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Universidade de Lisboa

Faculdade de Direito

Trabalho realizado no âmbito da disciplina de


Direito Romano

«Ius Civile»

Trabalho realizado por:


Carolina Alexandra da Cruz Xavier; nº 20856
Subturma 14

Ano lectivo 2010/2011


1º Semestre
O presente trabalho tem como objecto de estudo o ius civile, pretendendo-se
aprofundar os conhecimentos sobre a origem do antigo Direito romano, a sua peculiar
evolução intrinsecamente ligada à evolução de Roma como civitas e Roma como o
maior império da Antiguidade.
O ius civile é o direito comum, feito pelo povo e para o povo, inicialmente apenas
compreendido para a civitas de Roma, com a expansão do Império passou a abranger
igualmente todos os cidadãos romanos.
O ius civile foi inicialmente denominado de ius quiritium, ou seja, direito dos antigos
ou direito quiritário, em alusão aos Quirites (cidadãos primitivos romanos), surgindo
para confrontar os direitos dos cidadãos romanos em oposição aos latinos.
È um direito comum às gentes patriciae, assente no princípio então corrente da
personalidade do direito (séculos VIII-IV a.C.), onde as normas previstas pelo ius
quiritium regulavam essencialmente as relações jurídicas das famílias, com destaque
central nos poderes pessoais do pater-famílias1.
Com o período de transição da Monarquia para a República, os plebeus vão
gradualmente aumentando a sua importância e conquistam um estatuto de paridade
jurídica face aos patrícios, nomeadamente com o acesso dos plebeus às magistraturas, a
transformação do exercitus centuriatus em comitia centuriata e com o abalo nas
estruturas sociopolíticas da civitas de Roma, há uma consciencialização crescente de
que o ius tem que mudar, surgindo então o ius civile.
Civile deriva de cives que era o cidadão romano que estivesse integrado no ordenamento
centurial, ou seja, no exército militar.
O ius civile é já um Direito que contempla tanto patrícios como plebeus.
Numa primeira etapa o ius civile era um Direito rígido, fechado, formalista e
inflexível, sendo exclusivo aos cives (só prevê a regulamentação das relações entre os
cives), como tal, os non-cives (denominados de peregrini) apesar de integrarem
igualmente o território romano, as suas relações privadas não estavam contempladas
pelo ius civile, situação que se altera com a introdução do ius gentium2.
As fontes do ius civile vão evoluindo conforme o adaptar do Direito ao modelo
político que vigorava em Roma.

1 Patria potestas, dominica potestas, manus, dominium, obligatio, hereditas (mais tarde redigidos com
destaque principal nas Leis das XII Tábuas).
2 O ius gentium será aprofundado mais à frente no presente trabalho.
Tem como fontes tradicionais todo um conjunto de regras de origem divina,
resultantes da interpretatio dos sacerdotes, que foram adquirindo um saber técnico-
jurídico de extrema relevância para a solução pacífica dos litígios.
Os sacerdotes eram vistos como um importante depositário de todo um conjunto de
costumes e saberes da memória colectiva inscritos no mores maiorum, que os sacerdotes
souberam manter vivo e aliar constantemente a tradição com a realidade, assumindo
cada vez mais um papel prevalecente na intervenção em todas as actividades jurídicas,
onde a validade jurídica dos actos compreendia todo um conjunto de formalidades e
rituais de natureza sagrada que competia apenas e restritamente aos sacerdotes realizar.
Depreende-se então, que o ius civile teve na sua base a tradição e o respeito pelos
actos consuetudinários, bem como não havia uma clara distinção entre o Direito e a
Religião, aliando-se para a formação de soluções concretas.
Em 451 a.C., foi compilado na Lei das XII Tábuas. Em termos de conteúdo não se
registou uma evolução significativa, uma vez que «apenas» foram formalizadas todo um
conjunto de regras de base consuetudinária que já estavam enraizadas no cerne da
comunidade, foi no entanto a primeira grande codificação, o que permitiu o acesso de
todo o populus ao processo decisório jurídico, retirando-o da ignorância e obscuridade
jurídica.
O ius civile passou de ius non scriptum para ius scriptum, garantindo assim uma maior
segurança para ambas as partes, bem como uma maior estabilidade normativa e
interpretativa, pois o processo decisório judicial deixava de ser monopolizado pelos
sacerdotes e ao passar a ser escrito, passa também a ser do conhecimento geral, podendo
então ter-se acesso aos fundamentos e poder-se criticar as soluções das sentenças.
Seguiram-se inúmeras publicações de leis, que fizeram a transição no processo
legislativo da criação consuetudinária para a criação política, o que contribuiu para a
extinção do costume como a principal fonte do ius civile para todo um conjunto de actos
normativos que conforme as oscilações políticas decorrentes no Império romano se
foram alterando, nomeadamente: leis, plebiscitos, senatusconsultos, decretos do
príncipe e a autoridade dos jurisprudentes.
Como já referido, o costume cedeu o seu lugar à lex e às leges.
A lex provém do termo legere3 e em termos etimológicos é toda a norma escrita que
pode ser lida, vinculando tanto aquele que a declara como as pessoas a que se destina.

3.Para estudo mais pormenorizado sobre a discussão em torno da proveniência da palavra lex cfr. CRUZ,
Sebastião, Direito Romano I (ius romanum), Coimbra 1984, pp 200-201.
Dividiam-se em lex privata e lex publica, sendo que a primeira é uma declaração
solene com valor normativo, que regulava os negócios privados, sendo uma lei que cria
o direito tendo como base os princípios já consagrados pelas Leis das XII Tábuas; a
segunda caracteriza-se por se basear num negócio público e quem a aprova é o povo,
existindo portanto, uma divisão entre o Direito romano privado (que surgiu primeiro) e
o Direito romano público.
No Direito romano público a princípio só existiam leis comiciais (denominadas de
leges rogatae) e plebiscitos (séculos V a III), sendo identificadas como leges em sensu
stricto.
As leges rogatae eram uma deliberação proposta por um magistrado e votada pelos
comitia, e os plebiscitos eram deliberações apresentadas pelos tribunos da plebe e
votada nos contilia plebis, sendo que mereceram especial destaque na altura de
crescentes reivindicações e conquistas da plebe face à igualdade jurídica em relação aos
plebeus.
As leges rogatae e os plebiscitos foram as únicas leis públicas existentes em Roma até
à sua expansão mediterrânea (242 a.C.), sendo que mais tarde surgiram as leges datae e
dictae (especificações das leges rogatae).
A jurisprudência da República não é considerada oficialmente como sendo uma fonte
imediata de direito, sendo sim, a fonte inspiradora e material do ius civile4.
Importa agora referir as leges em sensu lato, nomeadamente os senatusconsultos e a
constituições imperiais.
Os senatusconsultos inicialmente eram um parecer sem força vinculativa do Senado
em relação a certas questões indagadas por determinados magistrados.

4 Durante a República foram vários os jurisprudentes que se notabilizaram, com especial destaque para
Mânio Marílio, Marco Bruto e Públio Mucio Cévola, que são considerados os fundadores de uma nova
jurisprudência, que se preocupa com a harmonização, a categorização e a generalização do ius civile,
sendo inclusive considerados por Pompónio como os jurisprudentes que fundaram as bases do ius civile.
Para além deste importante trio de jurisprudentes destacaram-se diversos outros na altura da República,
como Quinto Múcio Cévola que se diferenciou por ter sido o primeiro a sintetizar a jurisprudência da
república romana nos XVII livros sobre o ius civile (onde o ordenou e sistematizou), bem como muitos
outros que foram contribuindo para o evoluir do ius civile_ cfr. PINTO, Eduardo Vera-Cruz, Curso de
Direito Romano, volume 1, 1ª edição, Principia, pp. 221 -234.
Progressivamente vão ganhando força vinculativa, tornando-se fonte mediata do
direito (criando ius indirectamente), através do edicto do pretor, onde se difundiu a ideia
de que também o Senado tinha força legislativa.
Efectivamente, com o início do principado, já o Senado era considerado fonte
imediata do direito, podendo criar direito novo de forma independente, ou seja, sem ter
que recorrer tanto ao pretor como aos comícios.
O Senado no Principado desempenhou um papel de extrema relevância em matéria
legislativa, fazendo este facto parte da estratégia de Augusto para camuflar o seu poder.
A partir do século II o Senado foi perdendo importância legislativa para ceder essa
competência ao imperador, através das constituições imperiais.
As constituições imperiais são as leges que manifestam a vontade unilateral do
Imperador, resultado de um crescente processo de burocratização do ius, tendo em vista
o concentrar total dos poderes públicos nas mãos do princeps, com o consequente
esvaziar de poderes das diversas magistraturas em contradição com a separação de
poderes defendida pela República.
As leis passam a ser resolvidas pelos legisladores e no topo da hierarquia pelo
princeps (onde qualquer existência de ius que não fosse criado, aprovado ou titulado
pelo princeps não era reconhecido formalmente), que para adaptar as regras de ius civile
a uma realidade cada vez mais complexa e exigente, torna-as em leis gerais e abstractas,
ocorrendo a transição definitiva de ius para lex.
No Principado a jurisprudência enfrentou uma grave crise de objectivos, sendo
descaracterizada pelo princeps, no entanto Augusto considerava a iurisprudentia um
instrumento essencial para a actuação indirecta do exercício do seu poder, como tal
emanou o ius publice respondendi (a certos jurisprudentes é concedida a auctoritas de
modo a que as suas respostas vinculam a decisão) e difundiu as obras dos
jurisprudentes5.
È na altura do Principado que o ius honorarium se afirma como um verdadeiro
sistema normativo, sendo que no entanto não chega à fusão formal com o ius civile.
O ius honorarium surgiu no tempo da República como consequência do ius civile não
acompanhar as crescentes necessidades jurídicas provenientes da expansão de Roma,

5 Dos jurisprudentes da fase imperial de Roma subsistem até à actualidade diversos nomes importantes,
como: Marco Antístio Labeão,Caio Cássio Longino (que escreveu uma vasta e completa obra de ius
civile_libri iuris civilis), Ulpiano, entre outros, cfr. PINTO, Eduardo Vera-Cruz, Volume I, 1ª edição,
Principia, pp. 245-274.
contrapondo-se os dois ius dentro da civitas, no entanto coexistindo pacificamente
devido ao papel comum do pretor.
O pretor não fazia as leis, no entanto o seu imperium permitia-lhe desviar-se das
regras existentes em casos concretos6, permitindo assim aligeirar a formalidade do ius
civile, renovando a tradição e transpondo o ius para as fases pós civitas de uma Roma
em expansão territorial e demográfica, com negócios e práticas contratuais novos.
Para além do ius honorarium, o ius civile é frequentemente contraposto também ao ius
gentium e ius naturale, sendo considerado um elemento constitutivo do ius romanum7.
O direito das gentes tem origem simultânea com a expansão de Roma, sendo que era
necessário que o Direito disciplinasse as relações entre os cidadãos romanos e os
estrangeiros (peregrinos), evoluindo para a criação de um praetor peregrinus, que vai
anunciando as regras a aplicar às relações comerciais que não se processassem
exclusivamente entre romanos, formulando assim um direito próprio, tendo como base o
ius civile, sendo que com o avançar do tempo, o direito das gentes passou também a
regular as próprias relações entre os romanos, beneficiando assim de menor formalismo.
O ius naturale surgiu como classificação fundamental à concepção cristã da lei eterna,
associando-o como o direito da liberdade a todos comum.
O ius civile como direito dos cidadãos romanos acompanhou todas as fases de
evolução de Roma, desde os primórdios da origem de um Direito fundamentado na
tradição e no costume do povo quiritário, fazendo a importante transição para ius
scriptum, acompanhou também o processo de paridade jurídica entre patrícios e plebeus
e mais tarde, por influência do ius honorarium, ius gentium e ius naturale foi perdendo
a sua característica formalidade e tornou-se mais receptivo às constantes alterações
(demográficas, territoriais, comerciais, de poder…) que Roma sofreu até à queda do
mais vasto e importante império da Antiguidade, tornando-se assim na essência da
identidade jurídica de um povo incansável no aperfeiçoamento da técnica jurídica e na
busca da solução mais justa, cujos contributos mais significativos consistem na melhor
compreensão da actual base jurídica portuguesa e como verdadeira lição de História.

6 O ius civile opera automaticamente, enquanto que o pretor só agia consoante providências
especiais outorgadas caso a caso, mas tinha a possibilidade de agir licitamente contra o ius civile_
denegare actionem.
7 No Corpus Iuris Civilis, onde estão presentes as mais importantes compilações do Direito Romano, os

diversos jurisprudentes divergem entre si, Ulpiano ressalta que existe uma divisão tripartida dos ius
romanum, em ius naturale, ius gentium e ius civile; enquanto que Gaio e Paulo optam por fazer divisões
bipartidas, o primeiro reúne ius civile com o ius naturale e o segundo o ius civile com ius gentium.
Bibliografia

Manuais consultados:

_PINTO, Eduardo Vera-Cruz, Curso de Direito Romano, Volume I, 1ª edição, Principia


Editora, Lda, 2009;
_CRUZ, Sebastião, Direito Romano (ius romanum) I Introdução. Fontes, 4ª edição,
Coimbra, Coimbra Editora, 1984;
_ASCENÇÃO, José de Oliveira, O Direito. Introdução e Teoria Geral, 13ª edição,
Almedina, 2010;
_JUSTO, Santos, Direito Privado Romano, I, 3.ª ed., Coimbra, Coimbra Editora, 2006;
_ VENTURA, Raúl, Manual de Direito Romano, I, Lisboa, 1963;
_ MENDES, Castro, História do Direito Romano, II volume;

Referências electrónicas:

http://derechodirittodroit.tripod.com/id13.html;
http://www6.ufrgs.br/direito/pessoais/marco/disciplinas.htm;

Outras fontes consultadas:

SILVA, Nuno Espinosa Gomes da, Direito Romano, Sebenta, 1º Semestre, 1º ano,
Centro de Publicações, 2001/2002;