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Flávia Piovesan - Direitos Humanos

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DIREITOS REPRODUTIVOS COMO DIREITOS HUMANOS

Flavia Piovesan
Professora doutora da Faculdade de Direito da PUC/SP de Direitos Humanos e Direito Constitucional Membro do Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher Visiting fellow do Human Rights Programs da Harvard Law School (1995 e 2000) Procuradora do Estado de São Paulo

Sumário
1. Introdução. 2. O que são direitos humanos? Qual é a concepção contemporânea de direitos humanos. 3. Como relacionar os direitos humanos com os direitos reprodutivos? 4. Como compreender os direitos reprodutivos sob a perspectiva dos direitos humanos? Quais são os principais desafios e perspectivas? 5. Bibliografia.

1. INTRODUÇÃO O objetivo deste artigo é enfocar os direitos reprodutivos como direitos humanos. Serão destacadas três indagações centrais a esta reflexão: 1) O que são direitos humanos? Qual é a concepção contemporânea de direitos humanos?; 2) Como relacionar os direitos humanos com os direitos reprodutivos? e 3) Como compreender os direitos reprodutivos sob a perspectiva dos direitos humanos? Quais são os principais desafios e perspectivas? 2. O QUE SÃO DIREITOS HUMANOS? QUAL CONTEMPORÂNEA DE DIREITOS HUMANOS? É A CONCEPÇÃO

No dizer de Hannah Arendt, os direitos humanos não são um dado, mas um construído, uma invenção humana, em constante processo de construção e reconstrução1. Considerando a historicidade destes direitos, pode-se afirmar que a
Cf.ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo. Trad. de Roberto Raposo, Rio de Janeiro, 1979. A respeito, ver também: LAFER, Celso. A Reconstrução dos Direitos Humanos: Um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. São Paulo: Cia das Letras, 1988, p.134. No mesmo sentido, afirma Ignacy Sachs: “Não se insistirá nunca o bastante sobre o fato de que a ascensão dos direitos é fruto de lutas, que os direitos são conquistados, às vezes, com barricadas, em um processo histórico cheio de vicissitudes, por meio do qual as necessidades e as aspirações se articulam em reivindicações e em estandartes de luta antes de serem reconhecidos como direitos”. (SACHS, Ignacy. Desenvolvimento, Direitos Humanos e Cidadania. In: Direitos Humanos no Século XXI, 1998, p.156). Para Allan Rosas: “O conceito de direitos humanos é sempre progressivo. (…) O debate a respeito do que são os direitos humanos e como devem ser definidos é parte e parcela de nossa história, de nosso passado e de nosso presente.” (ROSAS, Allan. So-Called Rights of the Third Generation. In: Asbjorn Eide; Catarina Krause; e Allan Rosas. Economic, Social and Cultural Rights, Boston e Londres: Martinus Nijhoff Publishers, 1995, p. 243).
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É neste cenário que se desenha o esforço de reconstrução dos direitos humanos. Apresentando o Estado como o grande violador de direitos humanos. além de comunistas. que resultou no envio de 18 milhões de pessoas a campos de concentração. a condição de sujeito de direitos. ciganos. adotada em 16 de dezembro de 1977. sem a realidade dos direitos civis e políticos. Esta concepção é fruto do movimento de internacionalização dos direitos humanos. surgindo. se compila. leciona Hector Gros Espiell: “Só o reconhecimento integral de todos estes direitos pode assegurar a existência real de cada um deles. na Declaração Universal de Direitos Humanos. e em vigência desde 1976. como marco maior do processo de reconstrução dos direitos humanos. em 10 de dezembro de 1948. Ignacy. a era Hitler foi marcada pela lógica da destruição e da descartabilidade da pessoa humana. sob a crença de que a condição de pessoa é o requisito único para a dignidade e titularidade de direitos. como resposta às atrocidades e aos horrores cometidos durante o nazismo.definição de direitos humanos aponta a uma pluralidade de significados. a chamada concepção contemporânea de direitos humanos. (33). o século XX foi marcado por duas guerras mundiais e pelo horror absoluto do genocídio concebido como projeto político e industrial2. que constitui um movimento extremamente recente na história. como paradigma e referencial ético a orientar a ordem internacional contemporânea. Introduz ela a concepção contemporânea de direitos humanos. e se reafirma definitivamente nos Pactos Universais de Direitos Humanos. sobre os critérios e meios para melhorar o gozo 2 Cf. ou seja. O Desenvolvimento enquanto apropriaçao dos direitos humanos. Indivisibilidade porque a garantia dos direitos civis e políticos é condição para a observância dos direitos sociais. capaz de conjugar o catálogo de direitos civis e políticos ao catálogo de direitos sociais. In: Estudos Avançados 12. é aprovada a Declaração Universal dos Direitos Humanos. os direitos econômicos. Inversamente. caracterizada pela universalidade e indivisibilidade destes direitos. Universalidade porque clama pela extensão universal dos direitos humanos. com a morte de 11 milhões. sendo 6 milhões de judeus. Ao examinar a indivisibilidade e a interdependência dos direitos humanos. No dizer de Ignacy Sachs. os direitos civis e políticos se reduzem a meras categorias formais. neste estudo. que veio a ser introduzida com o advento da Declaração Universal de 1948 e reiterada pela Declaração de Direitos Humanos de Viena de 1993. econômicos e culturais e vice-versa. se amplia e se sistematiza em 1948. por sua vez. aprovados pela Assembléia Geral em 1966. a partir do pós-guerra. . Os direitos humanos compõem assim uma unidade indivisível. Quando um deles é violado. à pertinência a determinada raça – a raça pura ariana. econômicos e culturais. interdependente e inter-relacionada. sociais e culturais carecem. homossexuais.… O legado do nazismo foi condicionar a titularidade de direitos. destaca-se. que de certa forma está implícita na Carta das Nações Unidas. Esta idéia da necessária integralidade. 1998. Neste sentido. sem a efetividade da liberdade entendida em seu mais amplo sentido. p. o PósGuerra deveria significar a sua reconstrução. de verdadeira significação.SACHS. Se a 2a Guerra significou a ruptura com os direitos humanos.149. na Proclamação de Teerã de 1968 e na Resolução da Assembléia Geral. os demais também o são. Tendo em vista tal pluralidade. já que sem a efetividade de gozo dos direitos econômicos. sociais e culturais. interdependência e indivisibilidade quanto ao conceito e à realidade do conteúdo dos direitos humanos.

Human Rights. quando os direitos humanos forem violados. a idéia de que a proteção dos direitos humanos não deve se reduzir ao domínio reservado do Estado.efetivo dos direitos e das liberdades fundamentais (Resolução n. Uma das maiores exigências intelectuais de nosso tempo é a de repensar a questão da soberania (. In: Foreign Affairs. Empowering the United Nations. apud Henkin [et alii].89.5 2a) a cristalização da idéia de que o indivíduo deve ter direitos protegidos na esfera internacional. p. que reside em toda a humanidade e que permite aos povos um envolvimento legítimo em questões que afetam o mundo como um todo. encontra expressão na gradual expansão do Direito Internacional. cit.”4 Fortalece-se. Enfatizar os direitos dos indivíduos e os direitos dos povos é uma dimensão da soberania universal. Los derechos económicos.3 A Declaração Universal de 1948. no final de 1992: “Ainda que o respeito pela soberania e integridade do Estado seja uma questão central. isto é. p. 4 SIKKINK. In: International Organizations. na medida em que são admitidas intervenções no plano nacional em prol da proteção dos direitos humanos. cada vez mais. . O processo de universalização dos direitos humanos permitiu. permitem-se formas de monitoramento e responsabilização internacional. isto é. porque revela tema de legítimo interesse internacional. Principled issue-networks. decorrência de sua soberania. na qualidade de marco maior do movimento de internacionalização dos direitos humanos. p. fomentou a conversão destes direitos em tema de legítimo interesse da comunidade internacional. p.413. não se deve restringir à competência nacional exclusiva ou à jurisdição doméstica exclusiva. San José: Libro Libre. é inegável que a antiga doutrina da soberania exclusiva e absoluta não mais se aplica e que esta soberania jamais foi absoluta. and Sovereignty in Latin America. mas constituem uma legítima preocupação da comunidade internacional.). Na lição de André Gonçalves Pereira e Fausto de Quadros: 3 ESPIELL. 1986. vol. 5 Destaque-se a afirmação do Secretário Geral das Nações Unidas. Kathryn.. que passa a sofrer um processo de relativização. por sua vez. p. Acrescenta a mesma autora: “Os direitos individuais básicos não são do domínio exclusivo do Estado. na condição de sujeito de Direito.. 1993. 1992/1993. International Law – Cases and Materials. Prenuncia-se. Como observa Kathryn Sikkink: “O Direito Internacional dos Direitos Humanos pressupõe como legítima e necessária a preocupação de atores estatais e não estatais a respeito do modo pelo qual os habitantes de outros Estados são tratados. 16-17. deste modo.18). A rede de proteção dos direitos humanos internacionais busca redefinir o que é matéria de exclusiva jurisdição doméstica dos Estados.” (BOUTROS-GHALI. o fim da era em que a forma pela qual o Estado tratava seus nacionais era concebida como um problema de jurisdição doméstica. Hector Gros. sociales y culturales en el sistema interamericano. assim. 32/130)”. como era então concebida teoricamente. É um movimento que.” (op.. Massachusetts: IO Foundation e Massachusetts Institute of Technology.98-99. a formação de um sistema normativo internacional de proteção destes direitos. 441). esta concepção inovadora aponta a duas importantes conseqüências: 1a) a revisão da noção tradicional de soberania absoluta do Estado. Por sua vez.

Mas dentre elas o livro mostrou que há que se destacar três: a proteção e a garantia dos Direitos do Homem. são de índole variada: política. do Estado-Polícia para o EstadoProvidência. Norberto. compreendidos sob o prisma de sua indivisibilidade9. Na visão de Hector Fix-Zamudio: “(. O elevado número de Estados-partes destes tratados simboliza o grau de consenso internacional a respeito de temas centrais voltados aos direitos humanos. no início do século.. Manual de Direito Internacional Público. 1991. QUADROS. o desenvolvimento e a integração econômica e política".BOBBIO. André Gonçalves. a Convenção contra a Tortura contava com 119 Estados-partes. para finalmente encontrarem sua plena realização como direitos positivos universais7. Como leciona Norberto Bobbio. com 191 Estados-partes8. técnica. começa a se desenvolver o Direito Internacional dos Direitos Humanos.51. a Convenção sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher e a Convenção sobre os Direitos da Criança contemplam não apenas direitos civis e políticos. p. tem alcançado o Direito interno. 9 Note-se que a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. Comision Nacional de Derechos Humanos. p. enquanto controle judicial da constitucionalidade das disposições legislativas e de atos concretos de autoridade. Trad.661). p. econômicos e culturais. a Convenção sobre a Eliminação da Discriminação Racial contava com 155 Estados-partes. Acrescentam os autores: “As novas matérias que o Direito Internacional tem vindo a absorver.661. 6 . pode-se afirmar que os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos refletem.. até junho de 2000. que o destacado tratadista italiano Mauro Cappelleti tem qualificado como jurisdição constitucional transnacional. cabe destacar que. o combate à discriminação racial.“Em termos de Ciência Política. particularmente a esfera dos direitos humanos e tem se projetado no âmbito internacional e inclusive comunitário. 1988. 3aed. dentre outros temas. Fausto. os direitos humanos nascem como direitos naturais universais. Era dos Direitos. p. social. desenvolvem-se como direitos positivos particulares (quando cada Constituição incorpora Declarações de Direito). Neste sentido. a Convenção sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher contava com 165 Estados-partes e a Convenção sobre os Direitos da Criança apresentava a mais ampla adesão. Coimbra: Livraria Almedina. sobretudo. A concepção contemporânea de direitos humanos caracteriza-se pelos processos de universalização e internacionalização destes direitos. tratou-se apenas de transpor e adaptar ao Direito Internacional a evolução que no Direito Interno já se dera. cultural. Rio de Janeiro: Campus. etc. de Carlos Nelson Coutinho.6 A partir da aprovação da Declaração Universal de 1948 e a partir da concepção contemporânea de direitos humanos por ela introduzida. a proibição da tortura. 1993. 8 A respeito. cit. UNDP. Oxford University Press. New York/Oxford. nas condições referidas. científica.184) 7 Cf. Sociais e Culturais contava com 142 Estados-partes. Ressalte-se que a Declaração de Direitos Humanos de PEREIRA. mediante a adoção de inúmeros tratados internacionais voltados à proteção de direitos fundamentais. econômica. consultar Human Development Report 2000..) o estabelecimento de organismos internacionais de tutela dos direitos humanos. p. 2000. na medida em que invocam o consenso internacional acerca de temas como os direitos civis e políticos. México.” (Proteccion Juridica de los Derechos Humanos. Em face da crescente consolidação deste positivismo universal concernente aos direitos humanos. os direitos econômicos. mas também direitos sociais. sociais e culturais. o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. a eliminação da discriminação contra a mulher e a proteção aos direitos da criança. (op. como Direito Internacional da Cooperação e da Solidariedade”. o que vem a endossar a idéia da indivisibilidade dos direitos humanos. Mas foi o suficiente para o Direito Internacional abandonar a fase clássica. a consciência ética contemporânea compartilhada pelos Estados. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos contava com 144 Estados-partes. como o Direito da Paz e da Guerra.30. para passar à era nova ou moderna da sua evolução.

o gênero corporifica a sexualidade (não o inverso). que é exercida como uma forma de poder. as relações de gênero são atravessadas pelo poder e a sexualidade. reitera a concepção da Declaração de 1948. afirma: “Todos os direitos humanos são universais. Faz-se necessária a especificação do sujeito de direito. começa a se desenvolver o Direito Internacional dos Direitos Humanos. sob a perspectiva de gênero. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos globalmente de forma justa e equitativa. heterossexual e dono de um patrimônio para a visibilidade de novos sujeitos de direitos. Note-se que. ampliando-se e incorporando novos direitos. 1995). bem como basta atentar para a Convenção para a Prevenção e Repressão ao Crime de Genocídio. ocidental. etnia. com base na igualdade formal.” Logo. Torna-se. contudo. geral e abstrata. que expressava o temor da diferença (que no nazismo havia sido orientada para o extermínio). afirma que os direitos humanos das mulheres e das meninas são parte inalienável. que pune a lógica da intolerância pautada na destruição do “outro”. introduzida pela Declaração de 1948. pois regula as relações homem-mulher. homem-homem e mulher-mulher. interdependentes e interrelacionados. Assim. atravessando e construindo a identidade de homens e mulheres. ou determinadas violações de direitos. A primeira fase de proteção dos direitos humanos foi marcada pela tônica da proteção geral. raça ou religião. Feitas essas considerações a respeito do alcance da concepção contemporânea de direitos humanos. 10 . integral e indivisível dos direitos humanos universais. passa-se à reflexão do modo pelo qual se relaciona com os direitos reprodutivos. 3. Transita-se do paradigma do homem. é necessário avaliar de que modo a agenda de proteção dos direitos humanos foi. a Declaração de 1948 foi adotada por 48 Estados. determinados sujeitos de direitos. portanto. Nesta ótica. gradativamente. COMO RELACIONAR OS DIREITOS HUMANOS COM OS DIREITOS REPRODUTIVOS? Para responder a esta questão. Logo. A título de exemplo.10 Como já mencionado. exigem uma resposta específica e diferenciada.Viena. mediante a adoção de inúmeros tratados internacionais voltados à proteção de direitos fundamentais. Esta concepção foi reiterada pela Plataforma de Ação de Pequim. em razão de sua nacionalidade. também de 1948. com 8 abstenções. em seu parágrafo 18. renova e amplia o consenso sobre a universalidade e indivisibilidade dos direitos humanos. insuficiente tratar o indivíduo de forma genérica.(Saffioti e Almeida. Gênero. subscrita por 171 Estados. a partir da Declaração Universal de 1948. a Declaração de Viena de 1993. adulto. enquanto consenso do “pós Guerra”. que passa a ser visto em sua peculiaridade e particularidade. Acrescente-se ainda que a Declaração de Direitos Humanos de Viena. é o ponto de apoio da desigualdade de gênero. O gênero é também um dos pilares fundantes das relações sociais. concebido como uma relação entre sujeitos socialmente construídos em determinados contextos históricos. em seu parágrafo 5o. endossa a universalidade e a indivisibilidade dos direitos humanos. quando. aqui. Socialmente construído. em pé de igualdade e com a mesma ênfase. de 1995. basta avaliar quem é o destinatário da Declaração de 1948. a Declaração de Viena de 1993 estende. revigorando o lastro de legitimidade da chamada concepção contemporânea de direitos humanos. de 1993.

Alia-se à vertente repressiva-punitiva a vertente positivapromocional. os refugiados. dos direitos humanos e liberdades fundamentais. Inspirados pelos valores e princípios da Declaração Universal. Importa o respeito à diferença e à diversidade. O sistema especial de proteção realça o processo da especificação do sujeito de direito. restrição ou preferência que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento. de alcance geral ou especial. que sofreu violação de direito. como também estimular estratégias de promoção da igualdade. Isto é. a coexistência dos sistemas geral e especial de proteção dos direitos humanos. Firma-se. mediante legislação repressiva. realizada no México. dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos campos político. independentemente de seu estado civil. gozo. social. exercício pela mulher. ou ainda. em 1979. eventualmente. no âmbito do sistema global. também. os grupos étnicos minoritários. a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. São essenciais estratégias capazes de incentivar a inserção e inclusão social de grupos historicamente vulneráveis. exclusão. enquanto medidas especiais e temporárias voltadas a aliviar e remediar o padrão discriminatório que alcança as mulheres.1º). mediante a adoção de medidas afirmativas. econômico. É neste cenário que as Nações Unidas aprovam. Logo. como direito fundamental. a discriminação contra a mulher significa “toda distinção. Isto é. a Convenção consagra duas vertentes diversas: a) a vertente repressiva-punitiva (proibição da discriminação) e b) a vertente positiva-promocional (promoção da igualdade). A Convenção objetiva não só erradicar a discriminação contra a mulher e suas causas. Já o sistema geral de proteção (ex: Pactos da ONU de 1966) tem por endereçado toda e qualquer pessoa. os povos indígenas. surge. Foi resultado de reivindicação do movimento de mulheres. o direito à diferença. Nesta ótica. em 1975. concebida em sua abstração e generalidade. em igualdade de condições. assim. a discriminação significa toda distinção. cabe ao indivíduo. Os sistemas geral e especial não são dicotômicos. o que inclui o Brasil. tendo em vista que. que a ratificou em 1984. gozo ou exercício pela mulher. no plano internacional. como sistemas de proteção complementares. Ao lado do direito à igualdade. . para garantir a igualdade não basta apenas proibir a discriminação. mas complementares. a partir da primeira Conferência Mundial sobre a Mulher.). Para a Convenção. A Convenção se fundamenta na dupla obrigação de eliminar a discriminação e de assegurar a igualdade.. A Convenção conta hoje com 165 Estados-partes. no qual o sujeito passa a ser visto em sua especificidade e concreticidade (ex: protege-se as mulheres. as crianças..” (art. Combina a proibição da discriminação com políticas compensatórias que acelerem a igualdade enquanto processo. compõem o universo instrumental de proteção dos direitos humanos. o que lhes assegura um tratamento especial. a escolha do aparato mais favorável.Neste cenário as mulheres devem ser vistas nas especificidades e peculiaridades de sua condição social. direitos idênticos são tutelados por dois ou mais instrumentos de alcance global ou regional. exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento. com base na igualdade do homem e da mulher. os diversos sistemas de proteção de direitos humanos interagem em benefício dos indivíduos protegidos. cultural e civil ou em qualquer outro campo. Ante este complexo universo de instrumentos internacionais.

e mais baixa na região Sudeste. 1. estudo de Amartya Sen.000. progressivamente. 12 A taxa de mortalidade materna no Brasil é cerca de 110 mortes por 100. In: Yale Journal of International Law.Dentre suas previsões. a Convenção reflete a visão de que as mulheres são titulares de todos os direitos e oportunidades que os homens podem exercer. 1989. v. se as garantias de igualdade formal devem se transformar em realidade. 14. Ela impõe a obrigação de assegurar que as mulheres tenham uma igualdade formal perante a lei e ela reconhece que medidas temporárias de ação afirmativa são necessárias em muitos casos. assédio sexual. com relação à indivisibilidade dos direitos humanos. mas sem eliminar da titularidade das mulheres a igualdade de direitos e oportunidades. O aborto é a terceira causa de óbito materno no país como um todo. a fim de assegurar. sendo mais alta na região Norte. Isto significa que pertencer ao gênero feminino interfere no modo pelo qual os direitos humanos são exercidos. Acolhe-se. as habilidades e necessidades que decorrem de diferenças biológicas entre os gêneros devem também ser reconhecidas e ajustadas. assegurando efetiva igualdade entre eles. assim. a tônica da Declaração Universal. contra 3. como também de seus direitos sociais. endereçadas às mulheres. em condições de igualdade entre homens e mulheres. as síndromes hemorrágicas e a cardiopatia como as principais causas de óbitos maternos nos municípios considerados. Em suma. a fim de que se garanta o pleno exercício de seus direitos civis e políticos. às quais mulheres são submetidas. Conforme conclusões da CPI da Mortalidade Materna. a Convenção consagra a urgência em se erradicar todas as formas de discriminação contra as mulheres. resultou na morte evitável de milhões de mulheres. adicionalmente. o acesso a serviços médicos. no que se refere ao acesso às oportunidades sociais e econômicas. . Observe-se que a distribuição do óbito materno não é homogênea no país. exploração sexual e outras formas de violência contra as mulheres). A respeito. o Brasil apresenta um índice de mortalidade materna de cerca de 10 a 20 vezes da considerada aceitável. considerando que é um dos fatores de mortalidade mais evitáveis e preveníveis – estima-se que 98% dos óbitos maternos que ocorrem no Brasil sejam evitáveis12. p. os Estadospartes assumem o compromisso de. 11 BYRNES. o artigo 12 da Convenção determina que “Os Estados-partes adotarão todas as medidas apropriadas para eliminar a discriminação contra a mulher nas esfera dos cuidados médicos. respeitados ou violados. inclusive referentes ao planejamento familiar”. como exemplo da discriminação contra a mulher no campo da saúde. Ao ratificar a Convenção. no que tange ao gênero. Inúmeras previsões da Convenção também incorporam uma preocupação de que os direitos reprodutivos das mulheres devem estar sob o controle delas próprias.”11 Dentre suas previsões. que evidencia como a omissão de políticas públicas na área da saúde. que necessitam ser eliminadas (como estupro. econômicos e culturais. cabe citar. “Missing women”. merece destaque a problemática da mortalidade materna como violação aos direitos humanos (direito à maternidade segura).6 no Canadá. Andrew. A Convenção também reconhece que há violações. e que o Estado deve assegurar que as escolhas das mulheres não sejam feitas sob coerção e não sejam a elas prejudiciais. eliminar todas as formas de discriminação. Para ilustrar. Estudo realizado em 15 municípios do país apontam a eclampsia. No dizer de Andrew Byrnes: “A Convenção em si mesma contém diferentes perspectivas sobre as causas de opressão contra as mulheres e as medidas necessárias para enfrentá-las. The "other" human rights treaty body: the work of the Committee on the Elimination of Discrimination against Women.

não prevendo. quando da ratificação da Convenção. fica estabelecido que: "A Conferência Mundial de Direitos Humanos clama pela erradicação de todas as formas de discriminação contra a mulher. ela apenas apresenta como mecanismo de implementação a sistemática de relatórios. clamando pela ratificação universal da Convenção sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. Tais mecanismos permitem um maior e mais eficaz monitoramento internacional do modo pelo qual o Estado-parte está implementando os direitos internacionais. Nos termos do artigo 39 da Declaração de Viena. que embora esta Convenção signifique um grande avanço para a proteção internacional dos direitos humanos das mulheres. na medida em que apresentam uma dimensão própria dos direitos civis (a não discriminação. escolher seu domicílio e residência. Observe-se. Estados são convidados a eliminar as reservas que sejam contrárias ao objeto e ao propósito da Convenção ou que sejam incompatíveis com os tratados internacionais. A Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação da Mulher pode enfrentar o paradoxo de ter maximizado sua aplicação universal ao custo de ter comprometido sua integridade. nem tampouco sistemática que permita a investigação “in loco”. já surgem os delineamentos iniciais dos direitos reprodutivos. considerando que ao menos 23 dos mais de 100 Estados-partes fizeram. esta foi a Convenção que mais recebeu reservas por parte dos Estados signatários. (g). As Nações Unidas devem encorajar a ratificação universal por todos os Estados da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher até o ano 2000. que se comprometeu a respeitar. inclusive referentes ao planejamento familiar (vertente promocional). dentre as Convenções internacionais de Direitos Humanos. em 1993. como direitos que exigem um duplo papel do Estado: a) eliminar a discriminação contra a mulher nas esfera da saúde (vertente repressiva/punitiva) e b) assegurar o acesso a serviços de saúde. O artigo 15 assegura a homens e mulheres o direito de. contudo. A título de exemplo. Vale dizer. Ações e medidas para reduzir o particularmente amplo número de reservas à Convenção devem ser encorajadas. a questão legal acerca das reservas feitas à Convenção atinge a essência dos valores da universalidade e integridade. Dentre outras medidas. o Estado brasileiro apresentou reservas ao artigo 15. em 1984. administrativas e judiciais adotadas para a implementação dos direitos enunciados na Convenção. a Convenção sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher se restringe a conter a sistemática dos relatórios. que não pode ser confinada à tradicional dicotomia dos direitos civis x direitos sociais. Em 20 de dezembro de 1994." . tanto explícitas como implícitas. livremente. o Comitê de Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher deve continuar a revisão das reservas à Convenção. reafirmou a importância do reconhecimento universal do direito à igualdade relativa ao gênero. Cabe acrescentar que a Conferência de Direitos Humanos de Viena. no total. a exemplo das mencionadas convenções. Percebe-se aqui a semente de todo um desenvolvimento normativo posterior no tocante à construção conceitual dos direitos reprodutivos. como direitos que demandam do Estado um duplo papel (de um lado negativo. 13 Trata-se do instrumento internacional que mais fortemente recebeu reservas. 88 reservas substanciais. da Convenção. por outro positivo e promocional).13 Diversamente da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial ou da Convenção contra a Tortura. o espaço da autonomia e da autodeterminação no exercício da sexualidade e reprodução) e dos direitos sociais (o direito à saúde. a sistemática de petição individual ou comunicação inter-estatal. e (h). Já o artigo 16 estabelece a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Daí a complexidade dos direitos reprodutivos. parágrafo 4º e ao artigo 16. no âmbito do casamento e das relações familiares. mediante a implementação de políticas públicas positivas pelo Estado). Tais relatórios são encaminhados ao Comitê para Eliminação da Discriminação contra a Mulher. cabéra aos Estados-partes enviar relatórios sobre as medidas legislativas. parágrafo 1º (a). o Governo brasileiro notificou o Secretário Geral das Nações Unidas acerca da eliminação das aludidas reservas. (c). Ainda assim.À luz do disposto no artigo 12 da Convenção. Por vezes.

” Desde 1993. afirma Theodor Meron: “Um procedimento para a consideração de petições individuais deve ser estabelecido através de um Protocolo Facultativo. em 1999. Para acionar estes mecanismos de monitoramento. In: American Journal of International Law. na medida em que tal mecanismo constitui o sistema mais eficiente de monitoramento dos direitos humanos internacionalmente enunciados. apenas seria autorizado a acumular funções adicionais em conformidade com o Protocolo.. p.213). foi adotado o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. . São asseguradas garantias para a efetiva proteção a estes direitos. Human rights law-making in the United Nations: a critique of instruments and process. Theodor. 1986. que permite o encaminhamento de denúncias de violação de direitos enunciados na Convenção à apreciação do Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher e b) um procedimento investigativo. proclamou o Programa de Ação de Viena de 1993: “40. a comunidade internacional. de forma similar aos procedimentos criados pelo Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e pelo artigo 14 da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. 1990. A Comissão relativa ao Status da Mulher e o Comitê de Eliminação da Discriminação contra a Mulher devem rapidamente examinar a possibilidade de introduzir o direito de petição. assumia a importância da criação do mecanismo de petição. Com o Protocolo Facultativo. é necessário que o Estado tenha ratificado o Protocolo Facultativo. Theodor. v. o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. ineditamente.” (MERON. Esta inovação não seria tecnicamente difícil e não haveria a necessidade de se criar órgãos adicionais para sua implementação.14 Finalmente.. ao qual os Estados-partes da Convenção poderiam aderir. Enhancing the effectiveness of the prohibition of discrimination against women. a qualquer pessoa ou grupos de pessoas submeter casos de violação de direitos ao Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. que habilita o Comitê a investigar a existência de grave e sistemática violação aos direitos humanos das mulheres. Novos procedimentos devem também ser adotados para fortalecer a implementação da igualdade das mulheres. o que ocorreu em 22 de dezembro de 2000.Considerando a frágil sistemática de monitoramento dos relatórios (que pode ganhar maior relevância com a adoção dos “relatórios paralelos” ou “relatório sombra”. no 20o aniversário da Convenção. portanto. mediante a elaboração de um Protocolo Facultativo à Convenção. potencializam-se as formas de fiscalização e monitoramento internacional dos direitos humanos das mulheres. Reitera o mesmo autor: "(." (MERON. com o objetivo do pleno e equânime exercício dos direitos humanos e da não-discriminação. mediante a preparação de um Protocolo Optativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. elaborados pela sociedade civil). já existente. refletindo reivindicação do movimento de mulheres. O Protocolo institui dois mecanismos de monitoramento: a) o mecanismo da petição. 82). bem como habilita o mesmo Comitê a 14 A respeito da introdução da sistemática das petições individuais. o que permite. Note-se que o Protocolo entrou em vigor quando do depósito do 10o instrumento de ratificação. bem como de seus direitos humanos. 84. p. no sentido de aprimorar os mecanismos de monitoramento da Convenção. Oxford: Claredon Press. Os órgãos de monitoramento dos tratados devem disseminar informações necessárias que permitam às mulheres fazerem um uso mais efetivo dos procedimentos de implementação existentes.) a Convenção deve também prever um procedimento que permita o Comitê a considerar comunicações individuais.

em situações de grave ou sistemática violação aos direitos humanos das mulheres. elaborar uma estratégia para a apresentação de casos de violação de direitos reprodutivos. assim. ao enfatizarem que os direitos das mulheres são parte inalienável. b) pesquisa realizada pelo Movimento Nacional de Direitos Humanos (“Primavera já Partiu”. baseada no gênero. pode ser compreendido a partir de diversos estudos acerca da violência doméstica. É. somada à pobreza e ao analfabetismo.deflagrar um procedimento investigativo. que reflete relações de poder historicamente desiguais e assimétricas entre homens e mulheres. que aponta que de cada 100 mulheres assassinadas 70 o são no âmbito de suas relações domésticas. integral e indivisível dos direitos humanos universais. A Convenção afirma que a violência contra a mulher. 1993). constitui grave violação aos direitos humanos e limita total ou parcialmente o exercício dos demais direitos fundamentais. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher foi aprovada. que cause morte. Este padrão específico de violência. Observe-se que a violência sexual contra as mulheres e meninas. revitalizada e revigorada a gramática internacional de proteção aos direitos humanos das mulheres. dano ou sofrimento físico. É ela o primeiro instrumento internacional voltado à prevenção. A violência doméstica agrava o processo de feminização 15 Neste sentido. ou quando atos afetam as mulheres de forma desproprocional. a violência baseada no gênero ocorre quando um ato é dirigido contra uma mulher. Em conformidade com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). ver a Declaração e Programa de Ação de Viena de 1993 e a Declaração e Plataforma de Ação de Pequim de 1995. a partir dele. A violência baseada no gênero. tanto na esfera pública. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (“Convenção de Belém do Pará”). no âmbito público ou privado. Para a Convenção. a violência contra a mulher é definida como “qualquer ação ou conduta. no âmbito da OEA. com fundamento na violação ao artigo 12 da Convenção. porque é mulher. A Convenção Interamericana para Prevenir. erradicação e punição da violência contra a mulher.15 Uma medida fundamental para a efetiva proteção dos direitos humanos das mulheres é demandar do Brasil a ratificação do Protocolo e. . 1998). uma em cada cinco mulheres que faltam ao trabalho o fazem por terem sofrido agressões físicas. constitui grave violação aos direitos humanos e limita o exercício dos demais direitos fundamentais de que são titulares as mulheres. implica a precariedade de sua vida sexual e reprodutiva. Há que se observar que a Convenção da ONU sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher não enfoca expressamente o tema da violência contra a mulher. como na privada”. mas de âmbito regional interamericano. que demonstra que 66. c) dados da ONU que demonstram que a violência doméstica é a principal causa de lesões em mulheres entre 15 e 44 anos no mundo. dentre os quais destacam-se: a) pesquisa feita pela Human Rights Watch (“Injustiça Criminal x Violência contra a Mulher no Brasil”. em 1994 e ratificada pelo Brasil em 1995. com esta gramática (embora o padrão discriminatório seja uma forma de violência). Trata-se da Convenção Interamericana para Prevenir. direitos estes que constituem parte inalienável. com a violação a direitos sexuais e reprodutivos de mulheres e meninas.3% dos acusados em homicídios contra mulheres são seus parceiros. que tem as mulheres como alvo preferencial. O segundo tratado de fundamental importância para a proteção dos direitos humanos das mulheres não é de âmbito global. Vale dizer. sexual ou psicológico à mulher. integral e indivisível dos direitos humanos universais.

a mulher com dependência econômica torna-se mais vulnerável à violência doméstica. Em 1995. as Conferências internacionais de Copenhaguem e Pequim reafirmaram esta concepção. mas declarações. regional e internacional e a erradicação de todas as formas de discriminação por razões do sexo são objetivos prioritários da comunidade internacional. marcado pelo destaque a dois grandes temas relativos aos direitos humanos das mulheres – a discriminação e a violência – indaga-se: De que modo esta sistemática internacional protege os direitos reprodutivos? Reitere-se que a Convenção sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. Considerando este cenário. eliminar todo tipo de violência contra a mulher e garantir que seja ela quem controle sua própria fecundidade são a pedra angular dos programas de população e desenvolvimento. em que a violação de direitos civis leva à violação de direitos sociais e vice-versa. Embora não sejam tratados internacionais. Em 1994. d) a redução da mortalidade neonatal. na medida em que deles extraem-se princípios internacionais. das meninas e jovens fazem parte inalienável. econômica. Os direitos humanos da mulher. assim. trouxe os primeiros delineamentos internacionais acerca dos direitos reprodutivos. Com efeito. Estes delineamentos foram aprimorados e consolidados a partir do Plano de Ação da Conferência sobre População e Desenvolvimento do Cairo de 1994 e pela Declaração e Plataforma de Ação de Pequim de 1995. como na esfera privada. tais como: a) o crescimento econômico sustentado como marco do desenvolvimento sustentável. deveres aos Estadospartes. ineditamente 184 Estados reconheceram os direitos reprodutivos como direitos humanos. cultural. que constituem importante fonte do Direito Internacional. a Conferência do Cairo sobre População e Desenvolvimento de 1994 estabeleceu relevantes princípios éticos concernentes aos direitos reprodutivos16. por sua vez. discriminação e violência. b) a educação. em igualdade de condições na vida civil. A partir da Convenção de Belém do Pará surgem também valiosas estratégias para a proteção internacional dos direitos humanos das mulheres. na medida em que empobrece as mulheres e. c) a igualdade entre os sexos. tanto na esfera pública. um perverso ciclo vicioso.da probreza. Deflagra-se. A plena participação da mulher. a Convenção. merece destaque o princípio 4 da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento. Consagra ainda. em particular das meninas. afirmando o direito a ter controle sobre as questões relativas à sexualidade e à saúde sexual e reprodutiva. . de 1994: “Promover a eqüidade e a igualdade dos sexos e os direitos da mulher. o que. em particular de planificação familiar e de saúde sexual. Nesse sentido. merecendo destaque o mecanismo das petições à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. por seu turno.” 16 Note-se que o Plano de Ação do Cairo recomenda à comunidade internacional uma série de objetivos e metas. a nortear e orientar a interpretação e a aplicação do Direito. na Conferência do Cairo. do Cairo. A Convenção elenca um importante catálogo de direitos a serem assegurados às mulheres. integral e indivisível dos direitos humanos universais. ambos apresentam valor jurídico. para que tenham uma vida livre de violência. como um direito fundamental. em seu artigo 12. ainda agrava o empobrecimento das mulheres. assim como a decisão livre de coerção. infantil e materna e e) o acesso universal aos serviços de saúde reprodutiva. política e social em nível nacional. punir e erradicar a violência contra a mulher. para que adotem políticas destinadas a prevenir.

especialmente sobre as mulheres e crianças. deslocando a questão demográfica para o âmbito das questões relativas aos direitos reprodutivos e ao desenvolvimento.A Conferência do Cairo realça ainda que as mulheres têm o direito individual e a responsabilidade social de decidir sobre o exercício da maternidade. Em 1995. enquanto que os homens têm uma responsabilidade pessoal e social. In: Seminário “Direitos Humanos: Rumo a uma jurisprudência da igualdade”. Eis um terreno em que é fundamental o poder de decisão no controle da fecundidade. em 1994. Consagra-se o direito de mulheres e homens tomar decisões no campo da reprodução (o que compreende o direito de decidir livre e responsavelmente acerca da reprodução. considerado. A Conferência do Cairo deu grande ênfase à necessidade de estimular a responsabilidade masculina para com a procriação e com a contracepção. pelos efeitos desse comportamento na saúde e bem-estar de suas companheiras e filhos. intimidade. com a recomendação de que sejam revistas as legislações punitivas em relação ao aborto. deu ênfase à necessidade de erradicação da pobreza. de População e Desenvolvimento (1994) e da Cúpula de Desenvolvimento Social (1995). em Beijing. apontando para a necessidade de amplos programas de saúde reprodutiva e reconhecendo o aborto como um grave problema de saúde pública. assim como o direito à informação e acesso aos serviços para exercer seus direitos e responsabilidades reprodutivas. um problema de saúde pública. do número de filhos e do intervalo entre seus nascimentos). bem como o reconhecimento de direitos sexuais. A ativa participação do movimento internacional de mulheres nas fases preparatórias e durante a própria Conferência permitiram a legitimação da noção de direitos reprodutivos. a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento introduziu um novo paradigma à temática do desenvolvimento populacional. que incorporou as agendas das Conferências de Direitos Humanos (1993). a partir de seu próprio comportamento sexual e fertilidade. tal como na Conferência Internacional de População e Desenvolvimento (1994). LINHARES. o conceito de direitos sexuais e reprodutivos aponta a duas vertentes diversas e complementares. Leila. de 14 a 17 de maio de 1998. Como explica Leila Linhares: “No Cairo. realizada em Copenhage. a noção de que os direitos das mulheres são direitos humanos. ficou firmado o princípio que as políticas relacionadas à população devem ser orientadas pelo respeito aos direitos humanos universais e afirmou-se a necessidade dos países considerarem as grandes massas como detentoras de direitos e merecedoras de políticas públicas de combate à pobreza. Desenvolvimento e Paz. a Cúpula Mundial de Desenvolvimento Social. As Conferências das Nações Unidas influenciando a mudança legislativa e as decisões do Poder Judiciário. sem discriminação. Trata-se de direito de auto-determinação. foi realizada a IV Conferência Mundial sobre a Mulher. incluindo iniciativas destinadas a medir e a reduzir os impactos sociais do ajuste econômico. aponta a um campo da liberdade e da autodeterminação individual.”17 Sob a perspectiva de relações equitativas entre os gêneros e na ótica de direitos humanos. avançando e firmando. De um lado. o que compreende o livre exercício da sexualidade e da reprodução humana. Nessa Conferência. 17 . coerção e violência. privacidade. de modo definitivo. Ainda em 1995. Belo Horizonte. a noção de saúde e direitos reprodutivos.

fundamental é o direito ao acesso a informações. julho de 2001. Ainda em relação ao direito ao aborto. disponíveis e acessíveis. Note-se que ambos os instrumentos internacionais afirmam que a temática do aborto deve ser considerada sob o prisma da saúde pública. elaborado pelo CLADEM e Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos.5 abortos para cada 1000 mulheres ou 31. em seu artigo 226. Correa e Freitas (1997). sindicalistas e profissionais de saúde que conseguiram aprovar na Conferência Nacional de Saúde. Nesta ótica. Portanto.000 abortos clandestinos no país. Por outro lado. a importância política e sanitária destas iniciativas têm sido incontestáveis. pela não-coerção e não-violência (dimensão típica dos direitos civis). Fundamental também é o direito ao mais elevado padrão de saúde reprodutiva e sexual. veio a regulamentar o aludido preceito constitucional. Inclui-se ainda o direito ao acesso ao progresso científico e o direito de receber educação sexual.0 para 100 gravidezes (Costa. direito constantemente ameaçado por projetos apresentados por parlamentares ligados à CNBB. em que se clama pela não-interferência do Estado. com estruturas variadas e diferentes graus de implantação). A Lei 9. consultar “Diagnóstico sobre a situação dos direitos sexuais e reprodutivos na América Latina”. parágrafo 7o. 18 .400.100 abortos provocados no país para o ano de 1996. encorajando os Estados a revisar as legislações que estabelecem medidas punitivas a tal prática. típica dos direitos civis). vedada qualquer coerção (prestação estatal negativa. teriam ocorrido 1. pela não-discriminação. 1998). de 12 de janeiro de 1996.18 Há que se observar que a Carta de 1988. mas como a capacidade de desfrutar de uma vida sexual segura e satisfatória e reproduzir-se com a liberdade de fazê-lo ou não. o efetivo exercício dos direitos reprodutivos demanda políticas públicas. tratando do planejamento Segundo o Alan Gutmacher Institute.263. Outros estudos apontam a ocorrência de 37. A respeito. aqui é essencial a interferência do Estado. Embora o número ainda reduzido destes serviços (cerca de trinta e cinco em todo o território nacional.liberdade e autonomia individual. que assegurem a saúde sexual e reprodutiva. suas oportunidades de acesso à educação e o pleno exercício dos demais direitos”. não permita que haja um impacto quantitativo na magnitude do problema do aborto inseguro no país. adicionando a idéia da interdependência e indivisibilidade dos direitos humanos. no sentido de que implemente políticas públicas garantidoras do direito à saúde sexual e reprodutiva (dimensão típica dos direitos sociais). Oficialmente. tendo em vista a saúde não como mera ausência de enfermidades e doenças. que pretendem suprimir todo e qualquer direito à interrupção da gravidez. está afinada com os parâmetros internacionais. quando e com que frequência. em 1994. Vale ressaltar a implantação pelo país de serviços que realizam abortos nos casos previstos por lei. cabendo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício deste direito (prestação estatal positiva. estimam a ocorrência de 728. o aborto figura como a quinta causa de internação hospitalar de mulheres no Sistema Único de Saúde. (“Diagnóstico sobre a situação dos direitos sexuais e reprodutivos na América Latina”. típica dos direitos sociais). A Declaração e a Plataforma de Ação de Pequim de 1995 endossam esta concepção. na medida em que afirma o planejamento familiar como livre decisão do casal (e dos indivíduos). julho de 2001). A privação dos direitos reprodutivos tem implicado a morte de milhões de mulheres. deve ser assinalada a importante e bem sucedida articulação entre feministas. meios e recursos seguros. ao afirmar: “na maior parte dos países. a violação aos direitos reprodutivos das mulheres limita dramaticamente suas oportunidades na vida pública e privada. além de doenças e impedimentos evitáveis. uma moção de apoio à realização do aborto previsto por lei. contribuindo com 9% dos óbitos maternos e com 25% dos casos de esterilidade por causa tubária. instância máxima do Sistema Nacional de Saúde. elaborado pelo CLADEM (Comitê LatinoAmericano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher) e Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos.

em todo país. também inadequada – os crimes de ameaça e lesão corporal praticados contra a mulher no âmbito domésticofamiliar. em alguns casos. b) a busca de se incluir a educação sexual nos currículos escolares. a regulamentação e busca de implementação dos Programas Nacional. estes últimos destinados aos delitos de menor potencial ofensivo. de uma forma ou de outra. por fim. pelo homem ou pelo casal. i) os projetos de lei federais referentes à reprodução assistida. aspectos relacionados aos direitos sexuais e reprodutivos no país. O parágrafo único deste artigo proíbe a utilização de tais ações para qualquer tipo de controle demográfico. com base nos parâmetros internacionais e constitucionais.familiar.19 Em seu artigo 2º. k) as leis federais e estaduais referentes aos portadores de HIV/AIDS. conforme já mencionado. assim como o Projeto de Reforma do Código Civil e o Anteprojeto de Reforma da Parte Especial do Código Penal brasileiro. e) o esforço do Executivo federal e. o) a obrigatoriedade de cirurgia plástica reparadora da mama pela rede de unidades integrantes do Sistema Único de Saúde (público). No Brasil. f) a proibição. com algum enfoque de gênero. a Lei define o planejamento familiar como o conjunto de ações de regulação da fecundidade que garanta direitos iguais de constituição. elaborado pelo CLADEM (Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher) e Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos. de exigência de atestados de gravidez e esterilização. do dispositivo constitucional que reconhece a união estável como entidade familiar. nos casos de mutilação decorrentes de tratamento de câncer. consultar “Diagnóstico sobre a situação dos direitos sexuais e reprodutivos na América Latina”. A respeito. alcançando – na prática. p) as portarias do Ministério da Saúde sobre tratamento de mulheres vítimas de violência sexual e de mulheres com gravidez de alto risco. limitação ou aumento da prole pela mulher. estadual e municipal. ainda que de forma incipiente. . faz-se ainda necessário dar maior visibilidade à construção conceitual de direitos reprodutivos. j) a tipificação da conduta de submeter criança ou adolescente à prostituição ou à exploração sexual. vive-se um momento de redefinição e reformulação da agenda de direitos humanos. no plano local. inclusive no que se refere a não discriminação de orientação sexual. COMO COMPREENDER OS DIREITOS REPRODUTIVOS SOB A PERSPECTIVA DOS DIREITOS HUMANOS? QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS DESAFIOS E PERSPECTIVAS? Um primeiro desafio à proteção dos direitos reprodutivos refere-se à exigência de transpor e implementar. há que se incorporar os direitos reprodutivos como direitos humanos. c) a regulamentação do planejamento familiar na legislação infraconstitucional. m) a instalação dos comitês de morte materna. no âmbito do atendimento global e integral à saúde. de forma polêmica e. envolvem a concepção. h) a crescente relevância do tema da paternidade responsável na legislação infraconstitucional. Neste cenário. incluindo-se os serviços de aborto legal. julho de 2001. 19 Adicionem-se outras iniciativas relevantes adotadas para se lograr a normatização de temas afetos aos direitos sexuais e reprodutivos: a) a recente tipificação do crime de tortura no âmbito nacional. e a portaria do Ministério da Educação acerca dos parâmetros curriculares e. Para tanto. 4. em sua complexidade. que instaurou os juizados especiais civis e criminais. que. os recentes avanços obtidos na esfera internacional. bem como da sociedade civil organizada. Estadual e Municipal de Direitos Humanos. em buscar regulamentar. para efeitos admissionais ou de permanência da relação jurídica de trabalho.os esforços dos Poderes Executivo e Legislativo. enquanto direitos nacional e internacionalmente assegurados. conferindo prevalência aos parâmetros internacionais e constitucionais para a efetiva proteção dos direitos reprodutivos. em que são incorporados temas como os direitos econômicos. sociais e culturais. nos últimos anos. em nosso entender. l) a aprovação da Lei 9099/95. d) a regulamentação. g) a inserção de regras sobre o acesso da mulher ao mercado de trabalho nas leis trabalhistas. n) a regulamentação dos direitos das presas a estabelecimentos adequados para amamentação de seus filhos. Todas as medidas mencionadas revelam – com maior ou menor êxito . o qual pode ter implicações quanto à violência sexual contra as mulheres. de âmbito federal. em regulamentar procedimentos de atendimento para mulheres que sofrem violência sexual. como crime. ao lado dos tradicionais direitos civis e políticos. através de lei federal.

do ponto de vista moral. solicitando as medidas cabíveis no campo da saúde pública. em todos os âmbitos da produção legiferante no país. em sua complexidade. será possível encaminhar casos de violaçåo a direitos reprodutivos. demanda uma ação político-jurídica emancipatória. 9. acrescenta a mesma autora: “Por muito tempo. Além de estratégias no âmbito nacional. que teve por objeto denunciar o alto índice de mortalidade materna em determinado hospital da rede pública de saúde. Além disso. os avanços judiciais relacionados à proteção do direito à saúde. efetivamente. que invoquem a prestação jurisdicional para a proteção a estes direitos. 22 Cf. a contracepção e o aborto.o parto. que. resiste em aceitar os direitos reprodutivos como direitos.” Por fim. Faz-se emergencial promover avanços normativos que incluam e garantam. insistindo na idéia de deveres reprodutivos e não de direitos reprodutivos. Há que se enfrentar a cultura que. na perspectiva de gênero. o exercício – e não o controle – da sexualidade e reprodução. como forma de violência contra a mulher. como a campanha para ratificar o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação da Discrminação contra a Mulher. assegure aos indivíduos o exercício de sua sexualidade e de sua capacidade reprodutiva. enfrentando tabus. Estas estratégias parecem fundamentais para assegurar o pleno exercício dos direitos reprodutivos como efetivos direitos humanos. A respeito. a partir das Plataformas do Cairo. a “judicialização” dos direitos reprodutivos. tendo como referência. Silvia. Elza. parafraseando Ronald Dworkin.22 20 ÁVILA.PIMENTEL. Direitos Reprodutivos e Ordenamento Jurídico Brasileiro: subsídios a uma ação político-jurídica transformadora.. são necessárias estratégias no plano internacional. São Paulo. a respeito. 94. as questões referentes às mulheres foram postas como pontos separados de uma agenda que privilegiava a luta pela descriminalização do aborto e o acesso à contracepção. sob a perspectiva dos direitos humanos. Direitos reprodutivos: uma questão de cidadania. recentemente ajuizada no Rio de Janeiro (agosto de 2000). assim. Comissão de Cidadania e Reprodução. há que se potencializar o uso da Convenção de Belém do Pará. há que se avaliar a proposta de elaboração de uma Convenção Interamericana de Proteção de Direitos Sexuais e Reprodutivos. 1993 (mimeo). 9). In: Cadernos CCR 2.21 No âmbito do sistema interamericano. inclusive como prerrogativas fundamentais ou essenciais da existência das mulheres”. A concepção e o exercício da maternidade eram possibilidades que. Citese ainda uma ação civil pública. permeada por elementos de cunho cultural. p. Neste contexto. BERQUÓ. com plena autonomia e dignidade. já estavam dadas. Maria Betânia de Melo. 1994. Modernidade e cidadania reprodutiva. que contempla ganhos judiciais no tocante à não-discriminação. de grande satisfação e profundo sofrimento. por exemplo. Copenhaguem e Pequim. . invocam “assunto de vida e morte. como decisões que exigem o fornencimento de medicamentos. 21 Note-se que. bem como ganhos judiciais referentes à saúde. mediante casos que denunciem a violação de direitos reprodutivos. de intimidade e políticas sociais. com fundamento no artigo 12 da Convenção. que permitirá o encaminhamento de casos ao Comitê de Eliminação da Discriminação contra a Mulher. Cite-se. moral e religioso (vide a forte influência da Igreja católica no país). p. Brasília: Centro Feminista de Estudos e Assessoria . como elementos interligados “onde a impossibilidade de acesso a qualquer um deles remete a mulher para um lugar de submissão”20. a efetiva implementação dos direitos sexuais e reprodutivos.CFEMEA. de paixão e frios cálculos. é também fundamental identificar estratégias de proteção judicial dos direitos reprodutivos. cit. como especial arena para a proteção dos direitos reprodutivos. p. Todas estas estratégias revelam a necessidade de potencializar a via internacional. a partir de “test cases”. Propõe-se. a crescente jurisprudência afirmativa dos direitos das pessoas portadoras do vírus HIV. à luz da experiência em outras áreas ligadas à saúde pública. criativa e transformadora que. In: ÁVILA. Maria Betânia de Melo. (op.

Coimbra: Livraria Almedina. Oxford: Claredon Press. Economic. 84. Kathryn. 1993 (mimeo). Los derechos económicos. Enhancing the effectiveness of the prohibition of discrimination against women. 14. A Reconstrução dos Direitos Humanos: Um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. sociales y culturales en el sistema interamericano. Maria Betânia de Melo. So-Called Rights of the Third Generation. Modernidade e cidadania reprodutiva.5. São Paulo.. Norberto. Brasília: Centro Feminista de Estudos e Assessoria . Comissão de Cidadania e Reprodução. Hector Gros. 1988. In: Yale Journal of International Law. de 14 a 17 de maio de 1998. Boston e Londres: Martinus Nijhoff Publishers. In: Cadernos CCR 2. QUADROS. ROSAS. BIBLIOGRAFIA ÁVILA. Era dos Direitos. MERON. Belo Horizonte. Celso. In: Seminário “Direitos Humanos: Rumo a uma jurisprudência da igualdade”. Principled issue-networks. LINHARES. The "other" human rights treaty body: the work of the Committee on the Elimination of Discrimination against Women. 1993. de Carlos Nelson Coutinho. LAFER. 1993. In: International Organizations. PIMENTEL. Manual de Direito Internacional Público. Silvia. Direitos Reprodutivos e Ordenamento Jurídico Brasileiro: subsídios a uma ação político-jurídica transformadora. 1986. Direitos reprodutivos: uma questão de cidadania. In: Asbjorn Eide. Social and Cultural Rights. Human rights law-making in the United Nations: a critique of instruments and process. Andrew. e Allan Rosas. San José: Libro Libre. PEREIRA. Theodor. As Conferências das Nações Unidas influenciando a mudança legislativa e as decisões do Poder Judiciário. São Paulo: Cia das Letras. Maria Betânia de Melo. In: ÁVILA. In: American Journal of International Law. 1994. ESPIELL. v. 1989. MERON. v. 1995. BERQUÓ. Rio de Janeiro: Campus. 1988. Elza. . Allan. BYRNES. 1990. André Gonçalves. SIKKINK. Massachusetts: IO Foundation e Massachusetts Institute of Technology. BOBBIO. 3aed. Fausto. Leila. Theodor. Human Rights. Trad.CFEMEA. Catarina Krause. 1986. and Sovereignty in Latin America.

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