RARIDADES

Somente para adultos

Dan Porto

Redondezas contos Editora Multifoco

Rio de Janeiro, 2011

Raridades – Somente para adultos – Dan Porto – 2011 -

ISBN: 978-85-7961-434-7

___ A Torre da Igreja ___ Quando me preparo para uma celebração nunca sei os rostos que vou encontrar ou os olhos que vão me olhar, jamais imaginei cair sobre mim um olhar como o de Jussara, a filha adotiva de seu Antelmo e dona Neusa, os da loja de roupas na esquina paralela à Igreja. Ela não me olha como os outros, ela me despe, me deixa nu ali na frente de meu rebanho, exposto e frágil. Quando chegou à Igreja pela primeira vez devia ter por volta de vinte anos, a pele branca e rija e de certo uma tentação para os fiéis, e para mim, o que vim a descobrir mais tarde. Seu Antelmo e dona Neusa sempre foram fiéis assíduos aos cultos, dispostos a ajudar sempre que a comunidade precisava, fosse com trabalho, numerários ou ideias. Dona Neusa era a doceira oficial das festas da paróquia quando eu cheguei à cidade. Excelente no preparo das tortas. Seu Antelmo, pacato e bonachão, um amigo querido de todos na cidadezinha. Adotaram Jussara porque Jesus não lhes concedera a graça de ter filhos, a menina veio de um orfanato da capital. Quando me apresentaram Jussara ela foi logo dizendo que não era religiosa e não iria frequentar igreja. Tinha um olhar baixo, provocativo, forte, desses que penetra na gente. Os pais não a obrigariam, é claro, mas eu fui conversar com ela outro dia. Pedi que deixasse Jesus entrar em seu coração e que viesse se juntar a nós nos estudos. Disse que não prometia nada, mas ia pensar. Fiquei arrependido de ter insistido para que fosse ao culto, me sentia constrangido na sua presença, vulnerável. Não pude deixar de notar a brancura de sua pele no dia em que usou uma blusa vermelha de alçinhas. Nem seus joelhos no dia em que foi à igreja de saia. Pequei em pensamento e por conta disso jejuei por dois dias, sem poder explicar para minha mulher, disse apenas que precisava me purificar. Todos os fiéis me chamavam de Pastor, mas ela falava um Pastor com o ó mais arrastado, quase chorado. Jussara era uma tentação para os homens de minha paróquia, soube por dona Maroquinha, faxineira da Igreja que um dos fiéis tinha sido visto aos beijos com ela na esquina de sua casa,

Raridades – Somente para adultos – Dan Porto – 2011 -

ISBN: 978-85-7961-434-7

à noite. Precisava tomar uma atitude. Chamei-a para conversar. Ela veio numa manhã de quarta-feira, de vestido de algodão com estampa de flores. Contei o que tinha ouvido de dona Maroquinha e perguntei se era verdade. Sim. Qual o problema? Jussara, ele é casado, é pecado o que cometeu, e você poderia ser a filha dele. Mas não sou. O senhor está com ciúme? O que? De onde você tirou isso? Eu sou casado e sou um Pastor, eu nunca trairia minha mulher, e ainda com uma fiel. Eu não sou sua fiel, sou uma pecadora. Eu comecei a suar e não consegui mais conversar com ela, pedi que fosse embora. Ela levou as pernas brancas e firmes para fora de minha Igreja, mas antes parou à porta com as mãos na cintura fina de menina. Procurei Antelmo e pedi que observasse o comportamento da filha, que procurasse um emprego ou mandasse estudar. Estava com o colégio pronto, só se fosse universidade e, trabalho, não tinha experiência. Sugeri trabalhar com o pai na loja mesmo. E foi assim que aconteceu, no dia seguinte a filha ajudava os pais na loja, empacotando mercadorias e repondo os produtos nas prateleiras. Depois do culto de domingo, ela entrou na fila para se confessar. O senhor está com medo de mim Pastor? Eu não tenho medo das pessoas minha filha, é apenas minha obrigação me preocupar com o que meus fiéis fazem de suas vidas. O senhor gostaria de tomar um sorvete hoje à noite? Ela tinha enlouquecido. Claro que não, e se não tiver nenhum pecado para confessar, peço que dê lugar às outras pessoas da fila. Eu tenho, sonhei com o senhor na noite passada. Isso é pecado não é? Tive medo, mas perguntei: o que você sonhou? ...

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