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91. CRIME É CONDUTA TÍPICA, ANTIJURÍDICA E CULPÁVEL.

A PARTIR DESTA DEFINIÇÃO


ESTRATIFORME DO DELITO, LEMBRA-SE O PRINCÍPIO “NULLUM CRIMEN SINE CONDUCTA”.
ENTRETANTO,

I. a conduta compreende o fato humano voluntário e o involuntário.


II. A conduta envolve a ação e a omissão, mas esta só tem relevância quando o omitente devia e
podia agir para evitar o resultado;
III. A conduta atípica tem relevância no Direito Penal;
IV. A conduta humana é relevante para se verificar a ocorrência do delito, pois tem validade absoluta
a parêmia latina “societas delinquere non potest”.

ANALISANDO AS ASSERTIVAS ACIMA, PODE-SE AFIRMAR QUE:


a) ( ) estão corretas as de números I eII;
b) ( ) estão corretas as de números II eIII;
c) ( ) estão corretas as de números III e IV;
d) ( ) estão todas corretas.

COMENTÁRIOS

Estão corretas apenas as assertivas II e III.

Primeiro, fato humano involuntário não é conduta. Sob a ótica finalista de Welzel, conduta implica
vontade dirigida para uma finalidade. Para o pós-finalismo não é diferente. Seja sob o Funcionalismo
radical do Günther Jakobs, seja sob a perspectiva moderada de Roxin, ou ainda, em qualquer linha do
Garantismo, a conduta há de ser voluntária, assim entendida como ação ou omissão teleologicamente
orientada.
Assim, a assertiva I não pode estar certa. Convém recordar que mesmo sob a perspectiva causal-
naturalista, de Beling, dir-se-ia que “ação é movimento voluntário do corpo que dá causa a um
resultado” e “omissão é uma ausência voluntária de movimento do corpo”. Ou seja, desde então já se
reconhecia excludentes da tipicidade, por ausência de conduta, nos eventos decorrentes de ato reflexo,
estado de inconsciência e vis absoluta (coação física irresistível, já que nessas hipóteses não havia
sequer controle voluntário na inervação – ação - ou no relaxamento muscular - omissão.

O gabarito aponta como verdadeira a segunda assertiva, entendendo, conforme a Teoria Normativa
do Resultado, que todo crime produz resultado, este consistente em afetar bem jurídico. Assim, não
seria apenas na Omissão Imprópria, nos delitos comissivos-omissivos, que se poderia falar em dever de
agir para evitar o resultado, de acordo com o que dispõe o artigo 13, § 2º do Código Penal Brasileiro.
Também nos crimes omissivos puros, aqueles que não dependem de qualquer resultado naturalístico,
como é o caso da Omissão de Socorro (Art. 135) haveria o dever de agir para impedir o resultado
normativo. Aqui o dever de agir deriva da norma de proibição implícita no próprio tipo penal, em
sentido contrário à conduta omissiva descrita. Já na Omissão Imprópria o dever de agir encontra-se
insculpido na referida norma incriminadora por extensão: “A omissão é penalmente relevante quando o
omitente podia e devia agir para impedir o resultado”.

A terceira assertiva, apontada como correta, vai encontrar supedâneo na doutrina de Eugênio Raúl
Zaffaroni, mais uma vez homenageada com a sua adoção pela Banca da Examinadora PGR. Neste
ponto é suficiente repetir a lição do grande mestre, em seu Manual de Direito Penal Brasileiro ( 5ª ed. Ed
RT, pg 391):
“Não é verdade que a única conduta que nos interessa seja a conduta típica...há tipos que
requerem a realização de certas condutas por parte do sujeito passivo: o rapto consensual requer o
consentimento (art. 220 CP); o induzimento a erro essencial e a ocultação de impedimento matrimonial
(art. 236, caput, CP) requerem que o outro que ignora o impedimento case com o autor etc. Estas
hipóteses deixam bem claro que no Direito Penal têm relevância condutas que não são típicas.”

A quarta assertiva erra ao afirmar como de “validade absoluta a parêmia latina “societas delinquere non
potest”. Consabido que, a despeito de retumbantes protestos doutrinários, a incriminação da Pessoa Jurídica
já não se pode ter como inadmitida pelo ordenamento jurídico brasileiro, uma vez prevista na própria CF, art.
225, § 3º, tipificada na Lei 9.605/98 e já concretizada pela Justiça Federal, em delito contra o meio ambiente.

92. EM TEMA DE DELITOS CONTRA A LIBERDADE SEXUAL, NÃO HÁ EQUÍVOCO EM DIZER


QUE:
a) ( ) comete o crime de estupro o sujeito ativo que, mediante violência ou grave ameaça, introduz o dedo na
vagina da mulher e com ela mantém o cito anal;
b) ( ) a mulher não pode responder pelo crime de estupro;
c) ( ) é possível comutar a pena do condenado por crime de estupro;
d) ( ) o estupro constitui crime hediondo mesmo que tenha sido perpetrado em suas formas simples ou com
violência presumida.

COMENTÁRIOS

Na letra “a” descreve-se um atentado violento ao pudor. Não há estupro sem conjunção carnal, não há
conjunção carnal – para o Direito Penal – sem coito vagínico.
Incorreta a alternativa “b”: nada impede que mulher atue em concurso de pessoas com o homem,
autor material da penetração, com este respondendo pelo crime.
Também incorreta a alternativas “c”. Comutação é espécie de Indulto, trata-se de indulto individual e
parcial. Como tal, inadmissível para os crimes hediondos, teor do artigo 2º, inciso I da Lei 8.072/90.
Cooreta a letra “d”, por apresentar o atual entendimento da jurisprudência brasileira, sobre a
matéria.

93. QUANTO AO CRIME DE LAVAGEM DE DINHEIRO:


a) ( ) há atenuante em mercê do autor...
b) ( ) resta configurado quando os bens, direitos ou valores...são provenientes de furtos praticados de modo
habitual;
c) ( ) é acessório, podendo, contudo, ser cometido por quem não perpetrou o delito principal antecedente;
d) ( ) o agente definitivamente condenado por sua prática não poderá exercer cargo ou função pública de
qualquer natureza, perdurando este efeito automático da condenação pelo tempo da pena privativa de
liberdade aplicada.

COMENTÁRIOS

A letra “a” é incorreta, pois o § 5º do artigo 1º da Lei 9.613/98 prevê causa de diminuição de pena,
minorante que não se confunde com atenuante.
O furto não faz parte do rol de crimes pressupostos e antecedentes, descritos nos oito incisos do artigo
primeiro, só sendo possível assim considerá-lo se praticado por organização criminosa ou para
financiamento de ‘terrorismo’, o que não corresponde à hipótese fática descrita. Logo, a letra “b” não
apresenta a solução.
A alternativa “d” peca por limitar o efeito citado da condenação à duração da pena privativa de
liberdade aplicada, quando o artigo 7º, inciso I, da Lei, prescreve interdição pelo dobro da pena
apllicada;
Logo, correta só pode ser a alternativa ‘c’. De fato, embora criticável falar-se em relação de
acessoriedade do crime de ‘Lavagem’, em face da necessária ocorrência de um delito antecedente,
certo é que a Lei Brasileira manteve-se na segunda geração da legislação mundial referente ao tema.
Melhor seria se adotássemos a concepção mais moderna, onde não se especifica qualquer crime como
pressuposto necessário para a “lavagem”. Entende-se, portanto, em tal contexto, que se diga ser este
um crime acessório, sendo certo que pode “ser cometido por quem não perpetrou o delito principal
antecedente”.

94. COM RELAÇÃO À CONDENAÇÃO, REGISTRA-SE QUE


a) ( ) a imposição de sanção penal (pena privativa de liberdade, restritiva de direito e/ou multa) ou de
medida de segurança não é seu principal efeito;
b) ( ) produz efeitos penais e extrapenais, podendo-se enquadrar entre estes o de impedir ou invalidar o
sursis, o de revogar o livramento condicional ou a reabilitação, o de lançar o nome do réu no rol dos
culpados, o de propiciar reincidências etc;
c) ( ) torna certa a obrigação de indenizar e provoca, também, a perda, em favor da
União, dos bens e valores de origem ilícita, sendo estes os efeitos penais genéricos
e automáticos, pois não precisam ser expressamente pronunciados pelo Juiz;
d) ( ) a perda do cargo, função pública ou mandato eletivo do agente aparece como efeito
extrapenal específico, mas deve ser motivadamente declarada na sentença que
impõe pena privativa de liberdade superior a um ano pela prática de crime praticado
com violação de dever em relação à administração pública.
COMENTÁRIOS

A questão, como formulada, não suscita maiores indagações. A alternativa “d”mostra-se conforme o
artigo 92 do Código Penal, onde se estabelecem os efeitos específicos e não automáticos da condenação
criminal, dentre os quais a apontada perda do cargo, função pública ou mandato eletivo do agente
condenado. Observe-se que o referido dispositivo refere-se expressamente às condenações iguais ou
superiores a um ano, o que não invalida a resposta oferecida na alternativa “d’ onde se fala apenas em
superior a um ano”.

95. EM TEMA DE CRIME CONTINUADO, A JURSPRUDÊNCIA ATUAL


GARANTE QUE
I. a heterogeneidade nas execuções das infrações obsta o reconhecimento da
continuidade delitiva;
II. a reiteração na prática de infrações como atividade habitual não descaracteriza a
continuidade, cujos pressupostos são objetivos e impedem que se potencialize a
vida pregressa do agente;
III. a unidade de desígnios entre as várias condutas delituosas é dispensável à
configuração da continuidade;
IV. não se reconhece a continuidade quando transcorre tempo superior a 30 dias entre o
primeiro e o segundo crime.
Examinando as opções acima, afirma-se que:
a. estão erradas as de números I e III;
b. estão erradas as de números II e III;
c. estão erradas as de números III e IV ;
d. todas estão corretas.
COMENTÁRIOS

ESTÃO ERRADAS AS DE NÚMEROS II E III.


Eis um repertório de entendimentos jurisprudenciais mais gravosos para o réu, em tema de
continuidade delitiva.
Destaque-se que o STJ expressa a adoção da Teoria Mista, segundo a qual exige-se o preenchimento
dos requisitos objetivos (semelhança de modus operandi, de condições de tempo e de lugar) e subjetivo
(unidade de desígnios) para o reconhecimento da continuidade delitiva.
Demais disso, tem-se decidido que o intervalo temporal deve limitar-se a crimes cometidos em dentro
de 30 dias (CONCURSO MATERIAL - LAPSO SUPERIOR A 30 DIAS), STF - HC 73219-SP, e que
“Criminoso que faz do crime profissão não faz jus à aplicação do instituto. A habitualidade é
incompatível com a continualidade. A primeira recrudesce, a segunda ameniza o tratamento penal.
Em outras palavras, a culpabilidade (no sentido de reprovabilidade) é mais intensa na habitualidade
do que na continualidade.” (STJ - HC 33891 / RJ ; HABEAS CORPUS
2004/0022730-4.)

96. É INCORRETO DIZER QUE


a. existe escusa absolutória para o marido que, na constância do casamento, furta
vultuosa importância em dinheiro da carteira da mulher;
b. atinge o crime complexo a extinção da punibilidade dos delitos que aparecem como
elementos constitutivos em sua definição;
c. a abolitio criminis, a decadência e a perempção são causas de extinção da
punibilidade e se comunicam aos co-autores e ao partícipes;
d. não se acomodou a jurisprudência sobre a natureza da sentença concessiva do
perdão judicial, embora o Supremo Tribunal Federal tenha anunciado que dela
decorrem efeitos secundários.

COMENTÁRIOS

A alternativa “a” subsume-se no artigo 181 do Código Penal, como causa pessoal de exclusão da pena,
ou seja, escusa absolutório.
Incorreto é o item ‘b’. O crime complexo é uma unidade, incindível em sua estrutura típica. Nele
encontra-se um grau especial de violação a bem jurídico superior ao simples somatório das lesões
menores dos delitos que o compõem. Assim, uma possível extinção da punibilidade para um dos delitos
constitutivos não teria o condão de atingir o crime complexo.
Verdadeira a alternativa “c”: as causas extintivas (art. 107 do CPB) ali apontadas são objetivas –
diferentemente das causas pessoais trazidas no mesmo artigo 107, como a morte ou a retratação do
agente - não sendo possível diferenciá-las entre os sujeitos na co-delinqüência.
Igualmente verdadeira a afirmação contida em “d”, no sentido de que “não se acomodou a
jurisprudência sobre a natureza da sentença concessiva do
perdão judicial”, a despeito da súmula 18 do STJ: “A sentença concessiva do perdão judicial é
declaratótria da extinção da punibilidade, não subsistindo qualquer efeito condenatório”. Aliás, a
edição desta súmula não explicitou uma solução para o dilema consistente em se entender se a
concessão do perdão judicial pressupões sentença absolutória ou condenatória. Neste sentido, há um
precedente esclarecedor do STF, no
RE 104679 / SP (DJ 06-12-1985 PG-22585), onde se entendeu que “ O PERDAO JUDICIAL PRESSUPOE
CONDENAÇÃO”. A mesma Suprema Corte, em decisão posterior (RE 104977 / SP, DJ 23-05-1986 PG-
08784), pontificou: “PERDAO JUDICIAL - IMPEDE A APLICAÇÃO DOS EFEITOS PRINCIPAIS DA
CONDENAÇÃO, MAS SUBSISTEM OS EFEITOS SECUNDARIOS (LANCAMENTO NO ROL DOS
CULPADOS E PAGAMENTO DE CUSTAS)”.

97. LUÍS ERA SÓCIO GERENTE DA REVENDEDORA DE PNEUS LTDA.


FISCAIS DA PREVIDÊNCIA DESCOBRIRAM QUE ELE, NO PERÍODO DE
AGOSTO A DEZEMBRO DE 2000, DEIXOU DE REPASSAR AO INSS, NO
PRAZO LEGAL, AS CONTRIBUIÇÕES DESCONTADAS DOS SALÁRIOS
PAGOS AOS EMPREGADOS DA EMPRESA. ACUSADO DE COMETER A
INFRAÇÃO, LUÍS EFETUOU, ANTES DO RECEBIMEENTO DA DENÚNCIA,
O PAGAMENTO DO PRINCIPAL E DOS ACESSÓRIOS DO DÉBITO, NESTE
CONTEXTO, EM RELAÇÃO AO ACUSADO, É CORRETO AFIRMAR QUE
a. a sua punibilidade extinguiu-se;
b. há atenuante genérica em seu favor;
c. existe, em seu favor, circunstância especial de diminuição de pena;
d. poderá obter o perdão judicial, ou receber apenas a pena de multa.

COMENTÁRIO

A seguinte jurisprudência, do TRF da 2ª Região, encontra-se exposta na página do site da


Procuradoria Geral da república, indicando entendimento conforme a resposta no gabarito
apresentada: alternativa “a”.

“ O MPF h5ª TURMA TRANCA AÇÃO PENAL CONTRA DONAS DE COLÉGIO QUE
QUITARAM DÍVIDA COM O INSS E, MESMO ASSIM, FORAM PROCESSADAS” Proc.
2003.02.01.016644-8

As donas da Sociedade Campograndense de Ensino alegaram estar sofrendo


constrangimento ilegal, justamente porque o MPF ofereceu a denúncia mesmo após elas já
terem quitado a dívida com o INSS, que, por sua vez, nem tinha chegado a iniciar a ação
fiscal administrativa. Para o MPF, o artigo 168-A do Código Penal define como crime de
apropriação indébita tributária deixar de repassar à previdência social as contribuições
recolhidas dos contribuintes.
No entendimento do relator do processo na 5ª Turma, Desembargador Federal Antonio Ivan
Athié, embora seja verdade que a Lei nº 10.684/03, que alterou a legislação tributária, não
tenha revogado o artigo 168-A do CP, como também foi sustentado pelo MPF, ela
estabeleceu regras para a extinção da punibilidade, entre elas, o pagamento da dívida: “Não
resta a menor dúvida de ter o legislador, representante do povo, adotado, como causa de
extinção da punibilidade do delito previsto no artigo 68-A do Código Penal, o pagamento
integral do débito, não diferenciando se por força de parcelamento ou não”.

98. COM RELAÇÃO AOS CRIMES CONTRA O SISTEMA FINANCEIRO


NACIONAL, SERIA ERRÔNEO ASSEVERAR QUE
a. há presunção legal da responsabilidade do controlador e dos administradores da
instituição financeira, incluindo diretores e gerentes, pela prática das infrações;
b. a responsabilidade do controlador e dos administradores da instituição financeira,
incluindo diretores e gerentes, somente se concretiza se eles praticaram ou
concorreram para a prática das infrações;
c. a gestão fraudulenta é delito de mão-própria do gerente da instituição financeira,
embora não seja infenso às regras do concurso de pessoas;
d. há concurso aparente de normas entre o estelionato e a gestão fraudulenta, eis que
aquele, como crime meio, fica absorvido por esta última infração.
COMENTÁRIO

A resposta “d”, apontada como correta, mostra-se conforme o entendimento do STJ. Veja-
se, a respeito, “AG 540795, relatoria do douto Ministro FELIX FISCHER, DJ 07.05.2004:
“Possibilidade em tese ... de concurso material entre
os crimes de estelionato e gestão fraudulenta de instituição
financeira, porquanto ofendem bens jurídicos e sujeitos passivos
distintos.
As demais assertivas trazidas na questão estão corretas e acordes com o posicionamento
dos tribunais superiores em face da Lei 7.492/86.

99. CONTRATADO PARA PATROCINAR DEFESA DE RICA EMPRESA, EM


RECLAMAÇÃO TRABALHISTA CONTRA ELA AJUIZADA, O ADVOGADO
ROGÉRO DEU DINHEIRO A MARISA E CONSEGUIU, ASSIM, QUE A
MENCIONADA TESTEMUNHA FIZESSE AFIRMAÇÃO FALSA EM JUÍZO.
DIANTE DESTES FATOS, É CERTO ANUNCIAR QUE
a. Rogério praticou o crime de corrupção ativa de testemunha e pode, igualmente, ser
enquadrado como co-autor do falso testemunho qualificado pelo suborno, pois
concorreu moralmente para este delito, fazendo nascer em Marisa a vontade
delitiva;
b. a conduta de Rogério caracteriza corrupção ativa de testemunha, mas ele não pode
ser considerado como co-autor do falso testemunho qualificado pelo suborno, que é
delito de mão-própria, somente podendo ser cometido pela própria testemunha;
c. Marisa perpetrou falso testemunho, sendo co-autora do delito de corrupção ativa de
testemunha;
d. o falso testemunho não deixará de ser punível, ainda que Marisa venha a se retratar
ou a declarar a verdade antes da sentença.

COMENTÁRIO

A alternativa “a” apontada como correta pela banca examinadora revela a adoção da Teoria
do Objetivo-Subjetiva ou do “Domínio do Fato”, em sede de Concurso de Pessoas, uma vez
que aponta como co-autor, e não como ‘partícipe” aquele que se conduz como o advogado
da narrativa do comando da questão. E assim é: embora se trate de crime de mão própria, o
falso testemunho, onde, de ordinário, entende-se não ser possível a co-autoria, e sim a
participação, as demais alternativas apresentam-se inaceitáveis.
Assim, não é de se aceita a alternativa “b”, onde se nega a possibilidade de concurso de
pessoas em delito de mão própria. Impossível de aceitação a resposta trazida em “c”, pois
a própria corrompida não pode ser sujeito ativo de corrupção, se existente. Quanto à
retratação, a teor do que dispõe o artigo 242 em seu § 2º, tem-se que “o fato deixa de ser
punível se, antes da sentença no processo em que se deu o ilícito, o agente se retrata ou
declara a vontade”.
Logo, restou com única resposta aceitável, embora controversa, que o advogado Rogério
quando “DEU DINHEIRO A MARISA E CONSEGUIU, ASSIM, QUE A MENCIONADA
TESTEMUNHA FIZESSE AFIRMAÇÃO FALSA EM JUÍZO”, ele, segundo a doutrina de Zaffaroni
e Pierangeli, atuou como “autor de determinação”, em um “tipo especial de concorrência”,
possível de ser incriminado na fórmula geral e abrangente da do artigo 29 do CPB, onde se
diz que “quem de qualquer modo concorre para o crime, responde nas penas a este
cominadas...”.
Destaque-se que nos STJ e STF encontram-se precedentes de aceitação, em tese, de co-
autoria em delito de falso testemunho, muito embora os julgados em questão, lacônicos,
sequer tenham esboçado justificativa teórica para tal entendimento.

100. CONFORME O PRINCÍPIO TEMPUS REGIT ACTUM, A LEI PENAL APLICA-


SE ÀS CONDUTAS OCORRIDAS DURANTE SUA VIGÊNCIA. TODAVIA,
PARA SOLUCIONAR AS QUESTÕES ADVINDAS DA SUCESSÃO DE LEIS
PENAIS, HÁ PRINCÍPIOS DE DIREITO INTERTEMPORAL. ASSIM,
I. a regra da irretroatividade vale apenas em relação à nova lei mais gravosa;
II. para aplicar a lei mais favorável ao réu definitivamente condenado, deve-se esperar
o término do respectivo período de vacatio legis;
III. por serem dotadas de ultra-atividade, as leis excepcionais e temporárias aplicam-se
a quaisquer delitos, desde que seus resultados tenham ocorrido durante sua
vigência;
IV. a abolitio criminis alcança até os fatos definitivamente julgados.
Analisando as assertivas acima, pode-se afirmar que:
a. todas estão corretas;
b. estão erradas as de números I e II;
c. estão erradas as de números II e III;
d. estão erradas as de números I e IV.

COMENTÁRIO

O gabarito traz como solução a resposta “c”, indicando como erradas as de números II e III.
Bem assim, a assertiva trazida em I está correta, vez que a irretroatividade de lex gravior é
princío constitucional explicitado no artigo 5º, XL da Carta Magna.
Em II, o autor destes comentários confessa não entender a razão pela qual a douta banca
examinadora considerou incorreta a afirmativa ali exposta, a saber: “para aplicar a lei mais
favorável ao réu definitivamente condenado, deve-se esperar o término do respectivo período de vacatio
legis”. Ora, se o réu já se encontra condenado, em sentença trânsita, é de se entender que
apenas uma novatio legis in mellius vigente permite que dela se faça a benéfica aplicação.
E isto não ocorre enquanto flui a vacatio legis, período anterior ao início da vigência.
Já a terceira assertiva, sem dúvida, está errada porquanto contraria a Teoria da Ação, ou da
Atividade, segundo a qual considera-se como momento do crime aquele em que se pratica
a ação no todo ou em parte,embora outro seja o momento em que se produzirá o resultado.
Ou seja, as leis excepcionais ou temporárias aplicam-se aos fatos praticados durante a sua
vigência, independente de quando virão a se produzir os resultados decorrentes.
Da quarta assertiva não cabe qualquer questionamento, abolitio criminis apaga o crime,
não restando qualquer conseqüência penal, impondo-se a extensão dos seus benefícios até
para aquele que já tiver cumprido a sua pena.

101. ALICE TRABALHAVA, COMO DIARISTA, FAZENDO LIMPEZAS


SEMANAIS NO APARTAMENTO DE RITA. NO DIA SEGUINTE À
REALIZAÇÃO DA FESTA DE ANIVERSÁRIO DE SUA PATROA,
ENCONTROU, ENQUANTO TRABALHAVA, UMA BOLSA EM CIMA DE UM
MÓVEL NO CANTO DA PAREDE, ESTAVA SOZINHA E SUBTRAIU O
OBJETO, PENSANDO QUE FORA DEIXADO POR ALGUMA CONVIVA.
MAS, QUANDO CHEGOU EM SUA CASA DESCOBRIU QUE A BOLSA LHE
PERTENCIA E FORA ESQUECIDA NAQUELE LOCAL NA SEMANA
ANTERIOR. NESTA SITUAÇÃO, CARACTERIZOU-SE:
a. o erro de tipo, excludente de dolo;
b. o crime putativo;
c. o furto, na sua forma tentada;
d. o crime impossível.

COMENTÁRIO

A resposta apontada como correta é a trazida na letra “d”, o crime impossível. E não há
dúvida de que se trata de uma absoluta impropriedade do objeto, vez que este, in casu, não
é coisa alheia. Conforme, portanto ao artigo 17 do CPB.
Merece registro, porém, que o crime putativo, delito imaginário, pode decorrer de um erro
de tipo, configurando o que a doutrina convencionou chamar de “delito putativo por erro
de tipo”. Sob esta ótica, “O crime impossível por impropriedade absoluta do objeto é espécie do
delito putativo por erro de tipo” (Damásio de Jesus).
“As outras duas espécies de crime putativo são delito putativo por erro de proibição e delito putativo
por obra de agente provocador”(idem).
Veja-se que este é precisamente o caso de alguém que subtrai coisa própria pensando
tratar-se de coisa alheia. Não sendo “coisa própria’ elementar do artigo 155, é de se ver
que o agente está a cometer um crime imaginário por erro de tipo, conceito que em nada
destoa do gênero “crime impossível”.
Contudo, sem aprofundar o tema, a doutrinação majoritária singelamente repete que não se
confundem crime impossível (art. 17 do CPB) e crime putativo (este visto como erro de tipo
às avessas). E neste compasso, ficou o examinador.
Por tudo, enfim, o candidato deveria mesmo ter marcado a alternativa “d”, para a qual não
há dúvida.

102. A JURISPRUDÊNCIA DO STF E DO STJ DESAUTORIZA DIZER QUE


a. a corrupção passiva, na forma da conduta típica de “receber, para si ou para
outrem”, implica a existência de corrupção ativa na modalidade de “oferecer
vantagem indevida”;
b. não é possível generalização de sempre excluir o dolo da conduta do motorista que
se envolve em acidente de trânsito e causa a morte de outra pessoa;
c. o crime de extorsão não se consuma sem a obtenção da vantagem indevida;
d. a testemunha, ao prestar depoimento, narrando o que sabe, não pode ser sujeito
ativo de calúnia, pois, sendo falso seu depoimento, o crime será o de falso
testemunho.

COMENTÁRIO

Corrupção passiva implica reconhecimento de corrupção ativa, do outro lado. Diferente do


que ocorre na Concussão, onde o particular que se limita a submeter-se ao atendimento da
exigência do intraneus não comete corrupção ativa.
Quanto ao item “b”, tem sido cada vez mais freqüente a incidência de reconhecimento do
dolo eventual em condutas de motoristas que causam acidentes no trânsito. Julgados
assim têm recebido acolhida pelos tribunais superiores.

Já a alternativa “c”, esta apresenta entendimento diverso da sólida jurisprudência reiterada


no país a respeito de matéria sumulada (STJ, nº 96), praticamente incontroversa. Consabido
tratar-se de crime formal, de resultado cortado ou consumação antecipada, a Extorsão,
artigo 158 do CPB. Basta que a vítima seja constrangida, mediante violência ou grave
ameaça, a fazer, deixar de fazer ou tolerar que se faça algo, com o fito de proporcionar
indevida vantagem econômica ao agente, para que se dê a consumação do delito.
Admissível a tentativa, quando, ameaçada, a vítima não se deixa constranger. Porém, uma
vez constrangida, a obtenção da indevida vantagem situa-se na esfera do exaurimento, de
desnecessária ocorrência para a configuração aperfeiçoada do tipo.
Outro não tem sido o entendimento dos STJ e STF:

REsp 641797 / SP ; RECURSO ESPECIAL 2004/0042194-0


Relator Ministro FELIX FISCHER Data da Publicação/FonteDJ 13.12.2004 p. 432
Ementa
PROCESSUAL PENAL. RECURSO ESPECIAL. ART. 158, DO CÓDIGO PENAL. CRIME
FORMAL. CONSUMAÇÃO. TENTATIVA.
O delito de extorsão, enquanto crime formal, prescinde, para sua
consumação, da efetiva obtenção da indevida vantagem econômica,
sendo esta mero exaurimento da conduta criminosa. (Precedentes e
Súmula nº 96 do STJ).

Da mesma forma, o STF:


RE 103680 / SP
Ementa
EXTORSAO. CRIME FORMAL OU DE CONSUMAÇÃO ANTECIPADA. NÃO E TENTATIVA, MAS CRIME
CONSUMADO, SE O AGENTE OBTEM O CHEQUE MEDIANTE CONSTRANGIMENTO EMBORA NÃO
CONSIGA RECEBE-LO. RE CONHECIDO E PROVIDO.

103. RENATA CONHECIA MARCOS, MAS NÃO SABIA QUE ELE TRABALHAVA
NA DIVISÃO DE RECURSOS HUMANOS DA CAIXA ECONÔMICA
FEDERAL. OS DOIS SE ENCONTRARAM NUMA LANCHONETE E
AJUSTARAM ENTRAR NO PRÉDIO DA CEF, PARA TIRAR ÀS
ESCONDIDAS, ALGUNS OBJETOS, DURANTE O INTERVALO DA
REFEIÇÃO. INGRESSARAM NA SEDE DA EMPRESA E FORAM À SALA DO
DEPARTAMENTO JURÍDICO. ESTAVA VAZIA. OS SERVIDORES TINHAM
SAÍDO PARA O ALMOÇO. RENATA E MARCOS APROVEITARAM A
OCASIÃO, SUBTRAINDO VÁRIOS OBJETOS – MICROCOMPUTADORES,
CARTUCHOS PARA IMPRESSORAS, CANETAS ETC – PERTENCENTES À
EMPRESA PÚBLICA FEDERAL. DIAS DEPOIS, VALDOMIRO, QUE ERA
DONO DE UMA LOJA DE INFORMÁTICA E DESCONHECIA A ORIGEM
ILÍCITA DOS BENS, COMRPOU, POR R$ 600,00 (SEISCENTOS REAIS), OS
MICROCOMPUTADORES SURRUPIADOS, QUE CUSTAVAM, NO
MERCADO APROXIMADAMENTE R$ 17.000,00 (DEZESSETE MIL REAIS).
NESTE EXEMPLO,
a. Valdomiro responde por receptação; Renata, por furto qualificado; Marcos, por
peculato.
b. a hipótese é de concursus delictorum, devendo Marcos, Renata e Valdomiro
responderem por furto qualificado e receptação, pois participaram da prática dos
dois crimes;
c. Renata e Marcos praticaram, em concurso de pessoas, o delito de peculato,
enquanto Valdomiro perpetrou o crime de receptação;
d. Valdomiro, Renata e Marcos praticaram, em concurso, peculato.

COMENTÁRIO

A princípio, registre-se que nem todo furto praticado por servidor, ou equiparado, contra a
Administração Pública implica Peculato. É preciso que o agente se valha desta condição
funcional, de algum modo, para que se configure o crime de “Funcionário” contra a
Administração Pública.

Neste passo, embora o comando da questão não deixe claro que Marcos se valeu da sua
condição de trabalhar na Divisão de Recursos Humanos da CEF para subtrair os vários
objetos do Depto Jurídico, outra resposta não há senão aquela exibida na letra “a”.

Aqui dever-se-ia aplicar a regra do artigo 30 do CPB: “Não se comunicam as circunstâncias e


as condições de caráter pessoal, salvo quando elementares do crime”, em razão da qual Renata
responderia também pelo Peculato, já que o fato de Marcos ser empregado da CEF,
elementar do crime, a ela se comunicaria.

Porém, desconhecendo Renata a particular condição de Marcos, como “funcionário


público” equiparado (art. 327 § 1º), ela responderá pelo Furto, em uma exceção à Teoria
Monista, que prescreve ser o fato-crime único para todos.

A conduta de Valdomiro subsume-se à Receptação, na medida em que, dias após, sem


vínculo subjetivo na anterior subtração praticada pelos demais, adquiriu coisa que devia
saber ser produto de crime. Aqui o dolo eventual prepondera sobre a alternativa de uma
receptação culposa, dada a mais do que exagerada desproporção entre o valor de mercado
e a oferta recebida, suficiente para tornar a transação evidentemente suspeita para
qualquer pessoa. Com muito mais razão é de se assim entender no caso de Valdomiro,
descrito como profissional do ramo de vendas de microcomputadores.

104. É ADEQUADO AFIRMAR QUE:


a. o estado de necessidade, a legítima defesa, o estrito cumprimento do dever legal, a
obediência hierárquica e o exercício regular de direito excluem a ilicitude;
b. a embriaguez total, proveniente de caso fortuito ou força maior, exclui a tipicidade;
c. a coação física irresistível exclui a culpabilidade;
d. a imputabilidade do agente, a possibilidade dele conhecer a ilicitude de seu
comportamento e a exigibilidade de conduta diversa são pressupostos da
culpabilidade.

COMENTÁRIO

Nenhuma dificuldade oferece a questão, que buscou examinar o conhecimento do


candidato com relação às variadas excludentes aplicáveis na estrutura do crime.
A letra “a” contém erro ao incluir a dirimente da obediência hierárquica entre as eximentes.
Na letra “b” descreve-se possível excludente da culpabilidade como se fora da tipicidade.
Em “c” fala-se da vis absoluta, excludente da própria conduta, sem a qual não há
tipicidade.
Certa, portanto, a alternativa “d”, onde se diz como “pressupostos da culpabilidade” a
imputabilidade do agente (pressuposto para o juízo de culpabilidade) e os elementos
normativos da culpabilidade: a potencial consciência da ilicitude e a exigibilidade de
conduta diversa, conduta conforme o direito.

105. A LEI CONSAGRA O MÉTODO TRIFÁSICO PARA INDIVIDUALIZAÇÃO


DA PENA. DESTE MODO,
I. as qualificadoras interessam à fixação da pena-base porque são circunstâncias
legais presentes na Parte Especial do Código, que cominam novas penas para o tipo
derivado, com limites, mínimo e/ou máximo, distintos do tipo fundamental;
II. num primeiro momento, cabe ao Magistrado calcular a pena-base, considerando os
fatores legais, quais sejam: o comportamento da vítima, bem como a culpabilidade,
os antecedentes, a conduta social e a personalidade do agente, e, ainda, os motivos,
as circunstâncias e conseqüências do crime;
III. na segunda fase, cabe ao Juiz fazer incidir sobre a pena-base as circunstâncias
atenuantes e agravantes, sendo certo que a pena pode ser atenuada ou agravada em
razão de circunstância relevante, anterior ou posterior ao crime, ainda que não
esteja prevista em lei;
IV. na última etapa, cabe ao Magistrado observar as causas de diminuição e aumento de
pena, para determinar, em definitivo, o quantum da pena, sendo impossível transpor
os limites mínimo e máximo da cominação do tipo.
Assinale opção correta:
a. estão erradas as de números III e IV;
b. estão erradas II e IV;
c. somente a de número I está certa;
d. todas estão certas.

COMENTÁRIO

Dosimetria na aplicação da pena, foi o tema da questão 105.

Verdadeiras as duas primeiras assertivas.

Na conformidade do sistema trifásico, preconizado por Nelson Hungria e hoje insculpido no


artigo 68 do CPB, o juiz parte do mínimo da pena em abstrato prevista no tipo legal em que
condenou o réu. Tratando-se de tipo derivado, cuja pena encontra-se redefinida em limite
mínimo e máximo, função das qualificadoras ali descritas, é do mínimo dessa pena que se
tem o ponto de partida (I).

Sobre este é que se procede ao acréscimo decorrente de eventuais circunstâncias judiciais


(art. 59) reconhecidas em desfavor do réu (II).

Já na segunda fase, não é possível falar em ‘agravante inominada’ (“ainda que não esteja
prevista em lei”). Inominadas, só as atenuantes, segundo o dispõe o artigo 66 do CPB. Logo,
está errada a assertiva III.
Também incorreta é a assertiva de número III, vez que na terceira fase não se tem como
limite o mínimo ou o máximo da pena cominada em abstrato, devendo o magistrado
obedecer ao comando legal de aumento ou diminuição da pena aplicável ao fato, ainda que
desborde dos referidos limites.