Você está na página 1de 1

Gente é gente!

Paulo Angelim*

Pelo amor de Deus!


Parem com esta história de "Gestão de Recursos Humanos". Isso é tão antigo quanto o século passado.
Nessa onda de quebrar paradigmas - também não agüento mais esse bordão - que tal se conseguíssemos
sepultar esse resquício da dita administração "moderna"! A justificativa para tal é muito simples: gente não
é recurso. Explico! De acordo com o dicionário do Aurélio, recurso é um expediente, um meio para
resolver um problema. A despeito dessa definição, o mesmo Aurélio se vê obrigado a registrar que 'recurso
humano' é um "conjunto de pessoas que trabalham numa empresa ou entidade". Uma mera tradução do dia-
a-dia corporativo, sem a necessária reflexão sobre seu real significado. Proponho-na a seguir.
Ora, as organizações competitivas, criativas e comprometidas com a qualidade e satisfação de seus clientes
já descobriram que não se consegue esses predicados sem gente motivada, envolvida, satisfeita.
Sendo assim, nessas organizações gente passou a ser a fonte das soluções ao invés de somente o meio para
se chegar a elas. E, se é assim, gente satisfeita dentro da empresa passou também a ser um fim, um alvo da
gestão competitiva. Você pode estar se perguntando: "isso tem alguma relevância, não e só uma questão de
semântica?". A rotunda resposta, na minha opinião, é NÃO!
Se fosse irrelevante, por quê teríamos abolido do "corporativês" os termos freguês (cliente), subordinado
(colaborador), departamento (células, times ou equipes), chefe (líderes), reclamações (atendimento ao
consumidor), etc? É simples: tais termos não mais expressavam os novos conceitos atribuídos para cada um
dos personagens ou processos em questão. Da mesma forma, considerar as pessoas da organização como
recursos (meios) abre caminho para que os superiores - digo, líderes - ignorem a necessidade de
construírem relações sadias, com vistas ao melhor aproveitamento do potencial dos colaboradores. Recurso
era cabível quando pessoas eram vistas como mão-de-obra. Hoje, as empresas precisam desesperadamente
de mente-em-obra, em qualquer instância hierárquica. Veja bem, pessoas não precisam e não devem ser
gerenciadas. Precisam, na verdade, ser lideradas, treinadas, educadas, orientadas. Só assim elas produzem e
contribuem mais. Você já se viu alguma vez dizendo que precisa gerenciar melhor seus filhos. Lógico que
não. Quer dizer, lógico não, porque tem alguns workaholics que não conseguem separar as coisas -- e os
coitados dos filhos precisam apresentar memorando para cobrar a mesada. Entretanto, a maioria dos
mortais responsáveis sabe que sua responsabilidade como pai ou mãe é de liderar seus filhos. Não que eu
advogue a idéia absurda que empresa é uma família, e que a relação entre líderes e colaboradores deve ser
matriarcal ou patriarcal. Mas, por que as relações interpessoais em uma organização devem ser secas e sem
calor humano, no nefasto formato de gestão de recurso? Ao meu ver, é inapropriada e nociva.
A outra inferência macabra que obtemos quando admitimos a gestão do recurso humano é que pessoas são
comparadas a dinheiro, computador, móveis ou equipamentos. Apesar de alguns desumanos quererem dar
vida a esses recursos - "o dinheiro é quem manda!" - todos eles são inanimados, sem sentimentos ou
opinião própria. Ora, gente não é assim. Por mais que alguns acreditem e professem a tirania, gente não é
massa de manobra, não é objeto, que se leva de um lado para o outro, sem negociação, sem acordo. Gente
se frustra, se motiva, chora, rir, e por isso precisa ser tratada como tal. Gente não é recurso.
Infelizmente ainda preservamos uma certa mentalidade escravocrata. Quer uma prova?: "manda quem
pode, obedece quem tem juízo!" Não tenho dúvida que tratar gente como recurso gerenciável é ainda um
dos resquícios da escravidão que impera em boa parte do mundo corporativo, infestado de feitores e
capatazes se passando por líderes. A solução não é só uma mudança cosmética de terminologias, como já
temos visto por aí: "Gestão de gente". Precisa sim, mudar o nome, mas acompanhado de uma mudança de
princípios, de valores. Afinal, gente é gente! E nisso não cabe "recurso", nos dois sentidos. *Paulo
Angelim, consultor em Marketing, Vendas e Responsabilidade Pessoal

Você S.A. - OnLine, Janeiro/2002 www.pauloangelim.com.br Página 1

Interesses relacionados