DIREITOS REPRODUTIVOS COMO DIREITOS HUMANOS

Flavia Piovesan
Professora doutora da Faculdade de Direito da PUC/SP de Direitos Humanos e Direito Constitucional Membro do Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher Visiting fellow do Human Rights Programs da Harvard Law School (1995 e 2000) Procuradora do Estado de São Paulo

Sumário
1. Introdução. 2. O que são direitos humanos? Qual é a concepção contemporânea de direitos humanos. 3. Como relacionar os direitos humanos com os direitos reprodutivos? 4. Como compreender os direitos reprodutivos sob a perspectiva dos direitos humanos? Quais são os principais desafios e perspectivas? 5. Bibliografia.

1. INTRODUÇÃO O objetivo deste artigo é enfocar os direitos reprodutivos como direitos humanos. Serão destacadas três indagações centrais a esta reflexão: 1) O que são direitos humanos? Qual é a concepção contemporânea de direitos humanos?; 2) Como relacionar os direitos humanos com os direitos reprodutivos? e 3) Como compreender os direitos reprodutivos sob a perspectiva dos direitos humanos? Quais são os principais desafios e perspectivas? 2. O QUE SÃO DIREITOS HUMANOS? QUAL CONTEMPORÂNEA DE DIREITOS HUMANOS? É A CONCEPÇÃO

No dizer de Hannah Arendt, os direitos humanos não são um dado, mas um construído, uma invenção humana, em constante processo de construção e reconstrução1. Considerando a historicidade destes direitos, pode-se afirmar que a
Cf.ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo. Trad. de Roberto Raposo, Rio de Janeiro, 1979. A respeito, ver também: LAFER, Celso. A Reconstrução dos Direitos Humanos: Um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. São Paulo: Cia das Letras, 1988, p.134. No mesmo sentido, afirma Ignacy Sachs: “Não se insistirá nunca o bastante sobre o fato de que a ascensão dos direitos é fruto de lutas, que os direitos são conquistados, às vezes, com barricadas, em um processo histórico cheio de vicissitudes, por meio do qual as necessidades e as aspirações se articulam em reivindicações e em estandartes de luta antes de serem reconhecidos como direitos”. (SACHS, Ignacy. Desenvolvimento, Direitos Humanos e Cidadania. In: Direitos Humanos no Século XXI, 1998, p.156). Para Allan Rosas: “O conceito de direitos humanos é sempre progressivo. (…) O debate a respeito do que são os direitos humanos e como devem ser definidos é parte e parcela de nossa história, de nosso passado e de nosso presente.” (ROSAS, Allan. So-Called Rights of the Third Generation. In: Asbjorn Eide; Catarina Krause; e Allan Rosas. Economic, Social and Cultural Rights, Boston e Londres: Martinus Nijhoff Publishers, 1995, p. 243).
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é aprovada a Declaração Universal dos Direitos Humanos.SACHS. por sua vez. como resposta às atrocidades e aos horrores cometidos durante o nazismo. neste estudo. econômicos e culturais e vice-versa. se compila. Inversamente. o século XX foi marcado por duas guerras mundiais e pelo horror absoluto do genocídio concebido como projeto político e industrial2. a era Hitler foi marcada pela lógica da destruição e da descartabilidade da pessoa humana. que resultou no envio de 18 milhões de pessoas a campos de concentração. (33). em 10 de dezembro de 1948. o PósGuerra deveria significar a sua reconstrução. interdependente e inter-relacionada. Se a 2a Guerra significou a ruptura com os direitos humanos. se amplia e se sistematiza em 1948. Indivisibilidade porque a garantia dos direitos civis e políticos é condição para a observância dos direitos sociais. como paradigma e referencial ético a orientar a ordem internacional contemporânea. Ignacy. como marco maior do processo de reconstrução dos direitos humanos. ciganos. os direitos civis e políticos se reduzem a meras categorias formais. além de comunistas. caracterizada pela universalidade e indivisibilidade destes direitos. No dizer de Ignacy Sachs. a partir do pós-guerra. que constitui um movimento extremamente recente na história.… O legado do nazismo foi condicionar a titularidade de direitos. homossexuais. Ao examinar a indivisibilidade e a interdependência dos direitos humanos. Universalidade porque clama pela extensão universal dos direitos humanos. Quando um deles é violado. de verdadeira significação. In: Estudos Avançados 12. adotada em 16 de dezembro de 1977. Introduz ela a concepção contemporânea de direitos humanos. . sobre os critérios e meios para melhorar o gozo 2 Cf. econômicos e culturais. que veio a ser introduzida com o advento da Declaração Universal de 1948 e reiterada pela Declaração de Direitos Humanos de Viena de 1993. leciona Hector Gros Espiell: “Só o reconhecimento integral de todos estes direitos pode assegurar a existência real de cada um deles. ou seja. à pertinência a determinada raça – a raça pura ariana. sendo 6 milhões de judeus. que de certa forma está implícita na Carta das Nações Unidas. Esta concepção é fruto do movimento de internacionalização dos direitos humanos. sem a realidade dos direitos civis e políticos. sociais e culturais carecem.149. p. O Desenvolvimento enquanto apropriaçao dos direitos humanos. sociais e culturais. a chamada concepção contemporânea de direitos humanos. destaca-se. com a morte de 11 milhões. 1998. sem a efetividade da liberdade entendida em seu mais amplo sentido. na Proclamação de Teerã de 1968 e na Resolução da Assembléia Geral. a condição de sujeito de direitos. Apresentando o Estado como o grande violador de direitos humanos. sob a crença de que a condição de pessoa é o requisito único para a dignidade e titularidade de direitos. É neste cenário que se desenha o esforço de reconstrução dos direitos humanos. já que sem a efetividade de gozo dos direitos econômicos. Os direitos humanos compõem assim uma unidade indivisível. surgindo. e em vigência desde 1976. interdependência e indivisibilidade quanto ao conceito e à realidade do conteúdo dos direitos humanos. aprovados pela Assembléia Geral em 1966. Tendo em vista tal pluralidade. capaz de conjugar o catálogo de direitos civis e políticos ao catálogo de direitos sociais. os direitos econômicos. Esta idéia da necessária integralidade.definição de direitos humanos aponta a uma pluralidade de significados. e se reafirma definitivamente nos Pactos Universais de Direitos Humanos. os demais também o são. na Declaração Universal de Direitos Humanos. Neste sentido.

5 Destaque-se a afirmação do Secretário Geral das Nações Unidas.. International Law – Cases and Materials. Los derechos económicos.98-99. encontra expressão na gradual expansão do Direito Internacional. O processo de universalização dos direitos humanos permitiu. esta concepção inovadora aponta a duas importantes conseqüências: 1a) a revisão da noção tradicional de soberania absoluta do Estado. no final de 1992: “Ainda que o respeito pela soberania e integridade do Estado seja uma questão central. cada vez mais. mas constituem uma legítima preocupação da comunidade internacional. San José: Libro Libre. permitem-se formas de monitoramento e responsabilização internacional. não se deve restringir à competência nacional exclusiva ou à jurisdição doméstica exclusiva.5 2a) a cristalização da idéia de que o indivíduo deve ter direitos protegidos na esfera internacional. 1992/1993. Uma das maiores exigências intelectuais de nosso tempo é a de repensar a questão da soberania (. p. o fim da era em que a forma pela qual o Estado tratava seus nacionais era concebida como um problema de jurisdição doméstica. deste modo. sociales y culturales en el sistema interamericano. . na condição de sujeito de Direito. como era então concebida teoricamente.” (BOUTROS-GHALI.18). assim.. na qualidade de marco maior do movimento de internacionalização dos direitos humanos. Massachusetts: IO Foundation e Massachusetts Institute of Technology.. é inegável que a antiga doutrina da soberania exclusiva e absoluta não mais se aplica e que esta soberania jamais foi absoluta. Principled issue-networks. que passa a sofrer um processo de relativização. Human Rights. É um movimento que.3 A Declaração Universal de 1948. quando os direitos humanos forem violados. por sua vez.89. vol. Como observa Kathryn Sikkink: “O Direito Internacional dos Direitos Humanos pressupõe como legítima e necessária a preocupação de atores estatais e não estatais a respeito do modo pelo qual os habitantes de outros Estados são tratados. Na lição de André Gonçalves Pereira e Fausto de Quadros: 3 ESPIELL.). p.413.”4 Fortalece-se. p. Kathryn. decorrência de sua soberania. porque revela tema de legítimo interesse internacional. A rede de proteção dos direitos humanos internacionais busca redefinir o que é matéria de exclusiva jurisdição doméstica dos Estados. Acrescenta a mesma autora: “Os direitos individuais básicos não são do domínio exclusivo do Estado.efetivo dos direitos e das liberdades fundamentais (Resolução n. 1986. Enfatizar os direitos dos indivíduos e os direitos dos povos é uma dimensão da soberania universal. In: Foreign Affairs. p. 32/130)”. 1993. cit. Hector Gros. Empowering the United Nations. a idéia de que a proteção dos direitos humanos não deve se reduzir ao domínio reservado do Estado. isto é. a formação de um sistema normativo internacional de proteção destes direitos. isto é. Por sua vez. 441). p. 16-17. fomentou a conversão destes direitos em tema de legítimo interesse da comunidade internacional. que reside em toda a humanidade e que permite aos povos um envolvimento legítimo em questões que afetam o mundo como um todo. 4 SIKKINK. In: International Organizations. Prenuncia-se.” (op. na medida em que são admitidas intervenções no plano nacional em prol da proteção dos direitos humanos. and Sovereignty in Latin America. apud Henkin [et alii].

México. cabe destacar que. tratou-se apenas de transpor e adaptar ao Direito Internacional a evolução que no Direito Interno já se dera. 2000.6 A partir da aprovação da Declaração Universal de 1948 e a partir da concepção contemporânea de direitos humanos por ela introduzida. André Gonçalves.“Em termos de Ciência Política. o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos contava com 144 Estados-partes. Trad. a Convenção sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher e a Convenção sobre os Direitos da Criança contemplam não apenas direitos civis e políticos. desenvolvem-se como direitos positivos particulares (quando cada Constituição incorpora Declarações de Direito). Manual de Direito Internacional Público. técnica.BOBBIO. científica. etc. 1988. no início do século. Norberto. (op. 1993. social. a Convenção sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher contava com 165 Estados-partes e a Convenção sobre os Direitos da Criança apresentava a mais ampla adesão. de Carlos Nelson Coutinho. Em face da crescente consolidação deste positivismo universal concernente aos direitos humanos. 9 Note-se que a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial.. Rio de Janeiro: Campus. New York/Oxford. cit. p. Como leciona Norberto Bobbio. econômica. Neste sentido. que o destacado tratadista italiano Mauro Cappelleti tem qualificado como jurisdição constitucional transnacional. a Convenção sobre a Eliminação da Discriminação Racial contava com 155 Estados-partes. do Estado-Polícia para o EstadoProvidência. pode-se afirmar que os tratados internacionais de proteção aos direitos humanos refletem. Ressalte-se que a Declaração de Direitos Humanos de PEREIRA. sobretudo.. o desenvolvimento e a integração econômica e política". Comision Nacional de Derechos Humanos. Oxford University Press. a proibição da tortura. dentre outros temas.” (Proteccion Juridica de los Derechos Humanos. Na visão de Hector Fix-Zamudio: “(. particularmente a esfera dos direitos humanos e tem se projetado no âmbito internacional e inclusive comunitário.. QUADROS. p. como o Direito da Paz e da Guerra. 8 A respeito. Fausto. Era dos Direitos. 3aed. para finalmente encontrarem sua plena realização como direitos positivos universais7. 6 . Acrescentam os autores: “As novas matérias que o Direito Internacional tem vindo a absorver.51. o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. são de índole variada: política. para passar à era nova ou moderna da sua evolução. p. mediante a adoção de inúmeros tratados internacionais voltados à proteção de direitos fundamentais. cultural. enquanto controle judicial da constitucionalidade das disposições legislativas e de atos concretos de autoridade. a eliminação da discriminação contra a mulher e a proteção aos direitos da criança. na medida em que invocam o consenso internacional acerca de temas como os direitos civis e políticos.30. econômicos e culturais.184) 7 Cf. Sociais e Culturais contava com 142 Estados-partes. a Convenção contra a Tortura contava com 119 Estados-partes. com 191 Estados-partes8. nas condições referidas.661).) o estabelecimento de organismos internacionais de tutela dos direitos humanos. os direitos econômicos. mas também direitos sociais. a consciência ética contemporânea compartilhada pelos Estados. tem alcançado o Direito interno. Mas dentre elas o livro mostrou que há que se destacar três: a proteção e a garantia dos Direitos do Homem. A concepção contemporânea de direitos humanos caracteriza-se pelos processos de universalização e internacionalização destes direitos. 1991. o que vem a endossar a idéia da indivisibilidade dos direitos humanos. até junho de 2000. começa a se desenvolver o Direito Internacional dos Direitos Humanos. consultar Human Development Report 2000. o combate à discriminação racial. UNDP. sociais e culturais. os direitos humanos nascem como direitos naturais universais. compreendidos sob o prisma de sua indivisibilidade9. Coimbra: Livraria Almedina.661. Mas foi o suficiente para o Direito Internacional abandonar a fase clássica. p. O elevado número de Estados-partes destes tratados simboliza o grau de consenso internacional a respeito de temas centrais voltados aos direitos humanos. p. como Direito Internacional da Cooperação e da Solidariedade”.

em seu parágrafo 18. Assim. A título de exemplo. endossa a universalidade e a indivisibilidade dos direitos humanos. contudo. 1995). portanto. que expressava o temor da diferença (que no nazismo havia sido orientada para o extermínio). pois regula as relações homem-mulher. a partir da Declaração Universal de 1948. em razão de sua nacionalidade. reitera a concepção da Declaração de 1948. Logo. o gênero corporifica a sexualidade (não o inverso). exigem uma resposta específica e diferenciada. insuficiente tratar o indivíduo de forma genérica. Transita-se do paradigma do homem. que é exercida como uma forma de poder. geral e abstrata. Feitas essas considerações a respeito do alcance da concepção contemporânea de direitos humanos. determinados sujeitos de direitos. raça ou religião. Socialmente construído. de 1993. passa-se à reflexão do modo pelo qual se relaciona com os direitos reprodutivos. ou determinadas violações de direitos. aqui. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos globalmente de forma justa e equitativa. é o ponto de apoio da desigualdade de gênero. em pé de igualdade e com a mesma ênfase. Nesta ótica. enquanto consenso do “pós Guerra”. basta avaliar quem é o destinatário da Declaração de 1948. afirma que os direitos humanos das mulheres e das meninas são parte inalienável. quando. COMO RELACIONAR OS DIREITOS HUMANOS COM OS DIREITOS REPRODUTIVOS? Para responder a esta questão. ampliando-se e incorporando novos direitos. gradativamente.10 Como já mencionado. O gênero é também um dos pilares fundantes das relações sociais. a Declaração de 1948 foi adotada por 48 Estados. Acrescente-se ainda que a Declaração de Direitos Humanos de Viena. que pune a lógica da intolerância pautada na destruição do “outro”. concebido como uma relação entre sujeitos socialmente construídos em determinados contextos históricos. 3. em seu parágrafo 5o. Torna-se. com 8 abstenções. revigorando o lastro de legitimidade da chamada concepção contemporânea de direitos humanos. Note-se que. A primeira fase de proteção dos direitos humanos foi marcada pela tônica da proteção geral. com base na igualdade formal. heterossexual e dono de um patrimônio para a visibilidade de novos sujeitos de direitos. adulto. ocidental. Faz-se necessária a especificação do sujeito de direito. 10 . introduzida pela Declaração de 1948. afirma: “Todos os direitos humanos são universais. Gênero. de 1995. homem-homem e mulher-mulher. interdependentes e interrelacionados. também de 1948. etnia. atravessando e construindo a identidade de homens e mulheres. é necessário avaliar de que modo a agenda de proteção dos direitos humanos foi. a Declaração de Viena de 1993.(Saffioti e Almeida. a Declaração de Viena de 1993 estende.Viena. as relações de gênero são atravessadas pelo poder e a sexualidade. sob a perspectiva de gênero. renova e amplia o consenso sobre a universalidade e indivisibilidade dos direitos humanos. mediante a adoção de inúmeros tratados internacionais voltados à proteção de direitos fundamentais. subscrita por 171 Estados. bem como basta atentar para a Convenção para a Prevenção e Repressão ao Crime de Genocídio. integral e indivisível dos direitos humanos universais. Esta concepção foi reiterada pela Plataforma de Ação de Pequim.” Logo. começa a se desenvolver o Direito Internacional dos Direitos Humanos. que passa a ser visto em sua peculiaridade e particularidade.

enquanto medidas especiais e temporárias voltadas a aliviar e remediar o padrão discriminatório que alcança as mulheres. a Convenção consagra duas vertentes diversas: a) a vertente repressiva-punitiva (proibição da discriminação) e b) a vertente positiva-promocional (promoção da igualdade). independentemente de seu estado civil. exercício pela mulher. . Já o sistema geral de proteção (ex: Pactos da ONU de 1966) tem por endereçado toda e qualquer pessoa.. direitos idênticos são tutelados por dois ou mais instrumentos de alcance global ou regional. Alia-se à vertente repressiva-punitiva a vertente positivapromocional. como sistemas de proteção complementares. mediante legislação repressiva. exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento. cabe ao indivíduo. ou ainda.” (art. tendo em vista que. os grupos étnicos minoritários. a escolha do aparato mais favorável. cultural e civil ou em qualquer outro campo. Ante este complexo universo de instrumentos internacionais. Importa o respeito à diferença e à diversidade. Foi resultado de reivindicação do movimento de mulheres. o direito à diferença. social. Inspirados pelos valores e princípios da Declaração Universal. como direito fundamental. assim. em 1975. a coexistência dos sistemas geral e especial de proteção dos direitos humanos. dos direitos humanos e liberdades fundamentais..Neste cenário as mulheres devem ser vistas nas especificidades e peculiaridades de sua condição social. para garantir a igualdade não basta apenas proibir a discriminação. os refugiados. como também estimular estratégias de promoção da igualdade. restrição ou preferência que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento. os povos indígenas. a discriminação contra a mulher significa “toda distinção. no plano internacional. as crianças. no âmbito do sistema global. Para a Convenção. no qual o sujeito passa a ser visto em sua especificidade e concreticidade (ex: protege-se as mulheres. o que lhes assegura um tratamento especial. que sofreu violação de direito. Nesta ótica. em igualdade de condições. exclusão. A Convenção se fundamenta na dupla obrigação de eliminar a discriminação e de assegurar a igualdade. Firma-se. O sistema especial de proteção realça o processo da especificação do sujeito de direito. concebida em sua abstração e generalidade. dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos campos político. gozo. Isto é. econômico. A Convenção objetiva não só erradicar a discriminação contra a mulher e suas causas. os diversos sistemas de proteção de direitos humanos interagem em benefício dos indivíduos protegidos. o que inclui o Brasil. mas complementares. a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. Isto é.1º). com base na igualdade do homem e da mulher. A Convenção conta hoje com 165 Estados-partes. Logo. São essenciais estratégias capazes de incentivar a inserção e inclusão social de grupos historicamente vulneráveis. Os sistemas geral e especial não são dicotômicos. de alcance geral ou especial. eventualmente. compõem o universo instrumental de proteção dos direitos humanos. que a ratificou em 1984. surge. Ao lado do direito à igualdade. em 1979. realizada no México. Combina a proibição da discriminação com políticas compensatórias que acelerem a igualdade enquanto processo. É neste cenário que as Nações Unidas aprovam. também.). mediante a adoção de medidas afirmativas. a partir da primeira Conferência Mundial sobre a Mulher. a discriminação significa toda distinção. gozo ou exercício pela mulher.

000. Acolhe-se. o artigo 12 da Convenção determina que “Os Estados-partes adotarão todas as medidas apropriadas para eliminar a discriminação contra a mulher nas esfera dos cuidados médicos. a Convenção reflete a visão de que as mulheres são titulares de todos os direitos e oportunidades que os homens podem exercer.”11 Dentre suas previsões. inclusive referentes ao planejamento familiar”. adicionalmente. assim. assegurando efetiva igualdade entre eles. a fim de assegurar. p. Para ilustrar. os Estadospartes assumem o compromisso de. a fim de que se garanta o pleno exercício de seus direitos civis e políticos. se as garantias de igualdade formal devem se transformar em realidade. mas sem eliminar da titularidade das mulheres a igualdade de direitos e oportunidades. Isto significa que pertencer ao gênero feminino interfere no modo pelo qual os direitos humanos são exercidos. 14. cabe citar. 1. as síndromes hemorrágicas e a cardiopatia como as principais causas de óbitos maternos nos municípios considerados. A respeito. no que tange ao gênero.Dentre suas previsões. Ela impõe a obrigação de assegurar que as mulheres tenham uma igualdade formal perante a lei e ela reconhece que medidas temporárias de ação afirmativa são necessárias em muitos casos. Ao ratificar a Convenção. Observe-se que a distribuição do óbito materno não é homogênea no país. endereçadas às mulheres. como exemplo da discriminação contra a mulher no campo da saúde. como também de seus direitos sociais. v. Em suma. eliminar todas as formas de discriminação.6 no Canadá. sendo mais alta na região Norte. resultou na morte evitável de milhões de mulheres. estudo de Amartya Sen. “Missing women”. respeitados ou violados. às quais mulheres são submetidas. no que se refere ao acesso às oportunidades sociais e econômicas. com relação à indivisibilidade dos direitos humanos. em condições de igualdade entre homens e mulheres. In: Yale Journal of International Law. e que o Estado deve assegurar que as escolhas das mulheres não sejam feitas sob coerção e não sejam a elas prejudiciais. Estudo realizado em 15 municípios do país apontam a eclampsia. O aborto é a terceira causa de óbito materno no país como um todo. The "other" human rights treaty body: the work of the Committee on the Elimination of Discrimination against Women. Andrew. No dizer de Andrew Byrnes: “A Convenção em si mesma contém diferentes perspectivas sobre as causas de opressão contra as mulheres e as medidas necessárias para enfrentá-las. o acesso a serviços médicos. 11 BYRNES. que necessitam ser eliminadas (como estupro. a Convenção consagra a urgência em se erradicar todas as formas de discriminação contra as mulheres. 1989. assédio sexual. A Convenção também reconhece que há violações. progressivamente. as habilidades e necessidades que decorrem de diferenças biológicas entre os gêneros devem também ser reconhecidas e ajustadas. considerando que é um dos fatores de mortalidade mais evitáveis e preveníveis – estima-se que 98% dos óbitos maternos que ocorrem no Brasil sejam evitáveis12. merece destaque a problemática da mortalidade materna como violação aos direitos humanos (direito à maternidade segura). Inúmeras previsões da Convenção também incorporam uma preocupação de que os direitos reprodutivos das mulheres devem estar sob o controle delas próprias. . econômicos e culturais. e mais baixa na região Sudeste. o Brasil apresenta um índice de mortalidade materna de cerca de 10 a 20 vezes da considerada aceitável. a tônica da Declaração Universal. contra 3. que evidencia como a omissão de políticas públicas na área da saúde. Conforme conclusões da CPI da Mortalidade Materna. 12 A taxa de mortalidade materna no Brasil é cerca de 110 mortes por 100. exploração sexual e outras formas de violência contra as mulheres).

em 1984. reafirmou a importância do reconhecimento universal do direito à igualdade relativa ao gênero. a questão legal acerca das reservas feitas à Convenção atinge a essência dos valores da universalidade e integridade. como direitos que exigem um duplo papel do Estado: a) eliminar a discriminação contra a mulher nas esfera da saúde (vertente repressiva/punitiva) e b) assegurar o acesso a serviços de saúde. da Convenção. considerando que ao menos 23 dos mais de 100 Estados-partes fizeram. que não pode ser confinada à tradicional dicotomia dos direitos civis x direitos sociais. que se comprometeu a respeitar. no total. no âmbito do casamento e das relações familiares. livremente. e (h). mediante a implementação de políticas públicas positivas pelo Estado). ela apenas apresenta como mecanismo de implementação a sistemática de relatórios. parágrafo 1º (a). Percebe-se aqui a semente de todo um desenvolvimento normativo posterior no tocante à construção conceitual dos direitos reprodutivos.13 Diversamente da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial ou da Convenção contra a Tortura. escolher seu domicílio e residência. não prevendo. quando da ratificação da Convenção. Cabe acrescentar que a Conferência de Direitos Humanos de Viena. nem tampouco sistemática que permita a investigação “in loco”. fica estabelecido que: "A Conferência Mundial de Direitos Humanos clama pela erradicação de todas as formas de discriminação contra a mulher. tanto explícitas como implícitas. Tais relatórios são encaminhados ao Comitê para Eliminação da Discriminação contra a Mulher. Vale dizer. a exemplo das mencionadas convenções. Dentre outras medidas. 88 reservas substanciais. Já o artigo 16 estabelece a igualdade de direitos entre homens e mulheres. o espaço da autonomia e da autodeterminação no exercício da sexualidade e reprodução) e dos direitos sociais (o direito à saúde. a Convenção sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher se restringe a conter a sistemática dos relatórios. a sistemática de petição individual ou comunicação inter-estatal. como direitos que demandam do Estado um duplo papel (de um lado negativo. A título de exemplo. que embora esta Convenção signifique um grande avanço para a proteção internacional dos direitos humanos das mulheres. o Comitê de Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher deve continuar a revisão das reservas à Convenção. Por vezes. Estados são convidados a eliminar as reservas que sejam contrárias ao objeto e ao propósito da Convenção ou que sejam incompatíveis com os tratados internacionais. cabéra aos Estados-partes enviar relatórios sobre as medidas legislativas. contudo. inclusive referentes ao planejamento familiar (vertente promocional). parágrafo 4º e ao artigo 16. administrativas e judiciais adotadas para a implementação dos direitos enunciados na Convenção. por outro positivo e promocional). Tais mecanismos permitem um maior e mais eficaz monitoramento internacional do modo pelo qual o Estado-parte está implementando os direitos internacionais." . na medida em que apresentam uma dimensão própria dos direitos civis (a não discriminação. clamando pela ratificação universal da Convenção sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. esta foi a Convenção que mais recebeu reservas por parte dos Estados signatários. Daí a complexidade dos direitos reprodutivos.À luz do disposto no artigo 12 da Convenção. A Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação da Mulher pode enfrentar o paradoxo de ter maximizado sua aplicação universal ao custo de ter comprometido sua integridade. Observe-se. 13 Trata-se do instrumento internacional que mais fortemente recebeu reservas. (g). Em 20 de dezembro de 1994. (c). o Estado brasileiro apresentou reservas ao artigo 15. Nos termos do artigo 39 da Declaração de Viena. Ainda assim. em 1993. Ações e medidas para reduzir o particularmente amplo número de reservas à Convenção devem ser encorajadas. o Governo brasileiro notificou o Secretário Geral das Nações Unidas acerca da eliminação das aludidas reservas. dentre as Convenções internacionais de Direitos Humanos. já surgem os delineamentos iniciais dos direitos reprodutivos. O artigo 15 assegura a homens e mulheres o direito de. As Nações Unidas devem encorajar a ratificação universal por todos os Estados da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher até o ano 2000.

potencializam-se as formas de fiscalização e monitoramento internacional dos direitos humanos das mulheres. foi adotado o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. A Comissão relativa ao Status da Mulher e o Comitê de Eliminação da Discriminação contra a Mulher devem rapidamente examinar a possibilidade de introduzir o direito de petição. v. p. Theodor. Esta inovação não seria tecnicamente difícil e não haveria a necessidade de se criar órgãos adicionais para sua implementação." (MERON. Oxford: Claredon Press. Novos procedimentos devem também ser adotados para fortalecer a implementação da igualdade das mulheres. que permite o encaminhamento de denúncias de violação de direitos enunciados na Convenção à apreciação do Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher e b) um procedimento investigativo.213). Theodor.) a Convenção deve também prever um procedimento que permita o Comitê a considerar comunicações individuais. o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. elaborados pela sociedade civil). 1986. de forma similar aos procedimentos criados pelo Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e pelo artigo 14 da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação Racial. ineditamente. que habilita o Comitê a investigar a existência de grave e sistemática violação aos direitos humanos das mulheres. o que permite. portanto. ao qual os Estados-partes da Convenção poderiam aderir.” Desde 1993. refletindo reivindicação do movimento de mulheres. Human rights law-making in the United Nations: a critique of instruments and process. Enhancing the effectiveness of the prohibition of discrimination against women..Considerando a frágil sistemática de monitoramento dos relatórios (que pode ganhar maior relevância com a adoção dos “relatórios paralelos” ou “relatório sombra”. é necessário que o Estado tenha ratificado o Protocolo Facultativo.14 Finalmente. já existente. com o objetivo do pleno e equânime exercício dos direitos humanos e da não-discriminação. São asseguradas garantias para a efetiva proteção a estes direitos. 84. Note-se que o Protocolo entrou em vigor quando do depósito do 10o instrumento de ratificação.” (MERON. Os órgãos de monitoramento dos tratados devem disseminar informações necessárias que permitam às mulheres fazerem um uso mais efetivo dos procedimentos de implementação existentes. proclamou o Programa de Ação de Viena de 1993: “40. bem como de seus direitos humanos. no sentido de aprimorar os mecanismos de monitoramento da Convenção. a qualquer pessoa ou grupos de pessoas submeter casos de violação de direitos ao Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. mediante a elaboração de um Protocolo Facultativo à Convenção. no 20o aniversário da Convenção. a comunidade internacional. Reitera o mesmo autor: "(. assumia a importância da criação do mecanismo de petição. . mediante a preparação de um Protocolo Optativo à Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher. Para acionar estes mecanismos de monitoramento. o que ocorreu em 22 de dezembro de 2000. bem como habilita o mesmo Comitê a 14 A respeito da introdução da sistemática das petições individuais. em 1999. na medida em que tal mecanismo constitui o sistema mais eficiente de monitoramento dos direitos humanos internacionalmente enunciados. afirma Theodor Meron: “Um procedimento para a consideração de petições individuais deve ser estabelecido através de um Protocolo Facultativo. p. 1990. 82). apenas seria autorizado a acumular funções adicionais em conformidade com o Protocolo.. O Protocolo institui dois mecanismos de monitoramento: a) o mecanismo da petição. In: American Journal of International Law. Com o Protocolo Facultativo.

1993). que reflete relações de poder historicamente desiguais e assimétricas entre homens e mulheres. somada à pobreza e ao analfabetismo. com esta gramática (embora o padrão discriminatório seja uma forma de violência). Vale dizer. no âmbito da OEA. Trata-se da Convenção Interamericana para Prevenir. que cause morte. A violência baseada no gênero. a violência contra a mulher é definida como “qualquer ação ou conduta. ou quando atos afetam as mulheres de forma desproprocional. revitalizada e revigorada a gramática internacional de proteção aos direitos humanos das mulheres. Para a Convenção. . sexual ou psicológico à mulher. implica a precariedade de sua vida sexual e reprodutiva. A Convenção afirma que a violência contra a mulher. porque é mulher. direitos estes que constituem parte inalienável. assim. com fundamento na violação ao artigo 12 da Convenção. Este padrão específico de violência. integral e indivisível dos direitos humanos universais. dentre os quais destacam-se: a) pesquisa feita pela Human Rights Watch (“Injustiça Criminal x Violência contra a Mulher no Brasil”. a partir dele. Observe-se que a violência sexual contra as mulheres e meninas. Em conformidade com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). que tem as mulheres como alvo preferencial. constitui grave violação aos direitos humanos e limita total ou parcialmente o exercício dos demais direitos fundamentais. ao enfatizarem que os direitos das mulheres são parte inalienável.deflagrar um procedimento investigativo. em situações de grave ou sistemática violação aos direitos humanos das mulheres. baseada no gênero. como na privada”. erradicação e punição da violência contra a mulher. c) dados da ONU que demonstram que a violência doméstica é a principal causa de lesões em mulheres entre 15 e 44 anos no mundo. tanto na esfera pública. uma em cada cinco mulheres que faltam ao trabalho o fazem por terem sofrido agressões físicas. É.15 Uma medida fundamental para a efetiva proteção dos direitos humanos das mulheres é demandar do Brasil a ratificação do Protocolo e. 1998). A violência doméstica agrava o processo de feminização 15 Neste sentido. no âmbito público ou privado. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (“Convenção de Belém do Pará”). em 1994 e ratificada pelo Brasil em 1995.3% dos acusados em homicídios contra mulheres são seus parceiros. constitui grave violação aos direitos humanos e limita o exercício dos demais direitos fundamentais de que são titulares as mulheres. b) pesquisa realizada pelo Movimento Nacional de Direitos Humanos (“Primavera já Partiu”. que demonstra que 66. Há que se observar que a Convenção da ONU sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher não enfoca expressamente o tema da violência contra a mulher. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher foi aprovada. com a violação a direitos sexuais e reprodutivos de mulheres e meninas. É ela o primeiro instrumento internacional voltado à prevenção. O segundo tratado de fundamental importância para a proteção dos direitos humanos das mulheres não é de âmbito global. a violência baseada no gênero ocorre quando um ato é dirigido contra uma mulher. integral e indivisível dos direitos humanos universais. elaborar uma estratégia para a apresentação de casos de violação de direitos reprodutivos. A Convenção Interamericana para Prevenir. que aponta que de cada 100 mulheres assassinadas 70 o são no âmbito de suas relações domésticas. pode ser compreendido a partir de diversos estudos acerca da violência doméstica. dano ou sofrimento físico. mas de âmbito regional interamericano. ver a Declaração e Programa de Ação de Viena de 1993 e a Declaração e Plataforma de Ação de Pequim de 1995.

ineditamente 184 Estados reconheceram os direitos reprodutivos como direitos humanos. A partir da Convenção de Belém do Pará surgem também valiosas estratégias para a proteção internacional dos direitos humanos das mulheres. a Conferência do Cairo sobre População e Desenvolvimento de 1994 estabeleceu relevantes princípios éticos concernentes aos direitos reprodutivos16. por seu turno. Embora não sejam tratados internacionais. tanto na esfera pública. b) a educação. A Convenção elenca um importante catálogo de direitos a serem assegurados às mulheres. o que. Os direitos humanos da mulher. tais como: a) o crescimento econômico sustentado como marco do desenvolvimento sustentável. a nortear e orientar a interpretação e a aplicação do Direito. como na esfera privada. em seu artigo 12. por sua vez. do Cairo. que constituem importante fonte do Direito Internacional. Considerando este cenário. mas declarações. Estes delineamentos foram aprimorados e consolidados a partir do Plano de Ação da Conferência sobre População e Desenvolvimento do Cairo de 1994 e pela Declaração e Plataforma de Ação de Pequim de 1995. deveres aos Estadospartes. assim. ainda agrava o empobrecimento das mulheres. na Conferência do Cairo. merecendo destaque o mecanismo das petições à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. um perverso ciclo vicioso. como um direito fundamental. trouxe os primeiros delineamentos internacionais acerca dos direitos reprodutivos. merece destaque o princípio 4 da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento. Nesse sentido. Deflagra-se. punir e erradicar a violência contra a mulher. assim como a decisão livre de coerção. em particular das meninas. ambos apresentam valor jurídico. econômica. para que adotem políticas destinadas a prevenir. discriminação e violência. eliminar todo tipo de violência contra a mulher e garantir que seja ela quem controle sua própria fecundidade são a pedra angular dos programas de população e desenvolvimento. para que tenham uma vida livre de violência. Consagra ainda. em particular de planificação familiar e de saúde sexual. integral e indivisível dos direitos humanos universais. c) a igualdade entre os sexos. marcado pelo destaque a dois grandes temas relativos aos direitos humanos das mulheres – a discriminação e a violência – indaga-se: De que modo esta sistemática internacional protege os direitos reprodutivos? Reitere-se que a Convenção sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. Com efeito. em que a violação de direitos civis leva à violação de direitos sociais e vice-versa. as Conferências internacionais de Copenhaguem e Pequim reafirmaram esta concepção. a mulher com dependência econômica torna-se mais vulnerável à violência doméstica. A plena participação da mulher. em igualdade de condições na vida civil. de 1994: “Promover a eqüidade e a igualdade dos sexos e os direitos da mulher. infantil e materna e e) o acesso universal aos serviços de saúde reprodutiva. cultural.” 16 Note-se que o Plano de Ação do Cairo recomenda à comunidade internacional uma série de objetivos e metas. regional e internacional e a erradicação de todas as formas de discriminação por razões do sexo são objetivos prioritários da comunidade internacional. .da probreza. política e social em nível nacional. Em 1995. afirmando o direito a ter controle sobre as questões relativas à sexualidade e à saúde sexual e reprodutiva. d) a redução da mortalidade neonatal. a Convenção. na medida em que deles extraem-se princípios internacionais. Em 1994. das meninas e jovens fazem parte inalienável. na medida em que empobrece as mulheres e.

especialmente sobre as mulheres e crianças. coerção e violência. de 14 a 17 de maio de 1998. bem como o reconhecimento de direitos sexuais. In: Seminário “Direitos Humanos: Rumo a uma jurisprudência da igualdade”. Trata-se de direito de auto-determinação. LINHARES. De um lado. aponta a um campo da liberdade e da autodeterminação individual. deu ênfase à necessidade de erradicação da pobreza. que incorporou as agendas das Conferências de Direitos Humanos (1993).”17 Sob a perspectiva de relações equitativas entre os gêneros e na ótica de direitos humanos. As Conferências das Nações Unidas influenciando a mudança legislativa e as decisões do Poder Judiciário. a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento introduziu um novo paradigma à temática do desenvolvimento populacional. o conceito de direitos sexuais e reprodutivos aponta a duas vertentes diversas e complementares. de modo definitivo. Ainda em 1995. Nessa Conferência. pelos efeitos desse comportamento na saúde e bem-estar de suas companheiras e filhos. intimidade. do número de filhos e do intervalo entre seus nascimentos). considerado. privacidade. A Conferência do Cairo deu grande ênfase à necessidade de estimular a responsabilidade masculina para com a procriação e com a contracepção. sem discriminação. a Cúpula Mundial de Desenvolvimento Social. em Beijing. Em 1995.A Conferência do Cairo realça ainda que as mulheres têm o direito individual e a responsabilidade social de decidir sobre o exercício da maternidade. tal como na Conferência Internacional de População e Desenvolvimento (1994). apontando para a necessidade de amplos programas de saúde reprodutiva e reconhecendo o aborto como um grave problema de saúde pública. o que compreende o livre exercício da sexualidade e da reprodução humana. 17 . foi realizada a IV Conferência Mundial sobre a Mulher. em 1994. Eis um terreno em que é fundamental o poder de decisão no controle da fecundidade. realizada em Copenhage. a partir de seu próprio comportamento sexual e fertilidade. Como explica Leila Linhares: “No Cairo. Belo Horizonte. Leila. de População e Desenvolvimento (1994) e da Cúpula de Desenvolvimento Social (1995). Consagra-se o direito de mulheres e homens tomar decisões no campo da reprodução (o que compreende o direito de decidir livre e responsavelmente acerca da reprodução. com a recomendação de que sejam revistas as legislações punitivas em relação ao aborto. enquanto que os homens têm uma responsabilidade pessoal e social. um problema de saúde pública. ficou firmado o princípio que as políticas relacionadas à população devem ser orientadas pelo respeito aos direitos humanos universais e afirmou-se a necessidade dos países considerarem as grandes massas como detentoras de direitos e merecedoras de políticas públicas de combate à pobreza. assim como o direito à informação e acesso aos serviços para exercer seus direitos e responsabilidades reprodutivas. incluindo iniciativas destinadas a medir e a reduzir os impactos sociais do ajuste econômico. a noção de que os direitos das mulheres são direitos humanos. avançando e firmando. deslocando a questão demográfica para o âmbito das questões relativas aos direitos reprodutivos e ao desenvolvimento. A ativa participação do movimento internacional de mulheres nas fases preparatórias e durante a própria Conferência permitiram a legitimação da noção de direitos reprodutivos. Desenvolvimento e Paz. a noção de saúde e direitos reprodutivos.

tendo em vista a saúde não como mera ausência de enfermidades e doenças.263.18 Há que se observar que a Carta de 1988. teriam ocorrido 1. além de doenças e impedimentos evitáveis. Por outro lado. estimam a ocorrência de 728. elaborado pelo CLADEM (Comitê LatinoAmericano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher) e Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos. A respeito. deve ser assinalada a importante e bem sucedida articulação entre feministas. em seu artigo 226. Portanto. na medida em que afirma o planejamento familiar como livre decisão do casal (e dos indivíduos).000 abortos clandestinos no país. parágrafo 7o. aqui é essencial a interferência do Estado. A Declaração e a Plataforma de Ação de Pequim de 1995 endossam esta concepção. no sentido de que implemente políticas públicas garantidoras do direito à saúde sexual e reprodutiva (dimensão típica dos direitos sociais). julho de 2001. contribuindo com 9% dos óbitos maternos e com 25% dos casos de esterilidade por causa tubária. mas como a capacidade de desfrutar de uma vida sexual segura e satisfatória e reproduzir-se com a liberdade de fazê-lo ou não. instância máxima do Sistema Nacional de Saúde.100 abortos provocados no país para o ano de 1996. em que se clama pela não-interferência do Estado. Nesta ótica. consultar “Diagnóstico sobre a situação dos direitos sexuais e reprodutivos na América Latina”. cabendo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício deste direito (prestação estatal positiva. a violação aos direitos reprodutivos das mulheres limita dramaticamente suas oportunidades na vida pública e privada. 18 . fundamental é o direito ao acesso a informações. A privação dos direitos reprodutivos tem implicado a morte de milhões de mulheres. típica dos direitos sociais). vedada qualquer coerção (prestação estatal negativa. encorajando os Estados a revisar as legislações que estabelecem medidas punitivas a tal prática. Vale ressaltar a implantação pelo país de serviços que realizam abortos nos casos previstos por lei. está afinada com os parâmetros internacionais.5 abortos para cada 1000 mulheres ou 31. não permita que haja um impacto quantitativo na magnitude do problema do aborto inseguro no país.liberdade e autonomia individual. em 1994. pela não-discriminação. A Lei 9. Oficialmente. de 12 de janeiro de 1996. julho de 2001).400. adicionando a idéia da interdependência e indivisibilidade dos direitos humanos. o aborto figura como a quinta causa de internação hospitalar de mulheres no Sistema Único de Saúde. típica dos direitos civis).0 para 100 gravidezes (Costa. suas oportunidades de acesso à educação e o pleno exercício dos demais direitos”. elaborado pelo CLADEM e Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos. com estruturas variadas e diferentes graus de implantação). quando e com que frequência. Embora o número ainda reduzido destes serviços (cerca de trinta e cinco em todo o território nacional. Note-se que ambos os instrumentos internacionais afirmam que a temática do aborto deve ser considerada sob o prisma da saúde pública. uma moção de apoio à realização do aborto previsto por lei. ao afirmar: “na maior parte dos países. veio a regulamentar o aludido preceito constitucional. o efetivo exercício dos direitos reprodutivos demanda políticas públicas. que pretendem suprimir todo e qualquer direito à interrupção da gravidez. que assegurem a saúde sexual e reprodutiva. direito constantemente ameaçado por projetos apresentados por parlamentares ligados à CNBB. meios e recursos seguros. pela não-coerção e não-violência (dimensão típica dos direitos civis). 1998). Ainda em relação ao direito ao aborto. sindicalistas e profissionais de saúde que conseguiram aprovar na Conferência Nacional de Saúde. tratando do planejamento Segundo o Alan Gutmacher Institute. Inclui-se ainda o direito ao acesso ao progresso científico e o direito de receber educação sexual. Fundamental também é o direito ao mais elevado padrão de saúde reprodutiva e sexual. a importância política e sanitária destas iniciativas têm sido incontestáveis. disponíveis e acessíveis. (“Diagnóstico sobre a situação dos direitos sexuais e reprodutivos na América Latina”. Correa e Freitas (1997). Outros estudos apontam a ocorrência de 37.

como crime. nos casos de mutilação decorrentes de tratamento de câncer. e a portaria do Ministério da Educação acerca dos parâmetros curriculares e. Todas as medidas mencionadas revelam – com maior ou menor êxito . o) a obrigatoriedade de cirurgia plástica reparadora da mama pela rede de unidades integrantes do Sistema Único de Saúde (público). inclusive no que se refere a não discriminação de orientação sexual. l) a aprovação da Lei 9099/95. j) a tipificação da conduta de submeter criança ou adolescente à prostituição ou à exploração sexual. pelo homem ou pelo casal. com algum enfoque de gênero. envolvem a concepção. i) os projetos de lei federais referentes à reprodução assistida. alcançando – na prática. para efeitos admissionais ou de permanência da relação jurídica de trabalho. f) a proibição. e) o esforço do Executivo federal e. ao lado dos tradicionais direitos civis e políticos. em nosso entender. em regulamentar procedimentos de atendimento para mulheres que sofrem violência sexual.familiar. bem como da sociedade civil organizada. no âmbito do atendimento global e integral à saúde. do dispositivo constitucional que reconhece a união estável como entidade familiar. assim como o Projeto de Reforma do Código Civil e o Anteprojeto de Reforma da Parte Especial do Código Penal brasileiro. que. k) as leis federais e estaduais referentes aos portadores de HIV/AIDS. consultar “Diagnóstico sobre a situação dos direitos sexuais e reprodutivos na América Latina”. incluindo-se os serviços de aborto legal. de forma polêmica e. os recentes avanços obtidos na esfera internacional. Estadual e Municipal de Direitos Humanos. de exigência de atestados de gravidez e esterilização. em que são incorporados temas como os direitos econômicos. .os esforços dos Poderes Executivo e Legislativo. vive-se um momento de redefinição e reformulação da agenda de direitos humanos. m) a instalação dos comitês de morte materna. o qual pode ter implicações quanto à violência sexual contra as mulheres. faz-se ainda necessário dar maior visibilidade à construção conceitual de direitos reprodutivos. a regulamentação e busca de implementação dos Programas Nacional. há que se incorporar os direitos reprodutivos como direitos humanos. em sua complexidade. em buscar regulamentar. através de lei federal. h) a crescente relevância do tema da paternidade responsável na legislação infraconstitucional. no plano local. nos últimos anos. p) as portarias do Ministério da Saúde sobre tratamento de mulheres vítimas de violência sexual e de mulheres com gravidez de alto risco. conforme já mencionado. n) a regulamentação dos direitos das presas a estabelecimentos adequados para amamentação de seus filhos. julho de 2001. em alguns casos. aspectos relacionados aos direitos sexuais e reprodutivos no país. g) a inserção de regras sobre o acesso da mulher ao mercado de trabalho nas leis trabalhistas. também inadequada – os crimes de ameaça e lesão corporal praticados contra a mulher no âmbito domésticofamiliar.19 Em seu artigo 2º. estes últimos destinados aos delitos de menor potencial ofensivo. d) a regulamentação. de uma forma ou de outra. COMO COMPREENDER OS DIREITOS REPRODUTIVOS SOB A PERSPECTIVA DOS DIREITOS HUMANOS? QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS DESAFIOS E PERSPECTIVAS? Um primeiro desafio à proteção dos direitos reprodutivos refere-se à exigência de transpor e implementar. conferindo prevalência aos parâmetros internacionais e constitucionais para a efetiva proteção dos direitos reprodutivos. sociais e culturais. 4. b) a busca de se incluir a educação sexual nos currículos escolares. a Lei define o planejamento familiar como o conjunto de ações de regulação da fecundidade que garanta direitos iguais de constituição. por fim. Para tanto. em todo país. Neste cenário. elaborado pelo CLADEM (Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher) e Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos. c) a regulamentação do planejamento familiar na legislação infraconstitucional. enquanto direitos nacional e internacionalmente assegurados. O parágrafo único deste artigo proíbe a utilização de tais ações para qualquer tipo de controle demográfico. A respeito. No Brasil. limitação ou aumento da prole pela mulher. 19 Adicionem-se outras iniciativas relevantes adotadas para se lograr a normatização de temas afetos aos direitos sexuais e reprodutivos: a) a recente tipificação do crime de tortura no âmbito nacional. de âmbito federal. que instaurou os juizados especiais civis e criminais. com base nos parâmetros internacionais e constitucionais. ainda que de forma incipiente. estadual e municipal.

São Paulo. solicitando as medidas cabíveis no campo da saúde pública. p. Todas estas estratégias revelam a necessidade de potencializar a via internacional. Brasília: Centro Feminista de Estudos e Assessoria . há que se potencializar o uso da Convenção de Belém do Pará. em todos os âmbitos da produção legiferante no país. sob a perspectiva dos direitos humanos. a crescente jurisprudência afirmativa dos direitos das pessoas portadoras do vírus HIV. insistindo na idéia de deveres reprodutivos e não de direitos reprodutivos.. efetivamente.” Por fim. inclusive como prerrogativas fundamentais ou essenciais da existência das mulheres”. tendo como referência. à luz da experiência em outras áreas ligadas à saúde pública. Copenhaguem e Pequim. que contempla ganhos judiciais no tocante à não-discriminação. a “judicialização” dos direitos reprodutivos. de intimidade e políticas sociais. Citese ainda uma ação civil pública. Direitos reprodutivos: uma questão de cidadania. será possível encaminhar casos de violaçåo a direitos reprodutivos. que teve por objeto denunciar o alto índice de mortalidade materna em determinado hospital da rede pública de saúde. são necessárias estratégias no plano internacional.21 No âmbito do sistema interamericano. (op. de grande satisfação e profundo sofrimento. assim. acrescenta a mesma autora: “Por muito tempo. do ponto de vista moral.CFEMEA. 22 Cf. os avanços judiciais relacionados à proteção do direito à saúde. . p. Maria Betânia de Melo. a respeito. In: Cadernos CCR 2.o parto. invocam “assunto de vida e morte. Estas estratégias parecem fundamentais para assegurar o pleno exercício dos direitos reprodutivos como efetivos direitos humanos. permeada por elementos de cunho cultural. In: ÁVILA. em sua complexidade. enfrentando tabus. A concepção e o exercício da maternidade eram possibilidades que. a partir de “test cases”. que invoquem a prestação jurisdicional para a proteção a estes direitos. a partir das Plataformas do Cairo. Direitos Reprodutivos e Ordenamento Jurídico Brasileiro: subsídios a uma ação político-jurídica transformadora. Faz-se emergencial promover avanços normativos que incluam e garantam. na perspectiva de gênero. 9. com plena autonomia e dignidade. Comissão de Cidadania e Reprodução. como a campanha para ratificar o Protocolo Facultativo à Convenção sobre a Eliminação da Discrminação contra a Mulher. assegure aos indivíduos o exercício de sua sexualidade e de sua capacidade reprodutiva. Silvia. Propõe-se. como decisões que exigem o fornencimento de medicamentos. que. A respeito. as questões referentes às mulheres foram postas como pontos separados de uma agenda que privilegiava a luta pela descriminalização do aborto e o acesso à contracepção. por exemplo. mediante casos que denunciem a violação de direitos reprodutivos. Cite-se. bem como ganhos judiciais referentes à saúde. que permitirá o encaminhamento de casos ao Comitê de Eliminação da Discriminação contra a Mulher. é também fundamental identificar estratégias de proteção judicial dos direitos reprodutivos. a efetiva implementação dos direitos sexuais e reprodutivos. 94. Elza. 1994. Maria Betânia de Melo. Neste contexto. já estavam dadas. cit. há que se avaliar a proposta de elaboração de uma Convenção Interamericana de Proteção de Direitos Sexuais e Reprodutivos. demanda uma ação político-jurídica emancipatória. parafraseando Ronald Dworkin. BERQUÓ.22 20 ÁVILA. a contracepção e o aborto. como elementos interligados “onde a impossibilidade de acesso a qualquer um deles remete a mulher para um lugar de submissão”20. Além de estratégias no âmbito nacional. Além disso. Modernidade e cidadania reprodutiva. de paixão e frios cálculos. 9). moral e religioso (vide a forte influência da Igreja católica no país). recentemente ajuizada no Rio de Janeiro (agosto de 2000). o exercício – e não o controle – da sexualidade e reprodução. resiste em aceitar os direitos reprodutivos como direitos. com fundamento no artigo 12 da Convenção. p. criativa e transformadora que. Há que se enfrentar a cultura que. como forma de violência contra a mulher.PIMENTEL. 21 Note-se que. como especial arena para a proteção dos direitos reprodutivos. 1993 (mimeo).

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