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IDEOLOGIA, LINGUAGEM E PENSAMENTO EM 1984, DE GEORGE ORWELL

IDEOLOGIA, LINGUAGEM E PENSAMENTO EM 1984, DE GEORGE ORWELL

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Publicado porDaniel Babalin
Meu Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro Universitário Ibero-Americano como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em Letras – Tradutor e Intérprete.
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Published by: Daniel Babalin on Jun 12, 2011
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06/11/2013

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Lev Semenovitch Vigotski (ou também nas variações de tradução, Vygotsky,

Vygotski ou Vigotsky) é mais conhecido por seus trabalhos na área de psicologia do que

como um linguista propriamente dito. Não obstante, grande parte de seus estudos foram

voltados para a questão da aprendizagem, da aquisição de linguagem e como esta afeta o

pensamento, o desenvolvimento e a interação das pessoas.

Em sua obra, cuidadosamente estudada para a realização deste trabalho, entitulada

intitulada “Pensamento e Linguagem” o autor tem por objetivo central estudar a interrelação

entre estes temas, para isso, ele e seus colaboradores abordam a problemática do assunto de

forma inovadora para a época e propõem um método experimental parcialmente novo para

investigar o processo de formação de conceitos e como estes se desenvolvem.

De acordo com Vigotski, o maior fator que explica o pouco progresso nesse campo do

pensamento verbal anterior ao seu trabalho provém do método falho de análise. Segundo ele,

dois metódos de análise são possíveis, um deles analisando isoladamente os elementos

componentes do pensamento verbal: o pensamento e a palavra. Nesse caso, para Vigotski, o

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único trabalho a ser feito consistiria em “tentar descobrir a interação mecânica dos dois

elementos na esperança de reconstruir , de modo puramente especulativo, as propriedades do

todo [pensamento verbal]”(2008, p.3). Para Vigotski e seus colaboradores, o segundo método

é o correto a se utilizar, como podemos ver nesta passagem:

Em nossa opinião, o caminho é usar outro tipo de análise, que pode ser chamado de

análise em unidades.
Com o termo unidade queremos nos referir a um produto de análise que, ao
contrário dos elementos, conserva todas as propriedades básicas do todo não
podendo ser dividido sem que as perca.
(VIGOSTSKI, 2008, p.5 grifo do autor)

Percebe-se logo a importância que o autor confere ao fato de que tanto o pensamento

quanto a linguagem são indissociáveis no estudo do pensamento verbal, sendo errôneo estudá-

los separadamente e negligenciar a forma como interagem. Como bem resume José Luiz

Fiorin, conhecedor e estudioso da obra de Vigotski:

As funções da linguagem e do pensamento não podem ser dissociadas e, muito
menos, opostas. [...]apesar de o pensamento e a linguagem serem diferentes em sua
origem, ao longo do processo evolutivo, soldam-se num todo indissociável de forma
que, no pensamento verbal, torna-se impossível dissociar as idéias da linguagem.
(FIORIN, 2003, p.34)

Esta unidade à qual se refere Vigotski encontra-se no significado da palavra, é nele

que o pensamento e a fala se fundem em pensamento verbal e portanto nos oferece meios para

respondermos questões sobre essa relação. A palavra é uma generalização em si própria, uma

vez que ela agrega referências não apenas a um único objeto mas sim a um grupo de objetos.

A generalização é por sua vez um ato que reflete a realidade de uma forma bem diferente

quando comparado à percepção e à sensação. Este reflexo generalizado da realidade é o

próprio cerne do significado da palavra e portanto esse significado é em si um ato de

pensamento. (VIGOTSKI, 2008)

Nesta mesma obra, Vigotski (2008) afirma que as contribuições de Jean Piaget à

psicologia são imensuráveis e muitas delas foram possíveis graças a ousadia que ele teve em

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sua abordagem, analisando qualitativamente as diferenças entre pensamentos de uma criança

e pensamentos de um adulto.

Parte fundamental dos estudos de Piaget sobre crianças e sua linguagem repousa na

questão da fala e do pensamento egocêntrico. Ele define esse pensamento egocêntrico como

uma evolução do pensamento autístico e precedente do pensamento dirigido, sendo expresso

assim por todo o ato sonoro que a criança produz subconscientemente quando os objetivos

que persegue não estão claramente presentes em sua consciência. O pensamento egocêntrico

ainda

Tende a gratificar desejos, e não a estabelecer verdades, e permanece estritamente
individual e incomunicável como tal por meio de linguagem, uma vez que opera
basicamente em imagens e, para ser comunicado, precisa recorrer a métodos
indiretos, evocando, por meio de símbolos e de mitos, os sentimentos que o guiam.
(PIAGET, 1999, p.68)

Vigotski aceita a definição de Piaget quanto ao que é a fala egocêntrica e quais são

suas características, porém tem ideias divergentes quanto à sua função e a importância dela no

desenvolvimento intelectual da criança. Conforme Vigotski (2008, p.19), Piaget afirma que a

fala egocêntrica “não cumpre nenhuma função verdadeiramente útil no comportamento da

criança e que, simplesmente se atrofia a medida que a criança se aproxima da idade escolar”.

(2008, p.19).

No entanto Vigotski, a partir de suas experiêencias, acredita que a fala egocêntrica

possui uma função muito definida e importante no desenvolvimento das crianças. Seus

estudos indicam que esta não é apenas um acompanhamento das atividades da criança, mas

que além de ser um meio dela se expressar e liberar a tensão, a fala egocêntrica passa a ser um

instrumento do pensamento propriamente dito, o qual busca e planeja meios para que uma

dificuldade seja superada. Essa divergência de pensamentos se torna ainda maior quando o

objeto de análise é o destino posterior da fala egocêntrica.

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Enquanto Piaget acredita na queda gradual do seu uso, até que ela se torne

completamente atrofiada, Vigotski acredita que os resultados obtidos em sua pesquisa

sugerem que a fala interior (que representa o “pensar para si próprio”) seja o produto final da

evolução da fala oral, processo de evolução no qual a fala egocêntrica desempenha um papel

transitório relevante:

A fala egocêntrica enquanto uma forma linguística separada, é o elo genético de
extrema importância na transição da fala oral para a fala interior [...] É esse papel de
transição da fala egocêntrica que lhe impresta um interesse teórico tão grande. Toda
a concepção do desenvolvimento da fala varia profundamente, de acordo com a
interpretação que for dada ao papel da fala egocêntrica. Desse modo, o nosso
esquema de desenvolvimento – primeiro fala social, depois egocêntrica, e então
iterior – diverge[...] da sequência de Piaget que parte do pensamento autístico não
verbal à fala socializada e ao pensamento lógico, através do pensamento e da fala
egocêntricos.
(VIGOTSKI, 2008, p.23 a 24)

Pode-se notar a diferença das concepções de desenvolvimento da fala entre os dois.

Piaget acredita que a fala é puramente autística no princípio e que, com a pressão da

sociedade, ela passa a ser uma fala social, passando por um período transitório para tal, a fala

egocêntrica. Vigotski por sua vez, acredita que a fala é primariamente social, que a mais

rudimentar e inicial fala de uma criança já é social em sua essência, buscando uma

comunicação. Nessa primeira instância, ela é global e não cumpre funções específicas

distintas, a não ser o contato com a mãe, depois é que essa fala terá funções diferentes. Em um

certo ponto a fala social evoluirá e tomará dois rumos distintos: a fala egocêntrica e a fala

comunicativa.

Para Vigotski, a fala egocêntrica aparece “quando a criança transfere formas sociais e

cooperativas de comportamento para a esferas das funções psíquicas interiores e pessoais”

(2008, p.23) e ele acredita que Piaget conhecia bem essa tendência que as crianças tem de

interorizar padrões de comportamentos que eram sociais no início, apenas não deu a

importância que lhe cabia. Aqui se encontra o ponto em que a divergência do trabalho desses

dois estudiosos se torna mais evidente. Piaget acredita que o desenvolvimento do pensamento

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é inicialmente individual e depois torna-se socializado quando adentra a esfera social.

Vigotski acredita que o pensamento é, antes de tudo, social e que este pensamento socializado

adentra primeiramente na esfera individual, definindo e se tornando um pensamento

individualizado.

Pode-se concluir que, para Vigotski, essa influência social no pensamento e na fala

individual dá-se através da palavra, pois é nela e na capacidade evolutiva de seus significados

que se pode perceber a interferência da sociedade.

A linguística não percebeu que, na evolução histórica da linguagem, a própria
estrutura do significado e a sua natureza psicológica também mudam. A partir das
generalizações primitivas, o pensamento verbal eleva-se ao nível dos conceitos mais
abstratos. Não é simplesmente o conteúdo de uma palavra que se altera, mas o modo
pelo qual a realidade é generalizada e refletida em uma palavra.
(VIGOTSKI, 2008, p.152, grifo nosso.)

No trecho acima podemos ver os indícios de um outro problema se formando a partir

das investigações iniciadas por Vigotski e seus colaboradores, problema esse que ele próprio

cita no final de seu livro dizendo que

[...] a característica fundamental das palavras é uma reflexão generalizada da
realidade. Esse aspecto da palavra leva-nos ao limiar de um tema mais amplo e mais
profundo – o problema geral da consciência. O pensamento e a linguagem, que
refletem a realidade de uma forma diferente daquela da percepção, são a chave para
a compreensão da natureza da consciência humana.
(VIGOTSKI, 2008, p.190)

Tal tema, indicado pelo autor, foi explorado pelo linguista russo Mikhail Bakhtin e a

importância de seus estudos sobre esses problemas será exposta a seguir.

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