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I

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA


“JÚLIO DE MESQUITA FILHO”

PROJETO INSTITUCIONAL UNESP / PEDAGOGIA CIDADÃ

LUCIANA MARIA AGUIAR SANTOS

SOCIALIZAÇÃO DA CRIANÇA
PORTADORA DA SÍNDROME DE DOWN

Sorocaba
2005
II

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA


“JÚLIO DE MESQUITA FILHO”

PROJETO INSTITUCIONAL UNESP / PEDAGOGIA CIDADÃ

LUCIANA MARIA AGUIAR SANTOS

SOCIALIZAÇÃO DA CRIANÇA
PORTADORA DA SÍNDROME DE DOWN

Trabalho apresentado como exigência parcial para a


Conclusão do Curso de Pedagogia do Projeto
Institucional UNESP/Pedagogia Cidadã, sob a
orientação do Prof. Manoel Antônio de Almeida
Monteiro

Sorocaba
2005
III

Dedicado à minha filha Isabela, minha amiga, meu norte,


meu maior apoio e minha maior fonte de ânimo e, da mesma
forma, ao fruto divino que ainda carrego dentro de mim, meu
filho João Pedro, com muito amor.
IV

AGRADECIMENTOS

Agradeço a todos os professores do Projeto Institucional UNESP/Pedagogia Cidadã.

Agradeço também aos colegas e amigos de curso.

Agradeço, em especial, ao meu marido Jefferson pelo apoio incondicional e pelo

companheirismo de todas as horas.

Acima de tudo, agradeço a Deus pelo amor infinito, pela proteção constante e pela

oportunidade de realizar mais esta etapa da vida.


V

“Uma escola não é somente um local de conhecimento. Não


é somente um local de aprendizagem, onde tem
professores, paredes etc. Uma escola é essencialmente um
conjunto de relações humanas.”
(Moacir Gadotti)
VI

RESUMO

Este estudo aborda a questão da socialização de crianças portadoras da Síndrome


de Down, através de jogos e brincadeiras, trazendo grandes contribuições diante da
inclusão, que vem sendo implantada em escolas de Educação Infantil. Alem da
linguagem do brincar que vai se desenvolvendo no campo do imaginário em
companhia da família, esse processo de socialização vai sendo enriquecido mais
adiante pelos outros grupos sociais aos quais a criança integre. No entanto, crianças
portadoras de necessidades especiais, às vezes, necessitam de ajuda especifica
para desenvolver suas habilidades sociais. O estudo mostra como a família age e
reage ao ter um filho com necessidades especiais e como sua ajuda é primordial em
seu desenvolvimento através da estimulação essencial ou precoce. A pesquisa
contempla um levantamento bibliográfico sobre o assunto e também uma pesquisa
de campo, onde foi observando uma sala de aula com crianças de 4 a 6 anos na
qual está incluindo; um portador da Síndrome de Down interagindo em situações de
jogos e brincadeiras. De modo geral pôde-se verificar situações lúdicas
desenvolvidas com as crianças, e uma socialização espontânea. Não foi identificado
bloqueios ou dificuldades, na classe observada, pois todos demonstram grande
colaboração nas relações sociais, onde professor e alunos eram muito solidários
com a criança portadora de necessidade especifica.

Palavras-chave: Síndrome de Down, socialização, estimulação essencial.


VII

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO........................................................................................................................7

1. SÍNDROME DE DOWN: CONSIDERAÇÕES GERAIS....................................................10

2. O PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO DA CRIANÇA DE 4 A 6 ANOS..............................14

3. A FAMÍLIA DO PORTADOR DE SÍNDROME DE DOWN................................................17


3.1 A ESTIMULAÇÃO ESSENCIAL (PRECOCE) PELA FAMÍLIA ...............................................................19

4. A INCLUSÃO ESCOLAR E A SÍNDROME DE DOWN....................................................26


4.1 BRINCADEIRAS ESCOLARES COMO FATOR DE SOCIALIZAÇÃO.........................................................28

5. PESQUISA DE CAMPO...................................................................................................32
5.1 ANALISE DAS OBSERVAÇÕES.................................................................................................33
5.2 CONSIDERAÇÕES SOBRE AS OBSERVAÇÕES...............................................................................34

CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................................................35

REFERÊNCIAS....................................................................................................................37

ANEXO I - ENTREVISTA.....................................................................................................39

ANEXO II – JOGOS SOCIALIZADORES.............................................................................41

ANEXO III - DEPOIMENTO..................................................................................................43

ANEXO IV - CARTA DE UM BEBÊ......................................................................................45


7

INTRODUÇÃO

Como professora da área de Educação Infantil, ainda foi possível vivenciar

situações de praticas educativas com crianças portadoras de qualquer necessidade

especial, mas uma me chama atenção: a Síndrome de Down, alteração genética que

ocorre na formação do bebê no inicio da gravidez. A Síndrome de Down não é

doença, é um acidente genético que acarreta atraso no desenvolvimento da criança,

necessitando de muitos estímulos apropriados.

Isto me estimulou a estudar e pesquisar para verificar como se dá o processo

de socialização da criança portadora da Síndrome de Down.

Fala-se muito sobre inclusão, integração da criança portadora de deficiências

nas instituições educacionais. Os professores na realidade não estão preparados

para atender crianças com algum tipo de necessidade especial, e com isso, têm

surgido muitas duvidas de todos os lados, pais, escola e sociedade; pois a inclusão

se dá através de um processo interativo onde a sociedade e portadores de

necessidades especiais se reconheçam e se desenvolvam, estabelecendo novas

regras fundamentais no direito de cidadania plena para todos.

A inclusão de crianças portadoras de necessidades especiais junto à

sociedade se torna difícil para a compreensão da maioria das pessoas, muitas não
8

aceitam a integração no grupo social. Isso acontece porque as pessoas se chocam

ao fato de que essas crianças são inadaptadas, o que significa que não podem ficar

com as outras. Esses preconceitos são encontrados em todos os lugares, até

mesmo dentro da própria família, por não estarem preparados e verem seu “filho”

tão esperado com tais dificuldades.

No Brasil, ainda é pouco discutida a questão da família em questões

acadêmicas, tendo apenas depoimentos de mães, aos quais deveriam dar maior

destaque, pois a família é o grupo social primário, onde o individuo já nasce com

características próprias, determinada cultura e posição sócio-econômica definida e é

a partir disso que a criança começa a aprender até que ponto ela é um ser aceitável

no mundo. Só então vem a escola (socialização – secundária) e com ela sua

socialização, onde a criança terá novos ajustes a fazer para se adaptar.

A passagem do nível familiar ao escolar, como ocorre em todas as transições

de um contexto de desenvolvimento para outros, a criança enfrenta novos desafios

cognitivos e sociais. Tanto o desenvolvimento adequado da criança, como sua

própria atitude para com a escola dependem das relações entre colegas. quando

essas relações são negativas, a criança pode apresentar dificuldades de

ajustamento (FONSECA, 1995).

Visto a importância deste estudo, foi colocado como objetivo refletir sobre

esse processo de socialização da criança de 4 a 6 anos portadora de Síndrome de

Down. Tem objetivos específicos de analisar o papel da estimulação essencial

(precoce) e do papel da família para que ocorra da melhor forma essa socialização,

alem de também refletir sobre o papel das brincadeiras escolares nesse de

socialização.
9

Para atender estes objetivos, o estudo foi estruturado em capítulos que

contemplam as temáticas: - O processo de socialização da criança portadora e não

portadora da Síndrome de Down. – A família e como acontece a estimulação

essencial (precoce) da família com a criança portadora da Síndrome de Down. – A

inclusão escolar e o papel das brincadeiras como fator de socialização da criança

portadora da Síndrome de Down.

Esse estudo tem proporcionado um acréscimo em minha vida pessoal e

profissional. Espero poder dar uma valiosa contribuição para educandos e seus

familiares, nesse processo de estimulação essencial (precoce) e socialização.


10

1. SÍNDROME DE DOWN: CONSIDERAÇÕES GERAIS

“Que me seja dada a serenidade de aceitar as coisas que não posso mudar,
coragem de muda-las quando eu puder e a sabedoria de conhecer a
diferença entre as duas situações” (Centro de informações e Pesquisas de
Síndrome de Down)

Para que possamos compreender a Síndrome de Down é preciso algumas

informações básicas.

Síndrome de Down é um atraso do desenvolvimento tanto das funções

motoras do corpo, como das funções mentais, ou seja, alteração genética que

ocorre na formação do bebê, no inicio da gravidez. Foi descoberta pelo medico

inglês John Langdon Down, em 1966.

Síndrome é um conjunto de características que prejudica de algum modo o

desenvolvimento da pessoa e Down é o sobrenome do medico que descreveu1.

Segundo o Projeto Down, normalmente se reconhece uma criança com

Síndrome de Down através dos sinais físicos que o recém-nascido apresenta, como

o bebê pouco ativo e molinho (hipotonia), os olhos bem puxados, língua para fora da

boca (protrusa), o nariz é bem achatado e largo, prega únicas nas mãos e os dedos

1
Projeto Down. Você sabe o que é Síndrome de Down?
11

do pé são mais afastados, baixa estatura na primeira infância, entre outros sinais

físicos que variam de bebê para bebê.

De acordo com o manual para pais sobre a Síndrome de Down (Ministério da

Saúde, 1994:2), a Síndrome Down não é uma doença e sim um erro genético, onde

qualquer casa pode ter um filho com Síndrome de Down, não importando sua raça,

credo ou condição social, a chance aumenta quando a mãe tem mais de 40 anos. A

Síndrome de Down não é adquirida por algum problema ocorrido durante a gravidez,

é ocasionado logo no inicio da gestação, devido á um acidente à um acidente

genético, que ocorre na divisão celular; é possível detectar se o bebê terá ou não a

Síndrome de Down, sendo assim, exclui-se qualquer hipótese da Síndrome de Down

ser contagiosa.

Passaremos a seguir para as causas da Síndrome de Down, de modo simples

para melhor aproveitamento. Toda pessoa tem seu corpo formado por pequenas

unidades chamadas células, que só podem ser vistas ao microscópio. Dentro de

cada célula estão cromossomos, que são os responsáveis pelo funcionamento do

coração, estomago e cérebro da pessoa, eles também determinam a cor dos olhos,

cabelo, altura, sexo e etc. Cada célula possui 46 cromossomos que são iguais dois a

dois (XX), existindo 23 pares ou duplas de cromossomos dentro de cada célula. Um

desses pares é chamado de par numero 21, e é onde ocorre a alteração (Síndrome

de Down), portanto, a criança com Síndrome de Down possui um cromossomo 21 a

mais, ou seja, ela tem três (3) cromossomos 21 em todas as células, ao invés de

dois (2), chamado de Trissomia de 21 apresenta 47 cromossomos, causa real da

Síndrome de Down (PUESCHEL, 1995: 54-58)

De acordo com o projeto Down, 95% dos portadores de Síndrome de Down

apresentam os cromossomos 21 separados uns outros encontrando assim 47

cromossomos (Trissomia Simples) e cerca de 2 % dos portadores de Trissomia


12

simples possuem células com 46 cromossomos que são normais junto com 47

cromossomos, células com trissomia 21 (Mosaicismo), também é encontrado um

dos cromossomos 21 unido a outro cromossomo (Translocação), que é cerca de 3%

dos casos com Síndrome de Down.

É importante salientar que não existe diferenças entre crianças com Trissomia

Simples ou Translocação, os sinais clínicos da Síndrome de Down são os mesmos

para os dois tipos.

Normalmente, a criança com Síndrome de Down apresenta alguns problemas

de saúde, má formação cardíaca, do intestino, deficiência imunológica, problemas

respiratórios (bronquite e pneumonia), problemas dermatológicos, odontológicos, de

visão e audição (Ministério da Saúde, 1994:3).

Atualmente existem exames que podem detectar a Síndrome de Down

durante a gravidez.

Na ultra-sonografia, através das características do feto: altura, tamanho das

pernas e braços, movimento, etc.; pode ocorrer a suspeita de algumas alterações

onde só é confirmado pela análise dos cromossomos do feto.

Esta analise é realizada pela amniocentese, em que é retirada uma pequena

quantidade do líquido que envolve o bebê no útero durante a gravidez. Outro exame

é o da amostra do vilocorial, pouco realizado no Brasil, feito a 8ª e a 11ª semana de

gestação.

O projeto Down, reforça que até o momento a deficiência mental acarretada

pela Síndrome de Down não tem cura, pois se trará de uma alteração genética das

próprias células e não existem drogas, vacinas, remédios, escolas ou técnicas

milagrosas capazes de curá-la. Pesquisas têm sido desenvolvidas nesse sentido,


13

mas nenhum resultado foi encontrado. É preciso que as famílias estejam sempre

alerta para que não sejam enganadas por charlatões que encontram possibilidades

de cura para Síndrome de Down.

De acordo com FONSECA (1995), os programas de estimulação essencial

(precoce) favorecem o desenvolvimento motor e intelectual das crianças com

Sindrome de Down, é o que indica a melhora no desempenho da criança durante os

primeiros anos de vida, mas não sabemos com exatidão qual sua verdadeira

contribuição, portanto, a estimulação essencial (precoce) não é a cura, é um auxilio

para o desenvolvimento do potencial da criança portadora da Síndrome de Down.

Segundo WERNECK (2000:48), “A maior limitação para que os portadores de

Síndrome de Down se tornem adultos integrados, produtivos, felizes e

independentes não é imposta pela genética, mas sim pela sociedade”.


14

2. O PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO DA CRIANÇA DE 4 A 6 ANOS

“Se a criança tem boa imagem de si mesma, ela poderá se relacionar bem
com os outros. A imagem que ela desenvolve de si mesma, está ligada à
imagem que os pais lhes transmitem” (Projeto Down)

O comportamento da criança é um reflexo de sua saúde física e emocional.

Durante muito tempo acreditou-se que a criança portadora da Síndrome de

Down era incapaz de aprender a maioria das coisas a ser educada aprendendo a

conviver num grupo, em conta disso, acreditava-se que a criança não tinha

capacidade pra aprender, então se exigia pouco.

Atualmente, muitos profissionais se conscientizaram do potencial da criança

com Síndrome de Down e sua condição de ser educada. A criança com Síndrome

de Down possui limitações principalmente no aspecto intelectual. Porém, bem

orientada, pode vir a ter uma vida semi independente, participando das atividades do

grupo em todos os aspectos, dentro de suas limitações.

A criança com Síndrome de Down deve ser educada como qualquer outra

criança. Suas iniciativas devem ser valorizadas, mais é necessário que conheça as

regras e limites. À medida que ela se torna independente, você deve ensinar-lhe o
15

que é permitido ou não. E fazer realmente com que ela entenda, conversando de

forma clara e simples e corrigir, caso seja necessário. Isso ajudará em sua

adaptação social futura, que conseqüentemente é igual a todas as crianças com ou

sem necessidades especiais.

Uma classe comum, onde esteja representada a diversidade da vida


humana, os diferentes tipos de inteligência, a riqueza das variadas
habilidades e, até mesmo, o conflito de valores, certamente propicia
a formação de alunos melhor preparados para aprimorar a
democracia e contribuir para a formação de uma sociedade mais
justa. (Reflexão da Silvia Figueiredo Gouvêa, diretora da Escola
Lourenço Castanho, que está na Pesquisa de Campo)

As capacidades de cada pessoa variam e também as capacidades de

crianças com a Síndrome de Down. Apesar de que cada pessoa nasce com certo

potencial, muito pode ser feito para auxiliar o desenvolvimento, e o meio em que a

pessoa vive influi muito, quanto maior a estimulação que a criança recebe, maior

será sua possibilidade de usar suas capacidades e conseqüentemente de se

socializar com os outros.

De acordo com o Projeto Down, nesta idade (4 a 6 anos), a criança com

Síndrome de Down, muitas vezes, torna-se mais agitada, hiperativa pode continuar

por alguns anos e algumas famílias consideram esse período muito desgastante.

Com o desenvolvimento, a criança vai “descobrindo” outras partes do corpo e

a masturbação pode aparecer após os quatro anos. Trazendo apreensão na família,

que interpreta como puberdade precoce. Porem a tendência é desaparecer a

masturbação, voltando apenas na puberdade (11-12 anos)


16

Muitos ainda acham que a inclusão é uma utopia, e que deve conduzir-nos a

um compromisso em prol do surgimento de uma nova consciência social, novas

relações entre os homens. (MENDONÇA, 1997:122-124)

Assim destaco um trecho da obra de um importante escritor colombiano,

Gabriel Garcia Márquez:

Temos o direito de acreditar que ainda não é tarde para empreender


a criação da nova utopia da vida, onde ninguém possa decidir, excluir
nem decidir por outro, até a forma de morrer ou viver. Onde as
estirpes condenadas a Cem Anos de Solidão tenham, por fim e para
sempre, uma Segunda oportunidade sobre a Terra.
17

3. A FAMÍLIA DO PORTADOR DE SÍNDROME DE DOWN

Segundo a Declaração de Salamanca (1994:37): “O papel das famílias e


dos pais pode ser valorizado se lhes forem transmitidos os esclarecimentos
necessários de informação numa linguagem simples e clara...”

Há sempre uma expectativa quanto ao nascimento de um bebê, e os pais

esperam que seus filhos nasçam sadios. Ao nascer uma criança com Síndrome de

Down, os pais ficam chocados e o primeiro sentimento é o de rejeição por não terem

informações suficientes, portanto o pânico toma conta, o medo de fazer algo errado,

de não conseguir e mesmo tudo é novo, diferente. A medida que a situação se torna

mais clara e os pais tomam conhecimento de que a Síndrome de Down é um

acidente genético e que ninguém tem controle e culpa, esses sentimentos poderão

ser superados. A insegurança, incerteza e muitas dúvidas com certeza irão surgir,

como tratar e como será seu futuro.

É preciso em primeiro lugar, para ter todas essa informação e ajuda

necessária, procurar uma instituição onde tenha um grupo de apoio para trabalhar o

que os psicólogos chamam sentimento de luto, a culpa propriamente dita. À partir

disto a família irá se preparando para aceitar essa criança e assim automaticamente

a criança vai sendo trabalhada e estimulada. Este trabalho deve ser adequado para
18

que tenha o amadurecimento neurológico e se desenvolva também com sucesso em

todas as etapas de sua vida, tendo o apoio de sua família, sendo aceito socialmente.

(PUSCHEL, 1995:23-28)

Segundo o relato da psicóloga da Apae de Sorocaba, Maria Cecília Dias

Alcoléia (ANEXO I), este trabalho é surpreendente, pois ajuda os pais a

compreenderem melhor seu filho e seus sentimentos em relação a ele, permitindo

que dessa maneira mais natural, possam iniciar uma vida juntos e felizes.

A chegada de uma criança portadora da Síndrome de Down à família requer

mudanças, mas com o apoio carinhoso que é encontrado a cada etapa da criança,

tudo se transformará em uma experiência bastante rica.

A família possui responsabilidades de fazer com que seus filhos desenvolvam

características de sua personalidade e comportamento para assim, situarem-se em

grupos aos quais possuirão a mesma cultura. Portanto, a família como grupo é

fundamental no processo de socialização da criança.

Os pais são os responsáveis pela educação inicial, ou seja, aprenderá tudo

em primeiro lugar em casa, cabe aos pais acompanharem o crescimento e

desenvolvimento de seu filho com amor e compreensão não deixando de educar

com disciplina, evitando os conflitos emocionais, só assim ambos terão uma relação

saudável entre si.

De acordo com o Projeto Down, os bebês não são todos iguais. Cada um tem

suas potencialidades e isto serve para crianças com Síndrome de Down também.

Criança é criança, independente de qualquer dificuldade ou necessidade especial

que possa vir a ter, devemos trata-las como tais. Todos temos nossas virtudes e

fraquezas, estamos sempre procurando um futuro promissor, portanto este sucesso


19

dependerá da interação positiva entre as famílias, profissionais, crianças e

sociedade.

Os pais devem procurar não superproteger a criança com Síndrome de Down,

interferindo o menos possível na brincadeira e brigas entre irmãos, permitindo que

cada um tenha suas atividades e liberdade. Se os pais tratarem a criança com

naturalidade os irmãos também o farão. Não se deve tratar a criança como se ela

fosse mais fraca, indefesa ou “diferente”. Sem fazer restrições aos irmãos, pois

assim, poderão se sentir culpados com pena ou superprotegendo-os, também é

importante para que a criança com Síndrome de Down não se torne alvo das

atenções exageradas da família para que os outros filhos não se sintam em segundo

plano.

A forma como a família poderá ajudar os profissionais da educação é o de

estar orientando e dando o respaldo com relação ao comportamento da criança

dentro do âmbito familiar, agora com relação a educação, os pais devem tentar

participar sempre da vida do seu filho, trocando experiências e buscando junto com

os profissionais reforçar esse trabalho da escola.

É trabalhar sempre em conjunto. Todos unidos sempre, e só assim o que

parece impossível tornar-se-á mais ameno.

3.1 A ESTIMULAÇÃO ESSENCIAL (PRECOCE) PELA FAMÍLIA

A educação recebida pela criança reflete no seu futuro. (FIGUEIRA,


1993:22)
20

O desenvolvimento da criança com Síndrome de Down, nos primeiros anos

de vida, é geralmente mais lento se comparado ao de outra criança.

Isto pode ser observado em relação aos aspectos motor, cognitivo e da

linguagem. Há uma grande variação entre as crianças com Síndrome de Down,

dependendo dos fatores hereditários, físicos e ambientais (Ministério da

Saúde,1994:6)

Este desenvolvimento mais lento é devido às características da Síndrome de

Down, já descritas. Por isso, um trabalho diário que ajude a criança a vencer as

etapas pode ser bastante útil e satisfatório.

Para que a criança possa atingir uma determinada fase do desenvolvimento,

ela precisa ser estimulada. A estimulação procura dar-lhe condições para

desenvolver suas capacidades desde o nascimento. Isto se aplica a todas as

crianças com ou sem atraso.

Segundo o Projeto Down, a estimulação essencial (precoce) é uma série de

exercícios para desenvolver as capacidades da criança, de acordo com a fase do

desenvolvimento em que ela se encontra. Não é complicado ou realizado com

aparelhos sofisticados, mas atividades que toda pessoa faz com os bebês, e se

pode aprender facilmente.

A maior parte dos programas de estimulação acontece com crianças de 0 a 3

anos, onde apresentam atividades de fisioterapia, fonoaudiologia e terapia

ocupacional.

Não se deve fixar idades para a aquisição de habilidades, pois há grande

variação no desenvolvimento das crianças, especialmente nas crianças com

Síndrome de Down (PUESCHEL, 1995:37-38).


21

Com base no Projeto Down, a estimulação deve ser feita de acordo com as

capacidades que cada criança apresenta. Para realização da estimulação não é

preciso mudar o dia-a-dia da família, basta implantar as atividades na rotina,

tornando agradáveis para ambos, com isso a família estará dando carinho e atenção

para seu filho, assim poderá observá-lo compreendendo melhor suas dificuldades e

qualidades. Cada criança tem seu próprio ritmo, que os aos poucos perceberão e

aprenderão a respeitar. É importante que a criança esteja calma, sem sono, seca e

alimentada para desenvolver os exercícios e obter os resultados.

O desenvolvimento geral da criança depende do ambiente em que vive.

Devem ser oferecidos estímulos variados, brinquedos coloridos, musica, conversa

ou o próprio movimento da casa, mas não é bom oferecer vários ao mesmo tempo.

O excesso pode confundir a criança, pois não conseguirá concentrar-se em um

deles.

O bebê receberá mais estímulos se for mudado sempre de posição, durante o

tempo que estiver acordado, como de bruços, lado, cada nova posição fará com que

ele perceba as partes de seu corpo e o relacione com o ambiente, ajuda também a

estimulação, deixando-o em vários lugares da casa. A criança deve sempre ficar

sempre perto de seus pais e irmãos, enquanto estiver ocupado, manter a conversa

ou brincar, assim tomando contato com o que acontece na casa ele começará a

participar. A estimulação é importante para que a criança atinja novas faces no seu

desenvolvimento, ela necessita ser estimulada a experimentar coisas novas que

estão a sua volta, conhecer e vivenciar situações e objetos. Para isso são usados os

sentidos (tato, audição, visão e paladar), as sensações e os movimentos, portanto, a

criança vai fazendo uma memória das suas vivencias, como se fosse um arquivo

sendo formado.
22

Ainda com base no Projeto Down, de acordo com a faixa etária, veremos as

fases da estimulação essencial (precoce), simplificadamente.

• Desenvolvimento de 0 a 6 meses:

A aquisição motora mais importante é o controle da cabeça, a criança deve

manter a cabeça alinhada com o resto do corpo, qualquer que seja sua posição:

deitada, sentada e mais tarde em pé. Nesta fase o bebê irá fortalecer os músculos

das costas, pescoço e até se apoiar nos cotovelos e mãos. Aprenderá também a

rolar, sentar com apoio e mais tarde sozinho.

Devido à hipotonia, é preciso realizar os exercícios quando o bebê estiver

acordado.

Exemplos:

a) Segure-o no colo e balance-o de um lado para outro, para frente e para

trás;

b) Coloque-o sentado no colo, com as pernas sobre as suas e o corpo

apoiado no seu e dar pequenos pulinhos como se fosse brincar de cavalinho;

c) Coloque-o de bruços (de costas) sobre as suas pernas;

d) A posição adequada para dormir é de lado com travesseiros apoiando-o

nas costas;

e) Na hora do banho, massageie suavemente o corpo da criança (barriga,

costa, sola dos pés e palma das mãos) com esponja áspera ou pano atoalhado para

estimular a sensibilidade do bebê.

• Desenvolvimento de 6 a 12 meses:
23

A criança torna-se mais ativa, ficando mais independente. a criança rola,

rasteja, fica sentada por um bom tempo, engatinha e, às vezes fica em pé.

Explorando assim o ambiente e fazendo um arquivo de suas experiências. A

memória se desenvolve, comunica-se com gestos e expressões próprias. As

atividades diárias do bebê devem ser diversificadas para ajudar a desenvolver suas

habilidades físicas e emocionais, incentivando assim, a participação na vida familiar

e social.

Exemplos:

a) Como carregar: fazendo cadeirinha com os braços, e quando estiver com

mais firmeza na cabeça, abraçar ao lado do seu corpo voltada para o ambiente,

ficando assim com o braço livre;

b) A cama deve ter espaço para criança se movimentar com grandes móbiles

coloridos e brinquedos ao redor da cama;

c) A criança pode ficar deitada de bruços, lado ou de costas;

d) Quando estiver deitada a criança deverá as pernas e os pés unidos;

e) Contar todo o que está sendo feito, para a criança é uma boa maneira de

se comunicar com ela;

f) É importante ensinar a criança a brincar junto, como passar a bola.

• Desenvolvimento de 12 a 24 meses, a fase do desenvolvimento:

Com dois anos de vida, a criança é mais ativa e participante, utiliza as mãos

para explorar o ambiente, e começa a construir uma memória sobre os

acontecimentos e objetos.
24

A criança começa a mostrar sua personalidade e tem grande desejo de

explorar o mundo. Algumas crianças são mais ativas, outras mais observadoras. É a

fase do andar. A criança precisa ter equilíbrio, coordenação e conhecer os

movimentos de seu corpo para andar, mas precisa estar segura e confiante. Já se

entende a criança por sons, palavras, gestos ou olhares, Eça é capaz de mostrar o

que quer e o que não quer. Mostre o que pode e o que não pode fazer (limites).

Os exercícios devem ser realizados em colchão ou no chão forrado.

Exemplos:

a) A criança deve ficar na posição de gato, coloque uma bola em sua frente

para que ela empurre-a;

b) Posição de joelhos, estimule-a com um brinquedo;

c) Ajoelhado na frente da criança, segure suas mãos na altura dos ombros,

evitando levantar seus braços acima da cabeça ou apóie-a no quadril.

• Desenvolvimento de 2 a 5 anos:

É caracterizado pela capacidade da criança de manter-se em pé, explorando

o mundo, assim tornando-se cada vez mais seguro e veloz. Como as capacidades

motoras encontram-se numa fase de aperfeiçoamento (correr, subir escadas), a

criança seguirá então para as atividades sociais e mentais (cognitivas).

a) A criança já não tem tantos problemas de saúde, como respiratórios e de

intestino;

b) O treino da higiene é importante, embora não tenha uma idade fixa;

c) A estimulação da linguagem nesta fase é muito importante;


25

d) A criança com Síndrome de Down deve ser educada como qualquer outra

criança. Suas iniciativas devem ser valorizadas, mas é necessário que ela conheça

regras e limites.
26

4. A INCLUSÃO ESCOLAR E A SÍNDROME DE DOWN

“Educação inclusiva é uma atitude de aceitação das diferenças, não uma


simples colocação em sala de aula.” (Leituras sobre Inclusão, 1994)

O movimento pela sociedade inclusiva é internacional. Tem regras bem

definidas. Foi explicada pela primeira vez em 90 pela resolução 45/91, da

Assembléia Geral das Nações Unidas. Esta resolução defendia uma sociedade para

todos. (WERNECK, 2000:21)

O trabalho inclusivo propõe amplas reformulações que com certeza,

detonarão mudanças benéficas a todos que dele participarem.

De fato, a exclusão social é uma realidade, mesmo quando as pessoas estão

devidamente apoiadas nos avanços da tecnologia aplicada à educação. Por outro

lado, sabemos que incluir não é simplesmente inserir uma pessoa na sua

comunidade e nos ambientes destinados a sua educação, saúde, lazer e trabalho.

Incluir implica em acolher a todos os membros de um grupo, independentemente de

suas peculiaridades; é considerar que as pessoas serão seres únicos, diferentes um

dos outros e, portanto, sem condições de serem categorizadas. Já é tempo de


27

reconhecerem que todos estamos juntos e nascemos neste mundo e por isso

mesmo não se pode aproximar os que estão a margem, pelos mais diferentes

motivos, entre os quais as incapacidades físicas, intelectuais, sensoriais e sociais.

(MANTOAN, 1988:15)

Quando a criança entra na escola, independente de ser portadora de

necessidades especiais, conta com uma historia de experiências anteriores que lhe

permitiram desenvolver uma visão de si mesma, seu autoconceito. Neste sentido, a

escola significa para a criança um grande desenvolvimento de sua vida e estabelece

importantes relações com adultos, que não pertencem a sua família, nem as suas

relações mais próximas. Entendendo o autoconceito construindo na interação social,

todas essas pessoas têm uma grande influência na mudança do autoconceito da

criança, ou seja, a escola ajuda a ampliar e desenvolve a convivência social

(socialização) da criança.

O Projeto Down, refere-se à inclusão escolar da criança portadora da

Síndrome de Down, como durante muito tempo acreditou-se que esta criança era

incapaz de aprender a maioria das coisas e ser educada aprendendo a conviver

num grupo. Se os pais, ao serem informados do diagnostico, receberem uma

perspectiva negativa para seu filho, isso intervirá em sua maneira de educá-lo,

fazendo-os acreditar que a criança não tem capacidade para aprender (STAINBACK

& STAINBACK , 1999).

Atualmente, muitos profissionais se conscientizam do potencial da criança

com Síndrome de Down e sua condição de ser educada. Portanto, os pais podem

esperar mais de seu filho, apesar das limitações que ele possa ter. A criança

portadora da Síndrome de Down possui limitações, principalmente no aspecto


28

intelectual, mas, bem orientada, pode vir a ter uma vida semi-independente,

participando das atividades do grupo em todos os aspectos, dentro de suas

limitações.

Segundo MANTOAN (1991:47), toda criança precisa de escola para aprender

e não para marcar passo ou ser segregada em classes especiais e atendimento à

parte. A trajetória escolar não pode ser comparada a um rio perigoso e ameaçador,

em cujas águas os alunos podem afundar.

4.1 BRINCADEIRAS ESCOLARES COMO FATOR DE SOCIALIZAÇÃO

Necessário se faz discutir alguns aspectos fundamentais na estruturação do

processo de socialização, tendo em vista, a construção do conhecimento e do saber

por parte das crianças portadoras de Síndrome de Down na escola.

Como já vimos anteriormente, a Síndrome de Down é uma alteração genética

que ocorre na formação do bebê no início da gravidez,

Ao nascer, a criança portadora da Síndrome de Down é hipotônica e

apresenta poucos movimentos. Porém, com estimulação apropriada, gradualmente

ela irá conquistando as etapas de seu desenvolvimento. É importante saber que

essa criança demora mais tempo para manifestar as suas habilidades e para

aprender, devido às suas características. Por isso que se diz que ela tem atraso no

desenvolvimento global (FERREIRA, 1998:10).

Os jogos se consistem num dom meios de socialização, ode se aprende a

conviver em grupo e tornar mais independente. Esta convivência traz o


29

conhecimento e aprendizagem de regras sociais, como dividir suas coisas e

respeitar o outro (ANTUNES, 2000).

A escola que oferece brincadeiras no parque, na areia, na água, faz com que

a criança experimente vários materiais, e dessa forma, trabalhe o equilíbrio, a

coordenação, a espontaneidade, a independência motora e a sensibilidade, e além

disso, deve-se incentivar atividades que ajudem na integração, desenvolvendo a

comunicação. Portanto, a criança socializa-se com o meio ambiente.

De acordo com ANTUNES (2000), quando a atividade se desenvolve em

espaços estimulantes, as crianças portadoras de necessidades especiais, ou não,

parecem caminhar por uma dimensão diferente da realidade de sua capacidade de

criar e de comunicar-se.

Os jogos possibilitam a produção de uma experiência significativa para as

crianças tanto em termos de conteúdo escolar como no desenvolvimento de

competência e de responsabilidades. (MACEDO, 2000:37)

Pode-se analisar a ampliação dos conhecimentos adquiridos num contexto de

jogos e as contribuições do jogar sob diferentes perspectivas. Sabe-se que certas

atitudes, como ser atento, organizado e coordenar diferentes pontos de vista são

fundamentais para obter um bom desempenho ao jogar e também pode favorecer a

aprendizagem na medida em que a criança passa a ser mais participativa,

cooperativa e melhor observadora. (COLL et al, 1995:15)

Piaget (apud KAMII, 1991) afirma que o conflito de diferentes pontos de vista,

essencial ao desenvolvimento do pensamento lógico, está sempre presente no jogo,

o que torna essa situação rica para estimular a vida social e a atitude construtiva da

criança.
30

O jogo ganha um espaço como ferramenta ideal da aprendizagem na

educação infantil, na medida em que se propõem estímulos ao interesse do aluno e

desenvolve níveis diferentes de sua experiência pessoal e social. O jogo ajuda a

construir suas novas descobertas, desenvolve e enriquece sua personalidade e

simboliza um instrumento pedagógico.

O desenvolvimento das crianças, é evidente a transição de uma forma para

outra por meio do jogo, que é a imaginação em ação. A criança precisa de tempo e

de espaço para trabalhar a construção do real pelo exercício da fantasia. Por isso, é

preciso resgatar o direito da criança a uma educação que respeite seu processo de

construção do pensamento, que lhe permite desenvolver-se nas linguagens

expressivas dos jogos e das brincadeiras.

Segundo Piaget (apud KAMII, 1991), quando a criança brinca, assimila o

mundo à sua maneira, seu compromisso com a realidade, pois sua interação com o

objeto não depende da natureza do objeto, mas da função que a criança lhe atribui.

Por meio do jogo, o professor tem a possibilidade de uma real interação

afetiva com a criança portadora de necessidades especiais, que a permite conduzi-la

à autonomia intelectual e moral. Essa interação, é útil para a observação das

dificuldades e as duvidas que a criança portadora de necessidades especiais

apresenta permitindo ao professor reformular a programação da pratica dos jogos e

brincadeiras infantis.

Jogo simbólico, o jogo de faz-de-conta tem uma natureza imitativa, onde a

criança constrói símbolos, transforma, inventa o real naquilo que deseja. Na

brincadeira infantil a criança revive as suas alegrias, seus modos, seus conflitos,
31

revelando-os à sua maneira e transformando a sua realidade naquilo que quer,

internalizando regras de conduta, desenvolvendo valores que orientarão seu

comportamento. Na brincadeira livre, a criança dá asas a sua imaginação,

aprendendo a lidar com o mundo e a formar sua personalidade.

A brincadeira é a melhor forma da criança se comunicar, sendo um

instrumento que ela possui para conviver com outras crianças. Brincando, ela

aprende sobre o mundo que a cerca, integrando-se.

Existem alguns jogos que são fundamentais para criança portadora da

Síndrome de Down ou qualquer outra necessidade especial ou não, pois estimula a

aprendizagem e favorece o desenvolvimento cognitivo. São os jogos de construção

que ganham espaço e ajudam na busca deste conhecimento físico, pois desenvolve

as habilidades manuais, a criatividade e enriquecem a experiência sensorial, alem

de favorecerem a autonomia e a sociabilidade.

Os jogos potencializam a exploração e a construção do conhecimento,

introduzindo as propriedades do lúdico, do prazer, da capacidade de iniciação e

ação ativa a motivadora. Além de facilitar e socializar a inclusão da criança

portadora de Síndrome de Down na escola.


32

5. PESQUISA DE CAMPO

Objetivo: Verificar a socialização de uma criança portadora de Síndrome de

Down em educação infantil.

Sujeito: Uma menina portadora de Síndrome de Down com 5 anos.

Local: Creche Municipal de Sorocaba.

Procedimento: Foram observadas informações em uma sala de aula de

educação infantil com crianças de 4 a 5 anos e um portador de Síndrome de Down

nas situações de interação com jogos e brincadeiras.

Foi realizada uma pesquisa de campo, observando uma sala de aula de

educação infantil de 1ª Fase, com 24 alunos, com idade de 4 a 5 anos, incluindo

uma criança portadora de Síndrome de Down, na interação com jogos e

brincadeiras, do tipo o coelho sai da toca, entre outros, onde se encontra em anexo.

De modo geral, pode-se observar que as crianças têm uma socialização

espontânea. Não houve bloqueios, ou qualquer outro tipo de dificuldade para esta

criança, pelo contrario, é uma classe bem solidária e cooperam muito com esta

criança, onde ela se sente bem à vontade.


33

O objetivo desta pesquisa foi conhecer as concepções da socialização e da

inclusão da criança portadora de Síndrome de Down num Centro de Educação

Infantil da Rede Municipal de Sorocaba.

5.1 ANALISE DAS OBSERVAÇÕES

Esta pesquisa foi realizada no primeiro semestre do ano (maio/2004).

Foram realizadas três visitas num Centro de Educação Infantil de Sorocaba.

Primeiramente, entrei em contato co a Diretora, pedindo permissão para que

eu realizasse minha Pesquisa de Campo em sala de aula, com uma criança

portadora de Síndrome de Down.

Na primeira visita, fui conhecer o espaço físico da unidade escolar e a sala

que seria observada. Pude conhecer todas as crianças, especialmente a Ana2, uma

criança portadora da Síndrome de Down. Ana é uma criança muito especial, não

fala, apenas balbucia e quando quer alguma coisa, pede com gestos.

Anda apenas com a ajuda das crianças da sala de aula e da professora. De

acordo com a sua capacidade, é uma criança que participa das atividades, das

brincadeiras e dos jogos; gosta muito de brincar no parque e na areia. Não é uma

criança agressiva, pelo contrario, é muito carinhosa e alegre.

Em entrevista com a professora, ela me relatou que a adaptação de Ana foi

normal, pois ela já freqüentava a creche desde os 3 anos de idade. No começo não

aceitava que a crianças e a professora a ajudassem a andar, mas aos poucos Ana

foi se integrando junto à turma e se tornou uma criança dócil, hoje, participa de tudo,

2
Esse nome é fictício, apenas para facilitar o relato.
34

de acordo com suas limitações. A família de Ana é bastante participativa, ajudam

muito, diz a professora.

Já na segunda entrevista, pude acompanhar toda rotina das crianças e

observá-los no parque, na areia e na sala de aula fazendo atividades. Quando a

professora faz aplicações de jogos e brincadeiras (O Rato e a Bola, Coelhinho sai da

Toca), observei que Ana participou se saiu muito bem nas atividades. (ANEXO II)

Segundo a professora, a utilização da bola na aplicação de jogos faz com que

desperte a atenção e favoreça o controle do espaço por onde a criança se desloca,

mobilizando os sentidos, a afetividade e a inteligência, além de favorecer a

socialização. Ajuda no desenvolvimento do ritmo, a atenção e a observação.

Na terceira visita, através das observações realizadas, conclui que os jogos e

as brincadeiras infantis realmente facilitam e ajudam as crianças portadoras da

Síndrome de Down na socialização com outras crianças, e também no

desenvolvimento de sua interação e comunicação como um todo.

5.2 CONSIDERAÇÕES SOBRE AS OBSERVAÇÕES

No segundo semestre, tive a oportunidade de voltar à creche e pude

comprovar que Ana progrediu muito.

Seu desenvolvimento está sendo muito progressivo, já pronuncia várias

palavras. Segundo a professora, os jogos e as brincadeiras foram fundamentais para

o desenvolvimento e o entrosamento com as outras crianças. Também cita todos os

da escola, juntamente com sua família, merecem o reconhecimento, pelo apoio e

esforço para obter todo este sucesso.


35

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nunca o tema da Inclusão esteve tão presente no cotidiano da educação e

vem ganhando cada vez mais terreno, enquanto discute as necessidades educativas

de todas as crianças nas escolas regulares e facultando-lhes maior autonomia,

independentemente das suas condições físicas, intelectuais, afetivas, sociais,

lingüísticas ou outras, para aquisição de maior qualidade de vida.

Este estudo teve como objetivo investigar o processo de socialização da

criança portadora da Síndrome de Down na educação Infantil. Mas foi possível

perceber que muito mais informações e materiais devem ser buscados e

pesquisados para que possam contribuir com os problemas sociais dos portadores

de deficiência.

Além de discutir as contribuições das brincadeiras infantis e dos jogos na

socialização de crianças portadoras de Síndrome de Down, a proposta deste estudo

foi, especialmente, refletir sobre o que essas brincadeiras podem facilitar, ativar e

despertar no desenvolvimento cognitivo e na sociabilidade dessas crianças.

As contribuições que os pais podem dar à educação de seu filho portador de

Síndrome de Down, é auxiliar, em parceria com especialistas, no desenvolvimento


36

dessa criança, com o objetivo de torná-la cidadã participativa, possibilitando seu

enfrentamento e superação de situações futuras, pois tendo uma família participativa

e colaboradora, conseqüentemente esta criança se desenvolverá da mesma forma.

Não existe dor envolvida. Ao contrário, elas são muito felizes, e só tem a nos

ensinar.

Tanto os pais como os educadores precisam do apoio mútuo para trabalhar

em conjunto, e assim ajudar a criança portadora de necessidades especiais.

Esta pesquisa demonstra que portadores de deficiência, principalmente da

Síndrome de Down, podem e devem freqüentar classes comuns junto com outras

crianças, apesar de suas limitações. O esforço dessa criança depende muito da

colaboração de todos e cabe a nós professores, ajudarmos, pois a escola deve

resgatar o seu papel de ensinar, considerando o seu potencial de aprendizagem, e

não ficando restringida aos seus déficits. O acesso ao saber deve ser garantido a

todos.

A pesquisa de campo traz as situações com jogos e brincadeiras, onde se

pode observar e concluir que trazem grandes contribuições no sentido de facilitar e

ajudar as crianças e no seu desenvolvimento como um todo.

Foram efetuadas várias visitas à escola com a intenção de observar o

processo de inclusão e socialização da criança portadora da Síndrome de Down,

com idade de 4 a 6 anos.

Conclui-se que é muito importante a presença dos profissionais e do ambiente

em que está inserida a criança; além de tudo é preciso muito preparo, dedicação,

uma união entre a família/ escola/ professores, para acompanhar o crescimento e o

desenvolvimento da criança, e poder assim, prosseguir com sucesso o trabalho.


37

REFERÊNCIAS

ANTUNES, Celso. Jogos para Estimulação das Múltiplas Inteligências. 8ª ed.


Petrópolis: Vozes,2000.

COLL, César; PALÁCIOS, Jesus; MARCCHESI, Álvaro. Desenvolvimento


Psicológico e Educação. São Paulo: Livraria Atheneu, 1995.

DECLARAÇÃO de Salamanca e Enquadramento da Ação, necessidades educativas


especiais, Espanha: Salamanca, UNESCO/ONU, 10 de junho de 1994.

FERREIRA, Solange Leme. Aprendendo sobre a Deficiência Mental: Um


programa para crianças. São Paulo: Mennon editora, 1998.

FONSECA, Vitor da. Educação Especial: Programa de estimulação precoce.


Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

KAMII, Constance. Jogos em Grupo na Educação Infantil: Implicações da Teoria


de Piaget. São Paulo: Trajetória Cultural, 1991.

MANTOAN, Maria Teresa Egler. Compreendendo a Deficiência Mental: Novos


Caminhos Educacionais. São Paulo: Sipione, 1988.

MENDONÇA, Maria Madalena Nobre. Integração X Inclusão: Para todos. In:


Congresso Brasileiro e Encontro Latino-Americano sobre Síndrome de Down,
2º. Da Segregação à Interação - Um processo para a construção da
cidadania. Brasília (DF): Federação Brasileira das Associações de Síndrome
de Down,1997. P. 122-124.
38

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Programa Nacional de Atenção à pessoa portadora de


deficiência. Informação sobre a Síndrome de Down: destinada a pais.
Brasília: 1994.

PUESCHEL, Siegfried. Síndrome de Down: Guia para pais e educadores. 2ª ed.


Campinas: Papirus, 1995.

STAINBACK, Susan; STAINBACK, Willian. Inclusão: um guia para educadores.


Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.

WERNECK, Cláudia. Ninguém mais vai ser Bonzinho na Sociedade Inclusiva. 2ª


ed. Rio de Janeiro: Editora e Distribuidora, 2000.
39

ANEXO I - ENTREVISTA

Entrevista Realizada na APAE de Sorocaba com a psicóloga Maria Cecília

Dias Alcoléia.

A APAE é uma instituição que já vem desenvolvendo um trabalho a mais de

20 anos com crianças com alguns tipos de deficiência física, hoje atende 256 alunos

com Síndrome de Down e principalmente Deficiência Mental.

É um trabalho notável, extremamente significativo para as crianças com tais

dificuldades. A instituição é composta por duas equipes, uma equipe é educacional e

a outra é de estimulação.

Cada profissional trabalha 20 horas semanais e o quadro é composto por dois

psicólogos, um fisioterapeuta, duas terapeutas ocupacionais, uma nutricionista, duas

dentistas, um psiquiatra e um clínico geral.

Os trabalhos com as crianças são feitos de acordo com a faixa etária, ou seja,

a Estimulação Precoce, que segundo Maria Cecília, hoje é chamado de Estimulação

Essencial, que atende crianças de 0 a 3 anos, com sessões de meia hora de

acompanhamento, considerando a idade, pois se for demorado a criança perde a


40

motivação. Este trabalho de estimulação existe há 19 anos e a sua fundadora é a

própria Maria Cecília. Há também a Educação Precoce de 2 a 4 anos, sistema de

escola com 4 horas de atividade preparando esta criança para integrar-se nas leis

com outras crianças.

O C.A.T. (Centro de Atendimento Terapêutico), que atende crianças de 4 a 6

anos, é um sistema terapêutico, pois a criança com 4 anos passa para C.E.I. (Centro

de Educação Infantil), onde terá sua inclusão, ela terá um acompanhamento até aos

6 anos, pois é a idade que é dada alta do programa. À partir dos 6 anos a criança vai

para o ensino regular.

Eles estão tentando mudar esta alta e ficar acompanhando esta criança

independentemente da idade. Hoje isso é necessário, pois deve ser dada a

oportunidade a novos bebês.


41

ANEXO II – JOGOS SOCIALIZADORES

Jogos utilizados pela professora de educação infantil:

• O rato e a bola

Material: Uma bola

Preparação. As crianças fizeram um círculo e ficaram sentadas. Um delas foi

para o meio do círculo e deveria imitar um rato.

Desenvolvimento: As crianças rolaram rapidamente a bola no círculo. O rato

tentaria pagá-la e, quando conseguisse, trocaria de lugar com a criança que jogou a

bola.

• O coelho sai da toca

Preparação: dispõem-se as crianças em grande círculo e separadas em

grupos de três.
42

Duas crianças de cada grupo, ficam de mãos dadas formando a “toca” e

dentro ficará a terceira criança: o “coelho”. No centro do círculo ficarão dois ou mais

“coelhos” desalojados.

Desenvolvimento: Dado o sinal de início, todos os “coelhos” devem mudar de

toca. Nesse momento, as crianças do centro procurarão tomar o lugar de um de

seus companheiros. Os que ficaram sem “toca” passarão para o centro.

Final: Terminará o jogo quando todos os jogadores tiverem representado o

“coelho”.
43

ANEXO III - DEPOIMENTO

Depoimento de Luiz, pai de Lucas3:

Aos 9 meses, Lucas Gabriel já manifesta algumas reações de uma criança

normal.

Ao convidá-lo para vir ao colo, ele joga o corpinho aceitando o convite.

Quando se canta alguma canção para ele, sorri e manifesta entender que é para ele.

Esboça algumas sílabas como dá, te-tê, dói, não no sentido significativo

destas sílabas, mas somente esboço.

Quando se fala para que ele pegue o pé, algumas vezes ele pega e o leva à

boca.

Põe-se uma fralda em seu rosto e pergunta-se “onde está o Lucas?” e ele

retira a fralda, sorri e volta a colocar a fralda no rosto para continuar brincando.

Quando é repreendido por estar sendo “muito chato”, faz beicinho

“derrubando” o lábio inferior e chora sentidamente entendendo a mensagem.

3
S.O.S. Down (Centro de Informações e Pesquisa da Síndrome de Down).
44

Após a última consulta, foram retomadas as atividades de estimulação

precoce da fala do Lucas Gabriel de acordo com as instruções recebidas.

Tem-se efetuado os exercícios faciais para a diminuição da hipotonia, têm-se

utilizado brinquedos educativos que chamam a atenção, devido às suas cores, sons

e formas; tem-se observado grande desenvolvimento nas reações do Lucas.

Utilizam-se os métodos apreendidos de conversar com a criança enquanto se

faz a troca de roupa ou fralda, de alimentá-la ou a exercita nas funções motoras.


45

ANEXO IV - CARTA DE UM BEBÊ4

Mamãe e Papai.

Hoje sou a sua surpresa e a sua dor, o filho não sonhado, nem sequer

imaginado. Enquanto crescia na tua barriga temia os sonhos e projetos que faziam

para mim e que não poderia realizar. Porém, se ao me olhar, conseguissem ver

além do quadro médico, achariam em mim toda a beleza que meus olhos podem dar

e a inteligência que a sua confiança pode fazer crescer em mim.

Posso ser o milagre de todos os dias, sou capaz de sentir, de entender, de

ser... Porém preciso de vocês ao meu lado com a doçura de um sorriso, cada vez

que as minhas mãozinhas se enganam, com a terna paciência de esperar meu

tempo, mais lento, com a sabedoria de guiar-me, sem querer me transformar, com a

proteção de seu respeito, para que todos me respeitem como sou, com a alegria de

desfrutar o simples fato de me amar e compartilhar a nossa vida, vencendo os

preconceitos e desafiando as opiniões adversas.

4
S.O.S. Down (Centro de Informações e Pesquisa da Síndrome de Down). Autoria de um pai
anônimo.
46

Meu corpo é pequenino, mas está cheio de amor e se vocês me abraçarem

forte, muito forte, poderei dar-lhe a força e a coragem de lutar. Só lhes peço a

oportunidade de crescer com amor. Amo vocês.