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A Des-Ordem Da Periferia_Andreas_Novy

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Andreas Novy BRASIL: A DES-ORDEM DA PERIFERIA: Da sociedade de escravos à ditatura do dinheiro

para Beth

Traduzido por Peter Naumann

A tradução desse livro foi subvencionada pelo Ministerio de Educação, de Ciências e Cultura do Governo Austríaco

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Sobre a amizade
Esse livro não teria sido escrito sem as muitas brasileiras e os muitos brasileiros, com os quais travei amizade nos últimos anos. A brutal realidade político-econômica seria praticamente insuportável sem os estritos vínculos emocionais com o país, a sua gente e cultura. Por isso os meus agradecimentos vão em primeiro lugar para Beth, a quem dedico este livro. Devo à ela o amor pelo Brasil e o título desse trabalho, bem como o burilamento das dimensões cultural e poética das citações traduzidas. Agradeço à Sueli Costa Dantas, Claudia e Antonio Vitte, Ingo e Ana Luger, Ana C.Fernandes, Carlos Roberto Winckler, Luiz Augusto Faria, Paul Singer, Chico de Oliveira, Clélio Campolinas, Bertha Becker, Aurílio Caiado, Dercy e Bernadette Telles, Assis e Duda, Carlos Carvalho, Fernando Michelotti, Reginaldo Castela, Jacques Demajorovic, Valeria Oliveira, Zé Mario B.Carneiro, Camilotto, Patricia Cunha, e muitos outros. Na verdade, o ponto de partida do presente livro foi a necessidade de redigir uma tese de livre-docência [Habilitation], um trabalho solitário, uma vez que se trata do maior e último exame na carreira acadêmica. Em outono de 1998 concluí as pesquisas com um trabalho sobre o tema ”Poder, espaço e desenvolvimento no Brasil”. Nos meses subsequentes dediquei-me à elaboração de uma versão em livro. A empreitada aparentemente simples, de encurtar o texto original e deixá-lo mais claro, provou ser uma tarefa que demandou um tempo não muito inferior ao da redação da própria tese. A pergunta pela forma de veiculação dos resultados centrais revelou ser muito mais do que uma mera tarefa adicional de natureza didática. Pareceu-me uma necessidade política transmitir as descobertas sobre as estruturas de modo que as perspectivas de ação não se perdessem. Embora uma tese de livre-docência seja um trabalho isolado, os limites do esforço individual saltam aos olhos. Assim o presente trabalho foi, como qualquer discurso, essencialmente influenciado por outras pessoas, representando o produto de muitas e longas amizades. Quero agradecer especialmente a Joachim Becker,. A qualidade do presente trabalho ficou essencialmente melhorada pelo seu empenho em acompanhar o autor no desenvolvimento das suas idéias. Sua solidariedade e amizade me estimularam sempre a continuar a reflexão. Johannes Jäger, Werner Raza e Vanessa Redak também contribuíram decisivamente para a formulação do presente marco de reflexões. No âmbito do projeto ”Espaço econômico e territorialidade da regulamentação política”, fomentado pela FWF sob a sigla P12378-OEK, foram elaboradas idéias definidoras do marco conceitual de uma teoria do poder espacial. Meus agradecimentos vão também para o instituto no qual trabalho, entrementes denominado ”Departamento de Desenvolvimento Urbano e Regional”, e aos dois professores que o dirigiram nesses anos: Walter Stöhr e Ed Bergman. Eles criaram para mim o espaço de amadurecimento das idéias aqui apresentadas. A Universidade de Economia, que freqüentemente se vê e é vista como uma escola de quadros executivos ou como uma espécie de Escola de Altos Estudos do Comércio, concedeu-me um espaço que não precisei conquistar e reconquistar a cada dia, mas do qual dispus por um tempo mais longo e que me permitiu continuar as reflexões na sua dimensão espacial e temporal. Diante de uma racionalidade cada vez mais míope isso não deixa de ser um privilégio, do qual tenho muita consciência. O retrospecto me permite passar em revista um grande número de pessoas e eventos que contribuíram para que pudesse levar esse trabalho a termo e aos quais estou penhorado por gratidão: a Sra. Lehner pela leitura do texto final e o seu trabalho na montagem da bibliografia, Gunther Maier pela salvação dos meus arquivos infectados por vírus, Reginaldo Castela, Christof Parnreiter, Karin Fischer, Christine Mattl e Ana Fernandes pela elaboração conjunta de artigos que entraram nesse trabalho. Agradeço a Herwig Palme, Peter Feldbauer, Andrea Komlosy, Dieter Boris, Reinhard Pirker, Johanna Hofbauer, Manfred Lueger, Leonhard Bauer, Mick Dunford e Alex Hamedinger pela leitura de versões mais antigas. Agradeço a Angela Kemper, Peter Mesch e Laura Garcia Sobreira Majer ao apoio dado pela divulgação do livro. Devo aos meus familiares, à Beth, à Marília, ao Francesco e ao Bernardo o olhar além da Economia Política. Eles relativizaram o significado de reflexões intelectuais e das transformações político-econômicas e ampliaram o horizonte da vida e sua diversidade, que normalmente se estreita na excessiva leitura de livros: o espaço, o tempo e o poder configuram uma totalidade universalmente dominante, embora não perfaçam toda a vida. Gostaria de manifestar meu agradecimento especial à Peter Naumann, que fez o seu trabalho de tradução com muita intuição e competência, proporcionando ao texto uma incrível fluidez e clareza. Estendo também meu agradecimento a Paul Singer, que acompanhou este trabalho por anos e que se ofereceu para escrever o prefácio na edição brasileira. Meus agradecimentos se estendem a minha editora vienense, Promedia e a Hannes Hofbauer, que permitirem a tradução brasileira sem nenhuma exigencia. E, finalmente, agradeço a

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que lutou com muita dedicação para esse livro sair no Forum Social Mundial de 2002 em Porto Alegre.Paulo Arantes. 4 . editor da coleção Zero a Esquerda.

...Índice 1 Poder e espaço.....................1 Modo colonial de desenvolvimento sob dominação européia (1500 ............................................................................................................................1..................................................................2.....................................................3 Regime de acumulação e modo de regulação....................1914)....................5 Espaços político e econômico............1........................ sob dominação britânica (1822 ..............................................29 2 Construção e destruição do fator nacional no Brasil..1....................18 1..................1929)....................3 A capital econômica do Brasil (1914 ................................................................1.3 Modo de desenvolvimento centrado no estado-nação......2 Estado e capital.............................2...................................2 Modo nacional de desenvolvimento.............................................................................................15 1.......................................................2 Espaço.......................2 O palco nacional do poder.......................................................43 2.............................6 Território e espaço de entrelaçamento........91 3.....................96 5 ...........20 1......................................................................................................................................................................................33 2............1 O dualismo do espaço de poder e do poder sobre o espaço.....................................3.........................2......................1..................................................................1 São Paulo pré-capitalista (1554 -1850)................................................18 1...............2 Michel Foucault e o poder sobre o espaço.............................2....................................56 2.1.................................................................................................................................9 1...........................3 Palco e campos..................1.............................3...........................................................3 Poder...........................4 Tempo............................................................................................................................ sob dominação dos EUA (1929-1982).............1 História dos campos regionais do poder.....2 Receptáculo e rede..........49 2............17 1.............1822).....................................................................................................................20 1........1.........................39 2.......12 1....................................................................................2...............................................88 3.....16 1.....................2 Da capital do café à cidade industrial (1850 ....1 Thomas Hobbes e o espaço de poder..........................................1974) ..............................19 1.............11 1.........................................70 3 Espaço e poder no centro da periferia.............1 Jogos de poder......1.............................................1...........................................................................................4 Place and Space.........................................................................................................2............94 3.......................................................................1 História da estrutura profunda...4 Destruição do modo de desenvolvimento centrado no estado-nação e dominação dos EUA (a partir de 1982)...............1 Ação e estrutura..................21 1.....................4 A metrópole necessita de uma região mundial (a partir de 1974).88 3.......................................................39 2.........................................25 1................................................................. orientado segundo instâncias externas......14 1..................3.......................................85 3....................................................................7 1...........

...................................116 4....2...................................................1......................................................105 4 O reordenamento da des-ordem..................................................5 Siglas das organizações citadas...........................................................141 5...................................................................................................186 6 ............3 Endereços da Internet utilizados com maior freqüência............185 7......... revistas e endereços de Internet utilizados...2 Transformação e constância do poder sobre o espaço............................2 O espaço de poder do Estado de São Paulo........2 Centralização e descentralização...............1 Liberalismo e intervenção do Estado.................1.......................................................................................3 Hegemonia social-liberal?...................................................................................1 Tabelas.............................146 5...............................3 O espaço de poder da cidade de São Paulo.186 7..169 7...................2............................................................157 7 Anexo....................................................2 A imponderabilidade do instante...............................1 Da des-ordem da periferia à des-ordem do capital.........................................................116 4..................................1.......................................143 5...185 7...............102 3.....................................................136 5....................................................................................................................................................................................1 A lenta transformação dos campos do poder ............169 7..........................................151 5..............................................146 5.........................................2............4 Os oprimidos também fazem história e geografia..........149 5...............................152 6 Bibliografia............................................ dos instrumentos e de outros conceitos....................................................................119 5 As pessoas fazem história e geografia......................................3...3 Globalização e fragmentação...................................136 5............................................................................137 5..................................................................................................................2 Jornais.................................................................2 A des-ordem do capital..................................................2.............4 Entrevistas gravadas em fita.................1 As aparências enganam........................

Com o presente trabalho apresento um marco analítico para compreender esses processos. conscientes da sua impotência no plano internacional. Como isso foi possível? Que poder logra produzir tais resultados? Aos meus olhos. A periferia das cidades. O Brasil. Esse duplo papel de poder/impotência radica em uma dupla espacialidade: o latifundiário age in loco e está inserido em uma estrutura espacial (nacional e global) mais ampla. no nosso destino mandar. XX. Por que não se pode mobilizar os recursos modestos para evitar ao menos as piores excrescências desse sistema? Vista na perspectiva dos dominadores locais. os melhores representantes do universo artístico e a oposição intelectualizada. mas perdeu. da ilusão de poder promover a mudança dentro de espaços de tempo relativamente breves. O próprio latifundiário na região da seca do Nordeste se vê constantemente ameaçado pelo descenso social. sobre a escravidão e frentes de trabalho diretamente ao lado do noticiário sobre telefones celulares. muitas pessoas nutriam esperanças com vistas a uma transformação social profunda. de possibilidades e de mudanças. um lugar apenas subordinado. Ocorreu uma destruição à la Pinochet. Os dominadores da periferia constróem as suas estratégias de poder in loco. tal ação aparentemente irracional tem cabal racionalidade. Quando descobri o Brasil. contaminado por um raciocínio capitalista orientado segundo o benefício individual. O preço disso é a eliminação da estrutura existente do foco da atenção. pelas estruturas de poder. Não obstante. Gerenciam uma situação social sempre precária in loco. tornarem-se sujeitos da transformação da sociedade. a renovada derrota eleitoral de Lula em 1994 foi um corte na história. E sempre de novo as suas esperanças são aplastadas pelo sistema. os agricultores sem-terra do interior. As pessoas elevam sempre de novo a sua voz para determinarem o seu destino. Ainda hoje encontramos na mídia notícias sobre a fome que assola regiões inteiras. O poder parecia crescentemente estar domiciliado alhures. o país era cenário de transformações. Em 1989 tive oportunidade de acompanhar diretamente a campanha para as eleições presidenciais e sentir o entusiasmo com o qual milhões de brasileiros e brasileiras se valiam do palco dos embates eleitorais depois de décadas de ditadura. todos eles faziam estremecer as bases da velha ordem. mas sem um Pinochet. na qual ele não tem vez nem voz. o fenômeno da obesidade em crianças brasileiras e os recordes de venda no setor automobilístico. ao qual ele foi arrastado por más colheitas? Na sua região ele domina. Exemplos disso são os quilombos. Nesse momento. os projetos de ocupação de terras ou as reservas indígenas e extrativistas na Amazônia. Mas os desapoderados e oprimidos freqüentemente também preferem agir in loco a transformar as estruturas que transcendem os seus espaços. constituem os grandes momentos da história. Perguntamo-nos pelas razões pelas quais isso ainda é possível no fim do séc. os anos 80 foram uma década de esperanças por transformações profundas em uma das sociedades mais injustas do mundo. Esse livro reflete a perda de uma ilusão. para tomarem o seu destino nas próprias mãos. por meio dos quais os oprimidos sobem ao palco da vida pública. a raiva se mistura à desilusão: nos anos 90 não houve nem necessidade de apelar aos militares para enterrar o sonho da transformação. Dez anos mais tarde. em escala mundial. Depois disso não houve mais outra campanha semelhante. que passam por cima delas como um rolo compressor. Movimentos de bairros periféricos 7 . ainda que seja apenas em áreas parciais ou no plano simbólico. as pessoas perderam o interesse por esse palco. Trata-se da tentativa dos brasileiros que têm um lugar ao sol de continuarem como parceiros menores dos dominadores dos países centrais e de continuar assim participando do universo de mercadorias do capitalismo.1 Poder e espaço ”A gente quer ter voz ativa. O orgulho estamental da mentalidade escravagista. esses movimentos sociais. no qual o torneiro mecânico Lula quase chegou à presidência. mas as estruturas lhe indicam. No Brasil. evitando assim transformações radicais do status quo. Como arrumar o dinheiro para que seus filhos possam freqüentar a universidade? Como sair do círculo diabolicamente vicioso dos juros usurários. Reconheci que o establishment não deseja nenhuma mudança que afete a hierarquia social. ”campeão mundial da desigualdade da renda”. testemunha isso de modo eloqüente. mas eis que chega a roda-viva e carrega o destino prá la (de ”Roda Viva” de Chico Buarque) Fazer a história e não apenas sofrer um destino: eis a esperança que o conhecido compositor brasileiro Chico Buarque provavelmente não é o único a nutrir. na retrospectiva. Lula perdeu por margem escassa. resulta em uma forma especialmente ruim de dominação.

A crise orçamentária. (cf. and the evolution of its relations with the United States which. por meio das suas numerosas tentativas fracassadas de transformar duradouramente a desordem. 3 A CEPAL. Lehmann 1990.também lutam mais eficazmente por uma nova escola no seu bairro do que por uma nova política educacional. É certo que ela cria no Brasil um território ordenado. como relações sociais orgânicas que oneram o desenvolvimento presente. O Brasil não se encontra uma etapa atrás. que trabalhou sob a direção de Raul Prebisch.estreita fortemente os espaços de ação in loco dos atores. drew up a special code for the region involving more direct and open control. a América Latina começou depois da Segunda Guerra Mundial. No decorrer dos séculos cimentou-se na relação entre o Brasil e o mundo uma hierarquia espacial de centro e periferia.radicalizaram a crítica do estruturalismo (Cardoso. in becoming a hegemonic world power. the problems created by the belated process of industrialisation. Tais desequilíbrios econômicos resultam da interação do Brasil com o sistema mundial capitalista. tempo e poder essencialmente do paradigma liberal e modernizador. fundou o estruturalismo (também como cepalismo) como uma teoria econômica que questionou apenas hipóteses isoladas do mainstream. sacodem a ordem brasileira tão regularmente que parece adequado falar de uma des-ordem. dominante nos tempos de então como da atualidade. 8 . parece ser sedutora e não obstante é substancialmente responsável pela miséria atual. as trabalhadoras devem ter maiores direitos de cogestão e os agricultores devem receber créditos mais favoráveis. A des-ordem tem raízes espaciais e sociais. Por isso é um erro acreditar que só é necessário tomar essa ou aquela medida. Trata-se. os atacadistas e os industriais. para que a desordem do Brasil seja superada.no período da ditadura militar uma denominação cifrada da pesquisa em Economia Política ou da pesquisa marxista . dotado de uma estrutura social estável: no andar de cima. O estado deve investir mais em escolas. Furtado (1997a) descreve na sua autobiografia a história dos primeiros anos da CEPAL. A injustiça local é perceptível. Os sismos que provocam a queda dos preços. Em tais enfoques as estruturas são compreendidas como o ”fardo do passado”. Como o Brasil não é apenas um território no qual os seus detentores do poder dominam soberanamente. a crise inflacionária e a crise do balanço de pagamentos acompanham a aparente estabilidade da estrutura social do Brasil. a contestar a benção universal do modelo liberal de desenvolvimento. baseada em pequenas transformações. no andar de baixo a população trabalhadora. A extração de ouro na periferia. é um escândalo que clama pela transformação. Elas não viam o espaço da América Latina apenas como uma região geográfica. as crises nas bolsas e as crises monetárias. a estabilidade do país assenta em pés de barro. mas correlacionavam-no com uma estrutura sócio-econômica específica2. os banqueiros. ao passo que a estrutura global parece estar muito distante e opressivamente poderosa. Karl Marx afirmou certa vez que ”o país industrialmente mais desenvolvido exibe ao menos desenvolvido apenas a imagem o próprio futuro” (Marx 1983: 13). a industrialização no centro. while at the same time requiring increased co-operation among countries in the area” (Furtado 1976: 3). Ela é de natureza estrutural. a acumulação da riqueza no centro. Ao mesmo tempo a crise. Cedo instrumentalizada em periferia.uma des-ordem . Essa estratégia da transformação controlada. da tentativa de compreender o presente por meio da consideração do passado. Faletto 1979: 21) e viram as raízes do subdesenvolvimento na estrutura capitalista da economia mundial. faz-se necessário um olhar sobre o passado. ele encarna o outro lado da mesma moeda. Para compreender esse desastre contemporâneo. A teoria da dependência ou o enfoque histórico-estrutural . As relações de 1 Comisión Económica para America Latina. os proprietários de terras. 2 ”Latin America” ceased to be a geographical term and became a historical reality as a result of the break in the traditional pattern of the international division of labour. No âmbito da Comissão da ONU para o Desenvolvimento da América Latina (CEPAL1) surgiram a partir dos anos 50 produções teóricas autônomas. mas simplesmente está em cada período histórico em uma posição distinta. Essa estrutura consolidada . o caos e o acirramento da desordem foram as conseqüências. O cepalismo e as teorias latino-americanas que o criticaram3 distinguiram-se na sua concepção de espaço. nesse enfoque teórico. então dominante: o que pode ser bom para o centro. As relações de centro e periferia não se dissolvem no processo evolutivo. Kay 1989). mudam tão-somente a sua forma. mas também parte do espaço de entrelaçamentos da economia mundial capitalista. depois de séculos de obediente subordinação. Mas na realidade os centros do mundo só exibem ao mundo restante a imagem muito parcial do seu próprio futuro: o Brasil de hoje de modo nenhum é a Áustria de 20 anos ou os EUA de 40 anos atrás. Justamente os últimos presidentes do Brasil assumiram seu cargo na intenção de superar a desordem e modernizar o Brasil. de modo algum necessita sê-lo também para a periferia. Em tais casos a ação se reduz à correção das desordens. das coisas que saíram do prumo. Mas os dados econômicos desse território estão regularmente fora de prumo. conforme afirmou a crítica do ”falso universalismo” da teoria econômica (Furtado 1997c: 12). como ” duro cimento” (Furtado 1997b: 50). Mas a história mostra. englisch: ECLA – Economic Commission for Latin America. a agricultura na periferia. que essa estrutura da periferia representa uma des-ordem comhífen.

Furtado (1997b: 21) distingue claramente entre um poder pessoal e um poder sistêmico e localiza o poder decisório sobre os desenvolvimentos estruturais no estado-nação. 6 ”Se colocarmos a problemática do espaço e do tempo no centro da teoria social. Faletto 1979: 37). Remete.1 O dualismo do espaço de poder e do poder sobre o espaço Os dois conceitos centrais nesse trabalho. produzem uma inflexão no curso da história e criam simultaneamente um novo espaço. mas também a sua própria geografia. Assim um presidente bem assessorado poderia tomar medidas para reduzir a desordem no seu território. A colocação da resistência e do empoderamento (empowerment) no centro da análise da sociedade exige uma análise do tempo e do espaço que seja ”radical” no sentido originário da palavra. reduz o poder ao seu ”exercício”. uma reserva. de um rastreamento das origens. e da empreitada geográfica de uma pesquisa nas profundezas (Giddens 1988: 422). e. o enfoque histórico-estrutural não elimina de foco o espaço. as estruturas das estruturas sociais. seria talvez difícil para ele perceber a sua produção teórica como um trabalho no campo da geografia econômica. O detentor do poder operaria assim a engrenagem da engenharia social e provocaria um resultado determinado. a historiografia e a geografia” (Giddens 1988: 34s. segundo a qual o detentor do poder ”dá ordens” aos seus subordinados. O respectivo contexto conduz também no caso dos mesmos desenvolvimentos globais a resultados concretos distintos: o desenvolvimento desigual é parte da dinâmica de economias capitalistas. pois ”o morto agarra o vivo” (Marx 1983: 15). na qual o desmatamento e a expulsão não são mais possíveis. portanto. Uma análise histórico-geográfica do poder6 não se cinge à superfície dos fenômenos. não apenas como desvio de uma norma5. O primeiro propósito da presente interpretação é mostrar a espacialidade do desenvolvimento histórico-estrutural4. espaço e poder. Se os seringueiros resistem à derrubada da floresta tropical e impõem a criação de reservas extrativistas.g. 9 . Embora Furtado considere a sua obra econômica claramente também como história econômica. as fases do desenvolvimento sócio-econômico sobrepõem-se como camadas. seja pela da sonegação de impostos. mais especificamente. esses enfoques contêm descobertas centrais da ciência do espaço. à frente de todas a relação entre centro e periferia em escala mundial. trata-se de uma empreitada historiográfica. mas revela as profundezas. o escravismo impede o desenvolvimento democrático. e o processo global da inserção em uma estrutura dominada pelos centros. têm pouco a ver um com o outro na rotina concreta da ciência. Com base no grande número de estudos existentes efetua-se uma reinterpretação do Brasil que parte da hipótese de que as pessoas em determinadas estruturas não fazem apenas a sua história. 5 Uma análise contextual (Cardoso. a uma mecânica simplista. mas deve ir até as ”raízes” dos problemas sociais. Uma análise do poder não pode reproduzir tão-somente em termos objetivos a superfície do status quo. pois a ação consciente dos detentores do poder produz conseqüências não-intencionais. Nesse sentido. O segundo aspecto insuficientemente considerado pela teoria latino-americana é o problema do poder. Faletto 1979: 38) distingue o estruturalismo latino-americano do mainstream econômico: o tema central foi ”the distinctiveness of development paths in the periphery and the leading role of the state in an industrialization process” (Lehmann 1990: 3). Como já indicia a imagem da raiz. Há uma contradição entre a nação enquanto território com um sistema interno de poder. A estrutura mais profunda do poder sobre o espaço pode impedir as medidas ”mais racionais” na área social.propriedade fundiária são um empecilho para a agricultura. mas este permanece estranhamente secundário. um modo de ver o Estado que atribui a este o poder sobre um território. O estruturalismo busca fixar a especificidade do desenvolvimento latino-americano e. pois as teorias do espaço e do poder se correlacionam com duas áreas de pesquisa praticamente não4 Por um lado. Uma política reformista seria. uma política que investe nos âmbitos de um espaço de poder na infraestrutura. 1. a história determina a margem de ação na atualidade. por um lado. não poderemos fugir à necessidade de refletir novamente sobre as fronteiras entre a sociologia. a dependência das importações trava a industrialização.). a uma idéia central da ciência do espaço: o mesmo progresso técnico e a mesma orientação da economia de mercado conduzem em espaços distintos a resultados distintos. No entanto. disponibiliza serviços sociais e possibilita uma modernização cultural. seja por via da fuga de capitais. por outro lado (Cardoso. por conseguinte. Não obstante. brasileiro. Mas isso significa superestimar grandemente as margens da ação política. subtraindo ao detentor do poder os recursos necessários. em virtude de situações sociais específicas (Cardoso 1993: 38). Com isso está definido o marco conceitual de uma análise do espaço e do poder no Brasil.

a fronteira no caso do Brasil. embora Arquimedes levante o universo. o poderoso. 10 . é. Mas preliminarmente é mister ordenar as distintas concepções de espaço e poder. impõe às outras pessoas na sua área de influência a sua vontade. Foucault e os seus campos do poder representam de forma sensorialmente compreensível [anschaulich] dois enfoques opostos para a compreensão do poder. De acordo com essa visão. da nação. a Sociologia e a Ciência Política. Ao passo que na Europa a fronteira enquanto barreira da migração de pessoas está em primeiro plano. Michel Foucault é o grande pensador de enfoques da teoria do poder que se orientam segundo a estrutura. conforme a tabela seguinte ilustra9. A análise concreta do Brasil tratará sempre de novo de todas essas questões. 8 As explanações subseqüentes não cogitam oferecer uma visão de conjunto das teorias do poder (cf. Não importa quem se localiza no ”topo” dessas estruturas. O estado-nação é indubitavelmente o receptáculo clássico do poder. objetivismo e subjetivismo. Michel Foucault empenhou-se em toda a sua vida em criticar essa concepção do poder. como poder sobre o espaço e espaço de poder. As dicotomias de estrutura e ação. refere-se essencialmente à delimitação econômica da nação com relação ao mercado mundial. o poder pessoal é localizado ”bem em cima”. Delimita-se um espaço para que a ação possa ter eficácia nele. Por sua vez. na esteira do Leviatã de Hobbes. as disciplinas que se ocupam teoricamente com o poder dedicam-se só raramente aos fenômenos empíricos relevantes para a Ciência do Espaço. Contrapôs ao Leviatã o panopticon de Bentham como imagem orientadora [Leitbild] do poder. Mas na presente análise o espaço e o poder são conceitualizadas como unidade dialética. Essa é a imagem clássica do Leviatã hobbesiano. Bernstein (1983: 16) localiza a raiz desse pensamento dicotômico em Descartes e na sua busca do ponto arquimédico. A criação de um espaço de poder representa a tentativa de atores sociais de delimitar um determinado espaço. Comumente nunca encontramos referência a questões de poder em trabalhos de Ciência da Região. mas ela é também a concepção de poder e espaço em torno na qual se entrelaçam em grande parte a teoria econômica e a Ciência Política. embora inconscientemente ocorra com muita freqüência. para tal Clegg 1989). nem efetuar uma análise historicamente exaustiva a seu respeito (cf. para que se possa compreender melhor tanto a atuação do espaço como a do poder. entre outros. Hamedinger 1998). criar um marco teórico. Vitórias e derrotas freqüentemente dependiam essencialmente da constituição ou do esvaziamento das fronteiras. exerce soberanamente o poder. 9 Não somente as teorias do poder. que posteriormente deverão ser encaminhadas em uma relação dialética (cf. Nos limites de um espaço. a Ciência da Região. Tabela 1: O dualismo clássico de espaço e poder em Hobbes e Foucault ESPAÇO DE PODER Hobbes Quem tem poder onde? Território Receptáculo ”palco” PODER SOBRE O ESPAÇO Foucault Como o poder atua onde? espaço de entrelaçamento redes ”campo” Pergunta: Concepções fundamentais da teoria do espaço: Lugar do conflito: 7 De um lado. Enquanto conflitos sobre a orientação segundo instâncias internas e a orientação segundo instâncias externas. a transferência de capitais e tecnologias e o mercado monetário e financeiro.interligadas7. as fronteiras do espaço de poder no Brasil sempre foram altamente políticas. Hobbes e a sua mecânica do poder. O soberano. à exceção de John Friedmann (ver. no caso o Estado. i. Friedmann 1992). Descobertas na teoria do poder são confrontadas com a problemática do espaço. para que no seu âmbito a ação possa transcorrer de acordo com regras determinadas. Na contraposição dessas teorias as grandes tradições do pensamento são resumidas de forma simples e simplificada. que permanece fixo. Thomas Hobbes é o primeiro pensador dos enfoques da teoria do poder que se orientam pela ação. para tal Mann 1986). quero contrastar em termos dualistas duas modalidades de acesso fundamentalmente distintas. Para facilitar a familiarização com a problemática de espaço e poder. Isso não parece habitual. universal e concreto. de outro. eis o modelo padrão da mecânica do poder. o poder atua por meio de campos e estruturas que normatizam a vida cotidiana. um ator. Conflitos essenciais na história do Brasil tiveram por objeto a pergunta pelo significado que a fronteira tem para a troca de mercadorias. mas o pensamento ocidental na sua totalidade caracterizam-se pelo seu raciocínio em dicotomias. No sentido tradicional do termo. quantitativo e qualitativo determinam o pensamento científico. questões de poder são pensadas mediante a inclusão da perspectiva espacial8.

Mesmo nas dimensões miúdas do cotidiano as pessoas imitam esse poder. o seu ”preço” no mercado de trabalho (Hobbes 1996: 7). Para Hobbes o poder é tão central que o poder inerente a uma pessoa também determina o seu valor. Para ele. Citado in: Lukes 1977: 11). sovereign political forces” (Clegg 1989: 159). Até hoje as teorias do poder na tradição hobbesiana são caudatárias da visão do poder como um lugar a partir do qual se domina soberanamente. para continuar usando a imagem das bolas de bilhar. O Estado é uma poderosa máquina. A nação enquanto espaço e o Estado enquanto poder constituem o espaço clássico do poder enquanto concepção de mecânica. baseadas no princípio do movimento” (Bauer. por isso só poucos lograriam atingi-lo. um animal artificial. observável (Lukes 1977: 12). na ”guerra de todos contra todos” (Hobbes 1996: 96).. A forma da curva de modo nenhum é produto do acaso. indivisível e indelegável (Hobbes 1996: 136 ss. Teóricos antidemocráticos como Pareto representam aqui a dominação de uma minoria como fenômeno inevitável (Clegg 1989: 46-48). Ocorrem. querem tão-somente influenciar os comandos do poder nesse espaço em seu benefício. os pobres estão na base. possuí-lo. ”tê”-lo. Nesse modelo de causalidade os recursos têm um papel chave. sejam eles dinheiro. Esse Estado é decomposto em seus elementos individuais e concebido como corpo: o soberano como a sua alma. o espaço afunda na desordem e no caos. a causa e o efeito. Sem o poder do soberano. 11 . na realidade. na linguagem cotidiana. ”Nas nossas sociedades. uma espécie de pião. se há um ou vários centros de poder e onde o poder está localizado. uma bola que empurra e outra que é empurrada. Assim tiveram relevância as perguntas sobre quem detém o poder. Grande parte das discussões sobre o poder na teoria política do séc. o indivíduo é um átomo social.1. Ela provavelmente depende da distribuição dos traços distintivos fisiológicos e psicológicos dos seres humanos” (Pareto 1975: 111f. as pessoas têm poder sobre outras (Clegg 1989: 41). tomada em si. o ”Leviatã” que pode domar o egoísmo dos indivíduos e produzir a unidade do Estado e do território.). No centro de uma análise em termos de mecânica do poder estão os atores e o seu comportamento concreto. popularidade. é ator no jogo do poder. Tal centro soberano do poder ”deve ser instituído como construção teórica que canaliza a satisfação dos desejos e das paixões. os funcionários como as suas articulações.)10. 11 Cada átomo dispõe de poder. Por um lado. a curva da distribuição da riqueza apresenta muito poucas modificações entre uma época e outra.1 Thomas Hobbes e o espaço de poder Thomas Hobbes é o analista clássico do espaço de poder. impeli-la em uma determinada direção. O seu poder é absoluto.. Mas há no espaço do poder apenas um ator que pode agir soberanamente: o Estado é o poder. Os ricos ocupam o topo.. para poderem impor a sua vontade aos outros. XX pode ser compreendida como variações sobre o modelo fundamental de Hobbes. Para ter ”poder”. Matis 1988: 399). O poder parte então das ações de indivíduos. Para Pareto o lugar no topo da pirâmide social é reduzido. precisa-se controlar esse Estado. O que foi denominado pirâmide social é. o poder é fundamentalmente inerente a todos os indivíduos. O seu modo de aproximação forma a base da compreensão do espaço e do poder enquanto espaço de poder.concepções fundamentais da teoria do poder: Metódica Leviatã como corpo Mecânica do poder Atores Quantitativa panopticon como estrutura campos de poder estrutura/práticas pluralismo de métodos Fonte: Sistema desenvolvido pelo autor. o poder é visto como ”something possessed by unitary. Os ricos são os poderosos e eles também são os que via de regra têm as necessidades mais exigentes. independente e claramente delimitado com relação ao mundo exterior. Mesmo os interessados na transformação da sociedade quase nunca tocam essa concepção de poder e espaço. as recompensas e a punição como os nervos e assim por diante. resultaria um estado manifesto de guerra em uma sociedade sem centralização do monopólio do poder-violência. isso é certo. no 10 Como os seres humanos por sua natureza sempre buscam o poder. controle sobre empregos ou informação.. sendo que estas ocorrem na intenção de mover outros a uma determinada ação11. defensores progressistas da mecânica do poder como Bachratz e Baratz (1977) criticam essa concepção elitista. Uma relação de poder é como a relação entre bolas de bilhar: assim como uma bola de bilhar toca a outra e pode. na esteira de Clegg 1989: 34 1. Temos. A definição de poder de Dahl também se conforma pertinentemente à tradição liberal: ”A has power over B to the extent that he can get B to do something B would not otherwise do” (Dahl. ”contra a vontade desta”.

Por essa razão é necessário desnudar num primeiro passo e sem quaisquer considerações o poder da estrutura. Por isso o interesse das investigações de Foucault concentrou-se . no fatalismo e na resignação das camadas inferiores. Quando Lévi-Strauss (1996: 113) afirma que ”o espaço possui o seu valor próprio. assim como os sons e os odores possuem cores e os sentimentos um peso” e Bourdieu (1997: 106) constata que ”o mundo social pode ser concebido como espaço multidimensional”. acontecimentos não-ocorridos podem pretender estatuto de causa.). As numerosas tentativas de conquistar o poder . pois a análise social é para ele a análise do espaço. não-decisões dizem respeito a tais campos que não puderam ser problematizados. Foucault está profundamente enraizado na tradição francesa da preferência por metáforas espaciais. e. O ponto de partida dessa crítica é o modelo da mecânica do poder. No pensamento político e na análise política a cabeça do rei ainda não rolou” (Foucault 1983: 110). mudanças com relação a quem concretamente ocupa a posição no topo da pirâmide social. tais enfoques críticos já representam acessos que lançam uma ponte para um conceito estrutural do poder. Contra tal visão do poder e do espaço Foucault mostra as vantagens de se pensar o espaço e o poder como poder sobre o espaço14. mas parte essencial dessa ação. Baratz 1977: 78).e cada vez mais. por meio da ”mobilização de preconceitos”. Na discussão pública constata-se sempre uma unilateralidade (bias) na direção de determinadas questões ou na vontade de solucionar certos problemas. ”No fundo a representação do poder permaneceu por cima das diferentes épocas e dos diferentes objetivos sob a influência da monarquia. rituais e procedimentos institucionais (”regras do jogo”) produzem efeitos sistemáticos e em si coerentes em benefício de determinadas pessoas e grupos (Bachrach.2 Michel Foucault e o poder sobre o espaço Michel Foucault tornou-se célebre como filósofo que proclamou a morte do sujeito. 1. não em soluções baseadas na força das armas12: o galho progressista da mecânica do poder mantém-se por inércia contra a visão elitista edulcorante da existência de relações latentes de poder.supondo. percebidos como tais pelos dominantes.vale dizer. Como a estrutura do poder é uma ordem natural. Aqui ele não tem nenhuma definição a oferecer. Tal articulação é improvável. Pareto se posiciona também criticamente diante da democracia que aposta em soluções consensuais de conflitos. Assim o espaço é fundamental para toda e qualquer forma de vida em sociedade e para todo e qualquer exercício do poder (Schmid 1991: 203f. Somente depois da barreira da problematização ter sido transposta. As razões disso estão na apatia. intrigas e cliques. sem ser exercido. como no discurso liberal da tradição anglo-saxã.freqüentemente como espaços de 12 ”Um regime ao qual o povo impõe a sua ‘vontade’ . 13 De acordo com essa visão.entanto. 14 Mas também com referência ao espaço não é simples obrigar Foucault a assumir uma posição inequívoca. chega-se ao confronto direto dos interesses. o fator social significa essencialmente o espaço. quando os dominados esperam que os dominantes reajam com medidas contrárias desagradáveis. o que leva os oprimidos ao silêncio. Valores predominantes.g. Exemplos de não-decisões no caso de problemas em si importantes são a atitude social de ”não dar ouvidos” a exigências de grupos impotentes. por vezes também a formação de novas elites. sem ‘máquina’ política. mas não concedendo-se que ele a tenha -. à medida do seu envelhecimento . de um espaço de poder no qual o soberano presumidamente governa. ao entrechoque das bolas de bilhar. Assim se pode evitar que as pessoas tomem consciência das suas necessidades e articulem-nas enquanto interesses privados no espaço público. se eles apesar disso verbalizam problemas desagradáveis para os dominantes. existe apenas como desejo piedoso na cabeça dos teóricos” (Pareto 1975: 286).nas margens da ação individual em meio a uma estrutura poderosa.1. reconhecemos a importância que o espaço ocupa no pensamento dessa Grande Nation altamente centralizada. Por outro lado. Para ele o espaço não é. O poder atua ubiquamente. pois no interior da elite sempre há mudanças. O pensamento de Foucault não pode ser imaginado sem o espaço. o Estado . Muito pelo contrário. Mas com isso ele não se desmascara como estruturalista. mas descreve o poder e o espaço . 12 .e dominar o espaço do poder constituem exemplos plásticos de tentativas fracassadas de implementação prática. Embora ainda tributários da mecânica do poder. a abstenção nas e a não-participação das decisões por parte dos oprimidos. não se coloca contra a individualidade enquanto tal. mas também na falta de práxis política e na compreensão não-estruturada da sociedade (Clegg 1989: 109). pois antes de um interesse ser desconsiderado há uma série de outras formas mais sutis que impedem a eclosão de um conflito aberto. Depende muito das capacidades organizacionais dos indivíduos como eles se comportam diante de todos esses obstáculos. uma dimensão da ação social. pois eles esperam uma resistência violenta (Clegg 1989: 83)13. A crítica da mecânica newtoniana por Foucault vai de mãos dadas com um interesse novo pelas diferentes dimensões e aspectos do espaço. ele tem apenas reservas contra a superestimação errônea da pessoa enquanto independente do seu ambiente social.

em utilizar a energia e criatividade em benefício de uma empresa. Foucault descreve os espaços e os poderes para pô-los a nu . um poder especialmente poderoso sobre o espaço. o poder sobre o espaço é uma força estrutural que solapa sempre de novo esse empenho da territorialização. não é algo que proibe a ação alheia. O panopticon constitui um poder sobre o espaço que produz um efeito orientador da ação. padronizadora e disciplinadora. regras. ”Onde há poder. encorajar. Um panopticon pode desempenhar funções distintas (prisão. o conhecimento constitui um capital e com base nele a legitimação para abrir para si o acesso a outras áreas do conhecimento e campos ainda inexplorados ou a serem explorados mais detalhadamente” (Krasmann 1995: 246). O poder sobre o espaço atua como força normalizadora. que fundamenta as relações de poder. Por isso a pergunta por quem exerce o poder é irrelevante. mas é produtivo e estimula à ação (Foucault 1977: 250). Por um lado. mas em ele estimular. o ”poder de definição”. e rejeita o individualismo metodológico. O conhecimento está assim indissoluvelmente ligado ao poder.referido à disciplina médica. Por isso tanto a política do cotidiano como também a micropolítica entram mais no nosso campo de visão. é. subjacente a essa formação de poder e conhecimento. No âmbito do presente trabalho falo de poder sobre o espaço quando me refiro às forças que criam. Por um lado existe um espaço de poder. a escola enquanto aparelho examinador em função permanente” (Foucault 1977: 240) transforma-se no lugar de elaboração da pedagogia. i. hospital ou fábrica). Da mesma forma. diante de quem o detém (Deleuze 1992: 19). este é constituído assim e não diferentemente. Ele não pode ser simplesmente redesenhado pelos detentores do poder. ele não admite mais a existência de um ”centro do poder” nem um centro das forças.)15. desvalorizam e destroem os espaços de poder. compreendido como poder sobre o espaço. discursos” (Foucault 1977: 395). que primeiro precisam ser trazidas à superfície. No ordenamento arquitetônico concreto do panopticon são atribuídos determinados espaços às pessoas que nele se movem (ou são obrigadas a se movimentar nele). O poder. forçar a vender a força de trabalho à uma empresa. O poder é inerente à estrutura e é ela que produz as realidades.). constitui esse novo tipo de espaço de poder (Foucault 1977: 256 ss. não consiste tanto em ele oprimir as massas trabalhadoras. O poder sobre o espaço pode criar as condições para que os detentores do poder possam dominar. Trata-se de um poder estrutural. uma torre com pequenas celas nas margens e uma sala de controle no centro. pois o conhecimento produz um poder cada vez maior16. Assim num acampamento enquanto espaço de poder militarmente determinado predomina uma determinada organização do espaço. Como Foucault rejeita o modelo da soberania. o primado cabe ao lugar. Foucault mostra as rupturas e casualidades que possibilitaram a formação de espaços de poder e do poder estrutural. Por isso Foucault critica a construção do sujeito da Idade Moderna como um ser que pensa e age com autonomia. Foucault analisa as relações de poder nas quais o poder e o conhecimento atuam conjuntamente em práticas concretas (Foucault 1983: 113 s. a 15 Assim o médico ganha em importância com a mudança da função do hospital e o hospital se transforma em lugar de formação do conhecimento . As transformações não ocorrem em decorrência das posições de poder serem ocupadas por pessoas ”melhores”. O poder do capital. Por outro lado. inexiste dentro dos limites desse espaço de poder a possibilidade a ação autônoma. Gráfico 1: O panopticon Fonte: Foucault 1977: Ilustr. 17 Ao passo que a criação de espaços de poder é determinada pelo empenho em criar um espaço no qual se possa agir.e isso em muito mais áreas do que nas situaçõespadrão da opressão. 16 Aqui podemos distinguir dois momentos. 13 . tornado ”mais humano” ou ”adaptado às necessidades”. nele fundamentado. Diferentemente de Hobbes. instituições. Num jogo de vaivém o poder adquire um conhecimento que por sua vez fundamenta os direitos desse poder (cf. mas ele é determinado por forças estruturais não imediatamente reconhecíveis. ”mas uma rede complexa de elementos distintos muros. espaço. ”pois uma práxis discursiva forma o conhecimento. José Sarney administrou uma estrutura. reforçam. escola. Ele mobiliza. mas ele pode também solapar espaços de poder a tal ponto que o poder se parece dissolver: Getúlio Vargas teve poder. E apesar disso. Qualquer pessoa pode chegar e cumprir uma função de controle na torre central do panopticon. muito pelo contrário. Schmid 1991: 56). constroem. há resistência. O espaço de poder é algo dado e as pessoas precisam adaptar-se a ele. ou talvez precisamente por causa disso. O panopticon.poder geograficamente concretos.

que nas suas análises consegue operar também sem o conceito do território como espaço delimitado de poder. que só podem existir no campo estratégico das relações de poder. O poder cria um espaço de entrelaçamento que correlaciona hierarquicamente diferentes espaços parciais.resistência nunca está fora do poder. no panopticon ou nos acampamentos (Foucault 1977). que são pontos. A partir de agora um enfoque dialético deverá estar no primeiro plano. Essa é uma das razões. decerto não a menos importante. dispostas ao compromisso.2 Espaço Até agora apresentei a relação entre espaço de poder e poder sobre espaço como um dualismo. Ao invés disso. O palco do poder. 1. No entanto. Estruturas são formas consolidadas como prédios. distribuídos em densidade maior ou menor sobre o espaço e o tempo. Por isso o trabalho presente não se referirá explicitamente nem a Hobbes nem a Foucault. Com isso o poder enquanto poder sobre o espaço dispõe do potencial de solapar todo e qualquer poder sobre o espaço que se queira constituir autonomamente diante do poder sobre o espaço. A teorização sobre o poder bem como a sobre o espaço carecem de aprofundamento. Há resistências isoladas . violentas. ele analisa o ordenamento das práticas em um campo de poder. tão importante para conflitos em torno da mecânica do poder. A torre de controle domina as celas à margem do panopticon. o próximo com o segundo... Além disso Foucault analisa no espaço de entrelaçamento as distribuições sem poder explicar a estrutura dessas distribuições. Na torre de controle do panopticon juntam-se os fios do poder. semelhante ao de uma rede17. sendo que essa dialética se referirá tanto ao vaivém entre um poder localizado e um poder translocal quanto ao vaivém entre espaço e poder. Assim também o poder sobre o espaço de Foucault não está inteiramente subtraído ao alcance da ação. Em ambos. os habitantes têm inversamente a possilidade . interessadas ou dispostas ao sacrifício -. Assim o poder resulta de distribuições e alcances diferentes de práticas discursivas e organizacionais. pela qual o trabalho de Foucault permanece excessivamente vago para análises concretas do poder.a alma da revolta. mas elas não foram dimensionadas ad aeternitatem. A perspectiva que provará ser mais útil nesse contexto refere-se a uma regulamentação do território e do espaço de entrelaçamento.possíveis. O presente capítulo lida com o primeiro movimento em vaivém. o vaivém será apresentado sob diferentes facetas e com diferentes concepções. Esses pontos de resistência estão presentes em todos os lugares da rede do poder. não desempenha nenhum papel no pensamento de Foucault. Por isso inexiste na relação com o poder o lugar da Grande Recusa . e. o ponto focal de todas as rebeliões. nas suas margens os habitantes adaptam-se a uma norma previamente dada. necessárias. pode-se falar quase de uma obsessão nesse tocante.de demolir as paredes ou incendiar o panopticon.e Foucault não insiste suficientemente nisso . Em conexão com isso... 17 Foucault usa ocasionalmente metáforas espaciais apenas para tornar plausíveis determinados fenômenos. a lei pura do revolucionário. subalternas. cristalizando-se ocasionalmente em de modo duradouro em grupos ou indivíduos” (Foucault 1983: 116 s.g. Foucault refere-se também ao espaço geográfico concreto.). inconciliáveis. 14 . nós e focos de resistência.

que por sua vez se expressará em maior número de espectadores e patrocinadores e mais dinheiro. as regras do futebol também deverão ser adaptadas. Caso se jogue futebol em um campo e basquete em outro. Os agentes orientam-se segundo as regras que estruturam o jogo. pois não se joga apenas futebol em um campo.à do poder e à do contrapoder. i. citemos um exemplo do universo do esporte.Gráfico 2: O campo de futebol como tipo ideal Gráfico 3: O plano inclinado Gráfico 4: Campo de poder ((Topologia) e palco Gráfico 5: Poder sobre o espaço como estrutura profunda Fonte: sistematização do autor 1. Jogos de poder têm semelhanças com jogos de futebol (gráfico 2). apresentada a seguir. em duas dimensões isso resulta em um campo (na unidimensionalidade. Caso nos queiramos aproximar da realidade. trata-se de uma passarela ou de um palco).no ginásio. na esgrima. Dois lados se enfrentam. precisaremos abandonar a idéia de um campo plano que dá chances iguais aos dois equipes . se os jogos transcorrerem apenas em estádios vazios e os jogos de basquete forem transmitidos ao vivo. Quem tiver sido autorizado a jogar de cima para baixo terá as melhores chances de ganhar mesmo com regras ”leais”. em jogo rápido com muitos intervalos para encartes publicitários . uma determinada topologia distribui as chances de modo desigual (gráfico 3). Para esclarecer isso. tem por base determinadas imagens e metáforas espaciais. atua eficazmente em observância das regras.influa no tipo de jogar futebol.g. Essas quatro imagens mostram alguns dos processos que descreverei no curso do trabalho 15 .1 Jogos de poder A análise do poder sobre o espaço. Caso o futebol perca influência diante do basquete. Caso as transmissões televisivas assim o exijam. faz gols e ganha a partida. Pode acontecer até que o tipo de jogar basquete . e. mas também outras modalidades de esporte em outros campos (gráfico 4). O campo é ondulado. Mas essa imagem também ainda elimina do foco muitos aspectos dos jogos de poder na esfera político-econômica. remodelando-se a topologia do campo (gráfico 5). será de pouca serventia ter o melhor time de futebol. a posição dos jogadores se definirá pelo grau maior de estima social da respectiva modalidade esportiva. Quem é melhor. é.2.

Mas esse espaço de poder está em relação com outros espaços de poder. O espaço de poder aparece prima facie como um receptáculo desse tipo. O modelo de Hobbes forma a pedra fundamental de uma teoria da regulação ou do monitoramento de processos econômicos por parte de um centro de poder político. É certo que devemos perceber o que ocorre no palco. o poder sobre o espaço como rede.). os espaços são vistos como receptáculos produzidos. regiões ou nações . Por isso. que se situam nas profundezas e produzem a forma de manifestação contemporânea (cf. O poder sobre o espaço designa todas aquelas forças estruturais que atuam abaixo dos campos e dos palcos do poder. em contrapartida. O espaço de poder é compreendido aqui receptáculo. Perrons 1983: 9). Campos aparentemente estáveis podem se deslocar com excessiva rapidez e fazer com que ações percam o seu caráter rotineiro. pessoas residentes fora da comunidade podem ser atores centrais. Aqui as influências indiretas e não-intencionais ganham em importância. sendo que isso é uma relação estrutural que denomino poder sobre o espaço. A ação orientada para a transformação e uma ciência crítica devem dar amplo espaço a esse processo histórico da produção de espaços de poder.2 Receptáculo e rede Hobbes fundamenta o espaço de poder como espaço absoluto. Foucault remete a nossa 18 Em comunidades locais fechadas sobre si mesmas predomina o controle social in loco. pois eles atuam para dentro da região sem nela estarem fisicamente presentes. Isso não é nada fácil19. Por isso as lutas pelo poder buscam o controle sobre o receptáculo e os indivíduos e recursos nele contidos. enquanto coisa independente ao lado dos objetos corpóreos (Dunford. Há 200 anos não havia nações. em uma compreensão do espaço enquanto espaço absoluto. o presente tipo de análise examina determinados mecanismos sociais que atuam em determinados espaços de poder . Quando. É ”lógico” e ”evidente per se” que o poder é exercido dentro de um receptáculo e que ele não produz mais efeitos fora do mesmo. i. Tais como se apresentam. hoje não há mais espaços que não pertençam a nenhum estado-nação. 20 ”Reality may possess. 1. A redução do espaço à sua função de receptáculo leva também a não poder perceber o tempo como tempo histórico. os campos resultam das estratificações mais profundas.como territórios no sentido de receptáculos18. seu receptáculo de poder. ”Realism would have been greatly facilitated in the past if some conception of structural power had metaphorically skewed and made uneven and fissured that level table on which conceptual billiard balls from Hobbes to Dahl have moved so easily” (Clegg 1989: 209). Foucault descreve o poder sobre o espaço como um espaço de relações. O campo de futebol é um espaço de poder. preenchido por pessoas e coisas (Läpple 1991: 191). as it were. é. Por isso uma análise local deve considerar também os atores externos. assim como a física newtoniana. Massey 1984: 117 s. Com isso são examinados espaços de poder em um vácuo sem nenhuma referência a outros espaços parciais.cidades.2. Estas criam condições desiguais para os que usam esses campos. Ele tem a competência para valorizar e desvalorizar espaços de poder e configurar especificamente os campos em espaços de poder. Essa representação faz ver o espaço como um receptáculo. estruturalmente condicionadas. Augusto Pinochet se viu obrigado a reconhecer isso de forma dolorosa em Londres. 16 . Nessa concepção. Reflexões sérias não se podem satisfazer com a constatação superficial de que o poder atualmente é exercido em determinados palcos ou no interior de um determinado receptáculo20. Ocorre que espaços de poder devem ser constituídos por via da demarcação de uma fronteira e da imposição de uma ordem no interior das fronteiras. O poder sobre o espaço pode ser compreendido com ajuda da imagem das camadas histórico-geográficas. one would want to propose instead that ordered totality is an achievement and resource of power rather than its tacit frame” (Clegg 1989: 64). Durante a campanha eleitoral os candidatos no palco do poder lutam encarniçadamente pelo ”poder no Estado”. 19 ”Against the assumption that a given social space is a community displaying ordered totality. both an apparent surface and a deep structure which cannot immediately be apprehended” (Clegg 1989: 120). a dimensão histórica dos espaços passa para o primeiro plano. as delimitações se tornam menos nítidas: a resposta à pergunta ‘quem pertence a uma comunidade local?’ depende da análise da situação e do problema e não deriva mais exclusivamente da localização no ou fora do receptáculo (Clegg 1989: 64). O vencedor galga os picos do poder para governar a partir de então sobre o seu território. A teoria da mecânica do poder baseia-se.como dialética de espaço de poder e poder sobre o espaço. reconfigurando e elevando-os ou provocando o seu colapso. claramente delimitado. com atores e regras claramente definidos. fenômenos espaciais têm importância secundária diante das coisas e dos processos sociais em si. mas em um mundo crescentemente interligado o receptáculo se torna mais permeável. mas não devemos perder de vista os elementos estruturantes mais profundos.

O estado-nação representa um ponto nodal dessa espécie. no banco de reserva os jogadores podem enfiar o dedo no nariz. dos entrelaçamentos hierarquizados. reproduz as estruturas deste. Fazem parte disso no esporte as regras oficiais do jogo. Campos sociais. Bourdieu mobiliza quase que com evidência per se conceitos espaciais para referir-se à circunstância de uma situação social na qual a regulação.pontos nodais. Mas enquanto rede de instituições. Campos constituem o mundo circundante do palco e estruturam o chão deste. um ministério da família por uma mulher e um ministério da previdência social por um sindicalista é habitual. surgidas em meio a processos de longa duração (cf. Quando seringueiros se atam a árvores e impedem os lenhadores de desmatar a floresta tropical. Campos consistem de canais consolidados dos quais os agentes se servem regularmente. o Rei Sol -. Os centros desse espaço de entrelaçamento . Diante disso. as heterotopias devem ser compreendidas tanto como programa político quanto como representação de um objetivo e ainda como espaços observáveis 17 . o poder revela e libera forças que estimulam ações. O campo é uma concepção que relativiza o ordenamento fixo em um palco. tal como ele é amplamente utilizado na sociologia francesa. Encontra-se nas ações e reações dos atores que. o parlamento são palcospadrão. é.atenção. ele se encontra no sentido mais verdadeiro do termo em um palco.3 Palco e campos Há muitos campos nos quais se podem exercer o poder: a família. O fato de uma bola ser chutada para o escanteio quando um jogador está ferido é regra de bom estilo. pois trata-se essencialmente da relação entre os elementos do campo. i. Em contraposição. produzida pelas estruturas constitutivas do campo. Em ditaduras os palcos tendem a desaparecer da esfera pública. Enquanto espaços que se procuram subtrair ao alcance das estruturas. é. o próprio campo. 1. para o poder da economia. uma espécie de ”orquestração sem regente” está na pauta. gráfico 5). caso os atores consigam enfeixar nele forças estruturais. Para ele o poder não é nenhum fenômeno monitorável da regulação de ações. para além desses acessos referidos à mecânica e aos atores.2. 21 Ao lado do espaço enquanto espaço de entrelaçamento. esta se transforma em palco do poder. pelo fato das regras específicas da disciplina em questão colocarem determinados elementos no centro e outros à margem. heterotopias são lugares reais que são diferentes do que os lugares da estrutura existente (cf. na política. é. mas encontra-se na própria luta que. campos de futebol assim como campos de poder. Enquanto lugares sem lugar. Quando um líder sindical proclama diante dos portões da fábrica a decisão de entrar em greve. ubíquo. o pensamento de Foucault ainda se direciona para outros espaços. Permitem compreender o que é permitido e o que é proibido. eles representam mais do que a mera soma das ações consolidadas. portanto. sejam mantidas e a energia oriunda do equilíbrio de tensões seja mobilizada. que surge apenas no campo” (Bourdieu 1997: 31). Mas ao lado disso já há também regras que são observadas por serem de costume. e o titular do ‘poder absoluto’ deve engajar-se nesse campo de lutas ao menos a tal ponto que as divisões e cisões. mas além disso qualquer lugar se pode transformar em palco. não têm outra opção senão lutar para manter ou melhorar a sua posição no campo. mais diretamente interessado nessa representação. sobre o qual se age21. o conceito de ”campo social”. i. as hierarquias. embora continuem significativas.no nosso caso. Na zona de penalidade todo e qualquer passo é observado. os campos sociais são simultaneamente campos histórico-geográficos. pois a superfície atualmente perceptível dos campos sociais se estrutura sobre camadas superpostas. Foucault 1994: 15). definem o modo de ação dos atores e estruturam práticas e discursos. as leis cumprem esse papel. Em uma análise que concebe o espaço. o tempo e o fator social como uma unidade. Esse princípio de movimentos incessantes que perpassa o campo não está sediado em qualquer primum movens não-movido . mas não configura lei escrita. do ordenamento no centro ou na margem. a fábrica. como são chamados freqüentemente conferem estabilidade ao campo. i. mas a fábrica e o lugar na frente da fábrica se transformam também no sentido figurado em espaço de elaboração de conflitos. mas em outros contextos uma reserva extrativista ou a bolsa de matérias-primas podem desempenhar um papel decisivo. Um campo se define. enquanto o que se distribui. designa um espaço social estruturado como ”campo de forças”. Que um ministério da agricultura seja assumido por um representante dos produtores rurais. esconde-se na realidade um campo de lutas. ”Assim por trás de um ‘Estado’ que se tornou símbolo do absolutismo e que oferece ao próprio monarca (‘o Estado sou eu’). é. as lutas pelo poder subtraem-se à percepção coletiva. as utopias são essencialmente ”espaços irreais” (Foucault 1994: 14). contra a vontade do ser humano para atingir a verdade e o poder que torna o mundo dominável. Foucault dirige-se contra o poder disciplinador moderno. para conservar ou acumular o seu capital específico. i. o que é eficaz e o que nem chama a atenção. Muito pelo contrário. sob pena de se excluirem do jogo e cairem no nada. em grau supremo a aparência de um aparelho.

Na dimensão sócio-cultural forma-se em torno de um lugar uma comunidade com as suas raízes históricas. investimentos. capitalistas foram seqüestrados ou assassinados. Elas foram levadas pela coação muda das relações econômico-sociais ou pela coação por parte do poder de Estado a vender a sua força de trabalho aos proprietários dos meios de produção. compreende-se por espaços freqüentemente o que é fixo e estável. Se a esquerda conquistasse o poder. A conquista do poder [empowerment] no espaço do poder político afigura-se como um processo geográfico de galgar o topo da sociedade .2. de propriedades climáticas e ecológicas registra-se traços característicos presumidamente eternos e naturais de localidades. dinheiro. Constituiu-se assim uma sociedade cindida em classes. é. A ”acumulação originária” privou partes da população dos seus meios de subsistência (cf. Essa estrutura de poder especificamente capitalista baseia-se na separação do poder econômico do capital do poder político do Estado. ao passo que o poder sobre o espaço pode ser compreendido como espaço econômico. Eles representam o Outro. que dissolve no ar tudo o que é sólido. Isso é mostrado de forma particularmente pertinente por David Harvey (Harvey 1996: 291-326). pois a realização desses lucros defronta os proprietários de capital com a circunstância de não poderem fugir duradouramente da necessidade de localização. pois separam o próprio do outro. Mas a maior força propulsora da transformação é a busca de aplicações lucrativas do capital empregado. industriais dispostos a emigrar. o espaço político e o espaço econômico aparecem lado a lado. Um espaço de poder afigura-se então como espaço político. 24). Hotéis tradicionais são substituídos em todas as metrópoles mundiais por cadeias hoteleiras. todos eles solapam as estruturas orgânicas locais. Harvey mostra que essa dialética reflete a contradição fundamental do capital: ele precisa localizar-se e busca constantemente encontrar novas formas e localidades mais atraente para a sua aplicação. pois o capitalismo se caracteriza pelo fato do poder econômico estar separado do poder político. um ”exterior” ao status quo. conforme poderia sugerir uma análise radicalizada do poder em perspectiva hobbesiana. Space é o poder da uniformização que destrói o lugar enquanto local especial. Essa estrutura social surgiu em um processo de destruição criadora a partir de ordenamentos pré-capitalistas. i. seus costumes e suas tradições às quais no discurso público se pode. portanto na direita. o poder do capital seria quebrado ou ao menos enfraquecido. concretos. As coisas se passam de maneira inteiramente distinta com space. Com efeito. atribuir igualmente um tal caráter duradouro e imutável. No mundo inteiro. como se ela se dirigisse contra coisas ou pessoas.1. o espaço econômico é controlado por aqueles que controlam os fluxos de mercadorias. ricas regiões industriais em velhas zonas industriais e vilarejos indígenas abandonados em centros preferidos para passeios turísticos. o empresário o poder econômico. ele é ”o poder que tudo domina na sociedade burguesa” (Marx 1974: 27). compreendida como dominação econômica strictiore sensu. já podem existir muitas possibilidades de melhores aplicações do dinheiro. A categoria central da Economia Política é o capital.4 Place and Space Nos países de língua inglesa a dialética espacial freqüentemente é discutida como jogo de place (lugar) e space (espaço). a luta de libertação de movimentos sociais freqüentemente se dirige contra o capital. em caso de necessidade. Mas esta é uma análise limitada.digamos. Lugares instauram identidades. O mal é localizado nos partidos que estão próximos do capital. Cidades de garimpeiros de ouro transformam-se em cidades-fantasma. Marx 1983: cap. que seduz a um comportamento político mecânico. O processo de acumulação somente pode ser posto em marcha com a construção de fábricas e escritórios. A exploração. pois este é visto como poder sobre o espaço. autores de inovações tecnológicas. Com definições de graus de longitude e latitude. as lojas típicas para cada bairro se vêem obrigadas a ceder aos shopping centers uniformizadores. um presidente da república exerce o poder político. Por sua vez. A política e a economia. 1. Aparentemente. como a força da alteração e transformação. Especialmente adequadas são nesse sentido as aplicações financeiras que aparentemente realizam o desejo do capital de não estar mais vinculado a nenhum lugar. O capital rege.5 Espaços político e econômico Para indagações político-econômicas a dialética do espaço se apresenta sob forma distinta. Mas quando esses investimentos uma vez foram feitos em instalações e máquinas. a presidência da república. Especuladores. A substituição do capital por forças progressistas é compreendida equivocadamente como um processo simplista da troca dos donos do poder. se dá pelo processo produtivo e pela retirada da mais-valia. pelas grandes empresas e bancos multinacionais. a sua reprodução forma a base do desenvolvimento social. Embora espaços sempre sejam produzidos.2. Tal mecânica social seria simultaneamente uma dinâmica espacial. Máquinas foram destruídas. 18 .

os custos reduzidos da superação do espaço conduzem a uma ”compressão de espaço e tempo”. tal como praticado atualmente.). riqueza. Cada espaço de funções teria o seu espaço e tempo próprios. a uma ”destruição do espaço” pelo tempo (Harvey 1996: 242 ss. é que a relação com outros territórios. 19 . Concretamente há diferentes fronteiras políticas. resultante do seu enfoque. educação e cultura. A concepção dos espaços funcionais remete ao nexo de espaço e processo social. A ecologia seria regional e o período ecológico da regeneração de recursos naturais seria longo. nos seguintes termos: ”Deve-se esclarecer. é. 23 Tendencialmente as competências localizam-se nos planos estadual e municipal nas áreas da ecologia (sobretudo da regulamentação da estrutura fundiária) e da política social (sobretudo da disponibilização dos serviços sociais). o território carece da fronteira. é o resultado de muitas decisões nacionais no sentido de liberalizar e desregulamentar os mercados. Inversamente. deve ser melhor apreendido com a concepção do território. Saunders (1987) viu . o espaço político. por outro ainda não suficientemente claro. a nação e a região se articulam. de resto o lobbyismo empresarial costuma operar sempre de forma mais indireta. Em território idêntico22 entrelaçam-se assim a ecologia da região. No plano federal estão tradicionalmente ancoradas a regulamentação das relações exteriores e as competências econômicas. i. que ultrapassa uma redução funcionalista.6 Território e espaço de entrelaçamento Altvater (1987) conceitualiza processos de desenvolvimento a partir de espaços de funções. a política do estado-nação e a economia do mercado mundial em um determinado ”padrão de articulação” (Altvater 1987: 94). i. por quais mecanismos de atuação as tendências do mercado mundial se transpõem para realidades nacionais e regionais. No caso dos grandes grupos da mídia tal influência é exercida abertamente. 1.em redução igualmente funcionalista -na disponibilização do ”consumo coletivo” (saúde. como o mercado mundial. a política à nação e a economia ao mundo. Ao invés de falar de um espaço funcional econômico. ainda. Por conseguinte. O próprio Altvater ultrapassa uma concepção estreita do espaço funcional ao registrar ”que em um espaço territorial idêntico espaços funcionais distintos coexistem (não pacificamente. Por sua vez. portanto. o plano político colocado no meio faria a mediação entre os prazos curto e longo e entre região e mercado mundial. Por sua vez. é. não é suficientemente analisada. A liberdade nos mercados das mercadorias industrias se defronta com o forte controle nos produtos agropecuários e a forte regulamentação de um mercado global de trabalho. é. Conheci demasiado tarde para poder incorporar sistematicamente as explanações muito interessantes de Tayloer (1984 e 1985) sobre o território enquanto receptáculo de poder. Por conseguinte. Por outro lado o processo de circulação do capital seria breve e o espaço do capital global. As novas tecnologias da informação e dos transportes possibilitam a formação de redes mais extensas no espaço econômico. Sack 1986). é formulado pelo próprio Altvater. mais adequado aduzir a concepção do espaço de entrelaçamento. Nos planos espaciais inferiores há nos países com estrutura federativa estados e municípios com uma área de competências próprias23. tal enfoque ignora que os economicamente poderosos exercem uma influência maciça sobre o processo das decisões políticas. Nesse último são institucionalizadas regras por parte do poder estatal que vinculam as pessoas que vivem num espaço geográfico claramente definido. como fatores exógenos são endogeneizados” (Altvater 1987: 87). A crítica ao presente trabalho. também os espaços político e econômico formam uma relação dialética. Isso por um lado é correto. O programa de pesquisas dessa análise dialética do espaço. O poder territorial é mais centralizado do que o poder no espaço de entrelaçamento. bem na linha do enfoque latinoamericano histórico-estrutural. a interterritorialidade. Disso resulta um significado duplo para o fator local: ele é tanto um resumo de lugares relativamente homogêneos quanto também o lugar no qual as contradições se concretizam (Altvater 1987: 80). pois esse nexo só pode ser compreendido como uma correlação dialética de funções a espaços. O comércio mundial. Mas como vale em princípio para o funcionalismo. para ganhar dinheiro e influir nas regras. tal concepção envolve uma compreensão a-histórica de padrões político-econômicos aparentemente estáveis. Resultaria assim um padrão que atribuiria funções às regiões: a ecologia à região.2. políticos e econômicos estão submetidas a uma transformação que se acelera em tempos de crises.aparentemente sem nexo. concebido por Altvater como espaço funcional. A forma e a espacialidade de processos eco-sociais. embora não a única. sendo que a nacional é a mais importante. a política e a ecologia social ou o mundo. A fraqueza do seu enfoque reside no fato de não tematizar os atores no receptáculo. tráfego) o campo de análises da Sociologia Urbana. cultura e sociedade. Ao passo que esse último é permeável. a estrutura do espaço econômico resulta de uma pletora de regulamentações políticas. mas de modo contraditório-conflitivo)” (Altvater 1987: 88). habitação. Nos nossos dias 22 A ampla discussão sobre o território não pôde ser levada em consideração nesse trabalho (cf. em outras palavras.

localizadas.3 Poder No capítulo anterior o espaço foi o ponto de partida de uma análise dialética do espaço e do poder. 20 . diga-se de passagem.3. a fundamentação da história político-econômica regional em uma recepção crítica da teoria da regulação e a análise orçamentária representam progressos essenciais na conceitualização. Se. um espaço relacional. mesmo esse traço distintivo do espaço político perde a sua relevância. O que vale para o espaço econômico. Só uma análise empírica pode mostrar quão grandes são as margens de ação diante de estruturas crescidas no decurso de séculos25. Mas em termos de conteúdos há um excedente. o processamento e a reinterpretação das análises existentes do desenvolvimento político-econômico brasileiro. a totalidade da regulamentação política do território nacional? Geograficamente as fronteiras entre o território do estado-nação são congruentes com as da totalidade da regulação política. O espaço político nunca é definitivo. A prefeita negocia com o governador. embora nunca em circunstâncias escolhidas por elas mesmas. essa dialética determina substancialmente o desenvolvimento do Brasil. mas uma manutenção da regulação antiga enfraquece as forças que insistem na internacionalização e bloqueia a ampliação do espaço de entrelaçamento econômico.1 Ação e estrutura A pergunta pelo poder sempre é também uma pergunta pelas possibilidades de ação. Mas o estudo do mesmo contexto espacial durante muitos anos facilitou também no campo da teoria a clarificação de vários problemas e o aprofundamento de algumas descobertas.e na pesquisa de uma região . Já então ocupei-me com problemas similares com base na região de São Paulo. dos de ação e estrutura. Conforme evidenciará a análise empírica. ocorrem sobreposições e recobrimentos do território que transformam-no em espaço relacional. As pessoas fazem a sua geografia. pois os governos nacionais iniciavam passos de liberalização e desistiam de regular os entrelaçamentos monetários e de investimentos. entre um conceito unidimensional do espaço e um conceito de espaço orientado para a produção. O território é também um campo estruturado pelas relações. no entanto. portanto. Agora desloco o foco até o pólo do poder e com isso na direção de uma série de novas concepções dualistas que devem ser encaminhadas em um vaivém dialético.foram questionadas ainda há pouco tempo correlações evidentes per se de funções e espaços. um 24 A partir dos anos 60 a extensão do espaço de entrelaçamento econômico conduziu a formas de regulação política crescentemente instáveis. A clara distinção entre uma visão mecânica e uma visão topológica na análise do poder. as vantagens saltam aos olhos e não necessitam de menção espacial . Mas ao mesmo tempo a continuidade na pesquisa de um país . os conflitos se agudizam no sistema estatal em decisões centralizadas: na tomada ou não-tomada de decisões por parte de instâncias estatais competentes.apresenta vantagens decisivas para o trabalho científico. os vereadores se valem do seu cargo como plataforma para o salto na política nacional. Poder significa em português tanto ‘domínio. Concretamente estão em pauta os diferentes aspectos dos dualismos de política e economia. 25 O presente trabalho continua a minha tese de doutorado sobre o tema ”Resistência local e mudanças estruturais no Brasil” (Novy 1994). Eleições podem influenciar estruturas de poder? Existe um movimento inercial da estrutura. Existe uma dialética de espaço econômico e político e de produção de território e de produção do espaço de entrelaçamento. da sua valorização e desvalorização24. Referidas ao material empírico e à qualidade da pesquisa de campo. embora vá muito além deles. Mas diferentemente do espaço de entrelaçamento econômico. objeto de um estudo de caso. 1. força’. mas sempre apenas fixado passageiramente como território (Jessop 1990: 268). vale também para o político: existe constantemente a possibilidade da sua transformação profunda. ganhando o elemento relacional um significado ainda maior.São Paulo . o espaço da sociedade civil e o estabelecimento de regras por meio de normas for incluído na análise da regulação. 1. influência. O que é. quanto ‘ter condições’. Quem tem poder pode agir. A partir de um determinado momento velhas regulações políticas bloqueiam o espaço econômico e exigem decisões sobre o encaminhamento de desenvolvimentos futuros: a liberalização das regulações nacionais permite a liberação do potencial transformador. Esse trabalho baseia-se nos resultados da tese de doutorado. a saber. Estado e capital e regulação e acumulação. Muitas das descobertas então feitas figuram também nesse trabalho.embora a parte preponderante dos dados aqui utilizados ainda não tenha sido usada na minha dissertação de doutorado.que. é 104 vezes maior do que a Áustria .

As duas ações produzem efeitos no debate social.destino ao qual ninguém escapa e que inibe toda e qualquer tentativa de configuração da sociedade? Nas ciências sociais o interesse pelas questões do espaço despertou nos anos 70 no curso das discussões sobre as teorias da estrutura e da ação. mas não é nada claro se com isso as instituições da ”língua portuguesa” e do ”matrimônio” sofrem um abalo. Diante do enorme poder da ”globalização” não existiria mais nenhum espaço para a ação alternativa. apenas um desafio científico. bem no 26 Essas relações. as duas formas fundamentais do capitalismo são examinadas mais detalhadamente. Como muitas pessoas falaram português no Brasil durante muito tempo. a língua portuguesa se institucionalizou. O poder é a capacidade humana de configurar alguma coisa. Como muitas pessoas casam. Aqui deve ficar claro que as estruturas não atuam apenas de forma proibitiva. A seguir. ao passo que as estruturas seriam regularidades transespaciais. Mas desde o princípio as estruturas capitalistas surgiram juntamente com a criação de uma ordem estatal. Se Marx registra que os homens fazem a sua história. poderiam os movimentos de base fazer história? Teorias da ação ocupam-se. e questionadas por meio da resistência. embora o capital desempenhe nesse conceito.)26. Mattl 1999). sendo que as últimas representam padrões consolidados. como se os agentes fossem meros marionetes em um drama que se afigura divino para uns e diabólico para outros. Mas com isso o programa da transformação da estrutura se torna um processo simplista de recusa da reprodução da estrutura existente: falo novamente a língua indígena guarani ou não me caso. são ”princípios da organização de totalidades sociais”. por meio da ação rotineira. Trata-se de um vaivém de ação e instituições. Quem lamenta mazelas em democracias pode estar defendendo ditaduras. começaram também a criar um sistema que abrangeu todo o mundo e é denominado capitalismo. Aqui o debate esteve centrado na pergunta se a sociedade poderia ser explicada pela ação de indivíduos ou se esses indivíduos apenas seriam portadores de estruturas. A ação social tem conseqüências nãointencionadas. 1. O que Giddens elimina assim do foco.3. A elaboração de um conceito de estrutura não é. as estruturas influem na ação. A defesa da liberdade de imprensa pode conduzir a monopólios da informação e a exigência de aumentos salariais pode resultar no fechamento da empresa. ele não se esquece de chamar a atenção ao fato de que isso somente é possível em meio a estruturas previamente dadas. de modo que um pragmatismo cínico se afiguraria como única saída. pois. Anthony Giddens fez na sua ”dualidade de estruturas” uma tentativa de pensar a estrutura e a ação em uma unidade. Ao passo que instituições são cotidianamente renovadas com vistas à sua existência continuada. A instituição nesse sentido muitas vezes é equiparada erroneamente à estrutura. um papel chave. Com isso determinadas práticas são generalizadas para além de segmentos de espaço e de tempo (Giddens 1988: 76). quero sondar a extensão das margens de ação sem eliminar do foco o poder das estruturas. As estruturas que hoje encontramos no Brasil refletem o modo pelo qual esse capitalismo se concretizou no Brasil. Quando uma análise do poder sobre o espaço examina unicamente as formas institucionais. mas também orientam a ação. sem o Estado não existe o capital e sem o capital não há Estado (na forma na qual o conhecemos hoje). Em primeiro lugar. Exerceria. Por essa razão as reflexões de Foucault sobre o poder e o espaço continuarão significativas para o conceito político-econômico de estrutura. perde-se a noção da totalidade. Por outro lado as estruturas não são coisas ”lá em cima” que definem a nossa ação ”aqui em baixo”. são essas estruturas profundas que estruturam a sociedade na sua totalidade (Hamedinger 1998: 208 ss. e talvez por trás do matrimônio exista uma estrutura profunda das relações entre os gêneros que ainda subsiste muito tempo depois dos registros civis terem desaparecido. Talvez a visão ocidental do mundo também seja transmitida pelas línguas indígenas faladas nas reservas. Vale ao menos refletir sobre se por trás do instrumento de dominação ”língua portuguesa” não se esconde uma visão ocidental do mundo que pode ser separada da língua. mas pressuposto de uma práxis política eficaz. mas não necessariamente do modo intencionado pelos dominantes. O Estado é comumente percebido como o detentor por excelência do poder. existe a instituição do matrimônio. O Estado e o capital formam dois momentos dialéticos de um processo. que Giddens denomina princípios estruturais (1988: 240). 21 . com as práticas in loco. Poderia Lula. fomentando com isso um sentimento de impotência (Novy. as estruturas subtraem-se a essa apreensão simples graças à práxis humana.2 Estado e capital Estado Quando os europeus descobriram por volta de 1500 o mundo para si. rotinizados de ação. portanto. Ocorre que os discursos como o sobre a globalização muitas vezes transmitem justamente essa impressão da liberação das tecnologias e das forças produtivas enquanto estruturas coisificadas e todo-poderosas. diferentemente de Foucault. Toda e qualquer ação atua sobre estruturas sociais. de agir. de fazer história e geografia. Tenho duas coisas em mente.

sentido da mecânica de Hobbes, a dominação sobre o seu território. Mas diferentemente dos reinos do passado, os Estados de hoje são formas complexas. No lugar do indivíduo isolado dominador - do rei - temos hoje uma divisão de poderes entre Executivo, Legislativo e Judiciário. O governo simboliza aqui o centro do poder, é o palco do poder por excelência. Quem rege nesse país, eis a questão política fundamental. Mas a luta pelo Executivo, pelo assim chamado poder no Estado, é apenas parte de lutas histórico-geográficas pelo poder. Sabemos à saciedade que a administração pública, encarregada da implementação nada neutra do poder, detém um poder cada vez maior. Os governos passam, os funcionários ficam, razão pela qual a administração pública responde em última instância pela permanência do Estado. Mas no âmbito da administração valem regras próprias e são perseguidos interesses próprios. Tudo isso só pode ser transformado lenta e indiretamente a partir de fora. Por sua vez, a legislação é tarefa de uma outra organização, do parlamento enquanto assembléia dos representantes do povo. Se o parlamento representa a sociedade com os seus múltiplos e contraditórios interesses, existe o risco de que também no parlamento seja defendida uma multiplicidade de interesses particularistas. Determinados deputados representam então os interesses de uma região o religião, de um setor da economia ou de um grupo populacional: a desordem está pré-programada, escancara-se o caminho para a compra dos votos. Sem o enfeixamento desses interesses no âmbito de partidos é difícil elaborar a partir desses múltiplos interesses estratégias para o Estado e a sociedade que sejam capazes de angariar o apoio da maioria dos eleitores (Jessop 1990: 364) Mas onde deve ser traçado o limite do Estado? O que faz parte dele, o que não entra? Imaginemos que o Departamento Municipal de Limpeza Urbana transforma-se na empresa ”Lixo Ltda.”, de propriedade do município, privatizada alguns anos depois e contratada pelo Estado. Será que o hospital administrado pelo governo é estatal, diferentemente do posto de saúde subsidiado integralmente e mantido por uma associação? Será que uma Câmara de Indústria e Comércio é parte do Estado pelo fato da filiação obrigatória ter sido fixada em lei, diferentemente de uma associação de industriais organizada segundo os princípios do Direito Privado? Segundo que critérios devemos traçar limites aqui? Mais uma vez faz-se necessário um exame mais aprofundado da estrutura do Estado. Aqui parece ser útil recorrer, na esteira do comunista italiano Antonio Gramsci (1971: 12), a uma tradição antiga da teoria política que distingue duas formas de dominação, o consenso e a coação. Compete ao Estado impor uma determinada ordem mediante coação. Especial importância têm aqui o monopólio da violência e da instituição de regras, sendo que os meios mais importantes aqui são as armas, o direito e o dinheiro. Um estado soberano luta para que exista somente um exército e uma polícia, um órgão legislador e uma instância emitente de moeda. Onde isso é questionado, o soberano se vê desafiado. À guisa de reação, ele combate a guerrilha e o crime organizado, sob pena da população perder a confiança no Estado. O soberano proibe a dolarização ou aceita o mercado paralelo. Mas ao lado do negócio central do Estado, baseado na coação, a geração do consenso desempenha no médio prazo um papel igualmente significativo. Aqui o sistema educacional desempenha um papel chave, mas a assistência social e mais tarde o Estado de Bem-Estar Social também foram importantes na estabilização da ordem existente. Acresce que os detentores do poder estatal freqüentemente são assistidos por atores não-estatais como as igrejas e os meios de comunicação para sacramentar o status quo e produzir a hegemonia social. Assim a hegemonia enquanto dominação não é apenas a posse do poder, mas descreve a conquista dos corações, a ”soberania sobre as mesas reservadas para a clientela fixa”*) e a concordância ativa daqueles, dessarte adquirida, dos quais se deveria supor que não tiram proveito da ordem existente. Esse âmbito é denominado sociedade civil, sendo que a falta de coação direta torna possível que atores isolados da sociedade civil se voltem também contra a ordem existente. A igreja pode ser local da resistência, os sindicatos podem tornar-se centros da oposição e às vezes os movimentos de base formam o núcleo de um movimento social que transforma toda a sociedade (cf. Novy 1996). Juntamente, o Estado e a sociedade civil formam o que Gramsci denomina o estado ampliado. Este abrange um campo de poder em torno do qual lutam todos os grupos sociais relevantes. Todos querem beliscar o orçamento e influir nas regras do jogo político. Isso vale também para os econômica e socialmente poderosos, pois se eles querem determinar o curso da política, são obrigados a garantir posições para si no campo de poder do Estado. O Estado deve sancionar projetos e estratégias sociais ou ao menos tolerá-los. Forças neoliberais não podem simplesmente praticar a liberdade do Estado, pois os sindicatos, os tribunais e outras instâncias não aceitariam isso. Elas podem ensaiar a desconsideração pura e simples das leis trabalhistas, mas isso poderia custar caro. Quando neoliberais não querem arriscar isso, eles precisam trilhar o caminho pelas instituições políticas e impor uma nova legislação
*)

A expressão refere-se a uma instituição emblemática da classe média alemã, ao Stammtisch. O termo é intraduzível na gama das suas associações e designa a mesa de um bar ou restaurante, reservada para uma clientela cativa e freqüentada periodicamente por pessoas de horizonte estreito e mentalidade chauvinista, que bebem cerveja e discutem assuntos políticos. (Nota do Tradutor).

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trabalhista. O sucesso ou malogro dessa estratégia depende da configuração organizacional do aparelho de estado, mas também da base social que determinados projetos de estado promovem (Jessop 1990: 161). No início dos anos 80 Thatcher e Reagan mudaram exitosamente as regras do jogo político, no que eles de modo nenhum diminuíram o Estado, mas tão-somente criaram uma outra estrutura estatal. Os arautos do neoliberalismo assumiram o comando da sociedade, pois sabiam o que queriam, i. é, tinham um projeto para o Estado e a sociedade. Por isso o papel dos intelectuais é de central importância, pois eles elaboram projetos sociais que orientam a ação de grupos e classes. Embora seja possível esboçar novos projetos de Estado e sociedade fora do Estado, tais esforços devem ecoar na estrurura do Estado para ganharem eficácia (Jessop 1990: 210). Projetos de Estado definem as fronteiras funcionais do Estado e conferem sentido, orientação e ordem à ação estatal. O Estado de Bem-Estar Social, que pretende estabilizar a acumulação por meio da homogeneização social, baseia-se num projeto de Estado fundamentalmente distinto do do Estado Concorrencial neoliberal, cuja tarefa reside no posicionamento ótimo de um espaço em meio à economia mundial. Projetos de Estado definem a finalidade do Estado e o lugar dos seus campos de atuação. Isso obviamente está estreitamente entremeado com representações da sociedade na sua totalidade. Projetos hegemônicos ocupam-se com tais propostas de organização da sociedade na sua totalidade. Aqui estão na pauta o estado ampliado, o estado e a sociedade civil. A hegemonia enquando estado social estável designa um período de desenvolvimento estável e estruturas de poder consolidadas. Ocorre que tal estabilização social e cultural é difícil em virtude da dinâmica capitalista. Por isso se pode constatar quase sempre projetos hegemônicos distintos e estratégicas hegemônicas conflitivas, que se entrechocam no disputado campo do estado ampliado. Assim o Estado não é apenas um espaço de poder claramente definido, ocupado pelos detentores do poder, mas também um poder sobre o espaço no sentido de um campo de relações, forças ou organizações. Capital A análise topológica chama a atenção ao fato de que o Estado não pode ser compreendido sem a análise da economia e da sociedade. O poder é excessivamente multi-estratificado para que um detentor do poder pudesse adonar-se dele. Enquanto processo político de conquista do poder estatal, a tomada do poder sempre é apenas um momento de uma dialética que é solapada por poderes oriundos da sociedade e da economia. Compreendido como força produtiva que pode mover montanhas, o capital representa a forma estrutural na qual se concentra o foco do presente trabalho27. Há quem afirme que o Brasil já esteve inserido no sistema mundial capitalista desde o início da produção de açúcar para a Europa. O sistema de dominação europeu, que consistia na drenagem da riqueza, constituiu efetivamente um poder estrutural sobre o espaço que atribuía ao Brasil uma posição periférica na hierarquia mundial. Mas essa é uma conceitualização excessivamente abstrata de capital, pois atribui à lógica do capital um poder demasiado inexorável. Essa análise simplificadora examina sobretudo o espaço de entrelaçamento econômico e nega a necessidade do capital de localizar-se. Ocorre que o capital precisa ser investido em plantações ou fábricas, i. é, in loco. Por isso o movimento em ponto morto da estrutura, o empenho constante do capital pela sua rentabilização ótima não dá conta de todo o processo. O fato de empresários sempre terem acumulado riquezas na história do Brasil é um enunciado excessivamente genérico para a compreensão de processos sociais, igualmente o fato da história do Brasil ser uma história da opressão. De resto, tal opinião também é defendida por pessoas claramente reacionárias e lastimado - ao menos em público. Essa análise da dominação, apresentada em perspectiva crítica, desemboca na afirmação de que ”de qualquer modo não se pode fazer nada”. Por isso, para não degradar as pessoas em meros portadores de estruturas, essa perspectiva não pode ficar inconteste. Há também pessoas que fazem história, à medida que se engajam em conflitos sociais. Mais especificamente, a luta de classes acompanha constantemente o movimento do capital. No fim do exercício os balanços exibem o lucro, mas por trás deste se escondem os conflitos para o arrocho ou a majoração salariais, as greves e os ‘lock-outs’, as instruções vexatórias ou as experiências com o trabalho em equipes. Por isso as teorias da ação enfatizam a dominância do fator político. Enquanto análise das lutas de classe, elas se concentram nas lutas sociais em lugares concretos. Essas lutas nos palcos do poder modificam a forma da valorização do capital; uma greve ganha aumenta a quota salarial. As estruturas mudam num processo de reordenamento espacial constante das relações comerciais e creditícias, assim como também devido a leis e intervenções militares territorialmente restritas. Por isso vejo o capitalismo como uma forma específica da dominação e da acumulação de riquezas. No capitalismo, a dominação baseia-se na separação do poder político e do poder econômico, produzida em um processo histórico. Mesmo ditadores não podem interferir a bel-prazer em direitos de propriedade sem por em risco a estrutura fundamental capitalista. O bom andamento dos negócios pode possibilitar aos empresários eludir as leis. Necessita-se, porém, do Legislativo
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Formas estruturais resultam de princípios genéricos de socialização e são objetivações do nexo social que se põe de modo fetichizado e coisificado diante dos indivíduos (Hirsch 1992: 212).

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para promulgar as leis. Embora o poder político esteja intimamente entrelaçado com o poder econômico, ambos só se unem excepcionalmente na mesma instância. Também no Brasil existem os Cidadãos Kanes que, como o mega-empresário Barão de Mauá, procuraram conquistar em vão todo o poder, i. é, também o poder político (Caldeira 1999). Atores econômicos precisam ”comprar” o poder político. Políticos precisam ”regular” o seu ganho de poder econômico. Em uma análise de economia política, o poder está coisificado no imperativo da acumulação. O capital é uma estrutura que os indivíduos não podem simplesmente agarrar. Ele é um processo, uma coação à busca sempre nova do lucro, não uma pessoa ou organização ”poderosa”. Dessa busca do lucro não parte nenhuma causalidade unívoca, generalizável; porém, as estratégias concretas de poder de vários grupos são maciçamente influenciadas em determinadas direções. O capital é um movimento social e não pode ser compreendido simplesmente como algo material, como a acumulação de dinheiro e propriedades. Historicamente, a forma mais habitual da acumulação da riqueza foi a apropriação política por parte dos dominantes. O processo de troca representa uma outra forma da apropriação possível da riqueza. Ambas as formas, a apropriação política e a apropriação por via da troca, podem ser observadas até hoje no Brasil, mas não são o cerne da acumulação capitalista de riquezas, pois este encontra-se no processo produtivo, onde pessoas em si livres se subordinam ao poder econômico. Lá se produz in loco por meio da produção concentrada e organizada um valor superior ao investido no processo. Pode se falar de um espaço de poder econômico onde se chega à produção de valores. Essa mais-valia é a base da acumulação e constitui a riqueza de um espaço. Tal conceitualização dialética do capitalismo permite admitir a dialética espacial de território e espaço de entrelaçamento, de conflitos políticos e dinâmicas econômicas, de ação e produção in loco e das estruturas transespaciais de crédito e comércio. As estruturas têm permanência, e apesar disso existe constantemente a possibilidade de que essa estrutura seja solapada pela ação ou não-ação. Deve-se reter ainda um ponto para compreender a essência da estrutura do capital. É certo que o capital, compreendido como direito à propriedade, exclui outros: da propriedade fundiária, dos meios de produção etc. Mas além disso o capital estimula à ação, é produtivo. Cria realidades, transmuda coisas, pessoas, paisagens e espaços. O capital produz uma sociedade que retroage sobre si mesma, educando as pessoas a agirem como empreendedores, comprar e vender constantemente - mesmo se for apenas a própria força de trabalho. As estruturas produzidas se defrontam com as pessoas como algo coisificado, inexorável, denominado ”excedente de objetividade” (Görg 1995: 628; Esser et al. 1994: 216). Aqui se evidencia a força de um conceito do capital em termos de economia política. De acordo com ele, o capital não é nenhuma coisa, nenhum acúmulo de recursos, mas uma relação social determinada pela forma (Jessop 1990: 197), um movimento, a saber a reprodução de uma sociedade (Oliveira 1989: 2). A força propulsora dessa sociedade consiste em interiorizar estímulos. Assim os trabalhadores promovem de moto próprio a reprodução de sociedades capitalistas, à medida que querem vender a sua força de trabalho. O brilho do universo das mercadorias seduz a uma identificação sempre maior com um mundo vivido baseado nas mercadorias. A destruição do abastecimento por produtores localizados na proximidades e da produção para o consumo próprio é aceita, pois simultaneamente se produz coisas novas e modernas nos supermercados e nas áreas de monoculturas. Trata-se de um poder mais sutil do que o poder de proibição, exercido por ditadores e pelos detentores do poder político. Estado e capital Enquanto formas fundamentais do capitalismo, o Estado e o capital surgiram em meio a um processo de muitos séculos. Assim como os conhecemos atualmente, os estados distinguem-se substancialmente dos diferentes sistemas políticos, como da pólis grega ou do império medieval (Rotermund 1997)28. Até a Idade Moderna os territórios sempre foram delimitados de modo apenas difuso. Os poderes espiritual e temporal sobrepunham-se e impediam toda e qualquer pretensão de vigência absoluta. As cidades medievais que começaram a subtrair-se da ordem feudal, foram os primeiros pontos espaciais nodais no capitalismo em vias de formação (Clegg 1989: 244). Contra as cidades enquanto espaços descentralizados de poder formou-se a corte dos monarcas como ponto nodal de um novo poder sobre o espaço. Os monarcas começaram a controlar o seu território e centralizar a cobrança de impostos. ”Simplificando grosseiramente, podemos designar os estados nacionais como os novos receptáculos do poder que assumem o lugar das cidades” (Giddens 1988: 252).
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Até séc. XVIII adentro havia na Inglaterra uma série de conceitos para designar o Estado: ”regnum”, ”res publica”, ”monarchia”, ”commonwealth”, ”nation”, ”civil society” (Jessop 1990: 348). Posteriormente o conceito serviu basicamente para distinguir entre o dominador e o seu aparelho. Ao passo que o primeiro é mortal, o Estado enquanto aparelho é duradouro. Mas o Estado serviu também para a distinção entre o aparelho e as pessoas sujeitas a ele, i. é, a sociedade. Conseqüentemente, o poder do Estado é duplamente impessoal: ele não é o poder do dominador nem o dos dominados.

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para que possa simplesmente seguir as necessidades de uma lógica imaginária do capital. A conceitualização do Estado como ”campo estratégico” destina-se a impedir a atribuição apressada de um caráter agente ao Estado (Demirovic 1997: 44). O Estado é o lugar da luta de classes e simultaneamente o resultado da mesma. não podendo. o Estado Mínimo ou o Estado Keynesiano de Bem-Estar Social. referida às áreas da economia e da política.3 Regime de acumulação e modo de regulação A teoria que melhor consegue descrever a estrutura do Estado e do capital é a teoria da regulação. ele é um campo do conflito social. Funcionários públicos defendem a sua estabilidade. apresentada a seguir. uma estrutura estatal concreta e uma ação estatal concreta são sempre expressão de um compromisso social in loco e de um determinado posicionamento no sistema mundial. estruturalmente determinado e configurado em cada caso concreto por lutas sociais. Na análise do regime de acumulação a representação de todo o processo de valorização está em pauta. Falando em termos genéricos. Becker 1999). posicionando-se com isso talvez contra os funcionários de pequenas empresas que querem pagar contribuições menores à Previdência Social. É. Essa perspectiva dialética possibilita a superação de uma separação simplista de economia/sociedade/Estado. o econômico.à medida que ele corporifica e organiza em um só processo o compromisso das classes sociais. a teoria da regulação concentra-se em fases de estabilidade. Por conseguinte. o poder do Estado: de outro. o gerenciamento da demanda ou a política da oferta e da localização. o espaço político. A forma especificamente capitalista do Estado resulta da circunstância de que se pretende que o Estado paire acima das classes e frações de classes. para desembocar depois do transcurso de um determinado tempo em uma grande crise (Lipietz 1992: 49). um equilíbrio de forças específico. mas atua de forma estrategicamente seletiva. sendo que a teoria da regulação examina concretamente fases de desenvolvimento estável na nação enquanto receptáculo30. o poder econômico da sociedade que possui o poder. Um regime de acumulação designa aqui uma fase de acumulação estável. A estatalidade concreta. No Estado entrechocam-se os interesses das diferentes classes.3. De um lado. estando simultaneamente excluído do centro produtivo da economia. o potencial de ameaças das greves de investimentos garante ao capital uma posição dominante diante dos trabalhadores: o ”Estado patriarcal” [Vater Staat] não representa apenas o interesse da coletividade. Estruturalmente. pois enfrentar com ”neutralidade” os vários interesses com os quais ele se defronta no processo democrático. mas também os interesses de diferentes frações dentro de uma classe. Mas os donos do poder político exercem uma dominação apenas restrita sobre o seu território. porque nela se cria a riqueza por meio do processo de valorização do capital. entre o Estado de Segurança e o Estado Concorrencial. Com isso. O campo do Estado é excessivamente complexo e obedece também a regras internamente definidas. independentemente da apropriação direta por parte do Estado. lá. Mas na sua concepção fundamental. desenvolvida na França diante da crise do fordismo. expressão de como os diferentes grupos e frações estão em condições de ancorar os seus interesses próprios em várias partes do aparelho de Estado29. a moeda e o direito. à guisa de formas concretas. no aparelho administrativo e judiciário. utilizada por pessoas e. 25 . O grande capital freqüentemente tem objetivos distintos dos das pequenas empresas. 1. deve idéias centrais a Joachim Becker. manifesta-se em um determinado tipo de intervenção estatal na economia. Este não possui uma essência universal ou uma identidade claramente delimitada. Por outro lado. Se o Estado impõe a sua pretensão de soberania. podendo-se distinguir aqui. Por intermédio do sistema tributário o Estado depende do bom andamento dos negócios. 30 A leitura crítica dos regulacionistas. ele controla as armas. correto que a ação estatal se encontra num plano inclinado na direção dos interesses do capital. No receptáculo a reprodução capitalista funciona por longos períodos como que sozinha. ele pode definir as regras do espaço de poder e sancionar as mudanças na regulação. o Estado é por um lado uma grandeza consolidada e localizada. tem condições de efetuar uma conceitualização do meu problema central em termos de Economia Política: quando as estruturas são inflexíveis e quando elas começam a tremer? Quando a ação transformadora da sociedade se choca com a parede e quando as fortalezas provam ser meros castelos de cartas? A pergunta pela estabilidade de espaço e poder é uma pergunta-chave no processo de desenvolvimento. constituindo a sua forma” (Demirovic 1997: 39). ponto de partida do exercício do poder (Demirovic 1997: 45). um modo de regulação uma fase de relações sociais estabilizadas.Juntamente com o Estado e o capital surgiu uma forma cindida de poder e espaço: aqui. contudo. os bancos fazem exigências distintas das de empresas industriais. Essa teoria. No modo de regulação as diferentes formas estruturais estão em primeiro 29 ”Apesar disso o Estado capitalista tem um caráter classista . Assim se pode refutar a afirmação de que o Estado seria o instrumento da classe dominante. sistematizadas na sua tese de livre-docência (cf.

organizacionalmente vinculada aos meios de produção. mas a exploração no sentido rigoroso do termo só ocorre no processo produtivo. portanto. da natureza ou das pessoas. A concepção da regulação continua a da reprodução. Uma acumulação estável baseia-se no comportamento rotinizado dos atores principais. um aumento da mais-valia absoluta baseia-se na extensão do capitalismo. Quanto menor for a possibilidade de apoiar-se na economia de subsistência e produzir bens de uso por meio do trabalho próprio. os operários trabalham e os empresários investem. podemos distinguir.D’ (mais dinheiro). produz-se mais-valia em termos absolutos. que o capital deve percorrer para que ao fim o resultado seja maior do que o que o capitalista investiu inicialmente na sua empresa. Mas a mera ação rotinizada das empresas ainda não cria nenhum regime de acumulação enquanto estrutura total estabilizada31.D’ abrange todo o processo econômico. A acumulação enquanto acúmulo de valores processa-se das maneiras mais distintas imagináveis. * o modo de articulação com formas não-capitalistas.M (mercadoria) . entre dois regimes de acumulação: o regime de acumulação dominantemente extensivo caracteriza-se por uma dinâmica da expansão social e espacial do capitalismo. * o horizonte temporal da formação e valorização do capital. em estratégias de extensificação. No interior dos espaços nacionais de poder em vias de consolidação aumenta a massa dos trabalhadores assalariados. ambos possibilitados por estratégias de intensificação. A indústria de bens de consumo e de bens de capital desenvolvem-se em grande parte sem ligação. mas a análise da integração de normas de produção e de consumo perde importância diante de um exame da estrutura macro-econômica. A regulação é um mecanismo que deve impedir tal acontecimento. que atingiu a sua dinâmica mais elevada na virada para o séc. bens de uso em um processo no qual o capital é aplicado de forma lucrativa. O processo de acumulação no ciclo D . O processo produtivo caracteriza-se pela cooperação simples. Pode-se diferenciar entre dois tipos distintos de apropriação da mais-valia absoluta e da mais-valia relativa. o aumento do valor deve ocorrer no processo produtivo. sem que houvesse uma 31 Hübner (1990:140) distingue na esteira de Boyer (1986: 46) as seguintes cinco dimensões de um regime de acumulação: * o tipo da organização da produção e a posição dos assalariados no processo produtivo. abstração feita da mecanização. mais significativa será a acumulação para a vida cotidiana no capitalismo. mediante a utilização do homem e da natureza. Empresas tomam constantemente decisões sobre investimentos. Trata-se do ciclo D (dinheiro) .plano. passando pela comercialização. Se o processo pára porque ninguém compra mercadorias. Mas como no mero escambo não pode ocorrer nenhum aumento do valor. que permite a reprodução dinâmica de classes e grupos sociais. que apesar disso obedecem a um determinado padrão. à medida que o empresário embolsa parte do valor gerado no trabalho. Por isso transformações duráveis do processo produtivo conduzem também a padrões de consumo e estilos de vida duradouramente modificados. Regime de acumulação O processo de acumulação abrange o processo de trabalho no qual são produzidos. Quando a ação empresarial se desenvolve de forma rotinizada. A mais-valia absoluta aumenta com a inserção de novos grupos populacionais no processo de valorização. um regime de acumulação caracteriza-se por regularidades do processo de acumulação. Esse fenômeno perfaz em escala mundial o poder sobre o espaço do imperialismo. tal como esta se encontra formulada na economia política clássica e em Marx. * a divisão do produto do valor em salários e lucros (bem como impostos). especialmente também a questão do financiamento. * a composição da demanda social. À guisa de tipos ideais. da produção até o consumo. Por meio de padrões comportamentais rotinizados pretende se assegurar que todos os atores cumpram os seus papéis: os consumidores compram mercadorias. Por isso só se pode obter aumentos fracos da produção. as operárias fazem greve ou o empresário torra o dinheiro. O processo de acumulação é significativo para as estruturas do poder precisamente porque nele são produzidos cada vez mais bens de uso necessários à vida. XX. 26 . tanto. todo o sistema entre em crise. referida também ao desenvolvimento das capacidades de produção nos diferentes ramos. quer por um aproveitamento mais intenso do espaço ou do tempo. No marxismo a fonte do poder radica nesse fenômeno. À medida que cada vez mais pessoas produzem de modo capitalista. as técnicas de produção permanecem na sua maior parte inalteradas. fala-se de estratégias de acumulação. porque sujeitos livres não-coagidos somente trocarão objetos de igual valor. De acordo com essa distinção. O comerciante compra mercadorias para poder embolsar o lucro depois da sua venda.M . Nesse a mercadoria da força de trabalho. A mais-valia relativa pode ser aumentada mediante aumentos da produtividade ou mediante um barateamento dos bens de consumo. Aumenta o número de horas de trabalho prestadas por toda a sociedade. produz um aumento do valor.

a indústria de gêneros alimentícios e bebidas. 33 ”[Ford] fragmented tasks and distributed them in space so as to maximize efficiency and minimize the friction of flow in production. Assim a valorização das periferias nacionais . Como o capital é uma relação social. Um esquema de reprodução que analisa a produção e a reprodução está vinculado a um receptáculo fechado e abstrai do espaço de entrelaçamento internacional. no entanto. ao lado do regime de acumulação .integração de todo o processo produtivo32. O mercado de trabalho competitivo e o grande exército de reserva praticamente não permitem uma majoração dos salários para além do nível da subsistência. Tocante ao espaço.e essa é a segunda concepção central da teoria da regulação. como e. como no caso do regime dominantemente intensivo as estratégias extensivas não são inteiramente abandonadas. As condições de vida dos assalariados sofrem uma transformação radical. o regime de acumulação dominantemente intensivo está orientado para dentro. pode-se observar já na organização da fábrica elementos de intensificação. as decisões sobre o dinheiro ou os investimentos. Com isso ele alude à circunstância de que em uma fase de capitalização total de setores outrora não-capitalistas os ramos citados se revestem de grande importância. a indústria calçadista e moveleira. esse regime de acumulação se caracteriza pela intensificação dos usos do espaço e por um processo maciço de urbanização. no entanto.g. mas as suas fronteiras não são mais claramente definidas. segundo a qual esse é compreendido como campo de poder econômico. que deve regular a temperatura interna em um prédio35. similarmente a um termostato. Como segundo tipo ideal. sobretudo em virtude da taylorização e da esteira mecânica33. sobre os quais se estrutura a acumulação extensiva. Hübner 1990: 141). chamado fordismo. a indústria têxtil e de confecções. 35 Um modo de regulação caracteriza-se comumente pelas cinco seguintes formas estruturais (institucionais): * o Estado e sua organização informam sobre o tipo da intervenção estatal na economia * a relação monetária produz a ligação entre as acumulações passada. A migração solapa o mercado nacional de trabalho e os investimentos diretos solapam o mercado nacional financeiro. Uma grande parcela do consumo ainda é coberta com mercadorias do setor não-capitalista. ao que parece.foi uma estratégia amplamente difundida de regulação fordista. he used a certain form of spatial organization to accelerate the turnover time of capital in production” (Harvey 1989: 266). Mais decisivo do que a dinâmica específica dos ramos é. pois a produção fordista em massa para o consumo das massas conduz a uma nova norma de consumo entre os assalariados. Mas esse acesso é extremamente deficiente e deve ser substituído por uma visão do regime de acumulação. uma determinada causa conduz ao efeito sempre igual. presente e futura * a forma do regime internacional decide sobre a articulação dos regimes nacionais de acumulação com a economia capitalista mundial * a relação salarial informa sobre a produção específica e apropriação do produto do valor. O capital é um poder sobre o espaço. Caracteriza-se por taxas de aumento duradouramente elevadas da produtividade do trabalho. o fato de que a ampliação das possibilidades de consumo não anda diretamente de mãos dadas com uma modificação das condições de vida dos assalariados. a indústria de papel e a indústria eletrônica (cf. uma estratégia política baseada na intensificação. o cotidiano nos lares e aumentam a dependência de uma parcela crescente da população de uma renda monetária34. In effect. assim juros mais elevados aumentam o preço do dinheiro e reduzem assim o índice inflacionário. específicas para cada caso * a relação concorrencial informa sobre o grau de concentração e centralização de capitais e sobre o modo da 27 . Esquemas de reprodução. fazem de conta que o capital age em um receptáculo. é. O automóvel e a urbanização rasante revolucionam nesse modo de desenvolvimento. que em contextos histórico-geográficos sempre produzem uma determinada combinação. sendo que a 32 Faria (1995: 10) denomina como ramos típicos da indústria. É importante reter aqui que no caso dos regimes de acumulação extensivo e intensivo se trata de tipos ideais. No caso do regime de acumulação dominantemente extensivo. Do ponto de vista da mecânica do poder. i.o avanço econômico para novos espaços . assim se pode investir apenas o que foi poupado na economia interna. 34 Exemplos típicos de regimes de acumulação intensiva são para Faria (1995: 10) as indústrias metalúrgica e química. pois as condições tecnológicas e sociais de produção sofrem uma transformação. Esse campo apresenta determinados pontos nodais.estabiliza as relações sociais em um espaço de poder. Por isso não se pode mais produzir um esquema de reprodução enquanto soma de equações matemáticas. a análise do regime de acumulação é uma análise integral. Trata-se de auto-organização. Também no tocante ao espaço a dinâmica da acumulação é extensiva e consiste mais na ocupação de novos espaços do que em um aproveitamento mais intensivo dos existentes (na forma da urbanização). Modo de regulação Um modo de regulação .

Mas quando elas estão integradas na economia mundial capitalista. Mas o valor do objeto de troca é determinado pela estabilidade interna e externa do valor da moeda. que necessita de sujeitos econômicos livres. Becker 1999). um modo de produção baseado no escravismo não é compatível com a estrutura capitalista fundamental. pois decide sobre a distribuição da mais-valia (Aglietta 1987: 111 ss. O poder produz comportamentos. específicas em cada caso (Hübner 1990: 177-188) e está vinculada a um espaço concreto e à territorialização em virtude do caráter material do processo produtivo. No esquema de reprodução D . Ele é a premissa da uniformização de valores sociais no processo de valorização (Aglietta 1987: 328 ss. Mas a regulação [Regulation] é mais complexa do que a regulagem [Regulierung] na qual está em jogo apenas a utilização monitorada de meios.. por ocasião da análise das quatro outras formas estruturais (sobre a derivação das formas.). i. O dinheiro é a terceira forma estrutural do capitalismo. O regime monetário está assim estruturalmente vinculado à legitimidade” (Pereira 1998: 141). v.regulação social é um processo de estabilização de padrões de ação. o capital financeiro e produtivo. meio de produção e força de trabalho. a regulação se subtrai em parte à apreensão direta pela ação e se afigura então como mão invisível. territorial. Se o dinheiro não cumpre as suas funções. que dizer. A regulagem é apenas o setor parcial estatal. Somente um governante soberano saberia regular processos sociais à maneira de um termostato. sendo as crises o estado normal. assegura a acumulação progressiva do capital e possibilita a intensificação da divisão internacional do trabalho. o capital internacional e nacional.). economias nas quais o trabalho assalariado não estrutura o processo produtivo.). é.). mas a regulação (Hübner 1990: 33 ss. que se baseia na existência de complementaridades estáveis. cria rotinas e normas. 36 A rigor é costumeiro falar de cinco formas estruturais e analisar aqui a forma do regime internacional. Um modo de regulação pode ser definido como interligação de regras explícitas. não são economias capitalistas. concretamente deve se distinguir entre o capital do Estado e o capital privado. É certo que o escravismo é uma forma de acúmulo de riqueza. mais dinheiro do que o montante originalmente aplicado. 28 . não há espaço para essa categoria em uma análise do poder sobre o espaço. modos de negociação e normas sociais. o grande e o pequeno capital. do qual participa uma multiplicidade de atores. A relação salarial informa sobre a produção e apropriação do produto do valor. o poder não produz a regulagem. é. i. a relação monetária e a relação concorrencial. é. O valor é assim expressão da soberania dessa instância. ”O regime internacional é uma configuração de espaços econômicos e do seu nexo. Aqui ocorre também uma distribuição dos potenciais de crescimento entre os respectivos espaços econômicos [. o processo de acumuação pára. a saber. Informa sobre o grau de concentração e centralização do capital e o tipo de formação de preços (Aglietta 1987: 215 ss. Poder executar uma política monetária soberana é uma das competências nucleares dos estados nacionais modernos e contribuiu para a homogeneização do espaço nacional enquanto espaço da circulação de mercadorias. O fator espaço forma uma unidade com o tempo e o fator social. A afirmação ”O Estado regula” seria uma aplicação dessa idéia de regulação. i. formação dos preços. Como isso condiciona processos complexos. da regulação. deve-se supor que as estruturas interna e externa não se coadunam.. Faria 1998a: 171-175). a posição econômica e política” (Nasr 1998: 36 e 39). a relação entre capital e trabalho. relações sociais estabilizadas. mas a dependência direta dos escravos inibe a difusão de normas capitalistas de produção e consumo. pois ele lhe permite adquirir o que quiser com o seu poder aquisitivo e lhe possibilita igualmente vender a sua força de trabalho. A relação salarial. oligopolistas ou monopolistas. Por conseguinte. que concorrem em mercados atomizados. Deve-se fundamentalmente distinguir entre formas competitivas e formas corporativistas. asseguram que a ação individual seja compatível com as exigências estruturais e sistêmicas (Hübner 1990: 174): o Estado. ocorrendo também nesse caso crises ou um colapso das estruturas capitalistas. A relação monetária permite a realização de valores e produz a ligação entre as acumulações passada. Assim o sistema se torna suscetível a crises também nesse caso. pois determina o status de todo e qualquer membro individual enquanto proprietário de mercadorias.M -D’ o dinheiro se torna mercadoria. a relação salarial. planejado. em duas palavras. Na esteira de Joachim Becker (1999). ”O dinheiro representa uma das formas principais de uma representação coletiva. presente e futura (Görg 1994b: 121-127). já descrito em detalhe. Estas são utilizadas no processo produtivo. O pressuposto da estabilidade do regime internacional é a concordância do mapa da divisão internacional do trabalho com as formas da regulação internacional. por sua vez assegurada pela respectiva instância de regulação. Ela decide sobre a articulação de regimes nacionais de acumulação com a economia capitalista mundial (Arrighi 1993. Quatro36 formas estruturais distintas. A dimensão espacial e também a inserção internacional devem ser incluídas na reflexão.]. para tornar-se D’. muitas vezes é compreendida como a forma estrutural ”fundamental”. A relação concorrencial regula a concorrência entre os proprietários. Ocorre que a regulagem é um processo complexo. No longo prazo. A ele subjaz a apropriação privada da terra no processo da acumulação primitiva.

Além disso devem ser analisados o Estado ampliado. São áreas cronologicamente representadas que se interrelacionam enquanto processos. quero mostrar ainda o que significa falar de regulação como produção de territórios. a assincronia das evoluções nas diferentes áreas dificulta a periodização. e o trabalho enquanto duas formas sociais fortemente diferenciadas em termos regionais. integrar a espacialidade na análise nacional outrora não-espacial. A teoria da regulação surgiu em oposição a uma concepção do tempo lógico. identificar a forma estrutural dominante. é. ela depende em partes substanciais do material estatístico do cálculo do rendimento da economia regional e de uma representação matemática. por outro. A regulação fixa por intermédio do Estado ou da sociedade civil regras para um território e conduz a padrões de ação territorialmente consolidados. Nesse sentido a teoria da regulação enquanto produção de teoria é marcada pelas condições gerais de matriz fordista. 29 . Nem o plano supra. Esta seria um receptáculo no qual transcorrem determinados processos de Economia Política37. Como se trata da distribuição do produto do valor. A regulação e a acumulação referem-se uma à outra. A totalidade das formas sociais resulta em uma ordem social mais ou menos estável. que percorre determinadas etapas na direção de um objetivo. Em segundo lugar. e datar as rupturas evolutivas nesse momento. Uma análise regional debruça-se sobre um território nacional parcial. A análise nacional não está apenas localizada no plano nacional.mesmo que esse recipiente tenha sido compreendido como permeável em virtude da forma institucional da ”inserção internacional”. o Estado e a sociedade civil. que impele na direção de transformações. Do ponto de vista empírico. independentemente do grau de estabilidade que outras áreas sociais logram atingir no curto prazo. Em terceiro lugar. O desnudamento de camadas geológicas. no entanto. Por isso uma teoria da regulação regional deve concentrar-se no aspecto da organização e estrutura da produção regional. uma viagem através dos tempos. uma coação estrutural que impele sempre de novo a configuração concreta das formas sociais na direção do seu limite (Görg 1994a: 56). de modo que no novo o antigo subsiste em forma e intensidade distintas. Uma análise exata de processos de desenvolvimento quantitativo não é possível. Devido às debilidades das estatísticas regionais não se pode fazer nenhum exame aproximadamente tão preciso como no plano nacional. Aqui a análise se concentra em um determinado espaço de poder. Estes influem na acumulação e regulação nacionais e criam um determinado poder sobre o espaço. pois o novo se sobrepõe por assim dizer como uma camada ao antigo. mercados e entrelaçamentos de capitais transregionais. Aqui se examina sobretudo a acumulação e regulação regionais concretas e a sua posição no espaço nacional de poder38. No receptáculo ”nação” consumar-se-ia a reprodução do capital – a produção e o consumo. Cada forma social possui a sua própria lógica e modifica-se segundo as suas próprias leis. a excavação em busca das raízes. Mas o componente de teoria da ação desse enfoque histórico enfatiza que o capitalismo não obedece a nenhuma lei própria da acumulação do capital. 38 Com vistas ao regime de acumulação o marco geral da análise não pode ser simplesmente transferido ao plano regional. Existe.4 Tempo Analisar por um período de 500 anos a evolução do Brasil é uma empreitada historiográfica.À guisa de conclusão. Quando e onde a estabilidade e as rupturas são 37 . Disso resulta que na representação textual e gráfica as periodizações de toda a sociedade não são exatamente pertinentes para as formas sociais identificadas como não-determinantes. Assim o regime de acumulação e os modos de regulação podem ser analisados em planos espaciais distintos. a saber na nação. Em primeiro lugar uma apresentação do regime de acumulação deve forçosamente considerar as formas estruturais que conduzem a uma estabilização. São importantes ainda a situação concorrencial na região e a inserção da região em regulações. exige também uma conceitualização específica do tempo. uma representação histórico-geográfica do espaço e do poder é difícil por várias razões. O colapso da(s) forma(s) dominante(s) inaugura quase sempre uma crise. Ao invés dela. gerar uma teoria da regulação espacial que leve em consideração a regionalização de processos sociais. O programa de pesquisa da teoria da regulação implica uma análise espacial. mas são apresentadas seqüencialmente no texto. Por isso se deve trazer à luz também a hierarquia das formas individuais. pois as manifestações concretas da coação à acumulação do capital são examinadas. seria também desejável uma representação cronológica de momentos isolados. Mas as formas individuais possuem dimensões distintas. como isso ocorre no quadro de uma análise do espaço e do poder. mas deve examinar também os entrelaçamentos econômicos e políticos de sistemas regionais de produção e de regulações sociais.nem o plano subnacional são suficientemente reconhecidos na sua importância. 1. portanto repetível a qualquer hora. i. ela opera com a concepção do tempo histórico e baseia-se num modelo de fases da evolução histórica. Uma teoria espacial da regulação deve evitar tais reduções e cumprir dois objetivos: por um lado.

O lado forte de uma análise do regime de acumulação e do modo de regulação está em ela fornecer uma teoria praticável da estrutura. os analistas de estruturas tendem a eliminar do seu foco de atenção justamente essa dimensão conjuntural. ao passo que outras preservam a sua estabilidade. Mas em crises e durante a busca de novas ordens institucionais e estruturais ganham importância os atores e. contudo. com eles. A abertura de situações de crise torna estas interessantes para a ação política. Inversamente. mas todas as formas estruturais perdem a sua estabilidade. Uma conjuntura é um tempo específico de espaço. Coisa semelhante vale para os atores locais concretos. estáveis. um tempo concreto. o fator da ação. as estruturas de fases anteriores. ganham a sua força explicativa apenas por meio de uma análise estrutural. O elemento de teoria da ação deve ser assegurado no quadro de uma análise da conjuntura de um modo que vai além da teoria da regulação. i. difunde-se a consciência de que ”os homens fazem a sua história” e as coações. um ”presente” que se realiza em uma onda longa. Isso tem um significado decisivo para análise de poder sobre espaço. O antigo está desacreditado (Grasmci 1971: 276) e uma virada se afigura possível (Hirsch 1992: 230 s. efetuada simultaneamente com a análise concreta. i. 39 Para tal. desaparecem do campo visual. Uma análise do poder sobre o espaço pode tirar proveito da integração de análises marxistas da totalidade social e de uma análise foucaultiana da micropolítica e do poder atuante nas dimensões da organização e do discurso (cf. Uma análise do poder sobre o espaço é. por conseguinte. constantemente exposta ao risco de suspender [aufheben] a relação de tensão dialética em benefício de opções de ação ou da lógica da estrutura. a teoria da regulação fala de ”grandes crises”.) também considera o elemento de ação no quadro do seu enfoque ”estratégico-relacional”. não é um simples ”achado” (Lipietz 1992: 29). de dados e informações sem as quais uma análise da conjuntura não é possível. às quais essa ação história se vê submetida. A ação transformadora nunca ocorre sincronicamente em todas as formas sociais. Muito pelo contrário. Análises contextuais de poder que tendem a superestimar o respectivo palco do poder e o ”exercício” do poder. cap. seja porque só examina estruturas. superestimam o grau de liberdade dos atores e subestimam a inércia do status quo. em algumas áreas sociais mostram-se fenômenos de crise. 4 que integra as análises que privilegiam ou a dimensão da estrutura ou a da ação. Justamente por causa disso essa análise deve aceitar a crítica de unilateralidade estrutural. uma hierarquia entre a teoria marxista e a crítica de Foucault: a primeira oferece um arcabouço teórico para compreender a sociedade enquanto um todo.de conflitos políticos e ideológicos concretos. Em tais momentos a ação ganha importância a expensas das estruturas. Muita coisa parece possível. Mas como eles desistem de efetuar uma análise estrutural. Estas encerram uma fase de estabilidade e conduzem talvez a uma nova fase de estabilidade com uma nova configuração das formas estruturais. mas a estrutura pouco clara de crises e o conflito em torno da atribuição de sentido a esses processos observáveis dificulta a produção teórica. 8 e 9). Só quando se logra suportar essa tensão. o futuro da estrutura pode ser percebido de forma pouco nítica. crises. é. afiguram-se mutáveis em tempos de crise. Crises manifestam-se como rupturas na reprodução das relações sociais em um espaço geográfico (Boyer 1987: 61) que simultaneamente é um espaço concreto de poder. É possível analisar estruturas mais profundas de poder sobre o espaço. devem ser examinados com outras teorias sociológicas e com um enfoque metódico mais amplo no caso concreto (cf. A análise exclusiva de estados estáveis praticamente não deixa espaço para os atores. Nexos importantes dentre os percebidos. Ao lado dos momentos estruturais.seletiva . Nesse sentido o presente trabalho culmina na análise da conjuntura no cap. A regulação produz a estabilidade em uma formação social muito suscetível a crises. é possível compreender o poder sobre o espaço. a seletividade estratégica do Estado favorece um fim da crise que assegura a continuidade da estrutura do poder. 30 . Nesse momento conjuntural do ”presente” a história está aberta. abertos à apreensão pela práxis. a abertura .localizadas é portanto uma questão de central importância para a teoria da regulação. sobretudo no tocante a problemas organizacionais e discursivos.). seja porque estas se comportam mecanicamente e obedecem a rotinas. a respeito Jessop 1990: cap. Não em último lugar. ainda continuam produzindo efeitos em tempos de crise. mas perde-se a referência ao plano da ação. os enfoques de Economia Política não bastam.).39 A consideração da inserção estrutural de acontecimentos concretos distingue uma análise da conjuntura enquanto trabalho científico do trabalho empírico freqüentemente excelente de jornalistas e de comentaristas políticos e econômicos. em uma estrutura (Fiori 1995: 12ff. uma caminhada na corda bamba. que distingue entre fases estáveis e fases inestáveis. Quando não apenas um ou outro arranjo institucional estão sendo questionados. similarmente às instituições. no entanto. Mas a solução dessas crises não representa nenhum acaso. 4). é. Jessop (1996: 124 s. e a superestimar o poder de leis sociais. Esses últimos dispõem de um conhecimento factual insubstituível. Resta. Este é o tempo e o lugar no qual os homens ”fazem geografia e história”. Por isso as crises são fenômenos histórico-geográficos e desembocam freqüentemente em grandes conflitos sociais. ele admite também momentos concretos. Estruturas que em fases estáveis muitas vezes não são questionadas ou nem são percebidas. Novy 1998.

it can properly be juxtaposed to the notion of ´necessity´. precisamos desembaraçar-nos de vários dogmatismos e várias delimitações convencionais. Ao lado desse conceito de estrutura da ”longa duração”. Mas a sua negação da existência de estruturas profundas é falsa. A compra de votos ou o paternalismo são instituições dessa natureza. i. na esteira do conceito da ”contingência radical”. No quadro de análises espaciais de estruturas são representadas as configurações [Ausformungen] concretas de estruturas que permanecem constantes durante um período no espaço e no tempo. Para a pergunta pelas margens de ação existentes. Por sua vez. interessaram-se por coisas distintas: Sartre. pelo evento aparentemente destituído de importância. Quero tentar sobretudo tornar fecundo o potencial contido nos trabalhos de Foucault. uma crítica em termos de análise do discurso: todas as relações entre identidade. de uma ordem antiga. interesse e posição sociais deveriam ser pensadas como contingentes. ”Muito pelo contrário. Foucault sempre se interessou mais pelas coisas miúdas. Por ocasião de uma alteração de todas as manifestações de formas estruturais falo igualmente de alteração estrutural. 41 Para a compreensão da ”transformação estrutural” é necessário definir o alcance espacio-temporal de estruturas. Foucault alguns flashes. which signifies the assumption underpinning any realist scientific enquiry that ´everything that happens is caused´” (Jessop 1990: 12). podemos observar diversos arranjos institucionais e lógicas distintas da ação. Inversamente uma análise estrutural tende a subestimar as margens de ação dos atores em situações concretas. cuja forma se pode alterar rapidamente no processo de modernização. que permanecem relativamente constantes durante várias décadas em um lugar. a segunda fornece diante disso o aguilhão da crítica. cujos alcances espacio-temporais são mais restritos (Görg 1994b: 111-115)41. i. Embora ambos tenham sido temporariamente membros do Partido Comunista. Uma análise das ”formas estruturais” supõe para determinados tempos-espaço nexos constitutivos entre as diferentes formas sociais (Aglietta 1987. Marx fornece o fio condutor. Scherrer (1995: 462) constrói a partir disso. insuficiente para compreender exaustivamente a conjuntura. depois do que existiria novamente a coação à estrutura (Scherrer 1995: 473). os dois foram companheiros de jornada nos conflitos políticos concretos (Schmid 1991: 109-111). é. isso ajuda para uma análise do poder sobre o espaço enquanto análise estrutural. i. Thus ´contingent´ means ´indeterminable within the terms of a single theoretical system´. pelas estruturas organizacionais internas. em contrapartida. assim como a maioria dos marxistas. articulando todos os três planos entre si. Uma leitura atenta sobretudo dos últimos escritos de Foucault lança uma nova luz sobre a sua relação com o marxismo e relativiza o seu ”estruturalismo”. A advertência de Scherrer contra adensamentos estruturalistas e a ênfase em uma abertura fundamental do futuro é correta. é. o ”momento de indeterminação no movimento do tempo estrutural” (Fiori 1995: 11). Na esteira de Jessop defino a relação entre economia e política como ”contingentemente necessária”42. pois resultam de uma estrutura social profunda. i. Nesse empenho. contudo. Foucault foi tachado de apolítico e como pessoa desinteressada na práxis transformadora. i. interligando-os. falo também de manifestações concretas das formas estruturais em diversos modos de desenvolvimento. é. Não obstante. as necessidades e a 40 Análises de conjuntura visam a investigação de evoluções concretas na Economia Política. devendo ser complementada por outros enfoques interdisciplinares. Analisa-se em um tempo-espaço concreto processos estruturais e institucionais assim como eventos. é. o conflito aparentemente muito abstrato sobre se as formas sociais do capitalismo são institucionais ou estruturais tem um grande significado. especialmente. 42 ”Whereas ´contingency´ is a logical concept and concerned with theoretical indeterminability. Isso se espelha também nesse trabalho. Durante muito tempo o conflito entre Jean-Paul Sartre e Michel Foucault sobre a ”morte do sujeito” foi visto como conflito entre duas posições inconciliáveis. O marxismo fala de estruturas específicas às formações. Sartre representava aqui a defesa da política que carece do sujeito enquanto ator conscientemente agente. Ele lança uma advertência contra o banimento da contingência de evoluções sociais para a ”pedreira” [”Fundgrube”] histórica (liepitzschiana). inscritas profundamente no espaço e no tempo. é. pois um nova estrutura total está surgindo. A análise marxista fornece com o processo de valorização a estrutura unificadora do processo. o questionamento criativo do modelo marxista e a compreensão aprofundada de lógicas e estratégias de ação.enquanto totalidade. ´necessity´ is an ontological concept and refers to determination in the real world. de estruturas que são elementos constituintes do capitalismo. estava interessado na evolução da totalidade social e nas relações de dominação nela atuantes. Com isso evito igualar a estrutura com necessidade e a ação e o sujeito com contingência. segundo a qual surgiria. Não admira que um partido leninista pouco se tenha interessado por um tal crítico e vice-versa. mas ela é. Mas no interior dessa formas estruturais. tomada isoladamente. da microfísica do poder40. Becker 1998b). para analisar a economia e a política como uma unidade. a análise opera simultaneamente em três níveis. ”casualmente” uma ordem nova. Estruturas consolidadas em 500 anos subtraem-se à simples apreensão pela ação. 31 .

i. com ajuda do conceito da contingência. Tais análises permitem unir o tempo histórico com os movimentos estruturais que se estendem pelo espaço e tempo (Fiori 1995: 10). Análises de conjunturas são importantes sobretudo na análise de transições (Fiori 1995: 54 s. 43 ”Indeed. A análise da conjuntura implica a abertura fundamental do futuro. uma alteração isolada de manifestações concretas de formas estruturais não pode ser mantida no longo prazo. 32 . à ordem da estrutura. 1999). No lugar disso. A abertura não é gratuita.43 No enfoque de Economia Política as estratégias assumem um papel central sobretudo nas análises de conjunturas. definidos essencialmente pelos seus interesses de classe.). A crise econômica mundial de 1930 e a crise da globalização depois de 1980 representam tais momentos históricos abertos (cf. A importância desses atores resulta da análise das estruturas. embora estas sejam menos persistentes do que estruturas. para reduzir o nível de abstração da análise e chegar à análise de situações concretas. há sempre processos que atuam na direção da transformação. leva-se. Mas as estruturas mais além elaboradas limitam o espaço de possibilidades para a alteração dos campos sociais. Estratégias de poder e acumulação são perseguidas por atores coletivos.contingência sempre estão interligadas em estruturas” (Görg 1995: 629). com ajuda do conceito da necessidade. a serem amplamente tratados no capítulo 4. a ”contingência radical”: conjunturas também estão sujeitas a regras. em consideração a vinculação da ação ao seu contexto e remete-se. Como a ordem social contemporânea é conflitiva. equilíbrios sociais são estados de exceção. é. Feldbauer et al. a rigorous application of discourse-theoretical principles would question the necessary fixity of the macro-level as well as the apparent fluidity of the micro level” (Jessop 1990: 246). Com isso também as análises da conjuntura refutam a abertura radical da história.

nenhum espaço de poder claramente delimitado. ao lado do espaço concreto. políticos e econômicos. Dessa forma o poder sobre o espaço que atuou a partir da Europa sobre a América constituiu liminarmente um espaço de entrelaçamento. O modo de desenvolvimento. o regime de acumulação e o modo de regulação constituem os três conceitos fundamentais com os quais se designa fases de estabilidade. Um regime de acumulação e um modo de regulação fornecem a manifestação concreta das formas estruturais capital. O espaço se estruturou de tal forma que determinadas decisões tomadas pela instância central se revestiam de significado para todo o espaço. podemos compreender porque esse plano foi uma cesura na formação da nação brasileira. tais como ordenamentos referentes a trajes e regras de boa conduta se unificaram nesse espaço assim como a maneira de processamento do comércio de longa distância ou a exploração do solo. Essa destruição foi um projeto estrutural. com as quais esse modo de desenvolvimento é estabilizado. Os efeitos de curto prazo sobre a inflação. o desemprego. há milhares de quilômetros de costa e um gigantesco planalto. A partir de um espaço em si surgiu. No receptáculo Brasil o clima predominante é tropical e subtropical. atuantes durante períodos mais longos. depois da desvalorização de 1999 e da recessão de 1998 e 1999 a avaliação já foi bem menos eufórica. vale dizer. repleto de atores e processos sociais. mas transformações no espaço social. cruzamentos de rotas comerciais e enclaves de produção. determinados padrões de ação. o endividamento e a pobreza são um lado da moeda. o Brasil já existe há muito tempo e serviu a distintas comunidades humanas como espaço de vida. Por isso se faz mister dispor de conceitos claros. o poder sobre o espaço do desenvolvimento internacional. um espaço dotado de sentido para os que nele viviam (Furtado 1976: 1). Mas o território da nação é um produto histórico-geográfico e não um receptáculo: foi produzido e pode ser destruído. vale dizer. no qual uma parte da América do Sul se transformou no Brasil enquanto espaço de poder sui generis. E aqui não estão em primeiro plano acontecimentos da natureza. Em fases estáveis o 33 . Um modo de desenvolvimento é um campo de poder ao qual subjazem estratégias estabilizadas de acumulação. A presente análise foi escrita quando o Brasil tinha implementado depois de 1994 um programa de estabilização. constitui o ponto de partida da análise subseqüente. A construção multissecular da nação e do Estado foi seguida por poucos. foram exportadas outras coisas que no espaço global se transformaram em matérias-primas e mercadorias. em meio a um processo histórico. também o seu campo circundante. Mas diante do pano de fundo de uma história de 500 anos de espaço e poder eles representam apenas as transformações na superfície. localidades individuais se transformaram em bases militares de apoio. Fernandes 1987: 27). mas o poder histórico-geográfico dos seus agentes produziu seus efeitos na ideologia da globalização. regras normatizadas de produção e consumo e padrões políticos não-questionados. na qual diante de tanto progresso não mais parecia haver lugar para os pequenos. As suas fronteiras atuais somente foram estabelecidas definitivamente no séc. para que possamos reconhecer instituições e estruturas duradouras. repleto de natureza. A análise da produção de territórios é tão importante quanto a análise do território concreto. mas extremamente intensos anos de destruição. que reduziu por vários anos drasticamente a inflação. da dimensão profunda e estrutural do Plano Real. Mas o que interessa aqui são as transformações nesse receptáculo. dinheiro. Somente após a consideração do outro lado. lógicas rotinizadas de ação. Novas pessoas e novas coisas chegaram ao Brasil. Estado e trabalho. coisas e pessoas? Enquanto espaço geográfico na América. Muito pelo contrário. O espaço-receptáculo da nação. Por isso devemos incluir na análise. Com a chegada dos portugueses em 1500 a situação do receptáculo se alterou fundamentalmente. isto é. O Plano Real compreendeu-se como plano de estabilização e ajudou efetivamente a estabilizar uma determinada espécie de ordem que quero desmascarar como des-ordem. A dimensão nacional está construída socialmente ou é descontruída socialmente. a produção da nação enquanto território foi um processo multissecular. o Plano Real.2 Construção e destruição do fator nacional no Brasil ”As ruínas de uma nação têm a sua origem na casa dos seus pequenos cidadãos” (Provérbio africano. O Brasil ainda não era nenhum terrritório. como El Niño ou o aquecimento global. XX. no qual e sobre o qual se exercia a dominação. subjaz a uma transformação permanente (cf. citado segundo Couto 2000: 416) O que é o Brasil? Um receptáculo. De início esse plano. foi considerado um grande êxito. a produção de espaço.

mas na capacidade de um campo de poder de estabilizar os seus pontos nodais e as suas instituições por períodos mais longos e em espaços mais extensos. 7: O Brasil.e esse é o cerne da minha tese sobre a des-ordem . Por isso a estabilidade não consiste na ausência total de quaisquer crises.desenvolvimento se processa em vias relativamente definidas.um tal campo estável precisa ser um tipo ideal cuja ordem é permanentemente solapada por processos contraditórios. como dado de orientação prévia. padrões de ação retomados rotineiramente e sem questionamento pelos indivíduos. pois as formas estruturais fornecem. Ilustr. Mas em uma sociedade conflitiva . subdividido nos seus estados 34 . Quando depois de 1980 um antigo campo de poder entrou em colapso. a crise e a estabilização passaram a ser os novos conceitos centrais da política.

Paraíba PE .Distrito Federal Fonte: Novy 1994: 161 35 . grandes regiões e suas siglas: BR – Brasil NO – Norte: RO .São Paulo PR .Piauí CE .Rondônia AC .Mato Grosso do Sul MT .Tocantins NE .Bahia SE .Pernambuco AL .Sergipe BA .Rio de Janeiro SP .Alagoas SE .Acre AM .Espírito Santo RJ .Rio Grande do Norte PB .Centro-Oeste: MS .Roraima PA .Mato Grosso GO .Maranhão PI .Nordeste: MA.Goiás DF .Estados.Paraná SC .Santa Catarina RS .Pará AP .Amazonas RR .Minas Gerais ES .Amapá TO .Ceará RN .Sudeste: MG .Rio Grande do Sul CO .

Esse processo é paralelo ao fim da hegemonia britânica e do padrão ouro. e os palcos do poder. 1964 (”Revolução de Abril” ou golpe militar). espaços de poder respectivamente específicos2. situa a transição de um regime mercantil para um regime extensivo no ano de 1870. ordená-los e territorializá-los. A minha análise histórica também não pode ser mais do que a de Furtado um ”esboço do processo histórico da formação da economia brasileira” (Furtado 1975: 1). esses conflitos e estratégias. que abrange todo o campo de poder e estrutura em profundidade o desenvolvimento social. isto é. A estabilidade é alcançada mediante uma congruência de regime de acumulação e modos de regulação. discursos. a sua endogeneização mais ou menos pronunciada é significativa para o poder sobre o espaço. mas também a sua atuação política podem ser consultadas na sua autobiografia em três volumes (Furtado 1997 a. que realizou primeiramente a tentativa de uma periodização nos termos da teoria de regulação. Por fim. e isso produz em sistemas de produção com orientação externa um efeito de polarização e fragmentação. formas de organização e nichos de resistência têm uma duração muito menor do que as camadas mais profundas do campo de poder. à ascensão dos militares e à fundação de partidos republicanos. A história política do Brasil recomendaria datar as rupturas em 1822 (independência).esse enfoque apresenta um fraqueza essencial. Em que pesem todas as suas vantagens. XX. 2 A deterioração dos preços do açucar encerrou o primeiro ciclo e criou o pressuposto da decadência do antigo centro do Brasil. à difusão do trabalho assalariado. monitorada pelo estado desenvolvimentista. Por isso a análise histórica de Furtado é também implicitamente uma análise geográfica das interações dos fatores nacional e internacional. A crise da exploração do ouro e os problemas da economia externa no início do séc.O presente trabalho re-interpreta a história do Brasil. Fiori (1995a: 73) fala de uma fase de centralização para a estabilização da economia escravista (1820 a 1870). os espaços de poder. XVIII. que perdura até os dias atuais. 1889 (proclamação da república). XIX e a economia de transição para a sociedade industrial no séc. busca consolidar esses poderes sobre o espaço. já entra em crise no final dos anos 50. 3 Conceição (1989a: 204). Não há como compreender a formação da nacionalidade brasileira sem a obra clássica de Celso Furtado. do Nordeste. da superfície dos conflitos sociais. 36 . crises e estabilizações da atualidade. pois o fundamento da minha própria periodização é a distinção entre o poder sobre o espaço. devido à ascensão dos barões do café. Isso se dá mais facilmente em sistemas endógenos de produção. por outro lado. isto é. pois os pontos nodais do campo de poder são aqui de forma multiplicada internos. O primeiro plano é ocupado aqui pela estabilização da economia e da política no plano interno. baseado na exportação de café. na qual Furtado se insere. a crise econômica mundial de 1929 encerrou a fase da orientação para a exportação de bens primários. baseada na industrialização substituidora de importações. essas vitórias e derrotas concretas. Depois ocorre uma acumulação intensiva. sejam elas o regime de acumulação ou formas estruturais. Mas a 1 Celso Furtado foi um dos fundadores da pesquisa em história econômica no Brasil e simultaneamente durante muitos anos ator no campo de poder no Brasil. O presente trabalho é uma crítica de Furtado no sentido de que as suas importantes descobertas são em parte revistas e em parte desenvolvidas para além das posições do autor. depois ocorre um processo de descentralização (1870-1914). Esse fordismo periférico. Mas a análise desses processos internos constitui justamente o cerne das reflexões fundamentadas na teoria da regulação. no intuito de compreender melhor rupturas e continuidades. As crises. ”Formação Econômica do Brasil” (publicado originalmente em 1959)1. As suas opiniões. por um lado. a transição ao trabalho assalariado no séc. A espécie do espaço de entrelaçamento econômico. que durou até 1980. anos 80 (democratização). utilizados de forma fecunda para a análise do poder estrutural e de espaços de poder. Com relação ao período de 1870 a 1930 ele fala de um regime de acumulação extensiva. mas criaram os fundamentos do surto da economia cafeeira. concentra-se precipuamente na endogeneização ou nacionalização do sistema produtivo. pois a tradição cepalina. uma produção em massa para um mercado de massas apenas restrito. Mas o tipo de acumulação e a espécie de harmonização de produção e consumo constituem também poder sobre o espaço. Internamente as fases de surto criaram no Brasil enquanto tempos de espaço específicos. b e c). pois a sua concepção se orienta demasiado segundo a demanda e não efetua uma análise suficiente do Estado e da sociedade. em cuja superfície se travam os conflitos sociais. por suas vez. pois atribui um significado demasiado reduzido aos processos da economia política interna. Na terminologia de uma análise do poder sobre o espaço em termos de economia política o objetivo único é a análise dos palcos do poder. a economia escravista na mineração no séc. O olhar em retrospectiva deverá permitir uma melhor compreensão do presente e do futuro da nação. resultam na teoria da regulação das rupturas na acumulação e regulação. Não acompanho Furtado na minha periodização. lançando os fundamentos de uma acumulação política. 1930 (revolução varguista). ao passo que para a CEPAL as crises ocorrem em virtude de modificações da inserção na economia mundial3. como isso é necessário no quadro da teoria da regulação. Nesse trabalho são retomados enfoques regulacionistas e cepalinos. XIX levaram a uma decadência do interior do país. Furtado (1975) distingue os quatro seguintes períodos: a economia escravista na agricultura tropical nos sécs. XVI e XVII. interno e externo. por sua vez. Via de regra. pois o controle sobre decisões importantes é efetuado de fora. A regulação. depois do breve ”milagre brasileiro” (1967-1973) amplia-se a crise da acumulação intensiva.

a sua vida não transcorre segundo um roteiro. uma ordem relativamente estável porque eram garantidas pelo predomínio britânico. o Estado. A análise estrutural examina o Brasil como se não existissem atores. no qual podemos observar palcos principais e secundários do poder. uma análise que compreende o desenvolvimento social como contraditório (Cardoso. As formas estruturais individuais modificaram-se com velocidade e intensidade distintas. O regime de acumulação extensiva. que analisa simultaneamente a estrutura profunda e os palcos. as estruturas do poder sobre o espaço. portanto. o que. A crise eclodiu somente em 1981. XIX ocorrem em si duas grandes rupturas políticas. O estudo do caso nacional inicia com uma análise estrutural. na conseqüência. Por outro lado. o dinheiro e o trabalho estão organizados e intervinculados é estruturado pelo campo de poder.). as evoluções nacionais e regionais. não é apenas o desempenho rotinizado de papéis em uma encenação previamente definida. nos espaços geográficos e sociais concretos. Agir é parte de um processo que consolida ou transforma o campo de poder subjacente. A seguir. não consegue. Assim o Plano Real estabilizou uma des-ordem estruturalmente instável. reproduzir essa dialética. No séc. conseqüentemente. o séc. conduziu gradualmente também a uma re-estruturação do espaço de entrelaçamento. com o fim do padrão ouro e a industrialização em vias de dinamização nos anos 20. empreendida a seguir. concentrado no dinâmico centro São Paulo. pois uma periodização em termos de teoria regulacionista. A análise do palco nacional do poder aproxima-se da pergunta pelo espaço e poder a partir do outro extremo e descreve a história como história de muitos grandes homens e algumas mulheres isoladas. 37 . A crise da acumulação extensiva iniciou-se antes do golpe militar de 1964. a ruptura de 1822 preservou inicialmente a velha rede de entrelaçamentos econômicos. ela constituiu o Brasil como território independente. tornando assim compreensível o significado histórico dos conflitos políticos e sociais. durante um certo período dominantes. Nesse sentido os capítulos 2 e 3 preparam o chão para a análise da conjuntura no capítulo 4. num primeiro momento. Em 1930 foi novamente uma alteração da estatalidade que abriu para um ordenamento aqui e ali já germinalmente existente uma trilha cuja direção se tornou a seguir irreversível: a fase centrada no estado nacional. Assim a Tabela 2. a transição foi ratificada por uma alteração do regime . pretendemos visualizar as vantagens de uma análise dialética. assim como também a transformação profunda de formas estruturais concretas é o pressuposto necessário para preservar elementos essenciais da velha des-ordem.atuação em palcos. Não obstante. enquanto representação seriada de regimes de acumulação e modos de regulação. Mas nas profundezas do campo de poder. Só uma análise da conjuntura consegue por em relevo essa dialética de poder sobre o espaço e espaço de poder. Por fim. tal como ela é empregada para estruturar a representação histórico-geográfica. a conquista da independência nacional em 1822. Até o início dos anos 80 tais transformações profundas ainda não eram perceptíveis na superfície e o estado nacional continuou sendo o ponto nodal da regulação.a Proclamação da República em 1889. uma transformação estrutural. Por um lado. O modo pelo qual o capital. É importante chamar de saída a atenção a essa circunstância. Esses campos de poder sistematizados com ajuda de esquemas conceituais da teoria da regulação resultam da estrutura profunda da sociedade brasileira. e a Proclamação da República e conseqüentemente o fim do Império em 1889. ou o mais tardar em 1974. não em último lugar. já se prenunciava. Ele mostrou o que perpassa toda a história do Brasil: na manutenção da ordem e estabilidade estão contidos os germes de rupturas. XIX foi em ampla escala uma fase de transição. As análises de palco e da estrutura profunda distorcem a dinâmica da evolução que só logra explicitar seu potencial interpretativo integral em uma sinopse. elaborada na esteira de Conceição (1989a: 204) e Faria (1995: 30) serve também apenas como ponto de partida e orientação da reflexão mais extensa. o fim do estatuto colonial e. Os atores não são meros portadores de estruturas. na qual diversos modos evolutivos são representados como manifestações estabilizadas do capitalismo no Brasil. a saber. Faletto 1979: 139 ss. Objetiva-se. e a regulação compatível com ele constituíram. que se tornara dominante.

b). pecuária 1822 – 1929 acumulação extensiva plantação de café (germes de industrialização local) capital financeiro. aumento das transações financeiras crise do modo de desenvolvimento centrado no estado deterioração da distribuição da renda esgotamento da urbanização e da ampliação da estrutura produtiva nacional sociedade inteiramente capitalista e urbanizada. fomento da acumulação extensiva. política econômica mercantilista economia de escambo e do ouro escravidão (sistema da concessão de terras pelo rei) economia de enclave (falta do mercado interno) regulação nacional orientada para o exterior federação e crescente intervencionismo local padrão ouro (com instabilidades financeira e monetária) transição ao trabalho assalariado (depois que o livre acesso à terra não era mais possível) economia de enclave (germes de um mercado interno regionalizado) regulação nacional orientada para o estado desenvolvimentista estado desenvolvimentista nacional política nacional financeira e monetária autônoma corporativismo concorrência política no mercado interno enfraquecimento do estado nacional crise do estado desenvolvimentista nacional quase-dolarização do mercado de trabalho corporativista ao mercado de trabalho competitivo privatização e abertura do mercado interno 38 . Adaptação do autor BRASIL 1500 – 1822 modo de regulação regulação colonial colônia portuguesa. sem acesso à com continuação da hegemonia dos EUA produção de subsistência Fonte: Conceição (1989a. em vias de internacionalização crise da acumulação intensiva.Tabela 2:Sinopse dos modos de desenvolvimento do Brasil de 1500 a 1998 regime de acumulação acumulação baseada na escravidão economia açucareira (mais tarde: mineração) capital comercial modo de desenvolvimento colonial ”renda escravista” sob dominação européia demanda concentrada do barão do açúcar por bens de importação comunidades indígenas (exército de reserva). ”tropicalmente fordista” nacional urbanização e complementação da estrutura produtiva asseguram sob a hegemonia dos EUA demanda interna (”fordismo periférico”) concentração fundiária assegura exército de reserva para a indústria a partir de 1982 acumulação estagnante. Faria (1995). custeado por investimentos de longo prazo e modo de desenvolvimento orientado para o endividamento de curto prazo exterior migração internacional dinamiza mercado de trabalho sob dominação britânica demanda maior das camadas médias urbanas (dependente de importações) acesso mais difícil à terra é um empecilho para a produção de subsistência 1929 – 1982 acumulação intensiva centrada no estado nacional empresas industriais modo de desenvolvimento centrado no estado financiamento estatal (e estrangeiro) de longo prazo distribuição injusta.

Chegou-se sistematicamente à destruição do Outro. O escravismo constituiu a norma fundamental de produção. A instituição central era o sistema das sesmarias.1 Modo colonial de desenvolvimento sob dominação européia (1500 . Aproximadamente 30% do preço final do açúcar iam para o tesouro real. impostos e taxas oneravam pesadamente os produtores brasileiros bem como as relações comerciais desiguais. A costa americana tornou-se assim parte do espaço de poder europeu. Egler 1992: 26).)4. a coroa portuguesa. por via do endividamento. Na periferia.] àqueles que instalassem engenhos: isenções de tributos. a ”renda escravista”. da sua cultura. O detentor do poder disponibilizava terras aos colonos.” (Furtado 1975: 41). Egler 1992: 20). Da mesma maneira os escravos importados foram impedidos de preservar uma cultura publicamente vivida. garantia contra a penhora dos instrumentos de produção. No entanto. no sentido econômico isso representava uma renda. muito pelo contrário. taxas e monopólios de uma parte do excedente. religião e modo de condução da economia. O comércio transatlântico de açúcar.000. do direito de retirar a mais-valia produzida pelos escravos. enquanto elas fossem utilizadas no sentido previsto pela Coroa. Isso inibiu a formação da propriedade privada da terra e com isso de uma base de poder econômico dos produtores locais. Em termos econômicos. O estilo estamental de vida das pessoas situadas no topo da pirâmide social imitava o da nobreza européia.1. ao passo que o número dos não-integrados caiu de cinco a um milhão (Ribeiro 1995: 151). Em 1800 o número de índios integrados ainda chegou a 500. O novo poder in loco aniquilou os índios e destruiu os seus tradicionais modi vivendi. a Holanda e a Inglaterra controlavam o comércio e. ”Favores especiais foram concedidos [. baseadas no nomadismo sem pretensões territoriais definidas. A organização da produção baseava-se no açúcar5. Por isso até o séc. isto é. 39 . o modo de economia mercantilista de Portugal baseava-se em uma forma de acumulação primitiva. Esse aparelho assegurou o fluxo de riquezas das colônias para a metrópole. 5 O modo de produção isolado dos camponeses em terras ”livres” e excessivamente disponíveis e a produção para a satisfação das próprias necessidades teriam sido um obstáculo para essa estratégia de acumulação e foram sistematicamente impedidos (Smith 1990: 268).1 História da estrutura profunda 2. Tratava-se. Taxas alfandegárias. Portugal apropriou-se pela via de impostos. honrarias e títulos etc. o controle fiscal do comércio o modo pelo qual os excedentes eram apropriados.. Internamente Portugal era um soberano forte com um poderoso aparelho burocrático-militar: o poderio português difundia-se a partir do rei até as autoridades municipais. Compravam-se escravos para poder adquirir mais escravos ainda (Smith 1990: 151 ss. Mas com o fim do escravismo se evidenciou o quanto de cultura e religião populares tinha sobrevivido no decorrer dos séculos. Um quarto dos gastos para importações era consumido por escravos (Becker. cuja causa radicava em privilégios e monopólios politicamente concedidos. Portos fortificados na costa atlântica da África serviram de pedra fundamental para a colonização da Ásia e da América. isto é. O controle político serviu aos interesses fiscais do centro. pois a cultura africana continuou viva nas esferas privada e semi-pública. Por isso os proprietários de patrimônios acumulavam valor na forma da propriedade de escravos. escravos e produtos beneficiados formou a base de uma acumulação fiscal baseada no escravismo. passando pelo governador geral (vice-rei) e os capitães donatários (Faoro 1997: 176). XVII o complexo do poder sobre o espaço do Nordeste açucareiro foi um fator determinante. 4 Para Smith (1990: 206 ss. transferido de Portugal para o Brasil. O sistema econômico brasileiro depois de 1500 foi um capitalismo comercial. uma parte do excedente de um processo organizado de produção. Inserido num espaço relacional. o Brasil se tornou parte da periferia de um sistema que cada vez mais abrangeu o mundo inteiro.2.1822) Portugal foi a força propulsora que abriu à Europa as portas ao mundo. para a produção orientada para a exportação (Becker. Em termos políticos. A civilização européia providenciou assim o fundamento da ordem territorial.. ele foi inserido no sistema comercial capitalista sem que o modo de produção capitalista se impusesse.) é decisivo registrar que os escravos não representavam um capital fixo. Para a maioria da população situada na base a influência européia consistiu sobretudo na cristianização definidora do estilo de vida (Faoro 1997: 199). Os entrelaçamentos com a Europa modificaram a tradicional estrutura social dos índios e a sua utilização do território.Em 1500 o português Pedro Álvares Cabral chegou durante uma navegação ao redor do mundo até o Brasil.

o estilo de vida dos barões do açúcar se assemelhava. Por fim o cepalismo chama pertinentemente a atenção ao fato de que uma condensação espacial de atividades econômicas e circulações de capitais em um determinado espaço constituem um pressuposto importante para o regime de acumulação. pois foram encontrados grandes reservas de ouro nos atuais estados de Mato Grosso e Minas Gerais. A metrópole envidou grandes esforços fiscais e comerciais para manter reduzido o fluxo de riquezas para a Europa Setentrional. Mas como o país carecia de uma base produtiva própria. a extração do ouro ou a economia cafeeira.). não existiu desde o começo. Um primeiro argumento contrário de peso é o fato da norma de produção basear-se no escravismo. Nas plantações de açúcar produzia-se de acordo com determinados métodos. onde a arrecadação de impostos era mais significativa (Conniff et al. Assim a territorialidade e o espaço de entrelaçamento desenvolveram-se desde o começo de modo paralelo. Baseava-se. O deslocamento estrutural de espaço e poder. Mas o espaço econômico brasileiro restringia-se nessa época à costa e as circulações relevantes consistiam de entrelaçamentos transatlânticos. pois esses séculos desembocaram na constituição da nação enquanto espaço de poder. importou-lhe afirmar-se como potência mundial mercantilista. Do ponto de vista meramente jurídico. não carecem do capitalismo. harmonizadas entre si. Apesar disso. por um lado. iniciado no séc. A disponibilidade de terras levou a uma utilização extensiva do solo. baseado no escravismo. XVIII com o surto da mineração. 7 O setor de subsistência constituiu desde o começo uma espécie de exército de reserva de mão-de-obra e um potencial de produção que podia ser ativado sempre que a demanda do mercado mundial provocava um surto de desenvolvimento regional. o modo de produção colonial pode ser compreendido. manifestou-se em 1763 no deslocamento da sede do vice-reinado de Salvador da Bahia para Rio de Janeiro. isso não representava um problema. A decadência econômica conduziu à desvalorização do Nordeste enquanto espaço político. A conseqüência de tudo isso foi que o regime de acumulação de natureza fiscal. logrou-se iniciar um novo ciclo de produção mercantilista. O Sudeste constituiu-se como centro do Brasil. No entanto. Embora se tratasse de um modo de produção pré-capitalista.g. O Brasil constituiu-se a partir da sua costa como um território. o crédito desempenhou um papel importante. A crescente demanda foi satisfeita pela extensão das áreas cultivadas. diante do pano de fundo de reflexões cepalinas e regulacionistas. à dominação do capital financeiro (Smith 1990: 241 s. retornou ao nível da economia de subsistência (Furtado 1975: 66)7. determinado pelo poder das potências européias em fixar os preços. que abastecera as propriedades açucareiras com carne e animais de tração. sendo por conseguinte précapitalista. em uma troca entre o centro e a periferia. sobretudo a pecuária no interior do país. Ambas. precisando primeiramente ser criado. que funcionava em ampla escala sem transformações da base tecnológica. Além disso a produção para a satisfação das necessidades próprias deveria ser impedida. cujo ponto nodal é o fator nacional e o Estado. XVII o preço do açúcar foi de 120 libras. Em meados do século o preço era de 16 libras e no início do séc. 1971: 40). XX ele ficou em 9 libras. Justamente por esse motivo a fase é especialmente interessante do ponto de vista da produção de espaços e formas sociais. o que levou em diversos planos ao surgimento de relações de endividamento e. 6 No séc.Uma determinada forma do poder econômico ia de mãos dadas com a dominação do espaço no qual esses processos de produção se concentravam.). depois que ele foi inserido nos circuitos econômicos europeus. Enquanto a economia açucareira era produtiva. Para fora Portugal era nitidamente mais fraco do que para dentro. Desse modo espaços cada vez maiores foram integrados ao campo de poder europeu. XIX. Tanto a opressão quanto a acumulação da riqueza se davam essencialmente por meio da dominação política. 90% da renda gerada concentrava-se nas mãos dos proprietários de engenhos e plantações de açúcar (Furtado 1975: 35 ss. conseqüentemente. não havendo mais de abdicar dessa posição mesmo sob o efeito de uma transformação da relação de poder sobre o espaço. carecia de pressupostos essenciais para a sua estabilização. apenas rudimentarmente como regime de produção. esse modo de desenvolvimento foi capitalista quanto ao seu modo de circulação. 40 . pois o comércio com os bens necessários à sobrevivência assegurava grandes margens de lucro aos comerciantes portugueses. carga e montaria. Depois da decadência dos preços do açúcar6. caindo até 1720 a 72 libras e depois a 30 libras no início do séc. Um campo de poder. como e. tanto a acumulação da riqueza quanto a dominação. Visto nessa perspectiva. Desde o princípio. A acumulação estável define-se pelo jogo de normas de produção e consumo. Pretendia-se assim compensar o descenso da posição de potência central à de potência periférica por meio de rendas geradas na economia exportadora. o modo colonial de produção constitui um sistema de dominação pré-capitalista. escravos eram coisas e por isso inteiramente destituídos de liberdade.

o que reduziria a circulação de dinheiro na economia doméstica. Para dentro o Estado português estabilizou uma estrutura estamental cujo topo era formado pela burocracia estatal parasitária constituída por políticos. por conseguinte. contra açúcar. onde ela perseguiu dois objetivos: proteger ou ampliar o território e ser intermediária no comércio com as potências econômicas européias. As exportações inglesas eram pagas em ouro. Depois os portugueses conquistaram as bases holandesas. o estado português valeu-se de estratégias territoriais hábeis para controlar pontos importantes da costa atlântica. Depois da expulsão dos holandeses os britânicos tornaram-se a potência dominante em escala mundial. o soberano dominava durante o modo colonial de desenvolvimento por assim dizer para dentro do espaço brasileiro. A força de Portugal residia no seu controle politicamente implementado do espaço de entrelaçamento econômico. Essa estrutura estatal dominou sobre os interesses territoriais locais. 34). declarando o 50º meridiano como fronteira (Becker. Com esse tratado o papa dividira generosamente a América entre a Espanha e Portugal. XVII Portugal dependeu do apoio da Inglaterra na defesa das suas colônias. XVII os holandeses controlavam quase todo o comércio marítimo europeu. A ausência de poderio econômico próprio de Portugal foi acrescida da perda das colônias asiáticas. Egler 1992: 16 ss.Quanto à forma do Estado. A partir do séc. um país que importasse mais do que exportasse e apresentasse. Com ajuda de missões. por isso experimentos como o estado jesuítico na fronteira do Paraguai foram rapidamente abortados (Faoro 1997: 201). deveria exportar ouro. Tanto o Estado quanto os grandes comerciantes estavam endividados junto à Inglaterra. XIX. O espaço de entrelaçamento econômico constituiu-se por meio do comércio de mercadorias. tanto pelo aporte de capitais quanto pela organização do comércio e pelo beneficiamento nas refinarias de Antuérpia e Amsterdã (Furtado 1975: 10 s. À medida que os escravos vinham ao Brasil. No Sul a luta pela Bacia do Prata durou também vários séculos. a Holanda prestou uma relevante contribuição para a ampliação da economia açucareira. Nesse regime as coações da política econômica nacional eram sobretudo de natureza monetária (Vidal 1998: 30). Egler 23 s. via de regra. Os produtores. que estes ocuparam de 1630 a 1654. do Brasil para Portugal. eles eram. Na economia açucareira os fluxos de renda eram em grande escala de natureza meramente contábil. No início do séc. Portugal se empenhou muito em expulsar os holandeses do Nordeste. Mas com isso as duas grandes bacias hidrográficas do subcontinente.. antes da maior parte das rendas ser transferida para a Holanda ou Inglaterra. o que permitiu à Inglaterra acumular consideráveis reservas desse metal (Furtado 1975: 93 s. fenômeno 8 De 1580 a 1640 Portugal e Espanha estiveram unidos sob um soberano e se viram conjuntamente expostos à concorrência territorial e econômica da Holanda. ficando assim subtraído o hinterland à colonização por parte da costa leste. que definiu a fronteira com a América Espanhola. O capital comercial submeteu as plantações e os engenhos açucareiros à sua lógica orientada pela valorização no mercado mundial. Diante de Portugal eles impuseram os seus interesses sobretudo por via da política creditícia. De início os portugueses respeitaram o Tratado de Tordesilhas de 1494. uma balança comercial negativa. As instituições centrais para a regulação dos processos econômicos eram determinadas pelo estatuto colonial. Mas o ouro e as mercadorias migravam imediatamente do tesouro português e dos grandes comerciantes imediatamente para Londres (Faoro 1997: 143). a demanda de dinheiro como meio de pagamento era desconhecida in loco. 41 .). Egler 1992: 21 s. A metrópole se viu assim obrigada a concentrar-se no Brasil8. Em 1750 o Rio Grande do Sul foi incorporado como região mais meridional ao reino português e em 1828 o Uruguai foi constituído como estado-tampão (Becker. No Nordeste. Isso levaria a uma deterioração dos preços. tornando desnecessário até o séc. o segundo interesses comerciais em reservar para si parte do valor agregado produzido na colônia. somente conquistavam poder quando se inseriam na estrutura portuguesa do espaço de poder. pois a estatalidade possuía o seu ponto nodal noutro continente. No seu empenho em atingir o primeiro objetivo. Mesmo a autonomia das igrejas era restrita.). De acordo com a teoria do padrão ouro.). comercializados em operações de escambo. XIX a formação de um sistema bancário nacional (Freyre 1951: 132 s. A acumulação fiscal baseou-se na transferência de riquezas por meio do comércio ou pela arrecadação de tributos. Como praticamente inexistiam trabalhadores livres.) e preparar-se assim para o regime do padrão ouro do séc. mesmo os grandes entre eles. teriam ficado com a Espanha. a amazônica e a platina. Portugal começou a colonizar e explorar economicamente a região amazônica (Becker. juristas e funcionários do comércio.). França e Inglaterra. O primeiro objetivo tinha por base interesses fiscais.

por sua organização geral ela se diferencia amplamente da economia açucareira. Aproximadamente 1. os grupos dominantes no Brasil se contentaram cedo com o papel do ”parceiro júnior” (Fernandes 1987: 93). ”À medida que pode ser combinado. Como a mão-de-obra ainda não era mercadoria. Em termos genéricos. Quando o capital industrial passou a ter influência na Inglaterra. remanesceu uma insegurança que restringia a possibilidade de comercializar a terra. de resto uma estreita aliada da Inglaterra. os constante conflitos bélicos nas fronteiras e o grande contingente da população indígena expulsa das missões jesuíticas que tinham sido dissolvidas. Isso contra-arrestou a dinâmica econômica. teórico de uma ”colonização organizada”.” (Furtado 1975: 41 s. desembocando assim em uma deterioração dos terms of trade. em virtude da falta de meios de subsistência. o trabalho escravo é muito mais produtivo do que o trabalho de homens livres. a produção de subsistência dos pequenos camponeses teria sido baseada em outro sistema de produção. Em contrapartida. da concessão de créditos e das obrigações de reembolso. permitindo-se corrigir o desequilíbrio (Furtado 1975: 156). XIX. No entanto. igualitário. um escravo representava um valor. Por sua vez. Mas para cimentar o seu poder. o serviço dos capitais estrangeiros e o fluxo mais reduzido de capitais estrangeiros acirraram os problemas decorrentes do balanço de pagamentos (Furtado 1975: 159). que a constância da des-ordem brasileira está fundamentada em um modo de produção que exigiu uma 42 . Como já foi explicado. a questão da organização do trabalho estava estreitamente relacionada com a organização fundiária. Segundo eles. em virtude da redução do valor da exportação. a apropriação da mais-valia se dava mediante coação direta. Essa visão desconsiderou o significado dos fluxos de capitais. ”Se bem que a base da economia mineira também seja o trabalho escravo. Por essa razão.300 escravos embarcados (cf. Em virtude dessas dependências financeiras. Com isso estavam criados os pressupostos para que a maioria da população devesse trabalhar para outras pessoas.).9 milhões de escravos sobreviveram à viagem transatlântica. Por outro lado. Somente os exportadores tinham poder aquisitivo. seria necessário que os colonos se organizassem em comunidades dedicadas a produzir para autoconsumo. Por fim. Mas no séc. Diferentemente das plantações de açúcar e café. e entre 1751 e 1780 com 495. Como a demanda de importação não regrediu imediatamente. a oligarquia agrária orientou-se fortemente segundos os argumentos do economista britânico Wakefield. atingindo-se o ponto culminante no séc. Embora a posse de terras antes de 1850 também já conferisse direitos semelhantes aos da propriedade. Egler 1992: 20). Aproximadamente um terço de todos os escravos embarcados para a América ia para o Brasil. A economia escravista permitia solucionar o problema central da falta de mão-de-obra. Precisou primeiramente encontrar uma nova regulação do acesso à terra. Já na produção de carne seca a escravidão foi muito importante (Targa 1996a). XIX aumentou a demanda interna. resistiu maciçamente à abolição da escravatura.de forma combinada” (Wakefield. Em contrapartida. Egler 1992: 26). Os escravos em nenhum momento chegaram a constituir a maioria da população. citado ap. Becker. ocorreu freqüentemente uma pronta deterioração da balança comercial. a forma como se organiza o trabalho permite que o escravo tenha maior iniciativa e que circule num meio social mais complexo” (Furtado 1975: 75). XVIII. ”Com efeito. para subsistir sem trabalho escravo. Esse fenômeno se agravou devido à circunstância de que a involução dos preços de produtos manufaturados importados ocorria mais lentamente e com menor intensidade do que nas matérias-primas exportadas. que lhe assegurasse a continuidade da sua dominação. pois permitia a produção de forma ”organizada”. com 790.correspondente ao encarecimento do ouro. Podemos registrar. uma produção organizada não era nem possível nem necessária. Mas a oligarquia agrária. As crises agora foram transportadas de fora para dentro do país. a forma da escravidão foi também diferente no Sul.mediante um elevado preço da terra e o sistema do trabalho assalariado . diferentes formas históricogeográficas do escravismo apresentavam diferenças essenciais. pois o dinheiro escasseava constantemente. o modo econômico colonial do Brasil foi pré-capitalista do ponto de vista da regulação das relações de trabalho (Becker. sendo que o comércio atingiu um ponto culminante entre 1701 e 1750.200. a oligarquia agrária empenhou-se em impedir na medida do possível a produção para a satisfação das necessidades próprias. pois os padrões de consumo se alteraram. o Brasil estava obrigado a canalizações regulares de ouro para a Inglaterra. a escravidão se tornou crescentemente um obstáculo para a continuada implementação de relações de mercado na periferia. Smith 1990: 143). Com isso as exportações seriam fomentadas e as importações reduzidas. importando de acordo com as suas receitas advindas de exportações. era decisivo distinguir entre uma produção organizada e uma produção individual. portanto. O trabalho do homem livre somente é mais produtivo do que o trabalho escravo se ele for utilizado . o que só teria sido possível se a imigração houvesse sido organizada em bases totalmente distintas. em virtude da pecuária extensiva. Na primeira metade do séc.

o Nordeste teve de concorrer com as novas áreas de cultivo nas Antilhas e se viu crescentemente marginalizado. O novo parceiro da aliança com o capital inglês foi agora a oligarquia agrária. Não obstante. XIX e depois se transformou apenas lentamente. sob dominação britânica (1822 . por outro lado. Um apêndice passou a ser um espaço político sui generis. a nação praticamente não se transformou no decorrer da primeira metade do séc. fundamentada em privilégios (Fernandes 1987: 191-197). de enclaves de exportação. com 43 . Furtado identificou na falta de um mercado local ou na falta de um sistema integrado de produção local um dos principais obstáculos de um desenvolvimento regional dinâmico nas primeiras fases de surto do ciclo da cana e do ouro. nem local nem nacionalmente. ambos. anulava as vantagens desse crescimento demográfico como elemento dinâmico do desenvolvimento econômico”: “esse crescimento se realizava sem que houvesse modificações sensíveis na estrutura econômica” (Furtado 1975: 51 s. embora se desse de forma mediada por meio da administração portuguesa. O século inteiro foi um período de transição. a constituição formal enquanto espaço político autônomo assinala uma cesura (Fernandes. que não permitia uma articulação direta entre os sistemas de produção e de consumo. Depois da expulsão dos holandeses. pois havia.. as transformações no plano do regime de acumulação já devem ser localizadas em tempos bem mais anteriores. XIX o papel mediador de Portugal tornou-se crescentemente obsoleto. As contradições subjacentes sempre podiam ser solucionadas apenas no curto prazo.1. As rupturas nas diferentes formas estruturais não ocorreram simultaneamente e processaram-se. a sua função econômica também era controvertida. e. O Rio Grande do Sul ocupava uma posição especial não apenas politicamente. ao passo que a região mineira no interior da região demandava animais de carga e de transporte (Targa 1996: 20). ocorreu uma apropriação subreptícia na região amazônica (Novy 2000). a colônia era uma soma de complexos de produção orientados para o exterior. politicamente controlado. o comércio de escravos. Produtos individuais formavam com regiões correspondentes um espaço de poder econômico com uma estrutura própria: o cultivo da cana de açúcar no Nordeste. Pedro I como ”defensor perpétuo do Brasil”. a dialética de espaço e entrelaçamento e território ingressou em nova etapa. orientado segundo instâncias externas. deve-se falar depois de 1822 de uma transformação qualitativa do campo de poder.] mecanismo da economia. Ao passo que a regulação da organização do trabalho passava apenas lentamente ao trabalho assalariado livre e mesmo a estatalidade somente foi definida em 1891 em uma nova constituição federativa.. definida pelas relações fiscais e pelo capitalismo comercial. ademais.hierarquização social extremada. Em contrapartida. Por isso a região fronteiriça meridional era objeto de lutas de dois campos econômicos distintos. A inserção na economia mundial era determinante.1929) Em 1822 a nação brasileira se constituiu mediante cisão de Portugal. O “[. a pecuária do Sul concorria com a da região platina. Em 1822. a pecuária no interior e no Sul. Por sua vez. enquanto região fronteiriça. Mas esses enclaves não devem ser compreendidos equivocadamente como arquipélago ou grupo de ilhas. a relação de concorrência não se estruturava para dentro. ela logrou. 1987). Apesar disso. Mas isso não significou que a estrutura do campo de poder tivesse mudado imediatamente. No séc. É certo que o Brasil já estava integrado desde 1500 em uma posição periférica no espaço de entrelaçamento do mercado mundial. por um lado. isto é. Essa des-ordem persistente está localizada mais profundamente e relativiza a contradição aparentemente fundamental entre escravismo e trabalho assalariado.). A relação de concorrência era determinada pelo comércio transatlântico. Buenos Aires e Montevideo fomentavam o comércio do couro e outros derivados do gado. diretamente e in loco. O Brasil apresentava-se como uma série de pontos nodais que intercambiavam mercadorias com a África e a Europa. com a proclamação da monarquia e. Enquanto espaço de entrelaçamentos econômicos. uma pecuária que ia além do Rio São Francisco e avançava muito para o hinterland. Não importa quão ridículos possam parecer o grito da independência ou o novo papel de D. A transição da colônia para a monarquia e finalmente para a república e a busca de um novo poder sobre o espaço foram árduas. entrelaçamentos de espaços econômicos que cobriam toda a região da colônia. Enquanto receptáculo do monarca a governar soberanamente. que fundamentavam.2 Modo nacional de desenvolvimento. Mas as regiões individuais estavam em parte estruturadas complementarmente. muito lentamente. a mineração do ouro em Minas Gerais e o extrativismo na Amazônia. 2.

0 8.2 2.5 1881–90 Fonte: Pessoa 1983: 96 9 Pode-se verificar a industrialização incipiente no número das patentes concedidas. que ocorreu germinalmente em lento processo que se estendeu por todo o século.0 7.5 1. que aumentou de 1 (1831-1835) a 53 (1866-1870) e 955 (1881-1889) (Pessoa 1993: 105). elevada em 1844 .6 1871-80 61.2 2. sobretudo no fim do século. Egler 1992: 37).2 2.8% para 61.2 9. agora nacional. controlada pelo exterior.5 4.8 1851-60 45. Isso possibilitou teoricamente a formação de um regime nacional de acumulação.3 1. Deriva a sua dinâmica essencialmente da ”existence of an immense reserve of unappropriated agricultural land” (Aglietta 1987: 73). a participação das exportações de açúcar caiu nesse período de 24% a 9.7 0.1 0.5 1.isso.3 12. Um regime de acumulação que num território nacional dá início à unificação das relações de trabalho é denominado regime dominantemente extensivo de acumulação (Aglietta 1987: 69).8 1831-40 41. Investimentos maciços na infraestrutura se faziam necessários para o aumento da produtividade na produção agropecuária e para a melhoria das relações comerciais. O fim furtivo da escravidão dinamizou também a urbanização no fim do século. XIX definitivamente pelas plantações de café no Sudeste. ocorreu a imposição de relações entre capital e trabalho no processo produtivo.2 5. embora a continuada dependência externa no setor de bens de produção não possibilitasse nenhuma reprodução integrada.3 3.6 1.4 1.5 7.9 8. No Brasil esses processos podem ser observados a partir de 1850. Egler 1992: 12). Tabela 3: Participação de produtos no total das exportações brasileiras (em %) década café Algodã Açúcar borracha cacau couros e tabaco erva o (em peles mate rama) 10. A manutenção da velha estrutura de poder e espaço exigia transformações.2 21. O Brasil não superou o estatuto periférico de uma economia imperfeitamente integrada.um pacto de senhores de escravos (Becker.5 1861-70 56. Máquinas produzidas na Europa foram utilizadas no Brasil provavelmente em conseqüência da taxa alfandegária para têxteis.0 3.6 18.7 1. No lugar de uma acumulação baseada no escravismo. sobretudo os militares. dessem maior atenção ao seu território.2 9.5 11.8 0.9 1. a borracha consignou um aumento vertiginoso de 0. o couro e as peles perderam maciçamente a sua importância.9 0.3% a 8% (cf. começaram a estabelecer-se como força social intermediária e adotaram um padrão de consumo em moldes europeus (Becker.9%. sendo substituída lentamente pelo trabalho livre assalariado de imigrantes.9 6.6 7. As camadas médias urbanas. A sua dinâmica se localiza no setor de bens de produção. Em contrapartida. Foi formada uma espécie de confederação dos diferentes grupos determinantes da ex-colônia .0 1.6 3.6 3. Ao passo que o algodão. manter um sistema de controle local sobre o sistema de produção orientado para a exportação.8 5. De 1831-1840 a 1881-1890 ele logrou aumentar a sua participação no total das exportações de 43.2 43. da independência. a plantação e o engenho açucareiros foram substituídos no séc. Nas plantações de café a organização da produção ainda se baseou por muito tempo em escravos. O café tornou-se o mais importante produto de exportação. Tabela 3).4 1841-50 48.0 1. que ia de mãos dadas com uma apropriação política do valor agregado.5%. cuja expansão altera fundamentalmente a forma das economias capitalistas. Os negócios de importação e exportação concentraram-se mesmo depois da eliminação de Portugal nas mãos de uma pequena minoria. Por meio do soberano nacional o processo históricogeográfico da conversão de uma economia escravista em modo de produção capitalista com trabalho livre assalariado pôde ser dimensionado de modo a deixar inalterados em muitas áreas os detentores bem como o campo do poder.8 24. Enquanto unidades centrais de produção.3 0.9 6. Os superávits continuaram sendo parcialmente apropriados por um estamento de funcionários públicos. agora nacionais.4 1.0 0. Tudo isso não impediu que o Estado e os comerciantes.5 26. 44 .e deram início a um primeiro processo de industrialização9. Sobretudo a ampliação da infraestrutura dinamizou a produção.

164). O capital internacional concentrou-se na ampliação da rede ferroviária. A tecnologia de produção da economia cafeeira estava em grande parte padronizada. Além disso o regime nacional de acumulação também carecia de fontes internas de financiamento. importantes para a economia agrária exportadora.O financiamento dos esforços de desenvolvimento se deu sobretudo fora de São Paulo. limitando assim os investimentos no setor produtivo.. 11 ”Under the presidency of Afonso Pena (1906-09) the country´s policy was one of ´peopling the land. nas ferrovias e nos portos. Before the 1930s Britain dominated foreign investment in Brazil. In 1930 half of foreign capital was British and one-quarter was of U. a exportação de mercadorias industriais e a concessão de empréstimos governamentais pelos britânicos foram de grande importância para o Brasil.9 billion in 1914 and to US$ 2. The national exposition of 1908 in Rio de Janeiro at which 11.. Depois o Estado retornou rapidamente ao monopólio de emissão da moeda e implementou programas de estabilização (Cano 1998a: 161). tornou-se novamente princípio diretor da política econômica. A ortodoxia. Depois de 1822 foi fundado o Banco do Brasil. this expanded to US$ 1. ameaçava constantemente a estabilidade da economia externa. contanto o poder estamental de uma sociedade escravista permanecesse intocado in loco. e tão-somente nas reduzidas regiões urbanas. 10 ”In 1880 the total stock of foreign capital was estimated at US$ 190 million. Na esteira das mudanças de regimes em 1822 e 1889 os novos detentores do poder criaram para si até margens de ação na política monetária. por meio de crédito. pois toda a política de fomento da produção cafeeira foi financiada com recursos extra-orçamentários. como e. O capital estrangeiro participou de investimentos maiores e por prazos mais longos. A ”vocação” agrária do Brasil desenvolveu-se com maciço apoio externo. 45 . mas também a inflação e um aumento da dívida externa. O campo de poder dominante até a crise econômica mundial permitiu manter o controle no espaço gigantesco e ao mesmo tempo maciçamente fragmentado. developing industrial centres and reforming the monetary system´. isto é. até São Paulo e de lá continuaram a sua marcha rumo ao Oeste e Norte. A conseqüência foi uma forte dinamização da economia. a teoria liberal ”ortodoxa” da neutralidade do dinheiro.S. Objetivava-se manter a heterogeneidade do fator local.000 exhibitors displayed the nation ´s new manufactured products to a million visitors was a revelation to most Brazilians” (Henshall.11 Desde o início a estrutura da indústria brasileira era dominada genericamente por grandes empresas que utilizavam máquinas importadas (Herrlein. The increased rate of railway construction and the development of electric power. Depois de 1822 atribuiu-se ao fator nacional o papel de poder moderador. pois a produção de bens de consumo in loco só estava esparsamente vinculada com a de bens de produção na Europa. o que ultrapassou. A indústria local tornou-se mais rentável. em grande parte importados. Em 1907 todas as maiores empresas brasileiras e em 1920 ainda 85% dessas empresas atuavam na indústria de bens de consumo (Silva 1986: 107). . Mas o padrão e o estilo de consumo mudaram apenas um pouco. Os elevados pagamentos do serviço da dívida consumiam uma grande parte do valor agregado. Tabela A-1). A supremacia britânica deslocou-se do comércio de mercadorias até o controle do financiamento do desenvolvimento.6 billion in 1930. à exceção da zona cafeeira. depois de 1889 numerosos bancos regionais foram dotados de direitos de emissão de moeda. Momsen 1974: 151 s. O elevado coeficiente de importação. a capacidade de financiamento do empresariado local. isto é. libertando-se das peias de uma política monetária rígida. origin” (Baer 1989: 213 s. pois a importação de bens de consumo foi dificultada a partir de 1900 devido a problemas com o balanço de pagamentos (Silva 1986: 100).).). pois terras exauridas eram abandonadas e as plantações de café avançaram. a emissão aumentou fortemente. protective tariffs and a conversion fund which permitted greater exchange balance all gave incipient domestic industries encouragement. O consumo se estendeu lentamente. essencialmente por meio de capital britânico (cf. o que levou a fortes oscilações na atividade econômica. partindo da Província do Rio de Janeiro e se estendendo pelo Vale do Paraíba.10 Investimentos diretos.g. o conhecimento ecológico era considerado irrelevante. Faletto 1976: 68 s. A nova forma de dependência periférica caracterizou-se dessarte por entrelaçamentos mais intensos no comércio de capitais do que era costumeiro em negócios de importação e exportação. Dias 1996: 146. Com isso a economia agrária bloqueava a divisão interna do trabalho e o financiamento interno. pois a camada média urbana consumia uma boa parte dos bens de consumo. provocado pelos consumidores urbanos.). Nos dois casos. As elevadas margens de lucro permitiram o financiamento de uma parte da produção com recursos próprios e além disso ainda investimentos na criação de uma infraestrutura local. O desenvolvimento em vias de dinamização desde 1850 criou formas atraentes de aplicação (Cardoso. e no comércio de obrigações do tesouro nacional (Silva 1986: 91).

Tabela 4). a imigração maciça de mão-de-obra. Os empréstimos externos aumentaram de 4. a criação de vários outros serviços públicos e industriais como energia elétrica.300 1871-1880 30. A forma concreta pela qual o mercado fundiário e de trabalho foram criados serviu à estabilização 12 De 1822 a 1850 os superávits e déficits orçamentários se alternaram. Como a margem de ação de uma política tributária e alfandegária autônoma era reduzida. 46 . ele pôde assegurar que só poucas pessoas tivessem acesso à terra. a construção de estradas de ferro. XIX (Vidal 1998: 30) e também no Brasil da República Velha (1889-1930) posições mais pragmáticas passaram a se impor cada vez mais. XIX. o palco da política nacional adquiriu maior importância (Cardoso. sob pena de marginalização na nova estrutura de poder. a estrutura local do Brasil transformou-se lentamente de sociedade dominada pelo padrão rural . proveito das medidas estatais nas áreas da política de infraestrutura e migração. por meio de pessoas. Para essas terras designadas fronteira decidiu-se que elas eram de propriedade do Estado e deveriam ser alienadas por ele. Esses empréstimos serviam ao fomento dos diferentes sistemas produtivos regionais. o governo central ficou de mãos amarradas na primeira metade do séc. que tiraram. ocorrendo.000 10. 1851-1900.300 a 57.de ”casa grande e senzala” (Freyre) . Tabela 4: Brasil. na forma do trabalho assalariado. O serviço da dívida aumentou no mesmo período de 5. Os latifundiários perderam importância diante de bancos e atravessadores. de forma respectivamente indireta. inicialmente nas plantações de café. financiando. o Estado serviu tanto aos interesses conservadores da oligarquia agrária que dominava. Em termos de política econômica externa. Considerada na sua totalidade.100 1861-1870 16. a modernização acabou por miná-lo. gás e transportes públicos (Silva 1986: 280).Mesmo um país periférico como o Brasil pôde recorrer depois de 1850 a empréstimos no exterior.100 1851-1860 12.100 contos na década de 1850 a 63. Essa política de localizações exigia investimentos maiores e em parte também nacionalizações no setor da infraestrutura de produção. entre outras atividades. o Estado ampliou-a tomando empréstimos no exterior. um deslocamento do primado da esfera de produção em benefício da esfera de circulação (Oliveira 1987: 49). Não obstante o empenho em preservar o velho poder político estamental sobre o espaço por meio de uma modernização puramente econômica. A partir de agora. quanto aos interesses do setor comercial urbano. À medida que o Estado fixava um preço correspondentemente elevado.500 38. depois o orçamento público tornou-se fortemente deficitário a partir de 1865 (Pessoa 1983: 102-104). Os donos de escravos se viram obrigados a se transformar em latifundiários e exportadores de bens primários.300 4.12 A posição britânica do laissez-faire no livre comércio já perdera a sua supremacia ideológica no fim do séc. A dívida externa aumentou continuamente na segunda metade do séc.100 1881-1890 57. Foi desenvolvida uma política econômica que visava primacialmente a melhoria das condições de localização para a concorrência com outras regiões. a política tributária e alfandegária fomentou o protecionismo industrial. serviço da dívida externa e novos empréstimos. Escravos libertos e imigrantes se viram obrigados a vender a sua força de trabalho de forma ”organizada”. pois ele não podia nem aumentar os impostos de exportação (o que era impedido pela oligarquia agrária) nem os impostos de importação (o que era impedido pela Inglaterra). posteriormente na indústria.300 contos (cf. isto é. o Estado consolidou-se como instituição. em contos década serviço das dívidas Novos empréstimos 5. em si disponível excessivamente: produziu-se assim a escassez de terra. assim. Faletto 1976: 76). no espaço de poder. Por meio dos seus objetivos primacialmente fiscais.700 9.em civilização urbana.300 1891-1900 Fonte: Silva 1986: 28 A Lei de Terras de 1850 fundamentou a propriedade absoluta da terra nas áreas habitadas do Brasil e definiu o resto como regiões inabitadas.300 contos na década de 1890.300 63. XIX. Com isso o governo conquistou uma certa independência dos setores domésticos que tinham sido a tradicional fonte de arrecadação de impostos.

Assim a sustentação do preço do café produziu o efeito não-intencionado de estabilizar simultaneamente a demanda. educacional. de saúde. Na ”política dos governadores”. Seu objetivo foi uma política de sustentação do preço do café. que fomenta de forma muito desigual os diferentes grupos sociais enquanto demandantes. mas entre regiões (Fausto 1981: 90 s.14 Aqui o Estado socializou as perdas da economia cafeeira. que buscavam uma centralização e modernização mais radicais. tropical. A regulação regionalmente fragmentada que se impôs como novo compromisso social. concebida por Campos Salles. mas ”real”. A parcela do serviço da dívida nas despesas totais do governo federal aumentou continuamente de 10. Egler 1992: 32). A influência sobre as políticas creditícia.13 Apesar disso o fim da escravatura e da monarquia representaram um surto de modernização. das linhas de navegação e das redes de comunicação era administrada pelo Estado. A disponibilidade de terras favoreceu alianças entre as oligarquias. criou pela primeira vez o pressuposto de uma política estatal ativa que apoiava conscientemente nos diferentes estados da federação os respectivos interesses econômicos dominantes. portanto. ser estocado e posteriormente destruído pelo estado -. Seu ponto culminante foi a destruição de café durante a crise econômica mundial. o que contribuiu para o seu fracasso. 47 . produziu um efeito democratizador nos EUA. podendo ser evitados efeitos cumulativos negativos . das ferrovias. Não se tratou de um liberalismo ”puro”. pois paralelamente aos aumentos das exportações registrava-se um crescimento quase igual da dívida externa.). Devido à constelação de interesses de oligarquia latifundiária no interior e interesses ingleses na metrópole a crise financeira crônica do estado brasileiro somente podia ser postergada mediante empréstimos ingleses. XIX medidas nos setores do serviço público. Esse é um exemplo típico da essência do keynesianismo latino-americano: criação da demanda pelo Estado. iniciado pelo governo paulista (Cano 1998a: 55 ss. ao passo que as oligarquias estavam interessadas na manutenção do seu poder local. Entre 1907 e 1919 a economia evoluiu dinamicamente. Mas o governo imperial demonstrava um interesse apenas reduzido por essas questões (Furtado 1975: 171).).condicionados sobretudo por demissões e pela queda da demanda privada (Furtado 1975: 154).e precisava. sobretudo os dos latifúndios improdutivos. possibilitando a criação de novos latifúndios sem precisar concorrer com os antigos proprietários de terras. Depois de 1889 pôde ser implementada pela primeira vez uma política econômica e financeira autônoma. bancário etc. o gigantesco hinterland brasileiro permaneceu sob controle do Estado e reforçou os traços autoritários na estrutura social brasileira. ficassem excluídos (Fiori 1994). o lado da oferta foi estabilizado.3% (1922-1929) (Oliveira 1989: 33). sendo determinantes os interesses cafeeiros do Sudeste. Boa parte dos bancos. que não podia ser comercializado . 13 Ao passo que a fronteira aberta para o Oeste. de formação profissionalizante.pudessem subtrair-se à influência dos militares de orientação jacobinista-centralista (Fiori 1995a: 74). Os superávits da balança comercial gerados nesse período e em parte consideráveis (cf. Silva 1986: 58) eram cada vez menos suficientes para pagar o crescente serviço da dívida. Com isso o Estado se transformou nos 40 anos da República Velha em instância reguladora da economia e produtor de partes substanciais da infraestrutura econômica (Pereira 1996: 212). determinado pela estrutura de poder no Brasil (Decca 1997: 151 s. tornaram-se cada vez mais necessárias. de início financiada regionalmente e com recursos extra-orçamentários e a partir de 1922 pelo governo federal. cambial e de comércio exterior era grande. À medida que os produtores continuaram colhendo café. Aos poucos uma posição pragmática na política financeira e monetária passou a ter influência. cuja colonização por pequenos proprietários rurais foi fomentada. mas o capital comercial e financeiro controlado a partir do exterior. A última década da República Velha caracterizou-se por uma política de desvalorização que significou um enfraquecimento do padrão ouro. Esse pacto de dominação durou até 1930. Nos anos de 1927 a 1930 o montante do serviço atingiu o dobro do superávit da balança comercial (Oliveira 1989: 32 s. 14 A destruição dos excedentes da safra de café no começo dos anos 30 deveria a rigor servir à proteção dos interesses do setor cafeeiro. Por volta do fim do séc.2% (18901894) a 20. A produção aumentava constantemente. foi encontrada uma fórmula pela qual os grupos civis . sem que os outros interesses exportadores.).. A posição de supremacia do capital cafeeiro era tão forte que os conflitos em torno do poder central aconteceram até a Revolução de 30 menos entre classes e frações de classes.com exceção do Rio Grande do Sul . 122).da des-ordem (Becker. O poder local dos latifundiários teve de subordinar-se ao poder regional dos governadores que articulavam in loco os interesses das classes. Em 1906 foi assinado o Acordo de Taubaté. mas isso beneficiou em primeiro lugar não os produtores. A estatalidade regionalmente fragmentada não pode enganar com relação ao fato de que o Estado na sua totalidade já era em 1930 incomparavelmente mais importante do que se costuma afirmar.

No lugar de um poder central que mantinha a coesão dos espaços dispersos do território apareceram fortes espaços de poder descentralizado.). Herrlein. ela tendia a definhar. forçou-se a partir dos anos 20 a migração interna. as províncias. à medida que estes eram forçados a tomar o seu destino nas próprias mãos. quando. se deixava a colônia entregue a suas próprias forças. Foi no Nordeste que se instalaram. para assegurar os lucros mais altos possíveis à produção organizada (Silva 1986: 65). pois uma integração nacional do mercado interno era impossível em virtude da falta de uma rede de transporte. Dias 1996: 146): „O processo de industrialização começou no Brasil concomitantemente em quase todas as regiões. cujo exemplo mais típico foram os monopólios de compra e venda. impostos à força. Nas regiões rurais continuava dominando a troca de mercadorias. Na última década antes de 1900 mais de um milhão de pessoas emigrou para o Brasil. depois a imigração permaneceu até 1950 em nível elevado. 1978: 68). A relação de concorrência inseriu-se também nos objetivos superiores da estabilização do poder. os espaços de poder descentralizado perseguiam.“ (Furtado 1975: 124 s. durante e depois da 2ª Guerra Mundial (Singer 1987: 122). 48 . Inversamente essa liberdade possibilitou aos que agora já não são mais escravos que agissem diferentemente e se constituissem em sujeitos políticos e coletivos. quase sempre. no entanto. Depois de algumas tentativas malogradas a migração passou a se dinamizar mais a partir de 1870. A indústria estava relativamente descentralizada. a relação entre as esferas local e nacional se reorganizou. Acresciam os impostos interestaduais (Cano 1998b: 178 s. involuindo em simples economia de subsistência. Nas regiões individuais algumas poucas empresas industriais detinham uma posição de oligopólio ou monopólio (Cano. Depois da proclamação da república em 1889. por outro lado a descentralização do poder atendia ao seu propósito de ampliar in loco o seu controle sobre a esfera da circulação. apresentava ainda até 1907 a indústria mais diversificada e uma participação de 30% da produção nacional (Cano. com uma única exceção . ferrovias. Processos mais complexos de trabalho não podiam ser executados com escravos que não eram livres e portanto praticamente não podiam ser motivados. o que. pois as empresas sempre podiam apoiar-se na cooperação com a polícia.16 Os esforços em prol do desenvolvimento.Com referência ao processo produtivo a introdução do trabalho livre assalariado tornou-se cada vez mais necessária. barcos a vapor e o 15 ”Era uma colonização amplamente subsidiada. após a reforma tarifária de 1844.o Rio Grande do Sul . A migração interna do Norte para o Sul e a concentração da população no Sul e Sudeste pôde ser observada a partir de 1870 (Baer et al. ela se integrava na burocracia estatal. O mercado de trabalho era competitivo e regulamentado de modo a estar ”livre” de quaisquer regras de proteção. São Paulo ainda não ocupava de modo algum a posição de supremacia em escala nacional. a partir dessa data a imigração regrediu .15 A migração dirigida visava impedir a produção para fins de subsistência. Neto 1986: 176 s. política de localização e com isso política dinâmica de concorrência entre as regiões com o objetivo do melhor posicionamento possível no campo do poder sobre o espaço. Neto 1986: 175). Embora dotados de grande autonomia. Até 1930 a migração foi o elemento dinamizador da evolução econômica do Brasil. Para substituir migrantes caros e freqüentemente sindicalizados. Inovações técnicas como novas máquinas. por sua vez. sobretudo a partir do Nordeste em vias de estagnação. sobretudo os investimentos em infra-estrutura estavam direcionados para o comércio exterior.e com intensidade distinta a mesma política: garantia do poder e com isso estabilidade no próprio espaço de poder. Por um lado. Formas mais sutis de dominação só podiam começar a produzir efeitos em sujeitos livres. para solucionar o problema cada vez mais urgente da ”falta de mão-deobra”. Essa forte afluência de mão-de-obra permitiu que na região mais próspera não fossem pagos os salários mais elevados (Cano 1998a: 246 ss. Pagavam-se transporte e gastos de instalação e promoviam-se obras públicas artificiais para dar trabalho aos colonos.) 16 Uma das diferenças entre São Paulo e o Rio Grande do Sul era o tamanho muito maior das empresas industriais em São Paulo (cf. não deve ser confundido com falta de intervenção estatal. que reproduziam in loco a respectiva estrutura de dominação historicamente surgida. E. Isso se deu por intermédio de mecanismos político-sociais de controle. O Rio de Janeiro.certamente reduzida pelos movimentos migratórios antes.). A eliminação dos mal-amados atravessadores portugueses fez da oligarquia agrária a beneficiária das relações desiguais de troca. sem a mediação do dinheiro (Oliveira 1989: 16). e o mercado de trabalho passou a ser nacional (Rolnik 1980: 53). Depois da proibição do tráfico de escravos em 1850 o governo central fomentou a imigração européia. após os vultosos gastos. A base da política econômica passou a ser crescentemente regional.). obras essas que se prolongavam às vezes de forma absurda. as primeiras manufaturas têxteis modernas e ainda em 1910 o número de operários têxteis dessa região se assemelhava ao de São Paulo“ (Furtado 1975: 238).

). A maior integração no mercado mundial foi facilitada por novos meios de transporte.500 +31.800 +51.17 As ferrovias. sobretudo pelo vapor.mais dinheiro).400 35.200 123. reduziam os custos de transporte sobretudo do café e asseguraram a inserção no mercado mundial.500 1829 33. sob dominação dos EUA (1929-1982) O período que iniciou depois da 1ª Guerra Mundial ou com plena intensidade nos anos 30 foi caracterizado pela formação . Assim os EUA evoluíram lentamente na direção de um papel de liderança na economia mundial. em 1929 eles detinham uma parcela de 42% da produção mundial na indústria de processamento (Altvater 1987: 199 e 201).900 -9.700 1860/61 197.1. a distinção entre ‘dentro’ e ‘fora’ passou a formar a linha divisória 17 A rede ferroviária expandiu-se de 14. As exportações aumentaram até a virada do século. pois a supremacia britânica no mundo entrou em colapso.100 -3. já não era mais internacionalmente competitivo e concentrou-se por isso no abastecimento do mercado interno (Cano 1998b: 51 s. A fronteira do território adquiriu importância.1900. Essa rede de transportes consolidou uma estrutura espacial que se concentrou em enclaves na exportação de alguns poucos produtos agrários. carreando ao Brasil recursos para o financiamento do seu desenvolvimento.600 -7. pois importações e exportações eram quantitativamente insignificantes. Entrelaçamentos modestos no comércio exterior fundamentaram a nação enquanto espaço determinante da reprodução.5 km em 1854 para 9.000 36.telégrafo chegaram ao Brasil pouco depois da sua introdução (Silva 1986: 52). Pode-se falar por várias razões de um regime nacional de acumulação.300 1869/70 231. A gestão das dividas permitiu transformar o dinheiro nacional em fundamento do esquema reprodutivo D – M – D´ (dinheiro – mercadoría .3 Modo de desenvolvimento centrado no estado-nação.300 548.000 197.700 1880/81 195.969 km (1889) (Pessoa 1983: 105 s. de 65 km (1861) a 10.100 -0. que se expandiam em ritmo vertiginoso e eram preponderantemente ramais ferroviários.800 76.1 km em 1889: a rede telegráfica.800 1889 850. 1829 . 2.500 1838/39 67. XIX resultaram essencialmente da evolução quantitativamente favorável do comércio de café.pela primeira vez . Ocorreu uma endogeneização da dinâmica econômica e uma valoração maior do fator político. anos selecionados.900 1850/51 123. em contos ano exportações importações 33.000 179. Os superávits da balança comercial gerados na segunda metade do séc.600 49.100 168. Brasil.300 1834/35 41. Depois de 1918 os EUA já dispunham de mais da metade das reservas mundiais de ouro.500 1885/86 259.400 Em 1914 encerrou-se a fase da inserção internacional estável. O açúcar experimentou um declínio dos preços que só pôde ser compensado parcialmente por aumentos das quantidades exportadas.500 +28.300 -2.076.900 1900 * erro no original Fonte: Pessoa 1983: 96 – 98 saldo -2.100 217.300 +301. que depois da 2ª Guerra Mundial era em ampla escala inconteste na América Latina.de um regime nacional completo e estável de acumulação e pela dominância do estado-nação enquanto ator central. Em outros produtos de exportação a evolução foi menos positiva. em vias de expansão no Nordeste. Tabela 5: Comércio exterior do Brasil no séc. O cultivo de algodão. XIX.) 49 .

Aqui se revelou útil a circunstância de que o estado-nação foi libertado das amarras do padrão ouro. Cabia-lhe agora o papel de definir o valor da moeda no 18 „A produção industrial cresceu em cerca de 50 por cento entre 1929 e 1937 e a produção primária para o mercado interno cresceu em mais de 40 por cento. A vertiginosa migração das regiões rurais para os centros urbanos conduziu a maciças transformações no estilo de vida dos brasileiros. Isso iniciou no Brasil com a urbanização e a difusão das relações de mercado já no séc. Em virtude do reduzido setor de bens de consumo. as estruturas rurais arcaicas contavam com proteção política. Gêneros alimentícios baratos e disponíveis em quantidade suficiente. Dessa forma. iniciou a substituição de importações de bens de consumo duráveis e em alguns setores também bens intermediários e bens de capital. no fato de que os setores de bens de produção e de bens de consumo não eram vinculados (Aglietta 1987: 71). como se sabe. reflexo da expansão da produção para o mercado interno. A fraqueza da acumulação extensiva antes de 1930 consistira.depois do espaço de entrelaçamento de um nexo de centro e periferia ter rompido em virtude das crises e guerras no centro . Os anos subseqüentes de isolamento não-intencional . fomentada pela política orçamentária norte-americana fortemente expansiva até o fim da Guerra da Coréia. recomeçando a crescer já em 1931. Sem a intervenção estatal o empresariado brasileiro não tinha condições de efetuar sozinho a regulação complexa de um regime de acumulação intensiva. Ferrovias precisavam ser fechadas. não obstante a depressão imposta por fora. Num segundo período de 1945 a 1954.) distingue três fases da substituição de importações. O espaço de poder rural subtraía-se à ingerência soberana do estado-nação.. em 1980 esse número atingiu 66% e em 1997 ele chegou a 80% (IBRD 1999: 192. ela se tornou o novo espaço de poder econômico. dos hábitos de consumo e dos estilos de vida. [. dominantemente endógeno (Conceição 1989b: 216 ss..] Com efeito. sob condições abertas da economia mundial. a expansão do setor de bens de produção chocava-se sempre de novo com limites que conduziam a crises. Ocorreu a concentração fundiária. de 1955 a 1961. 50 .. mais importante foi provavelmente a nacionalização gradual do sistema produtivo. de 14% (1929) a 8% (1932). No regime de acumulação intensiva as transformações na esfera do consumo desempenharam um papel proeminente. a renda nacional aumentou em 20 por cento entre aqueles dois anos. Como a cidade oferecia trabalho e direitos sociais de cidadania. freando por sua vez um aumento dos salários. A crise econômica mundial levou a uma queda da participação do valor das importações na renda nacional. Porém. O êxodo rural de camponeses sem terra aumentou o proletariado urbano. sob as restrições maciças ao comércio mundial. e a forte elevação dos preços de importação desses bens. A inserção de contingentes populacionais cada vez maiores no processo de produção industrial exigiu uma alteração na reprodução da mão-de-obra.] O crescimento da procura de bens de capital. fábricas de cimento não tinham compradores e a ampliação da infraestrutura urbana encontrava o seu limite na falta de poder aquisitivo dos moradores. acarretada pela depreciação cambial. a produção de bens de capital no Brasil (se a medirmos pela de ferro e aço e cimento) pouco sofreu com a crise. Na primeira. as restrições externas se acirraram. foram substituídos sobretudo bens de consumo. mas esse padrão de consumo tornou-se dinâmico e um fenômeno socialmente amplo apenas depois de 1930.). corporificadas no latifundiário. o que representa um crescimento per capita de 7 por cento. aquela produção já havia aumentado em 60 por cento com respeito a 1929“ (Furtado 1975: 199 ss.decisiva.permitiram até o fim da Guerra da Coréia a transição para um regime de acumulação dominantemente intensivo. ano mais baixo da depressão no Brasil. pois faltavam passageiros. ao passo que a produção industrial nacional recebeu o impulso decisivo em meio à crise internacional. XIX (Fernandes 1987: 77). urbanização e industrialização carecia de um monitoramento político mais forte.18 Tornou-se inevitável construir uma indústria nacional de bens de produção (Tavares 1983: 41). agora produzidos em escala maior pela indústria de bens de consumo. Estabeleceu-se um novo esquema de reprodução. [. 19 Maria da Conceição Tavares (1983: 37 ss. de 1930 a 1945. A nação em vias de modernização. Um tal regime intensivo de acumulação busca uma transformação da esfera de reprodução. Baseadas na relação de dependência territorial do poder local. concluída amplamente pela integração dos setores de bens de produção e bens de consumo em 1980. e a estrutura fundiária dificultou o modelo da agricultura de subsistência.2% da população vivia nas cidades. foram pressupostos importantes para a formação de uma reserva confiável de mão-de-obra que já não podia contar com a possibilidade de retorno ao setor de subsistência. Mas em termos econômicos o país se modernizou e capitalizou. caindo a capacidade de importação.19 O capital reproduzia-se crescentemente no espaço-receptáculo da própria nação. no mesmo período. Na terceira fase.. Isso se concretizou no Brasil como industrialização substituidora de importações e como estratégias de desenvolvimento orientada para o mercado interno.). criaram condições propícias à instalação no país de uma indústria de bens de capital. Somente uma dinamização do setor de bens de consumo que pressupôs uma mudança no padrão de consumo da mão-deobra logrou assegurar uma estabilização sustentável da acumulação. Novy 1994: 168). Em 1932. Se em 1940 31.

01 7.30 34. favoreceu a importação de bens de produção e impediu a importação de bens de consumo. O Estado financiou no longo prazo essa evolução e forçou a industrialização na direção da produção fordista em massa.40 19. embora no Brasil o consumo de massas tenha ficado restrito à classe alta e à classe média. As leis trabalhistas e as regulamentações do salário mínimo asseguraram nas áreas urbanas o fundamento do novo padrão de consumo de massas.67 27.90 14.10 37. isto é. Tabela A-8). uma justiça própria e um contingente de 600. Além disso ele melhorou a infraestrutura. Tratou-se. a saber. mas de fordismo periférico. Mas apesar disso os elevados índices de crescimento permitiram um ganho de bem-estar para camadas mais amplas. sendo que apenas entre 1971 e 1976 foram fundadas 67 empresas.81 9.21 a ocupação na indústria aumentou até 1970.24 65. por conseguinte. Não estava previsto o acoplamento a aumentos da produtividade. Tabela 6: Distribuição da renda pessoal no Brasil no período de 1960 a 1980 (em %) 1960 1970 1980 3. 51 .espaço-receptáculo nacional (Fiori 1995a: 79). Mas também na periferia podem ser registrados efeitos positivos de reforço. a ”conquista interna da terra” [”innere Landnahme”] era incompleta. Como também entre a população urbana se concentravam a renda e com isso as chances de consumo. Por meio da política financeira.90 1% superior Fonte: Rojas 1998. de uma forma de fordismo.80 1º quintil 8.000 homens.07 6. que funcionou sobretudo no centro.81 10. O consumo direcionavase a bens padronizados para as massas.70 16.77 62. os anos 80.94 16.00 2º quintil 11. A Constituição de 1988 não podou o poder dos militares. Influiu no salário real não apenas por meio da fixação do salário mínimo.60 3º quintil 20.75 26. a acumulação dominantemente intensiva beneficiou sobretudo a quinta parte mais rica da população. o número total de empresas estatais aumentou nesse período de 13 a 328 (cf. historicamente sempre foram um ator-chave e constituem até a atualidade um Estado no próprio Estado.50 40% médios (3º e 4º quintis) 53. sobretudo à criação de espaço habitacional e do transporte individual motorizado. Tabela 6).80 40% inferiores (1º e 2º quintis) 13. o que reduziu o dinamismo da produção de massas.49 3.).20 Com a criação de um mercado de capitais e a fundação de empresas estatizadas constituiu-se o capitalismo financeiro no Brasil. monetária e creditícia ele influiu de múltiplas formas na distribuição do produto social: subsidiou investimentos.90 4º quintil 34. Baseado no World Bank Development Report 1996 Foi a ditadura militar de 1964 a 1982/89 que colocou a acumulação em novas bases. O número de empresas estatizadas aumentou vertiginosamente. O Estado assumiu a responsabilidade pelas condições de reprodução dos trabalhadores. por meio de novas formas estatais de financiamento. Isso tem a ver com o momento histórico do meu interesse incipiente pelo Brasil.46 relação entre o 1º e o 5º quintil 28. Mas os militares. a ”sociedade política armada”. Além disso o país estava por lei excluído da modernização.86 16. Mas já a lei definia que no caso do salário mínimo se tratava de um salário de subsistência. Assim a 20 Sem dúvida os militares não são suficientemente considerados nesse trabalho.90 5% superiores 11.70 23. Nessa produção de massa para o consumo das massas consistiu a dinâmica da política econômica keynesiana. de um mínimo necessário para a sobrevivência. 21 Na esfera federal o número de empresas estatizadas aumentou no período de 1941 a 1950 em 7.70 5º quintil 15. com três ministérios próprios. mas também por meio da inflação e da política de indexação.85 5.16 2. Os 80% restantes se viram obrigados a aceitar entre 1960 e 1980 perdas na participação da renda nacional (cf. o acesso democrático a elas é reduzido (Dreifuss 1989: 26-33). que logrou aumentar a sua participação na renda nacional. o que se tornou possível em virtude de vantagens de escala. porque a produção se orientou para as classes alta e média (Lipietz 1986: 32 s.56 10. as instituições da ditadura militar continuam existindo. Num processo positivo de reforço o poder aquisitivo crescente conduziu a uma produção mais intensa e barata. tudo somado. quando as ditaduras militares pareciam ser uma forma de governo ”superada”. chegando até o período de 1971 a 1976 a 138 empresas.

52 .3 10.4 12.permitiram completar a estrutura produtiva (Becker. 1978: 278 Já por volta da virada do século teve início o afastamento do Brasil da Inglaterra e a aproximação aos EUA (Faria 1996: 62 ss. Disso resultou também uma estrutura de centro-periferia. a agroindústria. Nela a balança de transações correntes.9 16. devido às remessas de lucros. Egler 1992: 51. 1949-1980 Ano setores tradicionais setores não-tradicionais .papel e celulose . sua participação reduziu-se entre 1949 e 1980 de 65. o complexo militarindustrial. a 22 1949 1967 1975 1980 65. Tabela 7).6%.3 10.22 com o aumento da utilização de máquinas e tecnologias modernas. Podemos mostrar bem a constituição ou o enfraquecimento de fronteiras econômicas com base na evolução do balanço de pagamentos (cf.6 37.1 1. a indústria de alta tecnologia e de computadores . Franco 1991: 23).4 63.607 km (1973) (Robock 1975: 47). por fixar regras claras para o espaço de entrelaçamento econômico.2 10.5 6.6 39.3 2.7 6.3%.1%.23 O Estado engajou-se na disponibilização da infraestrutura e da produção de bens intermediários.5 44. A Inglaterra orientava-se pelo comércio exterior e pelo comércio mundial e tinha uma estrutura complementar de comércio exterior.7 18. caso as reservas cambiais não devam ser alteradas.9 2.5% a 37% (cf.beneficiamento de metais Química Máquinas instalações elétricas setor de transportes Fonte: Baer et al.2 5.a petroquímica. Representam ativos na balança de capital e conduzem na balança de transações correntes a fluxos financeiros para o exterior em virtude da remessa de lucros.7% a 18. 24 Se nos investimentos diretos dos EUA no Brasil em 1929 ainda dominavam as instituições do poder público como as empresas produtoras e distribuidoras de energia elétrica e as empresas ferroviárias. No âmbito da indústria ocorreu um deslocamento dos ramos industriais dominantemente expansivos até os ramos determinantes no regime de acumulação intensiva.5 3.5 4.4 60.6 11.1 5.8 6. Egler 1992: 130 ss.0 2.malha rodoviária aumentou de 3. Brasil. na qual o comércio desempenhava um papel menor do que os entrelaçamentos de capitais. para se transformarem finalmente no setor inequivocamente dominante (Becker. A estratégia dos EUA diante dos maiores países latino-americanos distinguia-se substancialmente da da Inglaterra no século anterior.2 6.8 9.5 55. Os EUA permaneceram durante muito tempo como economia orientada pelo comércio interno e dispunham de uma gama de produtos de exportação similar à da América do Sul. Tabela 7: Distribuição do valor agregado na indústria.2 3.3 7. 23 A sua participação nas dez maiores empresas foi em 1968 no setor dos bens de capital de 72.7 2.7 10.2% a 10. se opõe à balança de capital na qual se contabilizam os créditos e os investimentos diretos.1 2. O fluxo de investimentos diretos do exterior experimentou um primeiro crescimento no fim dos anos 50 e depois mais uma vez durante a ditadura militar no início dos anos 70 (Fritsch. O grande capital privado brasileiro controlava por sua vez as áreas do comércio e dos serviços (Senghaas 1980: 132).0 34.). Investimentos diretos reforçam os entrelaçamentos de capitais. Mas a CEPAL cedo reconheceu que a mudança da potência hegemônica na economia mundial não era tão positiva para o continente. Numerosos complexos industriais novos.133 km (1955) a 67. no setor dos bens de consumo de longa duração de 78.6 A participação da indústria química subiu de 4. Aqui as empresas multinacionais em expansão desempenharam um papel de central importância.24 Nas duas vezes esses investimentos conduziram em seguida. Tabela 8).0 7.minerais não-metálicos .0 12.). os investimentos na indústria de processamento passaram a ter mais peso a partir de 1946. muitas vezes controlados do exterior . A supremacia dos EUA nas décadas posteriores à 2ª Guerra Mundial favoreceu o comércio mundial. Senghaas 1980: 130). Os setores tradicionais perderam a sua posição dominante. Essas duas balanças devem compensar-se. composta pela balança de serviços e pela balança comercial.4 5.7% e a da construção de máquinas de 2.

Os títulos públicos indexados puderam 25 Mesmo os oficiais reformistas e os liberais anti-oligárquicos foram marginalizados. No lugar de sindicatos independentes apareceram sindicatos subordinados ao Ministério do Trabalho. As oligarquias mantiveram o seu poder baseado no latifúndio.0 a 17. A compensação de interesses divergentes se deu agora pela via do estado-nação. O Estado investiu no âmbito do seu projeto de integração nacional na valorização da Amazônia. A ideologia do estadonação orientou-se e. O déficit na balança de serviços acirrou-se nos anos 70 e preparou o chão para a crise de endividamento dos anos 80. hidrelétricas e álcool como combustível).26 O estado-nação aprofundou os seus esforços em desenvolver e controlar de modo abrangente o espaço de poder. por outro lado. pois contingentes populacionais maiores podiam ser integrados no novo regime de acumulação.uma passivação da balança de serviços. ligadas aos EUA e à oligarquia agrária orientada para a atividade exportadora. A moeda creditícia passou a ter maior importância em comparação com a moeda de papel.). os investimentos de todo o setor público tinham aumentado de 3.6%. mas visava também a exploração militar das regiões fronteiriças e a transformação do Brasil em potência hegemônica na Amazônia. Com ajuda de determinadas condições gerais internacionais enquanto regras de jogo. Uma nova fase das relações econômicas internacionais iniciou-se com o Acordo de Bretton Woods de 1944. que contudo não serviu incondicionalmente à democratização e uniformização das condições sócio-econômicas. à medida que se submetiam gradualmente aos interesses nacionais de desenvolvimento e industrialização. Forças conservadoras. 26 Já antes da tomada do poder pelos militares em 1964. as transferências e os investimentos tinham aumentado de 7. nos anos 30 pelo fascismo (Fausto 1981: 110). Na constituição de um mercado financeiro nacional sob Juscelino Kubitschek e posteriormente sob os governos militares o Estado desempenhou um papel central. Nos anos 70 ficou evidente a contradição central: a industrialização orientada para o mercado interno foi sustentada por capital controlado a partir de fora. Depois do aumento dos preços de energia em 1973 foi iniciado um amplo programa de substituição de importação de energia (energia nuclear.9% (Tavares 1983: 224). desempenhou um papel nitidamente maior. que fixou. A ONU complementou esse conjunto de organizações supranacionais.27 Ao lado da poupança maciçamente fomentada e em parte obrigatória. Pontos de estrangulamento no financiamento foram ”solucionados” mediante empréstimos no exterior. Juntamente com a crescente orientação doméstica do regime de acumulação intensiva o poder político se deslocou para os espaçosreceptáculos dos estados-nação. Na forma da industrialização realizada em 1956 o capital estrangeiro. a saber. se na esteira da crise econômica mundial e da guerra mundial o comércio mundial não tivesse entrado em grande parte em colapso entre 1929 e 1945.2% a 6. os títulos do Tesouro Nacional foram a segunda fonte principal do financiamento de um novo surto de crescimento superador da crise. 53 . vendendo obrigações a particulares (Oliveira 1989: 94). Mas o novo bloco de poder era maior do que o da ”República Velha”.25 A industrialização conduzida pelo estado-nação possibilitou uma compensação específica de interesses no interior dos grupos dominantes. a não-ingerência nos assuntos internos de estados soberanos. A classe trabalhadora recebeu no direito trabalhista consubstanciado em 1943 na CLT (Consolidação das Leis de Trabalho) direitos sociais claramente definidos. cujos dirigentes foram integrados ao bloco de poder. obrigado a remessas periódicas de lucros e juros para o exterior. fazendose sentir na economia doméstica sob a forma da inflação.4% a 61. da estratégia de crescer e centralizar (Fiori 1995: 78). por meio da ”fuga para frente”. estados periféricos também conquistaram um espaço de atuação que até então existira apenas nos centros. A arrecadação tributária subiu de 11% (1955) para 17% (1961) (Bergsman 1973: 56 s. ao menos em termos de ‘Direito Internacional Público’.9% a 14. e a xenofobia serviu para alimentar o anticomunismo (Fausto 1981: 106 s. o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional como as novas organizações centrais.1% (Tavares 1983: 229). num projeto que não buscava apenas a exploração das jazidas e da energia hidrelétrica. O regime de acumulação intensiva não poderia ter-se estabelecido duradouramente no Brasil.7% e o consumo do Estado.g. impediram a imposição dessa política. por um lado. 27 A participação dos ativos monetários caiu em benefício dos não-monetários no período acima mencionado de 88. e com a institucionalização do dólar norte-americano como moeda padrão. Financiavam investimentos no setor produtivo e na melhoria da infra-estrutura. Esta foi o ”ovo de Colombo” para compatibilizar as velhas alianças com novos objetivos: assim o Estado pôde aumentar os seus gastos sem financiar as suas receitas mediante títulos do Tesouro Nacional ou outros mecanismos (Fiori 1995a: 96).). apoiado pelo capital do Estado. que aumentou muito. Os bancos estatais de investimentos aumentaram a sua participação nos créditos privados de 1964 a 1970 de 6.

O Estado ou. A representação dos interesses empresariais. mas não de bens de consumo..31 Em 1985 havia no nível federal 25. Permitiam aos grupos com capacidade de pagamento aplicações seguras a juros elevados.7% (1964) a 10. As tarefas das empresas diante dos seus funcionários reduziam-se ao pagamento do salário mínimo fixado em lei. em si já esgotado. Apesar disso as organizações dos trabalhadores conquistaram uma certa independência e um acesso incipiente ao sistema político. Advogado de um combate decidido contra a inflação. 30 Os salários reais regrediram claramente entre 1961 e 1974. em seguida. 28 Na esteira da 2ª Guerra Mundial. O Poder Legislativo. diferentes órgãos públicos perseguiam interesses particularistas que estavam em contradição com outros interesses igualmente particularistas.. Jaguaribe 1987: 36). Ainda em 1988 havia oito representações de interesses municipais em nível nacional e três representações de interesses rurais (Diniz 1997: 164).).aumentar a sua participação nos ativos financeiros de 0. Isso levou a uma articulação direta entre os setores público e privado por via do corporativismo. [o ideário golpista de 1964] dá lugar.29 Por via do clientelismo foi possível influir no Poder Legislativo. 31 ”Liberal em sua primeira hora. e os desentendimentos entre as chefias nomeadas sempre segundo critérios políticos e o funcionalismo de carreira forneciam constantemente matéria para conflitos internos. Mas isso afetava sobretudo projetos individuais. foi igualmente suprimida como a da classe trabalhadora. na configuração de programas políticos e estratégias globais a classe trabalhadora continuou marginalizada. 54 . produz. foram substituídos por sindicatos corporativistas. A representação dos interesses políticos se dava por lei com restrições setoriais e territoriais e a constituição de uma central sindical era proibida. no longo prazo. sem que os partidos desempenhassem aqui um papel mediador (Diniz 1997: 162 ss. Foi aumentado o número dos órgãos consultivos nos quais a presença dos empresários era muito forte. Por fim a gestão de divisas objetivou possibilitar importações de bens de produção.30 A centralização do poder no Executivo e em nível nacional caminhou de mãos dadas com a fragmentação interna do Estado. o valor do salário mínimo real caiu para quase a sua metade (Zenk 1982: 166). levando à fragmentação da ação estatal (Diniz 1997: 108). Ela foi seguida entre 1953 e 1957 por um sistema de licenças que distinguia entre tipos de importações. corrigida apenas em 1953.000 órgãos públicos (Diniz 1997: 17). depois o governo passou a cobrar taxas alfandegárias. por via do populismo foi possível influir no Poder Executivo. logo proibidos. recebeu um último impulso dinâmico.]. Faletto 1979: 112 s. sindicatos controlados pelo Estado (Fiori. de modos respectivamente distintos. isto é. de um surto de crescimento do setor exportador e de importações restritas foi possível efetuar uma supervalorização do cruzeiro. que ganhara influência nos anos 50 e no início dos anos 60. destinado a indenizações e ao financiamento habitacional. Com isso o regime de acumulação. Ele era o palco no qual os interesses dos empresários podiam ser mobilizados e precisavam sê-lo.). apesar das elevadas taxas de crescimento da economia como um todo. e pelo Poder Executivo via populismo. ao regime mais centralizado e autoritário de nossa história republicana. um verdadeiro descalabro inflacionário“ (Fiori 1995a: 107). O aumento por volta do fim dos anos 70 estava ligado ao incipiente movimento grevista.9% (1970). 29 Sobretudo depois das grandes greves dos metalúrgicos em 1953 o seu acesso ao sistema político se dava pelo Poder Legislativo via clientelismo. para ser mais preciso. propicia o maior surto de crescimento do aparelho econômico e produtivo do Estado [. O corporativismo brasileiro caracterizou-se. diante da acumulação politicamente determinada. Mas o Estado estava aberto aos empresários enquanto indivíduos e enquanto frações de classes que representavam interesses setoriais e territoriais. perdeu-a novamente com o golpe de 1964.28 Os interesses divergentes foram acomodados mediante a inserção de esferas sociais outrora autônomas no estado-nação. mas sem desistir de outras medidas protecionistas como a concessão de licenças (Baer 1989: 53 ss. As exportações de produtos agrícolas serviam para atrair divisas necessárias ao processo de industrialização e desenvolvimento. Patrono da desestatização. Os sindicatos autônomos. Para as obrigações sociais restantes a responsabilidade cabia ao Estado que exigia em contrapartida a aceitação da estrutura existente (Cardoso. Essa política em benefício do setor cafeeiro foi implementada conscientemente sobretudo pelo governo liberal de Eurico Gaspar Dutra. o Poder Executivo não era um ator uniforme: os vários ministérios concorriam entre si. Sob a ditadura militar os recursos e as decisões se concentravam no governo central. Os trabalhadores foram coagidos à poupança mediante retenção de parte do salário no FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço). centralizada no estadonação.). A prática da troca de votos representava um mecanismo para cobrar melhorias concretas das condições de vida.

A centralização do estado-nação assegurava por meio de uma regulação nacional a sobrevida a frações de capitais que não poderiam ter se mantido por mais tempo no mercado internacional: um protecionismo radical fechava os mercados para empresas nacionais. Mas o golpe militar de 1964 mudou radicalmente a sua atitude diante da política regional. responsável pelo mercado dinâmico dos bens de consumo duráveis.3%.: Oliveira 1989: 77). desde o direito à sobrevivência até o ‘direito’ de manutenção de seus subsídios e rentabilidades diferenciados.portanto. sendo que a partir de então a valorização da periferia no 32 Em 1952 foi fundado o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE). A burguesia industrial em vias de formação organizou-se desde o começo em estreita simbiose com o Estado. foram transferidas a regiões.7% (Baer et al. do qual contudo também participava o setor dos bancos privados. pelo atendimento privilegiado de interesses empresariais no aparelho de Estado. concebidas para nações inteiras. cujas decisões influíam no sucesso ou fracasso da iniciativa privada. a deficiente homogeneização do território nacional. Como o sistema era corporativista. mais tarde renomeado como Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Com a produção de bens de consumo duráveis.32 O tripé . ela era ao mesmo tempo crescentemente politizada. Nessa ”internacionalização dos mercados domésticos” os mercados continuaram fechados às importações. por um estrutura fortemente fragmentada. Foi projetada a empresa energética ELETROBRÁS (fundada somente mais tarde) e foram feitos investimentos nos setores de aciaria e mineração (Becker. à medida que a legislação trabalhista se restringia aos trabalhadores nas cidades. Sob condições gerais ditatoriais. que produzia com métodos atrasados. créditos baratos subsidiavam ramos da economia expostos à pressão internacional. Furtado 1997b). As idéias básicas da estratégia cepalina. a participação da população nordestina na população total do país reduziu-se no período de 1872 a 1970 de 46. pelo capital do Estado. as áreas gigantescas inexploradas da Bacia Amazônica e a estrutura econômica e social ainda arcaica do Nordeste bloqueavam um desenvolvimento maior orientado para o mercado interno.).a aliança ”de três pés” . a SUDENE (Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste) (Fernandes 1998: 194). responsável pela infraestrutura e pela indústria de insumos básicos. Por um lado. A oligarquia agrária nordestina. o capital internacional haveria de tornar-se o motor do desenvolvimento e em virtude dos seus recursos tecnológicos e financeiros o ponto nodal do poder. foi protegida. os empresários apostavam no Estado protetor. Isso continuou permitindo na zona rural o pagamento de salários abaixo do salário mínimo (pago nas cidades). pela construção civil e pela agricultura e pecuária -. foi uma espécie de pacto de não-agressão. por outro. 1978: 68). Um papel-chave foi desempenhado pelo órgão de desenvolvimento regional do Nordeste. a cada dia. No lugar de programas assistenciais como e. A política regional tornou-se crescentemente mais importante para valorizar recursos ociosos (Cano 1998b: 19 ss. a do Sul aumentou de 7. mas a produção dos produtos localmente consumidos ocorria em empresas multinacionais localizadas no próprio país. pelo primado do Executivo na definição das estratégias políticas e pela concentração do poder decisório na burocracia estatal. O conflito social deslocou-se para o interior das instituições do estado-nação: ”Ali se disputaria.3% a 17. O desenvolvimento regional polarizou-se. Egler 1992: 49 s. À medida que se organizava a concorrência no espaço-receptáculo nacional. Essa polarização foi percebida crescentemente como obstáculo ao desenvolvimento de toda a nação. 55 .g. Assim essas empresas logravam embolsar subsídios de colonização pagos pelo Estado e explorar ao mesmo tempo as vantagens de uma estrutura oligopolística do mercado. a política regional passou a ser um campo central da política. e pelo capital nacional. nas prescrições jurídicas constituintes do território. Já nos anos 50.formado pelo capital internacional. conseqüentemente cimentadoras de poder.7% a 30. responsável pelos bens de consumo de pouca duração. Disputa responsável pela expansão muitas vezes desordenada da intervenção estatal e pela instabilidade cíclica das instituições políticas” (Fiori 1995a: 81). a burguesia nutria simultaneamente um profundo ódio contra essa regulação feita pelo Estado autoritário (Fiori 1995a: 89). o combate ad hoc da seca e da fome previa-se um planejamento do desenvolvimento regional (cf. o êxito e fracasso dessa ação política foi medido pelas medidas tomadas no campo das políticas financeira e fiscal. Essa idéia foi apoiada pelas regiões industrializadas do Sul e combatida pelos grupos dominantes do Nordeste. Mas como isso resultou na concentração do poder nas mãos da burocracia estatal. pela exclusão dos trabalharores. A heterogeneidade desses capitais e seu grau distinto de modernização não eram questionados. conseqüentemente reproduzidos. Em 1953 foi criada a empresa estatal de petróleo PETROBRÁS.

). o Estado deslegitimado enquanto ator central. Mas quando os esforços do estado-nação não mais puderam ser financiados .4 Destruição do modo de desenvolvimento centrado no estado-nação e dominação dos EUA (a partir de 1982) Seria uma simplificação grosseira querer descrever o regime de acumulação intensiva como fase uniforme e estável de evolução econômica de 1930 a 1982. vale dizer. de investir lucros com incentivos fiscais no Nordeste. A virada monetarista sob os governos de Margareth Thatcher e Ronald Reagan provocou em 1980 uma recessão mundial que destruiu o antigo campo da acumulação.3%). mas de forma especialmente dura (cf. O ponto culminante dessa estratégia de homogeneização nacional foi o Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) nos anos 70. foi aqui uma cesura especial. Esforços intensos no setor de alta tecnologia completaram o pacote de investimentos. que ocorreu em meio a uma grave crise econômica. tal como ela formara durante décadas uma unidade em torno do estado-nação.4. Mas a produção física estagnou. Mais uma vez se pode falar como nos anos 30 de uma ”grande” crise. Rompeu-se estrutura profunda do poder sobre o espaço. o Brasil ainda logrou passar por um desenvolvimento dinâmico depois de 1973. nas quais igualmente se podia perceber fenômenos de crise. Foram arquivadas a reforma agrária e a redistribuição da renda. Uma outra estratégia era a homogeneização e extensificação no âmbito das fronteiras nacionais e das fronteiras traçadas pelas estruturas de poder. os militares sediaram ramos da indústria de insumos básicos na periferia e começaram a produzir nessas regiões também energia em larga escala. Por isso os militares apostaram crescentemente também em estratégias de extensificação. criada para as grandes empresas. Uma alternativa possível era a transição ou o retorno a um regime de acumulação orientado para o exterior. Tentaram manter a sua dinâmica interna de acumulação e aplicar simultaneamente capitais excedentes em investimentos produtivos nos países emergentes (Lipietz 1986: 30 s. Com isso a dinâmica da acumulação intensiva só pôde ser preservada mediante um ampliação do consumo das classes média e alta. uma maior orientação para a atividade exportadora.1. Tabela 9). As fases do seu esgotamento foram seguidas por tentativas de adaptação. Nessa situação de crise todas as estratégias de acumulação se caracterizaram por sua inconsistência. Apesar disso os anos 70 já foram anos de crise nas economias dos países centrais. 2.a partir de fora -.interesse do desenvolvimento nacional estava em primeiro plano. A possibilidade. As economias dos países centrais. do colapso de uma ordem relativamente estável. apostaram nas duas estratégias. O poder físico dos militares transformou uma economia nacional composta por uma série de economias regionais e uma economia nacional abrangente. Não obstante o enfraquecimento do espaço econômico nacional e da crise internacional. a dinâmica da acumulação se esgotou. que completou a estrutura produtiva do país: tomando generosamente os créditos baratos no exterior. localizada nas diferentes partes do país e integrada funcionalmente (Oliveira 1989: 55). mas na crise dos anos 80 o modo de desenvolvimento centrado no estado-nação também entrou em colapso. cuja base era formada por um processo nacionalmente unitário de valorização do capital. Nos anos 60 o modo de desenvolvimento e com isso o campo de poder ainda permaneceram intocados. a fuga para aplicações de capitais a curto prazo levou a uma expansão vertiginosa do capital financeiro. A nação enquanto estrutura profunda estava minada. O golpe militar de 1964. A expansão do capital paulista e do capital estatal para o Nordeste ensejou a formação de um espaço nacional de acumulação. fomentou nos anos 60 o deslocamento de unidades de produção para a periferia (Cano 1998b: 242). A recessão começou com a forte queda da renda nacional em 1981 (. a produção de bens de capital no país regrediu e foi substituída em parte pelo aumento 56 . relativamente tarde em comparação internacional.

8 milhões de toneladas a 25411.2 bilhões (1998).9 bilhões (1990) para US$ 25. um indicador confiável da atividade no setor da construção civil e conseqüentemente um indicador confiável da conjuntura. desintegrou-se. De 1980 a 1992 diminuiu sobretudo a produção de bens de capital. quase completa. bem como a produção de bens de consumo duráveis (na razão de 8%) (Pacheco 1998: 108). o território perdeu importância.9 milhões de toneladas (Pacheco 1998: 143). As importações de bens de capital aumentaram de US$ 5. 57 . reduziu-se no período de 1980/82 a 1991/93 de 26523. 33 Assim a produção de cimento. Enquanto unidade política e econômica.33 a estrutura produtiva nacional. as suas fronteiras se tornaram permeáveis. mais precisamente na razão de dramáticos 44%.das importações. A demanda de bens de capital ocorreu crescentemente no exterior.

483 -26. anos selecionados 1970 1974 1981 1988 1994 1995 1996 1997 1998 1999 232 -4.0 74.229 447 909 18.443 6.685 14.773 -8.3 7. (3) Sempre em dezembro de 1971 Fonte:www.3 159.863 25.br (tab.990 51.689 -17. n.d.4 148.310 -15.137 -30. www.d. o excedente e déficit no balanço de pagamentos não correspondem exatamente às transformações das reservas cambiais.2 241.173 -10.1.011 n.017 -7.Tabela 8: Balanço de pagamentos do Brasil.338 -8. com relação aos dados para os anos não-mencionados.170 -119 -198 -1. Balança comercial Exportação Importação B.834 5.963 77 464 1.747 52.972 -23.gov.506 47.285 -10.122 -11.6.1.591 -1.611 -24.d.9 200.894 -16.929 -27.594 -20.734 4.184 10.3 179.d.7 (3) 5.554 -6.079 49.1 52.254 12.1 38.520 30.202 19.881 19.758 A.850 -10.5 9.755 57.212 -234 -514 -9.858 53.015 6.939 13.253 -8405 -10.662 20.0 243.html (para 1970-1995). n.8 60.833 -33.175 -1. Transações correntes F.042 -562 -7.103 -14.d.596 27.891 n.301 59.736 22.832 14.d.690 1.gov.6 36.284 -28.161 -9.bcb.948 -15.2 44. 1970 – 1999.540 20.545 46.845 -17. 33.765 -6.359 33.3 RESERVAS INTERNACIONAIS (2) 5. n.1 DÍVIDA EXTERNA (2) (1)Em virtude de correções adicionais.300 -5.294 29.578 132 887 2.375 1.).158 -9.731 49.881 13.351 -5.8 51. 2. n.326 2. Novy (1998: 191-193) 58 .358 -18.343 12. n.886 28.437 -11.832 -6.111 -2. em milhões de US$.ipea.743 -18. v. n.390 -11.198 n.798 -25.130 1.135 -15.d.br/ftp/tabelas/ltab88.964 41.845 54. 43.d. Balança de capitais Investimentos diretos Empréstimo à médio e longo prazos Capitais à curto prazo I.209 -815 -2.1. Superávit(+) / déficit (-) (1) 1.466 -3. viagens) E.663 15. Serviços Juros Serviços diversos (remessa de lucros.480 9.d.3 20. (2) Em bilhões de US$.984 8.958 545 -936 625 -5.131 4.140 48.433 -13.0 114.

3 1.Tabela 9: Dados econômicos principais.9 42.4 3.8 PIB-crescimento (%) 5.1 56.bcb.6 -2.4 775.d.2 1093.3 6.192 6.5 PIB per capita (%) 1476.7 100.d.8 6. alteração no período em % (4) Desemprego oficialmente admitido.2 105.8 1.8 4.5 -0.3 7.8 9. 429.0 107. segundo o IBGE (5) Selic/ Over.7 775.6 .9 23.9 4. FGV.2 2. Brasil.909 6.5 1. n.7 20.148 6.9 2708.7 3.4 103.5 4.3 2.1 3.br 59 .628 5.9 5.8 6.664 5.2 4.1 0.4 4.3 Desemprego (4) 110.161 PIB per capita (2) -5. n.5 801.7 543. R$ (Real) 1999 (3) deflator IGP-DI Geral.5 556.9 4.0 106.1 Índice do nível de emprego -4.1 705.0 taxa de juros reais (5) (1)em bilhões de US$.283 6.4 38. Dezembro Fonte: www.0 -0.8 14.5 4. 1990 até 1999 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 n.7 30.4 -0.2 2.d.0 Inflação (3) 3. a preços correntes (2) em preços constantes.8 PIB (1) -4.2 102.3 104.0 31.2 1157.0 99.4 3.2 -1.6 480.072 6.2 7.gov.3 104.480 5.2 19.4 4.596 5.0.

sendo que o déficit desde os anos 80 se localiza entre US$ 10 e 20 bilhões. isto é. como em 1986.60. com o congelamento das cadernetas de poupança no primeiro ano de governo de Fernando Collor de Mello. Em 1988 ela atingiu um ponto culminante com US$ 19. sobretudo aos preços reduzidos. as importações baratas possibilitaram a absorção local de padrões globais de consumo up to date. Isso mostra que as melhorias de 1995 devem ser creditadas sobretudo à situação dramaticamente negativa antes do início do Plano Real.57. Estavam assim esgotadas a partir do lado da demanda as estratégias convencionais e também todas as estratégias tipicamente brasileiras de superação da crise. Tabela 8).Países capitalistas periféricos. A disponibilidade de capitais internacionalmente aplicáveis foi tão importante para o boom quanto o ambiente favorável aos aplicadores. ela foi quase sempre positiva. A deterioração daí resultante da distribuição da renda bloqueou a demanda maciça enquanto saída da crise de crescimento. www. Tabela 10). um valor que ainda estava acima do de 1992.8% em 1989 (cf. Os investimentos diretos. quando ocorreu em virtude do reduzido crescimento econômico um colapso das importações e uma diversificação das exportações.58. ocorreu uma distribuição da renda. Elevados índices de inflação foram acompanhados pela deterioração da distribuição da renda.ipeadata.g 1% da população controla. em 1989 em 0. mas simultaneamente também num período recessivo nos países industrializados. Apenas na esteira de programas de combate à inflação. em números arredondados.5% (1995) (Calcagnotto 1996: 35). Nos anos 80 eles cairam continuamente até desaparecerem em grande parte nos anos de 1986 a 1991. já num ano de elevada ”ingovernabilidade”. Embora a estratégia política oficial tenha consistido na substituição das importações.34 No curto prazo. foi de 0. substancialmente a balança de capital. Nos anos 80. que integram. e em 1990. criado somente mais tarde pelo Plano Real.57.br. a balança de serviços é cronicamente negativa. nos ativos financeiros e na propriedade fundiária. o segundo decil conseguiu aumentá-la ligeiramente e os restantes 80% sofreram perdas. A sua maior parte é composta por pagamentos de juros.2 bilhões. Novy 1998: 180).abstração feita de quedas em 1995 e 1998. 34 Restrições às importações foram retiradas e as taxas alfandegárias foram reduzidas em média de 32. Em 1992. Os diferentes fundos de investimentos. em 1993 em 0. do dinheiro e do trabalho freqüentemente não se coadunam. tendem a desequilíbrios na sua economia externa (cf.). Como é típico para uma economia periférica. ao lado dos empréstimos no exterior. para citar apenas um exemplo.35 O fundamento da deterioração da distribuição da renda no longo prazo é a distribuição do patrimônio. a metade do patrimônio. para deteriorar-se novamente mais tarde. 35 No ápice da ditadura militar o índice Gini.64! Em 1992 ele esteve em 0. A estrutura industrial também tinha sido completada. para cair em 1995 para 0. isto é. os investimentos diretos atingiram o patamar de US$ 2.97 bilhões. O patrimônio concentra-se sobretudo na propriedade empresarial. mas as remessas de lucros também são consideráveis. Em 1981 ele estava em 0. uma medida para aferir a desigualdade da distribuição. Com o Plano Real ela entrou novamente no passivo em virtude da taxa cambial excessivamente alta e do surto de importações daí resultante. subindo depois sobretudo em virtude das grandes privatizações . Parte dos efeitos redistributivos positivos do Plano Real se deve também a uma crise da agricultura.2% (1990) a 12. ano do Plano Cruzado. do Estado. Apesar disso os 10% mais ricos da população conseguiram em toda a década aumentar nitidamente a sua renda. aumentaram somente de 1994 até maio de 1997 o seu volume de US$ 54 bilhões para US$ 119 bilhões (Gonçalves 1999: 58 ss. nos quais as formas estruturais do capital. a balança comercial foi tendencialmente negativa nos anos 70. profundamente inscrita no poder sobre o espaço. Em 1997 elas passaram da marca dos US$ 20 bilhões. 60 . isto é.gov. Assim e. a uma transferência de renda das regiões rurais para as urbanas (cf. Na esteira do Plano Real a distribuição da renda melhorou mais uma vez no curto prazo. aumentaram especialmente nos anos antes da eclosão da crise em 1981. Importações baratas serviram no Plano Real para reduzir o nível dos preços internos em mercados antes protegidos. Nove nonos da população se viram obrigados a reduzir continuamente a sua participação na renda de 53.4% (1981) a 46.59. A urbanização avançara a ponto de não mais poder ser um motor do crescimento.

9 51.2% depois de aumentos contínuos nas participações. que culminou em 1970 em 58.4 4.0 0.5 7.7 2. caiu nos anos seguintes gradualmente até chegar em 49.5 16.4 37.4 0.7 3.2 7. Tabelas A-13 e A-14) 61 .2 33.5 7.6 1. Desde 1970 São Paulo pareceu perder crescentemente essa posição dominante na estrutura regional do Brasil.2 1.9 48.gov.br/ftp/tabelas/ltab80. mas não social.7 6.9 5. Tais medidas abriram novos mercados na periferia da nação e sustentaram a dinâmica fordista.1 6.4 7.3 53. A participação regional de São Paulo no PIB reduziu-se por isso apenas de 39. a distribuição da renda se tornou regionalmente mais (cf.5 48.6 35.5 35.0 1.8 5. aumentou essa vantagem até 1970 para 100%.0 3.2 10.1 32. mas a distribuição pessoal menos equilibrada (cf.3 16.1 46.3 48.9 1.4 3.6 10.0 5. Tabela 10).8 12. cuja renda per capita em 1939 já estava 79% acima da média no Brasil.5 35.3 16.4 4.6 2.2 4.8% em 1995.7 3.1 4. No PIB essa perda da participação é mais reduzida.4 7.1 5.3 49.36 Tabela 12: Diferenças regionais da renda média por habitante.9 9.4 15.8 7.7 34.0 5.4 48.3 * renda mensal de trabalhadores a partir dos 10 anos de idade Fonte: www.2 2.0 11.1 4.6% (cf.1 15.4 31.3 16.8 0.5 5. Tabela 11).7 1. para cair depois até 1995 a uma vantagem de 65%.2 10.1 5.3 3. pois aqui as perdas de participação da indústria foram suavizadas por ganhos de participação na economia agrícola e pecuarista e no setor de serviços.2 10.6 3. São Paulo.3 10.5 9.4 49. Em conseqüência dessa política de homogeneização espacial.html Por mais de uma década os militares estabilizaram mais uma vez o modo de desenvolvimento centrado no estadonação por meio de uma política keynesiana de demanda e do fomento da homogeneização territorial por meio de políticas regionais.2 11.8 15.61 Tabela 10: Distribuição da renda pessoal.7 1.1 12.8 51.6 51.0 46.8 53.2 16.2 2.2 10.7 2.7 2.ipea.8 2.5 4.8 48.2 0. 1939 – 1995 1939 79 33 61 62 239 179 96 78 1970 56 38 69 69 163 200 75 88 1995 68 49 88 90 123 165 119 109 NO NE MG ES RJ SP PR SC 36 A sua participação no valor agregado da indústria processadora. sem precisar abrir para todas as camadas o acesso ao consumo de massas.3 10.8 1. 1981 – 1990* participação na renda (em %) DECIL até 10 de 10 a 20 de 20 a 30 de 30 a 40 de 40 a 50 de 50 a 60 de 60 a 70 de 70 a 80 de 80 a 90 de 90 a 100 ACUMULADO 50% mais pobres 80% mais pobres 90% mais pobres 1981 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 0. para subir depois até1995 novamente a 36. Brasil.7 2.4% (1990).7 51.5 3.4 51.6 13.2 16.8 1.4 2.5% (1970) a 36.9 0. Brasil.4 51.9 50.4 7.7 11.5 3.8 12.1 5.6 1.9 1.4 2.8 0.5 2.6 4.4 3.6 3.3 10.0 34.1 12.9 0.

62 127 119 119 RS 69 67 84 CO 175 206 DF Brasil =100 (siglas: v. gráfico 7) * NO compreende no período de 1985 a 1995 o Estado de Tocantins * CO compreende no período de 1939 a 1970 o Estado de Tocantins

Fonte: Cano 1998b: 316
As dimensões da crise até agora descritas evidenciam aspectos de uma crise de subconsumo. Mas também no lado da demanda os sintomas da crise se aprofundaram. O fenômeno está ligado ao enfraquecimento da indústria nacional, motor da dinâmica do crescimento fordista. Desde 1980 a indústria era essencialmente responsável pelas graves quedas e pelos surtos não suficientemente duradouros de crescimento da renda nacional. (cf. www.ipea.gov.br/ftp/tabelas). O estado-nação, devido aos investimentos estatais na infraestrutura e às empresas estatizadas substancialmente responsável pela formação de capital no longo prazo, não pôde mais preencher o seu papel no velho campo de regulação. A crise fiscal levou a uma forte redução dos investimentos estatais e com isso a uma redução dos índices de investimento.37 Os investidores privados também se mantiveram reticentes e desviaram, em virtude da insegurança e das opções lucrativas, para aplicações em capital financeiro. A partir daí as empresas geravam lucros no mercado financeiro, ao passo que os elevados juros sobre o capital estrangeiro motivavam as empresas a fazer investimentos produtivos principalmente com recursos próprios. Tudo somado, a evolução dos lucros permaneceu insatisfatória, embora os salários reais também praticamente não aumentassem depois do fim da ditadura.38 A explicação desse fenômeno deve ser buscada até 1990 no modesto aumento de produtividade39, pois enquanto a produção industrial estagnava, o número de horas trabalhadas se reduziu mais ainda. Embora a produtividade aumentasse claramente depois, não está claro até que ponto isso produziu um efeito dinamizador e até que ponto ocorreu apenas uma economia de mão-de-obra.40 A centralização do espaço de poder, levada ao ápice pela ditadura militar, criou um estadonação aparentemente todo-poderoso. Mas o campo do poder centralizado não impediu que o estado-nação permanecesse em grande escala impotente enquanto ponto nodal da rede de poder diante de influentes interesses da sociedade civil. Quando necessário, essas frações das classes dominantes agiam à margem do Estado, mas serviam-se dele enquanto instância garantidora da estabilização da estrutura de poder. O Estado perdeu essa função desde o fim da ditadura. Os diferentes grupos sociais promoveram, em parte consciente, em parte inconscientemente, o enfraquecimento do estado-nação e prepararam assim o chão para a sua reestruturação. A política fiscal e financeira desempenhou aqui um papel central. O saneamento do orçamento público era considerado desde a ditadura militar o objetivo político em grande parte inconteste.41 Isso se explica a partir da idéia de que o déficit público fomentaria a inflação. Com efeito os numerosos programas de estabilização sempre foram justificados com o argumento do combate ao déficit do orçamento público. Uma análise mais
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Ao passo que a quota de investimentos em 1980 ainda estava em 23%, ela caiu depois continuamente até 14%. Durante o Plano Real ela se recuperou no curto prazo para chegar em 18,5% no 2º trimestre de 1997, para regredir depois em fins de 1998 novamente a 17,1% (www.ipeadata.gov.br). 38 A participação dos salários no valor agregado, que tinha regredido continuamente desde 1949, aumentou na segunda metade dos anos 70 sobretudo em decorrência das greves nos ramos dinâmicos da indústria. Mas a recessão de 1980 a 1984 atingiu duramente os trabalhadores. Somente com o aumento do crescimento econômico em 1984 aumentou novamente a participação dos salários no valor agregado. 39 Comparada com a produção física por trabalhador, a análise da evolução da produtividade do trabalho, mostra que a acumulação esteve nos anos de 1976 a 1990 em uma crise maciça. A partir de 1990 a produtividade do trabalho começou a aumentar novamente, mas isso deve ser creditado essencialmente à involução dos índices de emprego; a produção e os índices de emprego foram desacoplados (Seade 1995b: 40). 40 Parte dos lucros de produtividade depois de 1990 resultou de processos de modernização que foram implementados como resposta à abertura do mercado. Em 1992 somente 38 empresas tinham adquirido o certificado ISO 9000, em 1993 esse número já chegou a 166 e em 1994 ele chegou a 400, mais do que toda a América Latina restante (Seade 195b: 28). Outra parte explica-se a partir de terceirizações para empresas autônomas prestadoras de serviços (Seade 1995b: 32-36). 41 Por ocasião da introdução do Plano Real o objetivo do saneamento do orçamento público esteve, no discurso oficial, até acima do da estabilização dos preços (www.fazenda.gov.br vom 16.8.1999).

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63 acurada evidencia nexos inteiramente distintos, pois o Estado pôde controlar bem as suas receitas e despesas correntes também nos anos 80 e 90. Ainda em 1994 foi alcançado um superávit considerável de 5,1%. Mas o cálculo das receitas e despesas correntes tornou-se cada vez mais insignificante para o Brasil. O déficit orçamentário operacional ou nominal explodiu sob o Plano Real em virtude dos juros elevados: em 1998 7,5% dos PIB tiveram de ser gastos no pagamento dos juros, o que equivaleu a uma sangria maciça do Estado (cf. Tabela 12). Esse endividamento da união deslocou-se da dívida externa para a dívida interna que se cifrou em 1998 em R$ 218,9 bilhões. A dívida pública externa atingiu apenas R$42 16,9 bilhões (www.seplan.gov.br/sof/orc98). A política dos juros elevados causou, por conseguinte, o aumento dramático do endividamento do setor público, de 29,9% (1995) a 47,o% (1999) (www.bcb.gov.br). Comparada com a renda nacional em escala internacional, esse endividamento do setor público continua não sendo elevado. Mas o aumento da dívida e os prazos curtos dos reembolsos são motivos de grande apreensão. Embora o saneamento do orçamento do Estado tenha sido o grande objetivo que o governo se fixou, justificando muitos cortes no Estado de Bem-Estar Social, o resultado foi extremamente negativo. Tabela 12: Necessidades de financiamento do setor público, Brasil, 1993-1999, em % do PIB, em números arredondados Tipo 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 58,1* 43,7* 7,2 5,9 6,1 8,0 5,6 Nominal -0,2 -1,3 4,9 3,8 4,3 7,5 3,2 Operacional -2,6 -5,1 -0,4 0,1 1,0 0 -3,1 Primário 2,4 3,8 5,2 3,8 3,3 7,5 6,3 Juros reais * os números elevados resultam, por razões de técnica de cálculo, do elevado índice inflacionário Fonte: www.bcb.gov.br Uma análise do orçamento, que pela primeira vez pôde ser efetuada com seriedade em 1995, não é empreitada fácil nem para esses anos. Assim uma grande parte das despesas está contabilizada no item ”Administração financeira”, isto é, na administração do serviço da dívida (cf. Tabela A-9). Trata-se, nessas despesas de itens de passagem [? Durchlauferposten; a tradução é literal e designa os montantes que, no caso, entram no caixa do governo, mas são transferidos integralmente a terceiros, não podendo, por conseguinte, ser lançados na contabilidade. O tradutor desconhece o termo técnico em português e remete a questão à decisão do revisor da editora.] e não é possível fazer inferências diretas sobre o ônus do serviço da dívida. Não obstante, algumas tendências podem ser reconhecidas. Assim uma estagnação se evidencia nos gastos sociais: os gastos para educação e saúde foram em 1998 em termos reais menores do que em 1995, o que significa que os gastos per capita sofreram uma nítida redução. Foram cortadas muitas atividades de investimento, com exceção do desenvolvimento regional. O único item na área dos gastos sociais que aumentou nitidamente foi o da Previdência Social. Aqui os gastos - aos quais se contrapõem também as receitas advindas das contribuições dos funcionários públicos federais - aumentaram em preços constantes de 66,42 a 82,95 bilhões de reais. No lado das receitas o Estado foi bem-sucedido nos anos 90 (cf. Tabela 14), e isso apesar da falta da reforma do sistema tributário extremamente regressivo e ineficiente. De acordo com estudos internos do Ministério da Fazenda nem os ”100 brasileiros mais ricos” nem as grandes empresas pagam impostos.43 No sistema tributário, em si uma área central para o saneamento das finanças públicas, só foram agudizadas estruturas negativas. Assim o limite de isenção de tributação estava, no imposto de renda, em R$ 1.800,00, atingindo duramente a classe média (Fritz 1996: 29). Sobretudo os latifundiários não pagavam os seus impostos ou estavam altamente endividados junto ao Banco do Brasil. No campo da cultura as propostas também se limitaram essencialmente a isenções tributárias concedidas para patrocínio cultural e redutoras da receita do Estado. A guerra fiscal para a atração de projetos
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R$ designa desde 1994 a moeda corrente, o Real, que passou a ocupar o lugar dos numerosos cruzeiros e cruzados. A sua taxa de câmbio com relação ao dólar norte-americano caiu até 1998 de 0,80 a 1,20. 43 Deve-se considerar que a alíquota máxima é de apenas 25%; a tributação de capital se cifra em 8,18% (28,43% na média dos países do G-7). Apenas os impostos sobre o consumo - de efeitos regressivos - são com 16,74% mais elevados do que nos países do G-7 (12,65%) (Fritz 1996: 28 s.).

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64 industriais, oficialmente lamentado pelo governo federal, mas efetivamente apoiado, também é muito custoso para os cofres públicos.44 O lado especialmente problemático dessas medidas está no fato de que o Estado não apenas concede subsídios no presente, mas abre mão de receitas também no futuro.45 Tabela 13: Programa Nacional de Desestatização, Brasil, 1991 - 1998, em milhões de US$ Setor Receita de Dívidas Total Vendas transferidas 8 5562 2.626 8.188 Aço 27 2.135 1.003 3.701 Petroquímica 3 3.828 1.670 5.498 Elétrico 6 1.491 1.491 Ferroviárioas 2 3.305 3.559 6.864 Mineração 22 26.557 2.125 28.682 Telecomunicações 16 1.401 343 1.744 Outras 1.039 1.039 Minoria 83 45.81 11.326 57.207 UNIÃO 21 22.367 5.223 27.590 ESTADO TOTAL 111 68.248 16.549 84.797 Fonte: www.bndes.gov.br/pndnew/sectors.htm, www.fazenda.gov.br A desestatização iniciada em 1991 foi essencialmente fundamentada com argumentos ideológicos.46 O Estado deveria separar-se do controle de ramos não-essenciais como a produção de aço, a petroquímica e a mineração, para poder voltar-se às suas tarefas mais precípuas nas áreas da educação e da saúde. Mas ao mesmo tempo a privatização deveria contribuir para o saneamento do orçamento público. Ora, a análise mostrou que a maior onda de privatizações andou de mãos dadas com o maior aumento do déficit orçamentário na história do Brasil. Essa circunstância torna plausível o argumento de que o Estado teve, em última instância, de gastar mais para a desestatização do que ele recebeu em pagamento. Biondi (1999: 41) calculou que o Estado contabilizou oficialmente R$ 85,2 bilhões de receitas, incluindo aqui ao lado do dinheiro recebido também a transferência das dívidas aos novos proprietários. A esse número, Biondi contrapôs, ao lado de outros custos não-calculáveis, os custos calculáveis da privatização no valor de R$ 87,6 bilhões.47 De início somente uma parte do preço de compra foi paga em dinheiro, os pagamentos restantes foram efetuados com títulos de dívida, entre outros do
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Nº de empresas

O Estado do Paraná subsidiou a fábrica da Renault em São José dos Pinhais com R$ 300 milhões, somados aos investimentos do grupo francês, no valor de R$ 700 milhões; o município isenta o grupo por dez anos dos impostos locais (Veja, 20 de março de 1996). Essa substituição destrutiva da falta de uma política industrial nacional custou aos estados nos primeiros três anos do Plano Real no mínimo 9 bilhões de reais (Folha de São Paulo, 14 de setembro de 1997). 45 Muitos governos estaduais concederam isenções fiscais ou créditos fortemente subsidiados. Um único projeto, o da fábrica da Mercedes-Benz em Juiz de Fora, que deverá criar 2.000 empregos diretos e 5.000 empregos indiretos, foi financiado pelo BNDES com R$ 325 milhões - em comparação com investimentos totais no valor de R$ 1,1 bilhões. As condições do financiamento não foram publicadas. A fábrica da Renault no Paraná recebeu do governo estadual subsídios no valor de US$ 1,5 bilhões, as montadoras da GM e da Ford no Rio Grande do Sul deverão receber redondamente US$ 4 bilhões (Novy 1998: 237). 46 Não estariam em jogo apenas receitas do Estado, mas também o interesse em ”evitar perdas futuras para o governo”. Sob esse ponto de vista o comentário do ex-ministro Roberto Campos perante a CPI das privatizações realizada pelo Congresso Nacional também se torna compreensível: ”Existe um outro processo de privatização [...] que já propus no ano de 1982 para ser aplicado no Brasil, e que consistiria simplesmente na doação das empresas” [REVISÃO: verificar citação no original] (cit. ap. Winckler, Pacheco 1994: 151). 47 Junte-se a isso R$ 28,5 bilhões de investimentos públicos pouco antes da privatização e os juros (R$ 8,9 bilhões) e R$ 16,1 bilhões de dívidas das empresas, assumidas pelo Estado, e seus juros (R$ 8,9 bilhões). Por fim o valor verdadeiro dos títulos de dívida, com os quais os compradores adquiriam as empresas, estava R$ 8,9 bilhões abaixo do seu valor nominal. Por meio da venda a prazo o Estado perdeu outros R$ 14,8 bilhões. R$ 1,7 bilhões foram deixados pelo Estado no dia da venda como recursos líquidos nos caixas das empresas.

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o Estado investiu maciçamente nas suas empresas para torná-las mais atraentes. Mas três das cinco empresas ferroviárias privatizadas reduziram as suas quantidades de carga. os bancos agora saneados foram vendidos aos grandes bancos nacionais e crescentemente também a bancos estrangeiros. No entanto. socializando os prejuízos.3 bilhões de toneladas.6% (193/94) ou 32. O BNDES contribuirá com R$ 730 milhões para investimentos.000 a 6. conseguiu-se realizar nas empresas privatizadas as demissões em massa previstas (10. Em conseqüência. dos quais até início de 1998 somente foram devolvidos R$ 1.2 bilhões em dinheiro.142 a 10.zerohora.996 de um total de 22. R$ 600 milhões puderam ser pagos com títulos de dívida. ao passo que a empresa consultora responsável pela licitação considera as orientações prévias ”perfeitamente possíveis” e ”muito conservadoras”. Essa empresa estatal de orientação crescentemente transnacional criou dessarte no âmbito da área da qual é proprietária um território de seu próprio domínio. pagáveis em cinco prestações anuais. pagando adiantamentos aos estados (FSP de 4 de 48 Com a venda de 13 empresas geradoras de energia elétrica da União e dos estados. Foram criados dois programas especiais. 20 de janeiro de 1998).com.303 funcionários). custou R$ 60 milhões . cujo valor de mercado no mercado paralelo estava muito abaixo do seu valor nominal. No primeiro trimestre de 1998 a empresa contabilizou um lucro de R$ 115.3 bilhões também a empresa de mineração CVRD (Companhia Vale do Rio Doce).1. O PROER (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional) custou à União R$ 21 bilhões. R$ 2. Em 2000 o BANRISUL no Rio Grande do Sul será o único banco estadual remanescente. Em conseqüência disso as estatais. Se um governador não tivesse cedido à pressão do Banco Central. Essa foi uma nova forma de regime financeiro político.2000). não muito mais do que o lucro gerado em um dia.2% de receitas em numerário (1991/92) a participação aumentou para 34. Em São Paulo a Imigrantes custou R$ 87 milhões. Poder assumir a preço barato empresas dessarte saneadas passou a ser um negócio lucrativo. tornando-se assim o maior produtor de energia elétrica da América Latina.2 milhões (diante dos R$ 81.65 tesouro público.86%. O grupo financeiro que comprou a grande usina siderúrgica Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda adquiriu por R$ 3. Este consórcio adquiriu também a Eletropaulo Metropolitana. além disso foram concedidos em maio e agosto de 1998 aumentos das tarifas em 4. 65 . e uma entrada no valor de R$ 10 milhões. O órgão fiscalizador impôs uma multa de R$ 2 milhões. Ao mesmo tempo a empresa entrou nas manchetes do noticiário em início de 1998 em virtude de grandes cortes de energia. um destinado aos bancos privados e outro destinado aos bancos públicos.700 e conseguiu assim sair do vermelho. auferiram lucros consideráveis em 1996 (R$ 2. foram reprivatizadas. Também as ferrovias. assumindo o vendedor também dívidas no montante de R$ 533 milhões. Em 1996 e sobretudo em 1997 a maior parte teve de ser paga em espécie (Tabela A-10). O PROES (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Estadual) poderá custar até R$ 50 bilhões (FSP de 30 de janeiro de 1998). respectivamente. Com a privatização.589 bilhões mudou de dono até o início de 1998.2 bilhões) (cf. Em 1997 os lucros foram de R$ 450 milhões.34 milhões.6% (1995).2 bilhões a União recebeu em títulos ”podres” de reduzido valor de mercado (FSP. Tabela A-11).466 e obteve em 1997 um lucro recorde no montante de R$ 756 milhões (indicação detalhada das fontes cf. Light. outros R$ 13. isso teria piorado as condições para a renegociação da dívida.026 bilhões. De resto o BNDES disponibilizou linhas de crédito específicas para a privatização. Novy 1998: 205-212 e Biondi 1999). outrora ”ineficientes”. que no decurso do séc.0% ou 5.723 km2 com jazidas de minérios estimadas em 41.pagáveis em trinta anos. pagáveis em 240 prestações mensais de R$ 0. o que significou uma economia de fato no montante de R$ 50 milhões.48 Na reestruturação do setor bancário o Estado também desempenhou um papel central. Mas o resultado operacional das ferrovias nas empresas privatizadas é inferior ao das antigas empresas estatais e ficou abaixo dos objetivos fixados na licitação das privatizações. De risíveis 1. é de propriedade de um consórcio do qual participa também a Electricité de France. Todos os outros estados foram forçados no contexto das renegociações da sua dívida à venda dos seus respectivos bancos estaduais. A empresa privatizada reduziu o quadro de pessoal de 15.495 milhões. Tudo isso foi financiado por um consórcio de bancos internacionais. o BNDES emprestou R$ 1. Um trecho adquirido por um grupo norteamericano. A empresa de eletricidade do Estado do Rio de Janeiro. o território também foi privatizado. As receitas esperadas cifravam-se em R$ 220 milhões por ano. um patrimônio no valor de R$ 15.2 milhões no mesmo período em 1997). XX em sua maior parte tinham sido compradas por empresas privadas. que liga São Paulo com a Bolívia. Entrementes estes objetivos são considerados ”irreais” pelos novos proprietários. Em fins de 1999 40% do capital dos bancos privados já se encontravam nas mãos de proprietários estrangeiros (www. Estados que privatizaram receberam créditos subsidiados. Do valor de venda. A empresa tinha sido vendida em 2 de abril de 1993 ao preço de R$ 1. A empresa controla uma área de 351. sobretudo na área do Projeto Carajás. O BNDES financiou também uma nova usina geradora de energia elétrica da recém-privatizada siderúrgica Companhia Siderúrgica Nacional com um valor de R$ 300 milhões. Antes da privatização.013 bilhões. A Light reduziu depois da privatização o seu quadro de pessoal de 11.br de 10. As empresas de pedágio também foram privatizadas.6 bilhões) e em 1997 (R$ 7.

1988 – 1995 1988 Receitas disponíveis União Estados Municípios 22.044.58% do PIB receitas nitidamente superiores às de 1988 (22.826.14 alteração 1988/1995 8. uma espécie de anúncio publicitário em matéria de política social. Conseguiu-se assim que os estados e municípios se tornassem mais dependentes de medidas discricionárias.66 julho de 1998). Com ajuda do FEF (Fundo de Estabilização Econômica) o governo colocou a mão em recursos que segundo a constituição cabem aos estados e municípios. provocada por gastos demasiado generosos do Estado na esteira da democratização. todas as energias foram canalizadas para modificar a Previdência Social. ela atendeu em 1998 somente 1. À participação na execução contrapõe-se o controle por parte do Estado na estruturação. A política social do governo federal foi financiada por uma centralização de recursos que temporariamente declarou sem vigor a constituição.41 1995 30. vê na moeda um ”lubrificante” neutro para o funcionamento da economia real. meio de pagamento e meio de preservação de valor (Schelkle 1995). Em conseqüência. foi responsabilizada pela perda de valor da moeda. contribuições.98 6. 50 Além disso os estados tiveram de abrir mão a partir de 1997 também das receitas do ICMS para a exportação de produtos primários ou pouco processados. As teorias predominantes da inflação concentravam a atenção da opinião pública principalmente na questão da indexação salarial (espiral dos salários e preços) e na inflação inercial (baseada em expectativas de inflação) (Baer 1989: 134163). Os gastos crescentes serviram ao governo de argumento para minar a Previdência Social como direito universal de cidadania e abrir o caminho à privatização. Apesar de toda a retórica em torno do estado mínimo.e uma sorrateira redução dos salários reais. Apesar da involução dos gastos na área social as transformações quantitativas foram menos relevantes do que as qualitativas.07 2. mas a autorestrição da atuação estatal se refere sobretudo à capacidade do Estado de cumprir as suas obrigações nas áreas da saúde e da educação e efetuar os necessários investimentos na melhoria da infraestrutura. caracterizado como heterodoxo.58 17. foi possível evitar tanto uma hiperinflação quanto uma dolarização total da economia. pode-se registrar que o Estado claramente continua desempenhando um papel ativo.43%). O projeto Comunidade Solidária.39 5.43 13. A partir dos anos 70. Para os municípios as receitas disponíveis praticamente duplicaram. o papel do setor público tendeu mais a aumentar. Uma ”oferta excessiva” de moeda.087 família abaixo da linha de pobreza. mantendo-se a moeda nacional atraente 49 Se a Comunidade Solidária atendeu em 1995 a 1. A teoria econômica dominante. cujo caráter religioso transluz na sua autodenominação ‘ortodoxia’ (a fé correta).73 Fonte: Affonso 1996: 8 A análise do orçamento não revela quaisquer esforços de saneamento na Previdência Social. As rupturas estruturais podem ser constatadas no plano da organização. A crise fiscal era percebida como terceiro problema. Só quando a política comete erros. No entanto.35 2. Tabela 14: Receitas disponíveis por ente federativo. Na verdade ele é um modelo assistencialista que continua minando o sistema de Previdência Social de orientação universal e fragmenta as contribuições de natureza social. celebrado como inovação e liderado pela esposa do Presidente da República. negociações sobre o alongamento da dívida etc. o dinheiro não cumpre a sua função de unidade de cálculo. A administração financeira gerou em 1995 com 30. identificado crescentemente como causa principal.05 8. compreende-se como um modelo de cooperação entre Estado e Sociedade Civil. 49 Direitos sociais ou ao menos assistência social enquanto direito de cidadania existem cada vez menos.15 3.50 Essa dependência política e econômica atingiu especialmente os estados e municípios pobres que praticamente não dispõem de uma arrecadação tributária. O maior aumento em termos de participação no PIB foi consignado pela União com 3.07 pontos percentuais. 66 .04 2.419 e em 1997 o número de famílias atendidas provavelmente ficou ainda mais reduzido. o problema-chave da regulação da moeda passou a ser a inflação. A primeira foi combatida com pactos sociais -sempre malogrados . em percentuais do PIB. Muito pelo contrário. a segunda foi estancada apenas transitoriamente com o congelamento de salários e preços do Plano Cruzado.

Eles eram emprestados a juros baixos à periferia. A inflação foi combatida em 1994 com uma receita tradicional: o acoplamento a um padrão monetário internacional. Tabela 8). O único preço importante que era em larga escala calculado em cruzados era o salário.sempre muito caros para o Banco Central -. A crítica do Estado perdulário. Aplicadores nacionais e internacionais em busca de lucros no curto prazo vinham ao Brasil. Isso foi muito caro para o Estado. pois o traço distintivo central da crise estava fundamentado na forma específica do mercado de crédito no Brasil.falava-se de uma estratégia de estabilização baseada nas taxas de câmbio (Fritz 1996: 32) . Sobretudo nos anos 80 o Brasil desvalorizou a sua moeda. Juros reais. para crescerem depois num salto (cf. O mecanismo nuclear da dependência está no fato dos aportes e das saídas de capitais serem determinados por fatores externos à região. Tanto nos países em desenvolvimento quanto nos ex-países socialistas do Leste Europeu era necessário assegurar a estabilidade e juros elevados. Na época o Brasil não precisou proteger a sua taxa de câmbio com reservas cambiais caras.4% depois do desconto do índice inflacionário (dezembro de 1994) e ainda de 37. As reservas cambiais cifravam-se em 1971 em US$ 10 bilhões.estava em oposição à forma anteriormente praticada da abertura para o mercado mundial. Como a sua balança de capital tornou-se negativa.67 para investidores mediante uma política de juros elevados. O Real foi ancorado no dólar americano. tinha uma importância reduzida. Na época os interesses de produção ainda ocupavam o primeiro plano. o capital se deslocava da periferia de volta para o centro. as Obrigações do Tesouro Nacional ocuparam o seu lugar e se transformaram em moeda paralela. Nessa forma da regulação da moeda as reservas cambiais desempenharam uma função central. A política de moeda forte . Nos anos 90 o serviço da dívida começou a perder importância na discussão da política econômica.2% (dezembro de 1998) só podiam ser obtidos em poucos mercados financeiros do mundo (cf. Abstraindo dos ataques especulativos à moeda . A acumulação de grandes reservas cambiais foi possibilitada internacionalmente por capital disponível em busca de oportunidades de aplicação e nacionalmente por uma política de juros altos. os juros subiam. considerada genericamente. A pressão determinante sobre os preços se dava indiretamente pela via do aumento da dívida pública. Controles de circulação de capitais limitavam o comércio com dinheiro. Em primeiro plano estavam as condições favoráveis para os aplicadores. a evolução dos gastos públicos. Ao invés de se manter na periferia. Nos anos 70 havia capitais excedentes nos centros. A regulação do trabalho caracterizou-se pelo fortalecimento de um movimento sindical livre nos anos 70. Tabela 9). lhes era bem-vinda para que se subtraissem a sua própria responsabilidade pela desestabilização econômica durante os anos 80” (Pereira 1998: 143). o que era sinônimo de uma redistribuição maciça em benefício dos proprietários de capital financeiro. As exportações eram importantes. Os dois fenômenos iniciaram uma espiral de endividamento. Diante disso. por isso as pessoas efetivamente responsáveis por uma política de adaptação em benefício da população em bom situação econômica permaneciam incógnitas. O Brasil tornou-se a partir de 1985 um exportador de capitais. isto é. porque mantidas com juros baixos. Isso assegurou a transferência de capitais do Hemisfério Sul para o Norte. pela decisão de aplicação dos proprietários do patrimônio nas economias centrais. a balança de serviços se viu obrigada a gerar superávits. A estabilidade introduzida com o Plano Real fez com que os aplicadores internacionais descobrissem o Brasil como ”emerging market”. A análise do balanço de pagamentos mostrou que a dinâmica da economia mundial se apresentava nos últimos tempos. Os prazos de reembolso da dívida se tornaram mais curtos. do ponto de vista da periferia da economia mundial. ”Mas o importante papel que as rendas de capital a partir de títulos da dívida pública desempenham com vistas à aceleração da inflação ficava fora da discussão. as reservas aumentaram. o que as distinguia fundamentalmente da gestão de divisas praticada no modelo orientado segundo o mercado interno. Depois do cruzado não estar mais em condições de cumprir as funções clássicas da moeda. de 56. essencialmente como crise (Parnreiter et al. Um impulso essencial do mercado partia dos investidores privados que compravam títulos de dívida do Estado brasileiro. Com isso o Brasil se submeteu depois de 60 anos novamente às regras de um regime financeiro internacional sem soberania nacional em matéria financeira (Fiori 1995a: 112). A subvalorização da moeda foi instrumental para poder fazer arrancar a economia exportadora e pagar o serviço da dívida. para fomentar a economia exportadora. A valorização do dólar e a elevação da taxa dos juros depois de 1979 encareceu o capital e concentrou-o no centro. A indústria exportadora se beneficiou da política de moeda fraca e sofria com a política de moeda forte. pois ele precisava emitir a juros elevados títulos de dívida para adquirir papéis norte-americanos com juros baixos como reserva cambial. pois assim se assegurava a transferência de capitais do Sul para o Norte. em consonância com as recomendações do Fundo Monetário Internacional. 1999). sem que o acoplamento alguma vez tivesse sido fixado. feita por organizações internacionais. A luta de classes solucionada unilateralmente pela ditadura ganhou uma nova dinâmica quando a classe 67 . a saber.

6% (1998) é reduzido (Mattoso 1999: 128).. seja por meio de restrições legais do direito à greve em ”serviços essenciais” como transportes. 68 .não pôde levar num país sem seguridade social básica a um aumento do desemprego no mesmo nível. dez meses depois ele revogou essa medida diante da OIT. Em escala internacional. No fim da ditadura o salário mínimo mensal encolheu de US$ 75 para US$ 50 (1985). seja por intervenção policial e militar. Sob o Plano Real o desemprego se tornou um problema social central. o segundo decil mais rico . sofreu uma forte queda. que mede apenas o número de pessoas com vínculos empregatícios formais. Os trabalhadores sindicalizados. Depois ele aumentou para redondamente US$ 100 no primeiro mandato presidencial de Fernando Henrique Cardoso. mas no fundo sem força enunciativa. Ocorre que este último era uma forma de organização econômica que minava o território. mas aumentou os problemas da Previdência Social. O aumento do salário mínimo enquanto medida claramente não-neoliberal. o salário mínimo desempenha um papel importante por ser utilizado direta ou indiretamente como base de indexação para outros salários e prestações de natureza social (sobretudo aposentatorias). nas cidades as relações empregatícias informais ganharam maior importância. parte do setor de serviços e a maioria do funcionalismo público conquistaram a indexação dos salários. Lopes 1996). Tabela 10). Em janeiro de 1996 o governo assinou a Convenção 158 da OIT. Uma nova regulação unitária do mercado de trabalho deveria fomentar a homogeneização social do espaço de poder nacional. Durante um período mais longo os índices de distribuição permaneceram sempre estáveis. A legislação trabalhista e social só podia regular o mercado formal de trabalho. isto é. aumentou o número dos que trabalhavam no setor informal. em sociedades capitalistas não-dotadas do Estado de Bem-Estar Social. ilegais da perspectiva da soberania. Aqui se tratava quase sempre de vínculos empregatícios que não observavam as prescrições dos Direitos Trabalhista e Social ou do direito regulamentador das empresas industriais e comerciais.sobretudo na indústria . medido pelo dólar. O conflito entre empresas e sindicatos chegou a um ponto culminante na greve dos petroleiros de 1995. igualmente acoplada ao salário mínimo. que trata dos direitos -individuais . reprimida com força militar (Fritz 1996: 40).51 Ao mesmo tempo se pode observar uma transformação fundamental nas relações de poder nas empresas. abrir mão de vender a sua força de trabalho. Especialmente dramática foi a redução da mão-de-obra no setor da indústria de processamento. alegando que ela ia longe demais (Neto 1997: 38 s. O princípio da validade universal do direito no âmbito das fronteiras do território foi minado.bov. revelou a evasão das relações disciplinadas pelo Direito do Trabalho e pelo Direito Social (cf. mas colocou ênfases no sentido de uma regulação própria das relações entre capital e trabalho.68 trabalhadora reconquistou os seus direitos de cidadania. portanto. saúde etc. uma grandeza de aferição da desigualdade social.da população conseguiu proteger-se eficazmente contra a inflação. A 51 Em uma economia de demanda de corte keynesiano.ibge. Somente a décima parte mais rica e. não importa quão precariamente? No começo dos anos 80 a legislação trabalhista estatal-corporativista ainda foi questionada no sentido de uma democratização abrangente da sociedade. Isso está essencialmente relacionado com o aumento do desemprego. por medo de perderem os seus empregos (Jatobá. sempre teve especial importância. O ataque aos empregos disponíveis criou uma assimetria tão grande na relação entre capital e trabalho que a repressão se tornou em larga escala desnecessária.). O aumento das relações de trabalho informal minou o poder da legislação trabalhista e social. aumentou de 0.de demissão. Mas depois de 1990 ele regrediu. Mesmo em ramos e regiões com boa organização sindical os assalariados abriam ”voluntariamente” mão dos seus direitos legais. certamente foi importante para atingir os efeitos redistributivos de curto prazo do Plano Real.sidra. sendo. Ele aumentou de 1984 a 1990 em quase 13%. A classe média. de modo restrito. O índice de emprego. Nas regiões rurais a legislação social nunca lograra impor-se. Mas nos ramos nos quais ainda não havia um movimento sindical reagia-se maciçamente a medidas de combate. também sofreu perdas (cf. Assim o Brasil não se adaptou em todos os planos à modernidade dos países industrializados. O aumento do salário mínimo em 1995 produziu um efeito positivo em termos de política distributiva e estabilizou ao mesmo tempo a demanda. o que por um lado não evitou as reduções dos salários reais e por outro suavizou os seus efeitos.br de 25 de junho de 1998).5698 (1987) para 0. Como as pessoas precisam trabalhar. A violência direta da repressão foi substituída pela liberdade e pela violência do dinheiro.5781 (1996) (www. cujas contas e salários estavam em larga escala indexados. Essa forte regressão de vínculos empregatícios formais . de um preço fixado pelo Estado. O campo democrático do Estado abriu aos trabalhadores de baixa renda opções de atuação que a política podia ignorar somente com dificuldade. Ao aumento de 10% do índice de emprego entre 1985 e 1990 contrapôs-se em 1997 uma involução para aquém do índice de 1984. pois quem pode. flexível e livre de constrangimentos legais. Depois da desvalorização do real em 1999 o valor do salário mínimo. Para os pobres o valor do salário mínimo. o índice oficial de 7. Assim o índice Gini da renda média familiar. Tabela A-16).

69 CLT, legislação trabalhista de 1943 já subtraíra aos assalariados nas regiões rurais direitos fundamentais, mas agora também o setor informal nas cidades se tornou parte desse espaço ”sem lei” dentro do território. A reprodução nacionalmente diferenciada da mão-de-obra sempre foi um traço distintivo essencial da regulação internacional. Nos anos 90, o estado-nação reconhecia como sua tarefa adaptar as leis às realidades efetivas das empresas. Nestas o Direito Trabalhista era solapado com conseqüências cada vez mais amplas. Com referência à regulação do trabalho, o espaço de poder não estava homogeneizado a nível interno nem se distinguia fundamentalmente dos mercados de trabalho igualmente liberalizados de outros países emergentes. Na regulação da concorrência o pacto entre o capital estatal, o capital nacional e o capital internacional foi definitivamente rompido. Enquanto o capital privado não era suficientemente forte, o Estado tinha de desempenhar um papel importante na industrialização, assegurando a necessária centralização do capital e dos recursos. Nos anos 80 a política econômica usou as empresas estatais por meio de uma política de preços baixos para fins de pagamentos de subsídios ao setor privado e para reduzir a inflação. A forte influência do establishment político fomentou em áreas parciais o desperdício de recursos e conduziu a um quadro de pessoal excessivamente extenso, em boa parte formado por apaniguados de políticos. As alterações na organização do capital nacional brasileiro e os novos entrelaçamentos de capitais nacionais e internacionais que ocorriam nos mercados financeiros possibilitaram um novo estágio de centralização que foi objetivado pela privatização. O capital financeiro associou-se ao capital internacional - um processo, no qual as grandes empresas do setor automotivo jogavam na linha de frente -, e ambos conquistaram uma inequívoca posição de supremacia diante do capital industrial nacional.52 Em uma primeira fase foram privatizadas sobretudo as empresas do setor produtivo, em uma segunda fase sobretudo a infraestrutura e os serviços públicos. O ator central da privatização foi o BNDES que estatizou muitas empresas privadas nos anos 80, modernizou as empresas estatizadas nos anos 90 antes da sua venda e mais tarde concedeu também créditos generosos às empresas privatizadas. Além disso os estados receberam pagamentos adiantados sobre privatizações planejadas. Surgiram mercados oligopolistas em vários ramos, nos quais foram privatizadas empresas.53 Se anteriormente bancos estatizados eram responsáveis pela maior parte da concessão de créditos, o negócio agora era partilhado pelos bancos privados e o mercado financeiro internacional (aplicações patrimoniais, bolsa de valores, comércio de divisas). Formaram-se conglomerados financeiros que participaram maciçamente do negócio das privatizações e constituíram oligopólios em setores importantes.54 Para o comércio de mercadorias a fronteira do território era uma grandeza constitutiva. Taxas alfandegárias elevadas e outros obstáculos comerciais inibiam a importação de mercadorias. Durante a ditadura militar a troca de mercadorias com os países vizinhos caiu cada vez mais. A democratização implementou lentamente uma política comercial mais aberta. Mas a quota de importação, que em 1990 regredira a 4,6%, subiu apesar do ”surto das importações” em 1996 para meros 7,1%. A quota de exportações, cifrada em 1990 em 7%, oscilou depois entre 9,6% (1992) e 6,4% (1996) (cf. Tabela A-12). Mas esses reduzidos entrelaçamentos com a economia exterior do receptáculo continental de poder se relativizam em um exame mais detalhado55 , pois ramos fracos e organizados apenas nacionalmente foram atingidos em cheio.56 Um exemplo dramático é a Metal
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Na listagem das maiores empresas privadas de 1997, dois grupos oriundos do setor financeiro, o Bradesco e o Itaúsa estavam na linha de frente, e com o grupo Moreira Salles um outro grupo do mercado financeiro ocupou o 6º lugar. As posições 2ª, 3ª e 5ª foram ocupadas respectivamente por grupos do setor automotivo, Fiat, Volkswagen e GM (Exame 1998: 86). 53 Isso se evidenciou de modo especialmente crasso no setor da indústria de fertilizantes, mas também nos setores siderúrgico e petroquímico (Winckler, Pacheco 1994: 145 ss.). O Grupo Odebrecht controlava em 1998 60% da produção de termoplásticos e a empresa se encontra em virtude de joint-ventures com a ainda estatal Petrobrás em uma posição praticamente dominadora do mercado (FSP de 7 de abril de 1998). 54 Em 1997 o Itaúsa ocupou a posição de 372ª maior empresa mundial; o Bradesco ficou em 345º lugar e o Banco do Brasil, de propriedade do estado, o 178º lugar (www.zerohora.com.br de 27 de julho de 1998). 55 A quota de exportação em si reduzida, mostrada na Tabela A-12 (d/a), já aumenta nitidamente quando se considera as oscilações da taxa de câmbio ((e/b na Tabela A-12). Se desconsiderarmos os serviços praticamente não-exportáveis, uma quota de exportações dessarte depurada cifrou-se em 1970 em 18,7, para subir até 1995 a 30,4 ((e/c na Tabela A-12). 56 Em determinados ramos (e.g. na indústria têxtil e de confecções) as importações aumentaram fortemente, ao passo que a abertura em outros ramos (e.g. no setor automotivo) se deu de forma muito mais lenta. O forte aumento das importações de bens de capital se reveste de especial importância. Ele se deve a duas causas. Por um lado, sinaliza a compra de novas

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70 Leve, um fornecedor brasileiro. Cedo Amaral já examinou (1977: 182-189) essa empresa média que então estava começando a exportar. No início dos anos 90 a CEPAL citou-a mais uma vez como exemplo bemsucedido da adaptação de empresas nacionais à pressão da economia mundial (Cepal 1992: 125 ss.). Tanto maior foi o choque, quando essa empresa modelo foi vendida por US$ 65 milhões a uma empresa alemã (Veja, de 19 de junho de 1996). O único setor que conseguiu impor regulamentações excepcionais contra a abertura vertiginosa do mercado depois de 1990 foi a indústria automobilística, estabelecida em rede internacional. Ela logrou preservar elementos importantes das antigas relações de concorrência. Já desde os anos 50 os grupos multinacionais conseguiam viver muito bem com a política protecionista. Os seus carros produzidos no país eram vendidos no mercado protegido por um preço mais caro e com um padrão tecnológico obsoleto. Desde os anos 80 e a crise do mercado interno foi possível constatar aqui uma mudança e os grupos começaram cada vez mais a produzir com novas tecnologias e fornecer para o mercado internacional. Mas o mercado nacional ainda continuava em grande parte muito fechado.57 Ao mesmo tempo houve transformações maciças no processo produtivo, o que conduziu a ganhos de produtividade e demissões em massa. Desde 1985 esse setor em si próspero reduziu a sua mão-de-obra na razão de quase um quinto. Ao mesmo tempo ele atraiu também os maiores investimentos diretos do exterior. Outra faceta da internacionalização é a formação de um bloco regional na América do Sul. Em 1995 entrou em vigor o MERCOSUL (Mercado Comum do Sul)58, formado pelo Brasil, pela Argentina, pelo Uruguay e pelo Paraguay. Desde 1996 o Chile e a Bolívia são membros associados. Essa integração econômica visa criar um espaço intermediário entre o espaço globalizante do mundo e o território das nações (Faria 1998: 188). Ao passo que o capital financeiro tinha uma orientação inequivocamente global, o MERCOSUL desempenhou um papel central para a indústria automobilística. As estratégias de acumulação dos grupos visavam todo o espaço sulamericano; vantagens comparativas, tais como subsídios ou diferenças na taxa de câmbio eram rapidamente aproveitadas (Pacheco 1998: 154). Enquanto bloco comercial, o MERCOSUL foi bem-sucedido. O comércio exterior com os Estados-membros aumentou nitidamente, mas também o comércio com países não-membros. No setor automobilístico foi também possível observar decisões crescentemente integradas dos grupos, no tocante a investimentos. O grande problema foi a falta de harmonização das políticas econômicas. O processo de integração foi sempre de novo ameaçado pela oscilação das taxas cambiais. Também não foi possível delimitar o MERCOSUR como projeto da Zona Interamericana de Livre Comércio ALCA, propagada pelos EUA. O Brasil oscilou entre a formação de um bloco e a prática de uma política mundial de livre comércio (cf. JEP 2/98)

2.2 O palco nacional do poder
Num primeiro passo, aproximei-me do poder sobre o espaço do Brasil com uma análise estrutural em termos de evolução da economia política, mas essencialmente em termos de evolução da economia. Essa análise tende a descrever desenvolvimentos aparentemente inevitáveis e incontornáveis (Fiori 1995a: 18). Contrariando essa redução da história à explicitação de necessidades estruturais, a política ganha maior peso na análise a seguir. Com o espaço de possibilidades da ação política a dimensão do concreto, os eventos, as estratégias e lógicas de ação passam para o primeiro plano. Uma análise dos palcos do poder ocupa-se sobretudo com o espetáculo oferecido no palco. Em cartaz estão o jogo, seus atores e o resultado da peça encenada. Não obstante será necessário conceder também à descrição da arquitetura e estática do palco o seu devido lugar, pois do contrário a peça em cartaz e o jogo que nela se faz [was gespielt wird] não serão compreendidos. Assim se faz mister logo no início explicar a forma específica do Estado brasileiro, fortemente apoiada no patrimonialismo. Este forma até hoje por assim dizer o esqueleto do sistema político brasileiro. Ele constituiu um poder sobre o espaço, cujo ponto nodal é o Estado. Como o controle do Estado se reveste de tão grande importância, os conflitos políticos
tecnologias e com isso de aumentos de produtividade na indústria, por outro, as importações crescentes refletem a crise da indústria nacional de bens de capital. Entre 1993 e 1995 as exportações do setor aumentaram em 25%, ao passo que as importações cresceram em 157% (FSP de 16 de janeiro de 1997). 57 Assim a taxa alfandegária para a importação de automóveis foi aumentada em 1995 para 63% (FSP de 23 de outubro de 1997). 58 Em espanhol: MERCOSUR (Mercado Comun del Sur)

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71 se processam também diferentemente do que em países com uma sociedade civil forte. No modelo social anglo-saxão a sociedade civil, na qual cidadãos dotados de patrimônio se organizam, representa o contrapeso do poder estatal.59 Nesse sistema os cidadãos podem em parte tornar-se poderosos também sem o Estado, o que é impossível no Brasil. Como no Brasil o Estado é o ponto nodal mais importante do poder, uma parte da sociedade civil - a dominante - está firmemente entrelaçada com o poder estatal e a outra - a oprimida - é mantida longe do acesso ao poder político e econômico. Nesse sentido Fiori não está equivocado ao estabelecer uma distinção entre um partido da ordem ou um ”partido do Estado”, que representa os interesses dominantes do capital, e um ”partido da sociedade civil”, a oposição, excluída desse bloco de poder (Fiori 1995a: 101)60. Denominar-se sociedade civil seria nessa perspectiva uma expressão da fraqueza, do fato de não fazer parte do Estado. Tal perspectiva é complementada por um enfoque, segundo o qual a força ou fraqueza de uma organização civil não se mede em programas ideológicos e também não pelo seu simples tamanho. Muito pelo contrário, ela resulta da capacidade de poder controlar partes do aparelho de Estado. A hierarquia do poder na economia política se reflete também na sociedade civil, na qual existem segmentos poderosos e oprimidos. Tal análise estrutural ajuda a relativizar o uso muitas vezes exageradamente positivo do conceito de sociedade civil, pois esse uso ignora a estrutura histórica do sistema político e econômico no Brasil, baseado em uma hierarquização radical e consolidado no decorrer de muitos séculos. O capital comercial e a coroa portuguesa controlaram o espaço de entrelaçamento econômico. Ao passo que o feudalismo se baseava em uma nobreza de sustentação fortemente territorial e em um sistema de direitos e deveres, no patrimonialismo o rei exercia a dominação irrestrita sobre os seus súditos. A sua base de poder assentava na posse da terra e no controle do comércio. Como esse poder não podia ser exercido apenas por uma pessoa, a corte real era o lugar no qual o poder se centralizava. Diante dos funcionários e da nobreza da corte os poderes territoriais se encontravam em uma posição mais fraca; o rei governava, enquanto que os senhores locais somente exerciam a dominação no âmbito do poder nacionalmente estruturado sobre o espaço (Faoro 1997: cap. 1). Isso constituía uma clara hierarquia da dominação. Politicamente o rei era soberano; economicamente, um parasita. O poder nacional, o Estado, por sua vez passou a ser uma empresa do rei; poder público e privado, propriedade pública e privada se misturavam. Os patriarcas, inicialmente o barão do açúcar, mais tarde os barões do café e da borracha e os coronéis do Nordeste, eram politicamente subordinados e extraíam, enquanto sujeitos econômicos, à força o excedente dos seus subordinados, necessário para a continuidade do sistema global. A monetarização dessa extração forçada da mais-valia cedo tornou-se necessária, pois os donos do poder local ainda estavam muito mais do que a nobreza obrigados a fazer fornecimentos ao rei. O poder local, os municípios, formaram-se na colônia portuguesa como filiais obedientes do rei (Faoro 1997: 7). Em âmbito local, nas distantes empresas açucareiras do Nordeste brasileiro, o poder político, econômico e religioso estava concentrado na rotina cotidiana em uma só mão. O espaço de poder local da sociedade escravista fundamentavase na separação de casa grande e senzala. Cada casa era uma república, econômica e politicamente autônoma. Fora dos dois espaços sociais locais da casa grande e da senzala, por um lado, e do Estado com estrutura estamental, por outro lado, praticamente não havia nenhuma vida organizada, muito menos ainda uma sociedade civil (Holanda 1989: 49). A burguesia urbana, que se formou apenas lentamente e contra muitas resistências, permaneceu estreitamente entrelaçada com as famílias nobres e os latifundiários. Com a formação da nação surgiu a política nacional enquanto palco autônomo do poder; mas os atores que deveriam atuar nesse palco precisavam primeiro desenvolver-se para poderem assumir os seus papéis. Passo a passo esses novos senhores emergentes assumiram a administração do Estado e formaram uma sociedade civil entrelaçada com a velha estrutura estamental. A burguesia emergente não chegou a formar um estilo de vida próprio, mas absorveu os velhos modos comportamentais dos senhores agrários, baseados em privilégios. Esses novos senhores, e só eles formaram no séc. XIX a sociedade civil e a nação (Fernandes 1987: 40 ss.). Atuavam no palco do poder, fosse em ministérios ou no parlamento. O resto, isto é, a maioria, ficava excluído.61 O Estado, a sociedade e a
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A concepção hoje amplamente difundida da sociedade civil como esfera autônoma com relação ao Estado tende a encobrir o forte nexo entre poder econômico e capacidade de ação política (Cardoso 1993: 117 s.). 60 Fernando Henrique Cardoso tencionou gastar em 1998 R$ 73 milhões na campanha eleitoral. Ciro Gomes mencionou R$ 23 milhões, Lula R$ 15 milhões. Um fomento dos partidos por parte do Estado fracassou diante da resistência de Fernando Henrique Cardoso. 61 Nas unidades de produção essa estrutura social hierarquizada se reproduziu. A proibição da impressão de livros, a inexistência de universidades e a falta quase total de organizações civis impediam o surgimento de uma vida urbana moderna. Isso começou a mudar somente no fim do séc. XVIII, quando as cidades conquistaram uma certa independência

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lograram em boa parte manter esse poder até os dias atuais. os 20 governadores representavam o seu respectivo estado e se apoiavam reciprocamente contra a oposição interna. as regras do jogo político. em constelações variadas. Assim os grupos dominantes nas regiões acertavam de antemão o predomínio de determinados interesses. que se apoiava na classe trabalhadora nas cidades. a oposição ficava inteiramente excluída. Os liberais estavam entrelaçados mais fortemente com os interesses produtivos territoriais e defendiam. Esse novo sistema estabilizou em nova composição a estrutura patrimonialista do Estado. instituição nuclear do espaço de poder. Assim 19 governos liberais e 15 governos conservadores se sucederam no decorrer de cinqüenta anos (Faoro 1997: 354). Por isso a estratégia oficialmente denominada ”política dos estados” tornou-se conhecida como ”política dos governadores”. ensejando o surgimento germinal de uma sociedade civil urbana. que fizeram coalizações praticamente até o golpe de 1964. o Estado Novo fortaleceu o governo central a expensas das regiões. Na República Velha. representavam preponderantemente os interesses dos comerciantes e. a centralização apoiou igualmente. 72 .7%. mas o fascismo e o comunismo rapidamente minaram a legitimidade de um sistema liberal-democrático.). criando assim os prérequisitos do golpe militar.). as eleições transcorriam similarmente às da monarquia. A autoridade eleitoral era instituída pelo Presidente da Província. Um palco importante para os conflitos foram as eleições. seja por intermédio do Estado ou por outras vias. o Partido Republicano. mas breve relampejo de pluralismo.interrompidas pelo Estado Novo (1937 . O presidente era fornecido alternadamente por Minas Gerais e São Paulo. Era dotada de todos os poderes e sua composição determinava o resultado das eleições (Faoro 1997: 370).7% da população tinham o direito ao voto (Cano 1997: 249). (Holanda 1989: 57). os conflitos foram muito duros. Esses dois partidos. por conseguinte. sempre que possível. igualmente ancorado nas regiões rurais (Santos 1978: 40 ss. o imperador e a cúpula do Estado eram os que manipulavam as eleições locais de acordo com os seus interesses. Para manter o seu poder. só interesses regionais unificados atuavam no plano nacional. Na esteira de subseqüentes derrotas eleitorais a UDN tornouse oposição subversiva que contornava. Não obstante os partidos se assemelhassem muito em termos programáticos e não questionassem o campo do poder. Um dos dois partidos sustentadores do sistema. os dois processos supramencionados (Souza 1996: 104 ss. os interesses escravistas (Faoro 1997: 341 s. O grupo regionalmente dominante impunha seus candidatos. por sua vez nomeado pelo ministério. minou a monarquia e com isso o sistema bipartidário.1945) o palco democrático se alargou. XVI todas as esferas da vida política. Em 1898 2. em 1930 5. o partido liberal. Depois de 1945 houve um retorno à democracia. reformas federativas na direção de uma descentralização. com isso. as interventorias. sem anulação da centralização antes efetuada. sustentaram o projeto de modernização dos anos 50 e proveram-no de uma base de legitimação. social e econômica. Já no séc. XIX os conflitos ocorriam no palco nacional do poder em vias de constituição. 62 Estruturas federativas serviam no Brasil tanto para harmonizar os desejos conflitantes do establishment quanto para atenuar as diferenças regionais. A eles se contrapunha a UDN (União Democrática Nacional). os grupos dominantes recorreram às mais diferentes estratégias. Os anos 30 caracterizaram-se por um violento. Inversamente. sempre existente. por sua vez.72 sociedade civil estavam estruturados por um poder específico sobre o espaço. Depois de 1930 a oligarquia agrária perdeu a sua posição política de natureza monopolista e teve de dividir o poder com os novos interesses industriais e urbanos. Uma terceira força. Em duas tentativas . Como a oligarquia agrária controlava o aparelho político em todos os lugares e o governador centralizava regionalmente o poder. o PSD (Partido Social Democrático) foi o partido do Estado e esteve ao mesmo tempo firmemente enraizado nas áreas rurais. O segundo partido que sustentava o Estado era o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Porém nem a proclamação da república em 1889 mudou qualquer traço do estilo elitista da política. Por meio da criação de órgãos e corporações controlados pelo poder central e atuando de forma descentralizada. O campo de poder se tornou mais complexo. no âmbito de um sistema bipartidário. Os que dominavam desde o séc. liberalidade e democracia.62 Os conservadores. A crise econômica e política que causou a ruptura da aliança entre o PTB e o PSD trouxe pela primeira vez uma polarização entre direita (UDN e PSD) e esquerda (PTB e os novos partidos urbanos) (Souza 1985). A possibilidade de dispor da burocracia estatal se revestia de importância decisiva para os respectivos membros dos partidos. não importa quão estreitamente definido.). Mas muito distantes de representar a vontade de um ”povo”.

como partido supraclassista. 73 . razão pela qual o PPB é naquela cidade. igualmente o ex-prefeito do Rio de Janeiro. MDB (Movimento Democrático Brasileiro). no início ele foi de orientação mais social liberal. que remete a um espectro político ainda mais à esquerda no Brasil. ambos oriundos do partido da ditadura. No contexto da democratização e da elaboração de uma nova constituição novas estruturas organizacionais se fizeram necessárias. Aqui a mídia enquanto parte importante da sociedade civil no poder. quatro redes de televisão controlavam praticamente todo o mercado. monopolizar a política no Brasil. quando o grupo em torno de Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso se viu crescentemente marginalizado no ”ônibus” do PMDB. Em 1982 a ARENA mudou o seu nome para PDS (Partido Democrático Social) e atua depois de outras alterações do seu nome hoje como PPB (Partido Progressista Brasileiro). Nos últimos tempos o PFL e o PPB. que era o aglutinador ideológico e institucional do partido. o número de deputados federais regrediu continuamente depois de 1986. ex-prefeito de São Paulo. deve ser compreendido basicamente como tentativa de delimitação contra concepções sociais e socialistas mais radicais. Pratica com maior habilidade a tradicional política do ”é dando que se recebe”. as concessões para a operação de emissoras radiofônicas (bem como de televisão) eram dadas pelo governo quase sempre com base em critérios políticos. sustentatora do Estado. O PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) foi fundado em 1988 como uma cisão do PMDB. desempenhou um papel importante. A sua figura central é Paulo Maluf. voltaram a reaproximar-se. exercendo a dominação sobretudo na Bahia e no Paraná. isto é. prorrogações de prazos de pagamentos de dívidas para os (grandes) agricultores.g.63 Mas a sua defesa de interesses estava sempre fixada especificamente em necessidades do respectivo ramo.73 A partir de 1964. tal como ele se configura na atualidade. 66 Em 1997 o governador do Paraná e o governador do Acre se filiaram ao PFL. sob a ditadura militar. Em 1998 esse partido elegeu cinco senadores e 60 deputados federais. e Luís Antônio Medeiros. Pertencem a ele o Vice-Presidente da República. mais ainda do que a direita tradicional. Na esteira da democratização houve uma abertura do sistema político e a estabilização da des-ordem existente precisou agora ser assegurada de forma indireta.g. O núcleo da sociedade civil empresarial foi formado durante muito tempo pelos ”sindicatos” orientados por ramos da economia. da ARENA. Uma grande parte dos ministros de Fernando Henrique Cardoso. pertencentes ao PSDB.). o Presidente do Senado e alguns ministros importantes. O palco do poder ficou reservado aos atores fiéis ao sistema vigente sob a ditadura militar.64 A seguir apresentaremos o espectro partidário brasileiro. No setor das revistas uma única editora publicava 9 das 10 revistas de tiragem mais elevada. defende hoje o liberalismo na economia e. Foi um meio que procurou. o PPB integrou-se no plano nacional na coalização governamental. o PPB representa os interesses do empresariado nacional. a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) adquiriram importância. Informalmente grupos como e. uma associação suprapartidária de 134 dos 513 deputados federais e de 30 dos 81 senadores sempre tiveram importância. o presidente da FIESP. estreitamente vinculados a organizações internacionais como o 63 64 O termo português não distingue entre sindicatos de trabalhadores e sindicatos patronais. é composta por intelectuais atuantes em empresas. Estava altamente concentrada e em larga escala privatizada (Costa 1997: 56 s.66 O PFL é hoje um partido moderno de direita com presença nacional. na esteira de acusações de corrupção. como e. a bancada ruralista. isto é. O PSDB é um partido de classe média alta. Seu programa político tem uma clara orientação direitista. líder da associação sindical de orientação direitista Força Sindical.65 O liberal PFL (Partido da Frente Liberal) abandonou no início dos anos 80 a aliança com os militares e desde então só teve de abandonar por períodos muito breves os espaços do poder. mais uma vez só foram permitidos dois partidos: a governista ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e a oposição oficial. nos jornais nacionais havia um oligopólio. Marco Maciel. César Maia. Mas os interesses contraditórios por ele representados não lhe permitiram traduzir as suas amplas maiorias em medidas políticas consistentes.g. para cair em 1998 a 81. os interesses do capital financeiro e do capital internacional. A sua decadência acompanhou a destruição do velho modo de desenvolvimento centrado no estadonação. Em 1998 ele controlava 32 assentos no Senado e 106 cadeiras na Câmara dos Deputados. no qual deveria haver espaço para todos. O elemento ”Social Democracia” no nome do partido. Moreira. O PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) foi concebido pelo futuro presidente Fernando Henrique Cardoso no início dos anos 80 como ”partido ônibus”. mas também apenas nela um poder determinante. A bancada ruralista foi um grupo central de lobistas que conseguiu e. 65 Depois que Maluf desistiu da sua candidatura à presidência em 1998. sobretudo de São Paulo. Em 1986 ele conquistou nas eleições para os governos estaduais e para o Congresso efetivamente uma vitória eleitoral surpreendente. baseando-se na sociedade civil tradicional. Por isso associações empresariais orientadas para toda a sociedade.

Os sindicatos começaram a libertar-se do controle por parte do Estado e passaram a orientar-se segundo modelos de representação de interesses com autonomia diante do Estado. mas absolutamente não no Estado Mínimo (cf. com manifestações e listas de assinaturas em benefício de escolas. A força inequivocamente mais forte da esquerda era o PT que se compreendia como partido da sociedade civil e quis. Nos anos 90 o centro e a direita se consolidaram. concebido como símbolo do progresso. pois estados importantes. via de regra em algum lugar ”lá em cima”. como ”partido do Estado” ou partido da ordem. como já tantas vezes na história do Brasil. Aumentou a importância da sobrevivência dos seus funcionários e dos interesses institucionais do partido. sobretudo a CUT (Central Única dos Trabalhadores). 70 Ao lado do PT. 1997). Sobretuto os três primeiros distinguem-se do PT por uma disciplina partidária interna menor e um programa mais moderado. representar os interesses subrepresentados no aparelho de estado. formado pelos excluídos do núcleo do poder estatal.67 Com o presidente da república. O número de deputados aumentou continuamente e o partido governou muitas cidades importantes do Brasil e alguns estados menores. isto é. ele perdeu influência em 1998. ao qual pertenciam grupos tão diferentes como sindicatos autônomos. Assim uma sociedade civil não-tutelada pelo Estado. que segue o padrão sociológico típico do desenvolvimento de aparelhos administrativos” (FSP de 28 de maio de 1997). Novy 1996: 79 s. As mulheres empenharam-se no local com meios políticos por melhorias do seu entorno de vida.cidade projetada pelo comunista Oscar Niemeyer e concluída sob a ditadura militar .no Planalto. sustentado por operários e politicamente organizado por um partido próprio. os outros partidos maiores de esquerda são o PSB (Partido Socialista Brasileiro). Nesse tempo o PT se burocratizou. como o Rio de Janeiro. Ottmann 1995). conforme o qual o detentor do poder exerce o poder (Dreifuss 1989: 34).a Praça dos Três Poderes forma na prancheta do urbanista o centro de um traçado urbano que imita os contornos de um avião. no palácio presidencial. Em Brasília . o PT (Partido dos Trabalhadores). 69 Em análise crítica o jornal liberal Folha de São Paulo escreveu sobre o PT: ”Dos tempos de um partido que liderou as greves e contribuiu nos anos 80 para a organização da sociedade civil passaram quase 20 anos até a formação de um partido que hoje se candidata com chances de êxito aos cargos mais importantes.69 Seu maior êxito foi até agora a vitória eleitoral nas eleições de 1998 para o governo do Estado do Rio Grande do Sul. por conseguinte. desafiou os atores clássicos do estado desenvolvimentista nacional. como já há séculos. que simplesmente aceitava a des-ordem.74 Banco Mundial (Oliveira 1998a: 177). tal como ele se corporificou nos governos dos quatro 67 Nos últimos anos.num Estado eficiente. 74 . Ele foi o braço parlamentar de um movimento social de amplas dimensões. 68 ABC é sigla dos municípios Santo André. o papel de oposição. Ficou célebre uma nova forma de atuação política criada por mulheres pobres na periferia das grandes cidades (Castela. o partido populista de esquerda PDT (Partido Democrático Trabalhista). mas como sujeitos (Sader 1988. Mas nos estados. A seguir trataremos da perspectiva ”de cima” do poder. canalizações e creches (Novy 1994: 403-410). 14 senadores e 99 deputados federais o PSDB é ao lado do PFL a força determinante em Brasília. a expensas do trabalho de organização nos movimentos sociais. enquanto espaço geográfico determinado. movimentos populares. representa uma das maiores inovações sociais do Brasil. movimentos alternativos da classe média (sobretudo ecologistas e feministas).70 O poder tende a ser localizado. Via de regra o município de Diadema também é incluído na região do ABC. baseia-se em um determinado ritual. o Banco Mundial concentrou a sua atenção cada vez mais no Estado . no topo do Estado. Os pobres entraram no palco da esfera pública política não apenas como objetos.). Esse poder localizado está nas mãos do presidente ou de um pequeno número de pessoas que têm acesso direto a ele. São Bernardo e São Caetano. IBRD 1993. membros de partidos de esquerda não-filiados aos partidos comunistas e outros grupos da sociedade civil (cf. os ex-comunistas de Moscou no PPS (Partido Popular Socialista) e o partido comunista PCdB (Partido Comunista do Brasil).como se diz nas linguagens cotidiana e jornalística . Boris 1998). O fortalecimento desse campo social que se subtraiu ao sistema bipartidário da ditadura. Cristalizado durante as grandes greves no ABC68. Mas de fato o poder se concentra . Com o passar dos anos o PT se aproximou dos partidos convencionais. o Rio Grande do Sul e Minas Gerais passaram para a oposição. Durante todos os anos 80 foram grandes o seu potencial de ameaça e a sua capacidade de promover greves e minar a política governamental. Coube à esquerda. sem liderança clara e sem programa claro. surgiu um outro bloco social alternativo. Tratou-se de uma atuação coletiva que não pode ser caracterizada nem como privada nem como pública.

que continuou sendo institucionalmente o centro do poder. 72 O exemplo histórico mais conhecido de uma organização social alternativa durante o período colonial foram os quilombos . Desde 1974 e mais ainda depois de 1979 ocorreu um afrouxamento do regime ditatorial. 75 . Egler 1992: 60). Mas o congresso.em especial. a base da sociedade começou a fermentar. Mas no curso do esgotamento da ditadura o discurso liberal da autonomia de Estado e sociedade civil passou a ganhar em importância. sob a nova legenda do PFL. Especialmente a sociedade civil conservadora agrupa-se como ”anéis burocráticos” (Cardoso 1993: 119) ao redor do aparelho de estado no sentido mais estrito.e a sua propriedade. mas não alterado na sua estrutura fundamental. Mas a Balaiada. A sua resistência contra a demolição dos bairros operários nas proximidades do centro foi igualmente abafada com violência (Novy 1995: 26-29). Em grande parte nem houve uma troca do pessoal que representava esse bloco de poder. A participação no Estado determinava as chances de poder dispor dos seus próprios recursos privados ou recorrer a recursos públicos. Assim as repetidas proibições do partido comunista sempre obrigaram o movimento operário a defrontar-se com novos problemas de organização (Oliveira 1999). como poderíamos esperar de uma ditadura militar. o candidato dos militares. sindicatos. Ele simbolizou a ”transição pactuada” da ”Nova República”. Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. O empresariado exerceu a sua influência desse modo. Foi criada e vinculada ao Estado uma sociedade civil simpática ao regime .73 Foi esse o momento histórico no qual o movimento de democratização passou para o centro dos acontecimentos políticos.. Depois das eleições de 1982 governadores da oposição ascenderam ao poder nos estados mais importantes. Sob governos ditatoriais a sociedade civil conservadora não tinha dificuldades em ser parte do Estado ampliado. 74 Sob o governo de Sarney 93% dos 2000 funcionários supremos responsáveis pelo exercício do poder presidencial provinham da ditadura militar (Dreifuss 1989: 40). orientada segundo concepções estamentais do Estado. tornou-se o primeiro presidente civil. Nesses anéis burocráticos localizam-se segmentos sociais em comissões. não em último lugar por medo da repressão. Palmares tornouse o emblema da resistência negra (Ribeiro 1995: 295). Um dos traços distintivos mais significativos e trágicos da des-ordem brasileira reside no fato de que todas as formas de organização da parcela oprimida da sociedade sempre foram desapiedadamente combatidas. José Sarney. a Constituição de 1988 é mais conservadora do que a da ditadura militar. 73 As associações dos latifundiários defenderam sobretudo na questão da reforma agrária a autonomia da sociedade civil .74 O leitmotiv da ”Nova República” 71 Dois desses presidentes foram vice-presidentes e se beneficiaram da morte (José Sarney) ou da destituição (Itamar Franco) do presidente. teme a luminosidade própria da esfera pública e atua em simbiose com o Estado. como já em momentos anteriores de crises da história brasileira. decidiu. Essa organização social era bem compatível com a estrutura patrimonial do Estado.71 Mas antes se faz mister esboçar a relação específica com a sociedade civil. Com isso o modelo social hierarquizado foi modificado. vicepresidente e um homem da ditadura militar.72 A parte conservadora da sociedade civil age de forma inteiramente distinta. os seus sindicatos foram integrados em um ”Estado ampliado” (Gramsci 1971: 160). pretendia-se criar uma nova relação entre Estado e sociedade civil. mas não apenas nela.territórios livres de escravos fugidos . Gramsci diria que essa sociedade civil resp. e não Paulo Maluf. No curto prazo os planos do bloco majoritário do PDS não vingaram. Houve uma mudança de regime sem alteração do bloco de poder. A maior crise econômica desde os anos 30 deslegitimara os militares. Sob o governo de Getúlio Vargas surgiu depois de 1930 uma nova forma de organização da sociedade civil. herdada de Portugal. a Cabanagem e Canudos também foram levantes populares importantes (Ribeiro 1995: 319 ss. Em matéria de reforma agrária. institutos e conselhos de sábios com o fim de harmonizar os interesses políticos com as necessidades econômicas. contrariando a vontade da maiora absoluta da população. múltiplos experimentos de organização social foram testados. de forma privada e direta (Dreifuss 1989: 40-44). as pessoas passaram a votar ‘com os pés’. juntamente com a oposição. Nos anos 70. Mas Neves faleceu ainda antes da sua posse e José Sarney. Muito pelo contrário. eleger indiretamente o presidente por meio de um colégio eleitoral. Isso levou a uma regulação ad hoc (Oliveira 1996: 94) que não foi nenhuma regulação centralizada e forte. Num passo adicional um amplo movimento de massas exigiu a eleição direta do presidente. A oposição sempre insiste no seu status de sociedade civil. interesses privados lograram utilizar em seu benefício partes do aparelho de estado. 356). XX os imigrantes europeus organizaram-se em São Paulo em sindicatos e associações vicinais anarquistas e buscaram a autonomia do Estado.75 últimos presidentes civis. Fernando Collor de Mello. As ruas tornaram se palco da política.no hinterland das plantações açucareiras (Becker. pois uma parte do partido saiu e votou. conselhos. sobretuto durante a ditadura militar. No séc. Assim Tancredo Neves foi eleito presidente em 1984. para que possamos compreender a estrutura hierárquica e personalizada do poder no Brasil.

O protesto de centenas de milhares de brasileiros engajados foi importante para a deslegitimação de Collor.O Tradutor] 78 Por um lado. o outro dez meses.apesar da deterioração da distribuição da renda . prevêem também intervenções no mercado como congelamentos de salários e preços. Depois o plano desmoronou em virtude da sua inconsistência econômica e política. Mas já pouco tempo depois da sua posse começaram a circular boatos de que Collor estaria praticando a corrupção de forma mais desmedida do que os presidentes anteriores. em prol das eleições diretas para a presidência encontrou um amplo respaldo pro forma. de corte ortodoxo. heréticos. Porém. foi constituído sob a liderança do vice-presidente Itamar Franco um governo de ”consenso nacional”. ao dólar norte-americano.gov. Correspondentemente há doutrinas da fé correta (ortodoxas) e doutrinas contrárias à fé correta (heterodoxas). e com a moratória da dívida Sarney deu inicialmente passos que lhe granjearam popularidade. Sob ele começou o ataque sistemático à estrutura do Estado. Isso fortaleceu o PFL diante do PMDB. que pela primeira vez apostou expliticamente no acoplamento da moeda nacional. a transição de uma retórica do livre comércio.76 foi a continuidade.senado.Os tecnocratas dos escalões dirigentes. Depois de 1987 políticos tradicionais que também se tinham tornado conhecidos durante a ditadura militar ganharam influência no Executivo. 6 de julho de 1998). membro do PT e ex-prefeita de São Paulo. 76 . Peritos do PFL substituíram crescentemente os do PMDB. A comissão descobriu cada vez mais irregularidades.78 Quando a destituição do cargo foi decidida em fins de 1992 pelo parlamento com maioria avassaladora. que na sua condição de Ministro das Comunicações era responsável pela concessão de licenças de operação de emissoras de rádio e televisão. feita segundo critérios políticos. Depois os trabalhos da comissão estagnaram e ela não chegou a nenhum resultado concreto (www. como o Plano Cruzado. da privatização e da economia de mercado para uma política concreta. O fracasso dos planos heterodoxos de estabilização foi creditado a um excesso de intervencionismo e . com o Plano Cruzado de 1986. já praticada em 75 A visão de mundo da economia se assemelha a uma religião. o Plano Real. desta vez até com a participação de Luiza Erundina. a campanha de 1984. realizadas em 1989. e a moratória da dívida aliviou o orçamento. o Real. O congelamento de salários e preços do Plano Cruzado levou a um aumento do poder aquisitivo e a uma melhoria da distribuição da renda76. Mais uma vez as ruas tornaram-se palco do poder. heterodoxos. A equipe do Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso elaborou um plano de estabilização. ofereceram uma oportunidade para derrotar o establishment. Mas sem o apoio do empresariado paulista e de quase todos os meios importantes de comunicação as coisas não teriam chegado a esse ponto. A euforia subsistente até fins de 1986 assegurou ao PMDB e com isso ao governo de Sarney uma maioria folgada no Congresso Nacional e nos estados. até então uma pessoa amplamente desconhecida. Em 1996/97 uma comissão de inquérito chamou a atenção por revelar um esquema complexo de corrupção (Senado 1997). ganhou o populista de direita Fernando Collor de Mello. conhecido como ACM. são os instrumentos de política econômica que. Um dos ministros mais importantes de Sarney foi Antônio Carlos Magalhães. Em 1992 formou-se um movimento de massas para a sua destituição. 76 O plano foi implementado pelos mesmos tecnocratas do Rio que elaboraram posteriormente o Plano Real (Bresser Pereira 1987). A campanha fracassou. O estilo excêntrico de liderança de Collor levou à subestimação dos seus feitos políticos. Os intelectuais descontentes com a sua própria marginalização e a apropriação do governo Sarney por parte dos conservadores formaram o meio a partir do qual se constituiu em 1988 o PSDB. Ortodoxas são via de regra as doutrinas que crêem na onipotência do mercado para a regulação da sociedade. não a mudança.br/web/cpif/cpi. Ao invés do sindicalista Luís Inácio Lula da Silva. As revelações foram especialmente constrangedoras para Paulo Maluf. ligados ao PSDB e marginalizados por curto prazo no fim do governo Sarney reconquistaram a sua influência já durante o governo Collor e depois mais ainda no de Itamar Franco. dessa vez exitosamente. simples e sem grandes surpresas para o consumidor. deve-se supor que interesses concretos de grupos influentes são responsáveis pela publicidade. 77 O feijão com arroz é o prato padrão no Brasil. As primeiras eleições livres para a presidência da república. mas segmentos importantes dos grupos dominantes nutriam grandes reservas quanto a uma eleição direta. Um funcionou quatro anos. [A nota foi escrita para a edição alemã . potencial candidato oponente a Fernando Henrique Cardoso.a uma ”ênfase excessiva nos programas sociais” Ao invés disso foi perseguida então uma ”política feijão-com-arroz”77. um plano heterodoxo de estabilização75.htm. Esse foi um instrumento central utilizado pelo governo para assegurar-se da ou ”comprar” a lealdade de congressistas. Ele receitou com o Plano Collor um pacote econômico inesperadamente radical e congelou todas as cadernetas de poupança. Sempre que no Brasil a corrupção generalizada chega ao conhecimento público. isto é. candidato do PT. até que Maluf renunciou à sua candidatura. o que levou a um fim de curto prazo da inflação e a uma profunda recessão.

4 54.9 28. Todas essas reformas foram apresentadas até 1998 como incondicionalmente necessárias para a consolidação das finanças públicas. ao passo que o outro não passava de um simples metalúrgico” (Oliveira 1998b: 95). A emissão excessiva de medidas provisórias.77 outros países latino-americanos.80 Quando ainda era senador. 82 A observância de mecanismos de controle para evitar que titulares de cargos se valham de modo ilegítimo da sua função. Apesar da crise econômica Fernando Henrique Cardoso ganhou as eleições mais uma vez no primeiro turno. um termo ao continuado desrespeito praticado contra ele e a constituição ou é melhor reconhecer que somente há um poder no país. não importa de que maneira. José Sarney promulgou a cada décimo terceiro dia uma medida provisória. 24 dos grupos que deram uma boa parte das doações oficialmente registradas para a campanha opinaram que doações legais trariam mais problemas do que vantagens em virtude da grande publicidade. ”Mas uma coisa é certa: ou o Congresso põe. o do presidente da república. Ocorreu uma recentralização por via da política econômica. pilar fundamental de uma democracia liberal e do federalismo. Durante o seu período de cinco anos.0 31.5 9. Tal medida festejou em novembro de 1996 o seu ”aniversário” sem ter sido aprovada (ou rejeitada) pelo Poder Legislativo (Freitas 1996). isto é.0 4. foi reeditada a cada 30 dias na forma de medida provisória. é declarada ”impossível” pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e pelo STF (Supremo Tribunal Federal). E a partir desse momento esquecemos também de falar de ‘democracia’” (Cardoso 1998 [REVISÃO: verificar citação no original]).7 8. que só no longo prazo mostraria os seus efeitos positivos.82 A reeleição do presidente. e a prática da compra de votos enfraqueceram o Legislativo. Lesbaupin (1999). Ao passo que o Poder Legislativo não cumpre a sua tarefa propriamente dita de deliberar e aprovar leis81. de leis promulgadas pelo Executivo. Tabela 15: Eleições presidenciais. Transformações importantes no campo da privatização.2 1998 2.4 1994 2.0 PPB (2) PFL diversos partidos de direita PSDB PMDB PT diversos partidos de esquerda (1) no primeiro turno (2) 1989: PDS Fonte: Nicolau (1998) A divisão dos poderes.9 0. o próprio Cardoso criticou duramente essas medidas. cf. de vigência temporalmente limitada.2 15.1 53. da Previdência Social e das aposentadorias puderam ser implementadas nos quatro anos do seu mandato.3 4.0 3.79 Depois se afirmou que as reformas criariam um novo modelo de Estado e economia. o governo se vale da sua folgada maioria no Congresso para impor emendas constitucionais.8 11. foi sistematicamente minada no governo de Fernando Henrique Cardoso. Brasil 1989 (1) 8. o programa para o apoio da reestruturação do sistema bancário. Suportado por amplo apoio. O direito eleitoral foi adaptado um ano antes das eleições aos desejos da maioria (FSP de 12 de setembro de 1997). Depois de anos de insegurança Cardoso prometia estabilidade e competência. Uma medida tão importante como a do PROER (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional). razão pela qual preferem retornar aos métodos ilegais (FSP 77 . ”Durante a campanha eleitoral Cardoso se referiu sem ambigüidades ao principal traço distintivo com relação ao seu principal concorrente: ela era intelectual. Sob o governo de Fernando Henrique Cardoso foram promulgados em 1995/96 a cada segundo dia duas medidas provisórias (Suassuna 1996). 81 De todas as leis aprovadas entre 1989 e 1993 78% tinham a sua origem no Poder Executivo (Diniz 1997: 182). Foram subtraídos aos estados recursos constitucionalmente assegurados e a base financeira dos governos estaduais continuou sendo estreitada. dos governadores e dos 79 80 Para um balanço crítico dos quatro primeiros anos de governo de Fernando Henrique Cardoso. Collor a cada quinto dia.7 17. ele ganhou as eleições. da reforma administrativa.4 27.

ao passo que o PPB representa com 60 deputados o quarto maior grupo e o PFL com 106 deputados é o maior grupo. Mais uma vez perderam importância os muitos partidos pequenos de direita. está em quinto lugar. mas isso ainda é apenas um quinto (cf. 1990 – 1998 1990 1994 1998 0 6 5 PPB (1) 18 18 20 PFL 8 11 0 diversos partidos de direita DIREITA . 1986 – 1998 1986 PPB (1) PFL diversos partidos de direita DIREITA – TOTAL 32 118 29 180 1990 42 83 132 227 1994 52 89 92 233 1998 60 106 52 218 de 16 de setembro de 1997. foi maior em virtude do comportamento não-unitário do centro e da direita nas votações. A presidência do Senado está nas mãos de ACM. A cada quatro anos são eleitos em cada estado alternadamente um ou dois senadores segundo o sistema de eleição majoritária no primeiro turno. pois desde 1994 os parlamentares do centro votam sistematicamente com a direita. o Senado e a Câmara dos Deputados. Se durante o Império os senadores eram vitalícios. O crescimento da esquerda diminuiu em 1998.TOTAL 34 33 43 1 5 7 PT 7 8 6 diversos partidos de esquerda ESQUERDA . o centro no Senado teve mais peso do que a direita. o PT.78 prefeitos. então visivelmente menor. permitindo ao PSDB aumentar a sua influência. Tabela 17). O crescimento contínuo não aumentou a influência da esquerda. Tabela 16: Distribuição das cadeiras no Senado. basicamente a expensas do PMDB. Isso se deve fundamentalmente ao fato de que os pequenos partidos de direita perderam influência em virtude do sistema de eleição majoritária. o maior partido de esquerda.gov. FSP de 14 de abril de 1998). hoje eles têm um mandato de oito anos.senado.TOTAL 8 13 13 TOTAL GERAL 68 81 81 (1) Até 1990 PDS Fonte: Brasilienausschnittdienst (10/90. O PSDB aumentou a sua influência. Freitas 1998. Deve-se ressaltar a perda da posição determinante amargada pelo PMDB. foi possibilitada por uma emenda O Congresso brasileiro é formado por duas câmaras. Entrementes a esquerda dispõe de 13 cadeiras. Tabela 16). Na Câmara dos Deputados pode-se constatar desenvolvimentos semelhantes aos do Senado. muitos ex-governadores ou políticos que consideram o Senado como plataforma para outros cargos no Executivo nacional ou regional. embora algumas tendências sejam mais pronunciadas (cf. Durante o processo de elaboração da constituição em 1987 e 1988. Nos últimos anos o Senado ganhou uma influência cada vez maior. www. a influência do PT. proibida como medida de proteção contra o constitucional. Brasil. ela não elege praticamente mais de um quinto dos deputados. Brasil. 10/94 und 10/98). representada por apenas 25 senadores. embora o PFL com seus apenas 20 senadores não constitua o maior clube na casa. consubstanciada hoje em 99 deputados.TOTAL 26 35 25 10 10 16 PSDB 24 23 27 PMDB CENTRO. portanto o dobro do tempo de mandato dos deputados. Nessa casa encontram se muitos dos políticos mais influentes. 78 . Cada estado elege três senadores. Com 58 deputados.br (24 de abril de 1998) Tabela 17: Distribuição das cadeiras na Câmara dos Deputados. Com 43 senadores. patrimonialismo.

Um ápice dramático dessa forma conservadora da ação política foi um escândalo em início de 1997.000 dólares e outras vantagens para votar a favor da emenda constitucional que permite a reeleição do presidente da república.86 Em três outros houve fortes indícios. A Folha de São Paulo pôde comprovar mediante fitas gravadas que dois (de oito) deputados federais do Acre tinham recebido respectivamente 200. A base eleitoral de deputados normalmente se restringe a uma região na qual eles se empenham por melhorias da infraestrutura.85 Com a fixação em interesses micropolíticos os poderosos impedem que o sistema político questione o seu poder econômico e sobretudo a sua propriedade. É certo que este ganhou de iure uma importância muito maior com a Constituição de 1988. em virtude do sistema presidencialista.84 O clientelismo é tão difundido e resistente a transformações por encarnar o elemento relacional na política. Esse direcionamento para o curto prazo e o enraizamento local dos deputados representa um obstáculo para medidas relevantes para setores ou a totalidade da sociedade.83 Faz parte das tarefas do deputado operar como mediador entre o Poder Executivo e a população. a ”casa” na ”rua” no sentido de Da Matta (1991). Inerente a essas lealdades quase sempre de curto prazo é a fraqueza delas estarem constantemente ameaçadas pela revogação. De acordo com o Direito Eleitoral brasileiro são eleitas pessoas que se candidatam em uma chapa do partido. isto é. pois ela possibilita aos economicamente poderosos comprar votos no processo político e construir dessarte relações pessoais. 86 Com oito deputados federais. Por conseguinte.2% duas vezes e 24% três ou várias vezes de partido (Limongi. Quem acredita que possa partir dele um controle efetivo das decisões cotidianas? Ninguém” (Fernando Henrique Cardoso 1991: 168). dos governadores e dos prefeitos reflexões atinentes à política em geral referindo-se as grandes temas da nação desempenham um papel maior do que nas eleições parlamentares. Figueiredo 1996: 42).79 PSDB PMDB ESQUERDA . Na eleição do presidente. Enquanto ente legislativo. 84 ”Quem será contra a ‘modernização’ do parlamento? Ninguém. diante do Congresso. o Acre está bem mais representado do que os estados com um contingente populacional 79 . o Congresso se assemelharia mais a uma ”feira” para a implementação de interesses particularistas de curto prazo. pois a continuação 83 Entre 1987 e 1994 25. O clientelismo é uma forma duradoura e consensual de dominação. a inserção universalizada de consultores empresariais em processos decisórios de natureza política. mas não provas. a troca de favores por votos (Banck 1990). constróem relações de lealdade e ”trocam votos por favores”. o Executivo busca obter a necessária maioria no Legislativo. que de facto prescreve um sistema misto entre presidencialismo e parlamentarismo. Isso se deve ao fato de que os primeiros mandatários dominam. Mas isso não infunde ao sistema político o calor e a sensação de se estar abrigado na ”casa”. aos interesses de curto prazo da organização de uma rede complexa de ”dar e receber”.1% dos deputados mudaram uma vez.TOTAL TOTAL GERAL (1) Até 1990 PDS Fonte: Nicolau (1998) 260 260 16 31 47 487 38 108 146 35 65 100 503 62 107 169 49 62 111 513 99 82 181 58 56 114 513 As queixas sobre a forma fragmentada e irracional da política brasileira não têm fim. No entrelaçamento atual do capital e do Estado ela assume formas sempre novas. pois pode contar amplamente com a anuência dos por ele prejudicados no longo prazo. Mas o seu modo básico de funcionamento não se alterou. Depois de eleito. Explica-se isso com o clientelismo amplamente difundido. do que a um ”forum” no qual se define racionalmente a via de desenvolvimento da nação.TOTAL PT diversos partidos de esquerda ESQUERDA .g. Por isso mudanças de partido praticamente não afetam a honorabilidade e são perfeitamente habituais. Trata-se de uma ”familiaridade perversa”. mas impede que as leis da igualdade e da restrição do poder sejam implementadas no espaço público. Embora a filiação partidária de no mínimo um ano seja pré-requisito da candidatura. como e. toda a estrutura do Poder Legislativo está direcionada a um processo de trocas políticas. Ele subordina interesses de longo prazo. comprar a anuência a projetos que tramitam no Congresso mediante concessões feitas à sua clientela eleitoral. tais como são representados pelos partidos. 6. Por essa razão não surpreende o elevado percentual de deputados que não conseguem reeleger-se. esta é quase sempre de importância secundária diante das qualidades e capacidades pessoais. 85 Aqui os candidatos constróem uma rede complexa de cabos eleitorais que vão na sua respectiva vizinhança de casa em casa. das Assembléias Legislativas e das Câmaras de Vereadores.

assim e.055.g. mas não estatais de direito privado. depois mudança para o PSDB e depois para o PFL. deputado federal (1995-1997). Em 1997 somente um era membro do PMDB. os seus atores dependem em elevado grau de contribuições legais e ilegais de instâncias externas. XIX e depois no plano dos estados. depois mudança para o PFL.664. a não-participação era punida. Juscelino Kubitschek reforçou essa tendência. Chicão Brígido: PMDB (1992-1997): vereador em Rio Branco (1993-1994). Afirma-se que essas compras de voto teriam sido coordenadas pelo governador do Amazonas.87 Como estados pequenos como o Acre não possuem força econômica própria e sua arrecadação tributária direta é praticamente inexistente. As tarefas foram delegadas a ”organizações sociais” (OS) e ”Agências Executivas” definidas em lei. da cultura etc. As ”agências executivas” são organizações públicas. em que os políticos eleitos e uma alta burocracia profissional. 1994 candidato pelo PMDB. A estrutura administrativa burocrática do Estado brasileiro. (Lins 1997). em São Paulo 450. referindo-se à assunção das despesas de pessoal do Estado do Amapá pelo governo federal (cf.80 das investigações foi abortada. que abrangem uma grande parte dos serviços públicos nas áreas da saúde. desembocou depois de 1930 no centralismo do estado-nação. em 1994 eleição como candidato do PP. para ocupar o lugar da estrutura patrimonial do Estado. Ele desejava a descentralização e fragmentação do Estado.g. que se formou. Assim e.88 O esforço modernizador das partes do establishment brasiliense interessadas na transformação encontrou seu limite nas alianças necessárias para o apoio de uma tal política. A descentralização ocorreu tanto como deslocamento do plano nacional para o plano regional e local quanto como terceirização feita pelo Estado (Mare 1997). recrutada e treinada de forma impessoal. 90 ”Dessa forma será possível estabelecer uma administração pública gerencial.89 A nova Constituição Federal de 1988 se inseria na tradição do modelo do Estado racional e burocrático e impôs um direito unitário do funcionalismo público e da sua remuneração. As organizações sociais são responsáveis pelos serviços nãoexclusivos. um deputado representa 52. instituições e cargos que administravam os assuntos públicos ao lado da hierarquia estatal.145 pessoas. 89 Já durante o Estado Novo surgiu uma pletora de instituições do Estado central. responsável pela política de meios de comunicação do governador (1982-1985). também Damé 1997). O modelo oficial era o estado centralista francês e a burocracia racional de Max Weber. na qual este era percebido como propriedade de quem exercia a dominação. Osmir Lima: PMDB (1982-1994). No maior. um senador paulista 10. Os cinco deputados suspeitos de corrupção percorreram carreiras políticas típicas: Zilá Bezerra (1982-1994: PMDB). da educação. eis a manchete da FSP em 4 de março de 1997. partindo do Estado do Rio Grande do Sul. Por sua vez o presidente da república. dependia para a implementação dessa ”modernização” do apoio das forças políticas mais retrógradas do Brasil. As idéias do presidente Cardoso caminhavam na direção contrária. deputada federal (1990-1994). 80 . possam administrar de forma descentralizada. criando uma série de novos órgãos. timidamente no séc. 88 O caráter contraditório da política brasileira é testemunhado pelo fato desse estado especialmente retrógrado estar sendo governado desde 1999 pelo PT. escolas que não fundam uma Associação de Pais recebem menos recursos do Estado. inspirada pelo ideário positivista. coordenadora de política agrícola no Vale do Juruá (1986). tal como ela já tinha sido iniciada pelo presidente Kubitschek e pelos militares. Ronivon Santiago: PMDB (1990-1994). o PPB três e o PP (Partido Popular) uma cadeira na Câmara dos Deputados. Esse modelo foi introduzido em 1935. deputado federal (1987-1990). chefe de gabinete (1987-1990). ”FHC troca 6. Em 1994 o PMDB conquistou quatro. PPR (1995-1996). O Estado criou assim para si no seu entorno uma sociedade civil própria para fins de disponibilização de serviços públicos. que também elegeu dois dos três senadores. cobrando resultados dos servidores públicos (Bresser Pereira 1997).90 A reforma administrativa constituía um elemento central da reforma do Estado na direção de um Estado ”enxuto”. PFL (1997). Os deputados federais do pequeno Estado do Acre são um bom exemplo disso. Assim os grupos conservadores estão representados muito acima da média na Câmara dos Deputados e no Senado (no Acre. o INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social). Em 1967 uma reforma administrativa dos militares levou a uma maior autonomização e flexibilização da administração pública pela criação de fundações e autarquias. São responsáveis pelas atividades exclusivamente disponibilizadas pelo Estado. mas autonomizadas em termos organizacionais.515. Nesta a participação dos cidadãos era desejada.000 cargos contra um voto”. PMDB (1983-1992): deputado federal. os três restantes e o deputado do PP migraram para o PFL que no Acre colaborava com o governador. cujo discurso político gira em torno do conceito da ”modernização”. Elas recebem um encargo legal para produzir um serviço para o Executivo. depois das eleições mudança para o PFL. 400.491 pessoas). João Maia: PT (1980-1983). 87 A troca de votos no Acre não foi a única transação do governo. um senador acreano representa 139. mudança de partido para o PP (1992-1994). Presidente do Banco do Estado do Acre (1983-1986).000 funcionários de organizações estatais terceirizadas tornaram-se funcionários públicos federais sujeitos a regras administrativas uniformes (Bresser Pereira 1998a: 4).

que chegara a um ponto culminante com 700.740 1989 34. A Tabela 18 mostra que estes subiram durante o governo de José Sarney de 3.0 3. vale dizer.8.150 pessoas atuam na área da saúda e 171. que produziu seus plenos efeitos no orçamento apenas em 1995. é lícito duvidar diante da redução do funcionalismo se a qualidade dos serviços poderá continuar sendo assegurada. sua quarta função.1999): isso abrange as áreas da segurança.2 122.305 1990 28.81 caso dos monopólios sobre a exploração de recursos naturais.6 236.870 1992 31.8 5.7 6. Novy 1998: 235).gov.137 pessoas no setor educacional.6 bilhões a um ápice.46% a 6. Em 1997 o número de funcionários públicos ativos na administração federal mais estrita era ligeiramente superior a 500. a redução dos gastos com pessoal.9 181. Pretende-se impedir a participação direta do cidadão nas decisões do núcleo estratégico do Estado.897 1993 35. Durante o governo Collor eles caíram para 4.mare. As despesas estagnaram ligeiramente abaixo desse nível sob o governo de Fernando Henrique Cardoso.zerohora.68% do PIB.htm (27 de julho de 1998) 91 As inovações tecnológicas na área das telecomunicações e o controle estatal pela via de um órgão de regulamentação visam impedir a formação de monopólios.2 143. Por isso a legitimação para a tomada de decisões sobre o bem-estar público reduz-se para os titulares dos cargos decisórios na burocracia estatal à legitimação indiretamente democrática pelo presidente.9 5.3% de todo o funcionalismo civil federal era formado por aposentados. da arrecadação de impostos.375 1991 23. Com isso elas estavam em 1997 um pouco inferiores ao serviço da dívida (cf. Uma disponibilização de serviços competitivamente organizada deve possibilitar a criação de um Estado enxuto e eficiente .1 157.com.5 5. o aumento salarial concedido por ele.6 6.br vom 12. esse percentual subiu a 41.689 1995 45. 92 Ao passo que em 1987 somente 23.7 231.06 583.47 531.26 705. O primeiro escalão da burocracia é reestruturado em termos de administração empresarial.656 1996 45. foi até terceirizada a empresas privadas.000 militares (inclusive a Polícia Militar) (Dreifuss 1989: 26).46 1987 24.89 592. também em números absolutos com R$ 46.92 Ao passo que os gastos com pessoal não mais oneram o orçamento.58 620. a produção de bens e serviços antigamente efetuada pelo Estado.000 funcionários durante o governo Sarney.5 526.000.91 No núcleo estratégico do Estado o direito do funcionalismo público continua sendo mantido juntamente com a estabilidade (www.bem na linha de ”Reinventing Government” (Osborne Gaebler 1992) (Bresser Pereira 1998: 11).7 4.3 229.7% em 1998. em 1998 este foi nitidamente superior. em bilhões de reais (dezembro de 1997) e situação do funcionalismo R$ índice em % situação do (bilhões) (1) do PIB funcionalismo 19.020 1994 46.83 592.58%. No centro da reforma administrativa estavam objetivos de natureza fiscal.93 Tabela 18: Gastos de pessoal da União.43 545.4 174. Itamar Franco aumentou os gastos com pessoal.br/Publicacoes/Boletim/index. O quadro de pessoal.7 100.7 5.725 1997 45. 93 Ao lado dos funcionários federais civis há redondamente 600. De qualquer modo 121. conduziu.9 151.166 (3) 1998 (2) (1)1987 =100 (2) acumulado de maio de 1997 até abril de 1998 (3) Março de 1998 Fonte: www. reduziu-se nos anos subseqüentes em todos os governos. do Banco Central e do Judiciário.3 4. 81 .548 1988 29.68 712.8 232. pois um excesso de regras e sobretudo de cogestão sindical configuraria um impedimento ao monitoramento eficiente.7 4.0 116.42 628.7 4.76 567.

cuja atenção se concentrava sobretudo no combate às epidemias. ela foi denominada ”constituição cidadã”. Embora ela estivesse em muitas áreas. não com referência ao seu público-alvo e sua qualidade. Em 1930 elas foram substituídas por caixas de pensão sujeitas ao controle estatal e estruturadas segundo segmentos profissionais. mas os direitos sociais também foram nela ancorados como direitos universais de todos os cidadãos. Com base na constituição (Ministério da Educação 1988: 88) o sistema de saúde baseia-se nos princípios da universalidade. XX existia somente uma previdência privada no plano da saúde. A dispensa de cuidados médicos a todos os integrados no mercado formal de trabalho transformou-se igualmente em direito do trabalhador. Até o início do séc. seguros particulares. tentou-se unificar o sistema de pensões. com a criação do Ministério da Previdência Social. Não se questionava a concepção do poder soberano. O pagamento dos juros empurrou alguns bancos públicos estaduais à falência ou conduziu à sua liquidação ou privatização. No âmbito de um segmento cada pessoa tinha os mesmos direitos. mas descentralizado. como variante latinoamericana. independentemente deles contribuirem ou não. ocupou desde a resistência contra a ditadura militar um papel central em todos os esforços reformistas. a política econômica e a posição dos militares. Em virtude da sua concepção explicitamente liberal dos direitos de cidadania e do federalismo. essa ampliação maciça do círculo de beneficiários resultou num grande ônus financeiro e na redução dos serviços prestados. As pessoas com renda maior começaram a contratar. como a reforma agrária. a ”sobrecarga de demandas” (Mare 1998: 3) ou. Depois de alguns outros passos na direção da unificação do sistema os estados e municípios foram inseridos em 1983 por meio de contratos intraestatais na política nacional de saúde pública. Ao mesmo tempo foi criado o Ministério da Saúde.94 Isso está relacionado à estrutura de financiamento dos estados. o que levou a uma padronização nacional dos direitos de aposentadoria. ela colocou algumas ênfases importantes em áreas isoladas. O sistema de saúde pública tem a sua origem em caixas de pensão criadas em 1923 por empresas. as forças que pretendiam fortalecer um sistema privado de saúde ganharam influência com a eleição de Fernando Collor de Mello. o INPS (Instituto Nacional de Previdência Social). a saúde passou a ser um direito de todos os brasileiros. Pereira 1998: 142). num país com uma das distribuições mais injustas da renda e do patrimônio e diante de um aumento da desigualdade nos anos 80. que ofereciam também assistência social e cuidados médicos. Em 1987 foram dados passos na direção de um sistema unificado. que funcionou sobretudo nos anos 80 fundamentalmente por via dos bancos públicos estaduais.assim como o orçamento da União . Tratava-se de dar à nação enquanto receptáculo de poder regras que permitissem uma cogestão mais ampla da população. 82 . na sua maioria quase absoluta. colocou-se contra essas idéias e obstaculizou o SUS.atingidos de forma especialmente dura pela política de juros elevados. foi elaborada em 1988 pela Assembléia Constituinte eleita em meio à vertigem consumista do Plano Cruzado e claramente determinada pelo predomínio das forças conservadoras. uma nova Constituição Federal. compreendida num sentido muito abrangente. Apesar disso responsabilizou-se. O PSDB votou em 1988 de modo quase unânime em favor da constituição (Oliveira 1998a: 175). em número crescente. No lugar de planos de saúde local e regionalmente integrados apareceu a lógica centralizada da contabilização de ou do pagamento por serviços 94 Com referência à estrutura federativa. O sistema brasileiro de saúde é um bom exemplo da construção e destruição da dimensão nacional. Estes eram utilizados para alavancar os esforços no desenvolvimento regional. o sistema de saúde percorreu no Brasil uma evolução similar à do sistema de saúde na Europa. Depois de um longo processo. cuja dissolução estava prevista na constituição. Em 1947. intensamente acompanhado pela sociedade civil. os estados também aumentaram a sua participação de 24 a 27% (Medici 1995: 291). Desde o princípio a estrutura do sistema público de saúde era fragmentada e altamente centralizada. em cópia de argumentações conservadoras dos países industrializados. Em 1967 as diferentes caixas de pensões foram unificadas na criação de um instituto próprio. mas aqueles que monopolizavam esse poder. em perfeita continuidade com constituições anteriores. Já cedo formou-se a resistência a essa concepção cidadã de saúde. implementadas em dispositivos de regulamentação por via de leis ordinárias. Por meio do SUS (Sistema Unificado de Saúde). sendo agora . A burocracia nacional da previdência social.82 A democratização. As idéias fundamentais desse sistema foram integradas em 1988 na nova Constituição Federal. Mas as numerosas exigências constitucionais no campo da política social não foram. A primeira medida eficaz de Collor foi retardar a introdução do SUS. Ao mesmo tempo. Com o Plano Real os municípios e os estados se defrontaram com uma redução dramática das suas margens de ação. o ”populismo econômico” pela ingovernabilidade desde o fim da ditadura militar (cf. Ao lado da destruição de algumas caixas de pensão que funcionavam bem. Na sua estrutura. os municípios puderam aumentar entre 1980 e 1992 a sua participação nos gastos sociais do Estado de 11 a 17%. igualdade e integração de atividades.

por sua vez designado pelo governador. 83 . que reteve parte da arrecadação tributária destinada pela constituição aos estados e municípios.95 O seu prolongamento no âmbito do FEF tornou-se. entre 1979 e 1983 foram concedidos em média 230. financiamentos dimensionados até meados de 1995. A burocracia gestora desse sistema complexo foi sistematicamente destruída. o número dos empréstimos concedidos caiu também de aproximadamente 230. Formalmente o sistema era federativo. Com isso o sistema foi paralisado por mais de dois anos (Arretche 1998: 84). o BNH (Banco Nacional de Habitação). O plano de descentralização do governo já estava concluído apenas cinco meses após a posse do presidente. As receitas do FGTS caíram de redondamente US$ 2. a CEF (Caixa Econômica Federal). conforme argumentou o governo. Como se identificava na corrupção. Sob o governo de Fernando Henrique Cardoso foi iniciada a reformulação da política habitacional. da previdência social e da educação. O ministério competente alterou várias vezes o seu nome. A desmontagem da burocracia central. Em 1994 86.000 empréstimos novos por ano (Arretche 1998: 73). 6 de julho de 1998: 6).000 em 1989 (Arretche 1998: 83). Em 1966 entrou em vigor o FGTS. 95 A compensação financeira produz um efeito regionalmente redistributivo no plano estadual via FPE (Fundo de Participação dos Estados). necessário porque as reformas necessárias não eram executadas com suficiente rapidez e só assim seria possível reduzir a ”vinculação excessiva dos gastos”. Esse estado de coisas deteriorou-se ainda mais a partir de 1994. Segundo dados do Banco Mundial. ao passo que a produção do serviço é descentralizada e privatizada. Esse sistema misto centralizado-descentralizado funcionou apesar da sua estrutura básica autoritária.83 prestados.92%.5 bilhões de dólares norte-americanos. subsidiados com isenções tributárias. nada menos de 25% de todo o orçamento federal para o setor de saúde” (Frankfurter Rundschau. A democratização evidenciou as graves falhas da falta de mecanismos para dirimir conflitos entre a União. acessível aos trabalhadores em caso de demissão e para fins de construção ou aquisição da casa própria (Arretche 1998: 70).96 Correspondeu à concepção de Estado da ditadura militar de deixar executar o fornecimento do serviço a ser prestado de modo descentralizado e centralizar a competência decisória. O BNH foi dissolvido em 1986 e as suas funções foram transferidas a um banco estatal. a dissolução do Ministério da Previdência Social e dos departamentos competentes na CEF ajudaram a quebrar o poder da burocracia num só golpe. ”Membros de sistemas de previdência privados são essencialmente pessoas com renda alta e muito alta. competindo à União tão-somente a elaboração da legislação geral (Arretche 1998: 86-90). Pelo pagamento dos seus prêmios elas recebem incentivos fiscais e subsídios do estado em volume considerável. Esse efeito é apenas reduzido no FPM (Fundo de Participação dos Municípios) (Couto 1996: 44). estão crescendo muito os seguros de doença privados. Até 1986 foram construídas cerca de 4 milhões de habitações.000 no final dos anos 70 e início dos anos 80 para 32. pois uma grande parte das habitações foi construída para famílias cuja renda mensal era superior a 12 salários mínimos (Aguerre 1995: 112). em junho de 1995. o que foi uma das razões da atividade reduzida de investimentos do setor privado. Em 1996 esse índice foi de apenas 70. Em contrapartida. A política habitacional do Estado também evidencia o papel central do Estado no fordismo periférico.2% dos recursos se concentraram também nas áreas da saúde. 96 Entre 1975 e 1982 foram disponilizados aproximadamente US$ 2. Em 1964 foi criado o SFH (Sistema Financeiro de Habitação) e um banco para o financiamento da casa própria. O lugar do financiamento centralizado por via da União foi ocupado por uma forma aberta de estatalidade que recorre tanto a meios do setor privado quanto aos municípios e estados. A descentralização do sistema de saúde começou a estagnar e os municípios e estados se viram sem apoio nacional.97 O espaço habitacional era financiado agora essencialmente pelo mercado creditício privado. A instituição política central é agora o governo estadual. quando o governo federal criou para fins de saneamento do orçamento o FSE (Fundo de Estabilização Econômica). o governo Cardoso considerou muito positiva a idéia de uma descentralização. As receitas auferidas pela União a partir desse fundo devem ser utilizadas ”prioritariamente” na área social. durante o curso do processo de impeachment. 97 Um ponto culminante triste da crise o sistema experimentou no governo Collor cujo ministério concedeu em 1992. esses subsídios cifraram-se em 1995 em 1.5 bilhões por ano. Seus representantes eram designados pelo prefeito. a causa principal da crise. por meio do estímulo da criação de órgãos colegiados nos estados. levada às últimas conseqüências durante o governo Collor. sendo que a camada baixa só se beneficiou disso em grau restrito. os estados e municípios. As COHABs (Companhia Metropolitana de Habitação) eram encarregadas da implementação dos programas habitacionais. mas no seu funcionamento real ele era unitário-centralista (Arretche 1998: 75).4 bilhões para menos da metade em 1993. para terminar finalmente como Secretaria de Estado junto ao Ministério de Planejamento (Arretche 1998: 82).

22 de março de 1995). tiveram de renunciar simultaneamente devido a conversas telefônicas duvidosas. Os irmãos Luiz Carlos Mendonça de Barros. Magalhães. seja por encargo do Estado. No PT os irmãos Viana ganharam as eleições no Acre para o governo do Estado e o Senado. Gustavo Franco. Empresas estatais e a burocracia estatal foram privatizadas. Seguros de aposentadoria privada podiam ser descontados do imposto de renda (Carvalho. Para a parcela economicamente bemsituada da burguesia o Estado de Bem-Estar Social tornou-se crescentemente menos relevante. proprietários. Laços familiares também desempenham um papel central. ex-presidente do Banco Central. situados na proximidade do bloco de poder. reuniu-se com o presidente do Banco Central. Pérsio Arida. chegando mesmo a ser percebido como obstáculo do desenvolvimento da liberdade do consumidor. nomeado presidente do Banco Central. Os grandes empresários nacionais e internacionais. Fernão Bracher. puderam continuar fazendo valer maciçamente a sua influência. foi o candidato com maiores chances de êxito para as eleições presidenciais em 2002. o ex-ministro Mailson da Nóbrega. O poder pessoal e controle pelo establishment freqüentemente foi mantido. Ministro das Telecomunicações. na véspera de uma inesperada alteração da política do Banco Central. Com a crise fiscal e a dificuldade crescente de mobilizar recursos estatais para fins próprios.99 98 Um coordenador da política no setor petroquímico. 84 . é consultor de uma das empresas interessadas (FSP de 10 de outubro de 1997). No setor dos órgãos de regulação redes informais e privadas parecem desempenhar um papel importante.98 O entrelaçamento de financiadores.84 À guisa de resumo. seja na condição de novos proprietários. várias isenções tributárias custaram em 1997 ao erário da União o valor de R$ 17. Arida renunciou depois ao seu cargo (Veja. Luís Eduardo Magalhães. Muitas das mesmas pessoas que tinham ocupado posições no topo do Estado passaram a atuar no setor terceirizado. Secretário de Comércio Exterior. Isso dificultou a capacidade de ação política do bloco dominante. mas continuou trabalhando ativamente na aquisição de empresas estatais. podemos registrar que a política anti-estatal apoiou-se nos anos 90 nas forças que nos anos 60 tinham subordinado os direitos de cidadania a uma forma ditatorial de governo e promovido a estatização da economia. nomeou por sua vez um amigo do setor privado Diretor de Assuntos Internacionais.5% (FSP de 8 de setembro de 1997). no mesmo ano. Adache 1998). administradores. a relação da sociedade civil com o Estado também se alterou. sendo que apenas a Zona Franca de Manaus ficou com 14. em 1998. Falta vontade política para que os órgãos de fiscalização possam cumprir a sua função de controle. o Presidente da Comissão de Reforma do Estado.3 bilhões. é igualmente consultor. Eduardo Suplicy se elegeu senador por São Paulo e sua esposa Marta quase atingiu o índice de 24% nas eleições para o governo estadual (Brasilienausschnittdienst 10/98). Até a sua morte surpreendente em 1998 o filho do presidente do Senado ACM. O que mudou foi a fragmentação progressiva de uma regulação política em si já não mais homogênea. burocratas e consultores parece ser demasiado estreito e o poder do mercado parece ser demasiado forte. e seu irmão José Roberto Mendonça de Barros. O presidente do banco extremamente lucrativo BBA. 99 De acordo com um prognóstico. embora a fragmentação de instâncias estatais andasse de mãos dadas com uma concentração privada do poder.

foram tempos de intranqüilidades políticas que se concentraram em São Paulo. O espaço nacional foi estruturado e hierarquizado a partir de São Paulo. Tabelas A-34 e A-35). mas como São Paulo era o ponto nodal do campo nacional de poder. de uma posição peculiar no âmbito do espaço nacional de poder. exibe uma arquitetura impressionante: milhares de edifícios. Essas datas não parecem indicar um momento exato de uma transformação radical. referidas a uma forma estrutural. Periodizações efetuadas conforme rupturas refletem um pensamento comparatista-estático. O seu poderio derivou em uma primeira fase de uma inserção específica na economia mundial e. na indústria e no setor de serviços. As respectivas rupturas políticas ocorreram posteriormente. Denomina-se Região Metropolitana de São Paulo (Grande São Paulo) o espaço de aglomeração com seus aproximadamente 16 milhões de habitantes (Cf. a cidade estende-se sobre o planalto logo atrás da costa íngreme. Enquanto espaço de poder político. Enquanto locomotiva que impulsiona o Brasil inteiro. Trata-se de uma cidade cujo crescimento vertiginoso no séc. milhões de automóveis e aproximadamente dez milhões de pessoas encontram-se num espaço estreito. a partir de São Paulo foram traçadas e derrubadas fronteiras econômicas e político-administrativas. orientar-me-ei também nesse capítulo pela teoria da regulação. seu centro. mas nos dois momentos as contradições nacionais do velho poder sobre o espaço já se refletiam nitidamente em São Paulo. posteriormente dominante. com seus quase 10 milhões de habitantes. em uma segunda fase. refiro-me em primeiro lugar à cidade enquanto município e com isso enquanto unidade territorialadministrativa no nível mais inferior da federação. ela reagiu com maior rapidez e sensibilidade à crise da moeda. o nosso objetivo será também agora colocar a produção de São Paulo enquanto espaço de poder no primeiro plano da nossa análise. Velha e aparentemente ahistórica. São Paulo tornou-se um espaço de poder econômico que abrange todo o estado. Mas mesmo esse espaço maior precisou ser primeiramente construído na sua estrutura atual. em larga escala dominante. São Paulo teve uma pletora de detentores do poder. XX produziu a sua peculiar ”poesia concreta. em 1973 foi a vez do sistema de Bretton Woods. São Paulo é um espaço parcial do Brasil. Foi um território cuja fronteira adquiriu importância apenas aos poucos. No entanto. originariamente irrelevante. os anos 20 e o período de 1973 a 1982. a nação lograva postergar por meio do monitoramento político a eclosão da respectiva crise. Uma metrópole. os anos de 1914 e 1973 assinalam uma ruptura. A última década do antigo poder sobre o espaço. A Tabela 19 nos apresenta uma primeira sinopse a respeito disso. Mas a periodização do desenvolvimento regional afasta-se da periodização do desenvolvimento nacional. Nas últimas décadas São Paulo é denominada a ”Califórnia do Brasil”. a mais importante metrópole da América do Sul. nacionalmente dominante. a saber. isso levou ao colapso do velho campo de poder e à estruturação rudimentar de um novo campo. Se a seguir falo de São Paulo. Os diferentes planos. É certo que a região não tem nenhuma influência na política financeira. a deselengância discreta das suas meninas” (”Sampa” de Caetano Veloso) São Paulo. dura”. que se sobrepõem à cidade de São Paulo. desempenharam papéis distintos nas 85 . a restrição do meio monetário. De outro lado também chamo São Paulo a região e o estado inteiro. e isso simultaneamente na agricultura. província e mais tarde como estado da federação. isto é. o regime dominantemente intensivo tem em São Paulo o seu ponto de partida.85 3 Espaço e poder no centro da periferia ”E quando eu cheguei por aqui eu nada entendi: a dura poesia concreta de suas esquinas. Definirei a seguir as rupturas na evolução mais recente de São Paulo em 1914 e 1973. porque esse espaço ocupa uma posição nacionalmente significativa. Juntamente com a crise da antiga forma de acumulação e regulação. Como capitania. são os conteúdos espaciais de um receptáculo que não deixa de ter importância também no jogo das forças globais da atualidade. Analogamente ao exame do Brasil. por não dividir estados-nação. inserida em um estado que hoje é o centro econômico inconteste do Brasil e há cem anos ainda apresentava extensas áreas cobertas de mata e uma densidade demográfica muito reduzida. Ao passo que São Paulo foi antes um retardatário na sua transição ao regime de acumulação extensiva. Na 1ª Guerra Mundial o padrão ouro entrou em colapso. Na realidade as transições de um campo a outro se dão lentamente e na forma de um processo. O mesmo vale para a crise desse regime de acumulação. cujo charme efetivamente não salta aos olhos de imediato. E como já aconteceu no capítulo precedente.

sendo que até a virada do séc. 86 .gov.seade. XIX para o séc. XX a região ultrapassava a cidade em importância e essa relação de dependência se inverteu no curso do séc.657 (1992). XX.br ).292 (1997) (www. O estado respondeu por um terço do Produto Nacional.86 diferentes constelações de poder sobre o espaço. atingindo assim quase o PIB argentino e ultrapassando o de qualquer outro país sulamericano. para mais tarde aumentar para R$ 6. A renda anual per capita caiu de R$ 6.898 (1980) a R$ 5. seu PIB ultrapassou em 1997 o limiar dos R$ 211 bilhões.

1554 – 1998 Sistema regional de produção * subsistência * saques Trabalho Relações de concorrência * posição periférica na colônia portuguesa * dominância do capital cafeeiro orientado para o exterior * mercado local Estado ampliado regional * Bandeirantes * estamentos Estado ampliado local * Bandeirantes 1554 – 1850 cidade pré-capitalista 1850 – 1914 da capital do café à cidade industrial * trabalho para fins de sobrevivência * expedições para saques * escravismo * germes de um sistema * transição para o trabalho de produção local assalariado.87 Tabela 19: Sinopse dos modos paulistanos de desenvolvimento. industrial orientado para a estado-nação e à cidade de nível regional nacionalmente estruturado economia doméstica São Paulo *empresas industriais * intensificação da * monopólios ou * acumulação produção oligopólios nacionalmente dominantemente intensiva determinantes * metrópole dos serviços (financeiros) * crise da indústria * elementos de acumulação intensiva e extensiva * mercado de trabalho competitivo com germes de um corporativismo local * dominância do capital internacional e do capital financeiro * abertura para o mercado mundial e centralização desconcentrada * democratização do Estado regional * des.e recentralização * alianças locais para o crescimento * embelezamento da cidade * ampliação da infraestrutura * controle da classe operária * municipalização da infraestrutura * aliança para o crescimento * hierarquização do espaço urbano * democratização do Estado local * modelo liberal de Estado a partir de 1974 A metrópole necessita de uma região mundial Fonte: adaptação do autor 87 . baseado na * plantação cafeeira imigração * início da acumulação * reduzidas inovações no dominantemente extensiva processo de trabalho 1914 – 1974 centro econômico do Brasil * ”política dos governadores” * fomento da produção de café * política regional de localização * complementação da * mercado de trabalho * dominância do capital * subordinação política ao estrutura produtiva em corporativista.

Uma parte da floresta subtropical úmida era derrubada e preparada para a agricultura mediante queimada. 1992: 13)1. conseqüentemente. a pequena colônia jesuítica de São Paulo ficaram em larga escala isoladas durante muitos séculos. Cada pessoa ou família precisava cuidar da produção dos seus alimentos. 3.1 São Paulo pré-capitalista (1554 -1850) A costa de São Paulo formou a fronteira sul da colonização portuguesa. localidades centrais e regiões vicinais Fonte: Novy 1997b: 261. partindo da cidade portuária de São Vicente. A economia de subsistência.3. e viviam. Os colonizadores portugueses agarraram-se ”como caranguejos à costa” (PMSP et al.000 (Henshall.1 História dos campos regionais do poder Gráfico 8: Estado de São Paulo. em nível de subsistência.000 cristãos. Em 1600 havia 6. Na região de São Paulo. XVII. Mas já em 1554 ocorreram as primeiras fundações de localidades no hinterland da Capitania de São Vicente. o cultivo da cana-de-açúcar não era nem aproximadamente tão produtivo como no Nordeste do país. pois o espaço de entrelaçamento transatlântico privilegiou a colonização da costa. baseava-se na pecuária e na agricultura. . que seguia o modo indígena de produção. que se concentrou ao redor da região equatorial do Nordeste. As cinzas serviam como húmus para o cultivo de um grande número de frutas e hortaliças. Depois de exaurido o 1 2 Cf.1. os extensos e interessantes relatos de viagem de Lévi-Strauss (1996: 80 e 102 ss. Momsen 1974: 40). pois a agricultura só podia ser desenvolvida com dificuldade na costa íngreme.). o caminho era penoso: precisava-se vencer a serra íngreme para chegar à planície ondulada a 750 m acima do nível do mar. 3 Habitantes da cidade de São Paulo. cinqüenta anos mais tarde 12. Habitantes do Estado de São Paulo. com exceção da exportação de trigo no séc.Os primeiros paulistas2 e paulistanos3 produziam seus próprios objetos de uso. Embora a capitania distasse apenas 70 km do porto. Por isso a região e.

). As expedições de saque eram facilitadas por uma densa rede fluvial cujas águas fluíam para o Norte. Havia um conselho municipal. o que levou a progressiva colonização do interior do Brasil. O fechamento das reduções indígenas em 1767. Os homens respondiam pelas expedições de saque para o hinterland. Quão retirados viviam os paulistas. Depois da proclamação da monarquia. Mas embora os portugueses se mesclassem séculos a fio com os aborígines. ‘isto he’ – explica Casal – ‘de terra’ e ‘branqueada com tabatinga’. “Portanto. imprimindo-lhe traços profundos de sua ação criadora. nas quais objetivos missionários e estratégias racionais de colonização no longo prazo estavam acima da busca do lucro no curto prazo. Havia uma clara divisão do trabalho fundada no gênero. por exemplo. as assim chamadas reduções. Entre 1777 e 1819 São Paulo era a quarta maior cidade do Brasil. Alguns grupos mantinham também animais domésticos. Pouco a pouco a vila se transformou em cidade. Ao lado da subsistência os paulistas viviam da economia baseada em expecições de saques. abriu aos bandeirantes grandes áreas novas para as suas expedições saqueadoras e criou assim a primeira riqueza em São Paulo (PMSP et al. Egler 1992: 60). Em 1560 São Paulo foi elevada oficialmente à categoria de vila. as mulheres pela agricultura de subsistência. XVIII a população cresceu de 2. evidencia-se. 244). Muitas delas trabalhavam como vendedoras de rua. deveram sua existência indiretamente ao êxito da economia açucareira” (Furtado 1975: 42).000. Ao lado da agricultura os moradores asseguravam a sua subsistência por meio da caça.). pois estes tinham criado no vizinho Paraguai grandes missões. na sua maioria índios (PMSP et al 1992: 16). a região só estava inserida fracamente em processos supraregionais (Fernandes 1987: 119). feita em São Paulo. Um segundo elemento importante de uma sociedade urbano-burguesa em vias de formação foram a partir de meados do século os primeiros jornais. no fato de que a linguagem do cotidiano era o tupi. análogo ao sistema administrativo de Portugal . elas ocupavam uma posição especial. A partir de 1674 a descoberta de ouro em Minas Gerais deu início ao próximo surto de desenvolvimento. 1992: 38). Denominava-se bandeirantes os grupos organizados que avançavam rumo ao interior para capturar mãode-obra indígena. portanto. na direção do interior (Becker. 40% das moradoras eram mulheres que viviam sozinhas. em 1822. a língua portuguesa acabou por prevalecer (Holanda 1989: 96). Foi fundada em São Paulo em 1827 a Academia de Direito no Largo de São Francisco (PMSP et al. os jesuítas. nas quais a perfeição humana efetivamente foi atingida” (Foucault 1994: 19). 89 . ocorreu uma modernização político-cultural. Uma vez enriquecidos. ”O Paulista. a de São Paulo ainda mais tarde. assumissem os seus costumes e criassem uma cultura mestiça.4 Assim as missões localizadas na fronteira com a América Espanhola cedo se viram ameaçadas pelo lado dos paulistas e pelo lado argentino. por conseguinte. Surgiram ainda teatros e diversas associações. São Paulo servia-lhes de base para as suas ações. a casa que ligou a essa paisagem não foi a grande e estável. iniciando-se um processo de valorização do solo urbano que expulsou do centro as mulheres pobres que outrora tinham definido o perfil da cidade (Dias 1995: 242). não em último lugar. mesmo aquelas comunidades que aparentemente tiveram um desenvolvimento autônomo nessa etapa da colonização. o mucambo quase de negro. A urbanização do Brasil começou muito tardiamente. não o português (Holanda 1989: 88 ss. no séc. mas a palhoça quase de caboclo. Os sacerdotes ou funcionários da administração vindos de fora muitas vezes se viam obrigados a recorrer a um intérprete para comunicar-se com os moradores do lugar. foram construídos os primeiros canais. 1992: 38). obtido mediante pressão maciça de muitos lados. É evidente que os paulistas se envolveram em pesados conflitos com os seus pais-fundadores. da pesca e da coleta de frutas. época de relativa sedentariedade para aqueles nômades se europeizaria na habitação urbana de taipa. Essa rede fluvial desempenhou um papel decisivo na integração do hinterland (Furtado 1975: 41 s. Como São Paulo não podia prestar uma contribuição à economia mercantil de Portugal. Estavam também em contato permanente com os escravos e se integravam. saquear e capturar escravos fugidos. de forma especial na cultura indígena.500 para 8. absolutamente disciplinadas. Pela sua presença física constante na economia local. sobretudo urbana.89 solo. No decorrer do séc.” (Freyre 1951<1936>: 158). Mas os paulistas se especializaram cedo na captura de escravos indígenas que eram vendidos às plantações açucareiras do Nordeste. XIX ela perdeu essa posição com a ascensão de Belém (Morse 1971: 5a). Ainda na época da Independência. esses bandeirantes muitas vezes não retornavam mais a São Paulo. de pedra e cal. o casebre quase de cigano. desmatava-se um novo pedaço e o velho campo podia recompor-se. 1992: 26 s. Com a economia mineradora em Minas Gerais a inserção de São Paulo na economia colonial sofreu uma 4 Eram ”colônias excelentes. que exigiam melhorias da infraestrutura urbana (PMSP et al. pois Portugal sempre tentara impedir o surgimento de uma sociedade urbano-burguesa independente e. figura que dramatizou como nenhuma a paisagem sertaneja dos primeiros dois séculos de colonização. potencialmente oposicionista. que só nos fins do século XVIII. A disciplina substituía a escravidão. Isso ocorreu com atraso. ganhando assim pela primeira vez importância como colônia. fontes públicas e calçadas.).inicialmente para 80 moradores. mas o sistema de abastecimento local transformou-se radicalmente com a introdução do transporte ferroviário (Dias 1995: 30.

Essa população relativamente numerosa encontrará espaço para expandir-se dentro de um regime de subsistência e virá a constituir um dos principais núcleos demográficos do país. 1988: 11) 90 . A economia cafeeira partiu no séc. pois o sistema das sesmarias tinha entrado em colapso. como no da economia pecuária do Nordeste. Através do Vale do Paraíba o café começou a expandir-se no séc.90 transformação. vendendo ou transferindo essas terras aos produtores . no caso brasileiro. Das vinte ferrovias de São Paulo. condicionados pela especulação (Negri et.2 milhões de sacas por ano na década de 1890 (Silva 1986: 43). a acumulação se deu de forma espacialmente extensiva: ”diante deles a terra virgem. uma de propriedade do capital estrangeiro e as dezesseis restantes de propriedade do empresariado nacional (Cano 1998a: 63). novo produto de exportação. A perda maior foi para aqueles que haviam invertido grandes capitais em escravos e viam a rentabilidade destes baixar dia a dia. ”Localizada a grande distância do litoral. Por volta do fim do século o mercado fundiário experimentou um surto. No curso das vertiginosas ampliações da produção foram ocupadas regiões sempre novas. assim. involuiu numa massa de população totalmente desarticulada.na mineração a rentabilidade tendia a zero e a desagregação das empresas produtivas era total.). al. Desde o fim do séc. A tropa de mulas constitui autêntica infra-estrutura de todo o sistema. a necessidade de vencer grandes caminhadas em região montanhosa para alcançar os locais de trabalho. decaindo os núcleos urbanos e dispersandose grande parte de seus elementos numa economia de subsistência. XIX. depois de café.6 milhões de sacas na década de 1860 e a 7. um grande mercado para animais de carga” (Furtado 1975: 76 s. Os animais de carga eram criados no Sul. não eram proprietários de direito.responsável pela venda de ”terras devolutas” . Quando o espaço e o poder se reestruturaram no séc. XVIII ocorreu na região oeste em São Paulo também o cultivo crescente da cana de açúcar.duas premissas centrais da produção organizada . a 2. As terras eram simplesmente ocupadas e utilizadas para a produção. O Estado institucionalizou o mercado fundiário em São Paulo. essas terras eram consideradas propriedade do Estado. O café. a mão-de-obra e as mulas . Nessa região espacialmente restrita surgiu o capitalismo brasileiro moderno. Essa produção organizada tornava necessária a maior utilização de mão-de-obra. Muito pelo contrário. A quase inexistência de abastecimento local de alimentos. Neste caso. Como os índios e os pequenos agricultores não dispunham de títulos de propriedade.). Em parte essas pessoas vieram da produção de subsistência.inicialmente de cana de açúcar. O sistema se descapitalizava lentamente. a primeira fase da expansão cafeeira se realiza com base num aproveitamento de recursos preexistentes e subutilizados” (Furtado 1975: 114). A produção cafeeira do Brasil aumentou de 0. dispersa e em região montanhosa.com base no novo Lei de Terras. a grande distância por terra que deviam percorrer todas as mercadorias importadas. tudo contribuía para que o sistema de transporte desempenhasse um papel básico no funcionamento da economia. Muitos dos antigos empresários transformavam-se em simples faiscadores e com o tempo revertiam à simples economia de subsistência. mas a importação de escravos também foi aumentada. uma de propriedade estadual. Egler 1992: 33).existiam em quantidade suficiente. a população mineira dependia para tudo de um complexo sistema de transporte. XVIII do Rio de Janeiro. mas em Santos. ocorrendo um aumento maciço dos preços da terra.3 milhões de sacas por ano. no interior (Becker. Para o transporte dessa colheita de café a ferrovia foi concluída em 1867 a ferrovia de Santos para Jundiaí. na década de 1820.Uns poucos decênios foi o suficiente para que se desarticulasse toda a economia da mineração. Criou-se. e em que a mão-de-obra fora um fator extremamente escasso. reunidos em São Paulo e vendidos aos comerciantes da região mineira. mas guardava a sua estrutura.do gigantesco hinterland brasileiro. uma região cujo povoamento se fizera dentro de um sistema de alta produtividade. Na década de 1880 a produção paulista começou a superar a fluminense (Silva 1986: 43). “Dessa forma. Estes se desvencilharam dos moradores dessas regiões em lutas freqüentemente sangrentas (Silva 1986: 64). o café produzido nessa zona não era mais embarcado no porto do Rio de Janeiro. Depois de 1850 o Estado era . trabalhando com baixíssima produtividade numa agricultura de subsistência” (Furtado 1975: 85 s. atrás deles os campos exauridos” (Lévi-Strauss 1996: 84 s. o porto de São Paulo.). A população escrava aumentou na região entre 1813 e 1836 com o dobro da rapidez do aumento da população livre (Smith 1990: 294). A produção local atingiu seu ápice entre 1836/37 e 1846/47. espalhados por uma vasta região em que eram difíceis as comunidades e isolando-se os pequenos grupos uns dos outros. Dessa forma. duas eram em 1910 de propriedade da União. ”A existência do regime de trabalho escravo impediu.). Quando as principais regiões produtoras finalmente atingiram o noroeste do Estado de São Paulo. Ao contrário do que ocorria no caso da economia açucareira . a expansão democráfica se prolongará num processo de atrofiamento da economia monetária. Os campos que não mais podiam ser utilizados para o cultivo do café serviram crescentemente à plantação de gêneros alimentícios (Cano 1998a: 73 s.que defendia até certo ponto sua rentabilidade conservando uma produção relativamente elevada . XIX cada vez mais profundamente no Estado de São Paulo. levou a uma nova inserção da região na economia mundial. que o colapso da produção de ouro criasse fricções sociais de maior vulto.

baseada no grande excedente a ser gerado nelas. De decisiva importância para a conquista da posição de supremacia nacional foi.5% das empresas industriais ocuparam em 1919 64. o crescimento foi atingido mediante a inclusão de novos grupos populacionais. A unidade produtiva central do regime de acumulação orientado para o exterior foi a plantação de café.2 trabalhadores por empresa (Herrlein. A ferrovia revolucionou o uso do espaço. De acordo com critérios como nível salarial. Quando por volta do fim do século . Dias 1996: 146). sobretudo no Oeste dinâmico de São Paulo. O capital cafeeiro economicamente poderoso buscava vias para adquirir também o controle da regulação política das suas atividades econômicas. tornaram-se centros nos quais se comercializava tanto café quanto as mercadorias importadas (Aguerre 1995: 109). Em 1910 7 dos 14 bancos de São Paulo eram de propriedade estrangeira. O crescimento vertiginoso da população na virada do século andou de mãos dadas com a formação de uma estrutura econômica local independente. o que favoreceu a acumulação (Cano 1998a: 131). sobretudo pela demanda do mercado mundial pelo café. mas aumentou até 1940 para 18. organização e direção da produção. substituía os intermediários e estava bem desenvolvido no plano local. Em 1920. As técnicas de produção. reduziu os tempos de transporte. A proximidade da capital do país constituía. Seu pressuposto foi a consolidação da rede ferroviária e fluvial.000 (PMSP et al. Por ocasião do primeiro censo da população em 1872 foram contados 32. O governo central estava submetido a interesses demasiadamente heterogêneos para responder com a necessária prontidão e eficiência aos chamados dos interesses locais” (Furtado 1975. Essas maciças transformações demográficas só foram possíveis com base na formação de um regime antes inexistente de acumulação dominantemente extensiva e de uma regulação estabilizadora. 3. a transformações fundamentais (Fernandes 1987: 87).forçado por 91 .91 3.1914) A economia cafeeira dinamizou a formação de cidades e assentamentos que serviam de ponto de partida para o avanço posterior em direção ao Oeste. Os cafeicultores foram sócios das primeiras fábricas. possibilitado pela expansão da rede ferroviária. contatos oficiais.000 (Negri et al. o sistema bancário. Uma fração de capital crescentemente dominante em escala nacional constituiu-se ao redor das plantações. Isso providenciou. a parcela da população da cidade de São Paulo no total de habitantes do estado era baixa com 12. As cidades. os barões do café diversificaram cedo os seus negócios (cf. em ramos como a produção de cimento. industriais e comerciantes (Cano 1998b: 49). produtividade e intensidade do capital. que a indústria paulistana atingiu uma diversificação e integração locais como nenhuma outra região: já nos anos 20 investia-se em São Paulo. As novas máquinas permitiram uma ecomomia aproximada de 10% do preço final (Cano 1998a: 42 ss. Imigrantes proprietários de grandes capitais . Desde cedo eles compreenderam a enorme importância que podia ter o governo como instrumento de ação econômica. evidentemente. além do setor da indústria de bens de consumo. ao proclamar-se a República. Em 1929 já existiam 245 municípios (Bizelli 1995: 38 s. ”A nova classe formou-se numa luta que se estende em uma frente ampla: aquisição de terras. essa camada dirigente também desempenhava papéis centrais na política. Fernandes 1987: 104-113). do sistema bancário e do comércio.1. determinadas em larga escala por máquinas importadas. Mas esse impulso induzido pelo mercado mundial conduziu também internamente.4% dos trabalhadores com uma dimensão média de 368. 115 s. no mercado interno. O horizonte temporal da valorização do capital era de longo prazo. À diferença dos latifundiários em outras regiões do país. de um sistema regional de produção. 1990: 33: Seade 1993: 30). comercialização nos portos. O capital cafeeiro desenvolveu uma dinâmica que não o limitava apenas à geração de mais-valia na produção cafeeira. Os capitais comercial e financeiro influiram muito nesse processo produtivo.000 paulistanos. o fundamento da urbanização. controlado pelo capital internacional. mudaram lentamente. latifundiários. transporte interno.6%. Esse número aumentou em 1890 para 65. Ao lado das suas funções econômicas. A produção era espacialmente extensiva. A estrutura empresarial foi desde o princípio ainda mais concentrada do que nas outras regiões. diminuiu os custos de produção na razão de 20% do preço de exportação e reduziu os rejeitos por meio de um armazenamento mais breve.5% (Rolnik et al. ademais. a indústria paulistana inicialmente não foi excelente.). Em 1907 a participação de São Paulo na produção industrial nacional cifrou-se em 16%. 1992: 45) e em 1920 para 580. banqueiros. em 1919 em 32% e em 1939 em 41% (Negri et al.). à frente de todas elas São Paulo. mas São Paulo e sobretudo a importante indústria de gêneros alimentícios lideravam no tocante à concentração do capital e às margens de lucro. que inicialmente ganhavam a vida no comércio importador. recrutamento de mão-de-obra. Essa dinâmica foi deslanchada por fatores externos. detinham 70% dos ativos e concediam 70% dos créditos (Cano 1998a: 85). interferência na política financeira e econômica. Ele investia no sistema ferroviário e de comunicações e financiava o comércio exterior (Pereira 1996: 230).). 1988: 6). uma grande vantagem para os dirigentes da economia cafeeira. Essa tendência à subordinação do instrumento político aos interesses de um grupo econômico alcançará sua plenitude com a conquista da autonomia estadual. O regime de acumulação foi extensivo. destruiu a antiga infraestrutura de transportes.). 1988: 7).2 Da capital do café à cidade industrial (1850 . associaram-se à camada dirigente tradicional. o processamento de metais e aparelhos elétricos (Almeida 1996: 137 s.

com exceção do Rio Grande do Sul.). O estado paulista procurou incentivar a acumulação local por meio do fomento da imigração.14 94.Ligados ao consumo . A participação da arrecadação tributária encolheu correspondentemente (Carvalho 1996: 205). a estrutura da arrecadação deslocou-se também em São Paulo cada vez mais da arrecadação tributária na direção de receitas de empresas transferidas para o patrimônio público estadual (ferrovias.10 20.17 33. Sobretudo os impostos de exportação caíram de 71% (1893). Mais tarde do que no Rio Grande do Sul. A 1ª Guerra Mundial jogou a estratégia de desenvolvimento orientada para o exterior em uma séria crise e deu um impulso adicional aos esforços locais de produção.73 48. Começou a industrialização substituidora de importações.59 34. sobre o patrimônio bem como sobre o capital e as rendas aumentaram nesse período de 20 a 34% (cf.13 34.Ligados às exportações .16 19.06 44. Isso significou sobretudo para os estados em boas condições financeiras um fortalecimento econômico e a possibilidade de um desenvolvimento local independente. esse foi também um sistema que permitiu estabilizar o poder político da oligarquia agrária. Porém a industrialização substituidora de importações5 não reduziu a dependência de importações. onde o imposto territorial cedo cumpriu uma função central.85 97.sobre o capital e rendimentos Subtotal 5 Tavares (1983: 38-41) restringe o conceito da substituição de importações ao período depois de 1930.00 1.87 1. em números redondos. no entanto.000 japoneses concentraram se como agricultores independentes no cultivo de plantas não-cafeeiras.93 97. 1893 – 1929 1893 1905 1914 1923 1929 77. da regulação do mercado fundiário e da estabilização do mercado de café.92 elevadas taxas alfandegárias e pela protecionista Lei dos Similares (Cano 1998a: 164) .34 70.91 10. No processamento de metais os bens de produção perfaziam em 1919 34% da produção global paulistana.passou a ser uma alternativa rentável (Silva 1986: 99 ss. mais precisamente como regime extensivo que introduziu princípios capitalistas em setores outrora não-capitalistas. Os outros se viram obrigados a subordinar-se às estratégias de Minas Gerais e São Paulo.54 45. canais). para 48% (1929).44 IMPOSTOS INDIRETOS .96 8. foi possível impor os interesses paulistanos. mas alterou apenas a estrutura das mesmas. 92 . A partir da virada do século foram importados crescentemente bens de produção (Cano 1998a: 66-75). A homogeneidade do capital e a hegemonia regional do capital cafeeiro facilitou também uma atuação unitária do Estado.sobre a propriedade . Tabela 20: Participação percentual das categorias Impostos Indiretos e Impostos Diretos e de seus subgrupos no total da Receita dos Impostos do Estado de São Paulo. à frente de todos o Estado de Minas Gerais. sempre deficitários. 6 Como. a de arroz a 689 e a de café apenas a 192.6 O endividamento de São Paulo respondia por mais da metade da dívida externa de todas as unidades federativas do Brasil (Carvalho 1996: 191: Cano 1998a: 94).01 16.22 23. Depois do fim do Império o Partido Republicano de São Paulo detinha no plano estadual em larga escala um monopólio de representação.22 1. Juntamente com os partidos republicanos dos outros grandes estados.90 25.09 7.60 89. os orçamentos estaduais da República Velha foram. 85.74 5.15 5. Impostos diretos.567 58.02 0. razão pela qual a participação de São Paulo na arrecadação tributária de todos os estados subiu de 29% (1901-1910) a 36% (1921-30).26 0.36 64. No âmbito dos impostos reduziu-se a dominância dos impostos indiretos.00 5.os preços de importação aumentaram. São Paulo beneficiou-se especialmente da descentralização da arrecadação dos impostos sobre a exportação (7% do valor da exportação).industrial e de gêneros alimentícios .92 75. quando o capital industrial adquiriu um peso decisivo. Esse valor subiu até 1928 a 38% e quase duplicou nos anos 30 (Cano 1998a: 207). sobretudo os referentes ao café.24 69. água.69 92. De 1901/06 a 1925/30 a produção média de açúcar subiu do valor-índice de 100 a 328.66 4. Não tardou que a dinâmica da acumulação conduzisse também no setor dos bens de produção a processos de substituição.01 21.77 68. A produção agrícola em vias de diversificação reduziu a demanda de importação de gêneros alimentícios. Tais receitas industriais perfaziam em 1893 1% de todas as receitas e 22% em 1929. que agora era canalizada diretamente para o erário estadual. A estrutura da arrecadação tributária favorecia as regiões orientadas para a exportação. a produção local . Em todos os estados.99 20.25 0. com exceção de seis anos. sobretudo os aprox.35 10. o imposto sobre exportações estava sujeito a oscilações maciças. Tabela 20). embora isso fosse mais difícil do que nos bens de consumo. devido às exigências de tamanho e da tecnologia mais complexa. Isso exigiu um Estado crescentemente ativo. isto é.Outros Impostos Indiretos IMPOSTOS DIRETOS .47 9. a de feijão a 331.

00 As receitas tributárias serviam sobretudo à política para fortalecer a localização. a Ford. industriais e residenciais. Uma transformação duradoura desse período caracterizado por uma grande autonomia do município foi o surgimento de um sistema administrativo municipal (PMSP et al. Muito pelo contrário. devido à deficiente infraestrutura de transportes. embora ocorresse. Nesse setor os gastos aumentaram em 10% ao ano. ao fomento do desenvolvimento econômico. Por isso o âmbito das tarefas do Estado pôde ser estendida relativamente cedo a outras atividades. historicamente surgida. Demais.31 100. isto é. a Nestlé e a Kodak começaram a fundar filiais em São Paulo (Cano 1997: 245). a GM.00 7. A economia do café manteve a economia paulista orientada para o exterior. que trabalhavam com tecnologias mais complexas. o capital estatal era aqui menos necessário do que em outros estados da federação. seus excedentes foram transferidos para a economia local. como a Rhodia.). a integração nacional dos mercados existia apenas germinalmente. o crescimento vertiginoso se deu de forma desordenada e conduziu a uma mistura de bairros comerciais. De início. Mas em uma sociedade de trabalhadores assalariados livres o desejo de segregação espacial aumentou nitidamente por parte da burguesia. química. mas levava a investimentos em atividades produtivas (Furtado 1975: 123).). também fomentava a formação de monopólios regionais (Cano 1998a: 215 s.40 100. Com base nos argumentos dos urbanistas. O conflito central da época dizia respeito ao uso da terra na cidade. Novy 1994: 206-208). a Unilever. Apesar disso o significado dos investimentos na infraestrutura social diminuiu continuamente nos anos subseqüentes. a Pirelli. Linhas de bondes. Mas com a crise depois de 1929 essa situação se reverteu em pouco tempo. O conflito urbano transformou-se essencialmente em um conflito sobre o modo de uso privado e público da cidade e a forma da intervenção do planejamento do Estado no nível local. 93 . Os primeiros prefeitos ocuparam-se mais em embelezar e europeizar São Paulo do que em encontrar uma resposta ao crescimento rápido.00 2. chamava-se a atenção à situação sanitária e higiênica deficiente nos cortiços dos bairros operários e lamentava-se a corrupção dos costumes nesses bairros ”perigosos”. Santos e Campinas.86 100. os gastos estavam concentrados fortemente no setor de canalização.93 Outros tributos Receita dos Impostos Fonte: Carvalho 1996: 206 2. O cultivo de plantas para gêneros alimentícios e a produção industrial serviram ao fornecimento para o mercado local.07 100. Em uma economia escravista.56 100. Ficou sendo mais atraente para os importadores produzir ao invés de importar. a Philips.). não obstante.2 milhões de pessoas e a infraestrutura social. alamedas. A economia cafeeira exigia investimentos que só produziam resultados depois de alguns anos. assim sobretudo a rede elétrica local construída por uma empresa multinacional constituiu uma vantagem concorrencial para a indústria paulistana (Cano 1998a: 206 e 221 s. mas também mercados abertos surgiram nas primeiras décadas do séc. a Firestone. A balança comercial de São Paulo com o exterior foi nitidamente positiva. em comparação com os investimentos no transporte ferroviário e marítimo (Pereira 1996: 238). Já nos anos 20 empresas internacionais modernas.). A camada superior buscava uma hierarquização do espaço com uma clara estrutura local de centro e periferia. a GE. sobretudo das cidades de São Paulo. Celso Furtado explica a ascensão de São Paulo à posição de metrópole nacional a partir da formação de um mercado local que no caso concreto não se baseava apenas no consumo de luxo da camada superior. De início. pois elas não estavam em condições de acompanhar as reduções de preços típicas para a acumulação intensiva (Cano 1998a: 231). tais como o fomento da imigração de 1. de modo que São Paulo gerou superávits inequívocos no comércio interno (Cano 1998a: 129). a construção das primeiras pequenas siderúrgicas e fábricas de cimento (Mello 1998: 176 s. 11 das 79 maiores empresas eram controladas por grupos estrangeiros e detinham 17% do capital (Cano 1998a: 241). XX. mecânica e materiais de transporte a indústria de São Paulo concentrava mais de 50% do valor agregado (Cano 1998a: 258).00 5.00 10. Somente a indústria produtora de bens de capital não conseguiu acompanhar essa expansão. a presença de escravos era insubstituível para a qualidade de vida da camada superior. a concentração patrimonial. a segregação das classes sociais não carecia de expressão espacial. em números redondos (Pereira 1996: 217 s. Mas em virtude do grande crescimento foram feitos mesmo assim investimentos na infraestrutura produtiva. o que estabilizava todo o sistema em virtude do longo prazo dos compromissos assumidos pelos sujeitos econômicos. Como o capital privado investia em projetos estratégicos de infraestrutura para a economia. a com o Brasil restante negativa (Cano 1998a: 94). No âmbito estadual o processo de eliminação de pequenas empresas do mercado já começou cedo. os produtos foram comercializados crescentemente também no mercado nacional. Depois da concorrência estrangeira desaparecer na esteira de 1929. 1992: 46-50). Em setores tão importantes como materiais elétricos. A classe trabalhadora foi expulsa dos bairros próximos ao centro e recebeu espaço habitacional na periferia da cidade (cf.

Assumiram uma cultura política baseada em privilégios.1% a 25. A economia cafeeira baseava-se em grandes plantações e exigia. eles se adaptaram politicamente ao status quo. sendo 577 mil provenientes da Itália” (Furtado 1975: 128. Aqui o emprego crescente de mulheres desempenhou um papel importante no achatamento do nível salarial global. nos anos setenta.4%. conseqüentemente. que ocorreram na esteira de perdas salariais maciças (Herrlein. os custos salariais no Rio Grande do Sul eram 10. 3. por conseguinte. O total para o último quartel do século foi de 803 mil.1974) A região constituiu-se crescentemente como espaço integrado de poder dotado de identidade própria. cf.7%. uma boa parte dos imigrantes estava interessada na ascensão social. O índice de participação das mulheres foi elevado. Dias 1996: 151). seu nível salarial era menos claramente inferior ao dos homens do que em outros estados (Cano 1998a: 142). XIX a imigração de não-africanos.3 A capital econômica do Brasil (1914 . Dias 1996: 163). Em 1901 estimava-se que 90% dos trabalhadores do Estado de São Paulo eram estrangeiros (Silva 1986: 38 e 92). além disso. Os conflitos sociais urbanos puderam acirrar-se a tal ponto porque as estruturas desiguais e arcaicas no interior fomentavam o êxodo rural. aumentando a migração interna. XIX praticamente não se plantava café. Na costa a participação dos escravos na população total caiu. Seu centro era indubitavelmente a cidade de São Paulo. Como transformavam conscientemente trabalho em dinheiro. uma produção organizada. no período de 1836 a 1886.5% da população não tinha emprego fixo em 1919 um índice quase duas vezes tão grande quanto o do Rio Grande do Sul (Herrlein. nas quais no início do séc. impediam aumentos salariais. no Leste e no Vale do Paraíba de 31. posteriormente pelo governo estadual. Targa 1996a: 69). Mas os trabalhadores não se defendiam apenas contra as más condições de trabalho. O processo de urbanização aumentou genericamente a possibilidade do trabalho informal e criou um espaço social aproveitado sobretudo pelas mulheres para a sua economia cotidiana e para o comércio nas ruas (Dias 1995: 19). tentaram também salvar os seus bairros residenciais da ameaça de demolição. a participação dos escravos aumentou entre 1836 e 1886 em virtude da grande demanda de mão-de-obra de 4. O ponto culminante dos conflitos sociais foram as greves de 1917 e 1918. mas pelo acúmulo de um pequeno patrimônio. Em 1920 20% de mulheres trabalhavam como autônomas (Aguerre 1995: 109). Seu estilo de vida. independente do Estado.94 A constituição de um mercado de trabalho se fez acompanhar da formação de um mercado fundiário. Mas essa transição ocorreu mais cedo nas antigas áreas de cultivo do que nas regiões dinâmicas. Serviu de estágio prévio da formação de um mercado de trabalho o fomento da imigração ”que tornaria possível a expansão da produção cafeeira no Estado de São Paulo. O movimento sindicalista de orientação anarquista. 94 .1. de início executada por escravos. A rígida Lei de Terras e a concentração da propriedade das terras impediram o surgimento de uma agricultura minifundiária. Sobretudo os italianos encontraram trabalho na indústria e agricultura de São Paulo (Novy 1994: 167). o emprego de mão-de-obra estrangeira tornou-se mais difícil. A partir de meados do séc. Eram estrangeiros e por conseguinte não se interessavam por terras. O número de imigrantes europeus que entram nesse Estado sobe de 13 mil.). Ao invés de introduzir novas tecnologias e aumentar a mais-valia relativa com o contingente disponível de mão-de-obra por meio da intensificação da produção. para 184 mil no decênio seguinte e 609 mil no último decênio do século. assumiram um papel de arautos dos processos de modernização e capitalização. crescentemente orientado segundo o dinheiro. Por isso 15. Dias 1996: 156). a acumulação foi assegurada mediante a extensão da produção com um maior número de assalariados e. Com a lei dos ”dois terços” que previa que dois terços dos funcionários devessem ser brasileiros. Perseguindo uma estratégia de preservação inercial do poder. A transformação econômica e a constância política evoluíram de mãos dadas (Fernandes 1987: 125-146). com um aumento da mais-valia absoluta. organizava os trabalhadores. Diferentemente dos barões do café fixados no status. Isso relativiza a afirmação freqüente de que São Paulo tenha sido o motor da transição para o trabalho livre assalariado. A produção em vias de expansão exigia o aproveitamento pragmático de toda e qualquer forma possível de produção (Cano 1998a: 51). possibilitou a lenta e controlada transição ao trabalho assalariado ”livre”. tinha características de ‘consumo conspícuo’ e convidava à imitação de costumes europeus.3% (Herrlein. São Paulo tornou-se uma ”região para si” (Lipietz 1998: 157 ss.8% (Targa 1996a: 71).6% a 2. Apesar desse papel sócio-culturalmente progressista.5% para 39. A ameaça do fim da escravatura fez explodir a imigração européia.8% (Herrlein 1996: 158). de 15. Em São Paulo. subsidiada pelo governo central. os barões do café só tomaram o trem do trabalho assalariado ”progressista” quando não lhes restou mais outra opção. Isso mostra que a dinâmica regional estava na acumulação extensiva. em 1919 essa fração ainda foi de 54. Nas áreas de expansão no Oeste e Norte. sobretudo nas grandes empresas.1% mais elevados (Herrlein 1996: 155). chegando a 30. As práticas muito repressivas.

do fato da primeira fase de industrialização ter provocado uma concentração urbana. estagnando depois durante uma década. São Paulo assumiu também qualitativamente o papel de arauto.). isso não resultou na valorização do espaço de poder político. ocorrendo uma concentração do setor bancário em São Paulo. Nos anos 70 começou a inversão da polarização (Cano. a posição nacional e internacional da cidade esteve determinada nessa fase de desenvolvimento orientada para o mercado interno essencialmente pela sua posição no âmbito do estado-nação.entrementes também propagada no âmbito da camada superior paulistana (Ianni 1995: 20 ss.208 estavam localizadas em São Paulo (Correa 1995: 237 s. a rede rodoviária regional abrangia em 1946 6 e em 1968 9. 50% dos quais devidos à afluência de habitantes de outros lugares.069 (60%) já tinham em 1978 a sua sede na Região Metropolitana de São Paulo. Para o desenvolvimento de um centro nacional e internacional os serviços prestados aos produtores se revestiam de um interesse especial.) 95 . que superava a das oligarquias cafeeiras.95 Os processos de urbanização e industrialização avançaram vertiginosamente. a participação da população urbana na capital do total da população do estado subira continuamente de 18. com uma queda de mais de 16 para menos de 6%. sendo que esse processo foi especialmente doloroso depois de 1930 para o Nordeste já incipientemente industrializado. implementando melhorias na estrutura produtiva na direção de processos de produção tecnologicamente mais complexos. De 1919 a 1970 o Estado de São Paulo logrou aumentar a sua participação na produção industrial nacional de 32% a 58% (cf. os imóveis e a agroindústria foram os segmentos nos quais as empresas fora do Sudeste se alinhavam entre as maiores empresas nacionais (Cano 1998b: 245 ss. 9 Das 3. sendo que a maioria dos ramos centrais estavam localizados na Região Metropolitana de São Paulo. surgiu um pensamento modernizador supraclassista cujo núcleo econômico era a industrialização . Não obstante.000 a 157. na qual eram utilizados métodos de produção crescentemente modernos. A distribuição regional do valor agregado na indústria de processamento mostra a concentração crescente das atividades econômicas em São Paulo. Quando São Paulo se tornou predominante na economia e o ponto nodal econômico do espaço de entrelaçamento econômico. O comércio. já havia em 1970 fora da Região Metropolitana de São Paulo 10 cidades que tinham mais de 100. 8 São Paulo reduziu a sua participação em bens de consumo não-duráveis de 62% (1939) a 37% (1970) e aumentou nesse mesmo período a sua participação nos bens intermediários de 26% a 34% e dos bens de consumo duráveis e dos bens de produção de 12% a 29% (Cano 1998b: 291). Com isso o capital industrial de São Paulo determinou a dinâmica da acumulação. Diniz 1995). Os governos federal e estadual 7 Um índice anual de crescimento de 5. Mas nas décadas seguintes a cidade assistiu a uma forte redução dos bancos autônomos. o Partido Republicano de São Paulo dominou o estado e juntamente com Minas Gerais a presidência da república. A dinâmica do regime local de acumulação resultou também em um desenvolvimento demográfico extremamente dinâmico. Mesmo no campo da sociedade civil se pôde observar um deslocamento para longe do Nordeste. Mas a aparente derrota de São Paulo inverteu-se logo mais em uma supremacia política indireta do capital industrial paulistano.000 habitantes (Caiado 1995: 47).267 quilômetros de estradas asfaltadas (Bizelli 1995: 40). Neto 1986: 181. O crescimento industrial conduziu a um aumento de determinados serviços.3%. Com seu desenvolvimento dinâmico por volta da virada do século São Paulo construíra o fundamento para assumir em um mercado nacional em vias de integração a posição-chave (Cano 1998b: 242).8 A estrutura nacional de produção se complementou. e para o Sul. 10 141 dos 512 bancos tinham a sua sede na capital brasileira de então. com uma queda de mais de 16 a pouco menos de 12%. A participação das maiores empresas nacionais era claramente menor em São Paulo.10 A evolução política do Brasil caracteriza-se por um divórcio do poder político e do poder econômico. entre elas todos os grandes bancos privados.070 filiais 6. por um lado. Neto 1986: 181). Corporificado na Universidade de São Paulo (USP). Das 15. sobretudo do comércio. São Paulo recuperou-se rapidamente da crise econômica mundial.000 (Aguerre 1995: 109). Além disso. XX a unidade central de produção passou a ser a empresa industrial. Durante a República Velha. O regime de acumulação dominantemente intensiva difundiu-se no Brasil a partir de São Paulo. O capital comercial estava subordinado. 1989: 25). No resto do estado estavam sediadas ainda outras 147 empresas (4%). embora permanecesse na periferia a mais importante fração de capital. o que tem a ver com a reduzida participação de empresas estatais (22 das 100 maiores) (Brant et al.443 empresas estrangeiras no Brasil 2. Foi por meio do poder econômico atribuído ao espaço propulsor do processo de industrialização que São Paulo começou a influir na política nacional no seu sentido e destruir a diversidade de outros modos de produção (Ianni 1995: 17). o número de assalariados na indústria de processamento aumentou de 1928 a 1937 de 100. Depois de 1930 esse acesso direto de São Paulo ao espaço de poder nacional desapareceu.7 Durante o séc.9 Em 1941 o Rio de Janeiro ainda era o centro bancário do Brasil.18% entre 1950 e 1960 significa que a população aumentou somente nos anos 50 em 65%. Essa posição regionalmente dominante derivou. 29 dos 90 bancos tinham em 1985 a sua sede em São Paulo. De1940 a 1970.5% a 33. Tabela A-15 e para 1919: Cano.).

Como a base eleitoral dos vereadores quase sempre era localmente restrita. junto ao prefeito para criar nesse bairro fiel uma escola ou creche ou construir um canal ou uma rua.). O capital paulistano diversificava-se em todo o país. a título de contrapartida. Uma vez eleito. XX. Em 1974 encerrou-se o ”milagre econômico brasileiro” e o campo nacional de poder sofreu uma erosão a partir do centro. A partir das iniciativas locais dos pobres surgiram fortes movimentos sociais como o movimento dos sem-terra ou o movimento em prol da saúde (cf. em todo o PIB regional os índices oscilaram desde então em torno da marca dos 37% (cf. A Câmara dos Vereadores assumiu um papel importante de introduzir os desejos da população no processo político. 1988: 66).1. a crise do desenvolvimento de São Paulo com vistas ao mercado interno também se fez sentir cedo. O clientelismo. A participação das mercadorias industriais nas exportações regionais de São Paulo aumentou continuamente na primeira metade do séc. A indústria de São Paulo não exportava para outras nações. Em 1960 essa tendência já se invertera: 84% das exportações . 3. apenas 15% se destinavam para os outros estados brasileiros. da indústria processadora de metais e da indústria de papel e celulose (Negri et al. Com numerosos grandes projetos em regiões periféricas. levando numerosas empresas à falência (Cano. Devido à redução dos custos de transporte e da elevada produtividade da indústria paulistana. esta última passou a destruir a indústria local dos outros estados no curso de uma integração interregional. E). Até 1964 foram articulados localmente os problemas sociais e a falta de instalações de infraestrutura por intermédio do processo político. o seu trabalho se concentrava em esforços de obter justamente no espaço geográfico da base o maior número possível de melhorias. Os interesses paulistanos defenderam a grande concepção de desenvolvimento regional para o Nordeste (Fernandes 1998: 194-196). Neto 1986: 179 s. Depois de 1964 formou-se no seio da igreja católica uma nova sociedade civil.ainda iam para o exterior.sobretudo o café . 1992: 72). Tabela A-14). O processo de acumulação concentrou no espaço mais estreito pessoas e mercadorias. Surpreendente foi a estagnação dos serviços financeiros em torno de 10% (cf. isto é. 96 . As comunidades eclesiais de base foram o lugar privilegiado da resistência contra a ditadura (Novy 1995: 31). 1998: 13). A integração nacional do Brasil se deu sob a supremacia econômica de São Paulo. a troca de votos por melhorias locais.96 apoiaram a modernização da infraestrutura de São Paulo. mas conquistou os outros mercados locais da própria nação. Em 1928 a Região Metropolitana de São Paulo ocupava o dobro de assalariados do restante do estado (Negri et al. A associação organizava o voto de um bairro em um candidato. Chegou-se a uma centralização do controle e da propriedade. cap. Novy 1994. De início os grupos locais dominantes do Nordeste não estavam interessados nessa integração subordinada na economia nacional. este se empenhava.iam para outras regiões do país e apenas 16% se destinavam para o exterior. A participação da agricultura e da pecuária aumentou fortemente na primeira metade dos anos 80 e acabou naquela época se fixando aos poucos em torno da marca dos 5%. a política regional brasileira criou um espaço national claramente hierarquizado.sobretudo produtos industriais . Essa estratégia endógena cedeu a partir dos anos 30 a uma estratégia direcionada para o mercado nacional. Entre 1900 e 1910 85% das exportações do Estado de São Paulo . Já nos anos 20 foi dado um passo importante na direção de uma estrutura industrial completa com a instalação da indústria química. No início do século a indústria de São Paulo orientava-se pelo mercado local. à homogeneização dos processos produtivos e com isso a um processo de valorização nacionalmente unitário. que tinha sido fundada em 1934 e era uma associação de profissionais liberais e da camada superior (PMSP et al. Um instrumento refinado de política clientelista foi a criação de SABs (Sociedades de Amigos do Bairros) que passou a atuar ao lado da Sociedade dos Amigos da Cidade. A fase da conquista de outros mercados locais foi seguida pela fase da conquista dos outros capitais locais. Mas como esse espaço era o centro da economia nacional. XX São Paulo se apresentava como uma cidade rica cuja riqueza se mostrava na sua ”enorme coleção de mercadorias” (Marx 1983: 49). as funções de controle concentravam-se crescentemente em São Paulo. A indústria de processamento caiu na razão de quase 7%.4 A metrópole necessita de uma região mundial (a partir de 1974) No fim do séc. Cano 1998b: 318. Enquanto o capital paulistano deslocava a sua produção para fora de São Paulo. A estrutura da produção regional alterou-se nitidamente a partir de 1980. foi o instrumento essencial para a distribuição de recursos públicos. Na indústria a participação de São Paulo na geração do valor agregado nacional se estabilizou a partir de 1987 em 42%. Tabela 21). No âmbito do estado a cidade de São Paulo assumiu a liderança inconteste na produção industrial. cujo centro econômico era São Paulo. que se tornou assim o centro de um sistema de produção crescentemente integrado no plano nacional. Sucediam-se prefeitos que investiam mais na infraestrutura física e outros que preferiam ampliar os serviços de natureza social.

36 1996 4.4%). a indústria mecânica. Em 1989 os dois maiores conglomerados eram estatais.80 10. Com isso o processo de concentração tinha avançado mais na indústria paulistana do que nos países industrializados. a indústria química e os materiais de transporte (Oliveira 1998a: 144). 1980-1996.).1% do faturamento e ocupavam quase 30% dos assalariados.689 maiores empresas paulistanas. à diferença das empresas privadas. O padrão não-unitário de produção regional era perfeitamente compatível com processos concentradores de poder econômico.11 O centro de poder da ecomomia paulistana era formado por grupos empresariais. Unicamp 1998: 10).60 59. Isso era compreensível nos mercados de produtos de alta tecnologia como computadores e a indústria de veículos automotores.60 43. 97 .1%) e da indústria moveleira (de 1. nos quais geravam 60% a 70% do seu faturamento: a indústria de gêneros alimentícios. tradicionalmente fabricados por produtores menores. mas embolsavam 40% dos lucros (Oliveira 1998a: 140).97 Tabela 21: PIB a Custo de fatores no Estado de São Paulo. a saber.126 das 2.33 Em 1990. e precisavam também no tocante a outras questões tomar decisões que fossem palatáveis ao bloco de poder enquanto contrários aos princípios da gestão empresarial. no do presunto duas empresas controlavam 68% do mercado (Oliveira 1998a: 138). No setor do processamento de metais (regressão de 13. Em 1993 uma empresa (Unilever) detinha uma fatia de 74% do mercado no ramo do sabão em pó. Muito pelo contrário. pois eram sempre restringidas no seu poder de fixação dos preços e de mercado. As empresas estatais apresentaram déficits crônicos até o seu saneamento antes das privatizações.46 1985 5.13 No entanto. Mas a sua participação nos lucros caiu de 25% (1980) para redondamente 20% (1989).0%). em % (números arredondados) Setores e Subsetores de Atividade Econômica Agropecuária Indústria transformação serviços Serviços financeiros Fonte: Unicamp 1998: 5 1980 3. no ramo do sabão a mesma empresa detinha uma fatia de 62%. As empresas estrangeiras concentravam-se sobretudo em quatro ramos.60 36.85 36. cuja participação nos lucros de 4. evoluiu de forma dinâmica.47 58. 15 paulistanos. a produção de bens de consumo não-duráveis. via de regra vinculados por causa das suas dimensões com o capital financeiro.75 29. ao passo que nas 1000 maiores empresas fora possível constatar um processo de descentralização (cf. pois no âmbito do estado podia-se observar um grande processo de concentração na indústria com referência a estruturas de propriedade.38 54.05 10.7% do produto total regional.5% e em 1989 quase 10% dos lucros (Oliveira 1990: 127 ss.06 39. Apesar disso não se observou nos anos 80 nenhum deslocamento maior das relações de força entre os conglomerados. do Brasil restante não havia grandes conglomerados que atuassem em São Paulo (Oliveira 1998a: 150). foi possível observar uma centralização da propriedade.6% para 8. O processo de concentração em São Paulo reforçara-se claramente nas maiores empresas privadas. da eletrônica e do material de comunicações (de 9. 13 A participação da indústria têxtil caiu entre 1980 e 1995 de 6. foram observadas maciças transformações na estrutura industrial paulistana (cf. Dez conglomerados eram internacionais. nada menos de 1.3% para 6. Alguns ramos encolheram visivelmente.12 35.6% 11 As empresas não-organizadas em grandes grupos.5% (1989). Respondiam apenas por 27% da produção das 2.44 10.8% (1980) aumentou para 35.70 32. ao passo que o segmento norte-americano regrediu e o alemão permaneceu estável (Oliveira 1998a: 142). 58 dos 100 maiores grupos privados e 430 das 1000 maiores empresas tinham a sua sede em São Paulo.4% para 3.82 10.37 52.42 1995 4.64 10.17 28. A organização dos mercados era oligopolista.60 37.3% para 1%) a evolução também foi regressiva. O ramo dos gêneros alimentícios pôde aumentar a sua participação do produto total regional de 7.12 A desindustrialização de São Paulo também não foi nenhum processo unitário. Mas os lucros concentravam-se nas grandes empresas. Além disso havia os monopólios institucionais e naturais nos setores dos serviços públicos e da infraestrutura.44 1990 4. produzidos em parte crescente no âmbito da agroindústria no interior do estado. respondiam por 22. possuíam em comparação com os 50 conglomerados pouco mais de 15% do patrimônio.60 57.689 maiores empresas.50 29. Mas mesmo em produtos menos complexos. nacionais ou estaduais. segundo setores. 12 Nas empresas internacionais ocorreu um deslocamento na direção das empresas japonesas. sobretudo a expensas do Rio de Janeiro.3% para 9. Tabelas A-36 e A-37). das quais dez concentravam em 1980 7. considerada na sua totalidade. dos produtos mecânicos (de 8.

mas o desemprego crescente e a opção das empresas pela transferência das suas unidades produtivas provou um deslocamento cada vez maior do poder para o pólo do capital. Durante a industrialização a Região Metropolitana de São Paulo era dominante. bancário e de securitário aumentou em escala nacional de 13.3% (Rolnik et al. Os bancos estaduais podiam conceder créditos aos estados.2% para 18. Nesse sentido. a renda disponível per capita caiu. Surgiram atores no ABC como o Fórum da 14 Em termos microregionais as atividades se concentravam na cidade de São Paulo. Em 1988 conquistaram novamente competências e autonomia financeira16. 98 . o ABC tornou-se célebre pelas greves dos metalúrgicos no fim dos anos 70. Em termos regionais o sistema bancário estava concentrado no Estado de São Paulo. Se tomarmos São Paulo como região-cerne. Sobretudo nos anos 80 São Paulo aproveitou a sua margem de ação para promover uma política de descentralização das localizações econômicas (Cano 1998b: 325 s.4% para 73. que pôde aumentar a sua participação de 12. A participação dos depósitos aumentou de forma ainda mais visível. os homens. Mas no setor da mídia e da cultura o Rio de Janeiro continuou desempenhando um papel central.no topo. 15 O governo central aumentou a sua participação nas receitas do Estado no período de 1965 a 1974 de 39% para 50. Por isso as estratégias dos representantes dos trabalhadores. na base. era uma das metrópoles internacionais nas quais nenhuma das 500 maiores empresas do mundo tinham a sua sede (Feagin.64% das operações de créditos do estado foram efetuados em São Paulo. Sobretudo a região do ABC. A participação de São Paulo no setor financeiro.1%. constataremos que em 1993 90. Isso se deu a expensas dos bens intermediários. mas o estado foi um espaço de aglomeração especializado segundo funções. Iniciativas autônomas organizaram-se em torno de especificidades temáticas contra o estado ditatorial.5% (Abrucio. estavam direcionadas desde o começo dos anos 90 para o consenso.gov. Smith 1987: 8). 17 Nos preços de 1995 as rendas disponíveis se reduziram de R$ 19.34% dos depósitos e 88. O Estado também se fez notar com iniciativas como o programa de combustível de origem biológica Pró-Álcool. Durante muito tempo o conflito entre o capital e o trabalho dominou a região. no qual a Região Metropolitana de São Paulo se concentrava em ramos de alto valor e o interior no setor agroindustrial (Unicamp 1998: 10). Sob a ditadura as atividades coletivas transcorriam clandestinamente. A grande exceção foi aqui a produção de meios de transporte. dos bens de consumo duráveis e dos bens de capital. as políticas regional e local recobraram a sua autonomia. valendo o mesmo para a indústria de bebidas e de vinagre (de 1. os sindicatos constituíam um fator de poder local.9% a 13. as mulheres prestaram uma contribuição substancial à resistência dos movimentos sociais. claramente de R$ 694 para R$ 545 (Arretche 1998: Tabela 5).2%. a antiga grande região industrial ao Sul da cidade de São Paulo.9 (1986) a R$ 18. Mas nas áreas das funções de controle econômico e dos serviços financeiros a importância da cidade de São Paulo . 1990). estagnou e em 1994 até caiu a participação nas operações de crédito (www.4% para 61. Os governadores administravam o endividamento crescente ”trocando” a sua anuência a determinados projetos do governo federal contra uma moratória ou repactuações das dívidas.98 para 10. Com isso os católicos progressistas .17 O imposto mais importante continuou sendo o ICMS. Na cidade de São Paulo a estrutura de produção melhorou qualitativamente (Rolnik et al. 1990). A cidade era portanto a metrópole financeira inconteste do Brasil. ao passo que os estados se viram obrigados a restringir a sua participação de 48.14 Depois dos duros anos da ditatura de 1968 a 1974.2% para 3. do qual 25% precisavam ser repassados aos municípios (Souza 1996: 543). do Rio para São Paulo (Seade 1995a: 63 ss.1% a 36%. de 60.5%. portanto. espaço intermediário de poder. tinham sofrido mais sob a política centralizadora da ditadura militar.quarta maior aglomeração do mundo .7%).1 bilhões (1994). 16 Em 1988. fossem eles sindicatos ou o PT. Tabela A-20). Isso está ligado ao fato de que empresas tão importantes como o Citibank ou o Chase Manhattan transferiram a sua sede. A estrutura espacial do estado se transformou. Couto 1996: 42).aumentou.2% (Souza 1996: 544). Isso ficou reservado ao governo estadual. Mas não existia praticamente nenhuma grande empresa que não tivesse uma filial ou um escritório em São Paulo. quanto em virtude da Bolsa de Valores e de outros serviços financeiros locais. a dos créditos de 30% a 43%. Somente a participação das filiais caiu ligeiramente (cf. Ela desenvolveu funções de uma metrópole internacional. A participação dos depósitos aumentou em 1988 de 54% para 56%. isto é. isto é.5% para 16. Com um índice de filiação de 90%. a industrialização do interior não foi uma simples extensão do espaço de aglomeração da cidade de São Paulo. Só a igreja oferecia um espaço que não era imediatamente destruído. Os estados. em 1990 somente 3. Aqui os grandes conglomerados desempenharam um papel central na ascensão de São Paulo à posição de segundo maior produtor de suco de laranja do mundo. o que se expressava no aumento da capacidade econômica e da população.8% e em escala estadual de 54.seade.2%. a democracia teve de ser conquistada penosamente.br de 30 de julho de 1997). 22% de todos os repasses da União eram negociadas. mas as receitas financeiras encolheram em virtude da crise econômica.15 Mas o governo federal encorajou os estados com a reforma fiscal de 1966 a um endividamento maior.5%. Com a democratização.7% e em 1991 novamente 9. tanto em virtude das empresas paulistanas do setor produtivo. Entre 1988 e 1995 a participação das filiais de bancos na cidade da totalidade das filiais no estado aumentou de 29% a 32. aos seus acionistas majoritários (Souza 1996: 546). Por um lado.). Os municípios aumentaram a sua participação até ligeiramente de 12.). tornou-se um importante espaço de poder no Brasil sem enquadrar-se na estrutura federativa tradicional.

a Volkswagen construiu em 1996 uma nova fábrica de caminhões. A política desenvolvida contraarrestava uma estratégia de achatamento dos salários na esteira da argumentação sobre os ”custos de localização do ABC” (Daniel 1996: 141 s. cidade com 150. formaram-se apenas poucas aldeias ao redor de São Paulo.8%. conseguiu apenas desde 1994 atrair três montadoras de automóveis para sua região metropolitana (Pivetta 1996). fazem parte do segundo cinturão também cidades dos estados lindeiros. O índice de desemprego atingiu em 1995 13. Os dados para o mercado de trabalho no Estado de São Paulo aproximaram-se cada vez mais dos da Região Metropolitana de São Paulo ou da cidade.6% a 51. Mas os investimentos continuam se concentrando em São Paulo sobretudo no setor de alta tecnologia e nos ramos do futuro (informática e reciclagem).7% na capital. O centro agro-industrial mais importante foi Ribeirão Preto. Novy 1994: 200 ss. não em último lugar.18 No entanto. Se excluirmos a Região Metropolitana de São Paulo. Assim o Estado de São Paulo beneficiou-se especialmente da criação do Pró-álcool em 1975. à circunstância de que o estado investiu mais dinheiro na pesquisa e no desenvolvimento do que o governo federal. Em São Carlos. de 43. era compatível com uma concentração nacional continuada num plano espacial mais elevado. 1990: 26). Porto Alegre e até Montevideo e Buenos Aires. localizada na rodovia São Paulo-Brasília. A indústria de gêneros alimentícios. Uberlândia (MG). Um segundo cinturão ao redor da cidade de São Paulo abrangia algumas cidades mais distantes. em cuja região circundante se produzia 20% da cana de açúcar. Em todas essas áreas a concentração da propriedade aumentara vertiginosamente (Oliveira 1998a: 134).8% no estado e 13. Com isso o estado não era apenas o centro industrial.6% e no interior do estado em 12. Como em amplas partes do Brasil nunca existira um campesinato livre. Em termos espaciais isso se expressou na dominância de cidades na dimensão de 50. De grande importância foram também as plantações de laranja. a participação dos investimentos planejados situa-se claramente abaixo da participação no PIB regional. as regiões supracitadas aumentaram nesse período a sua participação na produção nacional de 33. Em 1994. a indústria de São Paulo reduziu a sua participação na produção nacional de 58. sobre a qual recai o ônus principal da desindustrialização no tocante à redução da indústria de transformação. recorrendo ao mesmo tempo a incentivos maciços dos Estados do Paraná. Com 14%.4% (1995).000 habitantes. Com 23%. Entre 1970 e 1995. mas também agrário do Brasil (Novy 1994: 196 ss. poucos quilômetros além da fronteira. Minas Gerais e Rio de Janeiro. O desafio consistia aqui em aproveitar as sinergias subregionais para defender no arcabouço do poder nacional a posição do ABC como uma das regiões comparativamente mais abastadas. pode-se observar uma tendência a uma difusão mais ampla dos investimentos por todo o território nacional. Isso explica porque uma desconcentração da Região Metropolitana de São Paulo. diluiu-se em virtude do elevado grau de urbanização e industrialização. porém. baseada numa concepção inteiramente nova de fornecedores. Nos ramos industriais modernos. Foram também responsáveis pelo crescimento da produção de bens industriais de alto valor no interior do estado a indústria petroquímica e a refinaria em Paulínia e São José dos Campos (cf. nas quais havia freqüentemente um entrelaçamento forte entre áreas de agricultura intensiva e indústria. mas essa regressão foi aproximativamente compensada por ganhos de participação dos Estados do Rio Grande do Sul. capital paranaense. São Paulo detinha a parcela maior de toda a produção agrícola no Brasil (Rolnik et al. O terceiro tipo de região que se beneficiou da inversão da polarização em São Paulo foi a grande região que se estende do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte a São Paulo. O fenômeno certamente tem a ver também com a integração no âmbito do Mercosul e com o espaço de aglomeração e acumulação que dele resulta germinalmente. havia empresas de alta tecnologia e desde 1996 uma moderna fábrica de motores da Volkswagen. Juiz de Fora (MG) foi escolhida em abril de 1996 para sediar uma montadora dos carros Classe A da Mercedes-Benz. O traço distintivo típico do interior do estado.). Essa posição de liderança de São Paulo se deve. a Região Metropolitana de São Paulo também estava liderando (Seade 1998: 101). Nele se concentrava o agrobusiness (Oliveira 1998a: 134). esteve também entre as regiões urbanas em crescimento. Tabela 11). seu perfil de pólo oposto ao núcleo urbano da região. 43.).99 Cidadania e o Consórcio Intermunicipal que pretendiam fazer da subregião um espaço de poder autônomo. Persistiram.000 habitantes que abriga duas grandes universidades. sempre distantes 10 a 50 quilômetros. na relação entre a capital e o estado. Em Rezende (RJ).).2% a 49. as diferenças visíveis nos índices de emprego no setor industrial. têxtil e de confecções concentra-se no interior do estado. Esse segundo cinturão ganhou importância como localização industrial sem abandonar a sua produção agrícola.1% (Seade 1998: 92). classificados em grande parte no item ”outros”. Além disso fomentava maciçamente o cultivo da soja e a produção conexa de azeite.5% (1970) a 25. a de processamento de metais no ABC e a indústria química e de borracha na Região Metropolitana de São Paulo. 70% do suco de laranja destinado à exportação e 60% da produção de soja de todo o estado.000 a 500. Na Região Metropolitana de São Paulo ele ficou em 14. Curitiba. Santa Catarina. Paraná e Minas Gerais (cf.5% 18 Se tomarmos como critério as intenções de investimento nos anos seguintes. 99 . Sobretudo nos últimos anos essas regiões fronteiriças lograram tirar proveito das vantagens resultantes da aglomeração no setor da infraestrutura e no tocante à mão-de-obra qualificada em São Paulo.3%.

gov. na esteira da implementação da Constituição Federal.brcgibin/mulherv98 de 30 de novembro de 1998).3 pontos percentuais. ao passo que a dos homens reduziu-se apenas em aproximadamente um terço. no setor de serviços elas subiram ligeiramente. sofrido uma redução de 2.23 Tabela 22: Distribuição dos Ocupados. seja sem carteira assinada ou mediante emprego intrafamiliar. Tabela 31).9 19.gov.2 16. mas o aberto de modo correspondentemente mais nítido. em 1997 16% e em 1998 18. Em contrapartida.8%.e isso apesar dos empregos na indústria terem entrementes. 22 Na Região Metropolitana de São Paulo os vínculos empregatícios formais também diminuiram de 3.6 pontos percentuais. Região Metropolitana de São Paulo.8% (www. o índice de empregos no setor de serviços aumentou de 40. no entanto. poderemos constatar no breve período de 1989 até 1996 um aumento da população em idade economicamente ativa de 32.6 48. os programas de desestatização atingiram com especial dureza as mulheres. os outros.b/egi-bin/mulherv98r de 30 de novembro de 1998). Se em 1985 ainda 33. Na indústria as relações formais de trabalho encolheram.5 milhões (1985) a redondamente 7. no qual o nível de emprego aumentou no período acima mencionado de 0. podem ser constatadas dinâmicas distintas. 21 As mulheres foram aqui mais fortemente afetadas do que os homens.1 milhões para 1.4 construção civil 14. Apesar desses empregos adicionais.1% dos trabalhadores estavam na indústria de transformação. no qual ele aumentou de 2.5 0.0 100. pois nelas o índice de desempregados foi em 1985 15. pois esse setor era tradicionalmente um espaço de trabalho remunerado feminino menos fortemente discriminado.5 0.9 para 2.7 3.7 40.4 25.3% (Cf. somente 11.1 3. Assim o processo de desindustrialização foi muito claro com referência ao nível de emprego.6 milhões. 100 . Tais perdas de empregos eram compensadas pelo setor comercial.8 para 1. Aumentou a marginalização das mulheres nesse segmento do mercado de trabalho com remuneração acima da média. esse número tinha caído em 1998 para apenas 19.2 milhões (1997) .6 23. A involução dos assalariados contrastou com um nítido aumento dos autônomos (www.0 ocupados 33. atribuível ao claro aumento do índice das mulheres economicamente ativas de 43.5 milhões (1993) (Singer 1996: 127). de 5.br/cgi-bin de 14 de maio de 1999).5 indústria de transformação 3. O crescente número de desempregados e o aumento dos vínculos empregatícios informais.4 Outros Fonte: www.2 milhões.7 para 1. Em 1985 somente 35% das pessoas economicamente ativas trabalhavam além da jornada de trabalho definida em lei.5%.7 7.7 serviços domésticos 0.1 33. A informalização avançara menos do que se supusera.0 100.br/cgi-bin de 14 maio de 1999 19 Aqui.22 Em termos quantitativos.seade. no comércio ele subiu de 0. em 1998 esse índice já chegou a 49. Em 1985 12. que continuaram nos seus empregos. O desemprego camuflado não aumentou entre as mulheres.6 2.3 para 3.3 milhões (cf.2% não possuiam esse documento (Seade 1998: 96).5 46. No caso do índice da população economicamente ativa foi observado um ligeiro aumento.2% das pessoas economicamente ativas estavam desempregados.7% (1985) para 50.1 a 03 milhões (Unicamp 1998: 10).7% para 52.5%20 (cf. 23 As mulheres perderam de 1992 a 1997 2. segundo Setor de Atividade Econômica do Trabalho Principal. Como nas primeiras décadas do séc.3 6.0 100. XX.4 7. Entre os homens aumentou tanto o desemprego aberto quanto o camuflado. evidencia o aumento do assim chamado exército de reserva da indústria.0 100.7 0. A dinâmica da acumulação deslocou-se novamente na direção da extensão.100 dos trabalhadores do setor privado tinham uma carteira de trabalho. Se somarmos os que trabalham em relações precárias e os desempregados. diante de 10.19 Assim a legislação trabalhista e social continuou tendo grande relevância para as condições de trabalho dos assalariados.gov. Tabela 22).5 0. depois de um ápice em 1989.0 15. o desemprego aumentou de 0. da ampliação da produção sem aumento da produtividade.6% para 41.2 8. 1985-98 1985 1989 1992 1995 1998 100. os homens no mesmo período também 2.2%.gov.1% respectivamente 16% entre os homens. o que é um indício dos processos de informalização.1 milhões e na agricultura de 0. trabalharam crescentemente mais. No setor industrial o número de trabalhadores na economia formal caiu entre 1986 e 1995 de 2. e na agricultura (bem como na construção civil) ocorreu um surto de formalização. Na Região Metropolitana deSão Paulo o emprego subiu continuamente.9 milhões (1985) para 3.21 Ao passo que uns eram coagidos à inatividade.4 2.9 a 1.seade. 20 A participação das mulheres no setor industrial reduziu-se por mais da metade. e no setor de serviços.5 milhões.5 serviços 8.7 16.seade.2 17. Tabela A-24).5% e em 1998 21. a inserção seletiva e subalterna das mulheres no mercado de trabalho desempenhou um importante papel em estratégias de acumulação extensiva.2 milhões.0 52.seade.5% (1997) (www.5 comércio 40.

As câmaras setoriais foram um exemplo bem-sucedido dessa estratégia de compensação de interesses.setor privado 1204 1050 733 813 826 assalariados .setor público 1554 1462 853 1100 1177 Assalariados – indústria 1360 1187 886 938 903 Assalariados – comércio 874 843 533 642 614 Assalariados – serviços 1153 954 663 778 850 Fonte: www.7 ocupados 70.2 61. mesmo quando objetivavam apenas defender os salários. devido ao efeito distributivo condicionado pelo fim da inflação .gov.2 5. A situação de renda de todos os grupos melhorou visivelmente em 1995. segundo Posição na Ocupação.7 7.9 19.0 15.9 7.5 8.4 54.5 11.4 Domésticos Fonte: www.3 4. mesmo com esse salto. Durante esse período.2 assalariados Com carteira 51.seade. seguida por uma recuperação na primeira fase do Plano Real. de um só salto.3 Autônomos 4.7 53. Tabela 24: Rendimento Médio Real dos Ocupados no Trabalho Principal (1).0 15. A fuga para a informalidade permitiu às empresas oferecer empregos não apenas precários.101 Tabela 23: Distribuição dos Ocupados. mas também mal pagos.2 40. sendo que de início só se constatou uma ligeira tendência à diminuição.9 Setor público 10. De 1995 a 1998 a tendência foi novamente negativa.seade.3 52. Houve em seguida uma queda dramática no período de 1989 a 1992. O crescimento arrastado da economia levou.3 44.6 8.4 12.6 54. pois o índice de desempregados estava aumentando constantemente (cf. Os mais pobres encontram-se no exército crescente de desempregados.1 10.1 5.3 6. que não lograra institucionalizar estruturas nacionais de parceria com o empresariado.3 10.br (14 de maio de 1999) 101 . segundo Posição na Ocupação. Região Metropolitana de São Paulo. os trabalhadores na economia informal cerca de 19% menos.3 43. tentou salvar mediante o recurso a formas de corporativismo local a Região Metropolitana de São Paulo enquanto localização industrial.br (14 de maio de 1999) O trabalho dos sindicatos enfrentou dificuldades cada vez maiores. Região Metropolitana de São Paulo. Os sindicatos engajavam-se justamente no cinturão industrial do ABC com grande intensidade também fora do trabalho. entre os que ganhavam mais a involução da renda se acentuou.4 19. Apesar disso a renda continuou apresentando desequilíbrios dramáticos. por meio das reduções de renda dos ricos e a demissão desproporcional dos assalariados nãoqualificados e com isso mal-remunerados.7 9. 1985-1998 1985 1988 1992 65. perderam o seu vigor (Singer 1996: 131).4 72.7 1995 64. os assalariados remanescentes não tenham mais atingido o nível de 1989.3 Sem carteira 8.2 1998 61.6 Setor privado 60. os trabalhadores com vínculo empregatício formal ganhavam 45% mais do que em 1998. Em 1985. em Reais (novembro de 1996) 1985 1989 1992 1995 1998 1211 1102 706 907 857 ocupados 1255 1104 752 857 876 assalariados 971 1030 522 798 662 autônomos com carteira 1320 1139 809 892 912 sem carteira 448 482 351 487 547 assalariados .5 21. a uma melhoria perversa da distribuição entre os assalariados (Mattoso 1999: 125). em virtude da crise econômica.gov. os conflitos trabalhistas.9 9.2 4. Desde 1985 os salários reais diminuíram visivelmente.não obstante. mas estão em uma posição fraca para negociar.1 Empregador 8. 1985-1998. Tabela 25). Nos anos 90 o movimento sindical autônomo. Entre os assalariados a situação dos grupos mais pobres permaneceu igual durante o Plano Real.7 8.

o atraso e conseqüentemente as oligarquias. Isso vale até hoje para a ciência. por sua vez. Esse papel foi cumprido sempre de novo pelos governadores em situações de crise. Isso desacreditou as medidas ou levou a interpretações da descentralização que só pouco tinham a ver com democratização. ele procurou implementar medidas sociais reformistas. continuou a política de Montoro no papel. entrelaçamentos e distribuições. As estratégias políticas direcionavam-se para o espaço do poder local e regional. Por isso o capital de café. que freqüentemente foram também crises do federalismo. sucessor de Montoro. em Reais (novembro de 1998) 1985 1989 1992 1995 1998 204 207 112 168 164 371 337 219 300 307 681 659 426 501 512 1350 1283 788 1003 924 2666 2399 1469 2043 1846 10% mais pobres quarto mais pobre metade com renda menor quarto mais rico 10% mais ricos Fonte: www. As outras regiões orientadas para o exterior .não lograram por em marcha nenhuma dinâmica interna e. A fraqueza dessa política de democratização por meio de descentralização consistiu na insuficiente atenção aos problemas sócio-econômicos da democratização. Mas ele iniciou um programa de descentralização política. distinguiu-se de todos os governadores antes e depois dele pela vontade de uma democratização abrangente.102 Tabela 25: Rendimento Médio Real dos Ocupados no Trabalho Principal. A delegação de competências e recursos às entidades territorial-administrativas se deu segundo critérios clientelistas. de espaço geográfico-material em espaço de poder com estruturas sócio-econômicas e políticas concretas. Depois de 1930.br (14 de maio de 1999) Nessa seção foi mostrado quão importante é uma análise do espaço e do poder que vai além de um estudo do espaço-receptáculo nacional e desvela assim a estrutura espacial concreta do Brasil. A região é um lugar de conflitos em torno da constituição de um espaço de poder e a influência por meio de forças estruturais. Sob a superfície desse campo operou. que se reproduzia regionalmente. Como São Paulo foi um centro da resistência contra a ditadura militar. segundo faixas de renda dos ocupados. o estado-nação exerceu com maior intensidade a sua função moderadora-controladora. o poder sobre o espaço que estrutura esses espaços. não lograram superar o seu caráter de enclaves. lançou as bases da primeira região desse tipo no Brasil. a atenção se deslocou bem mais fortemente para o plano local do que para o estadual.a região mineradora e a região açucareira . Serviços sociais foram municipalizados onde isso era possível. As análises regionais e locais são necessárias para a compreensão tanto da parte quanto da totalidade. Quando no curso do movimento democratizante dos anos 70 o protesto se dirigiu contra o estado central ditatorial. Interveio também mais fortemente no plano local. que em 1988 se transferiu para o PSDB. Para Cano (1998a: 29) ocorreu a formação de regiões econômicas integradas.2 O espaço de poder do Estado de São Paulo No curso da formação da nação depois de 1930. o grande partido de oposição PMDB obteve uma clara vitória nas eleições para governador em 1982. quando a dinâmica da acumulação foi endogeneizada. vencidas por Franco Montoro. arcaicos. mas promoveu simultaneamente um deslocamento substancial das ênfases. à medida que ele criou hierarquias. Mas os governadores enquanto detentores do poder no plano intermediário da federação têm a tarefa importante de serem articuladores de espaços de poder. 3. a soma desses espaços de poder regional constitui a topologia do campo do poder brasileiro.seade. Juntamente com o espaço do poder nacional. como se fossem receptáculos de poder. Embora o plano intermediário sempre tenha tido significância histórica. Estruturas democráticas pareciam ser mais facilmente implementáveis in loco do que no plano nacional. por conseguinte. e ignoravam assim os entrelaçamento do poder sobre o espaço. O mesmo aconteceu com os lugares e as regiões concretas do Brasil. A análise regional de São Paulo permitiu mostrar o significado de vias concretas de desenvolvimento. isso se refletiu apenas parcialmente na atenção científica que lhe foi devotada. Respaldado por uma esfera pública ampla e radicalizada.gov. Disso fazem parte sobretudo os setores de saúde e da educação. Apenas lentamente a nação se transformou. Região Metropolitana de São Paulo. mas foi em grande parte impedido de realizar esse projeto em virtude da crise econômica. Orestes Quércia (PMDB). Montoro. sendo que essas intervenções serviam amiúde à estabilização do poder local. Assim os municípios foram valorizados enquanto poder local. 1985-1998. Prefeitos simpáticos ao governo 102 . os estados e os municípios estavam desacreditados por representarem os traços provincianos.

26 Em dezembro de 1996 o governo estadual tinha 932. em virtude do seu endividamento excessivo (Souza 1996: 547). na época um homem totalmente desconhecido. a crise fiscal de São Paulo. Tabela 27). segundo estimativas otimistas. 1982 – 1998 (1) (2). Mas ao lado das causas por assim dizer de fabricação caseira. o reembolso de dívidas contraídas de repente ficou desproporcionalmente caro. 25 Os bancos estaduais de São Paulo respondiam por 60% das dívidas dos dez maiores bancos regionais do Estado brasileiro. Saõ Paulo. elegeu também a bancada mais numerosa (cf. Decerto isso se deveu em parte à inexperiência do próprio Fleury.28 Essa renegociação foi um mecanismo de troca política que permitiu ao governo federal alcançar dois objetivos: por um lado. essa política deu resultados.9 bilhões para R$ 20 bilhões. Ao invés de 2% ao mês. Mas o PMDB conservou apenas 8 das suas antigas 42 cadeiras (1982).27 Com o contrato entre a União e o estado. Em 1998 ela recuperou o terreno político perdido.25 Em virtude da radical elevação da taxa dos juros. prefeitos da oposição não. a ampliação do metrô foi suspensa por quatro anos. Em 1994 a direita foi claramente enfraquecida em benefício do centro. Sob Fleury ela explodiu na razão de 122. estradas e outras instalações foram privatizadas. De início a ação política de Covas consistiu em fazer cortes e realizar privatizações nas mais diversas áreas. pois o interior assegurou ao seu correligionário Luís Fleury. O governador encarna o poder do estado da federação. Em 1995 o Banco Central interveio em todo o país em onze bancos estaduais. O superávit orçamentário anual primário de 1996.6 bilhões aos cofres públicos.br/release5e de 2 de julho de 1998). os partidos de esquerda conquistaram em 1982 apenas 9 e em 1998 já 29 cadeiras. O PFL. tais como especialmente a privatização e a redução do funcionalismo. Em 1997 o governo estadual começou a tomar as primeiras medidas direcionadoras de uma política econômica e social. precisava ser pago mensalmente a título de serviço da dívida. no montante de R$ 1. foi colocado em 1995 sob controle do Banco Central.000 funcionários públicos.5 17. Apesar disso Covas ganhou com clara vantagem as eleições para o governo no segundo turno em 1998.24 A atividade de investimentos foi reduzida. 148 escolas foram fechadas (FSP de 2 de agosto de 1997).3 34. na esteira da vitória eleitoral do candidato do PSDB ao governo estadual. o que custou R$ 15. por outro lado. bem como de todos os outros estados brasileiros.3 bilhões. Tabela 26: Eleições para governador. O centro chegou mesmo a eleger depois de 1994 o maior número de deputados. A população dedica ainda menos atenção à Assembléia Legislativa do que ao Congresso e à Câmara de Vereadores. Apesar disso a dívida do estado aumentou de R$ 40 bilhões no início do governo Covas para R$ 75 bilhões em março de 1997. até então marginal em São Paulo.gov. 28 A diferença entre taxa de juros de mercado e taxa de juros politicamente negociada foi assumida pela União (www. a primeira assumiu R$ 50. um mecanismo para aprovar projetos concretos de lei e emendas constitucionais no Congresso. Em 1995 o recém-eleito Mário Covas (PSDB) declarou o ”estado de emergência fiscal”. mas uma razão nada secundária foi também a dívida contraída por Quércia para implementar seus ambiciosos projetos de modernização da infraestrutura. celebrado em 1997. Quércia se dedicou também à descentralização da produção e fomentou o interior do estado a expensas da capital. sobretudo do BANESPA.103 estadual recebiam verbas. A gestão de Fleury (1991-1994) se caracterizou por uma política de expedientes. Em termos de tática eleitoreira. que elegeu Covas para o governo. altamente endividado. 103 . Assim Quércia colocou quase todos os prefeitos do interior na sua dependência. Por isso os deslocamentos contínuos para a esquerda em grande parte não foram percebidos. embora as receitas correntes fossem em 1996 superiores às despesas correntes. Ao passo que a descentralização política dessarte praticada não tinha mais nada em comum com democratização. pôde se posicionar em 1998 pela primeira vez como força de peso. levando a um deslocamento de atividades para fora da capital e na direção do interior.8%. Juntos. sem poder oferecer uma regulação consistente de um regime de acumulação regional. além do plano nacional.fazenda. tinha as suas raízes na política de juros altos do governo federal (Melo 1996: 17).5 bilhões (Gentile 1998).000 no setor educacional. dos quais 40. O valor do dinheiro foi negociado politicamente nessa compensação federativa de interesses e fomentou um processo de recentralização de poder (Melo 1996: 16).2 PPB (3) 24 A dívida do estado aumentou sob o governo de Quércia em 43. destinando assim 62% das receitas correntes para gastos com pessoal (Mare.000 funcionários públicos. O banco estadual BANESPA. a vitória nas eleições para governador em 1990.4 bilhões de dívidas.3 32. Em 1992 as dívidas ultrapassavam em 60% os seus haveres. o PSDB. O próprio Mário Covas praticamente não contraíra dívidas novas. durante um período de 30 anos. 27 Esse aumento vertiginoso teve sua origem nos juros elevados. o governo precisava a partir de agora pagar juros reais de apenas 6% ao ano. foram demitidos (FSP de 3 de agosto de 1997)26. 116. 4 de agosto de de 1997). A infraestrutura foi maciçamente ampliada no interior. de R$ 13. em % 1982 1986 1990 1994 1998 23. um isomorfismo das reformas propagadas por ele.5% para R$ 44.

6 11.br (13 de abril de 1999) No decorrer dos anos 80 o governo estadual assumiu em resposta à falência da política habitacional nacional. No setor de saúde o governo estadual também foi ativo. esse número chegou em 1992 a 36. as grandes cooperativas.8 12. Como havia apenas em São Paulo 636 municípios (Affonso 1996: 7).gov. destinado à política habitacional e aprovado a cada ano pelo Legislativo estadual. 1982 – 1998 1982 1986 1990 1994 1998 22 11 11 13 11 PPB (1) 9 8 5 11 PFL 11 14 18 13 14 diversos partidos de direita DIREITA . embora o processo de descentralização fosse dificultado pela preferência generalizada de uma municipalização (Melo 1996: 19).seade.9 - 23. Como tão somente o governo estadual era um bloco homogêneo. sendo possível aumentar nitidamente os gastos para a construção de habitações e o número de habitações financiadas. o aumento dos recursos disponíveis e.104 PFL diversos partidos de direita PSDB PMDB PT diversos partidos de esquerda 12.935. Seu poder consistia essencialmente em trocar favores contra favores com os municípios. por um lado.1 (1) sempre depois do primeiro turno (2) os vencedores do segundo turno sempre estão assinalados em negrito (3) até 1992: PDS Fonte: www. São Paulo. O ponto de partida foi a introdução de novas formas federativas de organização.SOMA 9 13 19 22 29 (1) até 1992: PDS Fonte: www. os gastos na construção de habitações aumentaram de R$ 3.7 8. 104 .29 Em resumo. a descentralização funcionou lentamente em São Paulo.SOMA 42 37 28 41 28 9 10 14 16 14 PT 3 5 6 15 diversos partidos de esquerda ESQUERDA . Em 1985 o número dessas instituições aumentara na Grande São Paulo para 144 e no interior para 215 (Silva 1996: 85). é compreensível que uma parte relativamente grande dos municípios não dispusesse da necessária capacidade de organização para assumir campos de atividades do governo central.39 per capita (1987) para até R$ 17.1 9.3 16.SOMA 33 34 37 28 36 9 18 20 PSDB 42 37 19 23 8 PMDB CENTRO . os funcionários dirigentes de empresas privadas e sobretudo estatais começaram a manifestar-se como sociedade 29 Se em 1987 foram construídas 3.7 35. de caso para caso. ele dominou em São Paulo bem como em outros estados esse grêmio (Arretche 1998: 132). 30 Em 1980 91 das 123 instituições municipais de saúde estavam localizadas na Grande São Paulo e 32 no interior.5 44. Mais ou menos ligados a esses interesses do capital.3 22. O órgão colegiado em nível estadual compunha se paritariamente de representantes do governo estadual. associações de produtores rurais e de empresários.5 17. Brasilienausschnittsdienst 10/98 Tabela 27: Eleições para a Assembléia Legislativa.br (30 de julho de 1997).seade.0 22. tarefas cada vez mais amplas de prestação de serviços públicos. dos prefeitos e da sociedade civil. as razões do êxito da política habitacional eram. Estes atuavam sobre o Estado nos planos local e regional no sentido de apoiar o processo de valorização do capital.6 1. Essa medida lhe permitiu uma certa independência do ministério. um aparelho administrativo em boas condições de funcionamento (Arretche 1998: 104-106).44 per capita (1991) (Arretche 1998: Tabelas 12 e 13). pois o governo estadual estava pouco interessado em uma municipalização.9 23. por outro lado. os engenheiros e agrônomos.0 4.gov.8 36.2 9.099 habitações com recursos do governo estadual. No setor habitacional o governo financiava os seus próprios gastos com um aumento de 1% do ICMS.30 Em termos gerais. O processo de modernização econômica levou também a uma modernização da sociedade civil e ao surgimento de grupos lobistas tipicamente modernos.704 e em 1994 ainda a 23.9 9. Apesar disso o processo de municipalização iniciara em 1996 em 55% dos municípios (Silva 1996: 86).

Formavam uma rede de modernização que juntamente com as empresas do setor imobiliário e de construção civil faziam concorrência à elite tradicional dos funcionários públicos. que foi muito ativo justamente no Estado de São Paulo. Eles representavam o novo poder econômico e o seu discurso. especialmente no ABC. Mas ela não conseguiu assumir o maior sindicato de industriários. Sem dúvida isso expressa a oposição de interesses entre os grupos dominantes. A mídia regionalizada era formada em São Paulo pelo rádio e pela imprensa marrom que representavam maciçamente os interesses dominantes. Nos últimos anos os meios de comunicação de maior qualidade como a Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo começaram a informar mais sobre assuntos de interesse local. Um papel importante foi desempenhado sempre pela igreja. pois um importante segmento dos intelectuais aceitou cargos no governo.juntamente com os sindicatos fortemente estruturados no setor industrial. A Constituição de 1988 fixou competências ampliadas dos municípios e fortaleceu com isso a sua posição no arcabouço do poder nacional. o número dos proprietários de terras com mais de 10. 32 Na época ainda como CIESP. os grupos populacionais em desvantagem praticamente não dispunham de instituições por meio das quais pudessem representar os seus interesses.3 O espaço de poder da cidade de São Paulo No plano dos municípios pôde se observar no Brasil dos anos 80 genericamente um ganho de importância e nos anos 90 uma perda de importância. A população na periferia queria uma infraestrutura mínima. Somente as associações de vizinhança em nível local e o movimento dos sem-terra como movimento de massas. Em 1983 Mário Covas assumiu o governo da 31 Ao passo que o número das empresas agrícolas com menos de 10 ha de área agricultável baixou de 100. eram um espaço tradicional de poder da oposição. Não em último lugar devido a conflitos internos. acabou por impor-se.303 (1995) e também o número dos que possuem entre 10 e 100 ha diminuiu em 17%. profissionais liberais. apoiado pela imprensa e pelas emissoras radiofônicas locais. Desde então centros do pensamento crítico como o Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) ficaram politicamente paralisados e cindidos.31 Desde a sua fundação em 192832. como o Estado a disponibilizava aos bairros de localização mais central. Mas o poder tradicional da propriedade fundiária não pode ser subestimado. Somente sob o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso a esquerda acadêmica entrou em uma grave crise. A Tabela A-19 mostra que a filiação a organizações civis em São Paulo foi menor do que em estados meridionais economicamente menos desenvolvidos (Paraná e Rio Grande do Sul) e praticamente não maior do que nos estados nordestinos. Esse grupo defendeu a posição de que não haveria alternativa ao processo de globalização. Os dois jornais tinham um extenso caderno local. No plano regional. ofereceram aos oprimidos possibilidades de organização. Luís Antônio Medeiros e a sua Força Sindical. enquanto novos atores. Essa circunstância contém explicações substanciais de paradoxos aparentes do desenvolvimento em termos de Economia Política. sendo que as simpatias se dividiam de forma relativamente harmônica pelas alternativas radical e reformista.198 (1985) para 65. girava em torno das idéias da racionalidade e modernidade (Bizelli 1995: 45). pois 50 grupos eram proprietários das terras utilizadas para fins de produção no estado (Bizelli 1995: 44). 3. Nos anos 80 predominou no plano municipal o conflito sobre o acesso à cidade. denominados atrasados. mas não de civilização burguesa. pequenos comerciantes e proprietários de terras. caracterizadas como monolíticas. na sua maiora estatais. No interior do aparelho de estado eles dependiam da benevolência de governos locais ou deputados progressistas. Ocupações de áreas eram iniciativas importantes para chamar a atenção às precárias condições de vida na periferia. São Paulo era sabidamente o lugar do surgimento de um movimento sindical e democrático independente. As numerosas universidades. o comportamento eleitoral conservador-retrógrado teve as suas raízes em uma sociedade civil cuja vida não teve um perfil muito mais pronunciado e múltiplo do que nas regiões atrasadas. A CUT como central sindical estava concentrada em São Paulo.105 civil regional. A modernização econômica afetou a sociedade civil de modo bem mais reduzido do que seria de se supor. o dos metalúrgicos da cidade de São Paulo (Rodrigues 1995: 116). o perfil do palco do Brasil democrático (Eder 1988). próxima ao governo. pois as comunidades eclesiais de base definiram nos anos 70 e no início dos anos 80 ao lado dos sindicatos. Na esteira da internacionalização e da desindustrialização ela pertencia às instituições que foram enfraquecidas .000 ha aumentou de 29 para 36 (Esposito 1998). 105 . As ambivalências do desenvolvimento brasileiro revelam-se a partir do seu centro: São Paulo foi uma região moderna. a Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP) cumpriu um papel importante na articulação dos interesses da produção regional.

1 Fonte: www.9 0. Tabella 28: Eleições para prefeito. Em 1988 a deputada estadual Luiza Erundina (PT). 1985 – 1996. com 30%. oriunda das iniciativas de base.3 44. 1985 – 1996 1982 1988 1992 1996 6 6 20 19 PPB (1) 4 0 2 PFL 7 8 6 8 diversos partidos de direita DIREITA . Jânio fomentou megaprojetos a expensas dos serviços sociais.8 1.br (28 de julho de 1997) Tabela 29: Vereadores. Mas ao mesmo tempo ele se tornou incapaz para fazer acordos.4 22.2 9.5 37.8 29.2 19. o trabalho do governo municipal.5 14.5 34. sob direção do PSDB. Depois de erros iniciais o PT reconheceu que precisava chegar a um consenso com a câmara. mas não em uma aliança dos 106 . Mas a intensa atividade no setor de construção civil prejudicou a qualidade da infraestrutura existente. O governo municipal sentiu isso na carne. Assim o grande problema do governo de Jânio Quadros foi a deterioração qualitativa do abastecimento da população com serviços sociais. a contratação de funcionários foi feita a expensas dos seus salários.5 0. na qual ele freqüentemente ajudava pessoalmente em mutirões. foi eleita surpreendentemente prefeita de São Paulo. O PT via princípios políticos como não-negociáveis e foi nesse tocante um simpático contrapeso ao modo tradicional de fazer política. 1992: 120).br (28 de julho de 1997) Em 1985 o populista de direita Jânio Quadros ganhou surpreendentemente as eleições contra Fernando Henrique Cardoso. menos visíveis. o candidato do establishment de centro-esquerda. Colocou a questão social e o problema da periferia no centro da sua atividade administrativa. em números redondos. mostrou a proximidade à exigência de democratização com participação popular. levou São Paulo de volta aos tempos do autoritarismo e da negligência da questão social. Covas capitalizou em benefício do seu governo a pressão da população na luta intra-organizacional pelo poder. pois a Câmara de Vereadores boicotava. Ao passo que as iniciativas informais de base se fortaleceram durante o seu governo. A autodenominação ”governo democrático popular”. Baseado no clientelismo.gov. candidatos mais importantes 1985 PPB(1) PFL diversos partidos de direita PSDB PMDB PT diversos partidos de esquerda (1) Até 1992: PDS 37. Quadros.SOMA 13 18 26 29 6 8 8 PSDB 15 6 5 4 PMDB CENTRO .5 14. contra a administração e setores do seu próprio partido.fizeram oposição a ele e sabotaram a sua política reformista. Mas a vantagem de Covas foi a certeza de podercontar com o apoio do governador.o PMDB . São Paulo. No seu estilo de governo. Em virtude de elevados subsídios por parte da União e do governo estadual ele conseguiu não ficar demasiado para trás no tocante aos indicadores sociais dos governos Covas e Luiza Erundina.8 7. São Paulo.8 23.9 4.7 - 1988 1992 1996 24. adotada pela administração petista. caso não quisesse criar graves obstáculos ao seu trabalho.SOMA 15 12 13 12 5 15 13 10 PT 8 3 4 diversos partidos de esquerda ESQUERDA .SOMA 5 23 16 14 (1) Até 1992: PDS Fonte: www.gov. o governo de Covas definiu critérios de aferição para os governos subseqüentes. Na área social. Era estimado na periferia. com o objetivo de ”reduzir a distância entre o centro e a periferia” (PMSP et al. que fora presidente da república em 1960.106 cidade como prefeito nomeado pelo governador Montoro.seade. A sua desvantagem foi que segmentos do seu próprio partido .seade. inexistiam canais institucionalizados de cogestão cidadã.

0 57. descentralizar e aproximar do cidadão a administração municipal e o planejamento urbano. Pretendeu-se e. o candidato próximo de Maluf. A atividade de construção. foi a razão principal da vitória de Celso Pitta. O governo local tentou em vão institucionalizar determinadas formas de cogestão dos cidadãos. dos ricos. independentemente da sua orientação ideológica (Brant et al.0 19. O mesmo vale para o centro. assim por exemplo na área da tributação e da descentralização. Por isso o projeto para o Estado de Fernando Henrique Cardoso foi. que não pôde impedir a eleição do seu arqui-inimigo Paulo Maluf (PPB). Com exceção de 1992 foi observado um forte declive entre ricos e pobres. a sociedade civil paulistana necessariamente deve estar fortemente fragmentada em virtude da separação sócio-espacial das várias classes.1% dos eleitores votaram em Fernando Henrique Cardoso e apenas 14% em Lula.4%. e. Sobretudo antes da posse de Fernando Henrique Cardoso. Vila Maria. pequenos. Tabela 33). Tabela 31). ruído e proteção contra a ocupação excessiva das áreas por prédios. a distribuição dos resultados da eleição por bairros relativiza a tese da gratuidade ideológica no comportamento eleitoral dos paulistanos. os eleitores já se segmentaram de forma claramente mais simétrica: Cardoso recebeu 38. era um partido da periferia. ele conseguiu obter maiorias na Câmara de Vereadores. 1994. sucessor de Luiza Erundina. Ao passo que nos bairros pobres estavam em pauta. cada qual à sua maneira. medidas de urbanização como pavimentação de vias públicas. As associações de amigos do bairro. a ruptura se deu em 1998. o PT cortejou com intensidade bem mais nítida o PSDB. O grau de polarização da cidade de São Paulo se evidencia também na rejeição dramática do metalúrgico Lula nos bairros residenciais ricos de São Paulo. serviam para obter melhorias para o respectivo bairro. F). Em virtude da circunstância de não poder tomar nenhuma medida de impacto. por fim.107 partidos de centro-esquerda. No entanto. sendo que a proporção de votos era. Tabela 32). Em São Miguel Paulista. em São Paulo. embora devessem ser classificados quanto à sua ideologia como partidos de centro (cf. o que reflete o aumento da sua orientação na direção do eleitor culto e com isso.1 14. mas com publicidade maciça. eram populares entre os ricos. existentes em todos os bairros residenciais. indubitavelmente apoiado sem reservas pela classe alta. Não se deve esquecer nesse contexto que os diferentes grupos também eram. segundo bairros selecionados do município de São Paulo. em grandes obras. 72.4 41. Santana. escolas ou hospitais. sucessor de Quércia. implicitamente. A rejeição da des-ordem estava amplamente difundida.4%. o que é um indício da sua pronunciada consciência de classe (Tabela 30). Mas projetos importantes fracassaram diante da resistência da câmara. via de regra. Novy 1994: cap. o primeiro plano era ocupado nos bairros ricos por questões de qualidade de vida. Com efeito. Em Jardim Paulista. A direita era mais forte nos bairros de classe média do que nos bairros ricos e mais fraca nos bairros pobres. nas eleições para a prefeitura venceram sempre candidatos que eram oposição ao governo municipal.3 Jardim Paulista Santana Vila Maria Itaquera 107 . Isso mostra que o PSDB e o PMDB pertenciam a meios políticos fundamentalmente distintos. capazes de articular ou impor os seus interesses. Lula 27. projetos na área social (setores da saúde e habitacional). A base eleitoral do PT continuou claramente estruturada em termos de espaço social (cf. nas eleições de 1996. a orientação para o tráfego individual motorizado e a criminalidade crescente levaram a um esvaziamento do espaço público. Mário Covas (PMDB) foi sucedido por Jânio Quadros (PTB) que teve de passar a prefeitura a Luiza Erundina (PT). inteiramente dependente do seu padrinho Maluf (FSP de 8 de maio de 1998). o dobro nos bairros pobres do que nas regiões ricas.4 53. A sua política populista de direita consistiu na privatização de empresas municipais.7 19. Os baluartes da esquerda são os bairros pobres. em corrupção. que continuava orientado para o desenvolvimento. sendo que Jardim Paulista representa o tipo de bairro mais rico. Em uma cidade dessarte cindida. As muitas mudanças de poder na cidade eram explicadas com a insatisfação com o sistema político e a tendência dos paulistanos de votar sempre na oposição. canais. em números redondos. desde 1988 no PSDB. visível em muitos lugares estratégicos da cidade. Mas Pitta teve o mesmo destino do que outrora Fleury. Ao passo que Fernando Henrique Cardoso e José Serra. Mas em 1996 Maluf conseguiu quebrar essa regra e eleger seu Secretário da Fazenda para a prefeitura. A maior parte dessas medidas foi inicialmente boicotada pela Câmara dos Vereadores e depois abandonada ou revogada a partir de 1993 por Paulo Maluf. Santo Amaro e Cidade Ademar são exemplos de cinco tipos distintos de bairros. bairro da periferia. era um ”fantasma políticoadministrativo”. Os bairros Jardim Paulista. Maluf e Pitta puderam vencer quando a direita eliminou essa fraqueza (cf. um dos bairros residenciais mais ricos. primeiro turno Cardoso Lula 72. Depois de repetidas críticas de Maluf ao governo municipal. 1989: 188 ss. o PMDB populista.g. Os movimentos sociais foram incluídos nos processos decisórios (cf. Tabela 30: Resultados de Fernando Henrique Cardoso e Lula nas eleições presidenciais. Além disso. Pitta acabou sendo um dos prefeitos mais impopulares. Pitta saiu do PPB. Sob o governo do PT as fronteiras entre o Estado local e a sociedade civil progressista desapareceram por quatro anos.).7 25. Este continuava sendo de modo apenas restrito um ponto de encontro da sociedade política e civil.

2 9.6 Santo Amaro 19.4 Vila Maria 26.2 40.2 22.5 Total 19.2 12.1 Santana 17.5 Fonte: www.0 24.br (14 de abril de 1999) Tabela 31: Resultados dos candidatos da direita nas eleições para a prefeitura. o PT elegera um candidato muito popular para a Câmara. 1985-1996 Quadros Maluf Maluf Pitta PTB PDS PDS PPB 1985 1988 1992 1996 Jardim Paulista 38. segundo bairros selecionados do município de São Paulo. a prefeita.8 27.2 14.3 27. tendo.2 16.seade.2 Total 50.2 Santo Amaro 35.9 29.5 18.6 Santana 34.5 24. 1985-1996 Suplicy Erundina Suplicy Erundina PT PT PT PT 1985 1988 1992 1996 Jardim Paulista 11.3 44.7 42.7 8.8 Cidade Ademar 29.6 8.3 28.5 17.5 31.4 Cidade Ademar 29.6 27.br (14 de abril de 1999) Na Câmara dos Vereadores a esquerda contabilizou uma vitória à maneira de uma avalanche em 1988.6 13.7 23.8 20.4 18.1 Santo Amaro 35.2 27.4 22.5 37.7 48.9 53.7 20.3 23. segundo bairros selecionados do município de São Paulo.gov.6 Fonte: www.1 28.4 Total 34.3 18.seade.0 18.0 Vila Maria 48. Na pessoa de Eduardo Suplicy.8 13.8 Fonte: www.8 14.4 Total 37.7 18.1 43.gov.5 Vila Maria 16.0 46.2 9. ele foi desde 1992 a força determinante no Executivo e Legislativo.7 22.4 12. ele perdeu cada vez mais em importância.7 27.3 11. pois um vereador ou uma vereadora representa 181.1 9.3 Santana 40.0 Cidade Ademar 26. Se compararmos os dez candidatos respectivamente mais 108 . Apoiado na popularidade de Paulo Maluf.seade. Por outro lado. Em termos de legislativos municipais.0 50.5 8.9 Fonte: www. o PPB preencheu esse vácuo.7 29.br (14 de abril de 1999) Tabela 33: Resultados dos candidatos do centro nas eleições para a prefeitura.7 27.108 Cidade Ademar 44.gov.640 votos (Melo 1996: 17).gov.8 14. por conseguinte. muita influência. na de Luiza Erundina. 1985-1996 Cardoso Leiva Aloysio Serra PMDB PMDB PMDB PSDB 1985 1988 1992 1996 Jardim Paulista 36. a Câmara de Vereadores de São Paulo é uma organização extremamente centralizada.1 26.9 31. Mas esse deslocamento em benefício da esquerda não foi duradouro.7 15. Embora o PT continuasse sendo sem contestação o segundo partido mais forte.br (14 de abril de 1999) Tabela 32: Resultados dos candidatos da esquerda nas eleições para a prefeitura. segundo bairros selecionados do município de São Paulo.3 42.3 41.seade.8 23.

Novy 1998: 367. hospitais etc. o município recebia mais uma verba. Tatuapé e Moóca. Itaim Paulista e Guaianases. as cooperativas de saúde estavam obrigadas a assumir os cuidados integrais do membro. Mas a intenção do governo municipal era precisamente mostrar isso. eram de fato assalariados.seade. Do ponto de vista quantitativo o sistema de saúde melhorou sensivelmente. que concedia os mesmos direitos de um seguro privado.seade. e conselhos de saúde como órgãos de cogestão no interior das unidades organizacionais (postos de saúde. deve-se mencionar nesse contexto o programa de descentralização do governador Montoro. Vila Maria. atualmente PPB. Com o PAS objetivava-se possibilitar aos grupos privados o acesso ao sistema de saúde pública e institucionalizar a concorrência entre os ofertadores privados e públicos.br. Capela do Socorro.) institucionalizaram os canais de participação. Essa execução descentralizada fomentou a participação de conselhos de saúde e possibilitou aos cidadãos a participação in loco.br. os juízes declararam a compatibilidade do PAS com o SUS em termos puramente formais. portanto. na segunda. Na seqüência. fomentado e também controlado pela sociedade civil. na quarta.34 Pouco depois da vitória nas eleições. Mas a implementação concreta estava em contradição crassa com o espírito da Constituição Federal de 1988 e o direito à saúde. que atuavam regionalmente. 109 . Butantã e Santana. Indianópolis. Ipiranga e Santo Amaro. o que visava a minimização de faltas no trabalho. Em 1989 200. no qual o governo assumiu a co-responsabilidade também nesse setor. Apoiados pelo governo estadual e no âmbito de um programa nacional. foram elaborados no plano local juntamente com esses postos regionais ”planos municipais de saúde”. Os cooperativados. 34 No entanto.gov. apoiado por médicos engajados e pela Pastoral da Saúde da Igreja Católica. Jardim Paulista.gov. Quando tudo estava em dia. Do lado da sociedade civil o movimento pela saúde. Ao passo que a preferência acabou se impondo com 11-16-16-13-10 nos velhos bastiões da pequena-burguesia. A população podia inscrever-se em uma cooperativa da sua escolha. isto é. A argumentação afirmava que o sistema não seria financiável na sua forma atual.000 pessoas participaram das eleições para esses conselhos (cf. isto é. o PMDB não venceu nas regiões mais ricas e aumenta depois a sua presença continuamente. De início a satisfação da população diante desse seguro ”público” contra doenças. Ele impulsionou a municipalização do setor de saúde. Em 1995 o governo apresentou finalmente um projeto de saúde radicalmente novo. Na primeira região (mais rica) classifiquei Vila Mariana. na terceira. foi grande. para obter com 11 candidatos nas regiões mais pobres a pontuação mais elevada. Para uma interpretação detalhada cf. A criação do PAS foi uma medida que tomou como ponto de partida a crítica generalizada do status quo intolerável e de exigências feitas cedo pela esquerda no sentido de uma descentralização e autogestão. Os estados e municípios reconquistaram a sua importância apenas nos anos 80. Havia um conselho municipal de saúde para cada cidade. Maluf ganhou as eleições com a promessa de reduzir a burocracia do setor público. serviu de arcabouço organizacional sobre o qual o governo do PT trabalhou nos anos de 1989 a 1992. com 33 Baseado em www. começaram a aumentar as queixas sobre o tratamento deficiente dos pacientes e do pessoal e as queixas sobre as dificuldades financeiras da administração municipal de cumprir os seus compromissos diante das cooperativas. que a partir disso tinha o direito de receber por pessoa o valor de R$ 10. o pessoal do PAS. Novy 1994: 373). foi constatado de forma mitigada nas eleições para o Legislativo. as fraquezas do partido puderam ser reduzidas nos bairros pobres (www. O declive entre as regiões. O sistema funcionava analogamente aos seguros privados contra doenças. o PAS (Plano de Atendimento de Saúde). No âmbito da cooperativa os médicos eram pagos por serviço. de uma forma de descentralização e da combinação de elementos privados e públicos de disponibilização do serviço. A Secretaria de Estado da Saúde assumiu os postos regionais e criou 65 unidades novas. só que nesse caso o município assumiu o financiamento. no curso da democratização. Na práxis as cooperativas funcionavam como empresas e eram controladas por grupos privados. Pessoas não-domiciliadas em São Paulo não tinham nenhum direito ao serviço. Na campanha de 1996 Maluf pôde vangloriar-se com a inovação organizacional de uma iniciativa orientada para a qualidade e provar a sua competência na área social. razão pela qual o PT tentou contra-arrestar essa tendência por meio de uma contribuição mais elevada com recursos da própria prefeitura. os municípios eram responsáveis pela execução. na quinta. Esse sistema. Tratava-se.33 Nos bairros mais ricos. O segredo do sucesso do PDS.00 por mês. julho de 1997). São Miguel Paulista. Lapa. correlacionei quinze bairros a cinco tipos de regiões e registrei em cada um desses bairros a filiação partidária dos dez vereadores localmente mais votados. Com 3-5-3-8-7 a tendência aumentava na direção das regiões pobres. cumpriu um papel importante.109 votados em cada região conforme a sua filiação partidária. Do lado do Estado. Tanto os atores estatais quanto os da sociedade civil eram importantes no setor de saúde. Sob o seu sucessor Paulo Maluf a situação se agravou dramaticamente. A falência do Estado assim documentada justificou abrir também os setores da educação e saúde à iniciativa privada. Comissões de saúde enquanto organizações da sociedade civil. e a grande diferença com relação ao passado esteve na sua homogeneidade regional. que não pôde ser observado no PT nas eleições para o Executivo. criado pelo PMDB e exigido. Por sua vez. A cada trimestre os resultados e as contas eram examinados pelo governo estadual. mas a partir de 1991 os municípios sentiram a diminuição dos repasses do governo central. As medidas de economia no setor de saúde levaram em 1994 a situações insuportáveis. a amostragem escolhida revelará que o PSDB venceu nas regiões ricas 17 vezes e nas três outras regiões somadas apenas 10 vezes.

No tocante à situação habitacional os proprietários de terrenos lograram maximizar os seus ganhos de valorização e socializar os custos da urbanização. A crítica ao Projeto Cingapura dirigiu-se também aqui contra o estilo autoritário que não envolvia os moradores afetados na tomada das decisões. Já que até 24% do custo total correspondiam à despesa com a arrecadação das passagens. denominado ”maior projeto social do país”. Num segundo passo as condições de vida na favela eram melhoradas.. 3% de todas as favelas do município). visava a urbanização de 47 das 1900 favelas de São Paulo (em números redondos. Antes do levantamento das casas de vários andares eram realizadas as necessárias obras de infraestrutura e urbanização da favela. 110 .00.110 presença obrigatória e a inserção em uma hierarquia rígida. Para habitações de 42 m2 os moradores tinham de pagar uma espécie de aluguel no valor de R$ 57. Possibilitava-se aos moradores das favelas a aquisição de um título de propriedade de terra. em seguida os novos moradores exerciam pressão sobre o governo municipal para que este disponibilizasse a infraestrutura. para as quais a solução do problema das favelas quase sempre consistira na demolição das mesmas. a verticalização tinha por objetivo aumentar o espaço habitacional disponível. O PT ocupou-se com os diferentes aspectos do problema habitacional. Pitta construiu em 1997 3. 36 Slum Clearing é a melhoria de um bairro degradado (slum). cujo financiador mais importante foi o setor de construção civil.35 As empresas imobiliárias vendiam apenas alguns lotes e retinham outros. o governo dedicou também atenção ao espaço público.479. o direito de não ser expulso. Por fim Luiza Erundina aproveitou uma estratégia de Mário Covas e uma antiga exigência do movimento pela casa própria.). sobretudo ao lado das principais vias de tráfego e na proximidade dos Shopping Centers e de outros pontos muito freqüentados. No quadro de uma política de espaço habitacional integrada. Um elemento decisivo da estratégia malufista baseou-se. concebido em analogia a experiências feitas em Cingapura. O ”Projeto Cingapura” retomou uma exigência central do movimento pela casa própria e da esquerda. a saber. No curso da democratização acirrou-se a crítica a uma política fundiária que privilegiava os titulares de rendas. fortemente apoiado pela Igreja Católica. evitando-se assim o método muito criticado do slum clearing36.803 favelados em São Paulo. no princípio do primado da qualidade sobre a quantidade. a construção da casa própria sob o lema da ”ajuda para a auto-ajuda”. na qual fora propagada. Esse projeto distinguia-se das estratégias convencionais de governos conservadores em São Paulo. Ao mesmo tempo o governo municipal interrompera todos os outros programas de construção de habitações. Ele foi essencialmente responsável pela vitória eleitoral de Luiza Erundina. O planejamento urbanístico da década de 1920 optara pela mesma estratégia também para os cortiços no centro da cidade. Esse projeto. foi apresentado como solução do problema das favelas. reformas qualitativas estavam na ordem do dia. A expulsão das camadas baixas do centro da cidade deslocou os problemas sociais para a periferia. sobretudo a construção em regime de mutirão.901. Depois disso ter ocorrido. as empresas vendiam os terrenos remanescentes por um preço muitas vezes acima do original. Criaram-se habitações alternativas para o período da construção. buscou-se legalizar as habitações já existentes. Além disso havia no transporte público uma concorrência entre a empresa municipal CMTC (Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo) e as empresas particulares de ônibus. a saber. Isso representa uma forma de renda básica local e teria ajudado sobretudo os pobres. O resultado é a entrada de novos moradores e a expulsão dos moradores do bairro para outras áreas. Por um lado. A administração da CMTC era um dos maiores desafios do governo do PT. Nesse tocante a urbanização das favelas foi a estratégia mais importante. à criação de parques e praças. Em virtude da crise do PAS alguns módulos começaram a reduzir os salários dos cooperativados (FSP 8 de agosto de 1997) e um hospital inaugurado durante a campanha eleitoral foi fechado (Muggiati 1998). os custos por unidade habitacional foram reduzidos em até 40% (Novy 1994: 309 ss. esta também não foi implementada (Singer 1996: 137-160). Aqui o governo municipal propôs um financiamento por meio do aumento do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano). Nos anos 80 o movimento dos sem-terra. foi um dos movimentos sociais mais importantes na periferia de São Paulo. como no governo federal. que utilizam especialmente os meios de transporte público. Por meio da contribuição própria. O programa da ”construção habitacional em regime de mutirão” foi violentamente criticado por Maluf.450 habitações: não havia nenhum nexo entre o problema e a sua solução (Bonfim 1998)! O PT fez a tentativa de introduzir a tarifa zero nos transportes públicos. Muito pelo contrário.000 habitações e construiu 10. Como a maioria das medidas que visam uma redistribuição. Em meados dos anos 90 havia 1. O ”Projeto Cingapura”. mas sem a proteção das leis trabalhistas. em virtude da ocupação fragmentada e da retenção de numerosas áreas. para cair até 1960 para 24 habitantes/ha (Aguerre 1995: 110). consubstanciada no trabalho. justamente sob a ditadura militar. Por isso 9000 unidades habitacionais estavam construídas apenas pela metade. Foram realizadas várias greves que 35 Na época do primeiro crescimento espectacular da cidade (1900 a 1922) a densidade demográfica caiu na parte urbanizada da cidade de 110 habitantes/ha para 47 habitantes/ha. teria sido necessário subsidiar apenas um valor bem mais reduzido. 368 ss. a construção da casa própria como solução dos problemas habitacionais da maioria pobre da população. Também aqui uma política habitacional própria constatava inicialmente que o velho sistema fracassara e inovações radicais. Maluf prometeu 120. A relação com o sindicato controlado pelo PT sempre foi conflitiva.

Com as receitas assim arrecadadas deveria ser criado espaço habitacional para as camadas baixas. A partir desse período as empresas receberam somente 20% do seus custos reembolsados em proporção ao número de passageiros transportados e 80% do pagamento total em proporção à distancia percorrida. depois que a administração municipal atrasou os pagamentos (Huertas 1997). a administração municipal definiu uma quantidade de área a ser construída por região. Os direitos de utilização para um aproveitamento mais intensivo seriam vendidos pela administração municipal a particulares interessados. Mas as concessões exigidas por Maluf do setor imobiliário não se aproximavam nem de longe dos montantes que o governo petista tinha objetivado reter. em números redondos. cabia ao órgão de planejamento urbano criar um espaço público no qual se pudesse discutir sobre a configuração da cidade. simplificando assim radicalmente a política de zoneamento38. Com a privatização o sindicato dos motoristas perdeu em grande parte o seu potencial de ameaça. não foi aprovado pela Câmara de Vereadores. 111 .39 Nos anos subseqüentes o alcance do mecanismo de uma simplificação radical do aproveitamento do solo foi compreendido mais pela direita do que pela esquerda. Isso não foi atraente para os moradores já estabelecidos. se a administração municipal fosse indenizada pelos custos infraestruturais advenientes. não foi possível implementar nem a versão originária com o seu efeito redistributivo claro. No lugar da fixação de zoneamentos deveria entrar em ação um mecanismo que permitisse utilizar o solo de forma mais intensa. Com a sua crítica do transporte público e especialmente também da CMTC. Na seqüência. Além disso. porque destinações individuais eram adaptadas em cada caso.não em último lugar. pois em fins de 1988 a nova constituição tinha sido promulgada. depois de feitas pequenas adaptações. pois este último tinha pensado em embolsar. mas não obstante entrou em vigor37. A ligação orgânica dessas empresas com Maluf estava amplamente documentada (FSP de 6 de agosto de 1997). O velho Plano Diretor datava de 1971. Assim teria surgido um mercado para o aproveitamento intensivo de terras urbanas. O modelo do PT consistiu em um reordenamento e uma simplificação integrais da destinação das áreas. Mas ele preservou a municipalização. Apesar de esforços intensos nesse sentido. mas ainda não tinha entrado em vigor.111 paralisaram a cidade. Com isso ele pôs termo ao arranjo institucional introduzido no setor de saúde com a criação do PAS. o então Secretário Municipal do Planejamento Paul Singer (1997: 27) credita isso menos à resistência do setor imobiliário. a sua eficácia foi extremamente reduzida . tiveram a significativa vantagem indireta de provocar uma valorização dos imóveis nas áreas abertas ao tráfego. pois ele permitia uma flexibilização das regras. a melhoria do arruamento vicinal etc. mas procurou realizar uma cidade melhor (cf. No decorrer das ”operações urbanas” já introduzidas pelo PT. 37 Isso foi possível. Mas as medidas fomentadoras do tráfego de automóveis. Castells 1983: 335-337). Maluf podia contar com o respaldo de amplas partes da população. O modelo implicava um único coeficiente aproveitamento para toda a cidade. o novo plano. mas para as empresas imobiliárias interessadas na implementação de grandes projetos. 38 O coeficiente de aproveitamento expressa a relação entre a área coberta e a área total. O mix institucional de ofertadores privados e públicos foi refinado por uma municipalização do transporte público. Em uma conjuntura nova. ele aproveitou a oportunidade para privatizá-la. Com isso visava-se reduzir a superlotação dos ônibus. conduziam automaticamente à sua aprovação. De acordo com essa concepção. A Secretaria Municipal de Planejamento (Sempla) do governo petista viu com razão que um reordenamento da destinação das áreas desempenharia um papel central em uma estratégia voltada para a inversão das prioridades. que recebeu um forte impulso com a construção de grandes projetos de avenidas. Por isso ela partiu de uma concepção de planejamento que incluía a questão da implementação de medidas. mas à resistência vinda das próprias fileiras. Justamente esse mecanismo foi assimilado por Maluf. Em 1997 não foram os motoristas que ameaçaram entrar em greve. definições de regras interessam menos do que medidas concretas. cujos efeitos em termos de técnica do tráfego foram visivelmente catastróficos. nem o princípio como tal (Singer 1996: 161-194). tais como a instalação de uma praça. por parte do Legislativo. o pagamento das empresas por quilômetro rodado. o abandono do transporte público por parte da administração municipal evidenciou-se no maior interesse em fomentar o transporte individual motorizado. de acordo com a qual a não-ocupação de iniciativas legislativas apresentadas pelo Executivo. em meio a uma nova relação das forças políticas no município. a flexibilidade com a qual o novo mecanismo foi tornado palatável para o setor imobiliário foi apresentada como inovação social. foram concedidas licenças especiais para os investidores contra uma contribuição especial ao erário municipal ou contra investimentos privados adicionais de interesse público. 70% dos lucros de valorização obtidos na especulação imobiliária. Eis um exemplo de como técnicas sociais podem suscitar um efeito contrário. Mas como os dois planos formulavam os objetivos visados e fixavam os zoneamentos. apresentado por Jânio Quadros. Esse enfoque de planejamento não se ocupou mais com a utopia da cidade boa. 39 Em sua retrospectiva. ”Via de regra”. Mas valia ainda a regulamentação do tempo da ditadura militar. isto é. mas os empresários. Ao invés de impulsionar a difícil tarefa de uma reforma da CMTC. A administração municipal petista de 1989 a 1992 estava comprometida com um planejamento democrático e não queria repetir os erros de um planejamento tecnocrático.

e depois de cada eleição se negociava duramente sobre quem poderia nomear que administrador regional.572. Nas tabelas a seguir os dados referentes aos diferentes governos municipais são apresentados alternadamente com fundo sombreado e fundo claro. Uma parte da sociedade civil. 112 . No setor educacional as despesas proporcionais apresentavam uma tendência para a queda tanto no governo de Jânio Quadros como no de Maluf. Faria Lima recebera em 1992 em Jabaquara 455 votos e conquistou. Publicou um livro próprio (Rolnik et al. mas ”à altura dos tempos” e ”empresarialmente eficientes”.41 Em contrapartida. depois de ter sido administrador regional. aceitando a sociedade civil como ator local autônomo. Tudo somado. As administrações regionais eram um elemento importante das estruturas clientelistas e serviam como esteios do sistema centralizado de poder. Montali 1994: 167). Nas administrações regionais praticava-se abertamente a política do ”é dando que se recebe”. o prefeito não eleito da transição a um regime democrático. no setor ”construções e instalações” esses dois governos apresentavam uma tendência ao aumento 40 Estina (PPB) recebera em Capela do Socorro em 1992 6. A concessão de cargos segundo critérios puramente pessoais produziu em toda a estrutura administrativa uma fragmentação e ”privatização do Estado”. que se subordinava em ampla escala aos desejos do Executivo. A partir de 1997 os conselhos comunitários deveriam controlar as administrações regionais. Esses gastos ficaram abaixo dos 25% de gastos no setor educacional prescritos na Constituição Federal ou dos 30% de gastos no mesmo setor definidos como obrigatórios na Lei Orgânica do Município.112 O governo petista iniciou já em 1990 um amplo processo de discussão sobre o desenvolvimento da cidade e o Plano Diretor. poder comprar da administração municipal um coeficiente de aproveitamento mais elevado (Sempla 1997). diante de uma lista de desejos cuja realização não seria possível sem mecanismos para dirimir conflitos. Abstração feita de um locutor de rádio. A repartição dos gastos totais evidencia uma clara diferença entre o governo petista (1989-1992) e os dois governos de direita antes (Jânio Quadros 1986-1988) e depois dela (Paulo Maluf. na qual as pessoas importantes da região precisavam ser atendidas. simpática ao Estado. mediante medidas de zoneamento. esses conselhos não se compunham de representantes eleitos pela população. temiam ser rodeadas por arranha-céus. cujo argumento central era utilizar as regiões centrais de modo ainda mais intenso. Se no plano discursivo freqüentemente é difícil compreender os interesses dos atores e as estratégias do poder.). a reeleição não enfrentava nenhum obstáculo. as possibilidades da troca política com o setor imobiliário também se flexibilizaram. Paiva (liberal) recebera em Penha em 1992 661 votos e em 1996 12. mas eram escolhidos pelo prefeito a partir de listas propostas por organizações locais da sociedade civil (clubes. e apenas em 1997 Celso Pitta apresentou um novo Plano Diretor. A oposição criticou a falta de uma discussão pública e o fato de que se estaria. A maioria dos vereadores se apoiava em uma base eleitoral com forte concentração regional. 1990). Mas os vereadores faziam valer a sua influência por meio do envio de pessoas de confiança a posições centrais da administração municipal. foi responsável por importantes ênfases na política em prol da democracia. bem situadas e próximas ao centro. estas se tornam meridianamente claras na análise do orçamento no caso de São Paulo. pois o zoneamento rigoroso podia. A política orçamentária de Mário Covas (1983-1985) apresentou semelhanças com a de Luiza Erundina. O orçamento paulistano é ’política fundida em números‘. no qual apresentou um diagnóstico da cidade que deveria servir de base para a discussão. ao passo que essa tendência era menos nítida nos setores da saúde e habitação. Se a administração regional trabalhava bem. O setor imobiliário deveria. ser substituído por um processo de barganha. se desejado. Mas no governo do seu sucessor Jânio Quadros esses enfoques participativos acabaram sendo esquecidos. Mas à diferença do governo petista. os vereadores mais votados nas eleições de 1996 detinham o controle sobre uma administração regional. Por isso as administrações regionais também eram tão importantes. pois o poder dos vereadores não consistia tanto na sua influência na Câmara. fortemente criticado. promovendo por assim dizer uma política de guetos exclusivos (Bógus. Paradoxalmente Mário Covas. a partir de 1993). Por outro lado. 41 Os gastos totais para manutenção e construção de escolas cifraram-se apenas em 4% dos gastos para a construção e pavimentação de ruas (Nardi 1998). o valor atingia R$ 327 milhões e teria sido suficiente para construir todas as escolas e creches previstas no orçamento e não-realizadas (Huertas 1998). A sociedade civil estava inserida nos processos decisórios por meio de comissões e conselhos.729 votos e em 1996 34. Zonas residenciais tradicionais. Maluf rompeu abertamente com a tradição do PT nas áreas da democracia e da cogestão. Mas com a apresentação do plano o governo municipal criou para si possibilidades de uma atuação flexível: por um lado a política convencional de zoneamento permite assegurar a elevada qualidade de vida de bairros residenciais simpáticos ao governo. pois elas ainda conteriam infraestrutura livre. para efeitos de maior compreensibilidade. 6116 votos nas eleições de 1996 (Novy 1998: 354 s.40 Alterações nessa esfera da estatalidade eram sistematicamente impedidas pelo bloco de poder.). O interesse central do governo petista foi institucionalizar a cogestão e descentralizar o poder. Sob o governo de Maluf a discussão morreu. mais uma vez. tinha o direito de controlar o conselho.767 votos. Estes não foram apresentados como autoritários e pertencentes à tradição da ditadura. segundo esse plano. empenhando-se por modelos organizacionais de natureza centralista. SABs etc.

1 40. A fama de ”construtor” de Maluf foi tão justificada como a do PT de ter sido o governo ”em prol da educação e da saúde”.5 15.6 16.1995.1 15. em % dos gastos totais.6 16.1 Construções e instalações Fonte: www.9 18.d.1 11.9 15.1995. segundo tipos de gastos.6 32.7 31.gov.6 33.6 31.6 30. 1980 .5 33.2 19. Nos setores da educação.8 31.473 3.7 8. Tabela 34: Despesas.2 15.9 6.2 13.3 9.0 15.0 9.4 27.2 32.535 4.6 2.4 28. 1980 .8 21.3 3.6 31.3 28. A política orçamentária do PT foi inversa.9 38.gov.1 16. Município de São Paulo.6 8.8 20.535 5.2 35.d.5 cota-parte do Fundo de Participação dos Municípios 14.4 9.7 12.1 39.473 gastos totais 449 509 652 536 501 678 795 903 830 635 723 829 educação 353 386 460 489 658 607 903 888 929 736 802 981 saúde 665 486 590 633 738 648 785 798 731 670 741 985 habitação 514 411 379 616 1.1 17.6 6.gov.1 28.469 425 649 451 639 760 762 1.8 receitas próprias 40.3 14. Em números absolutos.br (28 de julho de 1997) Tabela 35: Despesas. no governo de Maluf já se pôde constatar no ano anterior à eleição um aumento para 21.092 5.357 3.3 53.seade. em % dos gastos totais.2 42. em milhões de R$ (1996) 1980 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 3.7 26.479 5. segundo setores.7 4.786 3.6 38.2 15.2 53. Uma primeira referência ao estilo orçamentário populista da direita se pode ver na evolução do item ”construções e instalações”.1 11.7 10.9 27.2 26. 16.5 4.0 juros + amortizações 23.5 n.9 13.291 milhões de reais é impressionante.291 construções e instalações Fonte: www.seade.7 cota-parte do ICMS n.3 14.0 13.7 39.7 51.109 6.6 30. 1980 .4 12.2 6.9). No governo de Jânio Quadros a participação percentual no ano das eleições aumentou para 31 (de 15.0 26.8).4 7.6 20.1 15.0 8.2 saúde 19.3 15.1 14. 35.5 12.5 29.1 16.8 educação 10.5 receitas tributárias 17.2 28. posições selecionadas 1980 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 50.0 39.0 19.5 18.9 21. posições selecionadas.0 60.744 4.6 336.1995 1980 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 12.8 16. em % das receitas totais.2 25.d.8 38.9 21.1995 1980 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 23.1 (de 14.gov.3 13.5 20.7 10.6 28. a queda nos setores de saúde e educação durante o governo de Maluf não é tão nítida.4 investimentos Fonte: www.338 4.1 12.4 13.br (28 de julho de 1997) 113 .3 7. Município de São Paulo.4 16.d.7 Financiamento do crédito Fonte: www.7 7.5 16.3 24. 37.5 17.5 13.6 8. segundo setores. 1980 .4 14.9 36.5 15.br (28 de julho de 1997) Tabela 36: Despesas. Município de São Paulo.9 18.6 24.113 dos gastos.6 14.9 16.7 16.6 11.3 34.6 15.seade.0 14.8 7.8 23.2 IPTU 32.1 14.1 pessoal e encargos sociais n.2 10.5 23.0 21.8 14.1 14.9 43.9 31.3 31.2 35.5 16.7 48.9 33.2 habitação 14.908 4.6 7.seade.6 28.br (28 de julho de 1997) Tabela 37: Receitas.8 14.1 12.4 14.7 51. saúde e habitação a proporção aumentou e durante o governo petista os valores ficaram claramente acima dos dos governos direitistas.4 15. As empreiteiras estavam entre as empresas que deram as maiores contribuições para as campanhas eleitorais de Maluf.5 6. Município de São Paulo.5 42. já nas obras públicas o aumento de 726 milhões para 1.1 12. n.

com investimentos em áreas-chave do Estado.000 funcionários.000 nas empresas municipais ou em empresas terceirizadas (Huerta 1998).9% dos recursos previstos no orçamento. Até 1991 as receitas tributárias aumentaram nitidamente. Durante o governo de Maluf ocorreu somente do segundo para o terceiro ano um aumento de R$ 575 milhões para R$ 1. 33. Por isso Maluf se viu obrigado a recorrer na realização dos seus programas ambiciosos de obras públicas ao financiamento por créditos. foi responsável por uma redução da arrecadação tributária de 38. Tal política. ao lado de problemas de ordem fiscal.1%.000 maiores terrenos. Em 1996 o governo municipal pagou apenas 67.43 As relações de poder sofreram um deslocamento fundamental: da sociedade civil composta por cidadãos. herdados da administração de Paulo Maluf. o aumento dos municípios foi em média apenas de 31%. as cooperativas do PAS R$ 135 milhões. egresso da tradição de governos conservadores. Novy 1998: 359). O Secretário da Fazenda do Município indicou como razões da crise que as receitas do ICMS teriam regredido e que compromissos de curto prazo no montante de R$ 1. 44 A cidade pagava 156. Municípios que não aumentavam o seu quadro de pessoal não eram necessariamente eficientes. Desde 1997 Celso Pitta se defronta com sérios problemas financeiros. O PT foi o único governo que logrou reduzir o serviço da dívida. Em 1992 foi realizada uma campanha da mídia contra a proposta da administração municipal de tributar mais os 50. De início eles eram considerados problemas de liquidez. Maluf conseguiu iludir os eleitores. A participação dos impostos nas receitas chegou até a aumentar fortemente no governo de Maluf. Maluf apoiou esse boicote e beneficiou-se dele. revelou-se catastrófica durante a acumulação estagnante combinada com a política de juros altos.964 milhões! Já não admira mais que o governo Maluf também não tenha mais fornecido dados sobre o montante do seu endividamento ao instituto estadual Seade a partir de 1995. Elas estão estreitamente relacionadas com gastos nas áreas da educação e da saúde. na direção de algumas empresas que vêem o Estado como cliente mau pagador. razão pela qual o número de creches diretamente administradas caiu de 400 (1992) a 293 (1997). até dezembro de 1997 apenas 42. Essa é a estratégia típica de destruição do Estado e da sua capacidade de cumprir os seus compromissos.Além disso existe uma política de terceirização.000 pensionistas e 10. no entanto.42 A recessão no início dos anos 90 atingiu duramente a administração municipal. têm créditos a receber de R$ 330 milhões. considerado de central importância pelo governo federal. 114 . isto é. os operadores privados do PAS e as empresas privadas de coleta de lixo ameaçaram tomar medidas de combate. Mas uma vez eleito. As empreiteiras. Mesmo se o levantamento dos gastos com pessoal é difícil.1% a 25.44 Mas com base na reforma constitucional de 1988 valia sobretudo para os municípios que o custo crescente do funcionalismo estava relacionado com a responsabilidade crescente dos municípios (Melo 1996: 19). para evitar uma greve. foram efetuados sempre por meio de endividamento.000 na administração pública. Durante o governo do PT não houve nenhum ciclo eleitoral. Maluf terceirizou muitos setores (sobretudo os transportes). anulou apenas a forte preferência dada antes aos municípios menores (cf. as empreiteiras R$ 13 milhões. Mas mesmo em outras posições pode-se constatar diferenças importantes. 113. R$ 235 milhões oriundos do governo Maluf.114 A distribuição segundo tipos de gastos também revela diferenças claras. pode-se inferir as causas dessas despesas elevadas. os gastos com pessoal do governo petista foram nitidamente superiores aos dos outros. A estrutura das receitas apenas complementa o quadro já obtido. Como era de se esperar. também substancialmente para a deslegitimação do PT (Eder 1997: 168-172). foi muito baixo (Mare. o indicador dos custos de pessoal da cidade de São Paulo. perfeitamente costumeira em tempos de evolução dinâmica da economia. Mas nesse caso há uma diferença entre Jânio Quadros e Paulo Maluf. combatido pelos governos federal e estadual e pela parte conservadora da sociedade civil. foi que a reforma constitucional conduziu inicialmente a montantes mais elevados de pagamentos obrigatórios de transferência. embora façam negócios razoáveis com ele. Creches são obrigadas a fechar ou rescindem os seus contratos com o município por causa do atraso de pagamentos. ele não alterou em nada a política tributária de Luiza Erundina. Essa estratégia foi extremamente perigosa diante da política de juros elevados do governo federal. A administração municipal fundamenta isso com a flexibilidade maior.2 bilhões. 4 de outubro de 1997). São Paulo conseguiu assim aumentar a sua participação em 45%. entre outras também as do ”Projeto Cingapura”.103 milhões. razão pela qual os gastos de pessoal aparecem agora em termos meramente contábeis como pagamentos por serviços prestados por empresas privadas. 43 As empresas privadas de ônibus. O PT tentou ampliar o espaço de atuação local. Jânio Quadros. possibilitada por essa política. Mas em 1995 as receitas caíram em decorrência do ICMS na esteira da centralização pelo FES. A ocultação de dados orçamentários é parte essencial de uma política orçamentária irresponsável. Durante o governo de Jânio Quadros o financiamento com créditos aumentou nos três anos de R$ 234 milhões a R$ 976 milhões e finalmente a R$ 1. o que.4%. mas 42 No Estado de São Paulo. Os investimentos maciços feitos pelas administrações de direita. o financiamento com créditos permaneceu em nível baixo. deveriam ser pagos (Novy 1998: 360 s. caso o governo municipal não pagasse. A campanha desembocou em um boicote tributário extremamente eficaz que contribuiu. mas os problemas atingiram o seu sucessor com toda a dureza. mas eles se revelaram cada vez mais como crise de insolvência. para que o ”Projeto Cingapura” não parasse e as empresas de coleta de lixo R$ 30 milhões. As empresas de ônibus receberam R$ 20 milhões para não entrar em greve.6% das receitas globais do município. sobretudo no fim dos seus mandatos. A política fiscal rigorosa da esquerda contrastou com o ”populismo econômico” da direita.). que faz exigências ao Estado. A sorte do PT. Com 41. embora tivesse herdado um endividamento elevado de Jânio Quadros.

115 podem simplesmente ter negligenciado o setor da prestação de serviços públicos. 115 . até a compra superfaturada de galinhas de parentes de Maluf pela prefeitura e uma declaração de renda falsa de Pitta. A gama se estende de fraudes com títulos da dívida municipal. A administração petista reduziu-a a R$ 2. mas também na cidade de São Paulo os governos de direita forçaram o Estado para a armadilha do endividamento.3 bilhões (1989).gov. que custaram R$ 10.3 bilhões (1986) a R$ 8. 45 Paulo Maluf e Celso Pitta estão enredados em uma longa lista de acusações que foram em boa parte confirmadas ou nãorefutadas.7 milhões aos cofres da cidade. Em 1997 toda a dívida do município se cifrava em R$ 9 bilhões.45 Sob o governo de Jânio Quadros. Não apenas no plano do governo federal.2 bilhões (1993) (www.br de 14 de abril de 1999). Uma CPI do Congresso ocupou-se com a fraude dos títulos da dívida municipal que trabalhou com eficiência até o momento de Maluf retirar a sua candidatura à presidência.seade.7 bilhões (1992) e R$ 2. Depois as irregularidades foram registradas. ultrapassando assim o montante do orçamento municipal. mas os responsáveis pelas decisões foram exonerados das acusações mais graves (Novy 1998: 361). a dívida consolidada do município de São Paulo saltou de R$ 2.

que canalizou o excedente produzido in loco para a Europa. No curto prazo. A coroa portuguesa tentou deixar intocado o campo de poder. que apesar disso podem ser constatadas. nem na Europa nem na América. Controlar tais redes era mais importante do que trabalhar no próprio processo produtivo. O freqüente recurso à violência e coerção e a repetida mudança de regime seriam.mediante impostos. A Inglaterra tornou-se potência dominante. Mas o olhar sobre as crises e os seus atores exige uma análise da conjuntura.1 A lenta transformação dos campos do poder Antes da Independência em 1822 não há como falar de um campo autônomo de poder no Brasil. fenômenos de superfície conexos com o campo de poder construído sobre fundamentos incertos. Como o Brasil só podia influir de forma muito restrita no preço das matérias-primas e como além disso os preços oscilavam fortemente. o comércio mundial dominado pelas potências do centro determinou as estruturas locais de poder.periférica . foi necessário constatar a permanente sensibilidade a crises de acumulação e regulação. do ouro e do café era um ponto nodal determinado por uma instância externa: às vezes fortalecia. Enquanto houver burgesia. assegurar a ”ordem” dos privilégios estamentais hierarquicamente definidos. Como a forma estrutural da concorrência estava orientada para e 116 . taxas e monopólios. concebida como empreendimento político-econômico. organizados de modo autoritário-hierárquico e lugares da produção na colônia. Os excedentes gerados na colônia oxigenaram os centros do capital comercial da Europa Ocidental e financiaram o consumo de luxo dos favoritos da corte lisboeta. A análise em termos de teoria da regulação proveu-nos dos fundamentos necessários para tal fim. Esse espaço de entrelaçamento econômico era dominado pelo capital comercial internacional que monopolizava a importação e exportação de mercadorias. Por outro lado. surgiu a impressão de que nada estaria mudando no Brasil. a integração da análise da estrutura e da ação. Também aqui valia que o grande poder para dentro da unidade de produção açucareira enfrentava o reduzido poder para fora. O colonialismo constituiu a dependência política de Portugal e da sua nobreza. A conquista da América serviu à transferência transcontinental de riquezas. Por um lado. atribuiu-se ao Brasil uma posição subordinada . Nas profundezas da estrutura ocorreria apenas um ”desenvolvimento do subdesenvolvimento” (Frank 1969). A posição periférica do Brasil parece ainda reforçar as instabilidades do desenvolvimento capitalista. Assim as mudanças. Enquanto espaço de entrelaçamento. De início lançaremos um olhar sistêmico sobre a estabilidade do Brasil. 4. em outros momentos enfraquecia esses espaços. não haverá poesia” (”Burguesia” de Cazuza ) As explanações dos capítulos precedentes representaram os poderes sobre o espaço e os espaços de poder no Brasil. Os dois capítulos seguintes retomam a discussão sobre o desenvolvimento do Brasil e resumem-na com vistas à dialética de ordem e des-ordem. isto é. nem economicamente de uma margem de ação digna de menção. de acordo com o princípio de que alguma coisa deveria mudar para que tudo permanecesse como está. Nos diferentes sistemas de produção organizados à maneira de um arquipélago e orientados para a exportação. o preço do açúcar.na economia mundial. seriam apenas fenômenos de superfície. Como Portugal era fraco demais para realizá-lo apenas com suas próprias forças. restringiu-se a organizar o espaço de entrelaçamentos políticos necessário para o redirecionamento .116 4 O reordenamento da des-ordem ”A burguesia quer ficar rica. Mas a fraqueza externa de Portugal fez com que a supremacia territorial não se consubstanciasse na consolidação duradoura de seu espaço de poder. Os atores in loco não dispuseram nem política. relevando uma dialética de estabilidade e instabilidade na estrutura fundamental da des-ordem. por conseguinte. O palco local era formado pela fazenda e pelo engenho de açúcar. no processo de comercialização no mercado mundial. de que sempre os mesmos grupos estariam estabilizando com recursos sempre iguais o seu poder por séculos a fio. o ouro brasileiro da economia mineradora aliviou Portugal de medidas de adaptação na esteira da crise da cana de açúcar e seduziu o país a continuar desistindo de uma política de industrialização protecionista.

a segunda adaptou os entrelaçamentos transatlânticos à realidade pós-colonial. Por essa razão o campo regional de poder em São Paulo organizou-se menos econômica. O capitalismo comercial dos séculos precedentes transformou-se crescentemente num regime de acumulação dominantemente extensivo. A partir de agora a oligarquia agrária. aumentou a influência da Inglaterra nos orçamentos regional e nacional. Os governadores e os estados eram o ponto nodal político do poder. A visão do Estado enquanto protetor de interesses empresariais consolidou-se em forma institucional. Ao lado do comércio. em virtude do grande setor de subsistência. Pode-se falar de um bloco de poder regionalmente dominante somente no séc. a primeira levou à constituição da nação em estado-nação. estas.configurando uma causa adicional da dependência externa. Isso levou a uma mudança da forma concreta do capitalismo. os barões do café construíram regionalmente a sua posição dominante e lograram também subordinar a política do governo federal aos seus interesses. bem como foi impedido o surgimento de um modo de regulação estável. São Paulo era mais pobre e por isso tinha menos a perder em crises. estavam harmonizadas com a forma social e a sua posição na totalidade da estrutura capitalista. aumentou o papel do capital estrangeiro no financiamento do desenvolvimento. a formação de um bloco nacional foi impedida pela descentralização. baseou o seu poder nos planos local e regional cada vez mais na propriedade fundiária. mas também com a burocracia estatal. São Paulo ficava à margem dessas evoluções. por sua vez. Isso facilitava o controle político. no plano interno a acumulação foi dificultada. mas elas perderam em importância diante dos entrelaçamentos de capitais. um papel-chave também nessa fase. As empresas harmonizavam as suas próprias estratégias não somente com o mercado.117 dominada por fora. igualmente os entrelaçamentos creditícios mais estreitos com o exterior. A relação salarial foi igualmente regulamentada de forma essencialmente estatal. No Brasil a regulação nunca esteve 117 . baseou-se no exercício direto da violência. seja para capturar índios ou para manter os escravos trabalhando. com o açúcar e o café. os bandeirantes eram o grupo mais dinâmico. um grupo de homens de famílias influentes exerceu a dominação local em São Paulo. A influência política de fora para dentro do território precisava agora exercer-se de forma mediada por intermédio dos detentores nacionais do poder. XIX. pois os entrelaçamentos transatlânticos se concentravam no espaço que era capaz de produzir excedentes. Com isso mudou a estrutura da dependência. no poder das armas. tanto por parte das empresas quanto por parte dos trabalhadores. aumentou a dependência dos estados do capital britânico. Devido à reduzida complexidade do assentamento dos colonos portugueses. Na base da fragmentação política havia uma continuidade da dominância social e econômica do velho bloco de poder. o poder permaneceu personalizado por muito tempo. Bens de produção e instalações de infraestrutura foram criados. Os conflitos salariais tendiam à politização. No curso do séc. Com a evolução das estruturas capitalistas no Brasil e a expansão territorial das relações de mercado aprofundou-se também a dependência dos centros capitalistas. A ação reproduzia-se em lógicas institucionalizadas de ação. Subsistiram as relações comerciais que o grande comércio controlava e o Estado beliscava. já não mais proprietária de escravos. Isso se coadunava às mil maravilhas com a estrutura global. o capital cafeeiro permaneceu em elevado grau regionalmente controlado. pois o grande excedente regionalmente produzido ensejava uma margem de ação. de acordo com a qual a influência internacional direta devia se dar de forma primacialmente econômica. mas não produzidos no Brasil . quando a sociedade começa a diferenciar-se. Ele era controlado pelos barões do café. Mesmo na sua metamorfose em capital industrial e comercial. pela via das exportações e importações de mercadorias e do controle político de Portugal. Ao ingressarem na produção industrial nacional. O regime de acumulação extensiva permaneceu incompleto. um fordismo periférico. o fortalecimento do plano nacional postergado por 40 anos. Durante séculos. Com isso aumentou a dependência ”externa” dos atores no plano ”interno”. Com o fim do Império a estrutura territorial do antigo bloco de poder se alterou. A dependência externa deslocou-se do capital comercial comprador e vendedor de mercadorias na direção do capital financeiro que financiava o endividamento do Estado e investia diretamente na ampliação da infraestrutura. As relações capitalistas de produção in loco aumentaram. seja por intermédio do salário mínimo ou por intermédio do controle pelos sindicatos. Para esse tipo de acumulação política ele precisava atuar como Estado ampliado. Essa dependência foi mais reduzida na região cafeeira. Entre 1930 e 1980 constituiu-se um regime de acumulação estável e um modo de regulação relativamente estável. Em 1822 a Independência lançou as bases para que a dinâmica política começasse doravante a separarse da dinâmica econômica. Só tardiamente o mercado mundial passou a ganhar importância como instituição econômica central. A forma concreta era o corporativisimo estatal e a ocupação de posições no aparelho de estado por atores não-estatais. mas a dependência de São Paulo era menor do que a do Nordeste. mas primordialmente militar e politicamente. na região açucareira do Nordeste. XIX. Por um lado a Europa desempenhava. O estado-nação era o ponto nodal da regulação.

no entanto. porque controlava o setor-chave do capital industrial.g. 118 . ela impediu uma transformação na distribuição da terra. Por fim o valor do dinheiro foi fixado nacionalmente. por meio da violência estrutural do desemprego. isto é. No seu lugar estabeleceu-se um modelo competitivo. No entanto. A ”internacionalização do mercado interno” e o deslocamento conexo do controle para o exterior foram uma ameaça constante à reprodução da estrutura produtiva nacional. transferência de tecnologias e remessas de lucros. No campo nacional. 1 Se a moeda não cumpre as suas funções de guardar valores e ser critério de aferição do valor. primeiro como mercado interno. que lograram formar-se na esteira da abertura unilateral do mercado. por meio de investimentos diretos. o seu papel foi meramente defensivo. que no entanto concorriam entre si no mercado nacional. acoplado aos interesses da burocracia estatal nacional. Mas no Brasil se viu que a moeda indexada também pode cumprir essa função. no qual a indústria de São Paulo era dominante. entrou no jogo. do mercado mundial para o mercado interno. A relação de concorrência era determinada nacionalmente mesmo para as empresas multinacionais. que foi em parte abertamente repressivo. e a partir dos anos 50 cada vez mais a indústria estrangeira.1 Com o modo de desenvolvimento centrado no estado-nação alterou-se a hierarquia. Isso levou a uma homogeneização da produção industrial no espaço nacional. São Paulo continuou dando as cartas. um lugar no jogo do poder. O capital paulistano logrou consolidar a sua supremacia no mercado nacional tanto sob regimes democráticos quanto sob regimes ditatoriais. depois como sistema de produção. Esse foi um modo de regulação que se distinguia fundamentalmente do fordismo periférico e foi implementado nos últimos anos com uma rapidez insuspeitada. de modelo burocrático de government para modelo descentralizado de governance. Esta foi a forma irracional da luta de classes que era compatível com a estrutura concreta da des-ordem. mas não a composição do bloco de poder que se servia desse campo. Com a ”internacionalização do mercado interno” adquiriram importância aquelas empresas multinacionais que tornavam permeável o recipiente do poder autônomo nacional. A fixação do salário mínimo assegurava apenas um salário de subsistência. pela primeira vez na história brasileira. apenas da imitação de uma ruptura já efetuada em todos os outros países latino-americanos. O mercado interno estagnou e o comércio exterior não aumentou suficientemente para dinamizar o desenvolvimento industrial. dominado pelo regime financeiro. Com o Plano Real o bloco dominante encontrou um novo arranjo institucional que abrangia todas as formas sociais da regulação. Pôde tornar-se centro do espaço do poder nacional. sobretudo a paulistana. Sobretudo o populismo ampliou as margens de ação para processos de trocas políticas das classes baixa e média. orientada para o mercado interno. Desde 1956. Essa regulação estatalmente controlada prestava-se sobretudo a regimes ditatoriais. quando a moeda nominal já não pode mais fazê-lo. na dominação maior do mercado nacional pelas empresas paulistanas. Por fim o modelo corporativista-autoritário da organização do trabalho entrou em colapso. Ambas as vezes São Paulo fortaleceu a sua posição central. o acoplamento de aumentos de produtividade e evolução do salário real. Ganharam influência os interesses de capital orientados para o mercado interno. mas adquiriram. essa lógica da produção e do comércio de mercadorias para o mercado interno foi gradualmente minada pela transferência de tecnologia e sobretudo pelo financiamento externo. encontrando-se para a inflação uma resposta institucionalizada na indexação. mostrava-se e. praticamente inexistiu no Brasil. o Brasil usou assim o seu espaço de ação para desistir de uma estratégia autônoma e inserir-se num movimento mais amplo. A moeda foi regulada privadamente pelos mercados financeiros internacionais e o Estado foi reestruturado. mas produziu em grande parte um deslocamento do poder na direção do capital. mas em regimes democráticos a regulação estatal sempre provocou resistências maciças do empresariado. O campo dos serviços financeiros tornou-se cada vez mais importante. começou a perder importância. São Paulo começou mais uma vez a redirecionar o seu comércio exterior regional. afastando-se do mercado interno na direção do mercado externo. sobretudo do capital industrial representado pela FIESP. A concorrência não foi mais determinada pelos oligopólios nacionais no mercado fechado. típico para países industrializados. Como novo grupo determinante a indústria nacional. Tratava-se. A lógica de ação das empresas. Promovia a integração nacional. A classe trabalhadora e a camada média não faziam parte do bloco de poder. estruturado de forma oligopolista. Mais uma vez a oligarquia agrária pôde garantir o seu lugar nesse bloco social concebido como pacto de não-agressão. mas por oligopólios dominados de fora. Nessas décadas São Paulo voltou-se de ”fora” para ”dentro”.118 vinculada unicamente a relações fordistas de trabalho. a forma social corre perigo. a expensas de outros capitais regionais. Os entrelaçamentos econômicos em vias de internacionalização abriram à cidade de São Paulo a possibilidade de constituir-se em centro de controle e decisões. A partir de 1974 o campo de poder econômico do mercado interno.

2 A imponderabilidade do instante Numa primeira rodada examinei. Isso explica em parte por que os grupos dominantes se aferram teimosamente a privilégios e por que existe uma grande solidariedade entre as diferentes frações do capital. Em uma guerra de dois anos a nobreza rural foi derrotada. O Estado. A estrutura do capitalismo europeu em vias de formação ameaçou Portugal similarmente à América. as viagens de descobrimento e o colonialismo tornaram-se um empreendimento estatal. destinados ao processo de produção na Europa. Quis transformar em nova rainha a sucessora legítima ao trono. 115 anos antes da conquista do Brasil. Geograficamente. que no entanto era aparentada à casa real espanhola. mas apenas crises conjunturais (Fernandes 1987: 262). o capitalismo brasileiro é de difícil regulação. o nó do poder estava agora na corte. Assim uma análise da conjuntura une momentos aparentemente separados. Na pauta estão sempre a contraditoriedade do desenvolvimento. Era necessário adiantar grandes somas de capital para financiar uma expedição que depois do seu retorno talvez . 1). os senhores locais dominavam o espaço de poder das suas propriedades rurais e eram de resto periféricos na topologia do poder. a des-ordem da periferia. Qualquer poder duradouro somente podia ser constituído em termos econômico-políticos. Com suas espadas e caravelas eles abriam caminho para o intercâmbio transatlântico. A demanda de financiamento e o elevado risco exigiam uma organização desse empreendimento em termos de capitalismo de Estado. os comerciantes portugueses e aqueles comerciantes que atuavam em Portugal perceberam logo que sem a sua inserção na corte o seu sucesso econômico não seria duradouramente exitoso. Florestan Fernandes se vê inclusive levado a não reconhecer na história mais moderna do Brasil rupturas estruturais. a aparente irracionalidade dos atores e os resultados irracionais. Mas como o poder estatal estava concentrado nas mãos do estamento palaciano. fundando-se a Dinastia de Avis (1385-1580). em uma palavra. Os navegadores portugueses eram guerreiros e aventureiros. mas não a posse da terra. eventos regionais e nacionais. Essa técnica do poder constituiu o patrimonialismo como forma de Estado distinta do feudalismo (Faoro 1997. A América forneceu os recursos materiais. Desenvolveram aqui técnicas de dominação que fizeram afigurar-se suportável aos grupos dominantes in loco o seu papel periférico em termos mundiais.). Por isso os donos do poder em Portugal especializaram-se cedo no campo do poder político. No plano econômico Portugal praticamente não conseguia opor nada ao processo da ”destruição criadora”. Por sua vez. Ao foco econômico da análise estrutural foi contraposta a ênfase em processos políticos na análise do palco do poder construído sobre um campo de poder. não os produtores portugueses. O rei governava soberanamente e controlava os pontos nodais do poder sobre o espaço. foi utilizada agora para enfraquecer duradouramente a nobreza rural. este precisava participar das receitas do comércio ultramarino. A civilização européia e a cultura ideal e material foram embarcados para ultramar. O poder dos agentes da economia. Devido ao seu estatuto perifério. com regras próprias e sem ligação com o povo. A nobreza rural buscou estender seu poder econômico ao campo político. Agora esses dois enfoques serão reunidos em uma análise da conjuntura. com os governados (Faoro 1997: 93 s. Cedo ficou evidente a necessidade de uma ordem militar-administrativa para organizar a 119 . os produtos primários e os metais preciosos. Este. representado por esse novo estamento palaciano. fossem eles banqueiros. que se tornaram o estamento dominante em Portugal (Faoro 1997: 45). que era em si contraditória e subtraía à nobreza rural a propriedade. Contra tal se armou a resistência. A primeira grande cesura que influiu na via evolutiva brasileira por vários séculos foi a revolução portuguesa de 1383/85. a ação e a estrutura. Nesse dado está a raiz da sua periferização na Europa. amparada no argumento da defesa da soberania nacional. obedecia cada vez mais a uma lógica do capitalismo comercial. A primeira impressão dos portugueses foi a de um universo idílico. tornou-se o ator-chave do desenvolvimento econômico. que beneficiaram a burocracia palaciana. para tornar consciente a multiplicidade espacial de um momento histórico. A força de Portugal sempre foi de natureza militar-política.119 4. por meio da análise estrutural. Mas essa impressão perdurou pouco (Faoro 1997: 99-104). como fases evolutivas subseqüentes. Nos séculos da dominação portuguesa essa des-ordem foi também implementada no Brasil. A Lei de Sesmarias de 1375. o poder sobre o espaço e o espaço de poder em termos cronológicos.frise-se: talvez . pois uma conjuntura é um determinado tempo espacial no qual coincidem a política e a economia. permaneceu restrito. cap. Tirou partido dessa posição para dinamizar o comércio. artesãos ou simples camponeses. quando a inserção da África e da América na economia européia estava na ordem do dia. Assim o aparelho burocrático de Estado institucionalizou-se como minoria alheada da nação. As análises de estruturas e de ações e a representação separada dos diferentes planos espaciais são traduzidos para uma análise simultânea. Portugal encontrava-se em posição vantajosa diante dos países mediterrâneos.se revelasse um negócio altamente lucrativo. razão pela qual os eventos e as estruturas descritas nos capítulos precedentes agora podem ser representados de forma integrada. A aristocracia territorialmente enraizada foi marginalizada. comerciantes. por sua vez. no rei e nos funcionários e nobres palacianos.

O capital comercial transferiu os lucros para o Noroeste Europeu. esse eficiente empreendimento da transferência de recursos para a Europa serviu apenas para fortalecer a des-ordem estamental parasitária. Em Portugal. Os interesses locais de produção.120 colonização dos trópicos como grande empreendimento comercial. Pedro. A decadência da economia colonial na segunda metade do séc. Sem as lideranças antigas e com uma série de atores locais novos. pagos com a exportação do seu produto principal. XIX. por sua vez. que interrompeu o desenvolvimento industrial de Portugal (Furtado 1975: 78 s. Além disso funcionários públicos específicos tinham competência para cobrar taxas e impostos alfandegários. receberam apenas uma posição subordinada no campo de poder. os representantes dessa classe se tornaram os atores centrais no séc. XVIII reforçou os conflitos sociais e políticos. contudo poder influir no poder sobre o espaço.000 a 110. O governador era a primeira representação territorial do poder político no plano espacial que haveria de ser mais tarde a nação. mesmo se o próprio país praticamente não gerava riqueza (Faoro 1997: 116 s. O zelo revolucionário orientado nessa direção logo se volatilizou.). Por meio da doação grandes áreas de terras foram transferidas como unidades administrativo-burocráticas ou capitanias aos favoritos para fins de utilização.). à qual o barão do açúcar não tinha acesso. O preço de escravos. Um espaço de poder enquanto unidade autônoma. celebrado com Portugal em 1703. Senhores absolutos in loco. a velha ordem colonial desmoronou. A aristocratização vertiginosa foi típica para a rápida mudança de mentalidade da burguesia (Faoro 1997: 287). sem. O endividamento do rei junto às casas comerciais estrangeiras tornava-o dependente delas. pois eles importavam todos os bens de consumo importantes. ditada de cima para baixo. quase sempre. Na esteira do movimento independentista norte-americano a liberdade e democracia se afiguraram os fundamentos adequados do desenvolvimento americano.000 pessoas. O barão do açúcar dominava seu respectivo espaço de poder como proprietário de escravos e patriarca. mas por D. O grito de independência porém não foi dado pelo povo brasileiro. nas relações com o exterior. Posições antiportuguesas e liberais passaram a ser influentes nos grupos dominantes. sua população aumentou em apenas dez anos de 50. cuja sede passou a ser a partir de 1756 o Rio de Janeiro. Quando o Brasil se tornou cada vez mais importante para Portugal. não obstante o seu monopólio político. No período de florescimento da economia açucareira ele foi rico. correspondeu aos interesses mais intrínsecos da corte que fugira de Portugal (Pessoa 1983: 24). que fundou uma monarquia em 1822 sem esperar muito tempo pelo sancionamento por uma assembléia constituinte. Em 1807 o príncipe regente fugiu de Napoleão Bonaparte para o Brasil.000 e 15. O rei necessitava dos financistas para poder manter o estilo de vida da corte lusitana. O tamanho do Brasil. Portugal era um parceiro júnior que só podia beliscar os lucros. A Inglaterra estava interessada no livre comércio e atingiu a sua maior influência no Tratado de Methuen. Em 1548 foi instituído na Bahia o Governo-geral com o objetivo da unificação territorial e jurídica (Faoro 1997: 144). Já em 1808 a abertura dos portos brasileiros para os navios ingleses e a conseqüente concessão de direitos de extraterritorialidade e uma tarifa alfandegária preferencial extremamente reduzida. os mercados britânicos não foram abertos aos produtos brasileiros que concorriam com os das Antilhas Inglesas (Furtado 1975: 95). a liberdade de comércio e a eliminação dos intermediários portugueses eram possíveis. O cordão umbilical das relações monetárias para a Europa fazia-se sentir de forma inequívoca. organizados como espaço de poder local. Mas em tempos ruins ele só conseguia sobreviver por meio da exploração ainda maior dos seus subordinados. herdeiro do trono português. Como barões do café. Mas o comércio local com sua grande extensão geográfica abriu também campos de atividades para monopolistas locais que eram.). Estavam localizados no exterior tanto os mercados de comercialização mais importantes quanto também o 2 Em contrapartida. No plano local os municípios surgiam freqüentemente antes do início da colonização efetiva.2 O comércio exterior era de decisiva importância para os latifundiários e comerciantes de escravos. o governador se transformou em vice-rei. as grandes distâncias e o afastamento dos produtores dos centros da administração portuguesa permitiram uma autonomia da plantação e do engenho açucareiros que sempre era registrada com desagrado. A riqueza dos barões do açúcar era medida pela sua propriedade de escravos. Mas uma participação mais ampla do povo. aproximadamente entre 10. os capitães e governadores eram. autogerida dos habitantes era algo desconhecido nesse ordenamento do espaço (Faoro 1997: 146 ss. comerciantes portugueses. meros ajudantes de ordens dos reis. A nova des-ordem assentava no fundamento do patrimonialismo estamental.000 (Faoro 1997: 249). não como cidadãos. acompanhado da corte inteira.). No campo de poder dado. o que lhe permitiu a transferência do estilo opulento de vida da aristocracia européia para a América. No comércio internacional. formou-se um bloco de poder nacional no âmbito do mesmo campo de poder. Quando a corte retornou depois do fim das guerras napoleônicas a Lisboa. tinha muita importância para a colônia. pois por meio dele se organizava a sujeição direta dos escravos e dos indígenas. fixada em 15%. O liberalismo do movimento independentista não tardou em esbarrar nos seus limites estruturais (Fernandes 1987: 34 ss. Não obstante. 120 . era ditado pelo comércio e sua lógica. uma variante de democratização era praticamente incompatível com um ordenamento estamental. O Rio de Janeiro se transformou em centro do poder. Também aqui a unidade político-administrativa formou-se de acordo com uma lógica do controle sobre o espaço.

uma série de medidas deflacionistas 121 . um abastecimento em escala mais larga e melhores condições de crédito. Ao lado do crédito de consolidação. ao passo que os liberais radicais queriam abolir a escravidão e excetuavam a monarquia das suas críticas ao sistema (Santos 1978: 31). não em último lugar. o Império (1822-1889) estabilizou um período de transição para um regime de acumulação extensiva. Os grupos regionalmente dominantes apoiavam-se reciprocamente contra a eventual oposição interna. A reivindicação de uma república e da descentralização estavam relacionadas com o deslocamento da dinâmica econômica para o Sul. a nação consolidou-se como espaço de poder. Assim os processos de centralização implementados sob o governo de D. a política econômica foi redirecionada para uma política de fortalecimento da moeda.). O que ficou foi a destituição do imperador e a liberdade dos escravos de vender a sua força de trabalho. O Brasil independente defrontava-se com uma elevada dívida externa e interna. o que resultou num surto de desenvolvimento (Cano 1998a: 158 s. Mas os barões do café também optaram pela república.também não se ateve ao dogma do padrão-ouro e da neutralidade da moeda (Furtado 1975: 160). A preservação da unidade territorial era a tarefa principal do monarca.). impondo-o também em uma nova constituição. o potencial revolucionário dos modernizadores se dissipou rapidamente (Fernandes 1987: 116). a profissão de fé entusiasta da liberdade econômica era subrepticiamente desmentida no importante setor cafeeiro. O poder sobre o espaço era controlado pelo comércio e crédito que forneciam ao espaço do poder os seus recursos. As últimas tinham apostado nos laços unificadores da economia escravista e do crédito. Como ela de início não estava inserida na estrutura burocrática do Estado. formado por membros vitalícios nomeados pelo imperador. Durante muito tempo ele dependeu quase exclusivamente das receitas alfandegárias. Ela via na autonomia dos estados a chance de poder seguir estratégias independentes. No plano da economia. em 1889 os militares deram um golpe e proclamaram a república. Mas mesmo quando as províncias passaram a constituir-se como espaço de poder próprio. As fronteiras da nação podiam também ser usadas por grupos regionais como instrumentos para defender interesses provinciais. A confiança na força da economia capitalista de mercado era tão grande que não se necessitava mais do monarca como poder moderador: em 1888 a escravidão foi abolida. foram subordinadas ao poder central: o Conselho de Estado. ao invés de se aliarem às forças conservadoras (Furtado 1975: 115 s. a oposição ficava excluída. uma cláusula de ouro introduzida na cobrança do imposto de importação (1900). entre as várias frações do capital e os outros grupos paulatinamente emergentes. então potência dominante. a regulação foi quase que forçosamente um muddling through. A polícia e os tribunais. no da política. A eliminação do comércio intermediário português estava no interesse dos latifundiários para poder negociar preços menores de importação.) Mas em resposta à pressão britânica e diante de uma crise econômica. Os grupos urbanos e o exército. Os republicanos combatiam a monarquia e negavam o problema da escravidão. opunham-se declaradamente à monarquia. mas uma maior participação na nação (Faoro 1997: 316 ss. Diante das contradições maciças entre as diferentes regiões e o poder central e dentro das regiões. submetida à pressão crescente da Inglaterra. mantidas em patamares baixos pela Inglaterra até 1844 (Furtado 1975: 42). A constituição da monarquia parlamentarista com uma segunda câmara formada por senadores vitalícios assegurava institucionalmente a dominação das forças mantenedoras do status quo. O imperador era mais poderoso quando se tratava de preservar estruturas historicamente surgidas do que quando se tratava de implementar novas regulações. concedido em 1898. Na economia. Sem despedir-se discursivamente do liberalismo. Pedro II não esbarraram em resistência radical. As causas eram variadas.121 mercado de aquisição dos bens de consumo. feita por expedientes. Mas isso praticamente não equivaleu a uma abertura social. Isso se deveu. com ela também as forças centrífugas. o Brasil praticou de fato uma política pragmática da regulação do mercado e da construção de um estado regional fomentador da acumulação (Becker. também à precária situação financeira do governo central. Egler 1992: 38 ss.conhecida sob o nome de encilhamento . Sobretudo a oligarquia agrária paulistana assumiu o ideário liberal-federativo. A política monetária expansiva da década de 1890 . Uma nação estamentalmente dirigida parecia ser a forma mais eficaz para defender a economia escravista. As bordas do império faziam-se ouvir com levantes e rebeliões. dos quais os grupos economicamente dominantes necessitavam para satisfazer as suas exigências genericamente maiores do que no passado.). fortemente reduzido e desvalorizado depois da Guerra do Paraguai. a sua preservação não lhe foi tão importante. O governador e o grupo regionalmente dominante impunham os seus candidatos nas eleições. Esse espaço de poder estava vinculado ao imperialismo britânico. pois os grupos dominantes impediram esforços maiores na direção da democratização. não reivindicaram a independência. Mas a euforia liberal durou pouco tempo (Faoro 1997: 468). e desde 1850 também a Guarda Nacional. que estruturava o poder sobre o espaço e intervinha no espaço do poder. tornou-se o freio institucional das ocasionais tentativas reformistas empreendidas pela Câmara dos Deputados. A ”política dos governadores” estabilizou a estrutura descentralizada do poder. A partir de 1870 a crítica ao Império cresceu. ao passo que os primeiros pretendiam colocar o capitalismo em novas bases. Mas como ambos estavam interessados em uma transição ordeira. diretamente com a Inglaterra. cujo poder moderador consistia na compensação dos interesses dos grupos dominantes.

o coronel não tinha nada de aristocrático. Como os conflitos políticos se radicalizavam. Em 1923 foram promulgadas uma lei de proteção contra demissão e uma lei que instituía uma caixa de pensão para os ferroviários. Seu detentor era o presidente eleito por quatro anos. a política dos governadores e o Partido Republicano conseguiam manter apenas penosamente a unidade das forças dominantes. Num primeiro congresso nacional. a regulamentação do mercado de trabalho pelo estado policial provou ser crescentemente ineficaz. 122 . Mas os industriais emergentes não eram suficientemente fortes para impor os seus interesses contra os trabalhadores. por uma revolução ”burguesa” contra a oligarquia. associaram-se a ele e absorveram a sua forma de dominação política (Fernandes 1987: 203 ss. Na década de 1920 ele abandonou cada vez mais o seu papel moderador. Ou: ”O governo mudou. sem ajuda da oligarquia rural.). os trabalhadores começaram a se formar lentamente como força política. O Estado assumiu funções de política econômica e tomou uma série de medidas que fomentaram a indústria (Cano 1998a: 200). Não só o comércio. o coronel era um intermediário político. passando a atuar no sentido da centralização do poder. Os industriais assustaram-se diante do que se lhes afigurava falta de capacidade de imposição do Estado (Decca 1997: 176). Os imigrantes europeus já tinham. Por isso o poder local subordinou-se com muito oportunismo ao poder regional respectivamente dominante (Faoro 1996: 625 ss. 4 À guisa de ilustração: ”Em política. em parte. mas eu não mudo: fico com o governo” (Faoro 1997: 631). o imperialismo e o feudalismo” (Decca 1997: 102 s.5 A nação foi. contra a resistência maciça do empresariado (Decca 1997: 195). Já durante a guerra ocorreram algumas transformações importantes. Num campo de poder no qual o Estado burocrático podia conceder em larga escala recursos públicos a particulares sem prestar contas. Mas ela foi também percebida como força unificadora que se pode opor ao passado particularista. 6 Em 1919 foi promulgada uma primeira lei sobre acidentes no trabalho. por conseguinte.1. para 37 milhões nos anos de 1900 a 1903) ensejou a reconquista do equilíbrio da economia externa (Furtado 1975: 172. 27 a aprox. Com efeito. Quanto à representação dos interesses. Em 1916 foi introduzido no Brasil o primeiro Código Civil que fixou as regras do Direito de Contratos. rural-local (Decca 1997: 73). trabalhado na indústria.6 Um comércio operado em vias organizadas importava mais aos comerciantes do que a exploração incontida no processo produtivo. mas também a produção de bens de 3 Uma primeira desvalorização maciça ocorreu em 1891 de aprox. mas tornaram-se em muitos casos também transmissores do ideário sindicalista. tornando evidente a crise da hegemonia britânica. o trabalho infantil (Novy 1998: 152). o Estado buscou assegurar a ordem pública por meio de uma série de leis sociais.3 Mais uma vez a libra esterlina fixava o valor da moeda. mediante o abandono da luta de classes. na qual a esfera pública desempenharia um papel importante. A associação comercial cindiu-se em 1927 e em 1928 surgiu o Centro de Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP) (Decca 1997: 135 ss. Silva 1986: 99s. os estados puderam subordinar os municípios inteiramente aos seus interesses. O interesse dos comerciantes pela ”tranqüilidade e ordem” e pelos produtos importados baratos opunha-se diametralmente ao dos industriais. devido ao fortalecimento da posição brasileira no mercado mundial na esteira da guerra mundial. 5 As greves de 1917 e 1918 foram um primeiro ponto culminante de uma série de movimentos sociais de protesto e conduziram a um deslocamento da relação de forças (Fiori 1995: 79). Por necessidade aumentou não apenas a produção de bens de consumo. O coronel enquanto dono do poder local extraía o seu poder unicamente da delegação do poder pelo governador. por uma aliança de modernização com os industriais nacionais. Os representantes dos trabalhadores esperavam. Diferentemente do barão do café. embora sua organização partidária continuasse difícil em virtude das fortes correntes anarco-sindicalistas (Decca 1997: 201).). para subir em 1916 mais uma vez a mais de 16. Estar na oposição era sinônimo de exclusão do campo de poder do Estado e do sistema das trocas políticas.). Ao invés de substituir revolucionariamente o velho bloco de poder. Depois a taxa de câmbio despencou para uma relação de 9:1. A soberania do estado-nação baseou-se nessas duas colunas. eu sou intransigente: voto no governo”.122 e um aumento considerável do valor das exportações (de 26 milhões de libras esterlinas nos anos de 1896 a 1899. Para ele o poder assentava no poder e na violência legais e ilegais (Oliveira 1987: 49). realizado em 1906. No lugar de uma ordem localmente fragmentada deveria surgir uma forma centralizada da regulação no plano nacional. Nos anos 20 ela despencou definitivamente e atingiu em 1928 um ponto baixo na relação de 5:1 (Silva 1986: 29).). Num processo de centralização regional.). 1995). percebida como plano de estabilização do poder. 15 pence por mil-réis. na moeda e no direito. Com a 1ª Guerra Mundial abriram-se campos de ação nacional em quase todos os países maiores da periferia (Feldbauer et al. mas também o padrão-ouro organizado pela Grã-Bretanha entraram em colapso.4 Mas a nação continuou como um espaço central de poder. O fortalecimento do estadonação adotou essa perspectiva e ofereceu assim a possibilidade de produzir a coesão social. em 1925 foi promulgada uma lei para os comerciários e em 1927 foi regulamentado. os empresários dispunham desde 1904 do Centro Industrial do Brasil (CIB). Pedia-se a mão forte do presidente para suprimir os conflitos sociais e políticos. isto é.

123 produção, em ramos como o processamento de metais e ferro.7 Na esteira dos aumentos de preços ocorreram em 1916 e 1917 reduções do salário real e lucros elevados, posteriormente em parte reinvestidos (Cano 1998a: 172 e 192). Os trabalhadores reagiram às perdas do poder aquisitivo com os primeiros grandes movimentos grevistas. O centro dessa nova dinâmica foi São Paulo, que pôde durante a guerra aumentar a sua participação, na produção geral, na exportação de mercadorias industriais para outras regiões do país de22,7 % (1914) para 39,5% (1917). Depois da guerra essa participação caiu para 24,2%, mas o potencial regional para a substituição das importações já existia (Cano 1998a: 187). Se o grande salto quantitativo da indústria paulistana iniciou-se nos anos de 1905 a 1907, os anos 20 assistiram às necessárias transformações qualitativas, à medida que a produção se diversificava e se formava, ainda que rudimentarmente, o setor de bens de produção (Cano 1998a: 269). A regulação acompanhava de modo claudicante as transformações fundamentais da dinâmica da acumulação. Ainda nos anos 20 o estado central procurou manter o padrão-ouro, mas perdeu em 1929 em três meses, devido à fuga de capitais, todas as suas reservas de ouro acumuladas nos anos anteriores (Furtado 1975: 185). Estava subtraída a base ao velho campo de poder. Os preços do café caíram de 22,5 cents/libra para 8 cents/libra em 1931 (Altvater 1987: 204). Em decorrência disso, o pagamento dos juros e da amortização da dívida foi interrompido e a dívida externa renegociada.8 Mas com isso a oligarquia agrária não entrava automaticamente em crise. Estavam previstas eleições para 1930 e a pauta dos grupos dominantes era business as usual, isto é, ocorreu uma luta pelo controle do espaço de poder nacional com as conhecidas e reconhecidas regras de jogo da manipulação. Sob a liderança de Washington Luis, o Partido Republicano de São Paulo quis impor o seu candidato Júlio Prestes contra a vontade de Minas Gerais e setores importantes da opinião pública. Mas a intranqüilidade na esfera pública até então raras vezes tinha logrado obter êxitos políticos. Tivesse tudo transcorrido normalmente, o poder econômico de São Paulo ter-se-ia constituído também como poder político. Talvez tivesse ocorrido assim uma autêntica centralização dos poderes econômico e político, iniciando-se uma revolução burguesa no sentido europeu (Fiori 1995a: 83 s.). De início os industriais paulistanos apoiaram esses esforços. Mas a Aliança Liberal, que era oposição em São Paulo, quis abolir a ordem dos partidos republicanos, com o apoio de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul. Seu candidato Getúlio Vargas, político dirigente do Rio Grande do Sul e ex-ministro de Washington Luis, perdeu as eleições. Mas em outubro ele chegou ao poder num golpe sem violência, com apoio dos militares. Assim o levante sem derramamento de sangue de 1930, a ”revolução burguesa” do Brasil, não foi respaldado pelos industriais; tampouco foi uma revolução contra a oligarquia agrária. Ele foi uma revolução que favoreceu a modernização conservadora. O fim da República Velha já se prenunciara com o levante militar de 1922 e a marcha dos militares orientados para a transformação pelo Brasil. Um novo campo de poder evidenciou ser necessário para estar à altura dos desafios dos tempos. A modernização foi concebida aqui como uma tarefa nacional, isto é, direcionada para dentro, visando a aproximação com o povo. Daí o estreito acoplamento de modernismo e nacionalismo no Brasil (Lahuerta 1997: 114). Oito anos mais tarde, a constante pressão das ruas e o meio urbano crítico em vias de surgimento foram suficientemente fortes para derrubar um regime, mas demasiado fracos para participar da configuração da nova ordem. Essa foi a única mudança de regime na qual o ideário liberal não foi ponto de referência utópico central de uma ordem melhor, embora a organização mantenedora fosse a Aliança Liberal. Em oposição à des-ordem existente, o povo apoiou os rebeldes, não importando o que estes pudessem representar (Faoro 1997: 683 ss.). Ao lado do liberalismo, o positivismo com sua lógica modernizadora centralista, tal como ele já tinha sido praticado exitosamente no Rio Grande do Sul na República Velha, foi um fator determinante (Bosi 1999: cap. 9). As formas radicalizadas da oposição foram o fascismo, de um lado, e o socialismo, de outro. O élan originariamente anti-oligárquico de Vargas dissipou-se imediatamente, pois ninguém queria enfraquecer efetivamente o setor que gerava as divisas. Por isso Vargas também nunca rompeu com os ”velhos” interesses cafeeiros. Como a aliança na qual ele se baseou, a sua política econômica foi contraditória.9 Os passos exitosos na direção da industrialização lhe foram impostos pelas condições gerais protecionistas da economia mundial. De início, a política industrial serviu para apoiar a agricultura e era desenvolvida ad hoc (Fausto 1981: 48 s.). Baseado na poupança interna, Vargas quis ampliar o setor de bens de produção. A participação do café no total das exportações caiu de 68,8% a 42,1%, mas continuou tendo uma importância central (Fausto 1981: 105).
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A produção de ferro aumentou de modestas 4.267 toneladas para 11.748 toneladas (1918); 5.936 novas empresas surgiram entre 1915 e 1919 (Cano 1998a: 182 s.). 8 Quando o Brasil repetiu essa medida em 1937, não houve nenhuma sanção por parte dos credores, o que se explica basicamente a partir da composição da dívida externa: 65% dos créditos estrangeiros vinham da Grã-Bretanha e apenas 30% dos EUA. Para os últimos, o Brasil era mais importante como parceiro comercial do que como devedor. Acrescia ainda o interesse norte-americano em não perder o Brasil como aliado militar. 9 No longo prazo ela consistia em uma estratégia de industrialização, mas no curto prazo a política monetária e fiscal foi restritiva (Fiori 1995a: 93).

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124 Em 1932 a oligarquia agrária e os industriais de São Paulo rebelaram-se contra o estado central e a sua política econômica pouco clara, que levaria, conforme pensavam, a degradação de São Paulo. São Paulo julgou-se mais uma vez suficientemente forte para assumir ao lado da supremacia econômica também o mando político. Mas Vargas impôs, na tradição da estratégia clássica do establishment brasileiro, preservadora do status quo, uma compensação de interesses. O estado burocrático deveria preservar-se diante do poder econômico uma certa margem de ação, para poder continuar deixando participar do bloco hegemônico membros regional e socialmente periféricos do bloco de poder. Mas Vargas também incluiu os grupos dominantes de São Paulo no novo velho sistema do poder, abrindo-lhes um acesso privilegiado à burocracia. O Estado continuou se empenhando na tarefa de desorganizar a classe trabalhadora e, caso necessário, oprimi-la. Mas não houve nenhuma hegemonia social e política do capital paulistano, em que pese a sua dominância econômica. Embora economicamente cada vez mais insignificante, a oligarquia agrária pôde estabilizar o seu poder político, formando um bastião contra as tentativas de São Paulo de impulsionar a homogeneização da nação nas dimensões espacial e social. Ao invés de um fordismo da produção de massa para o consumo das massas, dominado por São Paulo, a oligarquia agrária logrou introduzir um fordismo periférico, cujos esforços de homogeneização esbarravam nos interesses vitais da oligarquia agrária. A ”revolução conservadora” de 1930 antecipou-se a duas outras evoluções possíveis. A primeira era a assunção total do poder por São Paulo e a concentração do poder naquela parte do Brasil que estava se modernizando vertiginosamente. A opção magnificada no plano ideológico, mas de fato destituída de realismo, era uma revolução comunista. Não obstante, a classe trabalhadora e os oficiais reformistas foram marginalizados gradualmente no decorrer dos anos 30. A luta de classes foi solucionada com meios coercitivos. Isso também não foi minimamente mudado com a introdução do sufrágio universal na Constituição de 1934, ocorrida pela primeira vez na história do Brasil, pois já em 1937 o estado de emergência entrou em vigor. O estado-nação autoritário possibilitou em 1935 depois de um golpe malogrado a proibição do Partido Comunista, o desmantelamento das organizações autônomas da classe trabalhadora e de outras organizações progressistas da sociedade civil. Getúlio Vargas governou ditatorialmente no Estado Novo. No lugar dos governadores eleitos estavam os ”interventores” nomeados pelo presidente. No plano local as capitais estaduais reconquistaram a sua autonomia apenas a partir de 1953, pois até então os prefeitos eram nomeados pelos governadores. Mas as câmaras de vereadores já se constituiram em 1948 e tornaram-se canais de diálogo entre associações de bairro e o Poder Executivo (PMSPet al. 1992: 72). Jânio Quadros tornou-se o primeiro prefeito eleito de São Paulo e introduziu uma nova forma da ação política, o populismo de direita. Nas ondas da derrota do fascismo, o Brasil experimentou em 1945 uma nova euforia liberal. O governo de orientação liberal (1945-1950) proibiu novamente o Partido Comunista e acreditava poder colocar no lugar da des-ordem periférica multissecular uma ordem ocidental: uma economia democrática de mercado em aliança com os EUA. Mas mais uma vez Vargas cruzou os sonhos do establishment. Em 1950 ele chegou ao poder com o seu PTB, por via democrática, abandonando o poder apenas em 1954 ao suicidar-se. Permitiu assim a entrada em cena do populismo enquanto estratégica política irracional, mas poderosa. Diant da des-ordem do Brasil, essa era a única alternativa historicamente viável à política do establishment. Vargas, Quadros e Collor foram todos políticos que permaneceram corpos estranhos no establishment, embora a sua política servisse perfeitamente aos interesses dos grupos dominantes. A política de industrialização foi financiada sob o regime de Vargas com a poupança existente no próprio Brasil e realocações de recursos, o que a distinguiu da maioria das estratégias anteriores e posteriores; germinalmente, ela também foi financiada já por via inflacionária. O setor privado deveria ser fomentado por serviços e produtos subsidiados da indústria nacionalizada, na qual se esperava elevados aumentos de produtividade do trabalho (Oliveira 1989: 80). Mas essa estratégia esbarrou em uma resistência maciça. Acresceu o fim da Guerra da Coréia e, paralelamente, o fim do surto exportador para produtos brasileiros no período do pós-guerra. Isso levou a protestos da classe trabalhadora e em 1953 à grande greve dos metalúrgicos em São Paulo, o que facilitou a desmoralização de Vargas. Extensos segmentos do bloco dominante e sobretudo os EUA minaram a sua política econômica nacionalista. As restrições externas, concretizadas em dificuldades do balanço de pagamentos, acirraram-se a partir de 1954 (Tavares 1983: 35 ss.). Depois do suicídio de Vargas o establishment achou que teria chegado a hora para assumir a administração do Estado. Mas após dois anos de governos de transição de orientação liberal e de uma política do laissez-faire Juscelino Kubitschek (1956-1960) assumiu o poder. O seu governo continuou a aliança do PSD, partido da oligarquia agrária, e do PTB, partido do trabalhismo, e com isso a estratégia de desenvolvimento centrada no estado-nação, mas optou por caminhos bem distintos dos de Vargas: a saber, pelo endividamento externo e pelo financiamento por via da inflação, o que representou uma forma de financiamento flexível no curto prazo. Kubitschek pretendeu realizar em cinco o desenvolvimento de cinqüenta anos e recorreu para tal fim ao tripé, à trípode aliança entre os capitais internacional, nacional e estatal. A solidariedade entre os diferentes grupos de capitais deveria permitir um desenvolvimento nacional harmônico. Com a ”internacionalização do mercado interno” as empresas multinacionais tornaram-se atores principais da exploração do mercado doméstico por meio de bens de consumo duráveis. Conexamente as organizações financeiras internacionais e os EUA tornaram-se os

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125 atores que diante de dificuldades crônicas com o balanço de pagamentos podiam demarcar as fronteiras de caminhos possíveis de desenvolvimento. Kubitschek se viu repetidas vezes obrigado a tomar conhecimento do poder do Fundo Monetário Internacional, que quis impedir o financiamento da estratégia de desenvolvimento nacional (Oliveira 1989: 82-90). Mas o seu governo transcorreu sem grandes confrontos internos ou externos. Não obstante, ele não conseguiu impor o seu candidato para a sucessão e o carismático Jânio Quadros, um político populista não-convencional de São Paulo, foi eleito presidente como candidato da UDN. Quadros usou o cargo de governador de São Paulo como trampolim para a presidência da república em 1960. Tinha chegado ao governo de São Paulo graças à sua posição de prefeito da capital do estado (Furtado 1997b: 192-196). Quando o crescimento econômico arrefeceu nos anos 60, o pacto baseado no desenvolvimento nacional começou a esboroar-se pela primeira vez. Depois da renúncia de Quadros e sob a presidência de João Goulart os conservadores tentaram fazer tudo para fechar os canais da participação política e econômica dos trabalhadores e posteriormente também do movimento dos trabalhadores rurais, que tinham sido criados pelo populismo varguista. Os progressistas, por sua vez, pareceram poder participar pela primeira vez do poder nacional. Mas as reivindicações radicais referentes à reforma agrária e ao controle do capital estrangeiro não estavam - não em último lugar devido à manifesta fraqueza de Goulart enquanto líder político - nem integrados em um projeto de Estado (que Estado queremos?) nem em um projeto hegemônico (que sociedade queremos?) (Oliveira 1989: 90 ss.). As diferentes medidas de estabilização, todas fracassadas (1954/55, 1958/59, 1961 e 1963) foram momentos decisivos dos conflitos sociais, pois visavam a distribuição do valor adicionado (Fiori 1995: 97). A dinâmica industrial determinava os espaços da ação política. Kubitschek dispunha desses espaços e fazia uso deles, Goulart dispunha deles em grau muito menor e não fazia nenhum uso deles. Os conservadores passaram a preparar coerentemente um golpe. Quando este não foi possível com meios constitucionais, pois João Goulart reconquistou os seus direitos presidenciais por via de um referendo, o golpe militar foi a única alternativa. Com o golpe militar de 1964 atingiu-se uma nova, última e agora antidemocrática etapa da centralização do poder do estado-nação. A ”Revolução de Abril” realizou o que os conservadores quase tinham atingido em 1954. Os militares e os seus suportes civis assumiram o poder para reduzir a influência do Estado e realizar reformas liberais. Na realidade ocorreu, no entanto, uma modernização conservadora comandada pelo Estado e a ascensão do Brasil à condição de poder regional (Becker, Egler 1992: cap. 4). Contrariando o ideário liberal, isso levou no tocante à estrutura espacial do Estado a um enfraquecimento do federalismo, pois os governadores, à frente de todos Leonel Brizola no Rio Grande do Sul e Miguel Arraes em Pernambuco, tinham criado espaços de poder regional da oposição. Por isso os militares se interessaram especialmente pelo enfraquecimento do plano estadual. De resto, os militares também cimentaram a estrutura burocrática do Estado e cuidaram unicamente para que os canais de acesso permanecessem fechados ao povo e facilitassem a imposição dos interesses do capital. Partes do capital nacional caíram para fora do bloco dominante na recessão provocada pelos militares nos anos de 1964 a 1967. Institucionalmente, os militares lançaram as bases de um capitalismo financeiro. Em 1967/73, com o ”milagre brasileiro”, foi empreendida pela última vez a tentativa de salvar por meio do crescimento e da centralização o velho poder sobre o espaço (Oliveira 1989: 91-107). Mas dessa vez os militares não deviam apenas assumir o papel do árbitro, mas além disso participar do jogo, mais precisamente na condição de atores decisivos. O fordismo periférico não se baseou em um novo bloco de poder, mas o velho bloco de poder foi preservado em uma nova hierarquia. O capital industrial dominava, mas a oligarquia agrária cuidou de garantir a sua posição nesse bloco social concebido como pacto de não-agressão. Ela agiu de modo exclusivamente defensivo, isto é, impediu uma transformação da distribuição da terra. A classe trabalhadora e a classe média não faziam parte do bloco de poder, mas conquistaram pela primeira vez na história do Brasil um lugar no jogo do poder. Sobretudo o populismo ampliou as margens de ação para os processos de trocas políticas das camadas baixa e média. Como novo grupo determinante entrou a indústria nacional, sobretudo paulistana, e a partir dos anos 50 também a indústria estrangeira. Por intermédio do capital produtivo e financeiro o espaço ”externo”, que tinha perdido a sua importância no universo das mercadorias, começou novamente a fazer valer a sua dinâmica determinadora. O fracasso do fordismo periférico esteve vinculado a essa vulnerabilidade de ”fora”; não foi possível impulsionar um processo de acumulação autônomo, internamente financiado. A dependência externa de investimentos diretos e créditos provou ser fatal na nova crise. O campo do poder nacional sofreu uma erosão. ”Fomos felizes e não sabíamos”, eis uma afirmação freqüentemente usada à saciedade nos anos 80 por adeptos da ditadura militar. Um olhar sobre os dados macro-econômicos permite compreender essa nostalgia, pois os mortos da repressão não figuram nas estatísticas oficiais. Mas é estranho que hoje, 25 anos depois, mesmo opositores veementes do regime militar se lembram com certa melancolia dos últimos anos da ditadura, dos anos de uma resistência heróica, dos tempos nos quais as utopias de um mundo melhor orientavam

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1978 e 1980 as grandes greves dos metalúrgicos. tornou-se cada vez mais portavoz da sociedade e ponto de aglutinação da oposição. A abertura do momento impeliu quase todos os críticos do sistema à ação. tornaram-se pontos de cristalização da resistência. Estagnou a reflexão sobre a sociedade brasileira. para que tantas esperanças fossem decepcionadas? No Brasil. Sarney era um político da ditadura militar e simbolizava a ”transição pactuada” para a ”Nova República”. Os movimentos sociais viam na questão social o problema principal e a maioria deles advogava implicitamente uma ou outra variante do socialismo. conseqüentemente. a aliança das camadas média e baixa: eis a receita do sucesso dos movimentos sociais dos anos 80. Com isso a distribuição extremamente desigual tornou-se um tema prenhe de conflitos. pois a classe trabalhadora organizou-se pela primeira vez em um partido próprio e.11 10 Sete ministérios eram ocupados por militares. A luta de classes atingiu uma nova dinâmica e uma nova qualidade. Os militares e não a burguesia liberal que tinha em parte desejado. a mão-de-obra desprezada. e isso justamente no ramo central do desenvolvimento industrial. Por fim. sobretudo os do setor financeiro. os índices inflacionários falsificados pelo governo e. No curso do ”movimento antiditadura” parecia fazer sentido seguir a tradição liberal e falar de sociedade civil como setor autônomo com relação ao Estado. que começaram a questionar a des-ordem da ditadura. Nas instituições do Estado os diferentes atores se encontravam. não a mudança. A interpretação dos acontecimentos foi deixada a cargo de outros agentes. o estado-nação foi o palco central da luta pela hegemonia entre 1930 e 1980.tão logo a repressão arrefeceu . Os anos 70 e 80 foram caracterizados no Brasil pela consciência de viver em uma sociedade conflitiva. do Estado e da economia no Brasil foi 126 . na indústria estatizada e nos bancos estatais. Formou-se um bloco de poder alternativo e segmentos importantes do bloco dominante simpatizaram. Dois terços dos deputados federais tinham como fonte principal da sua receita as suas empresas. nelas se efetuava uma ponderação dos interesses conflitantes.a manifestar-se publicamente. desenvolvidas pelos sindicados em si oficiais. Foram os nordestinos.). O crescimento e a crise concentraram-se na região industrial do ABC e permitiram à classe trabalhadora local fazer se ouvir mais uma vez de forma perceptível. Mas infelizmente esse termo apresentou um perfil conceitual apenas muito difuso. A igreja católica. em uma central sindical e em iniciativas de base. que conquistara nas décadas anteriores uma maturidade considerável. Os guetos dos nordestinos trouxeram a questão regional como uma questão social a São Paulo e redefiniram o problema do espaço e do poder: não como luta entre espaços geográficos. contra os salários. Mas ao invés da eleição direta. eleito por um colégio eleitoral. Tudo isso ficou cada vez mais difícil na ditadura militar. em ligação orgânica com esse partido. que sempre cultivara uma atitude pragmática diante de valores democráticos (Costa 1997: 34 s. os tecnocratas e militares no aparelho de estado estavam ficando demasiado poderosos. O que aconteceu no palco do poder e nas profundezas da estrutura do poder.126 poderosamente a ação e serviam de estímulo. O oponente era claramente identificável: os militares e os grupos a eles aliados. Empresários assumiram posiçõeschave em ministérios. os aumentos salariais demasiado baixos da indústria metalúrgica paulistana provocaram o primeiro grande protesto público contra a ditadura militar (Novy 1994: 28-31). isto é. José Sarney tornou-se presidente depois da morte de Tancredo Neves. Isso é quase sempre o melhor pré-requisito para a apropriação de conceitos. as lutas entre os grupos dominantes se acirraram. mas como espaços sociais de poder de classes conflitantes (Oliveira 1998a: 119 s. entre o pobre Nordeste e o rico Sudeste. facilitou o ataque ao estado desenvolvimentista e deu poder ao empresariado.). em si um esteio do Estado. Mas o bloco de poder que assumiu o Executivo com Sarney sabia que só teria chances de ser reconhecido como legítimo com um governo que se mostrasse aberto às reivindicações da sociedade civil. A aliança das classes média e baixa desenvolveu uma força produtiva insuspeitada. Em 1974 a fase mais dura da ditadura e repressão chegou ao fim. Os grupos responsáveis pela saída dos militares queriam também estar representados no novo governo. Esse movimento foi basicamente apoiado por migrantes. cujo leitmotiv passou a ser a continuidade. Por isso a exigência de eleições diretas para a presidência da república organizou-se num poderoso movimento. Ao mesmo tempo a classe trabalhadora começou . Entre 1967 e 1973 a indústria automobilística cresceu anualmente na razão de 24%. Métodos distintos de medição nas indexações serviam genericamente para beneficiar determinados valores. ao menos com uma boa parte das reivindicações desse movimento.10 Mas muitos peritos. A ditadura militar estava deslegitimada. A des-ordem tradicional foi questionada pelos trabalhadores e pelo movimento em prol da democracia. Repentina e inesperadamente evidenciou-se a existência de uma dinâmica social considerável. se não com a forma alternativa de organização. Na visão de muitos empresários. pois a atualidade política exigia o engajamento. 42% eram proprietários de terras (Dreifuss 1989: 40). e isso mais ainda na esteira da crise do endividamento. O liberalismo e a desestatização pareciam vir ao encontro dos seus interesses. A inserção do fenômeno das organizações de bairros em uma análise global da política. intelectuais e professores universitários quiseram prestar uma contribuição ao primeiro governo democrático. Em 1977. Democracia e socialismo. 11 Mas com a popularização do conceito de ”sociedade civil” ocorreu aos poucos uma mudança organizacional maciça. pois a luta de classes por enquanto tinha sido ganha. para encolher nos anos subseqüentes (Pacheco 1998: 58). O establishment subestimara a raiva acumulada diante do sistema vigente e a radicalidade do desejo de mudança. mas necessária do milagre econômico em São Paulo. em parte financiado e em parte executado o golpe de 1964 foram transformados em bode expiatório.

especialmente no tocante a contratos coletivos de trabalho. o desafio de um ciclo que parece exaurido e de uma tendência que aponta para sua implosão ou reformulação integral. publicada apenas dez anos depois. Eles centraram a sua crítica. que pecaria pelo simplismo.). Como a oposição. e os direitos fundamentais sociais elementares. No limite.” (Heins 1992: 239).. Uma exceção saliente foi a tese de doutorado de José Luís Fiori de 1985. eram rechaçadas crescentemente com a menção dos cofres vazios. perderam influência política no final dos anos 80. um movimento social amplo que exige melhores condições de vida e maior participação política. enfrentando. de fraca presença. o regime perde. Mas os governos dispostos a reformas assumiram as administrações estaduais num momento extremamente desfavorável. igrejas e organizações de bairros estão enfraquecidas. referidos ao Estado. no aspecto do autoritarismo estatal. ”Depois dessa crítica a radicalidade de um discurso democrático não é apenas uma questão de ‘alcance temático’. progressivamente. O que parece certo. Na hora da crise. Em virtude da estrutura oligopolista do mercado. estavam sempre em posição de inferioridade diante de peritos da administração pública. Tudo isso levou a uma perda de importância das organizações de bairro e com isso a uma renovada marginalização dos pobres. em 1995. processos nacionais de negociação de interesses. uma legislação trabalhista e social nacionalmente unitária e. Renasce a luta interna da classe dominante com uma virulência inédita e por suas brechas cresce. parece-nos contudo significativo que. referidos à sociedade civil. em nosso entender.12 O Estado não dispunha mais de dinheiro para servir de mediador entre interesses conflitantes. da Igreja e da classe média desertam os empresários. os movimentos ambientalista e feminista restringem-se a segmentos da classe média. pois o país estava mergulhado em uma crise econômica e fiscal. construir uma ampla aliança em prol da democratização sem provocar a resistência aberta dos militares. Depois dos liberais.] a crise interna se acentua no âmbito de uma crise geral do sistema capitalista e da hegemonia norte-americana. que no entanto se subtrai ao conceito de sociedade civil. Esse vácuo foi preenchido pelos assim chamados pós-marxistas que fizeram com que uma interpretação da conjuntura de orientação liberal de esquerda fosse considerada socialmente aceitável. de forma autônoma. que mal chegara ao poder.127 O meio científico do fim dos anos 70 era fortemente cunhado pelo marxismo. Hoje são reduzidas as possibilidades dos pobres de defender o Estado de Bem-Estar Social. e diante de um futuro incerto. baseada no modelo do estado desenvolvimentista burocrático-autoritário. 12 José Luís Fiori (1995: 112) reconhecera já em 1984 quão fundamental fora a crise dos anos 80: “[. A crise não permitiu que essas medidas fossem muito bem-sucedidas.. Em 1982 o PMBD obteve um grande sucesso nas eleições para governador. Os empresários resistiam contra os iminentes aumentos salariais. Extingue-se esse poder na hora em que. Na confluência dos desencantos dos vitoriosos de ontem com o sofrimento dos derrotados de sempre germina uma realidade de contornos ainda imprecisos. a análise sistêmica da margem de ação não estava na agenda imediata. o próprio Estado recua. Desse modo eles lançaram uma névoa sobre a desordem da periferia e localizaram de forma grosseiramente superficial o Estado como fonte única de todos os males. Apesar disso faltaram no fim da ditadura análises de economia política que interpretassem a conjuntura específica. cujas causas devem ser buscadas na estrutura profunda do campo de poder. assistimos à implosão do Estado desenvolvimentista. quis assumir um papel construtivo depois de duas décadas de crítica. muito provavelmente. as lideranças regionais e o próprio capital estrangeiro. Mas assim foi possível. Medidas de política social e democrática. conforme mostrava o grande número de greves. e como não tinham representantes fortes dos seus interesses. isso foi simples para o empresariado (Pereira 1998: 142 s. Por um lado. Talvez o único ”porta-voz” dos pobres seja hoje o MST (Movimento Sem-Terra). aquecendo a inflação. foram implementadas pragmaticamente. nosso dinheiro volta a submeter-se a um padrão monetário internacional. Por outro. Sindicatos. O campo discursivo estruturava-se dessarte em torno de uma crítica genérica do palco do estado desenvolvimentista. cuja lei de valorização teve sua raiz mais profunda na liberdade de decisão estatal sobre o valor do dinheiro e do direito. é que o Estado desenvolvimentista levou ao seu limite suas potencialidades e contradições. Como os pobres muitas vezes não dispunham de uma formação escolar suficiente. depois de 60 anos. combatiam diretamente aumentos do salário nominal. Apesar disso as vitórias eleitorais do PMDB foram mais uma vez continuadas. extingue-se a eficácia do principal suporte dessa longa e heterodoxa ‘acumulação politizada‘. em cuja inexistência se identificava a fraqueza principal da ditadura militar. a economia nacional. portanto. Os esforços do movimento sindical visavam uma regulação territorial nova das relações de trabalho. dolarize-se. Por meio da democratização do Estado e da descentralização de processos decisórios parecia possível no início dos anos 80 construir um belo novo palco: a classe trabalhadora reivindicava o seu lugar no sistema político nacional. tão determinantes no início dos anos 80.“ 127 . mas igualmente uma questão de ‘referência aos destinatários’. eles minaram o valor desses aumentos do salário nominal. orientado segundo o consenso. desativando seus gastos e investimentos em obediência a um novo plano estabilizador. Foram intelectuais paulistanos moderados em torno de Fernando Henrique Cardoso (Lehmann 1990: 71-76) que descobriram a suposta originalidade do liberalismo e internacionalismo. Sem alternativas. Sem nenhuma pretensão explicativa. no âmbito do PMDB. Mas dessa vez já se fez necessária uma impedida pelo conceito liberal de sociedade civil. suas principais lealdades. hoje. obrigatoriamente. As exigências de melhorias da infraestrutura. ameaçado de implodir com a crise fiscal do Estado. que recua ante as condições de insolvência interna e externa do Estado desenvolvimentista. Forçado pelos fatos. A administração do espaço de poder substituiu a reflexão sobre o poder sobre o espaço. cujos elementos nucleares eram.

nas quais a administração municipal moderou entre interesses conflitantes. No Congresso 3 a 12% dos deputados eleitos se viam em 1986 como representantes dos interesses dos trabalhadores. por sua vez marcado pela excessiva presença do Estado. ele não estava organizado em termos partidários. seja no conflito com os camelôs.certamente teriam sido de serventia. Ubiratan 1997. os canais de participação secaram. Foram quase sempre ações concertadas de atores da sociedade civil. representante dos eternos perdedores reunidos na autonomeada ”sociedade civil” e portador de um programa democrático-socialista. 32 a 45% dos deputados como representantes do empresariado (Diniz 1997: 94 s. produzindo resultados negativos nas eleições municipais de 1992.) opina que ao lado da fixação no Estado a tarefa de governos de esquerda deveria estar também na ”socialização do poder” e num processo de conscientização. Setores importantes do empresariado temiam o programa de Collor. era um direitista tradicional. Collor ganhou a eleição com os votos dos pobres. Mas os grupos dominantes permaneceram cindidos. candidato do PT e apoiado pelas organizações da sociedade civil. A estrutura profunda do poder não entrou no seu foco. O establishment. mas distribuía-se pelos diferentes partidos de centro e direita. No interior do PMDB a ala liberal de esquerda amargou um duro golpe com a derrota de Fernando Henrique Cardoso nas eleições para a prefeitura de São Paulo em 1985. um candidato amplamente desconhecido. O zelo reformista do establishment recebeu uma ducha igualmente fria como o radicalismo dos liberais de esquerda. capital meridional do Brasil (Genro. Atingiu esse objetivo em parte. duas concepções de mudança se enfrentaram: a do messiânico e autoritário Fernando Collor de Mello.g. no ”Orçamento Participativo” em Porto Alegre. que parecia envelhecida depois de pouco tempo. o Legislativo boicotou esse processo. Orestes Quércia. Reformas estruturais seriam. no sistema de transporte. dificilmente organizável. de resto. Ao mesmo tempo ganharam influência os esforços discursivos em prol da inversão semântica: os ”verdadeiros” progressistas seriam os que se empenhariam pela mudança do status quo. No plano da liderança da opinião pública podia-se falar em 1989 ainda de um certo equilíbrio. como ela se configurou na manipulação do Plano Cruzado para além das eleições de 1986. Havia uma preferência por comissões paritárias. Mas a administração de Luiza Eruindina não foi tão convincente a ponto de demonstrar sem sombra de dúvidas a competência administrativa do PT. mediante a criação de comissões e conselhos. Isso levou à negligência diante da camada baixa. Apoiado pela mídia para a qual ACM tinha sido responsável como Ministro das Comunicações nos anos precedentes. Assim São Paulo se transformou na vitrine da política nacional.como e. o novo velho prefeito de São Paulo. antiestatizante e orientado para o exterior. Schwaiger 1996) .). Ambos defendiam uma política oportunista-pragmática de aliança com o governo federal e consolidaram a aliança com os conservadores. A Constituição de 1988 mereceu com razão o apelido ”constituição cidadã”. mas apoiou-o como única alternativa a Lula. Novy 1994: cap. convidando os segmentos organizados da população para a participação. Sobretudo em São Paulo abriram-se perspectivas de um projeto alternativo de Estado. nas negociações sobre um novo Plano Diretor ou no Foro da Cidade (Singer 1996). a esquerda criticou veementemente essa constituição e ignorou que ela já continha mais reformas do que o establishment estava disposto a conceder. F). as que reduzissem a influência do Estado e contribuissem dessarte para a maior justiça social. Mas os êxitos naturalmente foram modestos no primeiro ano do governo: a dívida deixada pelo prefeito anterior era tão grande quanto a inexperiência administrativa do PT. campo no qual os grupos dominantes estariam privilegiados. A decepção diante do PMDB e da Nova República.128 manipulação maciça. por parte da direita. De início. Jânio Quadros. Aqui processos mais amplos de participação. Assim os esforços em emendá-la iniciaram. por conseguinte. Seu conteúdo refletia ainda outra conjuntura. Com a derrota. embora sobretudo São Paulo tenha votado claramente em Collor. A administração municipal de São Paulo certamente não foi responsável pela derrota apertada de Lula. 128 . Mas a maior parte temia ainda mais um ganho decisivo de poder para o bloco alternativo. e o novo governador de São Paulo. já no momento da sua entrada em vigor. A administração petista buscou a ”institucionalização da cogestão dos cidadãos” (cf. Mesmo os 45% dos votos obtidos por Lula foram um forte choque para o establishment. sobretudo a inserção da população pobre não-organizada . não era nenhum político de esquerda. Luiza Erundina começou a governar em São Paulo quando a campanha eleitoral para as primeiras eleições livres para a presidência depois de 29 anos estava por iniciar. brindou a esquerda com uma vitória enorme e inesperada nas eleições municipais de 1988. Importava prioritariamente impedir as reformas e ainda não importava impor contrareformas. formadas via de regra por parceiros da sociedade e membros do governo. Embora esse lobby empresarial fosse muito poderoso no Congresso. disposta a transformações e tributária do modelo do estado desenvolvimentista nacional. Isso estabilizou o poder do PMDB e desacreditou o sistema democrático. Essa análise em termos de Economia Política não foi além da superfície. o ”partido do Estado” não se entusiasmou com Collor. Nas primeiras eleições livres para a presidência da república depois de 29 anos. No curto prazo não foi possível fazer com que camadas mais amplas da população experimentassem a melhoria das condições materiais de vida. realizadas em 1989. Medidas locais causaram um impacto nacional. Questões sociais e democráticas eram importantes para a população. e a do sindicalista Lula. Sader (1997: 178 ss.

O nacionalismo e o Estado de Bem-Estar Social eram perfeitamente compatíveis com a modernização. pela queda do muro e a crise do Estado de Bem-Estar Social na Europa. Mas com a perda dessa autonomia estiolaram-se também as fontes tradicionais do poder. Nos anos 90 o consenso inicial para a reforma e democratização do campo do poder estatal cedeu a uma política empenhada em deslocar esse campo de poder. o Estado era colocado cada vez mais no pelourinho (Pereira 1998: 148). A espiral inflacionária impedia que a concentração patrimonial pudesse ser afetada em virtude de reivindicações e exigências sociais. baseado no keynesianismo. Os responsáveis pelas decisões chegaram ao consenso de tirar proveito dessa confusão. ”O dinheiro é uma arma que confunde o adversário. mas em ampla escala sem eficácia. Em virtude da sua incapacidade na política econômica. Em duas palavras: o fordismo periférico deveria se transformar em fordismo ”verdadeiro”. pois era minada pela política financeira. torce a realidade mediante a inversão das responsabilidades. Essa retórica econômica. Tabela 10. A crise da ditadura militar rompeu os laços unificadores de um poder sobre o espaço nacional. As propostas de privatização e cortes das despesas do setor público só puderam ser implementadas tímida e assistematicamente nos anos 80. primeiro um fortalecimento dos exportadores. fortemente influenciado por fatores externos: no plano ideológico. com a perda de legitimidade do establishment. Diante da inflação. reformas democráticas e keynesianas afiguravam-se inevitáveis. podendo-se constatar uma alteração da estatalidade. as esperanças depositadas nesse caminho de desenvolvimento centrado no estado-nação e no Estado de Bem-Estar Social. a direita passou a deslocar o campo e subtrair assim o chão ao palco. contra a erosão da sua renda real. o que lhe rendeu a perda da legitimidade. com vistas aos seus interesses. No interior do bloco de poder nacional ocorreu nos anos 80.129 Encontrar outro arranjo estrutural consistente é uma questão de ”achado”. foi até anos 80 adentro o modelo determinante para a América Latina de orientação democrática. A esquerda tentou adaptar e ”reformar” o velho campo nacional. Todos os outros tentaram proteger-se ruidosamente. Isso explica também o fracasso dos diferentes políticos reformistas no decorrer dos anos 80. Mas o conflito em torno da hegemonia tomou outro rumo nos anos 90. Mas a atuação no campo da política econômica e social de orientação nacional e democrática tornou-se cada vez mais difícil. Mas a política financeira inflacionária foi atribuída ao Estado. que a estrutura oligopolista do mercado seria quebrada por uma abertura seletiva dos mercados e que o dinheiro nacional seria utilizado para a redistribuição e para o monitoramento da atividade creditícia. assalariados e Estado). Ao passo que foi possível realizar alguns experimentos interessantes nos planos local e regional durante os anos 80. Ao passo que a esquerda hiperativa fazia operações miúdas de conserto do palco. Ela deu foros de credibilidade à idéia de que o assim chamado insucesso do combate à inflação nos anos 80 seria devido sobretudo a uma certa tradição de ”populismo econômico” do qual as democracias latino-americanas não se tinham conseguido libertar” (Pereira 1998: 142). e a busca pode demorar muitos anos. como foi efetivamente o caso no Brasil. por força de uma política de desvalorização. Mas desde 1973. mas a política de juros elevados lançou as bases para uma reestruturação de corte neoliberal. supra). no plano político. apresentando com sucesso a inflação como resultado de um política econômica que em tempos de recessão se aferrara a idéias exageradas com relação ao orçamento e aos salários. Uma estratégia de desenvolvimento de orientação social e responsável em termos de política orçamentária teria significado que o estado desenvolvimentista democrático estaria no centro da regulação. Que soluções estavam disponíveis no início dos anos 80? No plano internacional o modelo do Estado de Bem-Estar Social. No início dos anos 80. da qual os especialistas nas universidades bem como nas organizações internacionais se serviram. conseqüentemente da indústria nacional e multinacional em boas condições de competitividade. como o da intervenção estatal e da política salarial. Quis servir-se do estado-nação mediante a democratização. o quintil mais rico foi o único segmento ”populista” bem-sucedido da população (cf. a opção liberal de um anti-Estado de Bem-Estar Social passou a ter uma influência crescente. que as relações de trabalho seriam desenvolvidas conforme critérios de parceria dos diferentes atores sociais (empresários. pela concentração do capital na esteira da desregulamentação dos mercados financeiros. No plano nacional brasileiro esse processo ocorreu com defasagem temporal. com a presença dos Chicago Boys no Chile e depois com as vitórias eleitorais de Margareth Thatcher e Ronald Reagan. Registremos aqui tão-somente que no início dos anos 90 um modelo de desenvolvimento nacional centrado no Estado de Bem-Estar Social ainda teria sido perfeitamente compatível com a estrutura vigente. A política dos juros elevados concentrou o poder 129 . A Constituição de 1988 testemunha quão fortes foram ainda. O campo de poder estruturado em torno do estado-nação perdeu seu ponto nodal claramente localizado. mais ainda. A autonomia nacional da política financeira domesticara a violência do dinheiro e permitira o ganho de significado de outros campos. toda e qualquer medida de política social e salarial provou ser uma vitória aparente. sobretudo as contribuições estatais de natureza social eram um elemento central dessa modernização. Se houve um ”populismo econômico”. os conservadores boicotaram no plano nacional toda e qualquer tentativa construtiva de restabelecer novamente a capacidade de atuação do estado nacional. mesmo no final dos anos 80.

Em 1994 ocorreu no plano nacional o colapso definitivo do velho campo de poder. Essa batalha na luta de classes foi vencida e o PT foi impedido em São Paulo de transformar a maior cidade do país em projeto piloto de uma política alternativa. que tinham beneficiado tanto os grupos de empresas quanto os trabalhadores. Ela teve o mesmo destino dos anos 30. menos política e mais resultados” formava o centro de um discurso antidemocrático (cf. o que configurou em primeiro plano um subsídio ao capital. À diferença de antigamente. que já se prenunciara com a eleição de Collor. exerce essa função germinalmente. O governo municipal do PPB apoiou politicamente o governo federal formado pela coalizão entre o PSDB e o PFL. os temas outrora associados com a esquerda mudaram de lado. enquanto oposição ”razoável” e ”disposta à cooperação” (Fernandes 1987: 212). preços e outros índices de gestão empresarial eram negociados entre os empresários e a classe trabalhadora (Diniz 1996: 25). o projeto de Estado de Maluf consistia em assumir partes importantes de modelos esquerdistas de organização. ajudou substancialmente. Por isso a direita investiu maciçamente na destituição do PT nas eleições. que facilitou com a sua política nãodiferenciada de oposição a destituição do PT do governo municipal nas eleições de 1992. dificultando o acesso à informação e com isso a realização de uma discussão pública racional.). O ”milagre econômico” (Oliveira 1998a: 178-187) politicamente negociado deveu-se em parte à assunção dos custos por toda a população e à circunstância de que a indústria automobilística continuava sendo o ramo central da indústria brasileira. A desideologicização dos debates políticos. As diferenças estruturais entre os modelos de Estado eram extremamente reduzidas nos planos nacional e local. Maluf logrou evitar nas eleições de 1996 justamente esse confronto. Sob Fernando Henrique Cardoso as câmaras setoriais. orientada por padrões de centralismo e eficiência. A direita conseguiu ocupar ”temas sociais”. Por outro lado. isenções de impostos e política alfandegária. ao invés do PPB. Somente o PT permaneceu na oposição. isto é.130 crescentemente no capital financeiro de orientação internacional. Collor contribuiu de modo relevante para a manutenção da des-ordem. Por isso ele tinha uma especial ojeriza contra o Estado e a nação enquanto pontos nodais consubstanciados na Constituição de 1988. Desde 1993 o PSDB formava juntamente com o PT. organizações de compensações de interesses. com sua má administração e os cortes no orçamento. Maluf conseguiu assim desideologicizar o discurso político. mesmo depois da crise do fordismo periférico. pois o seu programa de forte inspiração socialdemocrata assustava menos do que 130 . Dois projetos sociais. Com isso a sociedade civil outrora progressista e oposicionista foi incluída no poder sobre o espaço ou sobreviveu à sombra e à margem desse poder. a bancada da oposição na Câmara de Vereadores. não se deu apenas no plano nacional. Couto 1996: 41). mas não conseguiu impedir sua própria marginalização na política municipal. O modelo da tecnocracia neutra desembocou num isolamento do processo decisório. mesmo a cidade de Porto Alegre. mas registraram com alegria a irracionalidade da estabilização da des-ordem dos últimos quinhentos anos.3. Aqui o PSDB local. Com efeito. saudada por todos os lados. A direita tinha uma clara consciência do potencial poder de irradiação de uma ”São Paulo vermelha”. Novy 1998: cap. Por um lado ele queria combater o PT e os trabalhadores organizados. nas quais os salários. o velho campo de poder a uma erosão em tempo recorde. Paulo Maluf implementou um projeto hegemônico com dois objetivos. apresentando em tática ofensiva programas sociais inovadores.6 milhões. que desde 1989 estava trabalhando abertamente na direção de uma alteração fundamental do modo de regulação. muito menor e menos importante. submetendo. Foi possível negociar reduções da carga tributária com o governo federal e definir objetivos de produtividade para estimular o consumo de automóveis. em benefício de sucessos pragmáticos no curto prazo. pois quantitativamente insignificante. em números arredondados (1994). Uma outra tentativa de cogestão da regulação foram as câmaras setoriais. A legitimação do complexo hierárquico-autoritário de poder e saber se deu apenas de forma indiretamente democrática.2. embora um membro do PT fosse para o governo. Os setores que içaram Collor à presidência envergonharam-se diante do seu presidente ”irracional”. embora o PPB e o PSDB fossem concorrentes nos planos local e regional. 6. Depois da deposição de Collor o seu vice Itamar Franco governou ad interim durante dois anos com um governo respaldado por amplo consenso. A partir de agora mesmo as ONGs e boa parte da esquerda colocaram a crítica das estruturas entre parênteses. quando havia uma discussão ideológica entre a esquerda e a direita sobre maiores investimentos na área social ou em ”obras”. foi acoplada a uma política assistencial e de bem-estar social meramente simbólica. o PAS e o ”Projeto Cingapura” permitiram a Maluf impor o seu sucessor (Abrucio. Essa forma corporativista de compensação de interesses foi marginalizada e os incentivos foram concedidos agora diretamente nas formas do fomento do estabelecimento de empresas. foram definidos como não-conformes ao mercado. O seu lema tecnocrático ”O povo quer menos discussão. À primeira vista parecia em 1994 que o establishment estaria agora finalmente disposto a aceitar Lula como presidente. O projeto hegemônico de Maluf consistia em impossibilitar a cogestão ativa dos cidadãos. No plano local. A produção de automóveis subiu de um milhão (1992) para 1. A desmontagem do poder sobre o espaço. foi na realidade uma despolitização. A campanha do conhecido sociólogo Betinho pelo combate à fome é paradigmática desse novo estilo de política. centrado no Estado. A condução do Estado.

Assim a desindustrialização enfraqueceu a indústria nacional diante dos importadores e dos grupos orientados segundo o mercado de capitais. chegasse quase que sem esforço ao poder. ramo industrial central do Brasil. A indústria automobilística. controlado por grandes conglomerados internacionais. A distribuição da renda se deteriorou. Desde então era possível observar um processo de desindustrialização que transcorria simultaneamente a uma internacionalização das estruturas de propriedade. ofereceu-se a esses grupos no curto prazo uma fonte alternativa de receita por meio dos lucros elevados propiciados pelo mercado financeiro. que assegurou para si os setores mais lucrativos da economia paulistana e fortaleceu a sua posição-chave mediante a compra de empresas estatais. Mas a dianteira nas pesquisas dissolveu-se com a queda do índice da inflação na esteira da introdução do Plano Real. A estabilidade da moeda consolidou a legitimidade do novo modelo político de um Estado mínimo. Franco Montoro e Mário Covas mudaram-se mais tarde para o PSDB. o regional era controlado pelo centro. Sem dúvida a regulação da moeda está no centro das novas reformas estruturais. centrada no monopólio estatal. é possível identificar alguns elementos específicos do campo regional. em parte foi também observada uma metamorfose entre os proprietários de capitais. para citar um exemplo. O déficit orçamentário. O governo local estava nas mãos da direita. diretor-presidente da CNS. defendido pelo Plano Real. Enquanto centro da resistência contra a ditadura. já se protegeu novamente em 1995 mediante uma elevada taxa alfandegária. Não obstante. ou o aumento do imposto de renda na razão de 10%. A política fiscal serviu ao financiamento da política da moeda forte. violentamente criticado pela burguesia e pelos empresários. São Paulo beneficiou-se do fato de ser centro da estratégia de desenvolvimento nacional. sua base de poder era a indústria. Por isso as taxas de câmbio estáveis e os juros elevados formaram o núcleo da regulação. pois a 131 . pelo qual o Plano Real foi defendido. A abertura para o mercado mundial esteve também em segundo plano diante da regulação da moeda. Ao mesmo tempo alguns novos executivos sonhavam com uma forma de política econômica nacional. Em uma economia em vias de estagnação. Nos anos 80 esses interesses industriais entraram em crise crescente. menores do capital nacional do bloco de poder. mas nenhuma força social dispunha de um projeto hegemônico que abrangesse o Estado e o setor privado. Seu parceiro era o capital financeiro nacional. As transformações no campo da regulação do trabalho tinham levado em primeiro lugar a um enfraquecimento dos trabalhadores organizados e a uma maior dependência de todos os assalariados das suas respectivas empresas. juntamente com o modelo de desenvolvimento nacional. foi aumentada ainda mais para defender o Real. com ajuda da qual foi possível hierarquizar o espaço nacional. que via de regra conseguia impor-se em decisões de política econômica na concorrência com o capital industrial. Todos os quatro governadores paulistas do período pós-autoritário saíram das fileiras do PMDB. A quota tributária que já aumentara nos anos 90. como genericamente o pragmatismo na política comercial se opunha ao dogmatismo na política monetária. Evidenciou-se no modo. Essa parte da classe média apoiou o modelo garantidor do patrimônio. Assim Benjamin Steinbruch. A defesa da rentabilidade das aplicações financeiras foi o objetivo principal. A fração dominante do capital foi a internacional. Fernando Henrique Cardoso. cujo represamento fora outrora o objetivo supremo da política econômica do governo. o que acelerou a eliminação de frações mais fracas. Dessa continuidade resultou também a reduzida autonomia dos campos discursivos e organizacionais da região. pois proprietários de empresas de produção se tornaram rentiers no mercado financeiro. O estabelecimento de indústrias e a compra de empresas estatais foram subsidiados.131 o programa muito mais radical de 1989. da Eletropaulo Metropolitana e da CVRD afirmou que o processo de concentração ainda está longe de ter sido concluído. O resultado do êxito da política de dolarização e liberalização foi que o seu inventor. São Paulo oscilou nos anos 80 entre projetos de Estado comprometidos com o populismo de direita e de esquerda e projetos de Estado de esquerda. pois só esse modelo poderia produzir a estabilidade do valor da moeda (Pereira 1998: 148). As oscilações e inseguranças foram correspondentemente fortes. aumentou fortemente apesar da venda das grandes estatais. O financiamento da des-ordem exigiu impostos tão ”irracionais” como o imposto sobre o cheque. respaldado pela aliança entre o PSDB e o PFL. Com o Plano Real os grupos dominantes se despediram definitivamente do velho campo de poder. Só assim o Estado conseguia atender as reivindicações que lhe eram apresentadas. Por ocasião da segunda ”crise asiática” o governo reagiu com barreiras comerciais nãoalfandegárias. ao passo que Fleury encerrou o seu mandato como membro do PMDB e Quércia continuou dominando o PMDB de São Paulo. quão subordinados eram os outros objetivos. as margens de lucro só podiam ser aumentadas mediante uma redução ainda maior da quota salarial. Por seu lado ele se subordinou incondicionalmente ao sistema internacional financeiro ou está estreitissimamente entrelaçado com ele desde o fim dos controles dos fluxos de capitais. devido a desregulamentação no direito trabalhista e o aumento do desemprego. necessariamente. À guisa de compensação pela eliminação do núcleo do bloco de poder. assim como a posse de títulos de dívida do tesouro. Abriram assim mão das vantagens desse campo orientado para a compensação de interesses. A conseqüência quase que forçosa foi a necessidade de cortar os recursos para gastos sociais por ocasião de cada crise nova. O crescimento econômico extremamente modesto dos últimos anos assinalou um limite do modelo.

sinônimo de consolidação do status quo. pois não foi possível ancorar o socialismo no campo discursivo e organizacional da atualidade. contém sempre elementos do velho. Essa linha de argumentação ajudou Collor a ganhar as eleições e ganhou desde então muita força. privada de instrumentos autônomos de poder. mas desenvolvido (cf.11.” (Cardoso. Fiori 1997: 181). Mas ela se viu. da CUT e de setores dos movimentos sociais. Mas isso praticamente não era possível. O novo campo atribuiu o papel-chave à regulação da moeda que era definida ”externamente” e se operava de forma crescentemente privada. É por isso que o nosso novo capitalismo deve estimular que esses grupos se unam.assim como nos cinco séculos transcorridos . 16 Nas eleições municipais de 1996 a esquerda obteve êxitos no primeiro turno. poder-se-ia supor que a sua influência sobre a tomada das decisões tivesse aumentado. mas de outro modo tudo seria muito pior. no vocabulário dos seus críticos. a um estatuto comparável ao do Canadá . dentro e fora do país. destinados a realizar objetivos nacionais que são maiores e mais fortes que os meros objetivos empresariais” (Steinbruch 1998). dependendo. fossem elas a ”crise asiática” ou a ”crise russa”. 15 Para ela parece comprovar-se a verdade do que Giulio Andreotti. Os atores nos campos locais. 132 . apesar de terem sido obrigados a estabelecer um sistema complexo de alianças com os novos grupos que surgiram. ”Isso levou a pensar que ainda quando a ‘sociedade tradicional’ haja transformado em grande medida sua face econômica. ainda são pequenos. da benevolência dos parceiros internacionais na execução da sua política nacional. Em conseqüência disso os partidos de esquerda tentaram em 1998 na medida do possível apresentar candidatos que expressassem alianças.15 Como a esquerda conquistou cada vez mais mandatos nos diferentes legislativos. o que era. que se caracterizava pela sujeição ao regime internacional. Com isso eles defenderiam os interesses dos grupos favorecidos pelo sistema vigente: dos funcionários e dos assalariados na economia formal.em grau bem mais elevado no enfraquecimento do adversário do que no fortalecimento da própria posição. corporativistas. devendo-se distinguir aqui basicamente entre duas correntes. Por isso a essência da hegemonia visada baseou-se também . A mensagem central era: nem tudo está cor-de-rosa no momento. muito mais do que no passado. O PDT e o PT chegaram no plano nacional a um consenso quanto à chapa formada por Lula (presidente . contudo. “Os nossos gigantes empresariais. por conseguinte. Muito pelo contrário.PDT).132 indústria nacional ainda não é realmente competitiva em escala internacional.1996). por serem contra as planejadas reformas estruturais. regionais e nacionais do poder sobre o espaço olharam mais uma vez ”para fora” para reconhecer a sua posição no arcabouço do poder interno. mas ganhou somente uma vez (FSP 17. mas nos anos 90 esses grupos ”progressistas” foram crescentemente etiquetados ”conservadores”.ou da Áustria: dependente.14 Nos últimos anos esse bloco perdeu a dimensão da utopia. Em sete capitais estaduais o PT entrou no segundo turno. fazia-se mister a liderança ideológica na formação da opinião pública local. Hoje a esperança deveria consistir em ascender. Mas o contrário é o caso. membro de um partido que esteve 40 anos no governo. quando ele constatou a falta de capacidade do empresariado para realizar uma revolução burguesa nacional autônoma. tornaram-se mais uma vez os fatores definidores do espaço do poder interno. a velha raposa da política italiana. portanto. Para dominar o seu próprio espaço de poder. Nos últimos dez anos foram constatadas transformações maciças no seio da esquerda. Seriam. a solução recém-encontrada. Uma das regras fundamentais da estabilização da dominação é a inexistência de uma mera seqüência de grupos e sistemas produtivos dominantes. Nesse modo de regulação. Nos anos 80 o PT era considerado radical por não aceitar a ”transição pactuada” e a conexa restauração da des-ordem enquanto estrutura antisocial. pois os candidatos de centro-direita se aliavam regularmente. e disso ninguém mais tem dúvidas. Os ”radicais de outrora” oscilavam entre a assunção da posição da terceira via à la Tony Blair e a defesa recalcitrante de uma velha ordem que eles mesmos nem tinham criado e que no fundo era uma des-ordem. A esquerda não encontrou nenhuma estratégia para sair do isolamento provocado por esse pacto. precisamente por causa da regulação que abria fissuras no espaço de poder. como as teorias gradualistas de procedência liberal e marxista freqüentemente sugerem. Foram implementadas contrareformas que novamente faziam da distinção entre ”interno” e ”externo” uma fronteira definidora. 14 Os assim chamados ”progressistas de outrora” pretendiam conservar o Estado enquanto Estado ativo. Alterações externas. as possibilidades da criação de uma hegemonia para dentro eram extremamente difíceis. Faletto 1979: 13). dando assim ao governo e ao presidente uma base muito ampla no Legislativo.PT) e Leonel Brizola (vice-presidente . A classe dominante brasileira continuou sendo o ”parceiro júnior”13 do capital internacional. O primeiro grupo organizou-se de forma mais ou menos orgânica em torno do PT. o novo. afirmou: ”O poder desgasta a quem não o tem”. pois desde 1994 os partidos de centro votam regularmente ao lado da direita.16 13 Esse conceito foi introduzido por Fernando Henrique Cardoso já no início dos anos 60. de um país do Terceiro Mundo. em termos mundiais. minimizem as suas diferenças e se engajem em megaprojetos. alguns de seus grupos não perderam o controle do sistema de poder.

A indústria nacional dependia do crescimento das exportações. que promovia a terceirização exclusivamente para o setor privado. Isso explica porque ocorreu. a crítica do quadro estrutural da des-ordem do poder sobre o espaço foi considerada ilusória. A direita. Por várias razões.. A crítica permanente ao governo não impediu o PPB de cosustentar em larga escala as contrareformas. também do PSDB. por conseguinte. No fundo esse grupo defendia uma posição muito convencional e em parte dogmaticamente marxista do economicismo. não estava em oposição ao modelo do governo federal. O modelo do PSDB procurou assegurar a concordância das grandes massas por meio de uma política social liberal de participação sem redistribuição. Mattl 1999). sobretudo a da classe média. Nesse sentido se pode afirmar também que o governo federal em Brasília era ocupado por uma vanguarda brasileira. O PSDB regional seguia aqui uma concepção do Estado que se orientava mais segundo o modelo nacional de um Estado enxuto. A única diferença residia no fato de que agora o desenvolvimento das forças produtivas. São Paulo representava a modernidade econômica. Já que a pobreza não podia ser abolida. A esquerda justificou seu pragmatismo com a ética da responsabilidade de Max Weber ou com a ”paixão pelo possível” (Cardoso. Aqui o PSDB via de forma antes positiva a participação em si. mas aceitava-a como inevitável. Ao invés de defender esse desenvolvimento das forças produtivas em nome do empresariado nacional. explicitamente comprometido com ideais tecnocráticos e a democracia plebiscitária. 133 . o Secretário do Trabalho de São Paulo Walter Barelli. ao invés de depender do Estado. sem inclusão da sociedade civil. Mas infelizmente ela se colocou na tradição de uma ”vanguarda do atraso” (Oliveira 1998b). foi destruída nos últimos anos e os defensores dessa posição foram marginalizados. Já que a experiência ensinava que as grandes transformações não seriam possíveis. porta-voz do PPB em assuntos econômicos. defendeu os interesses do capital produtivo nacional. com sua política da moeda forte e dos juros elevados. isto é. A visível elitização da política estava relacionada com a polarização no mercado de trabalho que criou um pequeno número de empregos altamente qualificados no setor de alta tecnologia. As contrareformas implementaram transformações institucionais que estabilizaram a estrutura atrasada do poder nos novos tempos. não sendo. Inversamente. Todas as capacidades intelectuais disponíveis dos governantes foram mobilizadas para compatibilizar o progresso econômico e a inércia na política social (Fernandes 1987: 360). era determinado exclusivamente pelo mercado. Ele parecia adaptar-se à circunstância de que a sua clientela mais importante se transformava cada vez mais em grupo de rentiers ligados aos interesses do capital financeiro. A utopia da qual esse grupo era tributário não era mais o socialismo. freqüentemente sem segurança com referência aos direitos trabalhistas e sociais. desde que o quadro geral da ordem social não fosse colocado em cheque. Por isso Antônio Delfim Netto. no qual toda a sociedade ganharia. permitindo a participação de cidadãos economicamente protegidos.. desenvolvida. aqueles que tinham sido convertidos de radicais em contrareformadores entronizaram o pragmatismo no lugar das visões da transformação das estruturas. com menos consideração dos interesses particularistas no bloco de poder. isso foi feito em nome da globalização do capital.133 O segundo grupo que se organizou no PMDB e posteriormente no PSDB e que foi engrossado sempre de novo por simpatizantes do PT17 foi a ala reformista que não gostava da globalização. os esforços contrareformadores estariam contribuindo para amenizar a desordem. o sociólogo Francisco Weffort. era a preservação da estrutura social por meio de uma dinamização do desenvolvimento capitalista. concentrado em São Paulo. Maluf defendeu um modelo mais fortemente centralista. Faletto 1976: 212). ainda que com dificuldade. A única revolução para a qual os grupos dominantes sempre se podiam mobilizar. A falta de uma base material fomentou a individualização e a tentativa de garantir-se no curto prazo. Isso produziu em algumas pessoas a sensação de viver numa época de possibilidades ilimitadas. no sentido de conquistar direitos sociais de cidadania. Assim o conflito entre o PSDB e o PPB em torno do governo estadual de São Paulo foi em parte unicamente um conflito entre grupos distintos do mesmo bloco de poder. mas consistia no fato dele ser implementado de modo ”mais honesto”. muitos dos que implementaram as contrareformas em Brasília vinham de São Paulo. Mas o paradoxo do poder consiste no 17 O atual Ministro do Planejamento Antônio Kandir. que se revelava difícil em virtude da taxa de câmbio desfavorável. defendido pelo PSDB. a assistência seria ao menos organizada de forma mais eficiente. apesar das tensões iniciais uma coalização de interesses entre o PSDB e o PPB no plano nacional. Justamente no PSDB os interesses do capital financeiro estão fortemente representados. Assim a democratização e a capitalização se tornaram incompatíveis (Oliveira 1998b: 88). hoje Ministro da Cultura. mas uma modernidade abstrata em delimitação contra o velho e o atraso (Jaguaribe 1990). ao passo que generalizou na maioria absoluta um sentimento generalizado de insegurança (Novy. A opção de longo prazo de um ”jogo de soma mais”. e empurrou simultaneamente a maioria da população para empregos precários. Juntamente com os velhos donos do poder. em São Paulo concretamente o PPB. Os proprietários de patrimônios estavam interessados em uma moeda forte e nos juros elevados. foi também um dos principais críticos do Plano Real que enfraqueceu a indústria nacional no mercado doméstico. e seu secretário José Álvaro Moisés são apenas alguns exemplos conhecidos. ”regulador” e de uma prestação de serviços públicos realizada pela sociedade civil e pelo setor privado. Por isso o modelo progressista de cogestão no plano regional.

pois. um fortalecimento da concentração nacional do capital privado serve à soberania nacional etc. Fernandes 1987: 50). em 1993 42. Por isso a perda das eleições para a prefeitura de São Paulo em 1992 e 1996 e para o governo do Estado de São Paulo em 1998 foram uma autêntica derrota para a esquerda. A inserção isonômica mediante a garantia de direitos sociais de cidadania não estava na agenda. foi até criticada como um dos principais males da ”constituição cidadã”. O semanário alemão Die Zeit reporta na sua edição de 26 de abril de 1996 21.tratou-se de projetos hegemônicos que incluíam a população pobre apenas esporádica ou simbolicamente. Maluf mostrou isso com especial clareza ao questionar o significado de direita e esquerda. No fundo os dois grupos apenas estavam interessados em preservar o poder em uma situação historicamente aberta. em 1995 39 e em 1997 47 (Brasilienausschnittdienst 6/96: 26.394 casos de trabalho escravo. entre intelectuais e políticos provincianos. é outro fato a ensejar graves preocupações: em 1991 40 pessoas morreram em conflitos fundiários. em 1994 36. O PSDB tinha sido fundado em 1988 como partido reformista de esquerda que inscreveu a democratização nas suas diferentes facetas na sua bandeira. A resposta à desideologicização não deve ser buscada no plano das técnicas sociais. esse espaço de poder faltou em 1994. o sistema político ficou ameaçado de ser governado 18 O número crescente de conflitos e atos de violência politicamente motivados e denunciados por organizações de defesa dos direitos humanos. Em si a aliança entre o PSDB e o PFL. tampouco em fazer pequenas concessões de ordem material a partir de uma posição de poder. www.e aqui residem as semelhanças estruturais . Assim Fernando Henrique Cardoso possibilitou aos grupos dominantes tão-somente implementar a velha fórmula da estabilização do poder em um novo contexto. mas na crítica da des-ordem estrutural e na composição do bloco de poder. em 1992 35. na fixação no mercado ou na política em defesa da moeda forte. Num momento de crise de legitimação da direita tradicional. 4 de agosto de 1999). a descentralização das decisões até as unidades administrativas menores. ele e o seu PSDB forneceram a renovação necessária para o autoritarismo antisocial do establishment (Fiori 1997: 21). Mas uma fraqueza maior e efetiva derrota da esquerda foram registradas em São Paulo no campo da sociedade civil. Reivindicou no seu programa.134 fato de que o resultado da eliminação da des-ordem do foco de atenção é que mesmo os objetivos modestos que os contrareformadores se propõem não são atingidos. Mas não se recomenda fundamentar demais a crítica dessa política dominante em princípios.com. Em todas essas áreas. Em decorrência disso. A crise dramática das iniciativas de base e o aburguesamento do setor acadêmico da sociedade civil enfraqueceram o campo organizacional e discursivo para um projeto contra-hegemônico. ao passo que o PSDB encarnou a direita moderna que tentou desvencilhar-se dessas formas da política. Mesmo estruturas da regulação. mesmo alterações estruturais individuais em um modo de regulação não estão infensas a produzirem efeitos de estabilização do bloco de poder.jb. entre outras coisas. Socialdemocratas tornaram-se liberais. O espaço social de uma sociedade civil alternativa que ainda fez de Mário Covas um prefeito progressista entre 1983 a 1985. como natural.br. pois a afinidade a posições ideológicas é reduzida. Por isso o governador Covas prestou uma contribuição muito limitada no sentido de abrir o tradicional espaço de poder para baixo. Durante séculos a fio os grupos dominantes sempre se aliaram quando a participação da sociedade era reivindicada mais maciçamente ”a partir de baixo”. e de liberais com tinturas sociais. À medida que a classe baixa era marginalizada. a racionalidade oficialmente aplaudida se desmascara como medularmente irracional: pagamentos de bilhões a título de serviço da dívida servem ao saneamento das finanças públicas. um planejamento racional dessarte limitado não logra ultrapassar uma modernização da desordem. Maluf representou em São Paulo a política do clientelismo e populismo no sentido clássico. reduziram-se as diferenças entre administradores de esquerda e direita. sobretudo na zona rural. à medida que se exercia uma pressão de baixo para cima. Como ele legitima a des-ordem. um controle maior da polícia e o combate à corrupção. O ”idealismo liberal” uniu-se ao ”realismo conservador” (Cf. No novo campo dominante da racionalidade toda e qualquer ação política se reduziu à administração da des-ordem. Pode-se imaginar perfeitamente que o papel do Estado será submetido nos próximos anos a uma transformação fundamental e que a re-estatização seja promovida novamente pelos grupos que até pouco tempo atrás entoaram hinos de louvor ao estado mínimo. um fortalecimento do Judiciário. Um bloco de poder nunca encontra dificuldades em configurar medidas institucionais em conformidade com os interesses. surgida no decorrer de muitos séculos. no caso do PSDB. entre paulistas e nordestinos. o fortalecimento do parlamento diante do Poder Executivo.g. não apenas na política econômica. Mas em ambos os casos . na qual as implicações da ação não podiam ser bem avaliadas. como e. liberais conservadores vestiram a fantasia socialdemocrata. devido à contraditoriedade da des-ordem. cortes na área social servem para calçar no longo prazo os serviços sociais. 134 . o desenvolvimento nos últimos anos enseja graves preocupações. parece plausível falar de socialdemocratas liberais. nos casos do PPB e do PFL. conseqüentemente a importância das ideologias. No caso do Brasil. entre a alta burguesia industrial e os latifundiários não representa nada de novo no Brasil.18 A estabilização da des-ordem esteve em primeiro plano. Para Krebs (1997) o pragmatismo constatável na política é expressão da perplexidade.

Ele procura tornar realidade. As elites gerenciavam a ”estrutura do conhecimento e do poder”. que criticava ruidosamente a des-ordem e organizava os oprimidos.135 por segmentos concorrentes do establishment. 135 . em lugares reais. a utopia de uma sociedade socialista. O círculo de destinatários da participação se estreitou (Heins 1992). Mas mesmo a resistência à desordem permanece vinculada à estrutura irracional profunda. o establishment se empenhava mais ou menos vigorosamente por uma política assistencialista de natureza compensatória. Mesmo a idéia da igualdade enquanto ideal político foi esquecida por esse gerenciamento pragmático da política. próprio do sistema dominante. Tanto mais significativo foi o fortalecimento do MST (Movimento Sem Terra). os pobres administravam a sua pobreza. Muitas dimensões da práxis do movimento estão comprometidas com o pensamento hierárquico. dominado pelos homens e orientado segundo a idéia do progresso. Dependendo da honorabilidade dos governantes. Mas o grande mérito do MST reside na problematização das estruturas profundas e na compreensão da práxis como uma atividade transformadora das estruturas.

Vistas de perto. Como praticamente nenhuma outra citação. Uma análise do poder sobre o espaço vai um passo além e enfatiza que as pessoas não fazem apenas história. em circunstâncias que eles mesmos escolheram. No capítulo conclusivo os resultados mais importantes são mais uma vez resumidos.1 As aparências enganam. quando reconhecemos o poder sobre o espaço como fator propulsor da des-ordem na periferia. Por isso os produtores estão separados do seu produto. Ao proceder assim. Gintis 1986: 72). mas eles não a fazem de livre e espontânea vontade. Como Marx enfatiza.1. Contradições pomposas evidenciam-se então como meramente aparentes. por essa razão. mas em descobertas [Einsichten] acerca das margens de ação que ultrapassam o bom senso superficial. as palavras no início de ”O 18º Brumário de Louis Bonaparte” (Marx 1965) remetem à integração de estrutura e ação. discussões acaloradas revelam levar a equívocos. as normas de consumo fornecem o fundamento de chances e estilos de vida. vale adicionalmente que ele fundamenta uma relação de autoridade que estabelece um limite ao reino da liberdade e ao ideal burguês da igualdade (Bowles. A força de trabalho deve ser vendida para que os trabalhadores possam consumir. com ênfase nas suas implicações conceituais para pesquisas em outros contextos. estruturados de modo muito assimétrico. o de trabalho. por sua vez apropriada privadamente (cf. a distribuição desta transformada em 1 Em princípio os mercados são capitalistas nas sociedades capitalistas. dadas e transmitidas pela tradição” (Marx 1965: 9). Vamos agora sistematizar esses argumentos mais uma vez. No entanto. O livre acesso à terra foi abortado. A forma concreta da regulação orientou-se na história do Brasil sempre segundo as relações de força respectivamente predominantes.1 Mercado e Estado A primeira discussão. 5. A relevância prática de análises do espaço de poder não se mede em recomendações de ação. chamo a atenção à limitação das análises sociológicas que não vão além da superfície. produz-se mais-valia. Ao passo que no trabalho realizado até agora o objetivo era gerar teoria. desenvolve-se aqui também uma crítica do discurso dominante nas ciências sociais e regionais. Röttger 1997: 33-39). Assim o ponto forte da re-interpretação do desenvolvimento brasileiro aqui efetuada reside no enfoque explicitamente histórico-geográfico. o Estado criou em 1850 os mercados fundiário e de trabalho. Com isso foram encerradas décadas de insegurança nas transações econômicas de mão-de-obra e terras..1 Para o mercado mais importante. mas até consolidou a estrutura dominante do poder e da produção. apenas uma forma de regulação ao lado de outras. 5. Isso se deu de um modo que não colocou em risco. propriedade e Bentham” (1983<1867>: 189).. mais especificamente na síntese do material empírico. Foram criadas duas ”mercadorias fictícias” (Polanyi 1978: 183). Analisar o mercado isoladamente seduz a vê-lo como ”um verdadeiro Eden dos direitos humanos inatos”. Sob o modo de desenvolvimento orientado para fora. a sua força de trabalho se transforma em mercadoria. tem como objeto o par de termos opostos mercado e Estado. 136 . mas em circunstâncias presentes sem mediação. mas também geografia. A presente análise do poder sobre o espaço mostrou que os mercados foram e são criados e regulados pelo Estado. Grandes construções teóricas como a da teoria da estruturação de Anthony Giddens foram inspiradas pela idéia de que os homens e as mulheres agem no quadro de estruturas organicamente surgidas no passado. como a sociedade enquanto totalidade. isto é. tão difundida quão simultaneamente superficial. igualdade. Por sua vez. A desordem da periferia somente pode ser reconhecida por uma análise em profundidade que opera em nível mais elevado de abstração. ”[a] única coisa que domina aqui é liberdade.136 5 As pessoas fazem história e geografia ”Os homens (e as mulheres (AN)) fazem a sua própria história. os mercados estavam via de regra. os mercados não podem ser ”livres” do seu entorno social e do Estado e são.

an example of ‘ideas out of place’ (Schwarz): the slave owners were liberals. No regime de acumulação dominantemente intensivo o empresariado assegurou para si com um discurso liberal e uma prática intervencionista as suas margens de lucro pela via dos incentivos concedidos pelo Estado. pois a escravidão somente foi substituída pelo mercado livre de trabalho. A estatalidade brasileira fundamentou-se nacionalmente no patrimonialismo enquanto forma estamental autoritária de Estado e localmente na dominância da plantação e do engenho de açúcar enquanto dominação político-econômica total exercida pelo barão açucareiro. os liberais nunca lograram criar um espaço autônomo da sociedade civil e cedo se viram obrigados a recorrer ao intervencionismo estatal para sustentar o café. mas foram implementadas apenas fragmentariamente.conception of political development espoused by the Cardoso family is. que são claramente também ”mercadorias fictícias” percebidas durante o modelo orientado para o desenvolvimento e até há pouco tempo como tarefas nucleares do Estado. XIX o ”liberalismo real” acabou se impondo definitivamente com a República Velha. Já no séc. O sistema de mercado e o intervencionismo não se excluem de modo nenhum. e reformas estruturais significam hoje o contrário do que os estruturalistas da CEPAL tinham em mente nos anos 50. próprio dessas contrareformas. Cidadãos-proprietários [Besitzbürger] livres e interagentes não formam o fundamento da sociedade brasileira. que o liberal peruano Hernando de Soto (1987: 201 ss. política redistribucionista. industrialização . Santos (1978) reflete sobre a ”práxis do liberalismo”. XX sobretudo no setor que era importante para os grupos dominantes. A transformação em mercadorias de áreas até agora subtraídas a essa lógica deverá ajudar a impedir uma iminente crise de valorização do capital. e tão logo isso tenha ocorrido. eles conclamarão por intervenções estatais para o fim de preservá-lo” (Polanyi 1978: 206). Apesar da sua retórica antiestatal.and modernist . mas é simultaneamente uma ”idéia fora do lugar”. pois os isomorfismos discursivo e organizacional sempre desempenharam um papel importante. o Brasil imitou a potência dirigente também no plano ideológico. Ele sempre foi parte da ideologia oficial. Destituídos de qualquer acesso à terra e aos meios de produção.1 Liberalismo e intervenção do Estado Nenhuma outra ideologia ocupou com tanta renitência um papel-chave no discurso oficial e dominante do Brasil como o liberalismo. os liberais devem conclamar e conclamarão sem hesitar por intervenções estatais para fins de seu estabelecimento. cidadãos ou empresários. Ele é também o ”liberalismo real” enquanto liberalismo daquele partido que como Partido da Frente Liberal (PFL) atualmente é a maior força na aliança governamental: ”The modernizing . the bringers of foreign capital were nationalists. As reformas estruturais do Estado do pós-guerra . Como nacionalismo antilusitano ele se jogou sem delongas nos braços do imperialismo britânico. mas por força da coerção. na estabilização do preço do café. and now the modernizers wish to bring citizenship under the aegis of a political system which guarantees rights only to those endowed with wealth and power” (Lehmann 1990: 75). Ocorre que o Estado neoliberal é tudo menos um laissez-faire ou um estado mínimo. Hoje a desmontagem de instituições impeditivas do mercado está na ordem do dia (Fiori 1995a: XIV). A libertação liberal do Estado português não desembocou em nenhuma democratização da sociedade nacional. Mas a estrutura de poder no Brasil adaptou essas influências externas de forma autônoma. XVIII. ”Enquanto o sistema não estiver estabelecido. parece que estamos agora diante de um fracasso do Estado. a educação e a saúde. to quote a famous article. O intervencionismo estatal pode ser interpretado como resposta pragmática ao fracasso da regulação pelo mercado.137 monopólio do Estado.). o que explica a sua reduzida eficácia prática. A força autodestrutiva inerente aos mercados foi atenuada pela política de sustentação do café. Na atual fase de abertura para o mercado mundial os problemas e reflexões dos anos 30 parecem ter caído no esquecimento. A oligarquia agrária dominava os espaços do poder descentralizado e reprimia os germes de uma sociedade civil e da divisão dos poderes. A socialização dos custos e das perdas permaneceu um traço distintivo estrutural de uma camada dirigente que sempre foi apenas parcialmente liberal.reforma agrária. 5. razão pela qual o ”liberalismo real”2 brasileiro é tão contraditório e irracional como a realidade à qual se refere. O modo pelo qual a qualidade do seguro-aposentadoria. A intervenção no mercado se deu nas primeiras três décadas do séc. XIX um papel construtivo no processo de formação da nacionalidade (Fernandes 1987: 34 ss. os escravos não se tornaram agricultores.) utilizou para caracterizar o sistema econômico latino-americano da década de 1980. mão-de-obra nas grandes plantações capitalistas de café e nas grandes fábricas. O liberalismo inspirou os escravagistas na sua luta contra Portugal. Apesar disso o liberalismo desempenhou no séc.foram reações adicionais a esse fracasso do mercado. Atualmente estão na agenda o seguro-aposentadoria.1. 137 . Os políticos e o estamento do funcionalismo público garantiram para si a sua renda mediante o pagamento de receitas que se manifestavam na 2 Termo cunhado na esteira de ”socialismo real” e para estabelecer uma distinção contra a denominação ”mercantilismo”. da educação e da saúde estão atualmente vinculados à renda financeira revela o caráter cimentador do poder. No fim do séc. Nesse tocante os barões do café não se distinguiram dos industriais que a partir de 1930 ocuparam o seu lugar no topo da hierarquia do bloco de poder. Ao invés de um fracasso do mercado. O plano de frente foi ocupado pela inserção de novas áreas na esfera da lógica da mercadoria.

pois trata-se. tais como altos ordenados. somente permitido a uma ditadura de direita que não sofreu sanções internacionais. mas também por parcerias entre o Estado e a sociedade civil no sentido de uma nova governance. Atualmente está em pauta uma capitalização integral da sociedade. Pode-se falar de tudo. O novo modelo de estatalidade . a tarefa de dirigir o Estado. Mas a configuração concreta define a sua eficácia. pois abandona tudo a processos sociais de negociação. No setor da prestação de serviços públicos a administração é reestruturada na direção do tipo organizacional da empresa. uma forma mista entre o Estado e a sociedade. estabilidade ou promoções etc. Isso não em último lugar. Menos democracia permitiria uma condução mais eficiente do Estado. mas um ”socialdemocrata”. o que se dá por via da privatização.3 O neoliberalismo inaugura novas liberdades. O ”liberalismo real” foi finalmente levado às últimas conseqüências pela ditadura militar: recheada de defensores do liberalismo econômico. mas de perfil claro [prägnant] de neoliberalismo. dessa vez na forma da privatização do estado-nação. Mas essa modernização do Estado foi extremamente seletiva. isto é. eficaz e em elevado nível de qualidade. tal como ele foi desenvolvido por Michel Foucault. em parte modernas. ao liberalismo desejado por Hayek e Friedman. Sob um governo obsessionado com a modernização como o de Fernando Henrique Cardoso. conduzida agora como em uma gestão empresarial. Compete à alta burocracia. do poder de normatização e do 3 As conferências de Foucault sobre esse tema infelizmente existem apenas em forma de fitas (cf. Nos anos 80 o liberalismo foi proposto mais uma vez como solução. a reestruturação organizacional do Estado transcorreu analogamente à reestruturação do discurso como uma combinação de transformação e constância. O mandato de quatro anos foi pontuado por uma pletora de escândalos cujo ponto culminante foi a compra de votos para a emenda constitucional que assegurou ao presidente a possibilidade de recandidatura. pois ofereceriam serviços de forma eficiente. ocorrida poucos anos mais tarde. Isso não causa admiração. os atores competentes seriam o setor privado e em algumas áreas parciais também as ONGs.138 distribuição política do dinheiro. Finalmente os liberais e suas idéias acerca de uma economia de mercado chegaram por um breve período ao poder em 1945. Schmid 1991). em virtude da composição do conselho administrativo. Esse modelo de ”direção” e ”implementação” é a inovação institucional que define o perfil da discussão da reforma do Estado. Por meio da restrição ao que é ”realista” essas novas liberdades possibilitam novas formas de controle que não funcionam nem pela via da repressão nem pela da inserção hegemônica (Lemke 1997: 254 s. A implementação é terceirizada a organizações sociais semi-estatais ou semi-sociais nas quais imperam as mesmas condições precárias do mercado de trabalho restante. Mas ao mesmo tempo trata-se apenas daquelas reformas que não põem em cheque nem a estrutura fundamental do poder nem o bloco de poder. 138 . Sarney quis fazer ”tudo pelo social”. enquanto essas negociações se moverem apenas no chão de cálculos de custos e benefícios. As organizações sociais são uma forma organizacional que o governo denomina nãoestatal. ela realizou um processo maciço de estatização. o clientelismo no Legislativo reduziu-se unicamente em virtude da falta de recursos públicos a serem distribuídos.). mas pública. Por esse motivo desistiu-se nesse trabalho na medida do possível denominar determinadas políticas econômicas neoliberais. porque todos os últimos presidentes se distanciaram dele. Muitas das mais variadas críticas do modelo burocrático-estatal são levados em consideração nesse novo arranjo institucional: a participação da sociedade civil deve ser assegurada mediante a inserção das ONGs. O novo discurso autoritário vê agora na excessiva participação democrática um risco de ”governabilidade” (Becker 1998a: 13).governance . Collor foi um ”liberal social” e Fernando Henrique Cardoso obviamente não é um neoliberal. eles minaram a estratégia nacional-populista de Getúlio Vargas sem poderem oferecer uma alternativa. O ”liberalismo real” dos anos 90 é sem dúvida mais ambicioso está mais próximo ao liberalismo ”puro”. pois genericamente o Congresso é dominado pelas mesmas forças que tinham refinado o clientelismo durante muitas décadas. como se costuma dizer. do que as formas anteriores do liberalismo brasileiro.em parte arcaicas. Mas o setor privado otimizaria apenas a eficiência individual. o Estado de Segurança. Nos últimos anos. No Executivo foi possível desacoplar em larga escala o núcleo duro da política econômica e o technopol que o implementou da sociedade civil e dos acontecimentos políticos em geral (Fiori 1997: 13). mais flexível e orientado por resultados. Neles. Mas os militares conduziram o Estado a uma crise fiscal da qual ele ainda não se recuperara duas décadas mais tarde. Depois da sua destituição por via eleitoral. de estatuto privado. estratégico do Estado continua sendo dirigido segundo formas autoritárias . Por essa razão pretendo orientar-me na argumentação a seguir segundo um enfoque estreito. A parte militarizada do Estado. ”Neoliberalismo” é uma palavra cujo núcleo pode ser desmascarado somente com dificuldade. as regras burocráticas rígidas são substituídas por um modus operandi mais descentralizado.define as diferentes áreas da disponibilização de serviços públicos como mercados. O núcleo duro ou. e a alta administração enquanto núcleo estratégico do bloco de poder preservam-se partes substanciais dos privilégios amplamente criticados dos ”servidores públicos”. Lemke 1997. razão pela qual competiria ao Estado enquanto regulador definir as regras no sentido de que a eficiência econômica global ficasse assegurada.

Muito pelo contrário. Em segundo lugar. O poder exerce uma influência especialmente profunda para dentro dessas organizações de base. a configuração concreta da estrutura adquire maior multiplicidade. Organizações estatais e da sociedade civil são tratadas como empresas.a uma estrutura unitária do poder -. essa forma de estatização da sociedade fomenta a simultânea economicização do Estado e da sociedade. por conseguinte. juntamente com o princípio da concorrência.e pelo seu fracasso” (Lemke 1997: 254). o Estado e sociedade civil. de uma estatização da sociedade. ”Se essa hipótese for correta e a estratégia neoliberal consistir na substituição dos tradicionais mecanismos rígidos de regulamentação pelo desenvolvimento de técnicas de autoregulação. ‘uma espécie de tribunal econômico permanente’” (Lemke 1997: 248). do qual ele emana e pode. o poder sobre o espaço se subtrai ao acesso da ação individual. As relações sociais e o comportamento individual são decifrados segundo critérios econômicos e no âmbito de um horizonte de inteligibilidade econômica. o que não exige incondicionalmente um centro unitário de decisões . já não é mais o princípio da autolimitação do governo. that those small development organizations can operate on a grass-roots level. Trata-se de uma ”homogeneização da política” que abrange toda a América Latina. é encarregada da disponibilização dos serviços públicos e se torna assim parte oficial do Estado ampliado. Tal tratamento é substituído por um gerenciamento de problemas que se orienta segundo resultados. 4 ”It is a peculiar twist. mas penetram nas cabeças das pessoas para adaptar e instrumentalizá-las. por outro. sem referir-se ao plano estrutural. appear to be potentially the most dangerous if a Foucauldian sense of power is used do exame development” (DuBois 1991: 19). em escala mundial e nas áreas mais distintas imagináveis: do fim do tratamento central. o Estado ampliado.139 monopólio de recursos. isto é. Não está simplesmente vinculado a um detentor localizado do poder. nessa concepção.. estão sujeitos crescentemente ao mesmo cálculo. Ao passo que o liberalismo clássico instou o governo a respeitar a forma do mercado. examinando áreas e formas de ação não-econômicas por meio de categorias econômicas.4 Em última instância. de problemas. Por um lado. à medida que ele permite a avaliação crítica das práticas governamentais com base em conceitos de mercado: ele permite examiná-las.e esta é simultaneamente uma das contradições . those often considered to be the most effetive and certainly the most sensitive to local populations. Isso assinala o aparecimento e a imposição de um modelo. criticá-las por excesso e abuso e filtrá-las segundo o jogo de oferta e demanda. O neoliberalismo encoraja os indivíduos à ação empreendedora. then. da diferença. Mas. forças fragmentadamente descentralizadas passam a atuar hoje. À guisa de resumo.consiste na valorização positiva do concreto. à frente de todas a do capital. mas o princípio que se volta contra o governo. militares ou empresários. autonomia e variedade a um princípio universalmente válido: o da lógica do mercado capitalista. Nessa perspectiva. mas abrange em princípio todas as formas da ação e do comportamento humanos” (Lemke 1997: 248).um detentor do poder. ser simplesmente combatido. 139 . a economia não é uma área claramente delimitada e bem caracterizada da existência humana.]. podemos registrar que as discussões liberais tradicionais em torno de mais ou menos Estado e mercado e as diferentes variações de um mix de Estado e mercado continuam aferradas ao plano institucional. O que o professor de sociologia realizou no Brasil. Chega-se a uma ampliação conseqüente da forma econômica para a dimensão do social. Depois da capitalização integral dos espaços físicos do território. mas para sujeitar simultaneamente essa mesma concretude. do automonitoramento e do contexto. As forças produtivas do atual poder sobre o espaço impulsionam a intensificação da produção capitalista e a interiorização do cálculo do lucro. orientado segundo regras e por conseguinte sempre igual e universalmente aplicável. Elimina-se a diferença entre a economia e a dimensão social. O consenso atual . ”Deve-se registrar que esquemas de análise econômica e critérios decisórios de natureza econômica são transferidos aqui a áreas que não são ou não são exclusivamente áreas econômicas ou que se credenciam até pela sua diferença com relação a uma racionalidade econômica [. foi realizado em outros países latino-americanos por bonvivants. se monitora a si mesmo e considera o respectivo contexto.. Elas não estacam junto aos municípios e às ONGs. argumentando na esteira de Foucault. A perda de popularidade de Fernando Henrique Cardoso não abalou a estrutura do poder. Mas uma análise do poder sobre o espaço ultrapasssa a dicotomia mercado-Estado e desvela as forças estruturais. o poder é atualmente mais eficaz do que sob a ditadura. O desejo de ter espaços de configuração individual do trabalho e da vida e os empenhos em ter autonomia são respondidos com uma oferta de participação. será imprescindível para a análise política transformar em objeto da análise as capacidades de automonitoramento de um ‘indivíduo autônomo’ e o seu acoplamento a formas de dominação política e exploração econômica” (Lemke 1997: 256). burocrático. ”O ‘preço’ dessa participação é que as próprias pessoas precisam assumir a responsabilidade por essas atividades . Chega-se à aplicação generalizada de princípios de utilitarismo individual que passam a determinar o estilo de vida. ”A generalização da forma econômica preenche duas tarefas importantes: em primeiro lugar ela funciona como princípio analítico. Esse isomorfismo conduz a programas e formas organizacionais unitárias . outrora independente e freqüentemente oposicionista no curso da democratização. o mercado. A sociedade civil. o sistema de coordenadas econômicas possui também um caráter programático.

o que explica a concordância de importante parcela dos intelectuais com a reforma atual do Estado. fomenta a ”elitização” na era da ”Nova Renascença”. A ala moderada. orientada para a participação. Talvez esse respeito quase ”reverente” pelos intelectuais seja o traço distintivo de uma nação subdesenvolvida (Tavares 1998: 45). 140 . mas atua apenas na superfície? O desenvolvimento como intervenção temporalmente limitada opõe-se assim ao desenvolvimento compreendido como processo histórico-geográfico. intermediários em situação bem mais precária. Poder e saber deverão. Fato é que os intelectuais sempre se interessaram fortemente pela política. Com isso elas sujeitam aspectos não-monetários e oposicionistas a uma lógica quantitativa. a educação se transformaria em caderneta de poupança. indefesos. O novo campo de saber-poder não é neutro. O presente trabalho mostrou o poder desse processo. apoiou os movimentos sociais na construção de um contrapoder. capital humano. nessa perspectiva. o campo do saber e do poder está experimentando uma transformação maciça na direção de um campo de governance. a profissionalização aumentou a dependência dos financiadores. A consciência coletiva dos oprimidos se caracteriza pela cultura do silêncio.1. centrada no Estado .140 5. os intermediários podem assumir o papel dos funcionários de carreira cujo número está regredindo substancialmente diante do número de funcionários durante o regime de government. Alguns dos elementos discursivos de Freire foram aceitos pela direita como crítica. fomenta a atuação rotinizada e reproduz injustiças. Quanto aos aspectos da organização e do discurso. Sobretudo nos anos 80 quase todos eram politicamente ativos. mas resultado do ordenamento de instituições e técnicas sociais no âmbito de uma estrutura de poder. ”pelo roubo da linguagem. plano e aberto. pois a sua posição privilegiada nunca está duradouramente assegurada. sendo que a lógica do primeiro domina o processo de desenvolvimento. Como essas estruturas podem ser rompidas no curto prazo por um gerenciamento de projetos que pode ser extremamente profissional. Os mediadores com formação acadêmica (intermediários) entre os grupos-alvo da prestação do serviço público e das instâncias decisórias estatais são valorizados. Projetos opõem-se a processos. mas inclinado e repleto de obstáculos que alguns podem vencer com maior facilidade do que outros. Em Porto Alegre essa cooperação de Estado e sociedade civil foi organizada diferentemente. No caso da prestação do serviço público o governo busca decididamente a participação da sociedade civil e de atores descentralizados. dever de responsabilidade e prestação de contas. mas precisa ser constantemente conquistada. A lógica da implementação racional do projeto está em contradição com a opressão multissecular à qual os ”grupos-alvo” de projetos quase sempre estiveram expostos no âmbito da governance. No âmbito de uma ”cultura de projetos” predomina a coerção à apresentação de êxitos no curto prazo. não-burocrática e descentralizada. Mas essa multiplicidade local de situações e propostas de solução é avaliada segundo critérios unitários que sobrevalorizam a dimensão monetário-financeira e se concentram em soluções técnicas. até ”hiperativos” (Fiori 1995a: XI). De resto eles são. pela sua redução à existência de animais domésticos. de uma visão que via no Estado um ator neutro que utilizava os instrumentos que os detentores de posições no Estado queriam ver utilizados. Ao mesmo tempo ele marginaliza a base. o que contradiz a natureza de processos de desenvolvimento (Novy 1997a). Esse campo de saber-poder remontava a Paulo Freire e à teologia da libertação. advogados ou médicos. No entanto.isto é. No reordenamento atual da estatalidade. Os pobres seriam apenas receptáculos a serem preenchidos pelo docente (Freire 1984: 57). que então estavam surgindo poderosamente. os elementos nucleares dessa inovação originam-se no Brasil de iniciativas de base que se formaram nos anos 70 na resistência contra o Estado autoritário e reivindicaram uma forma de Estado não-tecnocrática. Nessa conjuntura muitos desses intelectuais foram advogados da base. Esses intermediários são oriundos do mesmo meio cultural que nos anos 80 estava orientado na direção das iniciativas de base. No regime de governance. seja como arquitetos. O enfraquecimento da base ensejou o desaparecimento da identificação com os setores inferiores. inconscientes. organizado à semelhança do mercado e academicizado. O poder sobre o espaço pesa sobre os ombros dos atores. à diferença do funcionalismo público. conseqüentemente quase sempre lento.3 Poder e saber Os intelectuais sempre foram de grande importância na evolução do Brasil. não discriminava o saber popular e dava aos atores das camadas inferiores tempo e espaço para que articulassem o seu saber e deixassem que ele adquirisse eficácia (Novy 1988). Esse campo que se baseia em recursos ”de baixo” usa o potencial criativo da base para vivificar um saber acadêmico exangüe.partiu de uma visão instrumental do Estado. Em analogia à compreensão do espaço Freire identificava em uma concepção do saber como receptáculo a estrutura fundamental de um campo repressivo de saber-poder. basicamente todos os intelectuais à exceção do PT e dos sindicatos próximos a ele . A ala radical dos intelectuais. absorvidos com adaptações e transformados em pontos nodais no novo campo de saber-poder. Isso aumenta a insegurança individual e com isso a pressão ao conformismo. Mas estas são obrigadas a submeter-se a critérios rigorosamente acadêmicos de prestação do serviço. A configuração discursiva e organizacional do novo campo. destituídos de esperança” (Lange 1984: 11). razão pela qual extensos segmentos de potenciais prestadores de serviços se vêem liminarmente excluídos. partir de baixo e utilizar os recursos locais e o saber local para a solução do respectivo problema. isso não é uma lei da natureza. no qual o Poder Executivo dá as regras referentes ao valor de mercado do saber. pela destruição da identidade cultural dos oprimidos. O campo do saber estatal é constituído como um mercado.

No campo discursivo.1. que conduziu em uma medida até então desconhecida à centralização no plano do estado-nação (1930-1980) (Ianni 1996: 160). relativamente sem influências bélicas. Não há dúvida que durante extensos períodos do séc. falta um conceito de estrutura. assim uma revolução ”rumo à descentralização começou com igual força desde os anos 70. mas conforme a época de modo diferente. mas não política de São Paulo * germes de uma integração territorial e social * preservação da autonomia regional dos grupos dominantes * descentralização e fortalecimento do federalismo * fragmentação do território e heterogeneização da estrutura social * globalização e homogeneização das frações de capitais (subordinação ao capital internacional) * deslocamento da dinâmica econômica na direção do Sul (Mercosul) 141 . Mas estas facilmente acabam sendo apropriadas pelos interesses da estrutura do poder. ora para o outro.2 Centralização e descentralização Por volta da virada do séc. predominante no planejamento urbano e territorial nos tempos da ditadura militar. Sudeste: café) * descentralização e aumento da autonomia financeira dos estados da federação * centralização econômica crescente em São Paulo * centralização do poder decisório no estado-nação * supremacia econômica. de pessoas oriundas de um espaço social que precisou ser constituído a duras penas na luta contra o Estado autoritário: da sociedade civil enquanto espaço de poder com uma lógica de ação germinalmente distinta da do Estado e do capital e com um certo potencial emancipatório. Mas assim como as tendências de centralização foram fortíssimas sobretudo depois da 2ª Guerra Mundial e da vitória dos bolcheviques na Rússia em 1917. De acordo com um esquema político simples. a fase de consolidação do poder central (1822-1889) foi seguida por uma fase de descentralização (1889-1930). ora para um lado. 5. Para Pareto a alternância entre regulação centralista e descentralizada constitui uma ordem natural. As conseqüências para o processo de desenvolvimento são fatais. XIX para o séc. e essas oscilações manifestam-se por meio de muitos e multiplicíssimos fenômenos” (Pareto 1975: 311). conforme resume a tabela a seguir. teleologicamente uma fase de centralização é seguida por outra de descentralização. nem sempre de modo igual e regular.141 Como a elaboração do Orçamento Participativo foi democratizada enquanto ponto nodal no campo do poder local. XX Vilfredo Pareto elaborou uma concepção de estrutura espacial de ordenamentos sociais. os novos intermediários da sociedade civil partem de um saber ”neutro” e de uma competência profissional ”neutra”. que poderíamos denominar centrípeta. que poderíamos denominar centrífuga. No Brasil as coisas não se passaram diferentemente. a lógica excludente da disponibilização descentralizada dos serviços também podia ser mantida dentro de certos limites. Tabela 38: Dinâmica espacial como ”eterno retorno” de centralização e descentralização dinâmica espacial 1822 – 1889 CENTRALIZAÇÃO 1889 – 1930 DES-CENTRALIZAÇÃO 1930 – 1980 CENTRALIZAÇÃO a partir de 1980 DES-CENTRALIZAÇÃO Fonte: Adaptação do autor * centralização monárquica para a defesa da economia escravista assegura a unidade do Estado * deslocamento do centro econômico (Nordeste: açúcar. impele na direção da sua divisão. sobretudo porque se trata hoje. no caso desses intermediários. no qual os novos intermediários da prestação do serviço se movem normalmente. O ponto de gravidade dessas duas forças se desloca em meio a um eterno vaivém. Do mesmo modo como a burocracia estatal no passado. descrevendo um traço distintivo estrutural que parece ser pertinente para uma compreensão precisa do desenvolvimento do Brasil: ”Em toda e qualquer sociedade humana duas forças se antagonizam: uma. Muito pelo contrário tudo gira em torno de técnicas sociais. XX houve uma centralização em escala mundial. Centro: mineração. a outra. impele à concentração do poder central. Com isso os intermediários entram no mesmo beco sem saída do saber tecnocrático muitas vezes criticado.

Pareto quis mostrar os elementos de preservação do desenvolvimento social além dos tempos. orientados para fora.a estrutura nacional que atualmente está sendo enfraquecida é. inequivocamente mais poderosa do que a estrutura nacional do Império. Os efeitos sobre a estrutura local e nacional do capital também são diferentes. De acordo com essa posição. pois em áreas importantes o processo atual se distingue do do séc. A desconcentração concentrada conduz a uma redução quantitativa da importância e a uma desindustrialização na Grande São Paulo. Isso implica o ”eterno retorno” de uma ordem aparentemente incontestável. por assim dizer natural. possibilidades de participação da sociedade civil. depois por via da guerra. Na República Velha a oligarquia agrária dominava. pode-se constatar uma desconcentração concentrada em benefício dos estados vizinhos ao Estado de São Paulo e a expensas da periferia. pois trata-se do mesmo padrão básico. o que reforça a tendência à fragmentação do território. Mas esse acesso ignorou a circunstância de que o plano central sempre se posicionou funcionalmente em favor da desordem descentralizada. como e. De início isso se deu pela via da crise econômica mundial.142 Os campos sombreados na representação acima mostram a dinâmica espacial como processo cíclico. Ele é um dispositivo formado pela dominação local dos senhores de engenho e dos fazendeiros e por um receptáculo nacional de poder. As reformas constitucionais de 1894 e 1988 fortaleceram os elementos federativos e com isso os estados. cuja estrutura é perpassada pela lógica local autoritário-hierárquica (Fernandes 1987: 58 s. Ao mesmo tempos os cinturões ao redor da capital e sobretudo da Região Metropolitana se expandem. eram via de regra os da oligarquia agrária. Os empenhos de centralização por parte dos estados nacionais no quadro do fordismo periférico só foram possíveis em meio a uma estrutura descentralizada da economia mundial. Mas atualmente o capital internacionalmente competitivo.). sobretudo do espaço rural. do sufrágio universal. Estado de Bem-Estar Social rudimentarmente existente . Uma situação similar vale com referência à espacialidade da estrutura social. que na verdade tinham um interesse central em comum: preservar a estrutura social. efetuado nos anos 80 em oposição à ditadura militar. Com referência ao Estado de São Paulo evidencia-se que a concentração na Grande São Paulo entre 1920 e 1980 foi devida a uma condensação do espaço de entrelaçamento. A lógica descentralizadora da República Velha baseou-se em uma estrutura distinta dos esforços de descentralização na década de 1980. posteriormente os latifundiários. Mas isso não conduziu ao equilíbrio regional muitas vezes discutido. um conceito relativo que carece de algumas especificações e demanda uma análise dialética (Ianni 1996: 51-86). Competia ao estadonação a implementação dos direitos democráticos fundamentais. representados no plano central como interesses territoriais gerais da unidade descentralizada. urbanização. O parlamento era uma coleção de tais interesses regionais. os municípios. mas produzida. Em primeiro lugar. expande-se o espaço de aglomeração. A centralização em um plano pode perfeitamente andar de mãos dadas com descentralizações em outros planos. Sob a Velha República a descentralização significava o impedimento da democracia local. não obstante o processo de desconstrução ao qual ela vem sendo submetida. A estrutura do estado-nação nunca se libertou do patrimonialismo português e abriu 142 . que iniciou com a criação da SUDENE em 1959. Hoje como no passado há sistemas de produção locais. Na sua fase final. A falta de uma política social unitária fomenta a heterogeneização da estrutura social. iniciou-se um processo crescentemente mais nítido de descentralização econômica no espaço. Ao mesmo tempo muitos dados sugerem que a história não deve ser vista como processo cíclico. Nessa contradição baseava a convicção de que o progresso e a democratização deveriam ser implementados contra os interesses locais. e que a geografia não como dada. por conseguinte. de modo nenhum é uma alternativa cogente. O maior proprietário de terras falava em nome da e pela região. deve-se clarificar o alcance da validade. que no entanto não excluiu a continuação da concentração do capital nacional. Mas o regime de Bretton Woods também se baseou na soberania dos estados nacionais e limitou o poder do mercado e da moeda mundiais sobre o espaço. Em alguns pontos importantes . De início foram os representantes da coroa juntamente com os barões do açúcar. Ambas enfraqueceram o nexo de relações do mercado mundial. A descentralização política sob a República Velha lançou os fundamentos da consolidação da centralização econômica em São Paulo. predominando nacionalmente o capital cafeeiro e internacionalmente os capitais comercial e financeiro. Isso orientou a Revolução de 30 assim como a marcha dos militares revolucionários e o planejamento regional. assumiu a posição de supremacia.industrialização. a fase atual de descentralização deveria conter elementos da fase de 1889 a 1930. Muito pelo contrário. Justamente num país como o Brasil o poder local sempre foi autoritário.g. Centralização é. isto é. assim como os estados. A descentralização política da República Velha significou a subordinação completa dos municípios e de todas as forças políticas locais e regionais divergentes ao poder central do governador. apoiado por um capital financeiro (restritamente) nacional. XIX e do incipiente séc. e com isso a subordinação do espaço político de São Paulo ao poder central reforçou os processos de centralização econômica pelo capital industrial paulistano. Os interesses locais. mas como ”irrepetível”. A centralização política. Com efeito o poder sobre o espaço se assemelha. XX. O acoplamento de democracia e descentralização. A descentralização definida na Constituição de 1988 fortaleceu o poder local. A descentralização política dos anos 80 fomentou finalmente as atividades de política econômica das unidades descentralizadas. Sob a coordenação de Celso Furtado iniciou-se no âmbito da SUDENE o planejamento racional do desenvolvimento regional do Nordeste.

Assim a centralização é um fenômeno a ser diferenciado segundo processo e planos. mas privilegiavam sem exceção uma análise especificamente espacial.). Isso assegura a coesão do governo e focaliza ao mesmo tempo a administração. Estamos aqui diante da representação hobbesiana de um detentor soberano do poder. ao Estado o papel de intervir nessa distribuição. Keen 1984). A nação enquanto receptáculo fornece a referência do discurso espacial. constituiu-se assim uma escola independente de economia regional. nacionalmente vigentes. Mas em outros autores como Faoro. assim como a competência de ação se localiza no estado nacional. por sua vez. e com isso a concepção do território como espaço socialmente homogeneizador (Bava 1996: 54). Atinge-se melhor o objetivo integrando esses fenômenos cíclicos em um modelo dialético de produção do espaço.1. A estratégia conservadora de descentralização combina a centralização política com a descentralização administrativa. Situado nessa tradição. sempre de novo. Pacheco ou Negri evidencia a importância desse grupo para o presente trabalho. Para análises espaciais esse procedimento é muito interessante do ponto de vista metódico. A citação extensa de autores como Cano. O campo discursivo da UNICAMP e em ampla escala de toda a pesquisa regional brasileira concentrase em torno da pergunta pelas distribuições espaciais a que isso leva. embora uma análise do poder sobre o espaço permita mostrar as fraquezas dessa teorização dos dois momentos da dialética. Cardoso e Faletto não conhecem nenhuma geografia subnacional.do local e do global. A discussão com essa conceitualização regionalista do estruturalismo de Celso Furtado é importante. No plano nacional chega-se a uma centralização do poder junto ao Executivo (a expensas do Legislativo e da sociedade civil). 5. mas se enraíza em coincidências de interesses das classes dominantes local e internacional e é claramente questionada pelos grupos e classes localmente dominados” (Cardoso. O pensamento de Furtado gira em torno da formação da nação. Por essa razão o pêndulo de Pareto e os fenômenos cíclicos conexos somente podem ser ponto de partida da pesquisa. Mas as conseqüências espaciais do fenômeno designado com o conceito espacial ”globalização” são muito mais complexas do que parecem ser à primeira vista. Na concepção cepalina isso é complementado pela concepção do planejamento territorial científico neutro enquanto forma de intervenção racional.143 portanto ao establishment e ao empresariado um acesso privilegiado ao Estado. Recorre a conceitos 5 ”Compreendemos a relação entre fatores externos e internos como uma totalidade complexa. A concepção cepalina padece do defeito de eliminar o poder do foco da análise. Mas o que caracteriza o enfoque especificamente espacial na citação acima é a utilização de ‘local’ no sentido de ‘nacional’. ocorreu no Brasil uma recentralização por via da política monetária. observar um engajamento mais intenso. Furtado e Frank encontra-se.nos planos espaciais inferiores . outros de um processo de ”desconcentração concentrada” (cf. Faletto 1976: 216). para uma crítica. Atribuise. assim como a concepção do poder padece por pensar unilateralmente o espaço. a saber. cuja unidade estrutural não se fundamenta apenas em formas externas de exploração e coerção. O enfraquecimento da dimensão nacional é hoje percebido amplamente como um problema e parece andar de mãos dadas com um fortalecimento de outros planos . dissolve-se a concepção de direitos sociais de cidadania. As suas análises sempre tiveram uma orientação implicitamente geográfica. Alguns falam aqui de uma inversão da polarização (Townroe. Sobretudo o modelo malufista e em parte também o do governo central se orientaram por essa estratégia. No plano regional se pode. Assim como a dialética de internacional e nacional é constitutiva para eles.3 Globalização e fragmentação Durante as três últimas décadas a UNICAMP foi um centro de reflexão crítica.processos de centralização ou descentralização. Pacheco se ocupa da ”fragmentação da nação” (Pacheco 1998. conforme testemunham a ”guerra fiscal” entre os estados e municípios. pois correlaciona dois planos espaciais.) situa o problema na ”falência do estado-nação”. No Brasil atual os dois processos podem ser observados. com o Plano Real. O estado-nação transfere a regulação dos conflitos sociais e a administração da escassez ao plano local. Por fim a formação de uma associação supranacional como o MERCOSUL pode fomentar . no qual se examina a contraditoriedade da (des)centralização. Uns temem maiores disparidades regionais e outros chamam a atenção à relevância da dinâmica na região dominante. à medida que estados e municípios se tornam participantes ativos na concorrência continental. Mas todas essas discussões permanecem no plano superficial da distribuição espacial. 143 . O acréscimo de importância da dimensão local é atestado por evoluções como a descentralização política e a ”especialização flexível” de sistemas produtivos locais e regionais. a sua crítica da política econômica das últimas décadas aponta para a circunstância desse processo de construção ter sido ”interrompido” (Furtado 1992). que não pode ser apreendido com uma dinâmica espacial simplificadora. Depois de 1994. uma análise regionalizada. o vaivém entre os pólos interno e externo enquanto dialética de fatores nacionais e internacionais. Pacheco 1998: 208 ss.5 Na esteira da tradição cepalina e ampliando essa tradição. Cano 1998b: 309) e Cano (1998b: 349 ss. assim a aplicação análoga da dialética ao vaivém entre a nação e a região é desconhecida. v. por sua vez. Esse discurso ideológico coisifica o poder produtivo do capital e redefine-o como poder de mercados globais.

concentram-se no espaço-receptáculo nacional. mas o palco no qual elas atuavam foi o estatuto provisório de uma situação exceçional. desestruturaram-se a regulação democrática do estado-nação e. enquanto der lucro. Krätke 1996). A concepção da glocalização sugere a desimportância da nação. o controle e a decisão de ações econômicas. de resto condenado à marginalidade. os pontos nodais da regulação da moeda e do trabalho. Uma outra conceitualização do espaço e do poder é igualmente necessária para superar esses desvios teóricos e políticos. possibilitando a sua critica. À medida que a dinâmica da acumulação é interiorizada. Por isso é mais adequado ”apreender a contraditoriedade da concorrência global e da competitividade local (ou regional) como uma relação de ”articulação” de relações globais e locais. A acumulação e regulação ocorrem no mesmo espaço e reagem ao mesmo centro de comando do poder. Tanto a CEPAL quanto a UNICAMP somente conhecem a desordem [Unordnung] e nenhuma desordem [Un-Ordnung] [ATENÇÃO. A maioria da população deve assim perder o seu estatuto de sujeitos políticos e ser degradada em meros suportes de estruturas. Mas esse modo de apreciação ignora o fato de que os campos histórico-geográficos têm a sua inércia também na área da produção. para desistir com isso da regulação política racional. Os pressupostos dessa intervenção política específica se dissolveram e se tornaram apesar disso o fundamento da formação científica de planejadores. da tomada de decisões sobre investimentos e financiamentos. a dinâmica econômica produz um espaço de entrelaçamento que extrai as suas regras da lógica do sistema econômico. O sujeito da história é tão-somente o capital e aqueles que agem em seu nome. we should not consider one as an emergent and another as a residual tendency.sobretudo para o financiamento. Lá houve durante a evolução orientada para o mercado interno a formação de entrelaçamentos fortes dominados por São Paulo. Mattl 1999). De fato. É certo que a endogeneização do campo econômico . esse campo de poder possibilitou um papel progressista de saber-poder que definiu a desordem da periferia como des-ordem. Em conseqüência da crise dos anos 60. são produzidos cada vez mais nas mais distintas partes do país produtos individuais em regime de especialização. Num espaço de entrelaçamento econômico global resta-lhes apenas a adaptação aos mecanismos de coerção inerentes à realidade [Sachzwänge]. dados como grandezas de orientação pela estrutura. Novy. os planejadores ainda precisavam ser forçados a deixar o poder sobre o espaço fora do foco do seu trabalho. Não são poucos os funcionários ”esquerdistas” da UNICAMP que trabalham no governo de Fernando Henrique Cardoso. REVISÃO DA EDITORA: aqui e a seguir a distinção entre ‘desordem’ e ‘des-ordem’ deve ser rigorosamente mantida. na sua esteira. Seguindo o discurso da globalização. sob pena de confusão. new geographical options in the present corporate repertoire” (Amin.6 Vale o princípio ”Anything goes”. torna-se nele também possível um planejamento do desenvolvimento. dominante depois de 1964.em parte nostálgica . Cada espaço ativa os recursos com os quais ele pode concorrer na concorrência global. Robins 1990: 28). A desordem é um problema ”estrutural” que poderia ser solucionado mediante uma boa intervenção. Se esses recursos são valiosos. Isso resulta em um padrão espacial que se assemelha à estrutura de arquipélago do Brasil colonial. They are all contemporaneous. A SUDENE. deverá ser respeitada. Em meio a um processo de descontextualização os métodos e instrumentos utilizados foram inseridos na práxis do planejamento autoritário. mas ela pode reduzir a desordem. À medida que todas as decisões passam pela esfera do estado nacional. Na UNICAMP o Estado é visto como detentor do poder e a nação é percebida como um receptáculo . Em uma conjuntura específica. Mahnkopf 1996: 30). Por isso as localizações em São Paulo ou nos estados vizinhos continuam especialmente atraentes . Mas as duas perspectivas compartilham uma visão . Tanto na localização quanto na globalização estão em pauta apenas aspectos parciais de um processo econômico abrangente (cf. Assim o conceito da glocalização parece adequado para compreender as transformações espaciais. Nos casos anteriores a grafia ‘des-ordem’. também o fundamento do saberpoder racional. Tenta-se tirar o poder do território ou dissolver o território. sempre que surgir. reflecting new articulations of global mobility and local fixity. O tradutor].permeável.a orientação para o mercado doméstico . Disso resulta freqüentemente a exigência de uma repolitização ou de um desejável primado da política sobre a lógica unificadora do capital ou do 6 ”The point is that these different spatial dynamics are not contradictory or incompatible. No decorrer dos anos 80 e 90 o saber acerca da des-ordem da periferia se perdeu sem nenhuma coerção e informalmente. A expansão para novos espaços geográficos ainda não integralmente dominados pelo capital e a valorização de espaços sociais nas regiões nucleares do capitalismo são estratégias perfeitamente compatíveis.do estado-nação como bloco homogêneo do fator político. Foi possível acomodar os conflitos entre a acumulação e a regulação nessa constelação histórica concreta de um campo do estado-nação.144 foucauldianos para glorificar esse poder como intocável (cf. 144 . chega-se à valorização do espaço local. Sob a ditadura. Elas identificam a distribuição injusta das terras e da renda como uma mazela. da região e da economia. Por isso as tendências modernas da sociedade mundial são antes uma ‘glocalização’ do que uma ‘globalização’” (Altvater.não conduz automaticamente a uma ordem estável e muito menos ainda a uma ordem justa na periferia. Essa tecnocracia usou a ideologia do planejamento neutro com o ônus restritivo irracional de não tematizar o poder. as Ligas Camponesas e outros movimentos de base na periferia nacional não foram nenhuma farsa (Oliveira 1987: 18). que ainda permanecem substancialmente preservados.

todo o espaço de aglomeração . Não existe um fim da des-ordem.). para além das regiões centrais. como ela afetou em 1997 quase todos os ”mercados emergentes”. que fala de um capitalismo financeiro. De decisiva importância para a crítica da teoria econômica do cepalismo foi a falsa separação de economia e política.7 Mas na realidade o espaço político também se transforma na direção do espaço de entrelaçamento. mas que. outrora ilegal. tornando-se assim parte do cálculo de valorização do capital (Oliveira 1987: 102 ss. no âmbito do ”local Socialism” (Becker. Os bancos centrais dão hoje garantias do patrimônio que se encontra no território do Estado e defendem o seu valor por meio de uma política de juros elevados e do fortalecimento da moeda. que implode territórios. transforma-se na antítese do estado-nação (Oliveira 1989: 5). dos donos do espaço. isto é. parece ser mais fraca do que as estruturas territoriais que se consolidam ao longo de 500 anos.assim por exemplo a Grande São Paulo . por outro lado. que consiste em sondar constantemente os limites dos subsídios pagos ao capital a expensas dos trabalhadores sem que se chegue a uma crise de subconsumo. Esse argumento vale sobretudo para a política maciça de subsídios estatais que atingiu todos os planos da federação brasileira e mina o estado fiscal. Uma crise da moeda se torna assim rapidamente uma crise de um espaço de poder. na direção de um ”Estado forte” (IBRD 1997). Novy 1999). A dinâmica dos espaços de entrelaçamento. num segundo passo. definem o valor de um país. o mais tardar. 8 Nesse sentido a virada fundamental da política keynesiana desde 1930 consistiu no fato de que a intervenção do Estado se dava ex ante e não ex post. na forma da ”guerra fiscal”. mas talvez ao aumento indireto do bem-estar local. mormente sem o Estado (Oliveira 1998b: 95). Sobretudo os aplicadores nacionais e internacionais do capital de curto prazo são atores políticos que lograram impor a desregulamentação dos mercados de divisas e podem atuar hoje em meio a um espaço global de entrelaçamento. Na esteira da argumentação de Tavares. O estado-nação enquanto capitalista financeiro. a empreitada liberal de uma autonomização do processo de valorização capitalista e de uma redução da influência do Estado está condenada ao fracasso. um desaparecimento do ”Terceiro Mundo”. Sua riqueza se lhe afigura como fonte financeira da coletividade e do Estado. As outras áreas têm uma relação muito menos direta com a estabilidade do processo de valorização. Fazem isso tão mais à vontade. evidenciase a hierarquia dos espaços de poder na economia mundial. Em virtude dos mercados desregulamentados de divisas. Disso resulta a crença egocêntrica e errônea da burguesia de poder viver sem os outros. Por isso o território político clássico da cidade perdeu uma parcela grande do seu poder.ambos inteiramente vinculados a um território . A política não serve ao aumento direto.9 Hoje o fundo público disponibiliza os seus recursos mais exclusivamente para a valorização do capital do que nos tempos do fordismo orientado para o mercado doméstico. por um lado. quanto mais as forças oposicionistas estão marginalizadas no Estado. Oliveira chama a atenção à crescente dependência da valorização do capital do ” fundo público” (1989: 94 s. a nação enquanto soma dos seus habitantes passa a ser a perdedora. de Estado e capital.8 O capital necessita de um Estado forte para poder saber de antemão de modo confiável quão elevados serão os seus subsídios. e procura novamente a mão protetora do Estado. Mas em uma área o estado-nação assumiu um novo papel. como isso foi praticado exitosamente na ”Viena vermelha” do entre-guerras e já bem menos exitosamente na Inglaterra do início dos anos 80. Vale genericamente a regra de que empresas multinacionais estão em grande parte isentas do pagamento de impostos. Mas a correspondente territorialidade. Mas como a reprodução do capital se dá em nível global. parece ser menor. quão pouco ela está desacoplada do espaço. A moeda e o fundo público . Feldbauer et al.145 mercado. 9 Os donativos fiscais foram em parte usados para lucros extraordinários. ser colocado sobre pés novos. Uma nova forma de território. Pode-se observar essa fragmentação também no plano microregional: se no passado a regulação local da economia local era possível. por essa razão a demanda de regulação por via dos territórios. 1997). que arrecada tributos da população para subsidiar o processo de acumulação. um espaço delimitado de poder com competências claras. A taxa de câmbio e a taxa de juros configuram dois instrumentos centrais de política que. a pesquisa e o desenvolvimento devem ser disponibilizados in loco. nas últimas décadas o espaço da economia local estendeu-se na maioria das grandes cidades e em todas as global cities definitivamente além das fronteiras políticas (cf. A burguesia reconhece então. os ricos têm hoje as mãos livres para promover a ”evasão de capitais”. A valorização do capital freqüentemente não é rentável sem subsídios maciços por parte do Estado.criam uma hierarquia global que impede redes dispersas do espaço de entrelaçamento e externalizações ainda maiores dos espaços centrais de poder. Disso resulta o aspecto da irracionalidade da des-ordem. falta em larga escala ou baseia-se em mecanismos informais e freqüentemente ineficazes. Se num primeiro passo de ”desestatização” o território foi destituído de poder. Em uma tal crise maciça. 7 Não muito distante disso está também a nova orientação ideológica defendida pelo Banco Mundial. 1998).tem maior peso na concorrência entre as localizações. Isoladamente. e não inversamente a coletividade enquanto nação como fonte da sua riqueza. ele deve. A fragmentação do espaço político expressa-se na descentralização do estado-nação e no fortalecimento de instâncias reguladoras supranacionais em um sistema global de governance (Jessop 1997). só podem ser definidos com autonomia restrita no atual regime da desregulamentação dos mercados de capitais. Por isso os liberais apressam-se em retornar com demasiada rapidez ao regaço do Estado. 145 . pela via do apoio do processo de valorização: a infraestrutura econômica necessária..

Por isso também o espaço de entrelaçamento tende a ter fronteiras. Concentrações de empresas e 10 A distinção entre regime de acumulação e sistema produtivo baseia-se nos diferentes enfoques da Escola de Paris e da Escola de Grenoble . Com os mercados de eurodólares o capital financeiro começou a internacionalizar-se nos anos 70 (Novy et al. O fator nacional foi construído como modernidade e progresso sem que se percebesse que os fatores arcaicos se apropriaram desse novo poder sobre o espaço e transferiram toda a carga de ”reacionarismo e atraso do local” para o plano nacional. O controle in loco será maior se as indústrias de bens de consumo e de bens de produção estiverem fortemente entrelaçadas em termos espaciais e não dependerem do exterior. O espaço econômico tornou-se maior. em parte até global. o que só pode ser interpretado como simplificação economicista. que a partir dos anos 50 e 60 os investimentos produtivos (sobretudo transferências de unidades industriais e investimentos diretos) foram o primeiro passo. Ocorrem contudo condensações nesse espaço de entrelaçamento. mas não foi efetuada uma análise de vários planos. Refere-se assim a uma região claramente delimitável na qual um determinado poder governa soberanamente.146 mesmo depois da modernização da periferia. a saber. ambas regulacionistas(cf. 5.10 Do ponto de vista quantitativo.2. Sob pontos de vista qualitativos o controle sobre o processo produtivo tem importância decisiva. isto é.. do detentor ditatorial e personalizado do poder (aqui também a semelhança com Vargas). Não esqueçamos. aparentemente separadas dos seus respectivos territórios. Num território o poder de prefeitos. Por isso é também enganoso ver os fatores nacional ou local como o plano espacial ”melhor”. para que se pudesse falar de um regime de acumulação. O financiamento do desenvolvimento espacial também deveria ser controlado in loco.1 Da des-ordem da periferia à des-ordem do capital Assim como extensos setores da Sociologia e da Economia. que se preocupa com o seu espaço-receptáculo. dos investimentos. Cano 1998b: 309). estava na pauta a destituição do poder de detentores locais do poder. Depois da degradação do fator local a dialética de ‘local’ e ‘nacional’ caiu novamente no esquecimento. formam-se pontos nodais. enquanto dialética. sem efetuar uma análise do poder sobre o espaço. Nesse novo espaço de entrelaçamento econômico as cidades . mas também sobre a territorialidade enquanto produção de territórios definidos sempre apenas por tempo limitado: fluxo e definição de processos sociais no espaço. O cepalismo define comumente o espaço político enquanto espaço de poder com ajuda do conceito de território. Por outro lado. mas abrange o mundo inteiro. embora elas possam permanecer difusas e determinadas atividades sempre se possam difundir. O presente trabalho mostrou que a nação brasileira foi construída em um processo multissecular. o pensamento cepalino padece de grosseiras simplificações com referência ao espaço. Trata-se então de um regime de acumulação ou de um sistema produtivo com entrelaçamentos econômicos espacialmente condensados. Nas economias centrais o espaço político entrou em crise. não representando o espaço único de poder. Não há limites fixos no espaço econômico da economia capitalista mundial: a economia interage potencialmente de modo a abranger o mundo inteiro. Na base disso está mais uma vez a concepção hobbesiana do detentor soberano do poder. No fordismo enquanto modo de desenvolvimento orientado para o mercado interno os espaços político e econômico coincidiram em grande parte (Becker 1998b: 122). a esse propósito. o poder produtivo do capital que enquanto estrutura profunda é responsável pela des-ordem da periferia? Na parte final do presente trabalho tentaremos examinar agora a estrutura dessa desordem do capital que não é apenas periférica. Por isso dever-se-ia falar não apenas sobre o território. o espaço econômico do comércio. Por um lado. Mas é verdade afirmar que a des-ordem somente aparece na periferia? Será que as diferentes seções desse capítulo não evidenciaram uma estrutura constante. o enfraquecimento dos espaços de poder subnacionais também foi uma estratégia política para ”criar um poder soberano capaz de dominar um território extenso e governar um povo” (Nunes 1996: 32). Politicamente. 1999). Freqüentemente deparamo-nos com uma certa nostalgia da ”Era Vargas”. constituem pontos nodais centrais. da produção e do consumo podem ser melhor compreendidos como espaço de entrelaçamento.world e global cities -. 146 . centros e bordas. a maior parte das interações deve ocorrer em um espaço concreto. Mas num exame mais acurado mesmo as fronteiras do territórios são bem menos nítidas e delimitadas do que parece. Becker 1999). esta permancece à margem da ordem global. quando o espaço econômico começou a expandir-se além das fronteiras nacionais. governadores e presidentes se sobrepõe crescentemente a poderes supranacionais que definem as regras de um território. A fronteira é um aspecto importante do território.2 A des-ordem do capital 5. dominada pelo estado-nação (Cano 1997: 253 s.

A velada orientação externa do capital paulistano assumiu um caráter aberto. isso significa uma combinação de extensificação e intensificação. É certo que no seu centro não está a superação do capitalismo. muito pelo contrário. Isso tem a ver com o fato de que a concepção do modo de regulação se baseia. no campo de estado-nação do fordismo. colocam-se então fundamentalmente duas alternativas: a maior orientação da acumulação segundo a economia externa ou o deslocamento dos limites sócio-econômicos. mais estreitos. Nessa situação representações hobbesianas de soberania não são inteiramente erradas. portanto. Essas contradições só se manifestam mais maciçamente na periferia. mas na hierarquia de classes sociais. Diferentes planos espaciais influem na regulação. pois a força produtiva do capital é inerentemente contraditória. centro-periferia. Aqui iniciam também as tendências de intensificação. significou a estabilização da des-ordem. outrora de competência do Estado de Bem-Estar Social. Ao mesmo tempo a estrutura interna do espaço econômico é mais fragmentadora do que na fase do fordismo. Os recursos da política regional se encolhem devido à crise fiscal do Estado. Ocorreu uma orientação regional externa da acumulação dominada por São Paulo no sentido de uma dominação integral da periferia nacional. Oliveira (1987: 24) criticou o acoplamento do poder ao espaço. que continuou funcionando até 1982. trata-se de uma superação [Aufhebung] num quadro conceitual mais abrangente e crítico. ”A partir de um determinado ponto. constitutiva da intensificação no fordismo periférico. mas simultaneamente. e a complementação do setor de bens de produção também foram concluídas. da apropriação da mais-valia. Por isso todo e qualquer modo de regulação é no fundo um ordenamento específico de regulações em planos espaciais distintos. De acordo com essa visão.147 mercados globais financeiros conduzem a entrelaçamentos espacialmente mais extensos. feito pela CEPAL. a des-ordem da periferia não reside apenas na hierarquia de espaços. a conceitualização da periferia concentrou-se em espaços e situou a des-ordem na periferia. Mas na estrutura atual esse enfeixamento historicamente incomum se dissolve. A acumulação. Além disso chega-se a uma extensão da lógica do capital e do mercado a áreas até há pouco tempo subtraídas ao mercado. como reação à crise de acumulação de 1964. 11 A regulação sempre é um fenômeno de vários planos. A primeira consiste na relocação de prestações sociais. à qual subjazem formas respectivamente distintas da luta de classes. Sociedades capitalistas constituem uma des-ordem. Como ela examinou o vaivém dos fatores interno e externo. Um modo de regulação designa a combinação estabilizada de manifestações concretas das formas estruturais Estado. Argumentando em termos de imanência sistêmica. O critério decisivo de periodização passou a ser a pergunta se um regime de acumulação seria orientado para fora ou para dentro. assim como o do regime de acumulação. Várias estratégias de acumulação ocuparam o lugar de um regime dominante de acumulação. a acumulação intensiva baseia-se no barateamento dos bens salariais e em uma nova norma de consumo da classe trabalhadora (Aglietta 1987: 68 ss. mas a transição a formações capitalistas respectivamente novas. pois o cálculo dos benefícios encontra aplicação em áreas sempre novas. portanto. podendo. aumentando a multiplicidade dos atores intervenientes. Mas a mera endogeneização do desenvolvimento não supera a des-ordem da periferia. Tal análise de modo nenhum significa a negação das importantes descobertas do cepalismo em muitas áreas.). Num país de dimensões continentais como o Brasil a exportação nunca pode substituir inteiramente o consumo doméstico. para a esfera privada a ser organizada na sua maior parte pelas mulheres. pois ele não efetua nenhuma análise das classes e elimina assim também do foco o conflito entre o capital e o trabalho. Atividades distintas enfeixamse em planos respectivamente distintos. A política industrial regional praticada sob os militares possibilitou a manutenção do campo de poder do estadonação até a crise do endividamento. mas utilizei o conceito de modo de regulação mais raramente. para tal se faz mister superar a lógica da acumulação. ser melhor apreendida com o conceito mais 147 . feita em termos de economia política. Aqui a periodização cepalina prova ser útil. Depois o campo de poder desmoronou. No Brasil pôde ser observado uma combinação. depois a regulação começou a decompor-se.11 Já no modo de desenvolvimento descentralizado da República Velha. Para ele. moeda. os dois tipos do regime de acumulação atingem limites sócio-econômicos da ampliação do mercado interno. com vistas ao aspecto do controle.” (Becker 1999). Tal como efetuada pela CEPAL. A natureza e o corpo humano são valorizados pela biotecnologia e pela tecnologia genética. normatizando e disciplinando estilos de vida. em uma análise do poder sobre o espaço. pois a renovada orientação externa obriga a constatar uma nova fase de desenvolvimento. A teoria da regulação fornece aqui o ponto de partida. Referi-me no presente trabalho muitas vezes a formas estruturais. Com referência à acumulação. atribuiu à questão da endogeneização da dinâmica econômica um papel-chave. A acumulação extensiva busca a apropriação da mais-valia absoluta e o aumento da mais-valia relativa por meio de aumentos de produtividade. Essa crítica do pensamento cepalino se prolonga. a endogeneização da dinâmica econômica na América Latina em geral e a constituição de um sistema econômico local em São Paulo constituíram a ruptura mais importante na história econômica da América Latina. Mas Aglietta define diferentes formas de acordo com a forma da apropriação da maisvalia. Mas a urbanização. Primeiro a acumulação parou. trabalho e concorrência. central na periferia. após o fim do financiamento externo.

Para o modo de desenvolvimento do fordismo tropical. mas também para a luta de classes e a regulação. A sua valorização do capital está sujeita a uma lógica que integra o mundo inteiro e conduz. Muito pelo contrário. pode-se observar tendências à recentralização. que criam complexos regionalizados de produção fora de São Paulo. muito pelo contrário. Mas esta baseou-se em uma fusão dos capitais estatal e privado e na assunção de tarefas de capitalismo financeiro por parte do estado nacional. o plano nacional enquanto elemento unificador desempenhou um papel mais importante para a estrutura global do que comumente se admitiu. que no Brasil chegara com a política regional da SUDENE.e casualmente também a homogeneização regional analisada por Pacheco. Como sugere o conceito de fordismo. Por isso pode haver diferentes regiões num espaço monetário. Com isso não se encerra toda e qualquer especificidade regional. Esses esçaços perdem então a sua forma regionalmente específica e submetem-se ao poder da fração dominante do capital. Mattl 1999). destituída do elemento ‘poder’. Mas a partir de um determinado momento da integração do capital.148 orientado para fora. observam critérios idênticos e operam com as mesmas tecnologias. o que não significa outra coisa senão que o consumo e a produção nesses espaços seguem uma lógica unificadora. centrado no estado nacional. trata-se de espaços de poder com uma forma própria. Essa análise baseou-se no conceito foucauldiano de dispositivo (cf. O núcleo do período depois de 1930 consiste no fato de que a moeda nacional se torna o equivalente geral de toda a economia nacional. Ocorre que a homogeneização não vale apenas para a acumulação. é expressão de compromissos de classe estabilizados em termos espacio-temporais. como critica Pacheco (1998: 26).).D’ (dinheiro . do modelo de Estado em todos os planos espaciais. Mais especificamente. por assim dizer”. a crise da acumulação e a crise fiscal conduziram a uma homogeneização radical. implementada no curtíssimo prazo. Se a crise do estado-nação incluía a esperança por modelos políticos descentralizados e plurais. uma tendência ao predomínio de uma determinada lógica de valorização do capital. para a relativização da tese cf. pois este é tanto parte da regulação quanto a instância que deve sancionar o conjunto de regras e normas. Um exemplo atual são os subsídios concedidos às montadoras de automóveis. o que. essas explanações sobre a dissolução das regiões e a homogeneização nacional no ápice do fordismo periférico podem ser continuadas em grau mais abstrato. Diante da globalização. E mesmo na fase atual de esvaziamento do estado-nação a perda de poder do mesmo em benefício dos municípios e dos atores globais de modo nenhum é irrevogável. se refere a algo inteiramente distinto do que a distribuição no espaço.) atribui a posição dominante ao Estado. Mas essa descentralização da produção significa a inserção das regiões favorecidas no processo global de valorização dessas empresas multinacionais. no entanto. Becker. uma lógica . Os investimentos diretos efetuados nos anos 90 no Brasil por grupos industriais estrangeiros fizeram com que estes agora determinem o processo de acumulação. A homogeneização da acumulação e regulação significa. Cano 1998a: 241). como foi o caso com a região do açúcar e do algodão no Nordeste e a região cafeeira no Sudeste.mercadoria – mais dinheiro) é o caminho que o capital precisa percorrer para reproduzir-se. a não-intervenção de atores globais no período de 1930 a 1953 evidenciou ser de importância decisiva. XIX como ”moeda. pode-se falar de um regime de acumulação.a do capital industrial paulistano . Já tentei algo semelhante em uma análise do discurso: procurei valer-me da concepção do dispositivo para por de manifesto as estruturas do discurso (Novy. os regulacionistas atribuem à relação salarial uma posição determinante entre as formas sociais (Hübner 1990: 177 ss. A partir de outra aberto do dispositivo (cf. Na condição de campo. a homogeneização em termos de economia política. Foucault 1978: 119 s. por conseguinte . Raza.à dissolução da nação. tanto da acumulação do capital quanto da luta de classes (Oliveira 1987: 29). No início e no fim desse processo está o dinheiro. Na realidade. Se a apropriação da mais-valia e a determinação do valor da moeda ocorrem no mesmo espaço. Já Becker (1998b: 120 s. A realização da apropriação da mais-valia se dá ex post e por via do dinheiro. Assim ele vê a libra britânica no séc. Enquanto ator nacional.seguindo a argumentação de Oliveira . Abstração feita de ”aldeias gaulesas” isoladas. o que veio acompanhado de um elevado índice de financiamento externo (Oliveira 1989: 17. Oliveira (1987: 27) vê uma região como um espaço no qual ocorre uma forma específica de reprodução do capital. seja nos automóveis ou na Coca-Cola.passou a sobrepor-se às diversas lógicas dos outros planos espaciais. não deve ser confundido apressadamente com determinados governos ou regimes. presente na concepção do poder sobre o espaço. o Banco Central dispõe do recurso-chave moeda e regulamenta o acesso às fontes de financiamento. muito menos ainda são superadas as diferenças regionais. Estamos aqui diante de abstrações da economia política que são estranhas à visão de mundo da CEPAL. em vias re publicação). ele atribui o primado à moeda (Becker 1999). A concepção da homogeneização não é ”demasiado” abstrata. Em termos econômicos. Por meio dos reduzidos entrelaçamentos externos constitui-se um espaço autônomo de reprodução do capital. As opiniões divergem no tocante à hierarquia das diferentes formas estruturais que constituem um modo de regulação.) 148 . D .M . O campo do estado-nação da ditadura militar criou uma tal homogeneização . sobretudo no Rio Grande do Sul. Em Oliveira podemos encontrar idéias semelhantes. e isso segundo a lógica de um poder global sobre o espaço. a nação foi homogeneizada politicamente. colocada em primeiro plano por Pacheco.

significa o acoplamento a um espaço monetário estrangeiro que se desmascara como espaço de poder. mais uma vez na onda de um amplo movimento de massas. a elaboração do Orçamento Participativo e investimentos maciços na infraestrutura pública abriram o Estado local para camadas mais amplas da população. por outro lado a estrutura fundamental capitalista permaneceu intocada. Por outro lado. a pobreza persiste e as injustiças aumentam. Em algumas áreas isoladas houve tentativas de reduzir a dominação corporificada na forma centralista-tecnocrática do estadonação. Por um lado. genericamente pelo subdesenvolvimento e especificamente pela crise de 1997/98 (cf. Sobretudo na onda de um movimento de massas. contudo.). revela-se inócua a esperança por uma política industrial e regional nacional que um esclarecido detentor do poder deve realizar com um ”projeto nacional” (Pacheco 1998: 268). Contra teorias apressadas da crise e do colapso se deve registrar com Cardoso e Faletto (1977: 225): ”No curso da sua explicitação. Ignorou-se aqui. algumas reformas foram possíveis em esferas parciais da estrutura social. Sem o conhecimento desse poder sobre o espaço não há como compreender os processos de desenvolvimento. um amplo consenso social quanto à necessidade de superar a pobreza. que grupos importantes viram o golpe de 1964 como única saída. Sem uma análise dos regimes financeiro e monetário. pois o regime ditatorial e com ele o establishment estavam desacreditados.2 Transformação e constância do poder sobre o espaço A força das estruturas evidenciou as dificuldades simplesmente incomensuráveis de iniciar mudanças que transformem as instituições e estruturas de modo a melhorar as condições de vida da maioria da população. efetuada radicalmente pela Argentina e. Havia. o subdesenvolvimento e a impotência. empregos para uns e desemprego para os outros”. apenas germinalmente pelo Brasil. a totalidade das configurações estruturais concretas se alterou. Esse trabalho se orientou pelo empenho em evitar deficiências elementares nas explicações convencionais da desigualdade no Brasil. O economicismo tende a explicações funcionalistas que ex post facto subordinam tudo a uma lógica funcional . O caso brasileiro mostra o espaço restrito aberto para a modificação das relaçoes de poder pela via da técnica social. mas insuficiente. Esse conhecimento ensina a ser sempre pessimista com vistas a transformações. Sob a camuflagem de uma ciência crítica. Mas ao mesmo tempo esse conhecimento é um instrumento de poder. Competências decisórias fluem para fora do país assim como o capital em fuga. A autonomia nacional se dissolve. A cogestão dos cidadãos. que formas estruturais somente se estabilizam se a estrutura total for transformada. por um lado. faz-se mister contrapor a esse pessimismo um otimismo da ação. A raiz da fragmentação está na circunstância de que o valor da moeda é definido em lugar distinto do do processo produtivo. Essa pluralidade de opções resulta de uma determinada estrutura. No plano local foram implementadas numerosas reformas consideráveis da estatalidade.2. disponíveis aos diferentes atores.à frente de todas as lógicas. por prudência. Nos anos 80 os esforços socialreformistas experimentaram um renovado incentivo.12 Além disso não quis sucumbir nem a simplificações politicistas nem a simplificações economicistas. por prudência. para não cairmos em uma postura cínica deslavada. destruí-lo e produzi-lo. Uma razão essencial do resultado problemático das 12 Uma análise estrutural é importante porque estamos diante do paradoxo de que há. a convicção de que a mera constatação da desigualdade para a qual os sociólogos apontam com referência a tempos e espaços sempre novos era imprescindível.a tal ponto. Necessita do espaço para utilizá-lo. nos anos 50 e 80. os reformistas tinham uma posição socialmente reconhecida. à do capital. Nas fases áureas da discussão democrática. por um lado. Krugman 1999: 158 ss. a Rússia. Com a SUDENE o governo central brasileiro apoiou a partir de fins dos anos 50 uma tentativa amplamente dimensionada de modernização reformista da sociedade nordestina. O poder concretiza-se no espaço. pois a internacionalização da moeda e do financiamento produz um efeito idêntico. No entanto. As estruturas multisseculares de uma sociedade escravagista e latifundiária começaram a se por em movimento . isso produz justificativas ex post e enseja a elaboração de uma simplória história dos vencedores. Permite realizar tão-somente transformações institucionais ou transformações estruturais parciais (técnicas sociais) que assegurem a permanência das estruturas de poder na sua totalidade. 149 . Mas a história reserva uma lição: a des-ordem da periferia e do capital não exclui a possibilidade da simultaneidade da fragmentação e do crescimento. essa forma de desenvolvimento gera tanto na periferia quanto no centro periodicamente o bem-estar e a pobreza. Já a simplificação politicista consiste na afirmação de que em países tão distintos como a Indonésia. se ele não for criticamente reflexivo. da possibilidade de transformação. a análise da economia política chega ao mesmo resultado. a acumulação e a escassez do capital. o Brasil e a Venezuela só os detentores locais do poder e os fatores endógenos seriam responsáveis. 5. Ao invés disso procurei oferecer no âmbito da análise da conjuntura uma explicação estrutural-estratégica que explica o poder com o número de opções muito desigualmente distribuídas.149 perspectiva. A dolarização.

pois manifestavam-se como estratégias superficiais de transformação que preservavam ou consolidavam a profundidade da estrutura. Mas a partir daí a estrutura do poder foi deslocada tão maciçamente que os conflitos acima mencionados se tornaram secundários. A reconfiguração do modo de regulação na direção de um modelo flexível. pois indicam graus distintos de abertura ao enfoque transformador de estruturas. para que sejam possíveis transformações de tão longo alcance e tanta radicalidade como as implementadas no Brasil nos últimos anos. O Brasil copiou o modelo unitário de regulação mundialmente vigente. entendendo-se por isso a aceitação da estrutura do poder. As primeiras são estruturas no sentido supramencionado. A partir desse momento empenhos socialreformistas passaram a ter cada vez mais um gosto duvidoso.150 transformações em vias de realização está na avaliação errônea da hierarquia das formas estruturais. Sobretudo na área da estatalidade pode se falar de uma transformação duradoura da estrutura. nos quais 150 . que atrás de estruturas pode haver ainda estruturas mais profundas. podemos falar no Brasil de estruturas cimentadas do poder sobre o espaço. sobretudo do ordenamento extremamente desigual da propriedade e da renda. Do mesmo modo puderam ser constatadas modificações nas outras formas estruturais. Por fim. O plano da ação descreve aqui práticas concretas. O mais tardar desde 1994 as reformas sociais estão subordinadas ao primado da factibilidade. não obstante as distinções são importantes. foi implementada depois de 1994 de forma inesperadamente vertiginosa. Instituições são lógicas e rotinas de ação consolidadas que extraem a sua força estruturante apenas da reprodução da ação. Instituições. as transformações que se afiguram radicais e novas no caso do Brasil nem o são. ao passo que estruturas . por conseguinte. Atribuiu-se excessiva importância à inserção internacional (mercado interno versus mercado externo). na esteira da democratização em curso tanto no Brasil quanto em escala mundial a abertura dos campos de poder foi avaliada como muito grande. no entanto. ao Estado (Estado versus mercado). Melhor ainda do que numa análise em três etapas. a abertura tem uma amplitude diferente para os diferentes tipos de transformações. da instituição e da estrutura. Isso permite estabelecer uma distinção entre tipos de lógicas consolidadas da ação. A abertura dos campos sociais é seletiva sob vários aspectos. Toda e qualquer tentativa de transformação . a transformação do regime monetário nem foi percebida.da des-ordem. Instituições são reflexivamente referidas à ação. Por um lado. Por isso o Brasil é um exemplo triste de consolidação do poder. de uma unificação organizacional. Justamente no momento no qual a dinâmica dos movimentos sociais arrefeceu. profunda. No primeiro capítulo efetuei uma transição da dualidade de estrutura e ação de Anthony Giddens para uma análise da ação. quer tivesse em mente maiores prestações de serviços sociais . examinar sempre até que profundidade que transformação avança ou em que nível se deve falar de constância. Em boa parte. Por outro lado. a eficácia das reformas sociais também se alterou. A estratégia desenvolvida deve efetuar as transformações individuais das formas estruturais de tal modo que elas ao menos sejam compatíveis no curto prazo. dependente do exterior. No sentido do enfoque estrutural-estratégico a tese da abertura vale apenas para tais casos nos quais a estratégia desenvolvida também considera a estrutura. de uma modernização . Comprova-se a veracidade da tese de que existe uma margem de possibilidades políticas . A regulação brasileira no final dos anos 90 distinguese radicalmente da do final dos anos 80. uma análise histórico-geográfica deveria ser uma análise de estruturas realizada em várias etapas. transformáveis com maior ou menor dificuldade. Esse foi o ponto decisivo. ”estruturas profundas” em níveis mais elevados de abstração. para transformar estruturas existentes.era minada pela perda do valor da moeda. Mas a inflação foi um preceptor que golpeou duramente o élan progressista.Giddens fala de princípios estruturais . tratase de isomorfismo. a velha regulação deve estar em uma crise ”grande”. Com isso Fernando Henrique Cardoso.de abrangência distinta nos diferentes contextos espacio-temporais -. as segundas instituições. à democratização das relações de trabalho e da distribuição do produto social (eficiência versus justiça) e ao plano espacial (nação versus região/dimensão local). comprovou a pertinência da tese da abertura dos campos sociais e do espaço existente de possibilidades da política.subtraem-se ao simples acesso mediante ações. desenvolvida em três etapas. Isso resultou da desconsideração de nexos das estruturas profundas e não obstante representou uma ação transformadora da estrutura. No início dos anos 80. Mas o processo de concentração maciça pela via das empresas multinacionais e dos mercados financeiros foi colocado entre parênteses.quer contemplasse salários mais elevados. Deve-se.conservadora . O primado da política dominava o campo discursivo. Tal procedimento é mais fácil quando se copia outros casos. estruturas e estruturas profundas indicam sempre graus de consolidação de lógicas de ação. ocorrida até então apenas germinalmente. Em escala internacional. que tem uma forte inclinação a reduções economicistas na sua visão dos problemas. o primado da política começou a produzir seus plenos efeitos justamente no momento no qual um presidente ”pragmático” insistiu enfaticamente nos limites da ação política diante da globalização. Com referência às estruturas capitalistas e ao bloco de poder. Vimos. As transições são fluidas. em razão do qual o bloco de poder logrou conservar a sua dominância em meio aos conflitos dos anos 80 e 90. Mas essa afirmação não pretende advogar um voluntarismo ou politicismo simplório.

o governo criou um novo quadro no qual um retorno à política do Estado de Bem-Estar Social à maneira do fordismo ficou impossibilitado. Depois de anos de confusão e insegurança. Isso é diferente com referência aos grupos politicamente dominantes com a sua experiência de 500 anos de estabilização da dominação. na linha de frente os problemas com o balanço de pagamentos revelaram a superficialidade e vida breve da modernização e do progresso sob o Plano Real. o bloco de poder se vale de outras instituições para impor o seu poder. a aliança em torno de Fernando Henrique Cardoso não quis somente a dominação. um fóssil de eras há muito passadas. As velhas fronteiras da des-ordem brasileira. mas minimizar a margem de ação democrática por meio de um espartilho fiscal e jurídico. As suas vitórias eleitorais em todos os níveis da federação marginalizaram a esquerda e remeteram-na a alguns pequenos espaços de poder em alguns municípios maiores e em alguns poucos estados.151 isso já foi praticado. A nova regulação estatal de governance ficou inequivocamente sujeita ao regime da moeda. que os grupos oprimidos alcançaram apenas em situações históricas 151 . Essa dependência significa uma restrição das opções abertas aos grupos nacionalmente dominantes. a democracia e a participação só podem ser uma concessão aceita em fases de conjuntura econômica favorável. a direita logrou fazer algumas conquistas de grande impacto.2. Ora. Mas a participação ampla da população leva forçosamente a crises estruturais. No ponto culminante da campanha eleitoral o establishment se preocupava mais com Washington e os mercados financeiros internacionais do que com o adversário político nacional. a burguesia se caracteriza por uma clara consciência do seu interesse próprio. Tornase crescentemente mais fácil para ele empurrar a camada baixa e a camada média cada vez mais para fora do do campo da cidadania social. Por isso a democracia pode ser abolida por uma ditadura ou restringida radicalmente no seu âmbito de vigência.). Por isso. o que é um claro indício da consolidação da hegemonia neoliberal. chamando as forças da ordem para o campo de batalha. O campo dos conflitos sociais deslocou-se duradouramente. esta última sempre foi cumprida apenas parcialmente e sempre foi interrompida quando membros centrais do bloco de poder estavam correndo perigo. aos donos do poder nacional. O fato desse novo campo entrementes ser administrado nos países vizinhos da Argentina e do Chile por governos de centro-esquerda reforça o poder da hegemonia social-liberal. Quem continua falando de direitos sociais. Estado de Bem-Estar Social e indústria nacional é considerado um dinossauro. Um projeto político carece tanto de legitimação no processo político quanto da garantia da acumulação. Por isso os elementos de hegemonia que atualmente podem ser identificados têm muito a ver com a destruição de alternativas . nada senão apelar à comunidade mundial e à sua solidariedade. na América Latina e no espaço anglosaxão como inconteste e natural. Uma ordem capitalista de mercado foi imposta também em áreas nas quais isso há dez anos ainda parecia impossível. No caso de crises e outras instabilidades não resta aos senhores supremos da nação. Na sua realização. Em tais situações extremas o imperador se desmascarou como homem nu e revelou que as suas novas vestes eram uma fraude. mesmo segmentos substanciais da esquerda aceitaram o campo discursivo da crítica liberal do Estado. De resto o rolo compressor da contrareforma revogou partes substanciais da constituição cidadã. não uma missão histórica da modernização e capitalização da economia e sociedade. quase insuperável problema de economias periféricas dependentes de tecnologias e financiamentos externos. Não há imagem melhor do irracionalismo dessa des-ordem. a preservação do poder no curto prazo. Precisamente aqui reside o grande. diante de crises continuadas? Hegemonia é um estado de supremacia que deve abranger a política. Com efeito. Com o seu desmonte liberal do Estado.jb.um expediente sempre usado com extrema eficácia no decorrer da história. Como o poder burocrático do Estado é reprimido em benefício de uma lógica do mercado capitalista. a supremacia política parece novamente estabilizada. A estratégia hegemônica social-liberal baseia-se em não restringir procedimentos formalmente democráticos. Por essa razão não admira que a transformação que se afigura radical em perspectiva nacional seja uma mera cópia em perspectiva internacional. Se a preservação da estrutura do poder é o princípio universalmente determinante do bloco de poder. como Fernando Henrique Cardoso teve de fazer poucas semanas antes das eleições (www. mas também a economia e sociedade.3 Hegemonia social-liberal? O feito do governo Fernando Henrique Cardoso parece consistir em ter estabilizado a des-ordem num novo arcabouço institucional. orientada segundo os interesses particularistas. A luta de classes orientou a ação da burguesia brasileira. Mas até que ponto se pode falar de hegemonia. mas também a hegemonia. baseada na coação. 5. Os grupos dominantes quiseram governar com a anuência de partes importantes da sociedade civil (Oliveira 1998a: 159 ss. Essa regra básica é aceita hoje crescentemente no Brasil. É lícito falar aqui de uma dominação estabilizada? Diferentemente de blocos anteriores de poder. O espaço de poder denominado Brasil é regulado hoje por um conjunto inteiramente novo de instituições. esse novo campo político está estruturado de tal modo que a política praticada é em grande parte destituída de alternativas. Por isso a estabilização econômica é sempre apenas precária. ocupava o primeiro plano.br de 11 de setembro de 1998).com.

uma fase de desarticulação seletiva de práticas estatais é seguida agora pela tentativa de uma rearticulação da ação estatal.também das incultas. que se subtrai aos efeitos da ação e é aceito como evidente e destituído de alternativas. Esses grupos continuam dispondo da capacidade de fazer história e geografia. Além disso os proprietários de patrimônios dispõem de uma função de veto. duradouro. embora controvertidas. Mas a ”falsa consciência” da burguesia brasileira não deseja que os dominados se assemelhem a ela. política monetária). cristalizam-se uma desintegração territorial aparentemente anárquica e a difusão em redes geográficas. Elementos totalitários podem ser claramente identificados na democracia das elites. que é orquestrada pela mídia e sugere um consenso social. com hierarquias minuciosamente graduadas.). isto é. Mesmo na ”Nova Renascença” na era da globalização. Trata-se de uma integração passiva. Na perspectiva do eixo espacial. A integração das massas na sociedade se dá por meio da sua participação . uma grande parte da população é excluída e a elite cultural é sustentada por uma classe patrimonial relativamente grande.2.) constatou com vistas à Europa. da geração de uma mercadoria sem a ilusão da liberdade. é multiplicado. a crítica do status quo é considerada antidemocrática. sem posses e aparentemente sem poder . A argumentação acima focalizou a discussão política oficial e a derrota de um projeto oposicionista de sociedade. dotado de competências decisórias. estabelecer um regime coerente de acumulação com um correspondente modo de regulação social e política. Mas hoje a supremacia da compreensão liberal de regulação que hipostasia ideologicamente e absolutiza o setor privado e a economia de mercado. esses portadores da cultura permaneceram uma pequena elite cujas idéias continuaram estreitamente vinculadas aos interesses sociais e políticos da classe dominante” (Deppe 1987: 346 ss. do consumo na prisão de uma ordem totalitária. Na perspectiva qualitativa o Estado Provedor [Fürsorgestaat] antecipativo. Esse é o sentido profundo da exclusão e a causa do apartheid social no Brasil. Qualquer dinossauro que se posicione fora do campo social-liberal é declarado imediatamente out.no mercado de consumo. Na afirmação do poder de todas as pessoas . um regime social-liberal. a análise da estrutura evidenciou as dificuldades de projetos hegemônicos na periferia. o que levou Krebs a constatar um fracasso do neoliberalismo.) chama dessarte a atenção ao perigo de um apartheid social e de uma elitização cultural. fragmentado em sistemas procedurais de negociação de governance . que segue a política de crise induzida pelo Estado e característica do neoliberalismo. valeu no Brasil também para a aliança do PFL e do PSDB: ”Novas camadas de lideranças devem ser incorporadas ao bloco dominante junto ao poder por meio de cooptações e recrutamentos. Estimulado por reflexões de Bob Jessop.apenas marginalizada . A hegemonia pressuporia uma integração dos oprimidos no campo semântico dos dominandores. ele fala de totalitarismo ao invés de hegemonia. descentralizado. A desuniversalização da dominância desdemocratiza e se transmuda em totalitarismo. Assim o novo projeto de Estado deve ser considerado bem-sucedido enquanto projeto de destruição. pois os dominantes não estariam interessados em hegemonia no sentido da combinação de pressão e consenso com relação às classes dominadas.4 Os oprimidos também fazem história e geografia Por um lado. À medida que ele dirige a sua atenção às classes oprimidas. Deseja mantê-los na sua alteridade. contribuindo dessarte à consolidação do projeto hegemônico do neoliberalismo. que apresenta várias rachaduras. 5. mas modificou a sua argumentação nos últimos tempos (Oliveira 1998a). Mas essa capacidade está sendo crescentemente negada à gente simples do povo. podendo ditar os limites de reformas. Oliveira (1998: 95 s. Manter consciente essa descoberta ameaçada de cair no esquecimento é uma das tarefas centrais do pensamento teórico. A política enquanto reflexão fundamental sobre o bem-estar da coletividade é vista como traição de esforços pragmáticos. Na perspectiva do eixo temporal. restringe as margens de ação mais nitidamente do que em outras épocas. A nova ordem institucional de uma governance social-liberal adquire um caráter crescentemente estrutural. eu falaria de uma fase de re-estatização ou de rearticulação da estatalidade. ”não obstante. sempre que necessário. em que pesem as muitas intervenções associadas a uma multiplicação das linhas de cisão que atravessam a sociedade. divergências de opinião somente são desejadas com referência a detalhes e a liberdade de opinião é privada do seu fundamento material. Mesmo a esquerda age hoje em grande parte no campo do liberalismo social. Oliveira também avaliou durante algum tempo como fortes as chances do atual bloco de poder de se tornar hegemônico. Já na Renascença o progresso social e cultural foi possível a expensas da maioria da população.152 excepcionais.está a raiz da compreensão dos processos sociais. O que Krebs (1997: 13 s. Enquanto não se formarem outras forças no plano internacional que implodam essa supremacia. Apesar disso não foi possível.com simultânea contração às assim chamadas áreas nucleares do Estado (políticas interna e externa.” O Plano Real preparou o solo para essa nova estatalidade. a busca de novos 152 .

Um outro grande clássico. pois a avalanche neoliberal não é de natureza meramente retórica. Durante o primeiro mandato presidencial de Fernando Henrique Cardoso. está intrinsecamente cindida. cuja pátria é o PSDB. Um é a crítica dos espaços de poder existente. essa estratégia voltada para o lucro. Isso pressupõe em última instância que os atores possuam um conceito teórico das relações sociais existentes. que não pode ser elaborado sem a crítica da economia política” (Esser et al. No âmbito da esquerda liberal. Apesar da pressão maciça na direção do conformismo e do raciocínio no curto prazo. naturalmente sem otimismo ingênuo. Mas essa radicalização do PSDB para a direita não encontrou uma delimitação clara no PT. A oposição. Restringiu seu campo de ação a mudanças institucionais e estruturais autorizadas pelo bloco de poder. Já chamei a atenção à circunstância determinante no Brasil de que a capacidade de inércia vale mais para o bloco de poder e a estrutura fundamental capitalista do que para estruturas e instituições concretas. o outro a criação de novos espaços de poder. Trata-se de um movimento social que se coloca em oposição radical ao bloco de poder existente. recomendou ativar em tempos de crise o ‘pessimismo da razão’ para ajudar o ‘otimismo da vontade’ que só pode surgir por meio da ação das classes dominadas” (Oliveira 1998b: 96). Em comparação com os governos precedentes. e isso tanto na esfera do Estado quanto na da sociedade ‘civil’. devido à política de fortalecimento da moeda e juros elevados. Porém a análise dos espaços de poder mostrou quão problemática é a cooperação com o bloco de poder existente e quão reduzida é a margem de ação de um governo de centro-esquerda que faz coalizão com a direita. considerada incontestavelmente necessária na sua essência.). a direita empreendeu uma política econômica e social nacionalista com um regime de acumulação relativamente consistente.. embora no fundo aliviada do ônus da responsabilidade pela crise. portanto.. Esser e outros (1994) denominam essa estratégia política ”reformismo radical”.153 projetos hegemônicos deve ser empreendida com uma elevada dose de modéstia. Isso vale tanto mais para as estratégias antihegemônicas de ‘empoderamento’ [Ermächtigung. Apesar dos efeitos sociais extremamente problemáticos. Quando a burguesia brasileira se sente ameaçada. mesmo quando compreendida como processo gradual e demorado. A crítica do ”pensamento único” parte hoje essencialmente dos que continuam efetuando análises de economia política e receberam muito espaço no presente trabalho. mas apenas mediante transformações fundamentais do modo dominante de vida e de socialização. Estas devem ser dimensionadas no sentido de não trocar. Sobretudo depois do golpe militar. 1994: 226 s. Apesar disso quero mostrar no fim desse trabalho dois campos de ação nos quais práticas antihegemônicas são possíveis e podem surgir projetos antihegemônicos. as promessas contidas na democracia. Essa esquerda aceitou a estrutura de poder dada e tentou possibilitar uma mudança social por meio de reformas institucionais com simultânea constância da estrutura profunda do poder.] ‘O termo ‘radical’ significa que uma política emancipadora.deve ser avaliada mais positivamente do que a estratégia econômica atual determinada pelos rentiers desinteressados pela produção nacional..). a força do bloco dominante residiu em duas coisas: em primeiro lugar num discurso público e publicado que se caracterizou por um grau de uniformidade digno de espanto em uma democracia. no fato das sociedades serem histórico-geograficamente contingentes. que não afetou a estrutura de poder mas apesar disso se interessou pelo desenvolvimento da produção nacional. a avaliação do político Fernando Henrique Cardoso . no sentido de cobrar também o que o conceito promete: no caso em exame. deve visar liminarmente a superação das formas sociais e das suas manifestações institucionais e reconhece como seu princípio fundamental a prática crítica dessas formas e manifestações. insistindo. mas dissolver relações institucionalizadas de poder. O consenso que se formou em torno da política da estabilidade fundamentou um ”pensamento único” (Fiori 1997: 100) que abortava todo e qualquer debate e eliminava o poder estrutural do foco da percepção pública. passíveis de transformação nos seus fundamentos. executado por medo de uma esquerda demasiado forte. ela sempre assume imediatamente uma clara posição de classe 153 . ”O termo ‘reformismo’ aponta para o fato de que transformações sociais que objetivam a superação da dominação e exploração não podem ser atingidas mediante a conquista de posições na estrutura do poder dominante. Gramsci. Com isso a esquerda liberal entrou em concorrência com a direita quanto à melhor forma de efetuar essa modernização. ‘empowerment’]. Atualmente. no qual o Estado atuava como capitalista geral [Gesamtkapitalist]. resultou nesse último partido nos últimos anos em uma aproximação crescente às contrareformas neoliberais do PSDB. [.é mais negativa do que a de muitos dos seus precedessores.na sua auto-avaliação um homem de centro-esquerda . os membros desse movimento preservaram um horizonte mais longo e mais largo. De acordo com a lição de Adorno a nossa tarefa consiste em radicalizar. mas influir sobre a configuração concreta dos desafios formulados pela globalização. Passaram os tempos da vontade eufórica de transformação quando tudo girava em torno das questões ‘reforma ou revolução’. acabou por imporse com Fernando Henrique Cardoso a convicção de que a esquerda não deveria mais trabalhar na elaboração de uma alternativa. ”Em tempos históricos como esse a responsabilidade do intelectual está na radicalização da crítica. O conflito entre o PSDB e o PFL ocorreu no interior do próprio governo (Leite 1996: 32 s. Em segundo lugar toda e qualquer alternativa ao status quo foi apresentada como carente de credibilidade. a dimensão nacional se reduz como espaço de poder em larga escala à garantia do patrimônio dos nacionais e estrangeiros que já são ricos. mas claramente um processo profundamente enraizado nas nossas sociedades. O poder concreto sobre o espaço restringe as opções da oposição. vale dizer.

o que impediu a reforma ou. de resto já efetuadas na América Latina. Ela é sempre também uma pergunta pelo território dominado pelos donos do poder: quem tem poder onde. mas não houve nenhuma descentralização política. A análise nacional fornece um quadro mais diferenciado dos detentores do poder. A luta de classes é feita por pessoas. rede e movimento. quase tão velha como a Sé de Braga. Essa inversão de prioridades ampliou as opções de ação dos pobres. o que foi a estratégia predominante na cidade de São Paulo. nenhuma partilha do poder por meio da partilha do espaço. Quem exerce o poder sobre um território estabelece uma distinção com vistas ao desenvolvimento institucional e estrutural. A segunda medida foi a concentração das competências decisórias junto aos velhos donos do poder.a des-ordem. no estado desenvolvimentista. Mas esse discurso desafiador antiburguês perdeu-se nos anos 80. pior ainda. de acampamentos políticos definidos por oposições fundamentais entre si. essa margem de configuração de detentores do poder é significativa. Por isso a pergunta pelos donos do poder não desempenha um papel irrelevante. Foi necessário o governo de Fernando Henrique Cardoso para implementar também no Brasil as contrareformas. Eles elaboraram inovações ”puras” sem consideração nem conhecimento da subjacente estrutura de poder. Por essa razão ocorreram lá terceirizações e privatizações maciças na administração pública. da posse do poder. Aqui se ignora por um lado a produção dessa ordem global e. Muito pelo contrário evidenciou-se que existem formas da ação política que reforçam voluntária ou involuntariamente . a circunstância de que o postulado auto-movimento global-economicista é a astúcia de um poder que se quer tornar irreconhecível. A visão convencional de esquerda e direita. Mas antes disso importa defender a democracia enquanto condição geral central da ação transformadora. a acumulação privada beneficiada pelos incentivos do Estado e pela exploração de uma mão-deobra carente de quase todas as condições capazes de fazer dela algo mais que o velho e sofrido instrumentum vocale dos tempos de escravidão”(Cardoso. Mattl 1999). ”Fecha-se. Só na perspectiva de uma ultrapassada posição soberana. A segunda estratégia antihegemônica deve consistir no fortalecimento de espaços alternativos de poder. Michel Foucault desclassifica a posse do poder enquanto objetivo político. Os primeiros representam o Brasil moderno. os últimos o Brasil retrógrado. Nos anos 90 uma boa parte dos donos do poder do segundo plano. Por um lado é imprescindível ocupar determinadas posições para implementar determinadas políticas. Uma medida consistiu na disponibilização de recursos demasiado reduzidos. deve ser um 154 . assim. Mas isso não significa simplesmente que a ação política sempre seja determinante. Já os donos do poder do primeiro plano dominavam a arte de preservar a estrutura profunda do espaço do poder e sobretudo a dominância do bloco de poder mediante modificações aparentemente miúdas das propostas de soluções tecnocráticas. o governo de esquerda investiu sem endividamento nos setores educacional e de saúde. Essa foi a estratégia predominante no plano nacional. por outro. sempre vulnerável à ditadura. canalizou-a muitas vezes para canais reacionários. Ela domina as estratégias da luta de classes para a eliminação de todo e qualquer questionamento da des-ordem vigente ”a partir de baixo”. O presente trabalho enfatizou em muitas passagens o significado da política. que hoje estão todos reunidos no e em torno do bloco de poder.e enquanto houver burguesia. Esse espaço democrático-público que o movimento democrático apoiado pela base arrancou desde o final dos anos 70 aos simpatizantes dos militares. é a grande conquista dos movimentos sociais. pois o bloco social dominante é tão reacionário no Brasil que a defesa da democracia e dos direitos de cidadania contra o ”liberalismo real”. No plano local a análise do orçamento mostrou quão importante é ser dono do poder. mas é também feito por atores (Novy. e postulou uma visão do poder enquanto força. Governos de direita contraíam dívidas para construir ruas. A análise do orçamento e de setores permite inferir que um governo petista durante uma década sem dúvida teria mudado São Paulo para melhor. o ciclo: A vítima passa a ser causadora dos males da região e a ”nova solução”.154 e localiza um claro inimigo de classe. O engajamento político é importante também no conflito em torno de detentores de poder em determinados espaços e tempos políticos. o poder estaria localizado ”lá em cima” e corporificado na sua posse. uma orientação da classe média nacional segundo os padrões da classe média global e uma desvalorização da classe trabalhadora. pois o poder é exercido em espaços físicos e sociais. não haverá poesia”. Em São Paulo a gestão dos governos esquerdistas e direitistas revelou diferenças fundamentais. Muito mais pertinente seria uma análise dos campos. Müller 1977: 204). O acesso à ação fomentado por uma formação universitária tecnicista e neutra nega as estruturas do poder. das estruturas do poder. Ocorreu uma valorização do empresariado. as transformações estruturais dos últimos anos são um indício do ”primado da política”. o ‘empoderamento’ e o ‘desapoderamento’ são meios e resultados das lutas sociais. era formada por jovens acadêmicos politicamente inexperientes. Apesar da retórica economicista. isto é. Foucault ainda escreveu contra a concepção do poder que localizava o poder simploriamente no seu detentor soberano. dos que elaboravam as reformas em detalhe. Cazuza ainda pôde cantar nos anos 80: ”A burguesia fede . não perdeu a sua atualidade. será a ‘mentalidade empresarial’. Mas hoje o contrário parece estar na agenda: a aparente fluidez e atopia [Ortlosigkeit] do poder no sentido de um foucauldianismo vulgar é tão amplamente aceita e presta um serviço tão relevante à des-ordem vigente que parece ser necessário lembrar que o poder não se consolida apenas em estruturas.

concretamente de defender a nação e a soberania (Becker 1995. Por isso a esquerda não deve perder de vista a defesa da democracia como programa reformista mínimo. inalienável da busca de alternativas é a elaboração de uma contracultura no campo da sociedade civil. muito pelo contrário. Depois de 1990. efetivar em áreas parciais um modelo distinto do ”liberalismo real” predominante. as classes média e baixa. a esquerda não pode abrir mão do seu potencial de ameaça. Eis a lição a ser extraída tanto de uma análise gramsciana quanto de uma análise foucauldiana do poder. culturas e o capital trouxeram de fora ao país. mas também os oprimidos foram atores importantes que participavam da configuração concreta do espaço social do território. Importa. mas pensar ”além” . A cultura popular alternativa no Brasil. No final dos anos 90.nas comunidades de base e nos sindicatos . Gramsci chama a atenção ao fato de que essa aliança deve englobar os intelectuais e a classe trabalhadora. pois desinculada de qualquer lugar . a criação de um espaço de poder autônomo esteve na agenda. Para tal fim se oferecem no campo político. que se subtraem a uma coação à valorização e ao sucesso no curto prazo. em instâncias intermediárias semi-estatais e da sociedade civil. o pensamento crítico e com ele também a ocupação com os que vivem na base da sociedade se perderam por algum tempo.enraizou-se profundamente na autocompreensão intelectual. sobretudo os grandes municípios e alguns estados . razão pela qual faz sentido que os governos de esquerda apostem em soluções negociadas. seja nas inovações sociais locais dos anos 80 ou na defesa do fator nacional nos anos 90. isto é.155 objetivo essencial mínimo dos movimentos sociais e democráticos. conforme mostra o exemplo de São Paulo. me parece mais provável. poderiam ser germes de uma alternativa social. Nesse conflito não só os donos do poder. um orgulho e foram os primeiros passos de uma revolução cultural. a música popular. Só depois de uma análise conjuntural saberemos dizer com pertinência em qual dos diferentes planos espaciais a ação 155 . muito pelo contrário e num primeiro passo. historicamente vinculada à nação. O modo de lidar com o consenso assinala a última relação de tensão que deve ser apresentada nesse trabalho comprometido com a argumentação dialética. as classes dominantes já operam uma luta não-declarada de exclusão há muito tempo. Não importa iniciar a luta de classes. Ela foi a forma mais eficaz de um esforço coletivo de fazer história e geografia. todos esses movimentos populares dos anos 70 e 80 conferiram ao Brasil uma identidade. desiludida quanto às possibilidades de uma transformação em profundidade. Historicamente. Para tal fim ela depende da cooperação dos empresários. a esquerda deve melhorar a qualidade de vida da população. fortalece as forças reacionárias e os projetos antidemocráticos. Mas o que une as inovações sociais locais e a defesa da dimensão nacional é o objetivo de fomentar a autodeterminação e participação da população. Esses espaços sociais. o diálogo e a comunicação constituem concepções-chave nos territórios dominados por forças antihegemônicas. Essa nova visão do mundo . Só se estiver claro que não se busca uma solução de compromisso a qualquer preço e que medidas essenciais em caso de emergência também serão impostas contra a resistência. mas para toda a população do território. Com efeito. Paul Singer (1996) chama com razão a atenção ao fato de que no âmbito de uma estrutura global capitalista um governo de esquerda não deve governar para a sua clientela. Embora o consenso recentemente tenha sido desmascarado como um campo problemático do saber-poder. Mas para poder negociar eficazmente com os grupos dominantes. ”São Paulo para todos” foi também o lema do governo petista. Fiori 1999) Em ambos os casos. Apesar disso devemos dirigir a um nacionalismo fundamentado em argumentos de economia política a pergunta se a história da libertação. os movimentos estudantis e sindicais e as comunidades eclesiais de base. Trata-se. Essa espécie de política consensual oferece um campo de ação para um reformismo radical. Deveriam ser criados espaços de liberdade para outras formas de vida e de pensamento. os grupos dominantes podem ser levados a negociações sérias.constituiu a ”inovação social” mais duradoura do Brasil. em virtude das relações de poder no plano nacional e quase sempre também no plano regional. a esquerda pensa cada vez menos sobre o grande passo para frente. também permanecerá forçosamente localizada nesse plano. a formação da nação sempre foi mais do que apenas uma concepção culturalista e chauvinista. na qual se age em diferentes planos espaciais. dever-se-ia fomentar a autonomia. A aliança que surgiu nos ”outros espaços” da ditadura militar . de resistir. Em meio a esse entusiasmo generalizado diante da felicidade que as tecnologias. o capitalismo brindou o Brasil com uma coleção inimaginada de mercadorias: tinha-se a impressão de que tudo podia ser comprado. Além disso ela deve. A luta multissecular pela constituição da nação explica os vínculos racionais e emocionais dos brasileiros com esse plano espacial. governos de esquerda. Lutar contra essa supremacia ideológica é tudo menos fácil. puderam iniciar uma série de desenvolvimentos positivos. Assim nos anos 80 o fortalecimento das margens de ação na esfera local e a experimentação na cidade ocuparam o primeiro plano da política emancipadora. aproveitando a multiplicidade de espaços de poder que a sociedade civil conquistou no transcurso da democratização. Mais claramente do que Foucault. traçar um limite à desmedida dos dominadores. que não funciona bem.levípede. A acumulação. Um primeiro passo nessa direção é não seguir o pensamento único. No quadro da des-ordem existente. do capitalismo. em comissões. Mas uma parte integrante. A história de 500 anos de espaço e poder torna compreensível a freqüente mudança dos planos espaciais que se afigura apropriada para uma política progressista. o cinema novo.no sentido temporal e espacial de ‘além’. o consenso. pois a constituição de uma forma política estruturada em rede.especialmente o Rio Grande do Sul.

Mas parece estar fora de dúvida para a América do Sul que um grau maior de autodeterminação nacional é o pressuposto para impulsionar o esforço coletivo de fazer história e geografia nos diferentes planos. na conformação de uma nova estrutura social. No entanto. mas do entrechoque de interesses dominantes e oprimidos.156 política é especialmente promissora. nos espaços nacionais. são necessárias as margens da sociedade. mas também nos espaços locais e regionais de poder. a gente simples. podemos extrair uma lição substancial da reflexão sobre a nação brasileira: na análise de processos econômicos se deve pensar sempre também ao mesmo tempo na participação de toda a população da vida social e dos seus frutos (Sampaio 1999: 416). o empowerment. Projetos dominantes de Estado e sociedade formam-se apenas em reação a inquietações sociais. Só porque os grupos em desvantagem praticamente não conseguem estabelecer-se no bloco de poder não pode surgir a impressão de que a sua atuação não produziria nenhuma influência no curso do mundo. Das Ciências Sociais espera-se hoje que elas compreendam esses espaços para transformar a sociedade. sejam elas favelas. Na reflexão sobre a nação o povo. Justamente os intelectuais oriundos da classe média deveriam hoje levar novamente a sério a cultura das pessoas simples. desse novo espaço global da classe média. Assim os movimentos sociais influenciam. Embora um olhar competente sobre o Brasil só seja possível se ele abarcar vários planos ao mesmo tempo. Para que as mudanças ocorram. projetos alternativos de sociedade e ameaças concretas. por conseguinte. foi percebido como vítima de estruturas e simultaneamente como sujeito da transformação social. que preparou o caminho para melhorias duradouras. A ação social resulta do jogo de espaço e poder. essa nova estrutura duradoura não resulta unicamente do desejo dos grupos dominantes. e é justamente em situações de crise que os diferentes planos espaciais devem ser reordenados e relacionados entre si. 1930 ou 1970 não compreendeu a respectiva conjuntura. relativiza as derrotas mais recentes na esteira do novo surto de democratização. O fundamento de uma alternativa social deveria ser buscado justamente num enfoque de respeito diante do povo brasileiro. sem idealizá-la de forma culturalista e ingênua: as forças sociais da mudança não virão apenas dos espaços virtuais da Internet. comunidades indígenas ou grupos de hip hop. o ‘empoderamento’ (Friedmann 1992) surgiu como alternativa ao desenvolvimento. Justamente a dinâmica social das décadas de 1920 e 1930. diante da gente simples do povo. Quem não quis tomar conhecimento da insatisfação que vinha ”de baixo” nas décadas de 1920. 156 .

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respectivamente média de cinco (ou sete) anos. em contos Exercício (média anual) Receita Despesa 10. em milhões de libras esterlinas.0 1825 6.173 149.169 7 Anexo 7.750 +2.554 18.278 1865 – 1870 105.539 60.014 1830 – 1835 14.335 +125 -1.855 1840 – 1845 26.243 114.858 -64.3 1865 30.584 1845 – 1850 35.190 26.1 Tabelas Tabela A-1: Investimentos britânicos.886 -7.864 14.521 47.135 148.9 1905 254.300 1870 – 1875 110.0 1895 122.772 Saldo -1.460 -3.067 26.440 1835 – 1840 18.275 1850 – 1855 45.591 1860 – 1865 75.1885.9 1840 20.506 1875 – 1880 130. 1823 .336 1880 – 1885 Fonte: Pessoa 1983: 102-104.8 1913 Fonte: Silva 1986: 30 Tabela A-2: Demonstrativo da Receita e despesa geral do Império.449 140.6 1885 93.436 9.627 -7.873 -38.459 36.653 1855 – 1860 52.114 1823 – 1830 17. 1825 – 1913 Ano Investimentos totais 4.246 -1.629 -18. 169 .9 1875 47. média por quinquênio.965 -8.

0 17.4 bens de consumo não-duráveis 7.4 37.8 91.6 semi-acabados 72.5 16.5 19.0 .4 capital privado 9.1 13.4 27.9 45.6 13. In: Senghaas 1980: 132 capital estatal 73.6 bens de capital 78.7 40.0 100.bancos comerciais 25.9 Organizações de desenvolvimento 6.2 275. 1891-1928.4 230.2 Serviços Fonte: Serra.170 Tabela A-3: Balanço comercial – saldos. em 1968 (in %) capital estrangeiro 17.2 91.0 comércio 8.1 52.7 13.8 Tabela A-5: Créditos privado por instituição.3 -325.0 9.9 .6 bancos de investimentos (3) 14.2 infraestrutura 34.8 Tabela A-4: Participação das 10 maiores empresas nos setores da economia brasileira.0 645.0 21.4 37.5 205.4 TOTAL (1) participação dos créditos privados em % (2) crescimento anual médio (3) bancos de investimentos + empresas financiadoras de investimentos (4) Sistema Financeiro de Habitação Fonte: Tavares 1983: 224 170 .7 sistema bancário 54.Banco do Brasil 14.6 outros (sobretudo caixas econômicas) 100. 1964 – 1970 Tipo 1964 (1) 1970 (1) crescimento (2) 79.6 14. em contos Ano Taxa de câmbio* 14 29/32 1891 9 15/16 1895 9½ 1900 15 7/64 1905 16 13/64 1910 12 29/64 1915 14 15/32 1920 6 1/6 1925 5 18/32 1928 * Mil-Reis para pence Fonte: Silva 1986: 29 Saldo 6.5 233.4 21.3 bens de consumo duráveis 53.3 SFH (4) 1. Brasil.9 56.6 459.0 6.

698 20.171 Tabela A-6: ´Haveres financeiros em poder do público.0 ativos monetários .1 10.5 6.9 50.016 1974-77 4.659 1.1 100.936 14.908 4.0 1970 61.0 36.9 3.6 12.262 1970-73 3.600 30.349 Tabela A-8: Número das empresas estatais fundadas no Brasil entre 1941 e 1976 Período União Estados 7 6 1941-50 1951-60 12 24 1961-65 19 46 1966-70 33 42 1971-76 67 59 Total 138 177 Fonte: Becker.404 1978-82 2.3 13.7 4. Egler 1992: 96 Municípios 30 1 3 4 5 13 Total 13 37 68 79 131 328 171 . Brasil.971 8.6 11.8 10.198 1.4 18.7 2.4 37.7 100. 1947 -1988.2 4.558 1.795 1983-86 2.9 1.5 33.2 7.6 2.2 38.336 22.8 69.depósitos à vista ativos não-monetários poupança depósitos a prazo Letras de Importacão Aceites Cambiais Empréstimos hipotecários ORTN títulos da dívida pública TOTAL Fonte: Tavares 1983: 229 Tabela A-7: Investimentos estrangeiros diretos no Brasil. em milhões de US$ correntes [???] Ano Afluência reinvestimentos 107 366 1947-54 716 251 1955-61 177 262 1962-65 388 236 1966-69 1.4 78.610 9. 1964 – 1970 crescimento anual 1964/70 5.548 3. Franco 1991: 23 estoque [??] (1) 5.548 10.090 1987-88 (1) a preços de 1986 Fonte: Fritsch.4 1964 88.moeda-papel .6 2.0 0.520 26.

593 34.45 5.13 1.96 1997 28.gov.236 581 -729.gov.073 4. segundo períodos e espécies de resultados.27 0.55 72.28 91.068 1.629 7.3% 1994 1.06 2.53 14.1% 50 maiores empresas estatais 500 maiores empresas privadas relação estatais/privadas Fonte: Exame 1998: 18 Tabela A-12: Exportações brasileiras de 1970 a 1994.2 1991/92 15 1.265 95.05 0.bndes.1 254.89 5.48 9.97 27.3 86.5 1975 129.15 155.61 2.60 3.12 0.04 3.211 4.864 105.29 401.42 2.3% 1996 2.3% 1997 7.590 4.956 50.88 425.17 31.52 3. valores arredondados 1970 42. em bilhões de US$.br Tabela A-10: Resultados das privatizações.6 1995 11 3. em bilhões de R$ (junho de 1999).30 258.92 3.18 6.95 3.67 0.12 0.048 3.93 4.17 1.01 3.08 0.98 24.28 1996 25.057 4.2 231.34 0.27 178.51 0.93 1.32 66.20 0.11 1.813 10.73 25.83 0.14 0.88 4.16 0. em milhões de US$ Período Empresas Receitas Receitas Receitas privatizada líquidas totais líquidas/ s Receitas totais 18 49 415 1.41 74.52 9.080 74.10 5.38 82.83 0.64 3.9 210.34 629.76 101.camara.98 0.003 32.467 -94.63 0.50 0.9 1996 4 4.61 10.172 Tabela A-9: Gastos da União entre 1994 e 1998.9% 1995 -2.14 0.24 6.59 1998 29.3 198.80 96.89 2.83 2.2 (a) PIB em US$ correntes (1) (b) PIB em US$ correntes de 1985 172 .32 0.59 5.09 1.97 Administração Administração fiscal Planejamento Ciência e Tecnologia Agricultura Telecomunicações Defesa Desenvolvimento Regional Educação Cultura Energia Desenvolvimento Urbano e Habitação Fomento da economia Política externa Saúde Proteção no trabalho Assistência Social Previdência Social Transportes Outros gastos Total Fonte: www.000 -36. Brasil.6 Gesamt Fonte: www.214 6.1 139.9 1990 437.10 87.51 15.70 1.1% 1993 -4.11 0.br/pndnew Tabela A-11: Lucros de diferentes tipos de capital.80 10.902 8.512 1.8 1980 237.6 1993/94 8 327 1.00 348.50 15.5 1997 56 9.668 34.34 0.54 15. de 1992 a 1997 1992 -4.18 3.0 1985 210.3 1994 565. valores arredondados 1995 27. Brasil.77 0.87 1.29 0.096 17.94 523.

6 7.8 21.9 31.1 25.5 11.5 7.2 120.4 30.6 20.0 27.3 42.7 36.7 25.1 12.6 25.1 6.7 7.6 14.0 2.5 8.4 108.7 22.5 8.1 8.6 10.9 25.9 100.6 12.7 6.6 15.2 100.173 (c) PIB agricultura e indústria de 1985 (d) Exportações em US$ correntes (e) Exportações em US$ de 1985 coeficiente de exportações I d/a em % (2) coeficiente de exportações II e/b em % coeficiente de exportações III e/c em % (1) em bilhões (2) Erro de arredondamento Fonte: Pacheco 1998: 87 41.9 18.1 23.4 173 .7 71.1 11.

1 8.d.5 38.4 0.3 7.9 55.5 10.3 4. 8. n.6 8.8 22.d.4 41.7 48.5 n.8 RS 0.174 Tabela A-13: Indústria de transformação: participação regional no VTI.3 7.0 6.9 7. 8.4 2.1 NE 7.6 5.0 4.4 n.4 INT(1) 2.3 RJ 40.2 n.3 PR 2.1 3.8 6.9 9.9 5.4 16.1 19. Fonte: Cano 1998b: 327 1995 n. = dados não disponíveis GSP = Grande São Paulo.3 32.1 3.1 6. NO 10.7 6.5 6.2 MG 0. CO(1) Brasil = 100.4 8. ES 25.2 2.4 4.9 1.9 0.4 5.6 15.5 20.8 1. INT = Interior de São Paulo (outras siglas v.9 3.0 1.5 4.4 28.6 58.7 8.0 43.4 51.4 2.9 5.1 1.1 7.4 0.5 0. 174 .3 2.4 24.8 GSP(2) 14.d.5 13.0 SC 9.d.6 9.9 4.6 3.3 0.6 8.9 7.2 SP 26.6 6. 1939 a 1995 1939 1949 1959 1970 1975 1980 1985 1989 1.3 0.5 10. Gráfico 7).9 50. Brasil.8 33.5 14.5 21.d.6 14.5 7.1 4.6 0.6 17.1 8.3 7.9 53.5 0.d.6 0.8 25.8 1.7 17.6 49.6 29.0 0.1 2.8 n.1 7.2 n.2 8.2 55.d.3 2.

1 13.2 3.8 1.9 39.6 35.0 5.4 37.2 1.1 13.6 13.5 37.3 7.2 4.8 3.5 12.3 36.7 8.5 18.0 10.7 3.3 4.8 6.0 1.7 1.0 1.7 2.6 8.3 2.5 5.7 11.7 SP 2.4 3.1 1. 1939 a 1995 PIB total 1939 1949 1959 1970 1980 2.2 8.4 175 .0 12.3 0.4 12.7 2.3 SC 10.3 1990 4.6 10.4 13.2 6.7 2.9 14.9 4.175 Tabela A-14: Participação regional na produção econômica.9 4.5 DF Brasil =100% (siglas: v Gráfico 7) * NO: incluio Estado do Tocantins em 1985-1995 * CO: inclui o Estado do Tocantins em 1939-1985.4 5.7 2.3 9.2 2.4 2.0 2.5 ES 20.1 1.6 1.4 5.4 MG 1.5 2.2 NE 10.3 7.2 3.2 NO* 16. Brasil.3 36. exclui o DF Fonte: Cano 1998b: 318 1985 4.4 9.6 6.7 3.6 RJ 31.4 8.9 8.2 1.1 1995 4.2 36.6 CO 1.4 7.7 13.1 RS 2.7 9.9 3.6 9.5 16.9 19.9 PR 2.

8 1970 4.2 4.5 12.8 2.9 4.0 2.9 5.0 4.1 5.2 12.8 16.3 5.5 20.2 1.5 15.0 1970 1.0 34.9 0.7 1.4 3.9 2.8 1.176 Tabela A-15: Participação regional na produção econômica.9 7.5 13.5 6.2 12. Gráfico 7) * NO: incluio Estado do Tocantins em 1985-1995 * CO: inclui o Estado do Tocantins em 1939-1985.6 4.9 2.6 11.5 1.4 27.7 13.2 5.9 0.4 26.0 2.8 7.4 15.4 3.6 2.8 2.4 0.4 54.3 17.7 1.0 8.8 8.6 1990 8.8 3.7 4.6 6.9 11.0 14.5 1985 6.8 44.9 1.7 11.2 11.8 13.5 43.3 CO* 2.7 1959 2.0 47.6 17.5 9.4 2. 1939 a 1995 PIB agricultura NO* NE MG ES RJ SP PR SC RS CO* DF PIB indústria NO* NE MG ES RJ SP PR SC RS CO* DF 1939 3.9 10.5 ES 27.9 1.9 32.9 3.5 10.6 4.9 0.1 2.0 12.1 11.0 8. exclui o DF Fonte: Cano 1998b: 318 176 .8 8.0 1.4 2.0 5.4 3.9 0.6 36.5 1939 2.2 4.4 1.9 10.0 3.0 19.8 2.7 33.9 7.2 8.5 9.4 18.5 RS 1.6 8.9 9.0 14.9 7.3 1985 3.9 4.0 1949 1.6 26.1 9.3 2.0 4.0 0.3 2.0 8. Brasil.4 9.4 3.0 8.1 1995 4.3 2.0 15.1 12.4 NE 7.6 5.9 3.8 35.1 8.3 6.9 30.9 36.4 11.7 5.2 3.6 4.2 7.7 1.4 4.4 1.7 13.1 1.9 2.4 0.1 1.3 12.6 22.3 0.9 13.2 RJ 32.3 17.9 3.2 SC 8.7 1.8 23.5 20.5 DF Brasil =100% (siglas: v.3 2.2 56.6 8.6 4.0 2.0 0.0 12.5 8.0 9.9 1.1 4.9 8.4 6.7 0.8 1.0 6.8 24.3 2.8 8.2 4.1 1980 5.2 2.4 4.5 3.5 1995 4.4 35.0 0.7 1.7 6.7 24.9 1.4 0.3 7.5 20.3 5.2 1949 0.6 0.2 4.4 15.7 5.1 7.0 2.7 1959 1.0 6.1 2.5 11.1 1.0 1990 4.9 3.1 21.0 6.9 11.4 41.1 3.0 24.1 0.4 MG 0.7 2.6 6.0 4.7 19.0 9.8 20.0 0.3 2.5 1990 3.9 4.2 2.7 13.5 1995 7.2 3.1 0.1 8.1 8.0 1.0 1980 3.1 2.9 PIB serviços 1939 1949 1959 1970 1980 2.9 47.0 1985 4.8 NO* 14.2 7.8 SP 2.6 8.7 7.5 1.0 12.1 20.9 2.4 PR 1.3 10.9 7.8 8.6 18.0 8.0 7.2 11.4 33.4 12.1 0.3 0.5 16.3 23.

409 0 96.99 100.746 2.7.59 115.00 114.84 Tabela A-17: Distribuição percentual da população escrava pelas sub-regiões de São Paulo.98 69.71 117.6 1836 31. Brasil.02 .00 120.91 115.83 1996 Dez 105.198 478 0 9.0 Receita Total (1) Sobretudo a partir de compensações em casos de cancelamento de dívidas ou a partir de lucros cambiais Fonte: Carvalho 1996: 205 Tabela A-19: Gastos por funções do Estado de São Paulo.2 39.46 118.50 103.18 1993 Dez 107.052 25 8.2 1854 28.1998 Total serviços 100.190 1929 39.00 119.07 95.784 219 31.htm de 7.86 105.49 110.61 89.30 61.8 Tabela A-18: Participação percentual dos grupos e subgrupos da Receita Total do Estado de São Paulo de 1893 a 1929 1893 1905 1914 1923 1929 97.0 100.13 115.08 95.60 102.10 2.63 116.08 Receitas Ordinárias 96.8 40.00 100.46 82.39 10.0 100.343 348 4.Receita does Impostos 1.60 98.668 1.87 101.64 91.834 PROMOÇÃO DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO Agricultura Indústria e comércio Infraestrutura e Serviços Energia e Recursos Minerais Habitação e Urbanismo Saneamento Público Comunicações DESPESA GERAL DO ESTADO Fonte: Pereira 1996: 238 177 .49 1990 Dez 112.05 116.317 1.08 6.56 27.02 .744 0 62.497 39 11.6 31.022 162.23 1989 Dez 117.bcb.18 construção civil 100.31 112.319 7.096 796 0 7.81 105.76 113.0 100.07 0.39 115.940 1.Receitas Industriais 0.850 7.90 97.93 97. de 1893 a 1929.51 72.10 1992 Dez 106.54 5.643 1916 10.76 114.30 1995 Dez 107.79 115.522 1912 23.46 94.433 421 0 9.177 Tabela A-16: Índice de nível de emprego.88 1991 Dez 109.02 42.72 Fonte: www.5 17.589 165 16. 1984 a 1997 Indústria de comércio transformação 100.94 98.83 1994 Dez 108.15 19.50 92.0 100.13 0.37 124.86 116.1 13. 1836 .70 38.28 93.30 31 12.9 2.900 1897 17.1886 Jahr Leste e Litoral Paraíba 15.369 0 49.260 5.91 22.14 1997 Nov 106.970 4.4 1886 25.00 1984 Dez 100.70 121.24 116.36 0.798 0 48. em Contos (1912) 1893 15.92 Receitas Extraordinárias (1) 100.04 .br/htms/histbole.06 114.gov.04 0.549 0 2.8 Oeste e Norte 4.77 95.Receitas patrimoniais 2.7 Fonte: Targa 1996a: 71 Central 48.

1997) Tabela A-22: Trabalhadores com carteira assinada no Estado de São Paulo.256 347.8 1992 1.489 4.879 31.9 73.0 76.48 1989 53.4 82. de 1986 a 1995.5 1991 1.351 7.096 Comércio Serviços 907.277 Fonte: Unicamp 1998: 14 178 .610 5.7.6 70.3 81.seade.718 30.9 71.3 68.2 82.4 69.094.62 28.1 73.gov.922.057 3.001 32.050 3.89 Agências Bancárias 29.5 51.6 82.977 32.1993 Anos Depósitos Totais 54.8 73.667 304.373 129.666 3.2 38.0 1995 1.1 91.7 60.8 74.444 2.87 Tabela A-21: Setor bancário em São Paulo (Capital e Estado).837.2 70.319 Construção civil 277. 1988 a 1995 1988 Agências Bancárias Capital Estado % Depósitos Totais (1) Capital Estado % Operações de Crédito (1) Capital Estado % (1) em bilhões de R$ 1989 1.633.21 27.654 305.984 7.268 4.2 106.7 82. Operações de Crédito e Agências Bancárias.62 1992 56. Operações Totais.46 42.8 51.2 58.7 65.6 54.28 34.8 75.7 80.3 69.26 28.42 1988 51.681 363.186.570 Ignorado 0 0 276.158.595.85 36.684.33 1991 54.0 55.744 436.396 7.570 Total 7.550 30. por setores Ano 1986 1990 1994 1995 Indústria 2.378 29.3 83.504 2.708.955 323.8 64.47 1990 53.7 36.057.085 3.66 28.5 49.377 4.664 1.778 31. 1988 ..3 71.1 79.3 69.4 52.027 57.br (30.2 111.397 982.572 4.1 67.601 4.247 46.528 0 57.0 1993 1.201.447 4.6 Fonte: www.178 Tabela A-20: Participação Regional do Estado de São Paulo em Relação ao Brasil nos Depósitos Totais.6 1990 1.4 72.5 58.1 101.25 1993 Fonte: Seade 1995: 62 Operações de Crédito 30.88 36.960 Agricultura e outros Pecuária 103.353.3 68.5 71.4 51.8 77.546 4.481.9 104.1 1.925 31.0 1994 1.043 1.2 60.76 28.74 40.021 2.416.6 56.

897 16.220 1.205 6.276 694 777 484 293 185 108 4. de 1985 a 1998. em milhares Populações População Total População em idade ativa 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 14.744 7.102 3.079 892 2.847 1.979 11.358 15.157 3.br/cgi-bin de 22.078 15.seade.623 1.070 16.545 16.592 Indústria Comércio Serviços Outros (1) Desempregados aberto oculto Pelo trabalho precário Pelo desalento Inativos 1.254 11.162 6.233 8.659 701 614 459 155 106 49 4.146 13.082 2.052 6.642 15.309 16.897 12. em Reais (Novembro de 1996) 1989 874 Ocupadas 857 Indústria Com carteira assinada 898 Sem carteira assinada 444 888 Comércio 1080 Serviços Com carteira assinada (setor 992 privado) Sem carteira assinada (setor 438 privad) Assalaridadas do setor público 1477 306 Serviços Domésticos Fonte: www. em idade ativa.562 10.7 Fonte:www.730 662 738 530 208 143 65 4.010 880 2.329 População economicamente 6.365 884 481 129 129 5.731 1.424 2.345 7. ocupada e desempregada.489 7.490 834 1. Grande São Paulo.911 6.133 710 423 319 104 5.841 7.596 755 670 484 186 124 62 4.804 15.seade.585 7.636 1.438 2.1999 1990 10.735 7.834 788 2. segundo Posição na Ocupação .220 3.980 696 879 594 285 218 67 4.732 1.558 1.523 1.135 1.7 8.099 6.454 726 623 427 196 115 81 4.213 3.179 Tabela A-23: Estimativa da população total.028 2.151 2.069 3.277 846 431 321 110 5.372 716 639 399 240 133 107 4.156 681 475 372 103 4.228 8.211 746 1.1 1997 16.017 741 1.771 10.089 834 2.2 1993 14. de 1985 a 1997.2 9.759 1.687 13.004 1. economicamente ativa.762 1.gov.976 7.259 12.915 6. em % 1985 1986 1987 1988 1989 Total 12. de 1989 a 1996.2 1995 13.891 13.1997) 1992 597 636 726 336 547 740 738 328 987 222 1996 585 596 656 344 523 721 683 399 852 275 179 .2 1996 15.085 740 345 271 74 5.459 7.166 8.125 953 2.1.733 6.0 1998 18.574 12.914 6.3 Tabela A-25: Rendimento Médio Real Anual (1) das Mulheres Ocupadas no Trabalho Principal.020 2.224 730 1.2 9.774 6.878 1.659 6.541 11.br (27.624 853 1.453 13.703 1.758 10.980 6.6 9. Grande São Paulo.220 7.182 1.7 1992 15.175 711 464 356 108 4.6 1994 14.396 736 1.241 2.193 (1) compreende serventes e empregadas Fonte: Unicamp 1998: 12 Tabela A-24: Taxa de Desemprego na Grande São Paulo.235 3.7.515 6.369 ativa Ocupados 5.gov.3 1991 11.

d.772 .393 16.. .823 26.219 22. n.26 .803 0.319 22.05 28.087 .9 .4 7 4 (1) em milhões de R$ Fonte: Arretche (1998): Tabela 12 180 .343 29.. São Paulo..135 3. segundo Posição na Ocupação.. em milhões de R$ (valores arredondados) 1986 Rec.202 18.572 5.10 33..117 4.572 4. 190.943 30. 28.517 7. administração pública.57 .255 5.180 Tabela A-26: Rendimento Médio Real Anual (1) dos Homens Ocupados no Trabalho Principal.6 6 03 69 17.73 248 187.7.183 32.000 hab.903 3..7 181...568 20.) Rec.44 15. em Reais (Nov. 0.097 31.d. 19.94 Gastos em habitação(1) PIB (1) Percentual do PIB. Estadual disponível População (1. 4.1 32.050 23.386 0.39 210 188..71 6.13 0. n. 694 627 563 674 659 581 580 648 545 610 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 Fonte: Arretche 1998: Tabela 5 Tabela A-28: Gastos em habitação. em % População Gastos per capita 95 n.922 20.244 4. 199. 1986-94..12 30.398 18.821 4... 97 895 057 0.937 18. Disponível per capita (R$) Média 198794 24. Orçamentária Despesas com transf..859 .br (27. 1986-94.729 29. a municípios * Rec..96) 1989 1607 1718 1718 703 1466 1633 1434 1992 1075 1264 1298 580 839 1068 1006 458 1394 811 1996 995 1063 1046 549 858 1042 863 578 1291 755 Ocupados Indústria Com carteira assinada Sem carteira assinada Comércio Serviços Com carteira assinada (setor privado) Sem carteira assinada (setor 671 privado) Assalariados do setor público 2006 1220 Construção civil Fonte: www. n.480 184.853 20.11 29.1997) Tabela A-27: Rendas disponíveis do Estado de São Paulo.529 3.27 0.1 12.. 2 14.16 .529 31.478 18.d.783 8...207 .seade.657 21.425 25.24 0.901 25. 73 0.30 0. Grande São Paulo.05 31. em R$ (dezembro de 95) 1986 1987 1988 1989 1990 1991 199 2 548 487 1993 1994 Médi Média a 1991-4 198790 407 488 ..131 0.d.43 32. 14..144 7.072 21.701 33.gov.21 30. de 1989 a 1996.13 233 196.. 98 193.648 32.

55 8.83 1. posições selecionadas 1980 1985 1986 1.89 4.13 2. 181 .28 2. 1995 n.43 9.397 1989 8.535 635 736 670 760 1994 5.738 PE 11.359. Cidade de São Paulo.gov.36 3.04 4.55 9.551 852 1992 2.46 6.015 Filiados a Sindicatos Filiados a As.1997) 1987 4.786 652 460 590 379 1987 3. Relig.57 2.291 Tabela A-31: Endividamento do Município de São Paulo nos anos de 1980 a 1995.7.479 678 607 648 425 1990 5.67 9.276 878 1990 4.893. de Bairro ou de Moradores Filiados a As. em diferentes estados brasileiros em 1988 RS 12.649 Total de declarantes siglas: v.38 2.545 1. ou Filantrópicas Filiados a As.1997) 1986 3.45 2. 1994 n.17 3. n.473 3.337 1991 4.305 SP 8.66 2.seade.27 5.338 903 888 798 451 1992 4. ativas em uma ou várias associações.d.204 BA 8.092 795 903 785 649 1991 5.061.63 5.37 2.79 2.357 Gastos totais 449 509 Educação 353 386 Saúde 665 486 Habitação 411 Obras e instalações 514 Fonte: www.18 3.seade.7.685.08 4.62 2.953. em milhões de R$ (1996) 1980 1985 3. posições selecionadas dos anos de 1980 a 1995.gov. Esportivas ou Culturais Taxa média de filiação 15.d.19 4.473 829 981 985 1. em milhões de R$ (1996).59 2.30 3.42 1.11 3.d. de Empregados Filiados a Partidos Políticos Filiados a As.722 950 1993 n.535 830 929 731 639 1993 4.br (28.d.br (28.109 723 802 741 762 1995 6.31 5.91 5.71 27.76 PR 12.908 536 489 633 616 1988 4.880 1.d. segundo setores.574 2.744 501 658 738 1.397 2.07 3.469 1989 4.77 20.352 Dívida fundada 576 738 879 Dívida flutuante Fonte: www.181 Tabela A-29: Participação das pessoas acima de 18 anos de idade. n.25 4. Gráfico 7 Fonte: Arretche 1998: Tabela 4 Tabela A-30: Gastos.45 1. n.00 5.61 20.d.78 2.137 816 1988 5.830 CE 9.140.83 6.77 3.58 2.

23 37.942 1993 4.05 36.11 43.13 36.253 1.109 1.89 38.83 37.78 42. em % Ano Agricultura e pecuária 1980 13.61 38.287 2.gov.786 1.014 1.338 1.547 2.99 1981 14.336 1.57 42.535 1.363 106 931 1037 1. n.92 39.42 1991 15.282 2.357 981 321 227 548 504 2.103 21 274 295 948 3.908 900 367 457 824 728 2.96 19961 (1) dados provisórios Fonte: Unicamp 1998: 3 Indústria 45.72 1993 14.36 42.7. posições selecionadas.09 38.br (28.353 1.976 1992 4.90 1986 15.93 1982 15.10 36.535 1.seade.40 42.18 Serviços 40.77 43. de 1980 a 1996.81 42.100 1.845 1.105 1987 3.89 40.02 1983 16.40 38.91 39.97 1989 14.d.89 36.712 2. por tipos de gastos.87 37.28 39.228 187 651 838 955 3.473 817 186 n.23 43.99 43.61 38.99 44.479 1.15 39.48 1992 14.59 1987 17.947 Fonte: www.87 43.47 42.689 164 250 414 737 4.61 42.780 1991 5.899 2.48 36.25 1988 14.357 195 326 521 513 2.28 38.72 39.461 76 295 371 833 3.182 Tabela A-32: Despesas do Município de São Paulo.78 44.913 873 2.597 1995 6. 1980 a 1995.50 39.1997) Tabela A-33: Participação do Estado de São Paulo no PIB nacional.61 Total 40.761 2.008 1989 4.587 1.510 1985 3.55 1984 15.d.83 37.91 44.70 36.092 1.402 104 541 645 530 3.87 38. em milhões de R$ (1996) Despesas totais Com pessoal Encargos da divida Amortização da divida Encargos e amortização Investimentos Despesas correntes Despesas de capital Manutenção 1980 3.854 1988 4. 808 2.744 914 379 300 679 1.144 2.15 36.354 1990 5.321 1.84 40.487 869 1.709 3. segundo setores.473 1.695 1986 3.407 1.932 1.98 1985 16.685 2.38 1990 15.72 182 .51 38.16 1995 13.65 39.324 2.90 36.44 38.88 1994 14.389 58 269 327 928 3.416 1994 5.374 1.48 38.756 2.

771. Município de São Paulo.Rio de Janeiro Sul Nordeste Norte Centro-Oeste Total Fonte: Neto 1995: 379 1978 81 48 27 12 7 100 1990 82 58 15 10 7 1 100 183 .49% 21. 1990/2000 Anos 1940/50 1950/60 1960/70 1970/80 1980/90 Período Decenal Anual Decenal Anual Decenal Anual Decenal Anual Decenal Anual Total 68.20% 72.045 2.473 capital/estado 0.730 12.592.134.18% 16.040.339 0.615 8.74% 5.66% 3.701 5. 1990: 43.126 0.305 Fonte: Rolnik et al.226 9. por região.89% 4.786 4.626. de 1940 a 1991 Ano 1920 1940 1950 1960 1970 1980 1991 SP (capital) 579.568.85% 1.333 0.14% 43.185 0.37% 5.64% Fonte: Rolnik et al.60% 56.712 31.33% 1.588.25% 1.326.546.66% 1.416 SP (Estado) 4. Tabela A-36: Os 100 maiores grupos privados.416.10% 2.285 0. Tabela A-35: Evolução da população da Cidade de São Paulo.17% 19.99% 2.894 Grande SP 1.35% 3.739.São Paulo . SEADE 1993:30.423 12.67% 33.745 15.52% Migratório 49.198.26% 3. da Região Metropolitana de São Paulo e do Estado de São Paulo. 1940/50.48% 28.033 1.493.666.806 17. em1978 e 1990 Região Sudeste . 1990:32.76% 35.261 2.096 3.183 Tabela A-34: Taxa de Crescimento – vegetativo e migratório.97.948 25.139.97% Vegetativo 15.662.69% 24.316 9.924.71% 2.823.78% 17.57% 43.180.11% 2.241 0.37% 4.188 7.406 8.

São Paulo . por região. em 1975 e 1990. em % Região Sudeste .Rio de Janeiro Sul Nordeste Norte Centro-Oeste Total Fonte: Neto 1995: 379 1978 80 54 21 11 6 1 2 100 1990 68 43 16 15 11 3 3 100 184 .184 Tabela A-37: As 1000 maiores empresas.

br/exame (Exame) www.com.br/veja (Veja) www2.SP) www.org. revistas e endereços de Internet utilizados www.com.com.br (Prefeitura Municipal de São Paulo) 185 .gov.br (Secretaria de Planejamento do Estado de São Paulo) www.gov.uy/mercosur (Mercosul.htm (Brasilienausschnittsdienst – monatlicher Pressedienst) www.gazeta.Instituto Estadual de Pesquisa) www.fazenda.html (Die Zeit) www.185 7.gov.gov.org (Banco Mundial) www.br (Informações sobre o mercado de trabalho .dieese.sp. Homepage) www.3 Endereços da Internet utilizados com maior freqüência www.gov.monde-diplomatique.sercomtel.com.planejamento.brazil.worldbank.br (Senado) www.bcb.com.gov.com/TP/DieZeit.com.edu.com.sp.seade.br (Congresso) www.sp.com (The Economist) 7.com.fr (Le Monde Diplomatique) www.ipeadata.gov. especialmente Boletim do Banco Central) www.br (IPEA.de (Frankfurter Rundschau) www.sep.gov.gov.t-online.br/ft (FT – Folha da Tarde) home.br (Ministério do Planejamento) www.br (BNDES) www.com.zerohora.ipea.gov.emprego.Mare) www.gov.senado.uol.br (IBGE) www.bndes.mare.com.de/home/brasilien/aktuell.uol.br (Gazeta Mercantil) www2.rau.uol.com (Financial Times) www.br (SEADE .economist.uol.gov. especialmente.br (O Estado de São Paulo) gwww.fr-aktuell.gov.br (Ministério da Fazenda) www.br (Banco Central.br (Instituto de Pesquisas Econômicas dos Sindicatos) www.estado.br/bernardo (Deputado Paulo Bernardo.br ) www.br (Ministério da Reforma Administrativa . www.br (Zero Hora) www.br (Governo Federal) www.2 Jornais.gov.jb.br/istoe (Istoe) www.gov.br (Jornal do Brasil) www.ft.glpnews.camara.ibge. PT-PR) www.br/fsp (FSP – Folha de São Paulo) www.prodam.zaz.

ativista na Região Leste de São Paulo (19. Doutorando da Universidade de São Carlos (18. Secretária de Planejamento (1.11. Assessor da Câmara dos Vereadores de São Paulo.1996) Carlos Strabelli.186 7. Rio Branco (5. ex-consultor da CAEX Iraiton de Lima. Engenheiro agrônomo.11.1996) Antonio Monteiro Neto. assessor da Câmara de Vereadores para assuntos de transportes e assessor do sindicato dos motoristas de ônibus João Jorge.1996 Francisco de Oliveira.11.7.1997) José Antonio Fialho Alonso.1997) Roberto Ferres.4 Entrevistas gravadas em fita Antonio Alves. Presidente do Senado Aliança pela Renovação Nacional Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social Produto Interno Bruto Banco Nacional da Habitação Comisión Económica para América Latina Para as siglas dos estados brasileiros.1997) Gomercindo Rodrigues.11.10. Presidente da AMBS -Xapuri (26.1996) Marina Teles.6.1996) Fernando Michelotti.12.1996) Raimundo. Secretário Municipal de Cultura de Rio Branco (1993-1996) (5. Cooperativa Agroextrativista de Xapuri (29. assessor do Prefeito de Porto Alegre (24. Assessora da Câmara dos Vereadores de São Paulo. Pimenteira-Acre (25.11. USP (11. Membro fundador do CTA .11.1996) (30.1996) Dercy Telles.1996) Irma Ignes Boff.1997) Raimundo Mendes de Barros.1997) 7. gráfico 7.12.1996) Cláudia Pimenta. Vereador.7. Urbanista.1996) Antônio Zaire.1997) Simone Martinolli.1996) Regina Kipper. Comerciante em Xapuri.1996) (3. 4. USP.6.11. Secretário Municipal de Planejamento de São Paulo de 1989 a 1992 (10. Prefeito de Rio Branco (1993. funcionário da CMTC. dos instrumentos e de outros conceitos45 ABC ACM ARENA BNDES BIP BNH CEPAL 45 Grande Santo André.1997) Manuel Estébio. Secretário Municipal da Fazenda de Rio Branco (1993 .12. assessor da senadora Marina da Silva (PT-AC) (23.5 Siglas das organizações citadas. São Bernardo und São Caetano Antonio Carlos Magalhães.6.Rio Branco (4. Secretário Municipal da Agricultura .1996) João Batista. ativista na Região Leste de São Paulo (15.Rio Branco (1993-1996) Paul Singer. Seringueira.11. Funcionária do Departamento de Urbanismo de São Paulo e Rio Branco (12.12. Professor de Economia. Vereador de Xapuri (24. religiosa de Xapuri (21. Museu da Borracha. 186 . Cooperativa Agroextrativista de Xapuri (24. v. Professor de Sociologia.1997) Mancio Lima Cordeiro.7.3.1996.10.1996) Jorge Viana. com museu particular (24. Agente cultural.12.

primeira grande usina siderúrgica em Volta Redonda Companhia Metropolitana de Habitação Central Unica dos Trabalhadores Companhia da Vale do Rio Doce . maior empresa mineradora do Brasil Fundo de Estabilização Econômica Fundo de Garantia do Tempo de Serviço Fernando Henrique Cardoso Federação das Indústrias do Estado de São Paulo Fundo Social de Emergência Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços International Labour Organisation Instituto Nacional de Previdência Social Imposto Predial e Terrenos Urbanos Instituto Superior de Estudos Brasileiros Ministerio de Administração e de Reforma do Estado Movimento Sem Terra Nongovernmental Organisation Organização Social Plano de Atendimento de Saúde Partido Comunista do Brasil Partido Democratico Social Partido Democrático Trabalhista Partido da Frente Liberal Partido do Movimento Democrático Brasileiro Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional Partido Popular Partido Progressista Brasileiro Partido da Renovação Nacional Partido Socialista Brasileira Partido Social Democrático Partido da Socialdemocracia Brasileira Partido dos Trabalhadores 187 .187 CEF CIB CIESP CGT CLT CMTC CNI CNS COHAB CUT CVRD FEF FGTS FHC FIESP FSE ICMS ILO INPS IPTU ISEB MARE MST NGO OS PAS PCdoB PDS PDT PFL PMDB Proer PP PPB PRN PSB PSD PSDB PT Caixa Econômica Federal Centro Industrial do Brasil Centro de Indústrias do Estado de São Paulo Central Geral dos Trabalhadores Consolidação das Leis do Trabalho Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo Confederação Nacional de Indústrias Companhia Nacional Siderúrgica.

188 PTB R$ SAB SEADE SFH STF SUDENE SUS TSE Unicamp USP Partido Trabalhista Brasileiro Real. Reais –moeda brasileira desde 1994 Sociedade de Amigos de Bairro Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados Sistema Financeiro de Habitação Supremo Tribunal Federal Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste Sistema Unificado de Saúde Tribunal Superior Eleitoral Universidade de Campinas Universidade de São Paulo 188 .

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