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livro_gangues

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A escolha do nome da nova gangue é considerada pelos entrevistados como
um dos pontos principais na reconstrução de sua história. O nominável torna-
se concreto e reconhecível pelo coletivo. Apesar de variarem entre si, os rituais
de batismo e nominação das gangues estudadas ocorreram, em sua maioria, em
momentos que envolveram vários integrantes em acordo pela melhor alcunha. A

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Gangues, Gênero e Juventudes:
donas de rocha e sujeitos cabulosos

escolha coletiva do nome parece não apenas legitimá-lo como também concorrer
para o desejo de todos de propagá-lo: é um nome escolhido e admirado devendo
ser eternizado.

E nisso um dia fzemos uma reunião. Chegou no dia com o nome de E.T e disse:
o nome da galera vai ser esse Aí a gente falou: beleza, e qual que é o signifcado? E
ele disse: tem dois signifcados pra vocês escolherem: Elite Terrorista e Esquadrão
Terrorista. Aí teve a votação e decidimos que ia ser Esquadrão Terrorista, aí fcou

nisso até hoje. (Grupo Focal, masculino)

As gangues do Distrito Federal são, em sua maioria, denominadas por siglas
de duas ou três letras, abreviações de seus nomes. Parece ser importante tanto a

sonoridade da sigla quanto o signifcado do nome por extenso. Assim, correlações
com siglas famosas, como é o caso de ET (que no senso comum signifca extraterrestre

e no meio gangueiro quer dizer Esquadrão Terrorista) e GDF (que designa tanto o

governo do Distrito Federal quanto os Grafteiros do DF), ou formação de novas

palavras com as iniciais – como é o caso da LUA, são tão importantes quanto os

fortes signifcados dos nomes:

Então quando uniu as galeras, rolou a reunião, foi dando as sugestões e tal. Aí
queríamos ter alguma coisa voltada tipo com o Legião, tem que ter o L de Legião
e as duas letras a gente transforma aqui. Aí nesse dia neguinho foi e começou a
falar: Legião Urbana, Legião Unida não sei o que lá. Saiu uma coisa na roda assim:
Legião Unida pelo Crime, Legião Unida pelo não sei o quê. Aí: Legião Unida pela

Arte. Aí os moleques: Opa, Legião Unida pela Arte, então. Aí todo mundo: fcou
legal, não sei mais o que lá, aí fcou Legião Unida pela Arte. Foi assim que surgiu

a LUA. (Entrevista, homem)

Os nomes das gangues indicam logos importante e seguem lógicas diversas.
Comumente nascem em reuniões e não necessariamente destacam elemento
de transgressão em suas siglas, como no caso da LUA. Interessante perceber a
constância de alguns temas nos nomes das gangues no Distrito Federal, tais como

referências ao grafte (como na Anjos Grafteiros ou na Grafteiros Sem Lei), à

pichação (como na Pichadores da Ceilândia Norte ou na Movimento Obscuro da
Pichação) ou à arte, por vezes sucedida do adjetivo proibida (como na Guardiões da
Arte Proibida ou na Amantes da Arte Proibida). Também são comuns referências a
anjos (como na Anjos Kabulosos) e a demônios (Novo Comando Satânico) e, com

menor frequência, menções diretas ao crime (Escaladores da Caligrafa Kriminosa

e Facção Criminosa de Sobradinho). Nota-se, pois, como a nomeação da gangue
ativa muitos dos eixos conformadores das identidades das gangues, quer eles sejam

autoatribuídos ou ressignifcações de identidades atribuídas à sua revelia.

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Gangues, Gênero e Juventudes:
donas de rocha e sujeitos cabulosos

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