IMISSÃO DE POSSE

Conceito: A ação de imissão de posse pode ser conceituada, inicialmente, como o meio processual cabível para conferir posse a quem ainda não a tem, ou, nas palavras do professor Ovídio Baptista, como a ação que visa a proteger "o direito a adquirir uma posse que ainda não desfrutamos". No Código de Processo Civil de 1939 a matéria estava regulamentada nos artigos 381 a 383: CAPÍTULO III DA IMISSÃO DE POSSE Art. 381. Compete a ação de emissão de posse: I ± aos adquirentes de bens, para haverem a respectiva posse, contra os alienantes ou terceiros, que os detenham; II ± aos administradores e demais representantes das pessoas jurídicas de direito privado, para haverem dos seus antecessores a entrega dos bens pertencentes à pessoa representada; III ± aos mandatários, para receberem dos antecessores a posse dos bens do mandante. Art. 382. Na inicial, instruida com o título de domínio, ou com os documentos da nomeação, ou eleição, do representante da pessoa jurídica, ou da constituição do novo mandatário, o autor pedirá que o réu seja citado para, noprazo de dez (10) dias, contados da data da citação, demitir de si a posse dos bens, ou apresentar contestação, sobpena de, à sua revelia, expedir-se mandado de imissão de posse, sem prejuízo das perdas e danos que em execução seliquidarem. Parágrafo único. Si a ação não for contestada, serão os autos conclusos ao juiz, que poderá, desde logo, ordenar aexpedição do mandado de imissão de posse. Art. 383. Oferecida a contestação, a causa tornará o curso ordinário. Parágrafo único. Salvo quando intentado o processo contra terceiro, a contestação versará somente sobre nulidademanifesta do documento produzido. Natureza Jurídica da Ação: Em relação à natureza jurídica da ação de imissão de posse existia dúvida se a ação era possessória ou petitória. Tal questionamento se deu pelo fato de o legislador do Código de Processo Civil de 1939 tê -la inserido no capítulo referente às ações possessórias. Os que defendem a natureza petitória alegam que a ação visa a conferir posse, e não a proteger uma posse já existente; e que o art. 382 daquele diploma legal dizia que a inicial deveria ser instruída com o título de domínio, o que evidenciava sua natureza petitória. Logo, é uma demanda petitória, pois sua causa de pedir está fundada no jus possidendi, ou seja, no direito à posse. Para os demais, a ação de imissão era possessória porque o possuidor ± compreendido aqui como aquele que não foi ainda imitido naposse, mas que já tem direito a ela ± está impedido de exercer sobre a coisa o poder físico, de utilizá-la da maneira como melhor lhe agrade. E ainda, porque o legislador do Código de 1939 inseriu a ação no capítulo referente às possessórias.

toda a discussão acerca da existência ou não da ação de imissão de posse no ordenamento jurídico brasileiro. a fungibilidade. além da situação prevista no Decreto-Lei 70/66. Logo. Para Ovídio Baptista. o art. pretensão é o ato jurídico que contém exigência contra o réu. concluiremos que a supressão da ação de imissão de posse do novo diploma significava que ela realmente havia deixado de existir naquele ordenamento. Características: 1.Sumariedade da matéria de defesa: No Código de Processo Civil de 1939. podendo-se inserir dentre elas a ação de imissão de posse. a ponto de merecer um tratamento diferenciado das demais pretensões. O novo Código Civil faz uso dessa nomenclatura no art. passaram a entender que a matéria de defesa passou a ser ampla. instituto do direito processuale pretensão.A questão ainda não se encontra pacificada na doutrina. ao tratar das ações de Procedimentos Especiais. pois a causa de pedir dessas ações é diversa). que alterou dispositivos do Código de Processo Civil. o entendimento pela natureza petitória da ação. e inseriu o art. A partir de 1973. geralmente a matéria alegada está consubstanciada em prova documental. 189. Ou seja. essa dúvida pode ser solucionada através da resposta da seguinte pergunta: "as ações são outorgadas pelos Códigos de Processo. ao dispor que violado o direito. não sendo possível imaginá-la entre a ação de reintegração e a de imissão. este disciplinando o procedimento referente às ações que tenham por objeto a entrega ou restituição de coisa. para ordinário e. O que de fato se deu foi apenas a modificação do procedimento. tornou-se irrelevante após a edição da Lei 10. como a ação de imissão de posse tem seu fundamento no direito material.444. não inseriu dentre elas a ação de imissão de posse. é importante fazer a distinção entre ação. inconciliáveis com a essência da ação de imissão (por exemplo. a primeira dúvida era se a ação continuava a existir. nasce para o titular a pretensão. se a ação de imissão de posse continuar a existir. mas prevalece. de acordo com o valor da causa. 461-A. as ações possessórias têm regime jurídico próprio. pode-se concluir que o legislador não pode privar o interessado da existência de um instrumento processual através do qual ele possa pedir a manifestação do Estado acerca de sua pretensão. instituto do direito material. ressalvada a hipótese do art. ou seja. enquanto a ação é o direito subjetivo contra o Estado para pedir -lhe a tutela e o reconhecimento da pretensão. antes especial. E ainda. previa que a matéria de defesa era limitada à argüição de nulidade do título apresentado pelo autor. 37. De acordo com a lição de José Frederico Marques. passamos à análise de suas características atuais. também na jurisprudência.218. ou estes apenas se limitam a regular-lhes o curso?" (2) Ora. Para a exata compreensão da divergência é fundamental diferenciar as ações plenárias das ações sumárias. Código de Processo Civil de 1973 ± existência da ação: Em relação ao atual Código de Processo Civil. pois a atual legislação. Exemplos típicos desse tipo de . consideradas plenárias. Nas chamadas demandas sumárias é o próprio direito material que se apresenta com conteúdo sumário. pois se funda na proteção ao direito à posse e não na proteção ao fato jurídico da posse. seguindo o rito ordinário ou sumário. 383 em seu parágrafo único. não é a ausência de previsão expressa do texto do código de processo capaz de lhe fazer desaparecer do ordenamento. se acreditarmos que as ações existem apenas quando previstas expressamente nos códigos de processo. de 07 de maio de 2002. Por isso. sequer ressalvando sua vigência no art. Por isso. § 2º do Dec-Lei 70/66. os que entendiam pelo sobrevivência dessa ação. Por fim. 1.

relevante se faz destacar a eficácia executiva da sentença. fazendo justiça. Para Ovídio Baptista. não havendo norma excepcional limitadora do direito de defesa do réu. isto é. o atual Código de Processo retirou-lhe apenas a sumariedade formal. Sem a limitação expressa que havia no CPC de 1939. esta relacionada ao trâmite processual acelerado pela simplificação do procedimento. sumariedade material. sendo a cognição exauriente. que privilegia princípios como os da celeridade. julga e executa. que o Estado legisla. chamada de quinária. através da abreviação de prazos. no aspecto material. Sobre a instrumentalidade do processo. podendo tanto autor quanto o réu trazerem ao conhecimento do julgador qualquer matéria.demanda são o mandado de segurança e as ações cautelares. com base nesse critério encontramos cinco classes diversas de ações: declaratórias. Para este trabalho. cuja cognição é sumária. . foi amplamente estudada por Pontes de Miranda. 2. que estabeleceu um sistema considerando o conjunto de eficácias existente em cada ação. o professor Araken de Assis ensina que existem vários critérios para a classificação das ações. podem existir ações materialmente plenárias. eliminação de atos ou supressão de formalidades. o que parte da eficácia da tutela prestada pelo órgão jurisdicional. resguardando-se a plenitude da defesa ao demandado. inciso LV da Constituição da República. portanto. Já nas ações plenárias.. executivas e mandamentais. novo processo. aproveitando o exemplo dado. constitutivas.) assim também toda a atividade jurídica exercida pelo Estado visa a um objetivo maior que é a pacificação social. economia processual e instrumentalidade do processo. por exemplo. pois "a jurisdição desempenha uma função importante perante a ordem jurídica substancial (. sendo um dos mais importantes. já que nenhuma delas nasce pura. ao não prever a ação de imissão deposse no livro referente aos procedimento especiais. um instrumento a serviço da paz social. condenatórias." (3) Ainda. Ou seja. torna-se difícil compreender como uma demanda nos moldes dessa ação pode ter a matéria de defesa limitada à argüição de nulidade do título. com relação à ampla defesa. Portanto. não havendo como conceber o estreitamento do direito de defesa do réu. deve-se ressaltar que se trata de garantia constitucional. prevista expressamente no art. que são ações com trâmite normal. dispensando. O processo é. Ainda é importante que se diferencie a sumariedade material da formal. Para Araken de Assis(4) a força executiva retira valor que está no patrimônio do demandado e põe-no no patrimônio do demandante. tal característica é inegável. classificando pela µcarga -as principal¶. sendo tais ações chamadas de executivas lato sensu. haja vista que. Não obstante as considerações do professor Ovídio Baptista. nesse quadro. não se pode supor essa incidência sobre uma demanda. Para ele. A respeito da classificação das ações. ao contrário das ações cautelares. passando a ser demanda plenária. 5º. Ada Pellegrini Grinover entende que esta não pode ser vista apenas como a ligação do direito processual com o direito material. É antes de tudo para evitar ou eliminar conflitos entre pessoas. pois essa restrição é incompatível com as características atuais do direito processual civil brasileiro. mas com tramitação mais rápida que as ações de procedimento comum. ligado ao trâmite processual. A eficácia é imediata quando a incursão na esfera jurídica do demandado se dá de pronto. ou seja.Eficácia executiva da sentença: Outra característica inerente à ação de imissão de posseé a eficácia executiva da sentença que julgar o pedido do autor procedente. Essa classificação.. creio que a ação de imissão de posse deixou de ter essa restrição quanto à matéria de defesa. a cognição é sempre exauriente. logo após o pronunciamento judicial.

Com isso. deve o autor requerer ao juiz. caput. era retirar-lhe a essência. conforme o valor dado à causa. a jurisprudência também admite. não cumprida a determinação judicial. Não há dúvida de que. que aumentou o valor de alçada de 20 (vinte) para 60 (sessenta) salários mínimos.444/2002.Casos de cabimento da ação de imissão de posse: O art. é se existe previsão de transmissão da posse. dentre elas a ação de imissão de posse. o legislador brasileiro retirou do atual Código de Processo Civil a previsão expressa da ação de imissão de posse. autorizando a execução. o uso da ação de imissão de posse por parte dos promitentes-compradores para haverem dos promitentes-vendedores aposse do bem. a ação de imissão também perdeu seu caráter de procedimento especial. Além desses casos previstos legalmente. que o contrato preliminar deverá conter. Os incisos II e III tratavam da ação de imissão de posse conferida aos administradores e mandatários. eis que confere ao autor direito a posse. Logo. no prazo legal. pois essa eficácia do provimento judicial é incompatível com a pretensão nela deduzida. será expedido mandado para que este seja imitido na posse do bem. como pretendeu parte da doutrina. 3. verifica-se que as ações referidas no art. se não havia posse do mandatário anterior. demandados por administrador ou mandatário com direito à posse direta. conforme a regra do artigo 275. a demanda só é cabível contra o administrador ou mandatário anterior com posse direta. o que se deve observar para verificar o cabimento da ação. é pretensão de direito material. entende-se que. Com isso. 461-A. Ou seja. contra o alienante.444/2002. como acontece no caso do adquirente. o elemento principal para se averiguar o cabimento da ação de imissão de posse é a existência de negócio jurídico sobre a transmissão da posse. não há que se falar em pretensão a imitir-se na posse por parte do sucessor. retirando o requerido da coisa de maneira forçada. Procedimento: Como já foi dito. que o código de processo não poderia revogar. devem ser observadas as regras dos artigos 275 a 281 do Código de Processo Civil. Em se tratando de pretensão a imissão na posse. sendo o pedido julgado procedente. demita-se da posse do objeto litigioso. Deve-se ressaltar também que. mesmo com a promulgação do novo diploma processual legal. O que se pede na ação de imissão não é somente condenação do requerido para a entrega do bem. em sua peça inicial que.De fato. ou administrada. não são mais passíveis de execução por processo autônomo. determine que o requerido. com a nova redação dada pela Lei 10. pede-se que o juiz imita o autor naposse. ou sobre os bens do mandante. devendo seguir rito ordinário ou sumário. esses continuam legitimados para propor a ação de imissão. no caso da ação de imissão. pois a sentença de procedência tem eficácia executiva imediata. pois o direito à posse sobre os bens da pessoa jurídica representada. 381 do Código de Processo Civil revogado previa em seus incisos os casos de cabimento da ação de imissão de posse. . devemos destacar o parágrafo segundo do art. Logo. considerar a ação de imissão de posse como condenatória. como de fato pode haver. passando a adotar o procedimento comum. objeto do contrato de promessa de compra e venda. 461-A do Código de Processo Civil. caso este não cumpra espontaneamente a determinação. O inciso I do referido artigo dizia ser a ação de imissão conferida ao adquirente para haver a posse do bem adquirido. independente de novo processo. inserido pela Lei 10. nesses casos. Para encerrar a questão. Aqui. inciso I do Código de Processo Civil. seguindo rito sumário. não tendo o réu se demitido da posse em favor do autor. desde o CPC de 1939. Nele consta que. mas sim.