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pobreza

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O livro de Luís Capucha – Desafios da Pobreza – é o resultado de longos anos de trabalho e investigação sobre o tema da pobreza e exclusão social

e que resultou na tese de doutoramento do autor. Neste livro, encontramos um estudo pormenorizado sobre as questões da Pobreza e da Exclusão Social, em Portugal, com extensos registos de dados empíricos, uma vasta e rica análise documental e um conjunto muito interessante de indicadores estatísticos que tentam apoiar a seguinte hipótese de trabalho:
É possível pensar uma sociedade sem pobreza não enquanto utopia, mas enquanto projecto, antes do mais político, e esse objectivo será tanto melhor sustentado quanto mais as políticas nacionais, respeitando as nossas especificidades, se orientarem para modelos mais avançados e coesos. (Capucha, 2005: 12)

O autor começa por situar a problemática da pobreza e da exclusão social no quadro histórico da emergência das sociedades modernas europeias. Segundo Capucha, é a partir da modernidade que se começa a pensar estas questões sociais fora do domínio dos saberes da religião e da filosofia. Paralelamente, e como consequência do capitalismo moderno, o agravamento da situação de pobreza das massas proletarizadas e a inadaptação de alguns grupos às estruturas sociais modernas – as designadas “classes perigosas” – constituem fenómenos que contribuem para o despertar da “questão social” da modernidade. Com efeito, o sistema capitalista torna frágil a coerência entre os ideais da modernidade. A dificuldade em se fazer coexistir liberdade e igualdade é colocada com maior evidência num quadro de persistentes e progressivas desigualdades económicas e sociais. Esta contradição, mas sobretudo a consciência dela, impulsionam a reivindicação do alargamento dos direitos dos cidadãos. Por um lado, reclama-se a extensão dos direitos do plano económico e político para o plano social, fazendo-se o apelo a uma terceira geração de direitos que deveriam acrescer aos direitos civis e, por outro, a própria

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promessa de igualdade trazida pela modernidade força a emergência do estado providência. Tratava-se, antes de mais, de encontrar uma forma institucionalizada de proceder ao reequilíbrio das esferas económica e social. Para tal, era necessário transferir parte do produto social criado, e anteriormente apropriado pela burguesia, para o estado. Ao estado, cabia agora administrar essa parte e aplicála em políticas de bem-estar colectivo. Esta é a linha de argumento geral – embora apresentada por Capucha de uma forma mais extensiva e muito bem fundamentada – que permite introduzir a ideia de modelo social europeu. Para Luís Capucha, trata-se de um modelo, surgido na Europa, e que se irá assumir, mais tarde, a partir da prioridade dada ao objectivo de erradicação da pobreza, como uma marca identitária da Europa. Para caracterizar o modelo social europeu, são acentuados alguns traços políticos e económicos fundamentais: a legitimidade política assente no estado de direito e na democracia parlamentar; e a coexistência harmoniosa entre pleno emprego e o objectivo de maior equidade na distribuição dos recursos, a partir da conciliação entre o subsistema económico e o subsistema social que assegura o bem – estar da população. Como o autor esclarece:
Esta coexistência é sustentada por um pacto social aceite pelos representantes dos principais interesses económicos e sociais que concilia o mercado capitalista e as políticas sociais que asseguram simultaneamente eficiência económica e a diminuição das desigualdades sociais, através de esquemas relativamente generosos, de protecção social, da prestação de cuidados de saúde de qualidade e de níveis elevados de educação e formação, garantidos por sistemas públicos e universais. (Capucha, 2005:20)

Considera-se, no entanto, que é precisamente na efectivação desta coexistência que residem os maiores problemas que as sociedades europeias enfrentam. Sem ceder a argumentos fatalistas que recusam a possibilidade desta coexistência, ou, na linha de Capucha,

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recusando reservar-lhe um espaço nas utopias, entende-se, na realidade, que aquilo que se pressupõe coexistir, foi e é considerado, com muita frequência, como uma contradição. O pacto social, mas também a emergência do sentido de contradição desse pacto social na Europa, devem ser compreendidos, com mostra o autor, a partir de uma abordagem historicamente situada. Capucha começa por referir, nessa abordagem, o período “glorioso” – desde a Guerra Mundial II até à crise do petróleo de 1973 – deste modelo. Na Europa Ocidental e do Norte, o estado assume, de facto, um papel social de relevo. O pacto social assegurou simultaneamente a regulação das relações de trabalho e a economia. Por um lado, a aceitação, por parte dos trabalhadores, das condições e organização de trabalho próprias do modelo fordista foi facilitada pelo aumento de consumo que o próprio modelo, dado o aumento de produtividade, permitia; tornou-se igualmente possível fazer a transferência de recursos para o estado providência que, por sua vez, vai investir nas políticas sociais e em outros sectores essenciais como comunicações, infra-estruturas básicas e investigação científica e tecnológica. A educação, apoio à formação saúde e a protecção social foram também assegurados (Capucha, 2005:21). Tornaram-se evidentes as consequências sociais deste modelo: ganhos de produtividade; crescimento económico; oferta de emprego estável, mais bem remunerado e de melhor qualidade; expansão do consumo, a satisfação das necessidades de sectores cada vez mais vastos da população, entre outros. Estes foram também os indicadores que sustentaram as expectativas, crescentes por essa altura, de ser possível erradicar a pobreza na Europa. Aquando a crise do petróleo, em 1973, o modelo entra em crise também. Quer dizer, para além da clara percepção da finitude dos recursos naturais, a Europa conhece também o desemprego e a

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2005:23). influenciam os Estados no sentido da flexibilização das relações laborais. De acordo com Capucha. por sua vez. onde emergem mercados de mão de obra barata e fácil de explorar Simultaneamente. nomeadamente no que respeita ao emprego. A recessão de 1992/93 vem mostrar a fragilidade dos países europeus em termos de crescimento económico. reclamando melhores condições para a mobilidade de capitais. a descida da inflação e no sentido de obter estabilidade cambial – na sequência do caminho para a moeda única. altamente favorável à propaganda neoliberal e à apologia do livre funcionamento dos mercados e do desenvolvimento de economias mais competitivas. As empresas. assim. o modelo social apresentava sérias dificuldades economia. sobretudo na China. Afinal. os governos responderam de duas formas: ou revelaram incapacidade para regular o poder económico. em coexistir com as limitações provenientes da 4 . As medidas tomadas na União europeia -redução dos défices públicos. O contexto de globalização torna-se. e em alguns países da América do Norte e do Sul.incerteza de se poder continuar a financiar as políticas de protecção social e de saúde. trazem consequências negativas em termos sociais. Norte de África e centro da Europa. 2005: 24). São transformações do próprio modelo económico associadas à competição dos mercados internacionais e à forte concentração do investimento directo estrangeiro na Ásia. dá-se a deslocalização – no mesmo sentido geográfico – das unidades produtivas que estavam antes em países com economias mais desenvolvidas (Capucha. sobretudo. quando analisados em termos comparativos com os EUA. ou assumiram claramente uma política de desinvestimento nas políticas sociais (Capucha. Um conjunto de transformações globais vai tornar mais visíveis as limitações do modelo.

políticos. Estes fenómenos tornam mais frágeis as condições de vida dos cidadãos e da sua participação social. que as sociedades europeias sentem um conjunto de problemas sociais. aos estados-providência europeus. Tanto mais quanto o problema do desemprego passa a atingir categorias profissionais que se consideravam estáveis. Fazendo-se. A este propósito. a consciência da pobreza na Europa é mais aguda. acentua-se a distância entre valores e esperanças partilhadas pelas pessoas e as condições reais em que viviam. Tudo isto acontece ao mesmo tempo que a população exige melhores serviços ao Estado (Capucha. mas não são. erosão das formas tradicionais de prestação de cuidados sociais e integração dos grupos primários. tende-se a ignorar. económicos. Mais ainda. As suas palavras são bem expressivas: Apesar da capacidade produtiva e de bens e serviços disponível na Europa ser suficiente. crer que a resolução de algumas destas questões encontrava-se condicionada pelas impossibilidades de adaptação à nova economia. a constituição de novos territórios suburbanos degradados e crescentes fluxos migratórios. talvez pela primeira 5 . 2005:25).Colocam-se outros problemas sociais. Pode dizer-se. demográficos e culturais que colocam em causa a governabilidade da Europa. em particular na crise de 90. alguns novos outros mais profundos. muitas vezes. a segregação das esferas de realização pessoal e a individualização das relações sociais. Desde a segunda metade da década de 70 e. ou desvalorizar os factores endógenos às próprias sociedades europeias que podem ser. níveis de emprego relativamente baixos e mudanças nos padrões de organização familiar. objecto de mudanças políticas. Capucha anuncia o paradoxo. em síntese. São fenómenos que acrescem ao risco e de pobreza: envelhecimento e aceleração dos rácios de dependência.

colocando-a numa posição. que as escolhas são políticas e que o aqui está em causa não é simplesmente uma questão de gestão económica. Capucha acredita que as relações entre a Economia e as questões sociais são bem mais complexas: se é certo que existem transformações profundas que afectaram particularmente a Europa. Conclui. Denunciados os princípios neoliberais. dentro destes. a que pode organizar as possibilidades/oportunidades de afirmação dos ideais humanistas e. e que ele retoma em vários pontos da sua análise. aparentemente. é necessário. (Capucha. . menor acesso a capitais de risco. atentar naquela outra vertente da globalização. para satisfazer as necessidades de todas as pessoas. designadamente quando estuda o caso português e os factores que intervêm nos contornos e consequências persistentes do 6 . mas também uma posição.importa não desviar o debate da questão central que é a de saber como assegurar a qualidade de vida e o financiamento das políticas sociais aos cidadãos. continuam a existir segmentos significativos da população que encontram sérias dificuldades ou estão mesmo impossibilitados de aceder aos recursos para uma vida digna. desvantajosa relativamente aos EUA . o autor mostra que “as causas têm de ser encontradas no seio dos próprios sistemas económicos dos países desenvolvidos.vez na história. menor dinamismo empresarial. 2005:33). a solidariedade entre todos.menor desenvolvimento das TIC. deste modo. Este é um argumento. para o autor. recorrente do autor. 2005:28) Tentando desconstruir o discurso da fatalidade da economia global. Para tal. insuficiência de quadros qualificados etc. nomeadamente nas mudanças de organização de trabalho que a nova economia implica” (Capucha. menor acesso à Internet.

Mantendo esta posição. insuficientes níveis escolarização.a persistência do modelo assistencialista /fordista implicando a separação entre políticas para a competitividade e crescimento económico e as políticas sociais. Como já se viu. nestes casos. áreas Entre os efeitos de do comércio e internacional e a qualificação dos trabalhadores. As baixas de empregados. entre os quais destaca-se Guiddens (2007) quando adverte para o cuidado que se deve ter ao se responsabilizar a globalização pelas sua desigualdades formação nas sociais.desenvolvimento qualificações dos histórico e económico os do país. o autor aproxima-se da posição teórica de vários autores. 2007: 319). entre outros. Um modelo que. parece útil registar que o não conformismo com as consequências supostamente inevitáveis dos processos sociais globais traz uma maior força. Não sendo possível apresentar aqui o debate sobre os efeitos e possibilidades da globalização. três grandes opções: .a opção neoliberal advogando a redução das despesas públicas e resolução do problema da pobreza de forma “natural” através do mercado. assim. é um modelo promotor de maiores desigualdades. em certa medida. designadamente a das tecnologias informação comunicação. avaliar as escolhas políticas europeias em debate. não é já não é passível de ser reapropriado. . a escassa formação. o autor vai rever e. são também assumidos como resultados de opções políticas e empresariais ou económicas que afectaram o país de um modo estrutural. Guiddens acredita que o último factor é mais efectivo uma vez que considera estes trabalhadores “mais vendáveis e capazes de assegurar maiores vencimentos” (Giddens. de acordo com o autor. 7 . Destaca. às posições que se articulam para reivindicar ao estado uma maior atenção social. Neste ponto.

o que aliás tem a ver com o percurso académico do autor.. o autor avança com um debate conceptual sobre definições de pobreza e exclusão social. No segundo capítulo. de reparação e mobilização e que o autor vai explicar de um modo mais detalhado. Esta última estratégia de renovação do modelo é apoiada com instrumentos como o Método aberto para a Coordenação e a Estratégia Europeia da EU que integram intervenções de tipo preventivo. entre outras medidas.o modelo com base na noção de “qualidade social” sustentado na ideia de políticas sociais activas que incluem. O autor apresenta 8 . minorias etc. De um modo muito genérico. . a aprendizagem ao longo da vida e a participação plena nos processos de combate à pobreza e exclusão social.é sustentada por investigações de tipo diverso. apresentando duas tradições teóricas principais. O autor reconhece que esta é uma perspectiva mais susceptível de apoiar a análise dos grupos que mais necessitam da intervenção das políticas sociais activas. mais associadas às perspectivas qualitativas e estudos intensivos. A primeira relaciona-se com a crítica aos indicadores de avaliação da pobreza. trata-se de uma perspectiva que privilegia nas suas análises questões como a desertificação das áreas rurais. os estilos de vida nos espaços urbanos. a promoção do emprego. surgem duas questões neste capítulo que se pretende indicar de um modo breve. Manifestando-se aqui uma grande maturação do debate em torno destas duas perspectivas. o investimento nos recursos humanos.a perspectiva socio-económica – onde se integram os debates sobre pobreza absoluta e relativa e a pobreza subjectiva. trajectórias de vida dos grupos de grupos particulares como os sem abrigo. – a perspectiva culturalista – assente na ideia de “cultura da pobreza”.

um conjunto de trabalhos científicos que revelam o esforço da definição mais precisa dos indicadores da pobreza. se atendermos ao conjunto de dimensões que o autor implica para a análise das questões da pobreza e da exclusão social. nos capítulos que se seguem. opondo-se à demarcação conceptual em relação à noção da pobreza. para a compreensão dos restantes capítulos da obra. o autor tem o cuidado constante de definir os termos da discussão. Num dos eixos de análise o autor pondera o peso 9 . Será então crucial. presente em algumas análises. São elas: factores de distribuição dos recursos. assinalar a abordagem adoptada por Capucha. No terceiro capítulo. O autor defende uma abordagem multidimensional da pobreza. Este é um procedimento considerado necessário para a análise das dinâmicas processuais da pobreza. acesso às respostas sociais e à participação social. um dos pontos altos da sua obra. Embora o debate em torno dos conceitos fundamentais para a prossecução da pesquisa seja feito aqui com algum pormenor. Capucha faz uma descrição exaustiva dos factores associados à pobreza e à exclusão social. A organização destes factores implica um complexo trabalho de análise interpretativa que constitui. assim como questões relacionadas com as percepções culturais. da sua morfologia e. ainda. esclarecendo os principais significados adoptados para cada um deles. quanto a nós. para a caracterização das trajectórias e categorias sociais mais vulneráveis à pobreza. simbólicas e modos de vida de grupos vulneráveis. A sua posição entende-se melhor. Ao fazê-lo procede a uma revisão crítica do conceito de exclusão social. A segunda questão tem a ver com o empreendimento que o autor realiza para a superação de questões teóricas que surgem como aparentemente dicotómicas. revelando porém uma certa preocupação por considerar este processo inacabado.

das representações e disposições dos indivíduos e das comunidades. proposto por Bourdieu. enquanto no pólo simétrico se colocam em jogo as práticas e os quadros de interacção que se associam à capacidade do sujeito para articular as oportunidades. ter feito ser. Na operacionalização desta análise o autor faz entrar uma noção central da sua abordagem teórica: modo de vida. “os modos de vida de vida definem-se pela interacção entre um conjunto de recursos e constrangimentos estruturalmente desenhados. em todos os organismos (a que podemos. por outro lado…” (Capucha. 2005:97). no sentido do habitus.) consigam reproduzir-se sob formas de disposições duradouras. 10 .dos processos a nível societal – que em última análise determinam as oportunidades de participação dos agentes. o habitus é o produto de um trabalho de inculcação e apropriação necessário para que estes produtos da história colectiva para que estes produtos da história colectiva que são estruturas objectivas (eg. se quiser. da economia etc. por parte de Capucha. o autor prossegue a análise dos factores susceptíveis de explicar a pobreza e a exclusão social em Portugal. e o sistema de actividades reguladas e os modelos de vida adoptados pelos agentes. chamar indivíduos) duradouramente submetidos aos mesmos condicionamentos e portanto colocados nas mesmas condições de existência (Bourdieu. a um ter sido. Para se compreender a apropriação deste conceito. considera-se que as palavras de Bourdieu são por si esclarecedoras: Ser que se reduz a um ter. De acordo com Capucha. neste contexto. O debate sobre o conceito de habitus de Bourdieu é longo mas inacabado. Num outro eixo de análise são considerados os factores objectivamente exteriores aos agentes e os factores subjectivos. da língua . 2002:182) De acordo com este quadro interpretativo. por um lado.

Mas tal como nos diz Costa (2008) a propósito de outra análise posterior. A sua leitura deixa-nos curiosos sobre os resultados de uma eventual replicação da sua pesquisa. manifestam-se. entretanto. Ao se articular as estruturas com a agenticidade dos sujeitos cultural e contextualmente situados. com as orientações culturais e contextos vividos pelas pessoas.As virtualidades heurísticas desta noção decorrem da possibilidade de se cruzar os factores associados à pobreza e à exclusão social. como as dinâmicas económicas e sociais se alteraram desde então. uma vez mais. genericamente. por isso. Pensa-se aliás que esta é uma das grandes virtualidades da obra de Capucha. Sabemos. embora lenta. de 1990 até 2000. sobre as questões da pobreza e da exclusão social em Portugal. considera-se que: “a utilização de estudos como este para apreciação de aspectos conjunturais da pobreza suscita sérias dúvidas. esta noção não cede a posições extremas que se jogam no debate acção/estrutura permite. permitindo. e às oportunidades que estes geram ou recusam. sem deixar de se considerar o interesse dos dados que aqui nos apresenta. Neste ponto. Um primeiro conjunto de factores que o autor relaciona com a pobreza e exclusão social diz respeito à questão da distribuição de rendimentos. perspectivas já discutidas no capítulo anterior. promove-se um conjunto de novos conhecimentos que são valiosos para a interpretação dos fenómenos sociais actuais. Segundo Capucha. assiste-se. a síntese teórica entre as perspectivas culturalistas e as socio-económicas. O 11 . sendo. a uma progressão. Ao mesmo tempo. importante tomá-lo sobretudo enquanto esclarecedor de dimensões estruturais do problema” (Costa et al. A análise que o Capucha apresenta tem por referência um período que vai. as vantagens analíticas da noção de modo de vida. no período em análise. Alguns indicadores apontam essa tendência. nas condições de vida dos portugueses. como consequência. 2008: 16).

De um modo muito resumido. mas por referência ao intervalo de tempo 2000-2004 (Costa. 2008).na sua maioria com 65 anos ou mais são os mais vulneráveis à pobreza. a variabilidade dos dados regista-se de acordo com a idade. na sua maioria composta por duas pessoas em que um tem mais de 65 anos e por famílias monoparentais e as de maiores dimensões. electricidade. relaciona-se com a situação profissional dos pobres em Portugal: a pobreza atinge 10% dos assalariados e 30% dos trabalhadores por conta própria.Em 2004 os agregados constituídos por uma pessoa . Portugal continua numa posição de maior fragilidade na União Europeia.cruzamento de dados decorrentes do Inquérito aos Orçamentos Familiares de 2000 e os resultados do inquérito europeu aos rendimentos e condições de vida das famílias apoiam algumas das observações do autor. trabalhou ou 12 . lazer. acentua aquela tendência: . o nível de instrução. sobretudo no que respeita à distribuição dos rendimentos monetários. “uma boa parte dos pobres em Portugal trabalha. No entanto. 2008:148149) Um outro aspecto. distracção e cultura. é possível observar uma redução das despesas das famílias com produtos alimentares e um aumento dessas despesas nas comunicações. gás e outros combustíveis. ao mesmo tempo que grande parte da despesa continua estar associada a gastos com a habitação. água. embora em menor número. Talvez seja interessante observar que um outro estudo realizado sobre a pobreza. apresentam-se numa situação semelhante (Bruto da Costa. e para nós de crucial para a compreensão da pobreza em Portugal. O autor dá ainda conta do conjunto de agregados mais vulneráveis à pobreza. Esta é uma questão complexa pois. apesar O da painel dos agregados relativa ter (PAF) pobreza decrescido. referido por Capucha. durante metade da década de 90. os agregados com 6 ou mais elementos. categoria socio-económica do representante familiares do agregado mostra que familiar. e autor sublinha bem essa questão. ao contrário do que muitas vezes se pensa.

Mais importante ainda é reforçar que os níveis de baixos rendimentos estão associados a um baixo nível de instrução. entre pobreza e o desenvolvimento do país. por exemplo. as diferenças de desenvolvimento entre as diferentes regiões da Europa e a sua relação com a pobreza. cada vez mais exigentes em termos de competências várias. trabalhadores agrícolas e desempregados. Mesmo assim. 2007:317). Seja como for. Em Portugal. está relacionado com a história do desenvolvimento do país e com a estrutura do tecido produtivo português. 2005:117). São. os reformados. os grupos mais vulneráveis à pobreza são. uma parte considerável dos trabalhadores em Portugal é vulnerável à pobreza. trabalhadores em 13 . Se remetermos esta questão para as sociedades actuais. no entanto “ um rendimento fixo não é suficiente para garantir uma vida livre da pobreza” (Guiddens. esta situação tende a persistir e acentuar-se. São observadas. Um segundo conjunto de factores. 2005:17). embora não linear. Esta relação entre baixa escolarização e pobreza não é nova em Portugal. Neste domínio. domésticos. estas questões estão intimamente associadas ao seu “subdesenvolvimento histórico e com falhas de protecção social e de outros sistemas políticos” (Capucha.pertence a famílias com activos empregados” (Capucha. com uma influência decisiva nos níveis de pobreza em Portugal. em geral. segundo Capucha. Esta ideia é reforçada por Costa (2008) quando refere que o baixo nível de escolaridade continua a ser uma característica estrutural da sociedade portuguesa. diz o autor. Como se disse acima. Este é um tópico discutido também por Guiddens (2007) que observa um fenómeno idêntico para a realidade inglesa quando comenta “é possível que o desemprego seja o factor com maior influência na pobreza (…). o autor considera existir uma relação. podemos notar a urgência desta questão. incapacitados para o trabalho.

à inovação e cooperação e. a fraca ou inexistente responsabilidade social das empresas. persiste um sector. baixos salários. e manifestando pouca predisposição para a inovação. apostando no controlo dos custos de trabalho. ainda considerável. pouco produtiva. Um terceiro factor. segundo de Capucha. a gestão empresarial resistente à modernização. a médio ou a longo prazo. Por um lado. estamos perante um conjunto de problemas estruturais que sobrepondo-se a outros – por exemplo. inclusive o mercado de emprego. à competição e aos apoios para a modernização provocaram duas reacções distintas por parte do tecido empresarial. Mais uma vez. a pequena e média dimensão das empresas portuguesas – concorre para manter o que Capucha designa por tradicionalismo do tecido produtivo português. a abertura dos mercados ao comércio internacional. Enquanto um pequeno número de empresas inovou. intimamente relacionado com história desenvolvimento económico do país. é composto o quadro que mostra. Já se 14 . condições precárias de trabalho e empregos instáveis. Como consequência. Por outro lado. em certos casos. desemprego e qualificações da população. muito mais vasto. Este aspecto a está. muitas vezes em detrimento da qualidade do mesmo. outro grupo. de economia informal que afecta parte do mercado. a fragilização económica da sociedade e a consequente fragilização social. também às próprias contribuições sociais obrigatórias. manteve-se pouco competitivo e tradicionalista.empresas pouco produtivas onde também predominam as baixas qualificações. apontado por Capucha. Se acrescentarmos a este aspecto. relaciona-se com aquilo que se acabou de expor e tem a ver com as características de emprego. a maioria dos sectores de actividade económica continua pouco moderna.

ou com baixas qualificações escolares. mas também alguns mais novos. o que só por si é determinante das condições materiais de existência. na sociedade portuguesa e ao elevado número de trabalhadores analfabetos. a maioria mais velhos. com os serviços que apoiam os seus direitos. que o nosso mercado de trabalho tem absorvido com alguma facilidade. é com maior facilidade ainda que ele absorve os que abandonaram precocemente a escola ou os que não possuem uma qualificação. e em última análise com os seus sonhos e expectativas.referiu os principais contornos do mercado de trabalho em Portugal. um factor favorável à redução da incidência da pobreza. os desempregados de longa duração são particularmente sensíveis a tensões estigmatizantes devido. Não se pode ficar indiferente à baixa qualificação de uma taxa elevada de profissionais. que permanecerão durante algum tempo no mercado de trabalho. durante o período em análise. de modo decisivo. Mesmo assim. que os níveis de escolarização e qualificação dos empregados mantêm-se como uma ameaça às condições de vida da população. o mercado de emprego português manteve-se genericamente positivo. mas também interfere. Se é verdade que. Mesmo com o aumentando o número de jovens com qualificações elevadas. não é menos certo que as características deste emprego. vale a pena lembrar com Capucha (2005: 125-26) que o trabalho é um dos elementos estruturadores das identidades dos indivíduos. 15 . pois não permite apenas aceder aos rendimentos. Em maior ou menor número. com as instituições. Persiste o problema grave do desemprego de longa duração mais pelo problema em si do que pelo número de pessoas que ele afecta. nas relações que os indivíduos mantêm entre si.

se encontram a usufruir de parcos benefícios. a maior ou menor eficácia dos sistemas de protecção social condiciona a capacidade das sociedades modernas em colmatar as assimetrias na distribuição dos rendimentos primários e. Há uma correlação positiva entre aquilo que o estado gasta em despesa social. sobretudo. o resultado de uma prolongada exclusão social e profissional. sem relação estável com o trabalho. estão associados a estes sectores outros problemas relativos à educação. nessa medida. às particularidades do mercado de emprego referidas anteriormente. a pertença a comunidades que são designadas como problemáticas e dependências que são. também a pobreza.inclusive. que se criou um sistema de sistema universal e obrigatório de protecção social. em última análise. que se considera tardia. ou que só experimentaram essa relação em sectores informais da economia. Com efeito. quando afectam comunidades mais pobres. O argumento de Capucha é forte: “os países com menores taxas de pobreza tendem a ser os países com maior investimento em benefícios sociais. Geralmente. justifica-se a exposição detalhada que Luís Capucha faz do processo de desenvolvimento histórico do sistema de protecção social em Portugal. é que há hoje um número considerável de beneficiários que. Dada a centralidade desta questão na obra do autor. incluindo pensões. por terem um passado contributivo temporalmente curto. Um outro factor de pobreza tem a ver com o desenvolvimento e dinâmicas das políticas de protecção social. e o número de pessoas a viver abaixo dos limiares de pobreza” (2005: 134). Uma das principais consequências desta política. apenas dois tópicos por ajudarem à compreensão de outras problemáticas actuais que o autor apresenta. aqui. A esta circunstância associam-se as limitações da base contributiva de 16 . Estas situações são tanto mais graves quanto dão origem a situações de ruptura. Destacamos. Um primeiro tema relaciona-se com o facto de ter sido apenas. ao acesso a bens fundamentais. depois da revolução de Abril.

o leque dos riscos e situações cobertas aumentou. por um lado. têm sido amplamente assegurados pelas famílias e muito particularmente pelas mulheres. a partir de uma análise multidimensional. actividades de subsistência na unidade familiar com o trabalho doméstico que acumulam às suas actividades profissionais. Estas desempenham. nem na disponibilidade de equipamentos – para crianças e/ou idosos – e para as empresas. Para além disso. Um segundo ponto. alguns dos progressos alcançados observáveis nos anos 90: A despesa total subiu e aumentou o peso no PIB. Este esforço parece ser invisível. que se julga pertinente mencionar. os níveis de substituição aumentou. Um estudo que aborda. 2005:147) Os custos da pobreza e da exclusão social. com muita frequência. Estes factores ajudam a compreender o porquê de um dos grupos mais vulneráveis à pobreza e exclusão social ser constituído pelos idosos pensionistas. para o Estado que não assegura nem a organização dos serviços. que se demitem das suas responsabilidades sociais e da atenção que deverão prestar às famílias dos trabalhadores. de um modo sintético. ou da fuga às mesmas. os requisitos de elegibilidade permitiram a um maior número de pessoas o acesso a benefícios em género e em dinheiro e em dinheiro e aos serviços de assistência. (Capucha. dos seus filhos. a pobreza no feminino em Portugal conclui que as mulheres são. os níveis de substituição das prestações aumentaram. são condicionadas a limitar a descendência e a investir na promoção social. o número de beneficiários cresceu. relaciona-se com os resultados dessa evolução do sistema e que permite ao autor indicar. via a escolar. por outro. em termos de pobreza persistente e transitória superior à proporção da 17 .grande parte dos beneficiários com baixos níveis salariais.

segundo Guiddens (2007). valores e saberes das populações têm uma influência concreta na formação de imagens e na desvalorização das populações que experienciam e vivem em situações da pobreza e exclusão social. 2008:3). Trata-se de uma ideologia que. se tornam responsáveis pelas circunstâncias mais precárias em que se encontram (Guiddens. esta análise vem chamar a atenção para a necessidade de se focalizar estas questões. António Teixeira Fernandes explora com muito interesse esta questão: A segregação como situação de pobreza resulta de processos de afastamento de grupos e é consequência de uma conduta individual/colectiva intencional. Convém lembrar que existe uma longa história. por nada fazerem para mudar a sua situação. como se mostrará mais adiante. pela recomposição do tecido social. na sequência do enfoque político é dado à actividade empresarial e à crença nos efeitos compensatórios da ambição pessoal. 1991:10) Na realidade. numa palavra. (Fernandes. pela superação da marginalidade e da segregação. adquire uma nova força durante os anos 70 e 80. 2007:318). em consequência.população total. A luta contra a pobreza passa. pela vitória do individualismo e pela reconstituição de redes de solidariedade. em relação às atitudes de “culpabilização dos pobres” pela sua condição. secular. Esta ambição teria levado alguns indivíduos ao sucesso enquanto que outros. Não obstante as dificuldades na pesquisa que o estudo apresenta. 18 . Vale a pena notar que as representações. articulando-as com populações mais vulneráveis aos fenómenos da pobreza e exclusão social (Pereirinha. o preconceito e a marginalização têm um peso considerável nos processos de pobreza que não é muitas vezes avaliado.

Diz respeito à relação entre pobreza e território. Podemos observar a persistência de espaços de concentração de grupos pobres nas áreas urbanas ou periurbanas. ser um elemento condicionante dos trajectos sociais das pessoas que nele habitam e. importa por agora não subestimar estas representações. o autor chama a atenção para o facto de o próprio território. 2005:161). 19 . contraste continuidade e dispersão /concentração das categorias vulneráveis à pobreza. A este propósito. exposto por Capucho desperta especial interesse para a reflexão. questionando em que medida elas se podem constituir em barreiras concretas à construção de projectos de vida das pessoas e populações olhadas e pensadas como desfavorecidas. o seguinte: “ tendem a constituir-se círculos de pobreza instalada que funcionam numa lógica auto-reprodutiva das condições de desfavorecimento” (Capucha. nesse sentido. pobreza rural / pobreza urbana. atitudes e representações destas pessoas resultam de processos de socialização em ambientes predominantemente exclusionários. pelas relações sociais que ele condensa. optando antes por observar a pobreza numa perspectiva transversal que privilegia as categorias visibilidade/invisibilidade. 2005). o autor recusa os dualismos os dualismos cidade /campo. em relação aos bairros pobres das cidades. Daí a importância e a aposta que devam ser feitas nos sistemas de ensino e formação (Capucha. Na sua análise. Há ainda que considerar um último aspecto que é frequentemente esquecido: muitos dos comportamentos. É com base nestas relações que o autor refere um conjunto de dinâmicas importantes. destaca.Não querendo simplificar o debate que estas questões encerram. Um último factor.

marcados pelo tradicionalismo das suas estruturas. observa que a pobreza nas regiões rurais periféricas se manteve. Em algumas aldeias do interior encontram-se regiões predominantemente habitadas por idosos pensionistas (mas com baixas pensões) e agricultores subsistentes. observando-se nesses grupos uma maior probabilidade de viverem situações de pobreza e exclusão social. Em geral. 20 . Finalmente. São ainda territórios desprovidos de serviços sociais e económicos. uma agricultura em decadência negando aos seus habitantes mais jovens as oportunidades que correspondam às suas expectativas que já são formadas a partir do contacto com o mundo urbano. Nestes casos. Após a discussão detalhada dos factores de pobreza e da forma como eles afectam. o autor expõe a ideia de categorias vulneráveis à pobreza. a apatia política e a dificuldade de mobilização destas populações reforçam os mecanismos de desigualdade inter-regional. Estes são hoje visivelmente mais pobres. as populações. de modo diversificado. trabalhadores da indústria e dos serviços com baixas qualificações.Um outro conjunto de dinâmicas diz respeito à acentuação da clivagem entre regiões rurais e periféricas e o litoral. sem-abrigo e crianças de rua em situação de ruptura profunda com instituições correntes. São regiões mais pobres. e com fracas competências relacionais e que ocupam muitas vezes os centros da cidade. enquanto antes essa pobreza era muitas vezes ocultada dada a vergonha. Alguns dos exemplos mais expressivos são: idosos pensionistas que mantém a sua casa em zonas comuns da cidade mas que vivem em situações de privação e isolamento. afirma o autor. Estas são consideradas com base na existência de atributos comuns a um conjunto de pessoas cuja agregação tende a ser socialmente reconhecida. a dispersão da localização dos pobres no território acaba por ajudar a encobrir a condição destes pobres.

o esquema de análise do autor revela-se de grande utilidade interpretativa. trabalhadores idosos e com baixas famílias monoparentais. por outro. Este grupo sofre uma relativa desqualificação dada a ausência de recursos – rendimentos. os imigrantes dadas as escassas oportunidades de formação e de reorganização da vida pessoal e familiar. sustentam expectativas de encontrar uma melhor situação social. e. obsoletas. de um modo geral. Capucha classifica estas categorias em quatro grandes grupos situando-as em função de dois vectores fundamentais: por um lado. Incluem-se aqui as pessoas com deficiência. Capucha sublinha os efeitos dos contextos territoriais degradados onde estes grupos residem e cujos recursos comunitários. tem-se em conta as capacidades possuídas e oportunidades que se lhes oferecem. Este grupo inclui desempregados qualificações de longa ou duração. Com base neste esquema de análise. é considerado o peso das orientações culturais e relacionais mais ou menos favoráveis à sua participação social. Capucha considera os seguintes grupos: a) Grupos com um handicap específico: têm em comum o facto de serem afectados por um handicap que impede ou dificulta a sua participação social e profissional e de serem também alvo de uma discriminação baseada em preconceitos acerca das suas potencialidades e capacidades.De novo. e às suas experiências sucessivas de exclusão ou fraca inclusão que conduzem muitas vezes ao desalento c) Nos círculos de pobreza instalada. b) Grupos desqualificados que são constituídos por pessoas com problemas de participação e inserção social devido aos baixos níveis de instrução escolar e de qualificação profissional. redes relacionais e 21 . São grupos que. formação ou apoio social devido às suas próprias competências.

os detidos e ex-reclusos. porque é possível reconhecer. Segundo o autor. o autor faz intervir um conjunto de aspectos. a observação das práticas e vivências sociais e culturais é lida com uma curiosidade acrescida e entendida como a dimensão compreensiva fundamental para a análise das questões da pobreza e da exclusão social. a saber: o sistema de recursos e constrangimentos estruturais. d) Grupos à margem que se caracterizam pela predomínio de modos de vida inadaptados às normas socialmente dominantes. rigorosamente apoiado em indicadores estatísticos. a desorganização da vida pessoal. Em termos subjectivos. ou partir de leituras efectuadas ou pela experiência comum. é quanto a nós a parte mais interessante desta obra. Por dois motivos: primeiro. Luís Capucha explica a operacionalização desta dimensão tomando como referência a realidade portuguesa e as vivências de pobreza e exclusão social que nela se manifestam. discutida teoricamente no segundo capítulo da sua obra. Incluem-se nestas categorias os toxicodependentes e extoxicodependentes.onde são 22 . Para a exploração dos modos de vida. o sistema de actividades reguladas e os modelos de vida adoptados mais ou menos conscientes pelos agentes. a atitude de desencorajamento e resignação à sua condição de pobres reforçam as condições de exclusão. os “retratos de vida” que aqui se expressam. ou pelo menos a ausência de referência à informação sistematicamente recolhida pelo autor para a construção desta tipologia. sem-abrigo e menores em situações de risco. são observadas as seguintes dimensões: social . porque num texto. Depois. Não obstante a pouca evidência empírica. Tendo em conta a noção de modo de vida.estruturas de dominação na ocupação do espaço tendem a erguer-se como “amarras” à situação de pobreza que as pessoas vivem.

saúde e conforto. quer dizer. a tipologia construída pelo autor. 2005:214-15). algumas destas pessoas são incapazes de procurar 23 . Trabalhando sobre propostas anteriores. A destituição não gera recursos que permitam a participação social e. uma ruptura dos laços com instituições como a família. A destituição é o modo de vida mais próximo dos limites da própria vida. acompanhada de algumas observações que pretendem. de um modo esquemático e necessariamente simplista. por essa razão. Existe. São. e a dimensão temporal .trajectos passados ou virtuais. ilustrar algumas das características mais comuns cada um destes modos de vida. Ela permite dar conta do modo como as famílias que pertencem a uma dada categoria social organizam estrategicamente os seus modelos de vida. temporais. A abrangência analítica desta noção é evidente. falta de condições de higiene. da escassez das oportunidades e dos recursos materiais. para onde convergem os níveis mais baixos de pobreza. habitação (o que no caso dos semabrigo nem existe). a dimensão espacial – localizações dos contextos de interacção. aproveitando ou não as margens de manobra disponíveis de acordo com os critérios que afectam os seus recursos – materiais. Estes grupos sofrem de má alimentação. mesmo de um modo superficial. a dimensão cultural – símbolos e orientações de vida. Apresenta-se aqui. nos bairros degradados ou nas aldeias do interior rural. e os factores mais ligados às disposições e orientações culturais relacionais (Capucha. pessoas que se encontram dispersas nos espaços das cidades. com frequência. trabalho e outras redes de relacionamento. o autor organiza estas questões segundo dois eixos fundamentais: o maior ou menor peso da debilidade das competências.ponderadas a pertença de classe e a relação com redes sociais e estruturas familiares. cognitivos ou relacionais. em geral.

ou ganhando apenas visibilidade quando as pessoas se encontram integradas em comunidades empobrecidas. O presente não é valorizado positivamente. Os recursos que possuem são escassos e muitas vezes dispendidos em comemorações que assinalam.apoios. entre outros. A situação de isolamento pode muitas vezes gerar atitudes de agressividade face ao meio. encobrimento ou vergonha. a memória do passado parece encontrar-se ausente. portanto. é provável que esta pobreza seja persistente no futuro A dupla referência é vivida por referência a duas sociedades diferentes. Sendo o presente assumido muitas vezes com resignação. Dado o mercado de trabalho em Portugal. a sua vida é orientada em função das necessidades básicas. vivem em boa situação em relação aos seus países de origem. Está igualmente associada a um certo tipo de “pobreza envergonhada”. e as suas características de baixas remunerações. Outras vezes. Se se consideram pobres e marginalizados. A nível territorial tendem a encontrar-se em bairros degradados das periferias das grandes cidades. de idosos com pensões muito baixas e pessoas com deficiências provenientes de famílias com poucos recursos. O quotidiano destas pessoas é marcado pela grande escassez de recursos económicos e. mas não se gera inconformismo suficiente para investir na fuga a essas condições. A restrição é característica de alguns grupos de assalariados de rendimentos muito baixos. São alvo e vítimas apenas de caridade. sendo por vezes invisível. por exemplo. pelos imigrantes africanos em Portugal. São frequentemente vítimas de racismo e marginalização. Nestes casos a visibilidade é contínua em relação ao meio. a restrição decorre da necessidade de 24 . como o prolongamento do passado pobre. sendo sentido . As suas condições e consciência das mesmas são muitas vezes acompanhadas pelo ressentimento. por muitos. o sucesso da decisão migratória.

permite aumentar a poupança. O modo de vida de poupança é característico do campesinato e campesinato parcial. O passado tendo sido muito pobre do ponto vista material é valorizado no plano afectivo e identitário. envolvendo a representação da continuidade da casa e do seu património. mas é possível encontrar-se disposições inconformistas quanto ao futuro. uma vez que a escassez de recursos impede a realização das suas expectativas e experimentam dificuldades de mobilidade que são de algum modo condicionadas pelos modos de vida e trabalho dos pais. O presente está ligado ao passado na reprodução da família. São grupos que possuem rendimentos incertos.acumular capital económico para o retorno. afastando-se muitas vezes da estratégia da poupança. 2005:224). sendo também o modo de vida mais incidente nas zonas de agricultura do interior Norte e Centro. Ao pensar-se o futuro como a perpetuação do presente. o processo de urbanização penetra facilmente nos quadros culturais. Se é certo que a obtenção de recursos externos. O presente é de restrição e sacrifício. O modo de vida de conviabilidade é atravessado por “formas de sociabilidades exuberantes (…) e valorização do prazer convivial” (Capucha. provenientes muitas vezes de economias comunitárias algumas semi- 25 . no caso do campesinato parcial. os projectos de vida orientam-se de um modo mais defensivo do que transformador. É dramática a vida dos imigrantes de segunda geração. o que poderá constituir uma ameaça para esta população uma vez que a cidade continua a ser vista como um mundo oposto e hostil. isso implica também uma maior penetração dos modelos de vida urbanos. A poupança encerra uma forte ligação com o passado – a tradição. nestes casos. No caso dos camponeses parciais. Esta localização mostra a continuidade entre o espaço camponês e a pobreza.

A visibilidade que muitas vezes os caracteriza decorre de algumas atitudes de afirmação simbólica e de intervenção nas comunidades locais. o funcionamento institucional do ensino e a surpresa que constitui. quando estão dispersas nas cidades. de um modo opressor. por exemplo. Uma das vertentes interessantes das suas estratégias de vida reside nas tácticas de “dramatização e simbolização da pobreza” (Capucha. por vezes.legais ou ilegais. excessivas enquanto existe dinheiro e de forte restrição quando este 26 . No plano territorial. marcam fronteiras e distâncias simbólicas ou encobrem essas situações. as suas práticas de consumo são peculiares. Sendo os que mais se aproximam das possibilidades de romper com a pobreza. Por essa e outras acaba. Concentram-se em bairros antigos das grandes cidades e bairros ou barracas e habitação social. razões. quer porque isso lhes interessa para manter as suas actividades. O investimento na mobilidade é uma estratégia comum a operários e empregados de comércio e dos serviços de emprego estável. ainda hoje. Impõem. a desvalorização dos diplomas no ensino superior. Gostam de viver o presente. quando habitam junto de grupos pobres. São também comunidades fechadas quer porque esse fechamento lhes é imposto pelo exterior. enfrentam obstáculos tais como segmentação dos mercados de trabalho. com baixas remunerações e com escolaridades um pouco superiores à média das restantes categorias. Privilegiam o investimento na carreira escolar dos filhos e poupam dinheiro para ter o conforto mínimo na habitação ou para mostrar uma outra aparência no vestuário e modos de estar. porque o futuro é percebido como incerto. 2005) que lhes permitem obter os subsídios sociais. os seus próprios critérios de ocupação dos espaços. muitas vezes em detrimento do lazer e inclusive da alimentação. Incluem-se aqui redes sociais de predominância subproletária e outras populações pobres ligadas ao pequeno comércio ambulante e minorias ciganas. e a flexibilização da relação salarial.

considerados exemplificativos do impacte das políticas sociais. ou vivem institucionalizados ou ocupam espaços públicos numa posição de distância com as regras comuns e oficiais. a rejeição do passado enquanto o presente é para acumular capital escolar e económico com vista a um futuro possa ser melhor. no último capítulo. transitando ou não para modos de vida de restrição ou destituição Finalmente. Incluem-se também nos casos de pobreza envergonhada. implementadas com o objectivo de erradicar a pobreza e da exclusão social. porque a memória do passado não ajuda à vida enquanto o futuro é percebido com incerteza. Acontece em situações de ruptura profissional ou familiar com os desempregados recente ou famílias monoparentais que tinham até então uma situação económica estável. dois casos. a desafectação refere-se a grupos de pessoas que adoptam estilos de vida marginais e ruptura com os laços sociais e com principais instituições de referência. Reagem a esta com revolta ou vergonha.Manifestam. frequentemente. ressaltando a introdução de um contrato onde 27 . São grupos muito visíveis em contraste com o meio. Tendem a possuir um profundo sentido crítico em relação às diferenças sociais e à sua própria condição. Após a explicação destes aspectos. Luís Capucha apresenta. uma vergonha que por vezes é neutralizada pela partilha de valores alternativos de outros grupos de pares. A transitoriedade refere-se à situação de pobreza de pessoas que não se encontram há muito tempo na pobreza. O primeiro que diz respeito à introdução do Rendimento Mínimo Garantido (RMG). Vivem no presente. O autor acentua o carácter de inovação de que esta medida se revestiu. procurando formas de superar esta situação.

28 . Sabemos que são outros os efeitos e consequências que são debatidas socialmente e politicamente e essas percepções também são passíveis de produzir consequências negativas tanto no plano das políticas sociais. O estudo refere-se à avaliação dos resultados das políticas de reabilitação socioprofissional. O segundo exemplo relaciona-se com a reabilitação das pessoas com deficiência e acesso ao mercado de trabalho O autor considera que este exemplo representa uma boa ilustração da tese de que a pobreza e a exclusão social podem ser erradicadas a partir das políticas públicas de qualidade e mediadas pelas organizações da sociedade civil. o autor deixa uma nota que é poucas vezes divulgada e nessa medida pouco influente nas representações comuns sobre esta medida: um dos efeitos do RMG foi a activação de muitas pessoas excluídas do mercado de trabalho por vezes durante gerações. das organizações e das pessoas. o que implica que as instituições se transformem no sentido de se tornarem acessíveis a todos os cidadãos. articulando o papel específico do Fundo Social Europeu a nível do sistema.está implícita uma relação de carácter formal e de responsabilidade mútua e não unilateral. como acontecia anteriormente. sobretudo nas suas fases iniciais de implementação. Retratando todos os problemas de eficácia prática e as incongruências que naturalmente podem afectar este sistema. como na activação de preconceitos amplamente difundidos na sociedade portuguesa. Uma das observações que surge como mais pertinência pela abrangência da perspectiva de inclusão é a de que a reabilitação não passa apenas pela intervenção junto das pessoas vítimas de discriminação mas também pela afirmação do princípio da universalidade de direitos.

inicialmente. contam-se a preparação pré-profissional com o objectivo de facilitar a transição para a vida activa de crianças que frequentam instituições de ensino especial. destaca-se uma observação de Capucha que parece bem sugestiva dos passos importantes que foram dados no sentido de uma maior inclusão destas populações: “ as principais melhorias fazem-se sentir ao nível dos desempenhos.Entre as medidas descritas. a avaliação e orientação profissional que apoiam as pessoas com deficiência a tomarem decisões vocacionais. O autor mostra. medidas no âmbito do emprego protegido. A estas medidas acrescentaram-se outras designadamente. O autor começa e termina o seu livro enfatizando o papel da pesquisa científica na intervenção social em relação aos fenómenos que analisa. que as ciências sociais actuaram por um lado como “consciência crítica e sistema de alerta” (Capucha. majorações e medidas de carácter estruturante e Uma última nota dirige-se à posição investigativa de Capucha nesta pesquisa. Na impossibilidade de retratar aqui todos os resultados descritos. a satisfação com os resultados destas políticas contrariando as ideias mais preconceituosas que manifestam a descrença na capacidade dos sujeitos deficientes. 2005:29) na denúncia dos problemas da pobreza e 29 . universal. isto é. medidas no âmbito de integração no mercado normal de trabalho. o desempenho e a autonomia” (Capucha. e a formação profissional ajustada às características de cada utente. o que melhorou foi principalmente a capacidade para lidar com os problemas. Salientando. a partir de várias informações recolhidas quer junto das pessoas abrangidas quer no seio das organizações que trabalham com estas pessoas. e portanto. 2005:312). daquilo que se pode fazer mesmo possuindo-se um “handicap” à partida. Por outras palavras.

no final do seu livro ele deixa. 30 . de emprego. de acordo com Capucha. às políticas e à coesão social. pouco fatalista que atravessa o seus registos discursivos. é de ressaltar o comprometimento político e social do investigador com as questões que aborda.da exclusão social. Apela-se para a necessidade de um aprofundamento da análise macrossociológica sem esquecer o nível micro dos factores e categorias da pobreza. Pretende-se uma análise relacional. demográficas. mais sistemática. para as ciências sociais. sem esquecer as estruturas que contornam as referidas problemáticas. entre as dinâmicas económicas. o tom pragmático. Fica pois o desafio: à sociologia. Exige-se. culturais e geográficas e os problemas de pobreza e de exclusão social. o refinamento dos instrumentos de pesquisa susceptíveis de produzir uma compreensão mais aprofundada dos fenómenos que articulam os processos e dimensões da pobreza e exclusão social. Finalmente. apontando alguns caminhos para o desenvolvimento da pesquisa a este nível. enfatizando as oportunidades de intervenção. Luís Capucha acentua muitas vezes as possibilidades práticas de superação de alguns dos problemas associados à pobreza e à exclusão social. e a um estudo mais detalhado destas problemáticas com base nas referências teóricas associadas às questões das classes sociais. o desafio. Mais ainda. de formação e educação. de novo.

31 . J. (2005). Formas e mecanismos de exclusão social. (2002).B (2008). T (1991). Oeiras: Celta. . . Sociologia. Lisboa: e Edições Pobreza: Calouste impacto e Gulbenkian.Referências Bibliográficas . Pereirinha. Porto: FLUP. Lisboa: Gradiva. (coord) Sociologia.Bordieu. Esboço de uma teoria da prática. Lisboa: Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. . Género determinantes da Pobreza no feminino. A. Um olhar sobre a pobreza: vulnerabilidade e exclusão social no Portugal contemporâneo.Fernandes. - Guiddens. (2008).Capucha. Oeiras: Celta Editora. P. A. A. L. (2007).Costa. Os desafios da pobreza. A.

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