimento.perda da guarda. não é órgão investigativo. encontrar medidas concretas para orientar e encaminhar os pais e as crianças.encaminhamento a programa oficial ou comunitário de proteção à família. VII . Pouso Alegre: Câmara Municipal de Pouso Alegre. Ou seja. Se ele encontra-se em idade acima de 18. X . aplicar medidas de proteção.destituição da tutela. dialogam com ambas para que ajude na efetivação dos direitos. ou pela Justiça da Infância e da Juventude. 136. Voltando a atenção para as medidas sócio-educativas. não jurisdicional. requisitar serviços. ajudar na garantia dos direitos da criança. trata-se de uma democracia participativa personificada. III . o Conselho Tutelar tem a função de intervir e amparar a família. In CURY.010. caso o infrator tenha entre 12 e 18 anos. previsto no diploma e ainda inexistente no território nacional. Palestra. Os programas de sócio-educação. Murillo José. DIGIÁCOMO. devem ser realizados pelas políticas públicas de atenção ao adolescente.

que são: “Jovem é toda a criança ou adolescente que. (PEREIRA. E a doutrina da proteção integral é defendida por outras declarações internacionais: Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça da Infância e da Juventude (Regras de Beijing. Assim. apud PEREIRA. A instituição que coordena os programas de sócio-educação. rol das atividades cotidianas de caráter pessoal e educacional. deve cumprir as bases legais que orientam os programas de atendimento. 17): as leis internas e o direito de cada sistema nacional possam garantir a satisfação de todas as necessidades das pessoas de até dezoito anos. p. . a definição de projeto de acompanhamento personalizado (PAP). p. 1985)50. 23). à profissionalização. contribuindo. à convivência. à saúde. as Regras Mínimas das Nações Unidas para a Prevenção da Delinquência 50 Nesta regra estão definidos conceitos jurídicos que devem ser implementados pelos Estados-Membros da Organização das Nações Unidas (ONU) no que concerne a aplicação da lei sobre jovem. o Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente. não incluindo apenas o aspecto penal do ato pratico pelo ou contra o adolescente. aqueles editas pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA). e executar as prescrições da legislação brasileira e as deliberações dos Conselhos de Direitos (nos três níveis da administração pública). 2005. 2004. mas o seu direito à vida. sendo realizados de modo direto ou não (convênio firmado com entidades nãogovernamentais). (MUNIR In CURY. à liberdade e outros. 2004. de acordo com o sistema jurídico respectivo. infração e infrator. inclusive. independentemente da esfera administrativa. 5. 16). p.52 também da definição dos princípios e diretrizes de implementação dos programas de sócioeducação. 2004. p. as bases que devem ser implementadas ao tempo da medida aplicada são: espaço físico. pode responder por uma infração de forma diferente do adulto”. ao lazer. na Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas (1948) e na Convenção Americana Sobre os Direitos Humanos. (PEREIRA. realizando o princípio da doutrina de proteção integral. a participação da família. 16). para que a medida seja cumprida satisfatoriamente. à educação. 1991. então. tomando por base as resoluções que se referem à política de direitos. no sentido de que (PEREIRA. p. A garantia de que todas suas necessidades sejam satisfeitas encontra-se na Declaração de Genebra (1924).

p. 24). entende-se o conjunto de ações que são orientadas para este duplo objetivo: a) induzir para os Estados que não têm uma disciplina específica para a tutela dos direitos do homem a introduzi-la. “Por privação de liberdade. p.). 1992. 52 Tratar do bem-estar do jovem consiste em que “todos os momentos do processo que envolve o ato infracional – da apuração do fato. p. (PEREIRA. Por atividades de garantia. 51 Apresenta a conceituação de jovem e privação de liberdade do seguinte modo: “Entende-se por jovem uma pessoa de idade inferior a 18 anos”. e as Regras Mínimas das Nações Unidas para a Proteção dos Jovens Privados de Liberdade (1990)51. deve realizar no tratamento institucional dedicando ao adolescente “cuidado. 25). (PEREIRA. p. fundamentando-se nas Regras de Beijing. São Paulo: Brasiliense. assim como a internação em outro estabelecimento público ou privado. p. 2005. Maria Ignês. entende-se o conjunto de medidas que os vários organismos internacionais põem em movimento para verificar-se em que grau as recomendações foram acolhidas.. 25). 2005. Elas apresentam que é importante prevenir a delinquência juvenil para prevenir o delito na sociedade.. a legislação. entende-se toda forma de detenção ou prisão. aplicação da medida e ao cumprimento da decisão judicial – devem ser levados em conta. 2005. Com efeito. 1992. In: FESTER. b) induzir os que já a têm a aperfeiçoála. 1990).. “Infração é todo comportamento (ação ou omissão) penalizado com a lei.53 Juvenil (Diretrizes de Riad. do controle-vigilância e defesa-responsabilização. proteção. por todo o Sistema de Garantias de Direitos – os princípios definidos da doutrina da proteção integral” (PEREIRA. esta mesma regra é apresentada com outro termo sobre o jovem pela autora Bierrenbach (1992. de acordo com o respectivo sistema jurídico”. Aliás. deve considerar ou realizar três aspectos de atenção ao adolescente: promoção-atendimento. que substitua a nacional. 2004. 3940. seja com relação ao direito substancial (número e qualidade dos direitos a tutelar). Direitos Humanos e a criança. de onde não se permita a saída livre do jovem. . 63-96. Direitos Humanos e.2. Cf. (PEREIRA.]. encontra-se na fase de desenvolvimento e é prioridade absoluta das políticas públicas. se e em que grau as recomendações foram respeitadas [. Antonio Carlos Ribeiro (Org. Três aspectos que são detalhados por Bobbio: Por promoção. 2005. 71) que troca a palavra jovem por menor. v.” (PEREIRA.. uma vez que este. p. apud PEREIRA. Por atividades de controle. p. (BOBBIO. p. na atuação dos Sistemas de Garantias de Direitos. “Jovem infrator é aquele a que se tenha imputado o cometimento de uma infração ou que seja considerado culpado do cometimento de uma infração. ordenado por qualquer autoridade judicial. administrativa ou outra autoridade pública”. 24). educação e formação profissional para permitir-lhe que desempenhe um papel construtivo e produtivo na sociedade”.. p. apesar de estar em conflito com a lei. 2005. seja com relação aos procedimentos (número e qualidade dos controles jurisdicionais). entende-se a organização de uma autêntica tutela jurisdicional de nível internacional. 17). BIERRENBACH. 26). a ECA. Aliás. A finalidade da Justiça da Infância e da Juventude é realizar o bem-estar do jovem52.

folha. Contudo. Acesso em: 06 set. através da escolarização. Dever-se-á buscar. Disponível em: <http://www1.uol. profissionalização.br/cotidiano/804735-vinte-e-tres-internos-da-fundacaocasa-de-mogi-mirim-sp-ainda-estao-foragidos. como um momento especial pelo qual se pode formar o aluno. as medidas especiais de proteção e a medidas sócio-educativas [. portanto. grifo nosso). São esses momentos inter-relacionados do processo educativo que lhe propiciarão condições básicas de suporte para atingir uma etapa de autonomia na condição da própria existência.3 LEITURA SOCIAL DO ATO INFRACIONAL O ato infracional deve ser encarado.br/cotidiano/801578-justica-condena-estado-a-pagar-r400-mil-por-morte-de-jovem-na-febem-de-sp. esta deve ser percebida como uma garantia de efetivar todos os direitos da criança e do adolescente. (VASCONCELOS In CURY. Acesso em: 06 set. objetivando desenvolver uma consciência social e moral. Disponível em: <http://www1.. saúde. Vinte e três internos da Fundação Casa de Mogi Mirim (SP) ainda estão foragidos. Disponível em: <http://www1. 2010. Ao estar em conflito com a lei não pode ser percebido como um instrumento de opressão ou manipulação. Ao longo dos anos53. Justiça condena Estado a pagar R$ 400 mil por morte de jovem na Febem de SP. social e econômica em um mesmo processo.] devem-se apoiar em procedimentos metodológicos que se pautem por um caráter emancipador em todas as ações empreendidas. . 2010. Isto quer dizer que se faz mister edificar todo um trabalho social e educativo com vistas à promoção e defesa dos direitos humanos e de cidadania.shtml>. enquanto sujeito de um processo que se renova continuamente. muitas rebeliões ocorreram representando uma resposta da violência que sofrem na medida de internação.folha.shtml>. 342. 2010. política.com. Febem usa arma de paintball contra interno. então. aplicar as leis é contribuir para a lapidação da personalidade desta criança ou adolescente em formação.54 Retornando a ideia de bem-estar. cultura e lazer. Ou seja. bem como realizar a dignidade humana nestas duas fases de vida. atuando nas dimensões pedagógicas. 53 FOLHA-ONLINE.uol.com.folha.uol. Portanto. p. voltada para práxis do bem comum. FOLHA-ONLINE.br/folha/cotidiano/ult95u130890.. a questão da resolução dos conflitos em que se encontram os jovens não é bem concretizada.shtml>. um desdobramento das potencialidades de autodeterminação e libertação do educando. FOLHA-ONLINE. 2008. Acesso em: 06 set. mas um momento oportuno para se moldar e construir uma individualidade pautada numa ética social.com. 2.

para que cumpra suas obrigações legais com eficiência. os adolescentes internados acabam ainda mais distantes da possibilidades de um desenvolvimento sadio. 2004. quando do desinternamento. os direitos Humanos são incompatíveis com a sua política econômica-social. Maior demonstra: [.] a internação é a medida sócio-educativa com as piores condições para produzir resultados positivos. enfim. alta periculosidade. seria necessário desenvolver uma política pública que efetive o direito à educação. p. daí a importância de se observar atentamente as novas regras legais referentes à internação. Desta forma. especialmente aquelas que dizem respeito à excepcionalidade da medida [. p. de regra. equivocada [o]. a partir da segregação e da inexistência de projeto de vida. como dizem eles). pois esse aspecto na verdade é instável. 2008. Assim. (PEREIRA. convivendo em ambientes. 403404). passada e futura. conduzida [o] ao sabor da pressão do momento. 20). à cultura. . funcionam sob a ótica da doutrina da situação irregular no trato dos adolescentes e jovens sentenciados. a probabilidade (quase absoluta) é de que os adolescentes acabem absorvendo a chamada identidade de infrator. como pessoas cuja historia de vida. em especial. o pensamento de Irandi Pereira demonstra que os programas de sócioeducação não concretizam o princípio de proteção integral. passando a se reconhecerem. resta indestrutivelmente ligada à delinqüência (os irrecuperáveis. como de má índole. a qualquer preço.. os privilégios das elites.]. certamente estaremos diante de cidadãos com categoria piorada. no Brasil.. a questão da privação da liberdade nas instituições como FEBEM. Tais programas deveriam ser um espaço especial para desenvolver uma educação que realmente ajude os adolescentes a rever suas atitudes e remodelar os seus objetivos. Inclusive. Com efeito. ao esporte e ao trabalho regular de apoio a esse grupo. à arte.55 Isso reflete aquilo que Olympio S. Isso está presente nas “rebeliões” ou reações que acontecem no interior dos complexos institucionais do país que instiga a perceber que os programas de atendimento ao adolescente.. ainda mais predispostos a conduta violentas e anti-sociais. Bierrenbach afirma que. natureza perversa. Privados de liberdade. (In CURY. e com um único fio condutor: o de preservar. Contudo. ao método e à gestão dos programas de sócio-educação estabelecidos pelo poder executivo.. promíscuos e aprendendo as normas próprias dos grupos marginais (especialmente no que tange a responder com violência aos conflitos do cotidiano). Um dos motivos está na dificuldade de que a medida sócio-educativa não se aplica ao conteúdo. sim.

das carências e violências que meninos e meninas pobres são submetidos” (VOLPI. liberdade/restrição do direito. O direito à educação é um dos mais violados: Tratando dos jovens em conflito com a lei não é fácil desatar os nós vivenciais a que estão submetidos. 2005. Infelizmente. sujeito de direitos/objeto de controle social exige projeto político-pedagógicos inovadores. p. já bastante aberta ao capital estrangeiro. a iniciativa e a criatividade das bases comunitárias. buscando apenas controlar e corrigir os desvios violentamente55. . (1992. de dominação e imposição. mais segregadoras e mais estigmatizantes dos sentenciados. incentivando a organização. Deveria 54 A nova política de atendimento deveria ser autopromotora. criativos e participativos muito diferentes do que estamos acostumados a saberfazer. A maioria absoluta é o reflexo da luta pela sobrevivência. como também. 40-41) diz que na política de atendimento aos adolescentes em conflito54 com a lei. comprometendo indelevelmente o futuro da nação brasileira. 93). p. mantémse silenciado diante de tanta calamidade. essa política continua afastada dos debates jurídico-institucionais e da sociedade. Desse modo. Um comprometimento que atinge os jovens sentenciados que não são alvos da política pública. Irandi Pereira (2005. 363). 55 O legislador e a sociedade deve entender que “o cometimento de um ato infracional não decorre simplesmente da indo má ou de um desvio moral. (PEREIRA. In CURY.56 inclusive com a ameaça mais ou menos velada da desnacionalização da economia. é necessário reavaliar a contribuição das instituições sociais públicas que procuram perpetuar uma lógica de exclusão. p. Praticar a educação escolar em ambientes contaminados por relações paradoxais como liberdade/prisão. p. abandono social. em especial. nas leis infraconstitucionais e nas leis internacionais assinadas. buscando realizar um linha participativa de trabalho. no que tange à educação escolar. ou internacionalizada como melhor convém. reclamar por medidas cada vez mais punitivas. internados em institucionais públicas que continuam operando na lógica caritativo-repressivo-assistencialista ou mesmos em programas sócio-educativos restritivos da liberdade que pouco apresentam indicadores de resultado sob a ótica da política de direitos. propiciando assim. aquilo que é direito não é realizado porque o Estado não cumpre o que é seu dever e que está prescrito na constituição. Não demonstra que é um equívoco aplicar a lei quando se procura sobrepor idéias ou realizar uma luta de poder. 41). nem de uma concretização adequada da sua tutela pelo Estado que. se torna muito mais complexo promover a educação escolar regular dada a condição em que se encontram: privados de liberdade. 2008. mas antes deveria mostrar que é pelo caminho jurídico que se alcança a legitimação de uma vida digna.

cujo objeto é a proteção de direito líquido e certo. Em síntese. 163).. entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos um ano. Mas antes deve ser entendida como uma “[.” (MENDES. da Constituição Federal prevê. ou obrigações. que concerder-se-á mandado de injunção sempre que a falta de norma regulamentadora torne inviável o exercício de direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade. Além do mais. 164).. de natureza civil..] grande novidade no âmbito de proteção aos direitos e garantias fundamentais.” (MORAES. desde que presentes os atributos da liquidez e certeza. . p. por definição.] é conferido aos indivíduos para que eles se defendam de atos ilegais ou praticados com abuso de poder. O Supremo Tribunal Federal decidiu de forma unânime pela autoaplicabilidade do mandado de injunção. 2004. O direito garante os direitos do ser humano e os ajuda defender. Conferindo assim. p. e que poderá ser impetrado por partido político com a representação no Congresso Nacional e organização sindical. o adolescente pode requerer a ação civil pública57 para que o seu direito seja garantido. p. ou concretas. contra ato ou omissão ilegais ou com abuso de poder de autoridade. 153)..” (MORAES. mandado de segurança coletivo59 e mandado de injunção60. 590). 2005. especialmente os direitos do consumidor. Ele “[. solidária e capaz de vencer discriminações. violência e exploração da pessoa humana. Por exemplo. Deste modo.. 2009. constituindo-se verdadeiro instrumento de liberdade civil e política”. lesado ou ameaçado de lesão. (MORAES. 163). propiciando estabelecer. entre os homens. no intuito de viabilizar o exercício de um direito. este capítulo faz uma reflexão sobre os passos jurídicos presentes no Estatuto da Criança e do Adolescente com a finalidade de efetivar uma vida digna. p. inciso LXXI.57 objetivar também que a lei ajuda na formação do desejo de construir uma sociedade justa. “o mandado de segurança coletivo terá por objeto a defesa dos mesmos direitos que podem ser objeto de mandado de segurança individual. para a defesa de posições individuais ou singulares. em face do art. harmonia e dignidade à vida. 28-30). 2009. ele “[. 2009.na constituição é uma “[. principalmente. em defesa dos interesses de seus membros ou associados. uma proporção tendente a criar e a manter a harmonia na sociedade. 5°. demonstra que transformar a vida social na realização da igualdade e de oportunidades para todos. uma liberdade ou uma prerrogativa prevista na Constituição Federal”. 58 Está presente no artigo 5°. da Constituição Federal.. 60 “O artigo 5°. LXIX. porém direcionada à defesa dos interesses coletivos em sentido amplo. precisa ser pela via jurídica56.. que visa suprir uma omissão do Poder Público. embora não voltada.” (MORAES. (MORAES. p. 56 O direito ajuda proteger a personalidade do ser social (do homem) e disciplinar-lhe sua atividade. dentro do todo social de que faz parte. 163). 57 “A Ação civil tem-se constituído em significativo instituto de defesa de interesses difusos e coletivos e. ou faculdades. pelo fato de os homens se encontrarem em sociedades reais.] consiste em uma ação constitucional de caráter civil e de procedimento especial. p.]ação constitucional. englobando os direitos coletivos em sentido estrito. o direito à educação. p. 2009. (PEREIRA. os interesses individuais homogêneos e os interesses difusos. da Constituição Federal. 53). 2009. à sabedoria e á cidadania. p. Além de poderem entrar com mandado de segurança58. tem-se constituído também em importante instrumento de defesa dos direitos em geral. uma vez que o direito equaciona a vida social através de uma reciprocidade de poderes. Aliás. parágrafo 1. 2009. de maneira inédita. (RAO. e de deveres. independentemente de edição de lei regulamentando-o. 59 Artigo 5° inciso LXX. que determina que as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata.. por ato ou omissão de autoridade pública ou agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder Público”.

Diante da conduta do adolescente. devem ser aplicadas medidas que visem a emancipação do indivíduo. Este será o tema do penúltimo e último capítulo do presente estudo. Ressalte-se que ao compreender o que seja o direito à educação e demais direitos. Uma formação cidadã que depende da realização de uma pedagogia que compreenda adequadamente o problema da indisciplina e da violência escolar. para que forme verdadeiramente um cidadão consciente do seu papel. . o desenvolvimento da sua maturidade. que será objeto do próximo capítulo. já que antes será refletido o papel pedagógico na solução do conflito da indisciplina e da violência escolar (ato infracional). Essa violência. mas deve levar em conta os aspectos da promoção-atendimento. p. Ela visa a ensinar as pessoas a viver. a reflexão ajuda entender o que é ser cidadão.58 principalmente. não pode ser reprimida violentamente. controle-vigilância e defesa responsabilização. CAPÍTULO III A PERSPECTIVA PEDAGÓGICA NA EDUCAÇÃO A educação desafia-nos em mundo tão complexo e fragmentado. 239). (LIBÂNIO. com relação aos jovens que se encontram em situação de conflito com a lei. realizada na escola ou na sociedade como um todo. 2009. uma vez que cometeram ato infracional. e ainda entender o papel do Estatuto na solução dos jovens em conflito com a lei. da autonomia e da independência.

Este capítulo pretende fazer uma leitura do caminho da educação. principalmente. Desse modo. indisciplina e violência. social. que se deseja realizar. 3. sociais. o que se entende por disciplina. Busca mostrar as possibilidades de se trilhar um caminho de educação que seja capaz de na resolver os conflitos por meio de um andar pautado numa educação democrática. o que se faz estipula. Tal caminho será objeto principal deste terceiro capítulo do trabalho de conclusão de curso. econômico e também educacional. É a realização destas possibilidades que impele o homem a perceber o seu preço e o seu valor.59 Tudo tem o seu preço e o seu valor. qualifica. ética. Desenhar o caminho que o homem deve percorrer é fixar o preço e o valor das coisas. para as relações sociais e para a sua própria missão. Possui diversas possibilidades. As relações tecidas no chão social abrem diversas possibilidades para o mundo. Seu valor. categoriza e o que se valora influencia determinantemente na vida humana. culturais. Ressalva-se que caminhar no trilho da educação não é realizar a essência da verdadeira educação. Escutar o . cultural. Com a educação também é assim. Mas é escolher o trajeto. Tem seus anseios e objetivos diferenciadores e antagônicos. Seu preço porque conseqüências advirão e resultados serão esperados. ou pressupostos pedagógicos. Diante disso. pois significações e importância serão estipuladas na vida. A fenda das possibilidades inaugura sempre um novo período histórico. político. É dar-se conta das possibilidades inauguradas e reinantes. formando assim um verdadeiro cidadão. tratar do caminho da educação é olhar para o mundo. valores e preços. econômicas e política. 1 A EDUCAÇÃO: À ESCUTA DO TEMPO Tomar conhecimento deste caminho requer que a educação ouça o tempo porque está inserida nas transformações históricas. O caminho da educação tem suas múltiplas formas e vivências.

(LYON. Porém. o Estado. Os avanços e as desigualdades fazem parte de uma nova sociedade gestada que se denomina de pós-modernidade. 1998. procura garantir todos os direitos inerentes à condição humana. “Poucos têm muito. (LYON. Pós-modernidade. LYON. . 7). O pósmoderno é o esgotamento da modernidade. como Estado de Social Democrático. 9-79). p. 1998. Colocando. e muitos têm muito pouco”. Na verdade. 1998. alcança notoriedade na década de 80 e 90.60 tempo tem uma dupla dimensão: 1) entender o que se passa na realidade atual. para que o cidadão tenha uma vida digna. percebe-se que o século XXI é o início de uma nova fase histórica. a pós-modernidade faz parte do pensamento social. (LYON. então. uma vez que o século XX passa por profundas mudanças sociais e culturais. 16). que acreditava ser a ciência o único meio para o progresso e uma expressão política na busca de um mundo racionalizado. O homem conquistou muitos avanços na área da ciência. a desigualdade social ainda é predominante. Para Lyon. 61 A partir desta definição concentra-se na exposição reflexiva feita pro David Lyon que oferece um quadro da realidade contemporânea. que é um conceito complexo61. David. abrindo a possibilidade de seguir diretrizes conforme o que se vive ou o que deve ser vivido. a pósmodernidade é “conceito multifacetado”. Por isso. p. Como conceito analítico-social. Tal conceito existe como uma idéia ou forma de crítica na mente dos intelectuais e nos meios de comunicação. p. em prática a audição sobre o tempo. Cf. São Paulo: Paulus. 2) traçar os rumos da educação de acordo com as exigências do tempo. que a chama a atenção para um conjunto de mudanças sociais e culturais muito profundas ocorridas no final do século XX e no início desse século em algumas das sociedades “avançadas”. da tecnologia e da economia. 1998.

1998. práticas. Percebe-se que uma nova sociedade está surgindo ou um novo modo de compreender e viver o mundo. 15). Mas o termo pósmoderno foi usado de modos distintos por estudiosos de literatura e feministas e por outro lado. Devido à influência desses autores e o próprio contexto sócio-político-históricocultural. e Georg Simmel (1858-1918). pelos estudiosos da cultura popular. . como a globalização. E. o pós-moderno é a incredulidade com relação às metanarrativas que se orientam pelo Iluminismo. Os progenitores de tal situação foram: Friedrich Nietzsche. 1993. 1993. Martin Heidegger com relação ao esquecimento do Ser. a raça e o sexo) das teorias totalizantes anteriores”. 1998. 1998. (LYON. que refletiu sobre o capitalismo. Pós-modernismo refere-se aos fenômenos culturais e intelectuais. Pós-modernidade significa o esgotamento da modernidade e as mudanças sociais ocorridas. 24-26). 1993. (Kaplan. Mas em ambos os casos. Questiona todas as premissas básicas do Iluminismo. p. p. Ambas as utilizações de pós-moderno provocam um pensar que “transcende os próprios binarismos das tradições filosóficas. por meio do qual a ciência legitima a si mesma como a edificadora da emancipação. Karl Marx. é costume fazer uma distinção entre pós-modernismo62 (ênfase no cultural) e pós-modernidade (ênfase no social). 1993. Já o pós-modernismo comercial ou cooptado foi teorizado por Baudrillard. Ocorre aqui uma “atomização do social”. com a publicação do livro 62 Kaplan diz que há dois tipos de pós-modernismo: o utópico e o comercial ou cooptado. Lacan. Kristeva e Rolan Barthes. talvez eclipsando a centralidade convencional da produção” (LYON. 63 Para Lyotard. Nesta medida. houve aqueles que refletiram sobre o conceito de pós-modernidade. 17). que anunciou o niilismo na sociedade. metafísicas e literárias ocidentais que foram questionadas pelo pós-estruturalismo e pela desconstrução. 14) O pós-modernismo utópico tem como representantes: Bakhtin.61 Entre os estudiosos. facilitando extensões maiores. há duas questões cruciais: “a proeminência das novas tecnologias de informação e comunicação. p. p. KAPLAN. Cf. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Derrida. Também há um deslocamento da leitura para se deleitar com as imagens e representações (iconocentrismo). e o consumismo. que analisou a situação cultural e social. 19-22). Cixous. 14). de gosto e opinião e o interesse pelo particular em lugar do universal. Arthur Kroker e David Cook. p. (LYON. Realiza queda das hierarquias de conhecimento. Quem popularizou o termo “pós-moderno” foi Jean-François Lyotard63. o emprego do termo ‘pós-modernismo’ assinala um movimento para além/longe dos vários posicionamentos (não apenas estéticos. O Mal-Estar no Pós-Modernismo: teorias. p.). 17). Ann (Org. (KAPLAN. p. (LYON. mas também os que versam sobre a classe. (KAPLAN.

A atitude logocêntrica da modernidade é radicalmente rompida pela ênfase posta sobre a indeterminância da linguagem” (LYON. 1998. A modernidade inaugurou uma nova ordem social. 26). p. no final do século XIX e início do século XX. Jacques Derrida65. a ciência. negar que qualquer texto seja definitivo ou estável. dando-se assim a destruição do significado. ou a passagem de bens eclesiásticos a [sic] propriedade secular” (GIBELLINI. “o mundo moderno está marcado por seu dinamismo sem precedentes. o conhecimento. Conseqüentemente. 1998. São mudanças sociais profundas derivadas do crescimento industrial-capitalista-tecnológico. 123). implicando no surgimento e no desenvolvimento dos centros urbanos. mas ligado com – ou fundido com – o poder e também cm os corpos”. O jurídico “significa a passagem de pessoas do estado clerical para o secular. remete à contribuição do cristianismo para a formação do mundo moderno e à permanência de impulsos cristãos na sociedade moderna (momento de continuidade)” (GIBELLINI. p. A Modernidade é um termo que se aplica à ordem que se manifesta depois do Iluminismo. 1998. 1998. p. 1998. 28-29). Max Weber e Ernst Troeltsch. Cf. Ainda presenciam-se os resultados da modernidade. Teologia da Secularização. A Teologia do Século XX. economia. “O conhecimento ainda está em questão. p. Porém. Ele busca a genealogia para compreender o mundo. O significado cultural ocorre mais tarde. estava morto. p. Desse modo. o processo de emancipação do mundo moderno da tutela do cristianismo e da Igreja (momento da descontinuidade) mas. por sua rejeição da tradição. 67 O termo secularização tem dois significados: um jurídico e um cultural. 123-152. . 66 Foucault se concentra sobre as ciências humanas. 1998. que indica “de um lado. arte e costumes) da tutela eclesiástica” (GIBELLINI. In: _____. o termo aparece casualmente em Wilhelm Dilthey. (GIBELLINI. p. GIBELLINI. O ponto fundamental da modernidade é a crença no progresso e no poder da razão humana de ser livre e o eu se construir. Embora tenha raízes antes do século das luzes. 1998. 24). (LYON. o estilo militar. Gianni Vattimo e Luce Irigary.62 The Postmodern Condition (LYON. Michel Foucault66. literatura. o homem. Inclusive. “para indicar o processo de emancipação da vida cultural (política. Até mesmo a religião não escapa da influência exterior. 35-47). introduzindo uma mudança em grande escala sem precedentes e em geral irreversível. p. 124). (LYON. 1988. Ela alcançou uma predominância 64 Baudrillard diz que o “o mundo contemporâneo é dominado por imagens dos meios de comunicação de massa eletrônicos”. São Paulo: Loyola. provocam um grande impacto sobre os padrões da sociedade. o cristianismo e a Igreja exercem na sociedade moderna. ele diz que a episteme moderna estava se desagregando e o seu objeto. ou sua marginalização. Rosino. a disciplina. ciência. Esse tema evoca também uma questão teológica setorial e uma questão global sobre o lugar que a fé cristã. p. 65 Derrida tem como tarefa a desconstrução. 123. 1998. 123). Outros pensadores que realizaram também a reflexão sobre o pós-moderno são: Jean Baudrillard 64. filosofia. levando-a se secularizar67. grifos do autor). p. 29. (LYON. que é “levantar discussões persistentes sobre nossos próprios textos e sobre os textos dos outros. a reflexão sobre o mundo pós-moderno continua. e por suas conseqüências globais”. p.30). Nessa acepção. de outro lado. os signos perderam o contato com as coisas significadas. 1998. Mas é somente depois de 1945 que o conceito secularização é aplicado para interpretar a modernidade.

p. na sociedade de informação. por causa da sociedade tecnológica e informatizada. 80-83).63 global. Para alguns pensadores69. A modernidade nos legou um mundo dividido em segmentos sociais. . Segundo Daniel Bell. O eu se traduz num projeto de posses de bens desejados. o homem do final do século XX e início do século XXI já se encontra na pós-modernidade. debater sobre a modernidade é um fator importante para a compreensão do mundo contemporâneo. mas estão envolvidas profundamente nas transformações contemporâneas do mundo. (LYON. o estilo de vida do consumidor e o consumo em massa monopolizam a vida dos homens no mundo pós-moderno. p. Com efeito. 61). reivindicando novas liberdades que seriam convertidas em direitos civis. A autoridade supostamente passa das bases religiosas para as científicas. pragmática: Funciona? E eficiente? O eu autônomo assume o centro da cena. 56). O eu é consumo e é livre para escolher. e o caráter de trabalho e de organizações em que os homens [sic] estão engajados” (1980. Tudo é mercantilizado. Mas simultaneamente esse eu individual perde o sentido de significado e de propósito. Esse pós-industrialismo é criticado por Bell. p. p. uma vez que sem elas não existiria o consumismo e a cultura de consumo. o consumo é tudo. mas de fato a principal regra prática é instrumental. políticos e sociais. as telecomunicações e os computadores tornar-se-iam “decisivos para o modo como os intercâmbios econômicos e sociais são conduzidos. p. para o modo como o conhecimento é criado e recuperado. 1998. o homem encontra-se em um novo tipo de sociedade: a sociedade pós-industrial que faz uso de novas tecnologias de informação e de comunicação68. não produzem a sociedade pós-industrial nem a pós-moderna. E assim a realidade se fragmenta. apud LYON. (LYON. na verdade. pois aprofunda as desigualdades sociais e econômicas associadas com o crescimento das tecnologias eletrônicas. 69 Cf. implícitas ou explícitas. (1998. 1998. Mas com o desenvolvimento da tecnologia e a busca incessante pelo lucro. o homem passou a ser explorado e alienado cada vez mais na sociedade capitalista. quer chegar a um entendimento com a modernidade. 58-76). Para alguns a modernidade acabou. 47-55). uma situação que se tornou um problema fundamental. Para Lyon. As 68 Segundo Bell. cada um regido por suas próprias leis. as novas tecnologias de informação e de comunicação. Com efeito. 1998. as notas de referência de 3 a 6. enquanto para outros. 1998. O homem também se tornou individualista. (LYON.

João Batista. p. p. O crescimento da onda religiosa contemporânea é resultado das mudanças sociais. p. a sociedade consumista (LYON. p. Por isso. (LYON. Nem falta a repetição mecânica de comportamentos consumistas que buscam mercadorias religiosas que agências especializadas nesse produto. hesitação e ansiedade. escolhendo formas rituais que lhes respondem afetivamente. Deve-se inclusive realizar uma interação entre o pré-moderno. 2002. Ou indivíduos que se abeiram das fontes religiosas por uma sede provocada por insatisfações existenciais. 123). (LYON. 109-113). “A conduta do consumidor se torna o foco cognitivo e moral da vida – consumir é um dever prazeroso -. Como constata Libânio. Portanto. São pessoas isoladas. é preciso repensar a noção de cidadania para que ela possa gerenciar. O pós-modernismo é o novo paradigma cultural. Novos movimentos religiosos atraem antigos militantes das tendências de esquerda. então. Essas intimidações têm como personagem o consumidor. LIBÂNIO. o moderno e o pós-moderno. de um novo modo. o conceito de pós-modernidade é uma ‘problemática’ preciosa que chama a atenção do homem para questões centrais relativas às mudanças sociais contemporâneas. fora de grupos institucionais estáveis. outros buscam um acesso imediato à esfera religiosa. Bauman critica71 o consumismo por sua “duplicidade”. (LIBÂNIO. remanescentes de práticas tradicionais somam sua presença nesse mundo da religiosidade [. 267).64 escolhas provocam dúvida. uma vez que não consegue cumprir o que promete: a felicidade universal. 1998. Sem sempre aquilo que a sociedade produz é capaz de preencher o vazio existencial da pessoa. a dimensão religiosa do ser humano reage fortemente.]”. 2002. Para Lyon. por carências materiais e/ou psíquicas ou por uma curiosidade despertada pela mídia. Sedentos de utopia ou de experiências complementares. 270).Tratando-se.. Mas ela renasce fortemente na sociedade de diversas formas.]. 71 Zygmunt Bauman diz que os homens recebem as “intimidações de pós-modernidade”. (LIBÂNIO. políticas e culturais experimentadas pelo ser humano. (LYON. 102-104). Cansados de recorrer a mediações institucionais. e também o nexo do gerenciamento sistêmico”... O consumo é a característica predominante da modernidade. Também é necessário fazer uso de uma análise sociológica para 70 Muitos acreditavam que a religião “morreria”. p. A Religião no iniciou do Milênio. As variadas expressões religiosas acompanham os gostos e necessidades da sociedade. Religiosidade reprimida em muitos explode selvagemente. mas de um modo paradoxal. Cada pessoa pode escolhê-la de modo a la carte. p. 87-104). mas é também fundamental na pósmodernidade. Todas as pessoas são afetadas pelo consumismo. no mundo contemporâneo. o modo como as pessoas são integradas na sociedade. Também é uma experiência de crise. 1998.. 1998. Cf. É na crise do mundo que a religião mostra a sua verdade e o seu significado. “A religiosidade explode em todas as partes [. informações. Até mesmo a democracia deixa-se guiar pelo mercado. 2002. 1998. Até mesmo a religião pode ser comercializada70.. num contexto globalizado. em comprar o produto religião que lhe mais satisfaz.. A um mundo marcado pela tecnologia. é um conceito que solicita a participação em um debate sobre a natureza e o rumo das sociedades. consumismo. Não se pode deixar de lado uma análise social e cultural que atuam juntas e obrigam os homens a formarem juízos analíticos e filosóficos sobre a modernidade em si. invenções. . São Paulo: Loyola.

pós 2º Guerra Mundial). Monopolista de Estado (séc. que compreende o progresso técnico-científico. cap. da reestruturação do sistema de produção e desenvolvimento. globalização designa [. 2009. inicio da déc. p. a busca de eficiência e de competitividade e a desregulamentação do comércio entre países com a destruição das fronteiras nacionais e a procura pela completa de trânsito para as pessoas. De acordo com Libâneo. da compreensão do papel do Estado. Por meio dela. de que as pessoas estão em meio a um acelerado processo de integração e de reestruturação capitalista.. a privatização de amplos setores de bens e sérvios produzidos pelo Estado. em partes como telecomunicações e informática. das modificações nele realizadas e das mudanças no sistema financeiro. p. (1998. o capitalismo lançou-se “[. (LIBÂNEO. A arrogância moderna negou o divino e se dirigiu para a emancipação do ser humano. 2009. 129-131). globalização entende-se como transformações econômicas. XIX e início do séc.. não se pode deixar de traçar alguns elementos comuns que se constatam no discurso reflexivo dos autores contemporâneos. refletir sobre a constituição do mundo no século atual é olhar para diversas leituras sobre ele. 2009. 51). cap. de mundialização. 72-73). Dito de outro modo. Deste modo. Assim. São transformações imbricadas por uma ideologia neoliberal que cria um sistema mundial auto-regulado. políticos e culturais que expressam o espírito da época e a etapa de desenvolvimento do capitalismo em que o mundo se encontra atualmente. Esse termo sugere a idéia de movimentação intensa. a globalização pode ser entendida como uma estratégia de enfrentamento da crise do capitalismo e de constituição de uma nova ordem econômica mundial. A pós-modernidade é um fenômeno de fin de millénium. p. TOSCHI. XX).] uma gama de fatores econômicos. Oliveira. (LIBÂNEO. Esse processo de aceleração. TOSCHI. sociais e culturais do mundo contemporâneo que se originam dos avanços tecnológicos.. OLIVEIRA. OLIVEIRA. XIX).65 compreender as mudanças significativas que questionam essencialmente todo edifício da modernidade. TOSCHI. ou melhor. 51-53). na organização do trabalho e nos hábitos de consumo. p. XX. Primeiro elemento circunstancial vivido pelo ser humano: a globalização. de 80). Toschi. TOSCHI. XX.] em um acelerado processo de reestruturação e integração econômica. 2009. (2009.. p. 74. Diante dessa diversidade. 51).” (LIBÂNEO. em uma espécie de mercado universal. No final do século XX. o capitalismo remodela o mundo. sociais. OLIVEIRA. Capitalismo72 é um modo de produção que possui um 72 O capitalismo possui quatro etapas no que concerne ao grau de produção: capitalismo concorrencial (séc. cap. grifo nosso). Monopolista ( séc. integração e reestruturação capitalista vem sendo chamado de globalização. políticas. ou seja. mercadorias e capitais. Concorrencial global (séc. p. OLIVEIRA. XVIII início do séc. (LIBÂNEO. .

80-84). uma Terceira Revolução Industrial. Alguns estudiosos afirmam que a sociedade atual deve ser chamada de sociedade do conhecimento. TOSCHI. OLIVEIRA. Mirza Seabra. . educacionais. ou sociedade tecnológica.71). Assim. a sociedade técnico-informacional. (LIBÂNEO. São Paulo: Cortez. unificador e auto-regular da sociedade. José Carlos. culturais originam-se. p. fica evidente que as mudanças econômicas. 59). ou simplesmente. Neoliberalismo: o mercado como princípio fundador. revolução informacional. OLIVEIRA. p. e ampliam-se os centros de pesquisa e as grandes empresas do mundo. (DELORS. p. p. sociedade do conhecimento. “Tem como princípio organizador a relação trabalho assalariado-capital e como condição básica a relação produção social-apropriação privada” (LIBÂNEO. Educação Escolar: políticas. TOSCHI. 2009. e as diversidades e os contrastes da sociedade. 2009. In: ______. LIBÂNEO. 59-60). que se alternam de acordo com o estágio de desenvolvimento e de adaptação. estabelecendo assim. 8. TOSCHI. era digital. 2001. da eficiência e da qualidade e o paradigma da igualdade. (LIBÂNEO. p. TOSCHI. Cf. revolução informática. Uma nova ordem que instiga a realização de um capital financeiro e especulativo. OLIVEIRA. A nova sociedade depende de dois modos de regulação da vida social: informação ou financiamento. 2009. principalmente. de sociedade técnico-informacional. Além da atuação dos interesses econômicos. políticas. 52). Mas se trata de uma sociedade gestada pela globalização que incentiva a constituição de redes científicas e tecnológicas que se liguem entre si.66 capital que é o principal meio de produção. estrutura e organização. revolução tecnológica. 2009. o capitalismo e o liberalismo estão assumindo duas posições clássicas ou macrotendências: a) a concorrencial que se preocupada com a liberdade econômica. p. OLIVEIRA. 84-95. que pode ser chamada também de: revolução científica e técnica. João Ferreira de. porque os espaços de aprendizagem se ampliam e o saber tem um espaço importante. (LIBÂNEO. a modernização capitalista-liberal realiza-se na execução de dois paradigmas de condução de projetos diferenciados. OLIVEIRA. 2009. p. TOSCHI. Inclusive. (LIBÂNEO. A atuação deste capitalismo no cenário mundial adapta-se e remodela-se conforme as novas exigências. ed. 39). 2009. pela aceleração das transformações técnico-científicas. Além disso. TOSCHI. tais como: o paradigma da liberdade econômica. OLIVEIRA. sociais. b) e a estatizante que tem como preocupação central o conteúdo igualitarista-social.

educação. etc. TOSCHI. OLIVEIRA. 2009. O computador tem. seu aperfeiçoamento e sua utilização não parecem ter limites. pesquisa. 64-66). ele constitui a maior invenção do século. Ela fez com que a humanidade entrasse na era da comunicação universal pela qual se abolem as distâncias. p. indústria. dos serviços e das relações sociais. que impele a constituição de um novo mundo. transporte. 2001. transformando as relações internacionais e a compreensão do mundo pelas pessoas. as transformações técnico-científicas revolucionam o mundo contribuindo para modificações da produção. telecomunicação. 64). . OLIVEIRA. TOSCHI. A vedete da revolução é a o computador. p. Para muitos. 2009. TOSCHI. São potencialmente infindáveis as aplicações do computador em diferentes campos da atividade humana: lazer. 2009. saúde. fazendo com que exista uma compreensão de que é imperioso informatizar. 3940). 60). p. ainda. (DELORS. 2001. denominada de “aldeia global”. em seu favor. 36). Desse modo. o fato de ter se tornado sinônimo de modernização. A Revolução se assenta na microeletrônica. p. (LIBÂNEO. de eficiência e de aumento da produtividade em um mundo cada vez mais competitivo e globalizado. Uma invenção que ganha vida e transforma-se num utensílio de prioridade absoluta. p. sociais e culturais: agricultura. Em todos esses campos começa a fluir uma cultura digital pela qual todos se sentem fascinados ou pressionados a dela participar e adquirir seus produtos. OLIVEIRA. microbiologia e a energia termonuclear. já que seu fascínio. sob pena de tornarem-se obsoletos ou de serem excluídos das atividades que realizam. (LIBÂNEO. (DELORS. Ela ajuda na realização de uma revolução informacional por meio do qual há um espantoso e contínuo avanço das telecomunicações dos meios de comunicação (mídias) e das novas tecnologias de informação. agricultura. informação. a indústria e o comércio. A revolução na Microeletrônica revoluciona ou traz grandes reflexos econômicos. uma nova cultura. comércio. Nela há uma livre circulação de imagens e de palavras.67 A tecnologia encurta o tempo e o espaço e se relaciona de modo cada vez mais estreito os diferentes aspectos da atividade mundial. (LIBÂNEO.

(LIBÂNEO. faz com que os mercados se unifiquem e se dispersem. 75. 2009. p. desemprego. (CASTRO. p. (LIBÂNEO. 199). Com efeito. acúmulo de informações. (LIBÂNEO. OLIVEIRA. do comércio. OLIVEIRA. d) demissões. TOSCHI. Diz respeito a uma revolução caracterizada pelo surgimento de uma nova linguagem comunicacional. diferentes mecanismo de informação. chamada de “aldeia global”. do trabalho e das finanças. eliminação de direitos trabalhistas e flexibilização dos contratos de trabalho. b) automação. subemprego. 2007. mas também impõe a lógica da exclusão. capitais e tecnologias sem identidade nacional. do consumo. 75). p. exclusão e crise social. acesso e pesquisa. foi cunhada por McLuhan. diminuição do poder sindical. 2009. 2009. os excluídos desse exercício”. possibilidades de entretenimento e de educação. Ela significa a concorrência das informações com o conhecimento sistemático. pressupondo. de outro. padrões e valores de modo intenso.68 Essa nova condição de vida. presente no mundo da produção. 2009. nessa nova realidade. a submissão a uma racionalidade econômica baseada no mercado global competitivo e autoregulável. da cultura. configura uma nova ordem econômica mundial. OLIVEIRA. TOSCHI. g) desqualificação do Estado (como promotor do desenvolvimento econômico e social) e minimização das políticas públicas. 69). . p. Esse fenômeno atinge seu ápice a partir de 1980. ou melhor. os que têm o monopólio do pensamento. rompe as fronteiras e enfraquece governos. TOSCHI. desemprego estrutural. propiciando nesta interação humana circulações de informações. c) implementação de programas de qualidade total e de produtividade (processos de reengenharia em vista de maior racionalidade econômica. TOSCHI. pois a globalização. a globalização. f) diminuição dos salários. OLIVEIRA. 76). da informação. (LIBÂNEO. p. Tal ordem é a mola propulsora que traz as seguintes conseqüências: a) produtos. (LIBÂNEO. Mas que também possibilita “uma nova forma de divisão social e de exclusão: de um lado. p. 68). informatização e terceirização da produção. OLIVEIRA. e) recessão. TOSCHI.76). 2009.

há um crescimento demográfico rápido. um novo estilo de relacionamento. 2001. p. a fechar-se sobre si mesmo.] luta-se contra as formas depressivas de solidão pela constituição de grupos de interesses comuns” (2009. imediata. (DELORS. Libânio73 apresenta um fenômeno típico da contemporaneidade: a tribalização que podem ser de dois tipos: real e a virtual. 2001. assim. correndo o risco de encarar como ameaças as evoluções que se operam além das fronteiras do seu grupo imediato e de. 241). alteração das referências existenciais ou habituais do homem. p. com a possibilidade da conseqüência de rejeição do outro. uma leitura reflexiva sobre a relação entre o homem e o seu envolvimento com a internet. Somam-se a eles outros fatores. a marginalização dos espaços rurais. captados através dos meios de comunicação social. a atração pelos modos de vida e. . p. vitalista. 43-46). 2009. 41). tais como: a multiplicidade de línguas..] certa socialidade contemporânea de caráter presentista. no ano de 2010. novas formas de comunicação in massa surgem. Ele apresentou no capítulo 18. por um sentimento ilusório de segurança. 2001. a urbanização acelerada. expressão da diversidade cultural da humanidade. meios de transporte mais rápidos e mais baratos”. sugerindo a busca da lucidez. Sinalizando-se. a existência de novas sofisticadas armas químicas ou biológicas. ao mesmo tempo.. “a continuação do êxodo rural. 73 O teólogo João Batista oferece uma leitura interessante sobre o cenário mundial nas suas mais diferentes interfaces. (DELORS. uma “[. E a virtual consiste no fenômeno chamado de cibercultural ou no ciberespaço pelo qual as pessoas se comunicam via internet. E como educar hoje?. numa grande parte do mundo em desenvolvimento. às vezes. p. 243). tais como: Facebook e Twitter.69 A nova ordem que se reina acentua as pressões migratórias. existindo uma sociabilidade sem relação afetiva com o outro. 46). p. então. A real: “[. tribal” (LIBÂNIO. Mas. (DELORS. ser tentado ou instigado. João B. degradação ambiental.. Ele apresenta a questão dos chats e do Orkut. As bases da existência do homem contemporâneo encontram-se abaladas.. em chat. ou antes. amplia-se o crescimento desigual entre os países. pelos valores dos países mais prósperos. integrando.

1 A resposta da Educação em conformidade com o tempo Diante das premissas apresentadas anteriormente.1. Hoje em dia a ciência procura controlar a vida das pessoas. é considerado careta e excluído. eleição. a existência não se reduz a idéias.] o momento atual mostra-se paradoxal. o limite do sistema neoliberal se impõe. Dinheiro é a base fundamental para que o outro seja importante. Pouso Alegre. Limite estreito. Pensamento único. bares. João Henrique. o pensador Soren Kierkegaard74 redescobre o indivíduo (PAULA. A verdade é para ser vivida. O mercado rege com leis férreas o jogo de interesses. pela multidão. Tudo gira em torno do lucro. 2008. ao favorecer naturalmente o capital e seus detentores em detrimento do trabalho. é interessante melhor debruçar-se na pesquisa da sua concepção antropológica. o homem contemporâneo é dominado pelo mercado. Instiga o homem repensar seus atos e transformar-se para provocar uma transformação na sociedade. p.70 Ademais. Ser homem é ser uma mercadoria. festas. pela massa.. 197). 96 p. Ele se vende para se sentir bem com os amigos. Desse modo. Quem não participa dos ambientes sociais. a massa é a mentira. No campo econômico. e não se veste como manda o figurino. então. A multidão. a leitura do seguinte Trabalho de Conclusão de Curso: SILVA. 250) apresenta em linhas sucintas a configuração contemporânea: [. transgridem-se os limites com toda desenvoltura. Existência é reflexão. 2002. Considera-se qualquer oposição como entulho do passado. à lógica e à experimentação. 3. possibilidade. A liberdade do ser humano é atrofiada pelo consumo: ele é aquilo que tem e não aquilo que é. A história humana está numa desenvoltura tão intensa que faz o ser humano 74 O pensador Soren A. Monografia (Graduação em Filosofia) – Faculdade Católica de Pouso Alegre. A concepção de Homem no pensamento existencial de Soren Kierkegaard. Portanto. O homem precisa resgatar o verdadeiro sentido da verdade. O homem é responsável pela sua existência. Sugere-se. Kierkegaard instiga uma percepção crítica com relação a configuração do homem que se vive. pelo seu agir.. com a família e com a sociedade. Mas para Kierkegaard. Libânio (2009. como baladas. fica evidente que o mundo atual é complexo. Ele é aquilo que se torna. No campo da ciência e da ética. . interiorização. Contra essa lógica secularista. Muitas pessoas são aquilo que os outros são. p.

de idéias. Mas não se deve pensar nisso de modo exclusivo. p. mais flexível e polivalente. o que provoca certa valorização da educação formadora de novas habilidades cognitivas e de competências sociais e pessoais. Cf. nas necessidades e nos valores escolares. Os oprimidos são cada vez mais explorados. a sociedade no duplo sentido do verbo. Para alguns não existe ideologia porque esta acabou. se o mercado unifica. Acesso em: 17 nov. A divergência de opiniões.71 perder-se diante desse emaranhado de fatores que constroem uma teia do existir caracterizada por mutações constantes no estilo da vida humana e interferem significativamente na organização das instituições. Disponível em: <http://revistaeducacao. d) produzem modificação nos interesses. que existe uma ideologia. cabe a escola propor um sistema educacional que possibilite transformar a realidade. Enquanto para outros. Contudo. finalidades mais compatíveis com os interesses do mercado. as novas exigências estabelecidas para a escola são: a) exigem um novo tipo de trabalhador.br/textos. a escola reflete o meio. Uma ideologia a favor da vida. Pensadores divergem sobre este assunto. Repete em miniatura o que acontece na grande sociedade e prepara as pessoas para manter a estrutura dominante” (2009. ou seja. a ideologia presente na educação brasileira garante privilégios para a classe dominante. não porque ela deseja e escolhe este caminho. Interação de distintas visões de mundo. dificulta enxergar um caminho coerente e pautado na realização do ser humano.uol. A escola é a reprodução do sistema vigente75. regula e normatiza a vida social e a escola é um segmento da vida social.com. Assim. uma vez que ela está inserida no mundo. Diante disso. Educação e escola possuem uma ideologia? É uma questão de percepção da realidade. Nessa situação. Torna-se um espaço de confluência de valores. Segundo Libânio. percebe-se na realidade social. 240). . 2009. Inclusive. Sendo ela positiva ou negativa. A escola. como uma instituição social. para a escola. É apenas um elemento para entender o que se ocorre na escola. culturas. se vê numa encruzilhada constante. construir seres humanos críticos. valores ou crenças. crenças. Porém. Mais presente do que nunca. então. b) levam o capitalismo a estabelecer. o fato é que o homem atua através de um conjunto lógico e sistemático de ideias. “a escola reproduz. 75 Existe uma ideologia ou não na escola? Essa é uma questão que ainda instiga e é debatida por vários pensadores. econômica e política. sob muitos aspectos. Fabiano. Ela se relaciona com diversas instituições e introduz no corpo do seu funcionamento diversos modelos de segmentado da sociedade.asp?codigo=12B793>. da dignidade. CURI. c) modificam os objetivos e as prioridades da escola. diz que está presente porque faz parte da condição humana.

OLIVEIRA. 55). Assim. (LIBÂNEO. 2009. impõe uma adequação às demandas e exigências do mercado. adquire as condições de inserção no mundo globalizado e. f) induzem alteração na atitude do professor e no trabalhador docente. OLIVEIRA. a flexibilidade. A escola de hoje precisa conviver com outras modalidades de educação: a formal. 52). 53). ideologicamente. com objetivo de formar cidadãos mais preparados e qualificados para um novo tempo. busca realizar diretrizes e medidas pelas quais o País se moderniza. um discurso de crise e de fracasso da escola pública. a competitividade. p. articulando-as e integrando a elas. exigem a diversificação. (LIBÂNEO. como decorrência da incapacidade administrativa e financeira de o Estado administrar o bem comum. (LIBÂNEO. desse modo. ao mesmo tempo em que se dão mais importância aos métodos e ao papel da iniciativa privada no desenvolvimento e no progresso individual e social. 2009. TOSCHI. 101). TOSCHI. de acordo com os parâmetros reformas neoliberais que. 2009. A necessidade de reestruturação da escola pública exige a primazia da iniciativa privada.72 e) forçam a escola a mudar suas práticas por causa do avanço tecnológico dos meios de comunicação e da introdução da informática. p. a produtividade. se adapta às exigências de globalização da econômica fundadas pelas instituições financeiras e pelas corporações internacionais. apresenta. no que se refere a educação. o governo brasileiro vem implementando suas políticas econômicas e educacionais de ajuste. . OLIVEIRA. a informal e a profissional. Diante dessa crise da função do Estado. p. TOSCHI. o papel do Estado é relegado a segundo plano. a eficiência e a qualidade dos sistemas educativos. regida pelas leis de mercado. da escola e do ensino. OLIVEIRA. (LIBÂNEO. As políticas. p. por sua vez. TOSCHI. uma vez que os meios de comunicação e os demais recursos tecnológicos são muito motivadores. A orientação política do neoliberalismo de mercado. na modernização da instituição educativa. dá-se início de um processo de reestruturação dos sistemas educativos e da instituição. isto é. Assim. 2009.

” (LIBÂNEO. ou melhor. p. OLIVEIRA. 2009. as empresas não contribuem para a inserção social. 55). ao desenvolvimento intelectual.] Em vez de um projeto educacional para a inclusão social e para a produção da igualdade. a mobilidade social é pensada sob o enfoque estrito do desempenho individual” (LIBÂNEO. sofisticado. o insucesso escolar76 surge como irreversível. fundamentando-se somente nos resultados escolares. As empresas selecionam os mais aptos que passaram pela lógica da exclusão escolar. Desta forma. 56). (DELORS. (LIBÂNEO. TOSCHI. 2001. sem levar em conta a diversidade dos talentos individuais. (DELORS.] gera simultaneamente exclusão para os de pouca escolaridade e concorrência entre os escolarizados” (2009. 102). OLIVEIRA. 56). p. Assim. porém pode ser pervertido e traduzir-se numa prática excessivamente seletiva. TOSCHI.. à marginalização e à exclusão social77. . deseducou os seres humanos.. que é necessário em certos casos. A nova ótica da educação prioriza o princípio de emulação. porque o insucesso escolar é gerador de exclusão. 106). OLIVEIRA. p. gera. além de formar o consumidor competente. porque impõe a todas as crianças o mesmo modelo cultural e intelectual. Os aptos são aqueles que estão de acordo com os resultados quantitativos realizados na escola. 113). p. 2009. acusados justamente de limitar a realização pessoal. 2001. e consequentemente.. muitas vezes. p. 76 “[. p. TOSCHI. exigente. 239).73 A nova pedagogia educacional tem a “função primordial desenvolver as novas habilidades cognitivas (inteligência instrumentalizadora) e as competências sociais necessárias à adaptação do indivíduo ao novo paradigma produtivo. para que a escola corresponda aos desafios impostos pela sociedade tecnológica à escola e ao campo da educação em geral. (DELORS. adota-se uma lógica da competição em que a equidade.. Esse fenômeno “[. na verdade. 2009. Desse modo. 77 Libânio percebe no cenário educacional que ocorreu uma elitização da educação que. p. Busca-se assim uma qualidade total na educação através de um enfoque sistêmico que acontece através de uma administração eficiente e na utilização de uma tecnologia educacional. 2001. os sistemas educativos formais são.

a fim de não ensejar novas formas de divisão social. justa e solidária. 110). emancipadora e humana seja subjugada a interesses hegemônicos. OLIVEIRA. p. a escola precisa enfrentar alguns obstáculos: a indisciplina e a violência.. uma educação voltada para o mercado perde sua essência. 111-112). mas . Precisando agir na realização de uma democracia de fato.] perspectivas democráticas de construção de uma sociedade moderna. evidentemente. Deve ajudar na construção de uma cidadania consciente e ativa. OLIVEIRA. Não porque eles são empecilhos próprios. 114). 2009. p. Torna-se precária quando se prioriza uma formação exclusiva para o trabalho. Com efeito. TOSCHI. que irão oprimir e dilacerar a vida humana. econômica e cultural. a educação tem o desafio de capacitar a mão-de-obra e requalificar trabalhadores. Portanto. 2009. TOSCHI. versátil qualificado intelectual e tecnologicamente e capaz de se submeter a um contínuo processo de aprendizagem” (LIBÂNEO. ainda. Desta forma. o que. mas a construção de uma sociedade democrática na forma e no conteúdo. objetivando satisfazer as exigências do sistema produtivo e. ouvindo o tempo. elas apresentam que o novo sistema produtivo necessita de um “trabalhador cada vez mais polivalente. é preciso dotar os sujeitos sociais de competências e habilidades para a participação na vida social. Os novos paradigmas estabelecidos devem contribuir na geração de [. flexível. São dois fatores que impedem a consecução de uma educação libertadora e humana. Um consumidor compreendido como um cidadão eficiente e competente.. Em uma sociedade de conhecimento e de aprendizagem. formar o consumidor exigente e sofisticado para um mercado diversificado. 2009. (LIBÂNEO. (LIBÂNEO. que saiba competir seus talentos e habilidades no mercado de trabalho. OLIVEIRA. não deve significar a aniquilação da diversidade e das singularidades dos sujeitos. TOSCHI. abre o caminho para que sua função libertadora. p. Quando ela se deixa guiar pelas rédeas da economia. Sua ação deve ser fiel a sua missão. a instituição escolar consegue agir.74 Aliás. sofisticado e competitivo.

O mundo influencia nas decisões da escola. Entretanto.75 momentos em que a escola deve pesquisar. Mas será? A indisciplina e a violência escolar desmoronam seus objetivos? A educação está mesmo no “fundo do poço? Quais são as causas e as conseqüências destes fatores? Há soluções para tais condutas? São perguntas como essas que nortearão o presente tópico. o tópico seguinte buscará compreender o que seja indisciplina escolar e a violência como barreiras a serem enfrentadas pela escola para que construa uma sociedade melhor. Contudo. É como ela se visse deixada ao relento. mas procurar conciliar sua essência com os objetivos do mundo. na realização de uma educação justa. Elas são elementos que objetivam não a consolidar uma escola direcionada para o mercado. jogada “na lama”. eles são fatores desmotivadores para a perpetuação do descaso escolar e da ignorância no entendimento de suas causas e conseqüências. Quem quiser educar. um das questões que preocupam a escola é a indisciplina e a violência. interpretá-lo e remodelá-lo. igualitária e digna. Atualmente. Determina suas prioridades e qualidades. 3. não pode querer ser o mundo. São fatores angustiantes e preocupantes para ela. Sua missão é ajudar o mundo a ser melhor.2 EDUCAÇÃO: À ESCUTA DE SI MESMO A educação faz parte de um ninho complexo de diversos fatores que confluem para poder se guiar no mundo. A educação deve estar atenta a isso. . compreender e agir. Para tanto. mas “presentes” que irão propiciar uma revisão das suas práticas pedagógicas para o estabelecimento de uma vida democrática. precisa ouvir o mundo.

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A indisciplina e a violência não deixam a educação “na lama” quando são fatores que a educação procura superar e fundamentar-se por um compromisso sério consigo mesmo. Sua precariedade advém de diversos fatores, inclusive, de ela isentar-se da culpa e responsabilizar a sociedade ou ao Estado. Se ela está “na lama”, melhor ela se reerguer, por mais que o barro dos aspectos econômicos, sociais culturais, políticos a afligem; por mais que a chuva da desestruturação da “nuvem” familiar a incentiva a ficar na lama; por mais que a “água” de soluções imediatistas e punitivas não a ajudam encontrar uma saída do abismo. Diante desses conflitos, a educação tem que olhar para si mesma. Refletir seriamente e comprometidamente sobre a perspectiva sua para o mundo atual. Para isso precisa inicialmente conhecer as causas da indisciplina. De acordo com Julio G. Aquino (2003, p. 16) 78, uma das primeiras causas é o fato de a sociedade se encontrar numa contínua mudança. Sua instabilidade chega também à escola porque são alunos que vêm desta configuração social. Mas não se pode pensar que somente o meio influencia na maturação das capacidades psicológicas do indivíduo. (LAJONQUIÈRE, 1996, p. 26) 79. Esta configuração provoca uma barbárie escolar, porque o ethos escolar contemporâneo não realiza sua missão adequadamente. (AQUINO, 2003, p. 22). Ultimamente, “forjaram-se medidas de enquadramento penal dos hábitos do aluno, de acordo com regulamentos, estatutos, códigos múltiplos. Os regimentos escolares e suas ‘normas de conduta’ são bons exemplos desse movimento”. (AQUINO, 2003, p. 20). Prefere-se punir a educar. Outra causa é o quadro de conflitante de flexibilização, desritualização institucional das práticas escolares. “Os ritos são as rotinas catalisadoras dos papeis e das funções ali em
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A reflexões seguinte deste autor foram retiradas da seguinte obra: AQUINO, Julio Groppa. Indisciplina: O Contraponto das escolas democráticas. 1. ed. São Paulo: Moderna, 2003. 79 LAJONQUIÈRE, Leandro. A criança, sua (in) disciplina e a psicanálise. In: AQUINO, Júlio Groppa (Org.). Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1996. p. 25-37.

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vigor para os que dela fazem parte” (AQUINO, 2003, p. 23). Mas tais ritos estão em crise, isto é, a crise da educação “traduz-se no desarranjo das pautas de funcionamento dessa instituição secular e, por conseguinte, na desfiguração dos papeis e das funções clássicas de seus protagonistas” (AQUINO, 2003, p. 23). Lamentavelmente incumbe ao professor um projeto messiânico:
exigem do professor inúmeros papeis – o familiar, o clínico (médico, psicológico, logopedista etc.), o assistência social, o nutricionista. O papel de ensinar é ampliado até o incomensurável: é preciso ensinar tudo. [...] Escola impossível, onde se coloca ao professor a missão de levar para a sala de aula tudo aquilo que falta. Os resultados sempre serão poucos, lhe aponta uma eterna dívida. (AMORIN, 1989, p. 94, apud AQUINO, 2003, p. 24).

Segundo Paulo Ghiraldelli Júnior (2009) 80, os professores trabalham com “anjos na escola”.
O que a professora faz é diferente. Eis o que ela faz: ela limpa o traseiro de seus alunos (às vezes, mais de 50 em uma sala), assua o nariz deles, enxuga o suor deles, cuida de machucados e quebraduras nem sempre feitos na escola, toma a temperatura deles para ver febre, escuta pulmões, tira piolhos, escova dentes da criançada. Em alguns lugares, examina partes sexuais por conta de abusos e outras coisas do tipo ou, mesmo, por conta de coceiras e até DSTs avançadas. Isso é o que o educador faz. Ele ou ela não tem em sala de aula nenhum daqueles anjos sem corpos que gente do tipo do pessoal que escreve sobre educação imagina estar na escola. Ora, enquanto nossas autoridades não admitirem, no âmbito da discussão pedagógica, que o que se paga para o professor para que ele lide com corpos, e não com anjos – até porque anjos não vão para a escola (que eu saiba) –, é realmente uma miséria, não há o que conversar. Não há o que falar sobre educação. [grifo do autor].

Esta situação gera um sentimento de frustração ao professor que se entrega ao sistema que aliena. O professor se vê desmotivado, a ponto de “cruzar os braços” para a mudança que deve ser feita por ele na escola. Essa falta de estímulo também repercute nas ações dos alunos que, ao verem o professor descomprometido, colabora para que a indisciplina e a violência aconteçam. Quando eles percebem que nada é feito, aproveitam a oportunidade para se rebelarem de modo que chamem a atenção para uma mudança que fica somente nas suas memórias. Guardam assim, que a escola pública é “péssima”, de “baixa”
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GHIRALDELLI JÚNIOR, Paulo. Anjos na escola pública brasileira. Disponível <http://portal.filosofia.pro.br/noticias/anjos-na-escola-publica.html>. Acesso em: 23 set. 2009.

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qualidade, professores “chatos” e “ignorantes”. Mas também, perpetuam a condição que escola pública é precária e não tem solução. Entretanto, é necessário que os professores entendam seu papel. Eles não podem aceitar que a indisciplina e a violência possuem uma causa exterior, uma vez que não são figuras exclusivas do aluno, nem somente é responsabilidade da sociedade, nem exclusivamente competência da própria organização do corpo pedagógico 2003, p. 25). Assim, “é possível constatar, pois, que a indisciplina (como problema teórico e prático) em geral é tratada de maneira imediatista, sem o circunstanciamento conceitual necessário” (AQUINO, 1996, p. 7). Inclusive, as reflexões apressadas inferem que só a droga da obediência poderia salvar a instituição escolar. Ou seja, identificam como um caráter patológico a conduta dos alunos, atribuindo-lhe o “[...] estatuto de anômalos, disfuncionais, enfermos” (AQUINO, 2003, p. 32). Querem ver a disciplina somente como docilidade e obediência. Muitos crêem que os alunos possuem TDHA82 (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), termo presente na Associação Brasileira do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Segundo a pesquisa feita por esta Associação, 3 a 5 % dos alunos possuem este transtorno, estando mais presente nas crianças de 5 a 10 anos de idade. Pensa-se que as causas para ela são: genes, lesões neurológicas mínimas (gestação) ou alterações das substancias químicas cerebrais. (AQUINO, 2003, p.26-29). Muitos educadores estendem essa patologia para seus alunos, pensando que eles se encontram enfermos ao realizarem atos indisciplinados, sem ao menos compreender do que se
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. (AQUINO,

Yves La Taille reflete que os seguintes perigos no tratamento deste tema: moralismo ingênuo (valores), reducionismo (psicológico – características individuais, sociológico – causas gerais, complexidade). (1996, p. 910). Cf. LA TAILLE, Yves. A Indisciplina e o sentimento de vergonha. In: AQUINO, Júlio Groppa (Org.). Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1996. p. 9-23. 82 Aquino apresenta 18 razões para perceber quais são os alunos que possuem o transtorno de atenção e hiperatividade. Cf. AQUINO, Julio Groppa. Indisciplina: O Contraponto das escolas democráticas. 1. ed. São Paulo: Moderna, 2003. p. 26-28.

transferem a responsabilidade para outras ciências. e. acaba contribuindo com a psicologização do cotidiano escolar. na verdade.. p. por um lado. Mas “[. p.. (AQUINO.. para Aquino. está fadada ao fraco uma vez que apenas ele mesmo poderia. Pensa-se também como sendo apenas um fenômeno específico.se que seja uma “[. Desse modo. nunca se sabe ao certo o que separa os atos de incivilidade dos de indisciplina nem onde este terminam para começarem os atos violentos.. 2003. de vir a saber sobre a singularidade subjetiva do agir de um aluno. por outro.] a pretensão de alguns educadores. os pais e os alunos dizem que falta postura do professor. p. Sugerem que o professor deve se impor. de passagem.79 trata esta doença. por mais que tenha conhecimento de que há uma “linha divisória entre incivilidade.” (2003. Responsabilizam a família que deve ter causado prejuízos psíquicos ao educarem de um . Inclusive. chegado o caso.. percebem.. Mas. ou nos próprios alunos. trata-se de um inadiável trabalho ético-político que se impõe aos educadores atuais. 10). 2003. 7). psiquiatria e medicina para solucionarem estes problemas. p. mas não se pode dizer o mesmo em relação a diaa-dia escolar.. como a psicologia.] manifestação de uma agressividade latente dirigida contra as figuras de autoridade. (p. que depende das características da clientela. Entretanto..] não se pode dizer que haja um perfil docente mais (ou menos) propenso aos enfrentamentos disciplinares [. indisciplina e violência. da adolescência para a juventude. 9-10). Na visão de Lajonquière (1996. p. 2003. agressividade essa gerada pela ‘desestruturação’ do ambiente familiar”. (AQUINO. que é o de problematizar a demanda psicologizante por causa da intensa necessidade em requerer serviços parapedagógicos. 8). supõe. 2003. erroneamente. Depois de jogar a culpa na sociedade. nos professores. p.]” (AQUINO. pois a indisciplina é “um fenômeno escolar que ultrapassa fronteiras socioculturais e também econômicas” (AQUINO. valer-se ‘utilmente’ de ‘seu’ saber a produzir. 28). 28) [. Neste. 36). Um fenômeno que atinge seu ápice entre a etapa final do ensino final e o início do ensino médio. Mas.

p. Muitos professores preferem inicialmente aconselhar até se cansarem. depois. p. castiga-se até o limite do aceitável – daí em diante. 22). as causas para os conflitos em torno da disciplina estão relacionadas com o meio ou com a sociedade que influencia nas condutas dos alunos: “As desigualdades econômicas e sociais. os indisciplinados são mensageiros fieis das transformações sócio-históricas que batem às portas das escolas. A escola passa a ser o templo da juventude. (AQUINO. a Filosofia pelas discussões das crises existenciais. Pela coerção. Eles queixam que há falta de limite porque os pais não lhes impõem limites. 2003. 2003. p. estabelecem punições reparatórias.. p. e. Para Aquino. (AQUINO. O fato é que a escola “aconselha-se até o limite do suportável. os encaminhamentos parapedagógicos. 2003. não o mais o templo do saber. além de contribuírem com o esfacelamento da escola como instituição democrática ou contestação ou resistência civil. (LA TAILLE.” (LA TAILLE. 11). p. o aluno irá se tornar um ser humano melhor.. 2003. visto que este é um ambiente ainda clássico e “bancário”. 2003. 12). não restará outra alternativa se não a de buscar a redenção externa. as ordens pelas negociações.80 determinado modo. . 11. Por isso. p. Sendo a escola então um “[.] palco de confluência de forças molares que em muito ultrapassa seu escopo de atuação. 35). a própria tecnologia é o fator propulsor para o desinteresse em sala. a crise de valores e o conflito de gerações são alguns dos factores [sic] que podem explicar os desequilíbrios que afectam [sic] tanto a vida social como a vida escolar” (ESTRELA. preocupa-se em intimar os alunos e estabelecer punições para que ele se discipline. 40). 9). p. Ainda apresentam que a televisão83.” Um 83 Um dos problemas atuais é o fato da criança ser demasiadamente adulada: “Troca-se Machado de Assis por história de Walt Disney. 1996. p. a autoridade pela sedução. apud AQUINO. (AQUINO. 1996. Assim. 1994. 11). uma vez que ela ocasiona desgosto pelo estudo.” (AQUINO. por último.

(AQUINO. Tal estruturação consiste na introjeção de determinados parâmetros morais apriorísticos. visa-se à ordenação do pensamento do “ aluno”. Porém se esquecem de que a tarefa da escola é “[. Como apresenta Aquino (2003. Nem tudo depende da família. Ou melhor. p. Inclusive. p. (AQUINO. porque a escola não é marionete nem totalmente autônoma diante dos problemas que enfrentam. no caso escolar. São diferentes porque o modo como enfrentam as questões da vida privada e da vida pública são distintas.] a prerrogativa do trabalho de (re) construção do legado cultural”. 42-44). pelo fato de que as crianças são seres ainda em constituição. Isto é. o que está em questão é a ordenação da conduta da “criança”. ou algozes porque as crianças ajudam reproduzi-las. 2003. porque a instituição escolar reproduz as forças.. (AQUINO. A segunda. 45): a existência de crianças impõe dois tipos de obrigação a toda a sociedade: a preservação da vida e a continuidade do mundo. 2003. Família e Escola “são instituições vizinhas. reciprocidade. Família e sociedade desestruturadas não são fatores únicos. não deveriam confundir-se. quando a família incentiva uma responsabilidade prévia (obedecer e respeitar) dentro de casa colabora para o reconhecimento da autoridade externa. p. . A primeira. porque a equação de um pai provedor mais (+) uma mãe cuidadosa com (+) relações harmoniosas não geram (=) uma prole disciplinada. cooperação. Trata-se. está a cargo da esfera familiar. 40). deve ficar claro que os atos indisciplinados não correspondem exclusivamente às transformação macroestruturais. por meio da moralização de seus hábitos.81 lugar onde as crianças e os adolescentes são vítimas. p. solidariedade etc. partilha de responsabilidade. consequentemente.. 45). No entanto. assumindo o cuidado familiar. por meio da reapropriação do legado cultural. No caso familiar. de grandezas de diferentes ordens que não se confundem jamais. que são: permeabilidade a regras comuns. do reconhecimento da autoridade como condição sine qua non para a convivência em comunidade e. para o trabalho em sala de aula. 1996. pois. pelo fato de elas serem representantes de uma nova geração. p. por isso alguns pensam que os educadores devem ser orientadores dos pais. 2003. (AQUINO. mas díspares em suas práticas”. é de responsabilidade do âmbito escolar. 39).

os problemas técnicos e de formação que parecem eternamente desencontrados das demandas e das condições dos aprendizes. A escola não deve pensar que a democratização do ensino não leva os alunos a serem ingratos por não valorizarem seu lugar concedido na escola. apud AQUINO. Marlene. gerando assim um estado aberto de ambigüidades e insatisfação. 46). Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. o que implica. p. GUIRADO. (AQUINO.. Infelizmente. 57-71. a disciplina deve ser percebida como um “[. 2003.). p. 46-47). A manutenção da disciplina constitui com efeito. 1996. 47). Consequentemente. Guirado84 revela que: A relação professor/aluno já vem abalada por embates e desafios: os problemas infra-estruturais como os salários e a precariedade das condições físicas. 1996.82 Nessa relação de autoridade que se faz no envolvimento entre professor e aluno. pois ela deveria ser espaço de (re) produção científica e cultural nas expectativas de seus agentes e clientela. tão antigo como a própria escola e tão inevitável como ela. um comprometimento de ordem ética. In: AQUINO. Com efeito. .]” (ESTRELA. (1996. p. Júlio Groppa (Org. 1994. Além do mais. p. pois professores deveriam ater-se as suas atribuições didático-pedagógicas.. a nosso ver. a instituição educativa preocupa-se mais com a normatização da conduta alheia do que com o legado cultural que deveria ser assimilado pelo aluno. p. como já testemunham vários textos de Platão [. São Paulo: Summus. no sentido de que eles não 84 Cf.] fenômeno essencialmente escolar. Terceiro: a inevitável quebra do contrato pedagógico. se gasta muito mais energia com as questões psíquicas e morais do aluno do que com a principal tarefa de estimulá-los ao saber. nem impostores. os problemas sociais e de relacionamento com os de segurança e ameaças ao exercício de sua função por alunos e outros grupos institucionais.. Segundo: o desvio de função. a escola sofre as seguintes conseqüências quando não cumpre satisfatoriamente sua tarefa: Primeiro: o desperdício da força de trabalho qualificada. (AQUINO. uma preocupação de todas as épocas. 69). uma vez que a proposta de trabalho educacional raramente se cumpre de maneira satisfatória. a escola deveria admitir que as estratégias de administração do ato indisciplina serão sempre insuficientes porque abordam-na de modo ensaístico . do talento profissional específico de cada educador. 1996.11-12. p.. e assim por diante. Poder Indisciplina: os surpreendentes rumos da relação de poder. Atualmente.

a gênese da indisciplina residiria nos conflitos perpetrados pelas próprias práticas escolares. que a indisciplina reside no sintoma da incompatibilidade entre a escola e os alunos. Desta feita. desse modo. (AQUINO. uma vez que todos estão em fase de desenvolvimento. Deve perceber que alunos fracos não existem porque não é possível existir aluno perfeito85. 11). . mesmo que seja cansativo. disciplina não pode ser entendida como uma boa educação e conviver pacificamente. La Taille diz que “[. buscando reconstruí-la. os alunos acabam se transformando em crianças mais ou menos indisciplinadas. por outro.. (AQUINO.] a indisciplina em sala de aula é (entre outros fatores) decorrência do enfraquecimento do vínculo entre moralidade e sentimento de vergonha” (1996. (LAJONQUIÈRE.” (LAJONQUIÈRE. 51-55).. além do desempenho em cada matéria ser diferente dos demais. uma vez que oscilação e provisoriedade acontecem. p. bem como. de outrora. p.. de certa forma. Muitas vezes pensa-se que “o aluno disciplinado é aquele que se encaixa no molde de uma criança ideal. toda empresa pedagógica acaba se revelando pouco eficaz. 2003.. aquele cuja imagem aparece institucionalmente fora de foco”. Ele deve almejar construir sua autoridade baseada no contínuo convívio escolar. por um lado. Não pensando. 2003. 85 Um dos problemas em almejar um aluno perfeito deve-se ao fato que na atualidade “[.] espera-se que as crianças venham a ser adultos possuidores de tudo aquilo que hoje nós não temos imaginariamente. p. Ademais. p. porque isso pode ser gerado por medo do castigo e pela conformidade com a situação.] os contratempo disciplinares sinalizaram o impacto do ingresso de uma clientela diferenciada em uma estrutura opaca e resistente a mudanças. ainda preserva princípios pedagógicos e políticos de uma escola de elite. 1996. Desse modo. p. ao contrário. por cima. trata-se de consegui-lho graças à metódica observância de um programa tanto moral quando natural. 47-49). p. 1996. então. 2003. (AQUINO.. Mas. 32). no fato de que [.83 deveriam estar lá. e. Desta forma. e o indisciplinado é. cabe ao professor “ensaiar outras modalidades de relação com os mais novos”. 31).. incapazes de dialogar com os novos perfis discentes – uma escola de massa que. 50-51).

(LA TAILLE. Desse modo. p. mas é impossível pensar a moralidade sem ela”. do pensamento dos outros. a vergonha encontrará sua tradução mais freqüente: sentimento de rebaixamento. 1996. 86 “A vergonha é um sentimento que. Mas “os atos de indisciplina pode ser genuinamente morais” (LA TAILLE.. desejando afirmar e expandir o seu eu. e no valor em si.” (LA TAILLE.. seu lado interno é a atribuição de valor. Há. é um sentimento inevitável que se inicia desde quando a criança toma a consciência de sua própria perceptibilidade. a construção da imagem de si influenciará na conduta do aluno. a disciplina e a moral colocam o problema da relação do indivíduo com um conjunto de normas. 19). (LA TAILLE. (LA TAILLE. O olhar influenciará no desejo de se valorizar. (LA TAILLE. Não dependerá da publicidade dos atos. p. mas toda disciplina não é moral” (LA TAILLE.] olhar crítico. negativo. contribuindo para que ela faça juízo de valor sobre si mesma. 1996. (LA TAILLE. 20).84 O sentimento de vergonha86 corresponde ao fato de o indivíduo saber ser objeto do olhar. p. nos remete aos dois controles. p. necessariamente.14).] juízos alheios têm grande peso e formarão a primeira camada da imagem que terá de si”. procurando certa autonomia que é responsável por equilíbrio psicológico. 1996. seu lado externo é sua origem. No fato de ter seus próprios critérios. 1996. e sua realimentação na exposição ao juízo alheio. Aliás. Quando se trata de um “[. 11-12).. “Toda moral pede disciplina. 1996. 1996. pois vários atos de indisciplina traduzem-se na afronta a moral. na sua disciplina e na moral. p. desonra. 1996. da escuta. 14). p. Mas ela busca ter uma boa imagem de si. . humilhação.. um vínculo entre disciplina em sala de aula e moral por que: primeiramente.. a construção da imagem de si que cada um procura realizar e preservar”. os “[. Assim. Além dela referir-se também a um controle interno. É neste auto-controle que surge o caminho da moral através do qual vai associarse à imagem que cada um faz de si. 13). em segundo.. “[. 1996. p. 20). 12). p. então. Porém.] a vergonha não se associa apenas à moralidade.

preparação para o trabalho e exercício consciente da cidadania. Desse modo. ao desenvolvimento de uma aprendizagem significativa e vivências geradoras da formação de atitudes socialmente aceitas em seus alunos. para se concentrar a reinventar o cotidiano escolar.. pois está em jogo o lugar que a escola ocupa hoje na sociedade. 2002. p. Lajonquière propõe que a instituição deve livrar-se moralmente dos imperativos pedagógicos hegemônicos. oferecendo aos alunos cultura e não migalhas pedagógicas embrulhadas em bondade psicoafetiva. (LAJONQUIÈRE. p. .” (LAJONQUIÈRE. p. as causas da indisciplina tratam-se de “um entrelaçamento. a história e a psicanálise mostram a priori que as crianças sempre algo aprenderão para além de toda sua (in)disciplina..] um incidente de indisciplina. p. (LA TAILLE. 87 Cf. • não permita um consciente trabalho de estímulo às habilidades operatórias. 41). 31).85 Com efeito. 1996. Inclusive. [. 1996. 22). uma interpenetração de âmbitos entre as diferentes instituições que define a malha de relações sociais do que uma suposta matriz social e supra-institucional. Não se pode considerar que “tudo aquilo que foge a um programa moral e/ou natural é. estritamente? Conforme Celso Antunes87 (2002... • não ofereça condições para que os professores possam “acordar” em seus alunos sua potencialidade como elemento de auto-realização. a indisciplina ocorre quando a classe é aquela que: • não permita aos professores oportunidades plenas para o desenvolvimento de seu processo de ajuda na construção do conhecimento do aluno. “a indisciplina em sala de aula não se deve essencialmente a “falhas” psicopedagógicas. que a todos submeteria”. Para Aquino (1996. o lugar que a criança e o jovem ocupam. 31). Mas o que seria.] [pois deveria ser ] pensado com o retorno sui generis da diferença que habita o campo subjetivo. p. Petrópolis: Vozes. ANTUNES. ed. inevitavelmente. o lugar que a moral ocupa”. 1996. Professor bonzinho = aluno difícil: A questão da indisciplina em sala de aula.[. Celso. de fato. 9-10). 3. a indisciplina.

pelo modo de autoridade 88 Cf. para Celso Antunes.. Mas esta “[. o modo como são partilhados os espaços. 1996. por exemplo. p. 78) 88..” (AQUINO. com outras demandas e valores. também pela não integração e união entre a sua equipe docente e administrativa. Indisciplina e violência: a ambigüidade dos conflitos na escola.. homogeneizar. gera uma reação que explode na indisciplinada incontrolável ou na violência banal. tornando-a um problema de cunho essencialmente didático-pedagógico. p. Áurea M. a disciplina imposta nas escolas é aquela que pressiona. mas na rejeição operada por esta escola incapaz de administrar as novas formas de existência social concreta. 1996. p. tratando-se de um problema de cunho psicológico/moral.. formar condutas de docilidade e submissão. Geralmente a escola objetiva uniformizar. 1996. no qual os professores são os generais e os alunos soldados.] disciplina imposta. a indisciplina emana-se de três elementos: “a escola e a sua estrutura. Ao tentar disciplinar. a tentativa de rupturas a serem realizadas na escola com a função de potencializar uma transição institucional escolar de um modelo autoritário de pensar e efetivar a tarefa educacional para um modelo menos elitista e conservador. Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus. Júlio Groppa (Org. Desse modo. 45). (AQUINO. p.] estar indicando o impacto do ingresso de um novo sujeito histórico. um quartel. (AQUINO. personificados nas transformações do perfil de sua clientela. porém esta pode: [. GUIMARÃES. 19). seus sistema de sanções.. 1996. o tempo. (AQUINO. p.86 Infelizmente. A escola por causa da sua organização interna. p. busca-se eliminar a indisciplina. Funciona como uma militarização. p. A indisciplina significaria.] não é possível assumir que a indisciplina se refira ao aluno exclusivamente.). a gênese da indisciplina não residiria na figura do aluno. as relações factuais entre os alunos.” (GUIMARÃES. subserviência. In: AQUINO. Muito menos atribuir a responsabilidade às ações do professor. impõe medo. Nesse sentido. coação. 43). 73-82. assim. Mas. o professor e a sua conduta e o aluno e a sua bagunça” (2002. numa ordem arcaica e despreparada para absorvê-lo plenamente. 45). 1996. Também não é possível creditá-la totalmente à estruturação escolar e suas circunstâncias sócio-históricas. [. ao desconsiderar. 48). . 1996..

como as salas de aula são lugares de relações. o professor desempenha um papel violento e ambíguo. tenha autonomia sobre o seu próprio aprendizado e sobre sua própria vida. por não ser reprimível.87 estabelecida e. porque eles passam a partilhar de emoções que instituem o sentimento da vida coletiva. p. em especial. 2002. ele desencadeia novos dispositivos para que o aluno. (ANTUNES. (GUIMARÃES. 20-33). mas a diversidade dos elementos que compõem a sala de aula impede a tranqüilidade da permanência neste lugar. por último. impede a instalação de qualquer tipo de autoritarismo. professores e diretores) como nas brincadeiras. desinteressados e desanimados com a educação. há uma duplicidade que. garante a coesão dos alunos. ao assegurar a expressão de forças heterogêneas. quanto maior a repressão. desejando manterem-se apáticos. vingança. pois se. Nas brigas (envolvendo alunos. 79). pela precariedade. uma vez que os alunos procuram de modo espontâneo e não planejado o querer-viver que. (GUIMARÃES. . de uma planificação racional. Por isso. os alunos em conjunto com os professores deveriam ter uma relação mais saudável pautado pela ética e valores humanos. 79). E. Guimarães corrobora para entender que a indisciplina pode expressar ódio. exige-se a não necessidade de um controle totalitário. 79) preleciona que professor [. pela ausência de clareza como encara a questão disciplinar. p. Inclusive. ao se diferenciar dele.. 1996. Ao mesmo tempo em que a ordem é necessária. O professor porque não se preocupa com a sua formação continua. e uma forma de interromper as pretensões do controle homogeneizador imposto pela escola.. Com relação à atuação do professor. das obrigações e das normas. caracterizados pela diferença. raiva. de outro. maior a violência dos alunos em tentar garantir as forças que assegurem sua vitalidade enquanto grupo.] imagina que a garantia do seu lugar se dá pela manutenção da ordem. Guimarães (1996. Com efeito. de um lado. 1996. ele tem a função de estabelecer os limites da realidade. p. pela instabilidade. p.

.101. na efetivação de valores humanos. 1996. um aluno indisciplinado não é entendido como aquele que questiona. 1996. levando à submissão. Aí se encontra a verdadeira educação. 84). da articulação do trabalho em conjunto. e provoca rupturas e questionamentos. Enquanto. Teresa Cristina R. se inquieta e se movimenta na sala.. a disciplina é concebida como uma qualidade. (GUIMARÃES. De modo semelhante compreende Teresa Cristina R. 1984). que deve ser obedecidos no contexto educativo. Indisciplina e o processo educativo: uma análise na perspectiva vygotskiana. levando o aluno a uma atitude autônoma e libertadora. as normas são observadas como condição necessária ao convívio social. ao invés de ser compreendida como um pré-requisito para o aproveitamento escolar. ao disciplinar. 1996.88 Ressalva-se que disciplina se alcança através da negociação. a disciplina. mas principalmente internalizados por todos). In: AQUINO. Júlio Groppa (Org.. uma virtude (do indivíduo ou de um grupo de alunos) e. que não acata e não se submete. do não cumprimento de regras 89 Cf. p.. a cooperação e a troca entre os membros na comunidade escolar. de intransigência. p. 1996. do diálogo. (REGO. 93. à obediência e à acomodação. visando a uma convivência e produção escolar de melhor qualidade. Neste caso. que apresenta dificuldades em entender o ponto de vista do outro e de se autogovernar (no sentido expresso por Vygotsky. de intolerância aos acordos firmados.] atitude de desrespeito. p. dialogar e conviver de modo cooperativo com seus pares. a escola. p. Consequentemente. Como decorrência. p.” (REGO. p. pergunta. é encarada como um resultado (ainda que não exclusivo) da prática educativa realizada na escola. tampouco nem universal. como a tolerância. entre as diferentes culturas e numa mesma sociedade” (1996. o indisciplinado é aquele que se rebela.). como um objetivo a ser trabalhado e alcançado pela escola. REGO. São Paulo: Summus. a disciplina não é compreendida como mecanismo de repressão e controle. 86). mas sim como aquele que não tem limites. 85) Todavia. mas como um conjunto de parâmetros (elaborados pelos adultos ou em conjunto com os alunos. 90 “[. E o disciplinador é identificado com a pessoa que molda os indivíduos. a indisciplina90 ventila-se como uma “[. (REGO. sem questionar as regras e preceitos vigentes em determinada organização. deveria intuir que regras e normas são importantes para guiar as relações e possibilitar o diálogo. que cede. 1996. que não consegue compartilhar. . que não respeita a opinião e o sentimento alheios. principalmente. Deste ponto de vista. Ele se relaciona com o conjunto de valores e expectativas que variam ao longo da história. uma vez que orienta e baliza sua relações sociais. nem se acomoda. concebe-se o disciplinado como aquele que obedece. Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. 87.] no plano educativo. grifo do autor). Rego89: o conceito de indisciplina não é “estático. uniforme. 80). Entretanto. Assim.

. a disciplina como um resultado da prática educativa concretizada na escola. 1. p. emocional. São Paulo: Moderna. 1996. 38).” (FRANCO. em suas posses. (REGO. 2004. simbólica). 2004.. deve-se perceber que a violência91 não é causal. depredação ou agressão verbal aos professores. consequentemente. apud SCHILLING. constante uso de sanções e ameaças visando ao silêncio da classe. pode ser previsível. Ela se manifesta de três modos na escola: a) quando ela é o local de violências que têm origem externa a ela. 2004. 13. excessiva centralização na figura do professor (visto como único detentor do saber) e. p.] permeia as relações de vizinhança. c) e aquela que acontece no 91 A violência é conceito multidimensional. “Segundo Yves Michaud (1989). Desse modo. p. surgindo nos setores menos regulamentados da vida. Inclusive. Cf. apud SCHILLING. 33-35).] há violência quando. 87). b) outra aquela que tange às atividades institucionais e que diz respeito a casos de violência direta contra a instituição. Ela “[. por isso mesmo. Compreendendo. além acontece sob formas diferentes (violência física. cobrança excessiva da postura sentada. pouco incentivo à autonomia e às interações entre os alunos...89 capazes de pautar a conduta de um indivíduo ou de um grupo”.. p. Ele diz que “[. 2004. principalmente. SCHILLING. familiares: [. p. inadequação da organização do espaço da sala de aula e do tempo para a realização das atividades. 1983.. p. Ela implica diversos atores e sujeitos. Trata-se de uma vitimização que acontece a todos sob diversas formas. p.. como as relações lúdicas. 13. pelo medo e pelo terror” (1989. causando danos a uma ou várias pessoas. apud SCHILLING. 100). 13.] violência é um ato de brutalidade. 37). 86). A sociedade da insegurança e a violência na escola. p. p. numa situação de interação. p. (SCHILLING. 2004. seja em sua integridade física. o comportamento indisciplinado está [. Flávia. então. quando não remodela este espaço social. sevícia e abuso físico ou psíquico contra alguém e caracteriza relações intersubjetivas e sociais definidas pela opressão e intimidação. 25 apud (1989. psicológica. 42). por exemplo. Deste modo. 1996..] diretamente relacionado a uma série de aspectos associas à ineficiência da prática pedagógica desenvolvida. ed. 2004. um ou vários atores agem de maneira direta ou indireta. de cooperação. (REGO. seja em sua integridade moral. p. mas é socialmente construída e.] essa violência atravessa toda a organização social. p. pouco diálogo etc. 1996. 38).. (REGO. tais como: propostas curriculares problemáticas e metodologias que subestimam a capacidade do aluno (assuntos pouco interessantes ou fáceis demais). a violência introduz o desregramento e o caos num mundo estável e regular” (SCHILLING. e projetando-se até a codificação dos valores fundamentais da cultura. E o comportamento violento? Qual é o seu significado na realidade escolar? As causas da indisciplina e suas conseqüências ajudam na consolidação de uma violência constante no espaço escolar. . ou em suas participações simbólicas e culturais” (1989. maciça ou esparsa. deve perceber que a “[..

(CUBAS. 93 Para melhor esclarecimento. Desgastam. a doméstica. CUBAS.] as violências nas escolas não se resumem a uma série de dados objetivos. São Paulo: Imprensa Oficial. 2004. p. Ela pode ser categorizada assim: “violências contra pessoas (ameaças. p.90 relacionamento entre os próprios alunos e aquela entre professor e aluno. 92 Esta violência “reflete a banalização da violência cotidiana. 342. Renato. violências contra a propriedade (furtos. 77). “Para os alunos. o seguinte livro oferece uma compreensão importante do que seja esta forma de violência: Cf. p.. “[. a social e a da criminalidade. em seu exercício de excluir. gerando um infortúnio para educar. e violência contra o patrimônio (vandalismo e depredação)” (SCHILLING. brigas. 2007. o espaço escolar. Viviane. violência sexual. 2004. apud CUBAS. da discriminação. Caren. 84). Isto é. 2007. Uma das formas mais difundidas de violência é o bullying93. Violência na Escola: um Guia para pais e professores. ocorre várias vezes e por muito tempo. p. (SCHILLING. ganham vida na escola cinco formas da violência: a violência da indiferença92. acontece em relações interpessoais caracterizadas por um desequilíbrio de poder. Ademais. . RUOTI. Ele pode ser definido de três modos: um comportamento agressivo ou uma ofensa intencional. 2004. Assim.. Reflete também a dificuldade que cerca a violência. Bullying: assédio moral na escola. 1993. 2007. 77-78). 2004. In: ALVES. 2004. p.” (OLWEUS. que serão despejados” (SCHILLING. mas a experiências vivenciadas de formas múltiplas e distintas por aqueles que a sofrem (p. de criar aqueles que fracassarão. 89). uso de armas). da violência fatal. a quebra dos discursos arrumados e prontos que usávamos” (SCHILLING. é a violência que acontece estruturalmente nas instituições. 2004. “um aluno é vítima de bullying quando está exposto constantemente e durante boa parte do tempo a ações negativas por parte de um aluno ou de um grupo de alunos. CUBAS. o silenciamento que provoca. apud SCHILLING. 177). p. 84-95). 27). a escola torna-se uma instituição de vítimas porque “cria-se um círculo vicioso de vitimização e agressões mútuas que termina impossibilitando a resolução pacífica dos conflitos” (SCHILLING. assim. De acordo com a UNESCO. Viviane de Oliveira. 86). p. roubos). p.

abrindo espaço para a agressão. Diferentes pedagogias apresentam um paradigma que deve ser implementado na escola. em vez de um projeto voltado para a formação ética. 2007. isola ou exclui os alunos. E a pedagogia. . Portanto. Porém. autoritarismo para defender as suas idéias. Por isso. imposição.2. 2007. Qualquer dessas duas formas incita à violência. verbais e psicológicas. expresso através de agressões físicas. E há o indireto. dificultosas. 177-178). E cabe à escola elaborar e executar um programa anti-bullying para que mude o quadro de violência que destrói projetos de vida. que é mais sutil. ajudando-os a resolver as situações de modo ético e justo. p. mostra quais as causas e conseqüências. a indisciplina e a violência podem ser compreendidas de diferentes maneiras por aqueles que as vivenciam dolorosamente na realidade. 190). 3. além de ordenar que a escola funda suas decisões num projeto educacional que vê a indisciplina e violência como uma das suas preocupações para formar o homem. quando se trata de ataques abertos à vítima. em consonância com a psicologia. p. A própria organização do mundo contemporâneo estipula uma configuração para a formação da vida humana. uma vez que as relações sociais tornam-se pesadas. prejudicando o desenvolvimento da personalidade e a realização do bem-estar coletivo. faz diferentes leituras sobre o que é educar e como educar. mas não se quer enxergar) da vida educacional.1 A Educação e suas concepções A formação humana por meio da educação é compreendida de vários modos. é importante que os pais desencorajem seus filhos a se comportarem de modo agressivo. uma vez que manipula relacionamentos. os autores apresentados aqui demonstram a necessidade de revelar a obviedade do óbvio (mostrar o que está evidente.91 Ele pode ser direto. (CUBAS. (CUBAS. ou seja.

hegemônica e excludente. tornando-o submisso perante as ações opressoras de uma sociedade excludente..] à memorização dos conteúdos transmitidos. Não se buscam transformações sociais. de forma mecânica.” (REBELO. 48). 95 Nela também “[. imposta pelo currículo escolar aos integrantes do processo 94 Cf. é um detentor do saber que deposita conteúdos no educando. de modo exaustivo. Inclusive. 2005.. mas perpetuação de uma cultura dominante. impedindo o desenvolvimento da criatividade e sua participação ativa no processo educativo. representantes da ideologia dominante e estabelecidas como verdades absolutas. esse tipo de ensino anula o poder criativo e participativo do aluno.” (REBELO. p.2.1 A educação “bancária” Tal concepção de educação tem a “[.. Ratifica-se um ensino antidialógico. sobre as distintas possibilidades de formar o ser humano.1.. p.. REBELO..] não há construção do conhecimento em busca da transformação e superação das dificuldades sociais. O professor tem uma relação vertical. pelo contrário. com objetivo de estabelecer dois lados antagônicos e possíveis na realidade escolar. 2005.] como atitudes contrárias e ameaçadoras aos preceitos capitalistas.] função de transmitir ao aluno. p. 3. (REBELO. contribuindo para que esse não se sinta sujeito capaz de participar do processo de construção histórica. esse modelo vê a indisciplina escolar “[. Petrópolis: Vozes. serão apresentadas apenas duas modalidades de formação que interferem na resolução dos conflitos escolares. 47). uma vez que leva o aluno “[.. p. 2005. 47) 94. Indisciplina escolar . 2005.causas e sujeitos: A educação problematizadora como proposta real de superação.” (REBELO. com o objetivo apenas de transmitir valores e conhecimentos de forma simplificada e fragmentada. 2005. 3. A educação bancária95 é classificada como domesticadora.. 47-48). conhecimentos historicamente construídos por meio de seu principal agente: o professor. ed. desenvolvimento da autonomia. porque não trabalha como uma “ação-reflexão-ação (práxis) sobre realidades do indivíduo. Rosana Aparecida Argento. .92 Como não é objeto desta pesquisa refletir.

(FREIRE. 2001). Essa concepção é cunhada e criticada por Paulo Freire que dizia que os oprimidos (os alunos) vivenciam uma concepção de educação opressora. não há transformação. O Educador é o real sujeito que tem como tarefa “encher” os educandos com os conteúdos de sua narração. Isso leva os educandos e o educador a se arquivarem. Ela impõe a passividade e. 2005. não há criatividade. As relações educador . 2001). Uma das características dessa educação dissertadora é a sonoridade da palavra.educando são relações fundamentalmente narradoras e dissertadoras. (REBELO. assim. ouvintes (os educandos). (FREIRE. Inclusive. o educador é o que sempre sabe. Neste caso. tende mais ingenuamente a adaptar os indivíduos ao mundo.2. Consequentemente. a educação “bancária” mantém e estimula a contradição na sociedade opressora. 49). não há saber. o educador é o sujeito que conduz os educandos à memorização mecânica do conteúdo narrado. os educandos são sempre os que não sabem. 3. a educação é um ato de depositar: os educandos são os depositários e os educandos são os depositantes. desconectados da totalidade em que são engendrados e em cuja visão ganharam significação. Tais conteúdos são retalhados da realidade. (FREIRE.” Essa indisciplina denuncia a discriminação social e demarca que é de exclusiva responsabilidade apenas do aluno. Além disso. Essa rigidez não vê a educação e o conhecimento como processos de busca. o que implica um sujeito (narrador) e os objetos pacientes. o saber é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. p. nessa visão distorcida. uma vez que. 2001). Para a concepção “bancária” de educação.2 A educação “problematizadora” . à realidade parcializada dos depósitos recebidos.93 educativo.1.

a criatividade. 2005. deve levá-lo a compreender a realidade da qual faz parte e intervir conscientemente para melhorá-la. pois valorizando a relação professor/aluno.. a tolerância e a conscientização das nossas possibilidades como seres participantes na construção do conhecimento do mundo. em busca de uma sociedade mais justa. 50). esperança e troca de experiências entre os envolvidos. o pensar crítico e a construção coletiva. 50. 51). Além do mais a disciplina não se refere a um controle externo do tempo e do espaço. (REBELO. porque quanto mais produção.. A finalidade dessa prática disciplinar não é a de silenciar o aluno. estimulante e desafiador. Desse modo.] deve ser prática constante no espaço escolar como meio de superação da indisciplina. colaborando com o desenvolvimento da autonomia intelectual e da autodisciplina dos alunos. desenvolve-se a participação. abordando-o. um espaço pedagógico interessante. 2005. 2005. O educador deve também desenvolver um trabalho pedagógico que. Entretanto. a partir das necessidades e preocupações do aluno. p. 51). Inclusive. para que nele ocorra a construção de um conhecimento científico significativo. respeito a todas as visões de mundo. p. práxis. a disciplina é entendida como “[.94 Consiste num modelo que vê educar como um “[. p. mais lucro.” (REBELO. Essa concepção de educação: [.. deve acontecer numa relação horizontal em que tanto educador como educando buscam saber mais em comunhão. p. (REBELO. a cooperação. mas de ultrapassar os limites do espontaneísmo e do conhecimento como senso comum. 2005. p. O diálogo deve ser ação/reflexão/ação. o educador é visto como “como coordenador do processo educativo já que. por isso o diálogo é fundamental neste processo educativo libertador”. porque o ser humano deve refletir e denunciar o mundo em que vive. ou seja. em conjunto com alunos.. o respeito. (REBELO.. 2005. grifo do autor). agir para a sua transformação. cria. usando da sua autoridade democrática. 52). p. aspectos fundamentais na busca da libertação do homem das injustiças sociais. 51). 2005.. o diálogo. visando alcançar um produto de forma superficial e rapidamente. enquanto prática educativa.] ato de amor. (REBELEO. (REBELO.] construção interna que . por isso é pedagógica.

de semelhanças e diferenças. 1996. (AQUINO. 3.” (REGO. é necessário que os educadores concebam estes antecedentes como ponto de partida e. 51). isto é. 50). p. “A saída possível está no coração mesmo da relação professor-aluno. p. .” (REBELO. 2005. grifo do autor). deve tomar decisões que instigam a transformação da realidade. Mas o professor deve também restabelecer uma “função epistêmica autêntica e legítima da escola” (AQUINO. 1996. 52).95 colabora com a busca da autonomia intelectual. p. 53). Contudo. nos nossos vínculos cotidianos e. almejase neste tópico sistematizar e completar outras possíveis respostas para o problema da indisciplina. Diante dos fatos alegados sobre tais problemas. mais do que esperar a transformação das famílias ou de lamentar os traços comportamentais que cada aluno apresenta ao ingressar na escola. principalmente. Uma moralidade que “pressupõe a observância de regras. a escola é delegada a superar esse obstáculo. 1996.2. p.2 Respostas para o dilema da indisciplina e violência escolar Os tópicos anteriores proporcionaram uma visão sobre diversos enfoques sobre a resolução dos conflitos dentro do espaço escolar. de regularidades e exceções” (AQUINO. fator importante para libertação do homem. na maneira com que nos posicionamos perante o nosso outro complementar” (AQUINO. Inclusive. 100. 50). Se o professor pautar os parâmetros relacionais no seu campo de conhecimento. p. contribuirá para (re) inventar a moralidade discente. p. Apresentou reflexões significativas como a perspectiva educacional que pode ajudar a resolver os problemas escolares. 1996. porque como instituição que tem uma prática social. 1996. façam uma análise aprofundada e conseqüente dos fatores responsáveis pela ocorrência da indisciplina na sala de aula. principalmente.

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Conhecer faz parte da vida das crianças e jovens, mas eles devem ser convocados e instigados para buscar o saber. Desse modo, dependerá da proposta através do qual o

conhecimento é formulado e gerenciado nesse microcosmo (cada sala de aula). Mas trata-se de uma tarefa difícil, porque exige sempre um recomeço, a cada aula, cada turma, cada semestre. (AQUINO, 1996, p. 52).
O papel da escola, então, passa a ser o de fermentar a experiências do sujeito perante a incansável aventura humana de desconstrução e reconstrução dos processos imanentes à realidade dos fatos cotidianos, da incessante busca de uma visão mais dilatada de suas múltiplas determinações e dos diferentes pontos de vista sobre eles. (AQUINO, 1996, p. 52).

Consequentemente, determina-se que o aluno ponha para funcionar a engrenagem denominada de pensamento lógico, independentemente do campo específico de determinada matéria ou disciplina. “A partir daí, o barulho, a agitação, a movimentação passam a ser catalisadores do ato de conhecer, de tal sorte que a indisciplina pode se tornar, paradoxalmente, um movimento organizado, se estruturado em torno de determinadas idéias, conceitos, proposições formais.” (AQUINO, 1996, p. 53). Com efeito, busca-se despontar uma nova disciplina: “aquela que denota tenacidade, perseverança, obstinação, vontade de saber”. (AQUINO, 1996, p. 53). Disciplina não pode ser silenciamento, obediência e resignação, mas “significar movimento, força afirmativa, vontade transpor os obstáculos.” “Disciplina torna-se, então, vetor de rebeldia para consigo mesmo e de estranhamento para com o mundo – qualidades fundamentais do trabalho humano de conhecer.” (AQUINO, 1996, p. 53). Como apresenta Antunes (2002, p 14), silêncio sepulcral é bom em cemitério, não em sala de aula, pois nela precisa-se de interação, envolvimento e comunicação. Com isso, impetra-se uma conduta dialógica por parte do professor, uma intervenção pedagógica que se constrói através de uma “negociação constante, quer com relação às estratégias de ensino ou de avaliação, quer com relação aos objetivos e até mesmo aos conteúdos preconizados –

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sempre com vistas à flexibilização das delegações institucionais e das formas relacionais.” (AQUINO, 1996, p. 53.) Essa construção do conhecimento de modo negociável exige investimentos nos vínculos concretos, fidelidade ao contrato pedagógico e a permeabilidade para mudança e para a invenção. Além de novas estratégias, experimentações de diferentes ordens no processo de ensino-aprendizagem. (AQUINO, 1996, p. 54.) “Desta forma, o lugar do professor pode tornar-se também um lugar de passagem, de fluxo da vida. Se não, o aluno desaparece, torna-se platéia silenciosa de um monólogo sempre igual, estático, à espera...” (AQUINO, 1996, p. 54.). Com efeito,
A disciplina (...) significa a capacidade de comandar a si mesmo, de se impor aos caprichos individuais, às veleidades desordenadas, significa, enfim, uma regra de vida. Além disso, significa a consciência da necessidade livremente aceita, na medida em que é reconhecida como necessária para que um organismo social qualquer atinja o fim proposto. (FRANCO, p. 40, apud PEREIRA, 2010).

Aliás, nessa disciplina,
o sujeito precisa se adaptar a uma série de valores, costumes, práticas sociais, etc. que fazem parte de sua cultura, mas, ao mesmo tempo, deve estar atento para a necessária transformação destes valores, práticas, etc. naquilo que têm de desumano, de alienado, que precisa ser superado. A disciplina consciente e interativa, portanto, pode ser entendida como o processo de construção da auto-regulação do sujeito e/ou grupo, que se dá na interação social e pela tensão dialética adaptação-transformação, tendo em vista atingir conscientemente um objetivo. (PEREIRA, 2010, grifo nosso).

Enfim, o terceiro capítulo foi um momento propício para resgatar o ideal da educação na contemporaneidade, principalmente no que concerne aos conflitos, tais como a indisciplina e a violência. Contudo, é necessário ainda discorrer sobre uma das funções primordiais da educação: formar cidadãos. Tal tarefa faz parte tanto de uma perspectiva pedagógica quanto jurídica, o que será apresentado a seguir.

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CAPÍTULO IV

A PERSPECTIVA JURÍDICA NA EDUCAÇÃO PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA

Uma sociedade é democrática na proporção em que prepara todos os seus membros para com igualdade aquinhoarem de seus benefícios e em que assegura o maleável reajustamento de suas instituições por meio da interação das diversas formas da vida associada. Essa sociedade deve adotar um tipo de educação que proporcione aos indivíduos um interesse pessoal nas relações e direção sociais, e hábitos de espírito que permitam mudanças sociais sem o ocasionamento de desordens. (DEWEY, 1979, p. 106). Ao longo do Trabalho de Conclusão de Curso buscou-se demonstrar como que a indisciplina e a violência podem ser tratadas seguindo dois horizontes: o direito e a educação.

fé e razão devem andar juntas. . conhecendo-se e amando-o. auxilie na efetivação de uma vida cidadã. possa chegar também a verdade plena sobre si próprio. São Paulo: Paulinas. É a vida quem coloca no coração do homem a necessidade de estabelecer regras e normas de convivência. proposta na Carta Encíclica Fides et Ratio96. De acordo com a encíclica. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e. possibilitando fundar uma pedagogia. na qual o Papa João Paulo II afirma: A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. principalmente. 2004. em última análise. na ocorrência de problemas relacionados à indisciplina e violência escolar. Assim parafraseando a relação entre fé e razão trabalhada pela encíclica. O diálogo entre a fé e a razão pode exercer a função de discernimento crítico e purificador daquilo que o mundo hoje propõe. porque solucionam estes problemas de modo justo. muitas vezes. 7. o direito e a educação são duas perspectivas que remetem à interligação entre fé e razão. estimulando o ser humano a progredir no caminho da sabedoria. pragmáticas e que deixam.99 A perspectiva jurídica e pedagógica são duas ferramentas que ajudam na elaboração adequada e digna para formar o ser humano. O mundo contemporâneo atravessa uma grande crise de sentido. 96 JOÃO PAULO II. ed. Ambos também são meios para construir uma sociedade justa. de conhecer a ele. Desse modo. igualitária e fraterna. que junto com o direito. de fragmentação do saber. Carta encíclica Fides et Ratio. para poder ajudar o ser humano a procurar a verdade e a descobrir um sentido para a vida. as pessoas perdidas e sem direção na vida. São instrumentos que asseguram a dignidade. pode-se dizer que direito e a pedagogia constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a consolidação da cidadania. regida por filosofias niilistas. para que.

O QUE É SER CIDADÃO? . Ajudam a lapidar a pedra bruta. os três capítulos ofereceram uma leitura jurídica e pedagógica para solucionar os problemas enfrentados tanto no espaço escolar como na sociedade. como que a violência (ato infracional) pode ser resolvida por meio da perspectiva jurídica. que é o homem. o direito e a pedagogia são como que suportes para ajudar na realização da cidadania. em especial. não abordou o objetivo essencial que ambas as leitura proporcionam: formar cidadãos. Desse modo.100 Com efeito. Ser cidadão é possível através da realização dos direitos humanos. para que se torne uma pedra preciosa. Neste tópico. Todavia. É uma pedra preciosa que se caracteriza pela beleza em si de ser cidadão. a perspectiva jurídica e pedagógica molda o homem. para assim consolidar a cidadania. Foi apresentado no primeiro e segundo capítulos como que o direito ampara o ser humano nos problemas de indisciplina e violência escolar.1. chamada ser humano. 4. É um tema central no Direito Educacional que trabalha com a instância jurídica e pedagógica. Portanto. no entrelaçamento entre o direito e a pedagogia. este quarto capítulo tem a tarefa de oferecer algumas sugestões de ação que devem ser desenvolvidas pela escola. E o terceiro capítulo delineou como que a pedagogia (ato de educar) é capaz de resolver os problemas da indisciplina. construindo um ser humano e um cidadão. Sendo eles imprescindíveis para a concretização da cidadania é necessário tomar conhecimento como que ambos podem ajudar na realização deste objetivo. amparadas pelo direito e pela pedagogia. Assim. Isto é. especialmente neste último fato. será tratada a perspectiva jurídica que fomentará a realização da democracia e da cidadania no espaço escolar.

que será norteado no caráter privatístico do Código Civil Brasileiro. sistemático. Sua influência percebe-se nas várias instituições liberais individualistas contemporâneas. mas formado de várias partes. com novas determinações legais. etimologicamente. 2002. Contudo. p. os estrangeiros. classificando-as e aplicando-as a novos casos. o direito romano é um vasto campo de observação. p. Cuiabá: EdUFMT. o status de cidadão se materializava na isogoria. 97 98 Cf. ed.). Influenciando assim. Inclusive. 4) o Código Novo que é o Código Velho atualizado. In: WOLKMER. então. que se tornaram a base do Direito Civil moderno. 2002. tiraram as casuísticas diária as regras jurídicas. Antonio Carlos (Org. entendiam como cidadão somente aqueles homens que participavam da gestão da cidade por meio do exercício direto dos direitos políticos. p. 2009. os juristas romanos foram os primeiros a organizar o direito. (VÉRAS NETO. 2009. 18). verdadeiro laboratório do direito. que significa o sócio da polis ou civitas. p. gozar. p. que é uma obra fundamental da jurisprudência (2007. A contribuição de Justiniano se deve a organização das leis que já existiam e a formulação de novas. 128). no direito atual. 17). Assim. 17). De acordo com José Cretella Júnior. O Direito Romano é um legado indelével na história da humanidade. Também desempenham um papel de revolução jurídica e por ser um documento importante sobre a vida no Império Romano. que é o priorizador da defesa da propriedade como direito real. 7. 2) o Digesto ou Pandectas. VÉRAS NETO. o termo cidadão. para o direito romano98 o cidadão devia dedicar-se às coisas de interesse público e necessitava de passar por uma educação que desse suporte para tal função. absoluto. planejado” (p.101 De acordo com Alexandre César97. principalmente naquelas instituições jurídicas relacionadas ao direito de propriedade no seu prisma civilista e ao direito das obrigações. o morador da cidade-estado da Antiguidade Greco-Romana. Alexandre. (2007. Acesso à justiça e cidadania. (2002. 2009). 7) e composto por 5 partes: 1) o Código de Justiniano que possui toda a legislação romana revisada desde o século II. CÉSAR. 8-9). 2007. 5) as Novelas ou Autênticas que se referem às leis formuladas por Justiniano. reduzidos a um corpo único. pois. 121-154. Francisco Q. como um direito ilimitado. as mulheres. que é a igualdade de liberdade no uso da palavra nas assembléia dos cidadãos e no instituto do grafe paranomon pelo qual se questionavam as leis já estabelecidas. Direito Romano Clássico: seus institutos jurídicos e seu legado. 2002. para Cretella Júnior. e abusa da coisa. Enquanto em Roma existia uma esfera legislativa que se compreendia como leges datae e as leges rogatae que. p. 51). (SUPERABRIL. Belo Horizonte: Del Rey. Cf.). 4. . sem a intervenção de representantes. contribuiu com os seus numerosos institutos que fazem parte dos sistemas jurídicos atuais. tem origem na expressão latina civis. eram votadas pelo povo reunido em comícios curiais (CÉSAR. 3) Institutos que são os princípios fundamentais do direito. composto pela jurisprudência romana. Essa obra corresponde a um “conjunto ordenado de leis e princípios jurídicos. na reflexão na redação dos modernos códigos. p. justificando inclusive a legítima defesa da posse. (CÉSAR. baseado no privilegio de usar. 51-53). p. Fundamentos da História do Direito. erga omnes. (CRETELLA JÚNIOR. isto é. os artesãos e os comerciantes. Em Atenas. Não reconheciam como cidadãos os escravos.C. no grego como polites. propostas por uma magistrado. harmônico. o Corpus Juris Civilis foi instituído no governo de Justiniano I (imperador bizantino – 527 d.

então. 2002. Mas ela deve ser entendida do ponto de partida. p. Havia aqueles que detinham. o status civitatis “foi substituído por um complexo de relações hierárquicas privadas. no século XVIII. “a participação na gerência do Estado é indireta. que fez suprimir a cidadania como elemento de liberdade entre iguais. o pensamento iluminista. comportando assim todos os tipos de direitos (CÉSAR.” (CÉSAR. através da representação política. a cidadania é resgatada na Península itálica. credo. p. 2002. 2002. com a consolidação dos Estados nacionais e a conseqüente separação funcional das instituições anteriormente fundidas. produto histórico da modificação das relações sociais e políticas das sociedades que. em um primeiro momento. no século XI.” (CÉSAR. liberdade. Depois. reconhece que o ser humano é titular de direitos naturais (vida. 21). o direito de participar das decisões políticas. posteriormente. p. apud CÉSAR. . 1967. 2002. 20). e a liberdade consiste em que não haja intervenção abusiva do Estado na vida privada dos cidadãos. na Idade Média. propiciou a emergência dos direitos civis. 2002. o direitos humanos foi aperfeiçoando o seu conceito. 19). Assim. 18). (CÉSAR. Rompendo com a monarquia. Todavia. 20). surge a distinção entre direitos civis (do homem) e direitos políticos (do cidadão). e os direitos políticos e sociais. p. prejudicava a realização da cidadania. que é uma “espécie de igualdade humana básica associada ao conceito de participação integral na comunidade” (MARSHAL. p. Essa moderna concepção de cidadania seria.). centralizador do poder público. p. ganhando mais força com o pensamento liberal-burguês no período moderno. o Estado deve tutelar e respeitar os direitos. surge a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão que compreende o cidadão em duas dimensões: uma universal e outra nacional. uma vez que o avanço territorial e político do absolutismo monárquico. 19). 62. caracterizadoras das relações sociopolíticas do feudalismo. ao longo dos anos. p. 2002. (CÉSAR. 2002. (CÉSAR. etc. Desse modo. p. Inclusive. Um sentido de comunidade que vai ganhar mais ênfase com Welfare State.102 Depois. por força da lei. 21).

os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. II . que deverá solicitar a delegação ao Congresso Nacional. da construção de um novo conceito de cidadania. que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente.a soberania. agrário. cidadania e naturalização. tendo como conseqüência a formulação de alternativas ao novo modelo de desenvolvimento econômico adotado (“capitalismo desorganizado”. V . simbolizados pelos novos movimentos sociais e populares. [.direito civil. aeronáutico. As leis delegadas serão elaboradas pelo Presidente da República.. pleno emprego. 23-24). participação real nas decisões políticas. (CÉSAR. a matéria reservada à lei complementar. (CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988). o neoliberalismo político. 2002. globalização da economia. 22. eleitoral. em maioria. Compete privativamente à União legislar sobre: I . 1º A República Federativa do Brasil. a circulação dinâmica dos capitais internacionais.]” (CÉSAR. IV . ausência de qualquer tipo de discriminação [. 68.o pluralismo político. p.a dignidade da pessoa humana. nem a legislação sobre: . § 1º . Uma República que tem a responsabilidade primeira de legislar sobre: Art. Uma nova significação de cidadania que abarca o “acesso à educação. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal.]. 24). nos termos desta Constituição.Não serão objeto de delegação os atos de competência exclusiva do Congresso Nacional.a cidadania. sujeitos. Todo o poder emana do povo.103 Ademais. e o individualismo extremado. penal. são algumas circunstância da nova configuração mundial) e o nascimento de outros sujeitos sociais. o Estado Mínimo. Parágrafo único. Uma cidadania que é o fundamento do Estado Democrático Brasileiro: Art.. com o Estado de Bem-Estar Social levaram a um grande movimento social. XIII . saúde e alimentação dignas. 2002. meio ambiente equilibrado. constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I . III . Ou como diz o artigo 68 da Carta Magna: Art. espacial e do trabalho. comercial.. marítimo. p.. processual. os de competência privativa da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal.nacionalidade.

apud MELO. (CÉSAR. normalmente e principalmente os políticos. um atributo das pessoas integradas na sociedade estatal. p. permanece na teoria jurídica dominante no Brasil99 o conceito de cidadania surgido nas revoluções burguesas. instituídos e instituintes. ela realiza-se de modo disforme. 2002. mas sim manipulados. torna-se um obstáculo a percepção do valor real do que é ser cidadão. pela qual José Afonso da Silva compreende que a cidadania são entendidos como participantes da vida do Estado. seu nascedouro é sempre o Estado. reduzindo-o ao exercício dos direitos políticos dos indivíduos. cujos temas centrais são a nacionalidade. uma vez que esta interpretação é mecanizada. direitos individuais. políticos e eleitorais. percebendo a cidadania apenas como um status legal. onde se delimitam seus direitos e deveres. no direito brasileiro. realizadas no discurso jurídico dominante no Brasil. a cidadania. mas não realizou seu objetivo de emancipar. ou ainda como um atributo político decorrente do direito de participar no governo e direito de ser ouvido pela representação política. permitindo que o sistema ideológico e manipulador perpetuem. individualista e normativista do Direito. (CÉSAR. p.nacionalidade. de acordo com César.organização do Poder Judiciário e do Ministério Público. decorrente dos preceitos constitucionais. 1998. [grifo nosso]. Contudo.planos plurianuais. vive em circunstância liberal. busca-se romper coma dicotomia liberal homem/cidadão. p. que propicia uma desumanização dos seus objetivos e funções. Assim. para a teoria jurídica dominante. Tais concepções. cidadania. p. Entretanto. além de despir também seu caráter eminentemente normativista. que cede ao indivíduo nacional a cidadania. o povo e os direitos políticos. os princípios da Constituição não são cumpridos. Logo. a Constituição Brasileira é um instrumento jurídico-normativoemancipatório. Desse modo. dissociada de sua real função social e jurídica.. 41-42). a carreira e a garantia de seus membros. através de uma unificação das temáticas que permita pensar os direitos humanos como o núcleo da dimensão da cidadania e o problema de sua (ir) realização como problema relativo à construção da cidadania. 305. isto é. 99 A dogmática constitucional brasileira continua a reproduzir a concepção de cidadania herdada do liberalismo. porque sua interpretação é descompromissada e a busca da transformação social não realiza seus objetivos. 41). Então.] dimensão ampla de participação social e política e através da qual a reivindicação. se exteriorizam enquanto processo histórico. ascética e burocrática. Inclusive. Mas. esquecendo seu real significado humano100. ser cidadão é o indivíduo ser titular dos direitos políticos de votar e ser votado. 84).. que acaba por reduzir o conceito de cidadania a uma elaboração meramente jurídica. fundado numa abordagem pretensamente científica. II . III . diretrizes orçamentárias e orçamentos. passa a ser uma ligação jurídica entre o cidadão e o Estado. o reconhecimento e o exercício dos direitos humanos. deve ser conferida a cidadania uma [. explicitam uma abordagem superficial e quase um “epifenômeno”.104 I . pois. 2002. (1992. Oliveira (2005). 100 De acordo com Leandro C. “pai” de toda normatividade. .

Reinaldo Pereira e (Org. O direito à democracia. “a realização plena dos direitos de cidadania envolve o exercício efetivo e amplo dos direitos humanos. 1998. como o direito a educação. à paz. ao desenvolvimento. E também são direitos de todos. Por exemplo: o direito ao salário.. à partilha do patrimônio científico. econômicos e culturais. 2010). 77) 101. 46). 2002. de modo efetivo. p. 12. Uma cidadania que é assegurada. Procura-se garantir as liberdades de locomoção. 526. cultural e tecnológico. apud MELO. p. 1998. (1997. de acesso à justiça. p. que traduzem sem dúvida um processo cumulativo e qualitativo. A cidadania inclui direitos coletivos e difusos.usp. p. Inclusive. Cidadania: subsídios teóricos para uma nova práxis. 78). 42-43). 2010. ou nos chamados direitos civis. 2002. In: SILVA.br/artigos/benevidescidadaniaedireitoshumanos. os direitos fundamentais [. de crença religiosa.105 numa perspectiva política em sentido amplo. sociais. a férias. de integridade física. Cf. 79). 79). consistindo em direitos de caráter social mais geral. tendo por bússola uma nova universalidade. “[. (p. à defesa ecológica. São de solidariedade planetária para que se garante uma vida digna para todos. à autodeterminação dos povos. Disponível em: <http://www.] os direitos de primeira102. coroamento da globalização política”.” (MELO. pelo acesso à Justiça que também constitui um Direito Humano. à previdência etc. Acesso em: 30 out. São Paulo: Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. a horário. Direitos humanos como educação pra a justiça. . de segurança. junto com o direito à informação e ao pluralismo.] passaram na ordem institucional a manifestar-se em três gerações sucessivas. Com efeito. à habitação. p. p. São Paulo: LTr. (ANDRADE. políticos. de certo modo. apud CÉSAR. 77-87). 1993. 517. além dos direitos civis. BENEVIDES. nacional e internacionalmente assegurados”. 2010). segunda103 e terceira104 geração são infra-estruturais. metafísica. 103 Residem nos direitos sociais que estão ligados ao mundo do trabalho. para Bonavides. em substituição da universalidade abstrata e. De acordo com Paulo Bonavides. 1998. de opinião. 101 MELO. (BENEVIDES. compreendendo-os ainda como direitos de quarta geração. apud MELO. representa uma fase de institucionalização do Estado Social. Milena Petters.. Maria Victoria. 2010). p. Destarte. (PIOVESAN. (CÉSAR. Aludem ao direito ao meio ambiente. p. (1997. (MELO. “a cidadania não se resume na pertinência a uma comunidade estatal ou à possibilidade de manifestar-se periodicamente por meio de eleições para o Legislativo e o Executivo. formam a pirâmide cujo ápice é o direito à democracia. Cidadania e Direitos Humanos. 104 São essencialmente direitos coletivos da humanidade. relativo aos direitos humanos do jusnaturalismo do século XVII. 1998.pdf>.iea. (BENEVIDES. à seguridade social. 102 Os direitos de primeira geração consistem nas liberdades individuais.). 1998. à saúde. material e concreta. (BENEVIDES.. p. a de propriedade..

Os direitos são só negados e a prática jurídico-judiciária nega a aplicação desses direitos. o status positivus. Segundo Jelinek. Demonstrando assim que cidadania. 79). (OLIVEIRA.” (MELO. mas se dispõe dele e revela a “razão cínica brasileira”. 15. dos entes coletivos e de sua emancipação nos espaços definidos no interior da sociedade. Isso fortalece por causa de um paradigma liberal e individualista que propicia uma injusta e desigual ordem social. STRECK. 81). seus conteúdos interpenetram-se: a cidadania não é constatável sem a realização dos Direitos Humanos. o sistema procura cada vez mais manipular e agir equivocadamente. p. 1998. p. que corresponde aos direitos clássicos civis e de liberdade. o espaço de mediação ético política da sociedade e é a condição de possibilidade para implantação das promessas da modernidade. há necessidade de mudar a postura dos juristas do Direito. 2005).. falar sobre a cidadania “[. p. 79). da mesma forma que os Direitos Humanos não se concretizam sem o exercício da democracia. era para o Direito ser um instrumento de transformação social. Deste modo. 80). 1998. Acesso em: 5 mar. Disponível em: <http://leniostreck. 2010). mas ocorre uma desfuncionalidade do Direito das Instituições encarregadas de aplicar a lei. 2010. p. Aliás. a função do Direito é possibilitar que nesse Estado Democrático. a população de baixa renda sofre com a manipulação do Direito. os ricos sempre conseguem burlar a lei. p. e o status activus. no cenário brasileiro. uma inefetividade da Constituição. 81). Inclusive.. (STRECK. Desse modo. Cf.106 1996. Logo. Por isso.] perpassa pela realização dos três status do cidadão: o status negativus. compatíveis com o atendimento ao princípio da dignidade humana. Lênio Luiz. (BARATTA. os direitos fundamentais da pessoa humana não são efetivados. na realidade brasileira existem dois tipos de cidadãos: 1) subcidadão corresponde à população que é explorada e subjugada pelo poder hegemônico. A Constituição deve ser vista como explicitação do contrato social. . Constituição ou Bárbarie? – A lei como possibilidade emancipatória a partir do Estado Democrático de Direito. 1998. Tendo em vista que há no Brasil uma crise de legalidade.. 1998.. p. do cidadão.com. apud MELO. 1996. O direito brasileiro preocupa-se mais em resolver as disputas interindividuais e os juristas conseguem “pensar” o problema a partir dos pré-juízos advindos do modelo liberal-individualista-normativista. realizado com a efetividade dos direitos políticos e de participação e dos direitos fundamentais processuais. 2) o sobrecidadão é aquele que não se subordina ao sistema. este coloca à disposição dos juristas os mecanismos para implantação das políticas do welfare state. pois. é importante que os direitos sejam efetivados para que se realize a cidadania105.. 105 O cidadão não tem garantia da efetivação dos seus direitos que são assegurados pela Constituição. democracia e direitos humanos estão “[. uma “morte espiritual da Constituição”. (MELO.” (MELO.] é reafirmar o direito pela plena realização do indivíduo. 1998. São a essência do Estado Democrático de Direito que abrange todos os direitos e garantias do ser humano. apud MELO. isto é. um remete ao outro. a práxis da cidadania [.br/index.. vivendo em todos os tipos de miséria.] intimamente ligados. Por exemplo.php? option=com_docman&task=cat_view&gid=25&dir=DESC&order=date&Itemid=40&limit=10&limitstart=10 >. De acordo com Lênio Streck. concernente aos direitos de prestação. Uma razão cínica pela qual as ações injustas continuam ser feitas.

remodelados. (CARBONARI.usp. no qual uma Constituição define e garante quem é cidadão. Cidadania e Direitos Humanos. quais são os direitos e deveres que ele terá em função de uma série de variáveis. 107 Direitos Humanos precisam ligar democracia e desenvolvimento para que ocorra a participação da cidadania seja uma componente de efetivação de direitos e para que o desenvolvimento propicie uma efetivação das garantias fundamentais dos Direitos Humanos. necessitam ser “incorporados à legislação nacional e se constituir em políticas públicas globais efetivas. de uma ordem jurídica-política vigente. voltadas à sua garantia”.iea. Desse modo. quando os direitos são violados prejudicam a cidadania. o estado civil. Maria Victoria. de 2004. os direitos do cidadão e a própria idéia de cidadania não são universais no sentido de que eles estão determinados a uma específica e delimitada ordem jurídica-política. e. Passos Fundo: [s.107 Para Maria Benevides106 (2010). Desse modo. 2004). 2010). Disponível em: <http://www. Assim. (BENEVIDES. 2010). 2010. os órgãos do Estado devem ser direcionados. Em muitos casos. Mas deve ficar bem claro que existem diferenças entre os direitos humanos e os direitos dos cidadãos: os Direitos Humanos são universais e naturais. reforçados ou criar outros com relação aos direitos humanos. ao passo que os direitos do cidadão são direitos criados e devem necessariamente estar presentes no ordenamento 106 Cf. porque o governo pode estabelecer os direitos e deveres quando for necessário para melhorar a vida de cada cidadão. jan.].br/artigos/benevidescidadaniaedireitoshumanos. Com efeito. Cf. Inclusive. Sistema Nacional de Direitos Humanos. BENEVIDES. que são os mais amplos e abrangentes. a idéia de cidadania é eminentemente política e está relacionada com as decisões políticas e não com os valores universais. o fato de estar ou não em dívida com a justiça penal e entre outras regras. os direitos da cidadania são direitos específicos dos membros de um determinado Estado. (BENEVIDES. tais como: a idade. Acesso em: 30 out. os Direitos Humanos pelo fato de serem um corpo jurídico e um ideal ético internacional. cidadania e direitos da cidadania referem-se a uma determinada ordem jurídica-política de um país. os direitos do cidadão coincidem com os direitos humanos107. uma vez que existe a compreensão de que cidadãos estão relacionados aos direitos e deveres prescritos num respectivo país. Paulo César. São Paulo: Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. de um Estado.pdf>. A construção de políticas públicas são ações e programas atentos para a asseguração dos direitos dos mais explicitamente violados e também são ações estruturais que tenham dignidade humana com fim inadiável. CARBONARI. Assim. . a condição de sanidade física e mental.

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jurídico. Enquanto os Direitos Humanos são universais, ou seja, devem ser preservados e garantidos em qualquer região do mundo, além de serem naturais por que antecedem o poder do Estado, a cidadania consiste na garantia de determinados direitos e deveres vigentes no conjunto jurídico de um país. (BENEVIDES, 2010). Contudo, não se poder perder de vista que para a defesa dos direitos faz deve-se ter presente a idéia de cidadania e dos próprios direitos que sempre estão em processo de construção e mudança. Assim, a cidadania tem que ser ativa, ou seja, aquela que “[...] institui o cidadão como portador de direitos e deveres, mas essencialmente participante da esfera pública e criador de novos direitos para abrir espaços de participação”. (BENEVIDES, 2008)
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. Uma cidadania que pode conquistar-se cada vez mais sua legitimação na sociedade,

uma vez que os Direitos Humanos estão marcados significativa e essencialmente na Constituição Brasileira de 1998 que “[...] ampliou consideravelmente a gama dos direitos de cidadania e os mecanismos necessários à sua tutela [...]” (MELO, 1998, p. 84), consolidando um novo paradigma de cidadania e exercício democrático. Com vista a consolidar o regime democrático109. Dessa forma, é necessária uma nova práxis de cidadania vinculada à reconstrução da democracia que se compreende do seguinte modo:
1 – assente na racionalidade formal do Direito, como defende Bobbio, no sentimento constitucional (Löwenstein) e na vontade de Constituição (Hesse); 2 – comprometida com a real efetivação dos direitos positivados, não enquanto concessão estatal ou imposição coercitiva, mas de forma integrativa, através da cooperação entre os indivíduos e os grupos; 3 – atuante na luta pelo “instituído sonegado” e pela floração contínua de novos direitos; 4 – voltada para a emergência dos novos sujeitos de direitos; 5 –vinculada a um novo exercício da cidadania que aponte para redefinição do espaço público e para a refundação do pacto social, retomando o principio rousseniano de “comunidade”, fundado na obrigação
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Cf. BENEVIDES, Maria Victoria. A Questão Social no Brasil: os direitos econômicos e sociais como direitos fundamentais. Disponível em: <http://www.hottopos.com/vdletras3/vitoria.htm> Acesso em: 28 nov. 2008. 109 No entender de Benevides (2008), a democracia é um regime que contribui para a “consolidação e a expansão da cidadania social, com a garantia das liberdades e da efetiva e autônoma participação popular”. Ela é um “regime político fundado na soberania popular e no respeito integral aos direitos humanos”.

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horizontal entre os cidadãos, com autonomia e responsabilidade na participação e solidariedade para a formação da vontade geral; e 6 – aberta ao jus contendum, ao conflito de interesses e divergência das tensões que existem na sociedade, em prol de um síntese equilibrada entre “subjetividade, cidadania e emancipação”. (MELO, 1998, p. 86-87).

Contribuindo, então, para uma práxis que expande os espaços participativos e efetue os Direitos Humanos, “[...] fazendo com que a sociedade brasileira resgate sua dimensão cidadã com compromisso, criatividade, ousadia e sobretudo, com paixão [...]” (MELO, 1998, p. 87). Pois a sociedade é transformada quando se vive com paixão a cidadania.

4.2 A PERSPECTIVA JURÍDICA E A CIDADANIA

A cidadania está relacionada intimamente com o direito. Quando o direito remodela seu modo de organizar, aperfeiçoa a noção de ser cidadão. Assim, quando o ordenamento jurídico busca rever e reconduzir o país para o desenvolvimento para a realização da igualdade, da liberdade e da fraternidade, consolida uma cidadania digna, uma vez que os indivíduos devem ser cidadãos amparados por alicerces que garantem a realização de uma sociedade justa. Desse modo, é importante que a escola repense como que se relaciona com o direito para que se guie por um caminho que seja capaz de fundamentar a cidadania em bases sólidas. Ou seja, se a perspectiva jurídica trabalha em conjunto com as decisões pedagógicas, conforme elas ou em parceria, ajudará na constituição de um cidadão respeitável e digno. Na verdade, o regimento interno deve ajudar a desenvolver ações que ajudem na formação da cidadania, pois o direito “[...] equaciona a vida social, atribuindo aos seres humanos, que a constituem, uma reciprocidade de poderes, ou faculdades, e de deveres, ou obrigações”, além de conferir “[...] harmonia à vida [...]” e constituir “[...] o fundamento da ordem social”. (RAO, 2004, p. 53).

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E instituindo a ordem na sociedade contribui para que os cidadãos se realizem plenamente, pois é na ordem que todos os direitos e garantias são efetivados com qualidade. É nessa legitimação que se realiza plenamente a cidadania.

4.2.1 O Regimento Interno

A ordem pode ser bem estabelecida quando há um regimento, uma regulamentação dos direitos e deveres, para que se firme um pacto pelo qual todos possam trabalhar pela construção de um ambiente sadio e adequado para aprender e se desenvolver enquanto ser humano. Regimento é o “ato, efeito ou modo de reger, de dirigir. Normas impostas ou consentidas; disciplina, regime [...].” (FERREIRA, 1975, p. 1207, apud ANDRADE; PEREIRA, 2008)
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. É um conjunto de normas e regras que organizam o funcionamento de

uma instituição, um órgão. São normas que podem ser impostas ou consentidas. (ANDRADE; PEREIRA, 2008). Entretanto, o Regimento, ao ser formado, deve estar de acordo com os princípios constitucionais e legislação geral. Sua elaboração na escola é um ato administrativo, didático e disciplinar que regula o funcionamento deste estabelecimento de ensino. (ANDRADE; PEREIRA, 2008). Porém, o estabelecimento de ensino nunca deve esquecer os princípios, os fundamentos, os objetivos descritos na carta política que visa à realização da igualdade, da liberdade, da fraternidade, ideais revolucionários de 1789 que devem se concretizar no espaço escolar. (ANDRADE; PEREIRA, 2008).

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Cf. ANDRADE, Maria Raquel; PEREIRA; Cássia Regina Dias. Regimento Escolar: o aspecto jurídico das sanções disciplinares e/ou medidas pedagógicas. Disponível em: <http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/14666.pdf?PHPSESSID=2010012108381666>. Acesso em: 23 abr. 2010.

p.] punição pura e simples do adolescente em conflito com a lei.. Como disse Murillo Digiácomo. condições de vida mais dignas e perspectivas de um futuro melhor. Disponível em: <http://www. porque versando sobre indisciplina. mas com objetivo educativo.069) e o Código Civil e Código Penal. sendo ainda necessária a indicação da instância escolar (direção da escola ou conselho escolar.gov.br/cpca/telas/cadoutrinaeducacao4. resolve-se de acordo com as normas prescritas no Regimento interno escolar. extensível à sua família.. desencadeado-se procedimento para aplicação de medidas de proteção. Com efeito. 2008).] estabelecer. (2008.. Paraná: Ministério Público. permitindo-se a instauração do procedimento destinado à apuração do ato infracional. Acesso em: 23 mar. O regimento escolar deve [. acompanhamento. ele sofrerá algumas punições. o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8. (GRILO. p. KUHLMANN. 2004. (DIGIÁCOMO. Não punir para oprimir. Assim.. apud PEREIRA. deve ser assegurada ainda sua defesa. apud PEREIRA. [que] o próprio adolescente a ela tem direito [. ao juizado da Infância e Juventude. quando um aluno descumprir o que se exige pela lei.html>. por exemplo) que ficará encarregada de apreciação do caso e aplicação da medida 111 Cf. segundo o Estatuto) a questão há de ser encaminhada à Delegacia Especializada ou ao promotor de justiça. . escolarização e profissionalização (tudo de acordo com suas necessidades pedagógicas). Murillo. previamente.. 5. Ato de Indisciplina: como proceder. que lhe irá proporcionar. a escola deve proceder da seguinte forma: Havendo a prática de ato infracional por pessoa menor de doze anos (definida como criança no Estatuto da Criança e do Adolescente) o caso deve ser encaminhado ao Conselho Tutelar do Município e. DIGIÁCOMO. o Estado não aplica uma [. bem como as sanções disciplinares a elas cominadas. Diante da violência escolar. mas para melhorar enquanto ser humano. 2010.111 O regimento inclui deveres que também devem estar em conformidade com o ordenamento jurídico. ANDRADE.pr. 2. 2008. na falta deste órgão. do qual poderá resultar aplicação de medida sócio-educativa. quais as condutas que importam na prática de atos de indisciplina. 2010) 111. Caso o autor do ato infracional seja maior de doze anos e menor de dezoito (pessoa adolescente. com a realização de um trabalho psicossocial sério. grifos do autor). Ressalva-se que dará início a este procedimento quando se referir a um ato infracional (conduta descrita como crime ou contravenção penal). tratamento. através da orientação. principalmente com a Constituição. ANDRADE.mp.].. quando o indivíduo não exerce seus deveres. mas sim sua reeducação e ressocialização.

detenção de seis meses a dois anos.é assegurado o direito de resposta..igualdade de condições para o acesso e permanência na escola.. c) de trabalhos forçados. a vida privada. além da indenização por dano material.232118 da Lei nº 8. ou que está em conflito com a lei. o violador em tese será o responsável pela prática do crime regulamentado no art. 117 “III . visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa. 84.” 115 “Art.]”.]. (DIGIÁCOMO. é claro que as sanções disciplinares previstas no regimento não podem contrastar com o princípio fundamental e constitucional. inciso I da Lei nº 8.112 disciplinar respectiva (em respeito à regra contida no art. de acordo com o art. guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento: Pena . V e X117.069/90. XIX. da Constituição Federal (dentre outros). e) cruéis.069/90.5º. 232.5º. não poderá haver vexame ou constrangimento ao aluno. (DIGIÁCOMO.igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. a honra e a imagem das pessoas. grifos do autor). proporcional ao agravo. art.. sob 112 113 “LIII . o direito de acesso e permanência na escola.]”. X . d) de banimento.].. [. Se a vitima for criança ou adolescente. A criança e o adolescente têm direito à educação.. 53.. não poderá ocorrer de forma sumária119.ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante.. [. pois descumpre os direitos constitucionais de qualquer cidadão garantidos no art.3º114. [.são invioláveis a intimidade. .. do artigo 206115.].” 118 “Art. inciso XLVII116 da Constituição Federal.394/96 e. Submeter criança ou adolescente sob sua autoridade. assegurando-se-lhes: I . [.. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I . moral ou à imagem. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I . Além disso. 206. principalmente. a aplicação da sanção disciplinar ao aluno acusado da prática de ato de indisciplina.5º incisos III..].não haverá penas: a) de morte. salvo em caso de guerra declarada. [. b) de caráter perpétuo. que garante a todo cidadão. 116 “XLVII . assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.”.igualdade de condições para o acesso e permanência na escola. Igualmente. 2010. grifos do autor) que a “razão pela qual não se admite a aplicação das sanções de suspensão pura e simples da freqüência à escola (uma eventual suspensão deve contemplar. V . cuja imposição é vedada mesmo para adultos condenados pela prática de crimes. nos termos do art.53113.” 119 Preleciona Murillo Digiácomo (2010.. preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho. 114 “Art. e em especial a crianças e adolescentes.ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente”. inciso I da Lei nº 9.. Também não poderá deixar de ser observada nenhuma das hipóteses do art. inciso I da Constituição Federal. “Art. que trata da relação de penas. inciso LIII112 também da Constituição Federal). 2010). [. Inclusive.

indicar testemunhas [. “O relato é feito em forma de ofício e deve constar qualificação completa da criança e/ou adolescente (nome. 2008). de modo que o aluno não perca os conteúdos ministrados . que em última análise representa um "atestado de incompetência" da escola enquanto instituição que se propõe a educar (e não apenas a ensinar) e a formar o cidadão. inciso X da Constituição Federal). que deve estar devidamente previsto no regimento escolar (também por imposição do art.” 121 “LV . Depois de ser testemunhada de todas essas formalidades e garantias constitucionais é que se poderá tratar da aplicação de sanção disciplinar.ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal. será nula de pleno direito.5º. 2010). depoimento pessoal perante a autoridade processante e arrolamento/oitiva de testemunhas do ocorrido. nas próprias dependências da escola ou em outro local. deverá ser conduzido em sigilo. o nome dos alunos ou professores agredidos ou ameaçados e. Nesta circunstância. inciso LIV da Constituição Federal).. passível de revisão judicial e mesmo sujeitando os violadores de direitos fundamentais do aluno a sanções administrativas e judiciais.” 122 O relato sobre o ato infracional. endereço completo. desde que sob a supervisão de educadores. cuja imposição. a hora. Todo o procedimento disciplinar..ex vi do disposto no citado art. notadamente se criança ou adolescente (para assistí-lo ou representá-lo perante a autoridade escolar). a realização de atividades paralelas.” 120 “LIV . data de nascimento. em processo judicial ou administrativo.] deve ser formalmente cientificado122 de que sua conduta (que se impõe seja devidamente descrita). seja no que se refere ao encaminhamento as autoridades competentes da prática do ato infracional seja as providências também no âmbito da área administrativa escolar [.. do contrário. tal qual dela se espera..ou mesmo provas aplicadas . . (DIGIÁCOMO. o local. incisos LIV120 e LV121 da Constituição Federal. determinado ato de indisciplina (com remissão à norma do regimento escolar que assim o estabelece). Deve indicar também.. que assegura a todos os indivíduos o direito ao devido processo legal. filiação.5º. deve ser comunicado ao Conselho Tutelar. ainda. como também.]. caracteriza. a partir daí. deve ser a ele oportunizado exercício ao contraditório e à ampla defesa. independentemente da idade do indivíduo. (DIGIÁCOMO. objetivando colocar a pessoa a salvo da arbitrariedade de autoridades investidas do poder de punir. facultando-se ao acusado a assistência de advogado. [..113 pena de violação do contido no art. tanto na esfera cível (inclusive com indenização por dano moral eventualmente sofrido .5º. confronto direto com o acusador.no decorrer da duração da medida). e muito menos a expulsão ou a transferência compulsória do aluno. quanto criminal.A família deve ser comunicada das providências tomadas pela escola. ANDRADE. dependendo da natureza e extensão da infração praticada pela autoridade responsável pela conduta abusiva e arbitrária tratada. com a obrigatória notificação de seus pais ou responsável.]” (PEREIRA. dependendo da idade do adolescente.aos litigantes. É obrigatoriamente. 2010). com os meios e recursos a ela inerentes. ao contraditório e à ampla defesa. em tese. ou a uma delegacia de polícia especializada ou ainda ao Promotor de Justiça da Infância e da Juventude. e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa.

representando assim uma medida pedagógica. incluem. E quando concerne à indisciplina. p..se: [. No que tange às penalidades aplicadas pelo Conselho Escolar ou pela comissão de disciplina (colegiado). ANDRADE. demonstrando a necessidade de se guiar por atitudes respeitáveis e dignas de se viver com os outros. As outras atitudes devem ocorrer em casos mais graves com objetivo de modificar a conduta do aluno.. uma vez que se trata de procedimentos adotados pela escola. apresentando os motivos que levaram a autoridade a entender comprovada a acusação e a rejeitar a tese de defesa apresentada pelo aluno e seu responsável. ANDRADE. 2008). mas também de cunho educativo/pedagógico.] as medidas disciplinares de suspensão as atividades de classe. Dessa forma. a suspensão da freqüência às atividades da classe. apud PEREIRA. deve ficar claro que [. exigindo que o aluno freqüente a escola e possa aprender fora da sala de aula com trabalhos e orientações dadas pelo professor e pela direção. entretanto. que serão aplicadas quando o aluno não cumprir os deveres previstos no regimento escolar. (PEREIRA.. por período determinado.]. 2004. retratação.. 7-8.. Dessa forma. (GRILO.. para que se remodele na convivência com outras pessoas. a sanção deve ter caráter essencialmente educativo. cabíveis para os casos mais graves e de multirreincidência. 2010) Acrescente-se que a sanção disciplinar é de encargo da escola que deve estar instituída no Regimento Interno. 2008). inserindo-o num novo contexto. (DIGIÁCOMO.. ANDRADE. [.. 2008). (PEREIRA. [. KUHLMANN. mudança de turno e mudança de turma. a retratação verbal ou escrita. . A retratação verbal e escrita é um modo de corrigir sua conduta. para que possa ser interposto eventual recurso às instâncias escolares superiores e mesmo reclamação ou similar junto à Secretaria de Educação.]. A suspensão não pode gerar exclusão do aluno no espaço escolar.].114 importante ressaltar que a decisão que impõe a sanção disciplinar precisa ser devidamente fundamentada. a mudança de turma e a mudança de turno. não afronta aos aspectos legais e não são apenas de caráter punitivo.

o regimento interno precisa respeitar os parâmetros legais e ser elaborado por meio de uma ampla discussão. tornando-se responsável para implementar normas que ajudaram na consecução de uma escola democrática. o diretor da escola e o colegiado não possuem competência para aplicar medidas sócio-educativas ou medidas sócio-educativas ou medidas de proteção às crianças e adolescentes que cometem ato infracional. 54-55). com toda a comunidade escolar. Assim é necessário que os alunos sejam ouvidos e respeitados nas suas decisões. apud SILVA. o colegiado (Conselho Escolar ou Conselho Disciplinar). visto que é missão constitucional que a escola deve ministrar. Já com relação aos atos de indisciplina estes devem ser solucionados dentro do âmbito da própria entidade educacional. Lei. Isso corrobora para que. requer participação dos pais (ver art. 1996. 2010). (DIGIÁCOMO. objetivando garantir os direitos fundamentais do aluno. (DIGIÁCOMO. ao aplicar medidas justas na apuração e resolução dos problemas indisciplinares e infracionais. nos casos mais graves. o processo disciplinar. Portanto. Ou seja. na realização dos procedimentos legais. deve ser concebido como um espaço importante “onde se dá a transmissão cultural e a formação para a convivência social. dos alunos. os alunos se sintam envolvidos por uma teia pedagógica que os ajudará a evitar a repetição de condutas semelhantes e ensinando-lhes uma impagável lição de cidadania. p. Aliás. (DIGIÁCOMO.115 só podem ser aplicadas pelo Conselho Escolar123 e este adotando procedimento autorizado por lei. Uma missão que se orienta pela realização do direito à educação. em vista de uma formação da cidadania democrática. 8. uma vez que instituição de ensino tem objetivo de formar e preparar a pessoa para o exercício da cidadania. ANDRADE. levando-os ao conhecimento do processo pedagógico da escola (pública ou particular) e a participação ativa na definição de suas propostas educacionais. 53. por isso. nos casos menos gravosos e. 123 Ensina Octacílio Sacerdote Filho (2010) que: “O professor. 2010). dos professores e da direção escolar. (PEREIRA. 2006. possui uma fortíssima carga pedagógica.069). debate. dos funcionários.” . Ela se encarrega de transmitir culturas às novas gerações. Desse modo. o papel da escola. 2010). valores e hábitos” (HUMBERTO SILVA. Possuem competência e autoridade para aplicar as punições os professores e o diretor do estabelecimento de ensino. 2008). obedecendo-se as normas prescritas no regimento interno.

atributo da dignidade da pessoa humana. Dever-se-á buscar. grifos do autor). (ENGEL. p. In CURY. para Vasconcelos. p. Assegurando os seus direitos. estará cooperando para que forme cidadãos125. da fatalidade enfim”. Silvia. 2008. portanto. (PARRATDAYAN. saúde. e que seja realmente aberta e democrática. o direito à educação. 2008. a instituição escolar é o espaço propício e oportuno para 124 O objetivo pedagógico poderá ser realizado adequado quando incorporar uma dimensão jurídica que exige a escola instituir uma instância de mediação. (SOUZA. p. III.. p. São esses momentos inter-relacionados do processo educativo que lhe propiciarão condições básicas de suporte para atingir uma etapa de autonomia na condição da própria existência. São Paulo: Contexto. 133). 348). p. para além de uma sobrevivência mínima. Cf. atuando nas dimensões pedagógicas. principalmente. bem maior objeto de tutela pelos denominados direitos fundamentais.. Principalmente. Isto quer dizer que se faz mister edificar todo um trabalho social e educativo com vistas à promoção e defesa dos direitos humanos e de cidadania. a justiça e a realização dos direitos no espaço escolar. 204. 2008. porque o próprio ECA e demais leis. As medidas especiais de proteção devem-se apoiar em procedimentos metodológicos que se pautem por um caráter emancipador em todas as ações empreendidas. à mercê do destino. sem dúvida. da CF”. profissionalização. . A cidadania se realiza e se gesta num espaço em que seus direitos são efetivados. (CAVALCANTE. grifos nosso). 1°. a responsabilidade. 210. 48): “O acesso pleno à educação é. através da escolarização. Logo. In CURY. Direitos que são assegurados quando as sanções são aplicadas e possuem um objetivo pedagógico124 no Regimento Interno. um desdobramento das potencialidades de autodeterminação e libertação do educando. 2008. de preparar o educando para o pleno e complexo exercício da cidadania” (VASCONCELOS. cultura e lazer. enquanto sujeito de um processo que se renova continuamente. Ou como ensina Aquino (1996. Por fim. In CURY. a liberdade. (In CURY.116 Um espaço que ajuda na consolidação do exercício prático da cidadania. 2008. grifo nosso). de boa qualidade. 125 “A educação é a base da construção da cidadania. o regimento interno deve ser guiado pelos objetivos de incentivar a autonomia. 436). portanto. In CURY. Tendo uma intenção pedagógica ao aplicar as sanções disciplinares possibilitará que seus direitos sejam garantidos e concretizados.] que todas as crianças e adolescentes brasileiros tenham uma escola pública gratuita. Como enfrentar a indisciplina na escola. p. o passaporte mais seguro da cidadania. p. 2008. capaz. Assim. uma instância de arbitragem e conciliação na escola. 342. Por exemplo. social e econômica em um mesmo processo. política. 2008. como brota do próprio art. contribuirá para a emancipação do aluno. PARRAT-DAYAN. porque se efetiva todos os direitos e garantias inerentes à pessoa presentes na lei. outorgam “[.

Este será o tema do próximo capítulo. a descoberta da ‘profundidade' e a vivência de um entusiasmo para além do econômico-quantitativamente mensurável (uma nova espiritualidade) e a solidariedade com os injustiçados em busca de uma outra sociedade (uma nova postura ético-politica). buscando formar. levou ao desencantamento das outras dimensões e aspectos da vida. das mercadorias-símbolos. p. um sentido mais humano. através deles.. Contudo. (SUNG. ao mesmo tempo.. que pressupõe e é.117 consolidar o exercício da cidadania. mas sim a de reencantar a vida e a educação em um mundo em que o encantamento do mundo do consumo. 128-129). CAPÍTULO V A PERSPECTIVA PEDAGÓGICA NA EDUCAÇÃO PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA O reencantamento da vida e da educação é a busca de um novo sentido de vida. a educação não pode esquecer-se de extrair da sua essência uma ação educativa para que contribua para solucionar os problemas de indisciplina e violência escolar. É pela realização de uma perspectiva jurídica que ofício educacional romperá com uma educação bancária e incumbirá de transformar o mundo.] não é a de encantar um mundo completamente desencantado. . 2006. Essa busca [. verdadeiros cidadãos. constituído de uma nova forma de ver e compreender a vida e a realidade que nos cerca (epistemologia).

A cidadania.118 O direito na vida educacional possibilita instrumentalizar ações que alicercem a construção da cidadania. Por isso. depende de uma pedagogia que incentive o seu exercício. As diretrizes pedagógicas implicam numa mudança no caráter de atuação da escola. Assim. de democracia e de ética no tratamento dos conflitos escolares. é a sua força motriz e propulsora para o estabelecimento da cidadania. porque ao prescrever e determinar condutas. 5. Mas não se pode desconsiderar que a pedagogia está relacionada intimamente com o direito. a instituição educativa mostrará o seu papel e o seu valor quando concretizar determinados projetos. no desenvolvimento da personalidade do aluno e na sua qualificação para o trabalho. afetará a sociedade e a família. Mas a instituição escolar não pode orientar-se somente por uma perspectiva jurídica. gestada e fundada na escola. se a escola deseja conduzir-se conforme os princípios .1 A PERSPECTIVA PEDAGÓGICA E A CIDADANIA A instituição educativa é envolvida pela perspectiva jurídica que coopera para a realização da cidadania. da indisciplina e da violência. ações e atitudes em seu espaço que. porque os problemas disciplinares impelem para que a educação resgate o seu papel e materialize os seus objetivos. a pedagogia é imprescindível na instituição escolar. Portanto. o direito está educando e formando o indivíduo para uma sociedade democrática. consequentemente. De fato. este capítulo irá adentrar no caminho pedagógico para plantar sementes da cidadania.

2 Respostas para o dilema da indisciplina e violência escolar.2 Educação: à escuta de si mesma. A educação cidadã acontece quando a instituição escolar revê o seu papel e traça os caminhos pelos quais deve percorrer. principalmente no tópico 3. inclusive. serão demonstrados neste tópico as ações possíveis e concretas126 que devem ser concretizadas no espaço escolar. como que a instituição escolar deve entender a indisciplina e a violência e. procurar traçar orientações possíveis para a realização de um espaço escolar melhor. obstinação. Isto é possível quando o educador institui uma negociação constante entre a relação às estratégias de ensino ou de avaliação. p.1 O Contrato Pedagógico e as Assembleias de Classe A escola tem a tarefa de aproveitar as experiências do sujeito diante da incansável aventura humana de desconstrução e reconstrução dos processos imanentes à realidade dos fatos cotidianos. p. 5. deverá desenvolver uma educação para a cidadania. assim. perseverança. Como é objeto deste trabalho demonstrar que a pedagogia inspira o exercício da democracia na resolução de conflitos. Uma disciplina que se expresse numa intervenção pedagógica marcada. e a relação aos objetivos e até mesmo aos conteúdos 126 Foi explicado no capítulo três. por uma conduta dialógica.119 educacionais jurídicos e de acordo com a sua essência. . (AQUINO. vontade de saber. visando à realização da cidadania e da democracia. quais são as concepções gerais que devem permear na escola para resolver tais problemas. Deste modo. (AQUINO. 52). A escola deve assentar uma nova disciplina que realize atitudes de tenacidade. 53). buscando ampliar sua visão de mundo e almejando entender os diferentes pontos de vista e. é assunto deste item exprimir quais são os atos que podem ajudar a escola modificar o seu “rosto” para que possa cumprir fidedignamente sua missão.1. principalmente.2. no item 3. 1996. 1996.

Mais do que a função dos participantes do processo de aprendizagem. O contrato pedagógico é uma idéia cultivada por Janine Filloux. Assim. 55) Na visão da autora francesa Filloux. MORO. objetivado a flexibilização das delegações institucionais e das formas relacionais. Filloux delineou um modelo relacional fundando no desnivelamento entre os participantes do processo de ensino-aprendizagem. determinando que o educador realize novas estratégias. a permeabilidade para mudança e para a invenção. uma vez que este parâmetros constituirão no estabelecimento de um contrato que. p. 54). São Paulo. (AQUINO. Conseqüente. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-graduação em Educação. 2004. 127 Cf. é condição sine qua non para a ação pedagógica. p. é importante o estabelecimento de um contrato pedagógico que “[. Analisando os discursos dos alunos e dos professores. p.120 preconizados. Existem alguns quesitos importantes para a construção negociada ou ao contrato. é o lugar dos participantes que configura as relações que se estabelecem.. (MORO. a troca de conhecimentos que ocorre entre professor e aluno desenvolve-se sobre uma relação assimétrica.. Contratos em sala de aula: as regras escolares em questão. 2004. 1996. a fidelidade ao contrato pedagógico. (AQUINO. por sua vez. . gera uma relação de assimetria. Universidade de São Paulo. 1996. (AQUINO..] a relação pedagógica contratual fundada sobre o estabelecimento e o respeito das respectivas posições (professor-aluno) como condição da existência do campo pedagógico e de sua manutenção. que falta nos alunos. 54).] define as regras e os vínculos em torno dos quais se estabelece a relação pedagógica em ambiente escolar” (MORO. p. p. Assim. 48) 127. tais como: os investimentos nos vínculos concretos. 2004. tal postura entende o aluno como elemento essencial na construção dos parâmetros relacionais que a ambos inclui. O desnivelamento consiste no fato de que os professores. 2004. experimentações de diferentes ordens. (MORO. portando um determinado saber. a qual realizou uma pesquisa com cerca de 900 alunos e professores do ensino médio Francês. 53). 55-56). [. a posição também garante o espaço de desenvolvimento da relação pedagógica. Paulo Adriana de Brito.. 1996. p. Ou seja.

Com efeito. como ferramenta reguladora das salas de aula.. 2004. p. pois o contrato estipulado é substituído por um novo contrato que nasce no vínculo criado entre professor e aluno.] definido e instituído pela escola. o docente se transforma no agente instituinte e a classe.. a ação pedagógica não reside em conciliar os alunos e professores. 1997. 58). pois é importante que haja regras de vida em grupos partilhadas para que se exerça a cidadania que decorre de verdadeiros contratos de vida comum entre os professores e os alunos. 2003.” (MORO. (MORO. dos professores e de toda a comunidade escolar. p. não é apenas desejar relações menos desgastantes. Obviamente que suporiam obrigações para estes alunos. . p. esse novo contrato contribui para o desenvolvimento da aprendizagem e adquirir o saber proposto pelo professor. mas é a possibilidade de desenvolver um trabalho numa escola que se torna um ambiente de relações democráticas. o contrato pedagógico “[. Um ambiente que funda suas ações em regras de convívio que sejam coletivamente definidas e aplicadas e recíprocas. pois o contrato pedagógico. 2004. 56).121 Essa relação assimétrica gera um desequilíbrio natural. aos olhos de uns e outros. 227. de B. fazendo surgir um novo contrato de natureza paradoxal pelo qual. o que exige uma nova ordem relacional fundada na equanimidade. presente nessa relação pedagógica. Consequentemente. mas também obrigações para os professores. Moro (2004. o que supõe obrigações por parte dos alunos. o local de formação. apud AQUINO. Para Janine. 56). em torná-los amigos. Dessa forma. 54) declara que é necessário que as regras estejam de acordo com as necessidades e possibilidades reais dos alunos e professores. as regras e os objetivos sugeridos pela escola transformam-se durante o relacionamento em sala de aula. (DUBET. p. Paula A. transformam-se em ato durante o relacionamento professor-aluno. autônomas e responsáveis. Assim. p.

p. A instituição escolar deve fixar . p. 60). 62). Fé na capacidade individual e coletiva de as pessoas criarem condições de resolver problemas.. p. Com isso é possível perceber que a democracia demanda que seja cultivada uma “defesa intransigente da liberdade. p. que permite ás pessoas estarem tão bem informadas quanto possível. Preocupação com o bem-estar dos outros e com o “bem comum”. p. independetemente de sua popularidade. 4. do respeito mútuo etc. 2003. A compreensão de que a democracia não é tanto um “ideal” a ser buscado. p. p.” (AQUINO. 2003. porém sua autoridade se assenta na responsabilidade que ele assume por este mundo” (1992. 3. Por isso é importante rever o papel do Regimento Interno da instituição educativa.” (AQUINO. De acordo com Apple e Beane (1997. 5.” (AQUINO. 6. O uso da reflexão e da análise crítica para avaliar idéias. 239. da justiça. E inclusive. A organização das instituições sociais para promover e ampliar o modo de vida democrático. apud AQUINO. é preciso que o professor passe por uma formação contínua e que seja qualificado. da dignidade. 2. elaborado pela própria instituição escolar em observância as legislações afins” (AQUINO. como um conjunto de valores ‘idealizados’ que devemos viver e que devem regular nossa vida enquanto povo. Ele é um “documento legal.. 7. 62). 2003. (AQUINO. viver democraticamente pressupõe: 1. 5960). 61). Preocupação com a dignidade e os direitos dos indivíduos e das minorias. Para isso. 2003. é necessário que se instalem “dois mecanismos pedagógicos de regulação democrática do convívio escolar: os ‘contratos pedagógicos’ e as ‘assembléia de classe’ – ambos em conformidade com os princípios de uma educação em valores que tenha o modo de vida democrático ao mesmo tempo como fim e meio. p. p. 2003. de caráter obrigatório. O contrato pedagógico necessita de uma autoridade docente que se esforce de modo redobrado para que realize a democracia na instituição escolar. problemas e políticas. 17. apud AQUINO. De acordo Hanna Arendt. 2003. O livre fluxo das idéias. “só se ensina democracia fazendo democracia . 60-61). “a qualificação do professor consiste em conhecer o mundo e ser capaz de instruir os outros acerca deste. 2003.122 Com efeito. 58).

a coerção e o apassivamento. 67). (AQUINO. e afeitas ao campo da incivilidade ou a ausência de boas maneiras. mas por meio de um acordo. na parte de normas disciplinares do regimento. 2003. o regimento pode buscar realizar democracia ou justificar decisões arbitrárias. Um pacto que deve ser representado na forma de contrato pedagógico que remete às pautas de ação e convívio em sala de aula. é possível perceber que existem regras muito exigentes. 63). porque a instituição escolar tem que perceber a disciplina escolar não se adquire por regulamentos. Entretanto. contra-mão. . banimento. delimitando estratégias de organização e ritualização democrática da sala de aula que foram aprovadas. pois goza de autonomia plena quanto à elaboração e realização de seu regulamento interno para que se oficialize os direitos e deveres de toda a comunidade escolar. 67-69). retaliação. pasteurizado. (AQUINO. é necessária uma revisão paradigmática dos valores presentes nas prescrições disciplinares. Ademais. 62-63). (AQUINO. p. um compromisso tácito entre as partes. ou por ameaça de punição. 2003. 2003. monocórdio” (AQUINO. de negação de condutas. limites e horizontes da relação. Seu teor deve ser estritamente operacional e assertivo. p. pedagógica e disciplinar. 2003. Então. Há situações que os regimentos representam mais um de sistema de penalização dos infratores. p. consequentemente. para que se aplica papeis distintos e complementares na relação entre professor e aluno. sua eficácia pedagógica é restrita. 64-66). 2003. O fato é que eles seguem um “padrão discursivo generalizante. p. engendram-se a sujeição. uma vez que elas são empregadas para intimidar ou penalizar. negociando o que é possível e necessário. Ele deve determinar os parâmetros de conduta para ambas as partes e exprimir os objetivos.123 uma organização administrativa. p. (AQUINO. Deve oferecer condições mínimas de funcionamento que trate da partilha de responsabilidade. Inclusive. Há práticas antiéticas e abertamente ilícitas e.

as tarefas decorrentes. 2003. 2003. é necessário fundar um pacto de confiança e cultivar expectativa. 71). é necessário que as regras e normas sejam discutidas e definidas coletivamente. à autodisciplina” (ESTRELA. as regras comuns de conduta em sala de aula. 72).124 Dessa forma. deve superar dois obstáculos na realização de uma relação humana sadia: a idealização excessiva do outro e a contra-idealização. Porém. ou rigidez excessivas delas (não há flexibilização). isto é. os critérios de avaliação. Com efeito. nas rotinas de trabalho. o cronograma de atividades. até. o consentimento voluntário e o engajamento efetivo dos alunos em relação às regras de funcionamento do grupo é possível quando se esforça sempre para manter a flexibilidade e o valor das regras. p. Sem tais regras devidamente acordadas. E o pacto contratual pode se romper quando há uma ambigüidade das regras (regras não claras).. 71). Um contrato bom respeita as características e possibilidades dos alunos e os seus costumes. 1994.” (AQUINO. (AQUINO. a sua implantação deve ser paulatina.. 2003. ou uma indisposição de algum . Sendo preciso sempre sua revisão “[. “desde os itens programáticos. p. apud AQUINO. p. A saída é posicionar e esclarecer o que se espera do outro. por fim. Por isso. 69-70). p. E por último. e principalmente. o contrato abarca o trabalho pedagógico (o que é feito) e a convivência (como deve ser feito). Depois. O contrato tem a função inicial de ser demonstrativo e argumentativo. as escolhas metodológicas. Deve ficar claro que as rotinas de trabalho e de convivência não serão comuns a todos os momentos da vida escolar.] porque o grupo-classe passa por diferentes etapas progressivas no que se refere à validação e á tomada de consciência quanto às regras de ação e de convívio: da imposição ao consentimento e. não haverá legitimação posterior. (AQUINO. demandando inovações e criações de novas experimentações. 2003. necessitando que o professor supervisione e oriente os alunos.

p. 2003. (AQUINO. exigindo observância e manutenção constantes. 4) resultados concretos que validem seu processamento cotidiano. p.. para os parceiros. (AQUINO. 78). passando pelas estratégias de problematização pedagógica dos conflitos testemunhados no dia-a-dia civil do alunado”. Assim. 2003. 2003. p. 2003. (AQUINO. 2003. mas “cultivar uma ambiência civil capaz de desencadear a reflexão e a vivência sistemática de valores e atitudes caras ao convívio democrático”.. a exeqüibilidade dos contratos impetra o envolvimento de todos. 77).] as ‘penalidades’ devem portar um caráter inclusivo e sempre de reparação ao andamento acordado pelo grupo-classe” (AQUINO. 3) rotinas e paus de convivência conhecidas e respeitadas por ambos. as sanções ou “[. dos propósitos da relação. 2003.. 2003. 76). (AQUINO. sendo então necessárias as assembleias de classe que põem os valores em ato na educação. 75-76). que será garantido quando ocorrer: 1) uma clareza razoável. E no contrato. 74).. Não é transmitir didaticamente juízos morais. Portanto. Porém. p. é preciso que a educação em valores se materialize em ações concretas. (AQUINO. Procurando evitar um caráter punitivo e expiatório. p. p. 75). (AQUINO.] o contrato pedagógico tem por função precípua o reconhecimento e a validação dos papeis e das funções complementares de professor e aluno” (AQUINO. 2003. . p. Desse modo. 75). p. ou ainda ausência de lastro ético do professor (falta de autoridade moral). “[. 2003. não são auto-suficientes como mecanismos de regulação do convívio democrático. p. 2) uma nítida configuração das atribuições de cada parte envolvida. 72-74). 75).125 (ns) aluno (s) (predisposição negativa em relação ao professor). “Educar em valores engloba diferentes dimensões – desde o ideário pedagógico corrente na instituição até as atitudes cotidianas dos agentes escolares. Todos têm que participar e responsabilizar-se mutuamente. pois elas “devem ser discutidas publicamente e aplicadas exclusivamente com vistas à solidificação dos acordos coletivos” (AQUINO.

p. • Gerenciar os conflitos escolares numa perspectiva dialógica e de respeito mútuo. 17. • Abordar temas curriculares contextualizados segundo os dilemas da cidadania contemporânea. os objetivos da educação em valores são: • Atribuir igual importância aos âmbitos cognitivo. por sua vez. 1998b. injustiça etc. lhes deu. • Desenvolver a tomada de consciência e a capacidade autônoma de escolhas. requerem virtudes. solidariedade e justiça. Dito de outro modo. a partir de trocas significativas entre membros da comunidade escolar. uma educação moral que possui um âmbito de reflexão que ajude a: [. uma determinada prática de valor. racional e dialogicamente princípios de valor que ajudem a julgar criticamente a realidade. 7879). 2003. no que se refere ao universo não apenas do juízo moral.” (PUIG ROVIRA. de legitimação dos fundamentos que regem o modo de vida democrático. abrem espaço para a criatividade e a investigação moral por parte dos sujeitos. p. não se abre espaço para a criatividade.] detectar e criticar os aspectos injustos da realidade cotidiana e das normas sociais vigentes. apud AQUINO. a sala de aula) como local privilegiado de participação democrática ativa e. então. ao mesmo tempo. mas para a repetição moral”. enfim. ambas ancoradas. em particular aqueles relativos aos direitos humanos (preconceito. construir formas de vida mais justas. de modo democrático e visando à justiça. • Propor sistematicamente a vivência de situações problema – do ponto de visto do convívio democrático – como disparadoras da construção das competências e habilidades. . o que se traduziria numa apropriação mais significativa e conseqüente das ações escolares por parte de seu alunado. o próprio espaço escolar (e em especial. 2003. a educação moral quer colaborar com os educandos para facilitar o desenvolvimento e a formação de todas aquelas capacidades que intervêm no juízo e na ação moral. 80-81). mas também da ação moral. Importa-se para a concretização de valores democráticos. p. 79. no primeiro caso. (AQUINO.. p. 2003. fazer com que adquiram também aquelas normas que a sociedade.126 A democracia na escola exige que haja uma educação em todos os momentos.). sendo necessária. tais como equidade. desigualdade. Assim. elaborar autônoma. As práticas de valor tem diferenciação: há práticas procedimentais e praticas substantivas: “Ambas ordenam cursos de ação que expressam valores.. grifos nosso). em valores universalmente desejáveis. no segundo. tanto nos âmbitos interpessoais como nos coletivos. (AQUINO. • Vivenciar. afetivo e moral do aprendizado escolar. conseguir que os jovens façam seus aqueles tipos de comportamentos coerentes com os princípios e normas que pessoalmente construíram. apontam para finalidades morais.

p. as assembléias de classe são os momentos institucionais privilegiados de diálogo. Convivência Democrática e Educação: A construção de relações e espaços democráticos no âmbito escolar. cuja responsabilidade é regular e regulamentar as relações interpessoais e a convivência no âmbito dos espaços coletivos. (AQUINO. 65). (ARANTES. a co-autoria pela construção dos valores e das atitudes características da convivência democrática. 2007. aproveitando assim como um espaço social que guiará os sistemas democráticos. os papeis de alunos e professores de maneira que sua participação seja mais igualitária. Valéria Amorin. p.127 Aliás. de maneira que todos considerem a assembléia como uma atividade habitual da sala de aula. embora não idêntica nem com igual responsabilidade.” (ARANTES. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICA. Desse modo. a consecução dos propósitos de uma educação de valores é possível através da realização do contrato pedagógico e das assembleias de classe que são práticas de valor intimamente relacionadas. No entendimento de Puig. 2003. 82. As assembleias de classes128 consolidam-se em escolas que se constituem como comunidades democráticas. Ética e Cidadania: Construindo valores na Escola e na Sociedade. que têm como objetivo regular e regulamentar temáticas relacionadas ao convívio entre docentes e entre esses e a direção. de forma distinta do habitual para favorecer o diálogo e para fortalecer. • Interromper o trabalho individual da aula e modificar. que podem usar para alcançar diversas finalidades. 65). a atitude de cooperação entre todos os seus membros. (AQUINO. ou de tudo aquilo que qualquer um de seus membros considera importante e merecedor da atenção dos colegas. Esses dois tipos mais a assembleia de classe complementam em processos contínuos de retroalimentação que colaboram para a construção de uma nova realidade educativa. 128 Será discorrido sobre as assembleias de classe. p. 81). p. • Empregar o tempo atribuído à assembléia para falar juntos de tudo o que ocorre à turma.. Ela deve ser organiza do seguinte modo: • Destinar uma pequena parte do tempo semanal a esse tipo de reunião. a conteúdos que envolvam a vida funcional e administrativa da escola. mas existem outros dois tipos de assembleias: “[. as assembléias representam o momento institucional em que o grupo-classe viabiliza a auto-reflexão. uma vez que as assembleias figuram como sustentação dos contratos. grifos nosso).] b) as assembleias de escola. devem discutir as questões com objetivo de otimizar a ação e a convivência democrática. e vice-versa. às vezes. 2003. • Dispor o espaço de sala de aula. 59-66. ao projeto político-pedagógico da instituição. de certo modo. 2007. 2007. ARANTES. envolvendo professores e alunos. Cf. p. (AQUINO. as assembleias. a tomada de consciência sobre si mesmo e a conversão em tudo aquilo que seus membros considerarem oportuno.. um dos valores democraticamente desejáveis e factíveis no cotidiano escolar. Brasília: Ministério da Educação. Para Puig. com esse simbolismo. 2003. p. Sua marca principal é o protagonismo e seu alvo. 81). c) e as assembleias docentes. .

85-86). M. espera-se que surjam as seguintes capacidades no espaço escolar: [. et al. p. exigindo que recordem o acordo firmado e valorar nas assembleias seguintes o grau de cumprimento e as principais dificuldades que surgiram. [. 28-29. Democracia e participação escolar: propostas de atividades. 129 Há uma obra que detalha como que deve se organizar e implementar as assembleia de classe. 83-84) 129. (AQUINO. e fazer isso com a vontade de comprometer pessoalmente nessas mudanças. Com efeito. p. p. ou defender uma postura pessoal oferecendo-se razões para tal. 2003. Assuntos em pauta. com a vontade de mudar o necessário para que a vida da turma seja otimizada. As propostas de trabalho devem ser respeitadas. de organizar o trabalho e de solucionar os conflitos de convívio que possam apresentar-se. p. PUIG ROVIRA. 86-87).128 • Dialogar com a disposição de se entender.. (AQUINO. exigir quando for necessário respeitar os valores democráticos básicos. Indicar a discussão. • Dialogar. • Finalmente. 2003. b) “Debate dos temas”: diálogo. acolher a diversas idéias. p.. 88). 88). (AQUINO. b) análise do ocorrido (refletir). 84).. c) decide-se e organiza-se o que se quer fazer (projetos de trabalho e diretrizes de convivência). Sua necessidade e utilidade podem ser parecidas.] colocar-se no lugar dos outros companheiros e imaginar como se sentem. 2003. O educador deve buscar o equilíbrio entre a igualdade e o auxílio na forma e no conteúdo do debate.]. nomes de quem quer intervir. Buscar acordos e cumprilo. 2000. ou seja. entender quais situações são problemáticas e comprometer-se com sua melhoria. 2003. c) Aplicação do acordo. cumprir o acordo no cotidiano da classe. p. apud AQUINO. São Paulo: Moderna. Mas não se pode esquecer que o professor tem a função de intervir quando for necessário e ajudar na condução da assembléia. Com relação ao desenvolvimento das assembléias de classe. 2003.. há três momentos: a) preparação: estabelecer os temas. p. as funções da assembléia são: a) o papel informativo (conhecimento dos atos). . Além de respeitar as diferentes opiniões. Intervir e pedir a palavra. É evidente que as assembléia não podem ser realizadas do mesmo modo na educação infantil ou no ensino médio. J. o modo de realizar as assembleias de sala aula depende da idade dos alunos. Cf. (AQUINO. mas a maneira de concretizá-las varia em função da especificidade própria de cada idade. (AQUINO. portanto. (PUIG ROVIRA. 2002b. Assim. 2003. expressar a opinião própria de forma respeitosa e compará-la com a do demais.

131 “A idéia de democratizar as relações em sala de aula. p. há professores que não concretizam o seu papel de autoridade. Portanto. . Desse modo. enquanto sujeito de direitos e deveres. sobretudo. São práticas contratuais que propiciam a “reafirmação da ritualização130 da sala de aula.” (MORO. p. 2004. Também proporcionam a formação de capacidades morais e aquisição de atitudes e valores. como maneira de reforças as habilidades de comunicação. análise e crítica dos alunos. p. 111). auxiliando a construir o espaço da cidadania já desde a escola. e ajuda otimizar a vida do grupo-classe. além de contribuir para o seu posicionamento no momento das decisões. de exercício de responsabilidade e autonomia dos alunos e.. amizade. Quando ela motiva a realização sublime de existir. grifo nosso).]” (AQUINO. igualdade. 112.. há alunos que reconhecem as regras. confiança ou responsabilidade [. Quando ela relaciona com o aluno no palco. 2004. 89).. estimulando-o a apresentar todas as suas capacidades e talentos na arte de existir. 2003. Há que se exigir que a comunidade 130 De acordo com Paulo Moro. p. 112). mas não se responsabilizam com os efeitos de suas atitudes no grupo. Assim. não pode deixar o indivíduo à mercê de decisões legalistas. (MORO.. porém. assembleias estimulam “[. (MORO. deve atentar para o desenvolvimento de pessoas mais conscientes de seus direitos e deveres. como prática democrática131 voltada para a construção da cidadania. pelas quais os alunos e professores reconheçam-se como participantes do mesmo jogo. 112-113). p. incluindo o aluno no processo decisório. (MORO. Além de contribuir para o desenvolvimento de capacidades morais desejáveis e criar hábitos democráticos. além de distinguir a autoridade do professor na sala de aula e saberem o que é uma transgressão. p. 2004. através dos contratos pedagógicos. (AQUINO.129 Ademais. na sua pesquisa realizada. respeito às diferenças. 2003. 89). compreendendo-as como justas.” (MORO. confirma que os alunos percebem a falta de ritualização dos espaços de sala de aula. imediatistas e irresponsáveis. 5. é importante enfatizar a prática dialógica. Eles parecem querer assumir seu papel de discente. 2004.1. os contratos pedagógicos e as assembleias de classe têm o objetivo configurar a sala de aula como espaço de parcerias.2 O Projeto Político-Pedagógico A cidadania é possível na escola quando ela própria busca contracenar com o aluno no seu palco escolar. p.] questões afeitas à solidariedade. Contudo. sujeitos a regras semelhantes. 109). 2004.

quais objetivos. caracterizada por um compromisso coletivo e no desejo de formar cidadãos que busquem transformar a realidade. que a democracia deveria acontecer. inclusive. metas e estratégias. uma ação intencional que precisa ser definida coletivamente. (ÁVILA. assim. sejam capazes de criticar e transformar a realidade. É fato que a instituição escolar. principalmente no Projeto Político-Pedagógico (PPP) 132. É na realidade educativa. Prende-se a um discurso insuficiente para cumprir uma educação verdadeiramente democrática. para adentrar-se no espetáculo da vida. propiciando. da valorização da coletividade. 2009). da solidariedade e companheirismo. A democracia participativa não existe na maioria das escolas brasileiras. voltado para a formação de cidadãos que. O Projeto Político-Pedagógico é um eixo norteador das ações educativas no ambiente escolar. a instituição educativa precisa propor um projeto político-pedagógico que procure dar vida à dimensão política e ética na vida humana. Ele apresenta as idéias que a escola pretende ou idealiza fazer. 132 Para facilitar à escrita utilizará se a sigla PPP. com caráter político e pedagógico. neoliberal ou assistencialista. Quando se fala em democracia da escola deve-se entendê-la como momento de participação no conjunto das decisões escolares. Desse modo. as escolas ainda mantêm o status tradicional. Ele é um guia para as ações da escola. viver a democracia. tanto no que se refere às atividades pedagógicas. fundamentando-se numa sociedade democrática. Muitas vezes a democracia é apenas vista como espaço em que todos estão presentes e vivem juntos. percebe-se que em pleno século XXI. Trata-se de um planejamento. como às funções administrativas. por meio do diálogo. além de saberem ler e escrever.130 escolar se torne protagonista na formação humano. apresentando para a sociedade que ela pode transformar a sua vida. . no planejamento de ensino e de gestão. Contudo. deveria efetivar as mudanças dentro do seu espaço escolar.

131 Com efeito. precisa também. Educação. ela precisa mobilizar as exigências concretas das crianças na lapidação de suas capacidades. Para ser verdadeira. (TEITELBAUM. as principais são: Meu Credo Pedagógico (1897). então a escola deve formar futuros cidadãos num espaço realmente democrático em vista da legitimação da democracia na sociedade. O modelo tradicional ainda é aplicado. Daí a necessidade das atividades manuais e físicas. É essa experiência democrática que falta nas escolas. em uma perspectiva macrossocial. favorecendo a manutenção do status quo. de interação entre indivíduo e sociedade. Ele nasceu em 1859 em Burlington. criar estórias e trabalhos artísticos e etc. experiência e aprendizagem não se separam. 1996. 135 Dewey afirma que vida. Ao longo da sua vida. grifos nosso). Faleceu em 1952. As idéias não podem ser impostas. . o momento oportuno de preparo e exercício primeiro da experiência democrática. É um pensador norte-americano que dá suporte para entender o que seja democracia na educação. TRINDADE. considerar as demandas da sociedade para uma harmônica integração do indivíduo no grupo. p. A educação progressista ou a educação como vida135 não é legitimada na escola. Por isso a escola tem a tarefa de promover pela educação a retomada contínua dos conteúdos vitais. Dissertação (Mestrado em Educação). Liberdade e cultura (1939) e entre outras obras. Possui uma visão da educação que se encontra enraizada na expansão da democracia em todas as esferas da vida social. (ARANHA. Por exemplo. Sociedade e Democracia no pensamento de John Dewey. por excelência. 2009. p. Tal perspectiva não é a simplificadora adaptação à civilização. pois. aos 92 anos de idade. 2001). Deve concretizar uma educação progressiva. Como reflete Trindade133. Universidade de São Paulo. 2009. São Paulo. à luz do pensamento deweyano134. Christiane Coutheux. está criando para a criança e o adolescente melhores condições para se iniciar no envolvimento moral e social. 169-170). produziu diversas obras. cozinhar. fabricação de vestuário. 134 O pensador John Dewey pode oferecer contribuições significativas para a reflexão sobre a importância da democracia na educação. e a sua função da formação do ser humano. construir abrigo. Foi e é respeitado pelo seu compromisso com a educação progressista e políticas democráticas e ainda criticado pela “fragilização” da escolarização estadounidense e destruição das velhas tradições. Desenvolveu um papel de filósofo engajado intimamente na crítica social. É geralmente reconhecido como o educador estadounidense mais reputado do século XX. em especial. que dá condições para a criança exercer controle sobre a própria vida. Democracia e educação (1916). A Escola e a Sociedade (1899). sociais e políticas. o espaço da educação é. que aprisiona o homem num estado definido de coisas: trata-se de uma participação ativa na conquista da democracia e no constante zelo que sua manutenção exige. A escolarização é. além do estímulo ao espírito de iniciativa e à independência do aluno. 125p. o PPP precisa ser implementado democraticamente na escola. gênero e classe. Não se formam 133 Cf. nas públicas. Critica as diversas compreensões pedagógicas que oprimem o aluno e aquelas escolas que se preocupam com a reprodução das relações existentes de raça. Vermont (Estados Unidos da América). e estes se encontram numa sociedade “democrática”. uma vez que se importava com a moralidade prática. Assim. permite que ela enriqueça sua experiência. O seu pensamento é inerentemente político na educação. a escola deve favorecer um espaço para: o cultivo de alimentos. APPLE. 110. Dewey esteve profundamente envolvido com as causas educacionais. entre natureza humana e cultura. (TRINDADE. vagas e gerais. Se a escola trabalha pela formação dos futuros cidadãos. por isso a sua dimensão formal só pode ser entendida como parte de um processo mais amplo. A elaboração do PPP nas escolas atuais deve ser feita de forma coletiva. Como filósofo e educador. imprecisas.

grifos do autor). educação: A sociedade só ser deveras democrática se todos os membros lhe participam do bem comum em termos de igualdade. e possibilitar que as “forças executivas sejam treinadas a agir econômica e eficientemente. colaborando para que ela comande a si mesma. que esclarece e aumenta o sentido desta e também a nossa aptidão para dirigirmos o curso das experiências subseqüentes” (ARANHA. cultive valores democráticos que irão beneficiar toda a coletividade social em vista de uma sociedade democrática. mecânico. independentes e sensíveis às questões sociais. que seus olhos e ouvidos e mãos sejam ferramentas prontas para se conduzir. p. [.” (DEWEY. 1996. sendo ela mesma um espaço de contestação dos desmandos do indivíduo e da sociedade (TRINDADE. (TEITELBAUM. urge pôr em prática uma escola democrática que. através do Projeto PolíticoPedagógico. 2001). passivos. e fomentando uma aprendizagem manual ou mental. APPLE.. 2009. 2009. preocupada com a dignidade humana e com a inteligência cientifica que era pensada fora da escola. APPLE. p. O que se faz presente também na . 90). assegura a composição de sua unidade por sujeitos ativos e deliberadamente engajados nos fins de liberdade e emancipação humana. apud TRINDADE. Uma educação que deve se guiar pela perspectiva de que a escola é a vida e não uma preparação para a vida. ajuda a prepará-lo para a vida futura. (TEITELBAUM. Ou seja. uma subversão. Essa concepção de aprendizagem entende a educação como “uma reconstrução ou reorganização da experiência. Almeja fabricar136 robôs pacientes e subservientes. 117). 2009. de somente uma concepção pedagógica centrada no poder e na opressão. 116.] sociedade democrática é um agrupamento social que. 136 A concepção pedagógica de Dewey é totalmente diferente da compreensão da escola tradicional que se fundamentava num modelo do “sistema fabril”. 2001). A escola de todos torna-se escola de uma única visão. as atitudes e Estará colaborando para serem autônomos. 91). APPLE. que serve apenas para alienar os estudantes. 2001). Assim sendo. incentiva que seu julgamento seja capaz de apreender condições sobre as quais deve operar. enquanto cuida da realização plena da experiência de cada um de seus membros. p. uma espécie de vida comunitária democrática. Conquistar e ampliar a democracia exige uma contínua adaptação e enfrentamento dos novos problemas. desprovida de sentido e significado. 170. utilizando uma linguagem artificial. mas também forma o pensamento crítico. na autêntica educação democrática. (TEITELBAUM. de modo a permitir a flexibilidade no reajusta das instituições e proporcionar uma educação.. 1897. sem provocar confusão e desordem. (TRINDADE. grifos nosso). desse modo. Assim. Inclusive. 2009. que via o ser humano somente como uma matéria. críticos. a escola é espaço que transmite conteúdos. com isso. homogeneizada e passiva. efetive todas as suas capacidades. p. tornando os indivíduos pessoalmente interessados na participação e no reajustamento da vida social. mas uma massa amorfa. ancorando seus passos em métodos que promovem uma cultura de tolerância e de espírito crítico. O espírito crítico ou uma aprendizagem significativa é vista como um confronto às normas escolares. não relacionando com a vida social. p. Silenciavam e ignoravam os interesses e as experiências dos alunos. A sala de aula torna-se.132 indivíduos pensantes. Logo. (TRINDADE. e mentalmente habilitados a realizar mudanças sociais. caminha em direção ao interesse comum.

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disposições necessárias à continuação sempre renovada e progressiva da vida social não devem resultar de mera transmissão direta de conhecimentos e emoções, dos educadores aos educandos; mas hão de ser o fruto implícito ou indireto da participação de educadores e educandos nas experiências do mesmo ambiente social. Quer dizer que a escola não deve ser isolada da vida comum, mas tem simplificá-la, purificá-la e melhorá-la. Nela, a direção dada pelos educadores não deve ser baseada no prestígio ou na ascendência pessoal ou subjetiva destes, mas, sim nos resultados objetivos ou universalmente válidos da experiência comum, física, ou sociológica. Destarte, a educação será vida ou crescimento contínuo, e não apenas preparação para a vida adulta; nem mero desenvolvimento ou formação mental subjetiva; nem simples exercitação ou treino de faculdades ou capacidades especiais e isoladas e já adrede preparadas. Como processo contínuo de crescimento ou reconstrução da experiência socialmente participada, a educação terá o seu fim em si mesma, não sendo meio para fins diferentes e ulteriores. Será progressiva como a própria vida e não regressão mental ao passado, nem recapitulação das fases culturais-históricas do mesmo. Será democrática, enfim, não reservada a classes privilegiadas; mas nem por isso estreitamente individualista, e sim comunitária, no sentido da participação enquanto possível extensa dos interesses do grupo por todos os respectivos membros e da interação enquanto possível plena e livre entre os vários grupos. (ACKER, 1979, p. XV-XVI, grifos nossos).

Portanto, o Projeto Político-Pedagógico, fundamentado e implementado de acordo com a visão deweyana, possibilita desenvolver uma educação democrática que favoreça o bem comum, bem como a participação e interação entre todos. A coletividade presente no espaço escolar favorece o desenvolvimento de diversas dimensões humanas (a intelectual, a afetiva, a social e a psicológica), contribuindo para que o indivíduo exista realmente, além de se realizar enquanto ser humano por meio dos valores democráticos137. Afinal, é necessário concretizar um Projeto Político-Pedagógico que eleja a democracia como fim, pois assim a educação remodelará e reviverá a sua missão libertadora e transformadora da realidade. Além de formar o indivíduo de modo digno e nobre.

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Diante disso, “os valores democráticos não devem ser assumidos como naturalmente caros ao homem, mas como uma aposta moral sobre o fim e o meio pelo qual devemos lutar” (TRINDADE, 2009, p. 87-88, grifo do autor). Urge, então, a transformação da sociedade. A transformação acontece pela inculcação de valores democráticos na educação, entendida como um “processo que se inicia tão logo o indivíduo nasce e se vê em contato com um entorno cultural. Esse ambiente o forma, mesmo inconscientemente, em habilidades, hábitos, idéias e sentimentos” (TRINDADE, 2009, p. 88). Dessa forma, “a escola deve se constituir como a instituição mais bem preparada para formar o aluno tanto na participação do saber acumulado quanto no desenvolvimento de suas capacidades próprias” (TRINDADE, 2009, p. 90). Por isso é importante desenvolver dois tipos de conteúdos: o conteúdo conceitual (conhecimento acumulado) e procedimental (que ajuda no desenvolvimento das potencialidades e habilidades), além do campo moral por causa do uso social das capacidades. Inclusive, devem fazer parte os conteúdos atitudinais, ou seja, a dimensão formativa dos valores e atitudes, uma vez que a escola amplia a educação moral iniciada em casa. Essa educação moral contribui para desenvolver a dimensão social da criança, ou seja, o desenvolvimento da consciência social, já que a educação é um “processo civilizador de: desenvolvimento, de transmissão e refinamento da consciência social” (TRINDADE, 2009, p. 90).

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5.1.3 Formação Ética no espaço escolar

O contrato pedagógico, as assembleias de classe e o Projeto Político-Pedagógico estimulam uma determinada exteriorização de conduta, uma realização de ações que devem ser éticas e consolidar o exercício da cidadania. São modos de trabalhar que incentivam a viver democraticamente, pautando suas atitudes em ações éticas. Nalini138 preleciona que
Ética é a ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. É uma ciência, pois tem objeto próprio, leis próprias e método próprio, na singela identificação do caráter científico de um determinado ramo do conhecimento. O objeto da Ética é a moral. A moral é um dos aspectos do comportamento humano. A expressão moral deriva da palavra romana mores, com o sentido de costumes, conjunto de normas adquiridas pelo hábito reiterado de sua prática [...].Com exatidão maior, o objeto da ética é a moralidade positiva, ou seja, “o conjunto de regras de comportamento e formas de vida através das quais tende o homem a realizar o valor do bem”. (2008, p. 114, grifos do autor).

Araújo139 (2007, p. 13) diz que ética e moral tem significados próximos, tratando de conjuntos de princípio ou padrões de conduta que regulam as relações dos seres humanos com o mundo em que se vive. E se a educação se fundamentar em tais princípios, transformar-se-á num âmbito de reflexão individual e coletiva que ajude a elaborar racionalmente e autonomamente princípios gerais de valor, princípios que colaborem a enfrentar criticamente os problemas da realidade, tais como: a violência, a tortura ou a guerra. Assim, a educação ética e moral corrobora na análise crítica da realidade cotidiana e das normas sociomorais vigentes, ajudando,então, a realizar formas mais justas e adequadas de convivência. (PUIG, 1998, p. 15, apud ARAÚJO, 2007, p. 13). Ademais, como o papel da educação é a formação ética do homem, é necessário que a educação considere a dimensão comunitária das pessoas, seu projeto pessoal e também sua capacidade de universalização, que deve ser feita dialogicamente, porque desse modo,
138

Cf. NALINI, José Renato. Filosofia e Ética Jurídica. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. Cf. ARAÚJO, Ulisses. A educação e a construção da cidadania: eixos temáticos da ética e da democracia. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICA. Ética e Cidadania: Construindo valores na Escola e na Sociedade. Brasília: Ministério da Educação, 2007. p. 11-21.
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colaborarão para ajudar na construção do melhor mundo possível por meio de uma responsabilização pela realidade social. (CORTINA, 2003, p.113, apud ARAÚJO, 2007, p. 13-14) Só que isto é possível quando se respeita a diversidade humana, procurando superar as exclusões, os preconceitos e as discriminações originárias das diferentes formas de deficiências, e ainda devem ser ultrapassadas as diferenças sociais, econômicas, psíquicas, físicas, culturais, religiosas, raciais, ideológicas e de gênero, para que construa uma cidadania efetiva na sociedade, na família e na escola. (ARAÚJO, 2007, p. 14). Uma cidadania que se constrói por meio da ética. Os Parâmetros Curriculares Nacionais140 (1998, p. 49) dizem que moral e ética são empregadas como sinônimos, como conjuntos de princípios ou padrões de conduta. Etimologicamente o termo mores e ethos refere-se a um sentido comum, que é a idéia de costume. Os costumes consistem no primeiro conteúdo da cultura, são estilos de viver criados pelos homens. Nele se criam valores, princípios e regras que guiaram a conduta humana. Entretanto, moral e ética possuem distinções. Na área filosófica, por moral entendese o conjunto de princípios, crenças e regras que guiam o comportamento humano nas distintas sociedades, e a ética como a reflexão crítica141 sobre a moral. (PCNs, 1998, p. 49). A moral, então, consiste no posicionamento em relação aos valores e aos deveres que devem ser assumidos pela pessoa. Ela implica na responsabilidade, no cuidado com o poder que se exerce, ao realizar escolhas e delimitar os caminhos para ação. Já a ética é uma reflexão crítica sobre a moralidade. Ela procura esclarecer e questionar os princípios que norteiam as ações. Ela verifica a coerência entre práticas e princípios, além de questionar, reformular ou fundamentar os valores e as normas componentes de um moral. (PCNs, 1998,
140

Cf. BRASIL. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental. Brasília: Ministério da Educação e da Cultura, 1998. 141 Segundo Bittar, “[...] a ética deve ser uma atitude reflexiva da vida, algo impregnado à dimensão da razão deliberativa, em constante confronto com as inquirições, dificuldades, os desafios e os problemas inerentes à existência em si”. (2004, p. 4). Cf. BITTAR, Eduardo C. B. Ética, educação, cidadania e direitos humanos: estudos filosóficos entre cosmopolitismo e responsabilidade social. Barueri: Manole, 2004.

O PCN ensina que A moral já encontra instalada na prática educativa que se desenvolve nas escolas: o cotidiano escolar está encharco de valores que se traduzem em princípios.] a questão ética (valor. essa regras (qual a sua finalidade?). ensinar com 142 Eduardo Bittar (2004. proibições. p. p. no processo de ensino e aprendizagem que se realiza em cada uma das áreas de conhecimento. com a questão ética. A ética na escola142. tem objetivo de realizar uma educação moral. (BITTAR. p. sua presença deve contribuir para que os alunos possam tomar parte nessa construção. 52-53). preparo social) caminham lado a lado”. revigorada e transformada. (PCNs. uma vez que ela lida com as habilidades individuais de agir para si e para os outros”. 1998. 76. Na dimensão afetiva cabe à escola ajudar o aluno a instrumentalizar a realização de seus projetos. (PCNs.. p.136 p. Assim. fazendo escolhas. 53). intenção. que via da ação para a reflexão sobre o seu sentido e seus fundamentos. 2004. essas ordens (a que interesses atendem?). grifos nosso) entende que “[.” (PCNs. “se a educação é. entendida como capacidade de posicionar-se diante da realidade. 1998. burilamento. Dessa forma. essas proibições (que resultado pretendem?). regras. refletir. aquisição de instrução. O que se quer é que a ética aí encontre espaço. p. assim. estabelecendo critérios.. ação humana e inter-relação social) e a questão educacional (formação. a fim de que se reflita sobre esses princípios (em que se fundamentam?). entre outras coisas. A ética é um eterno pensar. serem livres e autônomos. para pensar e julgar. na escola. “entre a moral e a ética há um constante movimento. comportamento. de reconhecimento dos limites e possibilidades dos sujeitos e das circunstâncias. para que se instalem ações/relações efetivamente democráticas. Trazer a ética para o espaço escolar significa enfrentar o desafio de instalar. fazendo o exercício da cidadania. a independência e a liberdade. buscando desenvolver a autonomia. o aperfeiçoamento das faculdades intelectuais. consciência. de problematização das ações e relações e dos valores e regras que os norteiam. físicas e morais. E. e da reflexão retorna à ação. por sua vez. para problematizar constantemente o viver pessoal e coletivo. participando da gestão de ações coletivas. 61. Configura-se. 1998. é certo que tem a ver com a capacitação e o adestramento de potencialidades humanas e. Assim. portanto. construir. Dessa forma. . possui duas dimensões fundamentais: a afetividade e a racionalização. sua presença é imprescindível no espaço educativo. 51-52). 1998. grifo nosso). como um disciplina na grade curricular. ordens. uma atitude crítica. grifos nosso). a proposta de realização de uma educação moral que proporcione às crianças e adolescentes condições para o desenvolvimento de sua autonomia. 53-54. 78). (PCNs. p. E essa formação moral é possível através da legitimação de valores que.

o contrato pedagógico. 69. PCNs. mas sim quando se põe em prática a ambas. permeando modos de conduzir as situações no espaço escolar. além de desenvolverem a arte do diálogo. o qual consiste em [. (PCNs. responsabilidade. 144 LODI. Porém. concretizem tais valores. precisa afirmar valores de participação. responsabilização..] aprender a agir com respeito. portanto. como um espaço fundamental de convivência (lugar de conhecimento. expõem uma conduta ética e valores que devem conduzir a escola para um espaço de consolidação da democracia ativa e exercício da cidadania. . diálogo. 143 Tais valores constituem-se como conteúdos que devem ser trabalhos como conteúdo curricular da disciplina Ética. 76). Ética. Isto só é possível quando não se teoriza a ética e a moral na vida escolar.137 qualidade. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. isso não isenta que os professores e a direção escolar. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental. 67-71). bem como os alunos. Ulisses F. 1998. Tal educação é possível quando a ética. Ética e Cidadania: Construindo valores na Escola e na Sociedade. justiça. os princípios e os valores se exteriorizam em ações concretas. Brasília: Ministério da Educação e da Cultura. p. ARAÚJO. respeito e solidariedade para que reconheçam como atitudes necessárias.. que materializadas. p. Conteúdos de Ética para Terceiro e Quarto Ciclos. 1998. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO BÁSICA. democracia e cidadania. solidariedade. a escola. cultivar os conceitos de justiça. (PCNs. 2007. In: BRASIL. Para melhor esclarecimento destes valores cf. aprender a suar o diálogo nas mais diferentes situações e comprometer-se com o que acontece na vida coletiva da comunidade e do país. E a racionalidade implica que a instituição educativa procure refletir sobre os valores morais. p. o diálogo. Lucia Helena. Cidadania e Educação: Escola. ARAÚJO. 1998. São valores que implementados ajudam na consecução de uma educação com qualidade. podem e devem ser ensinados na escola. a justiça. Exercitar a cidadania decorre quando o aluno aprende a ser cidadão. as assembleias de classe e o Projeto PolíticoPedagógico são ações possíveis. 95-113. Além desses. para alcançar a felicidade. p. Desse modo.” (LODI. implícitas nos valores e regras. participação. tais como: o respeito mútuo. exige-se que os relacionamentos da comunidade sejam fundamentados em valores143. nãoviolência. Desse modo. a moral. ousar e transformar). opinar. a solidariedade. grifos nosso) 144. ação. Essa valores e atitudes precisam ser aprendidos e desenvolvidos pelos estudantes e.

na capacidade de analisar e eleger valores para si. tornando-se um educador-investigador para trazer sempre nos estímulos Brasília: Ministério da Educação. então. não num sentido de que as aulas devam se converter em “lavagem cerebral” do educando por ideologias políticas determinadas. como demonstra Bittar: Parece que a prática ética. no conhecer e no agir. p. 2004. praticados145.” (2004. com os projetos sociais em andamento e as grandes e pequenas questões que incomodam uma sociedade em dado contexto. instigando a mentalidade da pesquisa e da busca autônoma pelo saber.. demonstrando e agindo para a vida e negando a morte abortiva das mentalidades. 94. só se age testando o mundo. Também deve buscar a humanização dos seus educandos por meio de uma “[. p. mas sim liberdade. e isso num sentido muito democrático. permitindo que a liberdade invada os modos pelos quais as práticas pedagógicas e fazem. (BITTAR.] educação conscientizadora. Isso exige que ele trabalhe Explorando temas de motivação e proximidades com as reais condições vivencias existenciais do povo. Consciência política é sinônimo de preocupação com o social. 94). e no desenvolvimento da capacidade de autonomia moral dos indivíduos. Além de terem um papel ativo como sujeitos da aprendizagem. 2007. E disso não pode o educador democrático se esquivar. com as carestias reais que envolvem certa comunidade e suas demandas. p. 2004. p. com o momento histórico vivido. habilitante. assumindo atitudes democráticas na condução dos trabalhos acadêmicos. o crescimento ético-reflexivo facilita os modos pelos quais as interações humanas se engrandecem. (LODI.. ou seja. Não há ética fora do imperativo da ação/decisão. Isso porque o sentido da consciência política aqui trabalhado não é o de uma consciência político-partidária. procurando articular com a dimensão política. ou muito menos o de uma consciência exclusivista refratária e impermeável a novas demandas políticas. ARAÚJO. despertando desse modo em seus educandos esse interesse no saber. Por isso é importante que a escola reveja seu papel pedagógico na formação ética. a ciência. motivando o diálogo e ouvindo o que o educando tem a dizer. só se constrói decidindo e.” (BITTAR. 69-76. . assumindo eticamente sua responsabilidade profissional e social com a cidadania e a responsabilidade política. O Educador democrático deve. p.138 Esses princípios éticos são aprendidos e assumidos quando são experienciados. uma vez que. só se aprende errando. 2007. Política aqui não significa clausura ou unilateralidade político-partidária. prática educativa e prática política estão saudavelmente imbricadas no ato de ensinar. 2004. 69). a politicidade do saber. 145 “Só se aprende agindo. 5). interagir entre o senso comum. 101). engajadora. as necessidades cotidianas. o que vale dizer. estimulante e produtiva” (BITTAR. demonstrando as causas e as razões da opressão. neste permanente processo. grifos nossos). p. consciente e livremente.

” (BITTAR. veiculando a paixão pela mobilização que a educação é capaz de proporcionar.1. combatendo toda forma de exclusão social que se possa instaurar dentro da escola ou da sala de aula. jurídicas e entre outras ciências apresentam diversas sugestões para ensinar como que se educa. Dessa forma.139 aos alunos e a si mesmo. pois se responsabilizam pelo bem comum. filosóficas. ajudam na formação de um indivíduo ético. . da igualdade. grifos nossos). vivenciando por suas atitudes o compromisso assumido com a sala de aula. quais são os valores importantes. Tais ações podem contribuir para a resolução de conflitos no espaço escolar. Muitas teorias pedagógicas. possibilitando modificar as suas ações em vista de um ambiente sadio.4 Articulando ações possíveis na escola A realização da cidadania comporta diversas ações possíveis que se baseiam em valores e princípios democráticos que. Alunos éticos são alunos cidadãos. da fraternidade e da liberdade. Afinal. 5. Ser aluno cidadão é guiar-se por uma conduta que reflita continuamente sobre seus atos. são algumas formas de dar passos em direção à libertação do oprimido de sua condição. A indisciplina e a violência possuem diferentes leituras. pela realização da justiça. bem como em direção à formatação de uma nova conjuntura educacional capaz de motivar a superação do povo brasileiro pelas suas próprias forças. p. instaurando e assumindo a politicidade do mister educacional. e como é possível ajudar no desenvolvimento da personalidade do aluno. é necessário que o educador seja um pesquisador na tarefa de educar. psicológicas. 102-103. como formar seres éticos e cidadãos. formando e informando o educando quanto à sua própria realidade histórico-social. 2004. Não se pode deixar de levar em conta que diante da pluralidade de concepções pedagógicas existem linhas comuns. por sua vez. cada autor reflete de acordo com as pesquisas examinas e uma leitura própria do mundo. Porém. para que aja com fundamentação e de acordo com o espaço escolar que se vive. entendimentos semelhantes. a formação ética influencia na formação do cidadão.

indisciplina e violência escolar. para mudar o quadro escolar. (SILVA. Rio de Janeiro: Vozes. reavaliando suas condutas e refletindo sobre os resultados que o educador poderá perceber se a sua missão foi cumprida de acordo com as exigências das circunstâncias. mas compensador. Deste modo. Trata-se de um ofício árduo. dez soluções possíveis. substitua o uso de punições expiatórias pelas sanções de reciprocidade. haja democratização das relações escolares. pois percebendo que a ignorância e acomodação prejudicavam o estabelecimento de uma educação com qualidade. dentre tantas. “Saber nunca é demais e não ocupa lugar” (SILVA. Ela se chama Prevenção e 146 Cf. Para ele. A primeira obra é de Nelson Pedro Silva. indisciplina e violência nas escolas. psicopedagógica e psicológica. e abolia qualquer forma de humilhação. relacione os conteúdos tradicionais com a vida. 2004. porque traça ações concretas para prevenir e solucionar os problemas disciplinares. compreenda e concretize a educação como fator de desenvolvimento. Há outra obra que merece um estudo detalhado e curioso. faz uma reflexão sobre o que seja indisciplina e violência. deixa de ver o aluno indisciplina e violento como problema. 204) 146 .140 Diante dessa complexidade de buscar soluções para os conflitos no espaço escolar. 153-204). Ética. SILVA. ainda. este tópico traz em seu bojo algumas obras que podem estimular os educadores a repensarem a sua ação educativa. aproveita o pensamento de Piaget para entender esse fenômeno educacional e apresenta. rumo à emancipação do aluno. p. é necessário que a escola substitua a cultura da culpa pela da responsabilidade. Nelson Pedro. p. é revendo continuamente suas ações. Assim. fica a tarefa ao educador e a direção de formar-se continuamente. . guia-se pelo parâmetro educativo da realização da dignidade humana. forme-se por meio de uma orientação pedagógica. 2004. ofereça condições para a conscientização de todos os envolvidos. 2004. o educador se motivará e almejará vôos mais altos. chamada de Ética.

2008. Ao longo dos dezenove capítulos o autor fornece pistas para solucionar os problemas disciplinares.147 de autoria de Mark Boynton e Christine Boynton. os quais apresentam diversas ações para superar uma educação “bancária” em vista de uma educação “problematizadora” e democrática na Escola Municipal de Ensino Fundamental “José Honório Rodrigues”. 2008. escrito por Rosana Aparecido e Argento Rebelo. De acordo com a autora. Demonstram diversos momentos nos quais se dedicaram a realizar uma educação cidadã. Mark. Uma escola cidadã e democrática. almejada também por Silvia Parrat-Dayan. 2008. Inclusive. 128-129). é importante que haja na escola um espaço de discussão e diálogo que contribuam para a construção do conhecimento. (PARRAT-DAYAN. Porto Alegre: Artmetd. das regras morais. (PARRAT-DAYAN. existe quando os conflitos da indisciplina e da violência são solucionados de maneira adequada. uma vez que as idéias são explanadas num espaço coletivo e público. Existe também o livro Indisciplina Escolar: Causas e Sujeitos. BOYNTON. lógicas e jurídicas. p. 147 BOYNTON. 129). uma vez que a vida social colabora no desenvolvimento de linguagens. Cada capítulo apresenta diversos modos de agir para equacionar os problemas e estabelecer uma disciplina sólida e ética.141 resolução de problemas disciplinares: Guia para Educadores. a partir dos problemas de indisciplina. corroborando para o desenvolvimento da cidadania e da democracia. Christine. para a socialização e para firmar a disciplina. principalmente. Exige que a criança ou o aluno aprenda discutir e compartilhar pensamento. através do PPP. Não pode haver um aniquilamento da consciência e da reflexão. . é preciso estabelecer o primeiro passo que consiste na compreensão de quais são as regras comuns que vinculam uns aos outros. As ideias não podem ser negadas. Prevenção e resolução de problemas disciplinares: Guia para Educadores. Eles também estimulam a criatividade e a confrontação de pontos de vistas distintos. p.

130). . 131). Toda democracia apóia-se no fato de um encontro de pessoas que constroem juntas ou aceitam uma base comum. ela também supõe a intersubjetividade e o diálogo argumentado. Então. dá conselhos. (PARRAT-DAYAN. E por meio do conflito. p. o professor promoverá competências sociais. por sua vez. torna-se um enriquecimento democrático mútuo. uma vez que permite a reflexão sobre os seus pontos de vista e sobre a visão de mundo de outras pessoas. A democracia não é apenas um espaço no qual se confrontam mecanismos econômicos e políticos. (PARRAT-DAYAN.. Com seu método. dialogar e argumentar. E o aluno. 130).. na resolução de conflitos. 2008. trazem elementos. Para Parrat-Dayan. (PARRAT-DAYAN. É necessário ter a garantia da vida democrática para conseguir o aprendizado da cidadania. espírito crítico deve ser favorecido porque também é a garantia de democracia. trabalha junto e faz de tudo para que eles sejam os personagens mais importantes da classe. E não podemos aprender a democracia se não aprendermos a discutir. Os adultos são mediadores. da indisciplina. Além do mais. 2008. Isto possibilita ser uma preparação para a vida democrática e uma boa inserção na aula e no mundo social. o professor precisa saber escolher e criar situações148 nas quais o aluno aprenda a partir da sua própria experiência. 2008. como já mostramos. (PARRAT-DAYAN. Pensar juntos implica pedir à criança que utilize procedimentos do pensamento adulto. A democracia ocorre quando eles são tratados com respeito e as regras são elaboradas por eles mesmos. ensinando aos alunos saber conviver. Nessa interação. abrirá espaço para que a democracia se realize e uma investigação científica seja feita. (PARRAT-DAYAN. o professor leva as 148 “O professor cria situações estimulantes e incita os alunos a resolvê-las. colaborar e compartilhar experiências e ideias uns com os outros. 2008. exigindo assim uma responsabilização progressiva. o pensamento em conjunto. a cidadania é [. examinam os precedentes e imaginam alternativas. 2008. é necessário aprender as regras que permitam a discussão e. p. 129-130). Querer dizer. também. aprendendo a discutir.] um produto da educação. p. 2008. O professor ajuda. criticam. p. acompanha. p. aprende a ser cada vez mais autônomo e independente. A solidariedade também é um elemento de coerência democrática.” (PARRAT-DAYAN. Consequentemente. p.142 Desse modo. 130). 131).

específica dos sistemas democráticos.143 crianças a elaborar marcos referenciais. 2008. o tempo. Dessa forma. (PARRAT-DAYAN. o espírito crítico. (PARRAT-DAYAN. p. a colaboração sólida e a crítica construtiva. 2008. A cidadania exige participação da vida pública. é. ética (porque dá prioridade ao interesse coletivo) e afetiva (porque supõe o convívio). 132). exige que se crie uma instância de arbitragem e de conciliação na escola. política (porque participa do poder). 133). a construção de normas contribui para um clima de cidadania. a autonomia e a cooperação. pois ela está numa fase de aprendizagem e desenvolvimento de suas capacidades e talentos. p. exige que dê oportunidade de participação e responsabilização as crianças. jurídica (porque obedece às leis do país). espaço e o trabalho. e no que se refere à a afetividade. E estas dimensões podem ser consideradas na educação da seguinte forma: no que se refere à participação no poder. a defesa do interesse geral e o desejo de convivência caracterizam a cidadania democrática. (PARRAT-DAYAN. Esses diferentes valores supõem tanto uma atitude democrática quanto uma atitude filosófica que permitirá a construção da identidade de cada indivíduo neste mundo onde a globalização provoca a ruptura de marcos referenciais constitutivos da identidade individual e social. no que tange a ética. Ademais. a participação no poder. objetivando uma educação com qualidade. isso não desmerece que a cidadania leve em conta o indivíduo e o grupo. a democratização na instituição educativa acontece quando se presencia o espírito crítico. um espaço onde possa defender suas ideias. o rigor argumentativo. a educação não pode entender a criança como um cidadão autônomo. Inclusive. 2008. Resumindo. necessita de que a escola trabalhe temas que desenvolvam a cultura do respeito. A conduta democrática supõe valores tais como a coerência ética. ao mesmo tempo. as leis justas. o professor e o aluno precisam organizar em conjunto a aula. 131-132. no que concerne à jurídica. se a escola almeja uma formação para a cidadania. parte dos próprios alunos. Parrat-Dayan ensina que A cidadania moderna. Porém. grifos nossos). criar na escola um espaço de interação. Desse modo. p. as . pois assegura direitos e deveres que devem ser efetivados no espaço escolar.

2008. as práticas pedagógicas e a formação de professores deveriam ser reestruturados e repensados.. para diversos fatores que prejudicam o andamento satisfatório do ensino-aprendizagem. 136). Para Bittar. tornada objeto da organização curricular e da formação uni-centrada das antigas disciplinas monolítica. Os professores poderão transformar a educação a partir de múltiplos debates.] como uma ordem político-pedagógica que permita tanta aos alunos quanto aos docentes. (PARRAT-DAYAN. é importante desenvolver nos alunos uma lógica cooperativa pelo qual devem aprender a escutar. A aula é o lugar em que as diferentes facetas da comunicação podem ser exploradas. o que supõe. para dizer e para decidir.. ao mesmo tempo. organizar. decidir e encontrar soluções em conjunto. Silvia Parrat-Dayan conclui que [.144 responsabilidades e os projetos. isso pode ser resumido nas seguintes ações: [.. recursos e coragem política poderíamos solucionar muitos dos problemas que se colocam para a escola e para a sociedade em geral. p. 2008. diretores e funcionários tomar a palavra. formular um pensamento.. Também é importante compreender a ordem disciplinar [. 134).. que deve ser vista como uma necessidade absoluta porque permite uma nova aproximação cooperativa. caracterizada pela docilidade. p. 139). E não pode exigir uma imagem ideal de criança. de renovação das instituições educacionais e da formação permanente. propugnar a superação da razão instrumental. surgida como fruto contextual pós-moderno. postular a superação da clausura especializada que determina a autopoiese dos conhecimentos especializados e encerrados sobre si mesmos. Ademais. falar. Muitos problemas poderiam ser resolvidos se houvesse a consolidação de uma cultura democrática e a efetivação dos direitos humanos. p. (PARRAT-DAYAN. . obediência e subserviência.] repensar o condicionamento da razão pela razão frenética. (PARRAT-DAYAN. (PARRAT-DAYAN. p. Com vontade. 2008. Assim. um debate democrático na disciplina. participar de uma conversação numa sociedade democrática e plural. respeitar e tolerar. mesmo quando a harmonia não é possível. para que aprendem a analisar. antecipar. a indisciplina pode ser resolvida com um olhar interdisciplinar. então. 135). 2008.. concretizando. Ou seja. escutar e dialogar com os outros.] os programas de ensino. A palavra para aprender. A indisciplina é um sintoma da má adaptação do sistema escolar às necessidades de cultura e de saber da sociedade atual.

108). fragmentário. como retomada da consciência da prática de uma razão emancipatória. Educação e Metodologia para os Direitos Humanos: Cultura democrática. 8) a transformação da escola não se dá sem conflitos.. Só a ação direta de cada professor. (2004. 313-334. . Moacir Gadoti apresenta o que seria uma Escola Cidadã que pare ele abrange as seguintes diretrizes: 1) ser uma escola autônoma para todos democrática na sua gestão. Entre essas ações destaca-se a formação para a cidadania. B. estimular o desenvolvimento do agir comunicativo fundador da cidadania. preparo para a filtragem de informações veiculadas pelos mass media. o gosto pela leitura e pela produção de textos. Ela se dá lentamente. Ademais. p. Mas abordar a cidadania não é tratar apenas do conjunto de direitos e deveres legais ou constitucionais. interativa e crítica. p. na medida em que se define o que se é pelo que o mercado exige que seja tornado o indivíduo. Sua ligação com o mundo se dá pelo trabalho. (BITTAR. superar o modelo da educação tecnicizante e produtor de subjetividades rasas. Rosa Maria Godoy et al. em que preponderam a falta de tecnologia. mas sobretudo uma conquista de uma sociedade que se quer ver emancipada de suas grades estreitas e restritas. 5) deve propor a espontaneidade e o inconformismo. 9) não há duas escolas iguais. (BITTAR. 6) deve. 3) valorizar a iniciativa pessoal de cada professor. A disciplina que vem do papel especifico da escola (o sistemático e o progressivo). unilateral. para o exercício de direitos e deveres públicos. [. são melhores no processo de mudança que eventos espetaculares. p. consciência para o exercício do voto. Educação em Diretos Humanos: Fundamentos teóricos-metodológicos. p. convocar os educadores e docentes do ensino jurídico a uma rebelião contra o pensamento compartimentado. comunitários e restabelece ligações com o passado e as tradições culturais de um povo. desincentivar o modelo de ensino pouco-provacativo ou negador da intersubjetividade dialogal. 2) valorizar a dedicação exclusiva dos professores e ser de tempo integral para os alunos. da consciência cívica. 4) cultivar a curiosidade. informação. 331-332) 149. produtiva e dinâmica. autonomia e ensino jurídico. também. de cada escola. 7) a escola não pode ser um espaço fechado. preparo dos eleitos para a condução dos negócios públicos. uma vez que fortalece os laços históricos. éticos. Pequenas ações. 2004. mas passageiros. não a aprendizagem mecânica. pode tornar a educação um processo enriquecedor. Deste modo. Educação para a cidadania não é somente o direito de todos. Cada escola é fruto do desenvolvimento de suas próprias 149 BITTAR. do conjunto das pessoas envolvidas em cada escola. interação civilizada e sincronizada entre membros da sociedade civil e associações. a educação tem em vista a formação da consciência nacional. 2007.] mas em cidadania ativa e participativa. Eduardo C. João Pessoa: Editora Universitária. libertadora e autoconsciente. ser uma escola disciplinada. 107). Propugnar por um sistema forte educação é propugnar pelo futuro da democracia. na relação solidária entre a escola e a sociedade. mas continuadas. instrumentos de progresso. de cada classe. 2007. a paixão pelo estudo. da cidadania e dos direitos humanos..145 incentivar o desenvolvimento de habilidades e competências interativas. No entender de Bittar. propugnar a formação humana integral. SILVEIRA.

principalmente. consolida-se a cidadania no espaço escolar. p. 211-212). busca realizar o bem comum e respeitar o espaço coletivo.146 contradições. a perspectiva pedagógica entrelaçada com a perspectiva jurídica busca remodelar os papeis até então seguidos pela instituição escolar. Aliás. contratar e exonerar professores. Curitiba. 151 PIRES. Isto é. 150 GARCIA. Revista Diálogo Educativo. 10) cada escola deveria ser suficientemente autônoma para organizar o seu trabalho de forma que quisesse. Isto é possível através do ideal de uma disciplina consciente e interativa. 28. responsabilidade. construção do conhecimento. marcada por participação. inclusive. traça programas de ação e. a indisciplina e a violência escolar não podem ser compreendidas apenas como circunstâncias dificultadoras e obstáculos para a efetivação do direito à educação. n. . Campinas. em rumo de um paradigma que efetiva o exercício da cidadania. a critério do seu Conselho de Escola. a ação educativa comporta formar o indivíduo na dimensão intelectual. fundamentados nos valores democráticos e na ética. Portanto. Indisciplina e Violência nas escolas: algumas questões a considerar. 2009) 150 . a ação educativa é política porque abrange debates. Dorotéia Baduy. A nova escola. nº 66. é possível quando se desenvolvem atitudes sérias e comprometidas com a transformação da sociedade. 2009. elaboração de regras. pela qual desenha no indivíduo o desenvolvimento de suas potencialidades e capacidades. Assim. Disciplina: construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula e na escola. (PIRES. afetiva. a indisciplina e a violência podem ser pensadas mais como um desafio ou como uma oportunidade para uma profunda revisão das visões e práticas pedagógicas colocadas em prática. discussão. horizonte estabelecido juridicamente e pedagogicamente. abril de 1999. set. 511-523. ano 10./dez. p. (2008. Joe. 9. mas também possui uma intencionalidade política. pois são momentos em que a escola precisa realmente extrair da sua essência uma ação educativa para que do abismo surja um ser humano e cidadão. Buscando diversos meios ou instrumentos de trabalho. a Escola Cidadã. psicológica e social. v. Afinal. (GARCIA. 1999) 151. respeito. formação do caráter e da cidadania. Educação & Sociedade.

Vasconcellos diz que “[. CONCLUSÃO O mundo contemporâneo exige um novo modo de conduzir a vida. apud PIRES. E deve ser analisada como um meio e não um fim”. Deve remodelar-se para romper com as tradições opressões e excludentes que demarcam seu campo de atuação na escola... alimentando um projeto comum de escola e de sociedade”. . Necessita reanimar-se para cumprir o seu papel. Há que se remodelar as instituições sociais para que as grandes evoluções da ciência e da tecnologia não se percam diante da desumanização que se acelera continuamente. como numa orquestra em busca da realização da cidadania ativa e plena. narcisistas. Não pode ficar subjugada aos problemas e obstáculos. Tem que refletir. se cada músico tocasse o que quisesse? Se não houvesse disciplina? Ela é necessária. Precisa desocultar a sua verdadeira tarefa. Portanto. oligárquicas e capitalistas. a instituição escolar não pode julgar que a sociedade é culpada. analisar. Diante da indisciplina e da violência escolar. Não se pode mais guiar-se pelas políticas autoritárias.147 Segundo Vasconcellos (1994. egoístas. 1999) “o que seria de uma orquestra. interpretar e questionar a realidade em que vive.] os educadores devem se comprometer com o processo de transformação da realidade. A instituição educativa tem a missão de dar voz e vez a sua essência.

não deixa de ser uma contribuição para rever as posturas pedagógicas e jurídicas construídas nas escolas que perderam seu valor e força de atuação. Como o direito é respectivo da perspectiva jurídica. psicológica. física. Porém. na perspectiva jurídica. justo. que novos valores se entremeiam na vida escolar. retirando o “véu de maia” para reerguer a sua construção de um trabalho voltado para a humanização. Exigindo. dignificação da vida humana. dos valores democráticos. formando este tanto de modo intelectual quando de maneira ética. social e ética. a indisciplina e a violência no ambiente escolar necessitam de duas perspectivas. afetiva e social) e exercite sua cidadania. a jurídica e a pedagógica. intelectual. Impede. cabe a ela ressignificar seu projeto educacional. pois esta perspectiva fundamenta as ações da escola colaborando para garantir os direitos e solucionar de modo democrático. . igualitário e fraterno os problemas. da justiça cumpram-se realmente na escola. para propiciar o desenvolvimento integral do ser humano. Mais do que nunca. negar aquilo que é devido ao homem. É “despertar do seu sono dogmático”. E no que concerne à perspectiva pedagógica. normas. A sua consolidação no espaço escolar impede a violação dos direitos. Mas também é favorecer a formação humana na dimensão intelectual. valores e pedagogias como meio de consolidar a cidadania. esta deve buscar cumprir seus objetivos legais para que o paradigma da inclusão. A perspectiva jurídica não está dissociada da perspectiva pedagógica na ação educativa. metas. ela precisa apoiar-se no direito. porque ambas buscam educar e formar o ser humano em todas as suas dimensões (física. afetiva. As duas perspectiva são como asas que contribuirão para que os problemas disciplinares deixem de ser momentos de frustração para fundar objetivos. Este Trabalho de Conclusão de Curso não oferece uma solução simples e fácil para os problemas escolares.148 Por isso. então. Ser cidadão é efetivar os direitos humanos.

é imprescindível que cada professor. Cada amanhecer é uma possibilidade para o educador “pintor” pegar de novo suas tintas e pincéis e pintar o quadro como foi pensado. discutido e estabelecido.149 Trata-se de oferecer um embasamento teórico para compreender os fenômenos vividos. O educador deve mostrar e demonstrar que existe outra realidade pela qual ele pode se sentir acolhido. cada sala de aula exige do professor e da direção um tratamento diferenciado. podendo até mesmo ficar admirado com a beleza e a sublimidade da arte que retratou ou viu no seu quadro. . Por isso é necessário retomar o que foi decido. as perspectivas jurídicas e pedagógicas são como duas pontes que dão acesso para a cidadania. direção. as árvores e o rio que corre de modo veloz. à acomodação. O aluno que ficar distraído com as paisagens ao redor. Por isso. porque cada escola. pai. aluno ou a sociedade reveja e analise qual é o problema. incluído e humanizado. à violência. Consequentemente. O educador não pode se desvencilhar deste ofício. apontar para os pássaros. ao egoísmo. quais são as causas e conseqüências da indisciplina e da violência escolar. no momento de atravessar a ponte ou desejar rebelar-se contra a necessidade de passar por ela. Deve ficar claro que não são pistas totalmente acertáveis para os conflitos na instituição escolar. Afinal. as folhas. Cabe aos educadores mostrar o mundo. deverá ser ajudado pelo professor. para que estabeleça uma diretriz para superar o problema. apontando pistas para transformar o espaço escolar. Cada sala de aula é um laboratório único para que o professor possa superar os problemas e conquistar os seus objetivos educacionais. não deixa de ser uma tarefa árdua e exigente. para que perceba que o momento atual é uma parte do presente e que exige de si o desapego à infância.

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