Você está na página 1de 5

CIDADANIA NO BRASIL

O longo caminho
José Murilo de Carvalho

Resumo:

Introdução:
O fim da ditadura militar em 1985 trouxe o sentimento de cidadania em decorrência da liberdade de:
pensamento, ação política e sindical.
Porém, o exercício de certos direitos, como a liberdade de pensamento e voto, não gera
automaticamente o gozo de outros, como a segurança e o emprego, nem a existência de governos atentos aos
problemas básicos da população.
Tornou-se costume desdobrar a cidadania em direitos civis, políticos e sociais. O cidadão pleno seria
aquele que fosse titular dos três direitos. Cidadãos incompletos seriam os que possuíssem apenas alguns
direitos.Os que não se beneficiassem de nenhum dos direitos seriam não-cidadãos.
Direitos Civis = direitos fundamentais à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante a lei.
Garantem as relações civilizadas entre as pessoas e a própria existência da sociedade civil surgida com o
desenvolvimento do capitalismo. Sua pedra de toque é a liberdade individual.
Direitos Políticos = participação do cidadão no governo da sociedade. É o direito de voto, é a parcela
da população na capacidade de fazer demonstrações políticas, de organizar partidos, de votar, de ser
votado.Sua essência é a idéia de autogoverno.
Direitos Sociais = garantem a participação na riqueza coletiva. Incluem o direito a educação, à saúde,
à aposentadoria. Permitem às sociedades politicamente organizadas reduzir os excessos de desigualdades
produzidos pelo capitalismo. A idéia central é a justiça social.
Se os direitos civis garantem a vida em sociedade, os direitos políticos a participação no governo da
sociedade e os direitos sociais a participação na riqueza coletiva, podemos dizer que:
 Direitos Civis sem Direitos Políticos = viável, porém o cidadão não se representa no governo;
 Direitos Políticos sem Direitos Civis = existem formalmente, mas sem conteúdo. Justificam governos
e não representam cidadãos;
 Direitos Sociais sem Direitos Civis e Políticos = o conteúdo e alcance tendem a ser arbitrários.
Segundo Marshal, a cidadania se desenvolveu na Inglaterra com muita lentidão, primeiro com os direitos
civis, no séc. XVIII e depois com direitos políticos, no séc. XIX. Somente no séc XX foram conquistados os
direitos sociais. A seqüência correspondeu à lógica de uma vez na liberdade civil reivindicar o direito de
votar e participar do governo. Esta participação permitiu a eleição de operários e a criação do Partido
Trabalhista, que foram os responsáveis pela introdução dos direitos sociais. Dos direitos sociais, a educação
tornou-se um pré-requisito para expansão dos demais, pois permitia às pessoas tomarem conhecimento de
seus direitos e se organizarem para lutar por eles.
O surgimento dos direitos e conseqüentemente da cidadania na Inglaterra marcaram um fenômeno
histórico, porém nos outros países o processo não se deu da mesma forma linear.
Na lógica da sequência Inglesa, no Brasil o direito social teve maior ênfase e precedeu os demais. Desta
forma, quando falamos de um cidadão inglês, ou norte-americano e de um cidadão brasileiro, não estamos
falando da mesma coisa.
Outro fenômeno histórico que fez surgir a cidadania foi o Estado-nação que data da Revolução Francesa,
de 1789. As pessoas se tornavam cidadãs à medida que passavam a se sentir parte de uma nação e de um
Estado. Da cidadania fazem parte a lealdade a um Estado e a identificação com uma nação, porém as duas
coisas nem sempre aparecem juntas. Uma pode ser mais forte que a outra e vice-versa.
A identidade nacional se deve a fatores como religião, língua, lutas e guerras. A lealdade ao Estado
depende do grau de participação da vida política. A maneira como se formaram os Estados-nação condiciona
assim a construção da cidadania.
Da relação da cidadania com o Estado-nação deriva uma última complicação: a discordância da extensão,
profundidade e rapidez do fenômeno e não se sua existência. A internacionalização do sistema capitalista,
iniciada há séculos mas muito acelerada pelos avanços tecnológicos recentes, e a criação de blocos
econômicos e políticos tem causado uma redução do poder dos Estados e uma mudança das identidades
nacionais existentes.
Não se apresenta pelo autor uma receita para cidadania, mas um convite ao leitor para desenvolver sua
visão do problema e assim exercer sua cidadania.

Capítulo I – Primeiros Passos (1822-1930)

O PESO DO PASSADO (1500-1822):


A colonização portuguesa: “Os portugueses construíram um enorme país dotado de unidade
territorial, lingüística, cultural e religiosa, mas deixaram uma população analfabeta, uma sociedade
escravocrata, uma economia monocultora e latifundiária = um Estado Absolutista”.
A colonização e dominação se deu pela guerra, escravidão e doença de milhões de índios. Em seguida a
produção de açúcar para suprir o mercado europeu e depois a mineração e criação de gado no séc XVII.
 Os escravos começaram a ser importados na segunda metade do séc XVI e a prática continuou até
1850, 28 anos após a independência. Calcula-se que até 1822 tenham sido introduzidos na colônia
cerca de 3 milhões de escravos. Em todos os setores da sociedade havia escravos: a escravidão
penetrava em todas as classes, de alto a baixo.
 Os índios foram rapidamente dizimados. Calcula-se que havia na época da descoberta cerca de 4
milhões de índios. Em 1823 restava menos de 1 milhão.
 No período colonial não havia poder público, ou seja, não havia a garantia de igualdade de todos
perante a lei, nem a garantia dos direitos civis. A grande maioria da população ficou excluída dos
direitos civis e políticos e sem a existência de um sentido de nacionalidade.
 Em 1872, meio século após a independência, apenas 16% da população era alfabetizada. As
universidades no Brasil. Contrastando com a Europa, Portugal não permitia a criação de
universidades em suas colônias. Somente após a chegada da corte, em 1808, as escolas superiores
foram admitidas. Os brasileiros que quisessem e pudessem seguir curso universitário, tinham que
viajar para Portugal, sobretudo Coimbra.
 1822 – A Independência do Brasil: após a independência nada mudou no quesito ‘cidadania’.
 Ao contrário de outros países da América Latina, no Brasil a independência foi pacífica. Na verdade
foi uma negociação entre a elite nacional, a Coroa Portuguesa e a Inglaterra, tendo como figura
mediadora o Príncipe D.Pedro.
 Com a independência houve uma unificação territorial, ao invés de fragmentação.
 1824 - foi outorgada a primeira Constituição que regeu o Brasil até o fim da monarquia, combinando
idéias de constituições européias, como a francesa de 1791 e a espanhola de 1812. Estabeleceu os três
poderes tradicionais: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Como resíduo do absolutismo, criou
ainda um quarto poder, chamado de Moderador, que era privativo do imperador.
 1831 - o povo exerceu seu poder forçando o imperador a renunciar. Este ano pode ser considerado o
verdadeiro ano da independência do país, porém os efeitos da transição de 1822 já eram
suficientemente fortes para garantir a solução monárquica e conservadora.
 A tranqüilidade da transição facilitou a continuidade social. Implantou-se um governo ao estilo das
monarquias constitucionais e representativas européias, mas não se tocou na escravidão. Assim,
apesar de constituir um avanço no que se refere aos direitos políticos, a independência, feita com a
manutenção da escravidão , trazia em si grandes limitações aos direitos civis.
 Entre 1822 e 1930 houve eleições ininterruptas, sendo suspensas apenas em casos excepcionais,
porém a Constituição definiu quem teria direito de votar e ser votado: homens de 25 anos ou mais que
tivessem renda mínima de 100 mil-réis.As mulheres não votavam, assim como os escravos que nem
cidadãos eram considerados.
 Mais de 85% destes eleitores eram analfabetos, incapazes de ler um jornal ou um decreto do governo
e eram representados pelos grandes proprietários rurais. Nas cidades muitos votantes eram
funcionários públicos controlados pelo governo.
 A maior parte dos cidadãos do novo país não tinha noção do que fosse um governo representativo, do
que significava o ato de escolher alguém como seu representante político. Até mesmo o patriotismo
tinha alcance restrito. Para muitos não passava do ódio ao português, não era o sentimento de
pertencer a uma pátria comum e soberana.
 A luta política era intensa e violenta. O que estava em jogo não era o exercício de um direito de
cidadão, mas o domínio político local. A derrota nas urnas significava desprestígio e perda do
controle de cargos públicos, então tratavam de mobilizar o maior número possível de dependentes
para vencer as eleições.
 Daí surgiram vários especialistas em burlar as eleições. O principal era o ‘cabalista’. A ele cabia
garantir a inclusão do maior número possível de partidários de seu chefe na lista de votantes
fornecendo a prova testemunhal de alguém pago para jurar que o votante tinha renda legal.
 Outro personagem importante foi o ‘fósforo’ que se apresentava no lugar do votante caso este não
pudesse comparecer por qualquer motivo, mesmo a morte. Bem falante e com seu papel ensaiado, ele
convencia a mesa que era o votante legítimo. Ele apresentava-se em diferentes locais e votava no
lugar de diversos votantes.
 Mais um personagem foi o ‘capanga eleitoral’. Ele amedrontava os votantes para que faltassem às
eleições e entendessem que votar era perigoso.
 Outra malandragem eleitoral era que no caso de não comparecerem votantes, a eleição se fazia assim
mesmo. A ata era redigida como se tudo tivesse acontecido normalmente. Eram as chamadas eleições
feitas ‘a bico de pena’.
 O voto era um ato de obediência forçada ou, na melhor das hipóteses, um ato de lealdade e de
gratidão, porém à medida que o votante se dava conta da importância do voto para os chefes políticos,
ele começava a barganhar mais, a vendê-lo mais caro. O pagamento poderia ser feito de várias
formas: em dinheiro, roupa, alimentos ou animais. Aqui os cabalistas mantinham seus votantes
reunidos e vigiados em barracões onde lhes dava farta comida e bebida até a hora de votar. Alguns
votantes conseguiam vender seu voto a mais de um cabalista e aí não se configura mais a expressão
de obediência e lealdade, era mercadoria a ser vendida pelo melhor preço. Era a oportunidade para
ganhar dinheiro fácil, roupas ou no mínimo uma boa refeição.
 O encarecimento do voto e as fraudes generalizadas levaram à crescente reação contra o voto indireto
e a campanha pela introdução do voto direto.
 Além da participação eleitoral, após a independência, outras formas de envolvimento dos cidadãos
com o Estado também ocorreram, porém a mais importante foi o serviço do júri. Pertencer ao corpo
de jurados era participar diretamente do Poder Judiciário.
 No entanto, a forma mais intensa foi a Guerra do Paraguai criando a identidade nacional,
materializando a pátria e aí surge o sentimento de nação no Brasil.
 1881 - Tropeço: A Câmara dos Deputados aprovou lei que introduzia o voto direto, eliminando o
primeiro turno das eleições. Saem os votantes e surgem os eleitores. Passou, também, para 200mil
réis a exigência de renda, proibiu o voto dos analfabetos e tornou o voto facultativo.
 Estas alterações diminuíram a quantidade de eleitores de 1 milhão de votantes para 100 mil eleitores
caminhando para trás na história. Nem a proclamação da República, em 1889, alterou este quadro.
 1891 – A Constituição Republicana eliminou a exigência de comprovação de renda, mas manteve a
exclusão dos analfabetos, das mulheres, dos mendigos, os soldados e membros das ordens religiosas.
Ela introduziu a federação de acordo com o modelo dos EUA, então os presidentes dos estados
passaram a ser eleitos pela população, porém o que deveria aproximar o governo da população, na
verdade aproximou o governo das ‘elites’locais. São Paulo e Minas Gerais mantiveram o controle da
política nacional até 1930. Foi a República dos Coronéis, onde o posto mais alto da Guarda Nacional
era representado pelos coronéis que firmavam alianças entre os presidentes dos estados e estes com o
presidente da República. Continuavam as fraudes e corrupção.
 A limitação do direito do voto baseado no argumento de que o povo não tinha condições de exerce-lo
adequadamente, justifica-se pelo fato de o cidadão não ter experiência política prévia que preparasse
para exercer suas obrigações cívicas. A população saída da dominação colonial portuguesa não tinha
condições de comportar-se como cidadãos atenienses, ou como cidadãos norte-americanos. O Brasil
não passara por nenhuma revolução, então o processo de aprendizado democrático tinha que ser, por
força, lento e gradual. As práticas fraudulentas forçadas pelo governo e as elites impediam a exercício
do verdadeiro voto. Mesmo o modelo de prática eleitoral na Inglaterra era corrupto e excluía a classe
operária, porém houve pressão popular que forçou a elite a democratizar a participação, fato que não
ocorreu no Brasil. E também não houve aprendizado do exercício dos direitos políticos de forma
contínua e com esforço, por parte do governo, de difundir a educação primária.

 DIREITOS CIVIS SÓ NA LEI:


A herança colonial pesou mais na área dos direitos civis. O novo país herdou a escravidão, que
negava a condição humana do escravo, a grande propriedade rural, fechada a ação da lei e um Estado
comprometido com o poder privado.
 A escravidão somente foi colocada seriamente em questão na guerra contra o Paraguai, embora o
tráfico de escravos tivesse sido proibido como exigência da Inglaterra pelo reconhecimento da
independência, prática que não ocorreu na verdade. Só existia no papel, daí a expressão: ‘lei para
inglês ver’.
 1850 - a Marinha inglesa invadiu portos brasileiros para afundar navios suspeitos de transportar
escravos e só então o governo decidiu interromper o tráfico de maneira efetiva.
Por ocasião da guerra contra o Paraguai a escravidão representou motivo de grande constrangimento e
mostrava-se perigosa para defesa nacional, pois impedia a formação de um exército de cidadãos e
enfraquecia a segurança interna.
 1871 – Visconde do Rio Branco aprovou a lei que libertava os filhos de escravos nascidos daquela
data em diante, porém poderiam ter sua mão-de-obra explorada gratuitamente até os 21 anos de idade.
 1888 – Após 1 ano de movimento popular abolicionista, veio a liberdade aos escravos. Neste
momento eles representavam apenas 30% da população. Até lá a única maneira de tentar a liberdade
era a fuga para os quilombos, que também não duravam muito, pois logo eram atacados pelas forças
do governo ou particulares. O aspecto mais contundente da difusão da propriedade escrava revela-se
no fato de muitos libertos possuíam escravos. Testamentos examinados por Kátia Mattoso mostram
que 78% dos libertos da Bahia possuíam escravos. Isto indica que os valores da escravidão eram
aceitos por quase toda a sociedade. Mesmo os escravos, embora lutassem pela própria liberdade,
embora repudiassem sua escravidão, uma vez libertos, admitiam escravizar os outros. Tudo indica
que os valores da liberdade individual, base dos direitos civis, não tinham grande peso no Brasil.
 No Brasil a religião Católica não combatia a escravidão.Conventos, clérigos das ordens religiosas e
padres seculares, todos possuíam escravos. Entendiam que a Bíblia admitia a escravidão e o
Cristianismo não a condenava.
 Fora do campo religioso, o principal argumento que se apresentava no Brasil em favor da abolição era
o que podíamos chamar de razão nacional, em oposição à razão individual dos casos europeu e norte-
americano. A razão nacional foi usada por José Bonifácio, que dizia ser a escravidão obstáculo à
formação de uma verdadeira nação, pois mantinha parcela da população subjugada a outra parcela,
como inimigas entre si.
 Joaquim Nabuco dizia que a escravidão bloqueava o desenvolvimento das classes sociais e do
mercado de trabalho, causava o crescimento exagerado do Estado e do número dos funcionários
públicos, falseava o governo representativo.
 A influência do Estado absolutista, em Portugal, acrescida da escravidão, no Brasil, originou um
governo paternalista onde se podia minorar sofrimentos individuais,mas não podia construir uma
autêntica comunidade e muito menos uma cidadania ativa. Foram poucas as vozes que insistiram na
necessidade de assistir os libertos, dando-lhes educação e emprego, como foi feito nos EUA. Passada
a euforia da libertação, muitos escravos voltaram a suas fazendas, ou fazendas vizinhas, para retornar
ao trabalho por baixos salários ou dirigiram-se às cidades, como o Rio de Janeiro, onde foram
engrossar a grande parcela da população sem emprego fixo. Onde havia dinamismo econômico
provocado pela expansão do café, como em SP, os novos empregos, tanto na agricultura, como na
indústria, foram ocupados pelos milhares de imigrantes italianos que o governo atraía para o país. Lá,
os ex-escravos foram expulsos ou relegados aos trabalhos mais brutos e mais mal pagos.
 Até hoje essa população ocupa posição inferior em todos os indicadores de qualidade de vida. É a
parcela menos educada da população, com os empregos menos qualificados, os menores salários, os
piores [índices de ascensão social.
 As conseqüências da escravidão não atingiram apenas os negros. Do ponto de vista que aqui nos
interessa – a formação do cidadão - , escravidão afetou tanto o escravo como o senhor.A libertação
dos escravos não trouxe consigo a igualdade efetiva. Essa igualdade era afirmada nas leis,mas negada
na prática. Ainda hoje, os privilégios e arrogância de poucos correspondem o desfavorecimento e a
humilhação de muitos.

 A GRANDE PROPRIEDADE:

Outro grande obstáculo à expansão da cidadania, herdado da Colônia, era a grande propriedade rural.
Ela ainda se faz sentir no Brasil de hoje, assim como os efeitos da escravidão. O grande proprietário e
coronel político ainda age como se estivesse acima da lei e mantém controle rígido sobre seus trabalhadores.
Até 1930 o Brasil era um país predominantemente agrícola, segundo o censo de 1920, apenas 16,6% da
população vivia em cidades. A economia passava pela fase ‘voltada para fora’, orientada para exportação de
produtos primários, como o café, o açúcar e o algodão.