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MONOGRAFIA PSICANÁLISE

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  • 1. O inconsciente de Freud
  • 1.1. Inconsciente e linguagem freudianos
  • 1.1.1. A interpretação freudiana das afasias
  • 1.1.2. Das Ding: a coisa, segundo Freud
  • 1.2. A linguística de Freud
  • do inconsciente
  • 1.2.2. A psicopatologia da vida quotidiana: investigação no âmbito
  • 1.2.3. Os chistes: formações mentais sociais
  • 1.3. Inconsciente e linguagem segundo Lacan
  • .3.1. O retorno da psicanálise à sua origem: pelo caminho da linguagem
  • 1.3.2. A linguística em Lacan
  • 1.3.3. Significante: constitutivo do inconsciente e linguagem
  • 1.4. Língua, fala e linguagem
  • 1.5. O inconsciente e os seus mecanismos psicanalíticos e
  • 2.1. A dimensão simbólica do sintoma
  • 2.1.1 O sintoma e a figura paterna
  • 2.1.2. Metáfora paterna
  • 2.1.3. Declínio do pai: do moderno ao contemporâneo
  • 2.2. A dimensão real do sintoma
  • 2.2.1. A passagem do nome-do-pai aos nomes-do-pai
  • 3.1. Os sintomas actuais
  • 3.1.1. Os sintomas actuais como ³sintomas-gozo´
  • 3.1.2. A linguagem e os novos sintomas
  • 3.1.3. O último ensinamento de Lacan e os novos sintomas
  • 3.1.5. O inconsciente real e os novos sintomas

INSTITUTO DE ALTOS ESTUDIOS UNIVERSITÁRIOS

MÁSTER EN CLINICA DE SALUD MENTAL

CÁTIA SUSANA DIAS FERNANDES GARCIA

A Linguagem e o Sintoma na Prática Psicanalítica Actual

BARCELONA 2009

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RESUMO
O presente trabalho tem como objectivo procurar compreender a estrutura de linguagem do inconsciente , desde Freud até Lacan, no momento em que este, no seu encontro com a linguística, nomeadamente com Ferdinand de Saussure, defende que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, pretendendo aprofundar esta forma de linguagem e a sua relação com as formações sintomáticas actuais. Os novos sintomas, tais como, toxicodependências , insucesso escolar, depressão, anorexia, bulimia, síndrome de pânico, violência sem precedentes, entre outros, são sintomas que não cumprem os requisitos lógicos das leis do inconsciente de Freud, leis estas onde prevalece a dimensão simbóli ca do sintoma. Verifica-se, nestas novas manifestações sintomáticas, uma prevalência da dimensão real de gozo do sintoma e, consequentemente, uma primazia da via metonímica em detrimento da metafórica, resultantes do declínio da função paterna. Posto isto, o sujeito necessita de algo que ocupe esse lugar que não pode ficar vazio, precisa de encontrar uma resposta para a sua angústia. Os novos sintomas surgem como resposta a essa angústia que o ser humano quer colmatar. Desta forma, apresentamos como hipótese principal de ste trabalho a existência de uma nova leitura do inconsciente , segundo os últimos ensinamentos de Lacan, que vão para além do inconsciente estruturado como uma linguagem, pensado como simbólico e orientado para a instância do real. Palavras-chave: inconsciente, linguage m, novos sintomas, psicanálise, linguística.

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ÍNDICE
Introdução........................................... ..................... ................................... .................. .4 Capítulo I Inconsciente e Linguagem em Freud e Lacan........................ .................... ................7 1. O inconsciente de Freud......................................... ..................... ...............................8 1.1. Inconsciente e linguagem em freudianos ................................................................. 9 1.1.1. A interpretação freudiana das afasias................................................................... 9 1.1.2. Das Ding: a coisa, segundo Freud ................................... .................... ...............11 1.2. A linguística de Freud...................................... .......................................................11 1.2.1. Os sonhos e a sua interpretação: a formação mais autêntica do inconsciente...................................................................................................................11 1.2.2. A psicopatologia da vida quotidiana: investigação no âmbito linguística............12 1.2.3. Os chistes: formações mentais sociais...................................... .........................13 1.3. Inconsciente e linguagem segundo Lacan........................ .....................................14 1.3.1. O retorno da psicanálise à sua origem: pelo caminho da linguagem.................14 1.3.2. A linguística em Lacan....................................................... .................................15 1.3.3. Significante: constitut ivo do inconsciente e linguagem materializada ................16 1.4. Língua, fala e linguagem .................................... ....................................................1 7 1.5. O inconsciente e os seus mecanismos psicanalíticos e linguísticos.....................18 Capítulo II Sintoma e Linguagem em Freud e Lacan.......... .......................... ..............................20 2.1. A dimensão simbólica do sintoma...................... ........................................ ............22 2.1.1. O sintoma e a figura paterna ............................................. ................................. .24 2.1.2. Metáfora paterna................................ ................................................................ .25 2.1.3. Declínio do pai: do moderno ao contemporâneo............................. ...................27 2.2. A dimensão real do sintoma........................................... ........................................29 2.2.1. A passagem d o nome-do-pai aos nomes-do-pai........................... .....................32 Capítulo III Os Sintomas Actuais: Linguagem ou Alíngua, Simbólico ou Real........................33 3.1. Os sintomas actuais.............................................. ........................................... ......34 3.1.1. Os sintomas actuais como ³sintomas-gozo´....................... ................................36 3.1.2. A linguagem e os novos sintomas............................... ...................................... ..38 3.1.3. O último ensinamento de Lacan e o s novos sintomas............... ...................... ...39 3.1.4. Os sintomas actuais: entre a linguagem e a alíngua, entre o simbólico e o real............................................................................................................................ .....42 3.1.5. O inconsciente real e os novos sintomas........... .................................................43 Considerações Finais................. ............................................................................ ....47 Referências Bibliográficas.............................................. ...........................................48

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INTRODUÇÃO
As relações entre psicanálise e linguística e, mais precisamente, entre linguagem e inconsciente, são complexas, revelando-se surpreendente o estabelecimento de uma ligação entre esses dois campos. Uma das primeiras surpresas nessa relação é o facto de a psicanálise estar muito mais próxima da linguística do que da psicologia. Daí o maior interesse do presente trabalho, o qual constitui um enorme desafio. O linguista francês Michel Arrivè (1999) - na sua obra Psicanálise e Linguística, inconsciente e linguagem ± afirma que é tanto é possível constatar as relações mais estreitas entre as duas disciplinas, como também os desconhecimentos recíproco s de cada uma das áreas. Assim, cada capítulo da dissertação deverá implicar uma discussão de diversos conceitos, tanto da linguística, como da psicanálise. Para abordar as questões relacionadas com est a interessante, embora complexa e pretensiosa relação, investigaremos a estrutura de linguagem do inconsciente segundo Freud e Lacan, mais precisamente quando este último, no seu encontro com a Linguística e com Ferdinand de Saussure, defende que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, dando especial atenção a esta forma de linguagem e à sua relação com as formações sintomáticas actuais. Esta questão surge uma inquietação clínica, na medida em que, actualmente, o diagnóstico, ao invés de orientar na direcção da cura, é cada vez mais difícil de classificar, constituindo-se um desafio conduzir um qualquer tratamento clínico que não responde às metamorfoses típicas da noção de sintoma, extrapolando os limites da escuta clínica das estruturas, levando-nos a equacionar sobre uma nova forma de praticar a clínica. Os novos sintomas, por assim dizer, não têm a mesma configuração dos de algumas décadas atrás, quando o paciente se queixava exaustivamente do seu sofrimento ao analista, o qual supunha possuir todo o saber sobre o seu sintoma. Os novos sintomas são ora muito silenciosos, ora muito falantes, mas nada demandam, nada querem saber, eles simplesmente se apresentam, recusam o inconsciente, como nos diz Lacan no seminário da Angústia ± livro 10 (2005). As palavras do analista dirigidas a estes sujeitos não têm ecos, não provocam associações, desvalorizando as formações do inconsciente como os lapsos, os actos falhos, os relatos de sonhos , etc. É como se o rasto que nos conduz à construção do inconsciente do sujeito contemporâneo se estivessse a desvanecer. Há uma ³forclusão tecnocientífica da subjectividade´, como chamou Ana Maria Figueiró (2003 ). A sessão de análise, transforma-se, então, numa ³batalha´ exaustiva. E daí surgem as questões: como trabalhar com um inconsciente que não se manifesta? Como não deixar desvanecer o rasto que nos conduziria a ele? Se o inconsciente é estruturado como uma linguagem, segundo Lacan, que linguagem é essa que se apresenta nos novos sintomas? Esta é a questão que se pretende investigar. Facilmente observamos, não só na clínica, como também no nosso dia-a-dia e na sociedade, que este é o mal -estar da nossa cultura. Observamos que se tratam de sintomas que resistem a manifestar-se no discurso analítico, no discurso em geral, comprometendo inclusive os laços sociais. Possuirão os sintomas uma linguagem sem discurso que conduz, consequentemente, os sujeitos a procurarem respostas para os seus sofrimentos quotidianos, tais como a obesidade, as compras compulsivas, a depressão, o insucesso escolar, a violência, a fobia social, as drogas, os relacionamentos monogâmicos, respostas essas encaradas como soluções actuais para a angústia? Para Lacan, a angústia é o único afecto do qual o sujeito não pode fugir, pois ela surge para sinalizar que vai sempre haver a verdade da falta. E para colmatar de imediato esse afecto, o sujeito , actualmente, procura soluções assintomáticas,

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soluções que recorrem aos conceitos, aos rótulos, às definiçõe s, às promessas, às medicações, ou seja, a respostas imediatas, por serem aparentemente mais eficazes , soluções que minimizam a via simbólica, valorizando saídas da ordem do real, o que, segundo Lacan a partir de Freud, implica um afastamento da fenomenologia, saindo, portanto, do campo das significações, da compreensão. Os sujeitos que manifestam esses novos sintomas parecem perdidos ao tentarem situar-se no mundo. Nessa multiplicidade de soluções, eles tornam-se ³peças avulsas´, as quais se podem encaixar de múltiplas formas . ³Peças Avulsas´ foi o título do curso de 2004 de Jacques Alain Miller para falar do real em Lacan. Para tratar o tema proposto neste trabalho, é fundamental iniciar o primeiro capítulo com um retorno ao conceito freudiano do inconsciente, abordando os seus textos iniciais, como forma de demonstrar a estreita relação existente entre inconsciente e linguagem. De seguida, no mesmo capítulo, faremos referência a Jacques Lacan, que, a partir dos ensinamentos de Freud, dialoga com a linguística, enfatizando que a psicanálise freudiana é uma clínica do campo da fala e da linguagem, ou seja, que o inconsciente freudiano é estruturado como uma linguagem. Assim sendo, o conteúdo do primeiro capítulo remete para a relação entre inconsciente e linguagem , segundo Freud e Lacan e, em simultâneo, para a aproximação entre os conceitos da p sicanálise e da linguística, esta última fundamentada principalmente nos conceitos de Ferdinand de Saussure. No segundo capítulo, pretende-se analisar a importância da linguagem na formação dos sintomas, partindo de Freud para chegar a Lacan, de forma a comprovar a existência dos novos sintomas, bem como desenvolver a hipótese colocada nesta dissertação, ou seja, de que os mesmos estão teoricamente mais próximos da chamada segunda clínica de Jacques Lacan, pretendendo comprovar que a teoria de que ³o inconsciente está estruturado como uma linguagem´ já não é suficiente para trabalhar as formações sintomáticas actuais, questões estas a serem aprofundadas nos terceiro e último capítulos. Para tal, revela-se pertinente dissecar os avanços lacanianos e as suas propostas nos últimos anos de vida deste mestre. Partindo da discussão anterior , contextualizaremos a estrutura da linguagem do inconsciente através do s chamados novos sintomas, permitindo-nos pensar numa outra forma de leitura do inconsciente, a qual passaria das leis do simbólico para o campo do real. Assim, o terceiro capítulo reveste-se da máxima importância para a confirmação da hipótese central deste trabalho. O último capítulo será desenvolvido no sentido de discutir as manifestações sintomáticas actuais, partindo da já referida hipótese de que as mesmas não são mais da ordem simbólica, ou seja, estruturadas como uma linguagem. Os novos sintomas parecem prescindir da palavra e desprovidos da capacidade de metaforizar, o que os conduz para um processo de ³dessimbolização´, termo utilizado pelo francês, DanyRobert Dufour no seu livro A arte de reduzir as cabeças e que ³designa uma consequência do pragmatismo, do utilitarismo e do ³realism o´ contemporâneos´. (2005). Segundo este autor: ³O valor simbólico é assim desmantelado, em proveito do simples e neutro valor monetário da mercadoria, de tal forma que nada mais, nenhuma outra consideração (moral, tradicional, tr anscendente, transcendental...) possa entravar a sua livre circulação. Daí resulta uma dessimbolização do mundo. ´ (Dufour, 2005). O autor vai mais longe , referindo que a dessimbolização afecta a língua e as formas de dialogar , acrescentando que, ³com efeit o, é todo o peso do simbólico nas trocas humanas, que fez os tempos da grande A ntropologia do século XX (de Mauss a Lévi-Strauss, chegando a Lacan), que se encontra deste modo questionado´. (2005 ). Do ponto de vista da p sicanálise, podemos dizer que a dessimbolização é um fenómeno onde o discurso do inconsciente não se forma, o que nos leva a equacionar a prática clínica e a direcção do tratamento. Nesta perspectiva, será abordada uma nova leitura, levantando questões que dizem respeito à prática psican alítica de orientação lacaniana, teoricamente fundamentada na obra de Jacques Lacan e seus

aproxima-se mais de uma visão de um inconsciente da ordem do real. dessa forma. E aprofundando a questão : de que forma se pode definir actualmente a relação entre inconsciente e linguagem? . ou seja. já não estruturado como uma linguagem. como Michel Arrivè e Jean Claude Milner . O sinthoma. seguindo. que se manifesta pelo significante e que posteriormente se vai chamar de ³alíngua´. levando-nos a questionar as estruturas clínicas tais como a neurose. na medida em que este. podemos dizer que ³os novos sintomas´ nos impelem a pensar numa outra abordagem do inconsciente. ou seja. é imprescindível debruçarmo-nos sobre o que Lacan diz no seminário 23. poderíamos afirmar que há uma prevalência da dimensão real do sintoma. o que nos permitirá perceber e tentar pensar a questão dos novos sintomas como parte de uma estrutura de linguagem simbolicamente comprometida. uma lógica diferenciada das leis do inconsciente fre udiano. num inconsciente estruturado como ³alíngua´ . a língua singular de cada sujeito. como Jacques Alain Miller. como se estas já não nos facultassem uma orientação na compreensão do problema e na direcção do tratamento do sujeito contemporâneo. como ser único.6 seguidores. A partir dos últimos ensinamentos de Lacan. Erich Laurent e diversos autores da Associação Mundial de Psicanálise. de um inconsciente puramente lacaniano. isto é. a psicose e a perversão. e linguistas que dialogam com a psicanálise. mas sim como uma língua. sobre O inconsciente real . Com base nesta hipótese. E a questão que se coloca é a seguinte: o inconsciente é linguagem ou língua? Ou ambas as coisas? Ou nenhuma delas? Para tentar responder a essa pergunta.

7 CAPÍTULO I Inconsciente e Linguagem segundo Freud e Lacan .

etc. deste modo. nesta altura ainda não era utilizado o termo inconsciente e Freud referia-se a ele como um segundo estado da consciência. Freud desde sempre quis provar a existência de processos psíquicos inconscientes. na época de Breuer.´ A presença dessa dissociação. quando se questionou: ³o que decide se uma experiência (uma ideia. É a partir daqui que se começa a elaborar a hipótese da existência do inconsciente. pela psicanálise. 1974). Freud defenderá que não pode ser estabelecida qua lquer relação ou comparação entre regiões psíquicas e localizações anatómicas.uma divisão no conteúdo da consciência. é indispensável supor a presença de uma dissociação . Desta forma. no seu artigo ³O Inconsciente´. não foi o primeiro pensador ou inventor do conceito. à qual o consciente não tem acesso. O inconsciente de Freud A sobrevivência de um conceito está directamente relacionada com a sobrevivência da teoria à qual pertence. e devemos preliminarmente assinalar que. É notória. O conceito psicanalítico de inconsciente tem mais de um século de existência e. 1990 ). não possuindo estas últimas qualquer importância no estudo das primeiras. torna ndo-o num dos conceitos mais importantes da sua doutrina. investigamos os seus processos psíquicos a respeito do ataque histérico. Na sequência de um interesse de carácter prático. desde cedo. entre outros. a preocupação d e Freud em fazer a distinção entre consciente e inconsciente como dois processos psíquicos distintos. como uma instância bem mais profunda. pois de outra forma seria impossível descrever ou explicar os diversos fenómenos com que se confrontava. assumindo este projecto já . Embora seja interno ao sujeito e à sua consciência. intenção. segundo Freud. o inconsciente deixou de ser uma instância para além do consciente ou um ³subconsciente´. pois de forma consciente nunca originaria quaisquer sintomas histéricos. começou a descrever os fenómenos psicopatológicos através do método neurológico. Essa lembrança que se manifesta através de um ataque histérico possui um carácter inconsciente. independentemente da sua localização anatómica. embora Freud seja considerado o pai da Psicanálise. foi o grande responsável pelo desenvolvimento do mesmo. No entanto. escreveu a Fliess: ³Estou tão profundamente mergulhado na ³Psicologia para Neurologistas´. para ser encarado.8 1. aquando da elaboração do seu artigo sobre o inconsciente. ou Projecto para uma psicologia científica (1895). No entanto. normal e patológico. tal não significa que este seja imutável. traduz -se no retorno de uma lembrança de conteúdo psiquicamente tra umático. poderá. que ela consome -me inteiramente. Com Freud. próprias da construção do Saber. Jamais estive tão intensamente preocupado com alguma coisa. Este trabalho de Freud acabou por resultar na sua conhecida obra incompleta. tal como outros conceitos. sofrer alterações e renovações. dos lapsos de linguagem. em 1915. dos actos falhados. Não obstante a enorme importância do conceito freudiano de Inconsciente. E será que isto redundará em alguma coisa?´ (Freud. para a explicação dos fenómenos histéricos. pois com o passar do tempo. podemos encontrar o seguinte trecho de uma c arta de Freud dirigida a Breuer : ³Formamos a nossa opinião sobre os ataques histéricos tratando pacientes por meio da sugestão hipnótica e. Em 1915. com o objectivo de explicar toda a variedade do comportamento humano. a ponto de me ver obrigado a interromper as minhas actividades por excesso de trabalho. e não na consciência normal?´ (Freud. Na obra Esboços para a comunicação preliminar (1990). mas que se manifesta através dos sonhos. Posteriormente.) se deve localizar na segunda consciência. é externo a qualquer forma de domínio do pensamento consciente.

´ (Freud por Verdiglione. e enquanto o meu falar interior se processa habitualmente por imagens acústicas indistintas e com uma sensibilidade pouco intensa. O facto de que o significante seja qualificado aqui. (Freud. afirmando: ³A actividade associativa do elemento acústico é o ponto central de toda a função da lingu agem. como imagem acústica. Para o autor. Assim. Em ambos os casos pensei: ³Estás tramado!´. visuais. embora os seus conhecimentos se tenham cruzado. quando veiculada pela fala ou pela escrita assume um carácter bastante complexo. faltasse algum desses elementos. No último artigo sobre o inconsciente (1915). mesmo sem intenção. encontrando nos seus estudos sobre a afasia uma ideia de signo semelhante à de Saussure. após a confirmação clínica da existência daquela instância. no campo da Linguística. podemos constar que Freud. a palavra. como que impressas num a folha ondulante no ar. torna -se mais complicada quando se entra no processo provável da associação que se verifica em cada uma das várias actividades da fala´. Importa referir aqui algumas palavras de Freud a respeito: ³Recordo ter-me julgado em perigo de vida por duas vezes e em ambas as vezes essa percepção sobreveio de modo inesperado. Freud inseria -se já. fa cultam imagens às palavras. aponta a sua incidência por u ma atenção flutuante em torno de um . tendo sentido que apenas a linguagem dos processos mentais poderia explicar os respectivos fenómen os. ao mesmo tempo. ³Essa combinação. por ocasião do perigo ouvi essas palavras como se me fossem gritadas ao ouvido e vi-as. 1977 ). muito embora nunca se tenha encontrado com o mestre da Linguística. assumindo um papel de suporte perante as mesmas. através das suas manifestações simbólicas na fala e na escrita. Inconsciente e linguagem freudianos 1. ainda antes de Saussure. de seu nome Palavras e coisas. contudo. As componentes visuais da apresentação. que defende que a palavra é o resto da memória da palavra ouvida. Desta forma e seguindo Freud. inadvertidamente. direccionava a sua investigação para o campo da linguagem. na m anifestação da palavra. Freud apresenta quatro componentes da apresentação da palavra: a ³imagem sonora´ da palavra. No decorrer da sua in vestigação sobre a Linguagem.9 um carácter psicanalista e não tanto neurológico. Segundo Freud. Na abordagem que Verdiglione faz ao trabalho de Freud A interpretação das afasias. a ³imagem motora da fala´ e a ³imagem motora da escrita´. o autor refere que o pai da Psicanálise parece qualificar o significante como imagem acústica antes do mestre da Lin guística. 1974 ). Ferdinand de Saussure. corporais. as quais se associam. 1.1. A interpretação freudiana das afasias Freud foi o primeiro a estabelecer uma relação entre inconsciente e linguagem. era possível localizar uma doença orgânica quando. por sua vez. 1974 ).1. porém. Podemos dizer que a fala e a escrita se apresentam através de restos mnémicos de palavras oriundas de percepções acústicas. combinando diferentes elementos e sensações. a palavra traduz -se na combinação dos restos das percepções acústicas e visuais. acrescentando: ³Uma palavra. tais como auditivos.1. originando uma interpretação ao nível do inconsciente. Freud acabou por conclu ir que a palavra representa um complicado processo associativo dos quatro componentes já referidos. passando o inconsciente a manifestar-se ao nível linguís tico e não tanto neurológico. adquire seu significado ligando-se a uma µapresentação do objecto¶´. (Freud. a ³imagem visual da letra´. Saussure.

ou para uma economia impossível. Freud denominou ainda de ³associações de objecto´. dois tipos de perturbações da fala: na primeira.´ (1974 ). O autor defendeu ainda a existência de uma terceira perturbação. por ela denominada de ³afasia assimbólica´. Com base nesta obra. Daí Freud denominar de assimbólica uma perturbação nessa relação. por fim. Verdiglone (1977 ) refere que o trabalho de Freud com pacientes afásicos ³leva já ao estudo dos lapsos. Voltando às perturbações da fala. A primeira obra escrita de Freud foi A interpretação das afasias . a uma impressão psíquica do som da palavra. a apresentação-objecto designa o significado. o que nos pode levar a pensar que o seu trabalho seria já uma antecipação ao signo linguístico de Saussure. Mais uma vez comprovamos a aproximação entre Freud e Saussure. através desta relação. através da Linguagem. considerada posteriormente como uma patologia relacionada com a linguagem. encontram se perturbadas as associações entre diferentes elementos na apresentação da palavra. ou seja. o objecto adquire a sua singularidade. Importa referir que Freud deu o nome de Palavras e coisas ao texto onde abordou as relações anteriormente referidas. datada de 1891. o signo linguístico liga um conceito a uma imagem acústica. na medida em que as afasias remetiam para os ³buracos´ da linguagem. Freud dedicou -se bastante à linguística. Nesta obra é ainda notório o afastamento de Freud da Neurologia e o surgimento de um interesse em estudar as regiões psíquicas. a apresentação -palavra a sua significação e. de um semblante. ³afasia agnóstica´. Novamente aqui se observa uma reflexão ao nível da linguagem. este concluiu que a apresentação da palavra se relaciona com a apresentação do objecto. 1977 ). Nesta relação estabelecida por Freud. a qual ele denominou de ³afasia verbal´. Segundo este autor. assumindo o conceito a função de signific ado da imagem acústica como significante. Freud emprega pela primeira vez o termo ³inconsciente´. estudadas por Freud. situação que nos serve como . na sua obra A interpretação dos sonhos (1900). dos actos falhados. vislumbramos algumas semelhanças com a relação estabelecida por Saussure. entre Significante/Significado. consequentemente. O mestre da Psicanálise junta então Inconsciente e Linguagem. Freud dá os pri meiros passos na Psicanálise. É ainda na sua obra sobre as afasias que Freud cria o modelo teórico por ele denominado de ³aparelho da linguagem´.10 objecto móvel. o que nos p ermite começar a pensar na hipótese de o Inconsciente se encontrar estruturado como uma Linguagem. no campo da linguística. Aquando do tratamento de um paciente afásico ± Frau Emmy Von ± mais propriamente da sua anamnese. através de imagens acústicas. defendendo o autor que se trata mais de uma questão estrutural do que neurológica. Inconsciente e Linguagem e Psicanálise e Linguística. assi m. no âmbito de uma perturbação da fala. ou seja. enquanto que o sistema Consciente abrange estas e as apresentações da palavra. Verdiglone afirma: ³Freud faz aqui linguística´. as relações existentes entre a apresentação da palavra e a apresentação do objecto. dos sonhos´. de ordem simbólica. defendendo. ³aparelho de memória´ e. sem dar conta disso. que implicam igualmente um perturbação na fala e que apenas ocorre em situações de lesões corticais bilaterais e extensas. mais tarde considerado como ³aparelho neurónico´. dos chistes. ao nível sensorial.´ (Verdiglione. em que a apresentação-objecto apenas existe em função da ligação que estabelece com a apresentação-palavra. Desta forma. como ³aparelho psíquico´. Outro exemplo é o facto de o autor utilizar o termo ³sistema´ quando defende que o sistema Inconsciente engloba apenas as apresentações do objecto. na segunda. o que parece arrastar precisamente para o lapso. Freud refere : ³parece-me que a relação entre a apresentação da palavra e a apresentação do objecto merece muito mais ser descrita como µsimbólica¶. Desta forma.

Freud inicia outro tipo de investigações. o Inconsciente estruturado como uma Linguagem. (Lacan. 1. desenvolvido por Freud. segundo Freud Para entendermos o termo ³A Coisa´. em função do Princípio do Prazer. Das Ding é a coisa. o objecto perdido que o sujeito luta por reencontrar.2. O objectivo é procurar e esperar o objecto. para al ém dos ³pequenos´ objectos que cada um vai encontrando e substituindo ao longo da sua vida. É neste momento que nasce o Inconsciente freudiano e o objecto de estudo de toda a teoria psicanalítica. o mestre da psicanálise observa que as formações do inconsciente têm igualmente . luta essa na qual se procura a satisfação perdida e não o objecto. 1985). ´ (Freud. e não reencont rá-lo. Nesta perspectiva. Na primeira grande obra da psicanálise.1. A interpretação de sonhos (1900). A linguística de Freud Posteriormente aos seus estudos sobre afasias. Segundo Lacan.2. Das Ding é então o significante pelo qual o sujeito procura ³A Coisa´. 1. todos eles fundamentando a estrutura de linguagem do inconsciente. tirando prazer dessa situação. ³O que há em Das Ding é o verdadeiro segredo´. na medida em que defende que apenas através da linguagem dos sonhos se consegue chegar ao inconsciente. como também grande parte do que Freud escrevera no Projecto em termos de sistema nervoso se tornara agora válido. Os sonhos e a sua interpretação: a formação mais autêntica do inconsciente Como já vimos. na obra A Ética da Psicanálise . passando do campo da neurologia para enveredar pelo caminho do inconsciente e esta mudança é notória quando surge. ao ser traduzido em termos mentais. Voltando a Lacan. como forma de explicar o que falta ou falha no inconsciente. muito embora não sejam termos sinónimos entre si: Das Ding e Die Sache .1. em que se pode constatar que: ³Não só o relato neurológico da psicologia desaparecera completamente. Das Ding pode ser considerado como significante. Freud estabelece em definitivo a relação entre linguagem e inconsciente.11 argumento e apoio no desenvolvimento da questão central deste traba lho. o autor refere. importa referir dois termos alemães cuja tradução pode ser ³A Coisa´. A Sache pode ser considerada a coisa enquanto resultad o da acção humana influenciada pela linguagem. e muito mais inteligível. no Seminário da ética (1985) que Das Ding representa o objecto perdido da espécie humana e não de cada sujeito individualmente. 1974). segundo Lacan. objecto esse que vai sempre acompanhar inevitavelmente todos os seres humanos.2. enquanto que Das Ding nada tem a ver com a relação estabelecida pelo Homem com as suas palavras e as coisas que delas d erivam. Para Freud. Para o Psicanalista. 1. pois todos os caminhos das suas pesquisas entram no campo da linguagem. ou seja. a sua obra A Interpretação de Sonhos . Das Ding: a coisa. E da mesma forma que qualquer linguagem engloba vários dialectos. Freud muda o rumo das suas investigações. em 1900.

Botticelli e Boltraffio . 1. utilizando o termo alemão ³fehlleistung´ ± ³operação falhada´ . estabelece. 1999). relacionado com o nome esquecido. f ilho de Ferdinand de Saussure. na medida em que os referidos mecanismos representam duas versões diferentes de um mesmo sonho. O esquecimento de nomes próprios é o título do primeiro capítulo da obra Psicopatologia da vida quotidiana . Freud levanta a seguinte hipótese: ³é que esse deslocamento não está entregue a uma escolha psíquica arbitrária.12 diversas formas de se manifestar. 1987 ). suspeitando que o nome que emergia à consciência estaria. durante os seus estudos. ainda que a falha seja reconhecida de imediato. em 1989. que ele tenta explicar psicologicamente. aqui. para além da condensação. Partindo daqui. Freud faz a primeira referência a um acto falhado numa carta que escreve a fliess. apresenta alguns casos de lapsos. mas segue vias previsíveis que obedecem a leis. impondo -se de forma pertinente. oito. (Freud. Freud realiza análises psicológicas aos casos frequentes de esquecimento temporário de nomes próprios. ou seja dos pensamentos latentes no conteúdo manifesto onírico. enquanto a sua análise que expõe os pensamentos subjacentes a ele poderá ocupar seis. considerando os sonhos como as formações inconscientes mais genuínas. A psicopatologia da vida quotidiana: investigação no âmbito da linguística Raymond de Saussure. Os mecanismos de condensação e deslocamento são a prova de que o inconsciente se estrutura como uma linguagem. mas apenas lhe vinham à consciência os nomes de outros dois artistas. de alguma forma. 1987). Trata -se de um processo de deslocamento que ocorre quando se tenta recordar o que foi esquecido. Um dos exemplos mais destacados por Freud acabou por da r origem à publicação de um artigo seu. o modo como um nome às vezes nos escapa e em seu lugar nos ocorre um substituto completamente errado´. talvez ocupe meia página. Trata -se de uma situação em que ele se tenta recordar do nome do artista Signorelli .2. comparando ambas as dimensões e concluindo que se observa um grande trabalho de condensação. em 1898. faz a seguinte observação: ³O Sr. a relação entre a linguagem e o inconsciente. difíceis de suportar e manifestados verbalmente. (Raymond De Saussure por Arrivè. conceito este que não existia no campo da Psicologia.´ (Freud. O autor defendia que em consequência da ansiedade de se tentar recuperar um nome esquecido. E acrescenta: ³se um sonho for escrito. Ele vai mais longe. Freud empre ende uma investigação com o objectivo de perceber a associação/ligação existente entre o nome esquecido e os nomes substitutos.2. muitas vezes. de forma contrária ao seu conteúdo original. intervém ainda outro mecanismo: o deslocamento. de forma que sejam aligeirados determinados conteúdos dos sonhos.´ (Freud. baseando-se em exemplos da sua auto-observação. Freud afirma: ³finalmente compreendi uma coisinha de que suspeitava há muito tempo. através da censura. afirmando que os sonhos são demasiado curtos comparativame nte aos pensamentos que deles derivam. difícil de medir. Na sua 94ª carta a Fliess. Freud defende que os conteúdos e os pensamentos dos sonhos podem ser vistos como dois dialectos completamente diferentes de uma mesma linguagem. novamente. ou doze vezes mais espaço. O mestre. Numa revista de neurologia. Parece-me que esse seria um novo campo de investigação para a linguística´. em 1898. outros nomes surgem na consciência. concluindo que o esquecimento do nome se . Freud. 1987 ). em Psicopatologia da vida quotidiana. No processo de transformação de um sonho. Este mecanismo permite que as ideias inconscientes transfiram o seu valor para outras ideia s.

porém perfeitamente compreendida no seu contexto e provida de sentido. entramos no campo da linguística. Essas falhas no funcionamento psíquico embora possam ter o seu sentido e explicação (de origem fonética e/ou psicológica). 1. 1995). dando origem à obra Os chistes e sua relação com o inconsciente . em 1905. 1995 ). Ao contrário do sonho. preso à condição da inteligibilidade. que levam aos mesmos resultados foram por nós reconhecidos como peculiaridades da elaboração onírica. os motivos pelos quais acontecem são desconhecidos pelo consciente. como expresso. de modo a torná-lo um chiste que nos faz rir entusiasticamente?´. mais uma vez. por si só. assumindo um carácter inteligível: ³Está. tal como estabeleceu um relação entre os sonhos e o inconsciente: ³Constatamos que as características e efeito s dos chistes ligam-se a certas formas de expressão ou métodos técnicos. (Freud . portanto. incompreensível. ainda que se manifestem através desta instância. em simultâneo tem um efeito esclarecedor e cómico. Freud começa a trabal har na relação entre o chiste e o inconsciente. essa solução do problema no nada. abordando a forma como o processo decorre. por exemplo. ´ (Freud. através da condensação e deslocamento. . 1995). ³ o primeiro estágio do esclarecimento. levando -o a estabelecer uma relação entre os chistes e o inconsciente. Os chistes: formações mentais sociais Foi por influência de alguns professores seus que Freud se dedicou ao estudo dos chistes. ³familionar´. Aqui. pois. ou seja. o deslocamento e a representação indirecta. que a palavra desconcertante signifique isto ou aquilo é seguido de um segundo estágio. 1995). atenta a todos os aspectos da linguagem´. a princípio. (Freud. A utilização deste termo provoca confusão mas.3. Lipps (1898). a palavra veículo desse chiste parece. incompreensível. é apenas esse segundo esclarecimento que produz o efeito cómico. (FREUD. Processos. nos mostra então o sent ido verdadeiro. constituindo -se no motor do efeito cómico do chiste. no qual percebemos que a palavra sem sentido que nos havia confundido. na nossa versão. Freud refere: ³Aqui. a qual é. o chiste consiste numa função mental social que visa a obtenção de prazer. que se vangloria por ter sido tratado pelo grande barão Rothschild como um Senhor: bastante ³familionariamente´. essa descoberta de que a palavra sem sentido. a técnica desse chiste do µfamilionariamente¶? O que acontece ao pensamento. (Arrivè. estar erradamente construída. Em relação a este termo. entre os quais os mais surpreendentes são a condensação. pode utili zar apenas a possível distorção do inconsciente. (1995). o substituto forma -se através da produção de uma palavra composta. entretanto. No exemplo em questão. Freud conclui que o processo de fo rmação dos chistes manifesta algumas semelhanças com a ³produção onírica´. ser algo ininteligível.2. de origens bastante humildes. Um dos primeiros exemplos que Freud destaca é o de uma personagem do poeta Heinrich Heine. Segundo Arrivè. enigmático´. 1999 ). a obra de Freud sobre os chistes ³é uma verdadeira linguística freudiana.13 deveu a diversas associações estabelecidas com alguns fragmentos de experiências por ele vivenciadas. Segundo um dos professore s de Freud. e referindo que a formação do chiste pode ser descrita como uma condensação e uma consequente formação de um substituto. conforme o uso linguístico normal é a responsável por todo o processo. Freud questiona-se: ³Em que consiste. até ao ponto em que possa ser reconstruído pela compreensão de uma terceira pessoa´.

está sujeito à equivocidade pela qual cada uma delas se distingue. O retorno da psicanálise à sua origem: pelo caminho da linguagem É na década de 50 que se regista o início dos ensinamentos de Jacques Lacan. desde a sua descoberta. Enquanto que a clínica de Freud descobre o inconsciente através do trabalho com pacientes histéricas. o inconsciente estiver estruturado como uma linguagem ´. é notória a mudança da hipótese de Freud. defendendo que o conceito de inconsciente pressupõe a existência de uma força de natureza sexual no sujeito. isto é como a alíngua que ele habita.1. uma análise literal e perfeita da hipótese lacaniana encontra se no seu artigo O Aturdito de 1973: ³O inconsciente. com o objectivo de adaptar e conduzir os sujeitos às boas práticas soci ais. É no campo da psicose e no traba lho analítico efectuado com esta patologia que Lacan vai fundamentar a relação existente entre o inconsciente e a linguagem. ³por ser estruturado como uma linguagem´. muitas vezes. onde ele começa a manifestar o seu desagrado relativamente à forma como estava a ser praticada a psicanálise. focando -se apenas numa perspectiva comportamental. afirmando. retornar a Freud e defender os conceitos psicanalíticos originais do pai da psicanálise. Desta forma. em 1987. Inconsciente e linguagem segundo Lacan Lacan. 1. Foi a partir das leituras que fez sobre o trabalho de Freud que Jacques Lacan construiu a sua teoria.´ (Lacan.3. um seguim ento ou desenvolvimento diferentes do original. A preocupação de Lacan era. mas sim validar a sua existência. No início da década de 70. O autor não pretendeu colocar em causa a psicanálise.3. foi o de manifestar o seu descontentamento em relação à forma incorrecta com o estavam a ser praticadas as psicoterapias de base analítica. . Está afirmação é a questão central dos ensinamentos que nos deixou Lacan. portanto. Importa referir que Lacan não era um opositor de Freud. 2003). Para tal.14 1. O grande objectivo de Lacan. em 1900. sendo a linguagem apenas uma consequência da relação privilegiada entre o cérebro e o inconscien te. Segundo Arrivè. era fiel ao pai da psicanálise e afirmava -se um seu seguidor. 1987). a clínica de Lacan descobre aquela instância através da psicose. Lacan serviu -se da linguística como instrumento. na conhecida segunda clínica lacaniana. ao reler a obra de Freud. na medida em que se estavam a afastar dos pressupostos da psicanálise. pelo contrário. A afirmação de Lacan de que ³o inconsciente é estruturado como uma linguagem´ fundamentou-se também numa diversa experiência clínica. Psiquiatra e Psicanalista francês provocou diversas mudanças na forma como era visto o inconsciente. (Miller. também influenciado pela linguística de Saussure. inevitavelmente. Nessa época. e somente se. através do texto Função e campo da fala e da linguagem . quando Lacan se diz seguidor de Freud. para os psicanalistas. a qual não é compatível com a boa adaptação moral e social nem acessível à consciência dos indivíduos. onde se coloca a questão ³O que o Outro quer de mim?´. que a psicanálise apenas faria sentido ³se. muito embora Lacan não pretendesse que fosse descartada a hipótese do seu mestre ou que fosse abandonado o conceito freudiano em favor de um seu. onde o Outro do inconsciente assume um papel imperativo: ³tu deves´. Pretendia sim defender as teorias freudianas dando -lhes. é no sentido de manter viva a psicanálise freudiana. o inconsciente poderia ser explicado pela neurofisiologia. altura do final dos seus ensinamentos. Uma língua entre outras não é nada além da integral dos equívocos que a sua história deixou persistirem nela.

1. sobre o inconsciente.´ (Lacan por Coutinho. equiparando -os a outros dois de carácter linguístico ± a metáfora e a metonímia: ³São basicamente estes os elementos que Lacan utilizará para fundar.15 Lacan discorda por completo desta ideia e para se contrapor a ela. O inconsciente é um conceito forjado no rastro daquilo que opera para constituir o sujeito. é que a ciência da qual ele depende é certamente a linguística. Digamos que ele é estruturado porque é feito como uma linguagem. 1998). criando. defende que o inconsciente é o discurso do Outro (o Outro do próprio sujei to. a analogia estabelecida entre o funcionamento dos processos inconscientes e o funcionamento de certos aspectos da linguagem´. O inconsciente não é uma espécie que defina na realidade psíquica o círculo daquilo que não tem o atributo ou a virtude da consciência. a única via e o único instrumento. a do inconsciente estruturado como uma linguagem. Muitas vezes o sujeito utiliza a linguagem. e abordando a perspectiva freudiana do sonho. Lacan diz: ³A linguística é o meio pelo qual a psicanálise se poderia prender à ciência´. que ele se desdobra nos efeitos de linguagem. capazes de permitir o acesso ao inconsciente. mesm o as que o cercam ainda´. (Dor. Segundo Nóbrega (2002 ). (Dor. em 1964. que se oferece para nós. foi fundamental e determinante no posicionamento da psicanálise até aos nossos dias e todo o seu trabalho se baseou nos pressupostos analíticos de Freud e nos fundamentos linguísticos de Saussure. nesta altura. Mais tarde. bem como para apoiar. sendo a fala e a palavra. como já vi mos. sem margens para ambiguidades. não há uma relação entre o cérebro e o inconsciente. Na defesa desta sua hipótese. Ao introduzir este termo. Em 1960.´ (Miller. Lacan. A linguística em Lacan No decorrer do seu longo e dedicado trabalho. primeiro facto de estrutura. o qual é tr aduzido pela linguagem enquanto condição do inconsciente. retorna a Freud e aos fundamentos da psicanálise freudiana. entrar no essencial da experiência freudiana. respectivamente. contudo. 1992). os trabalhos que estabelecem uma aproximação entre Saussure e Lacan apontam para as diferenças e semelhanças entre o . Lacan trabalha arduamente no sentido de. 1992 ). 1985). o Outro externo ao sujeito. que lhe escapa à consciência). a qual considera o sujeito como ser falante. assumindo a linguagem um carácter subjectivo: ³Este algo totalmente diferente institui -se fundamentalmente como o inconsciente que escapa ao sujeito falante. mesmo as que o acompanhavam. trazer a psicanálise de volta ao seu campo de actuação original ± o da linguagem ± do qual os analistas pós -freudianos se tinham afastado. Lacan afirma o que viria a ser posteriormente publicado em O Escrito: ³É preciso. 1987 ).´ (Lacan. onde ocorrem dois tipos de mecanismos ± a condensação e o deslocamento ± Lacan retoma estes dois conceitos. Esta postura polémica de Lacan. o autor pretende demonstrar a dimensão simbólica do sujeito. porque dele está c onstitutivamente separado´. falando sem saber o que dizem as suas palavras. através da linguística.3. assim. o Outro da linguagem. uma nova teoria. Esta é a dimensão simbólica do sujeito. no que diz respeito ao inconsciente. mas que é sempre deveras determinante para este e que pré -existe a ele. o mestre francês afirma: ³O inconsciente freudiano nada tem a ver com as formas ditas do inconsciente que o precederam. (Lacan. 2002 ). O autor afirmou ainda: ³Uma oportunidade. pelo fa cto de que dirige demandas ao Outro. no Seminário 11. Estes fundamentos inviabilizam quaisquer pressupostos biológicos e neurológicos. Neste sentido. pois para o psicanalista francês.2. mas sim entre este e a linguagem. ³As necessidades do ser humano são nele completamente transformadas pelo facto de que fala.

se não se fizer. entre o inconsciente como linguagem e a linguagem consciente e. . ao nos interessarmos pela estrutura . sem que o sujeito tenha a menor possibilidade de se aperceber disso . Lacan ficou reconhecido mundialmente no domínio das ciências humanas. A dinâmica da estrutura. quando afirma que ³a articulação significante fornece a verdadeira estrutura do inconsciente. uma divisão do ser humano em três níveis: ³1. No mesmo texto. 3. 1. como elemento constitutivo do inconsciente. Ele repensa e reformula a estrutura do sujeito a partir da ideia fundamental. como se vê também numa análise estrutural. do pa pel do simbolismo sobre o homem e da importância que o simbólico exerce sobre o mesmo. 1988). entre o significante e significado. Entre o aquém do inconsciente. Lemaire ilustra com o exemplo: ³Se ocorrer um acto copulatório na presença de uma criança. ´ (LEMAIRE. O significante tem leis próprias. de uma experiência relatada no discurso. diz o psi canalista francês. mas desprovido de significação. segundo Lamaire (1989). Exterioriza-se na globalidade dos significantes sucessivos e não se situa em parte alguma a não ser no significante da frase. resultando no prolongamento de Freud. sem que esta tenha maturidade bioló gica suficiente para o prover da sua exacta significação. O significado é o sentido. Lacan definiu o significante como o conjunto dos elementos materiais da linguagem.3. conduz-nos à questão do significante a ponto de .´ (Lacan. no início a distinção do significante e significado. Podemos aprofundar esta questão com Lacan no seminário VII. Não é nem o sinal nem o signo da coisa. Ainda sobre o significante. Nesse mesmo artigo. no seu texto Óptica lacaniana da linguística . ´ (Lamaire. a noção de estrutura e de significante surge-nos inseparável. tem os seus efeitos na consciência. 2. não podermos negligenciar o significante. ele vai-se inscrever no inconsciente. estabelece. 1989). Lacan acrescenta: ³A noção de estrutura já é por si própria uma manifestação do significante. Ao nível da própria linguagem consciente. e o próprio inconsciente. (Lacan . independentemente do significado. 1985). Inscrever -se-á em significantes puros. Baseado nos ensinamentos de Saussure. 1989).3. 1985). Ao observar a relação entre significante e significado. impossível de conhecer. ligados por uma estrutura.´ (Lacan. a originalidade de Lacan foi ter defendido que o significante age separadamente da sua significação e à revelia do sujeito. Lacan afirma: ³É impossível estudar o funcionamento desse fenómeno que se chama linguagem. A ética da psicanálise . fortalecido pelo encontro que teve com a linguíst ica e com a antropologia estrutural. ou seja. acrescenta Lacan. O significante é o suporte material do discurso: ³a letra´ ou os ³sons´. percebe -se que há entre eles uma sincronia e diacronia. Significante: constitutivo materializada do inconsciente e linguagem Em 1953.16 significante lacaniano e o significante/signo saussuriano . O carácter literal do significante. comum a todos. menos ainda o significado. Segundo Lemaire (1989). a autora cita Lacan em relação ao fa cto de este afirmar que é toda a estrutura da linguagem o que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente. Ou seja.

4. sejam o físico. ainda sempre foi uma preocupação de Saussure nos anos que ele ministrava os cursos de linguística geral. porque como psicanalista. que a linguagem representa dois factores: a língua e a fala. Arrivè diz: ³Evitando estéreis definições de palavras. A Linguística não é senão uma parte dessa ciência geral. da Psicologia geral. s/d). impondo -se e moldando-o de acordo com as regras sociais. apenas através do retorno à consciência se pode conhecer a linguagem do inconsciente. ao alfabeto dos surdos -mudos. a condição do inconsciente. o significante tem um carácter simbólico e externo ao sujeito. (Arrivè. 1999 ). forma m a linguagem. Língua. (Lacan . as leis que a Semiologia descobrir serão aplicáveis à Linguística. ao contrário de muitos linguistas. Lacan desenvolveu uma teoria acerca da função da fala na análise. A língua como sistema específico de signos é objecto da linguística e está inserida na semiologia como o mais impor tante dos sistemas que fazem parte desta ciência. como já v imos. aos sinais militares etc. Ela é o conjunto dos hábitos linguísticos que permitem a um sujeito compreender e fazer -se compreender. Para Lacan. A língua é uma parte essencial da linguagem. É na distinção entre fala e língua que pode mos observar as diferenças entre o significante lacaniano e o significante saussuriano (signo). ³vizinha da língua saussuriana?´. mas para a leitura que Lacan faz dela. . o fisiológico. Mas para os linguistas. citando Saussure: ³ A língua é um sistema de signos que exprimem ideias e. por conseguinte. principalmente quando este defende a sua tese do ³inconsciente estruturado como uma linguagem´. (Arrivè. (Saussure.´ (Saussure. tese esta que exige saber de que linguagem se trata. Ela é o factor principal desses sistemas. Arrivè coloca a seguinte questão : Não seria essa ³uma linguagem´ da qual fala Lacan. por isso. ou a capacidade de constituir uma língua . distinguimos inicialmente. pois o mesmo insistia na importância de uma ciência geral. não se diz. s/d). A prática da linguagem. A partir daqui. ³Quer se pretenda agente de cura. sendo a linguagem. no seio do fenómeno total . A linguagem. Para o mestre da linguística. a língua faz parte da linguagem e uma e outra não são a mesma coisa. não se deve confundir língua com linguagem. 1998). Est e é um problema fundamental não só para a teoria saussuriana. é de ordem natural. Arrivè acrescenta. de formação ou de sondagem. aos ritos simbólicos. é verdade. Ela ensinar-nos-á em que consistem os signos e que leis os regem. por sua vez. 1999). defendeu existirem duas teses que se revelam inseparáveis: ³a definição da língua como sistema de signos e a instalação da semiologia´.17 1. Lacan reconhece a importância da fala na teoria de Saussure. o exercício da fala é o instrumento fundamental da sua profissão. fala e linguagem Ferdinand de Saussure no seu Curso de linguística geral (CLG). o social e o individual. na realidade. para Saussure. o psíquico. A língua é para nós a linguagem menos a fala. é comparável à escrita. ela faria parte da Psicologia social e. a psicanálise dispõe de apenas um meio: a fala do paciente´. A semiologia. ³signo´). chamá-la-emos de Semiologia (do grego semeion . Tal importância aparece assim no CLG: ³Pode-se conceber uma ciência que estude a vida dos signos no seio da vida social. O que se quer dizer. sendo o significado da fala decidido pelo receptor. abrange diferentes domínios. Ele refere que no trabalho analítico há uma divisão entre o qu e se diz e o que se quer dizer.´ (Arrivè. A respeito disto. ao passo que a língua é adquirida e convencional. 1999 ). e esta ficará vinculada a um domínio bem definido no conjunto dos fa ctos humanos. a língua que faz parte da linguagem e a fala representa o objecto que. Para Saussure. Segundo o psicanalista francês. em conjunto com a língua.

num dos seus artigos dos Escritos . a famosa ³que queres?´. nada é por acaso. como também são considerados por Freud como os traços distintivos de todo o processo primário e. isto é. Essa distinção é postulada no interior do sistema social da língua. um segundo significante. segundo a qual o inconsciente é estruturado como uma linguagem.5. S1. eliminando o carácter social da língua. afastando -se dos pressupostos da linguística estrutural (mas não da linguagem!) 1. o significante não existe fora d a sua associação com o significado. fazem parte da unidade do signo. Mas falamos de uma arbitrariedade relativa. com base na obra de Freud. como se o significante fosse autónomo em relação ao signo. A fala implica uma acção que envolve sempre o Outro. uma pergunta. há o deslocamento de sentido de um significante para outro. ³isso fala´ diz Lacan. estabelecendo. Para Saussure. Neste trab alho. nem que seja uma escolha forçada e aí entra a questão do . Ela é sempre um a cto de pergunta e resposta. Assim. mecanism os fundamentais do inconsciente. A equiparação anteriormente referida fundamenta e reforça a tese de Lacan. tornando se numa linguagem privada. à condensação e ao deslocamen to. Mesmo sendo distintos . a essência da fala traduz-se na vontade de dizer do sujeito. Estes mecanismos são encontrados não só no sonho e no chiste. Na metonímia. como se torna fixo ou como se desloca infinitamente. A relação entre significante e significado é continuamente remodelada por deslizamentos entre os dois.A interpretação dos sonhos (1900). podemos pensar que o signif icante lacaniano se diferencia do significante saussuriano porque quando há uma manifestação d o inconsciente. S1. A operação da metáfora (substituição significante) e a operação da metonímia (combinação significante) produzem efeitos de sentido a partir da operação de retroacção de um segundo significante. ou seja. a relação entre as diversas formaçõe s do inconsciente e a linguagem. Há uma equivalência entre eles como se fossem duas faces de uma folha de papel. A resposta interpretativa do analista é sempre uma pergunta sobre o desejo do analisando . assim como podemos observar uma aproximação da aplicação do princípio da arbitrariedade do signo linguístico saussuriano aos conteúdos do inconsciente. Lacan interessa-se bastante pelos conceitos de le tra e alíngua. a palavra do analisando. A psicopatologia da vida quotidiana (1901 ) e Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905). Lacan baseia-se em três textos freudianos . o inconsciente elimina qualquer equivalência entre significante e significado. existe uma escolha. produzindo um efeito de sentido inerente à cadeia significante. ocupando o seu lugar na cadeia significante que ficou vazio em função do processo criador estabelecido. sobre um significante anterior.Função e Campo da fala e da linguagem em psicanálise´.18 Segundo Miller. A interpretação do analista apresenta -se sempre como uma resposta e essa resposta é . Com a hipótese de que ³o inconsciente é estruturado como uma linguagem´. S2. S2. Lacan equipara a metáfora e a metonímia. pois o inconsciente tem a sua própria lei. substitui um primeiro significante. Desta forma. ao mesmo tempo. descritos pelo linguista Jakobson . portanto. peculiar a cada sujeito. alíngua. Lacan defendeu que a estrutura do inconsciente também segue as dimensões sincrónica e diacrónica do discurso. Na metáfora. O inconsciente e os seus mecanismos psicanalíticos e linguísticos Lacan insiste sempre que a psicanálise opera essencialmente através de um único meio. A partir daqui. independente mente da vontade do sujeito. e observando ser comum a todas elas o facto de se estruturarem como uma linguagem. encarados por Freud como sendo os mecanismos básicos do trabalho do sonho. As leis da metáfora e metonímia indicam tanto o sentido como é produzido. no seu texto O monólogo de Aparrola (1998).

a saber: O valor linguístico. Saussure vai defender que a noção do relativamente motivado implica dois fenómenos: em primeiro lugar. nove. devemos concordar com Lacan quando ele afirma que não pretende elaborar uma teoria do conhecimento. s/d). uma relação associativa. dezoito. Este é o princípio fundamental da linguística saussuriana. os processos simbólicos . ´ (Saussure. porque evoca os termos dos quais se compõe e outros que lhe são associados. No seu Curso de linguística geral. dez e nove estão nas mesmas condições que vinte. ou seja. vinte e nove. O signo linguístico não é constituído pela união de u ma coisa a um nome. Mecanismo da língua. não sendo este mecanismo da ordem do natural. Para concluir este capítulo. A arbitrariedade de que se fala no âmbito do signo linguístico de Saussure refere-se ao laço que une o significante e o significado. E afirma: ³o signo pode s er relativamente motivado. ou seja.´ Neste sentido. como diz Saussure. mas dezanove apresenta um caso de motivação relativa. dez. que não é da ordem da linguística. mas que Saussure em vários momentos do CLG nos permite pensar nessa categoria quando usa o termo espírito em vários capítulos. O facto de o homem estar integrado nos processos simbólicos de uma forma inacessível a qualquer outro animal. mas defende que as coisas do mundo humano são coisas de um mundo estruturado em palavras e que a linguagem. Desta forma. Ele refere que apenas uma parte dos signos é absolutamente arbitrária. entre outros. que reconhece algo no arbitrário sem o suprimir. por exemplo. governam tudo. setenta. Se quiséssemos estabelecer uma relação fixa entre o objecto e o signo. podemos afirmar que na língua só há diferenças. uma relação sintagmática e. Conclui ainda que. conclusão essa que nos permite pensar no movimento do inconsciente como um fenómeno. Relações sintagmáticas e relações associativas. . mas sim pela união de um conceito a uma imagem acústica. a linguagem transformar -se-ia num mero sistema de sinais. a evocação de um ou vários termos.. como acontece no mundo animal. Noutras partes ocorre um fenómeno que permite reconhecer pontos no arbitrário sem o suprimir. não poderia ser resolvido em termos de psicologia. ele dá o seguinte exemplo: ³Assim. mas dezanove não o é no mesmo grau. tomados separadamente. a análise do termo dado. (s/d). a motivação nunca é absoluta. Saussure afirma que a linguagem não é constituída essencialmente por nomes dados às coisas e que também ela não é uma nomenclatura. em segundo. etc. vinte é imotivado.19 sujeito. É no capítulo sobre Mecanismo da língua que Saussure fala do arbitrário absoluto e do arbitrário relativo. pois implica que tenhamos prim eiro um conhecimento completo do que significa a ordem do simbólico. mesmo nos casos mais favoráveis.

20 CAPÍTULO II Sintoma e Linguagem segundo Freud e Lacan .

Assim. por serem incompatíveis com a integridade ou com os padrõe s éticos do eu. pois a psicanálise começou o seu trabalho pelo estudo dos sintomas ditos neuróticos. acrescentando ainda a relação entre sintoma e função paterna. facilmente fracassa e a libido reprimida. bem como são afastadas. através da concepção da fala como plena e vazia. Para abordarmos a questão dos novos sintomas . procura agora outras saídas do inconsciente. um substituto de algo que foi afastado pelo recalcamento. de que as formações sintomáticas actuais parecem prescindir da figura paterna . ou seja. opondo -se à ordem simbólica e desarticula da do significante. ou em medidas para impedir tal satisfação e. Os sin tomas consistem ou numa satisfação de algum desejo sexual. mas que é importante serem mencionados. o qual a interpretação irá libertar. o sintoma é uma resposta a uma satisfação insuportável. uma vez que o sintoma não escapa inteiramente à censura. de forma a esclarecer o que Freud nos quer transmitir. de formação de compromisso entre as duas forças que entraram em conflito. Na neurose obsessiva. nas suas primeiras concepções do sintoma. operação denominada de retorno do reprimido. a pulsão está implicada no sintoma e. Para Lacan. uma satisfação substituta deformada. como tal. no início da sua teoria. o sintoma pode ser eliminado através da sua interpretação. O recalcamento. O resultado deste processo é um sintoma e. estas encontram-se divididas em sintoma como mensagem e sintoma como sentido e gozo. ou seja. A interpretação representa um momento dos ensinamentos de Lacan onde o gozo era concebido como im aginário. Esta forma de entender o sintoma é de grande importância histórica. importa analisar o conceito de sintoma em Freud e em Lacan. submetendo-se. o que se satisfaz no sintoma é a pulsão e esta satisfaz-se sempre. combinando as duas de forma a obter satisfação na própria defesa. A trajectória do sintoma até ao inconsciente passa por vários conceitos. são recalcadas. uma satisfação sexual substitutiva para desejos sexuais não realizados. outras formas de satisfação. obtendo satisfação. o sintoma é a formação que iremos considerar nest e capítulo. que foi afastada pela realidade. a sexualidade. consequentemente . . por sua vez. o sintoma apresenta -se como a defesa contra o desejo recalcado. importa abordar os casos paradigmáticos das duas grandes neuroses ± histeria e obsessão. a libido regride a fases anteriores do desenvolvimento infantil e a atitudes anterio res em relação aos objectos ± pontos de fixações infantis ± e surge na consciência. o qual expressa o conflito entre a satisfação e a defesa . o qual. Desta forma. como a pulsão. de início. indicação de um retorno do reprimido. têm a natureza de conciliação. É nela que se articula de forma mais evidente o carácter intransigente da pulsão. assim. É neste sentido que Lacan retoma a diferença entre o latente e o manifesto . porquanto é estruturado como linguagem. a interpretação do desejo recalcado dominava o sintoma. Esta forma de entendimento permite lidar com o sintoma como se de um sentido aprisionado se tratasse. da possibilidade de satisfação. normalmente. Para Freud. seguindo por caminhos indirectos. considerando a primeira como expressão do inconsciente e a segunda como expressão do eu. ou seja. para se manter recalcado. precisa encontrar uma forma de descarga. a modificações e deslocamentos. No modelo da histeria. desconsiderando as postulações freudianas sobre a expressividade d o sintoma. pois tenta combater uma série de ilações dos pós-freudianos que conduziam a psicanálise para um campo muito próximo da adivinhação. Na concepção do sintoma como mensagem. irreconhecível. insatisfeita. porém o mesmo não sucedia na neurose obsessiva. no entanto. que não serão aqui trabalhados. são impedidas de se tornarem conscientes. Na histeria. estando este último conceito revestido da máxima importância na compreensão de uma das hipóteses levantadas neste trabalho. quando afirma que os sintomas neuróticos são expressão de conflitos entre o eu e as pulsões (as instâncias inconscientes) que. o recalcamento. onde o desejo se satisfaz. O sintoma forma-se por um mecanismo de substituição.21 De todas as formações do inconsciente abordadas por Freud e retomadas por Lacan.

sonhos e sintomas neuróticos têm um sentid o. formando um campo discursivo em torno do desenvolvimento da criança. o mestre percebe que o sintoma não desaparecia totalmente. um sem-sentido. desaparecia. 1998). é porque mantém a latência significante. permitindo ao ser humano alcançar uma constituição psíquica. ³conforme verificamos. assim. Relativamente ao sintoma histérico. mantém algo que pertence a um processo especial da sua formação e que fundamenta o seu sentido e a sua significação. pertencem ao mesmo registo. Lacan denomina de lugar do Outro. A Psiquiatria somente atribui nomes às diferentes obsessões. É também a fala dirigida ao Outro.22 2. as relações entre os seus pais são organizadas pela palavra. numa segunda etapa freudiana. por outro lado. porquanto se decifram. é abordada por Lacan com base nos recursos da linguística estrutural. dá atenção a ambos os aspectos e consegue comprovar que cada sintoma tem um sentido e que está ligado à singularidade de cada sujeito. Freud refere-se à Psiquiatria actual e à forma como ela actua em relação aos problemas da Neurose obsessiva. Neste sentido. lugar de onde o sujeito rec ebe o sentido e a significação do seu sintoma. ou seja. 1987). os significantes privilegiados pela mãe perante a demanda do filho . entre mãe e filho. possuem uma determinada conexão com a experiência do paciente. O sintoma é. Havia uma repetição e essa repetição ficou evidente para Freud na neurose obsessiva. ³a sua própria mensagem de forma invertida´ (Lacan . isto é . o qual foi a porta de entrada para a psicanálise. Lacan utiliza este termo nos anos 50 para elaborar a sua teoria do simbólico. são passíveis de leitura. Outro da linguagem que fará emergir uma vida subjectiva. ³elas situam -se no mesmo quadro das leis de linguagem´. Esse Outro tem as suas próprias leis. Lacan (1998) afirma que o sintoma se resolve p or inteiro numa análise à luz da linguagem . tal como o inconsciente. na qual esse Outro surge como uma terceira figura da fala. a Psicanálise . Em Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise . 1976). Porém. Se o sintoma for uma mensagem que pode ser decifrada e dirigida ao Outro. Os sintomas. uma linguagem cuja fala deve ser libertada. Esse lugar que representa o tesouro dos significantes. Esta a firmação não constitui uma explicação. uma opacidade no discurso do sujeito. pois era a fundamentação do próprio sintoma obsessivo. defendendo que os portadores de tais sintomas são ³degenerados´. Chamava -se a isso ³reacção terapêutica negativa´. por ser ele próprio estruturado como uma linguagem. mas sim um julgamento de valor. as quais foram . Miller acrescenta ainda que o entendimento das mensagens e a comunicação não são o essencial da linguagem. para a psicanálise é importante o fa cto de a mesma ter por função a identificação o sujeito. ao registo simbólico. A dimensão simbólica do sintoma Afinal qual é o sentido de tudo ist o? Actos falhados. ou seja. que se dirige ao sujeito. O sintoma é. quando interpretado. mesmo antes do nascimento de um filho. definido como ³o significante de um signifi cado recalcado da consciência do sujeito´ (Lacan. porque partilha da linguagem e das suas leis. estruturado como uma linguagem. retornava. por representar uma irrupção de verdade. E é essa identificação que lhe permite incluir -se no registo simbólico. o qual pode ser decifrado como as restantes formações do inconsciente. (Miller. ³O sentido dos sintomas´ é o título da XVII conferência d o livro em que Freud expõe muitas das suas ideias sobre a presente questão. 1998). neste sentido. A teoria freudiana de que os sintomas têm um sentido. É num banho de linguagem que a criança se encontra mergulhada à nascença.1.´ (Freud . Na mesma conferência. A Psiquiatria preocupa -se pouco com as formas de manifestações e com o conteúdo de cada sintoma. Nesse domínio familiar produzem-se.

como formação do inconsciente. Neste sentido. isso quer dizer que o sujeito re vela uma parte dele em função das suas primeiras experiências. diz ainda Lacan. através da sua leitura de Saussure e Jakobson . O traumático acaba por ser o que se repete no sintoma. Assim. ou seja. Lacan não reduz o sintoma ao campo simbólico. opera sobre o inconsciente. Na relação S1 e S2. faz -se pela via do significante e não do significado.23 desenvolvidas por Lacan como sendo as leis dos significantes. Freud encarou o sintoma como o efeito da linguagem sobre o sujeito. Esta é a primeira versão do sintoma: o sintoma infantil está sempre relacionado com a verdade dos pais. ou seja. havendo algo nele que resiste. isto é. sendo esse facto. mas afirma decididamente a supremacia da dimensão simbólica . No seu retorno a Freud. Lacan vai dizer que esse resto é da ordem do real. demonstrada no tratamento aplicado às histéricas. É necessário sempre outro significante para rever o sentido do anterior. ou seja. produz efeito de sentido. o sentido de S1 é fornecido por S2. o sintoma seria a fala aprisionada que. o processo de análise é o processo de deciframento da articulação significante. no discurso analítico. somente concebível na estrutura da linguagem. O significado não é mais do que outro significante que. Mais tarde. Desde o seu trabalho com a histeria. ele é sempre sobredeterminado. . significante este apenas conhecido através de uma operação ao nível inconsciente. não desaparece totalmente. ao nível do inconsciente. Lacan afirma que quando Freud realça que o sintoma tem um sentido. A cura pela fala . algo que não pôde ser dito. ao fazer deslizar e desdobrar os significantes recalcad os que a ele estão ligados. formado no inconsciente ao interpretá-lo à sua maneira. um resto de satisfação que não pôde ser expressa. sintoma e fala são homogéneos. num cavalo que vai e vem. o sintoma da criança pode representar a verdade do casal familiar. A fobia é o sintoma com o qual Hans conseguiu traduzir a angústia perante o primeiro contacto com a erecção do seu pénis. regra fundamental da psicanálise. acentua -lhe a condição humana. A recusa de Hans é o medo que ele tem dessa erecção que lhe acontece. um sentido que se interpreta correctamente. partilham o mesmo campo: o da linguagem. no facto de não poder falar sobre a sua realidade sexual. para fazer surgir o significante da sua origem. para Lacan. graças ao facto. o sintoma nunca é simples. O sintoma do pequeno Hans é a expressão. é a articulação das cadeias significantes ao ser decifrado o sintoma. coloca o sujeito numa situação de ruptura com o mundo animal. Hans não entende esse fenómeno devido aos pais que tem. mostra que o acontecimento traumático gerador do sintoma se modifica quando nele se insurge a fala. mesmo sendo libertada. sem nada entender. E nesse momento ele cita o caso do ´pequeno Hans´ . A sobredeterminação não é mais do que a sobredeterminação simbólica do significante. Na conferência de Genebra sobre o Sintoma. de ele ter um certo tipo de pais. Segundo Lacan. que dá coices e que é o melhor exemplo daquilo que ele tem que enfrentar. A psicanálise. Lacan tinha definido o sintoma como um constructo originário de um signo mnémico da representação traumática. desenvolvendo assim uma fobia por cavalos. A associação livre. a significação. o que importa é o lugar do significante em relação a um outro significante. impossível de ser dito. retroactivamente. quando este se dá conta da própria erecção e vai encarná -la num objecto externo. que ocorre no desdobramento e no desenrolar das cadeias de associação de significan tes. segundo Lacan. estruturado como uma linguagem . que dá prevalência ao significante. em 1975. Essa é a própria estrutura do significante. Nest a dimensão. isto é. junto com o primeiro. dessa recusa. Para Freud. O sintoma. Para se chegar ao significado. então.

como a resposta das religiões perante a inconsistência interna dos seres humanos´. Desta forma. É suposto que a psicanálise adquira a subjectividade própria de cada época. quer pelas suas mudanças de paradigma. no eixo da proibição do incesto e do auto-erotismo. a de proporcionar segurança ao sujeito. Essa invenção sobre a origem do pai resultou na co nsideração da figura paterna como função simbólica. quando estas são pertinentes . assim. na sua teoria. assustadoras. sintoma e pai são metáforas. podemos perceber que as mudanças que têm ocorrido na clínica correlacionam -se com as mudanças na subjectividade. o pai é o representante e agente da renúncia pulsional que a cultura e a sociedade exigem . O nascimento da psicanálise resulta precisamente da relação que Freud estabelece. o qual assume características terríveis. Surge como uma mensagem dirigida ao lugar onde o Nome -do-Pai sustenta a relação impossível entre o desejo e a lei. A função do pai é . Ele constatou que as neuroses se multiplicaram a partir desse declínio. Desta forma. como agente efectivo da castração. agindo este.1 O sintoma e a figura paterna O sintoma e a função paterna são conceitos fundamentais na teoria e na prática psicanalítica de Freud e Lacan e destacam -se profundamente no percurso de cada um deles. Se observarmos com alguma atenção.24 2. surge um vazio para ser preenchido pela dimensão simbólica. A utilização da palavra. o Pai começa com o assassinato do pai. em 1913. apenas através desta separação. O sintoma é um conceito freudiano ligado essencialmente à figura paterna. ou seja. a figura paterna assumiu. diz Gorostiza (2006 ). torna -se necessária para justificar a preservação dessa função. um carácter fortemente hostil. ou seja. sim. é natural que assistamos a mudanças de conceitos entre a épo ca de Freud e a de Lacan. registada na obra Totem e Tabu . com a separação entre as dimensões real e simbólica. Importa referir que o pai real é totalmente distinto do pai simbólico. absorvido do campo do Pai. negação. E são estas mudanças que se manifestam nos novos sintomas. de tomar decisões e agir. o conceito freudiano de sintoma está sempre ligado à figura paterna. Desta perspectiva. aos outros. O termo deriva da palavra autor e remet e para a função de dar garantia de valor . o sujeito fica à deriva. Por este facto. entre o sintoma histérico e a paternidade. . mas também interpretando -a e aspirando a que a Psicanálise vença. Para Freud. à qual Freud chamou de assassinato. ³A autoridade do pai e o seu poder sugestivo revelam-se. de dar ordens. Voltando atrás. do campo do sentido. a função paterna apenas se revela através da negação da dimensão real do pai. por parte do pai. aquando da explicação por ele inventada acerca das o rigens do pai. principalmente . pelo facto de a teoria lacaniana ser permeável ao cruzamento entre diferentes conceitos e épocas. Existe um dito romano citado por Freud. Esta função está relacionada. naquilo que faz. ou seja. cedendo às suas influências. Freud vinculou o nascimento da psicanálise ao declínio das religiões. os quais desconsideram por completo a figura paterna. imaginário.1. sintoma esse que adquire as peculiaridades inerentes a cada indivíduo. então. segundo o qual a figura paterna é incerta e a figura materna é uma figura certa. Esta função está relacionada com a autoridade que consiste no direito ou poder de fazer obedecer. O lugar designado como Nome-do-Pai na psicanálise é idêntico ao o cupado por Deus -Pai na religião. Consequentemente . A função simbólica do Pai permite interpretar a ausência da dimensão real do pai. assim. com a palavra. quer pelas suas diversas referências e também. concebeu a função paterna de um modo homogéneo. Segundo o mestre da psicanálise. podemos considerar o sintoma freudiano como o ³instrumento´ do qual o sujeito dispõe para lidar com a incerteza do pai. pois de outra forma.

³As formações do inconsciente´ Lacan é questionado sobre os assuntos que pretendia abordar no decorrer desse ano de estudos. s e o sintoma e o pai são metáforas. A noção de estrutura é central na obra de Lacan . Neste sentido. começou a abordar os assuntos ³linguísticos´. Este texto refere-se essencialmente à forma como esta estrutura se relaciona com o inconsciente. qualquer um pode contá-lo. Se. Nesta leitura dos mitos freudianos. Este é talvez o primeiro modelo de uma determinada comunidade expressar a sua originalidade. trata -se de ³um princípio de separação´. um dos eixos da língua para Saussure. a metáfora paterna tem uma função estruturante. no seu seminário número cinco.1. (a exigência) de extrair a estrutura. Neste sentido. Lacan respondeu que ³esperava abordar questões relativas à estrutura´. basicamente.2. Metáfora paterna Em 1957. O mito é algo que demonstra àqueles que o ouvem que já foi dito anteriormente tudo o que se podia dizer a respeito e que. então nomear estas funções significa explicar o começo de todas as coisas. Lacan diz que numa cidade desprovida de mitos. Tal substituição significa que a ligação ao pai substitui a ligação com a . Lacan acaba por formalizar a metáfora paterna com Jackobson. No fundo. como ele próprio diz. 2005). ou seja. incluído na sua obra Outros escritos. aquando do seu seminário intitulado. como diz Miller ( por Pérez. é a forma complicada como cada pessoa a utiliza. em designar alguma coisa através do nome de uma outra coisa. ou seja. Lacan iniciou nessa época o seu trabalho com a linguística. Ou seja. todos o conhecem. datado de 1957. (Lacan. O mito representa o povo. de acordo com Dor (1989). Impõe. o significante materno. O mito é popular. ³portanto. cada significante se representa a si próprio. trata -se de um mecanismo de linguagem que intervém ao longo do eixo sincrónico (sintagmático). numa entrevista a uma rádio . as quais têm já um carácter tão banal que ninguém se questiona s obre isso. cujo revestimento são os mitos´ (Pérez. a metáfora paterna. Como foi dito anteriormente. na medida em que é fundadora do sujeito psíquico como tal. Obviamente que. a exigência de representar algo que deve ser interpretado. como tal. é a forma singular como cada um lhe vai atribuir um significado . ou seja. está presente nos atropelos do discurso como uma figura de estilo fundada em relações de similaridade. pois isso não o tornaria original. Importa destacar que foi igualmente em 1957 que Lacan começou a escrever A instância da letra . Lacan refere que a função do pai é ser um significante substituto do primeiro significante. transmiti-lo. que diz respeito à função do pai. na medida em que ela é constantemente referenciada à estrutura de linguagem. que se traduz n aquilo que determina a metáfora paterna. diz Lacan em 1970. da qual resultou o texto Radiofonia . É desta forma que ele dá início ao capítulo chamado A metáfora paterna . As Formações do inconsciente. se colocam ³pai´ e ³mãe´. Segundo Lacan. com base na sua releitura do mito edípico freudiano. Seguir a estrutura é comprovar os efeitos da linguagem. ambos são significantes que vêm no lugar de ou tros significantes. as questões de estrutura referem-se às formações do inconsciente. de substituição. A metáfora consiste. A metáfora . na origem. No sentido pleno do termo . é inútil passá-lo à escrita. o qual teve como consequência o surgimento da metáfora paterna. Pérez acrescenta ainda que se observa bem a forma como Lacan é influenciado por Freud: extrai dos seus mitos fundadores a essência da estrutura. Ao trabalhar com os mitos freudianos.25 2. Lacan impõe-lhes. 1999). ele pretendia estudar os enganos da linguagem que todas as pessoas cometem diária e involuntariamente . pois é apenas através do acto de falar que o inconsciente se manifesta e nos permite ter acesso a ele. é considerada como uma substituição significante. 2005).

Para Lacan. ninguém jamais pensou dizer que é fil ho de tal espermatozóide. Nunca lhe ocorrera puxá -lo pelo chão atrás de si. diz Lacan. substituindo o desejo da mãe pelo Nome -do-Pai é. a simbolização do objecto perdido (Skriabine. por sua vez. e brincar com o carretel como se fosse um carro. é o espermatozóide e.1992 ). para objectos substitutivos dessa falta. encontrava uma reparação. Só há um pai real. como na metonímia. representa aquele que cumpre a funçã o e não necessariamente o pai biológico. nomeia. O acesso ao simbólico por parte da criança através da linguagem é signo incontestável do controlo simbólico do objecto perdido. se tornava senhor da significação produzida. mas também do seu ³Nome´. É a partir desta substituição. até segunda ordem. encenando ela mesma. da mãe pelo pai como significante.26 mãe. o jogo consistia no desaparecimento e retorno do objecto. Não é o pai da realidade: ³pois a realidade é outra coisa ( .. assim. que não se trata apenas do ³pai´. 2005 ). a função do pai estabelece-se ao nível do pai real como construção e efeito de linguagem .) Até poderia ir um pouco mais longe. Se tomarmos como exemplo o jogo do for-da. Puxava o carretel para fora da cama novamente. mediante uma perda de gozo. ³O papel da metáfora paterna.. bem como o jogo presençaausência. a criança controla a situação que a angustia: para não se sentir abandonada pela mãe. e saudava o seu reaparecimento com um alegre µda¶ (ali). (Lacan. Face a isto. Lacan destaca que a fórmula da metáfora é decididamente a troca de uma palavra por outra. Ao dizermos ³Nome-do-Pai´. A interpretação do jogo não apresentava mais dificuldades. mas sim de dois significantes em que ³um substitui-se ao outro. se existir para o sujeito enquanto significante. praticamente apenas se via o primeiro acto. fazendo-vos reparar que a noção do pai real é cientificamente insustentável. é o ³pai do nome´. embora não houvesse dúvida de que o maior prazer estava ligado ao segundo acto. a metáfora e a metonímia ligavam-se ao pensamento lógico. é ³nomeante´. 1976). como tal. quase sempre o poeta. intervindo o prim eiro no desejo da segunda . ao mesmo tempo que proferia o seu expressivo µo-o-o-ó¶. Através deste movimento lúdico. A esse respeito. tomando o seu lugar na cadeia significante. por si só. (Skriabine. ela abandona-a simbolicamente nessa operação.´ (Freud. de nada diferente daquilo que a castração. O jogo do fort-da ilustra precisamente a expressão lacaniana ³substituição significante´. que se produz a referida metáfora. 2005 ). Lacan não concordava com esta ideia . com os objectos que tinha ao seu alcance. e o significante escondido continua presente pela sua ligação (metonímica) com o resto da cadeia´ (Lacan . O carretel é uma metáfora da mãe. com a renúncia pulsional que tinha realizado (renúncia à satisfação da pulsão) para poder aceitar as ausências da sua mãe. o mesmo processo de µdesaparecimento-retorno¶. Desta forma. 1998). Assim. descrito por Freud. podemos dizer que este consiste na ilustração mais explícita da realização da metáfora do Nome-do-Pai no processo de acesso ao simbólico por parte da criança. Na retórica clássica. por assim dizer. O menino tinha um carretel de madeira com um pedaço de cordão amarrado em volta dele. em term os freudianos opera´. ³A . o de permitir um acesso aos discursos. fiz uma observação que con firmou o meu ponto de vista. O jogo estava relacionado com os resultados de ordem cultural obtidos pela criança. Freud afirmou: ³Certo dia. de forma que aquele desaparecia por entre as mesmas. O que o menino fazia era segurar o carretel pelo cordão e com muita perícia arremessá -lo por cima das cortinas da sua caminha. que essa categoria se refere a um significante que. há neste jogo um duplo processo metafórico. isto é. por exemplo. Ele insiste em dizer que a metáfora não resulta de dois significantes igualmente actualizados. Esta. o qual. podemos dizer que a criança conseguiu mobilizar o seu desejo de ter a mãe junto de si. Retomando a questão da metáfora paterna. em que o orador. em termos lacanianos. tal expressão implica. Não se trata aí. que era incansavelmente repetido como um jogo. por meio do cordão. como duas figuras de linguagem.

Neste avanço ideológico realizado por Lacan. de um para outro. o principal ³Grande Sujeito´ da modernidade. que enfatiza o pólo metafórico e o pólo metonímico da estrutura d e linguagem. É o Nome-do-Pai que vai travar o desejo avassalador da mãe. O que pode então limitar a significação? Se percebermos que há sempre. fazendo parar a ordem da significação fálica. avança no sentido de considerar o pai do Édipo como o Nome-do-Pai. Outro aspecto importante da modernidade relaciona-se com o sujeito em termos filosóficos. sendo a metáfora. uma palavra que falta para fechar a cadeia sobre ela mesma. importa estabelecer a diferença entre o mundo moderno e o mundo contemporâneo. dos ideais. abstracção feita da sua significação. o signi ficante não é uma mensagem. o declínio do poder de Deus acaba por atingir o seu representante terreno: o pai de família. grandes s ujeitos. há UM pai. 1998. Quando a ciência é questionada. figuras sustentadas pela tradição. Grandes sujeitos como o Deus único do monoteísmo.1. em que nenhuma realidade exterio r a essa linguagem limita a significação. É sobre a palavra por palav ra da conexão dos significantes que a metonímia se apoia´. 1987). 1989). como uma figura de estilo que explicita a relação entre os signif icantes na cadeia. Lacan. acrescenta Miller. . elas também. Tal facto traz consequências para a organização social. Uma delas e a mais grave é a condição da subjectividade. E mesmo que esse pai possa apresentar muitas variações . o catolicismo. que é afectada com a mudança histórica. 2005) e o sujeito neurótico de Freud.isto dá-nos a estrutura sincrónica da linguagem. remetem para palavras ± falando de cadeia significante . por parte da língua .27 metonímia está estreitamente ligada aos significantes. numa significação que serve e é válida para todos. refém da culpabilidade. por sua vez. Segundo Gerard Miller (1989 ). retomando Freud. colocada em causa . a que permite o surgimento do sentido. Esta mudança diz respeito à função do pai. não têm ocorrido sem as devidas consequências. ou seja. destaca-se a influência de Jakobson. o Édipo é um mito universal válido para todo s os sujeitos. ´ (Miller. Para Freud. a República. o rei. chama de função paterna.3. não é portanto um significante último que se igualaria à sua significação. Steves insiste no termo universal porque que no tempo de Lacan. tal como no de Freud. o desaparecimento das grandes histórias de vida. etc. não há significante que se signifique a ele próprio. o que a faz parar. assim. 104). representando o Outro anterior. p. (Miller. Há uma mudança ideológica importante no início do ensinamento de Lacan. até ao seu fim. Conforme Miller refere: ³Se uma palavra. Tal como o signo saussuriano. remete para outras palavras que. Podemos dizer que o primeiro ficou marcado pelo surgimento da ciência que instala o poder da razão e questiona a autoridade simbólica do pai. A queda dos valores tradicionais. na sua definição. qual o estatuto desse novo sujeito. deduz-se apenas uma única entrada numa significação comum. Declínio do pai: do moderno ao contemporâneo Para podermos abordar devidamente esta questão. ³Essa passagem do Édipo freudian o ao Nome-do-Pai equivale à passagem de um mito universal para um matema da significação universal´ (Steves . A modernidade é marcada principalmente por dois sujeitos: O sujeito crítico de Kant . A metonímia seria. mas sim uma função que Lacan. por sua vez. A modernidade consiste no espaço em que surgem grandes ídolos. Assim sendo. como diz o escritor francês Dufour. com o seu retorno a Freud. política e familiar. é com base nesta ideia que vamos considerar o termo Nome-do-Pai como metáfora. a moral perde a força como bem maior de um indivíduo. que é dominado por três grandes questões: ³O que posso conhecer? O que de vo fazer? O que posso esperar?´ (Dufour. sem sentido crítico e sem culpabilidade? . 2.

Consequentemente . o que nos conduz para a análise do simbólico na pós -modernidade. desejado. Segundo Bernard Nominé (1998 ). conduzindo a criança ao encontro do sintoma. muda a nossa posição no mundo. necessitando de reajustamentos concep tuais que orientem uma prática que permita alcançar as novas subjectividades. a dimensão do real. O Outro da contemporaneidade não é o Outro todo da modernidade. O que temos actualmente é um mundo onde não há um sentido universal para orientar o sujeito. já iniciado. pois o sentido da vida deixa de se relacionar com uma busca de acordo com os valores simbólicos que representam o papel de garantias. Sem essa função a operar como barreira ao discurso da ciência. Ele é não -todo porque não articula a identificação a um S1. Na verdade. andava até rápido demais. fazendo com que o gozo do sujeito seja mascarado pelo mercado de consumo . mas sim de acordo com os fluxos móveis da circulação dos produtos de mercado. o sujeito apresenta -se à deriva em relação a um real. 2005). (Dufour . O resultado desse triunfo do capitalismo. pois o mesmo é doce. A psicanálise entra no mundo para autorizar o desejo e sua difusão corrobora o declínio. inserido na lógica capitalista. a contemporaneidade radicaliza as consequências da modernidade. (2005 ). portanto. sedutor. este diz que a partir do momento em que toda a garantia simbólica das trocas entre os homens tende a desaparecer. segundo Dufour. que é uma falta que remete para a infância dessa mãe. resultado da queda dos valores tradicionais . revê a sua concepção da posição paterna. belo. uma multiplicidade que impele o sujeito a identificações que negam a heran ça paterna. Em 1972. O autor então prenuncia: ³Bem cedo veremos que formidável violência se dissimula atrás dessas fachadas soft´. Lacan transmitiu aos seus ouvintes que o discurso capitalista andava às mil maravilhas. A multiplicidade de identificações dificulta a estabilidade da identificação . fazendo com que os valores morais e a hierarquia sejam substituídos pela liberdade individual como bem supremo. no final do seu ensinamento. Esta mudança faz com que o ideal perca valor em relação ao objecto que. na actualidade. podemos considerar a clínica actual como diferente da clínica freudiana. numa conferência em Milão. isto é. Lacan. ascende ao zénite social. os conflitos em relação aos ideais paternos são substituídos . Ainda de acordo com Dufour (2005). pois já não temos a garantia de que a função de excepção do pai confirma a regra para todos. O regime capitalista indica que ³o escravo antigo foi substituído por homens reduzidos ao estado de produtos´. É melhor aderir a esse ³real´ do que se opor a ele. é a própria condição humana que muda. Como consequência. existe um enxame de S1. Esse pai revela-se insuficiente para essa função. não há sujeito submetido ao ideal. é um enfraquecimento e até uma alteração da função simbólica. é o mundo onde tudo está disponível para ser comprado. consequência do declínio do pai. Esse pai é insuficiente para representar a falta imaginária d a mãe. De acordo com Machado (2005). a um sintoma com outra dimensão. a via do ideal. da função paterna. pelo contrário. o que estimula as soluções particulares.28 A psicanálise surge precisamente no momento em que a contestação a o pai e à moral criam conflitos e geram sintomas. em 1975. O mundo não-todo actual não é o mundo onde falta alguma coisa. . Já não se trata do pai simbólico representante do desejo da mãe. Assim. Desta forma. pela compulsão ao gozo.

Para além de decifrável. permitindo uma interpretação dos mesmos. o sintoma é o que muitas pessoas têm de mais real. e do discurso histérico. portanto. Com o objectivo de eliminar o recalcamento. A dimensão real do sintoma A psicanálise surge. ³Seremos levados a definir o real como o impossível´. A psicanálise trata o real a partir do sintoma. ao real traumático. dos fenómenos como o amor. a libido finalmente consegue achar sua saída até uma satisfação real ± embora seja uma satisfação extremamente restrita e que mal se reconhece como tal´. Através da histeria. por ocorrerem numa época . (Vincens. e inscrevem-se na cadeia significante . do mesmo modo que para encontrar a significação dos sonhos começa pelo sonho infantil. do significante. Os sintomas pertencem à mesma ordem das formações do inconsciente. O sujeito queixa-se que esse acto não tem sentido para ele. o seu sentido escapa ao sujeito que se sente obrigado a realizar um a cto de forma compulsiva. O simbólico é o campo da linguagem. 1985). 1998). (Lacan . é aí que ele se divide e pode -se. é como função de significante que o sintoma se enuncia. O real é aquilo que resiste à simbolização. ele tem um ³sentido profundo´. Uma leitura que nos dá a indicação da dimensão de real que existe no sintoma. No seguimento deste trabalho . mesmo que o sujeito não se aperceba disso. que escapa à decifração do sintoma. para o estudo da significação dos sintomas parte da neurose traumática. E não somente diz. a sua Bedeutung . Observemos: ³Freud. o ódio e o lugar das relações duais. ou seja. pois este representa o real de cada sujeito. na teoria do sintoma. que. Freud pôde demonstrar que o sintoma tem um sentido. como uma oposição ao saber científico e ao seu poder silenciador . é um dos nomes com os quais Lacan designou os três registos que estruturam a subjectividade. pela via inconsciente e por antigas fixações. tem a sua satisfação sexual e também o seu sofrimento. é apontada por Lacan como a referência freudiana. (Lacan. 1998). 1985). é o registo marcado pela ligação do desejo com a falta e a lei. trata do real. Seguindo ainda Vincens. O termo real. A psicanálise.29 2.2. o lugar do Eu. decifráveis. juntamente com o termo simbólico e o termo imaginário. como também serve a um fim de satisfação. É q ue nela pode-se ler de forma quase imediata a referência real ao sintoma. que se reproduziria literalmente ao pé da letra no mesmo sentido do sintoma. uma ³satisfação real´. A partir daqui. é o mistério do inconsciente´. pois segundo o psicanalista francês. Na obra Os caminhos da formação dos sintomas (1917). Segundo Lacan. o sentido e a significação do sintoma quase se confundem. a libido encontra as fixações necessárias nas experiências do início da vida sexual. reconhecida como sofrimento. sendo. Essa satisfação real. sem o saber. em consonância com a ciência . Lacan vai cada vez mais priorizar o registo do real. destaca-se uma outra forma de considerar o sintoma. pois o mesmo não é somente manifesto e decifrável. um sentido inconsciente. desta feita como algo que não funciona. defendendo que há um saber na dimensão do real que não fala. como foi referido anteriormente. Estes termos têm um lugar de destaque em todo o seu ensinamento. O acto obsessivo é uma prova disso. o sintoma diz alguma coisa. Lacan afirma ainda a respeito do real: ³é o mistério do corpo falante. o sintoma é também um paradoxo onde o sujeito. a partir da década de setenta . mas de uma forma diferente. reconhecida p elo sujeito como um sofrimento. a interpretação de um sintoma implica sempre que se perca o controlo sobre algo referente ao seu sentido. Lacan denomina o registo do imaginário como o lugar das identificações. então. Na neurose traumática .´ (Vincens. iniciar um tratamento. causadora do nascimento da psicanálise. situando assim um efeito bem particular do simbólico no real. Freud esclarece que: ³pelo caminho indirecto.

E conclui: ³partindo daquilo que. o que implica uma rejeição do princípio da realidade e um retorno ao princípio do prazer. 2007 ). não era possível tratar completamente o sintoma. tendo em conta que pulsão apenas consegue obter uma satisfação parcial . pela palavra. Freud reconhecia que. Posteriormente. parecendo incompreensíveis como meio de satisfação libidinal. pois o sujeito encontrar satisfação naquilo que o faz sofrer. d e alguma forma. Assim. A pulsão é então caracterizada como o que permite ³restaurar um estado a nterior de coisas´ (Oliveira. agora. em princípio. um retorno a um tipo de auto erotismo difuso. a fim de encontrar o caminho que conduz a todas as fixações recalcadas. para a psicanálise. prescindindo de qualquer relação com a realidade externa. Freud constata ainda que esses sintomas não são similares em nada com o que se denomina de satisfação. a realidade do sexo. eliminamos também o que nos satisfaz´. ou seja. a uma regressão altamente significativa. na obra Além do princípio do prazer (1920): ³O trauma para Freud deixa de ser pensado como causa dos sintomas para ser pensado como estrutural e estruturante. 1976). Nesse mesmo texto. normalmente transformada numa sensação de sofrimento e misturada com factores provenientes da causa da doença. algo que corresponde filogeneticamente. Freud vai dizer que. Importa referir que. porque uma mesma vivência pode ser trau mática para uns e não para outros´. não foram ainda abandonados em todos os sentidos. o sintoma repete essa forma infantil de satisfação. A forma de satisfação que o sintoma alcança tem em si muitos aspectos estranhos ao próprio sintoma. até aos seus próprios pontos de fixação´ (Freud . (Oliveira. . Oliveira refere. ³É o que demonstram a neurose traumática. satisfação e prazer não são equivalentes. ainda segundo Freud. E aqui não se pode generalizar. 1998 ). a libi do movimenta-se para trás. Se eliminarmos o que nos faz sofrer. atingindo.´ (Freud. Ao constatar essa resistência. 2005) É importante destacar que já nessa época Freud parece antecipar o novo sintoma nessa dimensão do real. deformada pela censura que surge no conflito. uma adaptação em lugar de uma acção ± uma vez mais. portanto . pois ela recorre às cenas que se fixaram e organiza a forma que pode adquirir para o sujeito aquilo que não tem forma. É o sintoma como satisfação pulsional que resiste à interpretação. Normalmente desprezam os objectos. essas satisfações substituem-na por uma modificação no próprio corpo do indivíduo: estabelecem um acto interno em lugar de um externo. ou seja. ou seja. A questão da fantasia é relevante porque representa o núcleo central da interpretação do sintoma. ³É traumático. Estes objectos e tendências permanecem ainda.30 de desenvolvimento incompleto e marcadas pelo desamparo infantil. o que. a libido necessita apenas retirar-se para as fantasias. são fantasias inconscientes. embora muito dele pudesse ser colmatado por ela. como o que permitiria ao impossível uma satisfação total. criada pela pulsão. o qual será tratado no capítulo a seguir. Neste sentido. Somente compreenderemos isto se ligado a algo novo que ainda t eremos de aprender n as pesquisas analíticas da formação dos sintomas. (Machado. semelhante ao que proporcionava a pulsão sexual nos primeiros momentos de satisfação. a compulsão à repetição e a s brincadeiras infantis. 2007 ). com alguma intensidade. nas fantasias. ao procurar a resposta para a questão de como a libido encontra o caminho para chegar a esses pontos de fixação. por causa de um excesso de estímulo. são capazes de provocar efeitos traumáticos. 1976). é como uma porta de entrada no aparelho psíquico. até às origens dessas fantasias no inconsciente. (Vincens. Freud realça a importância assumida pela fantasia na formaç ão dos sintomas e afirma que todos os objectos e tendências que a libido abandonou. deixa uma impressão no aparelho anímico. ou seja. Observemos a citação que nos conduz a essa hipótese: ³Em lugar de uma modificação no mundo externo. todos os sujeitos e não apenas aqueles que adoecem´.

em que o trauma é considerado como parte da realidade psíquica do sujeito e fundamento da fantasia. Lacan passa a chamar essa nova forma de sintoma de sinthoma. tornando -se na forma pela qual cada um goza do seu inconsciente. apontando para algo no sintoma que transcende a significação. Por seu lado. (Lacan. encontramos pacientes que nunca estão satisfeitos com o que são. O real atinge o sujeito na sua vertente de gozo. Nest a perspectiva. no seu resto. no seu último en sinamento.31 Freud conclui que o trauma é. ou seja. não se tratando já de uma linguagem que comunica alguma coisa. Isto re stringe a satisfação pulsional em termos simbólicos e redu-la ao desejo. o sintoma é considerado como uma mensagem codificada dirigida ao Outro e. a actividade sexual do sujeito originária das fontes das pulsões parciais. portanto. ainda com Lacan. refere que o sintoma caracteriza o real como aquilo que não anda. na totalidade ou em parte. então. há uma coordenação do gozo do corpo com o significante. 2006 ). representa. para fazer . ou seja. Esse sintoma que não se reporta ao Outro. no seu último ensinamento. (Baptista. ou seja. é o que provém dele. normais ou perversas. isto é. encontramos duas formas de situar o sintoma: ³O sintoma como metáfora e o sinthoma como letra ´. Lacan vai dar a categoria de impossível a essa satisfação paradoxal. como diz Gorostiza (2006). Lacan se referiu à não existência de relação sexual com base na suposição de que apenas existe um enunciado de relação (relação em geral). com algo do sintoma como uma satisfação irredutível pela via da fala e que se manifesta pela pulsão. Lacan. Também no texto O aturdito (1973). O impossível diz respeito igualmente à relação sexual que não existe. não se esgota na significação produzida no lugar do Outro. o gozo passa a obter um significado e a pulsão passa a sofrer os efeitos da linguagem. ou seja. há ainda um real de gozo impossível de ser representado. podemos dizer que somos sempre afectados pelo sintoma. há nele uma vertente que se liga ao significante sob a forma de letra. Mas o que eles são e suas experiências de vida são os seus próprios sintomas que dizem respeito a um tipo de satisfação. da ordem do real. Seguindo este caminho. é um sintoma auto-suficiente e que se refere ao inconsciente enquanto separado do saber. nos anos 70. mas sim de uma forma de gozo. o que demonstra o carácter problemático da realidade psíquica que se expressa no sintoma. é a manifestação do real no ser humano. ³pelo fa cto de que sua economia admite algo de novo. o que conduz o autor ao abandono da teoria do trauma e à concepção da teoria da fantasia. O sintoma. pois já não pertence ao campo do significante. percebemos que ele se deparou com esse limite. Mais tarde. Lacan fala do gozo como a satisfação da pulsão. o sintoma ± embora não seja a mesma coisa que o real. O mestre freudiano avança no sentido de comprovar que. nem é já passível de interpretação. O sintoma como sentido e gozo é por ele colocado num sistema de escrita. No começo do seu ensinamento. É desta concepção do sintoma que resultará. ³d a relação do homem e da mulher. que é justamente o impossível´. no seminário 20. Na prática clínica. Ao citar Freud anteriormente. Ele insiste na separação desse real em relação ao campo do princípio do prazer. suposto ou inferido. o sinthoma como identificação do próprio gozo . O sintoma é. por habitarem a linguagem. 1985 ). demonstrando que a relação sexual já não se inscreve. O sinthoma adquire outro registo. No ensinamento de Lacan. dedicando um seminário a essa questão. Lacan define mais uma vez a satisfação freudiana como gozo e diz que o sintoma é um modo de gozar. normalmente. definido como a realização de uma fantasia de conteúdo sexual. estamos sempre doentes. Em 1972. agora. para além do princípio do prazer. o sintoma refere-se ao gozo ± sinthoma que exige outra forma de tratamento. o L ivro 23. revelando -se esta acção improdutiva. ele desenvolve a questão da impossibilidade da existência da relação sexual relacionada com a impossibilidade da inscrição da relação entre dois corpos de sexo diferente. justamente no que seriam eles adequados.

Já não se trata de uma clínica do simbólico. na medida em que têm efeitos de verdade. dos objectos. embora se queixe dessa relação com o gozo. uma marca. . Partindo desta ideia. um imaginário. Trata-se de uma clínica do significante. O que existe é o desejo em relação ao falo e não de um parceiro em relação ao outro. que se fundamenta na linguagem . efeitos de gozo no real. mas sim do S1. mas sim do sintoma. Os novos sintomas mostram-nos o limite de respostas dadas em função do pai. é a clínica onde o significante já não predomina. os quais podem representar significantes muito diferentes para cada um. Segundo Lacan. pelo facto de o pai possuir uma cadeia significante. O sintoma surge como uma tentativa de invalidar essa suposta inexistência da relação sexual. Já não se trata do Pai. Gozo é um termo introduzido por Lacan. portanto. Lacan. e essa letra tem efeitos reais. responsável pela introdução do sujeito no campo da lei . como pertencente à ordem do real. mas sim o gozo. 2. ou seja. a identificação sexual não reside no facto de uma pessoa acreditar ser homem ou mulher. Lacan vai destacar a ordem do particular em relação à do universal. mesmo que pouco satisfatório. questão central desta investigação. traduz-se no gozo.32 dessa relação um enunciado´. em que se trata de uma neurose ou de uma psicose. ou seja. Esses S1 representam as significações mais importantes de um sujeito. clínica do Pai. O neurótico encontra um gozo no sintoma. efeitos de significantes. cada um tem o seu significante do Pai. e afirma que o sujeito. alterando o estatuto do Pai. sendo notório um declínio da função paterna. Para Gérard Miller (1989). A transição do Nome-do-Pai para os Nomes-do-Pai permite-nos considerar a clínica actual com base nos novos sintomas. mas sim do real. Já não se trata do Pai da lei. nos seus seminários posteriores . não satisfaz as questões levantadas pelo avanço da ciência a ctual. Alguns S1 vão dotar o sujeito do seu modo de inscrição no Outro. apontando para a existência de algo que não funciona no campo do real. desse desencontro. quando for abordada a questão dos novos sintomas .2. em referência ao que representa o gozo dos bens. Como conclusão deste capítulo. então. em que o Nome -do-Pai é forcluído ou não. o sintoma consiste. distinguindo -se assim do campo do desejo. Esta nova categoria do sintoma. pode apresentar diversas variações nos efeitos singulares. mas sim aos Nomes-do-Pai.1. pois podem ser um traço. é em relação ao falo que ambos os sexos se posicionam e o impossível da relação diz respeito ao não recalcado dessa relação. ou inclusive formas diferentes em relação ao pai da realidade. podendo ser mais que um significante. 2003 ). Esta transição para a letra é o que conduz à passagem do Nome-do-Pai e dos Nomes-do-Pai para o sintoma. será desenvolvida no capítulo seguinte. Uma resposta com base na função paterna. Na fase final do seu ensinamento. Falar dos Nomes-do-Pai significa que o Nome-do-Pai já não é o mesmo significante para todos os sujeitos. podendo até ter vários significantes do pai. Não representam. nessa anomalia no campo do real. A passagem d o nome-do-pai aos nomes-do-pai O significante do pai. não a reconhece. deixa de se referir ao Nome-do-Pai. no início da década de 70. (Lacan. referido anteriormente. uma letra que o gozo particular de cada sujeito escreve. enquanto a segunda clínica é ternária. actualmente. podemos observar que a primeira clínica de Lacan é uma clínica binária. A noção de relação está relacionada com a diferença dos sexos. variáveis da sua história.

Simbólico ou Real .33 CAPÍTULO III Os Sintomas Actuais: Linguagem ou Alíngua.

o qual representa um real sem bússola. ou seja. uma linguagem que se dirige ao Outro. há bastante tempo que se discutem os novos sintomas. o psicanalista francês manifestava preocupação com a cultura da sua época. estes estão sempre relacionados com o laço social . passaram a existir duas metáforas: a primeira foi a substituição da agricultura pela indústria e . o que provoca no ser falante algo que vai para além da satisfação da sua necessidade. encontra-se a decorrer uma segunda metáfora. Romildo do Rego Barros. pois já não pode ser o mesmo da tradicional histeria freudiana . Lacan afirma que o inconsciente se constitui na relação do sujeito com o Outro. Segundo Miller. ocorreram mudanças. devemonos debruçar sobre o último ensinamento de Lacan. já não estruturado como uma linguagem metafórica. as estações do ano . Na obra Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise . ou seja. Jacques Alain Miller. têm que lidar com tudo aquilo que produz um laço com o Outro e com os outros. permitindo -nos equacionar uma outra leitura do inconsciente . Os sintomas actuais Como vimos.´ Podemos observar. Actualmente existe uma produção industrial de gadjets. a partir do laço social. ou seja. todos esses factores foram esquecidos. são consequência da unificação do mercado em escala mundial. A comunidade agrícola tinha como bússola a natureza. no texto Uma fantasia (2005). o tempo. um deslocamento do seu modelo clínico . afirmou acerca do tema O inconsciente hoje : ³Se o inconsciente se define pela exterioridade do simbólico. para além do prazer. Os produtos industriais foram anulando a natureza. As novas formações de sintomas são diferentes daquelas que ocorriam no início da psicanálise. deve renunciar à sua função de analista. o clima. que consistia numa moral civilizada que actualmente se encontra abalada . M esmo sendo um texto do início do seu ensinamento. A natureza foi substituída pelo artificial. Com a revolução industri al. são próprias do laço social inerente à globalização.1. situando a estrutura de linguagem no inconsciente e no sintoma. psicanalista brasileiro. um gozo puro. Para isso. E como o inconsciente é o núcleo do trabalho do analista e da psicanálise. Podemos observar a passagem de um Lacan que faz uma releitura freudiana. Senão vejamos: desde que a prática da agricultura foi substituída pela indústria. sem lei. 3. pois como já vimos em Freud e Lacan. ou seja. indecifrável. Este inconsciente de ordem simbólica já não responde à manifestação dos sintomas actuais. concebe a sua própria letra. um ensinamento que mesmo não se separando dos fundamentos teóricos de Freud. (Brousse. a substituição da natureza pelo real. estes já se referiam a determinados sintomas como algo impossível. 2003) Em 2003. O capítulo seguinte tem como objectivo analisar essa estrutura a partir dos novos sintomas. nunca mais foi dada a devida importância à primeira.34 Nos capítulos anteriores foi realizado um percurso entre Freud e Lacan. então. actualmente. para um Lacan por original. e somos obrigados a concordar que há um ³desnorteamento´ do sujeito moderno e contemporâneo. parece-me que podemos dizer que se está a tornar relativamente frequente os psicanalistas serem procurados por pessoas que se queixam da exterioridade do real e não do simbólico. produzida pelo discurso . refere-se a esse desnorteamento na medida em que durante muito tempo existiu uma bússola. aquilo que os colocam ³frente a frente com a cidade e com a subjectividade da sua época´. Lacan afirma que quem não conseguir alcançar a subjectividade da sua época. que não parecem ser tão novos assim. as tradições. ou seja. de 1953. sentindo que a psicanálise precisava de se envolver com a cultura onde estava inserida e respectivos conflitos.

Perante este quadro. por momentos. ao ponto de. sintoma e inconsciente se confundirem. da família. É ao Outro que ele se dirige. surge a questão: Que sujeito é est e? Miller. e já não em sintomas como mensagens. depressa se torna ultrapassado. Segundo este autor. como por exemplo os Alcoólicos Anónimos. aumento do suicídio em adolescentes. são resultado do declínio dos ideais. ³O culto ao novo encaixa -se bem com a valorização da juventude e o desespero de envelhecer´. actualmente existe uma tensão que acompanha o desejo pelo novo. o consumo desenfreado de medicações . Com isso. Relativamente ao inconsciente. o que se traduz em sintomasgozo. um inconsciente que já não é estruturado como uma linguagem? Como é o inconsciente da actualidade? Inevitavelmente. e só reunindo . p. Trata-se claramente de um sintoma social. Como se pode demonstrar a eficácia de uma prática clínica numa sociedade que não acredita no saber? Numa sociedade onde todo o saber deriva dos números e dos produtos da tecnologia e o que interessa é o prazer individual. no texto O sintoma e o Cometa (1997). diz que há muitos ano s atrás. Alguns exemplos como o fracasso escolar. 05). Na cultura actual já não existe o Outro no lugar da verdade e o sujeito não tem nenhuma significação para o orientar. ou seja. ele iniciou o seu discurso com um grito ³A clínica muda´. como deve ser este encarado perante os novos sintomas? Podemos chamar estas patologias de sintoma s. hiperactividade. Este apelo pelo novo é a nova formação sintomática da nossa cultura. consequentemente. na medida em que há uma decadência do significante -mestre e dos ideais. surgindo assim novas formas de angústia. o controlo da comida nos bulímicos. al go novo na psicanálise´. pois deixa de considerar a posição do sujeito no seu mundo. é dele que o sujeito receberá o sentido do seu sintoma. (Miller . 1997 ). intitulado A moral civilizada e a doença nervosa moderna : ³As extraordinárias realizações dos tempos modernos. a sua própria mensagem de forma invertida. de o responsabilizar pelos seus actos e pelo seu gozo. 1997. que deseja constantemente a novidade. o sexo. consequentemente. toxicodependê ncia. retornamos a Freud para destacar sua genialidade e originalidade em relação ao seu tempo. na fórmula ³As novas formas de sintoma´. os grupos que tratam os vícios. que representa o saber e lugar do s significantes. Nos novos sintomas. o gozo de cada um? Há uma total liberdade desse gozo perverso. ou seja. Cresceram as exigências impostas à eficiência do indivíduo. o sujeito não te m uma referência com a qual se identifique . Não há razão para esconder que esperamos algo novo quando nos reunimos sob tal fórmula. enfim. Assim. num encontro internacional . ele quis dizer que deveríamos ³enfatizar o novo ao invés do sintoma. entre muitas outras coisas. depressão. Para os psicanalistas de orientação lacaniana. comprovando que o sintoma é estruturado como uma linguagem e extremamente dependente desse Outro. que há um Supereu nos tempos actuais que ordena a aquisição de algo novo e que sempre houve um desejo pelo novo. resultado da universalização do discurso científico. doenças psicossomáticas. O sintoma como mensagem faz emergir o sujeito do seu lugar no desejo do Outro. Refere ainda que tal facto tem uma dimensão social. do declínio da função paterna e . Importa citar um fragmento de um texto surpreendente. obsoleto. porque estamos sempre à procura de algo novo e cada vez mais o novo dura menos tempo. entre outros. as drogas. (Miller. bulimia. violência gratuita.35 capitalista. as descobertas e as invenções em todos os sectores e a manutenção do progresso. só foram alcançadas e só podem ser conservados por meio de um grande esforço mental. apesar da crescente competição. síndrome de pânico. de 1908. a sua subjectividade fica comprometida. é difícil não cair numa clínica do consumo. anorexia. o condicionamento das anorécticas. se as mesmas forem desprovidas da devida simbolização e subjectividade? Como estabelecer a relação entre o inconsciente e a linguagem nestas novas formações sintomáticas? Como encarar o inconsciente fora da ordem simbólica. esta clínica vai contra todos os princípios analíticos.

Os nervos exaustos procuram refúgio em estímulos maiores e em prazeres intensos. deparamo-nos com dificuldades a que alguns autores chamam de ³a clínica das suplências. algo particular que indica o seu modo de gozar. ou melhor. É mesmo a única coisa verdadeiramente real. onde a generalização do conceito de sintoma. manifestando resistência a toda a interpretação. é o que conserva um sentido no real. a agitação eleitoral inflamam os espíritos. Lacan diz que o sintoma é feito de significação e fantasia. deparando-se com uma limitação na sua prática clínica: alguma coisa d o princípio do prazer no sofrimento sintomático ia para além disso. O sujeito fala sem implicação ou consequência alguma . exigindo violentos esforços da mente e roubando tempo à recreação e ao lazer. Falar de sintoma é falar de um enunciado que é . pois a clínica demonstra -nos que não há uma divisão clara entre ambos . já questionava a subjectividade da sua época. Freud cita ainda todos os observadores da época. ao falar. Os conflitos religiosos. pois não tem nada a dizer.. dos dias de hoje. É como se estes sintomas não fossem sintomas no sentido analítico do termo. lidar com estes fenómenos onde a tendência ao gozo tende a eternizar-se. Lacan diz que o sintoma é o modo como cada um goza do inconsciente. um luxo sem precedentes atingiu camadas da população para quem. simultaneamente. sem relação metafórica com o conflito psíquico. tendo ainda observado que existia algo a mais entre o sentido que desfazia o sintoma e uma outra satisfação que o sustentava .1. sociais e políticos. Parece um texto actual. Simultaneamente. aproxima neuroses e psicoses. c omo se fossem constituídos para além do sentido.1. dest a forma. aumentam as necessidades individuais e a ânsia de prazeres materiais. Os sintomas actuais como ³sintomas-gozo´ A partir do seminário XX. Na clínica actual. o que é da ordem do significante e da ordem do gozo. 1998). goza. em todas as classes. Freud. irredutível pela fala. Lacan vai então nomear essa outra satisfação freud iana com o conceito de gozo. numa repetição interminável. 3. até então. tudo é pressa e agitação. É conhecida a complexidade em se delimitar. A vida urbana torna-se cada vez mais sofisticada e intranquila . Miller afirma que. É a mensagem fundamental do sujeito. a actividade partidária. Lacan associa a fala ao gozo. Esta teoria faz-nos pensar exactamente nos sintomas da nossa época. ao pensar assim. Este é o grande desafio. faz obstáculo à cura pela sua forma resistente e inerte de ser. Em Subversão do sujeito (1998). Um sintoma como gozo. na passagem do século XIX para o século XX e diz que eles perceberam os novos sintomas que marcaram essa época. 1998). 1976).)´ (Freud. quando afirma que o ser. revelada pela intensidade da pulsão. Nos sintomas actuais parece que até o próprio sintoma está for cluído. na sua forma metonímica de se apresentar . o sintoma fica situado entre o simbólico e o real. Mais tarde. Em Escroqueria Lacan diz que ³o sintoma é real.. (Kruger.´ (Lacan . O gozo toma o valor ao que corresponde a parte do significado qu e não se realiza no significante. Nesta perspectiva. num sintoma. Não parece tratar-se de um texto de há um século atrás. Freud antecipa uma teoria do gozo na civilização. é uma articulação entre efeito significante e a relação do sujeito com o gozo. como o vertente real da satisfação pulsional. caindo numa maior exaustão (. era totalmente estranho. homólogo ao de forclusão generalizada. abrindo a necessidade de construir uma nova clínica diferencial´.36 todos os seus poderes mentais ele pode atendê-las. consistindo na ponte entre o inconsciente e o gozo. indizível. E é por esta razão que o psicanalista pode intervir simbolicamente para o dissolver no real. .

no seminário VIII. os quais mostravam sua competência apoiando -se na primazia científica dos anos 50. Existe uma diferença entre a concepção freudiana de objecto. Os mercados procuram um significante mes tre e não o encontram´. quando se referiu ao exército e à igreja. na obra Mal estar da civilização (1930). na teoria lacaniana esse estatuto pertence ao objecto a. a objecto de gozo. como Coisa perdida para sempre ² Das Ding . Mas nesses reencontros. o sujeito irá deparar -se com a Coisa perdida da espécie humana. Se considerarmos que o recalcamento consiste na essência da teoria freudiana. Antes da segunda guerra. aumentando o consumo dos produtos do mercado. o qual denominou de discurso capitalista. pode ser reencontrado nos sucessivos substitutos que o sujeito encontra nos seus deslocamentos simbólicos e investimentos libidinais imaginários. Desse movimento surgiram os grandes líderes e os grandes ideais . (Laurent. (Laurent. E a crise de 1968 revelou que to dos esses significantes mestres foram perdendo essa sua posição e estatuto privilegiados. ³Esse discurso produz o objecto a. emerge o . (1963). ela torna-se o objecto perdido. tendo o mesmo sofrido alterações constantes na sua obra: de pequeno outro ou semelhante . No esforço de recuperar esse Outro. a objecto causa de desejo. Ainda segundo Laurent. Segundo Laurent. onde falta sempre algo. começando com o fim da Primeira Guerra Mundial. como objecto perdido da história de cada sujeito. o qual tenta refazer esse significante. o sujeito começou a lidar com a sua angústia através de vários significantes mestres. retorna no real como gozo´. de forma a encontrar a garantia e segurança de que necessita . Freud. nos primeiros seminários. posição esta não reconhecida p ela psicanálise. pois ³em vez da crença no futuro dos mercados comuns. enquanto Lacan. nos reencontros com o objecto. Posteriormente. Lacan sempre se questionou sobre a função deste objecto. Lacan apresenta um novo significante mestre: o mercado comum. provocando a falta da mais-valia. o que significa que se trata sempre. um direito do trabalhador. Logo após a Segunda Guerra Mundial . 2007 ). A angústia é um afecto que resulta da descrença do sujeito no significante mestre.37 Freud referiu-se ao ³mal-estar´ da civilização na sua época. no seminário XVII. quando o mundo do pensamento foi invadido por um afecto particular. o homem lidava com as suas angústias através da tentativa de restaurar um todo. que o psicanalista francês faz uma verdadeira apologia ao objecto a. se referiu ao sinthoma na civilização como um efeito particular do discurso do mestre contemporâneo. de forma a acompanhar o percurso do objecto a na nossa civilização. o objecto perdido da espécie humana ² e o conceito lacaniano de objecto a ² o objecto perdido da história de cada sujeito. reina a incerteza do mercado global. por trás dos objectos privilegiados do seu desejo. Porém. importa referir a afirmação lacaniana em relação a o efeito de angústia e que o próprio Lacan diz ser o verdadeiro efeito de linguagem. na civilização actual. Retomando Laurent (2007). a transferência. Na mesma época. este destaca determinados momentos do percurso do objecto a. Este objecto a. equipara o sentimento inconsciente de culpa à angústia. como tal. 2007 ). numa civilização que já se apresentava como não -toda. A mais-valia forcluída é um significante e. nos anos 60. esse todo. torna-se necessário descrever rapidamente ± o que não é fácil. pois trata-se da grande criação de Lacan e resultaria num outro trabalho ± o que é o objecto a na teoria lacaniana. os quais Freud já tinha antecipado no seu texto Psicologia de grupo e análise do ego (1921). a busca de Deus e os Estados Unidos como vencedores da guerra. como o Partido Comunista. Esta diferença pode ser considerada como o objecto impossível (objecto a) em Lacan e o objecto perdido ( Das Ding ) em Freud. estimulando a cadeia incessan te das trocas. que marca a entrada no século XX. É no seminário X ± A angústia . da repetição de um encontro com o real. Essa maisvalia na teoria marxista era resultado do trab alho. por outro lado.

Este facto implica a existência de uma demanda. não queira saber de mais nada. não é que o ser pense. caminhando para o gozo da sua própria morte. Ainda no seminário XX. assistimos a um duplo movimento: ³De um lado. n ão só pelo uso de drogas. num a verdadeira overdose do gozo. Lacan insiste na noção de in consciente: ³Mas o inconsciente é um saber. ela tem uma dimensão totalmente diacrónica. 1998 ). Segundo Miller. A linguagem tem a estrutura de alíngua ± é a redefinição de ste psicanalista. não tem sobre ele a menor influência. A linguagem é o que se tenta saber concernentemente à função da alíngua´. Aquilo que observamos nos sintomas contemporâneos é a procura desenfreada pelo prazer imediato. segundo Lacan. É que ela deixa em branco o que surte efeito nele. Alíngua. que ultrapassa a noção anterior. não parecem estar fora do campo da linguagem. pela escolha de desportos perigosos. O inconsciente pode ser. parece não ser uma estrutura. De outro. mas no texto Radiofonia (1970) ele afirma: ³A linguística fornece o material da análise ou o aparelho com que nela se opera. o que é alíngua? . mesmo manifestando -se de forma estranha. ³visto que é feita de aluviões que se acumulam de mal-entendidos. a condição da linguística. falando. pois na prática clínica o que se trabalha é um ser falante. no entanto. com base na necessidade de encontrar o Outro. mas também pela entrega exagerada ao trabalho. como disse. é necessário recorrer a uma outra leitura. No mesmo seminário. Que estatuto podemos dar a e ste tipo de linguagem? E que estatuto tem a linguagem e o inconsciente nestes sintomas na última fase do ensinamento de Lacan? Na trajectória do que se chama o último ensinamento de Lacan. das criações linguísticas de cada um´. O inconsciente estruturado como uma linguagem é uma leitura que Lacan faz do inconsciente freudiano. é porque a linguagem. Lacan fala de um inconsciente como uma linguagem hipotética e que tem estrutura de alíngua. Lacan cria um termo.2. tentativas de reencontrar o gozo por intermédio de um acesso em curto -circuito´. segundo Laurent. isto é. ´ (Lacan. embora tenha relação com a mesma. (Laurent. a alíngua. só se pode estruturar como uma linguagem. 2003). a sua codificação. no entanto. A linguagem e os novos sintomas Os novos sintomas. 3. Lacan afirma: ³O inconsciente. é complicado trabalhar o inconsciente e a sua relação com a linguagem pois. de início. o que dele se diz na ciência tradicional ± o inconsciente significa que o ser. surge uma outra dificuldade no que diz respeito à linguística. Miller afirma que alíngua não é uma estrutura porque não é um objecto desprovido de sincronia. uma linguagem sempre hipotética em relação ao que a sustenta. Esta.1. Lacan. Mas afinal. pelos actos suicidas. («) É nisto que o inconsciente. acrescento. pelo contrário. goze e. Acrescento o que isto quer dizer ± não saber de coisa alguma. diz: ³Se eu disse que a linguagem é aquilo como o que o inconsciente é estruturado. Todos estes factores são manifestações das tentativas de lidar com a angústia . 2007 ).´ Nesta perspectiva. no seminário 20. para Miller. Neste sentido. essa invenção tinha como objectivo mostrar que os elementos da língua que consideramos discerníveis não o são tanto assim. Lacan considera a metodologia desta ciência exemplar.38 sentimento insuportável d essa falta. passível de ser deduzida da obra do psicanalista francês . 1985). não existe.´ (Lacan. esta não existe. embora esta não se apresente. (Miller. unindo o artigo ³ a´ ao substantivo ³língua ´. apelos populares para refazer o todo. Para falar do inconsciente lacaniano patente no seu último ensina mento. um saber -fazer com alíngua. Mas um campo só é dominado pela sua operação.

bem como enfatizar o modo como cada criança escuta. pois constitui-se como a língua materna. Para o linguista Jean Claude Milner. E a alíngua é algo onde. Cada um desses sintomas tem as suas particularidades e diferenças e Lacan já os considerava como sintomas que não se enquadravam na ordem simbólica como mensagem. tendo como grand e característica o equívoco da língua. à consistência do Outro. Se a alíngua emerge dos equívocos na língua. indica-nos as vias pelas quais se conduz a nossa prática. 3. segundo este autor. Mesmo assim. A partir deste pensamento. ao se referir à clínica. 2006 ). definindoo como restos de significa ntes que se depositam como aluviões no período de aquisição da linguagem. (Tarrab. ou seja. Na sua conferência intitulada Uma fantasia. manifeste não se incluir em nenhum grupo de línguas. 2006 ). pois estes rejeitam o inconsciente e prescindem do Outro. 1987). simultaneamente. antes mesmo de conhecer a sua significação. preservar a heterogeneidade é uma orientação para o tratamento desses sintomas que não pedem nada. se encontra a língua e o inconsciente. que são fixações de gozo. ele definiu a alíngua como constituída pelos primeiros significantes com que o sujeito entra em contacto. através de um só movimento.1. Ainda segundo Tarrab. a alíngua é algo particular de cada sujeito. (Tarrab. é o que faz com que uma língua não seja comparável a outra.3. língua materna e. Partindo do início do período linguístico . tal como o apresenta Jacques Alain Miller. . Lacan modifica a sua teoria do significante . de acordo com a aquisição da língua. essa é uma forma de fazer com cada um t enha o seu inconsciente. o início do período linguístico é o período no qual a actividade fonética se traduz na emissão de sons e est alos que consistem em manifestações respiratórias. a descodificação é a chave do sintoma. expressões sonoras mais extensas do que aquelas que serão utilizadas na língua. em 1975. chegou a afirmar que a prática consiste em procurar o equívoco nessas primeiras palavras ouvidas. como uma ³operação selvagem do sintoma´. é porque se engana quanto ao significante. Para Freud. a alíngua é um língua entre outras. Para eles . essa descodificação fracassa perante os novos sintomas. Numa conferência em Genebra sobre o sintoma . Jacques-Alain Miller (2005) usou o termo crucial: ³inventar a prática lacaniana dos nossos dias´. Lacan concebeu o conceito de alíngua. Importa destacar que devemos ter cuidado em não homogeneizar aquilo que dos sintomas actuais é chamado de ³novos sintomas´. a linguagem empresta à alíngua os traços para que esta se torne compatível com um grupo e se possa inserir na língua. (Milner . ao reino do pai. pois não tem outra para se comparar. contrária à freudiana . Assim. ³da qual basta um pouco de observação para admitir que em qualquer hipótese é preciso uma torção bem forte para a linhá-la no lote comum´. Ainda segundo Milner. pois não podemos negligenciar esses fenómenos que parecem estar fora do processo analítico. inclusive ao que ³a psicanálise tem sustentado como elaboração de saber para fazer do Pai e do semblante um uso que permita renovar o sentido do sintoma´. O último ensinamento de Lacan e o s novos sintomas O último ensinamento de Lacan. no seu livro Amor da língua (1987). é a fase quando a criança começa a manifestar alguma compreensão em relação à fala do adulto para com ela. utilizando o significante de uma nova forma. distinta em relação ao uso que a linguística faz dele. ele referiu ter procurado um termo que estivesse próximo do início da actividade fonética . Numa outra ocasião.39 Para os linguistas. ou seja. No entanto. a alíngua é uma língua como qualquer outra para o ser falante. A aprendiz agem da alíngua é um processo lento . embora quando se apresente.

ao reler Freud e beber na fonte da linguística. nos novos sintomas isso não aparece. o efeito sujeito. tão subvertida por F reud. Neste percurso. Este seminário. Se existe sempre sujeito é porque existe linguagem e se o sujeito da psicanálise é o sujeito do inconsciente. a estrutura clínica psicanalítica do sujeito do inconsciente. não se apresenta nem o sujeito. Chamarei isto de ³lingu isteria´. E afirma ainda: ³Se consideramos tudo o que. que o sintoma. do linguista. Mais ainda . a lição do seminário XX . é a despedida de um antigo discurso. nem o sintoma. 1996 ). termo rebuscado de Lévi-Strauss. é o que inaugura o segundo ensinamento de Lacan. ou seja. consequentemente.40 Para trabalhar os novos sintomas e a relação entre inconsciente e linguagem. já que a linguística é do campo da linguagem e a histeria é. É a manifestação do real nos seres falantes. o qual. Deparamo-nos com um impasse. Este é o corte que observamos no primeiro ensinamento lacaniano. onde se localiza o paradigma da estrutura rumo a uma outra leitura do inconsciente. deparamo-nos com uma dificuldade no campo da clínica. embora distinto do primeiro. O neologismo ³linguisteria´ pode ser visto como uma junção das palavras linguística e histeria. dirigindo-se a Jakobson: ³Um dia percebi que era difícil não entrar na linguística. isto é. do relatório de Roma de 1953. Lacan (1985) diz . surge uma outra clínica. que sempre teve importância no seu ensinamento . que é uma operação automática da cadeia. a estrutura clínica na qual Lacan vai apoiar as suas inovações teóricas é a psicose. tão renovada. que é lá que se garante tudo o que da sua boca se afirmou como inconsciente. mas sim de casos singulares independentes da sua estrutura clínica. pois isso poderia negligenciaria o sujeito em questão. Depois de uma primeira clínica. a partir do momento em que o inconsciente estava descoberto´. direccionar o tratamento a partir da estrutura clínica. para além do inconsciente freudiano e do Nome-do-Pai. pela definição da linguagem. (Milner. a ideia principal que devemos ter em conta é a de que há sempre um sujeito e não devemos procurar uma primeira orientação através das estruturas. Este produz-se porque o sujeito é um ser falante. do inconsciente estruturado como uma linguagem e da metáfora paterna. Posteriormente. devemos recorrer a Lacan quando o mesmo diz. do sintoma e. Jakobson. como já foi referido. não podemos dizer que estes estão fora da linguagem. em 1971. como acontece na psicose. a noção de sujeito . e Lacan acrescenta: ³um novo amor´. Podemos entã o afirmar que os novos sintomas são uma manifestação de um inconsciente real? Ou melhor. (Lacan. O sintoma. ou seja. Lacan. Na fase final do seu ensinamento. Se pensarmos nos sintomas actuais como aqueles que não se dirigem ao Outro. dedicada a Jakobson. mas sim como parte da estruturação subjectiva. 1985). não como um deficit. provém dele. No entanto. segundo Lacan. vincula-se a ele. ou seja. . uma outra concepção da linguagem. apesar de terem sido nomeados esses casos de ³novos sintomas´. embora não seja a mesma coisa que o real . como se o saber já lá estivesse. para deixar a Jakobson o seu domínio reservado. Mais ainda . O sujeito da psicanálise é o sujeito do inconsciente e a condição da sua existência é a linguagem. diz: ³mudamos de discurso´. a experiência particular de cada um. se segue quanto à fundação do sujeito. adquire uma maior relevância. ainda podemos estabelecer uma relação entre inconsciente e linguagem? Desta forma. quando este afirma que tud o o que é da linguagem depende da linguística. então será preciso. forjar uma outra palavra. Essa noção introduz na causa significante S1-S2/$. que estava presente . por excelência. ele coloca uma única objecção a Jakobson. Para Milner. que resultou d o seminário V As formações do inconsciente . mesmo não se tratando de psicose. no seminári o 20. No entanto. descobriu a eficácia simbólica. é uma manifestação do real e caracteriza -se por uma formação do inconsciente. Por exemplo: Um neurótico obsessivo é diferente de outro obsessivo e assim por diante.

pela escrita? Como se expressam essas formações do inconsciente através de uma letra? Como realizar uma interpretação ao nível da alíngua? A partir destas questões o objectivo desta investigação é perceber qual é a estrutura de linguagem do inconsciente na perspectiva manifestada pelos novos sintomas. mas é possível deslocar uma letra (testemunha a teoria dos quatro discursos). mas a letra é positiva na sua ordem. a letra mantém.´ (Milner. este esforço concretiza-se. mas a letra. por isso Lacan dizer que a ³linguisteria´ exige a experiência analítica para a sustentar. o avanço do ensinamento de Lacan demonstra um esforço em formalizar uma materialidade para o inconsciente. essa passagem indica -nos uma mudança no que ele disse sobre estrutura e sobre linguagem. Mas. porém. O termo ³linguisteria´ surge para substituir o que anteriormente dizia respeito à linguística. conclui o psicanalista francês. Neste sentido. ³A linguisteria estaria relacionada com a realidade contingent e da linguagem enquanto fundadora do sujeito. ou seja. 2001 ). há uma direcção do sentido para a letra. e que é irredutíve l à linguística. um suporte sensível.). operando assim uma mudança radical no uso que faz do termo linguagem. O sujeito da ³linguisteria´ é um ser incompleto. etc. . (Leite. A ³linguisteria´ parece estar mais ligada à relação necessária entre o analista e a linguagem. inicialmente. não mais pelo significante. é idêntica a si mesma. o significante é sem qualidades. seria uma linguagem de outra ordem. Mais tarde . A partir daqui. Sendo apenas relação de diferença. a distinção entre eles ficou um pouco confusa no primeiro Lacan. O significante . 1996). Se. a letra não é o significante. dependente da alíngua´. sublinhando. mas não consiste apenas na relação. A diferença significante . se seguirmos o pensamento de Lacan que . a letra é qualificada (ela tem uma fisionomia. podemos considerar um inconsciente estruturado como alíngua e que se revela pela letra. é impossível ser deslocado. relações com as outras letras. vai da linguagem para alíngua e do significante para a letra. constitutivo do inconsciente. Este termo aborda a questão da significação em oposição ao sentido. este é o sujeito falante. sendo integralmente definido pelo seu lugar sistémico. Nest a perspectiva. compromete a estrutura de linguagem do mesmo. parece -nos que. Lacan salienta que a sua ideia de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem não pertence ao campo da linguística. em 1971. decerto. sendo anterior a toda a qualidade. não tendo um si ao qual uma identidade possa ligá -lo. esta apenas lhe deu o suporte para poder comprovar a estrutura ³linguageira´ do inconsciente. no seu último ensinamento. O linguista descreve assim as diferenças entre letra e significante: ³O significante é apenas relação: ele represent a para e é aquilo através do que isso representa. que não há outra linguística para além da ³linguisteria´. o significante é sem positividade. um referente. Mas tal facto não quer dizer que a psicanálise seja toda do campo da linguística. mas esclarece-se no segundo ensinamento . mas que modifica pelo aparecimento da alíngua. nessa fase final de seu ensinamento.41 Ainda no mesmo seminário. O significante não é idêntico a si. Se for para procurar um sujeito da linguística. o que vem do pensamento através do processo secundário. quando vai utilizar a concepção de ³letra´ e abordá -la como um significante fora do simbólico. pertencente ao registo simbólico e aquele que representava o sujeito para um outro significante. a formalização de um inconsciente constituído pela letra. Lacan colocou em evidência o sign ificante como materialidade da linguagem. ela mesma. no discurso em que se situa. Segundo Milner.

para chegar aos novos sintomas como paradigma de um inconsciente revestido por uma nova leitura . pensam demais. é afectado pelo inconsciente. porque comprova que há um impossível inerente à língua. no seu artigo As teorias do sujeito contemporâneo e os destinos da psicanálise (2006). psicanalista. Na verdade. isso não quer dizer que não exista uma ligação entre inconsciente e linguagem. sintoma e inconsciente. Quer isto dizer que a linguística marcou todo o ensinamento de Lacan . diz que devemos ter cuidado para não criar uma teoria sobre os novos sintomas e . . Os novos sintomas. assim. O inconsciente é redefinido por Lacan como alíngua porque esta destaca a particularidade de cada sujeito e. em que consiste o saber dos que não falam. enquanto falante. É de fundamental importância organizar um saber teórico coerente como forma de abordar a problemática em questão. que não conseguem expressar um saber sobre o que sentem. A este respeito Ana Maria Rudge. O sujeito ao qual a psicanálise se dedica é o sujeito da ciência e. nem do campo da linguística. Lacan questiona. Segundo o psicanalista francês. na medida em que é parte integrante de uma língua como qualquer outra. principalmente. quando considerou o inconsciente freudiano estruturado como uma linguagem. Entretanto. não se distancia nem do conceito freudiano (ordem simbólica). afirmou: ³vocês podem-se dizer lacanianos. de acordo com a especificidade de cada cultura e de cada época. o da civilização ocidental. enquanto real da língua. ou que não conseguem dormir e ficam na internet. Embora Saussure não tivesse interesse no que ia para além da língua. pois Lacan denominava este fenómeno de ³operação selvagem do sintoma´. É importante destacar que essa nova leitura não descarta totalmente a primeira elaborada por este psicanalista. ou que estão gordos. colocam próteses. ou que estão magros. os sintomas contemporâneos vão ser sempre contemporâneos . dessa forma. fazem cirurgias plásticas. portanto. tal não significa que o linguista não reconhecesse falhas nela. ao definir o inconsciente como alíngua. definido como alíngua.42 3. fazendo-nos pensar que a sua leitura sobre inconsciente.4. Importa destacar que Lacan. ou que dormem demais. leva-nos a pensar que esta definição sustenta o que o inconsciente tem de linguístico. a partir da segunda clínica de Jacques Lacan. em 1980. Embora a relação seja diferente. entre o simbólico e o real No decorrer desta investigação . no seminário 20. na maioria por parte de adolescentes e jovens adultos. um sujeito e as suas singularidades ultrapassa m sempre as construções teóricas sobre ele. um ano antes da sua morte. Foi a prática clínica que nos impulsionou a fazer esta pesquisa teórica. para Saussure. procurou-se demonstrar a relação existente entre linguagem. não são tão novos como se pensava. Como ele se considerou freudiano até ao final da sua vida. Esse para além do objecto da linguística interessa ao campo da psicanálise porqu e implica a questão do sujeito do inconsciente. Até porque o termo alíngua não representa uma negação da língua. medo.1. as compulsões e as dependências ao mundo virtual da internet. sentem tremor. Se o inconsciente é o real da líng ua e esta. o ser. um real. o que devemos fazer é procurar recursos teóricos para compreender os fenómenos actuais. pois como já referimos. etc. criar uma teoria da subjectividade contemporânea. Lacan. Ao longo de diversas épocas certamente vamos ter diversas ³operações selvagens de sintomas ´. é o objecto da linguística. Sintomas frequentes como a depressão. podemos pensar o inconsciente como um fenómeno linguístico. Os sintomas actuais: entre a linguagem e a alíngua. dizem apenas que algo aconteceu ao seu corpo. podemos continuar a acreditar que o seu conceito sobre o inconsciente permanece no campo da linguagem. mas sim o facto de ela ser considerada como não-toda. eu sou freudiano´.

Essa instituição inclui diversas Escolas freudianas de orientação lacaniana. não é o do corpo. neste seminário. Essas manifestações erráticas. 1985). Segundo Miller. O texto sobre o lapso foi escrito logo depois do seminário O Sinthoma. que resultou no livro Outros escritos. acrescentando ainda: ³Digamos que é pelo facto de Freud ter articulado o incon sciente que reajo a ele´. segundo Miller. (Lacan. mas citado por Miller nesse curso de 2007. que precisa de ser trabalhada. no seu curso sobre o inconsciente real. 3. é o do significante Um. em 1976.43 é o sujeito do significante e este. é o que há de mais singular em cada ser falante. 2003 ). no seu seminário 24. surgem já em Lacan no que ele chamou de ³real sem lei´. a frase e o pensamento. Todos os anos. O sinthoma .5. O sinthoma . Mais tarde. nesta nova concepção. valorizadas na psicose. O significante . No seminário O sinthoma. representa um sujeito para outro significante. só então temos a certeza de estar no inconsciente´. tendo com este uma relação muito mais complexa e diferente. para Lacan. um real separado do simbólico e que o supera. pois para o apreender ele teve necessidade de alojar o grande Outro. E daí surge a questão central para Lacan: O que é o cor po então? ³É ou não é saber do U m?´ (Lacan. 1985). reaparece ³erraticamente´. o qual Lacan inicia com as seguintes palavras: ³Quando o esp de um laps já não tem nenhum impacto de sentido (ou interpretação). Miller realiza um curso sobre um novo seminário publicado de Lacan. em ³resposta ao comentário de Jean Hypolite sobre a Verneinung de Freud´ que. ³é a introdução da diferença enquanto tal. ainda não publicado. Neste sentido. o espaço de um lapso refere-se a uma disjunção entre o inconsciente e a interpretação. insiste Lacan. publicado em 2007. afirmando que . como diz ainda Miller. uma vez desprovido de toda a manifestação simbólica. com sede em Paris. ainda segundo Lacan. O inconsciente real e o s novos sintomas Jacques Alain Miller. há um artigo intitulado ³ Prefácio à edição inglesa do seminário 11 ´. (Lacan . Em 2001. O curso de 2007 intitulou-se O Inconsciente Real e aqui ele faz muitas referências ao seminário 23. ou seja. no entanto. Retornando a 1956. nesta altura Lacan refere. a palavra. No final deste livro. esse significante Um não é um significante qualquer. 2007). no campo. para não o deixar fora da linguagem. genro de Lacan e responsável pela transcrição e publicação dos seus seminários. uma colectânea de textos. em França. Nest e seminário. representa a ordem que faz toda a cadeia subsistir. aloja-se no Um e Lacan define . ele introduz algo que vai para além do inconsciente. podemos considerá-lo estruturado como alíngua. opondo este. No entanto. o UM pelo sinthoma. Lacan afirma: ³É pelo fa cto de Freud ter verda deiramente feito uma descoberta que se pode dizer que o real é a minha resposta sintomática´. é signo de um sujeito e é nisso q ue ele se torna ser. a frase ³o esp d¶um laps´ pode ser distorcida no sentido de significar que ³o inconsciente é o real ´. no capítulo intitulado Do inconsciente ao real. os seus seguidores prepararam e divulgaram. O que o significante define é a sua diferença em relação a outro significante. L¶une-bévue. encarnando na alíngua aquilo que se manifesta indeciso entre o fonema. há uma outra inovação no seu último ensinamento. foi o fundador da Associação Mundial de Psicanálise. que permite extrair da alíngua o que é do significante´. ou seja. por sua vez. segundo este mestre.1. quando refere que o inconsciente não é o que o sujeito tem mais de singular. não é mais uma formação do inconsciente. O sinthoma. o do significante mestre que estabelece a ligação do sujeito ao saber. O saber do Um. Lacan atribui uma ortografia nova à palavra sintoma que. em vários países. ( Lacan. no âmbito da comemoração dos 100 anos de Lacan. Segundo Miller. ao inconsciente . ele acrescenta que essa proposição não é evidente.

podemos constatar. retomando o pensamento de Miller no seu texto Uma fantasia (2005). Esta nova forma de leitura do inconsciente. objecto causa de desejo. que poderia existir uma terceira metáfora. torna-se numa prática de atenção para uma leitura e não uma interpretação. quando o mesmo destacou a existência de duas metáforas. ela liber ta uma verdade falhada. o esquema S1-S2 muda de configuração. O que ele quis dizer. o real. não minta. em 1975. mas sim o UM-sozinho. sem efeito de verdade. como se ele a ajudasse a emergir.44 há uma exclusão entre estas duas funções no que se refere ao inconsciente. perdendo-se a ligação nele existente. isto é. do qual fala Lacan no livro Os Outros Escritos. ou seja. captar o real dessa língua. numa palestra nos Estados Unidos. Lacan defende que o verdadeiro está à deriva quando se trata do real. sendo S1 o significante da transferência na sua ligação com S2. O autor insiste que só se tem certeza de que há inconsciente quando não surge essa referida ligação. será realizada através da apreensão dessa atenção no espaço de um lapso. Se assim acontecer. condiciona a associação. Para Lacan. o protagonista não é mais o analista. o S1 fica desarticulado. ou seja. Há uma desconexão entre o significante do lapso e o significante da interpretação. no seu primeiro tempo . um significante qualquer. O interveniente habilitado para fazer essa atenção funcionar é o sujeito suposto saber. Neste sentido. nesse seu último ensinamento . a da agricultura pela indústria e a da natureza pelo real. captar a alíngua. aparte do significante. surge o sujeito suposto de saber. Segundo Miller. retirá-la dessa posição. para uma outra estrutura com estatuto de real. Na civilização actual. Desta ligação. a associação livre não é tão livre assim. apenas acontece se houver um analista. O inconsciente estaria estruturado numa escrita existente nesse espaço de um laps o? Afinal. ou uma falsa verdade. regra principal da psicanálise. Seguindo este raciocínio. no último ensinamento de Lacan ela é entendida como um Simbólico organizado por um Real. a associação livre apenas acontece a partir da atenção do analista. é o que acontece quando não se atinge o sentido nem a interpretação. como significado de determinado significante. neste sentido. estaria no intervalo entre S1 e S2? A prática analítica . A intervenção psicanalítica é evidente no estabelecimento da transferência como S1-S2. Lacan. referido anteriormente . provocando um efeito de verdade. Segundo Lacan. no último Lacan. o que o intervalo da cadeia impõe é da ordem do sem -sentido. segundo Miller. nes ta perspectiva. Desta forma. No es d¶um laps . transferencial e isso muda tudo porque nega o inconsciente sob transferência. o que acontece entre S1 e S2. ou seja. o psicanalista tenta afastar a psicanálise da crença na verdade. era que existia alguma coisa q ue não era um significante. o desafio seria apreender esse sem -sentido e procurar fazer uma leitura a partir daí. No seminário O Sinthoma (2007). trata -se de um exercício de se ler o que está nesse intervalo. A associação livre. E essa atenção. mas a verdade da psicanálise só tem uma palavra. se antes era vista como somente organizada pelo Simbólico. tinha como referência o retorno da articulação de S1 e S2 . afirmou que não estava absolutamente comprovado que as palavras fossem o único material do inconsciente. muda a definição de estrutura que. mas que mesmo a ssim pertencia ao inconsciente. aquilo que ele acabou por denominar de objecto. ou seja. a verdade depende da crença numa articulação. a crença no verdadeiro é o que há de comum entre psicanálise e religião. A prática da psicanálise lacaniana . a prática clínica desloca -se para a intervenção do analista com base no intervalo da cadeia. não há verdade que . Quando Lacan coloca a questão do espaço de um lapso. . podemos considerar que a estrutura do inconsciente. retira desse esquema o valor de S1 sozinho. O esp de um laps. o que acontece no espaço de um lapso. a da passagem da estrutura de linguagem do inconsciente como simbólica. ao ser filtrada pela atenção. salientando que nunca teria dito que o mesmo fosse um conjunto de palavras. Assim. A intervenção analítica.

todos se desligam´. o simbólico é uma condição de existência na realidade´. Lacan faz esta distinção quando começa pensar a psicanálise a partir do real e . A partir desta leitura. Assim. 1996). escrever. (Lafont . formular. quando colocamos a questão do inconsciente real como sendo da ordem da letra. pela existência. o estatuto do sujeito nesses fenómenos? Miller ajuda -nos a encontrar a resposta a esta questão quando diz que mesmo assim algo advém do que está forcluído para o sujeito e que para Lacan esse algo que emerge sem a forma de retorno do recalcado. Lacan conseguiu observar que o pai da psicanálise distinguiu um outro movimento do inconscien te diferente do recalcamento. seja ele arbitrário (Saussure) ou contingente (Lacan). Freud já se apercebia de um elemento inexistente. nessa perspectiva. e elas definem -se. refere Milner. Portanto. o que não parec e ser o caso dos sintomas actuais. nomear. segundo Milner. bem como sobre uma falta no significante. referindo inclusive que muitas pessoas o escreveram antes dele. segundo este psicanalista. que deriva da instância do real . indicando-nos que não existe um retorno do recalcado. Ao consideramos que os novos sintomas nos revelam uma for clusão do simbólico. o que é particularmente interessante. o sujeito para um outro significante. no seu . O significante não pode ser instituído. o qual se mostra adequado para trabalhar as noções freudianas. enquanto a letra. sem retorno daquilo que faz parte da história do sujeito é o real e não a história. ao usar a palavra verwerfung. ³trata-se de depreender as relações que mantêm entre si o Real. O psicanalista francês referiu que esse esquema do nó se traduziu numa grande ajuda para o seu trabalho e para os seus ensinamentos . que difere do significante. Pensar a partir da história permite a articulação entre S1 e S2 e uma relação com o Outro. Ao reler literalmente o trabalho de Freud. segundo Miller. ´ (Milner. tal como o traduz Lacan. Ist o quer dizer. ³dado que. 1990 ). Imaginário e Real. (Lafont. Lacan afirma que inventou o que se escreve como real. elos esses denominados de Simbólico. para ele. manipulável e transponível para a letra. acrescentando este linguista: ³Transmite aquilo do que ela é. que o que não está escrito no simbólico. um significante não se transmite e nada trans mite: ele representa. porém. uma diferença entre história e real. todas elas referentes à relação do Real com o Simbóli co. no ponto das cadeias onde se encontra. a sua escrita sobre o real tem a forma do nó borromeano. Miller refere. Ainda no já referido seminário O Sinthoma (2007). respectivamente. uma cadeia de três elos formada por um só fio. Nos últimos anos do seu ensinamento . in-existe. Este termo. (Miller. distinção fundamental presente no pequeno texto onde se refere ao l¶esp d¶um laps. o Real e o Imag inário mantêm entre si´. criar as palavras que convêm para falar das relações que o Simbólico. Lacan afirma que a simbolização é a condição para que haja existência. o suporte. Segundo Lacan. como fica . a história. Essa cadeia borromeana ³é uma cadeia tal que. mas sim da matemática e da lógica. os três elos só se compreendem nas suas relações. 2006). serve para falar sobre uma abolição simbólica.45 revelada pelos novos sintomas. Esta escrita é utilizada por ele para demonstrar que está relacionada com a criação do sentido e das suas relações com o inconsciente e com o sintoma. Segundo a mesma autora. na sua ligação. No seminário O Sinthoma. ou seja. 1990). Todo o seu esforço no final do seu ensinamento ³é no sentido de referir. para que algo venha a ser para o sujeito. (Lafont. que mais tarde o discurso analítico traduziu como sendo forclusão. então. pelo furo e pela consistência´. Esta terceira metáfora seria obviamente um desdobramento da segunda e não uma exclusão da mesma. 1990 ). estabelecendo. Lacan adopta um aparelho que não é da psicanálise freudiana. ela é. vincula os três anéis. dessa forma. Este nó é a forma como se unem os elos e ocupa um lugar particular na teoria lacaniana. que são heterogéneos . o significante deriva d o registo do Simbólico. no meio de um discurso. é um fenómeno de interpretação. se cortarmos qualquer um dos seus anéis. o Simbólico e o Imaginário. Lacan realizou algumas alterações importantes.

ainda jovem. um real que fala sozinho. que articula coi sas que vão muito para além daquilo que o falante suporta saber acerca do que diz. É algo que acontece sob a forma de resistência sem transferência . o inconsciente.46 curso O inconsciente é real . isto é. uma reviravolta no seu ensinamento. com a histeria e com a história. quando Lacan. Miller acrescenta que não é um significante que falta. mas sim para o sujeito sozinho. erraticamente . algo que não é para o Outro. O inconsciente representa um saber lidar com isso. uma prática que põe em jogo o real. a operação de for clusão do simbólico origina o real. u m real separado da fala. tornando a prática psicanalítica um desafio. existe uma suposta simbolização. Esse indício já existia mesmo antes desse escrito. é uma significação tão estranha que o sujeito não consegue comunicá -la ao Outro. pelo contrário. emerge no real. encontramos em Lacan. Desta forma. No começo da psicanálise . . ocorrendo assim. trabalho esse que implica muito mais coisas do que a linguagem nos permite conhecer . como diz Jacques Alain Miller. só ele que sabe. tal como enfatiza Lacan no Prefácio da edição inglesa do seminário XI. Ao desenvolver essa pesquisa teórica para compreender o movimento dos novos sintomas. não a partir da histeria e da história . mas sim a partir de uma teoria a partir da psicose. Nest a perspectiva. como aconteceu com Freud. para Lacan. na última fase do seu ensinamento. de forma ilegal. O ser falante apresenta sempre afectos cheios de enigmas e e stes afectos enigmáticos são apresentados pela alíngua. O esp d¶um laps. consigo. um real que nada espera da fala. entrando assim na obra de Freud pela via da psicose. uma teoria do inconsciente elaborada . um saber trabalhar com a alíngua. evoca a personagem Aimée na sua tese de psiquiatria. como diz Lacan. enquanto que. diz Lacan em O Sinthoma . que o retorno do recalcado se pode considerar como um retorno legal e o que surge no fenómeno onde o simbólico está for cluído é algo de uma outra dimensão. na psicose. percebemos que os novos sintomas colocam frente a frente histeria e psicose. é o testemunho de um saber que muitas vezes escapa ao ser falante e este dá-nos a oportunidade de observar os efeitos da alíngua. isto é.

tema escolhido para o presente trabalho . o inconsciente. implicariam uma investigação e análise inesgotáveis. os novos sintomas. mantém uma estrutura de linguagem. por outro é interessante perceber que as questões ficarão em aberto. se por um lado geram alguma frustração. a referida inquietação emerge ainda das rápidas mudanças aos níveis do pensar. o que não se traduziu numa tarefa fácil. tratam-se apenas das últimas considerações acerca das hipóteses levantadas neste trabalho. o que implicou avanços e retrocessos na análise do ensinamento de Lacan. antes mesmo de Freud falar sobre esta instância através de seus estudos com as afasias. surgiram várias questões sobre as estruturas de linguagem que compõem as diversas formações do inconsciente e as suas aproximações com alguns conceitos linguísticos como signo. tentando -se transpor. culminando na publicação de um artigo sobre a grande descoberta do inconsciente. foi resultado de uma inquietação surgida da prática clínica. Cada artigo escrito pelo mestre austríaco comprovava o seu afastamento da medicina e sua entrada no campo da linguagem. O primeiro capítulo desta dissertação teve como objectivo apresentar uma constatação do inconsciente como uma linguagem . para além do simbólico. Foram destacados textos clássicos freudianos que comprovam essa realidade. cujas discussões teóricas ainda estão em construção. As questões e dúvidas mantêm-se no segundo capítulo . A partir desse movimento. do ser e do ter que têm ocorrido na sociedade e cultura actuais. apresentar certezas ou negações em relação ao tema em análise. as questões assumem contornos mais insistentes e mais complexos. ao abordar-se a questão central dest e trabalho. foram trazidas questões relacionadas com a alíngua e com o inconsciente real. fazendo-nos recorrer aos mecanismos linguísticos da metáfora e metonímia. com cautela. aguardando por outros tempos e novas e mais respostas. nos novos sintomas. nem tenha sido resolvido o problema central. significante . As questões aqui trabalhadas centraram-se na relação entre psicanálise e linguagem. retomados por Lacan na leitura que este fez de Jakobson. considera -se que as questões aqui apresentadas foram devidamente trabalhadas. adoptando uma forma real. nem fechar. Na tentativa de encontrar respostas. No último capítulo. a presente investigaçã o não foi certamente infrutífera. que tem como instrumento principal a fala e a linguagem. entre outros. De qualquer forma. o que nos faz deparar com algumas limitações que. Os novos sintomas e a relação do inconsciente com a linguagem. Nesta construção. Para além disso. os quais. mas que vai para além dela. possuindo estatuto de alíngua. Importa referir que o tema em questão é actual e recente . do sentir. o qual. não se tratam de conclusões . pois abordaram-se conceitos linguísticos e psicanalíticos deveras complexos e delicados. em relação ao si ntoma segundo Freud e Lacan. pois não é possível concluir. como o próprio nome indica. tendo em conta o contexto onde se inserem. por si só. como qualquer formação do inconsciente tem uma linguagem e sentido . suscitando dúvidas constantes no que diz respeito à relação do inconsciente com a linguagem e com a linguística. ou seja.47 CONSIDERAÇÕES FINAIS As considerações finais aqui apresentadas. a barreira existente entre a linguística e a psicanálise. pelo contrário. Embora as questões não tenham sido respondidas com certezas. .

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