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CÁTIA SUSANA DIAS FERNANDES GARCIA

 


BARCELONA
2009


 

O presente trabalho tem como objectivo procurar compreender a estrutura de


linguagem do inconsciente , desde Freud até Lacan, no momento em que este, no seu
encontro com a linguística, nomeadamente com Ferdinand de Saussure, defende que
o inconsciente é estruturado como uma linguagem, pretendendo aprofundar esta
forma de linguagem e a sua relação com as formações sintomáticas actuais. Os novos
sintomas, tais como, toxicodependências , insucesso escolar, depressão, anorexia,
bulimia, síndrome de pânico, violência sem precedentes, entre outros, são sintomas
que não cumprem os requisitos lógicos das leis do inconsciente de Freud, leis estas
onde prevalece a dimensão simbóli ca do sintoma. Verifica-se, nestas novas
manifestações sintomáticas, uma prevalência da dimensão real de gozo do sintoma e,
consequentemente, uma primazia da via metonímica em detrimento da metafórica,
resultantes do declínio da função paterna. Posto isto, o sujeito necessita de algo que
ocupe esse lugar que não pode ficar vazio, precisa de encontrar uma resposta para a
sua angústia. Os novos sintomas surgem como resposta a essa angústia que o ser
humano quer colmatar. Desta forma, apresentamos como hipótese principal de ste
trabalho a existência de uma nova leitura do inconsciente , segundo os últimos
ensinamentos de Lacan, que vão para além do inconsciente estruturado como uma
linguagem, pensado como simbólico e orientado para a instância do real.

 !"inconsciente, linguage m, novos sintomas, psicanálise, linguística.
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c  )# &&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&& &&&&&&&&&&&&&&&&&&&& &&&&&&&&&&&&&&&&*
å. O inconsciente de Freud......................................... ..................... ...............................8
å.å. Inconsciente e linguagem em freudianos ................................................................. 9
å.å.å. A interpretação freudiana das afasias................................................................... 9
å.å.2. p p: a coisa, segundo Freud ................................... .................... ...............åå
å.2. A linguística de Freud...................................... .......................................................åå
å.2.å. Os sonhos e a sua interpretação: a formação mais autêntica do
inconsciente...................................................................................................................åå
å.2.2. A psicopatologia da vida quotidiana: investigação no âmbito linguística............å2
å.2.3. Os chistes: formações mentais sociais...................................... .........................å3
å.3. Inconsciente e linguagem segundo Lacan........................ .....................................å
å.3.å. O retorno da psicanálise à sua origem: pelo caminho da linguagem.................å
å.3.2. A linguística em Lacan....................................................... .................................å
å.3.3. Significante: constitut ivo do inconsciente e linguagem materializada ................å
å. . Língua, fala e linguagem .................................... ....................................................å 
å.. O inconsciente e os seus mecanismos psicanalíticos e linguísticos.....................å8

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 )# &&&&&&&&&& &&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&& &&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&+,
2.å. A dimensão simbólica do sintoma...................... ........................................ ............22
2.å.å. O sintoma e a figura paterna ............................................. ................................. .2
2.å.2. Metáfora paterna................................ ................................................................ .2
2.å.3. Declínio do pai: do moderno ao contemporâneo............................. ...................2
2.2. A dimensão real do sintoma........................................... ........................................29
2.2.å. A passagem d o nome-do-pai aos nomes-do-pai........................... .....................32

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" -./ &&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&00
3.å. Os sintomas actuais.............................................. ........................................... ......3
3.å.å. Os sintomas actuais como ³sintomas-gozo´....................... ................................3
3.å.2. A linguagem e os novos sintomas............................... ...................................... ..38
3.å.3. O último ensinamento de Lacan e o s novos sintomas............... ...................... ...39
3.å. . Os sintomas actuais: entre a linguagem e a alíngua, entre o simbólico e o
real............................................................................................................................ ..... 2
3.å.. O inconsciente real e os novos sintomas........... ................................................. 3

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As relações entre psicanálise e linguística e, mais precisamente, entre


linguagem e inconsciente, são complexas, revelando-se surpreendente o
estabelecimento de uma ligação entre esses dois campos. Uma das primeiras
surpresas nessa relação é o facto de a psicanálise estar muito mais próxima da
linguística do que da psicologia. Daí o maior interesse do presente trabalho, o qual
constitui um enorme desafio. O linguista francês Michel Arrivè (å999) - na sua obra

   
           ± afirma que é tanto é possível
constatar as relações mais estreitas entre as duas disciplinas, como também os
desconhecimentos recíproco s de cada uma das áreas. Assim, cada capítulo da
dissertação deverá implicar uma discussão de diversos conceitos, tanto da linguística,
como da psicanálise.
Para abordar as questões relacionadas com est a interessante, embora
complexa e pretensiosa relação, investigaremos a estrutura de linguagem do
inconsciente segundo Freud e Lacan, mais precisamente quando este último, no seu
encontro com a Linguística e com Ferdinand de Saussure, defende que o inconsciente
é estruturado como uma linguagem, dando especial atenção a esta forma de
linguagem e à sua relação com as formações sintomáticas actuais.
Esta questão surge uma inquietação clínica, na medida em que, actualmente, o
diagnóstico, ao invés de orientar na direcção da cura, é cada vez mais difícil de
classificar, constituindo-se um desafio conduzir um qualquer tratamento clínico que
não responde às metamorfoses típicas da noção de sintoma, extrapolando os limites
da escuta clínica das estruturas, levando-nos a equacionar sobre uma nova forma de
praticar a clínica.
Os novos sintomas, por assim dizer, não têm a mesma configuração dos de
algumas décadas atrás, quando o paciente se queixava exaustivamente do seu
sofrimento ao analista, o qual supunha possuir todo o saber sobre o seu sintoma. Os
novos sintomas são ora muito silenciosos, ora muito falantes, mas nada demandam,
nada querem saber, eles simplesmente se apresentam, recusam o inconsciente, como
nos diz Lacan no seminário da       (200). As palavras do analista
dirigidas a estes sujeitos não têm ecos, não provocam associações, desvalorizando as
formações do inconsciente como os lapsos, os actos falhos, os relatos de sonhos , etc.
É como se o rasto que nos conduz à construção do inconsciente do sujeito
contemporâneo se estivessse a desvanecer. Há uma ³forclusão tecnocientífica da
subjectividade´, como chamou Ana Maria Figueiró (2003 ). A sessão de análise,
transforma-se, então, numa ³batalha´ exaustiva.
E daí surgem as questões: como trabalhar com um inconsciente que não se
manifesta? Como não deixar desvanecer o rasto que nos conduziria a ele? Se o
inconsciente é estruturado como uma linguagem, segundo Lacan, que linguagem é
essa que se apresenta nos novos sintomas? Esta é a questão que se pretende
investigar.
Facilmente observamos, não só na clínica, como também no nosso dia-a-dia e
na sociedade, que este é o mal -estar da nossa cultura. Observamos que se tratam de
sintomas que resistem a manifestar-se no discurso analítico, no discurso em geral,
comprometendo inclusive os laços sociais. Possuirão os sintomas uma linguagem sem
discurso que conduz, consequentemente, os sujeitos a procurarem respostas para os
seus sofrimentos quotidianos, tais como a obesidade, as compras compulsivas, a
depressão, o insucesso escolar, a violência, a fobia social, as drogas, os
relacionamentos monogâmicos, respostas essas encaradas como soluções actuais
para a angústia?
Para Lacan, a angústia é o único afecto do qual o sujeito não pode fugir, pois
ela surge para sinalizar que vai sempre haver a verdade da falta. E para colmatar de
imediato esse afecto, o sujeito , actualmente, procura soluções assintomáticas,
A

soluções que recorrem aos conceitos, aos rótulos, às definiçõe s, às promessas, às


medicações, ou seja, a respostas imediatas, por serem aparentemente mais eficazes ,
soluções que minimizam a via simbólica, valorizando saídas da ordem do real, o que,
segundo Lacan a partir de Freud, implica um afastamento da fenomenologia, saindo,
portanto, do campo das significações, da compreensão.
Os sujeitos que manifestam esses novos sintomas parecem perdidos ao
tentarem situar-se no mundo. Nessa multiplicidade de soluções, eles tornam-se ³peças
avulsas´, as quais se podem encaixar de múltiplas formas . ³Peças Avulsas´ foi o título
do curso de 200 de Jacques Alain Miller para falar do real em Lacan.
Para tratar o tema proposto neste trabalho, é fundamental iniciar o primeiro
capítulo com um retorno ao conceito freudiano do inconsciente, abordando os seus
textos iniciais, como forma de demonstrar a estreita relação existente entre
inconsciente e linguagem. De seguida, no mesmo capítulo, faremos referência a
Jacques Lacan, que, a partir dos ensinamentos de Freud, dialoga com a linguística,
enfatizando que a psicanálise freudiana é uma clínica do campo da fala e da
linguagem, ou seja, que o inconsciente freudiano é estruturado como uma linguagem.
Assim sendo, o conteúdo do primeiro capítulo remete para a relação entre
inconsciente e linguagem , segundo Freud e Lacan e, em simultâneo, para a
aproximação entre os conceitos da p sicanálise e da linguística, esta última
fundamentada principalmente nos conceitos de Ferdinand de Saussure.
No segundo capítulo, pretende-se analisar a importância da linguagem na
formação dos sintomas, partindo de Freud para chegar a Lacan, de forma a comprovar
a existência dos novos sintomas, bem como desenvolver a hipótese colocada nesta
dissertação, ou seja, de que os mesmos estão teoricamente mais próximos da
chamada segunda clínica de Jacques Lacan, pretendendo comprovar que a teoria de
que ³o inconsciente está estruturado como uma linguagem´ já não é suficiente para
trabalhar as formações sintomáticas actuais, questões estas a serem aprofundadas
nos terceiro e último capítulos. Para tal, revela-se pertinente dissecar os avanços
lacanianos e as suas propostas nos últimos anos de vida deste mestre.
Partindo da discussão anterior , contextualizaremos a estrutura da linguagem do
inconsciente através do s chamados novos sintomas, permitindo-nos pensar numa
outra forma de leitura do inconsciente, a qual passaria das leis do simbólico para o
campo do real. Assim, o terceiro capítulo reveste-se da máxima importância para a
confirmação da hipótese central deste trabalho.
O último capítulo será desenvolvido no sentido de discutir as manifestações
sintomáticas actuais, partindo da já referida hipótese de que as mesmas não são mais
da ordem simbólica, ou seja, estruturadas como uma linguagem. Os novos sintomas
parecem prescindir da palavra e desprovidos da capacidade de metaforizar, o que os
conduz para um processo de ³dessimbolização´, termo utilizado pelo francês, Dany-
Robert Dufour no seu livro              e que ³designa uma
consequência do pragmatismo, do utilitarismo e do ³realism o´ contemporâneos´.
(200). Segundo este autor: ³O valor simbólico é assim desmantelado, em proveito do
simples e neutro valor monetário da mercadoria, de tal forma que nada mais, nenhuma
outra consideração (moral, tradicional, tr anscendente, transcendental...) possa
entravar a sua livre circulação. Daí resulta uma dessimbolização do mundo. ´ (Dufour,
200).
O autor vai mais longe , referindo que a dessimbolização afecta a língua e as
formas de dialogar , acrescentando que, ³com efeit o, é todo o peso do simbólico nas
trocas humanas, que fez os tempos da grande A ntropologia do século XX (de Mauss a
Lévi-Strauss, chegando a Lacan), que se encontra deste modo questionado´. (200 ).
Do ponto de vista da p sicanálise, podemos dizer que a dessimbolização é um
fenómeno onde o discurso do inconsciente não se forma, o que nos leva a equacionar
a prática clínica e a direcção do tratamento. Nesta perspectiva, será abordada uma
nova leitura, levantando questões que dizem respeito à prática psican alítica de
orientação lacaniana, teoricamente fundamentada na obra de Jacques Lacan e seus
X

seguidores, como Jacques Alain Miller, Erich Laurent e diversos autores da


Associação Mundial de Psicanálise, e linguistas que dialogam com a psicanálise,
como Michel Arrivè e Jean Claude Milner , o que nos permitirá perceber e tentar pensar
a questão dos novos sintomas como parte de uma estrutura de linguagem
simbolicamente comprometida, seguindo, dessa forma, uma lógica diferenciada das
leis do inconsciente fre udiano.
Com base nesta hipótese, poderíamos afirmar que há uma prevalência da
dimensão real do sintoma, levando-nos a questionar as estruturas clínicas tais como a
neurose, a psicose e a perversão, como se estas já não nos facultassem uma
orientação na compreensão do problema e na direcção do tratamento do sujeito
contemporâneo, na medida em que este, como ser único, aproxima-se mais de uma
visão de um inconsciente da ordem do real, já não estruturado como uma linguagem,
mas sim como uma língua, ou seja, de um inconsciente puramente lacaniano, que se
manifesta pelo significante e que posteriormente se vai chamar de ³alíngua´, isto é, a
língua singular de cada sujeito. A partir dos últimos ensinamentos de Lacan, podemos
dizer que ³os novos sintomas´ nos impelem a pensar numa outra abordagem do
inconsciente, ou seja, num inconsciente estruturado como ³alíngua´ . E a questão que
se coloca é a seguinte: o inconsciente é linguagem ou língua? Ou ambas as coisas?
Ou nenhuma delas? Para tentar responder a essa pergunta, é imprescindível
debruçarmo-nos sobre o que Lacan diz no seminário 23, |    sobre |
     . E aprofundando a questão : de que forma se pode definir
actualmente a relação entre inconsciente e linguagem?
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A sobrevivência de um conceito está directamente relacionada com a


sobrevivência da teoria à qual pertence. O conceito psicanalítico de inconsciente tem
mais de um século de existência e, embora Freud seja considerado o pai da
Psicanálise, não foi o primeiro pensador ou inventor do conceito. No entanto, foi o
grande responsável pelo desenvolvimento do mesmo, torna ndo-o num dos conceitos
mais importantes da sua doutrina. Não obstante a enorme importância do conceito
freudiano de Inconsciente, tal não significa que este seja imutável, pois com o passar
do tempo, poderá, tal como outros conceitos, sofrer alterações e renovações, próprias
da construção do Saber.
Com Freud, o inconsciente deixou de ser uma instância para além do
consciente ou um ³subconsciente´, para ser encarado, pela psicanálise, como uma
instância bem mais profunda, à qual o consciente não tem acesso, mas que se
manifesta através dos sonhos, dos lapsos de linguagem, dos actos falhados, entre
outros. Embora seja interno ao sujeito e à sua consciência, é externo a qualquer forma
de domínio do pensamento consciente.
É notória, desde cedo, a preocupação d e Freud em fazer a distinção entre
consciente e inconsciente como dois processos psíquicos distintos,
independentemente da sua localização anatómica. Posteriormente, em å9å, no seu
artigo ³O Inconsciente´, Freud defenderá que não pode ser estabelecida qua lquer
relação ou comparação entre regiões psíquicas e localizações anatómicas, não
possuindo estas últimas qualquer importância no estudo das primeiras.
Na obra ?        (å990), podemos encontrar o
seguinte trecho de uma c arta de Freud dirigida a Breuer : ³Formamos a nossa opinião
sobre os ataques histéricos tratando pacientes por meio da sugestão hipnótica e,
deste modo, investigamos os seus processos psíquicos a respeito do ataque histérico;
e devemos preliminarmente assinalar que, para a explicação dos fenómenos
histéricos, é indispensável supor a presença de uma dissociação - uma divisão no
conteúdo da consciência.´
A presença dessa dissociação, segundo Freud, traduz -se no retorno de uma
lembrança de conteúdo psiquicamente tra umático. Essa lembrança que se manifesta
através de um ataque histérico possui um carácter inconsciente, pois de forma
consciente nunca originaria quaisquer sintomas histéricos. No entanto, nesta altura
ainda não era utilizado o termo inconsciente e Freud referia-se a ele como um
segundo estado da consciência, quando se questionou: ³o que decide se uma
experiência (uma ideia, intenção, etc.) se deve localizar na segunda consciência, e
não na consciência normal?´ (Freud, å990 ). É a partir daqui que se começa a elaborar
a hipótese da existência do inconsciente.
Na sequência de um interesse de carácter prático, Freud desde sempre quis
provar a existência de processos psíquicos inconscientes, pois de outra forma seria
impossível descrever ou explicar os diversos fenómenos com que se confrontava.
Desta forma, começou a descrever os fenómenos psicopatológicos através do método
neurológico, na época de Breuer.
Em å9å, aquando da elaboração do seu artigo sobre o inconsciente, escreveu
a Fliess: ³Estou tão profundamente mergulhado na ³Psicologia para Neurologistas´,
que ela consome -me inteiramente, a ponto de me ver obrigado a interromper as
minhas actividades por excesso de trabalho. Jamais estive tão intensamente
preocupado com alguma coisa. E será que isto redundará em alguma coisa?´ (Freud,
å9 ).
Este trabalho de Freud acabou por resultar na sua conhecida obra incompleta,
ou
          (å89), com o objectivo de explicar toda a
variedade do comportamento humano, normal e patológico, assumindo este projecto já
°

um carácter psicanalista e não tanto neurológico, tendo sentido que apenas a


linguagem dos processos mentais poderia explicar os respectivos fenómen os.

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Freud foi o primeiro a estabelecer uma relação entre inconsciente e linguagem,


através das suas manifestações simbólicas na fala e na escrita, após a confirmação
clínica da existência daquela instância. Para o autor, a palavra, quando veiculada pela
fala ou pela escrita assume um carácter bastante complexo, combinando diferentes
elementos e sensações, tais como auditivos, visuais, corporais. Segundo Freud, era
possível localizar uma doença orgânica quando, na m anifestação da palavra, faltasse
algum desses elementos.
No último artigo sobre o inconsciente (å9å), de seu nome
    ,
Freud apresenta quatro componentes da apresentação da palavra: a ³imagem sonora´
da palavra, a ³imagem visual da letra´, a ³imagem motora da fala´ e a ³imagem motora
da escrita´. ³Essa combinação, porém, torna -se mais complicada quando se entra no
processo provável da associação que se verifica em cada uma das várias actividades
da fala´. (Freud, å9 ).
No decorrer da sua in vestigação sobre a Linguagem, Freud inseria -se já,
inadvertidamente, no campo da Linguística, muito embora nunca se tenha encontrado
com o mestre da Linguística, Ferdinand de Saussure, embora os seus conhecimentos
se tenham cruzado. Freud acabou por conclu ir que a palavra representa um
complicado processo associativo dos quatro componentes já referidos, acrescentando:
³Uma palavra, contudo, adquire seu    ligando-se a uma µapresentação do
objecto¶´, (Freud, å9 ).
Podemos dizer que a fala e a escrita se apresentam através de restos
mnémicos de palavras oriundas de percepções acústicas, as quais se associam,
originando uma interpretação ao nível do inconsciente. As componentes visuais da
apresentação, por sua vez, fa cultam imagens às palavras, assumindo um papel de
suporte perante as mesmas. Desta forma e seguindo Freud, que defende que a
palavra é o resto da memória da palavra ouvida, a palavra traduz -se na combinação
dos restos das percepções acústicas e visuais.
Assim, podemos constar que Freud, mesmo sem intenção, direccionava a sua
investigação para o campo da linguagem, encontrando nos seus estudos sobre a
afasia uma ideia de signo semelhante à de Saussure, passando o inconsciente a
manifestar-se ao nível linguís tico e não tanto neurológico. Importa referir aqui algumas
palavras de Freud a respeito: ³Recordo ter-me julgado em perigo de vida por duas
vezes e em ambas as vezes essa percepção sobreveio de modo inesperado. Em
ambos os casos pensei: ³Estás tramado!´, e enquanto o meu falar interior se processa
habitualmente por imagens acústicas indistintas e com uma sensibilidade pouco
intensa, por ocasião do perigo ouvi essas palavras como se me fossem gritadas ao
ouvido e vi-as, ao mesmo tempo, como que impressas num a folha ondulante no ar. ´
(Freud por Verdiglione, å9 ).
Na abordagem que Verdiglione faz ao trabalho de Freud      
 , o autor refere que o pai da Psicanálise parece qualificar o significante como
imagem acústica antes do mestre da Lin guística, Saussure, afirmando: ³A actividade
associativa do elemento acústico é o ponto central de toda a função da lingu agem. O
facto de que o significante seja qualificado aqui, ainda antes de Saussure, como
imagem acústica, aponta a sua incidência por u ma atenção flutuante em torno de um
å

objecto móvel, de um semblante, o que parece arrastar precisamente para o lapso, ou


para uma economia impossível.´ (Verdiglione, å9 ).
Aquando do tratamento de um paciente afásico ± Frau Emmy Von ± mais
propriamente da sua anamnese, Freud emprega pela primeira vez o termo
³inconsciente´, no âmbito de uma perturbação da fala, considerada posteriormente
como uma patologia relacionada com a linguagem. O mestre da Psicanálise junta
então Inconsciente e Linguagem, o que nos p ermite começar a pensar na hipótese de
o Inconsciente se encontrar estruturado como uma Linguagem.
A primeira obra escrita de Freud foi         , datada de
å89å. Com base nesta obra, Verdiglone (å9 ) refere que o trabalho de Freud com
pacientes afásicos ³leva já ao estudo dos lapsos, dos actos falhados, dos chistes, dos
sonhos´, na medida em que as afasias remetiam para os ³buracos´ da linguagem.
Verdiglone afirma: ³Freud faz aqui linguística´. Nesta obra é ainda notório o
afastamento de Freud da Neurologia e o surgimento de um interesse em estudar as
regiões psíquicas, defendendo o autor que se trata mais de uma questão estrutural do
que neurológica. Desta forma, através da Linguagem, Freud dá os pri meiros passos
na Psicanálise.
É ainda na sua obra sobre as afasias que Freud cria o modelo teórico por ele
denominado de ³aparelho da linguagem´, mais tarde considerado como ³aparelho
neurónico´, ³aparelho de memória´ e, por fim, na sua obra   
(å900), como ³aparelho psíquico´.
Voltando às perturbações da fala, estudadas por Freud, este concluiu que a
apresentação da palavra se relaciona com a apresentação do objecto, ao nível
sensorial, através de imagens acústicas, defendendo, assi m, dois tipos de
perturbações da fala: na primeira, a qual ele denominou de ³afasia verbal´, encontram -
se perturbadas as associações entre diferentes elementos na apresentação da
palavra; na segunda, por ela denominada de ³afasia assimbólica´, Freud refere :
³parece-me que a relação entre a apresentação da palavra e a apresentação do
objecto merece muito mais ser descrita como µsimbólica¶.´ (å9 ). Novamente aqui se
observa uma reflexão ao nível da linguagem, ou seja, de ordem simbólica. Daí Freud
denominar de assimbólica uma perturbação nessa relação. O autor defendeu ainda a
existência de uma terceira perturbação, ³afasia agnóstica´, que implicam igualmente
um perturbação na fala e que apenas ocorre em situações de lesões corticais
bilaterais e extensas.
Freud denominou ainda de ³associações de objecto´, as relações existentes
entre a apresentação da palavra e a apresentação do objecto, em que a
apresentação-objecto apenas existe em função da ligação que estabelece com a
apresentação-palavra. Desta forma, através desta relação, o objecto adquire a sua
singularidade, a apresentação -palavra a sua significação e, consequentemente, a
apresentação-objecto designa o significado.
Nesta relação estabelecida por Freud, vislumbramos algumas semelhanças
com a relação estabelecida por Saussure, no campo da linguística, entre
Significante/Significado. Segundo este autor, o signo linguístico liga um conceito a
uma imagem acústica, ou seja, a uma impressão psíquica do som da palavra,
assumindo o conceito a função de signific ado da imagem acústica como significante.
Importa referir que Freud deu o nome de
      ao texto onde
abordou as relações anteriormente referidas, o que nos pode levar a pensar que o seu
trabalho seria já uma antecipação ao signo linguístico de Saussure.
Freud dedicou -se bastante à linguística, sem dar conta disso. Outro exemplo é
o facto de o autor utilizar o termo ³sistema´ quando defende que o sistema
Inconsciente engloba apenas as apresentações do objecto, enquanto que o sistema
Consciente abrange estas e as apresentações da palavra.
Mais uma vez comprovamos a aproximação entre Freud e Saussure,
Inconsciente e Linguagem e Psicanálise e Linguística, situação que nos serve como
åå

argumento e apoio no desenvolvimento da questão central deste traba lho, ou seja, o


Inconsciente estruturado como uma Linguagem, segundo Lacan.


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Para entendermos o termo ³A Coisa´, desenvolvido por Freud, importa referir


dois termos alemães cuja tradução pode ser ³A Coisa´, muito embora não sejam
termos sinónimos entre si: p p e p !  .
A !  pode ser considerada a coisa enquanto resultad o da acção humana
influenciada pela linguagem, enquanto que p  p nada tem a ver com a relação
estabelecida pelo Homem com as suas palavras e as coisas que delas d erivam.
Segundo Lacan, na obra  "    
  , ³O que há em p  p é o
verdadeiro segredo´. (Lacan, å98). Nesta perspectiva, p  p pode ser
considerado como significante.
Para Freud, p  p é a coisa, o objecto perdido que o sujeito luta por
reencontrar, luta essa na qual se procura a satisfação perdida e não o objecto, em
função do Princípio do Prazer. O objectivo é procurar e esperar o objecto, tirando
prazer dessa situação, e não reencont rá-lo.
Voltando a Lacan, o autor refere, no !   #  (å98) que p  p
representa o objecto perdido da espécie humana e não de cada sujeito
individualmente, objecto esse que vai sempre acompanhar inevitavelmente todos os
seres humanos, para al ém dos ³pequenos´ objectos que cada um vai encontrando e
substituindo ao longo da sua vida. Para o Psicanalista, p p é então o significante
pelo qual o sujeito procura ³A Coisa´.

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Posteriormente aos seus estudos sobre afasias, Freud inicia outro tipo de
investigações, todos eles fundamentando a estrutura de linguagem do inconsciente,
pois todos os caminhos das suas pesquisas entram no campo da linguagem, como
forma de explicar o que falta ou falha no inconsciente.


å&+&å&! ($%"2$% 3
#

Como já vimos, Freud muda o rumo das suas investigações, passando do


campo da neurologia para enveredar pelo caminho do inconsciente e esta mudança é
notória quando surge, em å900, a sua obra A  $     ! , em que se
pode constatar que: ³Não só o relato neurológico da psicologia desaparecera
completamente, como também grande parte do que Freud escrevera no
   em
termos de sistema nervoso se tornara agora válido, e muito mais inteligível, ao ser
traduzido em termos mentais. ´ (Freud, å9 ). É neste momento que nasce o
Inconsciente freudiano e o objecto de estudo de toda a teoria psicanalítica.
Na primeira grande obra da psicanálise,        (å900),
Freud estabelece em definitivo a relação entre linguagem e inconsciente, na medida
em que defende que apenas através da linguagem dos sonhos se consegue chegar ao
inconsciente. E da mesma forma que qualquer linguagem engloba vários dialectos, o
mestre da psicanálise observa que as formações do inconsciente têm igualmente
å

diversas formas de se manifestar, considerando os sonhos como as formações


inconscientes mais genuínas.
Freud defende que os conteúdos e os pensamentos dos sonhos podem ser
vistos como dois dialectos completamente diferentes de uma mesma linguagem. Ele
vai mais longe, comparando ambas as dimensões e concluindo que se observa um
grande trabalho de condensação, difícil de medir, afirmando que os sonhos são
demasiado curtos comparativame nte aos pensamentos que deles derivam. E
acrescenta: ³se um sonho for escrito, talvez ocupe meia página, enquanto a sua
análise que expõe os pensamentos subjacentes a ele poderá ocupar seis, oito, ou
doze vezes mais espaço.´ (Freud, å98 ).
No processo de transformação de um sonho, ou seja dos pensamentos
latentes no conteúdo manifesto onírico, para além da condensação, intervém ainda
outro mecanismo: o deslocamento. Este mecanismo permite que as ideias
inconscientes transfiram o seu valor para outras ideia s, através da censura, de forma
que sejam aligeirados determinados conteúdos dos sonhos, difíceis de suportar e
manifestados verbalmente, muitas vezes, de forma contrária ao seu conteúdo original.
Os mecanismos de condensação e deslocamento são a prova de que o
inconsciente se estrutura como uma linguagem, na medida em que os referidos
mecanismos representam duas versões diferentes de um mesmo sonho.

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Raymond de Saussure, f ilho de Ferdinand de Saussure, durante os seus
estudos, faz a seguinte observação: ³O Sr. Freud, em Psicopatologia da vida
quotidiana, apresenta alguns casos de lapsos, que ele tenta explicar psicologicamente.
Parece-me que esse seria um novo campo de investigação para a linguística´.
(Raymond De Saussure Arrivè, å999).
Freud faz a primeira referência a um acto falhado numa carta que escreve a
fliess, em å898, utilizando o termo alemão ³fehlleistung´ ± ³operação falhada´ ,conceito
este que não existia no campo da Psicologia. Na sua 9  carta a Fliess, Freud afirma:
³finalmente compreendi uma coisinha de que suspeitava há muito tempo, o modo
como um nome às vezes nos escapa e em seu lugar nos ocorre um substituto
completamente errado´. (Freud, å98 ).
| %        & é o título do primeiro capítulo da obra

    %    . Numa revista de neurologia, em å898, Freud realiza
análises psicológicas aos casos frequentes de esquecimento temporário de nomes
próprios, baseando-se em exemplos da sua auto-observação. O autor defendia que
em consequência da ansiedade de se tentar recuperar um nome esquecido, outros
nomes surgem na consciência, impondo -se de forma pertinente, ainda que a falha seja
reconhecida de imediato. Trata -se de um processo de deslocamento que ocorre
quando se tenta recordar o que foi esquecido. Freud levanta a seguinte hipótese: ³é
que esse deslocamento não está entregue a uma escolha psíquica arbitrária, mas
segue vias previsíveis que obedecem a leis.´ (Freud, å98). O mestre, aqui,
estabelece, novamente, a relação entre a linguagem e o inconsciente, suspeitando
que o nome que emergia à consciência estaria, de alguma forma, relacionado com o
nome esquecido.
Um dos exemplos mais destacados por Freud acabou por da r origem à
publicação de um artigo seu, em å989. Trata -se de uma situação em que ele se tenta
recordar do nome do artista !  , mas apenas lhe vinham à consciência os
nomes de outros dois artistas, '   e '   . Partindo daqui, Freud empre ende
uma investigação com o objectivo de perceber a associação/ligação existente entre o
nome esquecido e os nomes substitutos, concluindo que o esquecimento do nome se
å‰

deveu a diversas associações estabelecidas com alguns fragmentos de experiências


por ele vivenciadas. Essas falhas no funcionamento psíquico embora possam ter o seu
sentido e explicação (de origem fonética e/ou psicológica), os motivos pelos quais
acontecem são desconhecidos pelo consciente, ainda que se manifestem através
desta instância.


å&+&0&!"2$1 

Foi por influência de alguns professores seus que Freud se dedicou ao estudo
dos chistes, dando origem à obra |             , em
å90. Um dos primeiros exemplos que Freud destaca é o de uma personagem do
poeta Heinrich Heine, de origens bastante humildes, que se vangloria por ter sido
tratado pelo grande barão Rothschild como um Senhor: bastante ³familionariamente´.
Em relação a este termo, Freud refere: ³Aqui, a palavra veículo desse chiste parece, a
princípio, estar erradamente construída, ser algo ininteligível, incompreensível,
enigmático´. (FREUD, å99).
A utilização deste termo provoca confusão mas, em simultâneo tem um efeito
esclarecedor e cómico. Segundo um dos professore s de Freud, Lipps (å898), ³ o
primeiro estágio do esclarecimento, ou seja, que a palavra desconcertante signifique
isto ou aquilo é seguido de um segundo estágio, no qual percebemos que a palavra
sem sentido que nos havia confundido, nos mostra então o sent ido verdadeiro, essa
descoberta de que a palavra sem sentido, conforme o uso linguístico normal é a
responsável por todo o processo, essa solução do problema no nada, é apenas esse
segundo esclarecimento que produz o efeito cómico. ´ (Freud, å99).
Freud questiona-se: ³Em que consiste, pois, a técnica desse chiste do
µfamilionariamente¶? O que acontece ao pensamento, como expresso, por exemplo, na
nossa versão, de modo a torná-lo um chiste que nos faz rir entusiasticamente?´.
(å99).
Freud começa a trabal har na relação entre o chiste e o inconsciente,
abordando a forma como o processo decorre, e referindo que a formação do chiste
pode ser descrita como uma condensação e uma consequente formação de um
substituto. No exemplo em questão, o substituto forma -se através da produção de uma
palavra composta, ³familionar´, a qual é, por si só, incompreensível, porém
perfeitamente compreendida no seu contexto e provida de sentido, constituindo -se no
motor do efeito cómico do chiste.
Freud conclui que o processo de fo rmação dos chistes manifesta algumas
semelhanças com a ³produção onírica´, levando -o a estabelecer uma relação entre os
chistes e o inconsciente, tal como estabeleceu um relação entre os sonhos e o
inconsciente: ³Constatamos que as características e efeito s dos chistes ligam-se a
certas formas de expressão ou métodos técnicos, entre os quais os mais
surpreendentes são a condensação, o deslocamento e a representação indirecta.
Processos, entretanto, que levam aos mesmos resultados foram por nós reconhecidos
como peculiaridades da elaboração onírica. (Freud , å99).
Ao contrário do sonho, o chiste consiste numa função mental social que visa a
obtenção de prazer, assumindo um carácter inteligível: ³Está, portanto, preso à
condição da inteligibilidade; pode utili zar apenas a possível distorção do inconsciente,
através da condensação e deslocamento, até ao ponto em que possa ser reconstruído
pela compreensão de uma terceira pessoa´. (Freud, å99 ).
Aqui, mais uma vez, entramos no campo da linguística. Segundo Arrivè, a obra
de Freud sobre os chistes ³é uma verdadeira linguística freudiana, atenta a todos os
aspectos da linguagem´. (Arrivè, å999 ).


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Lacan, Psiquiatra e Psicanalista francês provocou diversas mudanças na forma


como era visto o inconsciente, desde a sua descoberta, em å900. Foi a partir das
leituras que fez sobre o trabalho de Freud que Jacques Lacan construiu a sua teoria,
também influenciado pela linguística de Saussure. O autor não pretendeu colocar em
causa a psicanálise, mas sim validar a sua existência, afirmando, em å98, que a
psicanálise apenas faria sentido ³se, e somente se, o inconsciente estiver estruturado
como uma linguagem ´. (Miller, å98). Está afirmação é a questão central dos
ensinamentos que nos deixou Lacan.
Segundo Arrivè, uma análise literal e perfeita da hipótese lacaniana encontra -
se no seu artigo |   de å93: ³O inconsciente, ³por ser estruturado como uma
linguagem´, isto é como a alíngua que ele habita, está sujeito à equivocidade pela qual
cada uma delas se distingue. Uma língua entre outras não é nada além da integral dos
equívocos que a sua história deixou persistirem nela.´ (Lacan, 2003).
Importa referir que Lacan não era um opositor de Freud, pelo contrário, era fiel
ao pai da psicanálise e afirmava -se um seu seguidor. No início da década de 0, na
conhecida segunda clínica lacaniana, altura do final dos seus ensinamentos, é notória
a mudança da hipótese de Freud, muito embora Lacan não pretendesse que fosse
descartada a hipótese do seu mestre ou que fosse abandonado o conceito freudiano
em favor de um seu. Pretendia sim defender as teorias freudianas dando -lhes, muitas
vezes, inevitavelmente, um seguim ento ou desenvolvimento diferentes do original.
A afirmação de Lacan de que ³o inconsciente é estruturado como uma
linguagem´ fundamentou-se também numa diversa experiência clínica. Enquanto que
a clínica de Freud descobre o inconsciente através do trabalho com pacientes
histéricas, onde se coloca a questão ³O que o Outro quer de mim?´, a clínica de Lacan
descobre aquela instância através da psicose, onde o Outro do inconsciente assume
um papel imperativo: ³tu deves´. É no campo da psicose e no traba lho analítico
efectuado com esta patologia que Lacan vai fundamentar a relação existente entre o
inconsciente e a linguagem.
O grande objectivo de Lacan, ao reler a obra de Freud, foi o de manifestar o
seu descontentamento em relação à forma incorrecta com o estavam a ser praticadas
as psicoterapias de base analítica, na medida em que se estavam a afastar dos
pressupostos da psicanálise, focando -se apenas numa perspectiva comportamental,
com o objectivo de adaptar e conduzir os sujeitos às boas práticas soci ais. A
preocupação de Lacan era, portanto, retornar a Freud e defender os conceitos
psicanalíticos originais do pai da psicanálise. Para tal, Lacan serviu -se da linguística
como instrumento.
Desta forma, quando Lacan se diz seguidor de Freud, é no sentido de manter
viva a psicanálise freudiana, defendendo que o conceito de inconsciente pressupõe a
existência de uma força de natureza sexual no sujeito, a qual não é compatível com a
boa adaptação moral e social nem acessível à consciência dos indivíduos.

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É na década de 0 que se regista o início dos ensinamentos de Jacques


Lacan, através do texto Ô            onde ele começa a
manifestar o seu desagrado relativamente à forma como estava a ser praticada a
psicanálise. Nessa época, para os psicanalistas, o inconsciente poderia ser explicado
pela neurofisiologia, sendo a linguagem apenas uma consequência da relação
privilegiada entre o cérebro e o inconscien te.
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Lacan discorda por completo desta ideia e para se contrapor a ela, retorna a
Freud e aos fundamentos da psicanálise freudiana, a qual considera o sujeito como
ser falante, sendo a fala e a palavra, a única via e o único instrumento,
respectivamente, capazes de permitir o acesso ao inconsciente. Estes fundamentos
inviabilizam quaisquer pressupostos biológicos e neurológicos, pois para o psicanalista
francês, não há uma relação entre o cérebro e o inconsciente, mas sim entre este e a
linguagem, como já vi mos.
Neste sentido, Lacan trabalha arduamente no sentido de, através da linguística,
trazer a psicanálise de volta ao seu campo de actuação original ± o da linguagem ± do
qual os analistas pós -freudianos se tinham afastado. Esta postura polémica de Lacan,
sem margens para ambiguidades, foi fundamental e determinante no posicionamento
da psicanálise até aos nossos dias e todo o seu trabalho se baseou nos pressupostos
analíticos de Freud e nos fundamentos linguísticos de Saussure, criando, assim, uma
nova teoria, a do inconsciente estruturado como uma linguagem.
Na defesa desta sua hipótese, e abordando a perspectiva freudiana do sonho,
onde ocorrem dois tipos de mecanismos ± a condensação e o deslocamento ± Lacan
retoma estes dois conceitos, equiparando -os a outros dois de carácter linguístico ± a
metáfora e a metonímia: ³São basicamente estes os elementos que Lacan utilizará
para fundar, bem como para apoiar, a analogia estabelecida entre o funcionamento
dos processos inconscientes e o funcionamento de certos aspectos da linguagem´.
(Dor, å992).
Em å90, Lacan afirma o que viria a ser posteriormente publicado em |
? : ³É preciso, sobre o inconsciente, entrar no essencial da experiência freudiana.
O inconsciente é um conceito forjado no rastro daquilo que opera para constituir o
sujeito. O inconsciente não é uma espécie que defina na realidade psíquica o círculo
daquilo que não tem o atributo ou a virtude da consciência.´ (Lacan, å998).
Mais tarde, em å9 , no Seminário åå, o mestre francês afirma: ³O
inconsciente freudiano nada tem a ver com as formas ditas do inconsciente que o
precederam, mesmo as que o acompanhavam, mesm o as que o cercam ainda´.
(Lacan, å98).
Lacan, nesta altura, defende que o inconsciente é o discurso do Outro (o Outro
do próprio sujei to, que lhe escapa à consciência). Ao introduzir este termo, o autor
pretende demonstrar a dimensão simbólica do sujeito, o Outro da linguagem, o Outro
externo ao sujeito, mas que é sempre deveras determinante para este e que pré -existe
a ele. ³As necessidades do ser humano são nele completamente transformadas pelo
facto de que fala, pelo fa cto de que dirige demandas ao Outro.´ (Miller, å98 ).

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No decorrer do seu longo e dedicado trabalho, Lacan diz: ³A linguística é o
meio pelo qual a psicanálise se poderia prender à ciência´. O autor afirmou ainda:
³Uma oportunidade, contudo, que se oferece para nós, no que diz respeito ao
inconsciente, é que a ciência da qual ele depende é certamente a linguística, primeiro
facto de estrutura. Digamos que ele é estruturado porque é feito como uma linguagem,
que ele se desdobra nos efeitos de linguagem.´ (Lacan  Coutinho, 2002 ).
Muitas vezes o sujeito utiliza a linguagem, falando sem saber o que dizem as
suas palavras, assumindo a linguagem um carácter subjectivo: ³Este algo totalmente
diferente institui -se fundamentalmente como o inconsciente que escapa ao sujeito
falante, porque dele está c onstitutivamente separado´. (Dor, å992 ). Esta é a dimensão
simbólica do sujeito, o qual é tr aduzido pela linguagem enquanto condição do
inconsciente.
Segundo Nóbrega (2002 ), os trabalhos que estabelecem uma aproximação
entre Saussure e Lacan apontam para as diferenças e semelhanças entre o
åX

significante lacaniano e o significante/signo saussuriano . Nesse mesmo artigo, a


autora cita Lacan em relação ao fa cto de este afirmar que é toda a estrutura da
linguagem o que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente. Podemos
aprofundar esta questão com Lacan no  ($$#      quando
afirma que ³a articulação significante fornece a verdadeira estrutura do inconsciente.´ 
(Lacan, å98).
Lacan acrescenta: ³A noção de estrutura já é por si própria uma manifestação
do significante.´ (Lacan, å988). A dinâmica da estrutura, diz o psi canalista francês,
conduz-nos à questão do significante a ponto de , ao nos interessarmos pela estrutura ,
não podermos negligenciar o significante. Ao observar a relação entre significante e
significado, percebe -se que há entre eles uma sincronia e diacronia, como se vê
também numa análise estrutural, acrescenta Lacan. Ou seja, a noção de estrutura e
de significante surge-nos inseparável.
Ainda sobre o significante, Lacan afirma: ³É impossível estudar o
funcionamento desse fenómeno que se chama linguagem, se não se fizer, no início a
distinção do significante e significado. O significante tem leis próprias,
independentemente do significado. (Lacan , å98).

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Em å93, Lacan definiu o significante como o conjunto dos elementos materiais


da linguagem, ligados por uma estrutura. O significante é o suporte material do
discurso: ³a letra´ ou os ³sons´. Não é nem o sinal nem o signo da coisa, menos ainda
o significado. O significado é o sentido, comum a todos, de uma experiência relatada
no discurso. Exterioriza-se na globalidade dos significantes sucessivos e não se situa
em parte alguma a não ser no significante da frase.
Segundo Lemaire (å989), no seu texto R             , a
originalidade de Lacan foi ter defendido que o significante age separadamente da sua
significação e à revelia do sujeito. O carácter literal do significante, como elemento
constitutivo do inconsciente, tem os seus efeitos na consciência, sem que o sujeito
tenha a menor possibilidade de se aperceber disso .
No mesmo texto, Lemaire ilustra com o exemplo: ³Se ocorrer um acto
copulatório na presença de uma criança, sem que esta tenha maturidade bioló gica
suficiente para o prover da sua exacta significação, ele vai-se inscrever no
inconsciente, mas desprovido de significação. Inscrever -se-á em significantes puros. ´
(LEMAIRE, å989).
Lacan ficou reconhecido mundialmente no domínio das ciências humanas,
fortalecido pelo encontro que teve com a linguíst ica e com a antropologia estrutural,
resultando no prolongamento de Freud. Ele repensa e reformula a estrutura do sujeito
a partir da ideia fundamental, ou seja, do pa pel do simbolismo sobre o homem e da
importância que o simbólico exerce sobre o mesmo. Baseado nos ensinamentos de
Saussure, estabelece, segundo Lamaire (å989), uma divisão do ser humano em três
níveis: ³å. Entre o aquém do inconsciente, impossível de conhecer, e o próprio
inconsciente; 2. entre o inconsciente como linguagem e a linguagem consciente e, 3.
Ao nível da própria linguagem consciente, entre o significante e significado. ´ (Lamaire,
å989).





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Ferdinand de Saussure no seu            (CLG), defendeu


existirem duas teses que se revelam inseparáveis: ³a definição da língua como
sistema de signos e a instalação da semiologia´. (Arrivè, å999 ). A semiologia, ainda
sempre foi uma preocupação de Saussure nos anos que ele ministrava os cursos de
linguística geral, pois o mesmo insistia na importância de uma ciência geral. Tal
importância aparece assim no CLG: ³Pode-se conceber uma ciência que estude a vida
dos signos no seio da vida social; ela faria parte da Psicologia social e, por
conseguinte, da Psicologia geral; chamá-la-emos de !   (do grego    ,
³signo´). Ela ensinar-nos-á em que consistem os signos e que leis os regem. A
Linguística não é senão uma parte dessa ciência geral; as leis que a Semiologia
descobrir serão aplicáveis à Linguística, e esta ficará vinculada a um domínio bem
definido no conjunto dos fa ctos humanos.´ (Saussure, s/d).
Arrivè acrescenta, citando Saussure: ³ A língua é um sistema de signos que
exprimem ideias e, por isso, é comparável à escrita, ao alfabeto dos surdos -mudos,
aos ritos simbólicos, aos sinais militares etc. Ela é o factor principal desses sistemas.
(Saussure, s/d).
A língua como sistema específico de signos é objecto da linguística e está
inserida na semiologia como o mais impor tante dos sistemas que fazem parte desta
ciência. Mas para os linguistas, não se deve confundir língua com linguagem. Est e é
um problema fundamental não só para a teoria saussuriana, mas para a leitura que
Lacan faz dela, principalmente quando este defende a sua tese do ³inconsciente
estruturado como uma linguagem´, tese esta que exige saber de que linguagem se
trata. Arrivè coloca a seguinte questão : Não seria essa ³uma linguagem´ da qual fala
Lacan, ³vizinha da língua saussuriana?´. (Arrivè, å999 ).
Para Saussure, a língua faz parte da linguagem e uma e outra não são a
mesma coisa. A língua é uma parte essencial da linguagem, é verdade. A linguagem,
por sua vez, abrange diferentes domínios, sejam o físico, o fisiológico, o psíquico, o
social e o individual.
A prática da linguagem, ou a capacidade de constituir uma língua , para
Saussure, é de ordem natural, ao passo que a língua é adquirida e convencional. Para
o mestre da linguística, a língua que faz parte da linguagem e a fala representa o
objecto que, em conjunto com a língua, forma m a linguagem. A respeito disto, Arrivè
diz: ³Evitando estéreis definições de palavras, distinguimos inicialmente, no seio do
fenómeno total , que a linguagem representa dois factores: a língua e a fala. A língua é
para nós a linguagem menos a fala. Ela é o conjunto dos hábitos linguísticos que
permitem a um sujeito compreender e fazer -se compreender.´ (Arrivè, å999).
Lacan reconhece a importância da fala na teoria de Saussure, ao contrário de
muitos linguistas, porque como psicanalista, o exercício da fala é o instrumento
fundamental da sua profissão. ³Quer se pretenda agente de cura, de formação ou de
sondagem, a psicanálise dispõe de apenas um meio: a fala do paciente´. (Lacan ,
å998).
A partir daqui, Lacan desenvolveu uma teoria acerca da função da fala na
análise. Ele refere que no trabalho analítico há uma divisão entre o qu e se diz e o que
se quer dizer. O que se quer dizer, na realidade, não se diz, sendo o significado da
fala decidido pelo receptor.
É na distinção entre fala e língua que pode mos observar as diferenças entre o
significante lacaniano e o significante saussuriano (signo). Para Lacan, o significante
tem um carácter simbólico e externo ao sujeito, impondo -se e moldando-o de acordo
com as regras sociais, sendo a linguagem, como já v imos, a condição do inconsciente.
Segundo o psicanalista francês, apenas através do retorno à consciência se pode
conhecer a linguagem do inconsciente.
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Segundo Miller, no seu texto | &      (å998), a essência da


fala traduz-se na vontade de dizer do sujeito. A fala implica uma acção que envolve
sempre o Outro. Ela é sempre um a cto de pergunta e resposta. A interpretação do
analista apresenta -se sempre como uma resposta e essa resposta é , ao mesmo
tempo, uma pergunta, a famosa ³que queres?´. A resposta interpretativa do analista é
sempre uma pergunta sobre o desejo do analisando .
Para Saussure, o significante não existe fora d a sua associação com o
significado. Mesmo sendo distintos , fazem parte da unidade do signo. Essa distinção é
postulada no interior do sistema social da língua. Há uma equivalência entre eles
como se fossem duas faces de uma folha de papel. A relação entre significante e
significado é continuamente remodelada por deslizamentos entre os dois.
Assim, podemos pensar que o signif icante lacaniano se diferencia do
significante saussuriano porque quando há uma manifestação d o inconsciente, ³isso
fala´ diz Lacan, independente mente da vontade do sujeito. Desta forma, o inconsciente
elimina qualquer equivalência entre significante e significado, como se o significante
fosse autónomo em relação ao signo, eliminando o carácter social da língua, tornando -
se numa linguagem privada, peculiar a cada sujeito, ou seja, alíngua. A partir daqui,
Lacan interessa-se bastante pelos conceitos de le tra e alíngua, afastando -se dos
pressupostos da linguística estrutural (mas não da linguagem!)

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Lacan insiste sempre que a psicanálise opera essencialmente através de um


único meio, a palavra do analisando, estabelecendo, com base na obra de Freud, a
relação entre as diversas formaçõe s do inconsciente e a linguagem, e observando ser
comum a todas elas o facto de se estruturarem como uma linguagem. Neste trab alho,
Lacan baseia-se em três textos freudianos - A      (å900), 
       %     (å90å )  |         
   (å90).
Com a hipótese de que ³o inconsciente é estruturado como uma linguagem´,
num dos seus artigos dos ?  - Função e Campo da fala e da linguagem em
psicanálise´, Lacan defendeu que a estrutura do inconsciente também segue as
dimensões sincrónica e diacrónica do discurso. As leis da metáfora e metonímia
indicam tanto o sentido como é produzido, como se torna fixo ou como se desloca
infinitamente. A operação da metáfora (substituição significante) e a operação da
metonímia (combinação significante) produzem efeitos de sentido a partir da operação
de retroacção de um segundo significante, S2, sobre um significante anterior, Så. Na
metonímia, há o deslocamento de sentido de um significante para outro, produzindo
um efeito de sentido inerente à cadeia significante. Na metáfora, um segundo
significante, S2, substitui um primeiro significante, Så, ocupando o seu lugar na cadeia
significante que ficou vazio em função do processo criador estabelecido.
Lacan equipara a metáfora e a metonímia, descritos pelo linguista Jakobson , à
condensação e ao deslocamen to, encarados por Freud como sendo os mecanismos
básicos do trabalho do sonho. Estes mecanismos são encontrados não só no sonho e
no chiste, como também são considerados por Freud como os traços distintivos de
todo o processo primário e, portanto, mecanism os fundamentais do inconsciente.
A equiparação anteriormente referida fundamenta e reforça a tese de Lacan,
segundo a qual o inconsciente é estruturado como uma linguagem, assim como
podemos observar uma aproximação da aplicação do princípio da arbitrariedade do
signo linguístico saussuriano aos conteúdos do inconsciente. Mas falamos de uma
arbitrariedade relativa, pois o inconsciente tem a sua própria lei, isto é, nada é por
acaso, existe uma escolha, nem que seja uma escolha forçada e aí entra a questão do
å°

sujeito, que não é da ordem da linguística, mas que Saussure em vários momentos do
CLG nos permite pensar nessa categoria quando usa o termo espírito em vários
capítulos, a saber: O valor linguístico, Relações sintagmáticas e relações associativas,
Mecanismo da língua, entre outros.
É no capítulo sobre a       que Saussure fala do arbitrário
absoluto e do arbitrário relativo. Ele refere que apenas uma parte dos signos é
absolutamente arbitrária. Noutras partes ocorre um fenómeno que permite reconhecer
pontos no arbitrário sem o suprimir. E afirma: ³o signo pode s er relativamente
motivado.´ Neste sentido, ele dá o seguinte exemplo: ³Assim, vinte é imotivado, mas
dezanove não o é no mesmo grau, porque evoca os termos dos quais se compõe e
outros que lhe são associados, por exemplo, dez, nove, vinte e nove, dezoito, setenta,
etc.; tomados separadamente, dez e nove estão nas mesmas condições que vinte,
mas dezanove apresenta um caso de motivação relativa. ´ (Saussure, s/d).
Saussure vai defender que a noção do relativamente motivado implica dois
fenómenos: em primeiro lugar, a análise do termo dado, ou seja, uma relação
sintagmática e, em segundo, a evocação de um ou vários termos, ou seja, uma
relação associativa. Conclui ainda que, mesmo nos casos mais favoráveis, a
motivação nunca é absoluta, conclusão essa que nos permite pensar no movimento do
inconsciente como um fenómeno, como diz Saussure, que reconhece algo no
arbitrário sem o suprimir.
A arbitrariedade de que se fala no âmbito do signo linguístico de Saussure
refere-se ao laço que une o significante e o significado, não sendo este mecanismo da
ordem do natural. Desta forma, podemos afirmar que na língua só há diferenças. Este
é o princípio fundamental da linguística saussuriana. No seu Curso de linguística geral,
(s/d), Saussure afirma que a linguagem não é constituída essencialmente por nomes
dados às coisas e que também ela não é uma nomenclatura. O signo linguístico não é
constituído pela união de u ma coisa a um nome, mas sim pela união de um conceito a
uma imagem acústica. Se quiséssemos estabelecer uma relação fixa entre o objecto e
o signo, a linguagem transformar -se-ia num mero sistema de sinais, como acontece no
mundo animal.
Para concluir este capítulo, devemos concordar com Lacan quando ele afirma
que não pretende elaborar uma teoria do conhecimento, mas defende que as coisas
do mundo humano são coisas de um mundo estruturado em palavras e que a
linguagem, os processos simbólicos , governam tudo. O facto de o homem estar
integrado nos processos simbólicos de uma forma inacessível a qualquer outro animal,
não poderia ser resolvido em termos de psicologia, pois implica que tenhamos prim eiro
um conhecimento completo do que significa a ordem do simbólico.





















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 #)# 

De todas as formações do inconsciente abordadas por Freud e retomadas por


Lacan, o sintoma é a formação que iremos considerar nest e capítulo, pois a
psicanálise começou o seu trabalho pelo estudo dos sintomas ditos neuróticos. A
trajectória do sintoma até ao inconsciente passa por vários conceitos, como a pulsão,
a sexualidade, o recalcamento, que não serão aqui trabalhados, mas que é importante
serem mencionados, de forma a esclarecer o que Freud nos quer transmitir, no início
da sua teoria, quando afirma que os sintomas neuróticos são expressão de conflitos
entre o eu e as pulsões (as instâncias inconscientes) que, por serem incompatíveis
com a integridade ou com os padrõe s éticos do eu, são recalcadas, ou seja, são
impedidas de se tornarem conscientes, bem como são afastadas, de início, da
possibilidade de satisfação.
O recalcamento, no entanto, facilmente fracassa e a libido reprimida,
insatisfeita, que foi afastada pela realidade, procura agora outras saídas do
inconsciente, outras formas de satisfação, seguindo por caminhos indirectos, operação
denominada de retorno do reprimido. Assim, a libido regride a fases anteriores do
desenvolvimento infantil e a atitudes anterio res em relação aos objectos ± pontos de
fixações infantis ± e surge na consciência, obtendo satisfação. O resultado deste
processo é um sintoma e, consequentemente , uma satisfação sexual substitutiva para
desejos sexuais não realizados, ou seja, um substituto de algo que foi afastado pelo
recalcamento, indicação de um retorno do reprimido; uma satisfação substituta
deformada, irreconhecível, uma vez que o sintoma não escapa inteiramente à censura,
submetendo-se, assim, a modificações e deslocamentos. Os sin tomas consistem ou
numa satisfação de algum desejo sexual, ou em medidas para impedir tal satisfação e,
normalmente, têm a natureza de conciliação, de formação de compromisso entre as
duas forças que entraram em conflito.
Para abordarmos a questão dos novos sintomas , importa analisar o conceito de
sintoma em Freud e em Lacan, acrescentando ainda a relação entre sintoma e função
paterna, estando este último conceito revestido da máxima importância na
compreensão de uma das hipóteses levantadas neste trabalho, ou seja, de que as
formações sintomáticas actuais parecem prescindir da figura paterna .
Para Freud, a pulsão está implicada no sintoma e, como tal, importa abordar os
casos paradigmáticos das duas grandes neuroses ± histeria e obsessão. Na histeria, o
sintoma apresenta -se como a defesa contra o desejo recalcado, o qual, para se
manter recalcado, precisa encontrar uma forma de descarga. O sintoma forma-se por
um mecanismo de substituição, onde o desejo se satisfaz. Na neurose obsessiva, por
sua vez, o sintoma é uma resposta a uma satisfação insuportável, o qual expressa o
conflito entre a satisfação e a defesa , combinando as duas de forma a obter satisfação
na própria defesa. Desta forma, o que se satisfaz no sintoma é a pulsão e esta
satisfaz-se sempre. No modelo da histeria, a interpretação do desejo recalcado
dominava o sintoma, porém o mesmo não sucedia na neurose obsessiva. É nela que
se articula de forma mais evidente o carácter intransigente da pulsão.
Para Lacan, nas suas primeiras concepções do sintoma, estas encontram-se
divididas em sintoma como mensagem e sintoma como sentido e gozo. Na concepção
do sintoma como mensagem, o sintoma pode ser eliminado através da sua
interpretação, porquanto é estruturado como linguagem. Esta forma de entender o
sintoma é de grande importância histórica, pois tenta combater uma série de ilações
dos pós-freudianos que conduziam a psicanálise para um campo muito próximo da
adivinhação, desconsiderando as postulações freudianas sobre a expressividade d o
sintoma. É neste sentido que Lacan retoma a diferença entre o latente e o manifesto ,
através da concepção da fala como plena e vazia, considerando a primeira como
expressão do inconsciente e a segunda como expressão do eu. Esta forma de
entendimento permite lidar com o sintoma como se de um sentido aprisionado se
tratasse, o qual a interpretação irá libertar. A interpretação representa um momento
dos ensinamentos de Lacan onde o gozo era concebido como im aginário, opondo -se à
ordem simbólica e desarticula da do significante.


+&å&#%./# 


Afinal qual é o sentido de tudo ist o? Actos falhados, sonhos e sintomas


neuróticos têm um sentid o, ³conforme verificamos, possuem uma determinada
conexão com a experiência do paciente.´ (Freud , å9). ³O sentido dos sintomas´ é o
título da XVII conferência d o livro em que Freud expõe muitas das suas ideias sobre a
presente questão. Os sintomas, neste sentido, pertencem ao mesmo registo, ou seja,
ao registo simbólico, porquanto se decifram, são passíveis de leitura. Relativamente
ao sintoma histérico, o qual foi a porta de entrada para a psicanálise, quando
interpretado, desaparecia. Porém, numa segunda etapa freudiana, o mestre percebe
que o sintoma não desaparecia totalmente, retornava. Chamava -se a isso ³reacção
terapêutica negativa´. Havia uma repetição e essa repetição ficou evidente para Freud
na neurose obsessiva, pois era a fundamentação do próprio sintoma obsessivo.
Na mesma conferência, Freud refere-se à Psiquiatria actual e à forma como ela
actua em relação aos problemas da Neurose obsessiva. A Psiquiatria somente atribui
nomes às diferentes obsessões, defendendo que os portadores de tais sintomas são
³degenerados´. Esta a firmação não constitui uma explicação, mas sim um julgamento
de valor. A Psiquiatria preocupa -se pouco com as formas de manifestações e com o
conteúdo de cada sintoma; a Psicanálise , por outro lado, dá atenção a ambos os
aspectos e consegue comprovar que cada sintoma tem um sentido e que está ligado à
singularidade de cada sujeito.
A teoria freudiana de que os sintomas têm um sentido, o qual pode ser
decifrado como as restantes formações do inconsciente, é abordada por Lacan com
base nos recursos da linguística estrutural. Se o sintoma for uma mensagem que pode
ser decifrada e dirigida ao Outro, é porque mantém a latência significante, isto é ,
mantém algo que pertence a um processo especial da sua formação e que
fundamenta o seu sentido e a sua significação. O sintoma é, assim, definido como ³o
significante de um signifi cado recalcado da consciência do sujeito´ (Lacan, å998), um
sem-sentido, uma opacidade no discurso do sujeito, por representar uma irrupção de
verdade.
Em Ô                  , Lacan (å998)
afirma que o sintoma se resolve p or inteiro numa análise à luz da linguagem , por ser
ele próprio estruturado como uma linguagem, uma linguagem cuja fala deve ser
libertada. O sintoma é, tal como o inconsciente, estruturado como uma linguagem,
porque partilha da linguagem e das suas leis. É também a fala dirigida ao Outro, lugar
de onde o sujeito rec ebe o sentido e a significação do seu sintoma, ou seja, ³a sua
própria mensagem de forma invertida´ (Lacan , å998).
Lacan utiliza este termo nos anos 0 para elaborar a sua teoria do simbólico,
na qual esse Outro surge como uma terceira figura da fala. Neste sentido, mesmo
antes do nascimento de um filho, as relações entre os seus pais são organizadas pela
palavra; ³elas situam -se no mesmo quadro das leis de linguagem´. (Miller, å98).
É num banho de linguagem que a criança se encontra mergulhada à nascença.
Esse lugar que representa o tesouro dos significantes, que se dirige ao sujeito, Lacan
denomina de lugar do Outro, Outro da linguagem que fará emergir uma vida
subjectiva, permitindo ao ser humano alcançar uma constituição psíquica. Nesse
domínio familiar produzem-se, entre mãe e filho, os significantes privilegiados pela
mãe perante a demanda do filho , formando um campo discursivo em torno do
desenvolvimento da criança.
Miller acrescenta ainda que o entendimento das mensagens e a comunicação
não são o essencial da linguagem; para a psicanálise é importante o fa cto de a mesma
ter por função a identificação o sujeito. E é essa identificação que lhe permite incluir -se
no registo simbólico. Esse Outro tem as suas próprias leis, as quais foram

desenvolvidas por Lacan como sendo as leis dos significantes, através da sua leitura
de Saussure e Jakobson .
Para Freud, o sintoma nunca é simples; ele é sempre sobredeterminado, sendo
esse facto, para Lacan, somente concebível na estrutura da linguagem. A
sobredeterminação não é mais do que a sobredeterminação simbólica do significante,
ao nível do inconsciente, ou seja, é a articulação das cadeias significantes ao ser
decifrado o sintoma, isto é, ao fazer deslizar e desdobrar os significantes recalcad os
que a ele estão ligados. Nest a dimensão, o processo de análise é o processo de
deciframento da articulação significante, que ocorre no desdobramento e no
desenrolar das cadeias de associação de significan tes.
A associação livre, regra fundamental da psicanálise, faz -se pela via do
significante e não do significado. Para se chegar ao significado, o que importa é o
lugar do significante em relação a um outro significante. A psicanálise, então, opera
sobre o inconsciente, que dá prevalência ao significante. O significado não é mais do
que outro significante que, junto com o primeiro, retroactivamente, produz efeito de
sentido. Essa é a própria estrutura do significante. Na relação Så e S2, o sentido de
Så é fornecido por S2. É necessário sempre outro significante para rever o sentido do
anterior.
Desde o seu trabalho com a histeria, Freud encarou o sintoma como o efeito da
linguagem sobre o sujeito.         , demonstrada no tratamento aplicado às
histéricas, mostra que o acontecimento traumático gerador do sintoma se modifica
quando nele se insurge a fala. Assim, sintoma e fala são homogéneos, ou seja,
partilham o mesmo campo: o da linguagem. Neste sentido, o sintoma seria a fala
aprisionada que, mesmo sendo libertada, não desaparece totalmente, havendo algo
nele que resiste, ou seja, um resto de satisfação que não pôde ser expressa, algo que
não pôde ser dito. Mais tarde, Lacan vai dizer que esse resto é da ordem do real,
impossível de ser dito.
O sintoma, como formação do inconsciente, estruturado como uma linguagem ,
segundo Lacan, acentua -lhe a condição humana, coloca o sujeito numa situação de
ruptura com o mundo animal. Lacan não reduz o sintoma ao campo simbólico, mas
afirma decididamente a supremacia da dimensão simbólica .
No seu retorno a Freud, Lacan tinha definido o sintoma como um constructo
originário de um signo mnémico da representação traumática, formado no inconsciente
ao interpretá-lo à sua maneira. O traumático acaba por ser o que se repete no
sintoma, para fazer surgir o significante da sua origem, significante este apenas
conhecido através de uma operação ao nível inconsciente, no discurso analítico.
Na conferência de Genebra sobre o Sintoma, em å9, Lacan afirma que
quando Freud realça que o sintoma tem um sentido, um sentido que se interpreta
correctamente, isso quer dizer que o sujeito re vela uma parte dele em função das suas
primeiras experiências, isto é, no facto de não poder falar sobre a sua realidade
sexual. E nesse momento ele cita o caso do ´pequeno Hans´ , quando este se dá conta
da própria erecção e vai encarná -la num objecto externo, num cavalo que vai e vem,
que dá coices e que é o melhor exemplo daquilo que ele tem que enfrentar, sem nada
entender, graças ao facto, diz ainda Lacan, de ele ter um certo tipo de pais. O sintoma
do pequeno Hans é a expressão, a significação, dessa recusa.
A recusa de Hans é o medo que ele tem dessa erecção que lhe acontece,
desenvolvendo assim uma fobia por cavalos. A fobia é o sintoma com o qual Hans
conseguiu traduzir a angústia perante o primeiro contacto com a erecção do seu pénis.
Hans não entende esse fenómeno devido aos pais que tem. Segundo Lacan, o
sintoma da criança pode representar a verdade do casal familiar. Esta é a primeira
versão do sintoma: o sintoma infantil está sempre relacionado com a verdade dos pais. 

+&å&å2(


O sintoma e a função paterna são conceitos fundamentais na teoria e na
prática psicanalítica de Freud e Lacan e destacam -se profundamente no percurso de
cada um deles, quer pelas suas mudanças de paradigma, quer pelas suas diversas
referências e também, principalmente , pelo facto de a teoria lacaniana ser permeável
ao cruzamento entre diferentes conceitos e épocas, cedendo às suas influências,
quando estas são pertinentes , mas também interpretando -a e aspirando a que a
Psicanálise vença.
O sintoma é um conceito freudiano ligado essencialmente à figura paterna,
absorvido do campo do Pai, ou seja, do campo do sentido. Surge como uma
mensagem dirigida ao lugar onde o Nome -do-Pai sustenta a relação impossível entre
o desejo e a lei.
É suposto que a psicanálise adquira a subjectividade própria de cada época.
Por este facto, é natural que assistamos a mudanças de conceitos entre a épo ca de
Freud e a de Lacan. Se observarmos com alguma atenção, podemos perceber que as
mudanças que têm ocorrido na clínica correlacionam -se com as mudanças na
subjectividade. E são estas mudanças que se manifestam nos novos sintomas, os
quais desconsideram por completo a figura paterna. Voltando atrás, o conceito
freudiano de sintoma está sempre ligado à figura paterna, ou seja, sintoma e pai são
metáforas.
Existe um dito romano citado por Freud, segundo o qual a figura paterna é
incerta e a figura materna é uma figura certa. Desta perspectiva, podemos considerar
o sintoma freudiano como o ³instrumento´ do qual o sujeito dispõe para lidar com a
incerteza do pai, sintoma esse que adquire as peculiaridades inerentes a cada
indivíduo.
O nascimento da psicanálise resulta precisamente da relação que Freud
estabelece, em å9å3, entre o sintoma histérico e a paternidade, aquando da
explicação por ele inventada acerca das o rigens do pai, registada na obra Ê  
Ê  . Essa invenção sobre a origem do pai resultou na co nsideração da figura paterna
como função simbólica. Segundo o mestre da psicanálise, o Pai começa com o
assassinato do pai, com a separação entre as dimensões real e simbólica, ou seja, a
função paterna apenas se revela através da negação da dimensão real do pai. Desta
forma, apenas através desta separação, negação, surge um vazio para ser preenchido
pela dimensão simbólica. A função simbólica do Pai permite interpretar a ausência da
dimensão real do pai, à qual Freud chamou de assassinato.
Importa referir que o pai real é totalmente distinto do pai simbólico, imaginário,
o qual assume características terríveis, assustadoras. Esta função está relacionada,
sim, com a palavra. A utilização da palavra, por parte do pai, torna -se necessária para
justificar a preservação dessa função, agindo este, assim, como agente efectivo da
castração. Esta função está relacionada com a autoridade que consiste no direito ou
poder de fazer obedecer, de dar ordens, de tomar decisões e agir. O termo deriva da
palavra autor e remet e para a função de dar garantia de valor , aos outros, naquilo que
faz. A função do pai é , então, a de proporcionar segurança ao sujeito, pois de outra
forma, o sujeito fica à deriva.
Freud vinculou o nascimento da psicanálise ao declínio das religiões. Ele
constatou que as neuroses se multiplicaram a partir desse declínio. ³A autoridade do
pai e o seu poder sugestivo revelam-se, assim, como a resposta das religiões perante
a inconsistência interna dos seres humanos´, diz Gorostiza (200 ). O lugar designado
como Nome-do-Pai na psicanálise é idêntico ao o cupado por Deus -Pai na religião.
Para Freud, o pai é o representante e agente da renúncia pulsional que a
cultura e a sociedade exigem . Consequentemente , concebeu a função paterna de um
modo homogéneo, no eixo da proibição do incesto e do auto-erotismo. Desta forma, a
figura paterna assumiu, na sua teoria, um carácter fortemente hostil.
A

+&å&+& 2(


Em å9, aquando do seu seminário intitulado, ³As formações do inconsciente´ Lacan
é questionado sobre os assuntos que pretendia abordar no decorrer desse ano de
estudos. Lacan respondeu que ³esperava abordar questões relativas à estrutura´.
âLacan, å999). É desta forma que ele dá início ao capítulo chamado     
  . Obviamente que, como ele próprio diz, as questões de estrutura referem-se
às formações do inconsciente. Ou seja, ele pretendia estudar os enganos da
linguagem que todas as pessoas cometem diária e involuntariamente , as quais têm já
um carácter tão banal que ninguém se questiona s obre isso.
A noção de estrutura é central na obra de Lacan , na medida em que ela é
constantemente referenciada à estrutura de linguagem. Seguir a estrutura é comprovar
os efeitos da linguagem, diz Lacan em å90, numa entrevista a uma rádio , da qual
resultou o texto *   , incluído na sua obra |   + Este texto refere-se
essencialmente à forma como esta estrutura se relaciona com o inconsciente, pois é
apenas através do acto de falar que o inconsciente se manifesta e nos permite ter
acesso a ele.
Como foi dito anteriormente, s e o sintoma e o pai são metáforas, ambos são
significantes que vêm no lugar de ou tros significantes. A metáfora , de acordo com Dor
(å989), está presente nos atropelos do discurso como uma figura de estilo fundada em
relações de similaridade, de substituição. Neste sentido, trata -se de um mecanismo de
linguagem que intervém ao longo do eixo sincrónico (sintagmático), ou seja, um dos
eixos da língua para Saussure. A metáfora consiste, basicamente, em designar
alguma coisa através do nome de uma outra coisa. No sentido pleno do termo , é
considerada como uma substituição significante.
Segundo Lacan, no seu seminário número cinco,  Ô ,  
   datado de å9, a metáfora paterna, que diz respeito à função do pai, é
a forma complicada como cada pessoa a utiliza, ou seja, é a forma singular como cada
um lhe vai atribuir um significado . No fundo, a metáfora paterna tem uma função
estruturante, na medida em que é fundadora do sujeito psíquico como tal.
Importa destacar que foi igualmente em å9 que Lacan começou a escrever 
 -    , começou a abordar os assuntos ³linguísticos´, ou seja, Lacan iniciou
nessa época o seu trabalho com a linguística, o qual teve como consequência o
surgimento da metáfora paterna. 
Lacan acaba por formalizar a metáfora paterna com Jackobson, com base na
sua releitura do mito edípico freudiano. O mito é algo que demonstra àqueles que o
ouvem que já foi dito anteriormente tudo o que se podia dizer a respeito e que, como
tal, é inútil passá-lo à escrita, pois isso não o tornaria original. Se, na origem, se
colocam ³pai´ e ³mãe´, então nomear estas funções significa explicar o começo de
todas as coisas. Este é talvez o primeiro modelo de uma determinada comunidade
expressar a sua originalidade. O mito é popular, todos o conhecem, qualquer um pode
contá-lo, transmiti-lo. O mito representa o povo.
Lacan diz que numa cidade desprovida de mitos, cada significante se
representa a si próprio. Ao trabalhar com os mitos freudianos, Lacan impõe-lhes, como
diz Miller ( Pérez, 200), a exigência de representar algo que deve ser interpretado.
Impõe, ³portanto, (a exigência) de extrair a estrutura, cujo revestimento são os mitos´
(Pérez, 200). Nesta leitura dos mitos freudianos, Pérez acrescenta ainda que se
observa bem a forma como Lacan é influenciado por Freud: extrai dos seus mitos
fundadores a essência da estrutura, que se traduz n aquilo que determina a metáfora
paterna.
Lacan refere que a função do pai é ser um significante substituto do primeiro
significante, o significante materno. Neste sentido, trata -se de ³um princípio de
separação´. Tal substituição significa que a ligação ao pai substitui a ligação com a
X

mãe, intervindo o prim eiro no desejo da segunda . É a partir desta substituição, da mãe
pelo pai como significante, que se produz a referida metáfora. ³O papel da metáfora
paterna, substituindo o desejo da mãe pelo Nome -do-Pai é, assim, o de permitir um
acesso aos discursos, mediante uma perda de gozo. Não se trata aí, em termos
lacanianos, de nada diferente daquilo que a castração, em term os freudianos opera´.
(Skriabine, 200 ).
Se tomarmos como exemplo o jogo do .  descrito por Freud, podemos
dizer que este consiste na ilustração mais explícita da realização da metáfora do
Nome-do-Pai no processo de acesso ao simbólico por parte da criança, isto é, a
simbolização do objecto perdido (Skriabine, 200 ).
A esse respeito, Freud afirmou: ³Certo dia, fiz uma observação que con firmou o
meu ponto de vista. O menino tinha um carretel de madeira com um pedaço de cordão
amarrado em volta dele. Nunca lhe ocorrera puxá -lo pelo chão atrás de si, por
exemplo, e brincar com o carretel como se fosse um carro. O que o menino fazia era
segurar o carretel pelo cordão e com muita perícia arremessá -lo por cima das cortinas
da sua caminha, de forma que aquele desaparecia por entre as mesmas, ao mesmo
tempo que proferia o seu expressivo µo-o-o-ó¶. Puxava o carretel para fora da cama
novamente, por meio do cordão, e saudava o seu reaparecimento com um alegre µda¶
(ali).´ (Freud, å9).
Desta forma, o jogo consistia no desaparecimento e retorno do objecto;
praticamente apenas se via o primeiro acto, que era incansavelmente repetido como
um jogo, embora não houvesse dúvida de que o maior prazer estava ligado ao
segundo acto. A interpretação do jogo não apresentava mais dificuldades. O jogo
estava relacionado com os resultados de ordem cultural obtidos pela criança, com a
renúncia pulsional que tinha realizado (renúncia à satisfação da pulsão) para poder
aceitar as ausências da sua mãe. Esta, por sua vez, encontrava uma reparação, por
assim dizer, encenando ela mesma, com os objectos que tinha ao seu alcance, o
mesmo processo de µdesaparecimento-retorno¶. Assim, há neste jogo um duplo
processo metafórico. O carretel é uma metáfora da mãe, bem como o jogo presença-
ausência. Através deste movimento lúdico, a criança controla a situação que a
angustia: para não se sentir abandonada pela mãe, ela abandona-a simbolicamente
nessa operação. O jogo do  .  ilustra precisamente a expressão lacaniana
³substituição significante´. O acesso ao simbólico por parte da criança através da
linguagem é signo incontestável do controlo simbólico do objecto perdido. Face a isto,
podemos dizer que a criança conseguiu mobilizar o seu desejo de ter a mãe junto de
si, para objectos substitutivos dessa falta.
Ao dizermos ³Nome-do-Pai´, tal expressão implica, por si só, que não se trata
apenas do ³pai´, mas também do seu ³Nome´; que essa categoria se refere a um
significante que, como tal, nomeia, é ³nomeante´, diz Lacan, é o ³pai do nome´, o qual,
se existir para o sujeito enquanto significante, representa aquele que cumpre a funçã o
e não necessariamente o pai biológico. Para Lacan, a função do pai estabelece-se ao
nível do pai real como construção e efeito de linguagem . Não é o pai da realidade:
³pois a realidade é outra coisa ( ...) Até poderia ir um pouco mais longe, fazendo-vos
reparar que a noção do pai real é cientificamente insustentável. Só há um pai real, é o
espermatozóide e, até segunda ordem, ninguém jamais pensou dizer que é fil ho de tal
espermatozóide. (Lacan,å992 ).
Retomando a questão da metáfora paterna, Lacan destaca que a fórmula da
metáfora é decididamente a troca de uma palavra por outra. Ele insiste em dizer que a
metáfora não resulta de dois significantes igualmente actualizados, como na
metonímia, mas sim de dois significantes em que ³um substitui-se ao outro, tomando o
seu lugar na cadeia significante; e o significante escondido continua presente pela sua
ligação (metonímica) com o resto da cadeia´ (Lacan , å998).
Na retórica clássica, a metáfora e a metonímia ligavam-se ao pensamento
lógico, como duas figuras de linguagem, em que o orador, quase sempre o poeta, se
tornava senhor da significação produzida. Lacan não concordava com esta ideia . ³A

metonímia está estreitamente ligada aos significantes, abstracção feita da sua


significação. É sobre a palavra por palav ra da conexão dos significantes que a
metonímia se apoia´. (Miller, å98). A metonímia seria, assim, como uma figura de
estilo que explicita a relação entre os signif icantes na cadeia, sendo a metáfora, por
sua vez, a que permite o surgimento do sentido.
Segundo Gerard Miller (å989 ), é com base nesta ideia que vamos considerar o
termo Nome-do-Pai como metáfora.
Neste avanço ideológico realizado por Lacan, destaca-se a influência de
Jakobson, que enfatiza o pólo metafórico e o pólo metonímico da estrutura d e
linguagem. Conforme Miller refere: ³Se uma palavra, na sua definição, remete para
outras palavras que, elas também, remetem para palavras ± falando de cadeia
significante - isto dá-nos a estrutura sincrónica da linguagem, em que nenhuma
realidade exterio r a essa linguagem limita a significação. ´ (Miller, å989).
Tal como o signo saussuriano, o signi ficante não é uma mensagem. Assim
sendo, não há significante que se signifique a ele próprio. O que pode então limitar a
significação? Se percebermos que há sempre, por parte da língua , uma palavra que
falta para fechar a cadeia sobre ela mesma, o que a faz parar, acrescenta Miller, não é
portanto um significante último que se igualaria à sua significação, mas sim uma
função que Lacan, retomando Freud, chama de função paterna. É o Nome-do-Pai que
vai travar o desejo avassalador da mãe, representando o Outro anterior, fazendo parar
a ordem da significação fálica.
Há uma mudança ideológica importante no início do ensinamento de Lacan,
com o seu retorno a Freud, até ao seu fim. Esta mudança diz respeito à função do pai.
Para Freud, o Édipo é um mito universal válido para todo s os sujeitos. Lacan, por sua
vez, avança no sentido de considerar o pai do Édipo como o Nome-do-Pai. ³Essa
passagem do Édipo freudian o ao Nome-do-Pai equivale à passagem de um mito
universal para um matema da significação universal´ (Steves , å998, p. å0 ). Steves
insiste no termo universal porque que no tempo de Lacan, tal como no de Freud, há
UM pai. E mesmo que esse pai possa apresentar muitas variações , de um para outro,
deduz-se apenas uma única entrada numa significação comum, numa significação que
serve e é válida para todos.


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Para podermos abordar devidamente esta questão, importa estabelecer a


diferença entre o mundo moderno e o mundo contemporâneo. Podemos dizer que o
primeiro ficou marcado pelo surgimento da ciência que instala o poder da razão e
questiona a autoridade simbólica do pai. A modernidade consiste no espaço em que
surgem grandes ídolos, grandes s ujeitos, como diz o escritor francês Dufour. Grandes
sujeitos como o Deus único do monoteísmo, o catolicismo, o rei, a República, etc. ,
figuras sustentadas pela tradição. Outro aspecto importante da modernidade
relaciona-se com o sujeito em termos filosóficos. A modernidade é marcada
principalmente por dois sujeitos: O sujeito crítico de Kant , que é dominado por três
grandes questões: ³O que posso conhecer? O que de vo fazer? O que posso esperar?´
(Dufour, 200) e o sujeito neurótico de Freud, refém da culpabilidade.
Quando a ciência é questionada, colocada em causa , o declínio do poder de
Deus acaba por atingir o seu representante terreno: o pai de família, o principal
³Grande Sujeito´ da modernidade. Tal facto traz consequências para a organização
social, política e familiar; a moral perde a força como bem maior de um indivíduo. A
queda dos valores tradicionais, dos ideais, o desaparecimento das grandes histórias
de vida, não têm ocorrido sem as devidas consequências. Uma delas e a mais grave é
a condição da subjectividade, que é afectada com a mudança histórica, ou seja, qual o
estatuto desse novo sujeito, sem sentido crítico e sem culpabilidade?

A psicanálise surge precisamente no momento em que a contestação a o pai e


à moral criam conflitos e geram sintomas. A psicanálise entra no mundo para autorizar
o desejo e sua difusão corrobora o declínio, já iniciado, da função paterna.
Segundo Bernard Nominé (å998 ), em å9, Lacan, no final do seu
ensinamento, revê a sua concepção da posição paterna. Já não se trata do pai
simbólico representante do desejo da mãe. Esse pai revela-se insuficiente para essa
função. Esse pai é insuficiente para representar a falta imaginária d a mãe, que é uma
falta que remete para a infância dessa mãe, conduzindo a criança ao encontro do
sintoma.
De acordo com Machado (200), a contemporaneidade radicaliza as
consequências da modernidade, fazendo com que os valores morais e a hierarquia
sejam substituídos pela liberdade individual como bem supremo. Esta mudança faz
com que o ideal perca valor em relação ao objecto que, inserido na lógica capitalista,
ascende ao zénite social. Como consequência, os conflitos em relação aos ideais
paternos são substituídos , na actualidade, pela compulsão ao gozo. Assim, podemos
considerar a clínica actual como diferente da clínica freudiana, necessitando de
reajustamentos concep tuais que orientem uma prática que permita alcançar as novas
subjectividades.
Em å92, numa conferência em Milão, Lacan transmitiu aos seus ouvintes que
o discurso capitalista andava às mil maravilhas, andava até rápido demais. O regime
capitalista indica que ³o escravo antigo foi substituído por homens reduzidos ao estado
de produtos´. (Dufour , 200).
O resultado desse triunfo do capitalismo, segundo Dufour, é um
enfraquecimento e até uma alteração da função simbólica, o que nos conduz para a
análise do simbólico na pós -modernidade.
Ainda de acordo com Dufour (200), este diz que a partir do momento em que
toda a garantia simbólica das trocas entre os homens tende a desaparecer, é a própria
condição humana que muda. Consequentemente , muda a nossa posição no mundo,
pois o sentido da vida deixa de se relacionar com uma busca de acordo com os
valores simbólicos que representam o papel de garantias, mas sim de acordo com os
fluxos móveis da circulação dos produtos de mercado. É melhor aderir a esse ³real´ do
que se opor a ele, pois o mesmo é doce, sedutor, belo, desejado. O autor então
prenuncia: ³Bem cedo veremos que formidável violência se dissimula atrás dessas
fachadas soft´. (200 ).
O Outro da contemporaneidade não é o Outro todo da modernidade, pois já
não temos a garantia de que a função de excepção do pai confirma a regra para todos.
Sem essa função a operar como barreira ao discurso da ciência, não há sujeito
submetido ao ideal. O que temos actualmente é um mundo onde não há um sentido
universal para orientar o sujeito, o que estimula as soluções particulares. O mundo
não-todo actual não é o mundo onde falta alguma coisa, pelo contrário, é o mundo
onde tudo está disponível para ser comprado. Ele é não -todo porque não articula a
identificação a um Så. Na verdade, existe um enxame de Så, uma multiplicidade que
impele o sujeito a identificações que negam a heran ça paterna, portanto, a via do
ideal. A multiplicidade de identificações dificulta a estabilidade da identificação ,
fazendo com que o gozo do sujeito seja mascarado pelo mercado de consumo . Desta
forma, o sujeito apresenta -se à deriva em relação a um real, isto é, a um sintoma com
outra dimensão, a dimensão do real, resultado da queda dos valores tradicionais ,
consequência do declínio do pai.

+&+&#%#


A psicanálise surge, como foi referido anteriormente, como uma oposição ao
saber científico e ao seu poder silenciador , defendendo que há um saber na dimensão
do real que não fala. O termo real, juntamente com o termo simbólico e o termo
imaginário, é um dos nomes com os quais Lacan designou os três registos que
estruturam a subjectividade. Estes termos têm um lugar de destaque em todo o seu
ensinamento, a partir da década de setenta .
Lacan denomina o registo do imaginário como o lugar das identificações, o
lugar do Eu, dos fenómenos como o amor, o ódio e o lugar das relações duais. O
simbólico é o campo da linguagem, do significante; é o registo marcado pela ligação
do desejo com a falta e a lei. O real é aquilo que resiste à simbolização. ³Seremos
levados a definir o real como o impossível´. (Lacan, å98). Lacan afirma ainda a
respeito do real: ³é o mistério do corpo falante, é o mistério do inconsciente´. (Lacan ,
å98). A partir daqui, Lacan vai cada vez mais priorizar o registo do real.
No seguimento deste trabalho , destaca-se uma outra forma de considerar o
sintoma, desta feita como algo que não funciona. Segundo Lacan, é como função de
significante que o sintoma se enuncia, situando assim um efeito bem particular do
simbólico no real. Uma leitura que nos dá a indicação da dimensão de real que existe
no sintoma, pois segundo o psicanalista francês, o sintoma é o que muitas pessoas
têm de mais real.
A psicanálise, em consonância com a ciência , trata do real, mas de uma forma
diferente. A psicanálise trata o real a partir do sintoma, pois este representa o real de
cada sujeito.
Através da histeria, causadora do nascimento da psicanálise, e do discurso
histérico, Freud pôde demonstrar que o sintoma tem um sentido, um sentido
inconsciente, ou seja, o sintoma diz alguma coisa, mesmo que o sujeito não se
aperceba disso. E não somente diz, como também serve a um fim de satisfação, uma
³satisfação real´, reconhecida p elo sujeito como um sofrimento. Os sintomas
pertencem à mesma ordem das formações do inconsciente, sendo, portanto,
decifráveis, e inscrevem-se na cadeia significante , permitindo uma interpretação dos
mesmos. Para além de decifrável, o sintoma é também um paradoxo onde o sujeito,
sem o saber, tem a sua satisfação sexual e também o seu sofrimento. Essa satisfação
real, reconhecida como sofrimento, é apontada por Lacan como a referência freudiana,
na teoria do sintoma, ao real traumático, que escapa à decifração do sintoma, pois o
mesmo não é somente manifesto e decifrável, ele tem um ³sentido profundo´.
(Vincens, å998).
Seguindo ainda Vincens, a interpretação de um sintoma implica sempre que se
perca o controlo sobre algo referente ao seu sentido. O acto obsessivo é uma prova
disso, o seu sentido escapa ao sujeito que se sente obrigado a realizar um a cto de
forma compulsiva. O sujeito queixa-se que esse acto não tem sentido para ele, é aí
que ele se divide e pode -se, então, iniciar um tratamento. Observemos: ³Freud, do
mesmo modo que para encontrar a significação dos sonhos começa pelo sonho
infantil, para o estudo da significação dos sintomas parte da neurose traumática. É q ue
nela pode-se ler de forma quase imediata a referência real ao sintoma, a sua
'   , que se reproduziria literalmente ao pé da letra no mesmo sentido do
sintoma. Na neurose traumática , o sentido e a significação do sintoma quase se
confundem.´ (Vincens, å998).
Na obra |       (å9å), Freud esclarece que:
³pelo caminho indirecto, pela via inconsciente e por antigas fixações, a libido
finalmente consegue achar sua saída até uma satisfação real ± embora seja uma
satisfação extremamente restrita e que mal se reconhece como tal´.
Com o objectivo de eliminar o recalcamento, a libido encontra as fixações
necessárias nas experiências do início da vida sexual, que, por ocorrerem numa época
‰

de desenvolvimento incompleto e marcadas pelo desamparo infantil, são capazes de


provocar efeitos traumáticos. ³É traumático, em princípio, o que, por causa de um
excesso de estímulo, deixa uma impressão no aparelho anímico. E aqui não se pode
generalizar, porque uma mesma vivência pode ser trau mática para uns e não para
outros´. (Vincens, å998 ).
Freud vai dizer que, d e alguma forma, o sintoma repete essa forma infantil de
satisfação, deformada pela censura que surge no conflito, normalmente transformada
numa sensação de sofrimento e misturada com factores provenientes da causa da
doença. A forma de satisfação que o sintoma alcança tem em si muitos aspectos
estranhos ao próprio sintoma, parecendo incompreensíveis como meio de satisfação
libidinal. Freud constata ainda que esses sintomas não são similares em nada com o
que se denomina de satisfação. Normalmente desprezam os objectos, prescindindo de
qualquer relação com a realidade externa, o que implica uma rejeição do princípio da
realidade e um retorno ao princípio do prazer, ou seja, um retorno a um tipo de auto -
erotismo difuso, semelhante ao que proporcionava a pulsão sexual nos primeiros
momentos de satisfação. É o sintoma como satisfação pulsional que resiste à
interpretação. Ao constatar essa resistência, Freud reconhecia que, pela palavra, não
era possível tratar completamente o sintoma, embora muito dele pudesse ser
colmatado por ela.
Importa referir que, para a psicanálise, satisfação e prazer não são
equivalentes, pois o sujeito encontrar satisfação naquilo que o faz sofrer. ³É o que
demonstram a neurose traumática, a compulsão à repetição e a s brincadeiras infantis.
Se eliminarmos o que nos faz sofrer, eliminamos também o que nos satisfaz´.
(Machado, 200)
É importante destacar que já nessa época Freud parece antecipar o novo
sintoma nessa dimensão do real, o qual será tratado no capítulo a seguir. Observemos
a citação que nos conduz a essa hipótese: ³Em lugar de uma modificação no mundo
externo, essas satisfações substituem-na por uma modificação no próprio corpo do
indivíduo: estabelecem um acto interno em lugar de um externo, uma adaptação em
lugar de uma acção ± uma vez mais, algo que corresponde filogeneticamente, a uma
regressão altamente significativa. Somente compreenderemos isto se ligado a algo
novo que ainda t eremos de aprender n as pesquisas analíticas da formação dos
sintomas.´ (Freud, å9).
Nesse mesmo texto, ao procurar a resposta para a questão de como a libido
encontra o caminho para chegar a esses pontos de fixação, Freud realça a
importância assumida pela fantasia na formaç ão dos sintomas e afirma que todos os
objectos e tendências que a libido abandonou, não foram ainda abandonados em
todos os sentidos. Estes objectos e tendências permanecem ainda, com alguma
intensidade, nas fantasias. Assim, ainda segundo Freud, a libido necessita apenas
retirar-se para as fantasias, a fim de encontrar o caminho que conduz a todas as
fixações recalcadas. E conclui: ³partindo daquilo que, agora, são fantasias
inconscientes, a libi do movimenta-se para trás, até às origens dessas fantasias no
inconsciente, ou seja, até aos seus próprios pontos de fixação´ (Freud , å9). A
questão da fantasia é relevante porque representa o núcleo central da interpretação do
sintoma, pois ela recorre às cenas que se fixaram e organiza a forma que pode
adquirir para o sujeito aquilo que não tem forma, ou seja, a realidade do sexo.
Posteriormente, Oliveira refere, na obra #    (å920): ³O
trauma para Freud deixa de ser pensado como causa dos sintomas para ser pensado
como estrutural e estruturante, atingindo, portanto , todos os sujeitos e não apenas
aqueles que adoecem´. (Oliveira, 200 ). Neste sentido, é como uma porta de entrada
no aparelho psíquico, criada pela pulsão. A pulsão é então caracterizada como o que
permite ³restaurar um estado a nterior de coisas´ (Oliveira, 200 ), ou seja, como o que
permitiria ao impossível uma satisfação total, tendo em conta que pulsão apenas
consegue obter uma satisfação parcial .
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Freud conclui que o trauma é, normalmente, suposto ou inferido, o que conduz


o autor ao abandono da teoria do trauma e à concepção da teoria da fantasia, em que
o trauma é considerado como parte da realidade psíquica do sujeito e fundamento da
fantasia. O sintoma é, então, definido como a realização de uma fantasia de conteúdo
sexual, ou seja, representa, na totalidade ou em parte, a actividade sexual do sujeito
originária das fontes das pulsões parciais, normais ou perversas.
O mestre freudiano avança no sentido de comprovar que, para além do
princípio do prazer, há ainda um real de gozo impossível de ser representado, o que
demonstra o carácter problemático da realidade psíquica que se expressa no sintoma.
Lacan define mais uma vez a satisfação freudiana como gozo e diz que o sintoma é
um modo de gozar. Ao citar Freud anteriormente, percebemos que ele se deparou
com esse limite, isto é, com algo do sintoma como uma satisfação irredutível pela via
da fala e que se manifesta pela pulsão. Seguindo este caminho, Lacan fala do gozo
como a satisfação da pulsão.
Lacan, no seu último en sinamento, refere que o sintoma caracteriza o real
como aquilo que não anda. Por seu lado, o sintoma ± embora não seja a mesma coisa
que o real, é o que provém dele; é a manifestação do real no ser humano. Nest a
perspectiva, podemos dizer que somos sempre afectados pelo sintoma, ou seja,
estamos sempre doentes, como diz Gorostiza (200).
Mais tarde, ainda com Lacan, o gozo passa a obter um significado e a pulsão
passa a sofrer os efeitos da linguagem. Isto re stringe a satisfação pulsional em termos
simbólicos e redu-la ao desejo. O sintoma como sentido e gozo é por ele colocado
num sistema de escrita, apontando para algo no sintoma que transcende a
significação. O sintoma, agora, não se esgota na significação produzida no lugar do
Outro, há nele uma vertente que se liga ao significante sob a forma de letra, ou seja,
há uma coordenação do gozo do corpo com o significante. É desta concepção do
sintoma que resultará, nos anos 0, o   como identificação do próprio gozo .
No ensinamento de Lacan, encontramos duas formas de situar o sintoma: ³O
sintoma como metáfora e o    como letra /+(Baptista, 200 ). No começo do seu
ensinamento, o sintoma é considerado como uma mensagem codificada dirigida ao
Outro e, no seu último ensinamento, o sintoma refere-se ao gozo ±    que exige
outra forma de tratamento, pois já não pertence ao campo do significante, nem é já
passível de interpretação. Esse sintoma que não se reporta ao Outro, é um sintoma
auto-suficiente e que se refere ao inconsciente enquanto separado do saber, não se
tratando já de uma linguagem que comunica alguma coisa, mas sim de uma forma de
gozo. Lacan passa a chamar essa nova forma de sintoma de   dedicando um
seminário a essa questão, o L ivro 23. |   adquire outro registo, demonstrando
que a relação sexual já não se inscreve, tornando -se na forma pela qual cada um goza
do seu inconsciente.
Na prática clínica, encontramos pacientes que nunca estão satisfeitos com o
que são. Mas o que eles são e suas experiências de vida são os seus próprios
sintomas que dizem respeito a um tipo de satisfação. Lacan vai dar a categoria de
impossível a essa satisfação paradoxal, portanto, da ordem do real. Ele insiste na
separação desse real em relação ao campo do princípio do prazer, ³pelo fa cto de que
sua economia admite algo de novo, que é justamente o impossível´. (Lacan, å98 ). O
real atinge o sujeito na sua vertente de gozo, no seu resto, revelando -se esta acção
improdutiva.
O impossível diz respeito igualmente à relação sexual que não existe. Em
å92, no seminário 20, ele desenvolve a questão da impossibilidade da existência da
relação sexual relacionada com a impossibilidade da inscrição da relação entre dois
corpos de sexo diferente. Também no texto |   (å93), Lacan se referiu à não
existência de relação sexual com base na suposição de que apenas existe um
enunciado de relação (relação em geral), ou seja, ³d a relação do homem e da mulher,
justamente no que seriam eles adequados, por habitarem a linguagem, para fazer
‰

dessa relação um enunciado´. (Lacan, 2003 ). A noção de relação está relacionada


com a diferença dos sexos, que se fundamenta na linguagem .
Segundo Lacan, a identificação sexual não reside no facto de uma pessoa
acreditar ser homem ou mulher. O que existe é o desejo em relação ao falo e não de
um parceiro em relação ao outro; é em relação ao falo que ambos os sexos se
posicionam e o impossível da relação diz respeito ao não recalcado dessa relação,
desse desencontro.
O sintoma surge como uma tentativa de invalidar essa suposta inexistência da
relação sexual, apontando para a existência de algo que não funciona no campo do
real. O neurótico encontra um gozo no sintoma, mesmo que pouco satisfatório. Gozo é
um termo introduzido por Lacan, em referência ao que representa o gozo dos bens,
dos objectos, distinguindo -se assim do campo do desejo.
Para Gérard Miller (å989), o sintoma consiste, portanto, nessa anomalia no
campo do real, ou seja, traduz-se no gozo, e afirma que o sujeito, embora se queixe
dessa relação com o gozo, não a reconhece. Esta nova categoria do sintoma, como
pertencente à ordem do real, será desenvolvida no capítulo seguinte, quando for
abordada a questão dos    , questão central desta investigação.

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O significante do pai, referido anteriormente, responsável pela introdução do
sujeito no campo da lei , pode apresentar diversas variações nos efeitos singulares,
pelo facto de o pai possuir uma cadeia significante, um imaginário, variáveis da sua
história, ou inclusive formas diferentes em relação ao pai da realidade. Partindo desta
ideia, Lacan, nos seus seminários posteriores , deixa de se referir ao Nome-do-Pai,
mas sim aos Nomes-do-Pai, alterando o estatuto do Pai. Falar dos Nomes-do-Pai
significa que o Nome-do-Pai já não é o mesmo significante para todos os sujeitos, ou
seja, cada um tem o seu significante do Pai, podendo até ter vários significantes do
pai.
Na fase final do seu ensinamento, no início da década de 0, Lacan vai
destacar a ordem do particular em relação à do universal. Já não se trata do Pai da lei,
mas sim do Så. Alguns Så vão dotar o sujeito do seu modo de inscrição no Outro.
Esses Så representam as significações mais importantes de um sujeito, podendo ser
mais que um significante, pois podem ser um traço, uma marca, uma letra que o gozo
particular de cada sujeito escreve, e essa letra tem efeitos reais. Não representam,
então, efeitos de significantes, na medida em que têm efeitos de verdade, efeitos de
gozo no real. Esta transição para a letra é o que conduz à passagem do Nome-do-Pai
e dos Nomes-do-Pai para o sintoma. Já não se trata do Pai, mas sim do sintoma, os
quais podem representar significantes muito diferentes para cada um.
Como conclusão deste capítulo, podemos observar que a primeira clínica de
Lacan é uma clínica binária, clínica do Pai, em que o Nome -do-Pai é forcluído ou não,
em que se trata de uma neurose ou de uma psicose. Trata-se de uma clínica do
significante, enquanto a segunda clínica é ternária, é a clínica onde o significante já
não predomina, mas sim o gozo. Já não se trata de uma clínica do simbólico, mas sim
do real.
A transição do Nome-do-Pai para os Nomes-do-Pai permite-nos considerar a
clínica actual com base nos novos sintomas, sendo notório um declínio da função
paterna. Os novos sintomas mostram-nos o limite de respostas dadas em função do
pai. Uma resposta com base na função paterna, actualmente, não satisfaz as questões
levantadas pelo avanço da ciência a ctual.


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Nos capítulos anteriores foi realizado um percurso entre Freud e Lacan,


situando a estrutura de linguagem no inconsciente e no sintoma. O capítulo seguinte
tem como objectivo analisar essa estrutura a partir dos novos sintomas, que não
parecem ser tão novos assim, pois como já vimos em Freud e Lacan, estes já se
referiam a determinados sintomas como algo impossível, indecifrável, permitindo -nos
equacionar uma outra leitura do inconsciente , já não estruturado como uma linguagem
metafórica, uma linguagem que se dirige ao Outro. Este inconsciente de ordem
simbólica já não responde à manifestação dos sintomas actuais. Para isso, devemo-
nos debruçar sobre o último ensinamento de Lacan, ou seja, um ensinamento que
mesmo não se separando dos fundamentos teóricos de Freud, concebe a sua própria
letra. Podemos observar a passagem de um Lacan que faz uma releitura freudiana,
para um Lacan por original.
Na obra Ô                   de å93,
Lacan afirma que quem não conseguir alcançar a subjectividade da sua época, deve
renunciar à sua função de analista. M esmo sendo um texto do início do seu
ensinamento, o psicanalista francês manifestava preocupação com a cultura da sua
época, sentindo que a psicanálise precisava de se envolver com a cultura onde estava
inserida e respectivos conflitos.
Lacan afirma que o inconsciente se constitui na relação do sujeito com o Outro,
ou seja, a partir do laço social. E como o inconsciente é o núcleo do trabalho do
analista e da psicanálise, estes estão sempre relacionados com o laço social , ou seja,
têm que lidar com tudo aquilo que produz um laço com o Outro e com os outros, aquilo
que os colocam ³frente a frente com a cidade e com a subjectividade da sua época´.
(Brousse, 2003)
Em 2003, Romildo do Rego Barros, psicanalista brasileiro, afirmou acerca do
tema |     : ³Se o inconsciente se define pela exterioridade do
simbólico, parece-me que podemos dizer que se está a tornar relativamente frequente
os psicanalistas serem procurados por pessoas que se queixam da exterioridade do
real e não do simbólico.´
Podemos observar, então, um deslocamento do seu modelo clínico , pois já não
pode ser o mesmo da tradicional histeria freudiana .


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Como vimos, há bastante tempo que se discutem os novos sintomas, e somos


obrigados a concordar que há um ³desnorteamento´ do sujeito moderno e
contemporâneo. Jacques Alain Miller, no texto     (200), refere-se a esse
desnorteamento na medida em que durante muito tempo existiu uma bússola, que
consistia numa moral civilizada que actualmente se encontra abalada . Segundo Miller,
ocorreram mudanças, passaram a existir duas metáforas: a primeira foi a substituição
da agricultura pela indústria e , actualmente, encontra-se a decorrer uma segunda
metáfora, a substituição da natureza pelo real. Senão vejamos: desde que a prática da
agricultura foi substituída pela indústria, nunca mais foi dada a devida importância à
primeira. A comunidade agrícola tinha como bússola a natureza, as estações do ano , o
clima, o tempo, as tradições. Com a revolução industri al, todos esses factores foram
esquecidos. Os produtos industriais foram anulando a natureza. Actualmente existe
uma produção industrial de    o que provoca no ser falante algo que vai para
além da satisfação da sua necessidade, para além do prazer, ou seja, um gozo puro.
A natureza foi substituída pelo artificial, o qual representa um real sem bússola, sem
lei.
As novas formações de sintomas são diferentes daquelas que ocorriam no
início da psicanálise, são próprias do laço social inerente à globalização, ou seja, são
consequência da unificação do mercado em escala mundial, produzida pelo discurso
‰A

capitalista, enfim, resultado da universalização do discurso científico. Alguns exemplos


como o fracasso escolar, violência gratuita, toxicodependê ncia, anorexia, bulimia,
síndrome de pânico, depressão, aumento do suicídio em adolescentes, doenças
psicossomáticas, hiperactividade, entre outros, são resultado do declínio dos ideais, do
declínio da função paterna e , consequentemente, da família.
Como se pode demonstrar a eficácia de uma prática clínica numa sociedade
que não acredita no saber? Numa sociedade onde todo o saber deriva dos números e
dos produtos da tecnologia e o que interessa é o prazer individual, ou seja, o gozo de
cada um? Há uma total liberdade desse gozo perverso, o que se traduz em sintomas-
gozo, e já não em sintomas como mensagens, surgindo assim novas formas de
angústia. O sintoma como mensagem faz emergir o sujeito do seu lugar no desejo do
Outro, que representa o saber e lugar do s significantes. É ao Outro que ele se dirige,
comprovando que o sintoma é estruturado como uma linguagem e extremamente
dependente desse Outro, é dele que o sujeito receberá o sentido do seu sintoma, ou
seja, a sua própria mensagem de forma invertida, ao ponto de, por momentos, sintoma
e inconsciente se confundirem.
Nos novos sintomas, o sujeito não te m uma referência com a qual se
identifique , na medida em que há uma decadência do significante -mestre e dos ideais.
Na cultura actual já não existe o Outro no lugar da verdade e o sujeito não tem
nenhuma significação para o orientar; consequentemente, a sua subjectividade fica
comprometida. Assim, surge a questão: Que sujeito é est e?
Miller, no texto |       (å99), diz que há muitos ano s atrás,
num encontro internacional , ele iniciou o seu discurso com um grito ³A clínica muda´.
Com isso, ele quis dizer que deveríamos ³enfatizar o novo ao invés do sintoma, na
fórmula ³As novas formas de sintoma´. Não há razão para esconder que esperamos
algo novo quando nos reunimos sob tal fórmula, al go novo na psicanálise´. (Miller ,
å99, p. 0).
Segundo este autor, actualmente existe uma tensão que acompanha o desejo
pelo novo. Refere ainda que tal facto tem uma dimensão social, que há um Supereu
nos tempos actuais que ordena a aquisição de algo novo e que sempre houve um
desejo pelo novo. Este apelo pelo novo é a nova formação sintomática da nossa
cultura, porque estamos sempre à procura de algo novo e cada vez mais o novo dura
menos tempo; depressa se torna ultrapassado, obsoleto. ³O culto ao novo encaixa -se
bem com a valorização da juventude e o desespero de envelhecer´. (Miller, å99 ).
Trata-se claramente de um sintoma social.
Perante este quadro, é difícil não cair numa clínica do consumo, que deseja
constantemente a novidade, como por exemplo os Alcoólicos Anónimos, o
condicionamento das anorécticas, o controlo da comida nos bulímicos, os grupos que
tratam os vícios, as drogas, o sexo, o consumo desenfreado de medicações , entre
muitas outras coisas. Para os psicanalistas de orientação lacaniana, esta clínica vai
contra todos os princípios analíticos, pois deixa de considerar a posição do sujeito no
seu mundo, de o responsabilizar pelos seus actos e pelo seu gozo.
Relativamente ao inconsciente, como deve ser este encarado perante os novos
sintomas? Podemos chamar estas patologias de sintoma s, se as mesmas forem
desprovidas da devida simbolização e subjectividade? Como estabelecer a relação
entre o inconsciente e a linguagem nestas novas formações sintomáticas? Como
encarar o inconsciente fora da ordem simbólica, um inconsciente que já não é
estruturado como uma linguagem? Como é o inconsciente da actualidade?
Inevitavelmente, retornamos a Freud para destacar sua genialidade e
originalidade em relação ao seu tempo. Importa citar um fragmento de um texto
surpreendente, de å908, intitulado             : ³As
extraordinárias realizações dos tempos modernos, as descobertas e as invenções em
todos os sectores e a manutenção do progresso, apesar da crescente competição, só
foram alcançadas e só podem ser conservados por meio de um grande esforço
mental. Cresceram as exigências impostas à eficiência do indivíduo, e só reunindo
‰X

todos os seus poderes mentais ele pode atendê-las. Simultaneamente, em todas as


classes, aumentam as necessidades individuais e a ânsia de prazeres materiais; um
luxo sem precedentes atingiu camadas da população para quem, até então, era
totalmente estranho; tudo é pressa e agitação. Os conflitos religiosos, sociais e
políticos, a actividade partidária, a agitação eleitoral inflamam os espíritos, exigindo
violentos esforços da mente e roubando tempo à recreação e ao lazer. A vida urbana
torna-se cada vez mais sofisticada e intranquila . Os nervos exaustos procuram refúgio
em estímulos maiores e em prazeres intensos, caindo numa maior exaustão (...)´
(Freud, å9).
Não parece tratar-se de um texto de há um século atrás. Parece um texto
actual, dos dias de hoje. Freud cita ainda todos os observadores da época, na
passagem do século XIX para o século XX e diz que eles perceberam os novos
sintomas que marcaram essa época. Miller afirma que, dest a forma, Freud antecipa
uma teoria do gozo na civilização. Esta teoria faz-nos pensar exactamente nos
sintomas da nossa época. Freud, ao pensar assim, já questionava a subjectividade da
sua época, deparando-se com uma limitação na sua prática clínica: alguma coisa d o
princípio do prazer no sofrimento sintomático ia para além disso, tendo ainda
observado que existia algo a mais entre o sentido que desfazia o sintoma e uma outra
satisfação que o sustentava , irredutível pela fala, revelada pela intensidade da pulsão.
Lacan vai então nomear essa outra satisfação freud iana com o conceito de
gozo, como o vertente real da satisfação pulsional.

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A partir do seminário XX, Lacan associa a fala ao gozo, quando afirma que o
ser, ao falar, goza. Mais tarde, Lacan diz que o sintoma é o modo como cada um goza
do inconsciente. Nesta perspectiva, o sintoma fica situado entre o simbólico e o real,
consistindo na ponte entre o inconsciente e o gozo.
É conhecida a complexidade em se delimitar, num sintoma, o que é da ordem
do significante e da ordem do gozo, pois a clínica demonstra -nos que não há uma
divisão clara entre ambos . Falar de sintoma é falar de um enunciado que é ,
simultaneamente, indizível. É a mensagem fundamental do sujeito, algo particular que
indica o seu modo de gozar.
Em ?%  Lacan diz que ³o sintoma é real. É mesmo a única coisa
verdadeiramente real, é o que conserva um sentido no real. E é por esta razão que o
psicanalista pode intervir simbolicamente para o dissolver no real.´ (Lacan , å998).
Na clínica actual, deparamo-nos com dificuldades a que alguns autores
chamam de ³a clínica das suplências, onde a generalização do conceito de sintoma,
homólogo ao de forclusão generalizada, aproxima neuroses e psicoses, abrindo a
necessidade de construir uma nova clínica diferencial´. (Kruger, å998).
Um sintoma como gozo, na sua forma metonímica de se apresentar , faz
obstáculo à cura pela sua forma resistente e inerte de ser, pois não tem nada a dizer.
O gozo toma o valor ao que corresponde a parte do significado qu e não se realiza no
significante. Em !        (å998), Lacan diz que o sintoma é feito de
significação e fantasia, ou melhor, é uma articulação entre efeito significante e a
relação do sujeito com o gozo.
Nos sintomas actuais parece que até o próprio sintoma está for cluído. Este é o
grande desafio, lidar com estes fenómenos onde a tendência ao gozo tende a
eternizar-se, numa repetição interminável. É como se estes sintomas não fossem
sintomas no sentido analítico do termo, c omo se fossem constituídos para além do
sentido, sem relação metafórica com o conflito psíquico, manifestando resistência a
toda a interpretação. O sujeito fala sem implicação ou consequência alguma .
‰Î

Freud referiu-se ao ³mal-estar´ da civilização na sua época, enquanto Lacan,


por outro lado, se referiu ao   na civilização como um efeito particular do
discurso do mestre contemporâneo, o qual denominou de discurso capitalista. ³Esse
discurso produz o objecto  provocando a falta da mais-valia. A mais-valia forcluída é
um significante e, como tal, retorna no real como gozo´. (Laurent, 200 ). Essa mais-
valia na teoria marxista era resultado do trab alho, um direito do trabalhador; na
civilização actual, ela torna-se o objecto perdido, estimulando a cadeia incessan te das
trocas, aumentando o consumo dos produtos do mercado.
Segundo Laurent, torna-se necessário descrever rapidamente ± o que não é
fácil, pois trata-se da grande criação de Lacan e resultaria num outro trabalho ± o que
é o objecto na teoria lacaniana. Existe uma diferença entre a concepção freudiana
de objecto, como Coisa perdida para sempre ² p  p , o objecto perdido da
espécie humana ² e o conceito lacaniano de objecto  ² o objecto perdido da
história de cada sujeito.
Este objecto , como objecto perdido da história de cada sujeito, pode ser
reencontrado nos sucessivos substitutos que o sujeito encontra nos seus
deslocamentos simbólicos e investimentos libidinais imaginários. Mas nesses
reencontros, por trás dos objectos privilegiados do seu desejo, o sujeito irá deparar -se
com a Coisa perdida da espécie humana, o que significa que se trata sempre, nos
reencontros com o objecto, da repetição de um encontro com o real, onde falta sempre
algo. Esta diferença pode ser considerada como o objecto impossível (objecto ) em
Lacan e o objecto perdido ( p p ) em Freud.
Se considerarmos que o recalcamento consiste na essência da teoria
freudiana, na teoria lacaniana esse estatuto pertence ao objecto . Porém, Lacan
sempre se questionou sobre a função deste objecto, tendo o mesmo sofrido alterações
constantes na sua obra: de pequeno outro ou semelhante , nos primeiros seminários, a
objecto causa de desejo, no seminário VIII, a transferência, a objecto de gozo, no
seminário XVII, posição esta não reconhecida p ela psicanálise.
Retomando Laurent (200), de forma a acompanhar o percurso do objecto na
nossa civilização, importa referir a afirmação lacaniana em relação a o efeito de
angústia e que o próprio Lacan diz ser o verdadeiro efeito de linguagem. É no
seminário X ±    , (å93), que o psicanalista francês faz uma verdadeira
apologia ao objecto º
Ainda segundo Laurent, este destaca determinados momentos do percurso do
objecto começando com o fim da Primeira Guerra Mundial, que marca a entrada no
século XX, quando o mundo do pensamento foi invadido por um afecto particular. Na
mesma época, Freud, na obra a      (å930), equipara o sentimento
inconsciente de culpa à angústia.
Antes da segunda guerra, o homem lidava com as suas angústias através da
tentativa de restaurar um todo, numa civilização que já se apresentava como não -toda.
Desse movimento surgiram os grandes líderes e os grandes ideais , os quais Freud já
tinha antecipado no seu texto
        (å92å), quando se
referiu ao exército e à igreja.
Logo após a Segunda Guerra Mundial , o sujeito começou a lidar com a sua
angústia através de vários significantes mestres, como o Partido Comunista, a busca
de Deus e os Estados Unidos como vencedores da guerra, os quais mostravam sua
competência apoiando -se na primazia científica dos anos 0.
Posteriormente, nos anos 0, Lacan apresenta um novo significante mestre: o
mercado comum. E a crise de å98 revelou que to dos esses significantes mestres
foram perdendo essa sua posição e estatuto privilegiados, pois ³em vez da crença no
futuro dos mercados comuns, reina a incerteza do mercado global. Os mercados
procuram um significante mes tre e não o encontram´. (Laurent, 200 ).
A angústia é um afecto que resulta da descrença do sujeito no significante
mestre, o qual tenta refazer esse significante, esse todo, de forma a encontrar a
garantia e segurança de que necessita . No esforço de recuperar esse Outro, emerge o
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sentimento insuportável d essa falta. Neste sentido, segundo Laurent, assistimos a um


duplo movimento: ³De um lado, apelos populares para refazer o todo. De outro,
tentativas de reencontrar o gozo por intermédio de um acesso em curto -circuito´.
(Laurent, 200 ).
Aquilo que observamos nos sintomas contemporâneos é a procura
desenfreada pelo prazer imediato, num a verdadeira overdose do gozo, n ão só pelo
uso de drogas, pelos actos suicidas, mas também pela entrega exagerada ao trabalho,
pela escolha de desportos perigosos, caminhando para o gozo da sua própria morte.
Todos estes factores são manifestações das tentativas de lidar com a angústia , com
base na necessidade de encontrar o Outro.


0&å&+& 

Os novos sintomas, mesmo manifestando -se de forma estranha, não parecem


estar fora do campo da linguagem, pois na prática clínica o que se trabalha é um ser
falante. Este facto implica a existência de uma demanda, embora esta não se
apresente. Que estatuto podemos dar a e ste tipo de linguagem? E que estatuto tem a
linguagem e o inconsciente nestes sintomas na última fase do ensinamento de Lacan?
Na trajectória do que se chama o último ensinamento de Lacan, surge uma
outra dificuldade no que diz respeito à linguística. Lacan considera a metodologia
desta ciência exemplar, mas no texto *    (å90) ele afirma: ³A linguística
fornece o material da análise ou o aparelho com que nela se opera. Mas um campo só
é dominado pela sua operação. O inconsciente pode ser, como disse, a condição da
linguística. Esta, no entanto, não tem sobre ele a menor influência. É que ela deixa em
branco o que surte efeito nele. ´ (Lacan, 2003).
Lacan, no seminário 20, diz: ³Se eu disse que a linguagem é aquilo como o que
o inconsciente é estruturado, é porque a linguagem, de início, não existe. A linguagem
é o que se tenta saber concernentemente à função da alíngua´. No mesmo seminário,
Lacan afirma: ³O inconsciente, não é que o ser pense, no entanto, o que dele se diz na
ciência tradicional ± o inconsciente significa que o ser, falando, goze e, acrescento,
não queira saber de mais nada. Acrescento o que isto quer dizer ± não saber de coisa
alguma.´
Nesta perspectiva, é complicado trabalhar o inconsciente e a sua relação com
a linguagem pois, segundo Lacan, esta não existe. A linguagem tem a estrutura de
alíngua ± é a redefinição de ste psicanalista. O inconsciente estruturado como uma
linguagem é uma leitura que Lacan faz do inconsciente freudiano. Para falar do
inconsciente lacaniano patente no seu último ensina mento, é necessário recorrer a
uma outra leitura, que ultrapassa a noção anterior, passível de ser deduzida da obra
do psicanalista francês .
Lacan cria um termo, unindo o artigo ³ / ao substantivo ³língua /. Segundo
Miller, essa invenção tinha como objectivo mostrar que os elementos da língua que
consideramos discerníveis não o são tanto assim. Alíngua, para Miller, parece não ser
uma estrutura, embora tenha relação com a mesma. Miller afirma que alíngua não é
uma estrutura porque não é um objecto desprovido de sincronia, pelo contrário, ela
tem uma dimensão totalmente diacrónica, ³visto que é feita de aluviões que se
acumulam de mal-entendidos, das  ,    de cada um´. (Miller, å998 ).
Ainda no seminário XX, Lacan insiste na noção de in consciente: ³Mas o
inconsciente é um saber, um saber -fazer com alíngua. («) É nisto que o inconsciente,
a sua codificação, só se pode estruturar como uma linguagem, uma linguagem sempre
hipotética em relação ao que a sustenta, isto é, a alíngua.´ (Lacan, å98).
Lacan fala de um inconsciente como uma linguagem hipotética e que tem
estrutura de alíngua. Mas afinal, o que é alíngua?
‰°

Para os linguistas, o início do período linguístico é o período no qual a


actividade fonética se traduz na emissão de sons e est alos que consistem em
manifestações respiratórias, expressões sonoras mais extensas do que aquelas que
serão utilizadas na língua. Para eles , é a fase quando a criança começa a manifestar
alguma compreensão em relação à fala do adulto para com ela.
Partindo do início do período linguístico , Lacan concebeu o conceito de
alíngua. Numa conferência em Genebra sobre o sintoma , em å9, ele referiu ter
procurado um termo que estivesse próximo do início da actividade fonética , definindo-
o como restos de significa ntes que se depositam como aluviões no período de
aquisição da linguagem. Numa outra ocasião, ao se referir à clínica, chegou a afirmar
que a prática consiste em procurar o equívoco nessas primeiras palavras ouvidas,
essa é uma forma de fazer com cada um t enha o seu inconsciente, bem como
enfatizar o modo como cada criança escuta. Assim, ele definiu a alíngua como
constituída pelos primeiros significantes com que o sujeito entra em contacto, antes
mesmo de conhecer a sua significação.
A partir deste pensamento, Lacan modifica a sua teoria do significante ,
utilizando o significante de uma nova forma, distinta em relação ao uso que a
linguística faz dele.
Se a alíngua emerge dos equívocos na língua, é porque se engana quanto ao
significante. A aprendiz agem da alíngua é um processo lento , de acordo com a
aquisição da língua.
Para o linguista Jean Claude Milner, no seu livro       (å98), a
alíngua é um língua entre outras, embora quando se apresente,  manifeste não se
incluir em nenhum grupo de línguas, pois constitui-se como alíngua materna, ³da qual
basta um pouco de observação para admitir que em qualquer  hipótese é preciso uma
torção bem forte para a linhá-la no lote comum´. (Milner , å98). Mesmo assim, segundo
este autor, a alíngua é uma língua como qualquer outra para o ser  falante, ou seja,
língua materna e, simultaneamente, é o que faz com que uma língua  não seja
comparável a outra, pois não tem outra para se comparar; a alíngua é algo particular
de cada sujeito, tendo como grand e característica o equívoco da língua. Ainda
segundo Milner, a linguagem  empresta à alíngua os traços para que esta se torne
compatível com um grupo e se possa inserir na língua. E a alíngua é algo onde,
através de umsó movimento, se encontra a língua e o inconsciente.


0&å&0&?#  




O último ensinamento de Lacan, tal como o apresenta Jacques Alain Miller,
indica-nos as vias pelas quais se conduz a nossa prática, contrária à freudiana , ou
seja, ao reino do pai, à consistência do Outro, inclusive ao que ³a psicanálise tem
sustentado como elaboração de saber para fazer do Pai e do semblante um uso que
permita renovar o sentido do sintoma´. (Tarrab, 200 ).
Para Freud, a descodificação é a chave do sintoma. No entanto, essa descodificação
fracassa perante os novos sintomas, pois estes rejeitam o inconsciente e prescindem
do Outro. Importa destacar que devemos ter cuidado em não homogeneizar aquilo que
dos sintomas actuais é chamado de ³novos sintomas´. Cada um desses sintomas tem
as suas particularidades e diferenças e Lacan já os considerava como sintomas que
não se enquadravam na ordem simbólica como mensagem, como uma ³operação
selvagem do sintoma´. (Tarrab, 200 ).
Ainda segundo Tarrab, preservar a heterogeneidade é uma orientação para o
tratamento desses sintomas que não pedem nada, que são fixações de gozo, pois não
podemos negligenciar esses fenómenos que parecem estar fora do processo analítico.
Na sua conferência intitulada      Jacques-Alain Miller (200) usou o
termo crucial: ³inventar a prática lacaniana dos nossos dias´.
·

Para trabalhar os novos sintomas e a relação entre inconsciente e linguagem,


devemos recorrer a Lacan quando o mesmo diz, como já foi referido, que o sintoma,
embora não seja a mesma coisa que o real , provém dele. É a manifestação do real
nos seres falantes.
Na fase final do seu ensinamento, a estrutura clínica na qual Lacan vai apoiar
as suas inovações teóricas é a psicose, não como um deficit, mas sim como parte da
estruturação subjectiva. Neste percurso, a noção de sujeito , que sempre teve
importância no seu ensinamento , adquire uma maior relevância.
Lacan, ao reler Freud e beber na fonte da linguística, descobriu a eficácia
simbólica, termo rebuscado de Lévi-Strauss. Essa noção introduz na causa
significante Så-S2/$,o efeito sujeito, que é uma operação automática da cadeia. Este
produz-se porque o sujeito é um ser falante.
Se pensarmos nos sintomas actuais como aqueles que não se dirigem ao
Outro, como se o saber já lá estivesse, como acontece na psicose, mesmo não se
tratando de psicose, mas sim de casos singulares independentes da sua estrutura
clínica, a ideia principal que devemos ter em conta é a de que há sempre um sujeito e
não devemos procurar uma primeira orientação através das estruturas, ou seja,
direccionar o tratamento a partir da estrutura clínica, pois isso poderia negligenciaria o
sujeito em questão, isto é, a experiência particular de cada um. Por exemplo: Um
neurótico obsessivo é diferente de outro obsessivo e assim por diante.
Se existe sempre sujeito é porque existe linguagem e se o sujeito da
psicanálise é o sujeito do inconsciente, nos novos sintomas isso não aparece, ou seja,
não se apresenta nem o sujeito, nem o sintoma, apesar de terem sido nomeados
esses casos de ³novos sintomas´. No entanto, não podemos dizer que estes estão fora
da linguagem. Deparamo-nos com um impasse. O sujeito da psicanálise é o sujeito do
inconsciente e a condição da sua existência é a linguagem. O sintoma, segundo
Lacan, é uma manifestação do real e caracteriza -se por uma formação do
inconsciente. Podemos entã o afirmar que os novos sintomas são uma manifestação
de um inconsciente real? Ou melhor, ainda podemos estabelecer uma relação entre
inconsciente e linguagem?
Desta forma, deparamo-nos com uma dificuldade no campo da clínica. Depois
de uma primeira clínica, do inconsciente estruturado como uma linguagem e da
metáfora paterna, surge uma outra clínica, para além do inconsciente freudiano e do
Nome-do-Pai. Este é o corte que observamos no primeiro ensinamento lacaniano,
onde se localiza o paradigma da estrutura rumo a uma outra leitura do inconsciente,
do sintoma e, consequentemente, uma outra concepção da linguagem.
Posteriormente, em å9å, no seminári o 20, a   , Lacan (å98) diz ,
dirigindo-se a Jakobson: ³Um dia percebi que era difícil não entrar na linguística, a
partir do momento em que o inconsciente estava descoberto´. No entanto, ele coloca
uma única objecção a Jakobson, quando este afirma que tud o o que é da linguagem
depende da linguística, ou seja, do linguista. E afirma ainda: ³Se consideramos tudo o
que, pela definição da linguagem, se segue quanto à fundação do sujeito, tão
renovada, tão subvertida por F reud, que é lá que se garante tudo o que da sua boca
se afirmou como inconsciente, então será preciso, para deixar a Jakobson o seu
domínio reservado, forjar uma outra palavra. Chamarei isto de ³lingu isteria´. (Lacan,
å98).
O neologismo ³linguisteria´ pode ser visto como uma junção das palavras
linguística e histeria, já que a linguística é do campo da linguagem e a histeria é, por
excelência, a estrutura clínica psicanalítica do sujeito do inconsciente.
Para Milner, a lição do seminário XX , dedicada a Jakobson, é a despedida de
um antigo discurso, do relatório de Roma de å93, que resultou d o seminário V 
 ,     . Jakobson, que estava presente , diz: ³mudamos de
discurso´; e Lacan acrescenta: ³um novo amor´. (Milner, å99 ). Este seminário, a 
 , é o que inaugura o segundo ensinamento de Lacan, o qual, embora distinto do
primeiro, vincula-se a ele.
·å

Ainda no mesmo seminário, Lacan salienta que a sua ideia de que o


inconsciente é estruturado como uma linguagem não pertence ao campo da
linguística; esta apenas lhe deu o suporte para poder comprovar a estrutura
³linguageira´ do inconsciente.
O termo ³linguisteria´ surge para substituir o que anteriormente dizia respeito à
linguística, mas que modifica pelo aparecimento da alíngua. Este termo aborda a
questão da significação em oposição ao sentido, ou seja, há uma direcção do sentido
para a letra. A ³linguisteria´ parece estar mais ligada à relação necessária entre o
analista e a linguagem, e que é irredutíve l à linguística. ³A linguisteria estaria
relacionada com a realidade contingent e da linguagem enquanto fundadora do sujeito,
porém, ela mesma, dependente da alíngua´. (Leite, 200å ).
Se for para procurar um sujeito da linguística, este é o sujeito falante, o que
vem do pensamento através do processo secundário. O sujeito da ³linguisteria´ é um
ser incompleto, por isso Lacan dizer que a ³linguisteria´ exige a experiência analítica
para a sustentar, sublinhando, em å9å, que não há outra linguística para além da
³linguisteria´. Mas tal facto não quer dizer que a psicanálise seja toda do campo da
linguística, conclui o psicanalista francês.
A partir daqui, o avanço do ensinamento de Lacan demonstra um esforço em
formalizar uma materialidade para o inconsciente, operando assim uma mudança
radical no uso que faz do termo linguagem. Mais tarde , este esforço concretiza-se,
quando vai utilizar a concepção de ³letra´ e abordá -la como um significante fora do
simbólico.
Se, inicialmente, Lacan colocou em evidência o sign ificante como materialidade
da linguagem, constitutivo do inconsciente, pertencente ao registo simbólico e aquele
que representava o sujeito para um outro significante, parece -nos que, no seu último
ensinamento, a formalização de um inconsciente constituído pela letra, não mais pelo
significante, compromete a estrutura de linguagem do mesmo. Nest a perspectiva,
seria uma linguagem de outra ordem. Mas, se seguirmos o pensamento de Lacan que ,
nessa fase final de seu ensinamento, vai da linguagem para alíngua e do significante
para a letra, essa passagem indica -nos uma mudança no que ele disse sobre estrutura
e sobre linguagem.
Neste sentido, podemos considerar um inconsciente estruturado como alíngua
e que se revela pela letra, pela escrita? Como se expressam essas formações do
inconsciente através de uma letra? Como realizar uma interpretação ao nível da
alíngua?
A partir destas questões o objectivo desta investigação é perceber qual é a
estrutura de linguagem do inconsciente na perspectiva manifestada pelos novos
sintomas.
Segundo Milner, a letra não é o significante, a distinção entre eles ficou um
pouco confusa no primeiro Lacan, mas esclarece-se no segundo ensinamento . O
linguista descreve assim as diferenças entre letra e significante: ³O significante é
apenas relação: ele represent a para e é aquilo através do que isso representa; a letra
mantém, decerto, relações com as outras letras, mas não consiste apenas na relação.
Sendo apenas relação de diferença, o significante é sem positividade; mas a letra é
positiva na sua ordem. A diferença significante , sendo anterior a toda a qualidade, o
significante é sem qualidades; a letra é qualificada (ela tem uma fisionomia, um
suporte sensível, um referente, etc.). O significante não é idêntico a si, não tendo um si
ao qual uma identidade possa ligá -lo; mas a letra, no discurso em que se situa, é
idêntica a si mesma. O significante , sendo integralmente definido pelo seu lugar
sistémico, é impossível ser deslocado; mas é possível deslocar uma letra (testemunha
a teoria dos quatro discursos).´ (Milner, å99).


·

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./

No decorrer desta investigação , procurou-se demonstrar a relação existente


entre linguagem, sintoma e inconsciente, para chegar aos novos sintomas como
paradigma de um inconsciente revestido por uma nova leitura , a partir da segunda
clínica de Jacques Lacan. É importante destacar que essa nova leitura não descarta
totalmente a primeira elaborada por este psicanalista, quando considerou o
inconsciente freudiano estruturado como uma linguagem. Quer isto dizer que a
linguística marcou todo o ensinamento de Lacan , fazendo-nos pensar que a sua leitura
sobre inconsciente, definido como alíngua, não se distancia nem do conceito freudiano
(ordem simbólica), nem do campo da linguística, na medida em que é parte integrante
de uma língua como qualquer outra.
Importa destacar que Lacan, em å980, um ano antes da sua morte, afirmou:
³vocês podem-se dizer lacanianos, eu sou freudiano´. Como ele se considerou
freudiano até ao final da sua vida, podemos continuar a acreditar que o seu conceito
sobre o inconsciente permanece no campo da linguagem. Embora a relação seja
diferente, isso não quer dizer que não exista uma ligação entre inconsciente e
linguagem. O inconsciente é redefinido por Lacan como alíngua porque esta destaca a
particularidade de cada sujeito e, principalmente, porque comprova que há um
impossível inerente à língua, um real. Se o inconsciente é o real da líng ua e esta, para
Saussure, é o objecto da linguística, podemos pensar o inconsciente como um
fenómeno linguístico. Embora Saussure não tivesse interesse no que ia para além da
língua, tal não significa que o linguista não reconhecesse falhas nela. Esse para além
do objecto da linguística interessa ao campo da psicanálise porqu e implica a questão
do sujeito do inconsciente.
Lacan, ao definir o inconsciente como alíngua, leva-nos a pensar que esta
definição sustenta o que o inconsciente tem de linguístico, enquanto real da língua.
Até porque o termo alíngua não representa uma negação da língua, mas sim o facto
de ela ser considerada como não-toda.
Os novos sintomas, assim, não são tão novos como se pensava, pois Lacan
denominava este fenómeno de ³operação selvagem do sintoma´. Ao longo de diversas
épocas certamente vamos ter diversas ³operações selvagens de sintomas ´.
A este respeito Ana Maria Rudge, psicanalista, no seu artigo    
     -            (200), diz que  devemos ter
cuidado para não criar uma teoria sobre os novos sintomas e , dessa forma, criar uma
teoria da subjectividade contemporânea. Na verdade, o que devemos fazer é procurar 
recursos teóricos para compreender os fenómenos actuais, pois como já referimos, os 
sintomas contemporâneos vão ser sempre contemporâneos , de acordo com a
especificidade de  cada cultura e de cada época. É de fundamental importância
organizar um saber teórico  coerente como forma de abordar a problemática em
questão. 
O sujeito ao qual a psicanálise se dedica é o sujeito da ciência e, portanto, o da
civilização ocidental. Entretanto, um sujeito e as suas singularidades ultrapassa m
sempre as construções teóricas sobre ele.
Foi a prática clínica que nos impulsionou a fazer esta pesquisa teórica.
Sintomas frequentes como a depressão, as compulsões e as dependências ao mundo
virtual da internet, na maioria por parte de adolescentes e jovens adultos, que não
conseguem expressar um saber sobre o que sentem; dizem apenas que algo
aconteceu ao seu corpo, ou que estão gordos, ou que estão magros, ou que dormem
demais, ou que não conseguem dormir e ficam na internet, sentem tremor, medo,
pensam demais, fazem cirurgias plásticas, colocam próteses, etc.
Lacan questiona, no seminário 20, em que consiste o saber dos que não falam.
Segundo o psicanalista francês, o ser, enquanto falante, é afectado pelo inconsciente,
·‰

é o sujeito do significante e este, por sua vez, representa um sujeito para outro
significante. O que o significante define é a sua diferença em relação a outro
significante, ³é a introdução da diferença enquanto tal, no campo, que permite extrair
da alíngua o que é do significante´. (Lacan , å98). O significante , insiste Lacan, é
signo de um sujeito e é nisso q ue ele se torna ser. E daí surge a questão central para
Lacan: O que é o cor po então? ³É ou não é saber do U m?´ (Lacan, å98). O saber do
Um, segundo este mestre, não é o do corpo, é o do significante Um, o do significante
mestre que estabelece a ligação do sujeito ao saber. No entanto, ainda segundo
Lacan, esse significante Um não é um significante qualquer, representa a ordem que
faz toda a cadeia subsistir, encarnando na alíngua aquilo que se manifesta indeciso
entre o fonema, a palavra, a frase e o pensamento.

0&å&<& 


Jacques Alain Miller, genro de Lacan e responsável pela transcrição e
publicação dos seus seminários, foi o fundador da Associação Mundial de Psicanálise,
com sede em Paris. Essa instituição inclui diversas Escolas freudianas de orientação
lacaniana, em vários países. Todos os anos, Miller realiza um curso sobre um novo
seminário publicado de Lacan. O curso de 200 intitulou-se |$  *  e aqui
ele faz muitas referências ao seminário 23, |    publicado em 200. Nest e
seminário, Lacan atribui uma ortografia nova à palavra sintoma que, segundo Miller, no
seu curso sobre o inconsciente real, não é mais uma formação do inconsciente, tendo
com este uma relação muito mais complexa e diferente.
O   , para Lacan, é o que há de mais singular em cada ser falante.
Neste sentido, podemos considerá-lo estruturado como alíngua, para não o deixar fora
da linguagem. Mais tarde, no seu seminário 2 ,
0  .#  ainda não publicado,
mas citado por Miller nesse curso de 200, há uma outra inovação no seu último
ensinamento, quando refere que o inconsciente não é o que o sujeito tem mais de
singular, pois para o apreender ele teve necessidade de alojar o grande Outro. O
  , nesta nova concepção, aloja-se no Um e Lacan define , neste seminário, o
UM pelo   , opondo este, como diz ainda Miller, ao inconsciente , ou seja, ele
introduz algo que vai para além do inconsciente.
No seminário |   no capítulo intitulado p     Lacan
afirma: ³É pelo fa cto de Freud ter verda deiramente feito uma descoberta que se pode
dizer que o real é a minha resposta sintomática´, acrescentando ainda: ³Digamos que
é pelo facto de Freud ter articulado o incon sciente que reajo a ele´. ( Lacan, 200).
Em 200å, no âmbito da comemoração dos å00 anos de Lacan, os seus
seguidores prepararam e divulgaram, em França, uma colectânea de textos, que
resultou no livro |   . No final deste livro, há um artigo intitulado ³
 1
        ´, o qual Lacan inicia com as seguintes palavras:
³Quando o  de um   já não tem nenhum impacto de sentido (ou interpretação),
só então temos a certeza de estar no inconsciente´. (Lacan, 2003 ).
Segundo Miller, a frase ³  0   ´ pode ser distorcida no sentido de
significar que ³    #    ´; no entanto, ele acrescenta que essa
proposição não é evidente, que precisa de ser trabalhada. O texto sobre o lapso foi
escrito logo depois do seminário | !   em å9.
Retornando a å9, nesta altura Lacan refere, em ³resposta ao comentário de
Jean Hypolite sobre a (    de Freud´ que, uma vez desprovido de toda a
manifestação simbólica, reaparece ³erraticamente´. Essas manifestações erráticas,
valorizadas na psicose, surgem já em Lacan no que ele chamou de ³real sem lei´, ou
seja, um real separado do simbólico e que o supera. Segundo Miller, o espaço de um
lapso refere-se a uma disjunção entre o inconsciente e a interpretação, afirmando que
··

há uma exclusão entre estas duas funções no que se refere ao inconsciente. Há uma
desconexão entre o significante do lapso e o significante da interpretação.
A intervenção psicanalítica é evidente no estabelecimento da transferência
como Så-S2, sendo Så o significante da transferência na sua ligação com S2, um
significante qualquer. Desta ligação, surge o sujeito suposto de saber, como
significado de determinado significante.
Quando Lacan coloca a questão do espaço de um lapso, o esquema Så-S2
muda de configuração, perdendo-se a ligação nele existente. O autor insiste que só se
tem certeza de que há inconsciente quando não surge essa referida ligação,
transferencial e isso muda tudo porque nega o inconsciente sob transferência.
A intervenção analítica, nes ta perspectiva, será realizada através da apreensão
dessa atenção no espaço de um lapso. E essa atenção, segundo Miller, condiciona a
associação. A associação livre, regra principal da psicanálise, apenas acontece se
houver um analista. O interveniente habilitado para fazer essa atenção funcionar é o
sujeito suposto saber, ou seja, a associação livre apenas acontece a partir da atenção
do analista, como se ele a ajudasse a emergir. Se assim acontecer, a associação livre
não é tão livre assim, ela liber ta uma verdade falhada, ou uma falsa verdade. Segundo
Lacan, não há verdade que , ao ser filtrada pela atenção, não minta. Neste sentido, o
protagonista não é mais o analista, mas sim o UM-sozinho.
Lacan, em å9, numa palestra nos Estados Unidos, afirmou que não estava
absolutamente comprovado que as palavras fossem o único material do inconsciente,
salientando que nunca teria dito que o mesmo fosse um conjunto de palavras. O que
ele quis dizer, nesse seu último ensinamento , era que existia alguma coisa q ue não
era um significante, mas que mesmo a ssim pertencia ao inconsciente, ou seja, aquilo
que ele acabou por denominar de objecto, objecto causa de desejo.
Esta nova forma de leitura do inconsciente, aparte do significante, muda a
definição de estrutura que, se antes era vista como somente organizada pelo
Simbólico, no último ensinamento de Lacan ela é entendida como um Simbólico
organizado por um Real.
Desta forma, a prática clínica desloca -se para a intervenção do analista com
base no intervalo da cadeia, ou seja, o que acontece entre Så e S2, o que acontece no
espaço de um lapso. A prática da psicanálise lacaniana , no seu primeiro tempo , tinha
como referência o retorno da articulação de Så e S2 , provocando um efeito de
verdade. O  de um  , do qual fala Lacan no livro | |  ? , retira
desse esquema o valor de Så sozinho, sem efeito de verdade; é o que acontece
quando não se atinge o sentido nem a interpretação, o Så fica desarticulado. Para
Lacan, a verdade depende da crença numa articulação. No seminário | ! 
(200), o psicanalista tenta afastar a psicanálise da crença na verdade, retirá-la dessa
posição.
Segundo Miller, a crença no verdadeiro é o que há de comum entre psicanálise
e religião, mas a verdade da psicanálise só tem uma palavra, o real. No 0   ,
Lacan defende que o verdadeiro está à deriva quando se trata do real.
Seguindo este raciocínio, podemos considerar que a estrutura do inconsciente,
no último Lacan, estaria no intervalo entre Så e S2? A prática analítica , neste sentido,
torna-se numa prática de atenção para uma leitura e não uma interpretação; trata -se
de um exercício de se ler o que está nesse intervalo. O inconsciente estaria
estruturado numa escrita existente nesse espaço de um laps o? Afinal, o que o
intervalo da cadeia impõe é da ordem do sem -sentido.
Assim, o desafio seria apreender esse sem -sentido e procurar fazer uma leitura
a partir daí, isto é, captar o real dessa língua, ou seja, captar a alíngua.
Na civilização actual, podemos constatar, retomando o pensamento de Miller
no seu texto      (200), referido anteriormente , quando o mesmo destacou a
existência de duas metáforas, a da agricultura pela indústria e a da natureza pelo real,
que poderia existir uma terceira metáfora, a da passagem da estrutura de linguagem
do inconsciente como simbólica, para uma outra estrutura com estatuto de real,
·A

revelada pelos novos sintomas. Esta terceira metáfora seria obviamente um


desdobramento da segunda e não uma exclusão da mesma.
Nos últimos anos do seu ensinamento , Lacan realizou algumas alterações
importantes, todas elas referentes à relação do Real com o Simbóli co. Ainda no já
referido seminário | !   (200), Lacan afirma que inventou o que se escreve
como real, referindo inclusive que muitas pessoas o escreveram antes dele; porém, a
sua escrita sobre o real tem a forma do nó borromeano, uma cadeia de três elos
formada por um só fio, elos esses denominados de Simbólico, Imaginário e Real.
Este nó é a forma como se unem os elos e ocupa um lugar particular na teoria
lacaniana. Essa cadeia borromeana ³é uma cadeia tal que, se cortarmos qualquer um
dos seus anéis, todos se desligam´. (Lafont , å990).
A partir desta leitura, Lacan adopta um aparelho que não é da psicanálise
freudiana, mas sim da matemática e da lógica, o qual se mostra adequado para
trabalhar as noções freudianas. O psicanalista francês referiu que esse esquema do
nó se traduziu numa grande ajuda para o seu trabalho e para os seus ensinamentos .
Todo o seu esforço no final do seu ensinamento ³é no sentido de referir, nomear,
escrever, formular, criar as palavras que convêm para falar das relações que o
Simbólico, o Real e o Imag inário mantêm entre si´. (Lafont, å990 ).
Segundo a mesma autora, ³trata-se de depreender as relações que mantêm
entre si o Real, o Simbólico e o Imaginário, e elas definem -se, respectivamente, pela
existência, pelo furo e pela consistência´. (Lafont, å990 ).
Segundo Lacan, os três elos só se compreendem nas suas relações, na sua
ligação. Esta escrita é utilizada por ele para demonstrar que está relacionada com a
criação do sentido e das suas relações com o inconsciente e com o sintoma, o que é
particularmente interessante, ou seja, quando colocamos a questão do inconsciente
real como sendo da ordem da letra, que difere do significante, ela é, segundo Milner,
manipulável e transponível para a letra, acrescentando este linguista: ³Transmite
aquilo do que ela é, no meio de um discurso, o suporte; um significante não se
transmite e nada trans mite: ele representa, no ponto das cadeias onde se encontra, o
sujeito para um outro significante. O significante não pode ser instituído; seja ele
arbitrário (Saussure) ou contingente (Lacan). ´ (Milner, å99).
Assim, refere Milner, o significante deriva d o registo do Simbólico, enquanto a
letra, que deriva da instância do real , vincula os três anéis, que são heterogéneos .
Ao reler literalmente o trabalho de Freud, Lacan conseguiu observar que o pai
da psicanálise distinguiu um outro movimento do inconscien te diferente do
recalcamento, ao usar a palavra  2   que mais tarde o discurso analítico
traduziu como sendo forclusão. Este termo, segundo Miller, serve para falar sobre uma
abolição simbólica, bem como sobre uma falta no significante. Portanto, Freud já se
apercebia de um elemento inexistente, ³dado que, para ele, tal como o traduz Lacan, o
simbólico é uma condição de existência na realidade´. (Miller, 200). Ist o quer dizer,
segundo este psicanalista, que o que não está escrito no simbólico, in-existe. No
seminário |!   Lacan afirma que a simbolização é a condição para que haja
existência, para que algo venha a ser para o sujeito.
Ao consideramos que os novos sintomas nos revelam uma for clusão do
simbólico, indicando-nos que não existe um retorno do recalcado, como fica , então, o
estatuto do sujeito nesses fenómenos? Miller ajuda -nos a encontrar a resposta a esta
questão quando diz que mesmo assim algo advém do que está forcluído para o sujeito
e que para Lacan esse algo que emerge sem a forma de retorno do recalcado, sem
retorno daquilo que faz parte da história do sujeito é o real e não a história,
estabelecendo, dessa forma, uma diferença entre história e real, distinção fundamental
presente no pequeno texto onde se refere ao 0 0  + Lacan faz esta distinção
quando começa pensar a psicanálise a partir do real e , a história, nessa perspectiva, é
um fenómeno de interpretação.
Pensar a partir da história permite a articulação entre Så e S2 e uma relação
com o Outro, o que não parec e ser o caso dos sintomas actuais. Miller refere, no seu
·X

curso |   #  , que o retorno do recalcado se pode considerar como um


retorno legal e o que surge no fenómeno onde o simbólico está for cluído é algo de
uma outra dimensão, emerge no real, isto é, de forma ilegal, erraticamente , como diz
Lacan. É algo que acontece sob a forma de resistência sem transferência , algo que
não é para o Outro, mas sim para o sujeito sozinho, só ele que sabe, consigo, tal como
enfatiza Lacan no
     do seminário XI.
Ao desenvolver essa pesquisa teórica para compreender o movimento dos
novos sintomas, encontramos em Lacan, na última fase do seu ensinamento, uma
teoria do inconsciente elaborada , não a partir da histeria e da história , como aconteceu
com Freud, mas sim a partir de uma teoria a partir da psicose, ocorrendo assim, como
diz Jacques Alain Miller, uma reviravolta no seu ensinamento. Esse indício já existia
mesmo antes desse escrito, |  0    quando Lacan, ainda jovem, evoca a
personagem Aimée na sua tese de psiquiatria, entrando assim na obra de Freud pela
via da psicose. No começo da psicanálise , com a histeria e com a história, existe uma
suposta simbolização, enquanto que, na psicose, a operação de for clusão do
simbólico origina o real. Nest a perspectiva, percebemos que os novos sintomas
colocam frente a frente histeria e psicose, tornando a prática psicanalítica um desafio,
uma prática que põe em jogo o real, isto é, u m real separado da fala, um real que nada
espera da fala, diz Lacan em |!  , um real que fala sozinho. Miller acrescenta
que não é um significante que falta, pelo contrário, é uma significação tão estranha
que o sujeito não consegue comunicá -la ao Outro.
Desta forma, o inconsciente, para Lacan, é o testemunho de um saber que
muitas vezes escapa ao ser falante e este dá-nos a oportunidade de observar os
efeitos da alíngua. O ser falante apresenta sempre afectos cheios de enigmas e e stes
afectos enigmáticos são apresentados pela alíngua, que articula coi sas que vão muito
para além daquilo que o falante suporta saber acerca do que diz. O inconsciente
representa um saber lidar com isso, um saber trabalhar com a alíngua, trabalho esse
que implica muito mais coisas do que a linguagem nos permite conhecer .
·Î

 c 6@)c c

As considerações finais aqui apresentadas, como o próprio nome indica, não


se tratam de conclusões , pois não é possível concluir, nem fechar, apresentar certezas
ou negações em relação ao tema em análise, pelo contrário, tratam-se apenas das
últimas considerações acerca das hipóteses levantadas neste trabalho.
As questões aqui trabalhadas centraram-se na relação entre psicanálise e
linguagem, o que não se traduziu numa tarefa fácil, pois abordaram-se conceitos
linguísticos e psicanalíticos deveras complexos e delicados, os quais, por si só,
implicariam uma investigação e análise inesgotáveis.
Importa referir que o tema em questão é actual e recente , cujas discussões
teóricas ainda estão em construção, o que nos faz deparar com algumas limitações
que, se por um lado geram alguma frustração, por outro é interessante perceber que
as questões ficarão em aberto, aguardando por outros tempos e novas e mais
respostas. De qualquer forma, considera -se que as questões aqui apresentadas foram
devidamente trabalhadas, tendo em conta o contexto onde se inserem.
Os novos sintomas e a relação do inconsciente com a linguagem, tema
escolhido para o presente trabalho , foi resultado de uma inquietação surgida da prática
clínica, que tem como instrumento principal a fala e a linguagem. Para além disso, a
referida inquietação emerge ainda das rápidas mudanças aos níveis do pensar, do
sentir, do ser e do ter que têm ocorrido na sociedade e cultura actuais.
O primeiro capítulo desta dissertação teve como objectivo apresentar uma
constatação do inconsciente como uma linguagem , antes mesmo de Freud falar sobre
esta instância através de seus estudos com as afasias. Foram destacados textos
clássicos freudianos que comprovam essa realidade. Cada artigo escrito pelo mestre
austríaco comprovava o seu afastamento da medicina e sua entrada no campo da
linguagem, culminando na publicação de um artigo sobre a grande descoberta do
inconsciente. A partir desse movimento, surgiram várias questões sobre as estruturas
de linguagem que compõem as diversas formações do inconsciente e as suas
aproximações com alguns conceitos linguísticos como signo, significante , entre outros.
As questões e dúvidas mantêm-se no segundo capítulo , em relação ao si ntoma
segundo Freud e Lacan, o qual, como qualquer formação do inconsciente tem uma
linguagem e sentido , fazendo-nos recorrer aos mecanismos linguísticos da metáfora e
metonímia, retomados por Lacan na leitura que este fez de Jakobson.
No último capítulo, as questões assumem contornos mais insistentes e mais
complexos, ao abordar-se a questão central dest e trabalho, ou seja, os novos
sintomas, o que implicou avanços e retrocessos na análise do ensinamento de Lacan,
suscitando dúvidas constantes no que diz respeito à relação do inconsciente com a
linguagem e com a linguística. Na tentativa de encontrar respostas, foram trazidas
questões relacionadas com a alíngua e com o inconsciente real. Nesta construção, o
inconsciente, nos novos sintomas, mantém uma estrutura de linguagem, mas que vai
para além dela, possuindo estatuto de alíngua, para além do simbólico, adoptando
uma forma real.
Embora as questões não tenham sido respondidas com certezas, nem tenha
sido resolvido o problema central, a presente investigaçã o não foi certamente
infrutífera, tentando -se transpor, com cautela, a barreira existente entre a linguística e
a psicanálise.






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