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livro_gangues

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Os jovens falam sobre as sensações provocadas pelas drogas, não escon-
dendo que algumas provocaram, ou provocam, efeitos fora de seu controle. Ao

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Gangues, Gênero e Juventudes:
donas de rocha e sujeitos cabulosos

tratar dos efeitos do Roupinol e da cola de sapateiro, uma menina deu o seguinte
depoimento:

Eu, quando usei, coloquei um bocado dentro da boca, aí fquei normal, como se

não tivesse acontecido nada, só que você pula partes que sua mente esquece. Fica
lerdo, igual como cheirar cola também. Os meninos cheiram cola, eu sem cheirar
viajo com eles. Um dia eles estavam cheirando cola e começaram a pegar onda de
macumba, aí depois um pensando que queria roubar o outro... oxente, você quer
me roubar? Aí começaram a brigar. Você vê coisa que nem existe, sabe? Um dia a
gente ali e eu nunca tinha usado, eu usei só uma vez: não vou fazer isso não, não
vou, não vou. Daqui a pouco estava eu lá só com o saquinho na mão. Quando eu
vi, saí andando bem assim oh... Aí os meninos: que passo é esse ai? Oxente mina,
segura tua onda, e eu andando bem assim oh... Aí tu dá de falar... E fala, fala, quer
falar e não dá conta, ai fala coisa enrolada, ai vê que tá dando mole, aí pega e cala

a boca, fca quieta, e tenta seguir a onda. (Grupo focal, feminino)

Outro entrevistado comentou sobre os efeitos do Roupinol, também enfati-
zando a possibilidade do inesperado, de perder o controle, o que traduz a referência
ao perigo como vinculado a um sentido de prazer. Isso também indica valorações
variadas dadas aos mesmos efeitos, já que, como relatado anteriormente, para vá-
rios meninos drogas que fazem perder o controle deveriam ser evitadas para que se
mantenha o sentido de “realidade” e não ser atacado de surpresa.

A lombra é pesada, parece que te dá um sono cabuloso, da vez que eu tomei
Roupinol eu deixei de ir para um frevo doido, praticamente eu perdi um dia da
minha vida. É doído véio, o negócio é que você faz coisas assim que é paia, que
no outro dia você não lembra, você pode até matar a própria mãe. (Grupo focal,
masculino)

Quanto ao lança perfume, um rapaz afrmou que dá uma onda engraçada e quan-
to à maconha ele observa que vê a cara dos outros engraçada, começo a rir sem parar. Disse
que todas as vezes em que usa drogas fca loucão e que isso faz parte do seu cotidia-
no. Outro jovem refete sobre a mesma substância: quando uso fco loucão, só que tu volta
assim, rapidão. Tu não fca doidão o tempo todo. Tu fca uns cinco minutos doidão. Você voa, você

vê eu acho que até vaca voando. Já outro integrante dá pistas sobre por que certas drogas
seriam mais procuradas, ou por que se passaria de uma droga para outra em busca
de um mesmo fm, qual seja, ser tomado, mesmo que instantaneamente, pela aluci-
nação: lança alucina, velho. Por isso que todo mundo usa – lança, R11, benzina. Vale notar,
no entanto, que nem todas as drogas utilizadas pelos sujeitos pesquisados são de

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caráter alucinatório (um exemplo de exceção é a cocaína). Segundo um integrante:

O crack acaba com a pessoa. Eu sei lá, não rola. Cocaína, eu cheiro. Naquele dia lá
na festa, eu botei uma carreira lá e cheirei, eu cheirei três. Ceilândia mesmo, sába-
do passado, eu curti um frevo lá, foi aniversário de um brother meu, só deu patrão,
o moleque estava com uma pedrona assim, velho, grande, velho, grande. Cheirei,

fquei louco, louco mesmo, ali eu fquei alucinado de cocaína. Lança perfume,

nego desmaia. Vixi, eu desmaio direto. (Entrevista, homem)

Tanto os rapazes como as moças concordam, ainda com a declaração de que a
droga serve para curtir o frevo, fcar loucão e sair pra pichar. Ou seja, a droga faria parte do
habitus de vida coletiva pública dos jovens em gangues não apenas para um prazer
individualizado, mas como passaporte para o estar junto, para o lúdico, compartir o
prazer e participar do coletivo.
Uma jovem disse que usa maconha e cocaína em diferentes momentos de sua

vida, para diversas fnalidades, mas distinguindo também efeitos:

Maconha me deixa mais nervosa, porque eu sou muito calma, só não aguento
desaforo. Agora, quando eu fumo, assim eu não levo desaforo não. Eu gosto de
maconha para ir para a escola. Agora, cocaína eu uso mais pra frevo, porque para
frevo anima, porque se você for cheirar e for fcar em casa você fca agoniada,
agora se você for para o frevo, você curte tudinho, não dá sono. E se você for

fumar maconha, você dorme, come. Cocaína trava a garganta. Os dentes fcam

tudo dormente, o nariz. Quanto mais você cheira, mais você quer. (Grupo focal,
mulheres)

Nas gangues se reproduzem algumas ideias encontradas também entre jovens

com outras referências, como os que estão na escola (CASTRO & ABRAMOVAY,

2002), tal qual a de que a maconha não faz mal porque é uma planta natural e que
maconha não vicia:

H - Eu sempre preferi maconha porque é natural.
M - É, maconha é melhor porque pode ter químico, mas é mais natural. Dizem
que maconha é bom pro corpo. E eu acho que maconha não vicia não. Acostuma,
não vicia. (Grupo focal misto)

Roubar para conseguir droga é um costume corrente em vários depoimentos.
Quanto ao valor da droga, têm-se equivalências que variam a depender da situação
em foco.

Outro fato intrigante é a facilidade com que esses adolescentes e jovens con-
seguem certos tipos de drogas, principalmente nas farmácias. Note-se que foram
mencionados elementos fora das gangues, como fornecedores, o que traduz, em

certo sentido, a complexidade atual do tráfco, envolvendo pessoas em posições

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bastante variadas. Um jovem explicou o procedimento para conseguir Roupinol:

Ent - Como vocês conseguem comprar o Roupinol?
H1- É a coisa mais fácil do mundo.
H2 - Que nem balinha.
Ent - Mas por que, alguém dá a receita para vocês?
H1 - Tem um cara que dá a receita que já vem...
Ent - Na farmácia?
M - Na porta.
Ent - Aí você vai e compra a receita, é isso?
H1 - Não, compra já o Roupinol .
Ent - Vocês vão à farmácia?
H2 - Na farmácia mesmo, já compra na mão deles.
H1- Compra a caixa já. (Grupo focal misto)

Qual a relação entre gangue, droga e criminalidade? Mais uma vez não se
tem respostas fáceis, visto que diversos tipos de trajetórias entre os jovens em gan-
gues são encontradas. Alguns declaram que é por meio da gangue que os jovens se
iniciam em situações de transgressão. O consumo aumenta, mas não determina

a possibilidade de entrar no tráfco de drogas. É mais aparente a associação entre

consumo e outra forma de transgressão como roubos e furtos, já que vários jovens
começam a roubar para adquirir drogas.

Ent - Como vocês fazem pra comprar droga, vocês que não
trabalham?
H1- A gente rouba né. Os que roubam, compram, os que não roubam
é dado.
H2- Eu não roubo. Mas antes eu vendia droga pra sustentar os meus
vícios, minhas festas, minhas roupas, tudo. Eu vendia droga para isso,
mas nunca fui de roubar. O problema principal é o dinheiro.
H1- A gangueragem é a escola do crime. É o primeiro estágio (Grupo
focal, homens)

Reitera-se que a relação com as drogas é individualizada dentro das gangues,
não sendo necessariamente norma imposta pelo grupo. Há integrantes que roubam

para comprar drogas; há aqueles que não usam drogas, só picham; há outros que
trafcam, e a gangue, como organização, aceita essa diversidade de atividades. Al-
gumas vezes, internamente às gangues, formam-se subgrupos (frmas), identifcados
por suas atividades que são aceitas desde que não transgridam as regras básicas das
gangues, como não trair o coletivo:

Ent – Você contou um caso de um roubo? É comum a galera sair pra roubar?
M – Não, assim a galera, não. Porque tem uns que fazem e outros que não. É tipo

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dividido. Tem uns que só fazem pichação e tem os fazem de tudo. Mas ninguém
manda em ninguém. Cada um faz o que quiser, entendeu? Se quiser, sair, sai, se
quiser vender droga, vende. Não tem muitas regras... Ninguém diz: hoje você é
obrigado a pichar em tal lugar... (Grupo focal, misto)

Sublinha-se o caráter recreacional das drogas e o sentido de risco imposto
inclusive pela criminalização das drogas. Gostam da sensação causada pelo perigo, e
têm consciência de que o que fazem é considerado socialmente incorreto. Seus atos
podem acarretar graves consequências, mas mesmo assim optam por viver sob for-
tes emoções, correndo o risco de serem pegos pela polícia a qualquer momento. Os
nexos entre droga, crime e pichação não são deterministas ainda que representem
caminhos que prometem prazer, busca da alucinação, enfrentamento do desconhe-
cido e perigos.

Poucos se anunciaram como estando no tráfco e indicam que não é atividade
comum na gangue. Afrmam ainda haver, principalmente, um pequeno comércio em
que se vende para os colegas de gangues ou nos frevos. Note-se que em Brasília são
esses pequenos vendedores os mais apenados:

Em recente pesquisa realizada em processos criminais por tráfco de

drogas, no Rio de Janeiro e em Brasília, foi demonstrado que o siste-
ma penal é seletivo, e os varejistas que vendem pequenas quantidades de
drogas constituem 60% dos condenados, tendo sido presos sozinhos e
desarmados e recebido severas penas privativas de liberdade. Apesar de,

atualmente, os condenados por tráfco de drogas serem a segunda maior

incidência no sistema penitenciário brasileiro, só perdendo para os crimes
patrimoniais, tal situação não acarreta nenhuma alteração na oferta ou no
consumo de substancias ilícitas (BOITEUX, 2009, p. 10)

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