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trabalho sobre prostituiçao

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Gênero, Corpo e Diversidade Sexual (Sexualidades) – ST 51 Tatiana Reis (CEAO/ UFBA) Palavras-chaves: Gênero, Sexualidade, Prostituição, Prostituição

feminina: interação entre sexualidade, corpo, cor e desejo. Envolta em mistérios, atrações, rejeições e sanções sociais, a prostituição feminina, ocorre em trânsito paralelo aos ideais de paixão, amor romântico, casamento e família, na vertente que consagra as relações heterossexuais monogâmicas como normais e adequadas aos papéis masculino e feminino. Esse modelo binário, determinado socialmente em masculino versus feminino, acaba por limitar, sobretudo, a sexualidade feminina. A mulher dita de “bem” deveria se resguardar ao lar e viver em função da família. Ao utilizar seu corpo como instrumento de trabalho e viver livremente a sua sexualidade a prostituta é tida como deformadora do papel feminino, dos ideais de boa mãe e dona de casa. Muitos dos estereótipos que cercam as prostitutas não correspondem a realidade vivida por essas mulheres. Em dinâmicas da prostituição feminina nas áreas centrais da cidade de São Luis, questões como violência, prazer, sonhos e violência se entrelaçam a partir da relação cliente-prostituta. Relação essa, que ultrapassa a questão econômica e se instaura num âmbito mais complexo. No jogo da sedução e da conquista, as mulheres têm que utilizar de suas “artimanhas” para conquistar mais clientes. Desse modo, existe uma preocupação muito grande com o corpo e com a aparência física. Muitas prostitutas são vistas como eróticas ou não dependendo da sua tez, da cor da sua pele. Percebe-se que no campo da prostituição, no âmbito do desejo, comumente valorizam-se as mulheres negras. Nesse sentido, buscamos é analisar dinâmicas da prostituição feminina em São Luís, Maranhão, considerando que tais dinâmicas são permeadas e definidas em torno de questões de gênero e sexualidade, a partir de elementos como corpo, cor e desejo.

Dinâmicas da Prostituição Feminina nas áreas centrais da cidade de São Luis. Em meados do século XX, o centro da cidade de São Luís concentrou um grande número de casas de pensões e cabarés onde se exercia a prostituição feminina,

esta acaba sendo uma pratica “aceita”. a maioria possui filhos. algumas já atuaram na prostituição. Atualmente. Em outros. em sua maioria negras. São aproximadamente 8 bares. a preocupação com a família em especial com os filhos. Possuem idade que varia dos 18 aos 35 anos. a dinâmica da prostituição feminina no centro da cidade dá-se em pontos de concentração de bares. O movimento mais intenso se inicia a partir das quatro horas da tarde. estão inseridas em condições de marginalização e exclusão dos benefícios sociais. de segunda a domingo. por onde circulam vendedores de bebidas e mulheres que exercem a prostituição. pois se constitui como uma forma de complementação da renda familiar. em suas falas. O universo da prostituição feminina. com um grande número de trabalhadores informais e um fluxo considerável de turistas. No centro da cidade existem inúmeros pontos de concentração da prostituição feminina. nas áreas próximas ao centro da cidade de São Luis. somente à noite voltam para casa. hoje. para evitarem os preconceitos e os estigmas historicamente construídos em torno do exercício da prostituição. É uma área próxima ao centro comercial e histórico da cidade. todos sob o comando de mulheres. abriga pequenos bares. temporariamente. A maioria dos bares possui quartos que são alugados. com baixa escolaridade e. parte da área onde funcionavam depósitos. No entanto. a concentração da prostituição feminina naquele local pode ser atribuída ao fato de ali ter se tornado um local rentável para o desempenho da atividade. é composto por mulheres pobres. como o Oscar Frota. São mulheres de condições sócio-econômicas menos privilegiadas que. mas percebem que têm que escondem sua atuação profissional. próximo ao Mercado Central. para as prostitutas e seus clientes. com um grande contingente de mulheres que estão envolvidas em relações de prostituição. é o cliente que paga o aluguel do quarto. O local é conhecido pelo nome de um antigo proprietário de uma grande loja de materiais de construção da qual. De acordo com alguns depoimentos. o Oscar Frota destaca-se pelo grande número de mulheres que atuam na área.área então denominada de ZBM (Zona do Baixo Meretrício) localizada especialmente nas ruas da Palma e 28 de julho. Em geral. Moram em bairros periféricos e atuam na prostituição durante o dia. em grande medida. . possuem uma vida dupla e a família não sabe da sua atuação. É notável. advindas do interior do Estado “em busca de oportunidades”. Em alguns casos. Muitas mulheres afirmam que a prostituição é um trabalho.

Isso nem sempre se manifesta de forma clara. De acordo com Moraes (1995). Isto se manifesta como forma de assumirem mais de uma de suas posições defensivas diante do estigma. para elas. muitas prostitutas têm sido verdadeiras “psicólogas”. Do prazer se aproximam o amor e o sonho. geralmente. dentre outros. De fato. Muitas vezes. a possibilidade de maiores ganhos sem tanta pressão dos patrões. a violência que se expressa em gestos. a maioria se remete aos atos de agressões físicas. se apresenta como aquela que não machuca o corpo e que parece ter um menor impacto. chorar suas mágoas. Quando se fala em violência. palavras. é preciso destacar como marco a idéia de que. o direito ao prazer. modos de tratamento. conjugais. Os homens a utilizam como forma de subjugar a . Muitas dessas mulheres têm clientes fixos que se enciúmam e mesmo brigam quando vêem e sabem que estas estão com um outro. ou seja. mas que não raro se manifesta numa mesma relação prostitutacliente. muitas vezes fica restrita ao plano simbólico. Muitas prostitutas acreditam e sonham encontrar “um verdadeiro amor”. Na maioria dos casos o dinheiro aparece como “premente” para a entrega do corpo e a satisfação do prazer. acionado para esclarecer que separam a imagem da puta da imagem da mulher de família. No entanto. a assunção de um tipo de trabalho que envolve sexo se torna ainda mais conflitiva neste espaço de identificação. Muitos clientes as pagam para falar. outros valores são destacados como a necessidade de uma maior liberdade. Isto se explica ao fato de que.É possível perceber que muitas destas mulheres sofrem com o conflito interno sobre a atividade que desenvolvem. muito especialmente nas relações de gênero. suas frustrações amorosas. Algumas prostitutas acabam por não perceber esse tipo de violência. o espaço da família é identificado à moralidade. Como esta concepção de família tem um grande valor. a expressão de oposição uma dentro x outra fora pode ser definida como um mecanismo de autopreservação. não é somente o fator econômico que as impulsionam para iniciarem na prostituição. O prazer aparece como aspecto antitético à violência. que as tire da situação em que estão. nem sempre é uma violência visivelmente notada. Há clientes que as procuram para relações propriamente sexuais. pessoais e profissionais. A violência tem sido utilizada como um mecanismo de dominação. mas há também aqueles que as buscam esperando aconselhamentos para “salvar” seus relacionamentos que estariam “monótonos”. Convém destacar que diversas formas de violência permeiam o cotidiano dessas mulheres.

à violência de gênero se soma a violência racial. isso é observável nos estigmas que cercam esta categoria. nas quais. que segundo o modelo ideal deveria ser casta. o cliente aparece como a figura do “provedor”. isso denota a um sentimento de posse. Essas questões perpassam pelo ideal de . a mulher é associada à passividade e à inferioridade. A construção dessas desigualdades tem vários eixos de constituição. o que sustenta a casa. bem como tem favorecido e possibilitado diversas manifestações de violência. por ser ele que paga. utiliza isso como forma de justificar a violência contra a mulher. Desse modo. de uma simples troca de prazer por dinheiro. entregue aos prazeres da vida mundana. ou seja. resguardando-se ao marido. acreditamos que a relação que essas mulheres estabelecem com esses homens. onde o homem é o provedor. mas por uma certa “exclusividade”. têm favorecido relações baseadas em discriminações. Muitos se utilizam disso para legitimarem a violência contra a prostituta. uma vez que esta representa a desorganização dos padrões de conduta sexual admitido para uma mulher-assexuada. Esse conjunto de imagens formuladas em torno das mulheres que exercem a prostituição leva à discriminação e à exclusão social. No discurso médico-higienista a prostituta é representada como mulher de “vida fácil”. em oposição aos atributos de presença ativa e de superioridade. Por um lado. Isso demonstra como os papéis. Foi possível constatar casos de agressões físicas que são recorrentes ao não pagamento dos serviços sexuais prestados. ultrapassa a lógica do que se pensa acerca da relação cliente-prostituta. Em alguns casos. mas um elemento fundamental é a formulação discursiva de significados que pautavam-se em diferenças anátomo-biológicas. Assim como de homens que mantém relações freqüentes com determinadas mulheres e quando as encontram com outro.mulher colocando-a numa posição de submissão. que sustenta essa mulher. E no caso de mulheres negras. e que em alguns de violência conjugal. geradoras de violência. historicamente atribuídos a homens e mulheres. por outro. E. Nesse sentido. Percebe-se que esse homem não somente paga pelo prazer. e por isso responder de forma violenta ao encontrála com outro. percebemos que acaba sendo transferida para a dinâmica da prostituição a relação que se estabelece no âmbito da família. sem moral e conduta. reagem de forma violenta. no caso da prostituta. considerados exclusivamente masculinos. nas diferenças sexuais. a uma relação que ultrapassa a questão econômica e se instauram num âmbito mais afetivo.

“A falocracia admite. as policiais.masculinidade e femilinidade. nem chegam a denunciar. são segmentarias e descontínuas”. Tais políticas. a Associação oferece curso de corte-costura. culinária. mas não recebem a assistência adequada. quando profissionais do sexo de diversos países iniciaram o processo de organização por conta das dificuldades. a auto-estima. a luta contra a violência. cabeleireiro. Em muitos casos. partidárias da prática consagrada pelos homens da polícia. devido às ameaças do cliente agressor. São aproximadamente 550 mulheres cadastradas. a saúde. (SAFFIOTI. como os demais profissionais brasileiros. 1994. o trabalho da Associação ainda é fragmentado. a mobilização vem se dando por conta da violência policial que elas vêm sofrendo. No entanto. a conscientização quanto ao uso de preservativos e a profissionalização no que diz respeito à prostituição ou a outra forma de trabalho profissional. maus tratos e violência. De acordo com Saffioti (1994). Em convênio com o SEBRAE. que congrega as Associações em todo o país. que atuam em diversos locais da cidade. De acordo com a APROSMA (Associação das Profissionais do Sexo do Maranhão) muitas mulheres têm recorrido à Delegacia da Mulher. políticas públicas de promoção da mulher. isto é. surgiu a partir dos anos 1970 e 1980. a reivindicação pela integração das profissionais do sexo em programas específicos de atenção à saúde. não consegue atingir o interior do Estado e em muitos locais da cidade . o homem se justifica por atitudes grosseiras e a mulher pela passividade. Este não aparece como um local onde essas mulheres sentem-se à vontade para reivindicar os seus direitos.176) Vale destacar que o movimento associativo das prostitutas. tem como objetivo mobilizar essas mulheres para a reforma de leis que se referem ao exercício da profissão. antes de serem mulheres. No Maranhão a APROSMA (Associação das Profissionais do Sexo do Maranhão). conforme a força das pressões sociais e/ou as recompensas eleitorais. assédio e abuso policial. não tem nenhuma formação no domínio das relações de gênero. Há delegadas excessivamente policiais. a promoção da cidadania e de trabalho com auto-estima. com quase três anos de atuação. p. tem o intuito de trabalhar a cidadania. o direito ao prazer. todavia. dentre outros. No Brasil. E preferem continuar na situação de sujeição. das estigmatizações. A criação da Rede Nacional de Profissionais do Sexo (RNPS). proporcionando a essas mulheres outras oportunidades de remuneração ou de complementação desta.

Problemas de Gênero: feminismo e subversão de identidade. em que sonhos e fantasias. Mulheres da Vila: prostituição. amores e desamores também constituem a teia de suas experiências cotidianas. Em alguns casos o dinheiro aparece como premente para a entrega do corpo. através da qual os papéis sexuais de homens e mulheres são concebidos como construções históricas diferenciadas. F. prostitutas de São Luís se constroem e se pensam. . Considerações Finais A compreensão do significado cultural da prostituição implica na utilização da categoria de gênero. Petrópolis: Vozes. foi possível perceber que para além de questões estritamente materiais. Muitos trabalhos que se têm sobre prostituição acabam sendo veículos de fortalecimento da visão estereotipa que se tem acerca da categoria “prostituta”. permitidos por uma situação de sujeição. MORAES. REFERÊNCIAS BUTTLER. que devem ser entendidos como contra-poderes que se manifestam através da sedução e da satisfação de prazeres considerados ilícitos. Judith. E no caso de mulheres negras. e quase sempre a Associação é lembrada pela entrega do preservativo. Essa categoria. No entanto. bem como tem favorecido e possibilitado diversas manifestações de violência de gênero.não desenvolve um trabalho efetivo. 2003. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. identificada em oposição aos papéis de mãe e mulher trabalhadora. a prostituição é uma prática marginalizada. 1995. Muitas mulheres desconhecem o trabalho da APROSMA. Esse conjunto de imagens formuladas em torno das mulheres que exercem a prostituição leva à discriminação e à exclusão social. principalmente no campo da sexualidade. Numa sociedade impregnada por códigos e valores que limitam comportamentos. ao incorporar a dimensão das relações de poder entre homens e mulheres. vivenciando experiências complexas. possibilita a percepção dos poderes na esfera feminina. identidade social e movimento associativo. à violência de gênero se soma a violência racial. em que se defronta o binômio prazer-violência. A.

Monografia (Graduação em História) – Centro de Ciências Humanas. A Sociologia entre a Modernidade e a Contemporaneidade. 2005b. Manifestações de violência no âmbito da prostituição feminina em São Luís. In: Educação e Realidade: Mulher e Educação. v. Sérgio (org. Universidade Federal do Maranhão. 1995. 2005. Relatório Final (Trabalho final de pesquisa) – Programa de Bolsas de Iniciação Científica. Conselho Nacional de Pesquisa. . Prazer e Violência no âmbito da Prostituição Feminina em São Luís (a defender).15. Manifestações de violência no âmbito da prostituição feminina em São Luís.SAFFIOTI. SILVA. jul. n. Cadernos de Sociologia. 98 f. Tatiana R./dez. Universidade Federal do Maranhão.). Pró-Reitoria de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico. Universidade Federal do Maranhão. 2. Raça/ Etnia. Uma Categoria Útil de Análise Histórica. n° especial. 2005c. Joan W. São Luís. _____. Relatório Semestral (Trabalho de pesquisa) – Programa de Bolsas de Iniciação Científica. 2005. in: ADORNO.B. Classe Social.. 2005. Conselho Nacional de Pesquisa.1990. IFCH/UFRGS. Porto Alegre. São Luís. 45 f. _____. Hellieth I. São Luís. Pró-Reitoria de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico. Diferença ou Indiferença: Gênero. SCOTT. Gênero. 2005a. R. 57 f.

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