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A Democracia na América Latina

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Rumo a uma democracia de cidadãs e cidadãos

Programa das Nações Unidas Para o Desenvolvimento

a democracia
na América Latina
Rumo a uma democracia de cidadãs e cidadãos

Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai, Venezuela

Preparado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

A análise e as recomendações políticas deste Relatório não refletem necessariamente as opiniões do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, de sua Junta Executiva nem de seus Estados Membros. O Relatório é uma publicação independente preparada a pedido do PNUD. É o fruto da colaboração entre um conjunto de prestigiosos consultores e assessores e a equipe do Relatório da Democracia na América Latina (PRODDAL). © Programa das Nações Unidas Para o Desenvolvimento, 2004 1 UN Plaza, New York, New York, 10017, Estados Unidos da América Este documento foi elaborado com a ajuda financeira da União Européia. As análises e recomendações deste documento não refletem a opinião oficial da União Européia. A tradução deste Relatório para o português foi dirigida pela Profa. Monica Hirst, coordenada por Miriam De Paoli e contou com a participação de Maria Adelina Guedes Chaves, Gértea Coeli de Macedo Oliveira e Ivone Tupinambá Pereira Lima. Da Primeira edição em español: Aguilar, Altea, Taurus, Alfaguara S.A., 2004. Idéia da capa: Fisher América Argentina Desenho de portada e interiores: Schavelzon-Ludueña. Estudio de Diseño © Desta edição: LM&X Ltda., 2004 Rua Calçada dos Antares, 264 2º andar Alphaville – Santana do Parnaíba – SP – Brasil www.lmx.com.br – livros@lmx.com.br

ISBN: 85-98887-01-3 Depósito Legal na Biblioteca Nacional conforme decreto nº 1825 de 20 de novembro de 1907 Direção editorial: Alessandra Machado Diagramação: Adalton Martins, Vanessa Thomaz, Verônica S. Martins Revisão: Ivan Garcia
Todos os direitos reservados. Esta publicação e seus materiais complementares não podem ser reproduzidos, no todo ou em parte, nem registrados em, ou transmitidos por um sistema de recuperação de informação, sob nenhuma forma nem por nenhum meio, seja mecânico, fotoquímico, eletrônico, magnético, eletroóptico, por fotocópia ou qualquer outro, sem a autorização prévia por escrito da editora.

Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)

Administrador

Mark Malloch Brown
Administrador Associado

Zéphirin Diabré

Administradora Auxiliar e Diretora Regional para a América Latina e o Caribe

Coordenador do Programa Regional

Freddy Justiniano

Elena Martínez
Representante Residente na Argentina Assessora de Governabilidade do Programa Regional

Carmelo Angulo Barturén (até Abril de 2004) Carlos Felipe Martínez (desde Maio de 2004)

Myriam Méndez Montalvo

Coordenador do Projeto

Dante Caputo

Garretón. Equipe técnica: Leandro García Silva. Leandro García Silva. Adalberto Moreira Cardoso. Bosworth. Colaboradores especiais: Fabián Bosoer e Daniel Sazbón. com a colaboração de Claudia Dangond. Catherine Conaghan. Indicadores Gerardo Munck coordenou a equipe integrada por David Altman.■ Projeto sobre a Democracia na América Latina Coordenador do Projeto Dante Caputo Consultores por Áreas Marco teórico Guillermo O’Donnell. Elisabeth Ungar e Amalfy Fernández. Julio Cotler. Projeto sobre a Democracia na América Latina 5 . Jeffrey A. Manuel A. Juan Méndez. Pablo Da Silveira. e uma equipe dirigida por Hilda Herzer e integrada por Verónica De Valle. Rodolfo Mariani e Thomas Scheetz. Augusto Ramírez Ocampo. Equipe de apoio: María Eugenia Bóveda e Fabián de Achaval. Gonzalo Kmeid. Gonzalo Pérez del Castillo. Céli Regina Jardim Pinto. Renato Boschi. Rodríguez. com a colaboração de Claudio Luján. Adriana Redondo e María C. Equipe do Projeto em Buenos Aires Oficial de Programa PNUD: Rosa Zlachevsky. María M. David Held. Raúl Alconada Sempé. Claudia Dangond. González. Pierre Rosanvallon. para o projeto e análise da pesquisa Latinobarômetro / PRODDAL 2002. Rodolfo Mariani. com os comentários de Bruce Ackerman. Coordenador Países do MERCOSUL Dante Caputo e Raúl Alconada Sempé. Luis E. Evelyn Villarreal e Lorena Kikut. Coordenador institucional Gonzalo Pérez del Castillo. Andrew Arato. Adriana Raga. Coordenador Países do Istmo Centro-americano e República Dominicana Edelberto Torres Rivas. Fernando Calderón. José Nun. Jay Verkuilen e Daniel Zovatto. Jennifer McCoy. Edelberto Torres Rivas. Coordenadores Coordenador Países Andinos Augusto Ramírez Ocampo. Di Virgilio. Rodada de consultas Diego Achard. Graciela Kisilesky. José Eisenberg. Alain Touraine e Laurence Whitehead. Larry Diamond. Tatiana Benavides. Pesquisa de opinião Jorge Vargas coordenou a equipe integrada por Miguel Gómez Barrantes.

Marta Lagos. Juan Carlos Herrera. Gerardo Noto. Silvia Lospennato. Sandra Rojas. Grupo de leitores do Relatório Carmelo Angulo. Milagros Olivera. Luis Eduardo González. Myriam Méndez-Montalvo. Juan Pablo Corlazzoli. Eva Capece. Sebastián Campanario.Difusão do Relatório Milena Leivi. Marcos Novaro. Martín Santiago. Consultores Gloria Ardaya. Manuel Antonio Garretón. Joaquín Estefanía. Harold Robinson. Carlos F. Vicente Palermo. Néstor Lavergne. Thierry Lemaresquier. Assessores José Luis Barros Horcasitas. Juan Alberto Fuentes. Carlos Ominami. Norbert Lechner. Enrique Ganuza. Alberto Couriel. Emilio Sampietro. Guillermo O’Donnell. Luis Francisco Thais. Gustavo Fernández Saavedra. Arturo O’Connell. Luis Verdesoto. Horacio Boneo. Carlos Lopes. Martínez. Juan Rial. William Orme. Freddy Justiniano (Coordenador). Enrique Ganuza. 6 A democracia na América Latina . Fernando Calderón. Víctor Arango. Marcia de Castro. Stefano Pettinato. Edmundo Jarquín. Magdy Martínez. Julio Godio.

a democracia também Estado e cidadania 64 66 69 “Estatalidad” truncada e fragilidade democrática Especificidade histórica das democracias latino-americanas De quanta cidadania uma democracia precisa Índice 7 . fonte e justificativa da autoridade do Estado democrático O cidadão. pobreza e desigualdade: um triângulo latino-americano Balanço entre reformas e realidades Os organismos internacionais e a promoção da democracia 49 50 52 ■ Exploração sobre o desenvolvimento da democracia Um debate incompleto Fundamentos teóricos A idéia de democracia Os déficits da sociedade como déficit da democracia Alcances da democracia no Relatório Democracia.Índice 13 17 21 21 ■ Prólogo do Administrador do PNUD ■ Prefácio da Diretora Regional para América Latina e Caribe do PNUD ■ Apresentação Liberdade. regime político e Estado Os cidadãos. democracia e política 25 25 26 26 28 29 31 ■ Resumo Introdução A democracia e a idéia de democracia na América Latina Balanço da cidadania integral Percepções e apoio de líderes e cidadãos Elementos para uma agenda Metodologia do Relatório primeira seção 33 35 38 41 45 O desenvolvimento da democracia na América Latina ■ O desafio: de uma democracia de eleitores a uma democracia de cidadãos Democracia. sujeito da democracia A cidadania excede os direitos políticos.

ambivalente e não-democrática Magnitude das tendências em relação à democracia Distância entre as tendências em relação à democracia Tendências em relação à democracia: perfil social Heterogeneidade 147 Formas de participação dos cidadãos na vida política Participação cidadã e tendências em relação à democracia Perfis de intensidade da cidadania 153 O índice de Apoio Cidadão à Democracia 157 157 157 ■ A percepção dos dirigentes latino-americanos Perfil dos atores consultados O ponto de partida conceitual 8 A democracia na América Latina .segunda seção 73 Bases empíricas do Relatório 75 75 76 ■ Indicadores de desenvolvimento da democracia Cidadania política. civil e social Cidadania política Índice de democracia eleitoral Outros indicadores do regime democrático de acesso ao governo Participação eleitoral Concorrência eleitoral e seleção de candidatos Representação eleitoral 84 Balanço do regime de acesso democrático ao governo Outras dimensões da Cidadania Política Poderes constitucionais clássicos Agências especializadas de controle Mecanismos de democracia direta A corrupção na função pública Clientelismo 88 104 Conclusões sobre a cidadania política: conquistas e deficiências Cidadania civil Igualdade legal e proteção contra a discriminação Direito à vida. à integridade física e à segurança Administração de justiça Liberdade de imprensa e direito à informação Conclusões sobre a cidadania civil: conquistas e deficiências 122 Cidadania Social N ecessidades básicas Integração social A sociedade civil como promotora da cidadania social Conclusões sobre a cidadania social: conquistas e deficiências 139 140 ■ Como os latino-americanos vêem a sua democracia Três tendências em relação à democracia: democrática.

158 Condições necessárias para a Democracia A expansão da participação política A expansão dos controles sobre o exercício do poder Opiniões sobre o caráter da democracia 162 Causas das limitações das democracias latino-americanas Poderes institucionais e poderes fáticos O papel dos partidos políticos Os poderes fáticos Empresas Os meios de comunicação Os fatores extraterritoriais As Igrejas O sindicalismo Os poderes ilegais Os poderes políticos formais O Poder Executivo As Forças Armadas 170 A visão dos presidentes e vice-presidentes Avaliação da figura do presidente no mapa de poder de cada região Pressões dos poderes fáticos sobre a autoridade presidencial O papel dos meios de comunicação Valoração das organizações sociais na vida política do país 172 O fortalecimento da democracia A construção da agenda pública na América Latina A agenda futura Os desafios 177 178 Alcances da democracia na América Latina. primeira condição A necessidade de uma nova “estatalidad” Uma economia para a democracia Poder e políticas democráticas na globalização Em síntese 203 203 ■ Reflexões finais O eterno desafio Índice 9 . Um balanço Como se exerce o poder nessas democracias? Síntese da rodada de consultas terceira seção 181 Rumo a uma democracia de cidadania 183 184 189 192 198 201 ■ Quatro temas para uma agenda de debate A política.

Funcionários do Escritório de Enlace do PNUD em Bruxelas Funcionários do Escritório do PNUD na Argentina Representantes Residentes.Pesquisa de opinião sobre a democracia Dados e metodologia Desenho das amostras Análises estatísticas Unidade de análise Precisão dos resultados Amostras totais. amostras válidas e não-respostas Apresentação de resultados O método de medição do apoio cidadão à democracia mais amplamente utilizado e suas fragilidades 227 O IAD e as tendências em relação à democracia As três dimensões do IAD 10 A democracia na América Latina . Adjuntos e Auxiliares dos Escritórios do PNUD na América Latina Funcionários dos Escritórios do PNUD na América Latina 210 Participantes em seminários e reuniões Reunião com o Secretário Geral da ONU Reunião com o Administrador do PNUD Apoio na preparação de reuniões e seminários Produção e tradução 213 213 ■ Nota técnica sobre o Índice de Democracia Eleitoral (IDE) Construção do IDE A escolha dos componentes A medição dos componentes A geração de uma base de dados retangular com escalas normalizadas A escolha de regras de agregação 217 Testando o IDE Confiabilidade entre codificadores e estimativa de erro A solidez das regras de agregação O caráter dimensional dos elementos componentes 218 Interpretando e usando o IDE 219 219 219 ■ Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) Apresentação I.207 ■ Agradecimentos Instituições que colaboraram na elaboração e discussão do Relatório Autores de artigos sobre temas da agenda Participantes da Rodada de Consultas Participações especiais Funcionários do Escritório do Administrador do PNUD Funcionários da Direção para América Latina e Caribe do PNUD.

Primeira dimensão: tamanho de uma tendência Segunda dimensão: ativismo político das tendências Classificação de modos de participação Terceira dimensão: distância entre as tendências A regra de agregação do IAD A Interpretação do IAD Validação e confiabilidade do IAD Pressupostos e limitações do IAD 239 255 257 260 262 263 ■ Bibliografia ■ Abreviaturas ■ Índice de quadros ■ Índice de tabelas ■ Índice de gráficos ■ Conteúdo do CD-ROM incluído no relatório Índice 11 .

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em muitos lugares. Por outro. Consideramos que ele representa uma valiosa contribuição para a configuração de uma agenda ampliada para os países da América Latina. tais como liberdade Prólogo do Administrador do PNUD 13 . Essa circunstância tem gerado. com grande orgulho. São várias as razões dessa tendência. ir além do simples diagnóstico dos problemas existentes e propõe novos enfoques para os desafios que estão. renda e serviços básicos. A mais importante é que a democracia é. suas raízes não são profundas. entrevistas. os governantes são culpados quando as coisas andam mal em matéria de emprego. ainda.Prólogo do Administrador do PNUD A AMÉRICA LATINA APRESENTA ATUALMENTE UM EXTRAORDINÁRIO PARADOXO. por um amplo descontentamento popular) das cidadãs e dos cidadãos com essas democracias tem aumentado. existem níveis de pobreza elevados. que são insuficientes para satisfazer as crescentes expectativas da cidadania. em alguns casos. Por esse motivo. Assim. mediante a combinação de indicadores quantitativos. Resultado do trabalho de um grupo de especialistas independentes. o Relatório assinala que a proporção de latino-americanas e latino-americanos que estariam dispostos a sacrificar um governo democrático em favor do progresso socioeconômico real é superior a 50%. enfrenta uma crescente crise social. Persistem profundas desigualdades. atualmente. O coração do problema está em que. embora a democracia tenha-se propagado amplamente na América Latina. Assim. mais de duas décadas de governos democráticos. conseqüências desestabilizadoras. pondo em risco os avanços registrados nos últimos 25 anos. pela primeira vez na história da América Latina. o crescimento econômico tem sido insuficiente e a insatisfação (expressa. Por um lado. O Relatório representa um significativo esforço para compreender e superar esse paradoxo. conseqüentemente. O panorama torna-se ainda mais complexo quando se considera que diversos fatores indispensáveis para a governabilidade democrática. Ele oferece uma análise abrangente do estado da democracia na América Latina. é grande a satisfação do PNUD em ter apoiado esta iniciativa. pesquisas e diálogo com grande número de líderes e formadores de opinião por toda a região. um documento oficial sobre as políticas do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) ou das Nações Unidas. a forma de governo predominante. o PNUD e seus parceiros na busca pelo desenvolvimento nos meses e anos futuros. O Relatório procura. o Relatório não é. a região pode mostrar.

empresários ou outros atores. não têm acesso ao poder por meio dos canais formais. os cidadãos estão começando a distinguir entre a democracia como sistema de governo e o desempenho dos governantes em particular. Além disso. ele deve proporcionar mecanismos pelos quais os poderosos. não um ato isolado. Dessa forma. Isso significa que será preciso assegurar que o poder. existem alguns sinais muito animadores por trás dessa situação. não raro por meio de expressões violentas. é preciso demonstrar aos cidadãos que os governos democráticos estão cuidando dos problemas que verdadeiramente preocupam os povos. mostram uma imagem um pouco melhor. das legislaturas às autoridades locais. Além disso. o Poder Judiciário e o Executivo. Para que a democracia não definhe e possa crescer. Além disso. o desafio implica também na construção de instituições legislativas e jurídicas capazes de proteger os direitos humanos e de gerar espaço para um debate político vigoroso e pacífico. mas para líderes populistas que se apresentam como alheios ao poder tradicional e prometem perspectivas inovadoras. assim como os serviços de segurança. tradicionalmente excluídos. parcialmente. em todos os níveis de governo. eles manifestam suas frustrações por vias alternativas. porém. Na prática. apesar das crises. Não obstante. as populações diferenciam cada vez mais entre as diversas instituições. hoje em dia. Isso explica. proteção sólida aos direitos humanos e poder judiciário independente e vigoroso ainda precisam ser substancialmente fortalecidos. muitos grupos. Assim. 14 A democracia na América Latina . a América Latina precisa trabalhar incansavelmente para que as instituições democráticas. os países da região não optaram por um retrocesso ao autoritarismo. fiquem obrigados a prestar contas de suas ações. O primeiro é que. prestem contas dos seus atos e desenvolvam as aptidões e capacidades necessárias para desempenhar suas funções fundamentais. um poder descentralizado.de imprensa. para soluções militares. quando é hora de identificar responsáveis. dado amplo apoio às instituições democráticas. Ao passo que os corpos legislativos e os partidos políticos têm apoio de menos de um quarto da população. seja estruturado e distribuído de tal forma que dê voz e participação real aos excluídos. Fazer. sejam eles líderes políticos. tendo. que são capazes de responder a essas indagações e que estão sujeitos ao efetivo controle da cidadania quando não o fazem. fenômeno que é bastante conhecido em muitas democracias estabelecidas. sejam transparentes. Nesse caminho não há atalhos: consolidar a democracia é um processo. Ele inclui o desenvolvimento de uma força policial capaz de garantir ruas e fronteiras seguras. por que os movimentos de oposição não tendem. Muitos desses cidadãos nada mais são do que “democratas insatisfeitos”. ao contrário. com que as instituições públicas tenham um desempenho efetivo é apenas uma parte do desafio. Em segundo lugar.

para que a população de cada localidade possa mobilizar-se para garantir escolas com professores bem capacitados e hospitais com equipamento e medicamentos apropriados. mensuráveis e enunciadas sinteticamente. ainda. Mark Malloch Brown Administrador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Prólogo do Administrador do PNUD 15 . e especialmente os líderes em todas as esferas. Para fazer dessa visão uma realidade. enfrentem decididamente as questões críticas que afetam a governabilidade democrática e que possam assegurar que desenvolvimento e democracia continuem sendo entendidos. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) das Nações Unidas — que vão de reduzir à metade a pobreza extrema e a fome até assegurar que. no ano 2015. os ODM constituem o primeiro manifesto global para mulheres e homens. Se a América Latina e o mundo aproveitarem esta oportunidade. porém. em face do compromisso assumido pelo mundo desenvolvido de apoiar os países em desenvolvimento que levam a cabo reformas de boa fé. O desafio implica. que todos esses atores tenham plena participação na consolidação da democracia e estejam na vanguarda da luta contra a corrupção e a má administração de governos e empresas. os ODM oferecem uma oportunidade real para canalizar o apoio externo em termos de acesso a mercados. será preciso. que os latino-americanos. mas como dois lados da mesma moeda. Num sentido muito real. existirá então possibilidade de se construir um novo círculo virtuoso. alívio da dívida e maior assistência. de que tantos países latino-americanos necessitam desesperadamente para impulsionar seus próprios esforços. uma florescente sociedade civil e uma imprensa livre. por meio do qual o crescimento econômico renovado dê impulso aos ODM e ajude simultaneamente a construir e sustentar democracias mais efetivas e capazes de acelerar um progresso social e econômico eqüitativo. de forma que qualquer um possa compreendê-las e honrá-las. Como parte de um pacto global entre países ricos e pobres. meninas e meninos de todo o mundo: um conjunto de questões concretas. não como alternativas. todas as meninas e meninos freqüentem escolas — oferecem um instrumento para ajudar a atender a essas questões no nível nacional e regional.

16 A democracia na América Latina .

mediante a modernização do estado e de seus diferentes ramos. o PNUD vem dando cada vez mais atenção ao desafio de consolidar a democracia na América Latina e no Caribe. no qual está incluída “a preparação de um Relatório sobre o estado da democracia na América Latina [que] será resultado de atividades conjuntas de acadêmicos e agentes políticos e sociais da região1 “. E a tecnologia não diz para quê nem para quem. sociedade civil e atores não tradicionais. Em outras palavras. a pedido dos governos. nestes últimos anos. mas apenas como. voltaram a descobrir a política (embora prefiram não dizer isso). democracia nada mais é do que “o governo do povo”. NÃO FAZ MUITO TEMPO. a reforma política. para as opções e para os conflitos. O mercado. Por sermos uma organização de conhecimento. vários projetos regionais e nacionais empenharam-se ou estão empenhados em avaliar alternativas e difundir boas práticas no que tange à governabilidade. Em nada menos que 17 países. De fato. O texto que tenho hoje a honra de apresentar é o primeiro resultado desse processo. Assim. mais de 200 líderes políticos ou sociais e quase 19 mil cidadãos entrevistados em 18 países. acompanhamos diálogos que ajudam a construir consensos entre autoridades. para pô-la em diálogo com o presente e o futuro de nossa América: governo do povo significa que as decisões que nos afetam a todos sejam tomadas por todos. que se celebrar a existência de governos eleitos pelo voto popular e os progressos na representação e participação na esfera política duran- 1 Conselho Executivo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e do Fundo de População das Nações Unidas. Primeiro Período Ordinário de Sessões de 2002. Vale dizer. Por isso. portanto. a governança local e a adequada inserção na aldeia global. contribui para a reinvenção da política como sustentáculo do desenvolvimento latino-americano. há. 32 presidentes ou ex-presidentes. a maioria dos programas nacionais de cooperação tem em vista esse propósito. em que muitos acreditaram que a política estava morta: o mercado impessoal e o saber tecnocrático se encarregariam de levar-nos ao desenvolvimento. Nesse contexto.Prefácio da Diretora Regional para América Latina e Caribe do PNUD HOUVE UM MOMENTO. Em seu sentido mais elementar. Prefácio da Diretora Regional para América Latina e Caribe do PNUD 17 . ao mesmo tempo. em que participaram mais de 100 analistas. porém. No contexto da América Latina. ajudálo. os economistas e os organismos de desenvolvimento voltaram os olhos para as instituições. pressupõe a segurança jurídica dada pelas instituições. O Relatório procura levar a sério essa velha idéia. O Relatório faz parte desse redescobrimento e quer. o Conselho Executivo do PNUD aprovou o II Marco de Cooperação Regional para o período 2001-2005. forças políticas.

para que este possa cumprir os mandatos da cidadania. Governo do povo significa. um estado de cidadãos plenos. a afirmação de Amartya Sen —“desenvolvimento humano é o processo de expansão das liberdades reais de que goza um povo”3— vem a ser. sem dúvida. que continuam sendo a nossa grande mancha e a grande ameaça a esse regime democrático? Como ampliar a política ou como recuperar o que é público para o debate e a participação das pessoas? Como devolver a economia à política. os direitos políticos (tomar parte nas decisões públicas ou coletivas) e os direitos sociais (acesso ao bem-estar). 13. p. então. por sua vez. Será necessário advertir que “política” não é só (e não é sempre) o que fazem os políticos. e sim o que fazem os cidadãos e suas organizações quando se ocupam da coisa pública? Ou haverá necessidade de acrescentar que a democracia assim entendida é uma forma de desenvolvimento humano? Se desenvolvimento humano. enfim. sem populismos. maior diversidade de opções e mais poder ao Estado. mas. Madrid. 3 Desarrollo y Libertad. 2 Esta definição foi proposta pela primeira vez no Informe Sobre Desarrollo Humano. ou de fato? Como. É a democracia da cidadania que o Relatório propõe e que serve de eixo ordenador de sua análise. como mais de uma vez disseram os Relatórios do PNUD. Como manter a vigência e aperfeiçoar o regime democrático de que agora desfrutam nossos países? Como expandir a cidadania social. no sentido tanto de texto prévio que quer ser melhorado como no de desculpa ou ocasião para continuar um diálogo já iniciado.te as últimas décadas. de eleger as autoridades. de submeter ao debate e à decisão coletiva todos os assuntos que afetam o destino coletivo. é “o aumento das opções para que as pessoas possam melhorar sua vida2“ . Planeta. Uma forma. de fato. fazer com que a aldeia global seja governada e que esse governo represente também as latino-americanas e os latino-americanos? O Relatório não pretende dar as respostas. O debate está aberto. Mas persiste o desafio de engrandecer a política. 2000. E assim. Ainda mais: o texto é apenas um pré-texto. o que acarreta. uma forma de organização que garante os direitos de todos: os direitos civis (garantias contra a opressão). p. Assim. além disso. isto é. 18 A democracia na América Latina . a idéia seminal e o convite essencial do texto que estou apresentando é avançar na direção de uma democracia de cidadãs e cidadãos mediante a ampliação da política. direcionar o mercado para a cidadania e a serviço dela? Como fazer com que o Estado se empenhe em democratizar a sociedade? Como conseguir que ele se imponha aos poderes fáticos. Bogotá. como reduzir a pobreza e a desigualdade. uma definição de democracia. ou como. é aumentar as opções de caráter coletivo que incidem na qualidade de nossas vidas. 33. 1990. Tercer Mundo. e sim ajudar a definir as perguntas. eu diria que democracia é desenvolvimento humano na esfera pública.

mas sim. Bem-vindos! Elena Martínez Administradora Auxiliar e Diretora Regional do PNUD para a América Latina e o Caribe. Por isso. instituições e pessoas a quem não me cabe enumerar. evidentemente. agradecer. Outros frutos. que. Prefácio da Diretora Regional para América Latina e Caribe do PNUD 19 . Uma série de eventos regionais.Esse diálogo é a razão de ser do Projeto sobre o Desenvolvimento da Democracia na América Latina (PRODDAL). a rede de atores da governabilidade que acompanha o PRODDAL e. certamente. o debate político tem que ocorrer a partir das realidades e dos sonhos próprios de cada pais. que o PNUD leva a cabo com o generoso apoio da União Européia e de governos. esperamos. razão pela qual previmos encontros em cada um. a “e-comunicação” interativa são outros tantos cenários nos quais queremos prosseguir com este diálogo. Um fruto de seus esforços é o Relatório. estimularão e enriquecerão um debate urgente (ao qual eu chamaria “debate sobre a democratização de nossas democracias”). são: o livro no qual 26 destacados intelectuais procuram dar respostas a essas questões. A América Latina é múltipla e uma só. o compêndio estatístico que permite um escrutínio integral das cidadanias e os ensaios acadêmicos que sustentam nosso modo de entender a democracia.

20 A democracia na América Latina .

o que em política significa. as lacunas. No exercício de exploração daquilo que falta existe. Para resolvê-los. Liberdade para dizer que o rei está nu e procurar compreender por quê. das torturas e do silêncio esmagador que tem a falta de liberdade.Apresentação Liberdade. que chegue a elas e que lhes ajude a compreender melhor suas democracias e suas necessidades de aprimoramento. Fizemos esta exploração levando em conta. ficou para trás. feita a partir da própria democracia. Não há problemas com a democracia. a demanda. a crise de representação na política é atacada com mais eficácia quando sabemos o que pleitear. Liberdade para discutir o que perturba. o que exigir de nossos representantes. numerosos e alguns muito graves. Liberdade para saber por que um sistema que é quase sinônimo de igualdade convive com a mais alta desigualdade do planeta. antes de tudo. trata-se de um Relatório para exercitar a liberdade. o relatório contém uma análise crítica da situação de nossas democracias. A história. porque. Sem dúvida nenhuma. Evidentemente. é indispensável promover ativamente o debate e incorporar no quotidiano das decisões das organizações sociais os temas aqui propostos e outros que possamos ter omitido. em que uns poucos se apoderaram do direito de interpretar e decidir o destino de todos. o que alguns prefeririam que ficasse oculto. porém. ou seja. um perigo: esquecer o que temos. em parte. Faz-se necessário provocar uma nova discussão. Além disso. mas guardamos a memória desse passado. democracia e política O RELATÓRIO SOBRE A DEMOCRACIA NA AMÉRICA LATINA propõe algumas respostas às incertezas e aos questionamentos das sociedades latino-americanas sobre sua democracia. Nossa ambição é que ele venha a ser uma ferramenta para o debate das sociedades. mas há problemas na democracia. não é um texto em si mesmo que atingirá esse objetivo. Isso nos levou necessariamente a destacar déficits e carências. para saber quais são nossas urgências e prioridades. conhecendo suas limitações. para saber se o que discutimos é o que precisamos discutir ou o que outros nos impuseram. e desejaríamos que ele não se esgotasse em nós. é indispensável fazer uso do mais precioso instrumento que ela nos oferece: a liberdade. Foram-se as histórias dos temores. para que nossos filhos saibam que a liberdade não nasApresentação 21 . Para esse fim. exercer a capacidade de reconhecer e decidir o que queremos fazer com nossas sociedades. prioritariamente. as indagações que nossas mulheres e homens formulam e que não estão sendo eficientemente tratadas no debate político. Temos problemas. dos desaparecimentos. dos assassinatos. as ciladas que se lançam sobre nossas democracias não deveriam levar-nos a esquecer que deixamos para trás a longa noite do autoritarismo. Os déficits.

se não quiserem ver-se incapacitados de realizar mesmo aquilo que hoje é possível. em um ambiente em que. que protestar. A democracia é um fenômeno cuja dimen- 22 A democracia na América Latina . porém. paixão e comedimento. única atividade capaz de reunir a árdua e maravilhosa tarefa de lidar com a condição humana para construir uma sociedade mais digna. alguns com êxito. Ela requer mulheres e homens dispostos a lutar neste turbulento território em que se desenvolvem os interesses e as paixões. É por meio da política que se plasma a construção democrática. e muitos voltam a tentá-lo. mas simplesmente a advertência de que a democracia não é uma construção idílica. perdem. e para isso são necessárias. faz algo mais do que opinar sobre como as coisas deveriam ser feitas. o que tem produzido crescente repulsa em nossas sociedades à face daqueles que a praticam. Estes políticos. Precisamos ser críticos com a nossa democracia.ceu espontaneamente. porque essas lembranças nos obrigam a custodiá-la e aperfeiçoá-la. Eles tentam. sim. O Relatório sobre a Democracia na América Latina aborda a análise de nossa situação. Como disse Weber: “a política é uma dura e prolongada penetração através de resistências tenazes. mas. Não existe aqui nada parecido com uma reivindicação sentimental dos políticos. uma maioria. ao mesmo tempo. porém. Finalmente. Só quem está seguro de não se abater quando. Muitos têm a simples valentia de lutar. que são as lutas do poder. e assim o demonstra a história. que nunca se consegue o possível neste mundo se não se tentar. de um ou de outro modo. Alguns temem e abandonam a política. pensar e decidir. as lutas reais. com a dignidade de mulheres e homens livres. foi uma conquista árdua e demorada. Democracia se faz com política. O Relatório não é benigno quando trata de mostrar a gravidade da crise da política e dos políticos. somente quem. outros cometem erros e. vez por outra. é capaz de responder com um ‘apesar disso’. no sentido mais simples do termo. muitas vezes. uma advertência sobre as limitações do trabalho. que optaram entre custos. Eles não têm a pureza daqueles que só assumem o risco de opinar. Não obstante. o mundo se mostra demasiadamente estúpido ou demasiadamente abjeto para o que ele oferece. pagam por eles. Mesmo aqueles que não são nem um nem outro precisam armar-se desde agora com essa fortaleza de ânimo que permite suportar a destruição de todas as esperanças. falar. paixões e misérias. Para ser capaz de fazer isso. É certo. oferece uma ampla base empírica e propõe um temário sobre seus desafios centrais. é necessário ser um caudilho e assim também um herói. apostam. é que se lançaram às lutas. o impossível. o que se enfrenta não são grandes idéias. somente um homem construído dessa forma tem ‘vocação para a política’”. é um esforço parcial. em face de tudo isso. Aqui ocorre algo semelhante ao que acabo de indicar: também a política tem graves carências. porém. que pagaram com seu prestígio ou sua honra por seus defeitos ou falhas. do seu ponto de vista. sem dúvida.

Advertimos sobre essa ausência para indicar que estamos conscientes dela e para frisar nossa reticência em encerrar em categorias analíticas e em cifras a imensa complexidade dos fenômenos humanos.são humana e cultural é central. importante e necessário. as paixões desencadeadas em torno das relações de poder. Só trabalhamos sobre um segmento. da vasta experiência que a democracia contém. Dante Caputo Coordenador do Relatório Apresentação 23 . não raro contêm explicações ou indícios dos quais os dados e a análise não dão plena conta. A história que recebemos. os impulsos sociais suscitados pelas esperanças e frustrações.

24 El desarrollo na América Latina A democraciade la democracia em América Latina .

De fato. mas também como uma democracia de cidadãos. Na segunda seção. não só como regime eleitoral. no que se refere a reduzir a pobreza. paralelamente.508 cidadãos dos 1 PNUD 2002. modificando as constituições nacionais em seu favor e intervindo nos processos eleitorais e/ou restringindo a independência dos poderes legislativo e judiciário. limites e desafios. a crescente frustração pela falta de oportunidades e pelos altos níveis de desigualdade. 10). principalmente para os que mais sofrem: os pobres e as minorias étnicas e culturais. define-se a base conceitual utilizada no estudo e contextualiza-se o desenvolvimento da democracia em uma região com altos níveis de pobreza e desigualdade. será possível alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Essa contribuição organiza-se ao redor de três perguntas: Qual é o estado da democracia na América Latina? Quais são as percepções e quão forte é o apoio de líderes e cidadãos à democracia? Quais seriam os principais temas de um debate visando a um maior avanço na democracia de cidadãos? Buscou-se responder a elas ao longo das seções deste Relatório. a democracia é o marco propício para abrir espaços de participação política e social. e propõe-se uma agenda de reformas para fortalecer o desenvolvimento da democracia na região. Na medida em que a democracia possibilita o diálogo que inclui os diferentes grupos sociais e. a democracia não é apenas um valor em si mesmo. é possível gerar condições mais eqüitativas e aumentar as opções das pessoas. a governabilidade democrática é um elemento central do desenvolvimento humano. Paralelamente ao que foi colocado. reconheça os direitos de todos e advogue por eles. por exemplo. Elaborado pelo Projeto sobre o Desenvolvimento da Democracia na América Latina (PRODDAL). principalmente. transparência e eqüidade nas instituições públicas e também uma cultura que aceite a legitimidade da oposição política. muitos governos eleitos democraticamente tendem a manter sua autoridade com métodos não democráticos. Na primeira seção. porque por meio da política. Para o PNUD. e não só da economia. em muitos casos. Relatório do Desenvolvimento Humano 2002 . mas requer eficiência. Embora 140 países do mundo estejam vivendo hoje sob regimes democráticos – fato valorizado como uma grande conquista – somente em 82 existe uma democracia plena1. Mundi-Prensa: Madrid (p. como também um meio necessário para o desenvolvimento. uma pesquisa de opinião respondida por 19. analisam-se os dados obtidos mediante diversos instrumentos empíricos aplicados: indicadores e índices das cidadanias política. civil e social. ações radicalizadas e crises de governabilidade. Sob esse enfoque.RESUMO Introdução O presente Relatório sobre A democracia na América Latina: Rumo a uma democracia de cidadãs e cidadãos faz parte da estratégia do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no sentido de fortalecer a governabilidade democrática e o desenvolvimento humano. é o primeiro insumo de um processo de maior fôlego e diálogo social. Esses fatos demonstram que a democracia não se reduz só ao ato eleitoral. Seu propósito é avaliar a democracia na América Latina. desde que as instituições públicas se fortaleçam e sejam mais eficientes. Resumo 25 . perda de confiança no sistema político. Nesse sentido. identificam-se conquistas. pobreza e exclusão social manifesta-se em mal-estar. De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano 2002. fatos esses que colocam em risco a estabilidade do próprio regime democrático.

O que devemos entender por “cidadania integral”? Como terá inferido o leitor. 26 A democracia na América Latina . existem barreiras para a entrada de novos ato- 2 A informação contida no Relatório. cujo objetivo seja a cidadania integral. como elementos importantes para a análise. as eleições nacionais foram limpas entre 1990 e 20022. Desse modo. apesar de medir apenas um aspecto do sistema político. em geral. ■ é uma forma de organização do poder que implica a existência e o bom funcionamento do Estado. da cidadania civil e da cidadania social. Com base nos fundamentos teóricos. Mais pontualmente. sociais. em alguns casos. em geral. o pleno reconhecimento da cidadania política. gumenta-se que a democracia: ■ pressupõe uma idéia do ser humano e da construção da cidadania. na disputa eleitoral. A terceira seção busca ampliar a agenda pública sobre o desenvolvimento da democracia. e uma rodada de consultas a 231 líderes sobre os desafios da democracia na América Latina. corresponde à dimensão ou condição mínima para que se possa falar de democracia. eles indicam que: ■ Em todos os países se reconhece o direito universal ao voto. existem problemas regionais comuns e diversidade nacional nas respostas. mas não se reduz às eleições. mas também aponta que. foi utilizado o Índice de Democracia Eleitoral (IDE) que. ter ocorrido em meio a complexas crises constitucionais. enfrentam altos níveis de pobreza e a mais alta desigualdade do mundo. apesar de. em matéria de democracia. os dados também demonstram que a participação eleitoral é irregular – em alguns países apresenta níveis muito baixos – e que. e identifica a desigualdade e a pobreza como suas principais deficiências. No entanto. a busca da eqüidade e a superação da pobreza. utiliza dados atualizados até 2002. A democracia e a idéia de democracia na América Latina Os 18 países da América Latina considerados neste Relatório cumprem hoje os requisitos fundamentais do regime democrático. ao mesmo tempo em que as latino-americanas e os latino-americanos consolidam seus direitos políticos. ocorreram importantes restrições à liberdade eleitoral em 10 de 70 eleições nacionais. as diferenças marcantes entre os países da região. ■ implica uma cidadania integral. Além disso.dezoito países considerados. ela abrange um espaço substancialmente maior do que o do mero regime político e suas regras institucionais. O Relatório valoriza os principais avanços da democracia como regime político na América Latina. indica-se que existem fortes tensões entre a expansão da democracia e a economia. centrada na crise da política. ■ tem no regime eleitoral um elemento fundamental. e identifica a desigualdade e a pobreza como suas principais deficiências. que deve ser entendida e avaliada em sua especificidade. aponta a urgência de uma política geradora de poder democrático. ar- Balanço da cidadania integral Para medir os avanços em cidadania política. e que todos eles formam um conjunto indivisível e articulado. mas a tendência geral foi positiva. ■ Apesar de alguns problemas. O Relatório valoriza os principais avanços da democracia como regime político na América Latina. Falar de cidadania integral é considerar que o cidadão de hoje deve ter acesso a seus direitos cívicos. O presente estudo assume e ressalta. isto é. só três deles viviam em democracia há 25 anos. Contudo. Os dados mostram que na região existem hoje “de mocracias eleitorais”. nas reformas estatais e estruturais da economia e no impacto da globalização na região. ■ Nesse mesmo período. ■ é uma experiência histórica particular na região. ■ Houve um avanço na questão das eleições serem um meio de acesso a cargos públicos: a passagem do mando eleitoral se converteu em uma prática comum. econômicos e culturais em perfeita harmonia.

as leis que protegem as crianças no trabalho são freqüentemente desobedecidas e os trabalhadores viram diminuir sua proteção social. a pouca autonomia do Poder Executivo limitam a eficácia desses organismos. a tal ponto que mais da metade dos presos carece de sentença. registram-se importantes conquistas em matéria de legislação. embora tenha melhorado a situação dos direitos humanos em comparação com a do período não democrático. inclusive. Não ocorreu o mesmo com os tratados internacionais nem. o Relatório detecta que a América Latina ainda se depara com graves falhas. porém. Não se registrou a queda esperada nesse tipo de violação dos direitos humanos. pois o acesso às fontes públicas de dados é legalmente reconhecido na maioria dos países. fato que deveria ser um sinal de alerta. baixa. Por conseguinte. Os avanços quanto ao direito à informação são mais encorajadores. Com respeito à cidadania civil. a representação de povos originários e afro-descendentes no parlamento é. é a tendência ao aumento na eqüidade de gênero. também atravessam uma severa crise. em geral. Os partidos políticos. nos últimos anos. em geral. que se traduz em desconfiança. à integridade física e à segurança. pois os direitos dos réus são pouco respeitados. Quanto aos mecanismos de controle político. Finalmente. Uma importante conquista é a abertura de espaços políticos para as mulheres. Apesar dos avanços normativos. os dados mostram poucos avanços. Contudo. Houve também um avanço na defesa dos direitos trabalhistas e nos direitos das crianças. A maioria dos países ratificou os principais tratados internacionais e avançou na normativa nacional referente à igualdade legal e à proteção contra a discriminação. Quanto à liberdade de imprensa. Os partidos políticos enfrentam um momento de forte desconfiança como agentes de representação. porque as pessoas os sentem distantes. Em resumo. é o que se refere à população carcerária. a representação de grandes grupos populacionais é. e sim por forças para-estatais que o Estado não foi capaz de controlar. também. Com relação aos sistemas de administração de justiça. tenham sido criadas normativas nacionais nesse sentido. Desse modo. como um ator indiferente e profissionalizado que não encarna um projeto de futuro compartilhado. e também no que diz respeito aos direitos da mulher. apesar dos avanços no que se refere ao funcionamento eleitoral e das conquistas em termos institucionais. a insuficiência de recursos e. em especial. Várias constituições reconheceram esses direitos. não mencionando as eleições. foram criados organismos especializados como controladorias públicas. observa-se que a carência de recursos econômicos e humanos os torna frágeis. muito embora já não seja cometida por determinação da cúpula estatal. com a vigência do direito à vida. apesar dos avanços nas reformas constitucionais para fortalecer a independência e a profissionalização do Poder Judiciário. Assim. Um tema preocupante. O progresso das questões relaResumo 27 . como agentes de representação. persistem sérias deficiências quanto ao controle da ação estatal que os cidadãos poderiam exercer. porém é preocupante a limitada capacidade dos Estados de garantir esses direitos na prática. o que é um desafio-chave para o desenvolvimento democrático. Uma conquista no âmbito trabalhista. e o comparecimento às urnas é irregular. ainda muito reduzida. apesar de a ratificação da Convenção sobre os povos indígenas ter sido protelada. a nãodiscriminação ainda não está suficientemente garantida. promotorias e defensorias do povo.res. em alguns casos. mediante uma porcentagem de vagas ou cotas nas listas dos partidos. uma grande conquista a ser destacada é a menor influência ou gravitação política das Forças Armadas em quase todos os países. Entretanto. pois grandes desigualdades são mantidas no tratamento dispensado a pessoas pertencentes a diferentes grupos. cabe destacar que o Poder Executivo interfere diretamente na Corte Suprema de vários países. tenham sido ratificadas as convenções internacionais relativas aos direitos civis e.

valorizam a democratização durante a última década e o fato de. conseqüentemente. Só será possível diminuir a pobreza de forma sustentável e melhorar as possibilidades de crescimento econômico se a desigualdade for reduzida. Essa crise se manifesta no divórcio entre os problemas para os quais os cidadãos exigem uma solução e a capacidade da política para enfrentá-los. porém a qualidade da educação em geral é baixa). Por um lado. cabe destacar alguns avanços em termos de saúde (a desnutrição infantil diminuiu em 13 dos 18 países. como se pode constatar em vários pontos do Relatório. além disso. ■ Nesse sentido. em alguns casos. Percepções e apoio de líderes e cidadãos Apesar dos avanços. à segurança e à não-discriminação foi irregular e. principalmente a partir da luta contra a pobreza e a desigualdade e da criação de postos de trabalho de qualidade. Conseqüentemente. Os indicadores mostram que todos os países da região são mais desiguais que a média mundial. em 15. embora em 12 deles a pobreza até tenha diminuído e. o PIB per capita tenha aumentado entre 1991 e 2002. tem grandes limitações e está em crise. No entanto. Os problemas centrais nesse plano são a pobreza e a desigualdade. as tendências detectadas no que se refere à cidadania social são realmente preocupantes e representam o principal desafio das democracias latino-americanas. pois o trabalho é um mecanismo-chave de inclusão social e do próprio exercício da cidadania.O desenvolvimento democrático depende de que se amplie de maneira decidida a cidadania social. à integridade física. deve-se reconhecer que. que os sistemas de representação não podem processar. em 7 deles. Um tema central é o desemprego. inclusive em condições muito precárias. que tem um componente econômico. inicia-se um período de transformação tanto nos conteúdos da democracia quanto em suas vinculações com a economia e com a dinâmica social. de concentração de riqueza e de internacionalização crescente da política. muito insuficiente. ■ A presença de uma ordem institucional que limita a capacidade dos Estados para agir com razoável autonomia. E ainda mais: a proteção social dos trabalhadores diminuiu e aumentou o trabalho informal. mais da metade da população vive nessas condições. porque. o desenvolvimento democrático depende de que se amplie de maneira decidida a cidadania social. Por outro lado. mais de 25 por cento da população vive abaixo da linha de pobreza e. Resumindo. tanto no plano da evolução democrática quanto no da dinâmica econômica e social. principal28 A democracia na América Latina mente a partir da luta contra a pobreza e a desigualdade e da criação de postos de trabalho de qualidade. em geral não qualificado e insuficiente para gerar uma integração social que garanta um mínimo de bem-estar. os países da região cumprirem os requisitos mí- . a região está vivendo um momento de mudanças que em muitos casos assume as características de uma crise generalizada. Em 15 dos 18 países estudados. A questão é que a política. uma das maiores falhas das democracias latino-americanas. ■ O aumento da complexidade das sociedades. os grupos mais excluídos do exercício pleno da cidadania social são os mesmos que sofrem carências nas outras dimensões da cidadania. que não permitem que os indivíduos se manifestem como cidadãos com plenos direitos e de maneira igualitária no âmbito público. cionadas ao direito à vida. em um contexto global também de mudança. pelo menos no plano formal. O aumento nos índices de desemprego durante a década de noventa é. que pode ser atribuída a: O desequilíbrio na relação entre política e mercado. os líderes latino-americanos consultados coincidem em várias questões quando formulam seu diagnóstico sobre a democracia. a mortalidade infantil também se reduziu e a expectativa de vida aumentou) e de educação (a taxa de analfabetismo diminuiu em todos os países e o nível de escolaridade aumentou. e que corroem a inclusão social. A política tende a perder conteúdo em virtude da diminuição da soberania interior do Estado.

No coração de tal confluência está instalado o fortalecimento da cidadania. ■ Grande parte das latino-americanas e dos latino-americanos dá mais valor ao desenvolvimento do que à democracia e. Quanto aos poderes fáticos (principalmente o setor econômico e financeiro e os meios de comunicação). Desse modo. existe uma preocupação com a perda da autonomia governamental em relação aos Estados Unidos e aos organismos multilaterais. Mark Malloch Brown. juntamente com os clássicos riscos de insubordinação militar..nimos da democracia.. são vistos como fatores que condicionam a capacidade dos governos de dar respostas à cidadania. assim como coincidência no que se refere à ameaça representada pelo narcotráfico. essas pessoas não se manifestam por meio de organizações políticas. nos paí- ses com menores níveis de desigualdade os cidadãos tendem a apoiar mais a democracia. a pesquisa de opinião pública realizada para o Relatório apresenta uma tensão entre a opção pelo desenvolvimento econômico e a democracia. retiraria seu apoio a um governo democrático se ele fosse incapaz de resolver os seus problemas econômicos. Para os líderes consultados. Os dados obtidos indicam que: ■ A preferência dos cidadãos pela democracia é relativamente baixa. Elementos para uma agenda O Relatório aponta que o ponto de partida para fortalecer a democracia passa pela revalorização do conteúdo e da relevância da política. Com base nos dados da pesquisa. em períodos autoritários. ou seja. visando a proporcionar uma estimativa do grau de respaldo cidadão à democracia. inclusive. A melhor forma de conseguir esse resultado de maneira coerente com os objetivos do desenvolvimento humano é erigir formas sólidas e profundas de governabilidade democrática em todos os níveis da sociedade”3. sua capacidade de criar opções para promover novos projetos coletivos viáveis. como também que os pobres tenham poder político. uma das principais dificuldades encontradas é que não conseguem canalizar completamente as demandas da cidadania. a relação entre partidos e organizações da sociedade civil costuma ser conflituosa. com o fortalecimento dos partidos. A redução sustentável da pobreza não só requer um crescimento eqüitativo. fundamentalmente. que têm baixas expectativas de mobilidade social e uma grande desconfiança das instituições democráticas e dos políticos. a informação empírica encontrada. Contudo. cuja socialização ocorreu. Entre as tensões com outros poderes fáticos. ■ Embora os democratas estejam distribuídos em diversos grupos sociais. elaborou-se o Índice de Apoio à Democracia (IAD). também.] a política é tão importante para o êxito do desenvolvimento quanto para o da economia. Concluindo. Por outro lado. que a participação e os controles sobre o exercício do poder aumentaram e que as ameaças à democracia como regime diminuíram. Entendem. A revalorização da política pasResumo 29 . os resultados da pesquisa de opinião pública e as opiniões de diversos líderes políticos registradas no Relatório coincidem tanto com a necessidade de reconhecer que a região vive um momento de inflexão e crise. que oferece uma visão sintética sobre o apoio e a possível vulnerabilidade das democracias latino-americanas. Como afirma seu Administrador. a grupos com menor educação. e considera que deve ser recuperado um papel construtivo da política como ordenadora das decisões da sociedade. geralmente. Por sua vez. Quanto aos partidos políticos. no prefácio do Relatório do Desenvolvimento Humano 2002 : “[. detectam problemas relacionados com os partidos políticos e com os poderes fáticos. a solução dessas dificuldades está dentro da política. argumenta que as soluções para os problemas e desafios da democracia teriam que ser encontradas dentro e não fora das instituições democráticas. quanto com a de valorizar o sentido da política. Nesse sentido. continua com a mesma linha argumentativa em que o PNUD vem insistindo. ■ Os não-democratas pertencem.

fortaleçam uma sociedade civil ativa. Relatório do Desenvolvimento Humano 2002. promovam um amplo debate sobre o Estado. Com Esta- dos fracos e mínimos. Mundi-Prensa: Madrid (p. reúna esforços e motivações individuais e crie poder democrático. Os avanços na democracia e no estabelecimento de normas macroeconômicas claras e legítimas devem ser considerados como complementares. garantir eficazmente o funcionamento do sistema legal. só é possível aspirar a conservar democracias eleitorais. Uma proposta central é construir uma nova legitimidade do Estado. Esta é. sem substituir as tradicionais. Só ela poderá tornar essas reformas mais legítimas. No entanto. a melhor maneira de reafirmar o papel indispensável de representação da sociedade que eles expressam. fortalecer sistemas de proteção social baseados nos princípios de universalidade e assumir a preeminência da democracia como princípio da organização social. O Relatório propõe ampliar o debate sobre o processo de globalização. É fundamental promover estratégias de fortalecimento da sociedade civil e de sua articulação com o Estado e com os partidos políticos. O tipo de economia deve estar no centro do debate público e não deve ser relegado a uma mera questão técnica. Existe uma importante relação entre a cidadania e as organizações da sociedade civil. Outro tema central a ser debatido é o das possibilidades de uma economia congruente com a democracia. Para torná-la sustentável é fundamental desenvolver uma política que materialize opções. O Relatório advoga por formas alternativas de representação que. o que se propõe aqui é um Estado em função da cidadania. A economia é chave porque dela depende a ampliação da cidadania social. estabelecer equilíbrios macroeconômicos. A agenda proposta pelo Relatório está voltada para a expansão da cidadania. tendo como resultado uma variedade de formas que podem ser adaptadas em função do desenvolvimento humano. no controle da gestão governamental e no desenvolvimento do pluralismo. o Estado e o mercado são passíveis de serem combinados de diversas maneiras. uma vez que não existiria uma democracia sustentável sem um Estado capaz de promover e garantir o exercício da cidadania. regular os mercados. os sistemas de partido tendem a ser instrumentais ou operativos. uma economia que promova a diversidade para fortalecer as opções cidadãs. Nesse sentido. A democracia integral de cidadãs e cidadãos requer uma “ estatalidad” que garanta a universalidade dos direitos. preservar a segurança jurídica. o Relatório convida ao debate sobre a necessidade de um Estado capaz de conduzir o rumo geral da sociedade. Dessa forma. segundo o Relatório. ou seja. Elas são importantes protagonistas na construção democrática. Na perspectiva do Relatório. os partidos políticos deveriam compreender melhor as mudanças nas sociedades contemporâneas. Por isso. porém essas iniciativas precisam de um fio condutor que fortaleça a participação. só é possível aspirar a conservar democracias eleitorais. o debate sobre a diversidade de formas de organização do mercado deve fazer parte da agenda de discussão pública. um aspecto institucional chave são as reformas eleitorais que garantam um melhor equilíbrio entre governabilidade e representação. possam complementá-las e fortalecê-las. A discussão sobre o futuro da democracia não pode ignorar as opções econômicas. a transparência e a responsabilidade. A democracia integral de cidadãs e cidadãos requer uma “estatalidad” que garanta a universalidade dos direitos. processar os conflitos de acordo com regras democráticas. Muito embora tenham passado por importantes mudanças. Sob essa perspectiva. A reforma do Estado teria que ser orientada no sentido de responder à pergunta sobre o tipo de nação que uma determinada sociedade aspira a construir.Com Estados fracos e mínimos. a economia e a globalização. v 30 A democracia na América Latina . Observa-se que é perigoso cair em uma espécie de fa- 3 PNUD 2002. principalmente. eles precisam é de se fortalecer para ampliar a eficácia. Nesse sentido. sa pela aplicação de medidas que promovam uma institucionalidade legítima. propor novos projetos de sociedade e promover debates públicos. Urge prosseguir a reforma das instituições. e.

É necessário aprofundar tanto a governabilidade democrática. é preciso decisão política. reconhece-se a dificuldade de abordar os dilemas da democracia. Equador. Para isso. embora muito valiosos. Peru. México. o PRODDAL contou com o patrocínio da Direção da América Latina e do Caribe do PNUD e com a colaboração de destacados intelectuais e acadêmicos. Bolívia. Colômbia. E a política é. além das opiniões críticas de importantes analistas. discutir a respeito de seu real impacto sobre a soberania interior dos Estados e a respeito das melhores estratégias para fortalecer as nações latino-americanas no espaço da aldeia global. Resumo 31 . sobretudo dos mais desfavorecidos nas sociedades latino-americanas. Brasil. partiu-se de uma análise conceitual e histórica das democracias latino-americanas. O Relatório não pretende avaliar os governos ou os países. Ademais do Relatório propriamente dito. El Salvador. alguns dos quais. é preciso. os avanços alcançados em termos de desenvolvimento da democracia na América Latina não são suficientes. a partir de uma ampla revisão bibliográfica dos múltiplos estudos nacionais. seu Para finalizar. Metodologia do Relatório Para levar a cabo este Relatório. ou não foram tratados. Panamá. Além disso. solicitaram-se a acadêmicos e personalidades políticas opiniões e textos sobre diversas facetas do desenvolvimento da democracia na região. Costa Rica. os índices construídos para este Relatório e os resultados da pesquisa de opinião. e cidadãs e cidadãos decididos a enfrentar os problemas e desafios para viver cada vez mais e melhor com democracia. Uruguai e Venezuela4). dirigentes comprometidos com seus países e com a região. República Dominicana. Para a elaboração do Relatório. O estudo abarcou dezoito países (Argentina. Paraguai. e acima de tudo. Nicarágua. ■ Entrevistas com líderes e intelectuais da América Latina. ao contrário. econômicos e sociais. Guatemala. ■ Os materiais que alimentam o marco conceitual do Projeto e sua maneira de entender a democracia. quanto. sobre democracia e cidadania integral nos países da América Latina. ■ Os resultados das rodadas de consulta a dirigentes latino-americanos. ■ Um Compêndio Estatístico que reúne informação. entendida como o fortalecimento institucional do regime. a cultura política que pressupõe a construção de espaços de participação eqüitativa. o Relatório demonstra que. justamente.talismo em face de fenômeno. em sua maioria estabelecidos por meio de processos de transição desenvolvidos durante os últimos vinte e cinco anos. ■ A elaboração de indicadores sobre o estado da democracia. Honduras. até agora dispersa. ou foram tratados de maneira muito preliminar. assim como de ex-presidentes e de muitas outras personalidades da região. nacionais e internacionais). foram preparados para difusão em massa outros produtos complementares como: ■ Um livro com os artigos elaborados por políticos e destacados acadêmicos que contribuem com “idéias e posições para um debate sobre o desenvolvimento da democracia na América Latina”. Chile. realizaram-se reuniões para discussão dos componentes do projeto. a força que pode construir espaços autônomos. pois ela está influenciada por múltiplos fatores (políticos. ■ interesse é identificar os grandes desafios e promover uma ampla discussão em torno deles. e seus governos aceitaram ser incorporados ao PRODDAL. 4 Estes países têm regimes democráticos. Além disso. O marco conceitual foi amplamente consultado e orientou a busca de informação empírica que inclui: Uma pesquisa de opinião de alcance regional (em colaboração com Latinobarômetro). nem elaborar nenhum tipo de ranking nacional da democracia.

32 A democracia na América Latina .

Estado e regime. observa-se que muitos direitos civis básicos não estão assegurados e que a pobreza e a desigualdade colocam nossas sociedades entre as mais deficitárias do mundo. que pressupõe a existência e o bom funcionamento de um Estado. reconhecida e valorizada. a análise e as propostas com razões sistemáticas e rigorosas. no entanto. Isso requer a definição dos fundamentos teóricos: os conceitos de democracia. surge um conjunto de perguntas: quanta pobreza e quanta desigualdade as democracias são capazes de tolerar? como esses contrastes influem na coesão social das nações? qual a relevância da democracia para os latinoamericanos? Os resultados da pesquisa de opinião revelam que 54. 2) a democracia é uma forma de organização do poder na sociedade. que deve ser. Os quatro argumentos centrais são: 1) a democracia implica uma concepção do ser humano e da construção da cidadania. e 4) a democracia latino-americana é uma experiência histórica distintiva e singular. O desenvolvimento da democracia na América Latina 33 . porque sustentam as descrições.primeira seção O desenvolvimento da democracia na América Latina Nesta seção apresenta-se o tema do Relatório a partir da conquista da democracia nos países considerados. Para resolvê-los é preciso uma nova compreensão e uma discussão aberta. dando-se destaque ao fato de que na América Latina a democracia se instala em sociedades com altos níveis de pobreza e desigualdade. As conseqüências práticas da abordagem teórica adotada são importantes. Os desafios da democracia na América Latina são historicamente singulares. As razões que explicam esse dado preocupante talvez se encontrem nos contrastes apontados. para as quais o Relatório visa a contribuir. cidadania e sujeitos na democracia. A partir daí. 3) o regime eleitoral é um componente básico e fundamental da democracia. a realização de eleições não esgota seu significado e alcances. considerando a democracia do ponto de vista da democracia. avaliada e desenvolvida. dessa maneira. O Relatório inicia com uma definição do desenvolvimento da democracia e de suas principais carências na região.7 por cento dos latino-americanos estariam dispostos a aceitar um governo autoritário desde que ele resolvesse a situação econômica (ver Segunda Seção “Como os latino-americanos vêem sua democracia”). Consta também desta seção uma referência aos fundamentos teóricos em que o Relatório se baseia. contrastando as reformas aplicadas com as realidades políticas e econômicas. À primeira vista.

34 A democracia na América Latina .

Em grande parte. O desenvolvimento da democracia na América Latina 35 . nessa luta. A democracia formula uma pergunta que permanece. A democracia se converteu em um sinônimo de liberdade e justiça. portanto. Independentemente de quais tenham sido a forma. sobre quais deveriam ser as metas de uma nova etapa. a história revela que as aspirações no sentido de ampliar as fronteiras das liberdades cidadãs e de atingir maiores níveis de justiça e progresso sempre estiveram no coração das lutas sociais e políticas. Este é um Relatório sobre a tarefa inconclusa da democracia. a luta renasceu e renascerá. Independentemente das diferenças manifestadas no plano da teoria sobre os alcances da idéia de democracia. a justiça e o progresso. com toda a diversidade de incidentes da qual nossa história está repleta. Uma delas é a democracia. texto elaborado para o PRODDAL. em suma. em cuja construção entrarão em jogo sua própria sustentabilidade e perduração. suntos. Mesmo nas circunstâncias mais difíceis. e a luta pelo poder que se desencadeia quando todos nós procuramos impor nossos interesses e pareceres sobre esses asquadro 1 A democracia: uma busca permanente É necessário considerar os desrespeitos. O listado completo de modificações pode ser consultado no site www. garantir e expandir a liberdade. Está ligada à busca histórica de liberdade. se confrontarão interesses.undp. Por isso é uma experiência permanentemente inconclusa. Pierre Rosanvallon. o resultado desses procedimentos. sobre seus desafios. Por isso é uma experiência permanentemente inconclusa. Contém. 2002. Nossa busca de liberdade. justiça e progresso. a democracia não é só um método para eleger quem governa. os limites e as denegações que constituem a contrapartida da experiência da democracia. Com períodos de expansão e A democracia é uma imensa experiência humana. A democracia apresenta-se como um regime sempre marcado por formas não acabadas e incumpridas. a busca da liberdade. seja para passar da condição de escravos à de pessoas livres. 1 “A presente publicação é a tradução para português da segunda edição revisada em Espanhol do Relatório “La democracia en América Latina ”. Nessa perspectiva. um fim e um instrumento. da justiça e do progresso permeia toda a história social do ser humano. mas é também. justiça e progresso material e espiritual. justiça e progresso material e espiritual. No entanto. possuímos também outro impulso tão vital quanto os anteriores. pareceres e métodos.O desafio: de uma democracia de eleitores a uma democracia de cidadãos1 ■ A democracia é uma imensa experiência humana. as tensões. Participamos dessa busca com maior ou menor consciência de nossos objetivos. expresso de maneira diferente e nos distintos âmbitos da vida: o impulso de dominação e de obter o poder que permite exercê-la. as fraturas. ligadas. apesar de prolongados períodos de inércia. Está ligada à busca histórica de liberdade. É. nossa vida em sociedade se constrói na trama desses impulsos centrais: sabe-se que onde não houver liberdade. à idéia de democracia.democracia. continuamente pendente: é como se jamais pudesse ser dada uma resposta perfeitamente adequada.org”. aí nascerá a luta para alcançá-los e que. ou para ampliar a cada dia o espaço da liberdade. de certa forma. basicamente. organizando as tensões e os conflitos gerados pelas lutas de poder. é também uma forma de construir. uma série de procedimentos para o acesso e o exercício do poder. justiça e progresso. com avanços e retrocessos. ao mesmo tempo. deram lugar a diversas formas de organização dos seres humanos. o ritmo ou o resultado. para os homens e as mulheres.

É a que nos permite passar de eleitores a cidadãos. as democracias são difíceis. Guerras. uma democracia não nasce e. é o cidadão. também se brigou por ela e. Uma política que omite os problemas centrais torna as opções dos cidadãos vazias de conteúdo. Agora se trata de avançar na democracia de cidadania. na prática a destruíam. a democracia vai contra a corrente. como se verá neste Relatório. a democracia parece ter sido inventada mais de uma vez e em mais de um lugar”. modeladas por lideranças e investidas do poder que se origina no apoio popular. contra as leis inerciais que governam os grupos humanos. Mais do que qualquer outro regime político. A democracia é muito mais do que um regime de governo. essa é uma conquista que se deve ao impulso. 1999. atores que assumem seus desafios e seu desenvolvimento. Na América Latina. onde não havia justiça. Nós. um ideal. “Como o fogo. Um Esta- 2 Dahl. A que utiliza as liberdades políticas como alavanca para construir a cidadania civil e social. 119. de mobilização ou quietude. Independentemente dos retrocessos e das apatias. 1991. latino-americanos que. um Estado com poder para executá-las e uma sociedade capaz de participar de uma construção que excede as reivindicações setoriais. o que foi conquistado não está assegurado. onde não havia progresso. somos agora. nos dois últimos séculos. No entanto. As liberdades que hoje possuímos são um bem de valor incomensurável.2 Na América Latina alcançou-se a democracia eleitoral e suas liberdades básicas. Traçou. em termos de liberdade. a história nos mostra que onde não havia liberdade. têm que ser promovidas e é preciso acreditar nelas. dentre os dezoito países incluídos no Relatório. os regimes democráticos estão amplamente vigentes na América Latina. tiranias e breves primaveras compõem grande parte dessa história independente. a própria vida. […] Sem uma tendência idealista. finalmente. é a que avança para que o conjunto de nossos direitos se torne efetivo. se nasce. a Costa Rica e a Venezuela eram democráticos. p. em 200 anos de vida independente. garante seus direitos e permite melhorar a qualidade de suas existências. É mais que um método para eleger e ser eleito. até para a interromper invocando sua futura instauração. Somos testemunhas do avanço mais profundo e amplo que a democracia obteve desde a independência de nossas nações. mas depois desapareceu. A preservação da democracia e sua expansão não são fatos espontâneos. A América Latina é. durante a qual até as violações à democracia foram feitas em seu nome. Requerem partidos políticos que construam opções fundamentais.retração. em muitos de nossos países. Giovanni Sartori. a democracia gera expectativas. a fronteira entre a vida e a morte. a pintura ou a escrita. Há vinte e cinco anos. São construções voluntárias. 36 A democracia na América Latina .500 anos na Grécia. vimos como nos era negado ou arrebatado o anseio de ser parte da construção da democracia. formuladas em projetos. p. a região do mundo que mais reivindicou a democracia. só a Colômbia. Após duas décadas de diversas formas de transição. Um quarto de século depois. Surgiu há 2. justiça e progresso. a ele se tentou chegar. a democracia nasceu e morreu dezenas de vezes. em sua dimensão eleitoral e política. provavelmente. constituem um impulso histórico substancialmente ligado à idéia de democracia. hoje plena de carências. A segunda. As monocracias. 15. esperanças e decepções porque contribui para organizar suas vidas na sociedade. debilita-se rapidamente. todos os nossos países cumprem os critérios básicos do regime democrático. Seu sujeito não é apenas aquele que vota. Nas instituições a consagravam. A primeira nos deu as liberdades e o direito de decidir por nós mesmos. à luta e ao sofrimento de milhões de seres humanos. por ela se lutou. muitas vezes. as ditaduras são fáceis. Para as mulheres e os homens. ela se confunde com quadro 2 A democracia: um ideal A democracia é. aparecem sozinhas. primeiro e acima de tudo. as autocracias. o reconhecimento da igualdade e a busca de sua realização social. Esta forma de organização entrou e saiu de nossa história.

A liberdade garantida pela democracia é. a desconfiança da sociedade para com a política? Por que a esperança democrática não se traduziu em avanços nos direitos civis e sociais da mesma dimensão que as expectativas que gerou? Por que o Estado não possui o poder necessário? Por que o direito de escolher governantes não se traduziu. mais cedo ou mais tarde. a reflexão e o debate políticos requerem ser renovados e promovidos. Essa é a principal vantagem para fazer da democracia um sistema justo e eficaz. E também nos conduz a indagar sobre a sustentabilidade da democracia. em mais liberdade. aos seus adversários. O silêncio da política e dos que constroem a agenda do debate público não pode continuar ignorando. 3 Segundo os dados da pesquisa Latinobarômetro 2002. porque a democracia – que se baseia na reflexão e no debate dos cidadãos e de seus líderes – é a única forma de organização política que tem capacidade para retificar-se a si mesma. da observação empírica e do pensamento de intelectuais e políticos. Na América Latina. o ímpeto democrático que caracterizou as últimas décadas do século passado está se debilitando. como nos propomos. requer que a matéria da opção esteja presente. leva-nos a sondar a vigência dos direitos dos latino-americanos. sobre sua capacidade para perdurar e aperfeiçoar-se. mas por meio da análise teórica. e as ameaças que sobre ela pairam. A falta de informação e de debate constitui uma carência grave. entre a liberdade e a busca da igualdade.3 o Estado é visto. ou melhor. isto é. Como se resolvem as tensões entre a expansão democrática e a economia. Na América Latina. enfim. em alguns casos. apenas 14 por cento dos latino-americanos têm confiança nos partidos políticos. entre as demandas públicas manifestadas livremente e as reformas econômicas que exigem ajustes e sacrifícios? Quais são as chaves que explicam a crise de representação. a não ser que se esteja disposto a pagar o preço do enfraquecimento paulatino da democracia latino-americana. a capacidade de optar. o clamor de milhões de pessoas. parece que existe um debate proibido na América Latina. Qual a gravidade dessas novas fragilidades? Se a democracia perder relevância para os latino-americanos. Atacar esses dilemas demanda a maior informação possível para iluminar os critérios com que as políticas são formuladas. que deixa de expressar as necessidades dos cidadãos. indefinidamente. A sociedade está nas ruas. se ela se divorciar de suas necessidades. porque perderam vitalidade e conteúdo. às frustrações? Analisar. porque perderam vitalidade e conteúdo. dá-se preferência a ela porém se desconfia de sua capacidade para melhorar as condições de vida. mas a liberdade. ao mesmo tempo. mais justiça e maior progresso? Esses são dilemas cuja solução é complexa. Isso está ocorrendo no período de maior difusão da democracia e em um mundo em que a globalização torna cada vez mais peremptório saber o que queremos como sociedades e como nações. identificando-as não por uma mera intuição. em muitos casos. leva-nos a identificar os desafios da democracia. mas surgem outros perigos: a democracia aparenta perder vitalidade. poderá resistir aos novos perigos. o principal instrumento que ela tem para se aperfeiçoar como sistema. a uma perigosa autonomia do poder. e o nível de concretização das esperanças que depositam em seus representantes.do sem poder transforma o mandato eleitoral em uma expressão de desejos sem conseqüências. E não poderão ser resolvidos se não forem colocados no centro do debate público e das opções que os partidos oferecem. Infelizmente. ao mesmo tempo. a partir da legitimidade que gera em seus cidadãos. Este Relatório trata dessas questões. mas sem um objetivo que unifique as suas reivindicações e demandas. como demonstra a nossa própria história recente. os partidos políticos estão no nível mais baixo da estima pública. Parece que nos afastamos dos riscos dos golpes militares de Estado. e uma sociedade sem participação ativa leva. entre crescimento e pobreza. a reflexão e o debate políticos requerem ser renovados e promovidos. ou – ainda mais grave – não se deve falar. Questões sobre as quais é inconveniente falar. o desenvolvimento da democracia na América Latina. O desenvolvimento da democracia na América Latina 37 . em muitas ocasiões. com expectativa e apreensão e.

como a aposta está no caminho a seguir para passar da democracia eleitoral à de cidadania. um início. com níveis amplamente difundidos de pobreza e situações de desigualdade extremas. Esses objetivos.9 por cento) com renda abaixo do nível de pobreza. no entanto. sem precedentes4: o triângulo da democracia. Democracia. uma região em desenvolvimento e com sociedades profundamente desiguais está completamente organizada politicamente sob regimes democráticos. define-se na América Latina uma nova realidade. Seus déficits não representam seu fracasso. observações e conseqüências partirão de um reconhecimento inicial: a singular realidade da democracia em nossa região. É certo que essa situação varia de país para país. Apenas os países agrupados na Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE) compartilham essa característica. se regenere e se expanda. O que apontamos é que a democracia latino-americana convive. O Relatório é o começo de uma tarefa. pobreza e desigualdade em outros países ou regiões do planeta. pobre e desigual. a região contava com 218 milhões de pessoas (ou 42. são seus desafios. urgentemente. Nossa proposta é demonstrar que. construam a base empírica do Relatório. Apesar dessas diferenças. Democracia e riqueza. Nessa transformação se definirá a questão da capacidade latino-americana de fazer da democracia um sistema que se estabilize. capaz de gerar idéias que orientem a observação da realidade e a coleta de dados que. ao mesmo tempo. O leque de desafios é novo porque também é nova a realidade que expõe uma região que é democrática e. Estas reflexões. democracia e pobreza são duas combinações que geram necessidades. sairá a proposição do núcleo de temas que configuram os desafios da agenda ampliada para o desenvolvimento da democracia na América Latina.Pela primeira vez na história. Na América Latina. É só o primeiro passo para que a construção de alternativas e de políticas concretas seja assumida pelos atores sociais e políticos que devem relançar e regenerar nossas democracias. as sociedades latino-americanas e as desses países são profundamente diferentes. produziu-se um conjunto de grandes transformações. em toda a sua região. O primeiro vértice do triângulo é a difusão da democracia eleitoral na região. encontrarão aqui uma primeira aproximação. O que ainda não alcançamos é o que deve constituir a essência das políticas que permitirão o nascimento da segunda etapa da democracia latino-americana. de um debate que o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) procura promover entre os latino-americanos. comparada com as outras grandes regiões democráticas do mundo. que constituem a razão desta obra. O segundo vértice é a pobreza . uma região em desenvolvimento e com sociedades profundamente desiguais está completamente organizada politicamente sob regimes democráticos. por sua vez. é inevitável uma séria reflexão conceitual. Todos os países que a integram satisfazem os requisitos básicos do regime democrático. Na América Latina. Assim. Nos últimos vinte anos. A partir desse triângulo – democracia eleitoral. da soma desses dois componentes. é indispensável fazer uma apreciação do que a democracia possui de próprio e original nessa região. po- breza e desigualdade – iniciamos nossa exploração. Em 2002. 38 A democracia na América Latina . construir e ampliar os direitos cidadãos é uma tarefa que se desenvolve em um novo contexto. A partir daí. a América Latina oferece a singularidade da coabitação das liberdades políticas com as severas privações materiais de muitas pessoas. as regras e instituições do regime são semelhantes às dos países democraticamente mais maduros. 4 Não afirmamos aqui que não se verifica a existência conjunta de democracia. Nossas democracias precisam. Este é o fio condutor que deveria guiar a leitura dos materiais propostos pelo Relatório: a busca dos temas cruciais nos quais será testada a nossa capacidade de passar da democracia eleitoral à democracia de cidadania. Pela primeira vez na história. da pobreza e da desigualdade. pobreza e desigualdade: um triângulo latino-americano Para entender as necessidades de expansão da democracia na América Latina e perceber suas fragilidades. retomar o impulso inicial.

Essas são democracias pobres e desiguais. observa-se na região não apenas a profundidade do grau de desigualdade. A primeira é ignorar a necessidade da viabilidade econômica da democracia. Por exemplo.3 Desigualdade (2) 0. O desenvolvimento da democracia na América Latina 39 .57. (4) Eurostat PCM-BDU. não desapareceram totalmente.8 (6) 15. dezembro de 2002. (6) Média ponderada por população dos dados de pobreza entre 1998-2002. (8) Fonte: US Census Bureau 2001. PIB per capita 2002. Isso significa ignorar a necessidade de construir bases sólidas de uma economia que torne possível atacar a pobreza e a desigualdade. Social Indicators and Tables. (9) Elaboração própria com base nos dados da CEPAL. Fonte: OCDE (em dólares correntes) Dada a multiplicidade de fontes e as diversas metodologias de elaboração de dados sugere-se usar os dados desta tabela como referências indicativas. (5) Fontes: OCDE 2002. ao mesmo tempo em que consolidam seus direitos políticos. (3) Média simples para a década de 90.dificuldades e riscos diferentes. apesar dessa experiência ter um caráter particular. em comparação com o resto do mundo. As sociedades latino-americanas são as mais desiguais do mundo. resultados de sua própria originalidade. As cifras mais altas do coeficiente de Gini correspondem a um grau mais alto de desigualdade. Os riscos que derivam dessa situação são diferentes e mais complexos do que os riscos tradicionais do golpe militar de Estado que. Poverty in the United States 2002. coexistindo com os desafios da pobreza e da desigualdade. A limitada compreensão dessa realidade singular pode levar a duas conseqüências graves para a democracia. Isso significa ignorar que esses programas se aplicam em sociedades em que as demandas cidadãs e a opinião sobre essas políticas se expressam livremente. (7) Eurostat PCM-BDU.7 73.552 (3) 0.0 (7) 11. por outro lado. Como no caso da pobreza.6 43. 2004 (em dólares constantes). essas três características convivem e a democracia enfrenta o desafio de sua própria estabilidade.344 (5) Pobreza 42.. atingir maiores níveis de desenvolvimento em seus países é uma aspiração tão importante que muitos estariam dispostos a apoiar um regime autoritário que pudesse atender suas demandas de bem-estar. A segunda é desconhecer a viabilidade política dos programas econômicos. desconhecendo que a estabilidade e a expansão democráticas têm aqui conteúdos e dilemas distintos. cujos homens e mulheres. mas também sua persistência ao longo das três últimas décadas. O terceiro vértice é a desigualdade . CEPAL. Perry et al. Na realidade. para muitos cidadãos latino-americanos. 2004. também é comum tender ao erro de pensar em termos de reforma econômica como se não houvesse democracia. p. (2) Coeficiente de Gini. Pela primeira vez. (10)Europa ocidental (EU15) e EUA. precisam também completar suas cidadanias civil e social. dezembro de 2002.7 (8) PIB per capita 3792 (9) 22600 (10) 36100 Notas: (1) Votantes com base na população com direito a voto 1990-2002. Ver tabela 8. No entanto.290 (4) 0. é habitual que se pense na América Latina sob a perspectiva da experiência histórica das democracias desenvolvidas. Como se os difíceis e dolorosos processos de ajuste estrutural não influíssem nas decisões tomadas pelas maiorias – submetidas a condições de pobreza e de alta desigualdade – no momento de votar ou de expressar seu apoio ou rejeição a um gover- TABELA 1 DEMOCRACIA. 2004. POBREZA E DESIGUALDADE Região América Latina Europa EUA Participação eleitoral (1) 62.

independentemente de sua economia. é indispensável indagar caminhos não explorados e abrir novos debates na América Latina. Um triângulo que deveria ser virtuoso e que. demandas sociais manifestadas em um contexto de liberdade política (democracia) e liberdade econômica (mercado) formam outro triângulo singular. ou. que teve início em meados dos anos oitenta. assumiu as reformas econômicas orientadas no sentido da ampliação das esferas do mercado como sua própria agenda”. Surge daí o desafio de resolver as tensões entre economia e democracia. sobretudo na expansão da democracia eleitoral. com os instrumentos da democracia. no. Na América Latina. especialmente na década de 90. e de não atacar os problemas da estabilidade democrática independentemente das necessidades de resolver as questões do crescimento. ou pior ainda. 40 A democracia na América Latina . de abertura. Supostamente. regimes autoritários instalaram-se com um discurso “restaurador” do regime democrático. o debate sobre a estabilidade democrática não deve ignorar a pobreza e a desigualdade. A razão é que. É provável que um debate que ignore uma questão tão elementar termine levando a recomendações simplesmente impraticáveis. as sociedades latino-americanas passam a ser sociedades em vias de desenvolvimento. à luz dos últimos vinte anos. particularmente a social. Esses não foram anos só de transformações políticas. pensar sua economia separadamente de sua democracia. apresenta complexas dificuldades que requerem um pensamento renovado. pobres e desiguais. em contextos de po- 5 José Antonio Ocampo. Essas características da América Latina foram utilizadas como argumento para concluir que a democracia seria inviável enquanto não fossem resolvidos os problemas da pobreza e não fosse alcançado um mínimo aceitável de igualdade. “Assumimos o governo para criar as condições para que a democracia se instale solidamente no futuro”. os cidadãos exercem sua liberdade para aceitar ou rejeitar essas políticas. Em várias ocasiões. Para que isso se concretize. que se tornou conhecido com a denominação genérica de ajustes estruturais. ou como se fosse possível levar adiante um plano econômico sem o apoio da população. porque – reiteramos – o grande desafio é combater a pobreza e a desigualdade. Essa maneira de pensar a democracia latino-americana. ocorreram processos de reforma no plano político e econômico. também passou por um processo de profundas mudanças. apesar de sua manifesta hostilidade. este Relatório sustenta que só com mais e melhor democracia as sociedades latino-americanas poderão ser mais igualitárias e desenvolvidas. Dessa maneira. parece um erro ingênuo. mobilizar-se e eleger em defesa de seus direitos. se considerarmos a experiência das últimas décadas na América Latina. nem as políticas de crescimento devem esquecer que. para criar as bases de coesão e estabilidade social que são os requisitos do crescimento econômico. simetricamente.5 Como conseqüência dessas transformações. com algumas exceções. Embora esses processos tenham ocasionado alguns progressos importantes. em que as demandas sociais se expressam livremente e a economia se organiza em torno do mercado. “a nova onda de democratização na região. Dessa forma.Só com mais e melhor democracia as sociedades latino-americanas poderão ser mais igualitárias e desenvolvidas. Contra essa visão. mas não por isso menos recorrente e preocupante para o destino da democracia e da economia. Esse desafio parte da necessidade de não pensar a economia como se não houvesse democracias pobres. 2003 (texto preparado para o Relatório). aqueles que não gozam de níveis mínimos de bem-estar e que sofrem as injustiças da desigualdade podem reivindicar. seria preciso atingir um certo nível mínimo de riqueza para ter acesso à democracia. subsiste um evidente contraste entre as reformas realizadas durante as duas últimas décadas e uma realidade que continua marcada por grandes carências no plano das diferentes cidadanias. Conseqüentemente. A economia. somente na democracia. A combinação entre liberdade política e liberdade econômica. reformas e desregulamentações.

provocando uma grande expectativa que contrastou visivelmente com a evolução dos fatos. em termos eleitorais. Elas têm origem na ideologia igualitária subjacente à democracia. a porcentagem de pobres6 ponderada pelo tamanho da população representava 46 por cento para os dezoito países. o Relatório não afirma que existe necessariamente uma relação causal entre as variáveis que serão utilizadas. entre 1998 e 2002 esse percentual tinha caído para 42.83. a indigência.55. 4. é necessário fazer alguns esclarecimentos. de U$S 3. mentos futuros da previdência). sem restrição alguma de peso significativo. demonstra que. no ano 2000. um avanço quase irrelevante. mostra-se uma fotografia que contrasta reformas e realidades. instalou-se. Nas páginas seguintes. Antes de iniciar a apresentação da tabela que mostra um resumo desses indicadores básicos (tabela 2). como promessa de desenvolvimento. “políticas impositivas”. tendo-se avançado consideravelmente na aplicação das reformas. “políticas financeiras”.breza e desigualdade.734 a valores constantes de 1995. Em 1980. Durante a década de 90. o índice era de 0. Em terceiro lugar. um modelo econômico que defraudou a muitos. a democracia teve uma melhora constante ao longo do período considerado.920. Afirma. Em 1990. Na América Latina hoje se reconhece o direito ao voto universal. as reformas democráticas. a partir da renda dos domicílios. os cidadãos têm expectativas quanto ao funcionamento da economia. 1. um indício da chave das frustrações. todos relacionados com o Consenso de Washington. Em segundo lugar.83 entre 1998 e 2002. O índice de democracia eleitoral (IDE). a concentração de renda e a situação trabalhista. Vinte anos mais tarde. nas organizações internacionais etc. Em primeiro lugar. medido entre 0 e 1. Esse índice está composto de cinco subíndices: “políticas de comércio internacional”. A média regional do PIB per capita não variou de maneira significativa nos últimos vinte anos. avançaram de maneira sustentada. Esta é também uma primeira fotografia do déficit democrático da América Latina.8 Balanço entre reformas e realidades Para este balanço foram utilizados sete indicadores básicos: as reformas estruturais na economia. que os cidadãos latino-americanos sentiram os efeitos dessas variáveis de forma mais ou menos simultânea. porém. 3. sua capacidade para satisfazer – por meio da compra de bens e serviços – um conjunto de necessidades alimentícias e não alimentícias consideradas essenciais O desenvolvimento da democracia na América Latina 41 . nos meios de comunicação. Os processos de democratização e reforma de mercado. pobreza e desigualdade crescentes e agravamento da situação trabalhista (com seu conseqüente impacto sobre a desigualdade e os rendi- 6 A medição da pobreza com o método da “Linha de Pobreza” (LP) elaborado pela CEPAL consiste em estabelecer. uma evidência da urgência de construir a democracia de cidadania. que subiu de 0. e o PIB per capita. a percepção de uma grande parte dos cidadãos é de que as políticas implementadas “produziram” insuficiente crescimento aceitável. Os níveis de pobreza tiveram uma leve diminuição em termos relativos. assim denominado posteriormente. 2. no discurso dos políticos nacionais. enquanto o índice de reforma econômica era de 0. o PIB per capita era de U$S 3. na democracia. O índice de reforma econômica indica um avanço sustentado dessas reformas. Essa é uma conquista notável e extremamente importante.58 nos anos oitenta para uma média de 0. pode não gerar como resultado o fortalecimento da democracia e o desenvolvimento da economia. a evolução do produto interno bruto (PIB) per capita. embora de natureza distinta. elaborado pelo Projeto sobre o Desenvolvimento da Democracia na América Latina (PRODDAL). “privatizações” e “contas de capital”. a pobreza.

Chile. El Salvador.6 37.1 1998-02 0.1% 48.3 35. conforme o número de anos do período analisado.5 23.8% 54.52 0. c) o PIB per capita desse período foi dividido pelo do período anterior.70 1.532 9. Nesse sentido.527 0. Os outros dados são de várias publicações da CEPAL.61 0.1 Sub-Região Andina (Bolívia.31 0.1 13. CEPAL 1999.78 0.8 48. As cifras sobre pobreza.87 0.8 Região Latino-americana 1981-90 0. com exceção dos dados sobre o coeficiente de Gini antes de 1990.551 0.0 2. em seguida. indigência e o coeficiente de Gini são médias de somente alguns anos. A atualização deste quadro foi feita com base nos novos dados fornecidos pela CEPAL e nos novos dados populacionais do CELADE.0 29.7% 0.9% 50.91 1. A partir dos censos mais recentes. Este exercício acrescentou vários milhões de pessoas aos dados oficiais anteriores.574 0.0 0. Lora 2001.4% 1.02 0. Fontes: Os dados sobre o Índice de Reforma Econômica são de Morley. Rep.1 15.00 1. A taxa de crescimento do PIB real per capita anualizado foi calculada da seguinte maneira: a) foram somados os PIB reais (base dólares 1995) dos anos do período analisado.70 1.7 12.638 0.2 1998-02 0.1 5. Rica. com o critério de utilizar o dado mais abrangente.7% 0. O índice vai de 0.497 0.6% 52.82 0.00 1.1 0. Panamá.7 0.3 22. políticas financeiras.85 0.524 9. Venezuela) 1981 . O índice de reforma econômica é composto por cinco componentes: políticas de comércio internacional.97 2. que indica a aplicação de reformas fortemente orientadas para o mercado.59 4.539 0. Machado e Pettinato.2% 47.1 0. e para certos países.603 0. Honduras.1 1998 .83 0.0% 32. diretor da Divisão de Desenvolvimento Econômico da CEPAL. Dom. o CELADE reestimou os dados populacionais da década de 90. (2) Ponderada por população. Paraguai. As cifras de crescimento real do PIB per capita foram calculadas com base em dólares 1995.502 0.79 0. para a segunda edição. a raiz geométrica.7 0.2 5. Equador. Nicarágua. 4 de fevereiro de 2003.4 18. foram utilizadas séries com cobertura espacial diferente.1% 52.3 17.4 (1) Média simples. 42 A democracia na América Latina .66 0. Notas do Quadro atualizado em maio de 2004.6 Sub-Região América Central (C. Colômbia.1 1991 .TABELA 2 REFORMAS E REALIDADES Índice de Reforma Econômica (1) Índice de Democracia Eleitoral (1) Crescimento do PIB Real per capita anualizado (3) % Pobreza (2) % Indigência (2) % Coeficiente de Desemprego Gini (2) Urbano (1) Sub-Região “Cone Sul” (Argentina.8 20.8 0.88 1.558 8.1 1991-97 0.545 8.577 8.0 42.544 0. e se dividiu pelo número de anos do período.92 0.0 México 1981-90 1991-97 1998-02 0.) 1981-90 0.97 0.53 0.58 1991-97 0. cuja fonte é Deininger e Squire 1998. a 1. Uruguai) 1981-90 0. privatizações e contas de capitais.521 0. Em todos os casos. Peru.6 0.00 1.1% 55.8 19. as colunas sobre Pobreza e Indigência abarcam a porcentagem maior do território oferecida na base de dados CEPAL. (3) De período a período.3 Brasil Brasil 1981-90 1991-97 1998-02 7.79 1998-02 0.8 42.89 -3.4 8. O “Índice de Democracia Eleitoral” vai de 0 (igual a falta de democracia eleitoral) a 1 (indica que os requisitos de democracia eleitoral são cumpridos).3 12. os saltos da série podem não refletir necessariamente os saltos nos níveis de Pobreza e Indigência.8 8. e comunicação com Manuel Marfán.2 4.75 0. políticas impositivas.80 0. Por conseguinte.5 18.2% 46.7% 0.82 0.4 18. que indica uma falta de reformas orientadas para o mercado.9 0.86 0.55 0. Guatemala.8% 25.7 25.64 0.76 0.640 5.84 0.7 12.8 10.8 8.6 1991-97 0.3% 21.90 0.6% 1. b) dividiu-se pela população média do período.546 8.0 40.81 0.5% 52.83 0.4% 2. isso se refletiu em todos os dados ponderados por população e nos dados per capita.4 0.83 -0. Isto implica que os dados de Pobreza e Indigência podem estar subestimados e. no caso desses países.4 17. extraindo.44 -0.6 42.528 4.3 7. A metodologia e os dados do Índice de Democracia Eleitoral são apresentados no Compêndio Estatístico.0 27.

e de alguns temas – a própria noção de democracia e do papel do Estado – que constituem o ponto de partida Hoje. configurando um quadro cujos efeitos terão conseqüências muito negativas a médio e longo prazo. o coeficiente de Gini7 (média regional ponderada por população) era de 0.337.55 representa uma desigualdade extrema. quando a população era de 508 milhões de habitantes. Esta primeira visão é um indício da imensidade e da complexidade das tarefas que a América Latina deveria assumir. Durante os últimos quinze anos. árdua e incerta.381 e a dos países desenvolvidos de 0. da natureza dos desafios para o desenvolvimento da democracia. Para o coeficiente de Gini. esse coeficiente subiu para 0. Em 1990. Mobilizar a imaginação. do Chile e do México. em termos absolutos. a quantidade de pobres chegava a 218 milhões.4 vezes superior à renda de 10 por cento da população de renda mais baixa. 6. a região tinha um desafio difícil e. A média mundial para os anos noventa foi de 0. fundamentalmente. Há vinte e cinco anos. A primeira condição. essa relação era de 40 vezes.35 pode ser considerado como uma distribuição “razoável” e um coeficiente de Gini de 0. o conhecimento e a política é. Hoje. de fratura social e de inserção secundária e desvantajosa no sistema internacional. superar as guerras e alcançar a democracia e a paz. regenerar seu conteúdo. como nos ilustram esses contrastes que terminamos de mostrar. porém não havia dúvidas quanto ao seu conteúdo: vencer as ditaduras. a renda de 10 por cento da população latino-americana de mais alta renda era 25. 191 milhões de latino-americanos eram pobres. Esse avanço se produziu.3 a 53. dar impulso a uma nova etapa é uma meta muito mais ampla e plena de incertezas. Em 2002. 5. Em 2002. durante esse período houve um crescimento da pobreza no Cone Sul (de 25.25-0. em virtude das melhorias relativas do Brasil. Além disso. Ninguém tinha dúvidas sobre a agenda da democracia. Em 1990. Isso está vinculado a um agravamen- to da distribuição da renda e a um aumento da pobreza atual. liberdade-opressão. regenerar seu conteúdo. à qual visamos nessa obra.6 a 32. Era preciso audácia e imaginação para alcançá-lo. ao mesmo tempo.por cento.3 por cento). simples.576. A tarefa inclui. 0 representa a igualdade perfeita de distribuição e 1. O desenvolvimento da democracia na América Latina 43 . pensões e sindicalização). da centralidade dos direitos do cidadão para a etapa que se inicia. Em 1990. 20 por cento da população da região de mais alta renda recebeu quase 54.2 por cento da renda total. a desigualdade absoluta. 8 Esses dados foram retirados de uma versão agregada da tabela 2. a proteção social dos trabalhadores sofreu uma queda (saúde. a situação trabalhista agravou-se em quase toda a região . Poderia se acrescentar que. inclusive em termos relativos. 7 Este coeficiente é uma medida que surge de uma representação gráfica da distribuição da renda chamada Curva de Lorenz.3 por cento) e nos países andinos (de 52. A alta desigualdade também se expressa na relação entre os níveis superiores e inferiores de renda.554. A região possui os níveis de desigualdade mais altos do mundo na distribuição da renda. Um coeficiente de Gini de 0. o número de habitantes que se situava abaixo da linha de pobreza aumentou.8 Em 2002. O desemprego e a informalidade aumentaram significativamente. é claro. Em 2002. dar impulso a uma nova etapa é uma meta muito mais ampla e plena de incertezas. Os níveis de desigualdade não diminuíram. As páginas seguintes iniciam a exploração destas questões. uma tarefa difícil. apenas 4. a necessidade de enfrentar o legado histórico de atraso econômico e tecnológico. enquanto 20 por cento do setor de mais baixa renda. vida-morte. O que quer dizer realmente ir rumo à democracia de cidadania? Quais são os temas centrais? Que condições nos são requeridas para resolvê-los? Quem são os novos adversários da democracia ampliada? Nenhuma dessas questões tem a clareza daquela opção binária dos anos setenta: democracia-ditadura. é tomar consciência sobre até que ponto não existem desculpas para não encará-la. Entretanto.7 por cento.

mas de alguns pontos-chave básicos que estão nos fundamentos teóricos de nosso trabalho. pobre. que essa conduta acarreta. ao mesmo tempo em que a proliferação de “aproveitadores” (free-riders). causa desconcerto e intranqüilidade geral. agrava os problemas da ação coletiva. alegando que esse regime constitui o único marco para nacionalizar e democratizar o Estado e a sociedade. existirão diferenças contundentes em relação ao que esperamos de outra forma de organização da sociedade: a economia . haveria políticas recomendáveis para assegurar as boas condições de funcionamento do regime de- quadro 3 A democracia e a promessa dos direitos cidadãos Apesar da instauração do regime democrático. observa-se a presença de atores que. Conseqüentemente. Em outras palavras. Dessa forma. sujeita historicamente a condições de “pobreza” e de “exclusão” – denominações tecnocráticas que escondem as relações sociais geradoras dessas situações. poderíamos chegar ao paradoxo extremo da existência de uma sociedade pobre no tocante aos direitos sociais e econômicos de seus cidadãos. aos seus riscos de desaparecimento. inclusive. 44 A democracia na América Latina . às diferenças socioculturais e de gênero. ou ao papel da política e suas organizações. Essas diferenças se referem às condições de expansão da democracia. e das promessas dos dirigentes políticos. em direção contrária à dos discursos democráticos e liberais. porque o desempenho das representações políticas e das instituições públicas não correspondiam às expectativas da maioria da população. mas plenamente democrática. que o Estado é incapaz de controlar Julio Cotler. A fragmentação dos interesses sociais e das representações políticas. apesar de tudo. para satisfazer suas aspirações individuais e coletivas. o descrédito do regime democrático “realmente existente” propicia que amplos setores sociais. persistem obstinadamente em defender a validade do regime democrático. dependendo da visão de democracia por nós adotada. é a visão segmentada das políticas públicas. mas é o único espaço que permite lutar para consegui-la”. que de maneira irresponsável se oferecem para resolver as demandas sociais por meio de propostas oportunistas de curto prazo. se a democracia fosse apenas um regime. porém. Nessa conjuntura. o regime e o Estado reforçam tais condições. Não se trata de um desenvolvimento teórico no sentido estrito. Outra conseqüência importante. mais ainda porque nas novas circunstâncias internacionais. Por tais motivos. Ingressamos nesse campo não porque o objetivo do Relatório seja uma indagação acadêmica sobre a democracia. não é de se estranhar a existência de vozes que prognosticam desenlaces dramáticos. às vezes ilegais. Como dizia há pouco tempo um dirigente sindical peruano: “a democracia não assegura a justiça social. Além disso. em seus direitos civis básicos. à maneira como certas políticas públicas são vistas e formuladas. à visão do Estado e suas transformações. derivada de uma compreensão da democracia limitada a seu regime. texto elaborado para o PRODDAL. assumam comportamentos “informais”. por não contar com os recursos materiais nem com o respaldo da população. particularmente os pobres e os excluídos. e sim porque as conseqüências práticas das diferentes concepções são fundamentais no momento de pensar as políticas e as estratégias de sustentabilidade democrática. tanto do imaginário como da ação político-estatal. mesmo com os obscuros presságios.de nossas proposições. não foi possível modificar a natureza e o funcionamento do Estado por causa da presença de fatores internos e externos que obstaculizaram o cumprimento dos direitos cidadãos. 2002. as expectativas depositadas em tal ordenamento viramse frustradas.

e é necessário. O desenvolvimento da democracia na América Latina 45 . na sua Carta. expandindo as oportunidades de cada pessoa de chegar a ter uma vida respeitável e valiosa. incluindo o direito ao desenvolvimento. humanos internacionalmente reconhecidos e liberdades fundamentais. o papel de vários organismos e iniciativas regionais que deram prioridade à defesa e ao fortalecimento da democracia. em sua resolução 1999/57. na Declaração do Milênio. ■ A Declaração e Programa de Ação de Viena. programas de reforma do Estado e de promoção do desenvolvimento econômico. por meio de seus programas de governabilidade. estabelece que “a comunidade internacional deve apoiar o fortalecimento e a promoção da democracia e o desenvolvimento e respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais no mundo inteiro”. e outras que indicassem as reformas apropriadas para. aprovada pelas Nações Unidas em 1948. para o fortalecimento do estado de direito e para o desenvolvimento sustentável. a democracia. por exemplo. a organização estatal. É destacável também. A OEA deu um passo fundamental em sua Os organismos internacionais e a promoção da democracia O Relatório se inspira na letra e no espírito de diferentes documentos das Nações Unidas: ■ A Declaração Universal dos Direitos Humanos. as reformas do Estado ou as reformas estruturais na economia teriam sobre ela. no ano 2000. inclui a promoção de diálogos democráticos. estabelece que: “não mediremos esforços para promover a democracia e reforçar o cumprimento da lei. 1948. Com essa visão fragmentada se julgaria estar fortalecendo a democracia com o simples recurso de melhorar o funcionamento de seu regime. Por essa razão. de 1993. ONU. Com a Declaração do Milênio. a saber. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). por meio de todos os seus organismos e programas. em última instância. por meio da Organização de Estados Americanos (OEA).” O Sistema das Nações Unidas. a ONU e outros organismos internacionais de cooperação e financiamento reforçaram seu chamamento para a promoção da democracia. e se estaria ignorando o impacto que. democracia e desenvolvimento humano compartilham uma visão e um propósito comum: o desenvolvimento humano é um processo para fortalecer as capacidades do ser humano. Tampouco se observariam fatos como o de que as políticas de reforma do Estado ou da economia sejam. ■ A promoção do direito à democracia foi proclamada pela Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. avaliadas por maiorias que medem seus resultados em termos do progresso de suas vidas ou de uma maior justiça na distribuição de bens. e declararam-se decididas a promover o progresso social e a elevar o nível de vida dentro de um conceito mais amplo de liberdade. por exemplo. como correlato.mocrático. na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos dos homens e das mulheres. sua fé nos direitos fundamentais do homem. Para o PNUD. assim como o respeito por todos os direitos quadro 4 Declaração Universal de Direitos Humanos As Nações Unidas reafirmaram. uma forma política que assegure tudo isso. é notável o compromisso que os países da região assumiram com a democracia. estabelece uma concepção ampla de cidadania. Nesse sentido. a Assembléia Geral das Nações Unidas. promove o respeito pelos direitos humanos e a realização de eleições livres e limpas. outras aconselháveis para o adequado funcionamento da economia. abrangendo direitos civis. políticos e sociais. a opinião cidadã é uma parte fundamental da viabilidade das políticas de reforma. ■ Adicionalmente.

é um marco que fortalece as democracias na América Latina. f. g. Indubitavelmente.4 e 14. incluindo a. e a finalidade das instituições democráticas. Kofi Annan. h. O direito dos cidadãos a eleger seu sistema de governo por meios constitucionais ou outros meios democráticos. especialmente por meio de organizações internacionais. O direito à liberdade de opinião e de expressão. Instituições de governo transparentes e b. Outro passo-chave foi dado pela aprovação da Carta Democrática Interamericana em 2001. em 1991. 1999. 2002c. ONU. freqüentemente. pp. c. Os desequilíbrios de recursos e de poder político minam. nem uma capacidade igual de todos em influir nos resultados. 2002. O direito ao sufrágio universal e igual. O direito de acesso. interesses e segurança pessoal dos cidadãos e a eqüidade na administração da justiça. PNUD. quando realizamos eleições. reunião de Santiago do Chile. O império da lei. d. quando seus países membros adotaram mecanismos para reagir diante de situações em que a democracia fosse interrompida. mas não são suficientes. de consciência e de religião. cabe destacar o trabalho realizado pelo Grupo do Rio. incluída a proteção jurídica dos direitos. Comissão de Direitos Humanos. Mais es- quadro 6 A democracia requer mais do que eleições A democratização verdadeira é algo mais do que as eleições. Administrador do PNUD. a vontade ou a capacidade de participar nos processos políticos. 46 A democracia na América Latina . como evidência de que existe uma democracia. o princípio “uma pessoa. à função pública no próprio país. […] O fato de conceder a todas as pessoas uma igualdade política oficial não é suficiente para criar.quadro 5 Os direitos democráticos A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas afirma que dentre os direitos a uma gestão pública democrática figuram os seguintes: e. a igualdade de oportunidades de todos os cidadãos para apresentarem-se como candidatos. responsáveis. O direito à liberdade de investigar e de receber e difundir informações e idéias por qualquer meio de expressão. Além disso. pelas Cúpulas Ibero-americanas dos Chefes de Estado e de Governo. e pela OEA por meio da Unidade para a Promoção da Democracia. As eleições não são eventos isolados. assim como a independência do Poder judiciário. de pensamento. a coordenação de esforços em prol da democracia por parte de líderes latino-americanos. um voto”. em condições de igualdade. Não apreciamos plenamente o valor da democracia. Secretário Geral da ONU 2003. assim como a procedimentos livres de votação e a eleições periódicas livres. O direito à participação política. As eleições livres e justas são necessárias. mas sim parte de um processo mais amplo. de associação e de reunião pacíficas. Mark Malloch Brown. acerca de temas-chave para a democracia. na mesma medida.

da cultura democrática. do estado de direito. Cada vez mais.pecificamente. é necessário analisar o regime democrático não isoladamente. essas iniciativas vêm impulsionando a definição de uma agenda política para a região. e do impacto da nova economia sobre o desenvolvimento econômico. mas como parte do marco das cidadanias política. para prevenir retrocessos no processo democrático. das instituições que garantem a transparência e a eficácia governamental. proposta por este Relatório. a comunidade internacional está convergindo para a visão mais ampla de democracia. os organismos internacionais globais e regionais incluem em suas metas tanto o estado de direito quanto o desenvolvimento econômico. civil e social. levando em con- sideração as preocupações dos cidadãos. da governabilidade democrática. O desenvolvimento da democracia na América Latina 47 . O grande desafio reside em consolidar este consenso emergente e traduzi-lo em apoio a reformas que fortaleçam as democracias latino-americanas. da redução da pobreza. É importante destacar que essas iniciativas internacionais não se restringem a promover a democracia em seu aspecto eleitoral. das organizações da sociedade civil e da participação cidadã nos diversos processos da vida pública. que ressalta a importância da política e dos partidos políticos. Pelo contrário. e para a idéia de que.

48 A democracia na América Latina .

Eisenstadt (2000. quando e por quem devem ser colocados os limites da democracia. A política. Essa redução da capacidade criadora da democracia é produto. de uma deficiência conceitual: julgar a de- 9 Esta seção se baseia principalmente nos documentos preparados por Guillermo O’Donnell para este Relatório: “Notas sobre el estado de la democracia en América Latina” e “Acerca del Estado en América Latina contemporánea: Diez tesis para su discusión”. em geral. in dubio pro democratia. Este último documento é também de grande importância na Terceira Seção do Relatório. 14) faz a importante observação de que um dos “aspectos centrais do processo político democrático […] [é] uma luta contínua sobre a definição do âmbito da política. especificamente a política democrática. Embora este seja um critério geral válido. os limites da política. no contexto do presente Relatório não podemos deixar de registrar como. estamos dispostos a pagar para avançar na democratização? Deveriam os mecanismos democráticos e os princípios de cidadania se estender ao. principalmente na parte intitulada: “A necessidade de uma nova “Estatalidad”. a política. Tais visões expulsam a democracia e. Esta restrição reflete e reforça uma concepção geral daquilo que a política. quem deveria decidir este tipo de questão e por meio de que processos? Os democratas sinceros de diversas escolas e tradições sempre debaterão sobre onde. também sobre os do Estado10. como. 10 Do mesmo modo. Na verdade. entre outras coisas. ele não resolve a discussão teórica e política sobre duas questões: quanta democracia e onde? A que esferas deveriam ser ampliados os mecanismos democráticos de tomada de decisão e os princípios e direitos de cidadania? Que custos. O desenvolvimento da democracia na América Latina 49 . p. universidades. os mecanismos e princípios da democracia? E. Essa é a idéia que guia nossa exploração sobre o desenvolvimento da democracia na América Latina. Quais os males que podem Na história recente da América Latina. da democracia e do Estado se reduziram. por conseqüência. No entanto. em termos de outros objetivos sociais. digamos. os limites da política. No entanto. S. Quanto maior o grau de democracia. organizações internacionais e famílias? Podem existir critérios razoavelmente consistentes e amplamente aceitos sobre onde aplicar e onde não. da democracia e do Estado se reduziram. N. especialmente a política democrática. mesmo assim. funcionamento interno dos partidos e sindicatos. melhor. debate centralmente sobre os seus próprios limites e. e também na anemia de um Estado que se mostra ineficaz e que perde credibilidade perante maiorias flutuantes de suas respectivas sociedades.■ Exploração sobre o desenvolvimento da democracia9 ser prevenidos? Quais deles deveriam ser resolvidos pela política e pelo Estado adequado? Quais são os fatos inelutáveis ou que devem ser deixados à mercê do mercado ou da boa vontade de alguns atores sociais? Estas perguntas não admitem ser tratadas independentemente das circunstâncias específicas de cada país. trata. Grande parte da teoria contemporânea da democracia se limita a caracterizá-la como um regime político. mas não a empresas. na história recente da América Latina. é somente com o advento da modernidade que o traçado dos limites da política transforma-se em um dos maiores foci da luta e da contestação política aberta”. talvez ainda mais enigmático. de qualquer relação ativa diante da grande injustiça social que se manifesta na ampla carência de direitos sociais e civis.

Elas são: ■ A igualdade de oportunidade para os jovens e os demais. No entanto. A noção de cidadania implica um status para cada pessoa como membro de pleno direito de uma comunidade. o poder – e sobre a qualidade da cidadania civil. pela corrupção ou pelos regimes eleitorais. ■ Um trabalho para os que podem trabalhar. mocracia como a democracia do eleitor. ■ A segurança (social) para os que dela precisam. Um debate incompleto Durante quase duas décadas.quadro 7 Os alicerces da democracia Não há nada misterioso quanto aos alicerces de uma democracia saudável e forte. na modernização burocrática e na diminuição de sua interferência na economia. os partidos. colocando inclusive em dúvida o sentido da continuidade dos Estados nacionais em um mundo que marchava a 50 A democracia na América Latina . A força interior e duradoura de nossos sistemas econômico e político depende do grau em que cumprem essas expectativas. sobre a organização social gerada pela democracia – o Estado. interroga-se sobre o sistema que possibilita o acesso aos cargos públicos. muda a forma de avaliá-la. quando este Relatório analisa o grau de desenvolvimento da democracia. portanto. Essas são as coisas simples e básicas que seria necessário nunca se perder de vista no tumulto e na incrível complexidade de nosso mundo moderno. a política foi examinada sob o prisma da crise expressa pelos partidos. à luz da análise apresentada neste Relatório. deveriam ser colocados no centro da discussão. A democracia foi observada essencialmente em sua dimensão eleitoral. finalmente. por sua capacidade de dar vigência aos direitos dos cidadãos e constituir seus cidadãos em sujeitos das decisões que a eles se referem. ■ A preservação das liberdades civis para todos. a problemática do Estado centrou-se na questão do equilíbrio das contas fiscais. se o desenvolvimento da democracia for medido por sua capacidade de garantir e expandir a cidadania em suas esferas civil. a agenda e as políticas públicas na América Latina trataram da questão do fortalecimento democrático. As coisas básicas que nosso povo espera de seus sistemas políticos e econômicos são simples. das reformas estruturais da economia e do impacto da globalização na região. portanto. social e política das mulheres e dos homens que integram uma Nação. apesar de terem sido abordados aspectos fundamentais dessas questões. suas conquistas e carências. da crise da política. “Discurso das Quatro Liberdades”. Franklin Delano Roosevelt. social e política. ■ O fim do privilégio especial para alguns. e. a globalização foi considerada ou como a origem de males inevitáveis ou como fonte de benefícios imensos. A medida do desenvolvimento de uma democracia é dada. A medida do desenvolvimento de uma democracia é dada. A qualidade da democracia deve ser julgada sobre essa base. em um padrão de vida constantemente crescente e amplamente compartilhado. janeiro 1941. o debate marginalizou outros que. particularmente nos anos noventa. abre-se uma dimensão diferente de reflexão e de ação. e abrange diversas esferas que se expressam em direitos e obrigações. Na verdade. Quando a cidadania é colocada como fundamento da democracia. por sua capacidade de dar vigência aos direitos dos cidadãos e constituir seus cidadãos em sujeitos das decisões que a eles se referem. A expansão da cidadania é uma condição do êxito de uma sociedade e da realização de suas aspirações. pelas estruturas clientelistas. a economia teve como tema quase exclusivo a questão de seus equilíbrios e as reformas estruturais supostamente necessárias para atingi-los. Em síntese. das reformas do Estado. ■ A participação nos frutos do progresso científico.

TABELA 3

PERCEPÇÕES SOBRE AS RAZÕES DE DESCUMPRIMENTO DE PROMESSAS ELEITORAIS POR PARTE DOS GOVERNANTES 2002.
Cumprimento de promessas Os governantes cumprem suas promessas eleitorais Não cumprem porque ignoram como os problemas são complicados Não cumprem porque aparecem outros problemas mais urgentes Não cumprem porque o sistema não os deixa cumprir Não cumprem porque mentem para ganhar as eleições Nenhuma das anteriores
Nota: n = 19.279. Fonte: Pergunta P25U da Seção Proprietária do PNUD, pesquisa Latinobarômetro 2002.

Pessoas (%) 2,3 10,1 9,6 11,5 64,7 1,7

caminho da “aldeia global”. Como dissemos, esses debates eram, naquele momento, imprescindíveis. Agora, são insuficientes. O desenvolvimento da democracia é muito mais do que a perfeição de seu sistema eleitoral. A crise da política se manifesta tanto na baixa credibilidade e prestígio dos partidos quanto na pouca eficácia dos governos para abordar as questões centrais detectadas como déficit de cidadania, em particular, os déficits que dizem respeito aos direitos civis e sociais (tabela 3). Ambas as dimensões da crise da política – instituições e conteúdos – são vitais, pois é a política que deve formular opções, representar os cidadãos e criar os nexos entre Estado e sociedade para gerar poder democrático. Grande parte das questões consideradas carências centrais está situada no plano da “estatalidad” – que entendemos como a capacidade do Estado para cumprir suas funções e objetivos, independentemente do tamanho e da forma de organização de suas burocracias. Ultimamente, o tema do Estado reduziu-se, no momento da discussão e das propostas públicas, a questões relacionadas

com sua capacidade burocrática e sua estrutura de gastos e recursos, ou seja, à questão do déficit fiscal. Ficou fora da discussão a existência de Estados com legalidades truncadas, incapazes de monopolizar a coerção, carentes do poder necessário para colocar em prática o mandato eleitoral e que, geralmente, encontram sérias dificuldades para cumprir sua crucial responsabilidade de construir democracia.11 A questão econômica tem caminhos e uma diversidade de opções que o pensamento único ignora, e a relação entre economia e democracia é apresentada no debate atual a partir do impacto da segunda sobre a primeira. Desse modo, a democracia ocupa na análise uma posição subordinada aos objetivos do crescimento econômico. É preciso inverter os termos e perguntar qual é a economia necessária para fortalecer a democracia. Desse modo poderemos debater tanto o papel da economia no desenvolvimento da democracia, a partir de seu impacto nos direitos sociais, quanto a capacidade da democracia para influir na organização da economia e possibilitar a diversidade de opções da economia de mercado.

O desenvolvimento da democracia é muito mais do que a perfeição de seu sistema eleitoral.

11 Do ponto de vista de George Soros (2001), esta questão se expressa assim: “O capitalismo cria riqueza, mas não se pode depender dele para garantir a liberdade, a democracia e o Estado de direito. As empresas estão motivadas pelo benefício, não têm por objetivo salvaguardar os princípios universais. Até a proteção do mercado requer muito mais que o benefício próprio: os participantes no mercado competem para ganhar, e se pudessem eliminariam a concorrência” (Soros, 2001).
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Finalmente, mesmo não ignorando suas importantes conseqüências, a globalização não deveria conduzir a conclusões fatalistas. Os espaços de participação e decisão democráticas são essencialmente nacionais e, embora a globalização imponha grandes restrições à capacidade de ação dos Estados nacionais, em vez de sucumbir à impotência, é preciso focar o debate na forma de gerar novos espaços de autonomia nacional a partir dos âmbitos regionais de cooperação e integração. Portanto, para discutir as condições do desenvolvimento da democracia, propomos ampliar os conteúdos da agenda que predominou ultimamente. Obviamente, o objeto deste Relatório não é propor políticas nacionais; cada país tem tempos e situações diferentes. Essas especificidades, porém, dizem respeito ao tipo de solução a ser aplicada em cada caso, e não à relevância dos problemas. As diversas respostas possíveis a esses problemas não alteram o conjunto de interrogações que apresentamos, em especial, a que se refere à necessidade de elaborar uma nova agenda de reformas democráticas para a América Latina. Assim sendo, de que estamos falando quando nos referimos à democracia? A partir de que marco conceitual aprequadro 8

sentamos a idéia de desenvolvimento da democracia? Que democracia temos nós, latino-americanos? E, fi nalmente, qual é a agenda de debate necessária para desenvolver nossas democracias e expandir nossas cidadanias?

Fundamentos teóricos
Nesta seção, são apresentados alguns dos conceitos, argumentos e questões de debate que pertencem ao campo teórico do Relatório,12 partindo da base de que a definição dos sentidos da democracia também faz parte das tarefas que possibilitam transformá-la e enriquecê-la. Quando nos deparamos com a complexidade das questões em jogo, quando observamos novas realidades impossíveis de serem abordadas por meio da mera intuição, tomamos consciência de nossa insuficiente base teórica. Evidentemente, não estamos afirmando que a prática da política é o corolário de uma teoria apropriada; só estamos enfatizando a necessidade de sérios e fundados conhecimentos e debates para que a prática política possa orientar com êxito o futuro de nossos países. A teoria não é uma maneira de encerrar-se em um mundo distante da prática, ela é utilizada para entender como estamos, para onde vamos e o que seria prioritário transformar. A teoria política e, dentro dela, a teoria democrática deram importantes contribuições para a análise da nossa realidade. Entretanto, é provável que não haja exemplo mais eloqüente da distância entre teoria e prática do que o mundo da política. Por um lado, freqüentemente se discutem idéias sobre o complexo desenvolvimento político das sociedades e por outro – quase como se essas idéias pertencessem a outro universo – pratica-se a política. Desvalorizar a análise teórica, mais do que um afã de tratar imediatamente de

Cidadania e comunidade de cidadãos
A cidadania caracteriza uma situação de inclusão em uma “comunidade de cidadãos”. Mas esta última não pode ser definida simplesmente pelo direito de voto e pela garantia de ver protegido um certo número de liberdades individuais. A cidadania se caracteriza também pela existência de um mundo comum. Em outros termos, possui, necessariamente, uma dimensão social. Tocqueville foi o primeiro a destacar que a democracia caracterizava uma forma de sociedade e não apenas um conjunto de instituições e de princípios políticos. Pierre Rosanvallon, texto elaborado para o PRODDAL, 2002.

12 Os dados estatísticos e de opinião pública que constam neste Relatório têm origem em um marco conceitual. Sem esse marco, não poderíamos ter identificado os indicadores relevantes para interpretar o desenvolvimento da democracia. Os indicadores e a pesquisa utilizados neste Relatório são o resultado de uma determinada concepção da democracia. Essa teoria justifica e explica o método adotado em sua elaboração.

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coisas práticas, pode ser, às vezes, uma maneira de evitar o cotejo das decisões com as razões que as fundamentam, ou uma forma de encobrir as verdadeiras motivações dos que exercem o poder, público ou privado. A desvalorização da teoria costuma ser um recurso que abre caminho para o pensamento mágico, entendido como um conjunto de idéias que, por seu fascínio, parecem prescindir de demonstração. Este Relatório se propõe a basear suas descrições, análises e propostas em razões sistemáticas e rigorosas. Sua intenção não é abranger a totalidade do debate sobre a democracia, mas sim fundamentar as afirmações e propostas que apresenta. A idéia de democracia Parte-se aqui de uma idéia básica e geral de democracia, mas não se utiliza uma definição taxativa e rígida; procura-se encontrar nas diferentes esferas da vida social o que, sendo próprio delas, afeta e é afetado pela democracia. Nesse sentido, a democracia é o resultado da história das sociedades e não só de si mesma. A democracia é o resultado de uma intensa e corajosa experiência social e histórica que se constrói dia-a-dia nas realizações e frustrações, ações e omissões, ocupações, intercâmbios e aspirações de seus protagonistas: cidadãos, grupos sociais e comunidades, que lutam por seus direitos e edificam incessantemente sua vida em comum. A democracia implica uma forma de conceber o ser humano e de garantir os direitos individuais. Por conseguinte, ela contém um conjunto de princípios, regras e instituições que organizam as relações sociais, os procedimentos para eleger governos e os mecanismos para controlar seu exercício. A democracia é também o modo como a sociedade concebe o Estado e com o qual pretende fazê-lo funcionar. Mas isso não é tudo. A democracia também é um modo de conceber e resguardar a memória coletiva e de acolher, celebrandoas, diversas identidades de comunidades locais e regionais. A democracia é cada uma dessas definições e tarefas, assim como as diversas manei-

quadro 9

A democracia: uma construção permanente
Devemos relembrar que, depois dos seus princípios promissores, a evolução da democracia até nossos dias não seguiu um caminho ascendente. Houve altos e baixos, movimentos de resistência, rebeliões, guerras civis, revoluções. Durante alguns séculos […] inverteram-se alguns dos avanços anteriores. Olhando para trás, para a ascensão e queda da democracia, é evidente que não podemos contar com as forças sociais para assegurar que a democracia continue sempre avançando. […] A democracia, tal como parece, é um pouco incerta, mas suas possibilidades dependem também do que nós fizermos. Inclusive, ainda que não possamos contar com impulsos benignos que a favoreçam, não somos meras vítimas de forças cegas sobre as quais não temos nenhum controle. Com uma adequada compreensão do que a democracia exige e com a determinação de satisfazer seus requerimentos, podemos agir no sentido de satisfazer as idéias e práticas democráticas e, ainda mais, avançar nelas. Robert Dahl, 1999, pp. 32-33.

ras em que elas se materializam em regras e instituições. Sustentamos que a democracia é mais do que um conjunto de condições para eleger e ser eleito, que chamamos de democracia eleitoral. É também, como já dissemos, uma maneira de organizar a sociedade com o objetivo de garantir e expandir os direitos que os indivíduos possuem. Este segundo aspecto é o que define a democracia de cidadania. Essas duas caras da democracia estão intimamente vinculadas e o grau de desenvolvimento de ambas incide substancialmente em sua qualidade e sustentabilidade. A diferença entre democracia eleitoral e de cidadania contém quatro argumentos básicos que guiam este Relatório: 1. A democracia encontra seu fundamento filosófico e normativo em uma concepção do ser humano como sujeito portador de direitos. Nela se distingue a idéia do ser humano como um ser autônomo, razoável e responsável. Esta concepção subjaz a toda e qualquer noção de cidadania, inclusive à de cidadania política. 2. A democracia é uma forma de organização da sociedade que garante o exercício
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A democracia implica uma forma de conceber o ser humano e de garantir os direitos individuais.

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e promove a expansão da cidadania; estabelece regras para as relações políticas e para a organização e o exercício do poder, que são coerentes com a já mencionada concepção do ser humano. 3. As eleições livres, competitivas e institucionalizadas, e as regras e os procedimentos para a formação e o exercício do governo (conjunto que denominamos democracia eleitoral) são componentes essenciais da democracia e constituem sua esfera básica. No entanto, no que se refere a seus alcances e a suas possibilidades de realização, a democracia não se esgota nessa esfera. 4. O desenvolvimento da democracia na América Latina constitui uma experiência histórica única, caracterizada por especificidades intimamente relacionadas com os processos de construção da Nação e das sociedades latino-americanas, incluindo suas diversas identidades culturais. Os déficits da sociedade como déficit da democracia Um corolário relevante desta maneira de entender a democracia e seu desenvolvimento é observar os déficits sociais como carências da democracia. Dessa forma, a pobreza e a desigualdade não são somente “problemas sociais”, mas também déficits democráticos. Portanto, resolvê-los é atacar uma das questões básicas da sustentabilidade democrática. Daí se derivará, em nossa

quadro 10

Democracia e igualdade
Nenhuma teoria da democracia que omita dar à idéia igualitária um lugar central pode oferecer uma representação fidedigna do peso extraordinário da democracia na imaginação política moderna. […] Devemos ter em mente que, historicamente, um dos principais objetivos dos movimentos democráticos foi procurar compensação na esfera política para os efeitos das desigualdades na economia e na sociedade. C.R. Beitz, 1989, pp. xi, xvi.

quadro 11

Democracia e soberania
O exercício da democracia é uma afirmação da soberania de uma nação: É necessário um marco democrático que devolva à reduzida noção de soberania seu sentido político prístino: não existe nação soberana no concerto internacional que não seja soberana na ordem nacional, isto é, que não respeite os direitos políticos e culturais da população concebida não como simples número, mas como complexa qualidade, não como quantidade de habitantes, mas como qualidade de cidadãos. Carlos Fuentes, 1998, p. 9.

análise, uma crítica à perigosa cisão entre “política econômica”, “política social” e fortalecimento da democracia que, freqüentemente, são tratados como compartimentos estanques. O principal corolário desta crítica é que não deve haver uma agenda econômica social divorciada da agenda democrática. Como fundamento dos seus mecanismos e instituições, a democracia apela a uma certa visão da condição humana e de seu desenvolvimento: todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos, dotados de razão e consciência.13 Os princípios que daí emanam projetam-se sobre o conjunto da sociedade. A escola, a família, a economia e, em geral, todas as formas de organizar a sociedade além das instituições próprias da democracia, são atingidos pelos princípios inerentes a ela. O desenvolvimento da democracia está relacionado com a intensidade com que esses princípios são capazes de impregnar os diferentes campos da vida social. É por essa razão que a democracia não aparece somente em sua dimensão institucional; é também uma promessa civilizadora que instala a expectativa de expansão da liberdade, da igualdade, da justiça e do progresso.

13 Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas.

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quadro 12

Uma definição de poliarquia
Poliarquia deriva das palavras gregas que significam “muitos” e “governo”. Distinguese assim o “governo de muitos” do governo de um, ou monarquia, ou do governo de poucos, aristocracia ou oligarquia. […] Uma democracia poliárquica é um sistema político dotado das instituições democráticas [descritas]. A democracia poliárquica é, pois, diferente da democracia representativa com sufrágio restrito, como a do século XIX. É também diferente das democracias e repúblicas mais antigas, que tinham sufrágio restrito, e não possuíam muitas das outras características cruciais das democracias poliárquicas, tais como: partidos políticos, direito a formar organizações políticas para influir em ou opor-se a governos existentes, grupos de interesse organizados etc. É também diferente das práticas democráticas próprias de unidades tão pequenas que possibilitem a realização de uma assembléia direta de seus membros e a decisão (ou recomendação) direta das políticas ou leis. Robert Dahl, 1987, p. 105.

Alcances da democracia no Relatório Conforme a perspectiva que adotamos, a democracia pressupõe um conjunto de características essenciais que definem suas condições necessárias. Essas características, raras vezes, existem plenamente, freqüentemente combinam-se em diversos graus e alcances.14 O que importa é colocar em evidência que a análise do grau de realização de cada um desses elementos é irrefutável no momento de avaliar o grau de desenvolvimento de uma democracia. A democracia inclui, como um de seus elementos centrais, uma livre delegação da soberania popular em um governo, para executar a opção majoritária da cidadania. Para que esse procedimento atinja seu objetivo é preciso que exista o conjunto de condições que serão descritas a seguir. 1. A democracia pressupõe como condição necessária a existência de um regime político que se desenvolve em um Estado e em uma Nação delimitados por uma população, por um território e pelo poder exercido em seu interior. Esse regime contém um conjunto de instituições e procedimentos que

definem as regras e os canais de acesso às principais posições do Estado, ao exercício do poder estatal e ao processo de tomada de decisões públicas. Na ciência política contemporânea, existe consenso sobre as condições que devem ser cumpridas para que o acesso ao governo de um Estado possa ser considerado democrático:15 Autoridades públicas eleitas. Eleições livres e limpas. ■ Sufrágio universal. ■ Direito a competir por cargos públicos. ■ Liberdade de expressão. ■ Acesso à informação alternativa. ■ Liberdade de associação. ■ Respeito pela duração dos mandatos, segundo prazos constitucionalmente estabelecidos. ■ Um território que define claramente o demos votante. ■ A expectativa generalizada de que o processo eleitoral e as liberdades contextuais serão mantidos em um futuro indefinido.
■ ■

2. A democracia implica o real acesso ao poder do Estado, ou seja, que não exista

14 Essas características, resumidas na seqüência, foram apresentadas e discutidas com um amplo conjunto de personalidades acadêmicas. 15 Segundo os aportes de Robert Dahl e Guillermo O’Donnell.
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protege os direitos civis do conjunto da população e estabelece redes de responsabilidade e de prestação de contas por meio das quais os funcionários públicos. a girar em falso. a tornar-se irrelevante. Nessas condições. A democracia também implica a vigência do estado de direito. as organizações e os cidadãos. e entre o Estado. O regime tenderia. entre o Estado e os cidadãos. encontrar os meios – econômicos e organizativos – necessários para o cumprimento de seus fins e executar as políticas decididas. devem estar ajustadas ao exercício dos direitos políticos. normatizar as condutas dos indivíduos e organizações. incluindo os cargos mais altos do Estado. submetidas a eleições. atributo que implica: o monopólio do uso efetivo e legítimo da força. 3. Isso define a soberania interior. A opinião acerca dessa relação entre poder e direitos deve ser objetiva. a capacidade para aplicar justiça de modo efetivo e definitivo. Isso pressupõe a independência de poderes e um sistema legal que é democrático em três sentidos: protege as liberdades políticas e as garantias da democracia política. Eleger sobre o quê e entre quê? Essa eleição contém todas as opções necessárias. são somente uma parte do necessário para o desenvolvimento da cidadania e excluem outras essenciais? Se este fosse o caso. Essa é a função da agenda pública. civis e sociais de maneira tal que a imposição de uma conduta (império do poder) não vulnere esses direitos. Essa agenda contém o conjunto de questões prioritárias em torno do qual se centram o debate público. Supondo a ausência de limitações sobre a capacidade de eleger. porém temas de eleição parciais ou limitados. a definição e as opções de políticas da opinião pública. as relações de poder. A democracia requer que as opções cidadãs abordem as questões substantivas. a agenda pública. Esse temário eleitoral ou agenda pública excede o regime. de maneira que os objetivos estabelecidos pela sociedade em exercício de suas opções só poderão ser substancialmente alterados por imposições de outros poderes fora do território como conseqüência da livre delegação de soberania a órgãos multilaterais. para garantir e expandir a cidadania em um momento dado? Ou essas opções. 5. definida pela própria maioria dos membros de uma sociedade. A essência de uma democracia é que o poder – público ou privado – esteja organizado de 56 A democracia na América Latina modo que. isto é. entendida como o leque real de opções de que os cidadãos dispõem de acordo com as referências citadas acima. os cidadãos entre si. Determinam o leque real de opções do cidadão. Em uma democracia. A democracia pressupõe uma certa forma de organizar o poder na sociedade. poderíamos ter regras de concorrência perfeitas. mas é fundamental para a democracia. possa ser um instrumento central para sua expansão. reais. Pressupõe também a submissão da ação do Estado e de seus poderes às normas que emanam de poderes designados democraticamente. interessa-nos indagar qual é o leque real de opções e como se constrói. Este acesso ao real poder estatal requer também uma certa forma de inter-relação com os outros Estados soberanos. talvez o essencial esteja fora da eleição e o marginal centralize o debate da decisão eleitoral. 4. Em democracia. Portanto. a separar-se do desenvolvimento da cidadania.no território outra organização (formal ou não) com poder igual ou superior ao próprio Estado. As regras e condições de concorrência procuram garantir uma eleição livre entre candidatos e programas de governo. então. além de não vulnerar os direitos. a capacidade de soberania do Estado deriva da renovada legitimidade outorgada pelos membros da sociedade. Ela contém o temário dos problemas que uma sociedade deve resolver e os métodos para encará-los. A agenda deveria conter os desafios . constitui um componente central da organização democrática. estejam sujeitos a controles apropriados sobre a legalidade de seus atos. A agenda identifica. as metas desejáveis de um governo e o caminho para atingi-las. é parte de sua organização. para o cidadão. ótimas condições para a eleição.

coloca sob esse sistema legal a totalidade das instituições e dos funcionários do Estado. em primeiro lugar. continuem sendo realizadas eleições limpas nas datas ou ocasiões legalmente preestabelecidas. diluídas. em um regime democrático as eleições estão institucionalizadas: para a grande maioria dos cidadãos é indiscutível que. 16 De acordo com Dahl (1989 e 1999). O desenvolvimento da democracia na América Latina 57 . dos bancos centrais) é realizado por meio de eleições limpas e institucionalizadas. Existem quatro aspectos centrais da democracia: 1) eleições limpas e institucionalizadas.16 Essas liberdades são essenciais não só durante as eleições. Escolhe-se a política econômica? Debatem-se as reformas fiscais? Estão claras as opções para combater a pobreza e a desigualdade? E se esses temas estiverem fora da oferta eleitoral. que. é um de seus componentes intrínsecos. enquanto os dois primeiros aspectos correspondem ao regime. seja de forma conjunta ou individual. as formas de abordá-lo e recuperar o que se escamoteia e ignora. das organizações e do conjunto da sociedade. 3) um sistema legal que sanciona e respalda os direitos e as liberdades políticas. e. Vemos então. ignoradas ou. em segundo lugar. Promover um debate sobre nossa agenda. das mulheres e de vários tipos de minorias e setores discriminados. 17 A inclusividade é uma conquista bastante recente dos trabalhadores urbanos. o que deve ser debatido em uma sociedade e em uma região. se organiza o Estado segundo o princípio da Essas liberdades são essenciais não só durante as eleições. igualitárias. como também nos períodos entre elas. como também nos períodos entre elas. A agenda define o campo da opção. simplesmente. Por isso. ver Diamond (1999). regime político e Estado Em um regime democrático. Discutir os alcances do debate público. de sua agenda. é importante indagar acerca do caráter democrático do Estado e não só sobre o do regime.17 Além disso. ou se há questões omitidas. sanciona e respalda os direitos e liberdades decorrentes do regime democrático. associação e acesso à informação de caráter pluralista. para saber se ela contém nossos problemas. livres. é um dos interesses centrais deste Relatório. segundo o esquema conceitual que aqui propomos. como se vincula a democracia com as necessidades reais de expansão da cidadania social? Essa questão. os dois últimos correspondem ao Estado. Por outro lado. decisivas e inclusivas.centrais para os interesses individuais. vinculatório em todo o território. Os indivíduos que gozam dessas liberdades estão habilitados e protegidos para o exercício de seus direitos de participação. eventualmente. A relação entre regime democrático e Estado se fundamenta na existência de um sistema legal estatal que. Caso contrário. Sob esse prisma. como também por meio da tomada de decisões. é uma condição necessária das reformas democráticas de que nossa região precisa. o requisito de inclusividade das eleições em um regime democrático indica que todos os adultos que satisfazem o critério de cidadania têm direito de participar nessas eleições. independentemente das relações de poder. dos camponeses. de participar no Estado e no governo. as liberdades políticas relevantes são as de expressão. proibidas é a primeira condição para utilizar nossas capacidades de evitar os perigos e de desenvolver nossa democracia. o acesso às principais posições governamentais (com exceção do poder judiciário. não só por meio de eleições. e nas quais são respeitadas as liberdades políticas. das forças armadas e. Isso significa que a todos os cidadãos é concedido o direito. O que se pode eleger está dentro da agenda. o governo no poder poderia facilmente manipular ou cancelar eleições futuras. e 4) um sistema legal que prescreve que nenhuma pessoa ou instituição retenha o arbítrio de eliminar ou suspender os efeitos da lei ou de evadir-se a seu alcance. Para uma lista detalhada. Entretanto esta agenda não se constrói idealmente. Por eleições limpas se entende aqui as que são competitivas. A relevância ou não do conteúdo da agenda pública é determinante para nosso futuro democrático. Democracia. 2) inclusividade. O Estado não é um elemento alheio ou extrínseco à democracia. no futuro.

quadro 13

Democracia e responsabilidade dos governantes
Em uma democracia, espera-se que os governantes estejam submetidos a três tipos de prestação de contas18: a) a “vertical eleitoral”, resultado de eleições limpas e institucionalizadas, por meio das quais os cidadãos podem mudar o partido e os funcionários do governo, b) a “vertical de tipo societário”, exercida por indivíduos ou grupos com o objetivo de mobilizar o sistema legal para demandar o Estado e o governo com o objetivo de prevenir, compensar ou condenar ações (ou inações), presumivelmente ilegais, perpetradas por funcionários públicos, c) a “horizontal”, realizada quando algumas instituições do Estado, devidamente autorizadas, agem para prevenir, indenizar ou sancionar ações ou inações, presumivelmente ilegais, de outras instituições ou de funcionários estatais. Cabe, no entanto, observar, que há uma diferença importante entre essas prestações de contas. A vertical-eleitoral deve existir pela própria definição do regime democrático; sem ela esse regime simplesmente não existiria. Em compensação, o grau e a efetividade da prestação de contas societária e da horizontal são variáveis conforme os casos e o tempo. Essas variações são relevantes para avaliar o desenvolvimento da democracia; por exemplo, a inexistência de uma sociedade vigorosa e autônoma, ou a impossibilidade ou falta de determinação de certas instituições do Estado de exercer sua autoridade sobre outras instituições estatais são indicadores de uma democracia de escasso desenvolvimento. Guillermo O’Donnell, texto elaborado para o PRODDAL, 2002c.

ao longo do espaço delimitado pelo Estado. No mesmo sentido, espera-se que o sistema jurídico dê o mesmo tratamento a casos similares, independentemente de considerações de classe, gênero, etnia ou outros atributos dos respectivos atores. Em todas essas A eficácia do sistema legal depende do entrelaçamento de suas regras com uma rede de instituições que, em democracia, devem atuar com propósitos e resultados coerentes com um Estado democrático de direito.

dimensões, o sistema legal pressupõe um Estado eficaz,19 que não depende só de uma legislação apropriada mas também de uma rede de instituições estatais que operam para garantir o real império de um sistema legal democrático. Os cidadãos, fonte e justificativa da autoridade do Estado democrático Na democracia, o sistema legal, começando por suas mais altas regras constitucionais, estabelece que os cidadãos, ao votarem em eleições limpas e institucionalizadas, são a fonte da autoridade que o Estado e o governo exercem sobre eles. Os cidadãos não são somente portadores de direitos e obrigações, eles são também a fonte e a justificativa da pretensão de mando e autoridade que o Estado e o governo invocam quando tomam decisões coletivamente vinculatórias. Esta é outra característica específica da democracia: fundamenta o direito de governar na soberania popular que se manifesta em eleições limpas e institucionalizadas. Todos os outros sistemas políticos fundamentam esse direito em outras fontes. De tudo isso se depreende que um indivíduo não é, e nunca deveria, ser tratado

divisão, interdependência e controle de seus poderes, da existência de um poder judicial independente, da supremacia do poder civil sobre o militar e da responsabilidade dos governantes perante a cidadania. Um aspecto crucial do sistema legal é sua efetividade, o grau em que o Estado realmente organiza as relações sociais. Em um sistema legal democrático, nenhuma instituição estatal ou funcionário deveria negar-se ao controle legal de suas ações. Em uma dimensão territorial se supõe que o sistema legal se estende homogeneamente

18 Por esse conceito se entende o equivalente à expressão do inglês accountability. 19 O’Donnell, 2000, 2002a, 2002c. 20 De acordo com esse ponto, Dworkin afirma que “uma demanda particular de moralidade política […] requer dos governos falar com uma voz, atuar de maneira coerente e com princípios para com todos os seus cidadãos, [e] ampliar para todos os cidadãos os padrões de justiça substantiva ou de eqüidade que usa para alguns”.

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como um súdito, um suplicante da boa vontade do governo e do Estado. Este indivíduo – portador de um conjunto de direitos civis, sociais e políticos – tem pretensão legalmente sustentada de ser tratado com plena consideração e respeito.20 Esse tratamento deve estar baseado na implementação de leis e regulamentos que são preexistentes, claros e discerníveis por todos os cidadãos21 e sancionados em concordância com os procedimentos democráticos. Na medida em que as instituições estatais reconhecem esses direitos, elas podem ser consideradas mais ou menos democráticas, ou coerentes com as obrigações impostas a elas pela cidadania. Na verdade, este aspecto das relações diretas e cotidianas dos cidadãos com o Estado é um dos mais problemáticos da democracia em nossa região. Com relação a eleições limpas e, geralmente, ao exercício dos direitos políticos, os cidadãos são colocados em um nível de igualdade genérica. No entanto, ao tratar com burocracias estatais, os cidadãos estão freqüentemente colocados em situações de aguda desigualdade de fato. Costumam enfrentar burocracias que agem sobre a base de regras formais e informais – que não são transparentes nem facilmente compreensíveis – e que tomam decisões (ou as omitem) com conseqüências importantes para os cidadãos. Este é um problema em todos os lugares, porém muito mais sério e sistemático em sociedades castigadas pela pobreza e pela desigualdade. Esses males expressam e cultivam o autoritarismo social,22 e repercutem na maneira desrespeitosa com que as burocracias estatais, às vezes, tratam muitos cidadãos, sobretudo imigrantes e estrangeiros. Em-

bora seja comumente ignorada, esta é outra dimensão crucial da democracia: o grau em que as instituições estatais realmente respeitam os direitos de todos os habitantes, cidadãos ou não. O cidadão, sujeito da democracia A democracia reconhece em cada indivíduo uma pessoa moral e legal, portadora de direitos e responsável pela forma com que exercita tais direitos e suas obrigações decorrentes. Nesse sentido, concebe o indivíduo como um ser dotado da capacidade para escolher entre opções diversas, assumindo responsavelmente as conseqüências dessas escolhas, ou seja, como um ser autônomo, razoável e responsável.23 Essa concepção do ser humano não é apenas filosófica e moral, é também legal: considera o indivíduo como portador de direitos subjetivos que são sancionados e garantidos pelo sistema legal. A potencialidade inerente a essa concepção do indivíduo, cujos direitos não derivam da posição que ocupa na hierarquia social e sim de sua capacidade de comprometer-se a cumprir, voluntária e responsavelmente, as obrigações que assume livremente – com seu correlato do direito a demandar o cumprimento das obrigações contraídas – desencadeou conseqüências transcendentais para as lutas pela expansão da cidadania. Entendemos por cidadania um tipo de igualdade básica associada ao conceito de pertencimento a uma comunidade, o que em termos modernos é equivalente aos direitos e obrigações de que todos os indivíduos estão dotados por pertencer a um estado nacional.24 Destacamos vários atributos da cidadania assim definida:

Os cidadãos não são somente portadores de direitos e obrigações, eles são também a fonte e a justificativa da pretensão de mando e autoridade que o Estado e o governo invocam quando tomam decisões coletivamente vinculatórias.

21 Mesmo em situações onde esta desigualdade é a mais aguda possível (como sob encarceramento), permanece a obrigação moral de respeitar a agência. Hoje em dia, esta é também uma obrigação legal, embora seja muitas vezes ignorada. 22 Aristóteles (1968, p. 181) sabia disso: “Aqueles que gozam de muitas vantagens –força, riqueza, conexões, etc.– não estão dispostos a obedecer [o direito] e desconhecem como obedecer”. 23 Segundo o conceito desenvolvido por O’Donnell (2002c), a democracia considera o ser humano como um agente. “Um agente é um ser dotado de razão prática: usa sua capacidade cognitiva e motivacional para escolher opções que são razoáveis em termos de sua situação e de seus objetivos, para os quais, exceto prova em contrário, é considerado como o melhor juiz. Essa capacidade faz do agente um ser moral, no sentido de que normalmente se sentirá, e será considerado por outros seres relevantes, como responsável pela escolha de suas opções, ao menos pelas conseqüências diretas decorrentes de tais opções.” 24 T. H.Marshall (1965) destaca que “a cidadania moderna é, por definição, nacional”.
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a. caráter expansivo, baseado na concepção, moral e legalmente respaldada, do ser humano como responsável, razoável e autônomo; b. condição legal de status que se concede ao indivíduo como portador de direitos legalmente sancionados e respaldados; c. sentido social ou intersubjetivo que costuma ser o resultado do pertencimento a um espaço social comum; 25 d. caráter igualitário, baseado no reconhecimento universal dos direitos e deveres de todos os membros de uma sociedade democraticamente organizada; e. inclusividade, ligada ao atributo de nacionalidade que implica o pertencimento dos indivíduos aos Estados nacionais;

f. caráter dinâmico, contingente e aberto, como produto e condição das lutas históricas para enriquecer ou reduzir seu conteúdo, e aumentar ou diminuir o número dos que são reconhecidos. Podemos identificar três conjuntos de direitos de cidadania,26 cada um deles relacionado a uma área diferente da sociedade: civis, políticos e sociais.27 Muito antes da expansão universal da cidadania política, a formulação de uma visão legal e moral do indivíduo como portador de direitos subjetivos contou com uma longa trajetória de elaboração por meio de diversas doutrinas – religiosas, éticas, legais, filosóficas.28 Essa concepção do ser humano foi projetada no âmbito político pelos grandes teóricos do liberalismo29 e posteriormente transmitida às duas grandes

25 Esse aspecto da cidadania remete a uma concepção da política como espaço comum, no qual nos reconhecemos como participantes de uma comunidade política orientada para a construção e para a realização intersubjetiva de um bem público. Essa concepção foi amplamente desenvolvida pela tradição do republicanismo cívico, cujas origens remontam ao pensamento grego e romano, e que adquire uma renovada vigência nos debates contemporâneos entre liberais e comunitaristas. 26 Este enunciado não implica que ignoremos que algumas discussões atuais propõem acrescentar outras “gerações” de direitos aos que aqui enunciamos. Dadas as circunstâncias da América Latina, dentre essas discussões são importantes especialmente as relacionadas com seus povos indígenas, e nos parecem particularmente importantes as propostas de acrescentar uma área específica de direitos culturais. No entanto, para facilitar esta primeira exposição de um tema muito complexo, preferimos manter a classificação de direitos tradicional. Isso não impede que a questão dos povos indígenas seja tratada em outras partes deste Relatório, nem que em suas futuras versões revisemos a classificação aqui utilizada. 27 “Começarei propondo uma divisão da cidadania em três partes. [...] Chamarei cada uma destas três partes ou elementos, civil, político e social. O elemento civil se compõe dos direitos para a liberdade individual: liberdade da pessoa, de expressão, de pensamento e religião, direito à propriedade e a estabelecer contratos válidos, e direitos à justiça. Este último é de índole diferente dos restantes, porque se trata do direito de defender e fazer valer o conjunto dos direitos de uma pessoa em igualdade com os demais, mediante os devidos procedimentos legais. As instituições diretamente relacionadas com os direitos civis são os tribunais de justiça. Por elemento político, entendo o direito a participar no exercício do poder político como membro de um corpo investido de autoridade política ou como eleitor de seus membros. As instituições correspondentes são o Parlamento e as juntas do governo local. O elemento social abarca todo o espectro, desde o direito à segurança e a um mínimo de bem-estar econômico até o de compartilhar plenamente a herança social e viver a vida de um ser civilizado conforme os padrões predominantes na sociedade. As instituições diretamente relacionadas são, nesse caso, o sistema educativo e os serviços sociais.” Marshall, 1965, pp. 22-23. 28 “O reconhecimento institucionalizado (i.e. legalmente sancionado e respaldado, e amplamente aceito) do indivíduo como portador de direitos subjetivos percorreu um longo e complicado caminho, cuja origem remonta historicamente a alguns sofistas e aos estóicos e a Cícero, atravessa a tradição do direito romano e dos legistas medievais, para depois ser refinado pelos teóricos do direito natural, e ser finalmente reapropriado e, por assim dizer, politizado, apesar de suas diferenças em outros aspectos, pelos grandes pensadores liberais –especialmente Hobbes, Locke e Kant–, assim como pelos não-liberais como Espinoza e Rousseau”. O’Donnell, 2000. 29 Pierre Rosanvallon (1992, p. 111) comenta que antes do advento do liberalismo “esta visão de autonomia da vontade certamente já havia aparecido juridicamente formulada no direito civil”. Isso, por sua vez, era parte das mudanças na própria concepção de moralidade; como Schneewind (1998, p. 27) indica: “durante os séculos XVII e XVIII, as concepções estabelecidas de moralidade como obediência começaram a ser fortemente contestadas por concepções emergentes de moralidade como auto-governo […] centradas na idéia de que todos os indivíduos normais são igualmente capazes de viver juntos em uma moralidade auto-governada”.

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constituições modernas: a dos Estados Unidos e a da França. A cidadania excede os direitos políticos, a democracia também A democracia de cidadania, como dissemos, excede o regime político, o exercício dos direitos políticos. Ela precisa ampliar-se em direção aos direitos civis e sociais. Esse é um ponto central da nossa análise, do qual se deriva a justificativa de conceber a democracia abrangendo um campo mais amplo e complexo. Como já mencionamos, as conseqüências práticas de sustentar esta tese são consideráveis. Se os direitos inerentes ao ser humano estão baseados em sua capacidade como ser moral, por que então atribuí-los somente a certas esferas da vida social e política? Já que a autonomia responsável implica escolher, que opções reais, ou capacidades, seriam razoavelmente coerentes com a condição que a democracia confere ao indivíduo? Em outros termos, quais são as condições reais do exercício de tais direitos? Essas perguntas apontam a um dos argumentos centrais na análise que este Relatório propõe: colocar a questão das capacidades na esfera política implica ir além da atribuição universal dos direitos de cidadania política, e leva à pergunta sobre as condições que podem permitir ou não o exercício real desses direitos. Embora sob diferentes condições histó-

ricas, em todos os países, a resposta a tais perguntas resultou em numerosas lutas pela progressiva expansão dos direitos políticos, civis e sociais,30 destacando-se, entre eles, o direito de sufrágio até alcançar a sua atual inclusividade. Essa história foi construída ao longo de múltiplos conflitos, ao final dos quais, os setores sociais marginalizados foram sendo incluídos na democracia, isto é, obtiveram finalmente a cidadania política.31 Nos países centrais, esses processos provocaram inicialmente a expansão adicional de direitos na esfera civil, no duplo sentido de uma maior especificação de direitos e de incorporação de outros novos, que não eram ainda os direitos de participação próprios da democracia inclusiva, mas direitos civis concernentes às atividades sociais e econômicas privadas.32 No que se refere a esses direitos, chegou-se, de diversas maneiras, à conclusão de que seu exercício implica escolha, e escolha implica liberdade para escolher entre as diversas alternativas que cada indivíduo valoriza por alguma razão. Isso pressupõe a vigência de um critério de eqüidade: deve existir um patamar mínimo de igualdade entre os membros da sociedade que outorgue a todos um leque razoável de opções para exercer sua capacidade de escolha e sua autonomia. Por outro lado, também nos países centrais, o mencionado critério de eqüidade foi muito importante para o surgimento dos

A democracia de cidadania, como dissemos, excede o regime político, o exercício dos direitos políticos. Ela precisa ampliar-se em direção aos direitos civis e sociais.

30 O processo de progressiva expansão de direitos, que nos países centrais incluiu a extensão da cidadania civil prévia à expansão da cidadania política, foi o pano de fundo histórico da idéia central do liberalismo político: o governo e o Estado devem ser limitados e constitucionalmente regulados, pois ambos existem para, e em nome de, indivíduos portadores de direitos subjetivos sancionados e respaldados pelo mesmo sistema legal que o Estado e o governo devem obedecer e do qual extraem sua autoridade. 31 Cidadãos políticos são aqueles que, dentro do território de um Estado que inclui um regime democrático, cumprem o critério respectivo de nacionalidade. Como derivação do regime democrático, os cidadãos políticos possuem dois tipos de direitos. Primeiro, liberdades tais como as de associação, expressão, movimento, acesso a informação pluralista e outras que, embora em última instância sejam não definíveis ex ante, em conjunto tornam possível a realização de eleições limpas, institucionalizadas e – hoje em dia – inclusivas. O segundo tipo de direito é de caráter participativo: eleger e eventualmente ser eleito ou nomeado para cargos estatais. Os cidadãos políticos, assim entendidos, são o lado individual de um regime democrático, e nenhum deles pode existir sem o outro. 32 Como ressalta T. H. Marshall (1965, p. 18): “A história dos direitos civis em seu período formativo é uma história de adição gradual de novos direitos a um status que já existia e que já pertencia a todos os membros adultos da comunidade”. Estes direitos civis são, em sua definição clássica de cidadania civil, “os direitos necessários para a liberdade individual-liberdade pessoal, liberdade de palavra, pensamento e fé, o direito a possuir propriedade e a terminar contratos válidos, e o direito à justiça” (ibid., pp. 10-11).
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direitos sociais.33 Novamente, ao longo de lutas freqüentemente árduas, diversos setores que haviam sido politicamente excluídos terminaram aceitando a democracia política em troca dos benefícios do bem-estar. Por meio da legislação social, e com avanços e retrocessos em termos das respectivas relações de poder, estas visões de eqüidade foram incorporadas aos sistemas legais. Os direitos sociais, sancionados pela legislação correspondente, uniram-se ao direito civil para expressar que a sociedade, e especialmente o Estado, não devem ser indiferentes, pelo menos nos casos em que existe severa privação de capacidades relevantes. Em resumo, nos países centrais, a questão das capacidades que habilitam a exercer a liberdade dos indivíduos foi encarada no âmbito dos direitos civis e sociais. A idéia que subjaz a essas construções legais é a da eqüidade, que, em termos de capacidades disponíveis e de ausência de coerção peremptória, considera os indivíduos como seres livres e responsavelmente capazes de escolher. Essa visão ficou inscrita na consciência moral da humanidade pela Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão.34 É importante destacar que a maioria desses direitos não foi simplesmente outorgada, que eles foram conquistados por meio de múltiplas lutas, conduzidas por setores sociais oprimidos, explorados e discriminados. Por esses caminhos complexos – tão simplificadamente resumidos – foram surgindo, nos países centrais, as instituições e práticas que hoje reconhecemos como democráticas. Poucos países da América Latina (Chile, Costa Rica e Uruguai) seguiram caminhos mais ou menos semelhantes. Nos

outros, apesar de cada um com suas significativas particularidades, encontramos uma situação muito diferente à descrita: alcançamos a enorme conquista dos direitos políticos, mas ainda falta muito para conseguir, para todos, uma expansão satisfatória dos direitos civis e sociais. Essa circunstância realça ainda mais a enorme importância da democracia e de seus direitos políticos para a América Latina. Eles são, têm que ser, o principal ponto de apoio das lutas para alcançar os outros direitos, ainda tão limitados e conferidos de maneira parcial na prática. Veremos ecos dessas afirmações nas seções empíricas deste Relatório. Estado e cidadania O Estado é um fenômeno histórico contemporâneo, para o qual convergem as lutas pelo poder e as lutas pelos direitos. Seu aparecimento foi marcado pela expropriação, por parte dos governantes, de um centro de poder emergente, dos meios de coerção, de administração e de legalidade que haviam sido até então controlados por outros atores. O surgimento do Estado foi contemporâneo da expansão do capitalismo, que incluiu outra expropriação, a dos produtores diretos dos meios de produção. Esse surgimento foi também contemporâneo da construção política da Nação como referência privilegiada das decisões estatais. Todos os Estados sustentam que sua autoridade emana de ser Estados-para-a-Nação (ou, em alguns casos, para-o-povo), cuja missão é atingir o bem comum – ou o interesse geral – de uma Nação interpretada homogeneamente, à qual tanto governantes quanto governados devem supostamente dar prioridade em suas lealdades.

33 Uma vez mais, de acordo com Marshall (1965, p. 72), os direitos sociais incluem “desde o direito ao bem-estar e à segurança econômica básica até o direito a participar plenamente do patrimônio social e viver a vida de um ser civilizado de acordo com o padrão predominante na sociedade”. Para uma discussão útil e detalhada de Marshall com respeito a esses direitos, ver José Nun, 2001. 34 Podemos agregar: o Prólogo e a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, e mais tarde, a Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas, o Acordo Internacional sobre Direitos Civis e Políticos; o Acordo Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais; a Declaração de Direitos Humanos de Viena, e muitos outros tratados e protocolos internacionais e regionais, todos eles ratificados por um grande número de países.

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1992. é pouco provável que um Estado não democrático seja capaz de garantir as liberdades fundamentais. pp. legalmente regulada. têm que ser. seu desempenho pode se desviar seriamente do cumprimento das responsabilidades que lhe foram formalmente A enorme importância da democracia e de seus direitos políticos para a América Latina: eles são. sua pretensão de ser verdadeiramente um Estadopara-a-Nação pode ser pouco verossímil para boa parte de sua população. No que se refere ao Estado como conjunto de burocracias. por outro lado. Norberto Bobbio. na correção ou reprodução dessas desigualdades. É também um conjunto de entes burocráticos. b) um sistema legal. Isto nos leva a considerar o papel crucial que o Estado tem. em suas várias dimensões. Esses aspectos do Estado são tendências que nenhum deles chegou a atingir completamente. o Estado é: a. o Estado também pretende garantir a continuidade histórica da unidade territorial respectiva. O grau de realização dessas dimensões em cada caso é uma variável historicamente contingente e. Dessa forma. Quanto ao sistema legal. usualmente concebida como uma Nação. como também. essa legalidade sanciona os direitos universais da cidadania política e civil. mas também o pressuposto jurídico do Estado democrático. que aspira a um alto grau de efetividade na regulação de relações sociais. o principal ponto de apoio das lutas para alcançar os outros direitos. 15-16. quadro 14 Estado liberal e Estado democrático O Estado liberal não é apenas o pressuposto histórico. na verdade. caem juntos. a resultante da organização hierárquica. entendemos um conjunto de instituições e relações sociais que cobre o território que ele delimita e sobre o qual exerce normalmente a supremacia no controle dos meios de coerção. Esta forma sanciona e respalda uma ordem social que inclui. uma trama institucional e administrativa com responsabilidades que formalmente visam a alcançar e a proteger algum aspecto do bem comum. os membros da Nação. e com crescente importância no mundo contemporâneo. de várias maneiras. uma trama de regras jurídicas que aspira a regular numerosas relações sociais. Um sistema legal. convida ao reconhecimento generalizado de um “nós”. Um âmbito em que se concentra e se concede a identidade coletiva para todos ou quase todos os habitantes do território. na linha que vai do liberalismo à democracia. 35 Mesmo sob um regime democrático. cujo funcionamento supostamente alcança eficácia no desempenho das funções que lhes são formalmente outorgadas. essa mesma legalidade sanciona dois tipos de desigualdades: uma. no sentido de que é indispensável o poder democrático para garantir a existência e a persistência das liberdades fundamentais. a dominação social de quem controla os meios de produção. a desigualdade resultante do fato de que esta mesma legalidade dá forma à condição capitalista da sociedade. para os habitantes de seu território. 2002b). Portanto. O desenvolvimento da democracia na América Latina 63 . o controle dos circuitos do capital financeiro. Estado liberal e Estado democrático são interdependentes em duas formas: 1. Esta definição permite entender o Estado como: a) um foco de identidade coletiva para os habitantes de um território – aí reside sua credibilidade. 2) na linha oposta. ao mesmo tempo que promulga algumas igualdades democráticas fundamentais. A prova histórica dessa interdependência está no fato de que quando o Estado liberal e o Estado democrático caem. pode per se ter carências e/ou não se ampliar efetivamente a diversas relações sociais e também a vastas regiões. problemática (O’Donnell. Por outro. Juntas. as burocracias do Estado e sua legalidade pretendem gerar. e c) um conjunto de burocracias. bem como do respaldo ou da autorização que o sistema legal outorga a outras instituições privadas que também estão hierarquicamente organizadas. a legalidade do Estado é uma mistura complexa de igualdade e desigualdade. b. das instituições burocráticas do Estado. Por um lado. no sentido de que são necessárias certas liberdades para o correto exercício do poder democrático. outra. No que diz respeito ao Estado como foco de identidade coletiva.35 c. Em outras palavras: é improvável que um Estado não liberal possa garantir um correto funcionamento da democracia e. o grande bem público da ordem e da previsibilidade das relações sociais em que os habitantes estão imersos.Por Estado. a que vai da democracia ao liberalismo.

nos interessa ressaltar que a democracia política surgiu e continuou existindo com e no marco do Estado nacional.. 123) concorda: “O Estado nacional soberano é a grande premissa não examinada do pensamento liberal. criando um sistema de centros de poder múltiplos e esferas de autoridade superpostas – uma ordem pósWestfalia. e sancionam os direitos participativos correspondentes a tais eleições. movimento e acesso a meios de comunicação razoavelmente livres e plurais.quadro 15 O Estado: pressuposto da democracia O Estado – como instituição na qual se reconhece a identidade coletiva. Sejam quais forem as conquistas e carências nestas três dimensões. 64 A democracia na América Latina . p. praticamente todos os países latino-americanos satisfazem a definição mínima de democracia. Contudo.. 36 Greenfeld. 1996. e a cidadania implícita. a democracia política contemporânea implica uma cidadania de dupla face: a cidadania (potencialmente) ativa e participativa própria da democracia.37 “Estatalidad” truncada e fragilidade democrática Como já vimos. 1999. e afirmam a supremacia dos poderes constitucionais sobre os poderes fáticos. sustentada em última instância por sua capacidade de coerção. independentemente dessa conexão. 2002a e Canovan. institucionalizadas e inclusivas. 7. assim como também existem variações significativas quanto ao outorgadas. por outro. p. […] A instituição do Estado-nação é tacitamente pressuposta pelos ideais liberais da cidadania”. é preciso reconhecer que os novos padrões de mudança regional e global estão transformando o contexto da ação política. As duas estão fundamentalmente inter-relacionadas e nenhuma delas pode ser verdadeiramente entendida quadro 16 Estado e globalização A globalização econômica de nenhuma maneira se traduz necessariamente na diminuição do poder do Estado. realizam eleições razoavelmente limpas. Guillermo O’Donnell. associação.] No entanto. não voluntária. sustentam a vigência de algumas liberdades políticas fundamentais. há variações quanto ao grau em que os atributos mencionados são realmente cumpridos. Desde o início. […] Há muitas e boas razões para ter dúvidas sobre as bases empíricas e teóricas de algumas afirmações de que o Estado-nação está sendo eclipsado pelos padrões contemporâneos da globalização. que resulta do fato de pertencer a uma nação. altamente burocratizada e densamente legalizada – é a premissa histórica e social da democracia. na verdade está transformando as condições sob as quais o poder do Estado é exercido. especialmente de opinião.”36 Isso ressalta a importância que o Estado e a Nação tiveram e continuam tendo para a existência e o funcionamento da democracia. 441. Eles têm em comum duas características: por um lado. texto elaborado para o PRODDAL. 2002c. baseada em um território. John Gray (2000. David Held. 1992.[. Foi devido a esta interseção que a “democracia nasceu com um sentido de nacionalidade. expressão. pela primeira vez em dois séculos de vida independente. p. 37 Maíz.

muitos não possuem os direitos sociais básicos. Não gozam de proteção contra a violência policial e contra várias formas de violência privada. Esse sistema legal truncado gera o que se denominou de uma cidadania de baixa intensidade. muitos de nossos países têm um regime democrático que coexiste com uma legalidade intermitente e parcial. em geral. isso ocorreu sob um regime democrático. às vezes. CELS 2001. são alguns dos fatores que convergiram para gerar um Estado anêmico. Acreditamos que a esta imagem subjaz outro fato ao qual não foi dada a devida atenção nas recentes discussões: nas duas últimas décadas o Estado debilitou-se enormemente e. o Estado debilitou-se enormemente e. das quais a marrom se refere a zonas em que a legalidade do Estado é apenas satisfatória. a corrupção e o clientelismo amplamente difundidos em não poucos países. com poucas e parciais exceções. ver. o Estado latino-americano atual.38 Todos nós temos os direitos políticos e as liberdades que correspondem ao regime democrático. mas também legalmente pobres. são forçados a viver uma vida não só de pobreza. e. em sua credibilidade como Estado-para-aNação. 1993). a avaliação social sobre o rendimento institucional e o grau de desenvolvimento de nossas democracias é sumamente crítica. tem grande dificuldade em projetar um futuro que. 39 Os relatórios de vários organismos de direitos humanos repetida e abundantemente documentam a ameaça permanente de violência a que as pessoas estão submetidas. 38 Ver O’Donnell (1993) onde se traça um mapa metafórico de “zonas azuis. ao mesmo tempo em que abriga regimes democráticos. Para o caso do Brasil. entre outros. um estudo que analisa vários conjuntos de dados sobre crime violento encontrou em todos eles uma correlação positiva. Esse déficit torna-se ainda mais agudo se parte desses Nas duas últimas décadas. com freqüência. nos últimos anos. Uma razão para isso é que.grau em que o Estado e seu sistema legal cobrem a totalidade do território desses países. mas também de recorrente humilhação e medo da violência. O déficit de credibilidade do Estado é resultado da ineficácia operacional de suas instituições e. da violência com a pobreza e a desigualdade de renda (Hsieh e Pugh. forte e persistente. entre outros. o fervoroso antiestatismo de muitos programas de reformas econômicas. Com déficits tão importantes na eficácia de suas instituições. contudo. Mas.39 Esses setores não são apenas materialmente pobres. inclusive aos tribunais. em algumas zonas dentro de nossos países. na efetividade de seu sistema legal e. ele costuma ser aplicado com características discriminatórias contra várias minorias e também maiorias. Esta anemia também se manifesta no sistema legal. Em geral. virtualmente evaporou-se. Este tipo de Estado de baixa capacidade é um velho problema da América Latina. (1999) que documentam que a incidência de mortes violentas nas regiões mais pobres da cidade de São Paulo é dezesseis vezes maior que nas regiões mais ricas. são os que operam na prática. tais como as mulheres. Seus domicílios são invadidos arbitrariamente. Crises econômicas. apareça para a maioria da população como realizável e valioso. ver. Dellasoppa et al. A esses setores também são negados de fato direitos civis não menos básicos. dificilmente podese argumentar que sejam coerentes com algum tipo de interesse geral. certas etnias e os pobres. de sua ostensiva colonização por parte de interesses privados que. No entanto. não menos importante. em algumas zonas dentro de nossos países. Não conseguem acesso igualitário e respeitoso às burocracias do Estado. basicamente variações da legalidade mafiosa. Até mesmo em regiões onde o sistema legal tem atuação. Neste contexto. A legalidade do Estado não alcança vastas regiões de nossos países (e parte de suas cidades). os governos eleitos democraticamente às vezes parecem incapazes ou não dispostos a encarar questões básicas de desenvolvimento. embora não possa resolver rapidamente muitas das injustiças e desigualdades existentes. onde outros tipos de legalidade. em vários casos. a opinião pública indica que as instituições e os governantes não estão tendo um bom desempenho. O desenvolvimento da democracia na América Latina 65 . virtualmente evaporou-se. para dados sobre a Argentina. transformou-se em um problema ainda mais sério e. De fato. verdes e marrons”. em geral. bem como de desigualdade e de insegurança.

Isso não é da globalização verdade e. a América Latina apresenta um padrão bastante único. os países precisam mais do que países precisam nunca de Estados-para-suas-nações. esse objetivo está travado por fatores que. “Ninguém […] pode gozar completamente de nenhum direito. embora já mencionados na discussão precedente. como também os subnacionais são democráticos. é um ativo reprodutor de desigualdade e uma grande barreira à expansão de direitos civis e sociais. Mas não podemos nos deter neste aspecto no presente Relatório. para quê e com quem reformá-lo) na perspectiva estratégica. Além disso. em certas ocasiões. O que a teoria democrática tem a dizer em relação a isso? Infelizmente. Esse mais do que nunca Estado não deve ser grande ou pesado. de caráter nacional. Essas teorias deixam implícito que. não apenas os regimes nacionais. em absoluto. certamente. os direitos civis eram razoavelmente satisfatórios e atingiam praticamente a toda a sociedade antes da adoção da inclusividade e da universalização dos direitos políticos. eminentemente política. Nesse sentido.interesses não for. uma condição necessária para um Estado capaz de construir democracia e eqüidade social é que alcance níveis razoáveis de eficácia. embora importante. Em termos das trajetórias históricas da democracia. os tão fortes. Por isso. assimilar e reorientar muitos aspectos e conseqüências da globalização. a visão neutra é uma maneira de argumentar a favor de um tipo de Estado que. conseqüentemente. se o objetivo for entender o funcionamento das respectivas democracias e dos principais desafios para seu desenvolvimento. No entanto. Na América Latina. É por todas essas razões que acreditamos ser tão importante inscrever a discussão sobre o Estado (incluindo por quê. do desenvolvimento da democracia. No entanto. nesses países. eles são parte de interesses extraterritoriais – públicos e privados – e das tendências relativamente anônimas da globalização econômica. Na verdade. Alguns tentaram explicar o enfraquecimento dos Estados na América Latina como uma conseqüência inevitável da globalização. efetividade e credibilidade. seletivamente aos mais irresistíveis e assimilando e reorientando outros. quando essas dimensões da cidadania são intermitentes ou estão distribuídas irregularmente pelos diversos setores sociais ou até pelo próprio território do Estado. Em suas três dimensões. os Estados Unidos são uma exceção parcial. adaptando-se suas-nações. a observação dos Estados de países centrais que contam com arraigadas instituições e práticas democráticas mostra quão ativamente eles procuram processar. é até interesseiro. de suas omissões. que supostamente possui. por meio de suas políticas e. Especificidade histórica das democracias latino-americanas Os problemas que discutimos até agora são comuns a muitas das novas e não tão novas democracias no mundo contemporâneo. é preciso ressaltar que não existe Estado neutro. a esta altura. isso se deve a que a maioria das teorias sobre a democracia foi formulada no marco da experiência histórica dos países europeus e dos Estados Unidos. requerem especial consideração.40 Deveria ser óbvio. é crucial considerá-las cuidadosamente. se não conta com os elementos essenciais para uma vida razoavelmente 40 Na realidade. 66 A democracia na América Latina . não muito. capaz de processar os de Estados-paraimpactos da globalização. diante da qual só seria possível e Como os ventos desejável uma adaptação passiva. Deve ser um Estado forte. a esta afirmação. pressupõem que a legalidade do Estado se estende homogeneamente a todo o território e que. Como os ventos da globalização são são tão fortes. No entanto. que essas suposições não se ajustam à trajetória histórica e à situação atual da América Latina. na verdade. o Estado é um espaço de condensação complexa e de mediação de forças sociais. Em grande parte. uma conceitualização da democracia restrita ao regime pode ser aceitável desde que pressuponha que as cidadanias civil e social não são problemáticas.

tanto reais quanto formais. o bem-estar e a dignidade de todas as pessoas em todos os lugares. também se tornou explícita no pensamento sobre o desenvolvimento humano. 2000b. Como afirma Amartya Sen no Relatório do Desenvolvimento Humano de 2000: “Os direitos humanos e o desenvolvimento humano compartilham uma visão comum e um propósito comum: assegurar a liberdade. esses direitos foram realizados como direitos civis muito antes de serem “promovidos” à condição de direitos políticos. Nussbaum. dar continuidade a “Os direitos humanos e o desenvolvimento humano compartilham uma visão comum e um propósito comum: assegurar a liberdade. e em segundo lugar. nos diferentes países. tais como: investir na infra-estrutura básica. assumindo responsavelmente as conseqüências de tais escolhas. aumentar a produtividade agrícola. poderíamos traçar uma linha firme e clara acima da qual a cidadania poderia ser razoavelmente exercida em termos de direitos e capacidades? Que direitos e capacidades seriam imprescindíveis para gozar plenamente da cidadania? Essas questões deram lugar a longos debates. 46 PNUD. 1996. p. Esse autor (1998. outras dimensões como a satisfação das necessidades básicas – alimentação e moradia. “seria inconsistente reconhecer direitos referentes à vida ou à integridade física quando os meios necessários para o exercício e gozo desses direitos são omitidos”. a autonomia pública e privada pressupõem-se mutuamente. suprimir seus direitos políticos. à saúde e ao trabalho. Esses direitos também são exercidos em espaços sociais muito distintos. 2000c. investir na saúde e na educação. associação. tem direito a ser respeitado em sua dignidade. 1996. 43 Ver Shue. Atingir os Objetivos do Milênio na região Latino-americana significa levar adiante uma série de políticas públicas muito precisas. de tal maneira que nem os direitos humanos nem a soberania popular podem exigir primazia sobre sua contraparte”. 332). são atos que negam severamente sua condição de cidadão. 45 Como escreve Habermas (1999. sujeito-ator da democracia. na realidade. promover a pequena e média empresa. 7 (itálico no original). movimento e similares) são. seguridade social e meioambiente – recebem tratamentos desiguais. segmentos de direitos civis mais amplos – e antigos. pelo fato de ser um cidadão. sustentamos duas afirmações: primeiramente. adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 2000. é clara já nas origens da tradição dos direitos humanos e. Submeter esse indivíduo à violência física ou a privação de necessidades materiais básicas. que é impossível definir teoricamente de modo geral e universal o conjunto mínimo e suficiente desses direitos. e que os direitos de cidadania na esfera política. O desenvolvimento da democracia na América Latina 67 . que essas liberdades (de expressão. 1.“sem direitos básicos que garantam a autonomia privada dos cidadãos. fomentar a indústria. Essa visão das condições mínimas que facultam a capacidade para escolher entre diversas opções. o que se refere às liberdades políticas. 2001.45 Um indivíduo. também não haveria meio algum para a institucionalização legal das condições sob as quais esses cidadãos fizessem uso de sua autonomia pública”. p. e baseado em que critério. e também tem direito à provisão social das condições necessárias para exercer livremente todos os aspectos e as atividades de sua sociabilidade. Precisamente.42 Essas afirmações se referem às capacidades que facilitam ou dificultam o exercício dos direitos inerentes à condição de cidadãos. dificilmente podem ser realizados se os indivíduos não possuem direitos sociais e civis “básicos”. mais recentemente. 44 Nos países europeus e nos Estados Unidos. p.44 Já argumentamos que esses direitos correspondem a todos os seres humanos. Sobre esse tema. esta priorização acompanha os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio que emanam da Declaração do Milênio.”41 Como conseqüência. p. ou ainda. p. 261) afirma que: “Portanto. 102. Onde.46 Embora as constituições da América Latina consagrem os direitos à educação.saudável e ativa. além do âmbito do regime.” 41 Shue. 42 Vázquez.43 Nesse ponto é necessário voltar a um aspecto dessas discussões. o bem-estar e a dignidade de todas as pessoas em todos os lugares”.

■ Reduzir à metade. 4. 68 A democracia na América Latina . até 2015 . COMBATER O HIV/AIDS. meninos de todo o mundo possam completar um ciclo completo de educação primária. 7. 6. mas incluam também a área social. a proporção proporção de pessoas com renda inferior a 1 dólar por dia. Essa é a mesma visão que. até 2015. previsível e não-discriminatório. ■ Em cooperação com o setor privado. até 2015. A MALÁRIA E OUTRAS DOENÇAS ■ Deter e começar a reduzir. os quadro 17 Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs) 1.uma política pública de sustentabilidade ambiental. GARANTIR A SUSTENTABILIDADE DO MEIO AMBIENTE ■ Integrar os princípios de desenvolvimen- tica. subjaz a nossa concepção de democracia. 3. em que os direitos e as obrigações não se limitem apenas ao campo político e civil. ESTABELECER UMA PARCERIA MUNDIAL PARA O DESENVOLVIMENTO ■ Desenvolver ainda mais um sistema comer- cação primária e secundária. elaborar e aplicar estratégias que proporcionem aos jovens trabalho digno e produtivo. REDUZIR A MORTALIDADE INFANTIL ■ Reduzir em dois terços. preferencialmente até 2005. e em todos os níveis de educação antes do fim de 2015. 2. a incidência de malária e outras doenças graves. até 2020. entre 1990 e 2015. como vimos. Essas políticas pressu- põem a ação do cidadão como indivíduo. to sustentável nos programas e políticas empenhar-se para que possam ser aproveitados os benefícios de novas tecnologias. manter a democracia dentro do estado de direito e aprofundá-la. ■ Encarar por um prisma geral os problemas dade materna. ■ Ter atingido. baseado em normas. ERRADICAR A EXTREMA POBREZA E FOME ■ Reduzir à metade. como ator político que se expressa por meio de representantes e – nas circunstâncias previstas – diretamente. e como integrante da sociedade. assim como a proporção de pessoas que passam fome. Essas políticas requerem um Estado com capacidade de ação. significativa melhoria nas condições de vida de pelo menos 100 milhões de moradores dos bairros mais precários. a nacionais e reverter a perda de recursos ambientais. Todos estes direitos – os direitos civis e sua conexão com os direitos humanos. entre 1990 e 2015. PROMOVER A IGUALDADE DE GÊNEROS E A AUTONOMIA DAS MULHERES ■ Eliminar as disparidades de gênero na edu- 8. o que significa a necessidade de chegar a consensos políticos. entre 1990 a 2015. MELHORAR A SAÚDE MATERNA ■ Reduzir em três quartos a taxa de mortali- países menos desenvolvidos e dos países sem acesso ao mar ou dos pequenos Estados insulares em desenvolvimento. atuando em sua comunidade e nas associações voluntárias que formam a rica trama da sociedade civil. e especialmente as da informação e das comunicações. proporcionar acesso aos medicamentos essenciais nos países em desenvolvimento. 5. ■ Em cooperação com a indústria farmacêu- pagação do HIV/AIDS. tendo como meta chegar a uma sociedade em que a cidadania seja integral. a pro- relativos a dívidas de países em desenvolvimento. ■ Atender às necessidades especiais dos a taxa de mortalidade de crianças menores de 5 anos. as meninas e os de pessoas sem acesso sustentável à água potável. cial e financeiro aberto. ATINGIR O ENSINO BÁSICO UNIVERSAL ■ Assegurar que.

cria oportunidades favoráveis para sua conquista. que não cumprem com esta suposição. discute-se sobre os princípios de liberdade e/ou de eqüidade que deveriam regular a atribuição dos bens sociais. por alguma razão. Por exemplo. Como veremos adiante. pp. as mulheres e outros eram. [e também. foram os que tiveram mais influência nas últimas décadas. e os direitos políticos e sua conexão com a democracia – facilitam e promovem o exercício da cidadania. 152. que eram justificadas com o argumento de que os trabalhadores. pelo menos no mundo anglo-saxão (Rawls. 45. pelo menos. ao menos. 1971. Contudo. se necessário. sustenta48 que a democracia tem valor construtivo. a crescente aceitação de que todos nós. em algum sentido essencial. quando todos os cidadãos. os seres humanos. devido a sua condição de ser humano. um patamar básico de direitos e capacidades que eliminem. apesar de menos explícita. os indivíduos como seres autônomos. nota de rodapé) comenta corretamente: “A maior parte da teoria ética contemporânea assume no começo da indagação que essas necessidades [básicas] foram realizadas”. ao menos. Por igualamento básico entendemos o direito de cada um a. somos. razoáveis e responsáveis. em geral. 542-543. Essas razões fazem referência a um aspecto primário da eqüidade: não igualdade plena. ou conjunto básico de direitos e capacidades. Apesar do grande número de horrores e desigualdades ainda existentes. sociais e políticos mudou ao longo do tempo. para demandar capacidades e direitos básicos que facilitem a todos os cidadãos o exercício de sua cidadania. p. as privações que impedem o exercício das opções responsáveis e das liberdades que elas implicam. e também direitos acionáveis. “empurra” em direção ao êxito dos outros ou. ou uma grande maioria. Isso suscita a pergunta sobre se existem boas razões para afirmar um direito universal para chegar a um nível. 48 Sen. o critério relevante para a atribuição de direitos civis. Com respeito a isso. nos parece inevitável a pergunta sobre se existe ou não obrigação moral. a questão principal refere-se aos cidadãos que não gozam desses direitos e capacidades básicas. parece inegável que a democracia possibilita o melhor contexto possível para a sua discussão. Sustentamos que essas razões existem e que o fundamento delas é ver os cidadãos e.47 Na América Latina. pois “mesmo a idéia de ‘necessidades’. a mesma suposição está claramente contida no trabalho de Habermas. incluindo o entendimento de ‘necessidades econômicas’. Esta suposição é explícita nos trabalhos de filosofia política que. Seja qualquer for a resposta a essa questão. requer discussão 47 Dasgupta (1993. sua teoria da justiça é considerada aplicável em países onde “apenas as necessidades materiais menos urgentes ainda não foram satisfeitas”. O desenvolvimento da democracia na América Latina 69 . precisamente. porque cada um. iguais. mas igualdade básica. por meio do Estado ou da previdência social. até países centrais conviveram por longo tempo com enormes desigualdades. Sen argumenta que “a participação [democrática] política e social tem valor intrínseco para a vida humana e o bem-estar. A questão pendente é o que pode ser dito de países. Nos países centrais.] valor instrumental ao melhorar a possibilidade de as pessoas serem escutadas […] em suas reivindicações de atenção política [incluindo demandas sobre necessidades econômicas]”. inclusive os que incluem um regime democrático. 2001). intrinsecamente “inferiores”. é uma grande conquista da humanidade. para uma reafirmação explícita dessa suposição. obter. Por sua vez. Esse autor. 1999a. ou alguma combinação deles. alcançaram um nível básico de direitos e capacidades. De quanta cidadania uma democracia precisa As afirmações do item anterior não se detêm em várias discussões filosóficas e éticas que estão centradas na questão do equilíbrio entre liberdade e igualdade. além disso. Essas são questões extremamente importantes que excedem o âmbito do presente Relatório. Reconhecemos que nesse plano existem complexas e árduas disputas. duas coisas: ser tratado com eqüidade e consideração. p. ver Rawls. Isso ocorre assim. 10 (itálico no original). pode-se dizer.direitos sociais e sua conexão com o desenvolvimento humano.

55) conclui que “os direitos [são] produtos históricos. objeto de disputas. ressaltar o que foi dito anteriormente porque. É importante para nós. Qual é a resposta para esses problemas. pelo menos da política em suas melhores expressões. São questões políticas. Giovanni Sartori. celebrar e promover as disputas e os acordos que tal pluralidade de vozes e interesses admite. 1996. são. p. É preciso 49 Ibid. são também centrais para a conceituação das necessidades econômicas em si mesmas”. se um país é pobre. visões e análises […]. seu grau de especificidade. 1990. Uma discussão detalhada dessa questão depende de uma avaliação país por país. imbuídas de diferentes valores e ideologias. 11. 1998b. p. 50 Ver Tille. Mesmo quando estiverem embasados em características universais do ser humano. o conteúdo dos direitos. mais democracia. p. a prioridade relativa de uns sobre outros e outras questões desse tipo. em que medida devem ser implementadas e qual é o equilíbrio que se estabelece com os outros direitos e obrigações. É por isso também que a democracia é e admite ser um horizonte aberto. que devem ser tratadas em termos do reconhecimento de responsabilidades estatais e coletivas. determinar quais são as reivindicações e as necessidades que devem ser transformadas em direitos. 51 Nussbaum.51 em termos de um conjunto básico de direitos civis e sociais para todos os habitantes? Desse modo. O que seria “um mínimo social decente”. incluindo a liberdade de expressão e discussão. cada vez mais também sobre o funcionamento do sistema global. e quais não são inscritos no sistema legal ou permanecem como letra morta. que direitos são sancionados e implementados. 2000a. 70 A democracia na América Latina . interesses e espaços sociais que ela sustenta. quais seriam as seqüências e trajetórias adequadas para alcançar esse mínimo?52 As necessidades e respectivas privações não são apenas o sofrimento de indivíduos isolados. mesmo dentro da América Latina há variações importantes nessa questão. Existem demasiadas preferências contrapostas. são questões sociais. 4. […] Em uma democracia. teorias sobre o que é justo ou eqüitativo.50 quadro 18 A democracia: uma tensão entre fatos e valores O que a democracia é não pode ser separado do que a democracia deveria ser. resultados das lutas”. Corresponde à democracia. é onde há mais dificuldade de incorporar essas questões à agenda pública.. 125.49 Portanto. e com que intensidade e alcance. uma conseqüência da liberdade e da diversidade de projetos de vida. pública e intercâmbio de informação. nos países onde mais se precisa discutir amplamente sobre necessidades e demandas e sua possível conversão em direitos acionáveis. não são fundamentais apenas para induzir respostas sociais a necessidades econômicas. O autor (1998b. 52 Como Tavares de Almeida (2002) argumenta. 1967. e sempre serão. é uma construção social decorrente da política. no qual ocorrem incessantemente as lutas pela definição e redefinição de direitos e obrigações. que deveriam ser consideradas ao traçar possíveis seqüências e trajetórias. hoje em dia. paradoxalmente. p. Este é um fato da vida social. Os direitos políticos. restrições e incertezas? Simplesmente. A questão crucial é quem decide. tem um Estado anêmico e um sistema legal truncado. para que qualquer uma dessas questões possa ser clara e completamente resolvida. e interesses sociais e posições. que é uma tarefa que excede as possibilidades do presente Relatório. pontos de vista. a tensão entre fatos e valores alcança o ponto mais alto. como e sobre que base.É por isso que a democracia é e admite ser um horizonte aberto. no qual ocorrem incessantemente as lutas pela definição e redefinição de direitos e obrigações. de teorias mais ou menos implícitas sobre o funcionamento de uma determinada sociedade e. e especificamente à política democrática. seu alcance.

Nessa análise. Sob este ângulo. Nesse regime encontramos o cidadão legalmente respaldado e reconhecido como sujeito na democracia política. porém. Ela é. Touraine (1994) destaca que os trabalhadores europeus obtiveram seus direitos sociais lutando por princípios gerais. como alavanca para a indispensável extensão de direitos civis e sociais.53 a disponibilidade de direitos políticos preveniu a fome.. Na experiência histórica da humanidade. especialmente como sustento das liberdades que são a cara social dos direitos individuais de cidadania. Explicitamos até aqui o fio condutor que guia este Relatório. […] Os direitos políticos. a observação de dados seria desarticulada e provavelmente não nos guiaria em nossa busca. sociais e políticos. cidadania e Estado. Essas idéias serviram de base. a uma busca empírica. 1999a. do desenvolvimento da cidadania e do poder. De modo que indagar como os quadro 19 A informação: uma necessidade básica A idéia de necessidades. mostramos as potencialidades políticas e normativas da democracia. Essa tese foi baseada na afirmação de que a democracia significa não apenas cidadania política. Por outro lado. há uma clara afinidade eletiva entre os direitos civis. Na maioria desses aspectos observamos que as democracias da América Latina contemporânea apresentam deficiências. ignora ou reprime. visões e análises. Por outro lado. a noção de desenvolvimento da democracia baseia-se em um pressuposto fundamental: a existência de um regime democrático. encontramos as características e raízes comuns dos direitos políticos. por sua vez. Exploramos de modo sucinto as bases conceituais nas quais se alicerça a afirmação de que o desafio global do relançamento democrático é a passagem da democracia eleitoral à democracia de cidadania.promover a abordagem desses temas na agenda pública porque é aí que são definidas as necessidades “reais” que um país enfrenta.54 Estes e muitos outros processos mostram como diversos direitos tendem a ser invocados e reforçados entre si. Afirmamos também que a existência de um contexto diverso e plural. incluindo o entendimento de necessidades econômicas. mesmo dentro do marco das restrições existentes na atualidade. incluindo a liberdade de expressão e discussão. 1999a. e foram desenvolvidos os principais argumentos da íntima vinculação entre a idéia de democracia. cit. também. é outro aspecto fundamental da democracia. eles são fundamentais para a conceitualização das necessidades econômicas em si mesmas. Sem elas. sua extensão deu às mulheres e a algumas minorias um trampolim importante para adquirir outros direitos civis e sociais. O desenvolvimento da democracia na América Latina 71 . agora que contamos com uma notável extensão dos direitos políticos. a democracia pode ser concebida como um conjunto de princípios gerais de organização da sociedade. a noção de cidadania nos indicou que o caráter democrático é também um atributo do Estado. como a liberdade e a justiça. O próximo passo consiste na observação empírica do regime democrático. mas também. a extensão dos direitos civis impulsionou a conquista de direitos sociais e políticos. respaldado por um sistema legal consoante com o mesmo. a princi- 53 Por exemplo. No que diz respeito à América Latina. civis e sociais. deveríamos usá-los não apenas no que se refere ao regime. Prosseguindo nessa busca. não são somente fundamentais para induzir respostas sociais a necessidades econômicas. A força que impulsiona essas relações é finalmente moral: o reconhecimento de que uma pessoa não deve ser privada de nenhum dos direitos e capacidades que normalmente a habilitam a atuar de modo livre e responsável. mas também civil e social. os avanços nos direitos civis e sociais dos setores populares tornaram muito difícil resistir aos pedidos de cidadania política. requer informação pública e intercâmbio de informação. Amartya Sen. 54 Como argumenta Sen em sua op.

onde serão elaboradas as idéias centrais dos dois principais desafios da democracia latinoamericana: garantir a liberdade e ampliar a cidadania de seus habitantes. A possibilidade que. mesmo as que sofrem sérias deficiências. cidadãos percebem a democracia em suas vidas. finalmente. são os eixos da pesquisa empírica que se desenvolve no próximo capítulo.O desafio global do relançamento democrático é a passagem da democracia eleitoral à democracia de cidadania. construir os indicadores do regime político e do desenvolvimento de cidadania e. Finalmente. o leitor poderá apreciar as idéias dessas primeiras páginas. a democracia cria para lutar contra essas injustiças e desigualdades faz dela um horizonte sempre aberto. fazem com que a democracia. pal alavanca para tentar superar injustiças e desigualdades. Aí encontraremos a matéria das teses que foram levantadas até aqui. com suas liberdades. consultar os que conhecem o poder. juntamente com os resultados empíricos da segunda seção. 72 A democracia na América Latina . Essa abertura e a dinâmica que permite. os limites do Estado e os governos. na terceira parte deste Relatório. seja um bem imensamente valioso pelo qual vale a pena esforçar-se para preservar e expandir.

os poderes fáticos. realizadas com 231 dirigentes políticos e sociais latino-americanos. Bases empíricas do Relatório 73 . b. embora esta preferência não implique um claro e sustentado apoio. Esta seção contém: a. e inclui também um estudo de outros indicadores de cidadania política. indaga-se e analisa-se seu correlato empírico. c. os controles ao exercício do poder. com base em uma pesquisa de opinião de 19. procedimentos e instituições que determinam as formas de acesso à cúpula do Estado). Inclui um índice de democracia eleitoral (IDE). As consultas incluíram temas como a participação política. que indica que a América Latina progrediu visivelmente quanto à eleição democrática de governos. A análise revela uma clara preferência pela democracia em relação a outras formas de governo. os poderes ilegais.segunda seção Bases empíricas do Relatório A partir da apresentação dos fundamentos teóricos do Relatório e da caracterização da singularidade das democracias latino-americanas. e um conjunto de indicadores de cidadania social em que se observam apenas pequenos avanços em alguns temas e agudas deficiências em outros. Um conjunto de indicadores de cidadania civil que revela que o progresso representado pelo reconhecimento formal dos direitos não está necessariamente acompanhado por sua vigência real. d. Uma análise da rodada de consultas sobre aspectos centrais da democracia. Uma análise da visão dos latino-americanos sobre sua democracia. tal como o índice de apoio cidadão à democracia (IAD) e os perfis de intensidade cidadã evidenciam. os poderes políticos formais e a construção de uma agenda para o fortalecimento da democracia. o papel dos partidos políticos.508 pessoas interessadas nos dezoito países considerados. Um olhar dirigido ao regime democrático no sentido estrito (regras. dentre eles. um grupo destacado de presidentes e vice-presidentes.

74 A democracia na América Latina .

O marco teórico propõe. Uma mudança nos componentes que constituem o índice poderia modificar o seu valor. que a democracia inclui o regime político. Fazem referência ao momento em que a medição foi realizada e não devem ser considerados como uma qualificação da situação atual. Esse fenômeno adquire particular relevância quando ocorrem medições únicas ou iniciais. Conseqüentemente. civil e social Foi construído para esta seção um conjunto de indicadores para descrever a atual situação da democracia na América Latina. os indicadores apontam vários aspectos ou dimensões da democracia. ofere- 75 . delinear um panorama detalhado. mediante diversos direitos políticos. esse complexo processo de construção Bases empíricas do Relatório Cidadania política. Esta realidade complexa não pode se resumir adequadamente em um único índice. d. dificilmente podem ser incorporados por meio de medições quantitativas e são melhor compreendidos com um enfoque qualitativo. Para captar essa complexidade foram reunidos diferentes indicadores. b. a interpretação e o uso desses indicadores devem basear-se nas notas metodológicas incluídas ao final do Relatório. porém não se esgota nele. que deve ser levado em conta no momento de interpretar os dados. Existe um lapso normal entre o momento da medição e sua posterior análise e publicação. c.■ Indicadores de desenvolvimento da democracia cem uma visão parcial da realidade e não esgotam o significado dos conceitos medidos. não são apresentadas classificações precisas. alguns realmente essenciais para captar a singularidade de cada país. e por isso não devem ser interpretados como qualificações das autoridades eleitas. em mais de um caso. em seu conjunto. Os indicadores tentam iluminar o amplo cenário em que os representantes eleitos e outros atores atuam. Por razões metodológicas básicas não se apresenta um índice único nem uma classificação de países. outros em políticas e outros em resultados. É importante fazer alguns esclarecimentos a respeito dos dados aqui apresentados: a. alguns com o foco em processos. e essa relevância diminui quando se conta com séries históricas ou medições reiteradas ao longo de períodos prolongados. Não proporcionam um sistema de qualificação dos governos latino-americanos. Não constroem um índice ou ranking único de países. Certos aspectos. Os dados selecionados que compõem os diversos indicadores obedecem ao processo de construção do índice. Os novos índices apresentados neste Relatório significam uma primeira aproximação qualitativa e quantitativa a fenômenos sociais e políticos complexos. Além disso. Levando em consideração esse ponto de partida. a informação disponível diz respeito apenas a uma conjuntura e não a um período longo sobre o qual podem ser identificadas tendências. como tese fundamental. e. Os valores atribuídos às variáveis que compõem os índices fundamentam-se em um processo de codificação realizado por analistas. Além disso. Embora eles possam. Apresentam medições parciais de uma realidade complexa. Tampouco se trata de comparar os diferentes países entre si. que pressupõem a inexistência de erros. Apesar do cuidado ao atribuir valores semelhantes a situações semelhantes. como os indicadores sempre captam a realidade com um certo grau de incerteza. O alcance. civis e sociais. na leitura dos resultados. existe uma margem de variabilidade vinculada à apreciação de cada analista acerca da realidade em questão.

tal como está refletido na seguinte árvore conceitual: Índice de Democracia Eleitoral (IDE) Direito de voto Todos os adultos em um país têm direito de voto ? Eleições limpas O processo eleitoral desenvolve-se sem irregularidades que possam influir na expressão autônoma das preferências dos votantes por candidatos e alterem a contagem fidedigna dos votos emitidos? Eleições livres É oferecido ao eleitorado um leque de alternativas que não são influenciadas por restrições legais ou de fato? Cargos públicos eleitos As eleições são o meio de acesso aos principais cargos públicos de um país. Um passo importante na discussão dessa metodologia foi dado na publicação do PNUD. iniciou-se um debate sobre o possível uso de medições da democracia 76 A democracia na América Latina . O PRODDAL considera que ainda não existe suficiente consenso e uma metodologia comprovada e adequada para justificar a tomada desse tipo de decisões sobre a base de medidas de democracia. O IDE apresenta uma agregação de quatro componentes considerados essenciais em um regime democrático. Relatório do Desenvolvimento Humano 2002. Um exemplo é o Millenium Challenge Accoumt (MCA) do Governo dos Estados Unidos. o Executivo e o Legislativo nacional. construído para o Relatório.deve ser levado em conta. O IDE é um insumo para o processo de discussão e análise da realidade latinoamericana e não deve ser considerado como uma medida completa da democracia. cuja explicação encontrase na nota técnica do compêndio estatístico. medidas de democracia e de estado de direito elaboradas pela Freedom House e pelo Banco Mundial. isto é. Este tipo de medição tem uma evolução prolongada no mundo acadêmico. Recentemente. A construção do IDE apóia-se nos últimos avanços na matéria. junto com outros dados. “Aprofundar a democracia em um mundo fragmentado”. que utiliza. Cidadania política Índice de democracia eleitoral A análise do regime eleitoral é feita inicialmente a partir do índice de democracia eleitoral (IDE). Este índice reúne medições que respondem quadro 20 O índice de democracia eleitoral (IDE) Uma contribuição à discussão sobre a democracia O Índice de Democracia Eleitoral (IDE) é uma nova medida do regime eleitoral democrático produzida para este Relatório. e os que ganham as eleições assumem e permanecem nesses cargos públicos durante os prazos estipulados por lei? Por sua vez. a regra de agregação está expressa formalmente na seguinte fórmula: Índice de democracia eleitoral (IDE) = Direito de voto x Eleições limpas x Eleições livres x Cargos públicos eleitos como um dos critérios para identificar países que seriam receptores de fundos destinados à promoção do desenvolvimento.

nos anos noventa ainda estava resolvendo conflitos armados.86 em 1990. Em 2002. A América Latina nunca teve regimes eleitorais tão democráticos e duráveis quanto os do início do século XXI. já haviam rompido com os regimes militares. porém constante. de qualquer um desses direitos cidadãos políticos indicam restrições muito importantes do regime democrático. Outras conclusões. com exceção do Paraguai. eleições livres e as eleições como o meio de acesso a cargos públicos. medida de acordo com os critérios usados pelo IDE. Entretanto. porém. A conquista de uma democracia eleitoral plena. o progresso foi muito marcante.às seguintes perguntas (para uma explicação mais detalhada. A média do IDE (cujo valor varia entre 0 e 1) para a América Latina passou rapidamente de 0. é apenas um passo que determina um piso mínimo na luta mais ampla pela expansão dos direitos cidadãos. Por volta de 1990. O estabelecimento de uma democracia eleitoral. o México registrou uma transição para a democracia. Violações. os países do Mercosul e Chile. As experiências variam bastante. com exceção da Costa Rica e da República Dominicana. no final dos anos setenta e início dos anos oitenta (Equador. A partir daí. Peru. essa sub-região era eleitoralmente a mais democrática. Antes de começar a onda de transições. Venezuela) ou foram os primeiros casos de transição de regimes militares na América do Sul. continuou melhorando e terminou 2002 com 0. Bolívia). como se pode ver no gráfico 1. é necessário enfatizar que o IDE é uma medida relativamente minimalista da democracia. A democratização coincidiu com a resolução pacífica desses conflitos e avançou a passos firmes. a maioria dos países na região tinha regimes autoritários. eleições limpas. O primeiro componente-chave do regime democrático é o direito ao voto: sem esse direito. lenta. inclusive. as outras conquistas perdem o Bases empíricas do Relatório 77 . mesmo parciais.93. No entanto. essa sub-região começou a enfrentar sérios problemas que chegaram. que culminou com a presidência de Ernesto Zedillo. que no início da década de 90 tinham regimes democráticos de longa data (Colômbia.28 em 1977 para 0. e para 0. no fim da década de 70.69 em 1985. Por último. ver quadro 20): ■ O direito ao voto é reconhecido? ■ As eleições são limpas? ■ As eleições são livres? ■ As eleições são o meio de acesso a cargos públicos? O IDE capta informação sobre alguns dos componentes mais básicos e necessários do regime democrático. Outra situação é a da sub-região América Central e República Dominicana que. Outra situação é a dos países andinos. mais específicas. A conclusão mais evidente que surge do IDE é que a América Latina progrediu notavelmente no que se refere à democratização do regime de acesso ao governo. surgem de uma observação mais minuciosa dos quatro indicadores utilizados pelo IDE: direito ao voto. a colocar em risco seus regimes políticos. durante a década de noventa. A partir dessa época mantiveram regimes democráticos. representa um avanço significativo dos direitos cidadãos.

1990-2002 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua 1990 1991 2 1992 1993 2 2 2 1 2 1 2 2 1 2 22 2 1 2 0* 2 2 2 1 2 2 2 2 2 0* 2 2 2 2 2 2 1 2 2 2 1 1 2 2 1994 1995 2 1996 1997 2 2 2 1 2 2 2 2 2 2 2 2 2 1998 1999 2 2000 2001 2 2002 2 2 2 2 22 2 2 2 2 2 Panamá Paraguai Peru 2 República Dominicana 1-* Uruguai Venezuela Número de casos de eleições com irregularidades de alguma significação América Latina (**) 3 1 0 1 3 2 0 0 1 0 1 0 0 Notas: As eleições são consideradas “limpas” quando o processo eleitoral ocorre sem irregularidades que limitem os eleitores a expressar autônoma e fielmente suas preferências por algum candidato. 2 = falta de irregularidades significativas no processo eleitoral (por exemplo. isto é. e consultas com especialistas. Não inclui questões relacionadas com a competitividade do processo eleitoral nem se é permitido ao ganhador das eleições assumir seu cargo público. seu conteúdo. existe pouca variação na América Latina. diversos artigos do Journal of Democracy. mas que não possuem um viés sistemático de peso significativo). Sinais de mais e menos são usados para indicar situações intermediárias. eleições que podem incluir irregularidades “técnicas”. 78 A democracia na América Latina . que não recebem uma pontuação de 2 ou 2-.TABELA 4 ELEIÇÕES LIMPAS. intimidação dos eleitores. indica-se esta situação com um asterisco (*). Em relação a esse componente. Valores: 0 = graves irregularidades no processo eleitoral que têm um efeito determinante sobre os resultados das eleições (por exemplo. (**) Os dados para a região abarcam o número total de eleições realizadas em um determinado ano com irregularidades significativas ou maiores. Hoje em dia. 2003. podem subsistir restrições que afetam o direito ao voto de militares e policiais. mesmo nos casos em que existe o que geralmente é chamado de direito ao vo- to universal. por exemplo. nem se todos os cargos públicos são eletivos. Hartlyn. 1= irregularidades significativas no processo eleitoral (por exemplo. em todos os países se reconhece o direito universal ao voto. Middlebrook 1998. Fontes: Cerdas-Cruz. da União Européia (UE). em alguns países existem barreiras que dificultam a prática real do direito 55 Ver Paxton et al. do clero. relatórios da Organização dos Estados Americanos (OEA). Rial e Zovatto 1998. McCoy e Mustillo 2003. fraude eleitoral). Pastor 1999. Rial e Zovatto 1992.. Nesses casos o valor para as eleições parlamentares é 2. Cabe observar que. Além disso. 56 Ver. 2001. Montgomery 1999. violência contra os eleitores. do Centro Carter e do Instituto Nacional Democrático. o estudo de Boeno e Torres Vivas. de residentes estrangeiros55 e de cidadãos vivendo no estrangeiro. Quando em um ano há eleições tanto para o Executivo quanto para o Parlamento e as irregularidades se aplicam apenas às eleições para o Executivo. alteram o resultado de uma eleição presidencial e/ou do equilíbrio de poder dentro do Parlamento).

sem dúvida. uma conquista importante. 1= proscrição de um partido importante. O IDE também capta em que medida as preferências dos votantes são registradas fielmente por meio do processo eleitoral. Montgomery 1999. Como se pode ver na tabela 4. e consulta com especialistas. Rial e Zovatto 1998. e em treze casos houve problemas significativos. Rial e Zovatto 1992.56 No entanto. Algumas das lutas políticas mais destacadas da primeira metade do século XX centraram-se em estender o sufrágio às classes trabalhadoras. (*) Os dados para a região abarcam o número total de eleições realizadas em um determinado ano com restrições significativas. 1990-2002 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua 1990 1991 4 1992 1993 4 4 4 3 4 3 4 3 3 4 4 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 3 4 4 4 3 3 4 4 1994 1995 4 1996 1997 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 44 1998 1999 4 2000 2001 4 2002 4 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 Panamá Paraguai Peru 4 República Dominicana 4 Uruguai Venezuela Número de casos de eleições com restrições de alguma significação América Latina (*) 2 2 1 0 2 1 0 0 1 0 0 0 1 Notas: As eleições são consideradas “livres” quando o eleitorado tem uma variedade de opções que não está limitada nem por restrições legais nem pela força. Middlebrook 1998. entre 1990 e 2002 foram realizadas setenta eleições nacionais. Em duas oportunidades (República Dominicana 1994 e Peru 2000). ao voto. 3 = restrições de natureza legal ou prática que afetam significativamente a capacidade de candidatos potenciais a se apresentarem para eleições e/ou a formação de partidos políticos (por exemplo. Essa medida não inclui fatores que possam afetar a capacidade dos partidos e candidados para competir em igualdade de condições. o reconhecimento do direito universal ao voto é. 2 = proscrição de um partido menor. no total. proscrições de candidatos populares. 4=condições essencialmente irrestritas para a postulação de candidatos e a formação de partidos. assasinatos sistemáticos e intimidação de candidados. Valores: 0= sistemas de partido único. acesso aos meios de comunicação e uso dos recursos públicos. que não recebam uma pontuação de 4 ou 4-. Sinais de mais e menos são usados para indicar situações intermediárias. diversos artigos no Journal of Democracy.TABELA 5 ELEIÇÕES LIVRES. aos setores populares e às mulheres. que vale a pena ressaltar. Pastor 1999. tais como: financiamento público. a comunidade internacional considerou que os problemas foram de tal magnitude que coloBases empíricas do Relatório 79 . isto é. Fontes: Cerdas-Cruz. restrições de natureza legal ou prática que impedem a formação de partidos ou que levam certos partidos a boicotar as eleições).

Esse componente complementa a visão do processo eleitoral ao introduzir uma consideração acerca do que realmente está em jogo nas eleições. Existem. com exceção da Colômbia. O terceiro componente do IDE. se isso ocorre de acordo com as normas constitucionais. em virtude da criação dos senadores designados. Enquanto no período 1990-1996 houve oito casos de eleições com restrições significativas em um total de trinta e cinco eleições. as irregularidades não parecem ter sido decisivas para o resultado das eleições. refere-se às tentativas de utilizar formas que não seguem. com a resolução dos conflitos armados na América Central. A transferência do mandato presidencial tornou-se uma prática normal. mas até 1985 no caso do Brasil – foram superadas. de maior relevância. São exemplos: em 1992. a crise suscitada pela tentativa de destituir o presidente Chávez. houve dez casos. a queda do presidente De la Rúa. na Guatemala. duas exceções que merecem atenção. Visto em perspectiva. o fechamento do Parlamento pelo presidente Fujimori. o afastamento do presidente Mahuad. Uma é saber se os cargos públicos principais (presidentes e parlamentares) são ocupados ou não pe80 A democracia na América Latina los que ganham as eleições. esse número caiu para dois sobre o mesmo total. tal como mostra a tabela 5. Como se observa na tabela 6. Essas situações não resultaram em clássicos golpes militares. Além disso. Nessa matéria subsistem alguns problemas. embora as eleições em si mesmas tenham sido limpas. A outra exceção. como os partidos comunistas do Brasil. na Venezuela. a destituição do presidente Bucaram. Apesar disso. houve dez casos em que a possibilidade de competir livremente em eleições foi restringida de maneira significativa. Isso significa um contraste com a situação da América Latina durante o período 1950-1980. Foi introduzido porque sua violação determina que o regime deixa de ser democrático. Uma delas pode ser observada no Chile. introduz um elemento que não é captado diretamente pelos conceitos de direito ao voto e de eleições limpas: a liberdade do eleitor de escolher entre várias alternativas. para afastar do poder os governantes eleitos. nessa questão a situação atual da América Latina é muito positiva. a tentativa falida do presidente Serrano de imitar Fujimori. no caso de serem substituídos. em 2000. também foram superadas. durante a década de 90. as regras constitucionais. realizadas entre 1990 e 2002. Estabeleceu-se como critério amplamente aceito que todos os cargos públicos principais (presidentes e parlamentares) sejam atribuídos por meio de eleições e que os governantes eleitos permaneçam em seus cargos durante o período de seus mandatos. as eleições livres. o número de atos eleitorais problemáticos diminuiu consideravelmente: no período 1900-1996. Da mesma forma. Essas restrições – de uso reiterado do final da década de 40 até a de 60 na maioria dos casos. em 2001. em um total de trinta e cinco eleições. Já não existem as proscrições legais que em outras épocas atingiram partidos majoritários como o Partido Justicialista (PJ) na Argentina ou a Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA) no Peru. e é um dos sinais mais claros dos grandes avanços democráticos que transformaram o marco político da região. A outra é saber se os que têm acesso a esses cargos permanecem neles durante os prazos estipulados por lei ou. do Chile e da Costa Rica. no Paraguai. fato que limita a possibilidade de as preferências da maioria cidadã se verem representadas no Parlamento. porém. e partidos de menor peso eleitoral. em 1993. porém. na Argentina. enquanto no período 1997-2002. em 1999.cavam em questão o caráter democrático do procedimento eleitoral. Aqui surgem duas questões básicas. como os que fre- . no Equador. e em abril de 2002. em 1997. esse número caiu para dois sobre o mesmo total no período 1997-2002. a tendência é positiva. O quarto componente do regime democrático gira em torno das eleições como o meio de acesso a cargos públicos. as restrições devido à falta de capacidade estatal para garantir a integridade física dos candidatos. o assassinato do vice-presidente Argaña. Na maioria dos casos. a melhoria é notável. rigorosamente. Do total de setenta eleições nacionais. no Peru. no Equador.

que não recebem uma pontuação de 4 ou 4-. 1 = somente alguns dos principais cargos públicos são ocupados por ganhadores de eleições. isto é. em 1990 para três. e consulta com especialistas. ou os que ocupam todos os principais cargos políticos são removidos pela força por governantes inconstitucionais. no entanto. Dominicana Uruguai Venezuela 1990 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1991 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1992 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 2 4 4 4 1993 4 4 4 3 4 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1994 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1995 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1996 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1997 4 4 4 3 4 4 3+ 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1998 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 1999 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 2+ 4 4 4 4 2000 4 4 4 3 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 2001 44 4 3 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 2002 4 4 4 3 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 3- Número de casos com restrições de alguma significação América Latina (*) 1 1 2 2 1 1 1 2 1 2 2 2 3 Notas: As eleições são consideradas o meio de acesso aos principais cargos públicos de um país. No caso de os ocupantes de cargos públicos serem substituídos. 3 = o presidente ou o Parlamento são eleitos. Essas tentativas encerram. pois os casos passaram de um. Valores: 0 = nenhum dos cargos públicos principais é ocupado por meio de eleições. outra modalidade de interromper o exercício do poder. em seis dos dezoito países considerados houve algum tipo de restrição de peso a esse princípio. 1990-2002 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep. (*) Os dados para a região abarcam o número total de eleições realizadas em um determinado ano com restrições significativas. se os que ganham as eleições assumem seus cargos públicos e permanecem nos cargos durante os prazos estipulados pela lei. qüentemente aconteceram com a ruptura de regimes democráticos. Fontes: Domínguez e Lowenthal 1996. o Executivo e o Legislativo nacional.TABELA 6 ELEIÇÕES COMO O MEIO DE ACESSO A CARGOS PÚBLICOS. 4 = todos os cargos políticos principais são preenchidos por meio de eleições e nenhum dos ocupantes desses cargos políticos principais é removido do cargo a menos que sua remoção e substituição esteja baseada em fundamentos constitucionais estritos. em 2002. Pérez-Liñán 2001 e 2003. A tendência não é positiva. ou a maioria dos ocupantes de cargos públicos são removidos de seus cargos pela força e substituídos por governantes inconstitucionais. Bases empíricas do Relatório 81 . isto é. 2 =o presidente ou o Parlamento não são eleitos ou são removidos do cargo pela força e substituídos por governantes inconstitucionais. mas o presidente é removido do cargo e/ou substituído por meios inconstitucionais. em um passado não muito distante da América Latina. Entre 1990 e 2002. Walker e Armony 2000. Os casos de restrição ao princípio de acesso democrático a cargos públicos não são poucos. Domínguez 1998. avalia-se a forma de remoção do cargo e de seleção de substitutos.1999. Diamond et al. Sinais de mais e menos são usados para indicar situações intermediárias. ou um número significativo de parlamentares não são eleitos ou são removidos dos cargos pela força.

Trata-se de um processo complexo. o veículo privilegiado por meio do qual os candidatos se apresentam para cargos públicos. Em relação a esse tema. ■ a exigência legal de realizar eleições internas nos partidos para a escolha de candidatos. Concorrência eleitoral e seleção de candidatos Outros indicadores oferecem informação mais detalhada sobre o processo de seleção dos candidatos. Antes de apresentar uma avaliação abrangente. São eles: Colômbia. Costa Rica. condições em que concorrem os pré-candidatos dentro dos partidos e formas de fiscalização das eleições internas. é positiva (tabela 8). Nicarágua e Peru. uma questão que influi na concorrência eleitoral. Essas cifras indicam que é possível ganhar eleições sem que o candidato vencedor consiga o respaldo da maioria dos cidadãos.1 por cento emitem um voto válido. que gira em torno dos partidos políticos que são. formação de partidos e procedimentos para eleger seus candidatos. 62.7). Um tema relevante que incide sobre a concorrência eleitoral é a existência de legislação que abra espaços políticos para as mulheres mediante a reserva de cotas nas listas partidárias para o Parlamento. em toda a região. na Guatemala (36. El Salvador. 89. também é baixa. certamente é um problema em alguns países. em geral. existem outros indicadores relevantes. doze dos dezoito países da América Latina introduziram leis de cotas que. mesmo com diferenças significativas entre países. é necessário obter mais informação do que a atualmente disponível sobre candidaturas independentes. Honduras. um primeiro grupo de países apresenta frágeis barreiras para a entrada de novos atores na concorrência eleitoral e certo desenvolvimento de uma normativa e/ou prática de democracia partidária interna. Uruguai e Venezuela. Chile. mas estão acima dos percentuais dos Estados Unidos. Os níveis latinoamericanos também mostram tendências estáveis durante períodos prolongados.2) e na Colômbia (33. Um grupo intermediário está formado por Argentina. No nível regional. ■ os requisitos para a formação de partidos nacionais. os temas de barreiras de entrada no processo eleitoral e de democracia interna são complexos. muitos países da região aprovaram esse tipo de legislação (tabela 10).7 por cento votam e 56. México. a seleção de candidatos está altamente centralizada nas mãos das elites partidárias: Bolívia.3) é baixa e é motivo de preocupação. mesmo sendo maior. A participação nas eleições da Bolívia. Panamá e República Dominicana. A porcentagem de eleitores na Venezuela (45. Equador. De 1991 a 2003. Participação eleitoral A participação cidadã no processo eleitoral na América Latina. Em um terceiro grupo de países. da República Dominicana e do Paraguai. Embora o absenteísmo não seja um problema regional. Brasil. Certamente. entre os países latino-americanos existem diferenças significativas a respeito de três questões importantes: ■ candidaturas a cargos públicos e a possibilidade de apresentação de candidatos independentes. Alguns países da América Latina têm uma participação eleitoral muito baixa. Paraguai.Outros indicadores do regime democrático de acesso ao governo Além dos aspectos do regime democrático incluídos no IDE. Esses percentuais de participação eleitoral estão abaixo dos da Europa ocidental. o monopólio dos partidos sobre as A democracia na América Latina 82 . Na última década. Como se observa na tabela 9.7). em El Salvador (38. requerem que entre 20 e 40 por cento de lugares nas listas parlamentares partidárias sejam atribuídos a mulheres. Guatemala.3 por cento dos eleitores em potencial estão inscritos nos registros eleitorais. onde barreiras de entrada mais altas coexistem com alguns requisitos legais para a indicação de candidatos ou com o pouco uso das primárias para escolher os candidatos partidários.

57 Essas cifras contrastam com as de 43. A maioria dos países utiliza um sistema misto de financiamento. p. 58 Estas cifras são uma média das estimativas mais altas e baixas que oferecem Mato Mar. pagando por voto emitido ou facilitando o acesso aos meios de comunicação. Os dados de financiamento estatal revelam uma situação muito variada (tabela 11). e 26.58 Por último. as mulheres aumentaram seu nível de representação.8 por cento (4 sobre o total de 479) entre 1983 e 1987. A média regional de 5.8 e 12. FLACSOEquador.3 por cento é relativamente baixa e.60 A representação pode ser examinada também sob a perspectiva dos partidos políticos. 1993. 1998. Luis Enrique López Hurtado. 60 Torres. 2001. Uruguai. sendo ainda difícil sua instrumentação. pp. 60 e 61 por cento que representam aproximadamente as populações indígenas nesses países. e Meentzen. 3. 232-233. justas. p.2 por cento (34 sobre 130) na Bolívia. substancialmente a TV. e Simón Pachano. A média regional de 4. Esse tema tem um impacto cada vez maior sobre a natureza da competição eleitoral. além de livres.2 por cento (16 sobre 503) entre 1991 e 1995. o número de afrodescendentes na câmara baixa do Parlamento do Brasil foi de 0.5 por cento. 94. durante o período 2001-2002. 59 Johnson. Já em outros países – Costa Rica. de 8 para 15. oscilando entre 7.4 por cento (14 sobre 113) na Guatemala. sobre os quais apresentamos vários indicadores relevantes (ver tabela 13). 2001. No que diz respeito às mulheres. em vários países – Honduras. de 2. 3. o percentual de votos válidos dos partidos sem representação parlamentar é sumamente baixo. e de 2.6 por cento é bastante moderada. mas a tendência é no sentido de maiores controles. Outra questão relevante que se reflete na concorrência eleitoral são as regras para o financiamento político. 34. 12. e Estado Unidos. porque define se as eleições são. 2002. Bases empíricas do Relatório 83 .8 por cento (1 sobre o total de 120) no Peru.3 por cento (4 sobre 121) no Equador. O número de indígenas nas câmaras baixas ou únicas do Poder Legislativo. Uma medida simples é o percentual de votos recebidos pelos partidos políticos que não chegam a obter representação na câmara baixa ou única do Parlamento. 2002. que capta a relação entre votos emitidos por partido e as cadeiras ocupadas por esses partidos na câmara baixa ou única do Parlamento – mostra um panorama bastante positivo. Chile e Guatemala – esse percentual é alto. ainda que com variações consideráveis entre os países. Comunicação pessoal. pois expressa um reconhecimento formal da necessidade de criar mais oportunidades para a inclusão das mulheres. com igualdade de oportunidades para todos.1 por cento (10 sobre 487) entre 1987 e 1991. Representação eleitoral É importante também observar as características das pessoas e dos partidos que têm acesso a cargos públicos eleitos. o índice de desproporcionalidade – uma medida mais complexa.59 enquanto os afrodescendentes são aproximadamente 44 por cento da população total do Brasil. esse é apenas um passo inicial no tratamento das múltiplas barreiras que ainda as impedem de competir na política. respectivamente. Paraguai e Brasil. Para assegurar que o dinheiro não se converta em um fator de desvirtuação do processo eleitoral. foi de 0. pp.Esse mecanismo é uma melhora importante.8 por cento (15 sobre o total de 513) entre 1995 e 1999. Em pouco mais de uma década. 2003. alguns países recorrem ao financiamento público de parte da campanha eleitoral. Da mesma forma. No entanto. em igualdade de oportunidades. Departamento de Estado. 103-105.12.3 por cento. indicando que existe um grau considerável de correspondência ou proporcionalidade entre o número de votos e as cadeiras de 57 Estas cifras podem mudar mesmo dentro do período indicado. o número de parlamentares aumentou (tabela 12). segundo o critério de apreciação dos observadores que forem consultados.

Entretanto. que estabelecem um número mínimo para a representação feminina nas listas parlamentares. São isolados os episódios de irregularidades. As deficiências são ainda mais significativas na representação parlamentar dos indígenas e afro-descendentes. em vários países – Uruguai. Nesta parte analisamos. ■ Existe uma tendência a introduzir normas legais tendentes a criar maiores oportunidades de inclusão cidadã. Honduras. Já em outros países – Guatemala e Panamá –. ■ A prática de eleições limpas foi estabelecida como padrão geral. O normal é que os cargos principais da área executiva e legislativa do Estado (em nível nacional) sejam ocupados por meio de eleições. Poderes constitucionais clássicos Um primeiro aspecto do tema do controle da política é a relação entre os poderes Entre os aspectos do regime democrático não incluídos no IDE observamos que: ■ O nível de participação dos cidadãos em processos eleitorais é moderadamente alto na região. mesmo nos casos de crises políticas ou político-sociais que incluíram casos de renúncia dos primeiros mandatários eleitos. mas o nível atual ainda é muito inferior ao peso demográfico feminino. ■ Os sistemas eleitorais possibilitam um grau considerável de proporcionalidade entre a força eleitoral e a representação parlamentar dos partidos políticos. Além disso. as elites partidárias 84 A democracia na América Latina . No entanto. em seguida os organismos públicos especializados no controle horizontal das atividades do Estado e. existem exceções a essa situação. mas também com a orientação dos que tomam essas decisões – eleitos ou não: para o bem público ou para fins privados. Esse é o caso de leis promulgadas na maioria dos países latino-americanos. ■ Poucos países aprovaram uma legislação sobre financiamento de partidos políticos e campanhas eleitorais que contemple um fácil acesso a fundos públicos e uma regulação eficaz do dinheiro na política. ■ Produziram-se notáveis avanços no que diz respeito às eleições como o meio de acesso a cargos públicos. Nicarágua e Colômbia –. e que a sucessão entre governos obedeça a normas constitucionais. em vários países.9 por cento. alguns mecanismos de democracia direta que podem oferecer oportunidades de participação cidadã no controle e na formulação de políticas. nem sobre a participação dos cidadãos na seleção dos candidatos. em primeiro lugar. Outras dimensões da Cidadania Política A cidadania política não apenas está relacionada com o vínculo entre eleitores e os que tomam as decisões públicas. embora em alguns países se detecte uma tendência no sentido de uma menor participação eleitoral. um aspecto importante a considerar é o do controle da gestão de funcionários públicos e sua obrigação de prestar contas na forma e prazo devidos. É clara a tendência no sentido de uma melhoria no componente de eleições livres. fraude eleitoral e intimidação a votantes. Legislativo e Judiciário). o percentual é bastante alto.cada partido. ■ Entre o fim da década de oitenta e hoje. especialmente algumas tentativas de afastamento de governantes eleitos por meios não constitucionais. oscilando entre 11. por último. os poderes constitucionais clássicos (Executivo. as mulheres aumentaram seu nível de representação nos Parlamentos da América Latina. esse índice é particularmente baixo. ■ Não existem tendências marcantes quanto às barreiras para entrar na competição eleitoral.9 e 13. Balanço do regime de acesso democrático ao governo De acordo com os componentes do IDE observa-se que na América Latina: O direito ao voto é reconhecido sem restrições aos cidadãos residentes em cada país. ■ centralizam as decisões sobre a indicação de candidatos. Por isso.

(1) Más experiências leves: longas filas. em p12u responderam que tinham procurado uma instituição pública e em p13u não respondem. mas elas dificilmente explicam a existência de padrões de maltrato nas interações entre cidadãos e Estado. Fonte: Processamento da pergunta p13u. trâmites desnecessários. aos olhos dos entrevistados. trâmites desnecessários. Na coluna “Porcentagem dos que procuraram” se baseia unicamente nos 7.9 60. tratou-se de experiências de maltrato leves (espera em longas filas. Bases empíricas do Relatório 85 . o direito ao tratamento eqüitativo e o respeito à dignidade pessoal foram. O contrário é o maltrato ao cidadão. Um assunto preocupante é a quantidade de relatos de experiências de maltrato “duro”: uma de cada quatro pessoas que interagiram com as instituições públicas declarou ter sido humilhada. vulnerados pelos funcionários públicos que os atenderam.3%). TABELA 7 EXPERIÊNCIAS NO TRATAMENTO DADO A PESSOAS QUE PROCURARAM UMA ENTIDADE PÚBLICA NOS ÚLTIMOS 12 MESES. Más experiências graves: pedido de gratificação. (2)Entende-se que não tiveram más experiências se. Uma proporção dos casos de maltrato pode estar relacionada com razões contingentes.0 100.1 2. Na maioria dos casos. Isto é porque a pergunta p13u somente apresenta alternativas negativas. da Seção Proprietária do PNUD no Latinobarômetro 2002. Nesses casos.9%). ter recebido tratamento desrespeitoso ou que lhe solicitaram uma gorjeta ou propina (22. Nessas experiências podem existir fatores como a falta de instalações adequadas e a saturação dos serviços. sentiu-se humilhado ou foram descorteses ou falta de respeito no tratamento. Por isso.8 39. Dentre elas.9 55.536 entrevistados que indicaram ter procurado ou não ter procurado uma instituição pública nos últimos doze meses.0 procuraram 15. demora na obtenção da informação ou negaram informação. uma proporção minoritária de pessoas declarou ter entrado em contato com uma instituição pública para realizar algum tipo de trâmite (39.4 6.8 22.0 Não Procuraram Total A coluna “porcentagem do total” está baseada nas 19.2 8. o tratamento dispensado pelos funcionários públicos deve cumprir duas condições: respeitar os direitos e a dignidade das pessoas e amparar suas resoluções dentro de um mandado legal aprovado mediante normas democráticas. uma alta porcentagem declarou ter recebido algum tipo de maltrato por parte dos funcionários públicos (78%).790 entrevistados que declararam ter procurado nos últimos 12 meses uma instituição pública e portanto são quem tem experiência no trato recebido. Uma primeira constatação do Relatório é que. em 2002. negação de informação ou problemas para obtê-la).7 22. o Relatório explora se existem padrões de maltrato para indagar se isso obedece a uma razão mais estrutural: a persistência de modalidades pouco democráticas na organização e no funcionamento de um Estado.1 100. 2002 Porcentagem Porcentagem dos que Situação Procuraram Experiência no tratamento (1) Más experiências graves e leves Más experiências graves Más experiências leves Sem más experiências (2) Total do total 6.quadro 21 A petição cidadã perante as instituições públicas Embora uma petição cidadã seja negada.

a informação disponível não nos permite chegar a um conceito preciso sobre a independência real dos poderes judiciários na América Latina. Muitos países latino-americanos realizaram reformas constitucionais e legais dirigidas a fortalecer a independência do Poder Judiciário (tabela 15). pode facilitar) tentações corporativas de interesse setorial e até a corrupção desse poder. Apesar dessas reformas. Todos os países latino- 61 Jarquín e Carrillo. mas sim de um estado democrático de direito. Popkin. Outro aspecto-chave é o poder da área judiciária do governo e seu grau de independência em relação aos outros poderes. freqüentemente. em várias hipóteses. de que os fundos públicos sejam empregados de acordo com as normas e os procedimentos legais: controladorias gerais. Registramos que os poderes formais dos presidentes latino-americanos continuam sendo relativamente altos comparados com o sistema presidencialista clássico. 2000. 1999. cada um deles legalmente dotado de faculdades para controlar e sancionar a conduta dos outros. o dos Estados Unidos (tabela 14). encarregado de selecionar os candidatos dentre uma relação de indicados e de ratificar essas indicações por maioria simples ou qualificada. Entretanto. Em quase todos os países existe outro órgão. a peça mais importante da relação entre os poderes do Estado. Existem os organismos encarregados do controle da receita pública. 1998. por si mesma. pelo menos formalmente. Essa independência. 2001. quando houver informação adequada. não previne (e. geralmente no âmbito do Congresso. ignoram algumas realidades. Esperamos que os enormes esforços e as volumosas quantias de ajuda internacional destinada à reforma do Poder Judiciário considerem nossa preocupação com mais cuidado do que o até agora dispensado. Ainda não existe uma boa medida. A independência. Isso é particularmente certo na América Latina devido a sua tradição de presidencialismo.62 Esses organismos se distinguem dos poderes constitucionais clássicos por suas funções mais delimitadas e específicas (tabela 16). ou Magistratura. e Hammergren. De acordo com diversas pesquisas de opinião e opiniões de especialistas. o critério cada vez mais generalizado é que os magistrados devem ser identificados inicialmente por Conselhos da Judicatura. o Executivo ainda possui importantes poderes no processo de indicação dos magistrados da Corte Suprema. o crescente profissionalismo e um adequado poder dessa área do Estado adquirem pleno sentido quando colaboram generosamente na instauração. em relação ao grau de independência do Poder Judiciário. amplamente aceita. No entanto. um mecanismo que tem o potencial – na verdade ainda não totalmente demonstrado – de reduzir a politização do processo de seleção e de aumentar o profissionalismo e independência desse poder. não de um estado de direito. ao menos em alguns países. a área judiciária do Estado conta com um grau considerável de poder e independência em suas funções. Em resumo. os indicadores da tabela 14 sugerem que.61 Outro tema que deverá merecer consideração. Domingo. isto é. auditorias e tribunais de contas. em vários países. talvez. Prillaman. A relação entre os poderes Executivo e Legislativo é. Agências especializadas de controle Outras entidades estatais que contribuem para o controle político são aquelas especializadas no controle horizontal das atividades do Estado. o Poder Judiciário utiliza sua crescente independência. O controle da política é mais eficaz quando existe uma verdadeira divisão de poderes. pois esses indicadores captam apenas aspectos formais e. 86 A democracia na América Latina . mas ainda subsistem graves problemas na América Latina. 2002a. refere-se à forma em que. alguns avanços notáveis foram alcançados em matéria de independência do Poder Judiciário.constitucionais clássicos. autoritário ou não. e a sua tendência a impor-se sobre o Congresso. 62 Peruzzotti e Smulovitz. 2002.

recomendação prévia da Corte Suprema e. Todos os países têm controladorias. investigações por parte dos respectivos organismos. a designação e remoção de seus responsáveis correspondem ao Poder Legislativo. Bases empíricas do Relatório 87 . conta-se com menos informação.64 Podem ser classificados em dois tipos. em certos casos.63 A existência desses órgãos expressa uma tendência positiva. uma prática comum na América Latina. com exceção do Brasil. os cidadãos também podem contribuir indiretamente para o controle político. Oferecem aos poderes constitucionais clássicos. Sobre eles. com condições específicas. dessa forma. No entanto. muito embora em alguns países careçam dos recursos necessários para cumprir suas funções adequadamente e/ou suas atividades sejam. canais adicionais para o controle da gestão política. E. formalmente. por agentes do Estado. que podem ser consultadas na Internet em: www. tais como: votação qualificada. se encarregam da ação penal pública. Esses novos órgãos de controle distinguem-se dos descritos acima por receberem denúncias cidadãs que potencialmente operam não apenas como agentes de controle horizontal como também de controle vertical. Mecanismos de democracia direta Os mecanismos de democracia direta oferecem aos cidadãos. Como parte de um projeto. Chile e Uruguai.org. controladas pelo Poder Executivo. Essas experiências têm elementos comuns e resultam de movimentos sociais fortes. A consolidação e o resultado das defensorias do povo na América Latina variam segundo o país. Outros organismos são as promotorias. procuradorias ou ministérios públicos . recomendação de organismos não governamentais. em vários países. do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). os poderes das controladorias são poucos ou fracos. Chile e Equador –. o Poder Executivo nomeia diretamente essas autoridades.logos. por si só. Alguns dos exemplos mais notáveis são as experiências de participação popular da Bolívia. e de promoção da cultura cívica em Bogotá. 2003. desde 1990 foram criadas defensorias do povo em quase toda a região. orientado para a promoção de uma agenda de governabilidade local na América Latina. mas nem todos têm promotorias. 64 Como indicamos. se são. Suas tarefas incluem. não pode ser interpretada necessariamente como evidência de maior controle real da gestão pública. a sanção de funcionários públicos. pe- 63 Uggla.americanos contam com instituições que desempenham essas funções. O Poder Executivo intervém tanto na designação como na remoção de seu principal responsável. O segundo tipo inclui processos ativados “de baixo”. de orçamento participativo em Porto Alegre e Villa El Salvador. por exemplo. tais como os plebiscitos vinculatórios e não vinculatórios. Por último. as máximas autoridades das controladorias são designadas pelo Poder Legislativo. que leva à cooptação política. oportunidades para contribuir com a fiscalização e gestão dos assuntos políticos. Na maioria dos países da região. quando apresentam denúncias sobre a conduta de agentes estatais e ativam. Em geral. não possuem potestade legal para forçar seu cumprimento. É por isso que a existência desses órgãos. Em três países – Bolívia.undp. O primeiro compreende processos ativados “de cima” isto é. foram identificadas e documentadas muitas dessas experiências de sucesso de participação em governos locais. houve um processo de descentralização que abriu novos canais para a participação cidadã. quadro 22 Experiências de participação em governos locais Durante a década de 90. existem importantes diferenças quanto à independência entre esses organismos e o Poder Executivo (o poder de Estado que é objeto principal de seu controle) e ao peso real da fiscalização. Têm como objetivo a melhoria da qualidade de vida. Em doze dos dezoito países estudados. das capacidades e da autonomia de seus participantes. embora se desenvolvam em um contexto de cultura patrimonialista. que se dedicam à representação legal do Estado e. suas resoluções não são vinculatórias ou. representam uma clara ruptura com os mecanismos de distribuição populista. na prática. em alguns casos. o controle e.

Em particular. A pouca informação disponível torna difícil saber sua dimensão real. Honduras. Existem disponíveis duas fontes de informação complementares sobre as percepções do nível de corrupção (tabela 19). Peru e Venezuela – só foram utilizados mecanismos de democracia direta “de cima”. 31. Na pesquisa Latinobarômetro 2002. eleitos ou não – alguns deles criados na última década –. esta atitude pode ser encontrada de maneira similar em todos os estratos sociais e demográficos. Costa Rica. Nicarágua e Paraguai. controle e sanção. Panamá. Nos dezoito países latino-americanos considerados. Conclusões sobre a cidadania política: conquistas e deficiências ■ A informação que apresentamos sobre cidadania política. Uma grande rejeição cidadã às práticas corruptas é uma valiosa ferramenta de fiscalização e favorece o funcionamento de mecanismos eficazes de prevenção. A persistência e a extensão da corrupção no exercício da função pública encontram um terreno fértil quando os cidadãos se resignam a ela ou ajudam a praticá-la. observam-se dificuldades de diversos desses organismos para exercer o controle na prática e. Equador. tais como iniciativas vinculatórias e não vinculatórias. ■ As bases institucionais da independência e profissionalização do Poder Judiciário se fortaleceram por meio de uma série de reformas recentes. 41. Entretanto. ainda existem deficiências que condicionam algumas das conquistas obtidas. Uma análise do perfi l social e político das pessoas que toleram a corrupção indica que. mas mostra certa evidência sobre a gravidade do problema. Quanto à existência legal e ao uso desses mecanismos. Guatemala.los próprios cidadãos. mas até agora não foram empregados. ■ Mesmo quando existem alguns mecanismos de controle. A corrupção na função pública Um tema-chave é o controle da corrupção na função pública. na maioria dos quais – Brasil. 88 A democracia na América Latina . como Bolívia. ■ Países em que esses mecanismos são reconhecidos legalmente e onde se registram experiências de uso. referendos e petições de revogação de mandato. a informação de que se dispõe sugere que ainda se observam práticas de corrupção e clientelismo na gestão dos assuntos públicos.9 por cento dos consultados estão de acordo em pagar o preço de certo grau de corrupção contanto que “as coisas funcionem” (tabela 20). indagou-se aos consultados se conheciam casos de pessoas que tivessem recebido privilégios por serem simpatizantes do partido do governo. México e República Dominicana. ■ O uso de mecanismos de democracia direta ainda é limitado.4 por cento declararam conhecer um ou mais casos de clientelismo (tabela 21). El Salvador. No entanto. ■ Aqueles em que existem alguns desses mecanismos. para a América Latina em seu conjunto. indica que foram obtidas algumas conquistas significativas na América Latina. como Chile. oferecem novos canais para exercer esse controle que complementa a função controladora que deve ser exercida pelos poderes constitucionais clássicos. ainda não se sabe qual será a contribuição que elas darão para a plena instauração de um estado democrático de direito. para coibir abusos cometidos por outras entidades do Estado. independentemente dos processos eleitorais. Clientelismo O clientelismo gera privilégios e envolve uma utilização discricionária dos recursos públicos. Aqui encontramos nove casos. os dados permitem distinguir três grupos de países (ver tabelas 17 e 18): ■ Aqueles em que os mecanismos de democracia direta simplesmente não existem. ■ Os organismos especializados no controle da gestão dos funcionários públicos.

Gratschew 2001 e 2002.3 68.0 101.9 98.0 55.2 55.6 43.3 59. León-Rosch 1998. Bases empíricas do Relatório 89 .8 38. várias Constituições nacionais.0 66.8 92.2 90.3 53.5 63.6 31.2 68.6 94.7 87.3 78. (**) Os dados para a região são a média de todos os países.2(*) 90.TABELA 8 A PARTICIPAÇÃO ELEITORAL.6 66.7 70.1 88. EPIC 2002. e cálculos sobre a base de dados no CD-ROM em Payne et al.8 45.2 75.8 98.0 72.8 54.6 35.9 72.3 Notas: (*) Os números sobre eleitores registrados que excedem 100 por cento indicam que o número de pessoas nos padrões eleitorais é maior do que o número de pessoas com direito a voto.2 91.9 49.3 77. e dados sobre as eleições de 2001 e 2002 obtidos de fontes oficiais.1 103.8 65. International IDEA 2002b.5 52. 1990-2002 País Deveres cidadãos Voto obrigatório (2002) Procedimentos para o registro de eleitores (2000) Participação cidadã (porcentagens) Eleitores registrados (referente à população com direito a voto) (média 1990-2002) Votantes (referente à população com direito a voto) (média 1990-2002) Votos válidos (referente à população com direito a voto) (média 1990-2002) Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep. Essa situação geralmente ocorre quando os padrões eleitorais não foram depurados adequadamente.9 51.6 56.7 68.9 66.6 30.6 53.1 96.3 76.3 73.7 36. Reyes 1998.2 95.9 89.4 33.5 73.7 62.4 83.5 36.3 78.2 69.7 57.6 78. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina (**) Referentes extra-regionais Europa Ocidental Estados Unidos Sim Sim Sim Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Não Automático Não automático Não automático Não automático Automático Automático Automático Não automático Não automático Automático Não automático Não automático Automático Não automático Não automático Não automático Não automático Automático 98.2 51.8(*) 80.9 74. Fontes: Baeza 1998.2002.0 85.

1990-2001* Uso de primárias para a indicação Controle dos partidos sobre a seleção de candidatos. Dominicana Uruguai Venezuela 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-95 1995-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01 1990-01(1) 1990-01 1990-01 Medianamente restritivo Medianamente restritivo Pouco restritivo Medianamente restritivo Pouco restritivo Pouco restritivo Medianamente restritivo Muito restritivo Medianamente restritivo Pouco restritivo Pouco restritivo Muito restritivo Muito restritivo Pouco restritivo Medianamente restritivo Medianamente restritivo Pouco restritivo Pouco restritivo 1990-01 1990-99 Notas: (*) Reformas relevantes introduzidas desde o final de 2001 incluem: na Argentina a Lei Nº 25. eleição de 2001 ou imediatamente anterior(4) Pelo menos um Nenhum 1999-2001 (3) 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-2001 1990-1997 1997-2001 1990-1999 1999-2001 Nenhum Pelo menos um Pelo menos um Todos Nenhum Pelo menos um Nenhum Todos Todos Pelo menos um Todos Todos Nenhum Todos Todos Nenhum País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep. (4) Define-se “primárias ”como um processo no qual os candidatos a presidente são eleitos de uma maneira livre e direta. (3) A Lei de Reforma dos Partidos Políticos de junho de 1999 na Bolívia ainda não foi aplicada na prática.611.TABELA 9 OS PARTIDOS POLÍTICOS E A DEMOCRACIA INTERNA. 2002 Requisitos legais para a indicação de candidatos presidenciais. pp. e no Peru a Lei de Partidos Políticos de novembro de 2003. Fontes: Alcántara Sáez 2002. de junho de 2002. 90 A democracia na América Latina . (2) Em “requisitos legais para a indicação de candidatos presidenciais ”. os requisitos para postular-se como candidato independente são similares aos que devem ser seguidos para formar um partido político. Payne et al. 1990-2001 Monopólio dos partidos sobre as candidaturas Permite-se a postulação de candidatos independentes Restrições para a formação dos partidos nacionais.156-166.Constituições nacionais e legislação sobre os partidos políticos. por meio de um voto secreto.20-34. considera-se se a Constituição ou as leis eleitorais requererem que os candidatos sejam indicados por meio de uma primária ou uma convenção. (1) Embora a legislação na República Dominicana permita a postulação de candidatos independentes. 1990-2001 (2) Nenhum Alguns de candidatos presidenciais dos principais partidos.2002. seja pelos membros de um partido ou pelos cidadãos registrados para votar em eleições nacionais. pp. e consultas a especialistas associados – atualmente ou no passado – aos tribunais eleitorais em cada país.

A informação inclui somente as cotas mencionadas na legislação sobre partidos políticos e parlamentos. Fontes: CEPAL 1999. e exclui cotas adotadas nos regulamentos internos dos partidos. Dominicana Uruguai Venezuela Câmara baixa ou única 30 30 30 0 0 40 20 0 0 30 30 0 30 20 30 25 0 0 Senado 30 25 0 0 0 30 20 0 Ano adotado 1991 1997 1997 1996 1997 2000 2002 1997 1996 1997 1997 - Notas: Os números são as porcentagens das listas parlamentares que cada partido deve destinar às mulheres. OEA-Comissão Interamericana de Mulheres 2002. O sinal menos indica que a informação não se aplica.TABELA 10 COTAS PARA CANDIDATAS A CARGOS PARLAMENTARES. Méndez-Montalvo e Ballington 2002. Bases empíricas do Relatório 91 .69. p. e Internacional IDEA 2003. 2003 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.

92 A democracia na América Latina .Ward 2002. patamar baixo Sim. patamar alto Sim. Pinto-Duschinsky 2002a. Payne et al. patamar baixo Sim. pp.TABELA 11 FINANCIAMENTO DE PARTIDOS E CAMPANHAS ELEITORAIS.76-77. patamar alto Sim. consulta a especialistas associados –atualmente ou no passado – aos tribunais eleitorais em cada país. como a provisão de serviços e benefícios tributários. patamar baixo Sim. patamar baixo Sim. 2003 Acesso a fontes privadas Limites sobre Limites Limites doações sobre sobre por doações doações contratados particulares anônimas do Estado aos partidos aos partidos aos partidos Leis sobre divulgação pública Acesso à televisão Financiamento País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep. e a várias Constituições e leis eleitorais nacionais. patamar alto Sim. pp. patamar baixo Sim. patamar baixo Sim.2002. patamar baixo Sim. patamar baixo Não Sim Sim Sim Sim Não Sim Não Não Não Não Sim Não Não Sim Sim Não Não Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Não Não Sim Sim Sim Não Sim Não Não Não Sim Sim Sim Sim Sim Não Não Sim Não Não Sim Sim Não Não Sim Não Sim Não Sim Medianamente fortes Medianamente fortes Fortes Medianamente fortes Medianamente fortes Fracas Muito fracos Não Não Não Muito fracos Fracas Não Muito fracos Fracos Não Não Não Sim Sim Sim Sim Sim Não Não Não Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Não Sim Não Limitado Limitado Proibido Proibido Limitado Limitado Ilimitado Ilimitado Ilimitado Limitado Limitado Limitado Ilimitado Limitado Limitado Ilimitado Ilimitado Limitado Notas: A expressão “financiamento público direto ”refere-se à provisão direta de recursos financeiros aos partidos e se contrasta usualmente com as formas indiretas de financiamento. patamar alto Sim. patamar baixo Sim. patamar baixo Sim. (*) No Uruguai há financiamento público desde 1928 por meio de leis ad hoc votadas antes de cada eleição.169-172. e 2002b. patamar alto Sim. Fontes:Del Castillo e Zovatto 1998. patamar baixo Sim. Dominicana Uruguai (*) Venezuela público direto Acesso à televisão gratuita Gasto de partidos destinado à televisão privada Sim. Zovatto 2003. patamar baixo Sim.

8 4.9 2003 2002 2002 2001 2002 2002 2002 2003 2003 2001 2003 2001 1999 2003 2001 2002 1999 2000 34.0 1995 1997 1994 1997 1994 1994 1994 1994 1994 1997 1994 1996 1994 1993 1995 1994 1994 1993 21. Os dados correspondem ao resultado da eleição do ano mencionado e podem variar entre eleições.5 8.8 7.5 12.7 7.0 14. 1990-2003 Fim da década de 80 Meados da década 90 Ano % mulheres Ano Última eleição %mulheres País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.5 22.6 20.7 9.8 10.1 18.5 10.1 5.8 14.6 7.5 7.2 9.0 11.5 10.5 9.7 7.9 9.0 4.0 10. Fonte: IPU 1995.7 8.0 8.4 14.0 10. 2003. Bases empíricas do Relatório 93 .0 10.1 10.2 5.0 35.8 17.6 5.4 Notas: Os números são porcentagens de cadeiras obtidas por mulheres na Câmara baixa ou única do Parlamento.8 11.1 9.5 6.TABELA 12 CADEIRAS NO CONGRESSO GANHAS POR MULHERES.6 12. (*) Os dados para a região são a média de todos os países. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina (*) Ano % mulheres 1989 1989 1986 1989 1986 1986 1988 1988 1985 1989 1988 1984 1989 1989 1985 1986 1989 1988 6.7 15.5 5.2 12.3 2.1 16.5 10.5 17.3 12.5 4.5 11.7 7.7 8.3 9.9 8.2 5.3 5.

0 5.5 5.2 1. 94 A democracia na América Latina .2 2.8 4. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina (*) (média 1990-2002) 3.5 6.4 0.1 5. extrai-se a raiz quadrada desse resultado.2002.0 5.9 6.0 3.4 3. O índice de desproporcionalidade eleitoral refere-se à Câmara baixa ou única.9 4.7 3. enquanto que uma qualificação alta indica que a relação entre cadeiras e votos é desproporcional. e dados sobre as eleições de 2001 e 2002 obtidos de fontes oficiais.6 Notas: A expressão “porcentagens de votos ganhos por partidos sem representação parlamentar ”refere-se aos votos emitidos em eleições para a Câmara baixa ou única. (*) Os dados para a região são a média de todos os países.3 Índice de desproporcionalidade eleitoral (média 1990-2002) 6.8 7. e é o resultado do método de mínimos quadrados.TABELA 13 PROPORCIONALIDADE NA REPRESENTAÇÃO VIA PARTIDOS POLÍTICOS.3 0.7 2.5 5.9 4. Uma qualificação baixa indica que o número de cadeiras que os partidos obtêm é bastante proporcional ao número de votos recebidos.7 2.2 4.9 2. elevadas ao quadrado.6 5.8 7.2 3. 1990-2002 Porcentagem de votos ganhos por partidos sem representação parlamentar País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.2 12.7 5. Fontes: Cálculos sobre a base de dados no CD-ROM em Payne et al. Finalmente.3 5. e o total dividido por dois.7 13.3 0.4 8.8 4. que se calcula mediante a somatória das diferenças entre os votos e as cadeiras obtidas por cada partido.9 0.7 11. A expressão “desproporcionalidade eleitoral ” refere-se à diferença entre a quantidade de cadeiras e votos obtidos por partido.4 4.2 6.

Fontes: Shugart e Carey 1992.50 0.25 0. Um nível “muito alto ”em qualquer uma das dimensões dos poderes significa que esse país está acima do desvio padrão da média regional.25 0.38 Médio alto (*) Médio baixo Muito alto Muito alto Muito alto Médio baixo Muito alto Médio baixo Médio baixo Médio baixo Médio baixo Médio baixo Médio alto Muito baixo Médio alto Médio baixo Médio Médio baixo presidenciais formais (3) 0. (3) O índice geral dos poderes presidenciais formais é uma média dos poderes presidenciais não-legislativos e legislativos.50 0.38 0.38 0.59 0. Mainwaring e Shugart 1997.2002.43 0.38 0.19 0.50 0.38 0.59 0.56 0. (*) O nível desses poderes é considerado sob uma perspectiva regional comparada.48 Médio alto 0. 2002 Índice de poderes País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Referente extra-regional Estados Unidos 0.66 0.50 0.37 0.50 0. Bases empíricas do Relatório 95 .44 0. Altman 2001 e 2002.44 0. O mesmo método é utilizado para qualificar os níveis “médio baixo ”e “muito baixo ”. Carey e Shugart 1998.62 0. As escalas foram padronizadas entre 0 e 1 para possibilitar sua comparação.50 0.38 0.41 0.50 0.46 0.33 0.58 0.50 0.23 0.50 0.37 0. Samuels 2000.50 0. “Médio alto” significa que sua qualificação [score] cai entre a média regional e o desvio padrão positivo.27 0.34 0.38 0.50 0.19 0. Payne et al.29 0.37 0.30 0.13 0.29 0.24 0.36 0.50 0.42 0.55 0. (2) Média ponderada dos poderes legislativos do presidente.31 0.41 Médio baixo (*) Médio alto Médio alto Médio alto Muito baixo Médio alto Médio alto Médio alto Médio baixo Médio alto Médio alto Médio alto Médio alto Médio alto Muito baixo Médio alto Médio baixo Muito baixo Poderes legislativos (2) 0.TABELA 14 PODERES FORMAIS PRESIDENCIAIS.25 0.40 Médio alto (*) Médio baixo Muito alto Muito alto Muito baixo Médio baixo Muito alto Médio alto Muito baixo Médio baixo Médio alto Médio baixo Médio alto Médio baixo Médio baixo Médio alto Médio baixo Muito baixo Notas: (1) Esta medida é a média entre as pontuações atribuídas segundo a capacidade de censura legislativa sobre o gabinete e a capacidade de dissolução do Congresso por parte do Poder Executivo.00 0. e Universidade de Georgetown e OEA 2002.23 0.15 Muito baixo 0.31 Médio baixo Poderes não legislativos (1) 0.50 0.25 0.

1993 e 1994 Corte Suprema Nicarágua Constituição 1987. reforma de 1994 Corte Constitucional Honduras Constituição 1982. reeleição sucessiva Conselho Nacional Judicial e as Congresso seleciona da lista Associações de Advogados de e nomeia (2/3 de votos) El Salvador. reforma de 1997 A democracia na América Latina Colômbia Constituição 1991. reforma de 1954 e 1993 Sala especializada de Corte Suprema Tribunal Constitucional Sala especializada de Corte Suprema Equador Constituição 1978. reforma de 1994 Conselho Judicial apresenta Congresso em pleno seleciona 10 anos. sem reeleição Executivo e Congresso apresentam lista Congresso seleciona da 5 anos. reforma de 1995 Corte Suprema . de composição governamental e não governamental. reforma de 1986. reeleição permitida lista e nomeia (6/10 dos votos) Brasil Constituição 1988. reforma de 1998 Tribunal Supremo Federal Tribunal Constitucional Chile Constituição 1980. apresentan lista Comissão de postulação. 1996 e 1997 El Salvador Constituição 1983.TABELA 15 PODERES JUDICIÁRIOS. reeleição permitida Congresso seleciona da lista e nomeia (2/3 de votos) Senado seleciona da lista e nomeia (2/3 de votos presentes) 7 anos. reforma de 1996 Guatemala Constituição 1985. 1993. com presença não governamental. reforma de 1994 Tribunal Constitucional 96 8 anos. 2002 Condições para a nomeação de magistrados Identificação inicial de candidatos Seleção e nomeação Período de nomeação País Executivo indica candidatos (*) Senado nomeia (2/3 de votos) Vitalício (aposentadoria obrigatória aos 75 anos) Corte Suprema Textos constitucionais Controle de constitucionalidade Argentina Constituição 1853. reeleição alterna “Terna” (listado de 3 pessoas) da lista e nomeia depois de um período (2/3 de votos) Executivo indica candidatos Corte Suprema apresenta “Quinária” (listado de 5 pessoas) Presidente seleciona da lista e Senado nomeia (2/3 votos) Corte Suprema seleciona da lista e nomeia (maioria absoluta) Congresso seleciona da lista e nomeia Corte Suprema nomeia (2/3 de votos) Conselho Superior da Judicatura apresenta lista Congresso identifica candidatos Corte Suprema indica candidatos Vitalício (aposentadoria obrigatória aos 75 anos) 8 anos. reforma de 1992. apresenta lista Executivo apresenta lista Congresso seleciona da lista e nomeia (2/3 de votos) 5 anos. reeleição sucessiva 15 anos. reforma de 1997 Corte Constitucional Costa Rica Constituição 1949. reforma de 2000 Sala Constitucional México Constituição 1917. sem reeleição Senado nomeia (maioria absoluta) Vitalício (aposentadoria obrigatória aos 70 anos) Bolívia Constituição 1967. apresenta lista Junta Nomeadora. reeleição permitida Vitalício 9 anos.

Instituto de Direito Público Comparado 2003. e várias Constituições nacionais.CIDH 2003. reforma de 1995 Vitalício (aposentadoria obrigatória aos 75 anos) Corte Suprema Uruguai Constituição 1967 10 anos. 97 . 1983 e 1984 Paraguai Constituição 1992 5 anos. Apêndice 1. p. sem reeleição Corte Suprema Venezuela Constituição 1999 Comité de Postulações Judiciais apresenta lista Tribunal Supremo de Justiça Nota: (*) Na Argentina. reeleição permitida Textos constitucionais Controle de constitucionalidade Corte Suprema Panamá Constituição 1972. Comissão Andina de Juristas 2003. 199. PNUD 2002b. 81. Skaar 2001.CONTINUAÇÃO TABELA 15 PODERES JUDICIÁRIOS. Bases empíricas do Relatório Fontes: Projeto Estado da Nação 1999. 78. de 19 de junho de 2003. reeleição alterna 5 anos após a conclusão do período (aposentadoria obrigatória aos 75 anos) 12 anos. OEA. o processo de nomeação de magistrados da Corte Suprema foi modificado pelo Decreto N º222. a reeleição implica Corte Suprema período vitalício (aposentadoria obrigatória aos 75 anos) Tribunal Constitucional Peru Constituição 1993 República Dominicana Constituição 1966. reformas de 1978. 2002 Condições para a nomeação de magistrados Identificação inicial de candidatos Seleção e nomeação Período de nomeação País Presidente e gabinete apresentam lista Conselho de Magistrados apresenta lista Conselho Nacional da Magistratura aprova (2/3 votos) Conselho Nacional da Judicatura identifica candidatos Congresso identifica candidatos Congresso em pleno (ambas as câmaras) aprova (2/3 de votos) Congresso seleciona da lista e nomeia Conselho Nacional da Judicatura nomeia (maioria absoluta) Conselho Nacional de Magistrados nomeia (2/3 de votos) Aposentadoria obrigatória aos 70 anos Senado nomeia com consentimento do Executivo Congresso nomeia (maioria absoluta) 10 anos.

Maiorano 2000. Legislativo++ Poder Judiciário Legislativo+ Poder Judiciário Legislativo Legislativo Legislativo Legislativo Legislativo LegislativoLegislativo++ Poder Judiciário Executivo++ Legislativo . ( 5) Fraco: as resoluções não são vinculatórias.. Executivo+ + : a nomeação ou remoção é feita pelo Executivo. ( 2) Inclui os órgãos encarregados da acusação penal do Estado: promotorias. Fontes: Groisman e Lerner 2000. ( 3) Inclui os órgãos encarregados de defender os direitos dos habitantes perante o Estado: Defensorias. com base na lista de candidatos confeccionada pelo Parlamento. procuradorias. procuradorias de direitos humanos.TABELA 16 ORGANISMOS ESPECIALIZADOS DE CONTROLE. . Executivo+ : a nomeação ou remoção é feita pelo Executivo. ministérios públicos. Payne et al.. e Uggla 2003. Forte: as resoluções são vinculatórias e. Intermediário: as resoluções são vinculatórias. Legislativo+ + : a nomeação ou remoção é feita pelo Poder Legislativo com a participação de entidades da sociedade civil ou do Poder Judiciário. ( 4) Executivo: a nomeação ou remoção é de responsabilidade exclusiva do Executivo. Dominicana Legislativo- Uruguai Venezuela Legislativo Legislativo++ Notas: O dois pontos seguidos ( . além disso possuem potestades legais para forçar seu cumprimento. Legislativo. 2002 Controladoria (1) Destituição 4/ Poder 5/ Nomeação 4/ Destituição 4/ Criação Nomeação 4/ Promotoria (2) Ombudsman (3) Destituição 4/ País . Legislativo+ : a nomeação ou remoção é de responsabilidade do Parlamento. mas requer aprovação ou ratificação legislativa. mas requer procedimento bicameral. a partir de uma lista enviada pelo Executivo ou existe um sistema misto de nomeação com potestades do Executivo e do Legislativo para a nomeação ou remoção. 2002. Legislativo: a nomeação ou remoção é responsabilidade exclusiva da câmara baixa. Auditorias nacionais e Controladoria Geral da República. ( 1) Inclui os órgãos encarregados de fiscalizar as contas públicas: Tribunais de Contas. 9. mas não possuem potestades legais para forçar seu cumprimento. . Universidade de Georgetown e OEA 2002. ) indicam que a informação não está disponível. Legislativo Legislativo++ Intermediário Fraco Fraco Forte Intermediário Fraco Corte Suprema Legislativo+ Legislativo Executivo Executivo++ Legislativo++ Forte Fraco Fraco Intermediário Executivo Legislativo Executivo ++ LegislativoExecutivo Legislativo Executivo Legislativo 1985 1992 1990 1995 1997 1992 1993 2001 1999 Forte Intermediário Fraco Forte LegislativoCorte Suprema LegislativoLegislativo Corte Suprema Não se define Legislativo Legislativo 1991 1992 1998 1991 Fraco Fraco Forte Forte Ejecutivo++ Legislativo Executivo++ Executivo++ No se define Legislativo Legislativo Legislativo++ 1993 1994 Legislativo+ Legislativo LegislativoLegislativo Legislativo++ Legislativo Legislativo++ Legislativo Legislativo Legislativo++ Executivo+ Legislativo Legislativo Legislativo Legislativo++ Nomeação 4/ 98 Executivo++ Executivo++ Junta de Fiscais Supremos Executivo Executivo++ Legislativo++ Argentina Bolívia Brasil Chile Legislativo Executivo+ LegislativoExecutivo++ Legislativo+ Legislativo Sin especificar Legislativo Legislativo Legislativo Legislativo Sin especificar Legislativo Legislativo Corte Suprema Legislativo+ Legislativo Corte Suprema Legislativo+ A democracia na América Latina Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Legislativo++ Legislativo Executivo+ Legislativo Guatemala Honduras México Nicarágua Legislativo Legislativo LegislativoLegislativo- Panamá Paraguai Peru Legislativo Legislativo+ Legislativo- Rep.: a nomeação é feita pelo Poder Legislativo. cap.

. ... As datas são de 1978 em diante ou desde que esses mecanismos foram criados.... 7 Não Sim Não 2 0 Sim Não .. . . . . .. .. Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina (*) Bases empíricas do Relatório Notas: A informação se refere somente a mecanismos de democracia direta oficiais e no âmbito nacional. . . 17 Sim Não Sim Não 1 17 (2) 1 14 .. 6 . que a informação não está disponível. .. 1978-2002 Plebiscito Existência Uso Vezes usado Êxito no uso Existência Uso Vezes usado Êxito no uso Plebiscito não vinculatório País Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Sim (1) Sim Não Não Não Sim Sim Sim Não Sim Sim 13 8 33 21 Sim Sim 2 3 1 3 Não . . mas só registra seu uso dentro do contexto de regimes democráticos... . . Sim .. 1 .. ( 2) Quatorze desses foram realizados em uma determinada data: maio de 1997. Sim . . .. .. 1 . Sim ... . ) . . . ao total de vezes que esses mecanismos foram usados. . ( 3) Quinze desses foram realizados em duas ocasiões: agosto de 1994 e novembro de 1995. O hífen ( .. . ..... p...... . ( * ) Os dados para a região referem-se ao total de países que permitem o uso de mecanismos de democracia direta e.. 16 (3) . .. ..TABELA 17 MECANISMOS DE DEMOCRACIA DIRETA DE CIMA PARA BAIXO... . .. 8. . . .. . .) indica que a informação não é relevante. e várias Constituições e leis eleitorais nacionais.. ... também. . Fontes: Altman 2002. 2 Sim Não Sim 2 1 0 1 . ..... . . ( 1) Somente em relação à integração centro-americana... 2 Sim 5 1 . ..... . ..... .. .. .. . os dois 99 pontos seguidos ( . ..

8.) indica que a informação não é relevante.. ... . ....... . .. p. .... ao total de vezes que esses mecanismos foram usados.. . . os dois pontos seguidos ( .. .... .. . 2 . ( * ) Os dados para a região referem-se ao total de países que permitem o uso de mecanismos de democracia direta e. .. 2 . . .. Sim . Sim . .e várias Constituições e leis eleitorais nacionais.. . 2 ...... . Não Sim 3 Não .. O hífen ( . .. 1978-2002 Iniciativa vinculatória País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep. também. ... . . . . . que a informação não está disponível. . ) . . . .. mas somente registra seu uso dentro do contexto de regimes democráticos. ... As datas são de 1978 em diante ou desde que esses mecanismos foram criados. ... . Fontes:Altman 2002. ... . .. .....TABELA 18 MECANISMOS DE DEMOCRACIA DIRETA DE BAIXO PARA CIMA.... 2 Não Não Sim Não Sim Sim Não Não Não Não Não Não Não Sim Sim Não Sim Sim 7 Não Não Não Não Não Sim Não 1 6 6 2 2 Não Não Não Não Sim Não Não Não Não Não Não Não Não Não Sim Não Não Sim 3 Não Não Não 0 0 0 Notas: A informação se refere apenas a mecanismos de democracia direta oficiais e no âmbito nacional.. . .. . .... . .. 100 A democracia na América Latina . . Dominicana Uruguai Venezuela América Latina(*) Existência Uso Vezes usado Êxito no uso Iniciativa Não-vinculatória Referendo Existência Uso Vezes usado Êxito no uso Existência Uso Vezes usado Êxito no uso Revogação de mandato Existência Uso Vezes usado Êxito em uso Sim Não Sim Não Sim Sim Sim Não Sim Não Não Sim Não Sim Sim Não Sim Sim 11 Não Não Não Não Não Não Não Não Não Sim Não 1 5 5 2 2 Sim ..... . . Não 1 . . . . . .

35 4.2 4.5 2. o resultado não tem significação estatística numéricamente.5 2.4 3.82 4. com números mais altos indicando menos corrupção.77 2.5 3.60 3.7 2.52 6.3 3.2 3.91 4.4 7.7 4.46 4.TABELA 19 INDICADORES DE PERCEPÇÕES SOBRE CORRUPÇÃO.26 2. 234-236 e TI 2002.37 6.88 3.9 2.0 7.8 2.55 5.6 2.28 4.6 4.5 3. 2002 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela REGIÃO América Latina Europa ocidental 3.26 4.5 3.40 3.6 7.05 4. 4.47 4.31 4.34 5.81 3.82 6.78 4..0 7. com números mais altos indicando menor corrupção.08 Transparência Internacional 1999-2001 2002 3.76 4.0 4.0 1.1 3. Os dados da Transparência Internacional consistem em uma escala de 11 pontos.5 5.41 3.16 3.1 2.) indicam que a informação não está disponível.1 3.7 3.21 4.56 4.5 2.5 Fórum Econômico Mundial 2001 2002 4.0 3.07 4. Fontes: Lambsdorff 2001.84 4. pp.85 Notas: Os dois pontos seguidos (.5 2.73 4.8 4.67 5.14 4. Bases empíricas do Relatório 101 .1 5.52 3.8 4.1 2. Obviamente.8 2.7 .7 3.43 5.45 6.6 2.64 4.4 2. A escala do Fórum Econômico Mundial é de 7 pontos..31 4.12 3. Ambas as organizações constroem seu índice entrevistando grupos de especialistas selecionados por cada uma delas.42 3.

9 50.4 35. Indica-se com “**”quando o resultado for significativo a 1%.8 41.0 51. . em desacordo ou totalmente em desacordo com a seguinte afirmação? “Pode-se pagar o preço de certo grau de corrupção no governo desde que os problemas do país sejam solucionados?”).013 49. (2) Com base no índice econômico construído a partir da propriedade artefatos e da educação do chefe de família.9 47.8 12.5 29.2 6.8 27.0 13.4 31. .80 31.9 37.04 43.67 e 10 considera-se nível econômico alto.71 8.66 considera-se nível econômico médio e se estiver entre 6.9 38.4 32.43 8.4 37.03 7.04 48.7 7.22 42.6 29.8 43.4 38.5 8.9 22.7 9..68 29.7 36. (3) Indica-se com um “*”quando a medida de associação utilizada ou a Análise de Variância (ANOVA sigla em inglês) resultar significativa a 5%.”.3 18.7 47.1 33.6 3.9 39.00 55. Sobre provas realizadas em cada caso.7 9.3 22.2 25.6 49. 2002 Categorias Estrutura da amostra Pode-se pagar o preço de certo grau de corrupção no governo desde que os problemas do país sejam solucionados Totalmente de acordo De acordo Em desacordo Totalmente em desacordo Significância (3) América Central e México (1) Região Andina Mercosul e Chile América Latina Sexo % de pessoas % de pessoas % de pessoas % de pessoas % Homens % Mulheres % 16 a 29 anos % 30 a 64 anos % 65 a 99 anos Média de idade n=7.9 28.9 50.238 n=5. Quando não for pertinente o cálculo de uma medida de associação ou da ANOVA. indica-se com “.0 50.6 46.1 38.8 30.9 34.1 11.5 31.0 56. se estiver entre 3.17 11..4 14.3 3.6 16.1 34.424 n=5.5 26.TABELA 20 PERFIL DAS PESSOAS COM DIFERENTES ATITUDES EM RELAÇÃO À CORRUPÇÃO. Indica-se “ns “quando a prova não resultar significativa nem a 1% nem a 5%. consulte o compêndio estatístico. ..4 8.3 49. e de outras perguntas de caráter socioeconômico no Latinobarômetro 2002.8 40.2 33.8 3.0 50.5 7.7 16.7 9..7 9.2 4.7 43.63 7.7 4. de acordo. 102 A democracia na América Latina .9 47.0 21.3 39.1 23.31 40.8 23.1 50.6 50.351 n=18.7 55.5 37.0 18. Este índice pode variar entre 0 e 10.4 9.2 31. Se o índice estiver entre 0 e 3.7 41.33 considera-se nível econômico baixo.8 42.7 8.4 21.6 8.34 e 6..4 35.0 35.6 49.5 53.4 9.6 39. Fontes: Processamento de pergunta P23UF da Seção Proprietária do PNUD (pergunta p23uf: O/A senhor/a está totalmente de acordo.1 7.79 46.9 49.3 17.92 42.3 6.9 8.0 54.8 .52 50. ns Idade ** ** ** Nível educativo % Sem estudos % 1 a 6 anos % 7 a 12 anos % Superior completa ou incompleta Média de anos de estudo % Baixo % Médio % Alto Média de índice ecomômico % Democratas % Ambivalentes % Não democratas ** ** Nível ecomômico (2) ** ** Orientação Democrática Notas: (1) Inclui República Dominicana.7 38.

0). Bases empíricas do Relatório 103 . El Salvador (23.9). Uruguai (32. Bolívia (33. Nicarágua (35.2).1) Proporção de pessoas que conhecem um ou mais casos de clientelismo 24.3) Argentina (32. (1) Pouco conhecimento: 25% ou menos dos consultados afirmaram conhecer um ou mais casos de privilégios.0 31. Peru (32.7 34.8) Guatemala (42. 4).2).3). (3) Democracias mais velhas: inclui Colômbia. Alto conhecimento: mais de 40% das pessoas têm conhecimento. Chile (16.TABELA 21 REDES CLIENTELISTAS. México (43.4).366.4). Fonte: Processamento da pergunta p7u da Seção Proprietária do PNUD (pergunta p7u:”O/A senhor/a conhece pessoalmente um caso de uma pessoa que tenha recebido privilégios por ser simpatizante do partido do governo?”). Panamá (27. Venezuela (31. República Dominicana (53. Costa Rica (27. Honduras (36. no Latinobarômetro 2002.3).7).0). Colômbia (16.9). (2) A cifra entre parênteses depois do país indica a proporção de pessoas que afirmaram conhecer um ou mais casos de privilégios. Costa Rica e Venezuela.2). Paraguai (34. Equador (24. 2002 Nível de conhecimento (1) Baixo conhecimento de casos de clientelismo País (2) Brasil (23.4).3).4 Conhecimento intermediário de casos de clientelismo Alto conhecimento de casos de clientelismo Tradição democrática Democracias mais velhas (3) Democracias mais novas Média América Latina Notas: n =19. Conhecimento intermediário: entre 25% e 40% das pessoas afirmam conhecer um ou mais casos de privilégios.

Venezuela 1966 1966 1969 1930 1948 1949 1957 1951 1958 1979 Países sem ratificar Direito Tratado Direitos gerais Pacto Internacional da ONU sobre Direitos Civis e Políticos Pacto Internacional da ONU sobre Direitos Econômicos. e OEA 2003.) indica que o dado não é aplicável. . República Dominicana. Fontes: ONU 2003a. 2002 Número de países sem Ano ratificar 0 0 0 1 2 2 0 0 0 0 1994 1965 1989 0 1 6 Bolívia Brasil. Nicarágua. El Salvador El Salvador. El Salvador. Colômbia. “Pacto de San José de Costa Rica” Direitos trabalhistas Convenção 29 da OIT: Eliminação do Trabalho Forçado e Compulsivo Convenção 87 da OIT: Liberdade de Associação e Proteção do Direito de Organização Convenção 98 da OIT: Direito à Organização e à Negociação Coletiva Convenção 105 da OIT: Abolição do Trabalho Forçado Direitos de mulheres Convenção 100 da OIT: Igualdade nas Remunerações Convenção 111 da OIT: Discriminação no Emprego e no Trabalho Convenção da ONU sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres Convenção Interamericana de Prevenção. Paraguai Bolívia. México Panamá Chile. “Convenção de Belém do Pará” Direitos de indígenas e grupos étnicos Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965) Convenção da OIT 169 sobre Povos Indígenas e Tribais Bases empíricas do Relatório Direitos de menores Convenção da OIT 138 sobre Idade Mínima Convenção da ONU dos Direitos da Criança Convenção da OIT 182 sobre Piores Formas do Trabalho Infantil 113 Notas: O hífen ( . DA OIT E DA OEA: DIREITOS GERAIS E DIREITOS DE CATEGORIAS DE CIDADÃOS. Uruguai 1973 1989 1999 2 0 3 México. OIT 2003.TABELA 24 TRATADOS DA ONU. Panamá. Castigo e Erradicação da Violência contra as Mulheres. Sociais e Culturais Convenção Americana sobre Direitos Humanos. A informação sobre os direitos de indígenas e minorias étnicas está atualizada até 24 de novembro de 2002. O restante da informação está atualizado até 1 º de abril de 2003.

mas as “línguas aborígenes” são conservadas e difundidas Sim..TABELA 25 DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS. Não Sim Notas: As datas das constituições se referem aos documentos originais e à última reforma ou emenda. de outubro de 1993. o espanhol é o idioma oficial.e Universidade de Georgetown e OEA 2002. mas as línguas indígenas são para uso oficial restrito Não. as línguas indígenas são de uso oficial para os indígenas e devem ser respeitadas em todo o território Panamá Paraguai Peru 1972/78/83/93/94 1992 1993 Sim Sim Sim República Dominicana . Fontes :OIT 2002b. as línguas indígenas têm status oficial nas áreas onde são faladas Não.Van Cott 2003. o espanhol é o idioma oficial. estabelece a promoção das culturas e idiomas indígenas e dos sistemas de educação intercultural bilíngüe (art. o espanhol é o idioma oficial. a Lei Indígena N º19. mas não existe idioma oficial Sim. e garante o uso de línguas indígenas em processos judiciais (art.Barié 2000.. às vezes. 114 A democracia na América Latina . Uruguai Venezuela 1967/97 1999 . Os direitos multiculturais referem-se ao fato de as múltiplas identidades étnicas serem ou não reconhecidas pelo Estado. mas as línguas indígenas são de uso oficial nas áreas onde predominam .74). 2000 Direitos constitucionais País Argentina Bolívia Brasil Chile (*) Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Constituição 1853/1994 1967/1994 1988 1980 1991 1949 1998 1983/1992 1985 1982 1917/1992 1987/1995 Direitos multiculturais Existência de direitos relacionados com o uso do idioma Fracos Sim Não Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Sim Não.572-574.39). os idiomas das comunidades da costa atlântica são oficiais nessas regiões Não. o guarani é um idioma oficial Sim. mas as línguas indígenas e os dialetos são oficiais em seus territórios Não. mas não existe idioma oficial Não. como direitos coletivos. Não Sim. mas não existe idioma oficial Não. mas as “línguas autóctones” são respeitadas Sim. o espanhol é o idioma oficial Sim.42.pp.253. Os direitos apresentados neste quadro são considerados. o espanhol é o idioma oficial Não. e não estritamente direitos civis.. (*) No Chile. mas as línguas indígenas são fomentadas Sim. o português é o idioma oficial Não.

23 70.86 33... .77 70..90 72. 201-202. quadro 2. 5. 260 Notas: A “proporção que trabalha” refere-se ao número de crianças que trabalham em relação ao número total de crianças. e 2003.. 16 . Bases empíricas do Relatório 115 . e p. . quadro 8.89 Notas: Os dados sobre disparidade salarial por gênero representam a porcentagem da renda masculina recebida pelas mulheres.37 70. 17. 50 750 110 220 .89 64.500 . 201-202. 27. pp. 210 3 1 120 . . 200 550 .5 127. quadro 10.81 50. A coluna “assalariados “compara as diferenças salariais entre homens e mulheres unicamente no contexto da população assalariada. 250 .34 77... A coluna PEA (População Economicamente Ativa) compara diferenças da renda entre homens e mulheres no contexto da PEA global... Fontes: IPEC-SIMPOC 2002. pp. p.4 .55 31.30 28.3 48..4 2 19 29 15 .. 120 30 420 590 .23 67. 2000 Crianças economicamente ativas (5-14 anos) Região Economias desenvolvidas Ásia e Pacífico África subsaariana Oriente Médio e Norte da África África América Latina e Caribe número de crianças (em milhões) proporção que trabalha (%) Crianças implicadas nas piores formas de trabalho infantil tráfico (em milhares) trabalho forçado e servil (em milhares) conflito armado (em milhares) prostituição e pornografia (em milhares) atividades ilícitas (em milhares) 2.99 70. quadro 8. ..32 52. .TABELA 26 MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO 1990-2000 Participação na atividade econômica 1990 Total Homens Mulheres Total 1995 Homens Mulheres Total 2000 Homens Mulheres 49... 2002b.0 13.. As cifras sobre crianças implicadas nas “piores formas de trabalho” são estimativas. Fontes: CEPAL 2001a.93 Disparidade salarial por gênero (renda média nas áreas urbanas) Início dos anos 90 PEA assalariados Meados dos anos 90 PEA assalariados PEA Fim dos anos 90 assalariados 61. TABELA 27 INCIDÊNCIA DO ABUSO DE MENORES NAS DIFERENTES REGIÕES DO MUNDO. As cifras regionais são a média ou termo médio de todos os casos em que existem dados para qualquer ano. quadro 15. pp.. 20-21. 17. .

Honduras. Nicarágua. 2003 Número de países Tratado Convenção da ONU contra a tortura e outras formas de tratamento e castigo cruéis.TABELA 28 TRATADOS DA ONU E DA OEA SOBRE DIREITOS CIVIS FUNDAMENTAIS. Honduras. inumanos ou degradantes Convenção Interamericana da OEA para prevenir e castigar a tortura Protocolo da Convenção Interamericana de Direitos Humanos para abolir a pena de morte Ano 1984 sem ratificar 2 Países sem ratificar Nicarágua. Bolívia. Peru. e OEA 2003. República Dominicana 1995 3 Bolívia. Guatemala. México. Peru. 116 A democracia na América Latina . Equador. República Dominicana 1990 10 Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forçoso de Pessoas 1994 9 Brasil. Fontes: ONU 2003. Chile. Colômbia. República Dominicana Nota: A informação está atualizada a 1º de abril de 2003. Honduras. El Salvador. Nicarágua Argentina. Colômbia. El Salvador. México.

1995-99 c.1 5.000 521. Krug 2002.000 1. 1995-99 c.217 2.5 70.239 9.0 6.8 4. e refletem uma média nãoponderada.8 22. e ONU.6 33.9 34. 1995-99 c.000 78.TABELA 29 HOMICÍDIOS DOLOSOS NA AMÉRICA LATINA E EM OUTRAS PARTES DO MUNDO. 1995-99 4.0 15. 1995-99 c.022 109.1 Nota: As cifras regionais são a soma de todos os casos em que existem dados disponíveis.8 Ano 2001 2000 2001 2001 2000 1999 1999 2001 1994 1998 2000 1998 1998 2001 2001 1998 2000 2000 c.000 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Referentes extra-regionais Europa Ocidental Mediterrâneo Oriental Ásia do Sul e Oriental África Pacífico Ocidental Total mundial c.135 habitantes 8.4 7.558 39. ONU.1 8. para América Latina corresponde o ano 1997.000 116.2 32. Divisão de População.121 154 8.829 1. 274.0 15.1 2. UNODC 2002. Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais 2001 e 2002. 308-312.241 13.0 14.0 23.000 59.196 3. Bases empíricas do Relatório 117 .3 154. C.157 54 890 1.2 25. 1997 N° de mortes 3.0 4.2 25.2000 N° de mortes por 100.298 1.6 5.048 2. pp.555 245 3.3 33. Fontes: Interpol 2004.2 5.519 31. O número de homicídios para El Salvador e Honduras é estimado.618 699 29.0 24. 2000 c. A Europa Ocidental não inclui Luxemburgo nem o Reino Unido.

000 habitantes País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.2 1.0 8.2 1. Os dados sobre advogados públicos para a Argentina referem-se ao total de funcionários e para o Brasil são estimados.5 4.4 7.2 6.6 1.7 3. 2001 Recursos financeiros Número de juízes Número de juízes por 100.000 habitantes Número de defensores públicos Número de defensores públicos Número de defensores públicos por 100.2 5.5 Notas: O número de juízes para o México refere-se unicamente ao nível federal.3 0. Legal and Judicial Reform Practice Group 2003.0 7.4 16.3 4. Banco Mundial.3 0.7 0.0 5. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Ano % orçamento nacional Ano Ano 2000 2001 2000 2002 2002 2001 2001 2002 2002 2002 2000 2001 2000 2001 2002 2001 2001 2002 3.9 2001 2001 2001 2004 2000 2001 2001 2001 2001 2002 2001 2001 2001 2001 2001 2001 2001 1998 857 82 3000 417 1.3 1.4 1.1 0.2 0.6 5.126 128 33 274 92 200 686 15 48 200 263 39 74 159 2.5 6.6 1.9 1.5 1. 118 A democracia na América Latina .0 7.8 3.7 2.7 6.0 15.2 0.5 3.2003a e 2003b.2 0.6 1.1 4.4 2.7 2.7 3.6 9.5 6.1 9.5 2.0 2.0 0.9 1.0 0.TABELA 30 RECURSOS FINANCEIROS E HUMANOS DEDICADOS AO SISTEMA DE ADMINISTRAÇÃO DE JUSTIÇA.6 1.0 10.5 2000 2002 2000 2002 2002 2001 2002 2002 2002 2002 2000 2001 2002 2001 2002 2001 2000 2000 11.5 2. para o número de Juízes e Defesores públicos a média é ponderada.7 1.1 3.9 2. Fontes: CEJA.2 1. Os dados regionais para a porcentagem do orçamento não são ponderados.0 8.

fig.4 41.6 127. 2002 Total de população carcerária (inclui presos processados e presos sem Taxa de população carcerária (por 100.6 115.2.5 57.8 119.5 112.493 15.2003.8 106.460 11. Os dados sobre o nível de ocupação para a Argentina foram retirados de CELS 2001.2.5 69.3 136.7 60.5 54.526 7.604 8.278 8.9 49.705 107 102 137 204 126 229 59 158 71 172 156 143 359 75 104 178 166 62 145 55.3 150.7 67.4.0 33. 2002 condenação) 38.765 7.8 97.9 78.2 30.2 138.315 240.cap.1 39.2 36.8 113.198 10.088 27.0 167.e correspondem ao ano 2000.098 54.423 4. Fontes: Centro Internacional para Estudos Penitenciários.000 habitantes) Presos sem processo e presos sem condenação (porcentagem da população carcerária) Nível de ocupação (sobre a base da capacidade oficial) País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Referente extra-regional Estados Unidos Ano 1999 1999 2002 2002 2001 1999 2002 2002 1999 2002 2000 1999 2002 1999 2002 2001 2002 2000 c.107 36.5 109.7 40.5 132. PRESOS SEM CONDENAÇÃO E SUPERLOTAÇÃO.716 10.2 64.3 92.5 72.9 207.107 33.2 2001 1.8 55.5 151.341 5.A populación presa total para América Latina é de 660.502 154.0 134.220 686 18.9 162.0 137.TABELA 31 POPULAÇÃO CARCERÁRIA.962.5 41.684.034 8.0 136. Bases empíricas do Relatório 119 .4 Nota: As cifras regionais são a média dos casos.629 15. a populaçao regional de 508 milhoes para 2002.8 175.

5 40. Fontes: Karlekar 2003.5 8.3 . as cifras mais baixas indicam maior grau de liberdade. e Repórteres sem Fronteiras 2003.8 27. 1993-2002 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.5 18.5 9. seja por represália direta por seu trabalho ou por fogo cruzado.. Dominicana Uruguai Venezuela Região América Latina Europa Ocidental 32 1 33 2 1993-1997 1998-2002 1 0 6 0 13 0 0 1 2 1 5 0 0 0 1 1 0 1 1 1 4 0 18 1 0 0 2 0 3 0 0 1 0 0 1 1 Notas: As escalas de liberdade de imprensa da Freedom House e de Repórteres sem Fronteiras vão de 0 a 100..0 14. 120 A democracia na América Latina .TABELA 32 TABELA 33 LIBERDADE DE IMPRENSA. 24.5 8. Fonte: CPI 2003.3 5.. 2001-2002 Freedom House País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina 2001 39 30 38 22 63 14 41 38 58 51 38 40 34 55 35 33 30 68 40.8 4. 6.0 15. A informação de Repórteres sem Fronteiras refere-se ao período setembro 2001-outubro 2002.5 .0 25..8 6. Nota: Os índices medem unicamente o número de casos claramente confirmados de jornalistas assassinados no cumprimento do dever.Os dois pontos seguidos (.2 MORTE DE JORNALISTAS.) indicam que a informação não está disponível. 15.4 Repórteres sem Fronteiras 2001/2002 12.8 .

Fontes: OEA-CIDH. remover ou preservar tal informação com o objetivo de proteger certos direitos fundamentais. referente à sua pessoa ou à sua propriedade e.quadro 1. a possibilidade de atualizar. mas ambígua Sim Não Não Não Sim Sim Sim Sim. A expressão “Habeas data” refere-se a uma ação que garanta o acesso de qualquer indivíduo à informação existente em bases de dados públicas ou privadas.cap. e Guadamuz 2000 e 2001. mas ambígua Sim Não Sim Sim Não Sim Opção legal Ano de adoção Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Não Não Sim 1994 1988 1997 1996 1995 2002 1995 2002 1992 1993 1999 Notas: A expressão “direito ao acesso à informação pública” refere-se ao direito a obter informação de fontes estatais sobre a administração dos assuntos públicos. 2002 Habeas data Direito ao acesso à País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.3. Bases empíricas do Relatório 121 . Dominicana Uruguai Venezuela informação pública Sim Não Sim Sim. corrigir. Relatório para a Liberdade de Expressão 2001. caso seja necessário.TABELA 34 DIREITO AO ACESSO À INFORMAÇÃO PÚBLICA E HABEAS DATA.

Fontes: ONU 2003a. O restante da informação está atualizado até 1 º de abril de 2003. Uruguai 1973 1989 1999 2 0 3 México. Castigo e Erradicação da Violência contra as Mulheres. “Pacto de San José de Costa Rica” Direitos trabalhistas Convenção 29 da OIT: Eliminação do Trabalho Forçado e Compulsivo Convenção 87 da OIT: Liberdade de Associação e Proteção do Direito de Organização Convenção 98 da OIT: Direito à Organização e à Negociação Coletiva Convenção 105 da OIT: Abolição do Trabalho Forçado Direitos de mulheres Convenção 100 da OIT: Igualdade nas Remunerações Convenção 111 da OIT: Discriminação no Emprego e no Trabalho Convenção da ONU sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres Convenção Interamericana de Prevenção. Panamá.TABELA 24 TRATADOS DA ONU. Sociais e Culturais Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Paraguai Bolívia. . OIT 2003.) indica que o dado não é aplicável. 2002 Número de países sem Ano ratificar 0 0 0 1 2 2 0 0 0 0 1994 1965 1989 0 1 6 Bolívia Brasil. Colômbia. DA OIT E DA OEA: DIREITOS GERAIS E DIREITOS DE CATEGORIAS DE CIDADÃOS. México Panamá Chile. El Salvador. El Salvador El Salvador. República Dominicana. Nicarágua. e OEA 2003. “Convenção de Belém do Pará” Direitos de indígenas e grupos étnicos Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1965) Convenção da OIT 169 sobre Povos Indígenas e Tribais Bases empíricas do Relatório Direitos de menores Convenção da OIT 138 sobre Idade Mínima Convenção da ONU dos Direitos da Criança Convenção da OIT 182 sobre Piores Formas do Trabalho Infantil 113 Notas: O hífen ( . A informação sobre os direitos de indígenas e minorias étnicas está atualizada até 24 de novembro de 2002. Venezuela 1966 1966 1969 1930 1948 1949 1957 1951 1958 1979 Países sem ratificar Direito Tratado Direitos gerais Pacto Internacional da ONU sobre Direitos Civis e Políticos Pacto Internacional da ONU sobre Direitos Econômicos.

os idiomas das comunidades da costa atlântica são oficiais nessas regiões Não.39). estabelece a promoção das culturas e idiomas indígenas e dos sistemas de educação intercultural bilíngüe (art. mas as línguas indígenas são fomentadas Sim. e não estritamente direitos civis.Van Cott 2003. as línguas indígenas têm status oficial nas áreas onde são faladas Não. a Lei Indígena N º19. (*) No Chile. mas não existe idioma oficial Sim. 114 A democracia na América Latina .e Universidade de Georgetown e OEA 2002. mas não existe idioma oficial Não.Barié 2000. Os direitos apresentados neste quadro são considerados. 2000 Direitos constitucionais País Argentina Bolívia Brasil Chile (*) Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Constituição 1853/1994 1967/1994 1988 1980 1991 1949 1998 1983/1992 1985 1982 1917/1992 1987/1995 Direitos multiculturais Existência de direitos relacionados com o uso do idioma Fracos Sim Não Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Sim Não. Os direitos multiculturais referem-se ao fato de as múltiplas identidades étnicas serem ou não reconhecidas pelo Estado.572-574.. as línguas indígenas são de uso oficial para os indígenas e devem ser respeitadas em todo o território Panamá Paraguai Peru 1972/78/83/93/94 1992 1993 Sim Sim Sim República Dominicana . mas as línguas indígenas e os dialetos são oficiais em seus territórios Não. e garante o uso de línguas indígenas em processos judiciais (art.TABELA 25 DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS. de outubro de 1993. mas não existe idioma oficial Não.42. às vezes. o português é o idioma oficial Não.253. como direitos coletivos. o guarani é um idioma oficial Sim.pp. Não Sim Notas: As datas das constituições se referem aos documentos originais e à última reforma ou emenda. Uruguai Venezuela 1967/97 1999 . o espanhol é o idioma oficial.74).. o espanhol é o idioma oficial Não. o espanhol é o idioma oficial Sim. Não Sim.. Fontes :OIT 2002b. mas as “línguas aborígenes” são conservadas e difundidas Sim. mas as línguas indígenas são para uso oficial restrito Não. o espanhol é o idioma oficial. o espanhol é o idioma oficial. mas as “línguas autóctones” são respeitadas Sim. mas as línguas indígenas são de uso oficial nas áreas onde predominam .

0 13. quadro 10. Bases empíricas do Relatório 115 . 2002b.89 64. 120 30 420 590 .4 2 19 29 15 ..37 70.. . pp. e p. As cifras sobre crianças implicadas nas “piores formas de trabalho” são estimativas. .4 . quadro 15. 16 ..23 70. A coluna “assalariados “compara as diferenças salariais entre homens e mulheres unicamente no contexto da população assalariada.23 67.34 77. 50 750 110 220 .. quadro 8..99 70. ...90 72. pp. 200 550 . 210 3 1 120 .55 31.. p. Fontes: IPEC-SIMPOC 2002. 201-202. 20-21.77 70. quadro 2. As cifras regionais são a média ou termo médio de todos os casos em que existem dados para qualquer ano...30 28.. quadro 8. 5.5 127..TABELA 26 MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO 1990-2000 Participação na atividade econômica 1990 Total Homens Mulheres Total 1995 Homens Mulheres Total 2000 Homens Mulheres 49.3 48. Fontes: CEPAL 2001a. 27.500 ..89 Notas: Os dados sobre disparidade salarial por gênero representam a porcentagem da renda masculina recebida pelas mulheres. 17. . 17..86 33. e 2003.. 250 . pp. 201-202. A coluna PEA (População Economicamente Ativa) compara diferenças da renda entre homens e mulheres no contexto da PEA global. .93 Disparidade salarial por gênero (renda média nas áreas urbanas) Início dos anos 90 PEA assalariados Meados dos anos 90 PEA assalariados PEA Fim dos anos 90 assalariados 61.81 50. 2000 Crianças economicamente ativas (5-14 anos) Região Economias desenvolvidas Ásia e Pacífico África subsaariana Oriente Médio e Norte da África África América Latina e Caribe número de crianças (em milhões) proporção que trabalha (%) Crianças implicadas nas piores formas de trabalho infantil tráfico (em milhares) trabalho forçado e servil (em milhares) conflito armado (em milhares) prostituição e pornografia (em milhares) atividades ilícitas (em milhares) 2. TABELA 27 INCIDÊNCIA DO ABUSO DE MENORES NAS DIFERENTES REGIÕES DO MUNDO.32 52. . 260 Notas: A “proporção que trabalha” refere-se ao número de crianças que trabalham em relação ao número total de crianças.

Honduras. Colômbia. El Salvador. Fontes: ONU 2003. República Dominicana 1990 10 Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forçoso de Pessoas 1994 9 Brasil. Guatemala. Peru. Honduras. Equador. El Salvador. Nicarágua Argentina. Bolívia. 116 A democracia na América Latina . México. inumanos ou degradantes Convenção Interamericana da OEA para prevenir e castigar a tortura Protocolo da Convenção Interamericana de Direitos Humanos para abolir a pena de morte Ano 1984 sem ratificar 2 Países sem ratificar Nicarágua. Nicarágua. República Dominicana Nota: A informação está atualizada a 1º de abril de 2003. Chile.TABELA 28 TRATADOS DA ONU E DA OEA SOBRE DIREITOS CIVIS FUNDAMENTAIS. Honduras. México. Colômbia. 2003 Número de países Tratado Convenção da ONU contra a tortura e outras formas de tratamento e castigo cruéis. República Dominicana 1995 3 Bolívia. e OEA 2003. Peru.

519 31. 274.6 33.618 699 29.048 2. 1995-99 c.3 33.298 1. 1995-99 4. e ONU.135 habitantes 8.2 25.5 70. ONU.829 1.157 54 890 1.022 109.558 39. 2000 c.239 9. pp.8 Ano 2001 2000 2001 2001 2000 1999 1999 2001 1994 1998 2000 1998 1998 2001 2001 1998 2000 2000 c.0 6.0 24.1 5.3 154.000 116.000 1.9 34.555 245 3.196 3.2 5.000 521. e refletem uma média nãoponderada.000 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Referentes extra-regionais Europa Ocidental Mediterrâneo Oriental Ásia do Sul e Oriental África Pacífico Ocidental Total mundial c.4 7. 1995-99 c. 1995-99 c.2 25. Divisão de População. A Europa Ocidental não inclui Luxemburgo nem o Reino Unido. para América Latina corresponde o ano 1997.0 23.000 78.0 15.217 2.0 4. O número de homicídios para El Salvador e Honduras é estimado. Bases empíricas do Relatório 117 . C.2 32. 308-312.121 154 8.000 59. Krug 2002.241 13.8 4. Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais 2001 e 2002.1 8. Fontes: Interpol 2004.6 5. 1995-99 c. UNODC 2002.8 22.2000 N° de mortes por 100.0 14.1 Nota: As cifras regionais são a soma de todos os casos em que existem dados disponíveis. 1997 N° de mortes 3.1 2.TABELA 29 HOMICÍDIOS DOLOSOS NA AMÉRICA LATINA E EM OUTRAS PARTES DO MUNDO.0 15.

0 10.2 0.7 3.9 2.5 2.7 2.2 0.5 6.1 0.6 1.0 8.4 2. 2001 Recursos financeiros Número de juízes Número de juízes por 100.5 3.000 habitantes Número de defensores públicos Número de defensores públicos Número de defensores públicos por 100.7 2. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Ano % orçamento nacional Ano Ano 2000 2001 2000 2002 2002 2001 2001 2002 2002 2002 2000 2001 2000 2001 2002 2001 2001 2002 3.2003a e 2003b.5 6.2 1.7 1.000 habitantes País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.0 0.3 0.1 3.9 1.0 2.4 16.6 5.5 Notas: O número de juízes para o México refere-se unicamente ao nível federal.9 1.5 4.5 2000 2002 2000 2002 2002 2001 2002 2002 2002 2002 2000 2001 2002 2001 2002 2001 2000 2000 11.3 4.0 0. Banco Mundial.7 3. para o número de Juízes e Defesores públicos a média é ponderada.126 128 33 274 92 200 686 15 48 200 263 39 74 159 2.3 1.6 9.7 6.6 1.7 0. Os dados regionais para a porcentagem do orçamento não são ponderados.1 9.0 15. 118 A democracia na América Latina . Fontes: CEJA.1 4.2 5.5 1.6 1.2 1. Legal and Judicial Reform Practice Group 2003.2 6.TABELA 30 RECURSOS FINANCEIROS E HUMANOS DEDICADOS AO SISTEMA DE ADMINISTRAÇÃO DE JUSTIÇA.8 3.3 0.4 7.0 7.0 8.0 5.9 2001 2001 2001 2004 2000 2001 2001 2001 2001 2002 2001 2001 2001 2001 2001 2001 2001 1998 857 82 3000 417 1.2 1.2 0.0 7. Os dados sobre advogados públicos para a Argentina referem-se ao total de funcionários e para o Brasil são estimados.5 2.6 1.4 1.

5 151.2 138.9 207.4 Nota: As cifras regionais são a média dos casos.8 106.716 10.5 41.3 92.107 36.315 240.5 54.000 habitantes) Presos sem processo e presos sem condenação (porcentagem da população carcerária) Nível de ocupação (sobre a base da capacidade oficial) País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Referente extra-regional Estados Unidos Ano 1999 1999 2002 2002 2001 1999 2002 2002 1999 2002 2000 1999 2002 1999 2002 2001 2002 2000 c.0 137.705 107 102 137 204 126 229 59 158 71 172 156 143 359 75 104 178 166 62 145 55.9 162.278 8.3 136.5 132.3 150.8 175. 2002 condenação) 38.198 10. a populaçao regional de 508 milhoes para 2002.7 60.2 30.088 27.629 15.6 115.098 54.5 112.423 4. Fontes: Centro Internacional para Estudos Penitenciários.7 67.5 72.A populación presa total para América Latina é de 660.2.2 2001 1.604 8.0 167.0 33.4 41.962. PRESOS SEM CONDENAÇÃO E SUPERLOTAÇÃO.2003.9 49.6 127.0 134.684.8 113.502 154.220 686 18.5 57.526 7.9 78.341 5.8 119.2 36.7 40.2 64.TABELA 31 POPULAÇÃO CARCERÁRIA.107 33. Os dados sobre o nível de ocupação para a Argentina foram retirados de CELS 2001.8 55.034 8. 2002 Total de população carcerária (inclui presos processados e presos sem Taxa de população carcerária (por 100. Bases empíricas do Relatório 119 .460 11.1 39.e correspondem ao ano 2000.0 136.493 15.8 97.4.5 69.cap.fig.5 109.2.765 7.

8 6.TABELA 32 TABELA 33 LIBERDADE DE IMPRENSA.. e Repórteres sem Fronteiras 2003.5 18.0 25. Nota: Os índices medem unicamente o número de casos claramente confirmados de jornalistas assassinados no cumprimento do dever. Fonte: CPI 2003. 1993-2002 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.) indicam que a informação não está disponível.8 4.5 9. 15.4 Repórteres sem Fronteiras 2001/2002 12..5 .3 . 120 A democracia na América Latina . Dominicana Uruguai Venezuela América Latina 2001 39 30 38 22 63 14 41 38 58 51 38 40 34 55 35 33 30 68 40.3 5.2 MORTE DE JORNALISTAS. 24.0 15. as cifras mais baixas indicam maior grau de liberdade. Fontes: Karlekar 2003.5 8.5 8. A informação de Repórteres sem Fronteiras refere-se ao período setembro 2001-outubro 2002. 2001-2002 Freedom House País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.8 .Os dois pontos seguidos (...0 14.5 40. seja por represália direta por seu trabalho ou por fogo cruzado. 6. Dominicana Uruguai Venezuela Região América Latina Europa Ocidental 32 1 33 2 1993-1997 1998-2002 1 0 6 0 13 0 0 1 2 1 5 0 0 0 1 1 0 1 1 1 4 0 18 1 0 0 2 0 3 0 0 1 0 0 1 1 Notas: As escalas de liberdade de imprensa da Freedom House e de Repórteres sem Fronteiras vão de 0 a 100.8 27.

cap.3. referente à sua pessoa ou à sua propriedade e. e Guadamuz 2000 e 2001. mas ambígua Sim Não Sim Sim Não Sim Opção legal Ano de adoção Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Não Sim Sim Sim Sim Sim Não Não Sim 1994 1988 1997 1996 1995 2002 1995 2002 1992 1993 1999 Notas: A expressão “direito ao acesso à informação pública” refere-se ao direito a obter informação de fontes estatais sobre a administração dos assuntos públicos.TABELA 34 DIREITO AO ACESSO À INFORMAÇÃO PÚBLICA E HABEAS DATA. A expressão “Habeas data” refere-se a uma ação que garanta o acesso de qualquer indivíduo à informação existente em bases de dados públicas ou privadas. remover ou preservar tal informação com o objetivo de proteger certos direitos fundamentais. Bases empíricas do Relatório 121 .quadro 1. 2002 Habeas data Direito ao acesso à País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep. Relatório para a Liberdade de Expressão 2001. Dominicana Uruguai Venezuela informação pública Sim Não Sim Sim. Fontes: OEA-CIDH. caso seja necessário. mas ambígua Sim Não Não Não Sim Sim Sim Sim. corrigir. a possibilidade de atualizar.

Vimos que é inerente à dimensão burocrática do Estado. a pobreza e a desigualdade foram amplamente reconhecidas como aspectos que obstaculizam a integração dos indivíduos na sociedade. outra dimensão crucial da qualidade da democracia. a falta de emprego. apresentamos alguns indicadores centrais da cidadania social: saúde. Em 2002. com suas profundas e persistentes desigualdades. acredito. 2002c. educação. texto elaborado para o PRODDAL. de um total de dezoito. N ecessidades básicas Nessa dimensão registram-se alguns avanços embora os indicadores ainda continuem distantes do que seria desejável. Esses males cultivam o autoritarismo social. O índice de analfabetismo reduziu-se em todos os países da região. Em condições de extrema pobreza e desi- gualdade. a desnutrição infantil diminuiu em treze países e. é menos difundida. 2002c. e em sete. o Protocolo Adicional da Convenção Interamericana dos Direitos Humanos na área dos direitos econômicos. Especificamente. ver PNUD. 122 A democracia na América Latina . pelo menos uma de cada cinco (tabela 35). algumas vezes. e três países – Chile. torna-se difícil a realização de um pressuposto chave da democracia: que os indivíduos são cidadãos plenos que atuam em uma esfera pública em que se relacionam em condição de iguais. a ação constante da sociedade civil possibilitou avançar não apenas no debate como também na permanente mobilização para conseguir que a cidadania social seja um efetivo componente da cidadania integral. É mais severo e sistemático quando o “sujeito” dessas relações está em situação de pobreza e desigualdade ampla e severa. melhoras nos indicadores de desnutrição infantil e analfabetismo.2024 e capítulo 4. ela ainda atinge mais de 5 por cento das crianças em dezesseis dos dezoito países considerados e. registrando-se os quadro 29 Cidadãos pobres e desiguais Este é um problema em todos os lugares. Os dados sobre a cidadania social mostram que a maioria dos países da América Latina possui severas deficiências com conseqüências para grandes e. em âmbitos acadêmicos e políticos. mais de 25 por cento da população vivia abaixo da linha de pobreza. A leitura desses indicadores nos dará uma aproximação da capacidade real de exercício da cidadania na América Latina. e repercutem na maneira em que as burocracias do Estado tratam muitos indivíduos. Sobre a saúde e a educação como duas necessidades básicas. na América Latina. Os direitos à saúde e à educação são considerados componentes básicos da cidadania social. 67 Em relação ao impacto da desigualdade e da pobreza sobre as capacidades dos cidadãos. No entanto. amplamente praticado na América Latina por ricos e poderosos. pp. pobreza e desigualdade. agrupados nas duas dimensões indicadas no quadro 30. Observam-se. A seguir. podem ser catalogados como sumamente desiguais. Nesse sentido. Por sua vez. Essa é. no Brasil. na região. denominado Protocolo de San Salvador foi assinado só em 1988. emprego. pp. Diferentemente dos outros tipos de cidadania. mediante convenções ou tratados. a proporção de pobres era superior a 50 por cento. Surgiu desses debates um certo consenso a respeito dos componentes básicos dessa cidadania. ver Sen. a cidadania social nem sempre tem uma clara base legal nas constituições e legislações nacionais. sociais e culturais. em sete. 66 Por exemplo. essa dimensão é uma das mais deficientes. acerca dos conteúdos da cidadania social.Cidadania social A cidadania social refere-se aos aspectos da vida dos cidadãos relacionados com o potencial para desenvolver suas capacidades básicas. Todos os países da região são mais desiguais do que a média mundial e dezesseis. a contribuição dada pelos relatórios de desenvolvimento humano67 foi importante.252-253. na Guatemala e na Bolívia. Debate-se.66 No entanto. de maneira notável. 1999b. e sua aceitação internacional. Costa Rica e Uruguai – destacam-se por apresentar níveis relativamente baixos desses problemas. Guillermo O’Donnell. majoritários segmentos de suas populações. em quinze casos.

em quatorze dos dezoito países. Entretanto. na Bolívia. Para a enorme maioria dos latino-americanos. com freqüência.maiores avanços na Guatemala. o emprego perdeu qualidade e força como meio de inserção social. As conquistas em matéria de redução da desnutrição infantil e do analfabetismo evidenciam que. também permitem observar alguns avanços. José Antonio Ocampo. como mortalidade infantil (tabela 37). discurso do secretário executivo da CEPAL. e é a forma por meio da qual obtêm os meios que lhes permitem gozar de seus direitos. Os seis países latino-americanos incluídos no estudo encontram-se entre os últimos lugares nos índices de qualidade educativa e de desempenho dos alunos. não tem real capacidade de ler e entender o que lê (tabela 40). Bases empíricas do Relatório 123 . o analfabetismo ainda atinge mais de 5 por cento da população de mais de quinze anos. essa expectativa não se satisfaz. pois é a principal fonte de renda dos lares (gera 80 por cento do total). uma tendência geral positiva. o emprego é a via para enfrentar a pobreza. no II Encontro de ex-Presidentes Latino-americanos. pobreza e desigualdade registram níveis muito altos. isso não é suficiente para deixar quadro 30 Dimensões da cidadania social Dimensão Questões relevantes Necessidades básicas Integração social Saúde e educação Trabalho. Outros indicadores. um número enorme – mais da metade – dos alunos da América Latina. Como a cidadania social possui um componente econômico. embora algumas vezes o nível de melhoria resulte baixo diante da extensão e profundidade dos déficits existentes.68 68 “Globalização e desenvolvimento social”. o emprego significa um pilar básico de sua cidadania. na América Latina. em El Salvador e em Honduras. Tudo indica que. Há outros dados disponíveis que colocam em dúvida alguns dos indicadores aqui utilizados. fatores determinantes da pobreza e das desigualdades sociais que se reproduzem no tempo. Tanto é assim que até quando é possível notar certas melhorias. realizado pela OCDE e pela UNESCO. No entanto. A exclusão e a segmentação derivadas da falta de acesso a empregos de qualidade são. e em quatro atinge 20 por cento ou mais (tabela 36). evidenciam-se as mais graves carências de cidadania social na América Latina. O nível de desemprego da América Latina situa-se entre os mais altos do mundo e o de desigualdade é o mais alto do mundo. Chile. O trabalho é o aporte dos cidadãos para a produção da sociedade. o que significa um enorme desafio para a política e para a democracia na região. para a maioria da população. Os problemas de emprego. o estudo “Aptidões lingüísticas para o mundo de amanhã”. mostra que. No entanto. pobreza e desigualdade de caracterizar a situação como sumamente grave. em muitos casos. Nesse sentido. essas deficiências relacionadas com a cidadania social puderam ser atendidas com resultados positivos. por isso. Em matéria de indicadores de saúde e educação existe. nos últimos anos. que abarcou quarenta e um países. como no caso da pobreza. A situação do emprego piorou e os níveis de desigualdade mantiveram-se estacionários ou aumentaram. 22-23 de abril de 2002. mesmo alfabetizados. e para dela sair. Santiago. na região. expectativa de vida (tabela 38) e nível de escolarização (tabela 39). manifestadas na elevada e persistente concentração de renda que prevalece na região”. Como destaca a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL): “O emprego é o vínculo mais importante entre desenvolvimento econômico e desenvolvimento social. é necessário ser prudente na valorização desses indicadores. Integração social Nessa dimensão.

30 milhões a mais do que em 1990. Além disso. 2002.quadro 31 Inserção genuína para os “supranumerários” Quase todo mundo recusa abertamente o modelo de “sociedade dual”. nas áreas mais modernizadas da América Latina. a cobertura social dos trabalhadores diminuiu e o emprego informal cresceu: sete de cada dez novos empregos criados na região desde 1990 correspondem ao setor informal. no Panamá. não se trata apenas de conseguir ocupação para todos.5 por cento da força de trabalho urbana da América Latina. Para isso examina a evolução das brechas de emprego e previdência social. pp. de cada dez novos empregos gerados no setor formal desde 1990. O aumento do déficit atinge 15. No entanto. Atualmente. o índice de desemprego duplica ou quase duplica a média nacional de desocupação (tabela 42). subiu para 50. “o problema não se reduz ao acesso marginal dos ‘pobres estruturais’ aos direitos de cidadania. na Venezuela. 70 O déficit primário de trabalho decente é um indicador elaborado e calculado pela OIT. em 1990. Em 2002. pp.. Em 2002. em El Salvador. na Costa Rica. Escritório Regional para as Américas. a pobreza diminuiu em doze países. e em sete.7 por cento da força de trabalho. além das carências que sofrem atualmente. no México. O segundo componente leva em conta as pessoas ocupadas em atividades informais de baixa qualidade (baixa produtividade. na maioria dos países da região. no México e no Uruguai. O primeiro corresponde à diferença entre a taxa de desemprego real e a média de um período de trinta anos (1950-1980). esse índice aumentou. abundam mu- 69 OIT. Robert Castel . apenas seis têm acesso a algum tipo de cobertura social. o déficit primário de trabalho decente atingia 93 milhões de trabalhadores na região. é uma resposta inadequada para atenuar o desemprego. O índice de desemprego urbano caiu no Equador e. Escritório Regional para as Américas. ao passo que na Argentina. dentre os empregados nos setores formais e informais. Mas muitos lhe abrem as portas festejando qualquer realização – do desenvolvimento de um setor de “utilidade social” à abertura de “novas fontes de trabalho” – desde que proporcione alguma atividade para os supranumerários. que são geralmente insuficientes como forma de integração social que garanta mínimos níveis de bem-estar. no Brasil. Entre os jovens latino-americanos. na Colômbia. O somatório das brechas de emprego e proteção social determina o déficit primário de trabalho decente. são considerados. a situação do emprego agravou-se na América Latina. o nível mais alto desde que se dispõe de cifras confiáveis (tabela 41). 1995. pois cria ocupações de baixa qualidade e baixa utilidade social. 124 A democracia na América Latina . correm o risco de desproteção ao chegar à idade de retiro (tabelas 43 e 44). Para fazer uma estimativa da brecha de emprego usa dois componentes: desemprego e informalidade. o déficit primário de trabalho decente70 atingia 49. Porém. Entretanto. 2002. no Panamá e no Brasil. alcançando 21 milhões de trabalhadores.5 por cento. 71 OIT. mas também de conseguir um estatuto. mais de cinqüenta por cento da população é pobre (tabela 45). Segundo dados da OIT. Por sua vez. em quinze dos dezoito países considerados. Esta situação motiva um sério alarme sobre o futuro de nossas sociedades: muitos dos latino-americanos.71 Entre 1990 e 2002. um quarto da população vive abaixo da linha de pobreza. 30-31. instabilidade de trabalho). especialmente no Chile. entre desempregados e informais. Para o cálculo da brecha de proteção social. A brecha de emprego ampliou-se.69 A taxa de desocupação aberta (ponderada) em 2002 foi de 10. e no Chile. níveis de renda voláteis e próximos à linha da pobreza. 454-455. Como já indicamos. que dá como resultado a denominada taxa de desemprego “histórica”. mais levemente. 2002. aqueles que não contribuem para a previdência social.8 por cento. do ponto de vista da problemática da integração social. no Equador. OIT. como afirma José Nun. Escritório Regional para as Américas. Além disso. e a brecha de proteção social cresceu atingindo nove milhões de novos trabalhadores ocupados (basicamente informais). A expansão da informalidade é um eloqüente indicador da crise de emprego.

É sempre bom recordar que os grupos populares em situação de pobreza e desigualdade. sem exceção. fez retroceder processos consistentes de emergência de novos sujeitos. tentando ver como e em que condições podem se transformar em sujeitos históricos de sua própria inclusão. São os politicamente destituídos de todo poder real. quanto à inclusão e à garantia prática de direitos fundamentais. o quadro é novo e depende de como a maior segmentação produzida entre incluídos e excluídos é vista e vivida nas diferentes sociedades. sobretudo pelas possibilidades de tornar visíveis os invisíveis. aquela com direito a voto. Do mesmo modo que todos os sujeitos sociais. defender-se. pobreza e exclusão social. adquirem poder de cidadania. Bases empíricas do Relatório 125 . ignorando e desprezando-a. é necessário reconhecer o avanço da cidadania formal. No entanto. os grupos de invisíveis se organizam. projeto. como o Rio de Janeiro do asfalto e das favelas. As grandes cidades da América Latina não são apenas uma soma de partes. em que se baseia um grupo – de membros de favelas ou de camponeses sem terra. ao contrário. ganha a sociedade civil e ganha a democracia. são privilégios. quando não consegue se organizar e lutar. Uma parte não pode dar as costas para a outra. etc. sem que sua cidadania tenha sido reconhecida. por exemplo – para desenvolver sua identidade. não são ontológica ou necessariamente democráticos. a casa. a comida. literalmente. texto elaborado para o PRODDAL. por alguma razão. Entendendo o empoderamento como conquista de poder cidadão – de visibilidade dos até então invisíveis nas relações constitutivas do poder – estamos falando do que o grupo. Direitos para algumas pessoas. negadora de sua cidadania. mesmo estando longe de mudar efetivamente o conjunto de relações que os excluem. Simplesmente porque não podem existir direitos de cidadania se não são para todos. Mas se. […] [A] garantia da democracia […] passa necessária e indispensavelmente pela sociedade civil. Entre 30% e 60% da população de nossos países sofre alguma forma de exclusão social. Perdem as sociedades civis e perde a democracia. por mais numerosas que sejam. quase na exclusão social. está revelando as contradições que permitem novamente a emergência desses setores. pois sua presença como atores concretos é a condição indispensável de sua inclusão sustentável na cidadania. exatamente em função do que mencionei acima. Cidadania é expressão de uma relação social que tem a todos como premissa. não apenas civis e políticos. a saúde. para conquistar direitos e reconhecimento público. No processo. constitui o enorme contingente de invisíveis de nossas sociedades. tomar consciência dos direitos e da importância de sua participação. particularmente no período de recente democratização. econômica. 2002. para voltar a incluir-se politicamente e a ter alguma perspectiva de mudança na situação geradora de desigualdade. construir sua visão do mundo. Em nome da verdade. não são direitos. uma cultura democrática de direitos e uma real capacidade de incidência na luta política. de modo democrático e sustentável. Como se incluir na relação de cidadania? Pensando em nossa realidade de milhões e milhões que ainda permanecem fora do sistema. política e cultural. iniciando um processo virtuoso de rupturas e de reorganização social. Cândido Grzebowsky. A questão crucial é o entrelaçamento social organizativo. simplesmente porque não têm identidade. organização social e forma de luta para afirmar-se. inclusive. a sociedade civil e a democracia ganham. O que se constata na América Latina é que o atropelamento da democratização por parte da globalização neoliberal estancou e.Essa população. Mas ter o direito político de voto não é o mesmo que ser cidadão. a educação. O processo de “empoderamento” traz consigo novas organizações. eles precisam tornar-se democráticos ao longo do próprio processo pelo qual tornam-se sujeitos. A luta contra essa globalização. formular propostas e estratégias. mas também o direito ao trabalho e à renda.quadro 32 O papel da sociedade civil Os invisíveis nas sociedades latinoamericanas [são] aqueles que não formam parte das sociedades civis.

educação. A possibilidade de maior igualdade vincula-se a força da democracia. texto produzido para o PRODDAL. também floresceu um número importante de organizações dedicadas à promoção dos valores cívicos que velam pe- tações muito profundas nos sistemas de produção e de emprego. Peru. Paraguai. aos poucos. E doze países obtiveram uma redução no nível da pobreza (de fato. assim como a difusão da ação das grandes organizações não governamentais (ONG’s) que procuram atenuar os efeitos da pobreza. De 1991 a 2002. possibilitaram inicialmente a expansão de organizações voluntárias que. José. Panamá e Uruguai tinham conseguido reduzir a desigualdade. A sociedade civil como promotora da cidadania social Os problemas e dificuldades encontrados pelos estados de bem-estar para manter a proteção de seus cidadãos. quinze dos dezoito países avançaram em seu crescimento econômico per capita. ou nas zonas. A desigualdade é medida pelo coeficiente de Gini. Repúbli72 Nun. que conduzem ao aumento da desocupação e da sub-ocupação. O cumprimento dos objetivos sociais do desenvolvimento.ca Dominicana e Venezuela pioraram). 73 Reduzir o nível de pobreza significa diminuir a porcentagem da população com renda abaixo da linha de pobreza (baseado na medida da pesquisa de domicílios). Ambas as medidas referem-se à 1999 (o ano mais próximo) e são contrastadas com as de 2002. não pode ser alcançado unicamente por meio do funcionamento dos mercados. ao chegar a 2002 apenas Guatemala. 2002. Tudo isso gera outra classe de baixa qualidade. a dos ‘novos pobres’. em que os partidos políticos não podiam expressar as demandas dos cidadãos. A igualdade dos cidadãos fortalece e consolida a democracia. 126 A democracia na América Latina . tanto urbanas quanto rurais. Nicarágua. só Argentina. e também que a diminuição da desigualdade tende a melhorar a possibilidade de crescimento econômico em ritmos aceitáveis (gráfico 4). O impulso de igualdade não vem do mercado e sim da promessa implícita na democracia. México. apoio a setores em risco. por um tipo de desfiliação cidadã dos que já estiveram integrados”. Honduras.72 provocada. onde o Estado deixou de atender adequadamente às necessidades básicas em saúde. e a uma grande crise dos laços sociais e políticos. entre outros. Contudo. na verdade. O crescimento da sociedade civil recebeu maior impulso nos países onde houve ditaduras.73 Há razões para afirmar que somente reduzindo a desigualdade será possível fazer com que a pobreza continue diminuindo. Por outro lado. Bolívia. especialmente do desenvolvimento humano. estenderam seu campo de ação a um grande número de áreas preocupantes no que se refere ao bem-estar dos cidadãos.

Um motivo adicional é de interesse público: a melhoria da qualidade de nossas democracias equivale a avançar em direção a essa decência como um valor coletivo de toda a sociedade. quadro 34 Disfunções da economia mundial Se o capitalismo. p. a saúde e o emprego requerem alimentação. A educação. Então. existem boas razões para afirmar que os cidadãos que sofrem exclusões em uma dimensão da cidadania são os mesmos que sofrem exclusões em outras dimensões. o próprio conceito de cidadania é questionado pela realidade. uma parte relevante das políticas públicas sociais é conduzida por ONGs em acordo com as instituições estatais. Atualmente. Abaixo de certos níveis mínimos de direitos sociais. nas oportunidades de emprego. com a exceção muito transitória dos anos trinta. por sua vez. dos movimentos políticos e das instituições representativas. e exacerbação da desigualdade de renda por habitante entre os diferentes países. que abarquem a totalidade da cidadania e que atendam às necessidades básicas da população. nada mais e nada menos […] o principal aglutinador só pode ser um motivo ético: o tratamento decente que todo ser humano merece. muitas ONGs (em rigor. A democracia não pode permanecer indiferente a tudo isso. na capacidade para exercer e fazer valer os direitos civis. a organização da sociedade civil visa a promover valores democráticos em sua prática corrente e atinge também a forma com que se tomam decisões. Em nenhum outro plano da cidadania. a democracia está mais comprometida do que no da cidadania social.quadro 33 A decência como valor coletivo O que vou sugerir é vincular a superação da pobreza e da desigualdade com algo que se poderia argumentar que constitui um interesse público geral: a democracia. 2003. por que a democracia interessaria aos privilegiados? […] O argumento moral e político válido é que a democracia funda-se em valores que exigem uma atitude respeitosa para com a dignidade e a autonomia de cada ser humano. eram de responsabilidade do Estado. miséria insustentável e crises recorrentes em numerosos países em desenvolvimento. ao excluir o político. No campo da ação prática para reduzir a pobreza. e promover a transparência. Bases empíricas do Relatório 127 . Porque em nenhum outro período de nossa história. etc. ao progresso e à justiça. sociais. políticos. Por último. texto elaborado para o PRODDAL. Embora seja preciso uma vigorosa ação estatal para recuperar políticas sociais universais. pela realização de eleições limpas e trabalham para melhorar a ação dos partidos. correria o risco de desmoronar-se […]. se tornasse totalitário. O panorama fica ainda mais complexo quando se considera que a expectativa de melhoria em algum desses temas costuma estar vinculada à evolução de algum ou de alguns dos outros aspectos. essas políticas deveriam ser executadas incluindo a dimensão participativa originária das diversas organizações da sociedade civil. la inscrição dos cidadãos nos registros eleitorais. formidável incremento das desigualdades e da pobreza nos países ricos) foram tão graves como hoje. Estas. Em muitos casos. A ação dessas organizações aumentou o nível participativo dos habitantes. conduzem à liberdade. Conclusões sobre a cidadania social: conquistas e deficiências As deficiências no campo da cidadania social são um dos desafios mais importantes que a região enfrenta. 82. nas questões de nutrição e de saúde. as disfunções da economia mundial (desocupação em massa. moradia e vestimenta. Guillermo O’Donnell. Jean-Paul Fitoussi. 1999c. A pobreza material dos cidadãos incide negativamente nas oportunidades de educação. diríamos não estatais) assumem funções que até então. conforme se supunha.

são pequenos em comparação com a escala dos problemas. a busca de uma maior e melhor cidadania social. p. refletem uma grave situação. insuficiente. por um lado. texto elaborado para o PRODDAL. A América Latina se caracteriza por sofrer grandes carências em múltiplos aspectos da cidadania social. 2002. parece que são muito poucas as economias da região que foram capazes de conseguir esse resultado. Para isso. em sua maior parte. ■ Os dados. embora significativos em si mesmos.quadro 35 Pobreza e desigualdade: pouca variação significativa [Constatam-se]. tendo presente que isso será muito difícil de conseguir sem reduzir também os enormes níveis de desigualdade existentes na região. parece necessário centrarse no ataque à pobreza e na geração de empregos de boa qualidade. Esta situação sugere a idéia de déficits estruturais em matéria de cidadania social. 49 128 A democracia na América Latina . as relações que existem entre a desigualdade e a pobreza econômicas. José Num. convém ler atentamente resultados como os de um trabalho econométrico que acaba de ser difundido: “A conclusão mais importante a que se pode chegar com o presente estudo é que o principal obstáculo que se interpõe no caminho do êxito dos esforços para reduzir a pobreza na América Latina e no Caribe consiste em que o melhor remédio para tratar a pobreza que aflige a região – a redução da desigualdade– parece ser um que é muito difícil de receitar. por outro. ainda que em pequena medida”. Uma leve diminuição da desigualdade contribuiria muito para reduzir as privações extremas que ocorrem na região. portanto. IDEA. Um dos desafios mais urgentes que a região enfrenta são as deficiências no campo da cidadania social. representa um desafio central para a América Latina. As privações em um componente da cidadania social costumam coincidir com privações em outros campos. No entanto. Os avanços de alguns países nesse plano. ■ Existem exclusões sociais superpostas. 2003. começando pela satisfação das necessidades básicas da população. em várias oportunidades. o desenvolvimento da democracia na América Latina requer abordar decididamente os problemas que impedem a vigência e a expansão da cidadania social. 74 CEPAL. Em síntese. PNUD. […] Nesse sentido. e a qualidade da democracia. ■ O panorama social regional é.

1991/92-00 1991-96 1987-92/93 1990-00 7.4 23.. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Ano Porcentagem Tendência recente Anos de comparação Mudança percentual 1995/96 1998 1996 1999 2000 1996 1998 1998 1999 1996 1999 1998 1997 1990 2000 1996 1992/93 2000 12.4 26.1 2. Este indicador reflete um crescimento acumulado deficiente e constitui uma medida de deficiências prévias no crescimento físico.7 -3.7 9.5 1.9 17.4 -1.1 26.1 -7.4 10.9 -15. Está associado a um conjunto de fatores de longo prazo tais como: uma alimentação cronicamente insuficiente.9 13.7 24.4 38.2 13.4 -5.9 1994-95/96 1989-98 1989-96 1986-99 1989-00 1989-96 1986-98 1993-98 1987-99 1991/92-96 1988-99 1993-98 1985-97 .6 -5.2 Notas: A baixa estatura para a idade é uma medida que compara a estatura de uma criança de acordo com sua idade em relação à média da população de referência.4 -0.6 .8 18.7 -10. persistentes más condutas de alimentação e um baixo nível econômico do lar.5 12.4 -7. infecções freqüentes. -6..1 -3.9 25.6 0. Bases empíricas do Relatório 129 . Departamento de Nutrição para a Saúde e o Desenvolvimento 2002.3 2. Fonte: Cálculo baseado em dados da OMS.8 10.8 -6.9 18.2 -11.3 46.5 6.TABELA 35 DESNUTRIÇÃO INFANTIL ENTRE 1980 E 2000 Último ano País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.0 -4.

3 7.4 25.7 42.8 20.4 8.9 31.4 11. Os dados para a Região são a média de todos os casos.0 23.8 19. Fonte: UNESCO.8 46.7 14.2 15.5 15.3 31.1 20.1 6.8 25.5 8.5 32.1 12.7 41.2 24.4 8.7 Nota: Os dados representam a proporção da população adulta que é analfabeta.0 54.0 42.6 17.9 38. 1970-2001 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina 1970 7.3 21.5 26.9 8.4 2.3 4.5 38.1 16.1 45.6 2000 3.1 46.3 18.8 7.TABELA 36 ANALFABETISMO EM MAIORES DE 15 ANOS.6 31.8 4. Referem-se à população de mais de 15 anos de idade que não é capaz de ler ou escrever uma pequena frase em sua vida cotidiana.5 20.1 5.2 14.5 6.4 12.7 25.0 21.9 11.2 22.1 11.2 14.5 8.6 3.0 16.2 11.9 12.6 33.5 12. Instituto de Estatísticas 2002a.1 37.5 20.3 27.5 1990 4.7 10.8 1980 5.4 21.2 28.1 34.5 14. 130 A democracia na América Latina .1 16.3 31.6 27.2 8.1 5.0 9.

2 78.8 65.7 48.2 65.08 1990-95 24.5 20.2 38.0 48.6 55.0 102.0 46.3 68.0 40.4 34.1 46.0 53.0 65.0 54.2 45.5 95.6 26.9 43. Fonte: Nações Unidas.4 53.8 90.1 90.0 39. Divisão de População.1 35.4 48.5 46.7 49. Bases empíricas do Relatório 131 .3 42.1 54.2 68.3 18.4 77.5 47.69 1975-80 39.9 81.1 23.7 40.1 45.4 41.8 65.2 13.1 45.1 55.9 46.4 82.0 90.0 79.4 39.1 43.4 19.4 16.1 84.4 95.0 12. 1970-2000 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina 1970-75 48.3 23.6 17.5 103.0 35.6 32.0 37.91 1985-90 27.5 20.3 90.0 57.0 97.1 31.3 48.3 39.3 75.0 56.6 73.5 21.40 1995-2000 21.0 25.6 63.28 1980-85 32.1 151.1 131. 2001.5 33.3 93.8 45.000 nascimentos.2 56.5 46.7 30.7 68.TABELA 37 MORTALIDADE INFANTIL.9 33.2 109.6 22.0 52.0 78.0 28.34 Nota: A mortalidade infantil é medida em termos da probabilidade de morte entre o nascimento e o primeiro ano de vida.9 33.1 110.9 81.8 30. Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais.5 68.7 80.4 51.7 69.4 39.6 42.8 14.3 55.5 65.1 12.2 51. Os dados da região são a média de todos os casos.0 105.0 99.4 46.8 30. Expressa-se em termos de mortes para cada 1.

9 67.8 56.4 132 60.4 61.7 53.5 50.6 68.6 72.54 62.5 67.3 69.6 64. 2001.7 73.0 61.TABELA 38 ESPERENÇA DE VIDA AO NASCER.50 País A democracia na América Latina Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina 69.9 70.2 65. 1970-2000 1970-75 67.0 67.0 53.8 56.5 66.3 56.4 76.4 55.2 68.8 63.0 65.67 64.8 71.3 73.5 66. Fonte: Nações Unidas.7 65.5 70.4 67.6 64.6 70.2 74.8 62.2 53.0 71.9 72.7 66.1 66.6 74.2 65.5 64.7 69.5 67.5 69.5 58. em anos.3 66.5 63.1 64.1 46.5 67. Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais.8 58.0 74.2 67.6 73.0 69.1 64.79 68.6 62.4 67.7 59.9 72.4 62.5 71.8 64. Os dados para a região são médias de todos os casos.8 61.4 59.5 65.9 58.6 67.5 66.3 63.8 70.8 62.3 65.1 57.9 70.3 68.5 66.0 60.5 72.3 59.8 68.0 57. a esperança de vida ao nascer.5 68.7 71. Divisão de População.1 70.8 70.6 68.6 72.74 66. .6 69.4 61.0 71.5 59.9 59.9 55.2 75.9 61.5 58.4 68.1 61.6 67.8 66.7 68.1 70.3 56.76 Nota: Este indicador expressa.2 1975-80 1980-85 1985-90 1990-95 1995-2000 72.7 63.

0 61..7 5.8 40. o restante está baseado em informações de 1999/ 2000.4 46.5 100. Instituto de Estatísticas. Fontes: OCDE e UNESCO 2003. entender e interpretar os textos. 18.0 Taxa de Escolarização Secundária 76. Os dados para a região são a média de todos os casos disponíveis. 60.5 22.274.5 71.7 80.0 92.9 14.2002c e 2002d...3 4. refletir sobre os conteúdos e avaliá-los.0 79..5 40.6 29.) indicam que a informação não está disponível. As taxas de escolarização terciária não estão disponíveis. .9 45.1 Taxa de Escolarização Terciária 48.1 50.0 90.0 .TABELA 39 ESCOLARIZAÇÃO PRIMÁRIA.6 6. não existe uma linha que distinga uma pessoa completamente alfabetizada de outra que não é. A taxa de escolarização primária e secundária é a porcentagem de crianças em idade escolar (segundo a definição de cada país) efetivamente inscritos na escola.1 96...1 Notas: Os dois pontos seguidos (.0 .0 77. 68. Na verdade..4 . não como algo que um indivíduo possui ou não possui..0 91..8 37.4 10...4 48.4 98.9 45.7 17..8 33.8 19.8 54.7 Notas: Porcentagem de estudantes em cada nível de rendimento na escala combinada de capacidade de leitura.0 19. ou seja.6 81.4 43 55. 100. O PISA – teste de capacidade de leitura – foi realizado com alunos de 15 anos.5 88. 28.2 27.4 50. 2002 Porcentagem de alunos em cada nível País Argentina Brasil Chile México Peru Finlândia Coréia do Sul Estados Unidos Baixo Médio Alto 43.9 5.3 97. “poder ler e escrever”. .3 6.1 91.4 .8 48.8 .6 48. Aqui o alfabetismo é medido sobre um contínuo. 13.9 88.4 55. p.2 44. O conceito de alfabetismo empregado no Programa para Avaliação de Estudantes Internacionais (PISA) é mais amplo do que a noção tradicional. SECUNDÁRIA E TERCIÁRIA.2002b.6 93. inclusive em casos em que é necessário ou desejável para alguns propósitos definir um ponto no contínuo do alfabetismo abaixo do qual os níveis de competência são considerados inadequados. Dominicana Uruguai Venezuela América Latina Primária 100..9 . 33.2 . 18.0 32.9 55. Bases empíricas do Relatório 133 . 57.2 .1 36. 1999 Taxa de Escolarização País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.9 1.6 88. O estudante tinha que procurar a informação. Fonte: UNESCO.3 43.8 .6 46. TABELA 40 QUALIDADE EDUCATIVA E PERFORMANCE DO ALUNO.2 79. . Os dados para El Salvador (todas as categorias) e para o Peru (secundária e terciária) são de 1998/1999.0 99.

. 134 A democracia na América Latina .9 10. 2. Panamá.3 8..1 16.8 10. 9.4 3.3 6.8 10. Para Argentina.9 2..4 6.5 7.6 6. para o Peru.8 7.3 7. Guaiaquil e Cuenca estão incluídos. Finalmente.8 15. Costa Rica.7 5. toma-se o total do país até 1997.. A OIT não inclui dados para Guatemala..1 7. No Chile cobre o total do país.1 5.4 17.2 17..5 5. leva-se em conta a Lima metropolitana.0 13.5 .3 1990 6.3 7. correspondem a Lima metropolitana. que utiliza os dados da CEPAL (2003).7 1995 16. 1985-2002 País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Honduras México Nicarágua Panamá Paraguay Peru República Dominicana Uruguai Venezuela América Latina 1985 6.6 20.2 7.4 14.5 2002 19.1 14. Uruguai e Venezuela a pesquisa é nacional urbana.2 20. anexo estatístico. Atenção: os dados desta tabela não coincidem necessariamente com os da Tabela 2..0 6.TABELA 41 DESEMPREGO ABERTO URBANO (TAXAS ANUAIS MÉDIAS). No México.4 3.8 7.2 4. No Paraguai apenas se realizou a pesquisa em Assunção.8 Notas: Os dois pontos seguidos (.7 5.6 8. Bolívia.2 16.0 6.2 10.0 13.2 6.7 4..0 5.7 12.1 10. Os dados da República Dominicana incluem desemprego oculto.1 9.6 13.0 6.0 16. de 1996 a 2000 corresponde ao nacional urbano.4 2000 15. incluindo treze áreas metropolitanas. As cifras. Nicarágua.2 9..6 8.8 6. Fontes: Elaboração com base na informação das Pesquisas de Domicílios dos países... 13. 11.1 9. Para América Latina as médias foram ponderadas pela OIT.3 10. El Salvador.2 5.7 9.9 8.2 15.3 17.4 10.8 5.0 15.9 2. No Equador.2 9. OIT.3 7.6 4.0 7. No Brasil consideramse seis regiões metropolitanas (não se inclui aqui uma série nova para o Brasil).9 15. Para Colômbia só se pode considerá-los sob sete áreas metropolitanas.4 5.) indicam que a informação não está disponível..4 . Panorama Trabalhista 2003.9 16.1 .3 .1 10. a partir de 2001.7 7.6 6.1 7. Honduras. desde 2000 o universo se expandiu..9 13.7 7.7 8.2 11.7 6. observam-se 39 áreas urbanas. a partir de 1998 só Quito.2 5.

Anexo Estatístico..4 10.) indicam que a informação não está disponível. .1 40. Equador.0 . a partir de 1996. 8.5 15.5 . na Bolívia.8 14...8 7.0 27. os dados cobrem o total nacional (urbano). em seis áreas metropolitanas (novas séries a partir de 2001). Bases empíricas do Relatório 135 ..4 11. no Panamá.1 9.2 13. em setembro de cada ano. na Colômbia.7 32.3 10. OIT. a partir de 2001.2 Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Honduras México Panamá Paraguai Peru Uruguai Venezuela Notas: Os dois pontos seguidos (.. El Salvador e Honduras os dados cobrem o total nacional (urbano)..4 . Na Costa Rica.1 31.0 9. Para o Peru.6 18. 1990-2002 País Argentina Bolívia Brasil Chile Idade 15-19 15-24 10-19 20-29 15-17 18-24 15-19 20-24 12-17 18-24 12-24 15-24 15-24 10-24 12-19 20-24 15-24 15-19 20-24 14-24 14-24 15-24 1990 21. .5 21. na região metropolitana.3 13.4 26.5 5. Panorama Trabalhista 2003. No Uruguai a pesquisa cobre Montevidéo.9 12. 15.9 17.8 10.7 7. e.1 5.3 32. 17.7 15.1 21. .6 ..8 30.4 4.7 34. e no Paraguai.4 28.7 15.3 17. 5. em áreas urbanas nacionais 1996 (15-25 anos).9 10. Fontes: Elaboração com base em informação das Pesquisas de Domicílios dos países.2 34.4 14.4 13.5 19. em Assunção.. e.3 2002 45.0 16. Guatemala nem Nicarágua. 20.7 26. No México a pesquisa se realiza em 41 áreas urbanas. no Brasil.1 20. os dados da Venezuela são nacionais urbanos.0 16.9 2000 39.1 15.4 20..8 17. em treze áreas metropolitanas.5 . é o total nacional. e.0 1995 46.0 5. Não há dados da República Dominicana.0 32.0 32.2 25.8 6.0 . 14.0 10.3 9.3 .4 . a partir de 2001.6 13.5 18.1 33...TABELA 42 DESEMPREGO JUVENIL (TAXAS ANUAIS).no Chile.6 10.9 31.6 16. Na Argentina a Pesquisa de Lares se realiza na Grande Buenos Aires..3 15.7 25.8 11. em sete áreas metropolitanas.1 20.2 13.. . 10. 18.4 14. a Lima metropolitana.7 10.

5 78. Os países cobertos são: Argentina. OIT. México (área urbana). Uruguai (total do país) e Venezuela (área urbana). 136 A democracia na América Latina .4 24.9 62.2 25.7 64.2 60.5 27.0 24. Panamá (total do país).7 50.7 64.9 63.3 46. Peru (Lima metropolitana).9 80.4 46. Equador.6 66.2 32. Brasil. Fonte: Elaboração com base nas informações das Pesquisas de Domicílios dos países. Uruguai (cobre Montevidéo) e Venezuela.1 82. Panamá.TABELA 43 AMÉRICA LATINA: ESTRUTURA DO TRABALHO NÃO AGRÍCOLA (PORCENTAGENS) 1990-2002 Setor Informal Ano 1990 Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total Setor Formal Total 42. Brasil (área urbana).1 42.3 1995 2000 2002 Notas: As Pesquisas de Domicílios cobrem as seguintes áreas: Argentina (nacional urbano).6 78.0 Setor Formal 80.4 65.1 79.3 49.9 26.1 55. Costa Rica. Panorama Trabalhista 2003.6 68.0 46. Fonte: Baseado na informação das Pesquisas de Domicílios em cada país.6 52. TABELA 44 AMÉRICA LATINA: ASSALARIADOS QUE CONTRIBUEM PARA A PREVIDÊNCIA SOCIAL.7 51. Escritório Regional para as Américas 2003.5 49.4 57. México.2 81.3 78.0 53.2 66. Chile.5 27.9 77. em conjunto com outros dados de fontes oficiais OIT.6 27. Chile (total do país).9 44.2 26.4 81.4 47. Honduras.6 79. (PORCENTAGENS) 1990-2002 Ano 1990 Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres Setor Informal 29. Colômbia (10 áreas metropolitanas). Peru (Lima metropolitana).6 65. Costa Rica (total do país). anexo estatístico.8 79.1 65.2 25.5 50.0 62.6 53.5 44.6 1995 2000 2002 Nota: Só há informação para quinze países. 2003. Equador (área urbana).9 57.5 55.0 27.7 53.3 49.6 Total 66.8 39.

A informação para Argentina.9 15.559 0.588 0.590 0.6 20. 2004.0 61.9 59.614 0.525 0.639 0.2002 0.4 48.5 20. c.575 0.455 0.0 54.8 44. Os valores para os outros países correspondem à média nacional. Os indivíduos pobres são aqueles cuja renda é menor do que o dobro do custo da cesta básica de alimentos.3 39.0 48.TABELA 45 CIDADANIA SOCIAL: DESIGUALDADE E POBREZA. 2002 Desigualdade: País Argentina Bolívia Brasil Chile Colômbia Costa Rica Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep. Pobreza: as cifras indicam a porcentagem de indivíduos abaixo da linha de pobreza.6 Nota: As cifras mais altas do coeficiente de Gini correspondem a um grau mais alto de desigualdade.9 77.3 34.544 0.3 49. 2002 45. Paraguai e Uruguai é das áreas urbanas. Fontes: CEPAL. Bases empíricas do Relatório 137 .543 0. Equador. A média mundial do coeficiente de Gini para 1999 é de 0.514 0.6 50.4 37.579 0.513 0.381.515 0. Dominicana Uruguai Venezuela coeficiente de Gini. Bolívia.488 0.4 62.4 69.500 Pobreza: porcentagem abaixo da linha de pobreza.525 0.570 0.

138 A democracia na América Latina .

da cidadania.1 por cento) dos entrevistados que diziam preferir a democracia a qualquer outro regime.8 56. Com esse propósito. Daí a importância de conhecer e analisar os níveis de apoio com que a democracia conta na América Latina. muitas pessoas que dizem preferir a democracia a outros regimes têm atitudes pouco democráticas em relação a diversas questões sociais.2 Nota: n varia entre 16.4 32. Em 2002.2 37.0 38.3 32. A experiência histórica nos ensina que as democracias foram derrubadas por forças políticas que contavam com o apoio (ou. 2002 Porcentagem dos que preferem Porcentagem da amostragem total Atitudes específicas relacionadas com a vigência e importância da democracia Estão de acordo com que o Presidente passe além do âmbito das leis Acreditam que o desenvolvimento econômico é mais importante que a democracia Apoiariam um governo autoritário se resolvesse os problemas econômicos Não acreditam que a democracia solucione os problemas do país Acreditam que pode haver democracia sem partidos Acreditam que pode haver democracia sem um Congresso Nacional Estão de acordo com que o presidente imponha ordem pela força Estão de acordo com que o presidente controle os meios de comunicação Estão de acordo com que o presidente deixe de lado o Congresso e os partidos Não acreditam que a democracia seja indispensável para alcançar o desenvolvimento dos 18 países 42. Bases empíricas do Relatório 139 . Essa preferência pela democracia não implica necessariamente um sólido apoio. às vezes majoritária. esse percentual era de 57 por cento. realizou-se uma pesquisa sobre as opiniões cidadãos acerca da democracia com 19. indica que por volta de 1996.9 14.1 a democracia a qualquer outra forma de governo 38. Na realidade. preferiam a democracia a qualquer outro regime. comparada com as pesquisas anteriores de Latinobarômetro. e um percentual semelhante (44.9 por cento).1 25. As democracias se tornam vulneráveis quando. por volta de 2002.3 54. entre outros fatores. no âmbito da região. Fontes: Elaboração própria com base no Latinobarômetro 2002. desde que resolvesse os problemas econômicos do seu país. 61 por cento dos entrevistados. preferia igualmente o desenvolvimento econômico à democracia. Grande parte das pessoas que manifesTABELA 46 O apoio dado pelos cidadãos à democracia é um componente-chave de sua sustentabilidade.2 36.183 (pode haver democracia sem congresso) e 17. quase metade (48. terreno fértil para atuar. que dizia preferir a democracia. abrangendo uma população de mais de 400 milhões de habitantes. nos dezoito países considerados no Relatório. as forças políticas autoritárias encontram. com a passividade) de uma grande parte. pelo menos.■ Como os latino-americanos vêem a sua democracia dãos.8 34.1 38.7 43.508 pessoas entrevistadas.6 48.2 32.9 35.1 44. estava disposto a apoiar um governo autoritário. em maio de 2002.194 (democracia vrs desenvolvimento econômico). Uma primeira leitura das opiniões cida- FRAGILIDADES DA PREFERÊNCIA PELA DEMOCRACIA EM RELAÇÃO A OUTROS SISTEMAS DE GOVERNO. nas atitudes cidadãs.2 32.9 40.

de três pessoas. no sentido de que surge de eleições livres e limpas. Nessa concepção fortemente majoritária e plebiscitária do poder político. mas nos quais os governantes (especialmente presidentes) sentem-se autorizados a atuar sem restrições institucionais. e estaria disposta a deixar de lado a democracia por um governo não-democrático que pudesse solucionar seus problemas econômicos. como se verá mais adiante. Preferem a democracia a qualquer “outra forma de governo” e apóiam a aplicação das regras democráticas na gestão de governo. mas também atitudes em relação à forma de exercer o poder em democracia. Colocados na situação de escolher entre a democracia e o desenvolvimento. dá no mesmo um regime democrático ou um não democrático. A idéia básica dessa concepção é que os eleitores vêem o presidente como o depositário exclusivo da legitimidade democrática. ao contrário. Aproximadamente. ambivalente e não-democrática (gráfico 5). As seguintes são as perguntas-chave que guiaram este componente do estudo: (1) Com qual das seguintes frases o/a senhor(a) está mais de acordo?: a) a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo. a suas instituições básicas e a diversos temas sociais. (5) Algumas pessoas dizem que a democracia permite que se solucionem os problemas: a) a democracia soluciona os problemas. con- 75 Ver metodologia de elaboração do IAD. Apoio às instituições democráticas : (6) a) Sem Congresso Nacional não pode haver democracia. c) para pessoas como nós. b) A democracia pode funcionar sem partidos.75 Três tendências em relação à democracia: democrática. em desacordo ou totalmente em desacordo com que o presidente? (8) a) não se limite ao que dizem as leis. c) em desacordo. b) de acordo. (7) a) Sem partidos políticos não pode haver democracia. Os democratas são pessoas que dão respostas favoráveis à democracia em todos os assuntos consultados. (10) c) controle os meios de comunicação. pode-se chegar a ser um país desenvolvido com outro sistema de governo que não seja a democracia. b) em algumas circunstâncias. Essas respostas são um chamado de atenção: uma proporção significativa de latino-americanos dá mais valor ao desenvolvimento econômico do que à democracia. (11) d) deixe de lado o Congresso e os partidos. até mesmo em épocas de dificuldades. os democratas respondem que preferem a primeira ou que ambas as metas são igualmente importantes. Essa idéia (que não exclui a de futuras eleições livres e limpas em que o presidente e seu partido poderão ser mudados) autoriza ações antiinstitucionais do presidente e também. 76 O conceito de democracia delegativa foi construído por O’Donnell (1994) para referirse a países onde são realizadas eleições livres e limpas. realizamos uma análise das respostas a onze perguntas que refletem não apenas preferência pela democracia. um governo autoritário pode ser preferível. de acordo. o/a senhor(a) está totalmente de acordo. anular ou cooptar essas instâncias. a quem conseqüentemente delegam o direito e a obrigação de resolver os problemas do país como bem entender. b) não é indispensável. Para avançar na compreensão dessa situação. e não tenta suprimilas no futuro. por outro lado. d) totalmente em desacordo. (4) Não me importaria que um governo não-democrático chegasse ao poder se pudesse resolver os problemas econômicos: a) totalmente de acordo. b) a democracia é o mais importante. (3) O/A senhor(a) acredita que a democracia é indispensável para um país ser desenvolvido?: a) a democracia é indispensável para um país ser desenvolvido. E ainda mais.tam sua preferência pela democracia tem atitudes contrárias a algumas regras básicas desse regime. costuma dedicar-se a ignorar. Dimensão delegativa : Se o país está com sérias dificuldades. ambivalente e não-democrática Identificamos três tendências ou perfis principais em que se agrupam as opiniões e atitudes dos latino-americanos em relação à democracia: democrática. Mas. c) ambos são iguais. decisões “para pôr ordem” ou “resolver crises” 140 A democracia na América Latina . (9) b) imponha a ordem pela força. b) a democracia pode funcionar sem Congresso Nacional. uma opina que a democracia pode funcionar sem instituições como o Parlamento e os partidos políticos. não se sente obrigado a aceitar as restrições e os controles de outras instituições constitucionais (Parlamento e Poder Judiciário) nem de diversos organismos estatais ou sociais de controle. o governante não deixa de ser democrático. (2) Se o/a senhor(a) tivesse que escolher entre a democracia e o desenvolvimento econômico: a) o desenvolvimento econômico é o mais importante. b) a democracia não soluciona os problemas.

sideram que “a democracia é indispensável para um país ser considerado desenvolvido”. Os democratas não estão de acordo com posições do tipo delegatório76 para resolver os problemas do país: opõem-se a que o presidente prescinda do Parlamento, controle os meios de comunicação e imponha ordem pela força, mesmo em tempos de crise. Os não-democratas são pessoas que, em todos os assuntos consultados, expressam opiniões contrárias à democracia. Prefe-

rem um regime autoritário a um democrático. São da opinião que atingir o desenvolvimento do país é uma meta mais importante do que a de preservar a democracia, e não acreditam que a democracia seja indispensável para atingir esse objetivo. Quando colocados na situação de ter que escolher entre essas metas, optam pelo desenvolvimento. Estão de acordo com as seguintes posições: que “um governo não-democrático chegue ao poder desde que possa resolver os proble-

de nítido cunho autoritário. Isto não implica, claro está, que o presidente delegativo seja onipotente, pois choca com os Ressaibos de institucionalidade subsistentes, com diversas relações fáticas de poder e, dependendo das conjunturas, com movimentos opositores, principalmente de prestação de contas à sociedade.
Bases empíricas do Relatório

141

Na maior parte dos países latinoamericanos, a existência de uma maioria que respalde a democracia depende da capacidade dos democratas para atrair os ambivalentes para suas posições.

mas econômicos” e que “o presidente deixe de lado o Congresso e os partidos políticos, se o país estiver em sérias dificuldades”. Finalmente, não parecem dar muita chance para que a solução dos problemas do país seja encontrada dentro da democracia, mesmo que se trate de uma democracia de tipo delegatório. Em síntese, inclinam-se a preferir a substituição de qualquer tipo de democracia por outro sistema de governo. Os ambivalentes são pessoas com opiniões ambíguas, para não dizer contraditórias. As opiniões que expressam, em geral, concordam com concepções delegatórias da democracia. Eles estão, a priori, de acordo com a democracia, mas consideram válido tomar decisões antidemocráticas na gestão de governo se, na sua opinião, as circunstâncias assim exigirem. Conseqüentemente, em alguns temas, eles estão de acordo com as opiniões dos democratas e em outros, com as dos não-democratas. Assim como os democratas, eles manifestam preferir um governo democrático a um autoritário, consideram que “a democracia soluciona problemas” e que é indispensável para o desenvolvimento. Mas, por outro lado, estão de acordo com os não-democratas quando opinam que atingir o desenvolvimento do país é mais importante do que preservar a democracia, e não objetariam que um governo não-democrático chegasse ao poder, se pudesse resolver os problemas econômicos. Além disso, os ambivalentes se distinguem dos outros dois grupos por aceitar que, em tempos de crise, o presidente imponha ordem pela força, controle os meios de comunicação e prescinda do Parlamento e dos partidos. Pode parecer paradoxal que os ambivalentes, que expressam preferir a democracia, manifestem acordo com medidas de governo de clara tendência autoritária. Consideramos que essas opiniões derivam da concepção delegatória da democracia adotada por esses consultados. Esta comprovação é importante: a preferência dos ambivalentes por uma liderança de base democrática, mas com traços que, embora autoritários, aumentem a eficácia da sua gestão, poderia ser eventualmente capitalizada pelos adversários da democracia.
142
A democracia na América Latina

Magnitude das tendências em relação à democracia Em 2002, os democratas pertenciam à tendência mais difundida entre os latinoamericanos, não chegando, porém, a formar uma maioria (gráfico 6). Somaram 43 por cento dos consultados nos dezoito países da América Latina. Entretanto, o apoio majoritário à democracia depende dos ambivalentes, que são a segunda tendência mais difundida (30,5 por cento). Finalmente, os não-democratas pertenciam à tendência menos difundida: 26,5 por cento dos consultados. Cada sub-região apresenta uma situação diferente: vantagem para os democratas, equilíbrio e polarização. Na América Central e no México, os democratas são quase a metade da população, representam mais do que o dobro dos não-democratas e têm ampla vantagem sobre os ambivalentes. Nos países do Mercosul e no Chile há uma situação polarizada: as tendências mais difundidas são as opostas, os democratas e os não-democratas. Além disso, a diferença de magnitude entre ambos é estreita. Finalmente, na Região Andina existe um equilíbrio entre as três tendências: a diferença entre os democratas e os ambivalentes é pequena, e nenhuma consegue uma vantagem ampla sobre os não-democratas. Distância entre as tendências em relação à democracia De que tendência os ambivalentes estão mais próximos? Na maior parte dos países latino-americanos, a existência de uma maioria que respalde a democracia depende da capacidade dos democratas para atrair os ambivalentes para suas posições. A distância entre as atitudes dessas duas tendências é relevante para considerar o efeito da dimensão da tendência democrática. Nas perguntas relativas ao apoio às instituições representativas (Congresso Nacional e partidos políticos), preferência pela democracia, consideração desta como indispensável para o desenvolvimento, e expectativa de que com a democracia os problemas do país possam ser resolvidos, as opiniões dos ambivalentes e dos democratas são signifi-

cativamente mais próximas do que entre os não-democratas e os ambivalentes. Em dois temas em particular, “A democracia soluciona problemas” e “A democracia é indispensável para o desenvolvimento”, praticamente não há diferenças entre os ambivalentes e os democratas. Além disso, em todos esses casos, os ambivalentes se encontram na zona de atitudes democráticas (tabela 47), com um elevado número de pontos nas respectivas escalas. No entanto, tratando-se de atitudes delegatórias e da tendência a apoiar um governo não-democrático se “assim os problemas do país puderem ser resolvidos”, a situação se inverte. A distância entre os não-democratas e os ambivalentes é significativamente menor do que a existente entre democratas e ambivalentes. Em dois temas, particularmente, a distância entre os ambivalentes e os democratas é muito evidente: no apoio a um presidente que deixar de lado o Congresso e os partidos, e no apoio a um eventual governo não-democrático.

Finalmente, a respeito da opção entre democracia e desenvolvimento, observamos que as três tendências se deslocaram “para baixo”: os democratas se encontram na zona de atitudes intermediárias (média de pontos = 2,47), os ambivalentes beiram a zona de atitudes não democráticas (média de pontos = 2) e os não-democratas assumem uma posição fechada (média de pontos = 1,47). Embora as diferenças entre tendências se mantenham em relação a essa opção, o fato de o número de pontos ser menor nos três casos é um chamado de atenção: é na opção entre desenvolvimento econômico e democracia que se evidencia uma maior tensão entre as preferências dos latino-americanos. De um ponto de vista geral, a distância entre as atitudes dos ambivalentes e as dos democratas é quase igual à existente entre os ambivalentes e os não-democratas. Os ambivalentes não se inclinam, por enquanto, para um ou para outro lado. Em resumo, a relativa eqüidistância entre democratas, ambivalentes e não-democratas parece ser resultado de uma tensão:
Bases empíricas do Relatório

143

quadro 36

Quantos democratas e não-democratas “puros” existem na América Latina?
Em toda a população entrevistada nos 18 países da América Latina, foram detectados, somente 7 não-democratas “puros” e 142 democratas “puros” (os dois somam apenas 1 porcento das pessoas). Um não-democrata “puro” é uma pessoa que em todos os aspectos incluídos na pesquisa das tendências sempre escolheu a resposta mais hostil à democracia. Devido ao fato de que a escala de medição empregada varia entre 1 (atitude mais hostil) e 4 (atitude mais pró-democrática), essas pessoas obtiveram uma pontuação média igual a 1. Como era de se esperar, esses 7 recalcitrantes pertencem à tendência não democrática. Pelo contrário, um democrata “puro” é uma pessoa que, em todos os casos, escolheu a resposta mais favorável à democracia: sua pontuação média foi a máxima (4). A imensa maioria dos entrevistados tem pontos de vista um pouco mais misturados, menos extremos, embora com tendências claramente discerníveis. Como foi indicado, os democratas tendem a pontuar na zona alta das escalas para medir as atitudes democráticas em todos os temas considerados: 70% dos assim classificados têm pontuações médias entre 3,01 e 4 pontos, enquanto poucos ambivalentes – 9,8% do total – e nenhum não-democrata obtêm essa pontuação. Em contrapartida, na zona de atitudes não-democráticas, em que a pontuação média varia entre 1 e 2 pontos, predominam os não-democratas: constituem 75% das pessoas que estão nessa zona. Na zona intermediária (pontuação média entre 2 e 3 pontos) pode ser verificada uma situação menos definida, pois nela coexistem importantes segmentos das três tendências. No entanto, mesmo assim é possível identificar tendências. Em primeiro lugar, quase todos os ambivalentes estão localizados nessa zona (84,2% do total). Em segundo lugar, há uma presença importante de não-democratas na faixa entre 2,01 e 2,50, abaixo do ponto médio da escala, e alguma concentração de democratas na faixa entre 2,51 a 3,0, uma área acima do ponto médio. Em ambos os casos, trata-se de áreas adjacentes a suas respectivas “zonas naturais”. Em resumo, embora na realidade haja poucos “tipos puros”, as tendências conseguem agrupar as pessoas de acordo com padrões de apoio à democracia. Elaboração própria com base no Latinobarômetro, 2002.

144

A democracia na América Latina

TABELA 47

DISTÂNCIA ENTRE AS TENDÊNCIAS EM RELAÇÃO À DEMOCRACIA NOS DIVERSOS TEMAS ESTUDADOS, AMÉRICA LATINA, 2002
Pontuação na escala de atitudes democráticas (1)
Maior proximidade entre democratas e ambivalentes

Distância entre tendências (2)
Di Maior proximidade entre não democratas e ambivalentes Di

Zona de atitudes democráticas (3 a 4 pontos)

Preferência democracia Democracia indispensável para o desenvolvimento Democracia soluciona problemas Apoio ao Congresso Apoio aos partidos Democracia vs. desenvolvimento

0,45 0,04 0,05 0,57 0,52 0,90 Apoio a governo democrático para resolver problemas Presidente respeite leis Presidente não use força Presidente não controle meios Presidente deixe de lado Congresso e partidos

Zona intermediária (2 a 3 pontos)

4,61 1,76 1,80 1,65 2,13

Zona de atitudes não democráticas (1 a 2 pontos)

Notas: Os n variam entre 14.532(p41st) e 15.216 (p39st e p40st). (1) O intervalo de variação das escalas de medição das atitudes democráticas nas perguntas empregadas para o estudo das tendências em relação à democracia foi padronizado. Um valor de 4 foi estipulado para as atitudes mais favoráveis em relação à democracia e o valor de 1, para as atitudes mais negativas em relação à democracia. (2) Consulte explicação sobre o conceito de distância e seu respectivo indicador sob o título “Terceira dimensão: distância entre as tendências” da Nota Técnica do IAD que aparece em Anexos (p.225). Fonte: Elaboração própria com base no Latinobarômetro 2002.

a maior proximidade entre ambivalentes e democratas no tema do apoio à democracia e suas instituições compensa a maior proximidade entre os ambivalentes e os não-democratas no que se refere a atitudes delegatórias. Tendências em relação à democracia: perfil social No que se refere às tendências em relação à democracia, a base social que as sustenta é heterogênea; as pessoas que apóiam uma tendência determinada não pertencem majoritariamente a um grupo ou classe social. Em particular, a composição social dos democratas revela que o apoio à democracia está arraigado de um modo bastante semelhante nos distintos setores da sociedade. Mesmo assim, observam-se as seguintes re-

lações (tabela 48):
■ Pessoas com educação superior (completa ou incompleta) tendem a ser democratas. ■ Não há, em compensação, maiores diferenças entre pessoas com educação primária e secundária. ■ Os democratas tiveram maior mobilidade educativa em relação aos pais. ■ Há uma maior presença relativa de jovens entre os não-democratas. ■ Os não-democratas são, em média, pessoas que percebem que tiveram uma mobilidade econômica descendente mais intensa do que os outros grupos em relação aos pais. ■ Os não-democratas são os que mais tendem a pensar que os filhos terão uma menor mobilidade econômica ascendente.

Bases empíricas do Relatório

145

84 -0.6 6.5 50.1 17..74 ** ** Notas: (1) Inclui República Dominicana.7 9.5 26.67 e 10 considera-se nível econômico alto.3 7. .69 40 49. .29 40.4 6. .9 3.5 34.04 53.6 43 52.2 31.4 21.5 48.38 19.8 11.3 11 35.49 55.9 39.7 6.1 37.84 44.8 34.83 8.1 56.5 49.4 9.438 n=15.12 -0. num período de transição ou em um regime autoritário. 2002 Categorias Estrutura da amostragem Tendência em relação à democracia Democratas Ambivalantes Não democratas Significância (4) América Central e México (1) Região Andina Mercosul e Chile América Latina Sexo % de pessoas % de pessoas % de pessoas % de pessoas % Homens % Mulheres % 16 a 29 anos % 30 a 64 anos % 65 a 99 anos Média de idade % sem estudos % 1 a 6 anos % 7 a 12 anos % Superior completa ou incompleta Média de anos de estudo % Baixo % Médio % Alto Média do índice econômico Média de mobilidade econômica acontecida (4) n=6.6 37.9 21. (3) De acordo ao número de anos de socialização nos que se viveu sob um regime autoritário.16 7.1 35.9 30.3 30.5 10.34 e 6.5 37.2 9.8 11.5 50 50 40.3 8.2 43.6 36. Fonte: Processamento de várias perguntas do Latinobarômetro 2002.05 -0. se determina se uma pessoa foi socializada em democracia.6 39.9 8.5 53.33 considera-se nível econômico baixo.52 .5 4.2 50. Considera-se que o número de anos de socialização de uma pessoa é de onze anos (entre os 7 e os 17 anos).2 14.42 33. (2) Com base no índice econômico elaborado a partir da posse de artefatos e da educação do chefe de família.TABELA 48 PERFIL SOCIOECONÔMICO DAS PESSOAS SEGUNDO SUA TENDÊNCIA EM RELAÇÃO À DEMOCRACIA.377 n=4.6 54. ** Idade ** ** ** Nível educativo ** * Nível econômico (2) ** Corte (3) % Socializado em regime autoritário % Socializado em período de transição % Socializado em democracia Média de anos de socialização em não democracia 51.9 4. Esse índice pode variar entre 0 e 10.8 52.8 47.402 n=4.44 46..8 45 16 9.33 41. se encontra-se entre 3.4 41.1 11.36 48.1 8.2 38.2 7 46.3 8.66 considera-se nível econômico médio e se encontra-se entre 6.8 49.2 32 43.7 28.3 43..8 7..01 -0.9 33 6.3 34.3 8 38. (4) O índice de mobilidade econômica é elaborado segundo a avaliação que os entrevistados fazem sobre a situação econômica dos seus pais e a comparação de esta em relação com a situação atual própria.24 6.217 51.3 4. Se o índice encontra-se entre 0 e 3. 146 A democracia na América Latina .9 47.

independentemente Bases empíricas do Relatório 147 . ■ Os não-democratas acreditam com maior freqüência do que os outros que. que o setor político ao qual pertencem não tem igualdade de oportunidades no que se refere a acesso ao poder. pode-se determinar qual das tendências já examinadas é a mais ativa e. No total. as pessoas que compartilham uma tendência positiva em relação à democracia não se concentram em forças políticas determinadas.3 por cento do total. quase quatro (37. Entretanto. 7. não aderiu a nenhum ato de participação cidadã nos anos recentes. Não há maiores diferenças de opinião acerca dos problemas prioritários que devem ser solucionados no país: democratas. Os dados levantados indicam que as tendências são politicamente heterogêneas.6 por cento) intervêm na vida pública do seu país. e a uma grande desconfiança nas instituições e nos políticos. opiniões a respeito do que deveria ser feito e de quem deveria ser apoiado eleitoralmente em um país. há algumas diferenças interessantes: ■ Os não-democratas tendem a opinar. na modalidade de participação política que menos esforço pessoal requer: o voto. menores perspectivas positivas quanto ao futuro dos filhos e à solução de seus problemas públicos.8 por cento. Heterogeneidade O estudo de opiniões em outros âmbitos de interesse permite analisar se pessoas de uma mesma tendência em relação à democracia compartilham. também. ambivalentes e não democratas coincidem em apontar os problemas de pobreza e desemprego como os mais importantes. Mediante o exame da participação cidadã. as pessoas encontram uma série de caminhos para exercer esse direito. se for preciso. A maioria dos cidadãos na América Latina não está desconectada da vida política e social dos seus países.8 por cento). ■ Pela análise do perfil dos não-democratas e de suas opiniões sobre a realidade política e econômica. ■ Os não-democratas tendem a notar. Só uma pequena minoria dos consultados.1 por cento se limitaram a exercer o voto na última eleição presidencial do seu país. Em cada dez pessoas entrevistadas. No caso dos democratas. com maior freqüência do que os outros. ■ Os democratas. Em particular. mais do que os nãodemocratas e os ambivalentes. acrescentar um novo elemento de juízo para o estudo sobre o apoio – e a vulnerabilidade – das democracias na região (tabela 50).1 por cento. esta proporção cai para 48. nem manifestam opiniões muito diferentes das opiniões do resto dos consultados (tabela 49). com maior freqüência. socialização em períodos autoritários. é possível também comprovar que essa tendência está associada a menor educação. os políticos mentem para ganhar as eleições. que o problema para eles prioritário não está sendo solucionado ou que existe um retrocesso na sua solução. tendem a favorecer um maior protagonismo do Estado no desenvolvimento do país. entre os não-democratas a proporção se eleva a 55. ■ Os não-democratas tendem a estar menos satisfeitos com a democracia do que os democratas e os ambivalentes (apenas 19 por cento. Adicionais 22. dessa forma. baixa mobilidade social em relação aos pais. Formas de participação dos cidadãos na vida política Embora não seja possível determinar de maneira geral o nível ótimo de participação que deveria existir em uma democracia. toda democracia precisa de algum nível de participação dos cidadãos.Um pouco mais da metade dos habitantes da América Latina foi socializada sob regimes autoritários (52. Nas mais dinâmicas. ■ Os não-democratas tendem a confiar menos do que os outros nas instituições e nos políticos. respectivamente). em torno de 30 por cento das pessoas podem ser classificadas como cidadãos desmobilizados: ou não exercem seus direitos de participação ou exercem de maneira intermitente.9 por cento. comparados com 40 e 43.

3 83.0 42.7 58.0 78.6 10.TABELA 49 PERFIL POLÍTICO DAS PESSOAS SEGUNDO SUA TENDÊNCIA EM RELAÇÃO À DEMOCRACIA.4 62. Quando não é pertinente o cálculo de uma medida de associação ou da ANOVA indica-se com dois pontos seguidos (. 148 A democracia na América Latina .3 85. .6 2.97 31.0 9. consulte o Compêndio Estatístico.0 53..03 39. Indicase com (**) quando o resultado é significativo a 1%.2 41.0 82.9 6.3 34.6 ** ** ns 64.5 79.3 3.9 10.6 3.0 3.438 n=15.3 69.3 5..9 30.4 40. ** ** ** ** Democracia 5.8 19.13 19.6 51.3 58.4 35.5 5.6 43.3 37. Sobre as provas realizadas em cada caso.5 82.7 52.8 6.2 11.0 7.93 29..77 ** ** ** ** Estratégias de desenvolvimento % opina: instituições públicas sem solução ou privatizar % a favor de medidas administrativas de reforma % a favor de melhoramento de “accountability” no Estado Média índice de intervenção econômica do Estado Problemas prioritários % menciona emprego.217 78.6 12.402 n=4.2 46.2 51. .05 5.55 6.9 12.8 40.82 3. (2) Indica-se com um (*) quando a medida de associação utilizada ou a Análise de Variância (ANOVA por sua sigla em inglês) resulta significativa a 5%.5 3.1 43.5 80.8 58.5 76.7 28.9 31.7 ** Notas: (1) Inclui República Dominicana.8 41.8 54. pobreza.3 8.0 7.84 ..5 26.75 1.2 12.4 4.377 n=4. Fonte: Processamento de várias perguntas do Latinobarômetro 2002.).77 1.7 5.33 2.6 ** ns ** Resposta a problemas prioritários 32.5 80.3 43. 2002 Categorias Estrutura da amostragem Tendência em relação à democracia Democratas Ambivalantes Não democratas Significância (2) América Central e México (1) Região Andina Mercosul e Chile América Latina Voto % de pessoas % de pessoas % de pessoas % de pessoas % votou na última eleição % não votou por desencanto ou desinteresse % manifesta ter um partido Média do índice de eficácia do voto % dá significado negativo de democracia % satisfeito com o funciona mento da democracia n=6.2 27.6 7.0 3..4 65.01 46.6 12.9 47.03 33.4 21.6 37.76 ** ** 60.93 1. desigualdade e renda insuficiente % menciona corrupção % menciona violência política % opina que está retrocedendo na solução ou não tem solução % opina que o problema prioritário está sendo solucionado % menciona um tema prioritário não tratado em campanha % opina que políticos não cumprem promessas de campanha porque mentem 5.8 43.8 34.9 6.9 84.7 3.4 9.5 73.0 5.7 2. .0 ** ** Outras atitudes políticas % opina não ter igualdade de oportunidades políticas % opina que é preciso ser cuidadoso ao tratar com os demais Média na escala esquerda-direita Média de índice de confiança em instituições e atores políticos 32.6 3.3 7.

3 por cento). e contatando autoridades). Além de votar. quando o balanço de forças é negativo. em manifestações coletivas. exercitam seu direito de participar de atividades de seu interesse. um terço (33. participam de manifestações públicas e colaboram com tempo. isto é. além de que quase todos votam. as pessoas se encontram em uma posição intermediária entre os cidadãos desmobilizados e os politicamente ativos. porém entra em contato com autoridades públicas e participa de manifestações públicas (4. existe um setor altamente participativo. Com o IAD será possível. literalmente. composto aproximadamente por uma de cada oito pessoas (13. É uma ferramenta que distingue as situações políticas favoráveis das desfavoráveis e arriscadas. Não estão. O segundo setor. Perfis de intensidade da cidadania A análise integrada da dimensão. distinguem-se dois grupos. essa atividade se desenvolve principalmente em um âmbito não político. são aproximadamente 25 por cento do total. seu status de ciBases empíricas do Relatório 149 . entram em contato com autoridades públicas quando há problemas que afetam suas comunidades. porém. No caso oposto.2 por cento) dos latino-americanos são pessoas socialmente ativas. em instituições sociais. entrar em contato com autoridades e funcionários públicos e manifestar-se publicamente. se é que o fazem. incluindo os setores ambivalentes. os democratas tendem levemente a participar mais ativamente na vida política de seus países do que os ambivalentes e os não. colaboram com organizações da sua comunidade e.da participação eleitoral. votam e participam de manifestações públicas. Dentre eles. Nas situações favoráveis. trabalho ou dinheiro na resolução dos problemas da comunidade. 37 por cento dos não-democratas podem ser classificados como ativos. e os ambivalentes estão relativamente próximos de suas posições. como as pessoas exercitam. Na América Latina. tais como. mediante futuras medições. no mínimo. Por um lado. Uma comprovação importante é que nem sempre os democratas são os mais participativos. da distância e do ativismo das tendências em relação à democracia ajuda a proporcionar uma estimativa do grau de respaldo cidadão com que ela conta. Na América Latina.democratas. uma intervenção esporádica na política por meio do voto. composto por pessoas que. a maioria das quais tem. pois os democratas são maioria. um número ligeiramente inferior ao dos cidadãos desmobilizados. Em primeiro lugar. nesse sentido. Neste grupo. também realiza atividades de participação política independentemente da eleitoral.9 por cento). há um balanço de forças positivo para a democracia. em alguns casos. são os politicamente mais ativos. examinar as variações na situação política e na suposta solidez das bases de estabilidade democrática na cidadania. Participação cidadã e tendências em relação à democracia O último aspecto na análise da participação é seu vínculo com as opiniões em relação à democracia. os não-democratas são maioria. São cidadãos que exercitam ativamente seus direitos. Combinam o exercício do sufrágio com pelo menos uma outra modalidade de participação política: votam e entram em contato com autoridades. podem também colaborar com a comunidade. Finalmente. Com esse propósito preparamos o índice de apoio à democracia (IAD). Existe um setor que desenvolve atividades políticas não eleitorais de participação cidadã: abstém-se de votar. 43 por cento dos democratas realizam outras atividades políticas. Por outro lado. As fontes de informação do IAD também podem ser empregadas para estudar a intensidade da cidadania. “fazem de tudo”. que oferece uma visão sintética sobre o apoio e a possível vulnerabilidade das democracias latino-americanas. assim como 39 por cento dos ambivalentes. são mais ativos e têm os ambivalentes mais próximos. Esse índice permite avaliar o atual equilíbrio de forças e o potencial para criar coalizões cidadãs amplas de apoio à democracia. mas sem atingir o nível e a diversidade das ações dos cidadãos altamente participativos. ativas em todas as frentes. Registrou-se atividade em todos os âmbitos de participação cidadã pesquisados (participação eleitoral.

.1 47.9 42.4 9..2 30.7 16.8 9.1 23.5 39. .1 57.3 20.3 29.79 7.6 9.4 10.3 59.64 7.2 16.0 51.2 4.2 33.4 38.TABELA 50 PERFIL SOCIOECONÔMICO DAS PESSOAS SEGUNDO MODOS DE PARTICIPAÇÃO CIDADÃ.330 n=17.6 43.5 5.3 31.77 .178 n=5.9 6.8 11.6 26.23 14.2 45.83 6.8 33. 2002.6 24.2 35.8 65.6 8..8 11.9 8.. .7 37.895 7.0 24.2 6.78 28.9 8.4 9.8 22..2 23.0 39.5 33.9 57.5 15.9 49.5 8.8 40..0 4.4 22.3 53. .7 44.0 11.06 34.9 13..4 44.1 8.8 9.1 40.2 55. ** Sexo % Homens % Mulheres Idade % 16 a 29 anos % 30 a 64 anos % 65 a 99 anos Média de idade ** ns ** ** * ** Nível educativo % Sem estudos % 1 a 6 anos % 7 a 12 anos % Superior completo ou incompleto Média de anos de estudo ** ** .0 38. .72 41.6 35.3 5.2 34.6 12.4 39.97 25.58 51.0 31.8 38.5 46.2 43.2 8.8 52.7 24.8 58.18 % de pessoas % de pessoas % de pessoas % de pessoas n=7.58 6. ** .3 7.6 5.1 8..7 49.9 33.3 7. Estrutura da amostragem Modos de participação cidadã Significância (2) Categorias 150 Não faz nada Só vota Colabora com ou sem voto Ação política com ou sem voto Colabora e ação política sem voto Colabora e ação política com voto (As provas são realizadas comparando as pessoas que participam nos seis modos) (As provas são realizadas comparando as pessoas que não fazem nada ou que só votam com as que realizam ação política só ou combinada) A democracia na América Latina América Central e México (1) Região Andina Mercosul e Chile América Latina 48.96 9.6 39.3 37. .1 35.1 38.5 51.5 54.6 7. .7 58.387 n=5.2 37.68 9.

1 52.6 45.6 68.33 considera-se nível econômico baixo.9 49. Pode colaborar em atividades sociais.8 85.88 1.3 12.4 27. Se o índice encontra-se entre 0 e 3.7 6.8 10. Cidadão não ativo: Não tem participação política ou realiza a que.90 Média de confiança em instituições e atores 1.2 35. se encontra-se entre 3.1 45.0 51. Fonte: Processamento de perguntas da Seção Proprietária do PNUD e de outras perguntas no Latinobarômetro 2002.95 4. ( 5) Com base no índice de confiança em instituições e atores.2 ** ** ** ** ** ** Agenda não tratada (4) % Menciona um tema sem tratar % Não menciona um tema sem tratar Confiança (5) 1.8 43. “Governo “.8 86.97 ** ** Notas: ( 1) Inclui República Dominicana.5 78.91 1.8 45. Esse índice pode variar entre 0 e 10. 151 ( 4) Com base na pergunta p27u: “Qual é o tema que lhe interessa e que os candidatos na última eleição não se atreveram a abordar? “.84 1.5 8. consulte o Compêndio Estatístico.66 considera-se nível econômico médio e se encontra-se entre 6.9 4.7 42.96 1. Quando não é pertinente o cálculo de uma medida de associação ou da ANOVA indica-se com dois pontos seguidos (.7 6. construído a partir de perguntas sobre confiança em “ “Poder judiciário “.6 72. Estrutura da amostragem Modos de participação cidadã Significância (2) (As provas são realizadas comparando as pessoas que não fazem nada ou que só votam com as que realizam ação política só ou combinada) (As provas são realizadas comparando as pessoas que participam nos seis modos) Categorias Não faz nada Só vota Colabora com ou sem voto Ação política com ou sem voto Colabora e ação política sem voto Colabora e ação política com voto Nível econômico (3) % Baixo % Médio % Alto Média de índice econômico 3. “Congresso “.3 31.5 21.85 18.8 44. 2002. Bases empíricas do Relatório ( 3) Com base no índice econômico construído a partir da posse de utensílios e da educação do chefe de família.4 81. (2) Indica-se com um (*) quando a medida de associação utilizada ou a Análise de Variância (ANOVA por sua sigla em inglês) resulta significativa a 5%. Está ativo em todos os âmbitos da participação cidadã.2 4.67 e 10 considera-se nível econômico alto. Cidadão altamente participativo. mas sem atividade em todos os âmbitos da participação cidadã. Indica-se com (**) quando o resultado é significativo a 1%.02 11.3 7.4 46.3 42.CONTINUAÇÃO TABELA 50 PERFIL SOCIOECONÔMICO DAS PESSOAS SEGUNDO MODOS DE PARTICIPAÇÃO CIDADÃ.8 51.45 3.89 1.).34 e 6. “Municípios “.29 13.7 3. Sobre as provas realizadas em cada caso. “Partidos políticos “ e “Pessoas que dirigem o país “.60 3.0 47.2 88. Cidadão ativo: Contacta autoridades e participa de manifestações públicas.. .73 3.2 14. requer menor esforço: votar). além de esporádica.

encontra-se com problemas. A ferramenta utilizada para se aproximar desse tema é uma tipologia de perfis de intensidade cidadã que permite classificar as pessoas conforme a maneira de exercitar seu status de cidadão (tabela 47). Esta é precisamente a perspectiva estudada neste capítulo. tanto percepções quanto registros institucionais. Pouco mais de um terço dos consultados (34. Para avançar no estudo desse tema. a intensidade no exercício da cidadania pode ser influenciada pelo grau em que as pessoas se sintam obrigadas a cumprir seus deveres e a exercer seus direitos. ■ os ambivalentes e não-democratas desmobilizados. os democratas desmobilizados. Aproximadamente. Uma democracia na qual uma proporção significativa da cidadania decide não exercer seus direitos nem cumprir seus deveres. Essas pessoas têm dúvidas ou se opõem à democracia. ■ Sob a perspectiva dos direitos cidadãos. uma proporção considerável das cidadãs e dos cidadãos não pode exercer seus direitos civis e é discriminada. O’Donnell definiu que. a utilização de diversas fontes de informação. ■ ■ os ambivalentes e não-democratas participativos. uma de cada cinco pessoas na América Latina (18. e o atribuiu a barreiras objetivas como a debilidade do Estado democrático de direito e o efeito das desigualdades sociais extremas. Trata-se de uma perspectiva inspirada no pensamento de O’Donnell. 77 O’Donnell. então. o grau em que as pessoas participam na vida política.dadão ou cidadã. 1993. existem quatro perfis de intensidade cidadã: os democratas participativos. para o qual foi utilizado o estudo sobre os modos de participação cidadã. criado por O’Donnell. que classifica as pessoas combinando os seguintes critérios: ■ Sob a perspectiva dos deveres cidadãos. embora seus direitos políticos estejam razoavelmente protegidos.9 por cento) são ambivalentes ou não-democratas desmobilizados. Ele denominou esse fenômeno “cidadania de baixa intensidade”. Um estudo da cidadania de baixa intensidade requer. ■ Os dois primeiros grupos compartilham uma tendência democrática. Com base na informação das tendências em relação à democracia e nas formas de participação cidadã na América Latina. Os dois últimos grupos compartilham sua ausência de compromisso com a democracia e também diferem em seu nível de participação política. o dever de aceitar a vigência das normas democráticas. mas diferem em seu nível de participação na vida política. pois está centrada no estudo das atividades e dos comportamentos dos indivíduos. Os ambivalentes e não-democratas participativos representam uma proporção muito similar à dos democratas participativos. Para isso utilizou-se o estudo das tendências em relação à democracia.9 por cento) pode ser classificada como democrata participativa. com a informação do Latinobarômetro. na América Latina. mas estão retiradas da vida política. embora diferente. O conceito de intensidade cidadã vem do termo cidadania de baixa intensidade. quadro 37 Cidadania de baixa intensidade Em 1993. Além desses obstáculos.77 Entende-se por intensidade cidadã o livre e ativo exercício dos direitos e o cumprimento dos deveres genéricos próprios do status de cidadania. 152 A democracia na América Latina . preparouse uma tipologia de perfis de intensidade cidadã.

os que poderiam chegar a enfrentar-se no caso de uma crise que ameace a estabilidade de uma democracia. os não-democratas. ■ No nível de ativismo político das pessoas que apóiam as tendências e na situação dos democratas e dos não-democratas. Ambos os grupos têm estruturas de idade. os democratas participativos e os ambivalentes ou não-democratas participativos. no Compêndio Estatístico.quadro 38 O Índice de Apoio à Democracia (IAD) A elaboração do IAD baseia-se: ■ Nas tendências em relação à democracia. em maior proporção do que os outros grupos. Os jovens são mais numerosos neste grupo do que entre os democratas participativos (38. na América Latina. na proporção entre democratas e nãodemocratas. Quando o IAD tem um valor próximo a 1. Uma explicação mais detalhada pode ser encontrada na nota técnica sobre a Segundo nossos dados. nível de instrução e nível econômico mais parecidos entre si do que em relação aos outros dois grupos. Em termos gerais. São situações com um potencial de instabilidade. A segunda conclusão é que os ambivalentes ou não-democratas desmobilizados parecem concentrar. pois o apoio cidadão à democracia não está garantido. em termos de correlação de forças.6 por cento) pode ser classificada com este perfil: pessoas que têm dúvidas ou se opõem à democracia e são politicamente ativas. os democratas constituem a tendência em relação à democracia mais difundida e tenderam (embora levemente) a participar mais na vida política e social dos seus países do que as pessoas com outras tendências. podem ser formuladas duas conclusões: os dois grupos socialmente mais parecidos entre si são. Bases empíricas do Relatório 153 . o futuro da democracia poderia estar facilmente comprometido pela precariedade do apoio cidadão. se os democratas ou os não-democratas estão mais próximos dos ambivalentes. as pessoas mais jovens e de menor nível econômico. aproximadamente uma de cada cinco pessoas (21. ao passo que as pessoas com educação superior completa ou incompleta são mais numerosas entre os democratas participativos. o IAD chega a um valor bastante superior a 1. o apoio cidadão à democracia é precário. depois. paradoxalmente. As pessoas sem estudos ou com escola primária completa ou incompleta (1 a 6 anos de escolaridade) têm uma distribuição similar: proporcionalmente tendem a agrupar-se mais entre os ambivalentes ou nãodemocratas desmobilizados. Os democratas. O Índice de Apoio Cidadão à Democracia O resultado do IAD para a região tendeu a ser positivo para a democracia. estão em melhor posição do que seus contrários. então. resume situações de equilíbrio político entre as tendências democrática e nãodemocrática. As características sociais das pessoas que compõem cada um dos perfis de intensidade cidadã são similares às descritas para a base social das tendências em relação à democracia. Caso haja uma crise política severa. O IAD. mas sob a presente perspectiva.4 por cento dos primeiros e 30 por cento dos segundos). pesquisa. Nas situações favoráveis à democracia. ■ No tamanho de cada tendência e. o panorama pode ser observado com maior precisão. Na verdade. Quando o IAD assume valores muito inferiores a 1 e próximos a zero. ■ Na distância média nas atitudes entre cada tendência. pondera o tamanho das orientações com a distância e o ativismo.

encontramos: Processando dados da pesquisa de Latinobarômetro de 2002. os ambivalentes são um grupo-chave para ser observado. pois esses fatores estão relacionados com carências da ci- dadania social e com baixas perspectivas de mobilidade econômica e educativa. os democratas requerem seu apoio para formar grupos majoritários de cidadãos. ■ Evidencia-se uma tensão quando se pergunta sobre a alternativa entre desen■ 154 A democracia na América Latina . os democratas requerem seu apoio para formar grupos majoritários de cidadãos. O IAD agregado para a região revelou um valor de 2. sendo esta a mais difundida. De qualquer maneira. É preciso também tomar nota dos fatores associados mais fortemente aos não-democratas. como já vimos.De qualquer maneira.03. Índice de apoio à democracia Tamanho das tendências Distância média entre as tendências Ativismo político das orientações Eles também tiveram os ambivalentes ligeiramente mais próximos de suas posições do que das posições dos não-democratas (gráfico 8). Resumindo os resultados desta análise. questões em que. 43% dos entrevistados tinham uma tendência pró-democrática. os ambivalentes são um grupochave para ser observado. pois na maioria dos países. a região ainda tem sérios déficits. pois na maioria dos países.

e naqueles que têm maior desconfiança nas instituições. ■ Os entrevistados pertencentes a países onde há menores níveis de desigualdade social tendem a ser mais favoráveis à democracia. nos que têm uma socialização proveniente de períodos autoritários. Parece que muitos preferem a primeira. ■ A maioria dos cidadãos não está desconectada da vida política e social de seus países. os democratas tendem levemente a participar mais ativamente na vida política de seus países. ■ Da análise do perfil dos denominados “não-democratas”.volvimento econômico e democracia. ■ Em média. Bases empíricas do Relatório 155 . nos que têm uma percepção de baixa mobilidade social em relação aos pais e baixas expectativas quanto a uma futura melhoria para os filhos. surge que esta tendência tem maiores adeptos nos setores com menos educação.

156 A democracia na América Latina .

Entre os restantes. 51 por cento dos consultados são políticos. social e cultural latino-americana. oferecemos mais informação sobre a metodologia e os critérios de processamento empregados. líderes da sociedade civil (7 por cento). colocando ênfase na participação dos cidadãos. nos limites do poder democrático. econômica. religiosos (2. empresários. e os mexicanos. e lamentamos a impossibilidade de realizar todas as que pretendíamos. Esta parte expõe e sistematiza as opiniões que surgem da rodada de consultas a 231 líderes latino-americanos. portanto. observa-se um número significativo de empresários (11 por cento) e intelectuais (14 por cento). os dados não têm valor estatístico. Procuramos detectar as formas de ver e de pensar manifestadas nas respostas dos líderes. As restantes categorias se distribuem em: sindicalistas (7 por cento). com vinte e cinco). Perfil dos atores consultados Para a realização das consultas – que tiveram lugar entre julho de 2002 e junho de 2003 – seguimos dois critérios: a) fazer um mínimo de seis consultas por país. funcionários de alto escalão ou prefeitos. Expressamos nosso agradecimento às 231 personalidades que se dispuseram a contribuir generosamente para que pudéssemos realizar as entrevistas. na confiança nas instituições – particularmente nos partidos políticos – e nas relações com os poderes fáticos novos ou tradicionais.5 por cento) e militares (1. A pergunta que merece resposta é: quais são as opiniões e formas de pensar de um grupo de 231 pessoas que exercem funções de liderança na América Latina? Trata-se de importantes protagonistas da vida política. acadêmicos.5 por cento). A meta é levantar opiniões fundamentais de O ponto de partida conceitual As declarações coincidem em ressaltar um diagnóstico que pode ser assim resumido: nunca antes houve tanta democracia na América Latina nem esteve tão controlado o Bases empíricas do Relatório 157 . É importante levar em conta que o estudo não pretende substituir e.■A percepção dos dirigentes latino-americanos um conjunto relevante de líderes sobre as democracias da região. com trinta e quatro líderes consultados. Esta não é uma amostra aleatória e. jornalistas (6 por cento). os problemas em torno da elaboração da agenda pública e os desafios enfrentados pelas democracias. b) protagonistas sociais em um amplo espectro que inclui líderes sindicais. religiosos e dirigentes de movimentos ou organizações sociais. e b) fazer um número maior de consultas nos países maiores (os dois grupos mais numerosos são os brasileiros. o que resultou na omissão de importantes dirigentes. complementar outros tipos de estudos de opinião. que integram uma amostragem cuja significação decorre da relevância de suas trajetórias: a) líderes políticos que detêm ou detiveram o poder em seu máximo nível institucional. e c) membros das Forças Armadas. jornalistas. em uma entrevista cuja agenda era previamente desconhecida. em chefias partidárias. Foram observados também a tensão entre pobreza/desigualdade/ democracia. que inclui 41 presidentes e vice-presidentes atuais e anteriores. Na parte final do Relatório. Analisamos aqui suas opiniões sobre o grau de desenvolvimento de nossas democracias. sim. parlamentares. A indagação sobre o desenvolvimento da democracia na América Latina se enriquece com as percepções e opiniões dos que tomam as decisões de mais impacto na vida política da região.

documento elaborado para o PRODDAL. pressupõe alguma forma estável de conexão com a tomada de decisões públicas. esta opinião genérica se relativiza quando boa parte dos consultados se refere a formas mais específicas de participação. Esta visão deixa em aberto uma gama de questões a serem abordadas e de objetivos não atingidos.78 Na atualidade. um prêmio ou um castigo aos governantes. Alguns sentidos intermediários aludem a formas mais ou menos ativas de exercício da cidadania. o voto é visto como um ato que concretiza a participação. a conquista e afirmação dos atributos básicos da democracia são consideradas uma etapa necessária e um progresso significativo. como veremos mais abaixo. existem duas tendências. Em seu sentido mais amplo. pois. mesmo quando são céticos quanto ao funcionamento adequado dos partidos como canais de participação ou à possibilidade de recuperação de protagonismo nesse terreno. Condições necessárias para a Democracia Embora não as interpretem exatamente da mesma forma. a participação implica formas mais ativas de exercer os direitos cidadãos. A expansão da participação política Por mais que a palavra participação tenha diferentes significados políticos. perigo de golpe de Estado. em contraste com o passado autoritário. dentro de um acordo generalizado em apontar o caráter inacabado da construção da democracia na América Latina. Em compensação. em geral. A quase unanimidade das pessoas con- sultadas pensa que uma maior participação em qualquer uma de suas formas tende a fortalecer o funcionamento das instituições democráticas. em um sentido mais estreito. Para a maioria dos consultados. mesmo assim. principalmente através da mediação dos partidos políticos ou das organizações da sociedade civil. Os líderes consultados tendem a compartilhar essa idéia. Nesse sentido amplo. nas democracias de maior continuidade. inclusive onde dito processo histórico tem duração mais longa. tanto no que se refere à eleição dos governos quanto à definição de suas políticas) aumentou significativamente durante a última década. a participação da população no sentido amplo (isto é. tais como a participação em consultas populares ou em âmbitos deliberativos a nível local. Entretanto. o aumento da participação é interpretado como uma das caras mais visíveis do processo de construção democrática. os líderes latino-americanos consideram que a participação política e os controles sobre o exercício do poder são duas condições básicas da democracia. Também há coincidência em que maior participação através dos partidos políticos é saudável para a democracia. Já a diminuição ou o estancamento da participação apontado pelos líderes chilenos. uruguaios e costarri- 78 Garretón. que não é considerado no momento de avaliar o nível de participação. No momento de considerar o ato eleitoral como uma expressão da participação política. para os consultados nesses países. e que ambas se fortaleceram ao longo da última década. como as que derivam do baixo prestígio dos partidos políticos e da chamada crise da sociedade política. 2003. mais participação aparece como preferível a menos participação. Sob essa perspectiva. o fato de votar é visto como algo habitual.Há coincidência em que maior participação através dos partidos políticos é saudável para a democracia. eventualmente. Identifica-se o crescimento da participação eleitoral com o progresso da participação. mas. Nos países com menor tradição democrática. todos os países cumprem os requisitos do regime democrático. Em quase toda a América Latina. 158 A democracia na América Latina . sua abrangência costuma se restringir à participação eleitoral. a democracia está exposta a fragilidades. pois permite expressar uma posição crítica em relação a velhas estruturas patrimonialistas e. que são especialmente valorizados pelos consultados.

o aumento da participação é interpretado como uma das caras mais visíveis do processo de construção democrática..] Hoje em dia. [. México. República Dominicana. Por sua vez. Guatemala. o estado) em que apareceriam dirigentes capazes de gerar níveis importantes de adesão e em que melhor funcionariam as organizações da sociedade civil que conseguem atrair os cidadãos com mais facilidade. mas também do fato de que são vistos como um obstáculo para a participação. mas um dos mais importantes). Peru.]. Isso não significa que esses países estejam livres de dificuldades (de fato. Nicarágua.. E isso é o que ocorre [. o distrito rural. Equador. não organizada [. Mas em vários países com tradições democráticas menos arraigadas. Essa é a prova pela qual temos que passar agora”. É a essa escala (a aldeia. o fortalecimento das instâncias de deliberação e de decisão no âmbito local. Segundo esses consultados. a cidade. ou seja. O primeiro país é o que tem um maior balanço positivo. Uma diferença significativa entre os países com democracias historicamente mais arraigadas e os outros são os canais por meio dos quais se exerce a participação.] [Agora] há uma participação mais desorganizada. Bolívia. aquele em que a diferença é mais favorável para os que pensam que a participação aumentou..]. Bases empíricas do Relatório 159 . alguns consultados opinam que a maior participação se produz quando os cidadãos atuam fora dos partidos. [.. TABELA 51 AUMENTOU A PARTICIPAÇÃO NA AMÉRICA LATINA? A participação aumentou Honduras. Sempre. o interesse da cidadania vem diminuindo progressivamente enquanto a abstenção eleitoral vem aumentando. Argentina. trata-se de um problema diferente dos problemas enfrentados por países onde esse envolvimento é menor ou mais recente. Os partidos perderam presença e representatividade”. mais circunstancial [. Quanto mais se aperfeiçoa o poder democrático. mais organizações da sociedade e mais pressão de baixo para cima. fundamentalmente através das organizações políticas e sociais. 2002.. quer seja porque tomam a distância suficiente para fazer um exercício independente do voto (por exemplo. Paraguai Colômbia. dois deles padeceram de duras experiências de regimes autoritários). Um dirigente consultado no Chile acrescenta detalhes: “A participação que caracteriza a democracia era mais institucionalizada [de meados do século passado até o golpe de Estado de 1973]. mais aumentam as pressões de baixo para cima [para que seus problemas sejam levados em conta]. Brasil.. Costa Rica Uruguai. Panamá. um líder brasileiro destaca a expansão da participação: “A pobreza é difusa. a diferença entre os que dizem que a participação aumentou e os que dizem que a participação diminuiu. El Salvador.. Os consultados dos países do primeiro caso tendem a pressupor que os partidos são um dos canais naturais (não o único. Fonte: PRODDAL. apoiando candidatos independentes) ou porque se incorporam a organizações da sociedade civil que se apresentam como alternativa para os partidos.] nas votações e nas eleições.. Venezuela. [há] mais organizações democráticas.. não se trata apenas da imagem negativa dos partidos. Depois a classificação é feita por ordem decrescente desse resultado. Rodada de consultas com líderes da América Latina. ou seja. segundo os consultados. mesmo assim. Chile A participação não aumentou nem diminuiu A participação diminuiu Nota: Os países estão classificados segundo “resultados de opinião”..quenhos parece próprio de democracias que se sentem profundamente arraigadas historicamente...]. a realidade chilena é muito preocupante: [. Em quase toda a América Latina. esse fenômeno de maior participação por canais alternativos às estruturas partidárias aparece freqüentemente associado à outra tendência vigorosa.

o que permite compreender sua paradoxal percepção: ser uma condição sine qua non da democracia e. porque os últimos três candidatos eleitos são independentes”. como um fato positivo. por muitos dos consultados.. a idéia predominante é a de que os governos estão mais controlados e limitados do que no passado.] geraram uma transformação radical da cidade: [.. Os novos movimentos sociais e o crescimento da participação fora dos partidos levam esses movimentos a serem vistos. [. [mas] quase nada em relação aos partidos. Numerosos líderes consultados insistem na capacidade dos meios de detectar irregularidades e excessos (ou simples erros e dificuldades) e de dar-lhes difusão pública. a existência de meios de comunicação independentes é vista como um fator que contribuiu decisivamente para o aumento dos controles.. Isso é tido. Estes são considerados. Vários líderes consultados também mencionam a presença de tradições desfavoráveis aos controles do exercício do poder em alguns países centro-americanos. Consideremos a definição de democracia de um entrevistado na Guatemala: “Se em 1986 nós tivéssemos perguntado aos guatemaltecos o que era para eles a democracia. outros objetam esses processos por considerá-los particularistas e por gerar consensos contingentes que limitam o pluralismo da democracia. simultaneamente. um instrumento de grupos de poder que exercem indevida influência na tomada de decisões públicas. ao mesmo tempo. em geral. Contudo.] as políticas públicas tornaram-se uma essência vital.. Assim descreve um dos líderes consultados na Colômbia: “Em Bogotá.. Existe também desacordo sobre a institucionalização da participação social. um grave problema é que não existem mecanismos eficazes para controlar os eventuais excessos. certos meios terminam por construir sua própria agenda e por perseguir interesses particulares (os do grupo econômico a que pertencem ou os de certos setores de poder a que estão associados). um controle e um grupo de pressão.. que não era como se via antes.. Para muitos de nossos consultados. a resistência a desenvolver mecanismos de participação institucionalizada influi negativamente no desenvolvimento da democracia. De maneira geral. Por outro lado. e isso é basicamente o que deve suceder em toda a Améri- . sem com isso atentar contra a liberdade de imprensa. Mas esta mesma relevância dos meios é vista como um perigo pela maioria dos líderes consultados: apoiados na popularidade que as denúncias lhes proporcionam. porque implica a presença de uma cidadania mais atenta e decidida a fazer valer seus direitos (o que é coerente com a percepção de uma maior participação).] as conseqüências para os cidadãos geraram um convencimento e uma continuidade em política.] o público passou a ter prioridade em relação ao privado. A idéia de que os controles sobre o exercício do poder se aperfeiçoaram predomina entre os líderes de doze dos dezoito países estudados.De maneira geral. teriam nos respondido ‘um regime cujo governo seja civil e seja eleito popularmente’. [. Os políticos e funcionários de governo são os que mais freqüentemente consideram que os controles aumentaram. Opiniões sobre o caráter da democracia Os líderes latino-americanos acreditam que as condições políticas necessárias para a democracia avançaram significativamente durante a última década.. tanto em suas melhores como nas piores versões. Para alguns consultados. A expansão dos controles sobre o exercício do poder Na maioria dos países latino-americanos. os meios são vistos pelos líderes como um dos principais contrapesos do poder político.. a existência de meios de comunicação independentes é vista como um fator que contribuiu decisivamente para o aumento dos controles. os consultados relacionam o exercício do controle com o fortalecimento da sociedade civil (sobretudo a partir do papel assumido pelas ONGs) e dos meios de comunicação. Entre os consultados. como uma ameaça à governabilidade.. onde a au160 A democracia na América Latina sência de controles eficazes aparece associada a problemas de longa data.] governos sucessivos [. Certos países contam com canais institucionais através dos quais as demandas podem ser viabilizadas e negociadas. [. a percepção sobre a participação social é heterogênea.

. mas. Colômbia. não há dúvida de que a grande maioria dos consultados coincidiria em que seus países são democráticos.TABELA 52 AUMENTARAM OS CONTROLES SOBRE O PODER NA AMÉRICA LATINA? Os controles aumentaram El Salvador. Nicarágua Equador. sim. A resposta predominante poderia ser sintetizada desse modo: “Pode-se falar de democracia. Pela primeira vez na história do continente. foi necessário precisar e decompor o conceito. aquele em que a diferença é mais favorável para os que pensam que os controles aumentaram. mas ratifica todos os avanços dos últimos anos. Esta observação pode parecer trivial. às condições de vida da população. Para os outros..”. Peru. Costa Rica.]. Venezuela Os controles não aumentaram nem diminuíram Os controles diminuíram Nota: Os países estão classificados segundo “resultados de opinião”. os líderes de todos os países incluídos no estudo vêem que seus países satisfazem a definição mínima de democracia. Os restantes são classificados à medida que o balanço diminui. os consultados fossem convidados a responder sobre a presença ou ausência de democracia em seu país (“Levando tudo isso em conta. Partindo do princípio de que esta definição seja aceitável. Portanto. Um dos consultados na Nicarágua afirBases empíricas do Relatório Pela primeira vez na história do continente. O primeiro país no primeiro lugar é o que tem o balanço mais positivo. Para 6 por cento. a diferença entre os que dizem que os controles aumentaram e os que dizem que diminuíram. ca Latina”. 161 . de participação dos panamenhos [. Fonte: PRODDAL. como foi mencionado. problemas de legitimidade ou questões de projeto institucional (embora estes problemas também sejam mencionados). Bolívia. Argentina. pelo menos como uma primeira aproximação. ou seja. as pessoas consultadas insistem em que a debilidade da democracia não tem tanta relação com bloqueios políticos. Rodada de consultas com líderes da América Latina. em seu país “ainda falta muito” para que se possa dizer que se vive em democracia. Só 14 por cento dos consultados responderam de maneira inequívoca (6 por cento que sim. Guatemala. 17 por cento consideram que há numerosas limitações em seu país.. Honduras. mas sim com as condições de vida da população: “Do ponto de vista econômico e social. 2002. Em alguns casos. existe uma “democracia plena” em seu país. realmente temos gravíssimos problemas de distribuição da riqueza. os governos têm pelo menos algumas limitações ao seu poder e os consultados acreditam que houve um progresso significativo nesses dois planos. No conjunto de consultas. o senhor diria que seu país é hoje uma democracia?”). República Dominicana. ou seja. Panamá. 8 por cento que não). Brasil. Por outro lado. ainda que faça isso complementando com várias especificações adicionais. usualmente. o comentário mais freqüentemente ligado a uma opinião cética sobre o grau de força ou de realização da democracia refere-se. para 25 por cento dos consultados. em seu país existe uma democracia com poucas ou algumas limitações. Paraguai Uruguai. Precisamos então explorar o sentido desses condicionamentos e relativizações.. para um robusto percentual de 66 por cento. A idéia da desigualdade e da segmentação social como impedimento para a construção de uma democracia plena aparece com muita freqüência associada às opiniões mais pessimistas. sobretudo comparando com o passado. México. Chile. ao término de uma conversa extensa. Como pode haver democracia nessas condições?”. e 8 por cento opinam que seu país não é uma democracia. os líderes de todos os países incluídos no es- tudo vêem que seus países satisfazem a definição mínima de democracia: há concorrência genuína. a grande maioria dos consultados (quase nove em cada dez) aceita o termo “democracia” para descrever suas respectivas situações nacionais. A pauta das consultas previa que.

. “Chegamos à república e ainda temos que construir a democracia. acho que mais democracia haverá”. apesar do fortalecimento das instituições democráticas. No entanto. as recentes eleições contribuem para um clima de confiança na democracia: “Estamos vendo um momento em que uma pessoa [Luiz Inácio Lula da Silva] sai da extrema pobreza nordestina e chega ao poder máximo do país. Mas as Forças Armadas não são mencionadas nos países restantes. incluindo os que viveram recentemente crises políticas agudas (Argentina. no Equador. as respostas mais positivas são encontradas especialmente entre personalidades provenientes das democracias mais arraigadas e nos países maiores. Avançamos mais do que muitos países no que se refere à consolidação da democracia. essas situações de pobreza e exclusão. O que distingue as atitudes das lideranças desses países não radica. As Forças Armadas são vistas como o fator de poder mais importante para alguns consultados na Guatemala e na República Dominicana e. alguns líderes consultados identificam três riscos principais que poderiam ameaçar o bom funcionamento da ordem democrática: .] fica difícil”.]. na América Latina. A mesma idéia aparece neste resumo formulada por um dos líderes consultados no Peru: “54 por cento da população vive abaixo da linha de pobreza extrema e 23 por cento abaixo da linha de pobreza extrema-extrema [. o poder real costuma residir em instituições às quais as normas delegam outras funções (como foi o caso. Quem vai dormir esta noite sem saber se amanhã terá algo para comer não é livre”. Colômbia e Paraguai).. Estes casos indicam que. No outro extremo. concentradas nos direitos sociais” (ex-presidente). no passado recente. Causas das limitações das democracias latino-americanas Poderes institucionais e poderes fáticos Um problema tradicional dos países latino-americanos foi o divórcio entre os poderes institucionais e os poderes fáticos: embora os textos constitucionais outorguem grande peso ao Poder Executivo e uma importante capacidade de ação ao Legislativo e ao Judiciário. a pobreza e a exclusão são problemas que devem ser solucionados por um sistema político claramente 162 A democracia na América Latina democrático. A democracia não é um ato político eleitoral. [. os poderes fáticos continuam assumindo um papel muito importante. pois não é possível conceber democracia plena em uma situação de pobreza e miséria.. mas além dessas liberdades chamadas negativas. e as consultas realizadas confirmam..]. então. A república é a que preserva as liberdades individuais. A participação dessa gente em política resume-se a ir votar no dia da eleição. mas sim em seu grau de confiança na capacidade das instituições democráticas de conviver com. ma. Para os que vêem as coisas sob esse prisma... por exemplo: “Para nós. que nas últimas décadas.] quanto mais possibilidades houver de se atravessar as barreiras [entre as classes sociais]. foi muito difícil chegar aonde chegamos: mortos. grupos econômicos e outros). mas ainda há muito para ser feito. A tensão entre poderes institucionais e poderes fáticos continua presente na realidade latino-americana. lutas intestinas [. evita que um governo despótico nos mate. nas condições socioeconômicas “objetivas” de seus países.. Esse forte debilitamento das Forças Armadas como fator político é uma novidade importante para a democracia latino-americana. porque é obrigatório e quem não vota tem que pagar uma multa. em menor medida...] a mobilidade social é um dos ingredientes da democracia: [. das Forças Armadas) ou em grupos que não fazem parte da ordem político-institucional (famílias tradicionais. no Chile e na Venezuela.].. e de modificar. Enquanto a única liberdade existente for a de morrer [. Como destaca um dos consultados no Brasil.. o vínculo entre condições socioeconômicas e atitudes em relação à democracia não é automático nem necessariamente determinante.A tensão entre poderes institucionais e poderes fáticos continua presente na realidade latinoamericana. que nos leve preso [. mas isso não é democracia. Há informação que sugere. as positivas da democracia. em médio prazo.. estão as outras liberdades.

quase todas as opiniões recolhidas convergem em indicar que o narcotráfico implica um duplo desafio. dois dos quais são destacados pelos consultados. mencionam os grupos de interesses (particularmente empresários e grandes latifundiários).8%) (8. o narcotráfico cria desafios indiretos.8%) (64. Entretanto. 3. 2002.7%) (29.9%) (4. em países menores ou com tradições democráticas menos arraigadas. Segundo os líderes dos países maiores e dos que têm tradições democráticas mais arraigadas. Rodada de Consultas com Líderes da América Latina. ao qual atribuem capacidade de limitar o poder das instituições Bases empíricas do Relatório 163 . gera novas formas de pressão externa que limitam ainda mais a esfera de ação dos governos nacionais. O segundo tem relação com a corrupção: o “dinheiro sujo” tem efeitos devastadores sobre o comportamento de uma parte dos dirigentes políticos e sobre o funcionamento das instituições. O terceiro fator. O primeiro é que.9%) (16. mencionam a dependência de organismos internacionais de crédito. ao atrair a atenção do governo dos Estados Unidos. e sim práticas tais como a compra de votos e a “fabricação” de candidatos. mas os métodos empregados já não são só lobbies. 1.TABELA 53 QUEM EXERCE O PODER NA AMÉRICA LATINA? SEGUNDO O PONTO DE VISTA DOS LÍDERES CONSULTADOS Quantidade de menções Poderes fáticos Os grupos econômicos/ empresários/ O setor financeiro Os meios de comunicação Poder Executivo Poder Legislativo Poder Judiciário As Forças Armadas A Polícia Partidos políticos Os políticos/ operadores políticos/ líderes políticos EUA/ A embaixada norte-americana Organismos multilaterais de crédito O fator internacional/ o fator externo Empresas transnacionais 150 122 68 24 16 40 5 56 13 43 31 13 9 % de Líderes que fazem a menção (79. No externo.2%) (12. Como é natural.3%) (2. enquanto cria fortes incentivos para a passagem da economia formal à informal.9%) (22.8%) Poderes constitucionais Forças de segurança Instituições políticas e líderes políticos Fatores extraterritoriais Nota: n=188. dos financeiros). Fonte: PRODDAL. 2. É um desafio direto porque tenta controlar parte do aparelho estatal e partes significativas do território. Além disso. mas não exclusivamente.5%) (21. As limitações externas provêm. O total não soma 100% porque foram permitidas respostas múltiplas.5%) (6. e acrescentam a desmesurada influência de empresas estrangeiras instaladas nos pró- prios países. da vigilância das avaliadoras de risco e do papel dos organismos internacionais de crédito. a importância atribuída pelos líderes latinoamericanos a esse fator está diretamente ligada ao grau de desenvolvimento de tal fenômeno em seus respectivos países. as limitações têm duas origens. Por sua vez. basicamente.8%) (6. O segundo tema considerado é a ameaça do narcotráfico. os consultados também destacam limitações externas e internas. do comportamento dos mercados internacionais (em especial. assim como da multiplicação de grupos de interesses (em especial empresariais) que funcionam como poderosos lobbies. No âmbito interno. As limitações internas provêm da proliferação de controles institucionais inadequados. mas as descrevem de maneira diferente.9%) (36.

De maneira geral, pode-se dizer que, com algumas exceções, o ceticismo em relação aos partidos é muito amplo e a disposição para se vincular a eles tende a diminuir em toda a América Latina.

políticas, são os meios de comunicação. Essa grande influência dos meios é vista como parte do aumento dos controles que permitiram democratizar o exercício do governo, e também, como uma restrição ao processo democrático, segundo, principalmente, os políticos consultados. Os meios têm a capacidade de gerar agenda, de predispor a opinião pública a favor ou contra diferentes iniciativas e de deteriorar a imagem de fi guras públicas mediante a manipulação de denúncias. Existe amplo consenso entre os consultados quanto ao fato de que a grande influência da mídia limita o poder das instituições políticas. Em realidade, sempre tiveram muita influência e os políticos tentaram servir-se dela. A novidade, além da maior exposição do público à mídia, é que anteriormente estavam em grande parte vinculados aos partidos políticos que, em alguns casos, exerciam certo controle sobre eles; atualmente muitos meios de comunicação tornaram-se independentes das estruturas partidárias e passaram a fazer parte de grupos econômicos não subordinados ao poder político e com interesses muito diversificados. O papel dos partidos políticos Segundo os líderes consultados, os partidos políticos, atores fundamentais para o funcionamento das democracias contemporâneas, sofrem uma séria crise. Um dado revelador é que não apenas a maior parte dos líderes consultados acha que os partidos não

estão cumprindo adequadamente sua função, como também, esta opinião é predominante, (59 por cento) entre os próprios políticos consultados. Nesse caso, as opiniões favoráveis (“evidentemente sim”) representam 18 por cento e as opiniões neutras (“por um lado sim, por outro não”), 16 por cento. Esse ceticismo generalizado oculta diferenças significativas de país para país. Em alguns casos (Argentina e Equador), o desprestígio dos partidos atinge um grau extremo. Em outros casos (Honduras, Uruguai e, ainda que em menor medida, Chile), os partidos aparecem em condições bastante melhores. De maneira geral, pode-se dizer que, com algumas exceções, o ceticismo em relação aos partidos é muito amplo e a disposição para se vincular a eles tende a diminuir em toda a América Latina. Estas opiniões referem-se à conjuntura política de 2002 e início de 2003. Uma nova rodada de consultas daria presumivelmente novos resultados. Quais são as razões que fundamentam essa opinião? Como acusação mais freqüente temos o personalismo e a ausência de democracia interna. Nas palavras de um líder costarriquenho: “São as mesmas caras, as mesmas pessoas nos últimos quarenta anos, é bater na mesma tecla, o que hoje é deputado, amanhã é embaixador, e recebe um ministério outra vez [e depois] será sua vez novamente”. Essa rejeição às oligarquias partidárias pode ser atribuída, parcialmente, a uma modernização das expectativas dos cidadãos (o

TABELA 54

OS PARTIDOS ESTÃO CUMPRINDO SEU PAPEL?
Sim, ou na verdade, sim Não, ou na verdade, não Uruguai, Honduras Chile, Peru, México, República Dominicana, El Salvador, Bolívia, Panamá, Brasil, Guatemala, Paraguai, Venezuela, Argentina, Colômbia, Equador, Nicarágua, Costa Rica

Nota: Os países estão classificados segundo “balanços de opinião”, ou seja, a diferença entre os que dizem que os partidos estão cumprindo seu papel e os que dizem que não. O primeiro país no primeiro lugar é o que tem o balanço mais positivo, ou seja, aquele em que a diferença é mais favorável para os que pensam que os partidos cumprem seu papel adequadamente. Em seguida, são classificados à medida que o resultado diminui. Fonte: PRODDAL, Rodada de consultas com líderes da América Latina,2002.

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A democracia na América Latina

velho caudilhismo e o velho estilo patrimonialista têm mais dificuldades em ser aceitos). Além disso, a aguda deterioração sofrida pelo Estado, por várias razões, em boa parte de nossos países, levou ao enfraquecimento de um dos atrativos que os partidos podiam ter no passado: ao menos para uma parte significativa da cidadania, os partidos já não conseguem, mediante sua influência em diversos segmentos do Estado, “resolver os problemas da população”. Mas, ao mesmo tempo em que o atrativo clientelista se debilitou, os partidos também não foram capazes de modernizar-se em grau suficiente para destacar-se nem por sua capacidade de proposta nem pela consistência de suas equipes de governo. Nas palavras de um entrevistado peruano: “Os partidos políticos não foram capazes de sentir o ritmo da América Latina”. Os partidos políticos atravessam uma forte crise de representação que incide na diminuição da participação eleitoral e em sua canalização por outras vias (em geral, organizações da sociedade civil). No entanto, quase todos os líderes reconhecem a centralidade dos partidos políticos e a necessidade de que assumam um papel de maior responsabilidade. “Nossas sociedades passaram por uma rápida metamorfose e nós, os políticos, não a monitoramos de perto, por isso existe um grande desencontro” (presidente). “O povo quer participar e sente que o formalismo do voto nas urnas, por mais transparentes que sejam as eleições, não lhe dá esse sentimento de participação [...]. A democracia precisa dos partidos políticos, mas eu não posso fazer parte de um partido, porque todos têm dono” (empresário). Nossos consultados vinculam essa crise de representação à ausência de democracia interna nos partidos, à lógica clientelista de manipulação do eleitorado que incentiva os personalismos, ao esquecimento das plataformas político-partidárias (falta de diferenciação ideológica, carência de programas), à geração de dissidências personalistas e não ideológicas, a sua vinculação a poderes fáticos e a alianças em que se confundem as identidades políticas. Por essas razões, a maioria dos consulta-

dos entende que os partidos – em particular os tradicionais – não tiveram êxito como canalizadores das demandas da cidadania. Por sua vez, as oposições políticas aparecem fragmentadas e seu discurso se configura mais contra figuras políticas controvertidas do que a partir de propostas programáticas. Em geral, longe de expressar uma vontade majoritária da população, segundo essas opiniões, os partidos atuam em função de interesses particularistas e sofrem demasiadas pressões dos grupos de poder, tanto legais quanto ilegais. “[Os partidos] têm muitas dificuldades para manter-se em contato com as demandas da população porque a carreira política depende acima de tudo dos dirigentes dos partidos e não tanto dos cidadãos. É curioso, há uma partidocracia mais ou menos sólida e os partidos têm um bom percentual de votos, embora as pessoas não tenham uma boa opinião a respeito deles” (acadêmico). Certos atores, particularmente os jornalistas, vêem os partidos políticos como instituições frágeis, divorciadas das necessidades cidadãs, submetidas a caudilhismos, que se ocupam apenas da sociedade incluída e perdem contato com suas bases sociais – atuam, às vezes, como verdadeiras máfias –. Por sua vez, os acadêmicos tendem a vincular a crise de representação dos partidos políticos aos déficits institucionais que cada país apresenta. A revisão do sistema de proporcionalidade em alguns países, das forças que aparecem representadas no Parlamento e dos mecanismos de promoção de candidaturas intra ou extrapartidárias, é a dimensão mais ressaltada. Sob esse ponto de vista, os problemas da representação política descansariam mais na forma institucional de funcionamento do sistema de representação, do que na credibilidade dos partidos políticos diante da cidadania. Por sua vez, segundo nossos consultados, o descrédito da população em relação aos partidos políticos favoreceu a expansão e a diversificação de organizações da sociedade civil, assim como a capacidade destas de encaminhar as demandas. O desequilíbrio entre os níveis de participação alcançados pelos partidos e pelas organizações da socieBases empíricas do Relatório

Os partidos políticos atravessam uma forte crise de representação que incide na diminuição da participação eleitoral e em sua canalização por outras vias.

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dade civil gera olhares críticos a respeito do papel que ambos desempenham no processo democrático. Os consultados das ONG´s expressam fortes críticas aos partidos, baseadas fundamentalmente em sua corrupção, em seu distanciamento em relação aos interesses sociais e em sua busca do poder como aval de interesses particularistas. No entanto, para alguns dos consultados mais próximos dos partidos, o problema não está no fato de eles não terem se modernizado plenamente, mas sim de não terem conseguido que isso fosse percebido. Um líder consultado no Chile expressou-se desta forma: “Acho que aqui é preciso fazer um mea culpa. Acho que os partidos não tiveram a capacidade de clarificar ante a opinião pública suas proposições, a alternativa que representam, o caminho que oferecem”. Explicações desse tipo não são suficientes para os consultados de países que enfrentam crises muito severas. Entre eles, uma idéia recorrente é que não foi a cidadania que deu as costas aos partidos, mas sim os partidos que deram as costas ao povo. Nas palavras de um entrevistado argentino: “Os políticos falam muito mais de candidaturas, de internas, de eleições, de mecanismos eleitorais, e falam muito pouco de desemprego, de pobreza, de marginalização, de insegurança pública, que são os temas que preocupam a população. [...] Essa crise teve origem basicamente em uma classe política dirigente que se negou a aceitar responsabilidades e esforços. O único objetivo foi durar o maior tempo possível”. Das consultas também surgem elementos para avaliar a situação de outras instituições da democracia. A baixa confiança nessas instituições manifestada pela cidadania (ver o capítulo precedente) é percebida pelos líderes. Alguns apontam um esgotamento da capacidade de representação e o vinculam à elevada influência dos poderes não eleitos. Ao mesmo tempo em que reconhecem, com diferentes matizes, o caráter central dos partidos políticos como instrumen-

tos de representação em uma democracia de boa qualidade, os consultados ressaltam que os partidos sofrem de modo particular a influência dos poderes fáticos. Existe grande coincidência entre os consultados no que diz respeito ao poder acumulado na última década pelos grandes empresários, pelo setor financeiro e pelos meios de comunicação que constituem, segundo eles, o principal fator de poder nas democracias da região. Além disso, ressaltam a influência exercida pelos organismos multilaterais de crédito. Existe amplo consenso de que a agenda dos governos é determinada centralmente pelos temas e pelas perspectivas promovidas por esses atores.

Os poderes fáticos Empresas Dos consultados da América Latina, 80% ressaltam o poder acumulado, na última década, pelos empresários, pelo setor financeiro e pelos meios.79 Eles são o principal grupo de poder que limita o poder de decisão dos governos. O condicionamento imposto pelos poderes fáticos aos regimes democráticos favorece a noção de que se conta com governos e partidos políticos que não podem responder às demandas da cidadania. “O grande poder fático da incipiente democracia é o poder econômico privado. Integrado por grupos de pressão que condicionam a conduta do presidente, de legisladores, juízes e outros funcionários do governo e da administração pública” (ex-presidente). “Nós temos uma democracia desvinculada do interesse geral e, fundamentalmente, vinculada a fatores fáticos que acabam por oligarquizar a economia do país e transformar o governo democrático em um governo plutocrático” (político). Os líderes destacam que a relevância do setor empresarial repousa na sua capacidade de lobby diante dos governos, defenden-

79 Diferentemente do restante dos países da América Latina, no Brasil não se faz menção à vinculação entre o setor econômico financeiro e os meios de comunicação. No entanto, é reconhecida sua grande incidência sobre a opinião pública.

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A democracia na América Latina

do e promovendo seus interesses e direcionando ações políticas em seu benefício. “O governo está a serviço da empresa privada e dos que tomam as decisões [...], os multimilionários são os que decidem o que se faz ou se deixa de fazer no país” (religioso).“ O poder do dinheiro se converte rapidamente em poder político, com capacidade de limitar o poder político democrático” (presidente). “Sua capacidade de influência se baseia [...] no fato de que financiam as campanhas eleitorais” (político). “O mundo empresarial tem um poder muito forte. Como os empresários tomam as decisões de investimento, e sem investimento não há desenvolvimento nem crescimento, eles têm assim um poder de veto. [...] O poder da direção empresarial com seus capitais e com o poder de veto que conduz ao desemprego, não cabe dúvida de que é muito forte” (político). Na opinião de alguns presidentes consultados, no Cone Sul é preocupante o peso de corporações que aparecem como um obstáculo para uma democracia mais ampla, porque são outorgados privilégios a certos grupos, em um contexto de partidos frágeis e de um Estado que deveria ser mais republicano. Em países menores, como os da América Central, aponta-se a pressão exercida pelo setor privado –ligado a uma estrutura oligárquica de poder– sobre o presidente, e a cooptação de altos funcionários, o que permite a alguns dos consultados falar de um processo de captura do Estado. A estreita vinculação entre grupos econômicos e meios de comunicação é destacada pela maioria dos consultados. Mediante os meios, os empresários concentram mais poder ainda, quer seja porque são seus proprietários ou porque impõem condições por meio do controle das pautas publicitárias. Essa aliança lhes confere grande capacidade de gerar opinião, determinar temas de agenda e incidir sobre a imagem pública dos funcionários, dos partidos políticos e das instituições. Os meios de comunicação Os meios de comunicação são caracterizados como um controle sem controle, que cumpre funções que excedem o direito à in-

formação. “Formam a opinião pública, decidem as pesquisas de opinião e, conseqüentemente, são os que mais têm influência na governabilidade” (político). “Atuam como suprapoderes, [...] passaram a ter um poder que excede o Executivo e os poderes legitimamente constituídos, [...] substituíram totalmente os partidos políticos” (político). A maioria dos jornalistas consultados vê o setor econômico-financeiro e os meios de comunicação como os principais grupos de poder. Os meios de comunicação têm a peculiaridade de operar como mecanismo de controle e/ou limitação às ações dos três poderes constitucionais e dos partidos políticos, sejam quais forem os proprietários desses meios. “A verdadeira vigilância que se exerce é a da imprensa” (jornalista). Além disso, reconhecem que atuam como uma corporação que define os temas da agenda pública e que até traça a agenda presidencial. Em geral, os consultados consideram problemática a relação entre os meios de comunicação e os políticos. “Aqui a classe política os teme. Porque podem fazer desmoronar uma figura pública a qualquer momento” (sindicalista). “A forma através da qual se construíram as concessões e os interesses com os quais se teceu toda a estrutura dos meios de comunicação os converteram em um poder” (político). Para alguns, no entanto, a influência exercida pelos meios de comunicação é positiva: “Graças aos meios, ainda podemos estar falando de democracia” (empresário). Valorizam seu papel fiscalizador: “Está claro que se não fosse pela vigília da imprensa, as coisas seriam muito piores”. “[A imprensa] sofistica os mecanismos de engano, mas, por outro lado, opera como limite” (jornalista). Os fatores extraterritoriais O papel dos Estados Unidos e dos organismos multilaterais de crédito (Banco Mundial, BIRD; Fundo Monetário Internacional, FMI; Banco Interamericano de Desenvolvimento, BID) como fatores de grande influência são mencionados pela metade dos consultados, aproximadamente. Eles apontam a ingerência dos organismos nas
Bases empíricas do Relatório

“[A imprensa] sofistica os mecanismos de engano, mas, por outro lado, opera como limite” (jornalista).

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questões internas e a perda de autonomia. A dependência se vê expressa nas prioridades da agenda pública, particularmente na coincidência entre as sugestões oferecidas por esses organismos e as pautas de reformas econômicas, fiscais e estatais, previstas a curto e médio prazo. “O rumo, a direção, os ritmos da coisa estão predeterminados por condicionamentos externos [...] com o FMI, com os bancos, com o BID” (jornalista). “A aprovação do governo dos Estados Unidos perante os organismos multilaterais é essencial. Sem uma visão favorável do FMI, do BIRD e do BID, a economia do país entraria em colapso em curto prazo, pela situação de endividamento [...]. A ajuda norte-americana é vital para a correlação de forças internas neste período” (político). “A política econômica não é dirigida democraticamente [...].Existe uma pauta única para a região. E quem quiser seguir outro caminho, ou vai se enfrentar com a impossibilidade de concretizá-lo ou, se o fizer, terá que assumir todos os riscos. [Esta é a] limitação do caráter internacional e global dos vetores econômicos” (alto funcionário).“O povo vota e as instituições que surgem desse voto são facilitadores de decisões que foram tomadas em outro lugar [...]. Gradualmente, as fronteiras vão caindo devido a esses poderes fáticos que fazem com que as decisões do Parlamento, do Poder Executivo, da Justiça, de cada jurisdição sejam, na verdade, só de fachada” (jornalista). Embora os consultados reconheçam a influência desses poderes, alguns consideram que o poder político mantém capacidade de autonomia. “O desafio é como adaptar as instituições democráticas à existência dos poderes fáticos. Provavelmente não haja nenhuma forma de institucionalizá-los, porém é preciso saber que existem, que influenciam e que essas influências pesam” (político). Nesse contexto e sob um ponto de vista de futuro, um presidente identifica o desafio que significa dirimir o vínculo entre os fatores extraterritoriais e as prioridades nacionais, que incluem a superação da pobreza e o conseqüente fortalecimento da democracia: “Este quadro nos coloca perante um enorme desafio: se nós, os governantes da região, so168
A democracia na América Latina

mos ou não capazes de fazer com que o controle responsável das políticas econômicas funcione com eficácia e visão de futuro.” As igrejas A metade dos consultados considera que as igrejas continuam tendo influência, ainda que decrescente em relação ao passado. Menciona-se que a expansão das igrejas evangélicas está minando o poder das católicas. “Acho que a Igreja Católica ainda continua sendo a hegemônica. [...] Os setores mais conservadores se fortaleceram, [...] os que mais avançaram são alguns grupos pentecostais, evangélicos que hoje têm grande influência, porque controlam os meios de comunicação, [...] têm um discurso que atrai as pessoas como solução para seus problemas e que é extremamente alienante do ponto de vista da consciência democrática [...]. As pessoas não precisam participar para construir a democracia, têm que ir lá rezar e Deus sabe o que faz. Além disso, essas igrejas estão se transformando em um poder econômico extraordinário” (líder da sociedade civil). Em alguns casos mencionam-se autoridades da Igreja Católica que em épocas de campanha eleitoral manifestam opiniões políticas em suas homilias. “Eles são os que na campanha eleitoral, lá do púlpito, vão influenciar ou insinuar em quem votar” (política). “Isso traz como conseqüência que a Igreja Católica exerça não só uma função estritamente pastoral, mas que adicionalmente exerça uma influência real no processo de tomada de decisões políticas” (funcionário de alto escalão). O sindicalismo O sindicalismo é reconhecido por aproximadamente um terço dos consultados como fator de poder, particularmente por sua capacidade de veto através de pressões e mobilizações, bem como por sua influência na construção da agenda pública relativa a temas trabalhistas. Mencionam-se, em especial, os sindicatos do setor público, ressaltando sua vinculação com o poder político, ao mesmo tempo em que se faz alusão aos do setor privado como fator de poder decrescente.

Antigamente... tinham seus contatos com o poder político.. A influência dos grupos ilegais foi favorecida pelas mudanças na economia e por um Estado frágil e permeável: “Esses grupos extralegais têm o poder que têm porque existe um Estado débil. o cunhado e em alguns casos. “Tentaram ter mais ingerência na Corte e na Assembléia […]. prostituição. que também minaram o grande poder que tiveram em épocas passadas. As Forças Armadas Aproximadamente um quinto dos consultados atribui às Forças Armadas uma importante influência.. destaca-se que. São grupos relacionados com todo tipo de atividades ilícitas: tráfico de drogas. No Congresso continua existindo gente paga pelo narcotráfico [que] chegou a corromper a cúpula dos partidos tradicionais [. em alguns casos. jogo clandestino etc. “Trata-se de um poder agressivo. através da corrupção das autoridades” (presidente). vão se apresentar pela primeira vez. Em apenas dois países –Equador e Venezuela – comenta-se que atuam como controle da democracia.“Quando alguém tem uma liderança forte e ganha as eleições arrasadoramente [. contam com forte reconhecimento Bases empíricas do Relatório A influência dos grupos ilegais foi favorecida pelas mudanças na economia e por um Estado frágil e permeável.. o narcotráfico tem influências. até o próprio líder do grupo mafioso [. tendem a considerar que perderam peso. Entretanto. esse poder é realmente uma ameaça à democracia” (empresário). agora têm seus próprios representantes.]. “Alguns setores do crime organizado são um poder em crescimento.Os poderes ilegais O peso dos poderes ilegais constitui uma especial preocupação em alguns países. os presidentes tentam manter a primazia sobre o Congresso e o Poder Judiciário. secretas. É interessante ver que os presidentes da América Central e do Caribe reforçam essa caracterização incluindo o Executivo na identificação dos grupos com maior poder. Independentemente de suas atribuições e restrições constitucionais. instituições desprestigiadas como o Congresso [. Nas listas de candidatos a senadores e deputados podemos reconhecer. todo o comércio de fronteira e esse tipo de atividades que são as que dão maior lucro atualmente em nosso país” (prefeito).]. São os grupos de maior influência e de maior capacidade de manobra em operações à margem da lei relacionadas com a falsificação. isto é. Por outro. Este é um regime presidencialista e se faz o que o presidente diz […]. Apesar disso. Aproximadamente um terço dos consultados considera que o Executivo é um poder forte na América Latina. o Congresso não controla o presidente em nada” (presidente). antidemocrático e terrível [. instituições inteiras” (funcionário de alto escalão). Ele tem um poder que está muito acima dos poderes muito fortes que a Constituição lhe dá” (presidente). em forma direta. Então. representantes diretos desses grupos mafiosos. o genro. e continuam corrompidas [. 169 . o filho.]. que favorece a construção de acordos e possibilita a governabilidade. Em uma alta porcentagem. policiais. é considerado um poder positivo. juízes. fronteiras.]. Por um lado. contam com o braço policial e com outros recursos como o dinheiro abundante. o narcotráfico foi capaz de corrompê-las. obviamente obscuras. Em grandes centros urbanos muito vinculados com o tráfico de drogas. São as fontes de financiamento da insurgência e dos paramilitares” (sindicalista).. devido às conseqüências de disputas internas. esta avaliação assume diferentes matizes..]..]: compra tudo. Destaca-se a influência que esses grupos exercem sobre os poderes do Estado e sobre as empresas.. “[Em certas zonas] onde há uma produção importante de coca. “Na próxima eleição. Os poderes políticos formais O Poder Executivo Um forte presidencialismo caracteriza a maioria dos regimes democráticos na América Latina. contrabando. está condicionado e subordinado a fatores extraterritoriais e fáticos. apesar de sua capacidade de iniciativa... por exemplo. devido a que se encontram em um processo de institucionalização e..

mas não o consideram irrefutável. em geral. “O presidente é uma pessoa cuja capacidade está. mediante a incorporação de pessoal militar em serviço ativo. Talvez porque estávamos começando. Avaliação da figura do presidente no mapa de poder de cada região Como já vimos. Nessa abordagem. detecta-se uma disparidade entre o poder formal do 170 A democracia na América Latina presidente e sua efetiva capacidade de exercê-lo. eles nos impõem as regras […]. as pessoas me conhecem. a pressão exercida por poderes extraterritoriais. em sua missão. identificando nele certas fissuras. é mais um poder de perturbação do que de decisão”. em sua maneira de entender as coisas”. sem falsa modéstia. Em alguns países aparecem críticas ao desempenho presidencial: detectam-se práticas personalistas que confundem a identidade dos partidos com a figura presidencial.público. da decisão de um organismo internacional. gera maior legitimidade no exercício do papel presidencial e um conseqüente fortalecimento da democracia. bastante limitada. Entre os mandatários do Cone Sul. “é um poder exercido de maneira negativa. Outros mandatários reconhecem o poder presidencial. Outros mandatários observam que o regime eleitoral distorce sua base de apoio político. há ampla coincidência em que um presidencialismo forte caracteriza os regimes democráticos na América Latina. por outro lado. em seu comportamento.” O desafio principal se centra na capacidade presidencial de dirigir ou não o processo político: “O problema é quando não se tem a capacidade de propor uma direção”. esse poder militar vai para as ruas” (jornalista). é uma característica da experiência de governo dos mandatários. As pressões sobre a autonomia das decisões presidenciais são avaliadas negativamente em todos os casos. Nesse contexto. E o contexto do exercício do poder também impõe condicionamentos. “Eu governei em um marco institucional que me permitiu legislar. e estão relacionadas com o movimento indígena. “Quando há alguma ameaça. devido a reformas constitucionais. ‘te ajudo ou não te aju- . Segundo eles. Os governos soberanos estão dependendo da avaliação de uma agência particular de risco. Pressões dos poderes fáticos sobre a autoridade presidencial Os mandatários consultados analisam o exercício da presidência diante da pressão de diversos poderes fáticos. porque a base de sustentação do governo democrático tinha muita força. as Forças Armadas aparecem politizadas. Os mandatários da América Central e do Caribe reforçam esta caracterização incluindo o Executivo na identificação dos grupos com maior poder.” Outro mandatário de um país do Mercosul agrega que o maior número de controles a partir de mecanismos de democracia direta e da criação de novas instituições. Segundo vários mandatários consultados. Segundo um deles: “A presidência ainda tem um poder muito forte [que se manifesta em] as atitudes do presidente. “Ao exercer a presidência não me senti muito pressionado.” Mas. aparecem referências e reflexões de caráter pessoal no tocante à capacidade de impor decisões. “os mandatários”) da América Latina têm uma importância particular: suas reflexões estão intimamente ligadas ao exercício concreto do poder político em sua máxima expressão institucional. construíram bases de apoio vinculadas às organizações sociais e à política social. talvez porque. centrados fundamentalmente no governo dos Estados Unidos e nos organismos multilaterais de crédito. e sabiam que não iam poder me pressionar. a imagem do presidente como “caudilho” ou “monarca criollo” dista em grande medida da realidade. Aponta-se como indicador relevante a militarização da administração pública. A visão dos presidentes e vice-presidentes Os testemunhos dos que foram ou são presidentes e vice-presidentes (de agora em diante. esse debilitamento lhes parece preocupante. “Estamos totalmente condicionados.

às vezes em uma superdimensão injusta. [. mais profissionalizados cumpriram no que se refere a tarefas de denúncia e controle. têm mais poder do que o poder militar.. mas muito significativa. “Os meios são de uma influência enorme. Os meios hoje têm um poder que pode derrubar um ministro.” “Tu tens então um presidente da República. seguindo as diretivas de seu organismo.]. com suas exigências de seguir modelos e programas determinados com condições politicamente inviáveis. que como vimos é um elemento próprio da democracia.] O grande capital é um fator de poder muito mais real hoje. [… ] Não creio que esteja claro para a sociedade o que isso implica. somos ou não capazes de fazer com que o controle responsável das políticas econômicas funcione com eficácia e visão de futuro.” Os elementos resultantes do que já foi exposto aparecem conjugados por um líder que resume as percepções de muitos mandatários da América Latina: “Os meios de comunicação passaram a ser suprapoderes [. É um fator de poder que pode ser bem ou mal exercido. que te impõem [. “O meio de comunicação informa. e que está influenciado por interesses econômicos. do que o Executivo. marca uma diretriz e depois esse senhor cumpre sua missão e vai embora. e por sua vez não está submetido a nenhum controle. vem um burocrata internacional e. porque veio se apoderando dos instrumentos midiáticos.]. basicamente pela opinião e avaliação realizadas pelos meios. do que a próBases empíricas do Relatório “Este quadro nos coloca perante um enorme desafio: se nós. contra a democracia. A crítica dos mandatários centrase na falta de responsabilidade com que os meios de comunicação difundem informação. com aval de seu posicionamento no mapa de poder de cada país. […] Então. pode se transformar em uma ameaça ao desempenho dos mandatários. enfim. “Não podemos descartar nessa paisagem o papel que os meios de comunicação mais desenvolvidos.. sem estar submetidos a nenhum controle. evidentemente. que pode influir em uma política e que está definindo a agenda.” Apesar de valorizarem o papel dos meios de comunicação como controle do poder. os mandatários avaliam com certa apreensão o crescente papel que os meios assumiram como expressão de interesses de grupos econômicos. não direi brutal. “Os meios de comunicação estão atravessando um processo de evolução em que temos uma confusão de poder como nunca jamais eles tiveram em sua história. posto que os organismos internacionais de crédito estabelecem condições que atentam contra o próprio crescimento e.Não interessa a tendência do governo. Perdemos capacidade de decisão nacional. […] mas. na medida em que a opinião pública tende a orientar-se a respeito das ações governamentais.” 171 . com uma pressão bilateral brutal e com uma influência da cooperação internacional. é por isso que o governante se sente hostilizado pela imprensa […]. não são os responsáveis pelo resultado político que essas obrigações acarretam. que é o poder total e a responsabilidade zero […]. opina.do’. paixões.. Se a imprensa se move contra uma lei.” O papel dos meios de comunicação Os mandatários identificam a intervenção onipresente dos meios de comunicação como um contrapeso a seu poder. vinculados aos setores econômicos..” “Os governos têm mais limitações para exercer o poder.” A falta de controles estatais sobre a imprensa. Ou seja. há também maior interferência no livre decorrer da vida democrática. talvez os mais fortes e consistentes. quando direitos humanos fundamentais são lesados.“A imprensa tem uma influência decisiva sobre o Congresso […]. Estive conversando com mandatários da região e todos nós sentimos o mesmo problema. é muito difícil que ela saia. os governantes da região.” Reconhece-se também uma enorme capacidade dos meios para incidir no destino de um governo: “A incidência midiática pode tornar inútil uma sólida formulação institucional se tiver ataques ou rivais desse setor” . […] Caem na estratégia do sensacionalismo fácil e dificultam a governabilidade e a consistência de gestão. então isso lhes permite não só ter poder mas também exercê-lo.” “Os organismos bilaterais.. sentimentos e idéias. sempre vai se sentir hostilizado. julga e condena […].” A pressão exercida pelos meios de comunicação se reflete também no grande peso que eles têm na construção da agenda pública..

Isso tem que ser superado com o avanço de uma tarefa comum que será difícil levar adiante”. Outro mandatário se manifesta com mais firmeza sobre este tema: “Nós nos encontramos com um fenômeno que é de toda a América. “A importância da sociedade civil está aumentando. esse poder pode se tornar uma inquietante perversão”. mas em geral existe uma certa posição antipolítica e isso não é bom. que são basicamente saúde. agrupável em três grandes blocos. educação. através do exercício do poder. Junto a elas se entrelaçam os questionamentos sobre os alcances da democracia em sentido institucional e/ou seu fortalecimento a partir de seu conteúdo de eqüidade social. Valoração das organizações sociais na vida política do país No momento de avaliar o papel dessas organizações sociais. que é perigoso se não o soubermos organizar. cultura e esporte. O conjunto de organizações sociais é um espectro amplo e diverso. não claramente definido. é ir ao conceito de liberdade sobre a base da solução da necessidade […].” Na visão desses mandatários. esse poder está incluído no âmbito da globalização. É preciso incluílas e a inclusão não é só um problema de canais para que as pessoas falem ou protestem. obrigatórios para a sociedade”. atos. que realizam assembléias e escutam as pessoas. […] Os partidos estão enfrentando a concorrência de ONGs e de organizações intermediárias que não têm a legitimidade que os partidos têm. é ampliar a cobertura. mas não se colocam questões. inclusive os partidos políti- .pria Igreja e do que os partidos políticos. foi mencionado por dois terços dos consultados. do mesmo modo que na política existe uma certa tensão com as ONGs. um grupo de respostas. dentro do possível. A tensão é manifestada por um mandatário ao mencionar que: “ Foram criadas muitas ONGs que são úteis e geram participação.” Para outro mandatário. vários mandatários vêem os partidos em uma relação de competição e até oposição com diversas organizações da sociedade civil. é o investimento social. Falam em nome do povo. que é o das ONGs e da mal denominada sociedade civil. “Veio 172 A democracia na América Latina uma onda das grandes potências e houve uma onda de exigências do poder mundial. Esta pergunta deu lugar a uma dispersão relativamente importante de respostas. não basta dizer às pessoas que se organizem. Isso inclina alguns mandatários a considerá-las preocupantes fatores de poder. era preciso minimizar os governos. pode aprovar normas. Ninguém sabe ainda quem são e o que representam. mas fazem isso contra reformas que são para o bem do povo. e essa é uma das preocupações. temos que fortalecer essa legitimidade porque os partidos são a única organização que. “Para recuperar a base democrática.” O fortalecimento da democracia Após termos apresentado algumas opiniões dos mandatários.” O papel das ONGs também é questionado quanto à representação dos interesses populares que pretendem assumir. as controvérsias entre partidos políticos e organizações da sociedade civil se refletem nas concepções sobre democracia representativa e participativa. “As ONGs são privilegiadas. Então. Nós lhes perguntamos quais os passos a seguir para fortalecer a democracia nos próximos anos. voltamos agora ao conjunto dos consultados. ao mesmo tempo. mas. se existe um controle. regras. Instalaram-se no centro da sociedade. o que é bom para o controle dos outros poderes. era preciso delimitar o Estado e era preciso fortalecer as ONGs. Participação significa que as pessoas se sintam parte do Estado. segundo os consultados. No entanto. que participem. a qualidade da educação […].” “O grande segredo para que haja participação é aproximar-se o máximo possível dos problemas das pessoas. Substituíram totalmente os partidos políticos. que incrementam. uma democracia representativa […]. O primeiro bloco reúne a necessidade de realizar uma reforma política para fortalecer as instituições.

em particular a educação para a democracia. é que um melhor projeto dos dispositivos e incentivos institucionais poderia melhorar. Essa ênfase diminui entre os que detectam várias limitações e diminui ainda mais entre os que vêem muitas limitações a suas democracias (ou. poderia melhorar ou reverter essa situação. Este primeiro grupo de respostas é o mais freqüentemente mencionado pelos consultados e sugere que. mas também sua qualidade) e a cultura democrática em particular. outros de reforma do Estado ou de fortalecimento geral das instituições. como a alimentação) quanto em aspectos culturais (marginalização de setores camponeses e urbanos. diferem segundo sua visão acerca do estado atual de seus respectivos países. PROBLEMAS A ENFRENTAR PARA FORTALECER A DEMOCRACIA Reforma política Aumentar participação Institucionais. A idéia comum. Para isso é necessário desenvolver políticas sociais e econômicas que conduzam a uma melhoria generalizada dos níveis de vida. Bases empíricas do Relatório Para muitos dos líderes consultados. a apatia cidadã e a desconfiança em relação às instituições se revertem melhorando os canais de participação e ampliando seu número e seus alcances. 173 . Pelo menos parte dos problemas políticos enfrentados pelas sociedades latino-americanas deve-se ao pouco conhecimento das regras do jogo democrático ou. porém. Convém acrescentar que as opiniões dos consultados sobre os principais problemas a enfrentar. marginalização de indígenas). e muito. O terceiro bloco refere-se à necessidade de fortalecer a educação em geral (não só o acesso a ela. Se a corrupção é um dos problemas que mais afeta a democracia e a deslegitimiza perante a cidadania. Um último ponto em que coincidiram vários consultados foi a necessidade de intensificar a luta contra a corrupção. mas é preciso melhorá-los. Embora muitos consultados coincidam em que os partidos não estão desempenhando seu papel de maneira adequada. mas sim como parte do essencial. Rodada de consultas com líderes da América Latina. Os consultados acreditam que um esforço deliberado para desenvolver a educação. 2002. Os consultados que afirmam que seu país é uma democracia ou uma democracia com poucas limitações dão mais ênfase à necessidade de reformas institucionais e partidárias. Incorporar genuinamente toda a população à política democrática requer derrotar essas formas de exclusão. o funcionamento da democracia. outros de reforma do Congresso. a um conhecimento superficial dessas regras. Uma proporção importante dessas respostas indica que a reforma política deveria construir novos canais que facilitassem a participação da sociedade civil organizada. mais freqüentemente. que não leva a uma adesão suficientemente firme aos valores democráticos. O mesmo ocorre em relação aos partidos políticos. O segundo bloco de respostas inclui a necessidade de tomar medidas significativas (não “puramente institucionais”) que ajudem a enfrentar as profundas iniqüidades das sociedades latino-americanas. Isso é coerente com seu próprio diagnóstico. a apatia dos cidadãos e a desconfiança em relação às instituições se revertem melhorando os canais de participação e ampliando seu número e seus alcances. as instituições não são vistas como um reflexo secundário do essencial. As características dessa reforma variam de país para país: alguns falam de reforma eleitoral. para fortalecer a democracia. Para muitos dos líderes consultados. partidárias Combater desigualdade Políticas sociais Políticas econômicas Educar para a democracia Combater a corrupção Outros Todos % dos consultados 45 13 32 18 8 10 11 9 17 100 Nota: Os valores são a proporção dos consultados que fazem menção no primeiro lugar a este problema Fonte: PRODDAL. O interesse dessa resposta reside em que a constatação das dificuldades que os partidos enfrentam não leva à adoção de posturas de rejeição ou à busca de canais alternativos: os partidos vão mal.TABELA 55 cos. Elas conspiram contra o fortalecimento da democracia e são detectadas tanto em termos econômicos (pobreza extrema e falta de recursos mínimos. uma quantidade semelhante indica a necessidade de fortalecê-los. diferentemente do que ocorria há algumas décadas. a luta contra ela deve ser uma das metas fundamentais.

. Os consultados convergem amplamente em indicar os grupos empresariais (80 por cento) e os meios de comunicação (65 por cento) como os grupos com maior capacidade de modelar e impor a agenda. os consensos mais freqüentes aparecem no 174 A democracia na América Latina que diz respeito à necessidade de reativação econômica. com valores iguais aos das reformas de saúde e educação (21 por cento). a pobreza ascende ao segundo lugar (27 por cento) e diminuem as menções acerca da violência (21 por cento). partidárias Combater desigualdade Educar para a democracia Combater corrupção Outros Todos 45 3 42 22 12 10 11 100 Democracias com várias limitações 46 14 32 16 13 8 17 100 Democracia com muitas limitações. Em relação à agenda econômica. ocorre o contrário: são mais freqüentes onde não se vê democracia ou onde é considerada muito limitada. mantém a mesma ordem de prioridades que a do conjunto de consultados. as privatizações e as reformas financeiras – aparece como o mais mencionado (53 por cento). o desemprego e a violência (34 por cento) definem as prioridades. assim como as reformas setoriais em saúde e educação. simplesmente. Observa-se também uma quebra na homogeneidade das opiniões acerca dos grupos influentes e dos temas da agenda. embora as mulheres líderes mencionem com menos freqüência a corrupção (22 por cento). no entanto.TABELA 56 PROBLEMAS A ENFRENTAR PARA FORTALECER A DEMOCRACIA SEGUNDO OPINIÃO SOBRE O ESTADO DA DEMOCRACIA EM SEU PAÍS Democracia plena. e muito menos no extremo oposto. mas o restante das questões econômicas recebe poucas menções. a reforma fiscal atinge os mesmos níveis de importância que a reativação econômica (45 por cento). 2002. A construção da agenda pública na América Latina As opiniões dos consultados a respeito da agenda política atual apresentam significativas variações. Quanto à agenda social. ou não é democracia 45 19 26 20 7 10 18 100 Nota: Os valores são a proporção dos consultados que fazem menção no primeiro lugar a este problema Fonte: PRODDAL. Na agenda social. são mencionadas principalmente pelos acadêmicos. questões tais como a violência e a segurança cidadã. Por sua vez. o tema da reativação – incluindo o uso de recursos produtivos. O papel deficiente dos partidos políticos e sua reforma são referidos por 20 por cento dos consultados. No caso da agenda social. ou democracia com poucas limitações Reforma política Aumentar participação Institucionais. A corrupção é o tema mais mencionado (36 por cento). Se considerarmos a perspectiva das mulheres líderes. para eles o tema central da agenda é também a reativação econômica (57 por cento). A dívida externa e a integração regional são apontadas por 23 por cento dos líderes consultados. A agenda futura A agenda futura que se identifica com os interesses e as preocupações dos consultados não apresenta variações significativas em relação à agenda atual. enquanto o desemprego e a pobreza aparecem como problemas prioritários para os jornalistas. acham que não existe democracia). As prioridades de agenda dos líderes não políticos não se distanciam das do conjunto dos consultados. Rodada de consultas com líderes da América Latina. A agenda política. Com as opiniões favoráveis a uma maior participação.

o questionamento do papel dos partidos políticos e a descentralização concentram suas prioridades. Segurança jurídica Reforma constitucional Relação governo-sociedade. a reativação concentra 42 por cento das respostas e as problemáticas ligadas à integração regional. segurança cidadã Reforma da educação/Saúde Pobreza Agenda política A corrupção Reforma política/ Papel dos partidos/ Descentralização Reforma do Estado (abertura. No plano econômico.2002. Os acadêmicos coincidem majoritariamente com os percentuais gerais em relação aos temas da agenda futura. Quanto à agenda social. conciliação nacional 80 24 9 9 8 3 (53%) (16%) (6%) (6%) (5%) (2%) 52 51 40 37 (34%) (34%) (26%) (24%) 55 30 23 12 12 11 9 6 (36%) (20%) (15%) (8%) (8%) (7%) (6%) (4%) Fonte: PRODDAL. Por essas razões. mencionados por aproximadamente um terço dos líderes. só 17 por cento dos acadêmicos se expressa nesse sentido. petróleo. A agenda política se centra em um conjunto amplo de temas. O tema prioritário é a reforma política. coca. mas só é mencionada por 35 por cento dos consultados. a dispersão de respostas se mantém. enquanto 32 por cento dos consultados consideram que a reforma educativa e a saúde deveriam ingressar na agenda futura. Rodada de consultas com líderes da América Latina. Estado de direito. 24 por cento. O desemprego e a violência perdem importância relativa. Os temas que envolvem a defesa das liberdades e os direitos humanos são considerados como temas de agenda por 10 por cento dos consultados. a reforma política. Estes tendem a priorizar uma estratégia vinculada à estabilidade do regime democrático e suas instituições. Bases empíricas do Relatório 175 . que chegam a 48 por cento das menções contra 36 por cento que os consul- 80 A tabela referente à agenda atual foi elaborada sobre a base dos 152 entrevistados que efetivamente responderam às perguntas sobre o tema. mesmo quando se perfilam com mais prioridade as reformas setoriais de saúde e educação. privatizações. A questão/O tema da coca Reforma do sistema judiciário. reforma financeira) Questão fiscal Dívida externa Integração regional andina/Mercosul/ALCA Tratados de livre comércio Acordo com o FMI Agenda social Desemprego Violência. delinqüência. No entanto. Chama a atenção que a menção às reformas – tanto na agenda social como na política – não faz alusão ao conteúdo das mesmas. modernização) Solução do conflito político institucional/ Reconstrução institucional/ Fragilidade institucional Lavagem de dinheiro e narcotráfico. valores semelhantes aos da agenda atual.TABELA 57 AGENDA ATUAL SEGUNDO TEMA 80 Temas N° de atores que mencionam Agenda econômica A reativação econômica (debate sobre uso de recursos produtivos (gás. e os temas de pobreza e desigualdade.

A questão da coca Relação governo-sociedade. de maneira geral. outros.4%) 9 (5.2%) 156 tados em geral atribuem a esse ponto.2002. foi mencionado por dois terços dos consultados.0%) (9. modernização. a idéia é que um melhor projeto dos dispositivos e incentivos institucionais deveria me- 176 A democracia na América Latina . Mas. resumimos as opiniões dos consultados acerca dos passos futuros. levando em conta o número de menções. a centralidade da questão da reativação econômica na região se destaca tanto na agenda atual quanto na futura. A seguir.8%) 5 (3. Outros temas como a questão do desemprego e a violência.1%) (16.3%) 55 33 9 15 (35. que concentram 22 por cento das menções dos atores acadêmicos contra 15 por cento das menções gerais.3%) (2.6%) 45 44 26 13 (28. Rodada de consultas com líderes da América Latina.2%) 2 (1. reforma financeira) Questão fiscal Integração regional andina/ Mercosul/ ALCA Dívida externa Tratados de livre comércio Papel do FMI. petróleo.3%) (17.5%) (0. Estado de direito. aparece como a menos relevante para esses mandatários. O primeiro bloco se refere à necessidade de realizar uma reforma política que fortaleça as instituições.9%) (14. reforma administrativa) Reforma constitucional Reforma do sistema judiciário. coca.6%) 15 (9. segurança cidadã Agenda política Reforma política/ Papel dos partidos/ Descentralização Reforma do Estado (abertura. No caso dos presidentes e ex-presidentes.1%) (8. direitos humanos. agrupáveis em três blocos. 66 28 22 13 4 1 (42. Os desafios Quais deveriam ser os passos para fortalecer o desenvolvimento da democracia nos próximos anos? Um grupo de respostas. A agenda política. debate sobre o uso de recursos produtivos (gás. BID Agenda social Reforma da educação/Saúde Pobreza e Desigualdade Desemprego Violência. delinqüência. As características das reformas propostas variam de país para país: alguns falam do sistema eleitoral. paz) A corrupção Solução do conflito político institucional/ Reconstrução institucional/ Fragilidade institucional Lavagem de dinheiro e narcotráfico. conciliação nacional Total Nota: n=156 Fonte: PRODDAL. que concentram suas opiniões sobre os temas da agenda atual.TABELA 58 AGENDA FUTURA SEGUNDO TEMA Temas N° de atores mencionados Agenda econômica A reativação econômica. Um panorama similar é apresentado pela reforma judicial.2%) (21. inclusive os partidos políticos. privatizações. Banco Mundial. do Congresso e outros. sustenta-se de maneira frágil na agenda futura. Segurança jurídica Segurança democrática (defesa de liberdades democráticas.2%) (16.8%) (28. do Estado.6%) (8. isso implica certa repetição a respeito de suas posições sobre a situação atual.6%) 10 (6. pelo funcionamento do estado de direito e pela segurança jurídica.

reta e reformularam e/ou criaram mecanismos de controle. Para muitos dos líderes consultados. e por outro. O Poder Executivo não conta com partidos políticos sólidos que o sustentem. Reconhece também as reformas constitucionais que habilitaram mecanismos de democracia di- 177 . As dificuldades para atingir um nível aceitável de integração social são visíveis no divórcio entre o diagnóstico feito pelos consultados sobre o funcionamento e as debilidades da democracia. Para incorporar genuinamente toda a população à sociedade e à defesa da democracia é necessário enfrentar essas desigualdades. à ingerência de poderes fáticos. Essa visão reconhece a vigência das liberdades e a regularidade das eleições (em alguns casos. em particular do setor econômico-financeiro e dos meios de comunicação. A desigualdade educativa. a apatia cidadã e a desconfiança em relação às instituições se revertem melhorando os canais de participação e ampliando seu número e seus alcances. Novamente. por um lado. Entre nossos consultados existe a percepção de que os condicionamentos impostos por esses poderes conduzem à existência de governos com sérias limitações para responder às demandas da cidadania. como grandes conquistas dos processos democráticos em curso. as instituições não são vistas como um reflexo secundário do essencial. assim como a necessidade de enfrentar as profundas iniqüidades das sociedades latino-americanas. nem com uma oposição que contribua para fortalecer a institucionalidade democrática. O segundo bloco inclui a necessidade de fortalecer a educação em geral e a cultura democrática em particular. Entretanto. o Poder Executivo costuma encontrar limitações ao exercício de suas funções que se devem. é uma das caras mais visíveis e importantes do problema. é a necessidade de intensificar a luta contra a corrupção como uma prioridade para fortalecer a ordem democrática. Eles também enfatizam que os partidos não Bases empíricas do Relatório Alcances da democracia na América Latina. As restrições para formular uma agenda em longo prazo dão conta das dificuldades para pensar um “projeto de país” – e também de região – que possa prever respostas programáticas para os graves problemas existentes. destaca-se o grande peso de certos poderes fáticos. mais pontual do que os anteriores. No mapa do poder traçado por nossos consultados. poderia melhorar ou reverter essa situação. em particular a educação para a democracia. Um último aspecto de coincidência. O terceiro bloco ressalta a necessidade de construir novos canais que facilitem a participação da sociedade civil organizada. Como se exerce o poder nessas democracias? Como vimos. As limitações para formular uma agenda socialmente compartilhada também suscitam o risco de que essas democracias se tornem “irrelevantes”. observa-se uma forte tensão entre os alcances da democracia e os níveis de pobreza e exclusão social. em particular. Instituições políticas que perdem credibilidade e a persistência das situações de pobreza e exclusão social constituem um cenário complexo que torna as democracias vulneráveis diante da ingerência dos poderes fáticos. Os consultados acreditam que um esforço deliberado para desenvolver a educação. elevando o nível educativo da população. Um balanço Qual é a visão da democracia que prevalece? Todos os consultados valorizam altamente a sustentabilidade e expansão da democracia na América Latina. nos temas atualmente vigentes na agenda pública. Entre os consultados aparece como tema central a capacidade – ou incapacidade – das democracias para atingir níveis aceitáveis de integração social. principalmente. com alternância no poder entre situação e oposição). em termos mais gerais. mas sim como parte essencial da democracia.lhorar o funcionamento da democracia. na opinião de muitos de nossos consultados. O primeiro aspecto deveria ser encarado mediante um esforço de educação cívica e.

específico. Uma primeira constatação é que a América Latina deu passos muito importantes no caminho da democratização. Estão persuadidos de que é importante ter partidos fortes e governos com capacidade de decisão. entre outros aspectos. na agenda. também opinam que eles são necessários. são poucos os que apontam os benefícios dela decorrentes. que combina três elementos distintos: um desejo de maior participação e controle do poder político. apesar de verem esses problemas com clareza. uma rejeição bastante generalizada aos partidos como canais de participação. Muitos dos consultados afirmam a importância de fortalecer a participação social. é claro. subordinação militar é o caso mais notável. 8. Os líderes consultados. enfrentam um problema novo e. em certa medida. 3. 4. em geral pertencentes à sociedade civil. 7. algumas diferenças entre os países. Esta segunda constatação indica algo que antes nunca existiu na região e que está associado a uma idéia muito importante: apesar de os líderes latino-americanos opinarem majoritariamente que os aspectos institucionais não são suficientes para afirmar que existe democracia. Isso parece estar vinculado à falta de canais institucionais adequados a essa participação. O quase desaparecimento dos riscos de in178 A democracia na América Latina . com suas seqüelas de poder paralelo. A dimensão institucional não é vista como um epifenômeno do que realmente importa. A crise dos partidos não ocorre devido a uma perda do desejo dos cidadãos de participação. 5. quando esta se materializa. mas também é importante o enfraquecimento das práticas patrimonialistas e dos personalismos. mas sim dentro dela. ao menos formalmente. Dão ênfase também à influência de poderes extraterritoriais que. 6. Por outro lado. mas sim como parte constitutiva da democracia. A mais ostensiva dessas ameaças é o narcotráfico. toda a região é. a institucionalização dos processos de participação social é vista como débil ou incipiente. democrática. Outras ameaças que pesam sobre a democracia latino-americana são políticas. mencionados pelos consultados. violência. Esses resultados gerais não ocultam. 2. ao contrário. 1. corrupção e destruição da economia formal. Os partidos latino-americanos não enfrentam a versão regional de um problema mais geral (como a fuga em direção ao privado que ocorre em outras regiões). Embora as ameaças tradicionais tenham se desvanecido ou atenuado. As mais importantes estão interrelacionadas: a reduzida autonomia de decisão dos poderes institucionais e o debilitamento dos partidos políticos.conseguem formular projetos coletivos que possam convertê-los em expressão autêntica da cidadania. e se perguntam sobre os caminhos que permitirão atingir ambas as metas. ela se dá em um contexto de aumento desse desejo. não estão buscando soluções fora da política. O aumento da participação e dos controles institucionais é reconhecido como um passo decisivo nesse sentido. Uma delas é a que separa as opiniões das li- Síntese da rodada de consultas O resumo que apresentamos permite enunciar algumas conclusões sobre as opiniões predominantes entre os líderes latinoamericanos. no entanto. em relação ao desenvolvimento da democracia na região. e um deslocamento da participação e do exercício de controles para outros tipos de organizações. Algumas das ameaças tradicionais às democracias latino-americanas desapareceram ou enfraqueceram significativamente. Para os líderes consultados. se expressa na importância relativamente baixa que se atribui. apareceram outras que continuam colocando em questão a continuidade e a expansão da democracia. à integração entre países da região.

Isso pressupõe buscar novas maneiras de canalizar a participação. esse é um problema universal. o controle. esses lamentáveis problemas foram esgrimidos como razão para justificar a busca de caminhos alternativos para a democracia. segundo nossos consultados. 9. Do que foi dito pode-se concluir que. 10. O segundo desafio da democracia latino-americana é encontrar soluções para a desigualdade. Em parte. das opiniões dos consultados em outras democracias jovens. o primeiro desafio da democracia latino-americana é encontrar soluções políticas para seus problemas políticos. Bases empíricas do Relatório 179 . mas adquire matizes específicos na América Latina. para a pobreza e para a atual impossibilidade de acesso de grande parte da população aos níveis de bem-estar necessários para o pleno exercício dos direitos. no âmbito de uma situação caracterizada por uma crescente “globa- lização das influências” e por uma transnacionalização dos problemas”. Hoje são tomados como os grandes desafios que a própria democracia deve resolver. a gestão de agendas e a construção de acordos políticos.deranças dos maiores países da região (Brasil e México). Tanto no Brasil como no México se encontra mais otimismo sobre o progresso das condições necessárias para a democracia e mais satisfação com as conquistas já obtidas. No passado.

180 A democracia na América Latina .

por meio dos seguintes temas: ■ A necessidade de uma nova “estatalidad”: qual é o papel do Estado no fortaleci- mento da democracia? ■ A economia do ponto de vista da democracia: quais são as políticas econômicas que favorecem o desenvolvimento da democracia? ■ As democracias latino-americanas no contexto da globalização atual: que espaços de autonomia requerem para sua expansão? Rumo a uma democracia de cidadania 181 . por exemplo.terceira seção Rumo a uma democracia de cidadania Durante quase duas décadas. auscultar as realidades sociais emergentes e explorar novos caminhos. é essencial revisar as políticas e as ações implementadas até o presente. aprender das experiências históricas recentes. O Relatório chega à conclusão de que o desenvolvimento da democracia está intimamente vinculado à busca de maior igualdade social. à luz da análise realizada. embora tenham sido abordados aspectos substantivos dessas questões. as reformas do Estado. Desse modo. a crise da política. mas particularmente nos anos noventa. Isso possibilitará abrir o horizonte para fórmulas que permitam recriar o debate sobre a política e seu lugar na América Latina. a agenda latino-americana incluiu o fortalecimento democrático. devem ser colocados novamente no centro da discussão. à luta eficaz contra a pobreza e à expansão dos direitos dos cidadãos. as reformas estruturais da economia e o impacto da globalização na região. o debate deixou de lado outros que. No entanto.

182 A democracia na América Latina .

muitas vezes. a sociedade civil. isto é. E por trás de todo direito truncado há um Estado que não chega a torná-lo efetivo. Trata-se de temas que constituem preocupações comuns à região latino-americana. justiça e progresso para seus cidadãos e.■ Quatro temas para uma agenda de debate nuam fora do alcance da deliberação pública e da vontade cidadã. os limites e as denegações que desvirtuam a experiência da democracia”. para os fins deste Relatório. capacidade de agir de modo efetivo diante dos problemas para expandir a cidadania. fundamentalmente. se grandes esferas da vida social relacionadas com os mais básicos direitos cidadãos conti- Para enfrentar os déficits de nossas democracias. Mas. Para construir esse poder. Entretanto. surgem com força os grandes temas que compõem a agenda do desenvolvimento da democracia. Na distância existente entre essa promessa e a realidade descrita na segunda seção. o que restaria da liberdade exercida ao eleger democraticamente os governos. Dessa forma. com o poder que flui por meio delas e com a conseqüente capacidade – ou incapacidade – do Estado para atingir suas metas. mesmo contando com governos e Estados eficientes e eficazes. é outro dos instrumentos substanciais para a expansão da cidadania e. constante criadora de novas organizações de voluntários que aumentam a participação. Toda democracia encerra a promessa de liberdade. a apresentação dos temas que precisam ser debatidos. como afirma Rosanvallon. os problemas do desenvolvimento da democracia vistos nas seções anteriores aparecem em um amálgama em que os limites do Estado se conjugam com as Rumo a uma democracia de cidadania Nesta seção. portanto. “é preciso considerar o não cumprido. as carências de cidadania não foram resolvidas. No entanto. Essa inoperância do Estado está relacionada com a qualidade de suas instituições e. abordamos as considerações necessárias para elaborar uma agenda ampliada para o desenvolvimento da democracia. receitas. que os empreenda com a firmeza da determinação dos líderes e dos cidadãos e os sustente com a idoneidade dos instrumentos para a ação coletiva. O significado e o alcance dessas contribuições são o resultado de três caminhos convergentes: uma certa concepção da democracia. da democracia. as tensões. Em face dessa realidade. isto é. Não é. é preciso poder democrático. Por trás de todo direito há um Estado que o garante. uma enumeração de ações ou políticas públicas. As propostas de ação dos partidos políticos têm. Mas é preciso que a política seja relevante. dentre os quais os partidos políticos são atores centrais. Alguns foram implementados com certo êxito e obtiveram resultados significativos. após uma década de reformas. o principal instrumento para sua execução. é preciso poder democrático. Na seção anterior tratamos do estado da cidadania na região. o reconhecimento da singularidade latino-americana e o conjunto de dados resultantes de nossa pesquisa empírica. 183 . nas instituições representativas e de governo do Estado. que proponha caminhos para abordar os temas-chave da sociedade. conseqüentemente. foram propostos. Entendemos por agenda. mas não únicos. não é possível exercer o mandato eleitoral porque outros poderes internos ou externos não permitem? Para enfrentar os déficits de nossas democracias. capacidade de agir de modo efetivo diante dos problemas para expandir a cidadania. Ao mesmo tempo. as fraturas. se os governos não podem executar as políticas decididas democraticamente? Ou se. É preciso encontrar outros critérios de ação que permitam avançar no caminho das soluções que nossas sociedades esperam. a política é indispensável. O poder democrático também se constrói a partir da “e statalidad”. princípios técnicos e programas ambiciosos de reforma. as políticas que possam deles derivar devem expressar o que há de original e singular em cada situação nacional.

proporciona os dirigentes para executar esses projetos. No entanto. com a impotência da política para encarnar as aspirações da cidadania em poder democrático. como passar de uma economia concebida segundo os dogmatismos do pensamento único para outra com diversidade de opções. e cujo principal objetivo seja garantir e promover os direitos – um Estado de e para uma Nação de cidadãos –. Em síntese. Propomos que essa agenda inclua: como passar de uma democracia cujo sujeito é o eleitor para outra cujo sujeito é o cidadão que tem direitos e deveres ampliados. Trata-se de abordar a discussão das condições que permitam a nossas democracias encarar a solução dos problemas que registramos. o que debilita perigosamente a função dos partidos como principais construtores da política para a democracia. a agenda que estamos tratando está relacionada com os complexos caminhos que habilitam e obstruem a expansão da cidadania e a reconstrução da sociedade política no marco das democracias latino-americanas. a política de sociedade. nem existem. procuram desencadear um debate. conseqüentemente. com a evidência de uma globalização que limita o espaço próprio da democracia ao escamotear do campo da escolha dos cidadãos. a economia e a globalização). Para isso. de 184 A democracia na América Latina preencher a sociedade com política e. de encher a sociedade de política e. agrupa a enorme quantidade de vocações cidadãs em denominadores comuns que permitem escolher entre um número razoável de alternativas eleitorais. a política encarna as opções. em certas ocasiões. são o início e não o final desse processo. O debate sobre a política deve estar centrado em como superar essa situação. e finalmente constrói o poder público necessário para executar os projetos que apresenta à sociedade. civil e social. por meio da expansão dos instrumentos que a própria democracia oferece. centrou-se a maior parte do debate público sobre a política. com as tensões de sociedades fraturadas. condição indispensável para que a vontade da maioria se traduza em políticas que transformem a realidade. esse debate ocupou o lugar da discussão sobre outras questões que parecem mais decisivas do que as debilidades institucionais: a crise de conteúdo da política e a dificuldade para construir poder democrático. Sobre essa carência. Em suma. conseqüentemente. todas elas atravessadas pela questão do poder. os temas centrais que dizem respeito ao futuro da sociedade. Mesmo na hipótese de contarmos com excelentes instrumentos institucionais. mesmo sendo central. Em outros termos. traficam influências e permeiam as mais altas instâncias de decisão. A política. o Estado. há crise da política e crise de representação porque essas três condições são cumpridas apenas parcialmente e. enfim. partidos políticos e práticas transparentes e responsáveis. Na América Latina. é preciso que existam instituições eficazes. agrupa as vocaçõ es e cria poder. os problemas evidenciados. notória e difundida. como também um perigo para a democracia. como passar de um Estado de legalidade truncada para um Estado com alcance universal em todo o território. a política com sociedade. Essas condições estão longe de ser cumpridas em muitos países da região. Os critérios aqui apresentados constituem um ponto de partida. exigências do crescimento econômico e seus resultados freqüentemente geradores de desigualdades. com a existência de poderes fáticos que evadem a legalidade. que constituem os desafios para o desenvolvimento da democracia na América Latina. Uma política que não as cumpra põe em perigo a sustentabilidade democrática.Trata-se. no campo político. Trata-se. primeira condição A política cumpre uma função vital no processo democrático: concebe as políticas públicas para atacar os problemas que considera centrais e as concretiza em projetos que são parte essencial das opções básicas da sociedade. e como construir um espaço de autonomia na globalização. enfim. Estas são três condições indispensáveis para o desenvolvimento da democracia. da qual se deriva não só uma crise de representação. se a capacidade da política para construir opções . manifestam-se nessas quatro esferas centrais (a política.

e não fica claro se representaram um instrumento eficaz para o desenvolvimento da democracia. Os mecanismos de democracia direta. pobreza. corrupção. ainda. não tem representatividade. esse controle ainda não tenha relevância prática. Na análise realizada na segunda seção do Relatório. Rumo a uma democracia de cidadania 185 . Nesse sentido. A liberdade de imprensa melhorou notoriamente e apesar de os primeiros passos no sentido de assegurar o direito de acesso à informação em poder do Estado estarem sendo dados. Pouco a pouco. não possuem poder para exercer suas funções. Embora a área judiciária do Estado goze ■ de independência formal. por meio da melhora nos procedimentos de cadastramento eleitoral. as desigualdades sociais não diminuíram. chama muita atenção o fato de que os diversos instrumentos de estudo empírico tenham levado a coincidir em um conjunto similar de déficit em nossas democracias. às vezes não têm a independência necessária e em outras. em muitos países. ■ Apesar dos avanços fundamentais em matéria de direitos humanos. Esses déficits devem estar no centro dos esforços para a renovação dos conteúdos da política. ■ Os déficits da cidadania sociais relacionados com a “ estatalidad” e a economia são os mais notórios: subsistem altos níveis de desigualdade e pobreza e.substantivas e poder não for recuperada. A normativa que permite a discriminação positiva de gênero para ter acesso a cargos representativos melhorou. em vários países subsistem severas limitações para seu pleno desempenho cotidiano. no estudo de opinião. cuja violação sistemática caracterizou a região nos períodos autoritários e de guerra civil. da incapacidade do Estado de controlar a violência e o uso da força pública. tais como as controladorias de contas. Embora em alguns países a participação eleitoral ainda seja baixa. Como se sabe. mas. ou os organismos de promoção ou defesa de direitos cidadãos. O Parlamento. em alguns casos. continuam registrando-se abusos no que se refere aos direitos à vida e à integridade física. e da incorporação de facilidades para o acesso aos lugares de votação. embora. delinqüência e drogas. como as promotorias especiais ou as defensorias do povo. Em muitos casos. não possui muito prestígio entre a massa cidadã e é considerado como uma instância pouco eficaz para representar e defender os interesses da maioria. estudam-se mecanismos para incrementar essa participação. as cúpulas partidárias continuam dominando o esquema de indicação de candidatos. Como em todo país. Isso nem sempre se traduz em eficácia na ação de governar. sempre há margens para a manipulação de certo número de eleitores. ■ Em toda a América Latina a fórmula política está centrada na figura do presidente constitucional e a instituição presidencial costuma ter poderes formais relativamente altos. e serviços e infra-estrutura insuficientes. Essas comprovações coincidem com a percepção da cidadania que. aprovam-se normas para controlar o efeito das doações privadas sobre a ação política. o que cria outra fonte de descontentamento da cidadania e de frustração para os políticos. tanto a democracia eleitoral quanto a democracia de cidadania tenderão a ser não sustentáveis e irrelevantes para os cidadãos. Em um número considerável de países persistem os níveis de necessidades básicas não satisfeitas. Uma política que não nutre a sociedade de opções e de poder. Os organismos especializados de controle da gestão pública. provenientes. as defensorias públicas do povo não podem ter poder próprio no campo judiciário ou administrativo. Praticamente não há casos de fraude flagrante e a intimidação de votantes diminuiu notoriamente. esse é um desafio no qual é preciso avançar. indicou como problemas principais: desemprego. aumentaram. desigualdade e renda insuficiente. contribuíram para a desestabilização política. pois invadiriam a área de competência de outros poderes estatais. por sua vez. ao contrário. em muitos casos. foram apontadas as seguintes questões: Os problemas de expressão da cidadania política são os menos marcantes. embora tenham ampliado o campo da participação política da cidadania. particularmente.

os líderes consultados mencionam como problemas da agenda: reativação econômica. às privações materiais atuais se une uma certa perda da noção de progresso. hoje observamos uma séria incapacidade da política para articular projetos coletivos. mas seu funcionamento gera insatisfação. suas instituições básicas e seus líderes enfrentam na América Latina. por outro. como também – talvez – à sua sustentabilidade. a política. Esses problemas debilitam a vocação transformadora da política. No entanto. especialmente a política democrática. quase exclusivamente. ao mesmo tempo em que conquistou o importante direito de gozar de eleições livres. 5. Resumimos alguns temas desse debate nos seguintes enunciados: 1. A política tende então a esvaziar-se. e tornam especialmente grave a situação na América Latina. está atravessando o processo de globalização. . 3. ■ A política. e colocar essa opções no eixo da discussão pública. o presidente deixe de lado os partidos políticos e o Parlamento na hora de governar. A crise da política manifesta-se na ruptura que existe entre os problemas para os quais a cidadania requer uma solução e a capacidade da política para enfrentá-los. sem ser capaz de construir o poder e os instrumentos para enfrentar os principais desafios de nossos países. Pode a política encarnar as aspirações cidadãs de redução da pobreza e da desigualdade. desemprego. restringe as opções nacionais. aos interesses e às aspirações da sociedade. perguntar-se qual deveria ser o lugar da política em uma América Latina que. por exemplo. por ineficiência e ineficácia de suas organizações burocráticas. saúde e educação. ■ Uma ordem internacional que limita a capacidade dos Estados para atuar com razoáveis graus de autonomia e que. violência e delinqüência. reivindicação social e busca coletiva de sentido. em face dos poderes fáticos e ilegais. Esta situação não é coerente com a democracia e com os direitos de cidadania dela decorrentes. não apenas no que se refere às suas possibi lidades de expansão. 2. principalmente os partidos e o Parlamento. limpas e periódicas. uma atividade pouco vinculada às identidades. A maior parte dos latino-americanos opina que não há democracia sem partidos e Parlamento. da própria possibilidade de projetos coletivos viáveis. Neste contexto. é o âmbito onde são concebidos os diferentes projetos e alternativas de uma sociedade. Muitos dos temas que antes eram próprios da política e dos Estados nacionais hoje são tratados e decididos em outras esferas. Por um lado. Aproximadamente 36% dos latino-americanos (Latinobarômetro 2002) concordam em aceitar que. as instituições democráticas básicas.Coincidentemente também. A política tende a perder conteúdo por três vias vinculadas entre si: Os Estados nacionais perdem soberania interior. se for necessário. A política. Na América Latina. gozam de um baixo conceito. os poderes fáticos e alguns meios de comunicação ocuparam boa parte desse lugar. Ela passou a ser. corrupção. como conseqüência dos déficits que limitam a capacidade estatal. que tende a reduzir o espaço da primeira e limitá-la a âmbitos de menor relevância. excluindo. importantes problemas econômicos do seu âmbito de decisão e deliberação. Aí reside boa parte dos problemas de confiança e legitimidade que a democracia. Dar um conteúdo à política significa não apenas tornar “visíveis” os déficits indicados: também é indispensável construir um leque de opções substantivas para solucioná-los de modo efetivo. A política é representação. apresenta graves problemas sociais e tem Estados deficitários para garantir e expandir a cidadania. especialmente a política democrática. A aparente impotência da política enfraquece seriamente a democracia. de expansão do emprego e da solidariedade? Pode a política ajudar a construir um horizonte de progresso para nossos países e nossos cidadãos? 186 A democracia na América Latina 4. A economia. ■ Há um desequilíbrio na relação entre política e mercado. É preciso então. e. é o âmbito onde são concebidos os diferentes projetos e alternativas de uma sociedade. portanto.

quando o Estado ignora as grandes questões da cidadania. no controle da gestão governamental. as associações. das crianças. Essas pessoas exercem também a cidadania política. Elas exercem a cidadania civil. Por isso. 81 Conseqüentemente. em todos os grandes grupos sobre os quais temos alguns dados. ou as Igrejas formais.81 8. Os meios de comunicação. não podem incluir organizações que tendem à ilegalidade para atingir seus objetivos. Parece que esse é o caso. a sociedade os recupera. inclusive. pp. eles encarnam em si mesmos toda a potencialidade do ser humano como agente. e propiciou também o surgimento de novas entidades dedicadas aos direitos da mulher. que alguns indivíduos possuem uma influência consideravelmente maior que outros… aqui temos um problema enorme… o número de indivíduos que exerce um controle importante sobre as alternativas programadas corresponde somente. Rumo a uma democracia de cidadania 187 . os meios de comunicação. nem atores com fins mais precisos. 97-98. texto elaborado para o PRODDAL. nas organizações mais democráticas. mas também para ampliar as possibilidades de proteção dos interesses de outros menos afortunados.6. de maneira crescente e nas formas mais diversas. Especialmente no âmbito dos direitos humanos. às vezes. para viabilizar a passagem à democracia de cidadania. Robert Dahl. Assim. Na América Latina há um crescimento impressionante das organizações independentes da sociedade civil. sejam elas “máfias” ou organizações políticas subversivas. a política deve recuperar seus conteúdos essenciais e também rever cuidadosamente sua tarefa incompleta. a transição democrática trouxe uma nova geração para os organismos nascidos para lutar contra a repressão ilegal das ditaduras. paralelamente à crise de representação e à deserção do Estado. aparecem ocupando o vazio de representação originado na crise da política e suas instituições. 2002. Eles são atores relevantes da democracia de cidadania. se o número de membros é considerável. não apenas para proteger seus próprios interesses. 7. respeitando a estrutura legal e civil existente. que é capaz de deliberar e levar adiante ações coletivas em defesa e promoção de seus interesses e opiniões. mas também quando ampliam as possibilidades de acesso e participação dos relegados pelo sistema político. mas sim inclui os organismos colaterais que entram na definição adotada. sua importância na democratização da América Latina deve ser claramente reconhecida. o controle sobre a comunicação encontra-se distribuído de uma maneira tão desigual. Seu papel é complementar ao dos atores políticos tradicionais da democracia. assumindo as deman- quadro 39 O poder dos meios de comunicação Evidentemente. organizações da sociedade que ocuparam o espaço das questões não resolvidas ou ignoradas. a uma fração muito reduzida do total dos membros. dos povos indígenas. Nos últimos anos. […] A sociedade entende a política em um sentido mais amplo e mais rico que o da concorrência eleitoral. na expressão de demandas e no fortalecimento do pluralismo que toda democracia promove e precisa. Juan Méndez. na maioria das organizações. O cidadão e as organizações da sociedade civil desempenham um papel essencial na construção democrática. quadro 40 Sociedade civil. Apesar das dificuldades e dos obstáculos inerentes à aceitação da sociedade civil como âmbito de participação e fortalecimento da democracia. porque abarcam tanto a dimensão pessoal quanto a dimensão social da cidadania. esse vazio subsistirá enquanto a política não assumir suas faculdades diante de temas relevantes e enquanto os partidos se mostrarem incapazes de articular projetos coletivos e de alcançar a condução do Estado. que são parte da sociedade. 1987. os partidos. Quando a política se esvazia de conteúdos. política e participação As pessoas que se organizam por meio de entidades independentes da sociedade civil superam a dicotomia entre autonomia pública e privada. que são organismos de informação e entretenimento. dos afrodescendentes e de diversos setores excluídos. surgiram. Trata-se de um sistema auto-organizado de grupos intermediários relativamente independentes do Estado e das empresas privadas. não apenas ao votar e decidir em função de seus interesses pessoais. como: os sindicatos.

controlar e propor. os particularismos ou os meros cálculos de interesses individuais ou corporativos. Mas ela adquire uma nova centralidade. os partidos e os atores sociais autônomos. Se a crise da política. se os âmbitos em que essa participação ocorre têm pouco peso nas grandes decisões nacionais. sem substituir as tradicionais (partidos políticos. sem que ela possa participar dessas discussões. mas há uma exigência de política por “sentido”. Desse modo. não são capazes de dar. isto é. à necessidade de agregação política gerada pela saudável e crescente expressão da diversidade. 2002. o regime. Atualmente. há necessidade de formas alternativas de representação que. Esses claustros cerrados de decisão econômica e os poderes fáticos legais e ilegais. texto elaborado para o PRODDAL. aos partidos. Supondo que sejam produzidas conseqüências institucionais positivas do capital social. Na América Latina. pois é seu papel abordar e articular as diversas esferas da vida social. partidos e democracia na América Latina Ao falar de uma transformação das relações entre Estado e sociedade estamos nos referindo a uma transformação da política. com mais intensidade isso acontece em relação aos atores principalmente políticos. a polis. A democracia abre caminho e convida à participação cidadã. às particularidades dos setores excluídos ou sub-representados. No novo cenário gerado pelas transformações sociais. que influi na qualidade e relevância das democracias novas. texto elaborado para o PRODDAL. Daí a necessidade de democratizar a cultura de elites e seus resultados vinculados à apropriação do espaço público por parte de interesses especiais organizados. as complementem e fortaleçam. uma nova matriz sociopolítica. que são julgados severamente pela opinião pública. 9. Parlamentos). a dinâmica de associação deve ser considerada como um ingrediente essencial da democracia. nacionais ou extraterritoriais. há menos espaço para políticas altamente ideologizadas. que as forças do mercado. os espaços conquistados pela sociedade civil foram fundamentais para abrir caminhos políticos que estavam fechados para a construção democrática. tanto em termos de sua difusão quanto de seu conteúdo e qualidade. tende a desaparecer a centralidade exclusiva da política como expressão da ação coletiva. autonomia e complementaridade entre o Estado. a conseqüência tende a ser a apatia e a desconfiança generalizadas. A opção é o fortalecimento. 10. isto é. das de uma sociedade que se organizou para reivindicar. amplia o espaço público por meio da participação. Manuel Antonio Garretón. estruturais e culturais das últimas décadas que decompõem a unidade da sociedade-polis. 188 A democracia na América Latina . O segundo problema refere-se a uma avaliação dos padrões associativos em si mesmos. respondendo a novas necessidades. sem destruir sua autonomia. Renato Boschi. e da organização cidadã. o universo mediático. e à imprescindível reapropriação cidadã dos espaços de construção de vontade democrática. mais abstrata. Costuma suceder. voluntaristas ou globalizantes. Nesse sentido. A grande tarefa do futuro é a reconstrução do espaço institucional. eleições. da expressão de identidades e demandas. que um mundo hobbesiano de segmentos totalmente desorganizados da população convive com um mundo muito menor inspirado em Tocqueville. em que a política volte a ter sentido como articulação entre atores sociais autônomos e fortes e um Estado que recupere seu papel de agente de desenvolvimento em um mundo que ameaça destruir as comunidades nacionais. em toda a América Latina. apresentam-se dois problemas: um. Esta questão está vinculada a certos âmbitos de poder onde se tomam decisões que afetam gravemente a sociedade. 2002. que tem a ver com a definição do espaço público mediante a silenciosa ação cotidiana dos que administram o acesso ao aparato estatal. no entanto. repercute na sociedade inteira. Dessa forma. contribuem para esvaziar a política. a sociedade civil quadro 42 Política.quadro 41 A dimensão associativa da democracia A qualidade da democracia está determinada tanto pelos que estão envolvidos em práticas associativas quanto pelos que estão excluídos delas.

Se esta condição não for cumprida. Na verdade. independentemente do tamanho e da forma de organização de suas burocracias. Norbert Lechner. entendida como a capacidade do Estado para cumprir suas funções e objetivos. deve estar situada a discussão sobre a “questão democrática” na América Latina. o vínculo entre cidadania e democracia comporta sempre a idéia de universalidade. a democracia deixa de ser uma forma de organização do poder. dois temas principais foram deixados de lado: o poder real do Estado para pôr em prática o mandato eleitoral e o poder para democratizar. simultaneamente). particularmente em regiões como a América Latina. A democracia de cidadania precisa de uma “ estatalidad” que assegure a universalidade dos direitos. A democracia como princípio de organização da sociedade A ordem social já não pode descansar sobre uma regulação exclusivamente estatal da convivência. Este é um debate urgente. Rumo a uma democracia de cidadania 189 . tamanho e gasto do Estado e modernização de suas burocracias. É imperioso recuperar essa capacidade para promover as democracias. Se estas condições não forem cumpridas. garantir eficazmente o funcionamento do sistema legal (direitos de propriedade e direitos de cidadania. Com Estados frágeis e mínimos. do meu ponto de vista. os Estados latino-americanos perderam capacidade como centro de tomada de decisões legítimas. essas questões foram ignoradas ou ocultas. ao contrário. em todo seu território. Enquanto a tendência atual aponta para uma “democracia eleitoral”. mas tampouco opera como um sistema auto-regulado. sua capacidade para chegar. estabelecer equilíbrios macroeconômicos. pode-se aspirar unicamente a conservar democracias eleitorais. 1996. de maneira universal. foi dada a questões como privatizações. orientadas para a resolução dos problemas que as sociedades reconhecem como relevantes. Esta última questão é condição necessária para que os direitos e as obrigações tenham vigência real para todos. cabe perguntar. O problema de fundo consiste em redefinir a coordenação social em uma sociedade em que o Estado e a política deixaram de ser as principais instâncias de coordenação. Em lugar de restringi-la a um princípio de legitimação. O poder escapa da democracia e ela perde substância. estabelecer sistemas de proteção social baseados no princípio de universalidade da cidadania. deveria ser explorado seu potencial como princípio de organização. administrar os conflitos de acordo com princípios democráticos. sobre o papel da democracia como um âmbito privilegiado de coordenação social. onde a grande concentração de rendas leva à concentração de poder. as instituições e os procedimentos democráticos sempre tiveram a função de mediação de interesses e opiniões plurais com o objetivo de decidir “aonde vamos”. Nesse contexto. capaz de garantir e promover universalmente a cidadania. capaz de resolver as relações de cooperação e conflito. Enquanto a ênfase. eficazes e eficientes.A necessidade de uma nova “estatalidad” É indispensável ampliar o debate sobre o Estado na América Latina. porque na América Latina existe uma crise de “ estatalidad” . Um Estado para a democracia busca igualar a aplicação de direitos e deveres. 82 Seja qual for a definição de cidadania que adotemos. o resultado será um déficit de “estatalidad” : sérias falhas na vigência do estado de direito afetarão diretamente a sustentabilidade e o desenvolvimento da democracia. e quadro 43 Recuperar um Estado para a cidadania é um desafio central do desenvolvimento da democracia na América Latina. regular os mercados. em todos os lugares. o qual – inexoravelmente – modifica as relações de poder.82 É necessário um Estado capaz de conduzir o rumo geral da sociedade. Não existe democracia sem Estado e não existe desenvolvimento da democracia sem um Esta- do para todos. a todas as classes sociais. Com o pretexto da aplicação de reformas institucionais que possibilitariam um melhor funcionamento dos mercados. durante os últimos vinte anos. Em muitos casos. Recuperar um Estado para a cidadania é um desafio central do desenvolvimento da democracia na América Latina. isto é.

deveriam ser contemplados em uma agenda abrangente sobre a expansão da “e statalidad” democrática: 1. O problema central do Estado na América Latina é o de um Estado inconcluso. Às vezes. que surge. os desafios democráticos. as pretensões de ser um Estado-para-a-Nação. para muitos de seus cidadãos. são democráticos. Existe um problema particularmente inquietante: a legalidade do Estado não alcança. e em alguns casos crescentes. como também de direitos básicos. As burocracias estatais freqüentemente não têm poder nem eficácia. Quando isso ocorre. elas exibem deficiências. O problema do Estado latino-americano não é apenas o tamanho de suas burocracias. Cada país da região tem suas peculiaridades. 4. débil. 6. o Estado se desvirtua e se transforma em uma série de agências desconexas com funcionários e políticos ocupados na busca de benefícios. Por outro lado. e. patrimonial e delituoso. como sistema legal e como âmbito de identidade coletiva. Essas deficiências estão na origem do reduzido poder dos governos latino-americanos para democratizar. a nível nacional. dedicado seriamente a resolver problemas de interesse geral. Estas três dimensões variam historicamente. e costuma envolver um tratamento discricionário de recursos públicos. A partir dessa proposição. em termos não apenas de bens materiais e de acesso a serviços públicos. efetivo e confiável. A solução desses lamentáveis problemas não exige – obviamente – apenas adequadas políticas econômicas e sociais. que pela via da participação vise a complementar a implementação de políticas públicas. 5. 3. e no truncamento da legalidade do Estado. o clientelismo – uma trama de relações por meio do qual um “patrão” consegue o apoio de outros em troca de certos benefícios – gera privilégios e exclusões. com pouca capacidade para ser efetivo de modo universal. em nossa opinião. A agenda de reformas democráticas deve considerar o Estado em suas três dimensões: como conjunto de entes burocráticos.assumir a preeminência da democracia como princípio de organização da sociedade. da racionalização de processos administrativos. de maneira efetiva. entre outros elementos. ou alcança de modo intermitente. áreas da região. Outra dimensão desse problema é a presença de vários tipos de “legalidade” real. mas em quase todos há uma ampla proporção da população que se encontra abaixo de um nível mínimo de desenvolvimento humano. 2. . não são dignas de crédito. mas sua ineficiência e ineficácia. parentesco. Requer também uma sociedade civil pujante. um problema que alguns Estados latino-americanos evidenciam é o alto grau de fragmentação e a freqüente falta de diferenciação entre o interesse público e o privado. sinecurismo. grandes. da pesquisa apresentada na segunda seção deste Relatório. Isso contrasta com a forte reivindicação cidadã de presença estatal. caciquismo e similares. mas também reclama um Estado abrangente e abarcador. além de razoavelmente eficaz. de caráter informal. para que seja capaz de enfrentar. a efetividade do sistema legal é social e territorialmente limitada. Esses circuitos de poder baseiam-se no desaparecimento da fronteira entre o privado e o público. A “e statalidad” é uma condição indispensável para que uma democracia aspire a desenvolver-se além do plano eleitoral. enunciamos os temas que. além da falta de efetividade de seu siste190 A democracia na América Latina ma legal e da pouca credibilidade do Estado e dos governos. Na maior parte da América Latina. em geral. Além da eliminação de burocracias desnecessárias e. Chama a atenção o fato de uma questão dessa natureza ser freqüentemente ignorada nos programas de reforma do Estado. Os atores desempenham-se sobre a base de instituições informais tais como o personalismo. essas “legalidades” originamse em regimes discricionários subnacionais que coexistem com regimes que.

Entre outras conseqüências do que vem sendo abordado é preciso mencionar a crítica redução da autonomia do Estado. que foram a expressão. está comprometida também pela violência associada aos delitos contra as pessoas e a propriedade. é preciso debater as questões que. o que gera uma legalidade truncada (desigualdade perante a lei. cobram seus próprios “impostos” e. própria credibilidade do Estado. conduziu a intervenções estatais desencorajadoras de um funcionamento eficiente do mercado e promotoras da busca de rendas e da especulação. da capacidade estatal de construir seu próprio poder. a efetividade de seu sistema legal e a quadro 44 Privatização perversa do Estado Um meticuloso diagnóstico do desenvolvimento da região pode evidenciar um crônico déficit democrático que. de maneira a exercer soberanamente o mandato popular. O Estado é uma das caras da democracia: um Estado sem poder é uma democracia sem poder. Nelas operam grupos terroristas. Esses grupos têm seus códigos legais. Enrique V. colocam em dúvida a eficiência e eficácia de suas burocracias. algumas vezes. ■ Incapacidade estatal para assumir a representação da diversidade no interior da sociedade. existe um conjunto muito restrito de políticas que podem ser definidas e implementadas à margem de poderes fáticos locais e internacionais. “paramilitares” e outros fenômenos similares. em casos extremos. São elas: ■ Ineficiência da ação do Estado e a redução de sua autonomia. amiguismo e. A proteção dos cidadãos. em que os cidadãos mais pobres são os que mais sofrem a violência. 8. marcado pela pobreza e pela desigualdade. ■ Perda de credibilidade que provém da falta de transparência e responsabilidade (prestação de contas) do Estado perante os cidadãos. Deveria entender o Estado como centro de tomada de decisões legítimas. chegam a ter quase o monopólio da coerção em “seu” território. Uma agenda de um Estado para a democracia deveria construir-se a partir da idéia de Nação para a qual pretende-se que o Estado atue. No entanto. 9. de nepotismo. ■ Falta de um real monopólio da força por parte de alguns Estados. Seu nível e persistência colocam em evidência a fragilidade de um Estado incapaz de cumprir suas funções de modo universal. ou interesses regionais e locais). ■ Incapacidade de alguns Estados para abranger o conjunto de seu território e todos os seus habitantes. não controlada pelo Estado. Uma função fundamental do Estado é proteger as pessoas da violência privada. na persistência do nível de violação dos direitos humanos. ■ Falta de efetividade do sistema legal como conseqüência da presença de sistemas legais patrimonialistas. mais abrangente. Rumo a uma democracia de cidadania 191 . de uma “captura” das instituições e políticas públicas por interesses particulares (de um partido político ou sindicato ou grupo econômico ou uma família. que se traduziu. Para isso. Essa espécie de “privatização perversa” do Estado. 11.7. na América Latina. 10. A democracia pressupõe a existência de um Estado que obteve o controle sobre a violência em seu território. organizações delituosas. de fato. traduziu-se em fenômenos de autoritarismo. Iglesias. eficazes e eficientes. por parte do Estado democrático. em termos de regime político. entre outros efeitos. que deriva de sua colonização por interesses particularistas (corrupção). Essa situação é ainda mais grave no ambiente social da região. é uma das principais fontes de violação de direitos fundamentais da população. presente na base dos fenômenos de corrupção. que influem decisivamente sobre o aparelho estatal. clientelismo. freqüentemente. vigência assimétrica dos direitos cidadãos). 2003. orientadas no sentido de enfrentar os problemas que as sociedades reconhecem como mais relevantes. Esse tipo de violência privada. ■ A questão política. texto elaborado para o PRODDAL. esse não é o caso em algumas regiões da América Latina.

referimo-nos ao triângulo: democracia eleitoral. No início deste Relatório. Quando descrevemos os resultados das indagações empíricas na segunda seção do Relatório.] É necessário contar com partidos políticos sólidos que ofereçam à cidadania opções alternativas de ordenamento econômico e social. em grande parte. em termos das restrições institucionais que a democracia significa para o crescimento econômico. pobreza e desigualdade. em particular. texto elaborado para o PRODDAL. 2003. a economia deve estar sujeita à política e. porque é na economia que reside a solução de boa parte dos déficits de cidadania social. a sustentabilidade do siste- quadro 45 A economia e a política Sem descartar a importância de instâncias técnicas em todo bom ordenamento do Estado e sem deixar de reconhecer o aspecto científico da análise econômica. 2002. o que deriva na perda de sua credibilidade perante a opinião pública.. portanto. com o pretexto de sua complexidade técnica.[. afirmamos que um aspecto singular e historicamente novo da América Latina é o de ser a primeira região inteiramente democrática composta por sociedades com níveis muito altos de pobreza e com a maior desigualdade social do mundo. José Antonio Ocampo. o debate sobre a economia e a diversidade de formas de organização do mercado deve estar presente na agenda pública e na opção cidadã. A sustentabilidade democrática depende. parece útil opormos à conhecida frase “as questões técnicas não se votam”. Tamanha é a dimensão dos problemas da cidadania social. a questão das condições materiais de vida dos latino-americanos aparecia claramente como o maior déficit da “democracia de cidadania”. um século em que a crise da democracia será dominante. À luz dessas realidades.. está cada vez mais ausente da discussão pública e das opções reais dos cidadãos no momento de votar.83 Na América Latina. a de que “o bem-estar de uma sociedade não se decide em um laboratório de técnicos”. O debate sobre a economia. influi diretamente na sua transparência e. da solução dessa questão. 83 Ver Fitoussi. onde os déficits de cidadania sociais atingem a dimensão que indicamos. Não obteremos respostas úteis para os questionamentos sobre sustentabilidade democrática latino-americana se forem ignorados os desafios peculiares que nascem da coexistência desses três fenômenos. porque essa é a forma em que a sociedade dirime suas controvérsias. Em certos países centrais. na visão de Jean-Paul Fitoussi. 192 A democracia na América Latina . freqüentemente.Uma economia para a democracia Os problemas da cidadania social atentam diretamente contra a perduração da democracia na América Latina. que várias vezes reiteramos uma pergunta dramática: A quanta pobreza resiste a liberdade? No entanto. para sintetizar a natureza dessas democracias e a necessidade de impulsionar um novo pensamento que refletisse essa realidade. a tal ponto que questões como o nível de desenvolvimento da democracia. por mais ilustrados que eles sejam. a processos políticos democráticos. Para isso. Esse não é um problema exclusivo de nossa região. a tendência crescente no sentido do desenvolvimento de instituições econômicas com níveis de autonomia quase total. Decisões econômicas substantivas distanciadas da vontade geral pressagiam. o debate sobre a democracia omite a questão econômica e é realizado. Dessa forma. essa questão assume uma importância e uma urgência ainda maiores. na sua responsabilidade (accountability) perante a sociedade.

a democracia torna-se irrelevante e não fiável para desenvolver a cidadania social. a distribuição tem conseqüências sobre a eficiência e a própria sobrevivência do sistema econômico. Pelo contrário. é no interior de coletividades bastante diferentes umas das outras que os indivíduos tratam de enriquecer. Fazer o Estado dar um passo atrás. que organiza relações de produção. quadro 46 Uma economia para a democracia A economia política clássica criou um mundo econômico que não existe. o comércio exterior. a agenda da sustentabilidade democrática deve incluir o debate sobre a diversidade possível de políticas e de organização do mercado. A economia é uma questão da democracia porque dela depende o desenvolvimento da cidadania social e porque é ela que gera e altera as relações de poder. 2002. reprodução e troca. que organiza relações de poder. como foi definida neste Relatório. A economia é uma questão-chave para a democracia. fixar os padrões de moeda e crédito. Esta afirmação não implica confundir duas formas de organização social claramente diferenciadas: a democracia. garantir os contratos. 2000. porém. Rodrik. as cargas tributárias. as relações trabalhistas. ■ A democracia oferece a garantia mais efetiva de boa governabilidade. etc. os serviços de infra-estrutura. e tanto a natureza quanto o sucesso desses esforços variam de acordo com a natureza da coletividade em que aparecem [. ■ Quando esse papel estatal não é assumido. o resultado da organização econômica é uma questão decisiva para a democracia. que significava que seu papel não passava de manter a estabilidade econômica e de prover alguns bens públicos. e no qual os conflitos entre forças puramente individuais solucionam-se de acordo com leis econômicas imutáveis. Uma concepção dos mercados como um conjunto de instituições “existentes na natureza” leva à aceitação do funcionamento da economia de modo totalmente autônomo das decisões tomadas democraticamente. O Estado e o mercado são suscetíveis de serem combinados de modos diferentes dando origem à diversidade de formas que a economia de mercado pode adotar. ■ O Estado tem um papel sumamente importante na distribuição da renda via fisco. No entanto. Esse papel requer um Estado forte e capaz. mia deve ser um dos temas do debate político. Por isso. Portanto. especialmente para a democracia de cidadania. texto elaborado para o PRODDAL. um mundo isolado que é sempre idêntico a si mesmo. Isso se dá porque: ■ A eventual eliminação da desigualdade não é um problema econômico marginal.. a econo84 D.ma e a resolução da crise de representação política. as pautas de distribuição da renda. um Guterwelt. José Nun..] isso torna sempre indispensável a ação do Estado para organizar os mercados. Na realidade. a regulação do mercado. dependem de nossa capacidade para incorporar a economia e suas opções como um tema da democracia e da sociedade. Existem “cinco funções que as instituições públicas devem oferecer para que os mercados funcionem adequadamente: a proteção de direitos de propriedade. não raquítico. resultante (ou residual) de uma boa política econômica. o que implica uma forte capacidade de fazer política econômica. e a questão do papel regulador do Estado. a palavra de ordem dominante nos anos noventa. foi um erro grave cujos resultados são visíveis. e não ser excluída sob o pretexto de ser uma questão que “contextualiza” a organização do Estado. a economia. regulação dos mercados. a oferta de mãode-obra. e subsídios ou promoção de certos setores ou políticas de longo prazo. Do ponto de vista democrático. as políticas econômicas são parte dos instrumentos utilizados pelas sociedades para atingir a cidadania plena. Rumo a uma democracia de cidadania 193 . tanto na es- A economia é uma questão da democracia porque dela depende o desenvolvimento da cidadania social e porque é ela que gera e altera as relações de poder. Na América Latina aprendeu-se que o Estado não pode tratar a economia com leviandade: o Estado (democrático) tem um irrefutável papel orientador sobre a economia. a estabilização macroeconômica. o seguro social e a administração de conflitos de interesses”84.

Nessa situação. é “a-histórica”. mas sim complementares. 194 A democracia na América Latina .. Pelo contrário.quadro 47 Democracia e Mercado O avanço da democracia e o estabelecimento de regras macroeconômicos claras e fortes não devem ser vistos como situações antagônicas. Os direitos civis. aplicável a todos os países sejam quais forem suas circunstâncias. Essa idéia. e na medida em que a disciplina de mercado estiver baseada no que se denomina os fundamentais (economic fundamentals) e em considerações de longo prazo. sob o ponto de vista adotado neste Relatório. assim como o debate sobre a diversidade é uma necessidade imperiosa para reunir a melhor combinação entre o papel do mercado.85 Por isso. O trade-off é autêntico. 2003. a reafirmação quadro 48 Modelo único de desenvolvimento O “fetichismo” das reformas implantadas pelo “fundamentalismo de mercado”. nociva e contrária à democracia. essas questões da economia. Mas a realidade está longe desse ideal. José Antonio Ocampo. compartilhada pelos organismos de crédito internacionais. E a democracia continua sendo co-extensiva com o Estado-Nação. e uma visão da “economia de mercado” como antagônica ao intervencionismo estatal. 2003. a agenda da sustentabilidade democrática deve incluir. Em nenhum outro período da história mundial – com a exceção transitória da década de 30 – os problemas da economia mundial foram tão graves como hoje: de- fera econômica quanto na política. sustentabilidade do meio ambiente e estabilidade econômica. Por trás do discurso do chamado “Consenso de Washington”. 2001. encontra-se o pressuposto da existência de um modelo único de desenvolvimento. não existe razão para haver conflito entre os mercados e a governabilidade democrática. ■ Quanto mais amplo for o domínio da disciplina de mercado. As opções econômicas devem ser parte do conteúdo renovado da política. A seguir. maior será o espaço para a governabilidade democrática. o pensamento único.. elas são um componente substancial da agenda pública.]. suas opções e sua diversidade. da primazia da disciplina democrática sobre a disciplina dos mercados deveria ser clara e freqüente. mas porque são excessivamente voláteis e dominados por considerações de curto prazo. o Estado e o contexto histórico de cada um de nossos países. texto elaborado para o PRODDAL. texto elaborado para o PRODDAL. que teve como uma das expressões o “Consenso de Washington”. O desempenho das democracias em todas essas áreas foi superior ao dos regimes com participação política restritiva. devem fazer parte de uma agenda centrada em uma visão da economia a partir das necessidades do desenvolvimento da democracia da América Latina: 1. indicamos os temas que. sob pena de perder o conteúdo. as receitas universal e atemporal atentam contra o desenvolvimento da democracia e da própria economia. não apenas porque os mercados se orientam por razões puramente financeiras. Em princípio. 85 Para estas citações ver Rodrik. a liberdade política e os procedimentos participativos são a melhor maneira de assegurar padrões de trabalho. ■ Os mercados necessitam de governabilidade e regras. nega-se a reconhecer a diversidade existente na democracia [. A boa governabilidade só é assegurada por via da democracia. José Antonio Ocampo.

e a conseqüente necessidade de existência de um espaço público para a tomada de decisões. no que se Rumo a uma democracia de cidadania 195 . 2. aumento das desigualdades e da pobreza nos países ricos. Ou melhor. extensa miséria e crises recorrentes em numerosos países em desenvolvimento. é inelutável que exista tensão entre duas dimensões: de um lado. a ampliação da esfera do mercado exigiria a limitação do campo da democracia. o individualismo. mas coletivas. geralmente. exacerbação da desigualdade entre países. do outro. porque permite que o sistema se adapte. mas sim graças a ela. Somente as formas em movimento conseguem sobreviver. como acontece. 3. o capitalismo não sobreviveu como forma dominante de organização econômica apesar da democracia. Isso obriga a buscar uma conciliação entre ambas as esferas.semprego em massa. De acordo com a primeira corrente. Não devemos esquecer que vivemos simultaneamente em democracias e em economias de mercado. Existem duas correntes que se enfrentam no debate sobre as relações entre o mercado e a democracia. Por isso. e a desigualdade que tende a ser resultado do funcionamento do mercado. 4. as igualdades consagradas pela cidadania democrática. o sistema soviético). em sistemas regidos por um único princípio de organização (por exemplo. sucumbem à esclerose. A democracia não pode permanecer indiferente a essa situação. agora não individuais. em vez de romper-se. A tensão entre ambos os princípios é dinâmica. A segunda corrente postula que a tensão sempre existente entre mercado e democracia. as outras. hoje dominante.

em sua busca por limitar as exclusões provocadas pelo mercado. aumenta a legitimidade do sistema econômico. possibilita uma maior adesão à democracia. ao mesmo tempo. dade na escolha das formas em que organiza seu mercado. Isso não deve nos surpreender: a democracia implica diversidade. ao limitar o poder do Estado e da política sobre a vida dos cidadãos. a estabilidade macroeconômica de curto e médio prazo é maior. Isso encerra o risco de reduzir a adesão das populações à democracia e ao próprio mercado. mostrando que a democracia é uma forma em movimento. ao limitar o poder da política sobre a vida das pessoas. 15. por conseguinte. existem diferentes “variedades de capitalismo”. e vice-versa. Diante dessa situação. 9. sua legitimação. e nas formas de acionar do Estado. 10. o pensamento único nega. possibilita uma maior adesão à democracia. Um movimento que não se detém jamais”. e. p. que um Estado ajustado à democracia – eficaz. A abertura das economias favorece os fatores mais móveis. de fato. grande diversidade nesses sistemas. cada um dos princípios que regem as esferas política e econômica encontra sua limitação. diferentes combinações entre Estado e mercado. A democracia pressupõe uma hierarquia entre a política e o sistema econômico e. 1985. principalmente ao trabalho – o peso da insegurança econômica. e o mercado. Muitas das teorias hoje prevalecentes sustentam que as intervenções do Estado costumam reduzir a eficácia da economia. Dani Rodrik. 2003.86 8. A democracia. Desse modo. autonomia da sociequadro 50 Complementaridade entre democracia e mercado As relações entre democracia e mercado são então mais complementares do que conflitantes. Esta é uma importante verdade que.quadro 49 Quatro vantagens econômicas da democracia Além do mais. eficiente e fiável – é um componente indispensável do desenvolvimento. A liberdade coletiva precisa apoiar-se sobre as liberdades individuais. 196 A democracia na América Latina . Este Relatório sustenta. não apenas o capital financeiro como também alguns tipos de conhecimentos. ao impedir a exclusão por razões de mercado. convém rever com atenção alguns critérios sobre políticas econômicas e sua relação com a democracia. 86 Burdeau. no outro. contra toda evidência. O discurso dos que advogam por mais e mais mercado é claramente antiestatal: “O Estado é um mal necessário. claro. as dos países centrais – não têm os mesmos sistemas de eqüidade social. 5. existe. quem sustenta a primeira posição costuma considerar indiferente para a economia o tipo de regime político existente em cada caso. como efeito. No entanto. As sociedades nacionais – inclusive. o mercado. Tanto uma quanto as outras estão em relação iterativa. aumenta a legitimidade do sistema econômico. pelo contrário. 7. O aumento da mobilidade desses fatores tem. [Dani Rodrik] coloca a hipótese de que a democracia possui pelo menos quatro vantagens em relação aos regimes autoritários: a variância do crescimento em longo prazo é menor. 6. “A história prova que a democracia realizada nunca é mais que um momento do movimento democrático. Jean-Paul Fitoussi. texto elaborado para o PRODDAL. tal como surgem das experiências latino-americanas das últimas décadas: ■ É necessário um debate que identifique políticas que redistribuam a renda sem refere a sua aspiração de igualdade. 1997. as crises exógenas são mais bem controladas e o nível dos salários (e de sua participação na renda nacional) é mais elevado. A democracia. transferir aos fatores menos móveis – ou seja. deveria ser resolvida mediante a busca de sua complementaridade. é preciso limitar radicalmente sua capacidade de intervenção”.

■ Os limites à grande propriedade e à empresa privada estão relacionados com os níveis de desigualdade que uma sociedade está disposta a tolerar. quando vem acompanhado de conseqüências redistributivas desfavoráveis. ressaltamos que nossos dados mostram dois aspectos de grande importância prática. os meios de comunicação –. Para competir no mundo atual. solidariedade. é fundamental a produção eficiente. graças a sua capacidade de lobby e à ampliação de seu controle a outras esferas de poder. O terceiro refere-se à capacidade desses proprietários e empresas de expandir sua influência além dos mercados. a inovação de processos. solidariedade. o projeto e a diferenciação de produtos. insuficiente.distorcer severamente o funcionamento dos mercados. Por sua vez. e também com as modalidades de sua tributação. Um segundo tipo de limite está relacionado com o possível abuso do poder de mercado que os grandes proprietários e empresas podem chegar a conseguir. Rumo a uma democracia de cidadania 197 . a política social deve guiar-se por quatro princípios básicos: universalidade. Finalmente. Para isso. típicas da sociedade contemporânea – em particular. porém. ■ A busca de maiores níveis de bem-estar para a população exige um crescimento econômico sustentado que se revela. ■ Um acordo político dos distintos setores sociais sobre o que o Estado deve fazer ajuda a legitimar o nível. e o desenvolvimento de serviços de apoio adequados. é essencial contar com um capital humano qualificado. a composição e a tendência do gasto público e da carga tributária necessária para seu financiamento. evitando assim o “populismo” ou o “facilismo” tão presentes na história da América Latina. eficiência e integralidade. eficiência e integralidade. ■ A experiência internacional demonstra que as vantagens competitivas baseadas em baixos salários são frágeis e instáveis. O segundo aspecto – decerto em contraposição à frustração – é a majoritária opinião favorá- A política social deve guiar-se por quatro princípios básicos: universalidade. O primeiro deles é que muitos latino-americanos têm em comum uma visão extremamente crítica sobre o funcionamento da economia de mercado.

de segurança e organização interior. Abrangem. como resultado do peso crescente da condicionalidade imposta pelos organismos internacionais de crédito e. um conjunto de reflexões e temas que deveriam nutrir o debate sobre a globalização e o desenvolvimento da democracia: 1. são tão interiores quanto os locais. E ainda mais. a globalização impôs restrições. indivíduos e Estados. O debate que naturalmente existiu até agora deu ênfase aos assuntos financeiros e comerciais da globalização e deixou relativamente à margem. Paradoxalmente. Condicionam ou determinam as decisões do Estado e seu campo não se limita às finanças ou ao comércio. trazem consigo grandes conseqüências sobre o tipo de políticas possíveis para os governos da região. utopias talvez. 2. O mundo está em todos os lugares. o tema que emerge como prioridade é a contradição entre a necessidade da diversidade – que reclama um importante grau de autonomia dos países e um sistema mundial baseado em normas claras e comuns – e um mundo homogeneizado por relações de poder que deixam aos atores nacionais a capacidade de regulação normativa apenas em questões relativamente marginais. essas restrições questionam a credibilidade do Estado como construtor de sociedade e promotor de cidadania. No entanto. A luta por um sistema internacional democrático de direito não deveria deixar de ser uma reivindicação permanente de uma civilização que apresenta. regulam o sistema internacional. Poder e políticas democráticas na globalização Uma agenda mais ampla sobre a globalização deve incluir um debate sobre sua natureza política e militar. e ao mesmo tempo em que isso acontece. Nessas condições. as questões políticas. não. que escolha sobre questões substantivas os cidadãos podem fazer? Qual é a possibilidade de que seja cumprido o que decidiram? Em relação a essa questão central. basicamente militares e econômicas. outra coisa são nossas aspirações. O mundo está em todos os lugares. sua restrição à diversidade. o Relatório apresenta. novamente o problema vital da democracia: a existência ou não de poder para executar a vontade da maioria. é preciso ampliar o debate sobre a globalização em duas áreas para: dimensionar o impacto real da soberania interior dos Estados. Mas o poder do mundo. Conseqüentemente. Ao mesmo tempo em que favoreceu o progresso da democracia. A ação isolada da maior parte dos Estados nacionais latino-americanos revela-se insuficiente para influir. para que o poder nacional não desapareça em nome de um incontrolável poder global. em geral. mas não fantasias. enquanto desgastou a capacidade de ação dos governos. ou beneficiar-se com ele. seu dado dominante: os poderes exteriores deixaram de ser exteriores. e as fortes limitações ao poder estatal. ou ainda para opor resistência a suas tendências. cada vez mais. de outra maneira. Nessas condições. a democracia e a idéia de que as 198 A democracia na América Latina A globalização trouxe o mundo exterior para o interior de nossas sociedades. além disso. A globalização trouxe o mundo exterior para o interior de nossas sociedades. a seguir.vel à intervenção do Estado na economia. Na América Latina. controlar e regular esse processo. Expressa-se aqui. a globalização. inclusive aos Estados mais fortes e desenvolvidos. dos sistemas educativos. Uma coisa é a realidade que nos rodeia. como uma de suas conquistas. de saúde e de previdência social. A globalização coloca cruamente as questões do poder dos Estados nacionais e do poder dentro dos Estados. particularmente a eficácia de seus instrumentos de regulação econômica. deixou nas mãos dos Estados nacionais a complexa tarefa de manter a coesão social. reconhecer a natureza das relações que regem o mundo em que vivemos não deveria nos fazer abandonar a idéia de uma ordem mundial regida por normas. as relações de poder. condutas são regidas por normas destinadas a preservar o direito igualitário de todos. no mundo que surgiu após o término do pós-guerra fria. e conceber as estratégias possíveis para aumentar as capacidades nacionais e regionais. Mas o poder do mundo. mas com menores margens de ação. Com efeito. não. pe- .

Esse fatalismo. de participação e de tomada de decisões puderem determinar as estratégias de desenvolvimento econômico e social. Isso tende a colocar em questão nada menos que a relevância real da democracia para os cidadãos e. conseqüentemente. Por sua vez. É o que se denomina atualmente impotência do político.la mobilidade do capital financeiro. Jean-Paul Fitoussi. 5. Esta preocupação deve ser enfatizada porque podemos estar nos dirigindo a uma política que maneja agendas especificamente limitadas que. muito menos. Por isso passa a ter sentido e urgência o renascimento político dos esforços regionais que. É perigoso cair no fatalismo face à globalização. ignora os espaços reais de negociação que existem no mundo. A construção de um espaço de autonomia dos Estados nacionais face à globalização constitui um desafio próprio da política democrática que. sob a perspectiva do desenvolvimento da democracia também é preciso debater a construção dos espaços de autonomia mencionados no ponto anterior. Isso não significa necessariamente a criação de novas organizações para assumir essas tarefas nem. de construção de instâncias regionais. eles são necessários para que as democracias latino-americanas possam adquirir sólida sustentação e expandir-se. 9. Para isso. 4. mais cedo ou mais tarde. podem nos conduzir a agendas irrelevantes ou negadoras da diversidade de caminhos e critérios que a especificidade de cada um de nossos países deveria refletir. mas o faz em nome da eficácia do mercado e de uma ordem superior à da democracia. entende-se que. 3. fora do alcance do controle dos cidadãos. além de serem esforços meramente comerciais. e exercer uma mediação eficaz com as tensões próprias da globalização. como afirmamos ao longo deste Relatório. como também à região em seu conjunto. 6. infelizmente muito difundido. há uma grande distância entre essa constatação e a passividade governamental. bem como que esses espaços podem ser ampliados se houver uma vontade política. Os lugares institucionais de realização da cidadania política continuam sendo essencialmente nacionais. 7. encontrar a maneira de aumentar a capacidade de autonomia na definição e solução dos grandes problemas que nos afetam. vêm se reduzindo os espaços para a diversidade de modelos de organização social e econômica próprios da democracia. os nacionais e os dos cidadãos. A democracia se vê severamente prejudicada pela crescente transferência de importantes decisões para âmbitos que estão quadro 51 Globalização e impotência da política A globalização não apenas aumenta a participação do mercado no sistema de eqüidade e reduz a participação da democracia. Isso implica debater também políticas de alcance regional que possibilitem um aumento compartilhado dessa autonomia. que tenham caráter supranacional. é uma questão que diz respeito não apenas a cada país. 2003. deve ser proposto como meta central para a construção e expansão de diversas cidadanias. a sua lealdade em relação a ela. O fundamental é que os Estados da região decidam abordar o tratamento desses temas no plano político. Como conseqüência do que foi colocado anteriormente. sustentando que a assimetria de forças é tal que não há lugar para políticas autônomas. Entretanto. 10. consistente e sustentada. O reconhecimento das restrições existentes não obriga necessariamente a aceitar o statu quo. recriem e aumentem os espaços políticos de decisão própria. 8. texto elaborado para o PRODDAL. as atuais instituições regionais e subRumo a uma democracia de cidadania 199 . Isso significa que o reconhecimento da democracia como valor universal só adquire pleno sentido se os processos nacionais de representação.

à luz do que ocorreu em 11 de setembro e suas conseqüências. uma região de nações em que umas e outras se complementam e reforçam. a região tem uma forte carga de antecedentes nessa matéria. 15. A experiência que tivemos na América Latina. Portanto. as conseqüências de respostas inapropriadas sobre essas capacidades e sobre a própria democracia. além de tudo. Em um passado recente. A centralidade da questão da segurança na agenda internacional suscita uma tensão com a democracia e as liberdades. o perigo da violência terrorista não é uma hipótese abstrata para a região. mas que sejam assumidos com soluções próprias. 17. 12. os acontecimentos marcaram uma mudança substancial nas relações mundiais. ao mesmo tempo. foi objeto de vários atentados terroristas graves. No entanto. Por sua vez. bem como da singularidade de suas democracias. os fenômenos exteriores são tão imediatos e cotidianos quanto os produzidos no próprio território das nações. com o ataque terrorista aos Estados Unidos. Os países centrais têm melhores contrapartidas que os nossos para resolver essa tensão. as relações de poder militar marcaram de maneira decisiva os vínculos mundiais. 14. O pós-guerra fria terminou em 11 de setembro de 2001. uma associação política de Estados soberanos. 18. com uma única potência hegemônica. trata-se dessas relações no contexto da globalização atual. tanto de grupos insurgentes quanto do próprio Estado. o impacto de uma potencial agressão terrorista sobre as capacidades estatais e. por um lado. a partir desse momento. dentro dos limites da interdependência. próprios de nossa região. as práticas de poder imperantes nas relações internacionais não tendem a levar em conta essa necessidade. a tarefa da integração política é a construção da Nação e a construção da região. Recentemente. A questão da segurança voltou ao centro do cenário. a questão da segurança adquire centralidade. A capacidade de construção autônoma em um mundo globalizado. Não se trata apenas dos problemas clássicos da relação centro-periferia. de que a economia substituía a política. evitar que essa resposta enfraqueça sua capacidade de democratizar ou diminua a qualidade da democracia. definidas sem levar em consideração importantes interesses. é um bom exemplo do que suce200 A democracia na América Latina de quando a questão da segurança torna-se o prisma central sob o qual a política e as relações internacionais são observadas. o império e suas zonas de controle. critérios próprios para inspirar suas opções de resposta ao perigo instaurado pelo terrorismo. por outro. Uma posição passiva nessa matéria pode nos tornar altamente vulneráveis a estratégias exteriores. 20. transformando-se na matéria prioritária da política mundial. nas décadas anteriores ao fim da guerra fria. A preeminência da questão do terrorismo traz para a análise.regionais possibilitam uma razoável base de ação. 11. Por sua vez. com os ajustes de agenda e estrutura que serão indispensáveis. A idéia de que a globalização havia transferido o centro das relações internacionais das questões militares e de segurança para as financeiras. A resposta apropriada refere-se à capacidade estatal de responder eficazmente ao perigo de agressão e. durante várias décadas alguns países latino-americanos sofreram grande violência. Além disso. Isto é. 19. 13. O ordenamento internacional deveria respeitar a diversidade dos países (entre eles e em cada um deles). mas. Nela. envolve novos desafios. dissipouse. . Os países da região devem formular. 16. com forte impacto sobre os sistemas multilaterais de defesa coletiva. Assim colocada. É fundamental para a democracia que os problemas de segurança não figurem como parte de uma agenda imposta. Nesse sentido.

A globalização é um dado. vai mais além. promover uma nova legitimidade para o Estado. Essa comunidade de cidadãos deve. esse organismo que deve não apenas proporcionar a máquina burocrática administrativa de cada país. Trata-se de implementá-la regional e localmente com uma atitude pró-ativa e não meramente passiva. e mais precisamente a comunidade de cidadãos. não apenas é importante como é uma condição sine qua non para poder qualificar um regime de democrático. a economia não é tampouco um dado a ser assumido passivamente. de maneira que o cidadão. então. dentro de um marco de plena vigência do estado de direito. Criar uma visão integral da cidadania e articular o funcionamento da economia com as decisões políticas da comunidade de cidadãos são alguns dos temas que emergem deste Relatório para suscitar uma nova forma de debater a democracia na região latino-americana. É preciso entender a transformação constante e rápida que ocorre no mundo de hoje. não existe uma maneira única de pensar e de fazer funcionar o mercado. para poder construir políticas sociais que visem à ampliação da cidadania social. porém. mas também respeitar e ampliar as instituições políticas e o estado de direito. possa participar em decisões substanciais. como a possibilidade de exercer o direito de voto periodicamente para eleger governantes. colocando a política no centro. e lançar as bases para assegurar a eqüidade. como também atendendo à expansão efetiva da cidadania social. Já se sabe que há diversas formas históricas bem-sucedidas que conviveram em marcos culturais diferentes. é preciso conviver com incertezas. mas não se trata pura e exclusivamente de admitir que tudo o que sucede como conseqüência da transformação tecnológica e da expansão dos mercados deve ser aceito sem reflexão e sem ação. Trata-se de discutir como se pode avançar no caminho de uma cidadania integral. mas também é preciso atuar para modificar essas macrotendências na conjuntura de cada país.Em síntese O Relatório propôs que a democracia entendida de maneira minimalista. Rumo a uma democracia de cidadania 201 . não apenas aperfeiçoando os mecanismos institucionais da política e a implementação efetiva dos direitos civis para todos os cidadãos. Considera que se deve ampliar o horizonte da democracia. para que possa arraigar-se. O Relatório. Desse modo.

202 A democracia na América Latina .

procurando encontrar alguns métodos objetivos para medir realidades sempre mais complexas do que qualquer estatística. que não é outro senão o de assegurar as liberdades e organizar um governo representativo do povo. arriscamos cair em um perigoso e desconexo empirismo. mas as idéias também caíram em suas próprias armadilhas. para ela. perguntando. um estranho périplo. Se nos mantemos exclusivamente no território da idéia. de fazer com que essa liberdade se concilie com o máximo possível de igualdade entre as pessoas. consultando. A América Latina foi filha de uma idéia. definir conceitos e contrastálos. então. e essa idéia continua sendo o cerne de sua visão de futuro: construir uma sociedade democrática. militares. capaz. portanto. o trabalho que contou com a colaboração. Algumas vezes foram os fatos. Quanto de construção desse ideal foi. Devemos recordar que se hoje isso é possível para o PNUD é porque a região atingiu um nível de desenvolvimento da democracia como nunca antes. Se a perdemos de vista em uma luta acirrada contra as realidades injustas. infelizmente. os libertadores canalizaram seu esforço. qualquer caminho para um trabalho dessa natureza estava interditado. pois todas as vezes que liberdade e justiça se conjugaram separadamente. no entanto. A partir dessa premissa cheia de esperança abriuse. podemos traí-la na ação. repleto de contradições. sem exceção. de fato alcançado? Que deve ser feito para assegurar o que foi alcançado e seguir avançando? Desafiados por essas básicas interrogações é que este trabalho foi lançado há dois anos. o poeta alemão Heine advertiu os franceses de que não deviam subestimar o poder das idéias: os conceitos filosóficos alimentados no silêncio do escritório de um acadêmico podiam destruir toda uma civilização”. Foi assim que ocorreu. ambas se viram em situação de risco. econômicos. protagonistas econômicos e acadêmicos. que ultrapassaram as fronteiras dos princípios. sociais. Isaiah Berlin nos recorda que “há mais de cem anos. quando se sonhou em superar o núcleo central da idéia democrática. entardeceres e alvoradas. então. interrupções e retomadas. com tantas ditaduras que não existiam condições para que a organização internacional tentasse uma profunda reflexão sobre a questão. Nos anos setenta. porque o mapa latino-americano era sombrio. atores políticos e civis. em passos aproximativos. ReuniReflexões finais 203 . Seu processo de independência esteve indissoluvelmente ligado à concepção republicana e. É preciso. Idéia e realidade vivem uma constante tensão. com a realidade. de governos e partidos. despertando interesses. removendo. O devir histórico mostrou.Reflexões finais O eterno desafio Em um de seus célebres ensaios.

caindo na ilusão de uma meta alcançada. mas sem pausa. uma convicção de que é necessário – e possível – atuar sobre nossa situação. entrevistas. é desalentar a sociedade em seu necessário e constante aperfeiçoamento. algum sistema com todas as respostas. terá conseguido seu propósito fundamental. sem pressa. independente do parcial e insuficiente PIB. hoje. sempre e a toda hora. devemos procurar seu constante aperfeiçoamento. as desigualdades sociais. Tampouco a análise específica de alguma patologia determinada. O que realmente se define é uma idéia geral da saúde democrática. relatórios. O século passado. mas sim estimular a todos. gerou em toda a região um interesse no tema. o divórcio entre as expectativas e as realidades. coloca-se à disposição de toda a sociedade latino-americana um instrumento de trabalho. o choque étnico. Foi o que o PNUD fez com o Índice de Desenvolvimento Humano e assim conseguiu que esse modo de avaliar. investigações estatísticas foram povoando um grande conjunto que. Não está aqui a tomografia computadorizada de nenhum Estado concreto. registrando avanços e retrocessos que possam ser vistos com objetividade. E hoje se chega a este Relatório sobre a democracia com a convicção de que. Esta incômoda sensação de que nunca nada está terminado constitui a própria idéia da liberdade. em nome da democracia. Como nos disse Pierre Rosanvallon.ões. Deleitar-se nele. A pobreza. estudos. Daí a necessidade constante de prevenir. colecionando déficits e carências. talvez tenha sido o que gerou maiores tragédias nessa busca. O propósito inicial de gerar um clima estimulante à reflexão foi ganhando corpo. sempre será insatisfatória. Na mesma linha inovadora. hoje se pretende que a melhora democrática não seja simplesmente uma expressão retórica. construiu-se um totalitarismo. Se este Relatório contribui para instalá-la na preocupação afirmativa de todos os seus atores. independentemente de suas inevitáveis limitações e necessárias imperfeições. sempre questionável. além de seu valor intrínseco. introduzem notas de instabilidade. assumimos que a realidade nunca nos deixará conformados porque. Por isso 204 A democracia na América Latina . uma aproximação sobre realidades que merecem preocupação e a configuração de alguns instrumentos para que a constante revisão permita a todos nós seguir construindo. como nos diz Giovanni Sartori. em um momento histórico em que uma revolução científica transforma a nossa vida todos os dias. essas buscas respondem à idéia de que democracia e desenvolvimento humano são apenas duas caras da mesma moeda. mas sim uma realidade sobre a qual se atua. seminários. Subestimar o progresso atingido. e com ela temos de conviver. “a democracia formula uma pergunta que permanece continuamente aberta: é como se nenhuma resposta adequada pudesse lhe ser dada”. seria colocar tudo em risco. Esses avanços. mas também sabemos que sendo a democracia “antes de tudo um ideal”. Herdeiros dessa experiência. comparada com a idealização pura. que não é julgar ninguém. Todas as vezes que se quis tentar. fosse assumido na sociedade.

A consciência alerta é o único estado de ânimo para que a democracia continue sua vida. simplesmente.aqui. de difusão de experiências e prevenção de riscos. um procedimento permanente de observação e análise e. ainda. ao mesmo tempo. Ela permanece. como a mais revolucionária das idéias e. O esforço das últimas duas décadas foi formidável e suas conquistas devem ser apresentadas com toda plenitude. Julio María Sanguinetti Ex-Presidente da República Oriental do Uruguai Presidente da Fundação Círculo de Montevidéu Reflexões finais 205 . oportunidades para fazer o bem aos semelhantes. mas sempre haverá. como no destino do homem. por ser sempre inacabada. Não haverá respostas definitivas para suas interrogações. abre-se uma nova etapa no caminho. a partir desses instrumentos elaborados. Esse esforço deve prosseguir e até pode-se abrir aqui. adaptando-se aos tempos. é a mais desafiante.

206 A democracia na América Latina .

Autores de artigos sobre temas da agenda Manuel Alcántara. Fernando Mayorga. Diretor da América Latina. Jorge Elías. Instituto para a Democracia e Assistência Eleitoral (IDEA) e Associação Civil Transparência (Peru). Clóvis Rossi. César Gaviria. Corporação Latinobarômetro. e Fernando Cardesa. Rosario Green. Círculo de Montevidéu. Manuel Antonio Garretón. Willem Assies. Edgar Ramírez. Jorge Inzunza. José Antonio Ocampo. Adolfo Rodríguez Saá. José Eduardo Faria. Elisa Carrió. Augusto Ramírez Ocampo. Luiz Suplicy Hafers. Martha García. Ives Martins. Ricardo Nuñez. Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). BelisaAgradecimentos Instituições que colaboraram na elaboração e discussão do Relatório Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL). Organização dos Estados Americanos (OEA). Julio Godio. Pedro Simon. Comissário de Relações Exteriores da Comissão Européia. Raúl Alconada Sempé. José Manuel De la Sota. e Gonzalo Sánchez de Losada. José Márcio Camargo. Jaime Paz Zamora. Soares. Rodolfo Terragno. Ricardo Lagos. Horacio Verbitsky e Oscar Vignart. Rosendo Fraga. Jarbas Passarinho. Enrique 207 . Lourdes Sola. Jorge Quiroga Ramírez. Pena. Joaquim Falcão. Argelina Figueiredo. Celso Pinto. Fundação Chile XXI. Diretor Geral Adjunto e Tomas Dupla del Moral. Diretor Geral. Brasil: Luiz Gonzaga Belluzo. Joseph Stiglitz. Natalio Botana. Cândido Grzybowski. Ricardo López Murphy. particularmente a Chris Patten. e Carolina Tohá. Vicentinho. Rubens Ricupero. Iglesias. Eduardo Gamarra. Chile: Andrés Allamand. pelo respaldo e interesse demonstrado para a publicação e difusão deste Relatório. Cardenal Julio Terrazas e Francisco Thoumi. Cândido Grzybowski. Víctor De Genaro. Eneko Landaburu. Filmar Mauro. Carlos Calvo. Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima. Fernando Henrique Cardoso. Norbert Lechner. Fernando de la Rúa. Carlos Mesa. Luiz E. Centro de Estudos Sociais e Ambientais. Oded Grajew. João Paulo dos Reis Velloso. Felipe González. Gostaríamos de expressar um especial reconhecimento à União Européia. Juan Pablo Illanes. Fernando Henrique Cardoso. Bolívia: Esther Balboa. Arturo Martínez. Gustavo Fernández Saavedra. Eduardo Frei. Participantes da Rodada de Consultas Argentina: Raúl Alfonsín. Benito Baranda. Colômbia: Ana Teresa Bernal. Dante Caputo. Helio Jaguaribe. Comparato. Celi Pinto. Fernando Valenzuela. Fernando Calderón. João C. Jaime Campos. Osvaldo Hurtado. Joaquín Morales Solá. Henrique Meirelles.■ Agradecimentos Este Relatório não poderia ter sido elaborado sem a generosa colaboração de muitas pessoas e organizações às quais expressamos nosso agradecimento. Patricio Aylwin. Márcio Pochmann. Miriam Leitão. Clube de Madri. Direção de Relações Exteriores. Diretor da América Latina de EUROPEAID. Juan Carlos Maqueda. Ruben César Fernandes. Jean-Paul Fitoussi. Paulo Cunha. Marco Aurélio Garcia. Hugo Moyano. Aníbal Ibarra. Frei Betto. Marcos Coimbra. Luiz Carlos Bresser-Pereira. Edgardo Boeninger. Suely Carneiro. Fábio K. Jorge Casaretto. bem como a todos os funcionários da Direção Geral de Relações Exteriores e do Escritório de Cooperação EuropeAid que colaboraram neste projeto. Antônio Delfim Neto. Carlos Ominami. Universidade de Bolonha. Arthur Virgílio e Ségio Werlang. Jovino Novoa.

José Eguiguren. Nelson Argaña. Cristina Muñoz. ex-Presidente da Colômbia. Amalia García. Equador: Rodrigo Borja. Uruguai: Diego Balestra. Felipe Calderón Hinojosa. Miguel Lluco. Alfonso Portillo. César Verduga. Wilfredo Navarro Moreira.rio Betancur. Luis Solari de la Fuente. Panamá: Miguel Candanedo. Marena Briones. Juan José Larrañeta. Héctor Florit. ex-Primeiro Ministro de Portugal. Jorge Batlle. Sergio Sarmiento. Juan Ramón de la Fuente.Mauricio Funes. Antonio Guterres. Arturo Núñez. José Luis Reina. Vicente Fox. Elizabeth Odio Benito. Roberto Nesta. Gustavo Pinto. Sergio Ramírez Mercado e José Rizo Castellón. Teodoro Petkoff. Honduras: Isaías Barahona. Leonardo Pisani. Santiago Creel. Julio Roberto Gómez. Héctor Silva e Eduardo Zablah Touché. Arturo Montiel. Cecilia Sosa. Eduardo Frei. Carlos Roberto Reina. Alejandro Toledo e Alan Wagner. Roberto Madrazo. Valentín Paniagua. Martín Torrijos e Alberto Vallarino. José Woldenberg. ex-Presidente do Chile. Guillermo García Ponce. Jesús 208 A democracia na América Latina Reyes Heroles. Antonio Isa Conde. República Dominicana: Manuel Esquea Guerrero. Ernesto Zedillo. ex-Presidente de Honduras. Rodrigo Paz. Kim Campbell. Humberto Rubin. Luis Téllez. Janet Kelly. Álvarez. Calixto Ortega. Luis Felipe Bravo Mena. Juan José Ramos. Alberto Garrido. El Salvador: Armando Calderón Sol. Guillermo Fernández de Soto. Milda Rivarola. Javier Silva Ruete. Rafael Leonardo Callejas. Salvador Samayoa. Aníbal Cavaco Silva. José Francisco Paoli Bolio. Benjamín Ortiz. Eduardo Fernández. Rosario Robles. Felipe de Jesús Cantú. Miguel Abdón Saguier e Aldo Zucolillo. Beatriz Paredes. ex-Presidente do Equador. Luis H. Ricardo Maduro e Leticia Salomón. ex- . Felipe González. Rodrigo Borja. exPresidente do Governo Espanhol. Angélica Maytin. Carlos Elizondo. Jorge G. Hipólito Mejía e Jacinto Peynado. Enrique Mendoza. Manuel Arango. Alfredo Palacio. ex-Primeiro Ministro do Canadá e Presidente do Clube de Madri. Marco Augusto García. Guillermo Endara. Rolando Cordera. José Mujica. México: Lorenzo Meyer. Nicanor Duarte Frutos. Pedro Fadul. Sergio Aguayo. Gregorio Rosa Chávez. René Núñez Tellez.Horacio Serpa. Rosalina Tuyuc e Raquel Zelaya. Osvaldo Hurtado. Luis Jorge Garay. Alfredo Negrete. Carlos Holguín. Diego García-Sayán. Raúl Benitez. ex-Presidente do Equador. Lourdes Flores Nano. Ramiro González. Carmen Lira. José Vicente Rangel. Costa Rica: Oscar Arias. Liber Seregni e Ricardo Zerbino. Fernando Londoño. Enrique Riera. Antonio Navarro. Fernando Henrique Cardoso. ex-Presidente da Bolívia. Miguel Ángel Rodríguez. Jorge Rojas. Francisco Santos. Carlos Fernández. Rafael Roncagliolo. Jorge Quiroga Ramírez. Osvaldo Hurtado. Gilberto Borja Navarrete. Juan Sánchez Navarro. Ernesto Samper. Soledad Loaeza. David Escobar Galindo. Francisco Hernández. Albino Vargas e Samuel Yankelewitz. Jorge Del Castillo. Cuauhtémoc Cárdenas. Santiago Levy. Lucio Gutiérrez. Bernardo Sepúlveda. Venezuela: José Albornoz. Luis Ugalde e Ramón Velásquez. Luis Verdesoto e Jorge Vivanco. Humberto Corado. Paraguai: Martín Almada. Alejandro Armas.Miguel Facusse. Valentín Paniagua. Ricardo Franco. Violeta Granera. Leonardo Garnier. Nicarágua: Carlos Fernando Chamorro. Sabas Pretelt de la Vega. Carlos Guillermo León. Álvaro Valencia Tovar e Luis CarlosVillegas. Mariano Palacios Alcocer. ex-Presidente do Brasil. Eduardo Lizano. Castañeda. Guatemala: Marco Vinicio Cerezo. Hernando Gómez Buendía. Joaquín Cevallos. Gastón Garatea Vori. Eugenio Clariond. Participações especiais Belisario Betancur. ex-Primeiro Ministro de Portugal. Ottón Solis. Susana González. Jaime Nebot. Luis Alberto Lacalle. Leonel Fernández Reyna. Mesías Tatamuez Moreno. Carlos Flores Facusse. Héctor Fajardo.Norma Cano. Julio María Sanguinetti. Andrés Manuel López Obrador. Romeo Pérez. Carlos Ferrero Costa. Gustavo Porras. ex-Presidente do Peru. Peru: Julio Cotler.

Lydia Legnani. Funcionários do Escritório de Enlace do PNUD em Bruxelas Nossos agradecimentos aos funcionários do Escritório de Enlace do PNUD em Bruxelas. Katica Cekalovic. Walter Franco. Guillermo de la Dehesa. Jessica Faietta. Saioa Royo. Lorenzo Jiménes de Luis. Omar Baquet. Julio María Sanguinetti. Benigno Rodríguez. Irene Phillip. Liliana De Riz. Alfredo Witschi-Cestari. Myriam Di Paolo. César Miquel. Conselheiro Principal Escritório BID na Europa e Lucinio Muñoz. Silvia Rucks. Presidente do BID. María Noel Vaeza. William Orme e Victor Arango do Escritório de Comunicações do Administrador. Ernesto Zedillo. Lucien Muñoz. Elizabeth Hayek. Elisabeth Fong. Ricardo Salas e Geraldine Watson. José Ignacio López. Antonio Álvarez-Couceiro. Luis Francisco Thais. Guillermo Iglesias. ofereceu uma inestimável colaboração. Susana Gatto. Roberto Monteverde. ex-Presidente do México. Ana Inés Mulleady. aos quais expressamos nosso agradecimento. Pablo Martínez. Peter Grohmann. Rosa Santizo. Pablo Basz. Adjuntos e Auxiliares dos Escritórios do PNUD na América Latina Jeffrey Avina. Adelina Paiva. que ofereceu seu apoio e facilitou o acesso aos recursos dessa universidade. Enrique Iglesias. Juan Manuel Salazar. Oscar González. Martín Santiago. Pablo Vinocur. Daniela Del Río. e Susana Etcheverry. Juan Pablo Corlazzoli. Beat Rohr. José Antonio Ocampo. Renata Claros. e em especial a Freddy Justiniano. Presidente Clube de Tampere. ex-Secretário de Estado de Economia da Espanha. Juan Carlos Crespi. Representantes Residentes. particularmente. Ilona Szemzo. Marina Mansilla Hermann. César Gaviria. Elena García-Ramos. Jorge Chediek. Thierry Lemaresquier. Walter Ricciardi. Funcionários do Escritório do Administrador do PNUD Nossos agradecimentos aos funcionários do Escritório do Administrador do PNUD. Susana Pirez. María Angélica Wawrzyk. Cristina Fasano. Secretário Geral do Clube de Madri. Alfredo Marty. Gilberto Flores. Beatriz Martínez. Elba Luna. Bruno Moro. Juan Carlos Magnaghi. Marcelo Bagnasco. Ernesto Garzón Valdés. ex-Presidente do Uruguai e Presidente da Fundação Círculo de Montevidéu. Fernando Carrillo-Florez. Funcionários da Direção para América Latina e Caribe do PNUD A equipe do projeto agradece. Andrea Botbol. Gerardo Noto. Itziar Abad. René Mauricio Valdés. Myriam Méndez-Montalvo. Cecilia Del Río. Fernando Valenzuela. lugar Sede do projeto. Beatriz López. ex-Secretário Executivo da CEPAL e atual Subsecretário Geral da ONU para Assuntos Econômicos e Sociais. Clemencia Muñoz. Susana Gatto. Cielo Morales. Carlos Lopes. Nossos agradecimentos especiais a Jacques Le Pottier. Decano da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Toulouse Le Mirail. Mercedes Ansotegui. Henry Jackelen. José Manuel Hermida. especialmente a Marck Suzman. Elisabeth Díaz. Santiago Redecillas. Barbara Pesce-Monterio. Jacqueline Carbajal. Niki Fabiancic. Sonia Urriza. Roberto Galvez. ex-Presidente da Comlômbia e Secretário Geral da OEA. especialmente Carmelo Angulo Barturén. Jessica Faieta. Adjunto ao Secretário Geral do Clube de Madri. Ana Edmunds. Enrique Ganuza. Aase Smedler. Carlos Felipe Martínez. Claudio Tomasi. e apoio organizativo e administrativo. Isabel Chang. Jafet Enríquez. Agradecimentos 209 . Aldo García. a estreita colaboração dos funcionários do PNUD. Claudio Flichman. ex-Secretário de Estado de Economia da Espanha. Miguel Ángel FernándezOrdoñez. Vivian Joensen. MaríaNoel Vaeza e Gemma Xarles. Jorge Martínez. Natalia Aquilino.Presidente da Costa Rica. Ligia Elizondo. Funcionários do Escritório do PNUD na Argentina O Escritório do PNUD na Argentina.Antonio Molpeceres. Kim Bolduc. Jan-Jilles Van der Hoeven. Diretor Geral Adjunto de Relações Exteriores da União Européia. María Inés Jezzi.

Jorge Reyes. Participantes em seminários e reuniões No projeto do Compêndio Estatístico e na construção de índices contamos com comentários de Kenneth Bollen. Honduras: Doris Rivas. Paraguai: Inés Brack e María Clavera. Arodys Robles Soto. Norma Guerrero e Santiago Burbano. Elisabeth Spehar. Augusto Ramírez Ocampo. Thomas Scheetz. Cecilia Zúñiga. Em uma reunião para revisar o Índice de Democracia Eleitoral contribuíram com seus conhecimentos Horacio Boneo. Eduardo Graeff. Colômbia: Adriana Anzola. Fernando Carrillo-Florez.Funcionários dos Escritórios do PN na UD América Latina Bolívia: Cecilia Ledesma. Carlos Mauricio García. Federico Storani. Ester Levinsky. Osvaldo Hurtado. Katty Grez. Soledad Alvear. Karina Servellón e Lesly María Sierra. Martín Santiago. Eduardo Frei. Gabriel Gaspar. Freddy Justiniano. Fátima Cruz. participaram Carmelo Angulo Barturén. Guttemberg Martínez. Jorge Levi Mattoso. Uruguai: Mónica Voss e Verónica Nori. John Mark Payne. Brasil: Filipe Nasser. Elena Martínez. Equador: José Balseca. Marcelo Contreras. Camila Sanhueza. Rafael Poleo. Luz Patricia Herremann e Patricia Marrón. Na discussão sobre a crise da política. Aníbal Fernández. Hernando Gómez Buendía. Julio María Sanguinetti. Ingrid Melgar. Dante Caputo. Guatemala: Carmen Morales. Thierry Lemaresquier.Javier Solanas . Pereyra. Jay Verkuilen. Juan Alberto Fuentes e Myriam de López. Henry González e Vera Brenes. Josefa Errázuriz. Elena Martínez. Edgardo Lepe. María Teresa Vergara e Oscar Muñoz. J. Juan Ramírez. Juan Fernando Londoño. Rodrigo Pardo. Carlos Ominami. Julio Angel. Manuel 210 A democracia na América Latina Antonio Garretón. María del Pilar Rojas. José Antonio Ocampo. Antonio Álvarez Cruceiro. Enrique Santos. Marco Aurélio Garcia. Danilo Arbilla. Verónica Oyarzún. Na análise do estado atual e das perspectivas da democracia na América Latina participaram Héctor Aguilar Camín. Michael Smithson. Mario Solari e Pilar Airaldi. Costa Rica: Arlene Méndez Solano. José Carlos Libânio e Wilson Pires Soares. Peru: Carolina Aragón. Felipe González. Nicolás Eyzaguirre. Mauricio Ramírez e Patricia Lizarazu. Eugenio Ortega. Chile: Alejandra Cáceres. República Dominicana: Martha Elizabeth Martínez Correa e Solange Bordas. Ricardo Lagos. Gemma Xarles e Daniel Zovatto. juntamente com o Círculo de Montevidéu. Myriam Mendez-Montalvo. Gilberto Chaves. Alonso González. Sergio Bitar. Nicarágua: Dina Garcia e Gloria Altamirano. Christian Jetté e Patricia Cusicanqui. Hernando Goméz Buendía. Fernando Medina. Maria Hermínia Tavares de Almeida e José Woldenberg. Venezuela: Alberto Fuenmayor e Mayra Cartaya. Amalia Paredes.C. Heraldo Muñoz. Juan Rial. Jorge Castañeda. José Miguel Insulza. Simón Pachano. Raúl Alconada Sempé. Alfredo Negrete. Gonzalo Martner. El Salvador: Esther López e Morena Valdez. Andrés Oppenheimer. Leandro Garcia Silva. Panamá: Marta Alvarado. Daniel Igartua. Joaquín Estefanía. México: Arturo Fernández. Dante Caputo. Michael John Coppedge. Freddy Justiniano. Jorge Heine. Joseph Stiglitz. Carla Pietrantoni. Bartolomé Mitre. Rodolfo Gil. Adam Przeworski. Rodolfo Mariani. Dante Caputo. Juan Gabriel Valdéz e Isabel Vásquez. Julio María Sanguinetti. Johanna Clarke de Voest Silva. Álvaro Díaz. Alice Ayala.

Luis Jorge Garay. Arodys Robles Soto. Administrador Associado do PNUD. Reunião com o Secretário Geral da ONU Participaram da reunião com o Secretário Geral da ONU. Andrés Solimano e Guido Tabellini. Na análise sobre democracia e economia participaram Raúl Alconada Sempé. Dante Caputo. Oscar Muñoz. Antonio Guterres. Augusto Ramírez Ocampo. Isis Duarte. Julio María Sanguinetti. Na discussão sobre condições para a estabilidade das instituições democráticas na América Central participaram: Alberto Arene. Ricardo Gómez. Thomas Scheetz. ex-Presidente do Uruguai. Héctor Hérmilo Soto. Elena Martínez. Alfonso Peña. Arnoldo Villagrán e Knut Walter. No debate sobre sociedade civil e narcotráfico participaram Carlos Basombrío. Fernando Henrique Cardoso. Edelberto Torres Rivas. Walter Lacayo. Arturo O’Connell. Felipe González. Juan Martín. Antonio Álvarez Couceiro. Sr. Carlos Amat y León. Valdrack Jaentschke. Miguel Antonio Bernal. Edelberto Torres Rivas. Fernando Calderón. Eduardo Frei. Oscar Landerretche. José Antonio Ocampo. Ricardo Ffrench-Davis. Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e atual Subsecretário Geral para Assuntos Econômicos e Sociais da ONU. Celi Pinto. Danilo Türk. Márcio Pochmann e Lourdes Sola. José Carlos Libânio. Dante Caputo. em Nova York. Mirna Flores. Tim Besley. Manuel Rojas. Francesca Jessup. José Raúl Mulino. Manuel Marfán. Presidente do Clube de Madri (ex-Primeiro Ministro do Canadá). Antonio Cañas. Administradora Auxiliar e Diretora Regional para América Latina e Caribe (DRALC) do PNUD. Jorge Schvarzer. Administrador Auxiliar e Diretor de Desenvolvimento de Políticas.Couceiro. Julieta Castellanos. Beatriz Paredes. Kofi Annan. Jorge Giannareas. Elena Martínez. Elisa Carrió. Santiago Bastos. Francesca Jessup. Na discussão sobre democracia e multiculturalismo nos acompanharam Álvaro Artiga. José Luis Barros. Ernesto Garzón Valdés. Francisco Díaz. Gonzalo Rojas. Rodolfo Mariani. Gustavo Fernández Saavedra. Miguel Angel Barcárcel. Carlos Benjamín Lara. José Luis Barros. Miguel Ángel Fernández-Ordóñez. Rodolfo Gil. Dina García. Carlos Roberto Reina. Carlos Lopes. Departamento de Agradecimentos 211 . Rodrigo Borja. Beatriz Paredes. Sonia Draibe. participaram Andrés Allamand.e Ernesto Tiffenberg. Fernando Carrillo. Zéphirin Diabré. Eduardo Frei. Tarcísio Costa. Eduardo Piragibe Graeff. Edelberto Torres Rivas. Franciso Thoumi e Luis Verdesoto. Carlos Ominami. Miguel Darcy. Guillermo O’Donnell. Ignacio Rodríguez. Leticia Salomón. Kim Campbell. Raúl Alconada Sempé. Isabela Orellana . Fernando Henrique Cardoso. Guillermo de la Dehesa. Manuel Antonio Garretón. Thierry Lemaresquier. Walter Franco. Na análise sobre democracia e Estado contribuíram com sua participação Diego Achard. George Gray Molina. Marcia Bermúdez. Kees Rade. Eugenio Lahera. Zenayda Castro. Belisario Betancur. Marcus Melo. Dante Caputo. ex-Secretário Executivo. Alberto Couriel. Semiramis López. Edmundo Jarquín. Ernesto Zedillo. Rafael Guido Béjar. ex-Presidente de Chile. Rebeca Grynspan.Carlos Ominami. Elena Martínez. Carlos Mendoza. Jorge Vargas e Agatha Williams. ex-Presidente de Honduras. Elías Santana. Jorge Quiroga Ramírez e Fernando Valenzuela. María Elisa Bernal. em 12 de novembro de 2002. Willem Assies. Gilberto Dupas. Elena Martínez. ex-Presidente de Bolívia. Juan Carlos Rodríguez. Lucinio Muñoz. Secretário Geral Assistente. José Antonio Ocampo.Florez. Torsten Persson. Antonio Cañas. Enrique Ganuza. Gabriela Serrano. Roberto Cajina. Eduardo Gamarra. Na análise sobre democracia e globalização. ex-Presidente da Colômbia. Innocenzo Gasparini. Jorge Chediek. Aníbal Cavaco Silva. Alberto Couriel. Arturo O’Connell. ex-Presidente do México. Alberto Alesina. Elvira Cuadra. Rodrigo Borja. juntamente com o Clube de Madri. Gonzalo Martner. PNUD. María del Carmen Sacasa. Marcelo Contreras Nieto. Giorgio Alberti. Jorge Quiroga Ramírez. Shoji Nishimoto. Antonio Alvarez. Carlos Cazzali. Galo Guardián. Gonzalo Perez del Castillo.

Especialista em Comunicações para América Latina e Caribe. e Luis Francisco Thais. do Clube de Madri. Stefano Pettinato. Prática de Governabilidade. Gabriela Ippólito. BDP/PNUD. Apoio na preparação de reuniões e seminários Agradecemos a especial colaboração de Isabel Vásquez. Natalia Rosenberg. Magdy Martínez-Solimán. Esperamos que saibam desculpar qualquer possível omissão. Coordenador do Programa Regional. Produção e tradução Para a transcrição das entrevistas da Rodada de Consultas contou-se com a colaboração de Maximiliano Bourel. Freddy Justiniano. Diretor do Projeto. da Fundação Chile XXI. Erika Moeykens. Representante Residente do PNUD na Argentina. Guido Calvo. Administradora Auxiliar e Diretora Regional para América Latina e Caribe do PNUD. Assessor em Políticas. Fizemos questão de expressar nosso agradecimento a cada uma das pessoas que contribuíram para a realização deste Relatório. A depuração do som da gravação das consultas foi realizada por Federico M. A tradução foi realizada por Marcelo Canosa. María Esperanza Clavell. Carolina Ries e Valerie Biggs da CEPAL. Edelberto Torres Rivas. PNUD. Freddy Justiniano. Josefina Pittaluga. Guadalupe Guzmán. Gonzalo Pérez del Castillo. Claudia Martínez e Merril Stevenson. 212 A democracia na América Latina . Myriam Méndez. Gisela Urriza e Geraldine Watson. Diretora Divisão para as Américas e Europa (DPA). Dante Caputo. Chefe de Escritório. Bernardita Baeza. Angela Kane. DRALC. Políticos e de Manutenção da Paz (EOSG). Consultor do Programa Regional. Reunião com o Administrador do PNUD Participaram da reunião com o Administrador do PNUD. Leandro García Silva. PNUD. e os seguintes participantes do Projeto: Dante Caputo. Assessora de Governabilidade do Programa Re- gional. Katty Grez e Verónica Oyarzún. Elena Martínez. DRALC. Valentina Farrell. em 4 de novembro de 2003. Yvonne Fisher. Carmelo Angulo Barturén. Víctor Arango.Montalvo. do Círculo de Montevidéu. A correção de estilo esteve a cargo de Hinde Pomeraniec. Julia Ramos. sem nenhuma dúvida. DRLAC. Coordenador do Programa Regional. PNUD. Liliana Hecht. María Eva Cangiani. totalmente involuntária. Escritório do Administrador. William Orme. Escritório do Administrador. Marta Maurás.Assuntos Políticos (DPA). Diretora do Escritório do Secretário Geral Adjunto (EOSG). Escritório do Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD. Virginia Gallo. Chefe da Seção Meios. Michael Moller. e Augusto Ramírez Ocampo. Mark Malloch Brown. Diretor de Assuntos Humanitários. Marcelo Burello. Ángeles Martínez e Irene Fraguas. Consultor Acompanhamento Técnico e Acadêmico do Projeto. DRLAC/PNUD.

Índice de Democracia Eleitoral (IDE) Direito de voto Têm direito de voto todos os adultos de um país? Eleições limpas O processo eleitoral transcorre sem irregularidades que constranjam a expressão autônoma das preferências dos eleitores pelos candidatos e alterem o conteúdo fidedigno dos votos emitidos? Eleições livres É oferecido ao eleitorado um leque de alternativas que não estejam constrangidas por restrições legais ou de fato? Cargos públicos eletivos As eleições são o meio de acesso aos principais cargos públicos de um país. e os que ganham as eleições assumem seus cargos públicos e neles permanecem durante os prazos estipulados pela lei? Construção do IDE A escolha dos componentes O primeiro passo para a construção do IDE. Por último. Esses aspectos. certamente. mas não estão tão claramente conectados com o grau de democracia de um regime como os quatro escolhidos. e abarcam uma série de temas que. ou entre sistemas presidencialistas ou parlamentaristas. e as condições para a concorrência livre. têm importância. eleições livres e cargos públicos eleitos. esses elementos possibilitam contar com dados válidos e confiáveis do último ano civil. Da mesma maneira. cuja vigência é responsabilidade do Estado. evitam-se problemas relacionados com medidas de significação pouco claras com respeito ao grau de democracia de um regime. em que influem fatores como: o financiamento dos partidos e das campanhas. em geral. Em segundo lugar. tais como a diferença entre regulamentações eleitorais proporcionais e majoritárias. evitam-se problemas associados com elementos tais como o comparecimento dos eleitores às urnas ou a desproporcionalidade eleitoral. consistiu na escolha dos seus quatro componentes: sufrágio. a inscrição ou registro para votar e a própria votação. Desse modo. esses elementos referem-se a direitos de cidadania. Em terceiro lugar. Isso permite garantir que o índice possa ser interpretado claramente como uma medida do grau em que o Estado garante os direitos da cidadania referentes ao regime político. para qualquer avaliação sobre o caráter democrático de um regime político (figura 1). também. Isso inclui fatores associados ao exercício do direito ao voto. foram considerados centrais.■ Nota técnica sobre o Índice de Democracia Eleitoral (IDE) FIGURA 1 Esta nota descreve os passos dados e as provas estatísticas realizadas para a construção do Índice de Democracia Eleitoral (IDE). eleições limpas. e que podem ser interpretados claramente em termos da teoria da democracia vigente. de modo diferenciado da ação dos cidadãos. Deu-se ênfase na medição de componentes estritamente observáveis. o Executivo e o Legislativo nacional. uma medida composta sobre os direitos políticos relacionados com a eleição dos governos. Eles foram selecionados considerando os elementos centrais tradicionalmente invocados pelos teóricos sobre a democracia para a definição de um regime democrático. evitando o uso de pesquisas sobre percepções. inclusive necessários. em grande parte devido à dificuldade de desenvolver medições apropriadas e a tempo para este primeiro Relatório. Apresentam-se. Desse modo. o uso de recursos Nota técnica sobre o Índice de Democracia Electoral (IDE) 213 . esclarecimentos sobre sua interpretação e utilização. tais como o processo de obtenção de documentos de identidade. e provavelmente o mais importante. que refletem tanto as ações estatais como as dos cidadãos. analisou-se um conjunto de fatores que poderiam ter sido incluídos e não foram. ou seja. alguns componentes que poderiam ter sido incluídos foram deixados de lado por razões “práticas”.

inclusive um. Mas a significação desses acontecimentos e decisões. As condições para as eleições dependem de 214 A democracia na América Latina acontecimentos e decisões tomadas entre as eleições. A medição dos componentes Para o segundo passo para a construção do IDE – a medição de seus quatro componentes – foi preciso tomar duas decisõeschave. como uma forma de garantir a replicabilidade do exercício de codificação. México e Uruguai). só foram requeridas pontuações para três dos componentes – direito a voto. foram utilizados dois procedimentos complementares para codificar os casos. Os valores da escala foram escolhidos para refletir diferenças relevantes da bibliografia. cristaliza-se no acontecimento eleitoral em si. Colômbia. ou seja. A geração de uma base de dados retangular com escalas normalizadas O terceiro passo na construção do IDE foi a transformação das pontuações nas escalas dos componentes em uma base de dados retangular. Canadá. Quanto às regras do processo de codificação. Além disso. Primeiro. começando com o ponto médio. eleições limpas e eleições livres – para os anos em que foram realizadas eleições. enfrentaram-se aspectos bastante mecânicos. A conveniência da construção de novos índices fica como tema para futuras discussões. Um codificador particular realizou uma codificação baseando-se em uma pesquisa extensa e em consultas com numerosos especialistas.33 da pontuação base (por . destacou-se a importância de documentar as bases das decisões de codificação por meio da referência a fontes de informação disponíveis publicamente. como forma de registrar valores intermediários. Equador. rigorosamente. ao processo de codificação propriamente dito. âmbito acadêmico. As escalas foram construídas também de modo que cada ponto correspondesse a situações e acontecimentos relativamente concretos. as escalas – três ordinais de cinco pontos e um ordinal de três pontos – foram construídas determinando primeiro os pontos finais teoricamente significativos e. A primeira diz respeito às regras do processo de codificação e a segunda. após esse processo iterativo.públicos. Desse modo. Finalmente. e em face de possíveis arbitrariedades. e a codificação coletou informação entre os períodos eletivos. sobre a base de fatores observáveis. chegou-se a um alto grau de consenso em relação à codificação das quatro dimensões do IDE. Nesse sentido. em todas as variáveis e em todos os anos. Nos casos que não correspondiam com precisão a nenhum dos pontos das escalas ordinais. e que as decisões de sua codificação pudessem ser tomadas. distanciados conceitualmente o máximo possível. o acesso aos meios de comunicação e a liberdade de imprensa. Brasil. Outras questões importantes dizem respeito às práticas eleitorais a nível subnacional e à estabilidade do regime. As pontuações definidas foram apresentadas e discutidas em profundidade em vários encontros. introduziu-se o uso de sinais mais e menos. Essas discussões conduziram à identificação de discordâncias que levaram a sucessivas pesquisas e mais discussões grupais. organizações internacionais). identificando valores de escala. uma base de dados que inclui pontuações numéricas para todos os casos. que é o interesse central do exercício de medição. mesmo que fossem verificáveis. para o processo pelo qual os atores obtêm o acesso aos cargos governamentais. provenientes de diferentes países das Américas (Argentina. durante muitos meses. Não foram requeridas pontuações para cada caso em cada ano. Não foram incluídos no índice dados baseados em pesquisas sobre percepções. com escalas normalizadas. Estados Unidos. O segundo conjunto de decisões referese ao processo de codificação propriamente dito. evitando pequenas variações entre casos. somando e subtraindo 0. embora as pontuações tenham sido atribuídas a alguns componentes somente durante os anos de eleições. Na verdade. com um grupo de participantes convidados que trabalhavam em diversos contextos (política. Esse passo envolveu uma série de procedimentos. em seguida. essas pontuações foram entendidas como a síntese de processos mais amplos. Os sinais mais e menos foram convertidos em números.

Além disso. a solução é relativamente simples: quando um acontecimento-chave – como a realização de uma eleição – ocorria no fim do ano. qualquer opção que fosse tomada teria sido um pouco arbitrária. e a mudança de governo em junho. a solução foi mais complicada. em 2000. pois não existem unidades de medida para a liberdade eleitoral amplamente aceitas e comparáveis com unidades como quilogramas ou dólares. as pontuações de dois dos componentes que tinham pontuações apenas para os anos em que houve uma eleição – sufrágio e eleições livres – foram estendidas para os anos intermediários. por meio de uma normalização linear simples do intervalo unidade: valor normalizado = valor de escala original / máximo valor possível em escala original Praticamente. No caso das eleições limpas. em seguida. e a mudança de governo realizou-se em janeiro de 1986. devido a que esse elemento distingue os valores atribuídos às eleições presidenciais e parlamentares. as eleições problemáticas foram registradas em 2000 e a retificação da situação. embora as pontuações para os elementos componentes tenham sido registradas em 1985. Em terceiro lugar. à presidência e. Essa prática habitual obedece a razões de parcimônia e está bem justificada. no Peru. essas pontuações foram ingressadas em 1986. as eleições de 1994 em El Salvador foram realizadas em março. o 1 dessa escala não representa na realidade um ponto médio. que levaram Fujimori. seguiu-se um processo um pouco mais complexo. das eleições fraudulentas realizadas em maio na República Dominicana. em 2001. isto é. e da nova presidência que assumiu em agosto. ou porque o processo eleitoral foi interrompido). foram trasladadas a uma métrica comum. está muito mais próximo do 2.exemplo. Um segundo aspecto considerado foi a atribuição de uma única pontuação por país e por ano. a mudança de status em função desse acontecimento foi registrada no ano seguinte. Contudo. essas eleições foram realizadas no fim do ano. em abril e em maio. um 3+ foi convertido em 3. foram convertidos em zeros (0). as escalas dos componentes foram normalizadas. Em alguns casos. Desse modo. Mas um índice único implica vários problemas. Em outros casos. à sua renúncia em novembro. e utiliza-se apenas uma pontuação para caracterizar todo o período anual. Quando os acontecimentos ocorreram na primeira metade do ano. as eleições que terminaram com um período de governos dominados pelos militares. devido a que a situação de um país muda no curso de um ano. pois quando um acontecimento ocorreu na segunda metade do ano. até ser atribuída uma nova pontuação (seja porque foi realizada uma eleição após um período de um governo não eleito. Nesse caso. devido a que o governo não era proveniente de uma eleição. quando em 1985 foram realizadas. Por exemplo. No entanto. Os hífens (-) utilizados para indicar que a atribuição de uma pontuação não era aplicável. Portanto. em julho. as pontuações não foram simplesmente transferidas de eleição para eleição. na Guatemala. Por exemplo. A justificativa para esse procedimento é que a forma em que um governo se origina continua sendo uma característica que afeta sua natureza mesmo depois do momento de sua instalação. ao computar o IDE. ou porque se realizou uma nova eleição. Esse é o caso. foi registrado nesse mesmo ano. As pontuações são uma média das pontuações das eleições presidenciais e parlamentares. porque o objetivo de gerar um índice é oferecer uma síntese da situação de um país. por exemplo. realizaram-se duas eleições fortemente questionadas. foram computados para o mesmo ano.33). cada 1 foi convertido em um 3 e cada 2 em um 4. simplesmente transferindo a pontuação de um determinado ano para os anos subseqüentes. Foram também problemáticos os casos em que ocorreu mais de um acontecimento crítico no mesmo ano. Além disso. portanto a mudança foi registrada em 1994. a escolha do procedimento de normalização tal como foi aplicado às escalas ordinais de cinco pontos Nota técnica sobre o Índice de Democracia Electoral (IDE) 215 . Na codificação desse item foi utilizada uma escala de três pontos para facilitar a interpretação. Por exemplo.

em que uma propriedade amplamente considerada como vital para a existência da democracia esteja totalmente ausente. a maior parte das escalas foi construída de modo que cada ponto da escala pudesse ser interpretado teoricamente. Um caso com valor de sufrágio 0 não apresenta direito a voto de modo nenhum. quanto no sentido de que a evidência necessária para atribuir um zero deve ser convincente. A concepção de que os elementos componentes do IDE são condições individualmente necessárias é altamente exigente. em virtude da forma em que estão combinados. O valor inferior da escala ordinal corresponde à negação da propriedade em questão. o regime deve ser considerado como não-democrático. insubstituíveis e de igual peso. tanto para as escalas construídas de modo tal que um zero seja utilizado apenas em casos extremos. enquanto um caso com valor de direito a voto 1 depois da normalização tem direito a voto adulto completo. ao transformar as pontuações das escalas componentes em uma base de dados retangular. e ainda mais. freqüentemente. o problema da distância se refere unicamente aos pontos compreendidos entre o ponto inicial e o ponto final. amplamente. todas as escalas têm pontos finais com significação teórica. Por exemplo. portanto. não funcionam muito melhor do que esse procedimento simples. a probabilidade de introdução de um erro importante é relativamente pequena. Em termos formais. Os quatro elementos componentes do IDE são. evitando variações menores entre os casos verificáveis. postulados como condições individualmente necessárias. conceitualmente. e que os diferentes valores da escala estivessem. Por outro lado. . A escolha de regras de agregação O quarto passo para a construção do IDE – a escolha de regras de agregação para formalizar a relação entre os elementos componentes do índice – foi resolvido por meio do uso de uma regra de agregação simples. Essa concepção se formaliza calculando o produto do valor de cada um dos elementos componentes. Portanto. como os teóricos argumentaram. A idéia central utilizada para isso é a opinião bem estabelecida de que os quatro elementos componentes do IDE são partes que consti216 A democracia na América Latina tuem um sistema. Os valores da escala foram escolhidos para refletir diferenças identificadas como relevantes na bibliografia. Isso é assim. fortemente dependentes dos dados e. o padrão teoricamente estabelecido. no qual 0 indica ausência total da propriedade e 1 indica presença total da propriedade. Embora pudessem ser utilizados outros métodos psicométricos mais sofisticados. Esse é um padrão “duro”. e podese supor que caem no intervalo unidade. o IDE é calculado seguindo a seguinte equação: Índice de Democracia Eleitoral = Direito a voto x Eleições Limpas x Eleições Livres x Cargos Públicos Eleitos Essa equação retoma uma idéia-chave da teoria sobre a democracia: quando um elemento componente está completamente ausente. todas as escalas utilizadas para medir os quatro componentes são escalas ordinais de cinco pontos – é transparente e justificável. sobre a democracia. eles seriam mais complicados. Desse modo. Na prática. por isso foi utilizada conjuntamente com um critério conservador na atribuição de zeros aos elementos componentes. menos acessíveis. que pode ser visto como menos “perdoador” do que outras regras de agregação. enquanto o valor superior corresponde à sua presença completa. que esses quatro componentes são tão fundamentais para a caracterização global de um regime. Por um lado. essa operação garante que um valor zero em qualquer dos quatro elementos componentes leva a classificar o caso como não-democracia.– com a modificação introduzida no elemento eleições limpas. que sua ausência o tornaria diretamente não-democrático. devido a que o eleitorado não tinha opção entre candidatos alternativos e a que essas eleições não levaram ao acesso a cargos que exercessem efetivamente poder estatal. o fato de que os sistemas de tipo soviético tivessem eleições com direito a voto completo não tem significação do ponto de vista da democracia. o mais distante possível entre si.

Realizou-se um controle matemático utilizando a inversão da conhecida e muito conservadora prova de Kolmogorov. em geral. respectivamente. Isso indica que. enquanto no primeiro período os componentes foram unidimensionais.82. mas os limites precisos dependem do valor do índice e. respectivamente. é importante notar que os modelos de medição aditivos padrão descansam na presunção de que a agregação opera em múltiplas medições paralelas. respectivamente. Essa análise baseia-se em perturbações nas codificações. isso já não era válido no período posterior a 1990. A solidez das regras de agregação Realizou-se uma prova de comparação de quatro possíveis regras de agregação para combinar os elementos componentes do IDE: o produto dos quatro componentes utilizados no IDE.25 e 0.2.Smirnov para a função de distribuição – baseada em matemáticas completamente diferentes – e foram obtidos resultados semelhantes.75. indiscutivelmente. dado que os componentes do IDE são. para saber se outros codificadores poderiam ter tido atribuição de valores diferentes dos elementos componentes do IDE. a média aritmética e a geométrica semelhantes entre si. esperado de acordo com o projeto experimental.99 ou maiores – e as mudanças na média e na dispersão foram bastante previsíveis. sem importar a regra utilizada. De acordo com o padrão mais conservador possível. mostrando um viés negativo ou positivo. e o DE de 0.26 e 0. com um viés em uma valoração inferior de um ou mais componentes.23. respectivamente. é melhor a dispersão dos casos para evitar o conglomerado de casos que torna difícil interpretar suas diferenças com clareza. Isso sugere que aplicando essas últimas regras. Desse modo. A diferença mais importante encontra-se entre as médias e os desvios padrão (DE). também semelhantes entre si o valor mínimo e o IDE. o que indica que se preserva o ordenamento geral dos casos.91. Contudo. Os resultados mostraram que. Essa amplitude é razoavelmente constante ao longo do intervalo citado. respectivamente. por Nota técnica sobre o Índice de Democracia Electoral (IDE) 217 . uma amplitude de margem generosa é de aproximadamente ±0.92. não foi realizada uma prova formal de confiabilidade entre os codificadores. Para valores do índice entre 0. o IDE qualificará um país como não-democrático apenas quando as normas democráticas foram. Em compensação.92 e 0. quando se realizou uma prova em dois períodos (1960-1985 e 1990-2002). e uma amplitude de margem razoavelmente conservadora é de ±0. Os resultados dessa prova demonstraram que o IDE é bastante estável – as correlações de intervalo de medição com todas as outras “réplicas” foram 0.Portanto. deixadas de lado. e por outro lado. Esse resultado é consistente com a teoria utilizada para selecionar as regras de agregação para o IDE.84 e 0. a média geométrica dos quatro componentes e a média aritmética dos quatro componentes. o valor mínimo dos quatro componentes da escala.28. de acordo com um projeto experimental e com o exame do índice global “replicado” resultante. os alfas de Cronbach resultantes foram de 0.1. o valor mínimo e o IDE têm médias de 0. As médias geométrica e aritmética são de 0. Em oposição. Com efeito.95 e 0. Mas existem diferenças entre os índices. as correlações de intervalo de medição são sempre muito altas. os valores do IDE estão dentro de ±0. o que sugere que o IDE é uma medida de um fenômeno unidimensional. utiliza-se a matemática para criar codificadores “virtuais” deformados de diversos modos. O caráter dimensional dos elementos componentes A prova de escalabilidade dos quatro elementos componentes do IDE deu como resultado um alfa de Cronbach de 0. Testando o IDE Confiabilidade entre codificadores e estimativa de erro Por razões de tempo. e o DE de 0. sendo por um lado. Essa prova também proporcionou algumas margens de erro básicas do IDE sobre a base das “réplicas”. são mais estreitos perto dos pontos finais.07. No entanto.21. realizou-se uma análise de sensibilidade.20 e 0. por exemplo.

para identificar precisamente que aspecto ou aspectos estão refletidos nessa pontuação. a prova de escalabilidade torna ainda mais válida a escolha das regras de agregação propostas em lugar da muito habitual regra de adição. em diferentes momentos é. Por um lado. O IDE pode ser utilizado também como um sinal. Interpretando e usando o IDE O IDE é uma escala de 0. tem um certo grau de erro de medição e dentro dos limites desse erro não é aconselhável realizar qualquer afirmação categórica sobre diferenças. a decisão de agregá-los a uma pontuação única não é invalidada por nenhum desvio potencial da unidimensionalidade. para os valores do IDE entre 0. De fato. Este conceito não é tão estreito como alguns o consideram. que se vê afetado pela ação ou inação de um governo. o fato de que um país tenha recebido uma pontuação perfeita de 1. ainda que esteja focalizado completamente na celebração de eleições inclusivas. livres e limpas. em geral.00 não deve ser interpretado no sentido de que não possa melhorar. um país pode até ter introduzido melhorias notáveis e. . O IDE não é certamente uma medida ampla da democracia. é metodologicamente injustificável oferecer um ranking excessivamente preciso de países. não apenas em termos de seus elementos. Portanto. no entanto. O índice leva em consideração. também. e o que sucede nesse período. mas também em termos da relação entre as partes constitutivas do regime e sua contribuição para o conjunto.00 um grau de democracia. é importante notar que qualquer comparação devese basear em diferenças consideráveis e não menores. Afinal. pois as pontuações específicas de cada país convidam o leitor a voltar aos quadros dos elementos que o compõem. O IDE pode ser utilizado para propósitos 218 A democracia na América Latina comparativos. Isso é muito significativo. como é habitual no contexto de outros índices. é importante notar que o índice não deve ser interpretado como uma avaliação das ações do governo. tanto para comparar um país consigo mesmo ou com outros países. que simplesmente transformam as pontuações do IDE em um ranking.00 indica um regime não democrático e qualquer número maior do que 0. na qual 0. Desse modo. Por outro lado.85 e outro com um de 0. como qualquer índice. considerados insubstituíveis. a comparação de um país consigo mesmo. os casos que difiram em menos desse valor – por exemplo. Para evitar confusões. é preciso ressaltar que o conceito que está sendo medido é o de democracia eleitoral.teoria. como foi estimado por meio da análise de sensibilidade. A identificação de casos de referência que sejam representações prototípicas dos traços associados com uma gama de pontuações pode ajudar a proporcionar maior concretude ao significado de cada número. tanto as dimensões não incluídas no índice quanto os padrões mais exigentes dos elementos componentes do IDE. uma amplitude de margem de erro generosa é de aproximadamente ±0. significa que qualquer defeito detectado pelo IDE deve ser considerado como uma restrição importante aos direitos políticos dos cidadãos. a mais simples de interpretar. ficar em inferioridade em comparação com outros países. um país com um IDE de 0. o IDE pode ser usado como uma ferramenta analítica valiosa. É.07. sem levar em consideração os graus de incerteza associados a elas. que influi nas condições para realizar tais eleições. No entanto. o que ocorre com os próprios governos entre as eleições. bem como por outros agentes estatais e atores sociais.00. Desse modo. Dessas duas formas. Portanto.75. abarca mais do que “simples eleições”.25 e 0. uma medida de uma concepção do regime político democrático baseada nos postulados mais amplamente compartilhados no que se refere aos direitos políticos fundamentais. Além disso. pois oferece uma pontuação resumida que ajuda os que a utilizam a identificar o aspecto distintivo do regime político de cada país.92 – estão demasiado próximos para que seja possível distingui-los de maneira válida. Desse modo. se estes tiverem avançado mais. É uma medida do estado de um sistema. sendo que as pontuações mais altas indicam um maior grau de democracia. na verdade.00-1. Porque o IDE.

Os dados do PRODAL são elaborados a partir de definições conceituais próprias e de procedimentos metodológicos e aplicações técnicas que permitem chegar a resulta- Apresentação Esta nota técnica descreve a fonte de informação. 2003.democracia. com o mesmo questionário e o mesmo livro de códigos. Esta seção descreve as fontes de dados em que a análise apresentada no Relatório se baseia. Na segunda seção se descreve. Explica o sentido. Em 2002 mediante um convênio entre PNUD e Latinobarômetro foram incorporadas à pesquisa 28 perguntas (62 variáveis).undp. 2003b. Kikut e Vargas Cullell. disponível na página web do Relatório sobre A Democracia na América Latina: www. dedicadas a temas definidos pelo PRODDAL. 2003.■ Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) americanos vêem a sua democracia” está baseada no trabalho realizado por uma equipe coordenada por Jorge Vargas Cullell e integrada por Miguel Gómez. Segunda Seção. As amostras variam entre 1. 2003a.democracia. Vargas Cullell e Gómez.). p. 2003). composta de 7 documentos mais extensos. 2003. aproximadamente um terço do questionário. O documento contém duas seções.000 e 1200 pessoas por país. as amostras podem estar afetadas pelos vieses e limitações conhecidos da amostragem de cota. Para explicações mais detalhadas é conveniente consultar a memória do processo metodológico e estatístico aplicado. Vargas Cullell. Kikut. A pesquisa foi feita em espanhol em 18 países (pela primeira vez foi realizada na República Dominicana). que constituem a principal inovação do estudo. Em função disso. 2003b.org. o desenho metodológico e os procedimentos estatísticos utilizados na elaboração dos principais índices e indicadores empregados para a análise das percepções e comportamentos das cidadãs e dos cidadãos na América Latina. 187 e ss. Vargas Cullell e Benevides. As descrições contidas neste documento complementam os quadros apresentados no compêndio estatístico.508 pessoas. (ver. Benavides y Gómez. que introduz o estudo de opinião sobre a democracia. utilidade e alcance destes índices e indicadores. Essa equipe elaborou o marco conceitual e metodológico a partir do qual foram definidos os índices e indicadores respectivos e realizou a análise da informação cujo principal objetivo foi possibilitar um estudo comparativo sobre o exercício dos direitos e deveres cidadãos na América Latina e indagar sobre o apoio cidadão à democracia. o processo metodológico para a elaboração do Índice de apoio à democracia (IAD) e suas partes componentes. é apresentada uma valorização geral sobre a pesquisa Latinobarômetro como fonte de informação e uma indicação sobre os dados e métodos de análise empregados no estudo. Gómez y Vargas Cullell.Pesquisa de opinião sobre a democracia A seção do Relatório “Como os Latino- Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 219 . com detalhe. CD/Compêndio Estatístico. 2003ª. Todos os esquemas empregam alguma versão da amostragem polietápica e praticamente em todos a seleção final dos entrevistados foi realizada usando amostragem de quota. I. Convidamos o leitor especializado que desejar mais informação a consultar a documentação detalhada sobre a definição conceitual e as decisões metodológicas da análise no site web do PRODDAL www. Foram entrevistadas 19. Na primeira. “Estudo de Opinião sobre a Democracia”. Gómez. Latinobarômetro como fonte de informação Latinobarômetro é um estudo comparativo realizado periodicamente em todos os países da região. Lorena Kikut e Tatiana Benavides.org (Benavides e Vargas Cullell. 2003.undp.

A partir dessas fontes e sobre a base conceitual e metodológica. ■ A seção regular da pesquisa de opinião realizada pela Corporação Latinobarômetro em 2002. já que o texto não apresenta a informação necessária para uma auditoria técnica das amostras. Do exame das principais características dos desenhos utilizados em cada um dos países. como parte de 1 A seção proprietária do PNUD. A informação proveniente da seção proprietária está refletida nos quadros do compêndio estatístico. a série temporal. a seção proprietária do PNUD e. Cabe assinalar que isso. foi elaborado o Índice de Apoio à Democracia. A metade das amostras utiliza afixação desproporcionada. Trata-se de uma avaliação simples. de modo secundário. ■ A série histórica de perguntas do Latinobarômetro. a maneira de medi-lo e as fragilidades do método mais amplamente usado. Mesmo assim. as observações desta seção são de caráter geral e inevitavelmente insuficientes. dessa informação derivam-se as seguintes conclusões gerais. Para sua construção foi preciso analisar: ■ A questão geral do apoio cidadão à democracia. todas as amostras são afetadas pelas limitações e viés conhecidos da amostragem da quota. se substitui o selecionado quando não está em sua casa ou não aparece em prazo curto. seu ativismo político e distância relativa. mas. Por isso. Os índices e indicadores sobre as percepções e comportamentos dos cidadãos utilizam informação de três fontes: a seção regular. Em um par de casos é empregada a técnica aleatória “último aniversário”. a informação proveniente da seção regular unicamente se apresenta de forma já processada. Dados e metodologia O objetivo principal da seção proprietária do PNUD foi possibilitar um estudo comparativo sobre o exercício dos direitos e deveres dos cidadãos na América Latina. com base em um convênio entre o PNUD e o Latinobarômetro. 1 ■ A seção proprietária do PNUD . Em conseqüência. permitem identificar as precauções para a manipulação dos dados no futuro. ■ As tendências dos cidadãos em relação à democracia. Entretanto. de forma suplementar. ■ O tamanho de cada uma das tendências. Esses temas são apresentados a seguir. Os índices e indicadores sobre percepções e comportamentos cidadãos utilizam informação de três fontes. Isso complementou a pergunta que a seção regular do Latinobarômetro faz sobre as atitudes políticas em um amplo conjunto de temas. em si. porque logo são empregados fatores de ponderação para obter resultados em proporção à população de referência. ■ Praticamente todos os desenhos empregam estratificação geográfica e segundo o tamanho das localidades e cidades. na prática. particularmente por uma subestimação das pessoas que têm menor disponibilidade – especialmente aquelas que têm trabalhos de tempo integral – e uma superestimação das que trabalham por conta própria ou em casa. 220 A democracia na América Latina . um determinado indicador ou índice. ■ A regra de agregação do Índice e sua validação estatística.dos específicos que não são necessariamente coincidentes com os das fontes utilizadas. com a finalidade de identificar aspectos relevantes para o uso adequado da informação. o que impede dar atenção a algumas das eventuais fraquezas do projeto técnico (Gómez. ■ Todos os desenhos empregam alguma versão da amostragem polietápica e praticamente em todos a seleção final dos entrevistados é realizada usando amostragem de quota. compreende as perguntas P1U a P28U do questionário utilizado para o estudo. de uso exclusivo. a maneira de determiná-las e a classificação das opiniões. Desenho das amostras O Relatório metodológico permite um comentário sobre as amostras utilizadas no Latinobarômetro 2002. não representa um problema. 2003)2.

El Salvador. todas são de igual importância. Paraguai e Chile). (c) Mercosul e Chile (Brasil. considerando cada país como uma unidade com um mesmo peso.70 ou mais são considerados confiáveis e consistentes). aplica-se cada uma das variáveis de maneira independente (como se fez no Índice de apoio à democracia). Foram destacadas aquelas que tivessem um nível de significação igual ou inferior a 1% (Ver Compêndio estatístico). o que supõe nestes casos uma super-representação das opiniões da população urbana nos promédios destes paises. Honduras. Equador. deve-se descartar a respectiva escala. Colômbia. A maioria dos assuntos aos que elas fazem referência são problemas de caráter nacional (por exemplo. apesar do peso que teriam dentro Análises estatísticas Na análise estatística realizada para o Relatório sobre A Democracia na América Latina. em todos os casos foram feitas análises fatoriais com a finalidade de determinar dimensões implícitas e foram elaboradas escalas por soma simples. Se não for alcançado este valor. parecem referir-se a um mesmo tema. Por isso as diferenças nacionais são importantes e. Costa Rica e Panamá. Unidade de análise As unidades de análise para o estudo do tema de apoio à democracia. Nicarágua. Para estabelecer a associação entre duas variáveis numéricas é usado o coeficiente de correlação de Pearson. 2003). República Dominicana e América Central (que inclui Guatemala. pode-se dizer que. Se. As razões para não ponderar são as seguintes: • As cidadãs e os cidadãos expõem opiniões e avaliações sobre o sistema político do qual fazem parte e não em relação com uma “macrounidade” política latino-americana. basicamente seriam refletidas as opiniões e avaliações de brasileiros e mexicanos (aproximadamente 60% da população total). Argentina. quando se trata de uma variável ordinal e outra nominal utilizou-se Tau-c. Foram obtidos valores para América Latina em seu conjunto (18 países) e para três sub-regiões: (a) México. Peru e Bolívia). Quando isso ocorre. fosse ponderada a amostra pela população para obter tendências a nível latino-americano. foi utilizado o software SPSS versão 11. baseado no Latinobarômetro. tanto uns quanto outros fazem referência. Uruguai. Em resumo. em princípio. Durante o processo de análise da infor- 2 Para uma análise critica do Latinobarômetro 2002 consultar o documento preparado por Miguel Gómez para o relatório A Democracia na América Latina (Gómez. embora o Latinobarômetro reflita para alguns dos paises fundamentalmente a opinião da população urbana – o que pode produzir uma distorção nos dados finais – o Latinobarômetro é sem dúvida a fonte de informação que melhor apresenta as opiniões da população na região em conjunto. Por isso. o Índice de apoio à democracia (IAD) e seus componentes. existe um viés na amostra em relação à população urbana. foi adotada esta base de dados para a análise de opinião sobre a democracia na América Latina. cujos valores oscilam entre 0 e 1. em particular. Portanto. Nesse caso os valores expressam médias do grupo de países dentro da unidade maior. Para estabelecer a associação entre variáveis nominais empregou-se a medida V de Crammer e. foram utilizadas técnicas de análise de profiling (perfil). para examinar se os valores de uma variável dependente estão associadas a determinados fatores sóciodemográficos e atitudes políticas. Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 221 . o desempenho da democracia). neste Relatório.Para alguns dos países. Para integrar a informação de perguntas que. Como indicador da consistência ou confiabilidade interna das escalas assim construídas é utilizado o coeficiente Alfa de Crombach (coeficientes de 0. ■ mação. foram os países. para efeito de estudo. não foi ponderada a amostra para chegar a conclusões sobre “América Latina” ou para uma das sub-regiões mencionadas anteriormente. (b) Região Andina (Venezuela. a primeira vista. Os métodos de análises estatísticas empregados foram simples. No entanto.

Para o cálculo deste erro é muito importante considerar o desenho com o qual foi selecionada a amostra. que poderia ser medido se fosse possível dispor de todas essas amostras. umas amostras são nacionais. aos países pequenos (por exemplo. ■ Os desenhos das amostragens nos países incluídos no estudo são claramente diferentes. Por exemplo. não é possível fazer referência aos erros de não amostragem. porém. calcula-se o erro padrão que é a raiz quadrada da variação populacional da estatística. porcentagens.02 a 0. entre outros. Em termos gerais. proporcionasse resultados representativos para cada um dos países incluídos no estudo. se ponderássemos a amostra do Brasil por população.50. Como não são conhecidos os resultados de uma auditoria técnica do Latinobarômetro 2002. 4 Os erros de não amostragem são os cometidos durante a coleta e processamento da informação. Na prática. as outras nações centro-americanas e o Brasil. Isso permite medir o grau de precisão com que esse dado estatístico se aproxima ao resultado obtido nas entrevistas com todos os elementos da população sob as mesmas condições. A variabilidade existente entre todas essas possíveis amostras é o erro da amostragem. Não há informação a nível de unidade primária de observação. não se pode apresentar uma opinião sobre a precisão das estimativas. Em conseqüência. Nicarágua. Uruguai. Costa Rica) lhes corresponderia uma quota muito pequena. Nestes casos. assim como uma limpeza do arquivo. situação obviamente irreal. Para calcular o erro da amostragem de uma estatística (médias. Quando se fez o “profiling” das pessoas com diferentes tendências à democracia. onde o tamanho médio do conglomerado final não é muito alto – cerca de 13 entrevistados – se são supostos valores de roh usuais de 0. os resultados refletem a situação da população entrevistada em seu conjunto. Como foi indicado em seções anteriores. Quando selecionamos uma amostra ela é uma das tantas amostras possíveis a serem selecionadas na população. o que se faz é calcular esse erro sobre a variação obtida a partir da amostra. A comparação dos resultados da amostra com os da população. Por outra parte. a análise dos erros de amostragem é muito limitada porque a informação contida no Relatório metodológico 2002 não permite apresentar os erros da amostragem (erros padrão. EP) e os efeitos de desenho (DEF) para índices e perguntas selecionadas. o ED alcança no máximo 1. à experiência de seus próprios países e não aos da América Latina. em alguns países. podemos dizer que em casos como o da Costa Rica. outras são urbanas e. o universo da amostra do Brasil são algumas cidades e não toda a população. Esses erros podem ser controlados mas não quantificados. 2004).04. ■ Os tamanhos originais da amostra para cada país não foram estabelecidos pela Corporação Latinobarômetro para facilitar uma análise posterior que. mas podem ser controlados construindo um adecuado instrumento de medição. na realidade estaríamos dando um peso excessivo aos habitantes dos centros urbanos em relação aos habitantes de outros países onde as amostras parecem um pouco mais “nacionais”. 222 A democracia na América Latina . Precisão dos resultados3 Toda pesquisa por amostragem é afetada por dois tipos de erros: os erros de não amostragem4 e de amostragem5. foi utilizada a amostra em seu conjunto sem ponderar. ao mesmo tempo que obtivesse resultados representativos para a população da América Latina em seu conjunto. diferenças e totais).da amostra ponderada. o que 3 A explicação sobre os erros de amostragem e não amostragem é tomada literalmente da redação feita por Luis Rosero-Bixby para o estudo sobre Cultura democrática em Costa Rica 2004 do Projeto de Opinião Pública da Universidade de Vanderbilt (Vargas Cullell e Rosero-Bixby. dá uma idéia sobre a possível geração de viés que diminui a representatividade da amostra. revisão de questionário e adequada codificação. cobrem só alguns centros urbanos. supervisionando o trabalho de campo. treinando os pesquisadores para uma correta aplicação do instrumento. criando um programa de captura de dados eficiente. 5 Os erros de amostragem são produtos do acaso e são resultado do fato de se entrevistar uma amostra e não a totalidade da população. inclusive. Se ponderássemos a base de dados consolidada atual por população. e não “das e dos latinoamericanos”.

Todos os cálculos e estimativas foram realizados com base nessa amostra que inclui a dupla ponderação do Paraguai. Em outros casos.73 ou 2 vezes aos obtidos usando a fórmula usual. que essas mudanças seriam as esperadas se tivesse sido realizado um estudo com 1. os resultados médios do conjunto dos países da América Latina (em décimos de ponto percentual) e mudam um pouco os resultados médios dos países 20.501 Amostras totais. Na prática. as amostras válidas são menores do que o total e diferentes segundo a variável sob consideração. em relação aos que seriam obtidos se não houvesse ponderação quadro 1 TAMANHO DA AMOSTRA DO ESTUDO Amostra Número de entrevistas ou tamanho da amostra não ponderada (17 países) Tamanho da amostra ponderada (17 Países) Tamanho da amostra ponderada (18 países após a inclusão da República Dominicana) Tamanho da amostra ponderada (18 países após a dupla ponderação do Paraguai) # casos 18. em outros casos. Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 223 . se fossem utilizados os mesmos critérios e fossem aplicadas de forma apropriada as técnicas de amostragem estatística. o procedimento de selecionar cidades ou municípios e logo depois subamostrá-los. como de Equador.200 pessoas nas mesmas localidades onde foi aplicada a amostra. A não consideração da “não resposta” Desde o início da análise decidiu-se não considerar a “ não resposta”. porém. o que implica erros de amostragem de 1.significa que a conglomeração aumenta a variância de p em um 50% e o erro de amostragem em 22%.200 pessoas. o tamanho da amostra consolidada era de 18.101 da amostra. o que leva ao tamanho de amostras válidas inferiores. especialmente quando as perguntas foram agrupadas para formar os índices empregados na análise de resultados. pesaria como “meio país” quando se acrescenta informação para analisar a situação regional (América Latina) ou sub-regional (Mercosul e Chile). Por tudo que foi mencionado.508 casos. um peso similar ao dos outros 18 países. Entretanto. Aos dados do Paraguai foram dados uma ponderação dupla com a finalidade de simular uma amostra de 1. a porcentagem de não resposta é elevada.508 18. O Quadro 2 apresenta essa diferença em relação ao Índice de Apoio a Democracia.200 pessoas nesse país. no estudo. do contrário. quando se trata de variáveis sóciodemográficas como a idade. que se analisara com detalhe na seção seguinte. muito levemente.508 a 20. As tabelas do compêndio estatístico apresentam as amostras totais e as amostras válidas para a maioria das variáveis que foram empregadas na análise. Os “não sabe” e “não responde” foram unidos e declarados 6 Quando o estudo cobria 17 países. os resultados não deveriam ser muito diferentes dos que efetivamente foram obtidos com o estudo de 600. Incluindo República Dominicana acrescentaram-se mais 1. Isso aumentou o tamanho da mostra de 19.508 casos6. amostras válidas e não-respostas O tamanho da amostra total consolidada do Latinobarômetro 2002 nos 18 países onde foi realizado o estudo é de 19.501 19. Em alguns casos a porcentagem de não resposta é baixa – por exemplo. da sub-região do Mercosul e Chile (dois a três pontos percentuais). devido às “não resposta”. Ao dar maior peso ao Paraguai mudam.000 registros. sexo ou o nível educacional do entrevistado. Os motivos que justificaram essa decisão foram os seguintes: ■ Permitir conferir ao Paraguai. produz níveis de conglomeração elevados (50 ou mais entrevistados) e ED que podem ser de 3 ou 4. ■ Se tivesse sido empregada uma amostra de 1. magnitudes totalmente toleráveis.108 registros (Quadro 1). supõe-se.

5 21.224 1.7 33. a amostra válida inclui os casos resgatados através do procedimento descrito no texto metodológico respectivo (Kikut. A exclusão da “não resposta” dos resultados na análise dos dados é necessária com a finalidade de não fazer suposições sobre as atitudes das pessoas que se encaixaram nessa categoria e que poderiam ter influência sobre os resultados das análises multivariadas e na construção de índices. feito automaticamente pelo programa estatístico Fonte: Compêndio estatístico 7 Em círculos acadêmicos. isto é devido a necessidade de arredondar os totales ponderados. sempre é possível a reconstrução dos valores originais e a dedução do volume de “não resposta”.7 36.Dominicana Uruguai Venezuela América Latina 1. as porcentagens de quadros e gráficos são das amostras válidas e não das amostras totais. da “saúde” da democracia.1 9.0 22. Gómez e Vargas Cullell.210 1.000 1. a não consideração da “não resposta” como alternativa foi sistemática. Dessa maneira. 2003ª.200 1.101 964 886 663 768 808 873 938 577 703 747 1. Vargas Cullell e Kikut.8 43.200 1.0 21. Gómez y Vargas. 224 A democracia na América Latina . 2. para todos os resultados inclui-se o tamanho da amostra em que estão baseados.3 O método de medição do apoio cidadão à democracia mais amplamente utilizado e suas fragilidades Na pesquisa Latinobarômetro foi usada uma pergunta para acompanhar a lealdade das cidadãs e dos cidadãos latino-americanos em relação à democracia7.como missing (valores faltantes).7 24.011 856 909 926 928 15. indiretamente.0 19. ou não resposta (não sabe e não responde).187 1. A pergunta diz: Com qual das seguintes frases o(a) senhor(a) está mais de acordo? 1.8 18.7 28. para não serem levantadas hipóteses sobre as atitudes das pessoas que se encontram nessa categoria. ou amostra efetiva quadro 2 (“n” de respostas válidas). 2003: 13-16). ou amostra efetiva. é necessário suprimir a “não resposta”. AMOSTRAS TOTAIS E AMOSTRAS VÁLIDAS PARA O ÍNDICE DE APOIO A DEMOCRACIA EMPREGADO NA ANÁLISE DO LATINOBARÔMETRO País Amostra total Índice de apoio à democracia Amostra válida* Argentina Bolívia Brasil Colômbia Costa Rica Chile Equador El Salvador Guatemala Honduras México Nicarágua Panamá Paraguai Peru Rep.016 1.7 25.031 833 794 1.005 1.217 % não resposta* 19.242 1. No caso dos quadros e gráficos referidos ao IAD e aos modos de participação dos cidadãos.188 1. Isso também foi feito no cálculo das tendências em relação à democracia no cálculo do Índice de Apoio à Democracia (IAD).4 15.7 26.010 1.A democracia é preferível a qualquer outra forma de governo. 2003.200 1. Apresentação de resultados No texto principal do Relatório. e por isso sempre é possível a reconstrução dos valores originais e deduzir assim o volume da não resposta. ** Os valores para a região são diferentes da soma dos totais por país.200 1.000 1.Em algumas circunstâncias.7 14. Nesse caso.014 1.1 22. A decisão adotada é conseqüente e consistente com o conteúdo total dos textos. São excluídos os valores que faltam. políticos e jornalísticos essa pergunta é tratada como uma medida-resumo do apoio cidadão à democracia e. Para realizar as análises multivariadas e a construção de índices complexos.200 20. Em todos os casos.000 1. um go- * Após o resgate de casos através dos procedimentos indicados nos seguintes documentos: Kikut.006 1. 2003.8 30.1 29. ano após ano seus resultados são observados com especial atenção. foi incluído o tamanho da amostra na qual se basearam. Para evitar a indução ao erro da não consideração da “não resposta”. para efeitos de análise.

se diminui..4 32. o que significa democracia?”) e P31ST (“As pessoas. por outro lado.? Porcentagem que apóia sistema democrático e que está de acordo com… P28UA P28UB P28UC P28UD P38STB Com que o presidente não se limite às leis Com que o presidente imponha ordem pela força Com que o presidente controle os meios de comunicação Com que o presidente deixe de lado o Congresso e os partidos Não me importaria que um governo não democrático chegasse ao poder. as que escolhem a resposta 2 são as que apoiariam sua substituição por um sistema autoritário e as que selecionam a resposta 3 têm um comportamento ambivalente. surgem resultados que. supõe-se que o apoio à democracia aumenta.6 32. Quando se relaciona a pergunta P32ST com outras que medem o apoio ou a aceitação de regras democráticas. ou uma boa medida indireta da “saúde” da democracia. prima facie. freqüentemente. foram somadas as respostas “em desacordo” e “muito em desacordo” com cada uma das afirmações. quadro 3 PROPORÇÃO DE PESSOAS QUE APÓIAM A DEMOCRACIA COM RESPOSTAS “INESPERADAS” EM RELAÇÃO AO APOIO A MEIOS AUTORITÁRIOS PARA RESOLVER PROBLEMAS P32ST Pergunta O(A) senhor(a) está de acordo.. seja suficiente para um tratamento mais profundo do apoio cidadão. podem parecer inesperados ou simplesmente inconsistentes. Uma significativa proporção das pessoas que dizem apoiar a democracia demonstra.Para pessoas como nós. ao longo do tempo. A melhor situação para a democracia de um país seria aquela em que quase todos os entrevistados escolhem a resposta 1 e. como medida-resumo inicial. em particular às perguntas P30ST (“Para o(a) senhor(a). Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 225 .3 32. Embora a pergunta P32ST seja um ponto de entrada útil.9 44. as pessoas que escolhem a resposta 1 (“a democracia é preferível”) são as que apóiam a democracia. por si só. é útil como ponto de entrada no tema. No caso das pessoas que manifestam apoiar um sistema democrático. 2000). Não obstante.foi criticada como medida do apoio à democracia8 (Seligson. Da lista. escolha só uma característica que para o(a) senhor(a) seja a mais essencial em uma democracia”). sua crítica não invalida necessariamente a pergunta como ponto de entrada para o exame do apoio cidadão à democracia. A debilidade indicada por Seligson pode ser resolvida examinando a pergunta P32ST em relação a outras do mesmo Latinobarômetro. diferem em seus pontos de vista sobre as características mais importantes da democracia. para o tema da lealdade cidadã em relação à democracia. 2000). isso não significa que.9 Notas: Não foram incluídas respostas NS/NR. Se. 3. à primeira vista. em relação à sua idéia de democracia. 8 Seligson argumenta que. a freqüência da resposta 1 aumenta. ao não especificar a idéia de democracia que as pessoas possuem. A pergunta – codificada na pesquisa Latinobarômetro com a chave P32ST . a pergunta P32ST tem um componente de indeterminação. Propõe explorar o apoio ao sistema mediante uma bateria alternativa de perguntas (Seligson. Assim. se resolvesse os problemas do país 38.verno autoritário pode ser preferível a um democrático. Embora sua observação coloque a necessidade de manter uma atitude cautelosa na interpretação dos resultados. a pior seria aquela em que a maioria se inclina pela resposta 2. o apoio declina. pois as pessoas adotam uma posição. dá no mesmo um regime democrático e um não democrático. potencialmente problemático.

Do ponto de vista indutivo.4 Democracia mais importante Ambas por igual Desenvolvimento mais importante Nota: Não foram incluídas respostas NS/NR. Esta segunda posição é a adotada no Relatório. tanto em termos gerais quanto em assuntos específicos. Por um lado. a avaliação da democracia como um bom sistema de governo. por exemplo. vistas em seu conjunto. então. Seria preciso. podem ser adotadas. explorar a inter-relação entre variáveis coloca a necessidade de contar com um conceito que permita estudar se as atitudes de apoio ou rejeição ao regime democrático configuram posições determinadas.8 20.possibilitasse a análise da vulnerabilidade das democracias latino-americanas. verdadeiro.7 46. as respostas inesperadas podem ser empregadas como ponto de partida para um estudo das lealdades cidadãs à democracia. daqueles que demonstram atitudes pró-autoritárias. devido a seu escasso interesse analítico. Implica não apenas assumir que as respostas inesperadas são sempre o reflexo de atitudes inconsistentes. Ante essas respostas inesperadas. a pergunta P32ST. deveria ser analisada em relação a outras perguntas que exploram dimensões mais concretas desse apoio. a idéia seria examinar se é possível distinguir os setores que consistentemente têm atitudes democráticas. Este conceito deveria ser também uma ferramenta que -adaptando o enfoque de Linz. Cabe colocar um último comentário sobre a fonte de informação disponível. necessariamente. tal posição é equivocada. Respostas igualmente “inesperadas” surgem quando se examina o apoio declarado à democracia em relação a. Em princípio. 226 A democracia na América Latina Se esse fosse o caso. Embora trate-se de um material va- . atitudes contrárias ao funcionamento de instituições básicas da democracia (como o Congresso e os partidos) e apóia a governantes que utilizarem meios autoritários para resolver os problemas do país. a pergunta P32ST como medida da lealdade cidadã ao regime teria que ser desprezada. o que não é. Na opinião deste estudo. com o objetivo de determinar se as respostas “inesperadas” obedecem a atitudes meramente inconsistentes das cidadãs e dos cidadãos ou se. ao mesmo tempo. Em sentido contrário à posição anterior. como na alternativa entre desenvolvimento e democracia (quadros 3 e 4).quadro 4 PROPORÇÃO DE PESSOAS QUE APÓIAM A DEMOCRACIA COM RESPOSTAS “INESPERADAS” EM RELAÇÃO A SUA AVALIAÇÃO SOBRE A OPÇÃO ENTRE DEMOCRACIA E DESENVOLVIMENTO Pergunta 32ST Pergunta 35ST Porcentagem que apóia sistema democrático e que está de acordo com… 32. mas também que o inesperado não faz parte do nosso estudo. procurar outras variáveis que evidenciem comportamentos mais estáveis. duas posições. O estudo das tendências em relação à democracia na América Latina utiliza informação proveniente de uma pesquisa de opinião pública. define-se o conceito de “tendências em relação à democracia”. ou sua prioridade diante de outros valores socialmente relevantes. Se a preferência pela democracia é apenas retórica. basicamente. podem ser empregadas como evidência para argumentar a veleidade do apoio declarado a um regime. Para cumprir ambos os fins. revelam padrões de opinião. que indaga sobre o apoio “em geral” à democracia.

que procuram derrubá-lo. Estabelece.Linz diz que. que é a base do IAD. Os indivíduos podem encobrir seus verdadeiros pontos de vista. mas não são seu fundamento. deve-se lembrar que. Para facilitar o entendimento da análise. incluem tanto atitudes sobre a democracia como regime político e suas instituições políticas representativas. porém. as perguntas e escalas de medição podem ter defeitos que impedem cumprir o fim para o qual foram elaboradas e. mesmo quando as e os entrevistados respondem com honestidade e as perguntas funcionam bem. “ambivalentes” e os desleais. As tendências são uma ferramenta para chegar perto do tema da vulnerabilidade da democracia diante da eventualidade de uma crise do regime. as desleais. fazendo referência. também. De fato. semi-leal e desleal). e estuda o apoio que os cidadãos 9 Na elaboração do IAD foi buscada a coerência com o conceito amplo de democracia defendido pelo Relatório (a democracia é muito mais que um regime político). à dimensão do exercício do poder. Combina os indicadores de tamanho. A leitura de freqüências simples de variáveis foi o ponto de entrada para a análise. elaborado para o Relatório. Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 227 . “não-democratas”. há o risco de formular interpretações baseadas na “espetacularidade” ou a conveniência de um dado. afirma que uma crise do regime derruba uma democracia quando os desleais são capazes de atrair para as suas posições os semi-desleais. Do contrário. ativismo político e distância das tendências para a democracia. por parte dos leitores não especializados. para ter uma melhor aproximação ao significado dos dados. idêntico ao dos posicionamentos políticos de Linz. que pode constituir base de apoio social de uma força política “desleal”? Qual é a extensão dessa corrente de opinião frente à que apóia a democracia? Quem são os mais ativos na vida política do país: os que se opõem ao sistema ou os que o apóiam? Qual a dimensão do segmento com atitudes ambivalentes? Do ponto de vista de suas atitudes. às vezes. as perguntas consideradas para determinar as tendências das pessoas sobre a democracia. as tendências foram rebatizadas da seguinte maneira: os leais foram chamados “democratas”.O IAD e as tendências em relação à democracia O Índice de apoio à democracia (IAD). É a alternativa metodológica á análise deste tema baseado na leitura de variáveis separadamente10. identificadas a partir de um conjunto de atitudes sobre a preferência pela democracia e a aceitação das normas em que está baseada.lioso. o que as pessoas respondem não reflete necessariamente os valores e as crenças que guiarão suas reações diante de situações concretas. Essa seção inicia-se com uma descrição do procedimento e provas aplicadas para determinar essas tendências e depois descreve o IAD e seus componentes. Linz estuda situações históricas para tirar daí uma teoria comparativa. segundo Mazzuca. e as semi-leais. Toda pergunta deve ser contextualizada. é a medida-resumo para estudar o respaldo dos cidadãos à democracia9. As tendências para a democracia conservam o significado dos posicionamentos de Linz (leal. A análise das tendências procura responder as seguintes perguntas: existe entre os cidadãos latino-americanos uma corrente de opinião contrária à democracia. Este conceito – e os indicadores e índices elaborados pelo Relatório – surgem de uma adaptação da teoria de Juan Linz sobre a falência das democracias (Linz. podem ser encontrados entre os cidadãos três posicionamentos: as forças políticas leais ao sistema. 1978). As tendências para a democracia são posições de apoio ou rejeição à democracia. os semi-leais. estão os ambivalentes mais perto dos que se opõem ao sistema? Como varia o tamanho da base social destas correntes de opinião? O conceito de tendências para a democracia não é. II. examinada em relação a outras. as condições propícias para a quebra da democracia. em relação com a permanência ou substituição de um regime democrático. Em primeiro lugar. como sobre a democracia além do regime político ou dimensão do exercício do poder. que têm atitudes ambivalentes e contraditórias. Evitar esse risco é justamente um dos propósitos da análise das tendências. as opiniões refletem apenas de maneira aproximada o pensamento das pessoas.

em desacordo ou totalmente em desacordo com a seguinte afirmação: “Não me importaria que um governo não democrático chegasse ao poder. de acordo. Qual dessas frases está mais próxima de sua maneira de pensar? Pergunta p28ua: Se o país estiver em sérias dificuldades. Qual dessas frases está mais próxima de sua maneira de pensar? Pergunta p41st: Algumas pessoas dizem que a democracia permite que os problemas que temos no país sejam solucionados. em desacordo ou totalmente em desacordo com que o presidente …“controle os meios de comunicação ”? Pergunta p28ud: Se o país estiver em sérias dificuldades. Qual frase está mais próxima de sua maneira de pensar? Pergunta p40st: Algumas pessoas dizem que sem partidos políticos não pode haver democracia. está totalmente de acordo. desde que pudesse resolver os problemas econômicos”. enquanto outras dizem que a democracia pode funcionar sem Congresso Nacional. de acordo. é possível chegar a ser um país desenvolvido com outro sistema de governo que não seja a democracia? Pergunta p38stb: Está totalmente de acordo. enquanto outras dizem que a democracia pode funcionar sem partidos. de acordo. está totalmente de acordo.“Em algumas circunstâncias. de acordo. está totalmente de acordo. de acordo. está totalmente de acordo. em desacordo ou totalmente em desacordo com que o presidente …“não se limite ao que dizem as leis ”? Pergunta p28ub: Se o país estiver em sérias dificuldades. Outras pessoas dizem que a democracia não soluciona os problemas. 228 A democracia na América Latina . Pergunta p39st: Algumas pessoas dizem que sem Congresso Nacional não pode haver democracia. ou O/A senhor(a) acha que não é indispensável. dá na mesma um regime democrático que um não democrático ”. em desacordo ou totalmente em desacordo com que o presidente …“deixe de lado o Congresso e os partidos ”? Fonte: Latinobarômetro 2002. um governo autoritário pode ser preferível a um democrático ”.“Para pessoas como nós. Pergunta p35st: Se o/a senhor(a) tivesse que escolher entre a democracia e o desenvolvimento econômico. em desacordo ou totalmente em desacordo com que o presidente …“imponha ordem por meio da força ”? Pergunta p28uc: Se o país estiver em sérias dificuldades. qual diria que é o mais importante? Pergunta p37no2: O/A senhor(a) acha que a democracia é indispensável como sistema de governo para que este país possa ser um país desenvolvido?.quadro 5 ONZE PERGUNTAS EMPREGADAS PARA IDENTIFICAR AS TENDÊNCIAS EM RELAÇÃO À DEMOCRACIA Pergunta p32st: Com qual das seguintes frases o/a senhor(a) está mais de acordo? “A democracia é preferível a qualquer outra forma de governo ”.

A técnica selecionada para determinar a localização dos entrevistados e entrevistadas em uma ou outra tendência para a democracia. Explica um 23. Dimensão Atitudes delegativas Pergunta Presidente além das leis Presidente imponha ordem pela força Presidente controle a mídia Presidente deixe de lado partidos e Congresso Preferência por democracia Democracia ou desenvolvimento Democracia indispensável para desenvolvimento Não importa governo autoritário se resolver problemas Democracia soluciona problemas Democracia sem Congresso Democracia sem partidos Variância explicada Nota: Estão incluídas apenas cargas fatoriais maiores de 0. em princípio. e por isso foi usado de maneira independente com cada uma das variáveis. As provas de confiabilidade mostraram que não era conveniente usar índices de adição derivados das dimensões geradas pela análise fatorial. O propósito foi identificar as perguntas diretamente relacionadas com o tema das atitudes de apoio à democracia11.5% 16. Esse processo permitiu selecionar onze perguntas (quadro 5). Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 229 . mas não possibilitam uma observação direta do comportamento desses atores.84 0.8% da variância).81 0.67 0.85 23.77 Fator 2 Fator 3 Apoio à democracia como sistema de governo 0. considerado apropriado para sua utilização em uma análise fatorial .77. Em segundo lugar. São determinadas as porcentagens obtidas no fatorial aplicado com as variáveis de interesse –sem incluir o resto das variáveis inicialmente consideradas. os valores e a confiança interpessoal.80 0.48 0. O fator 1 forma a dimensão de atitudes delegativas. se bem que a variância explicada por eles não é particularmente alta. Fonte: Elaboração própria com base no Latinobarômetro 2002. atitudes sobre a democracia. as tendências identificam os padrões de atitudes dos cidadãos e das cidadãs.lhe dão.57 0. Fator 1 0. O fator 2 compõe a dimensão de apoio à democracia como sistema de governo (16.5% de variância. Foram aplicadas sucessivas análises fatoriais a um amplo conjunto de perguntas para medir. A variância explicada acumulada foi de 53. quadro 6 CARGAS FATORIAIS PARA ONZE PERGUNTAS DE INTERESSE NA DETERMINAÇÃO DE TENDÊNCIAS PARA A DEMOCRACIA.58 0. O ponto de partida para a identificação das tendências para a democracia foi a revisão do questionário do Latinobarômetro 2002. 12 A agrupação das onze variáveis de interesse nos três fatores indicados cumpre com o método Kaiser-Guttman (“eigenvalores” maiores que um).450.8% Apoio a instituições representativas 11 O coeficiente de Kaiser-Meyer-Olkin de adequação da amostra para as onze variáveis foi de 0.69 0. o desenvolvimento.5% da variância).5% 13. e o fator 3 está localizado em uma dimensão de apoio a instituições da democracia representativa (13. foi a análise de conglomerados e clusters.8%12.74 0. Em todas as análises. as perguntas selecionadas foram agrupadas consistente- mente em três fatores (Quadro 6).

691 -0.25 3.26 3. 230 A democracia na América Latina . foi calculada a distância euclidiana como medida de similaridade e foi utilizado o método de partição de k-médias.75 2.383 -0.68 2.88 3. Entretanto.Essa é uma ferramenta exploratória utilizada com a finalidade de resolver problemas de classificação.379 .07 3.416 -0.004 -0.816 -0.609 . Postequadro 7 CENTRÓIDES OBTIDOS PARA CADA UMA DAS VARIÁVEIS RELACIONADAS COM DEMOCRACIA.582 . denominados clusters.372 -0.99 3. todas elas evidenciam uma clara direcionalidade relacionada com a atitude para a democracia das pessoas entrevistadas.77 2.00 3.97 2.87 2. O método selecionado de k-médias deve estar orientado para a classificação de variáveis quantitativas.006 0.47 3.02 1. Em geral.58 2.83 2. porque isso permite descrever cada um deles e. especialmente.612 .25 3.274 .029 -0.98 1.595 -0. Neste caso. contar con um modelo que respalde a identificação desses grupos e depois validar seus resultados teórica e empiricamente.464 .707 -0. o nível da escala é de 1 (atitude mais contrária à democracia) e 4 (atitude mais favorável à democracia).17 3. 13 O algoritmo de análise de clusters encontrará grupos uma vez que tenham sido definidas as variáveis que entrarão em jogo e se tenha estabelecido a instrução do número de clusters que se deseja obter.345 . As onze perguntas utilizadas na determinação das tendências para a democracia têm uma escala de medição que não chega a alcançar o nível de intervalo.32 2.47 1.15 2.514 .72 2.85 2. as variáveis foram recodificadas para dar às suas escalas de medição um mesmo nível e direção.755 0. Com essa finalidade.511 .455 .268 0. Este procedimento requer que o pesquisador determine a priori o número (k) de conglomerados que deseja obter13 a teoria de Linz permitiu definir k = 3. enquanto que os membros de diferentes grupos sejam relativamente diferentes.572 3.01 1.037 -0.326 0. contar com elementos de juizo para entender suas implicações. A análise de conglomerados pode ser realizada de diversas maneiras.772 -0. Seu objetivo é atribuir os casos a grupos. POR CLUSTER IDENTIFICADO Dimensão Pergunta Centróides padronizados Cluster 1 Positivo Cluster 2 Central Cluster 3 Negativo Centróides sem padronizar Cluster 1 Cluster 2 Cluster 3 Positivo Central Negativo Atitudes delegativas Apoio à democracia como sistema de governo Apoio a instituições representativas Presidente além de leis Presidente imponha ordem pela força Presidente controle a mídia Presidente deixe de lado partidos e Congresso Preferência por democracia Democracia ou desenvolvimento Democracia indispensável para desenvolvimento Não importa governo autoritário se resolver problemas Democracia soluciona problemas Democracia sem Congresso Democracia sem partidos .812 -0. devido à magnitude da base de dados disponível. de forma que os membros de um mesmo grupo sejam similares entre si quanto às características selecionadas. de acordo com as características dos indivíduos atribuídos a cada um deles. é desejável fundamentar o número de conglomerados em uma teoria existente. já que contribui para revelar associações e estruturas presentes nos dados que não são observáveis previamente.09 3. Por isso. então. As perguntas da dimensão do apoio a instituições representativas são binárias e isso lhes diminui poder de discriminação.010 0.438 -1.01 1. julgou-se apropriado empregar este método. É importante. dependendo da medida de similaridade e do método empregado.29 1.090 -0.63 2.080 -0.94 Nota: em todas as variáveis.28 2.64 1.38 3.107 -0.017 0.78 2.

O cluster 2 pode considerar*se como de pessoas ambivalentes. As provas de estabilidade e confiabilidade dos clusters deram resultados satisfatórios. Isto é.9%. O cluster 1 é consistentemente positivo em seus valores padronizados. se aceita que pelo menos uma das médias dos grupos é diferente. as quais foram aplicadas aos demais 70% dos casos para determinar em que grupos se localizariam. como veremos posteriormente.03. Com este objetivo. diferentes ordens da base de dados deram variações muito pequenas nos centróides das onze variáveis: 50% tinham desvios padrão menores que 0. todas as perguntas incluídas na análise são úteis para diferenciar os três grupos. Além disso. foi desenhada uma metodologia para resgatar os casos com uma ou duas respostas que faltavam. tal como se ha mencionado. Porém. Pode-se dizer que tal percentual é alto e determina a validade da agrupação 14 Zhexue Huang (1997) indica que “o procedimiento habitual de converter dados categóricos em valores numéricos não necessariamente produz resultados interpretáveis naqueles casos em que os domínios categóricos não estão ordenados”. ao fazer uma análise de variância. o cluster 3 apresenta centróides negativos em dez das variáveis. Existe uma ampla variedade de provas post hoc. foi usada uma análise de variância por cluster. A proposta por Scheffé é útil para provar a significancia de todos os possíveis pares de médias e é a recomendada quando se compara grupos com diferente número de casos.9% da amostra total). Por uma parte. 1996). de acordo com o obtido nos clusters. 93. Foi feito um estudo post hoc com a prova de Scheffé a 5% de significância16. como ocorre neste exercício (Steel e Torrie.6% dos casos foram atribuídos corretamente. neste caso os dados têm um sentido e. com a finalidade de utilizar essa informação como os “centróides” iniciais que se proporcionam ao algoritmo da análise de conglomerados15. Foi obtida uma atribuição certeira da amostra global de 92. 15 É importante indicar que. Para conhecer a relação entre essas médias e determinar qual o quais são diferentes e quais são iguais entre si. Por último. 16 Quando. Por outra parte.4% dos dados foram localizados corretamente no grupo designado pela análise de conglomerados baseada nas funções discriminantes geradas.riormente.020 a 14. por isso podemos afirmar que as cidadãs e os cidadãos classificados neste grupo têm uma tendência não-democrata (Quadro 7). Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 231 . com a finalidade de determinar aquelas que são diferentes. Em 30% da amostra utilizada. pois tende a apresentar valores positivos nas dimensões de apoio à democracia e de apoio às instituições da democracia representativa. O resultado foi que as diferenças são significativas para as onze variáveis nos três conglomerados. Em 70% dos dados empregados para validação. uma vez introducidos os centroides iniciais. Este tipo de técnica é empregada para provar as diferentes entre os dados comparando todos os possíveis pares de médias. o que permitiu elevar de 12. por isso podemos dizer que os indivíduos localizados neste grupo têm uma tendência democrata.308 os casos habilitados para o estudo (74. foi estimada a média de 42 resultados. se rejeita a hipôtese nula. as respostas recodificadas foram aplicadas na análise de conglomerados14. Com base nisso. os resultados são relevantes. para assegurar que os resultados sejam confiáveis. se utilizam os procedimentos post hoc. tomouse uma amostra aleatória de aproximadamente 30% dos dados. Com o propósito de verificar a importância das diferenças das médias dos conglomerados nas variáveis empregadas para defini-los. sendo o único valor positivo muito próximo de zero. O agrupamento da análise de conglomerados foi validado por meio da análise discriminante. o resultado da análise de clusters não varia diante de diferentes ordens da base de dados. foram obtidas as funções discriminantes. à qual foi dada informação sobre os grupos de pertinência dos casos. mas valores negativos na dimensão de atitudes delegativas. obteve-se que 92.

em virtude de se haver comprovado que o perfil desses indivíduos não difere muito do das pessoas para as quais se tinham valores para as onze variáveis relevantes. a mais ativa. Por serem ferramentas em processo de depuração. É elaborado a partir da atribuição das pessoas a cada um dos clusters que identificam as três tendências em relação à democracia. também. O ponto crítico é determinar se. A melhor situação é aquela em que a distância entre os ambivalentes e os democratas é bem menor do que a existente entre os primeiros e os não-democratas. Não se esperariam grandes diferenças na situação daqueles dados “resgatados” por ter uma ou duas perguntas sem resposta. mas. A melhor situação para uma democracia é aquela em que a tendência democrata agrupa a maioria dos cidadãos e das cidadãs. 17 A totalidade dos casos usados pela análise discriminante se reduz até 12. mas não expressam proporções. As três dimensões do IAD O Índice de Apoio à Democracia (IAD) é uma medida-resumo do apoio dos cidadãos à democracia. Não têm zero absoluto. independentemente de 0 ou 1 no resto Essas dimensões não podem ser hierarquizadas sem recorrer a premissas adicionais. pelo que esta análise se materializa unicamente com aqueles casos que têm toda a informação. 232 A democracia na América Latina . Os indicadores e índices de apoio dos quadro 8 PROCEDIMENTO APLICADO PARA DETERMINAR OS MODOS DE PARTICIPAÇÃO CIDADÃ Dimensão Participação eleitoral Participação social Participação contatando autoridades Participação em manifestações coletivas PE PSO PCO PMC 0 1 0 1 0 1 0 1 0 1 = = = = = = Descrição Não vota Vota Não colabora Colabora em ao menos 1 atividade Não contata Contata ao menos a 1 autoridade Não participa Participa em ao menos 1 manifestação coletiva Participação violenta PVI = Não participa = Participa em ao menos 1 ato violento. em termos gerais. tendências em relação à democracia na cidadania?. não há critérios para categorizálas e criar escalas de intensidade. ■ Qual é a distância ou a magnitude das diferenças de opinião entre as tendências. Os números 0 e 1 são empregados para denotar a presença ou ausência de atividade. os ambivalentes estão mais perto da tendência democrata ou da não-democrata. os valores expressam uma maior ou menor proximidade em relação a uma situação. ■ Qual é o grau de ativismo político das tendências? A melhor situação para uma democracia é aquela em que a orientação de- cidadãos são escalas de intervalo. Combina três dimensões que respondem às seguintes questões: ■ Qual é o tamanho de cada uma das mocrata é não apenas a de maior tamanho.020 pessoas que responderam as onze perguntas de interesse .feita pela análise de conglomerados17.

mas que não foram empregados pelo IAD. Este indicador indica a proporção de democratas em relação ao resto (ambivalentes e não-democratas) e determina se os democratas constituem ou não uma maioria. A pior situação ocorre quando esses indicadores têm um valor inferior a 1 e próximo de 0. Nessa dimensão. em curto prazo. entende-se a proporção de seus membros que participa ativamente na vida política do país. entende-se a quantidade de pessoas que pertencem a um cluster. Este indicador ilustra uma situação crítica: se. O primeiro é o indicador de maioria democrática. Qnd = número de pessoas com tendência não-democrata. Esta é uma classificação nominal cujas categorias não foram planejadas pensando em ordená-las com base em um critério que permita hierarquizá-las. (1) Proporção democratas para não-democratas = Qd / Qnd CLASSIFICAÇÃO DE MODOS DE PARTICIPAÇÃO CIDADÃ Nome Não faz nada Só vota Vota e colabora Só ação política Vota e ação política Colabora e ação política Vota. 0 em PCO e PMC. sua adversária “natural”19. colabora e ação política Participação violenta Descrição Tem 0 em todas as dimensões de participação cidadã 1 em PEL e 0 em PSO. PCO e PMC 1 em PEL e PSO. 0 em PSO 1 em PSO. a tendência democrata é ou não de maior tamanho que a não-democrata. Os “Modos de participação dos cidadãos” (MPC) são os tipos de intervenção que os cidadãos e cidadãs praticam na vida social e política. se ela tem capacidade para pagar suas dívidas de curto prazo. O segundo indicador é o tamanho relativo da tendência democrata em relação à tendência ambivalente. Existem. O IAD toma essa informação da variável “Modo de participação dos cidadãos” (MPC). na qual existe um indicador denominado “prova ácida”. a vulnerabilidade de uma empresa. O primeiro é a determinação do ativismo político de cada tendência. 19 Esta idéia foi adotada da análise financeira. Um modo descreve um perfil característico de atividades de um cidadão. 1 em PCO e PMC. Uma tendência é mais ativa quanto maior for a proporção dos cidadãos participativos que a compõem. foi aplicado um procedimento composto de dois passos. 0 em PEL e PSO 1 em PEL. Essa variável distingue os diferentes tipos de intervenção das pessoas na vida social e política de um país e permite elaborar diversas classificações conforme o interesse do pesquisador. 0 em PEL 1 em todas as dimensões de participação cidadã Qualquer combinação em que a participação violenta for 1 onde Qd = número de pessoas com tendência democrata. a ordem de sua 18 Existem outros dois indicadores de tamanho cujos resultados são comentados no Relatório. PCO e PMC. ou seja. mesmo sendo minoria. É definida como a razão entre o ativo circulante e o passivo circulante. Dessa forma. O indicador é igual ou maior que 1 quando a proporção de democratas é igual ou superior a 50% da cidadania. Este determina. indica que os democratas são mais numerosos que os ambivalentes. Reconstrói-se examinando as coisas que as pessoas fazem nas diversas dimensões de participação cidadã. Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 233 . Para medir essa dimensão. o IAD emprega o indicador de proporção de democratas com relação aos não-democratas18. Quando em um país ou sub-região os democratas são mais numerosos que os nãodemocratas – uma condição minimamente desejável – o indicador assume um valor superior a 1.quadro 9 Primeira dimensão: tamanho de uma tendência Por tamanho de uma tendência em relação à democracia. diversas situações de equilíbrio político que apresentam valores próximos de 1. Segunda dimensão: ativismo político das tendências Por ativismo de uma tendência em relação à democracia. PCO e PMC. por outro lado. Quando tem valores maiores que 1.

234 A democracia na América Latina . (2)Ativismo (OX) = (QmpcX)/QX Terceira dimensão: distância entre as tendências Por distância. A=tendência ambivalente. comparam-se os resultados dos democratas e dos não-democratas. Ambas são situações políticas potencialmente instáveis para uma democracia. se o resultado for 1. menor é a distância. o indicador examina a afinidade média nas respostas dos membros de duas tendências. (4)Di(Ox/A)=∑|Cxvi – Cavi| onde: QmpcX = número de pessoas da tendência “X” que exercem a participação política além do voto: modos de participação dos cidadãos onde há estabelecimento de contatos com autoridades e participação em manifestações públicas. se o valor for inferior a 1. compromisso e liderança. uma situação favorável para a democracia.apresentação expressa a aplicação flexível de certos critérios20. Classificação de modos de participação cidadã Desta maneira. Se a divisão apresentar um valor maior que 1. a ordem de apresentação se inicia com as categorias em que há menor custo pessoal (investimento de tempo. pois os democratas não têm uma vantagem particular. uma situação pouco conve- onde: Di=distância. é o utilizado para o IAD. (3)AC = ativismo D/ativismo ND onde:AC = ativismo democrático. Ao fim se acrescenta uma categoria que responde a outros critérios. por meio do indicador de distância (ID). O procedimento para incorporar a dimensão de distância ao IAD é semelhante ao empregado para a dimensão do ativismo. Cavi=centróide da tendência ambivalente na variável i. Ox=tendência democrata ou não-democrata. O segundo passo é comparar o ativismo das tendências adversárias – democrata e não-democrata – e saber qual delas é a mais ativa. os não-democratas são mais ativos do que os democratas. entre pessoas que pertencem a tendências diferentes. Quanto maior a afinidade. dinheiro). Ver quadro 9. D = democratas. ND = não-democratas. Foram diferenciados 8 modos de participação cidadã. os democratas são mais ativos que os não-democratas. o ativismo dessas tendências é igual21. entende-se a maior ou menor diferença de opinião nas atitudes de apoio ou rejeição à democracia. niente. X pode ser a tendência democrata. Para calcular a distância entre duas tendências deve-se obter. compromisso e liderança. para cada uma das variáveis. É obtido dividindo o ativismo da tendência democrata pelo ativismo da tendência nãodemocrata. Em cada uma das variáveis que compõem uma tendência. a ambivalente ou a não-democrata. Cxi=centróide da tendência democrata ou não-democrata na variável i. Qx = número de pessoas que apóiam a tendência “X”. o valor absoluto das diferenças entre os centróides (valores médios padronizados conforme a análise de conglomerados) e. Posteriormente. 21 Existem outras duas situações que não são analisadas: (a) quando o ativismo é similar em todas as tendências (distribuição uniforme) e (b) quando o ativismo das tendências adversárias (democratas e não-democratas) é similar e muito superior ao dos ambivalentes. Primeiro calcula-se a distância dos ambivalentes em relação a cada uma das tendências adversárias. Esse indicador expressa a distância média entre as tendências não-democrata 20 Em termos gerais. Esse indicador. denominado “ativismo democrático” (AC). somá-los. e vice-versa. depois. e se conclui com as categorias que implicam maior custo pessoal.

O IAD é uma ferramenta que precisa ser refinada. os ambivalentes estão mais próximos dos democratas. nenhum dos componentes do IAD teve um comportamento “anômalo” que pudesse introduzir distorções no resultado global do índice. Esta situação esta longe de ser favorável para a democracia. o índice não apontou resultados inesperados. os não democratas estejam politicamente mais ativos que os democratas (AC=0. Por outro lado. isto é.43 do IAD resume uma situação na qual os democratas são os mais numerosos (mas não a maioria). mas não muito distante dessa cifra. certamente. não funciona apropriadamente em certas situações22. Nestas situações. se o resultado for 1.5). Nestas situações. cabe ressaltar que a observação dos resultados do IAD em 2002. Pode que se trate de uma situação pouco provável . mas os ambivalentes se situem majoritariamente mais perto das posições democratas do que as não democratas (ID=0. A situação contrária seria quando as condições tendem a ser desfavoráveis para a democracia: os não democratas são maioria. Em alguma dimensão ou componente do índice. o ativismo e a distância das tendências. Contudo. os não-democratas são mais participativos do que o resto das pessoas e apresentam uma pequena distância em relação aos ambivalentes. mas isso é mais que compensado por resultados favoráveis nas outras dimensões. sugere que. onde: IDD = Distância dos democratas como proporção da distância dos não-democratas. um valor de 1. Por exemplo. Há a necessidade de uma teoria que hierarquize estes elementos e de pesquisas prévias que ofereçam critérios para ponderar a importância de cada fator. pode-se concluir que a democracia tem um respaldo dos cidadãos. a situação tende a ser favorável para a democracia. todos os fatores têm peso igual. a situação é desfavorável para a democracia.15 do IAD corresponderia a essa situação. escolheu-se a opção que. as condições são muito favoráveis à democracia. porém. Quando o IAD assume valores superiores ou próximos a 5. Um valor de 0. uma que pode acontecer. têm os ambivalentes ligeiramente mais próximos de suas posições. No índice. num país em que a quantidade de democratas seja quase a metade dos não democratas (AD= 0.5). Di(D/A) = distância entre tendências democrata e ambivalente. ou pode ser que nas três dimensões a situação seja favorável para a democracia. pode-se concluir que o respaldo à democracia é frágil. Ao contrário. Seu algoritmo atual. se em um país a maioria dos cidadãos é não-democrata. apesar dessas limitações. Ao contrário dos indicadores de tamanho e de ativismo. Mais pesquisas são necessárias para encontrar respostas metodológicas válidas aos problemas que a simples formulação do IAD não pode resolver. o índice assume valores muito inferiores a 1 e próximos de 0. os ambivalentes estão mais próximos das posições não-democratas. porém mais atenuadamente. o ideal é que.2). Quando o IAD adota valores superiores a 1. se o valor for inferior a 1. a ser mais politicamente ativos que os adversários e a ter os ambivalentes muito mais próximos de suas posições. nos quais os maiores valores a favor dos democratas apontam para situações excelentes para a democracia. A regra de agregação do IAD O IAD combina o tamanho. estão politicamente mais ativos e têm os ambivalentes muito próximos de suas posições. Di(ND/A) = distância entre tendências não-democrata e ambivalente. como resultado do IAD parece sugerir . entre os ambivalentes e os democratas.quadro 10 e ambivalente como uma proporção da distância entre as tendências democrata e ambivalente. expressa a proposta conceitual. mas são politicamente menos ativos que os não democratas. de forma mais simples. A inferência é que um sistema político com estas características é mais 22 Por exemplo. (6) IAD = tamanho [AD] * (Ativismo [AC] / Distância [ID]) Se em um país a maioria dos cidadãos é leal à democracia. (5)IDD = Di(D/A) / Di(ND/A) EXEMPLOS DE SITUAÇÕES E VALORES QUE O IAD ASSUME. em matéria de distância.5. e estes são mais participativos que o resto das pessoas e apresentam uma pequena distância em relação aos ambivalentes. Para não introduzir pressupostos dificilmente justificáveis. os democratas tendem a ser maioria. baseado na hipótese de que os três componentes do IAD são independentes entre si e têm o mesmo peso. Se a divisão apresentar um valor superior a 1. para os diversos países da América Latina. ainda que por margens relativamente estreitas. Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 235 . teria um IAD=12. a distância seja pequena (indica atitudes mais afins). existe uma eqüidistância dos ambivalentes com relação às tendências contrárias. o IAD apresenta um valor bastante superior a 1.

As perguntas com escalas de resposta de duas ou três alternativas não se ajustam plenamente aos requisitos de uma análise de conglomerados. apontam que a preferência pela democracia não varia segundo a boa ou má situação econômica do lar. Além disso. outras perguntas foram elaboradas especificamente para o segmento proprietário do PNUD na pesquisa. cujas escalas de resposta são binárias. mas sim de acordo com a satisfação com seu funcionamento. além disso. Essas dificuldades são particularmente palpáveis no caso das perguntas da dimensão de apoio às instituições da democracia representativa. por isso. havia mais democratas (r = 0. Efetuou-se uma prova da validade externa da análise das tendências. a observação do comportamento do IAD diante de algumas situações hipotéticas permite realizar um primeiro exercício de interpretação (Quadro 10) democracia não pode ser replicada na série de tempo do Latinobarômetro.29 e r = -0. Comparações feitas entre a pergunta sobre a situação econômica do lar e as perguntas sobre a preferência pela democracia e a satisfação com a democracia. como foi explicado. por exemplo. 2001 e 2002). Validação e confiabilidade do IAD Pressupostos e limitações do IAD Não se conhecem estudos prévios que tenham aplicado esta metodologia para estudar o respaldo dos cidadãos à democracia. A interpretação do IAD Dada a fórmula empregada para calcular o IAD.27 e r = 0. os valores do índice podem oscilar entre 0 e um número extremamente alto (tende a infinito em um país onde quase todos os democratas são participativos e os poucos ambivalentes estão muito próximos dessas posições). Em geral. o que será possível de realizar quando se dispuser de mais observações do que as existentes na atualidade (medição de 18 países em um ano). mas não são incluidas todos os anos. Neste nível de conhecimento sobre o tema. Podem ocorrer diferentes combinações de tamanho. nem para categorizar os valores em uma escala de intensidade. Em situações de equilíbrio. o desvio padrão foi superior ao das outras variáveis. que configuram situações intermediárias de força e debilidade da democracia.36).25. os resultados obtidos foram sólidos. entre 0 e 1. não há observações prévias. implicaria justificar os pontos de corte entre as categorias definidas. que foi incluída nos Latinobarômetro 1996 e 1998. Algumas das variáveis empregadas para a análise pertencem ao segmento regular do Latinobarômetro. Foram correlacionados os resultados obtidos por país com o tamanho das tendências em 2002. 236 A democracia na América Latina . os países onde mais pessoas estavam dispostas a defender a democracia foram os países onde.vulnerável a uma crise do que um que conte com um forte respaldo dos cidadãos. Utilizou-se a pergunta “Estaria disposto(a) a defender a democracia se ela fosse ameaçada?”. respectivamente). o valor do IAD está por volta do 1. A análise das tendências em relação à A metodologia proposta baseia-se em três pressupostos. Algumas perguntas empregadas para as tendências têm limitações que influem na medição. em 1996 e 1998. nessas variáveis. A criação de uma escala de intensidade. Apesar dessas limitações. 1997. a correlação com a porcentagem de não-democratas é inversa (r = -0. ativismo e distância. em 2002. não existem elementos suficientes para padronizar essa variação em um intervalo que varie. em distintos anos (1996. O primeiro é que as tendências em relação à democracia são 23 A série de tempo do Latinobarômetro não permite medir a estabilidade das tendências em relação à democracia. A padronização exigiria aplicar procedimentos relativamente sofisticados sobre a base de pressupostos adicionais. Não obstante.

que é a fonte de inspiração desta análise. O segundo pressuposto consiste em que. difíceis de determinar a priori. É preciso lembrar que as tendências não ajudam a predizer o comportamento das pessoas em termos da subversão ou defesa do sistema. 25 Estabelecer o perfil político e social dos ambivalentes é um dos pontos mais importantes deste estudo. ainda que de magnitude desconhecida. o Latinobarômetro colocou à disposição do PNUD as séries de tempo com dados de pesquisas prévias. não há uma “terceira via”: ou defende-se ou subverte-se o regime. Além disso. necessariamente. por tratar-se de atitudes relacionadas com o apoio difuso (ou rejeição) à democracia. objeto da disputa entre as tendências democrata e não-democrata. 24 Por evento político polarizador entende-se uma crise econômica. Em 2002. Por último. presume-se que a resistência oferecida pelos ambivalentes. os ambivalentes podem ter iniciativa política própria sobre um amplo leque de assuntos. Os dados da pesquisa de opinião utilizados neste Relatório foram fornecidos pelo Latinobarômetro.relativamente estáveis no tempo. uma força política com capacidades organizativas e condução ideológica própria. com perguntas específicas solicitadas pelo PNUD para o presente Relatório. da deterioração econômica de um país. São. apesar de não formarem uma força política determinada25. Nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice de Apoio à Democracia (IAD) 237 . especialmente em certos países. No entanto. os ambivalentes não têm iniciativa própria. Na prática. certas características das amostragens do Latinobarômetro aconselham prudência na avaliação do IAD. é a mesma perante ambas as tendências. infere-se que as variações são menos explícitas do que as que exibiriam as percepções relacionadas com a satisfação em relação ao funcionamento das instituições ou aos resultados econômicos e sociais do sistema23. por exemplo. o Latinobarômetro incrementou em um terço seu estudo anual. portanto. esses pressupostos não serão necessariamente certos. Não se descartam as flutuações diante do efeito acumulado. podem chegar a sê-lo no caso de enfrentar um evento político polarizador24. Dentro do acordo interinstitucional. embora as pessoas que pertencem a uma tendência não constituam. no marco de uma relação contratual de trabalho e de cooperação com o PNUD. enquanto a vida política não enfrenta a alternativa da sobrevivência ou morte da democracia. Quando a questão política do dia é a sobrevivência da democracia. São desconhecidos os efeitos de uma eventual inclusão do “mundo rural” e dos segmentos urbanos mais empobrecidos sobre os resultados. que também foram utilizadas como um dos antecedentes incluídos na base empírica do Relatório. social ou política. em matéria de defesa ou oposição ao sistema democrático. pressupõe-se que. porém. Existe uma série de fatores. Esses dois pressupostos são uma herança e uma implicação lógica da proposição de Linz. que influem sobre a transformação das atitudes em comportamentos. Em terceiro lugar. que gere a possibilidade de substituição do sistema democrático por outro tipo de regime.

238 A democracia na América Latina .

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a Ciência e a Cultura UNICEF Fundo das Nações Unidas para a Infância Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime IPEC Abreviaturas 255 .■ Abreviaturas BM BID Banco Mundial Banco Interamericano de Desenvolvimento Centro de Estudos de Justiça das Américas Comissão Econômica para a América Latina Centro Latino-Americano e Caribenho de Demografia Centro Latino-Americano de Administração para o Desenvolvimento Coleção Informativa sobre Processos Eleitorais LASA Associação de Estudos LatinoAmericanos Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico Organização dos Estados Americanos Organização Internacional do Trabalho Organização Mundial da Saúde Organização das Nações Unidas Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Programa de Informações Estatísticas e Monitoramento do Trabalho Infantil Transparência Internacional OCDE CEJA OEA OIT OMS CEPAL CELADE ONU PNUD CLAD SIMPOC EPIC TI FMI IDEA Fundo Monetário Internacional Instituto para a Democracia e a Assistência Eleitoral Programa Internacional para a Erradicação do Trabalho Infantil UNODC IPU União Interparlamentar UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação.

.

Índice de quadros 35 36 44 45 46 46 50 52 53 54 54 55 58 63 64 64 68 70 71 76 85 87 quadro 1 A democracia: uma busca permanente quadro 2 A democracia: um ideal quadro 3 A democracia e a promessa dos direitos cidadãos quadro 4 Declaração Universal de Direitos Humanos quadro 5 Os direitos democráticos quadro 6 A democracia requer mais do que eleições quadro 7 Os alicerces da democracia quadro 8 Cidadania e comunidade de cidadãos quadro 9 A democracia: uma construção permanente quadro 10 Democracia e igualdade quadro 11 Democracia e soberania quadro 12 Uma definição de poliarquia quadro 13 Democracia e responsabilidade dos governantes quadro 14 Estado liberal e Estado democrático quadro 15 O Estado: pressuposto da democracia quadro 16 Estado e globalização quadro 17 Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs) quadro 18 A democracia: uma tensão entre fatos e valores quadro 19 A informação: uma necessidade básica quadro 20 O índice de democracia eleitoral (IDE) Uma contribuição à discussão sobre a democracia quadro 21 A petição cidadã perante as instituições públicas quadro 22 Experiências de participação em governos locais Índice de quadros 257 .

2002 quadro 25 Povos Indígenas e cidadania quadro 26 A democracia étnica e o multiculturalismo quadro 27 A percepção cidadã sobre a igualdade perante a Lei quadro 28 A petição cidadã ao sistema de administração de justiça quadro 29 Cidadãos pobres e desiguais quadro 30 Dimensões da cidadania social quadro 31 Inserção genuína para os “supranumerários ” quadro 32 O papel da sociedade civil quadro 33 A decência como valor coletivo quadro 34 Disfunções da economia mundial quadro 35 Pobreza e desigualdade: pouca variação significativa quadro 36 Quantos democratas e não-democratas “puros” existem na América Latina? quadro 37 Cidadania de baixa intensidade quadro 38 O Índice de Apoio à Democracia (IAD) quadro 39 O poder dos meios de comunicação quadro 40 Sociedade civil. política e participação quadro 41 A dimensão associativa da democracia quadro 42 Política. partidos e democracia na América Latina quadro 43 A democracia como princípio de organização da sociedade quadro 44 Privatização perversa do Estado quadro 45 A economia e a política quadro 46 Uma economia para a democracia quadro 47 Democracia e Mercado quadro 48 Modelo único de desenvolvimento 258 A democracia na América Latina .104 106 107 107 108 110 122 123 124 125 127 127 128 144 152 153 187 187 188 188 189 191 192 193 194 194 quadro 23 Dimensões da cidadania civil quadro 24 Legislação sobre violência contra a mulher.

quadro 7 Centróides obtidos para cada uma das variáveis relacionadas com democracia. quadro 8 Procedimento aplicado para determinar os modos de participação cidadã quadro 9 Classificação de modos de participação cidadã quadro 10 Exemplos de situações e valores que o IAD assume Índice de quadros 259 .196 196 199 quadro 49 Quatro vantagens econômicas da democracia quadro 50 Complementaridade entre democracia e mercado quadro 51 Globalização e impotência da política Índice de quadros da nota técnica sobre os índices derivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção de um Índice de Apoio à Democracia (IAD) 223 224 225 226 228 229 230 232 233 235 quadro 1 Tamanho da amostra do estudo quadro 2 Amostras totais e amostras válidas para o Índice de Apoio a Democracia empregado na análise do Latinobarômetro quadro 3 Proporção de pessoas que apóiam a democracia com respostas “inesperadas” em relação ao apoio a meios autoritários para resolver problemas quadro 4 Proporção de pessoas que apóiam a democracia com respostas “inesperadas” em relação a sua avaliação sobre a opção entre democracia e desenvolvimento quadro 5 Onze perguntas empregadas para identificar as tendências em relação à democracia quadro 6 Cargas fatoriais para onze perguntas de interesse na determinação de tendências para a democracia. por cluster identificado.

2002 tabela 21 Redes clientelistas. 1990-2002 tabela 9 Os partidos políticos e a democracia interna. 2002 tabela 16 Organismos especializados de controle. 2002 tabela 15 Poderes judiciários. 2002 tabela 17 Mecanismos de democracia direta de cima para baixo. 1990-2002 tabela 7 Experiências no tratamento dado a pessoas que procuraram uma entidade pública nos últimos 12 meses. 2002. Pobreza e Desigualdade tabela 2 Reformas e Realidades tabela 3 Percepções sobre as razões de descumprimento de promessas eleitorais por parte dos governantes. 2002 tabela 8 A participação eleitoral. 2003 tabela 12 Cadeiras no congresso ganhas por mulheres. 2002 78 79 81 85 89 90 91 92 93 94 95 96 98 99 100 101 102 103 108 260 A democracia na América Latina . 1978-2002 tabela 19 Indicadores de percepções sobre corrupção. 2002 tabela 22 Percepção sobre a igualdade legal de grupos específicos. 1978-2002 tabela 18 Mecanismos de democracia direta de baixo para cima. 1990-2002 tabela 14 Poderes formais presidenciais. 2002 tabela 20 Perfil das pessoas com diferentes atitudes em relação à corrupção. 1990-2002 tabela 6 Eleições como meio de acesso a cargos públicos. tabela 4 Eleições limpas. 1990-2002 tabela 5 Eleições livres.Índice de tabelas 39 42 51 tabela 1 Democracia. 1990-2001* tabela 10 Cotas para candidatas a cargos parlamentares. 1990-2003 tabela 13 Proporcionalidade na representação via partidos políticos. 2003 tabela 11 Financiamento de partidos e campanhas eleitorais.

presos sem condenação e superlotação. 2002 tabela 35 Desnutrição infantil entre 1980 e 2000 tabela 36 Analfabetismo em maiores de 15 anos. 2002 tabela 41 Desemprego aberto urbano (taxas anuais médias). 2000 tabela 26 Mulheres no mercado de trabalho 1990-2000 tabela 27 Incidência do abuso de menores nas diferentes regiões do mundo. 1970-2001 tabela 37 Mortalidade infantil. c.2000 tabela 30 Recursos financeiros e humanos dedicados ao sistema de administração de justiça. (porcentagens) 1990-2002 tabela 44 América Latina: Assalariados que contribuem para a previdência social. 2002 Índice de tabelas 261 . 2002 tabela 32 Liberdade de imprensa. 2002 tabela 24 Tratados da ONU. 2001 tabela 31 População carcerária. 2000 tabela 28 Tratados da ONU e da OEA sobre direitos civis fundamentais. 1990-2002 tabela 43 América Latina: estrutura do trabalho não agrícola. 1970-2000 tabela 39 Escolarização primária. 2002 tabela 46 Fragilidades da preferência pela democracia em relação a outros sistemas de governo. secundária e terciária. 1993-2002 tabela 34 Direito ao acesso à informação pública e habeas data. 2003 tabela 29 Homicídios dolosos na América Latina e em outras partes do mundo. 2001-2002 tabela 33 Morte de jornalistas. 2002 tabela 25 Direitos dos povos indígenas.110 113 114 115 115 116 117 118 119 120 120 121 129 130 131 132 133 133 134 135 136 136 137 139 tabela 23 Experiência dos cidadãos com o sistema de administração de justiça. 1970-2000 tabela 38 Esperança de vida ao nascer. 1999 tabela 40 Qualidade educativa e performance do aluno. (porcentagens) 1990-2002 tabela 45 Cidadania Social: Desigualdade e Pobreza. da OIT e da OEA: direitos gerais e direitos de categorias de cidadãos. 1985-2002 tabela 42 Desemprego juvenil (taxas anuais).

América Latina e Europa Ocidental. 1977. médias sub-regionais. América Latina e Europa Ocidental. segundo opinião sobre o estado da democracia em seu país tabela 57 Agenda atual segundo tema tabela 58 Agenda futura segundo tema Índice de gráficos 77 105 105 126 141 143 gráfico 1 Índice de democracia eleitoral (IDE).145 146 148 150 159 161 163 164 173 174 175 176 tabela 47 Distância entre as tendências em relação à democracia nos diversos temas estudados. 2002 (1) gráfico 6 Proporção de pessoas que constituem as tendências em relação à democracia. tabela 54 Os partidos estão cumprindo seu papel? tabela 55 Problemas a enfrentar para fortalecer a democracia tabela 56 Problemas a enfrentar para fortalecer a democracia. 2002 tabela 48 Perfil socioeconômico das pessoas segundo sua tendência em relação à democracia. 2002 gráfico 5 Perfil das tendências em relação à democracia. 1990-2000 gráfico 3 Direitos dos trabalhadores. américa latina. 1990-2000 gráfico 4 Distribuição da renda na América Latina. 2002 tabela 50 Perfil socioeconômico das pessoas segundo modos de participação cidadã. 2002 tabela 49 Perfil político das pessoas segundo sua tendência em relação à democracia. 1990-2002 gráfico 2 Ambiente de negócios. 2002. 2002 262 A democracia na América Latina . 1985. tabela 51 Aumentou a participação na América Latina? tabela 52 Aumentaram os controles sobre o poder na América Latina? tabela 53 Quem exerce o poder na América Latina? Segundo o ponto de vista dos líderes consultados.

Conteúdo do CD-ROM (parte integrante do Relatório) 263 . 2002 gráfico 8 Panorama regional do IAD. rumo a uma democracia de cidadãs e cidadãos.144 154 195 197 gráfico 7 Democratas. 2002 Conteúdo do CD-ROM incluído no relatório Relatório: A democracia na América Latina. ambivalentes e não democratas segundo sua posição nas escalas de atitude democrática. América Latina. 2002 gráfico 10 Posição face à intervenção do Estado na economia. Anexo I: Compêndio Estatístico Anexo II: O debate Conceitual sobre a democracia Livro: “Contribuiciones para el Debate” Resumo: Idéias e Contribuições. 2002 gráfico 9 A agenda dos cidadãos: principais problemas.

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