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Lirismo (religioso e amoroso) e a sátira de Gregório de Matos Guerra

Lirismo (religioso e amoroso) e a sátira de Gregório de Matos Guerra

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LIRISMO RELIGIOSO E AMOROSO E A SÁTIRA DE GREGÓRIO

DE MATOS GUERRA
O BARROCO
PROFESSORA - LEONOR LEÄO FEIO

Gregório de Matos
(1636-1695)
O BARROCO
INTRODUCÄO
O Barroco Ioi o estilo artistico dominante na Europa durante o seculo XVII e a
primeira metade do seculo XVIII. Houve no Brasil, dois Barrocos, o baiano, com VII, e
o mineiro, predominantemente na arquitetura e nas artes plasticas, no seculo XVIII.
CARACTERISTICAS
1. Oposicão ao racionalismo classico
2. Dualismo (o homem dividido)
3. DiIerentes linhas estruturais
a) Maneirismo
b) Cultismo
c) Conceptismo
d) Barroquismo
GREGÓRIO DE MATOS
Gregorio de Matos passou para a historia da literatura brasileira como poeta
maldito. Conhecido na Bahia como 'Boca do InIerno¨, Iez ius a esse apelido devido a
acida critica que Iazia a sociedade de seu tempo por meio de sua poesia satirica, não
poupando nem aristocracia, nem o clero, nem mulheres.
Coexistem em suas obras tendências bastantes variadas:
· Poemas satiricos de critica ao meio social;
· Poemas liricos resultantes de paixões momentâneas;
· Lirica sacra, resultante da reIlexão religiosa
POESIA LIRICO-AMOROSA
A poesia lirico-amorosa de Gregorio e Iortemente marcada pelo contraste, a
identiIicacão entre os opostos, caracteristica do Barroco. A nocão de pecado e muito
Iorte, a mulher e, por um lado, um anio e por outro, demoniaca. Ele insiste na imagem
imposta pela ideologia catolica, conIundindo o amor e o encanto com seducão
pecaminosa.
O amor e retratado como Ionte de prazer e soIrimento
- A mulher e retratada como um anio e Ionte de perdicão (pois desperta o deseio carnal)
Texto
No texto a seguir rompe o Poeta com a Primeira Impaciência Querendo
Declarar-se e Temendo Perder Por Ousado

Anio no nome, Angelica na cara,
Isso e ser Ilor, e Anio iuntamente,
Ser Angelica Ilor, e Anio Ilorente,
Em quem, se não em vos se uniIormara?
Quem veria uma Ilor, que a não cortara
De verde pe, de rama Ilorescente?
E quem um Anio vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
Se como Anio sois dos meus altares,
Fôreis o meu custodio, e minha guarda,
Livrara eu de diabolicos azares.
Mas veio, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anios nunca dão pesares,
Sois Anio, que me tenta, e não me guarda.
'ocabulário
UniIormar: tornar uniIorme, com uma so Iorma
Galharda: elegante
POESIA LIRICO-RELIGIOSA (SACRA)
Características
- O autor esta dividido entre pecado e virtude (sente culpa por pecar e busca a salvacão)
- O autor vê o pecado como um erro humano, mas tambem, como a unica Iorma de
Deus cometer o ato do perdão.
- O eu-lirico, muitas vezes, se comporta como advogado que Iaz a propria deIesa diante
de Deus (para tal, usava, ate mesmo, trechos da Biblia)
TEXTO
Ao mesmo assunto e na Mesma Ocasião

Pequei Senhor: mas não porque hei pecado,
Da vossa Alta Piedade me despido:
Antes, quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeia um so gemido:
Que a mesma culpa, que vos ha oIendido,
Vos tem para o perdão lisonieado.

Se uma ovelha perdida, ia cobrada,
Gloria tal, e prazer tão repentino
Vos deu, como aIirmais na Sacra Historia,

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;
Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,
Perder na vossa ovelha a vossa gloria
'ocabulário
Despido: despeco
Sobeia: sobra
Cobrada: recuperada

A poesia sacra de Gregorio de Matos as vezes e simples pretexto para exercicio do
cultismo. Veia o iogo de palavras no poema a seguir.

O todo sem parte não e todo,
A parte sem o todo não e parte,
Mas se a parte o Iaz todo, sendo parte,
Não se diga que e parte, sendo todo

Em todo sacramento esta Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E Ieito em partes todo em toda parte,
Em qualquer parte sempre Iica todo.

O braco de Jesus não seia parte,
Pois que Ieito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braco que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.

Poesia satírica
O 'Boca do InIerno¨ não perdoava ninguem: ricos e pobres, negros, brancos e mulatos,
padres, Ireiras, autoridades civis e religiosas, amigos e inimigos, todos, enIim, eram
obieto de sua 'lira maldizente¨.
O governador Câmara Coutinho, por exemplo, Ioi assim retratado:
'Nariz de embono
com tal sacada,
que entra na escada
duas horas primeiro
que seu dono.¨

Contudo, o melhor de sua satira não e esse tipo de zombaria, engracada e maldosa, mas a
critica de cunho geral aos vicios da sociedade. Sua vasta galeria de tipos humanos contribui para
construir sua maior e principal personagem - a cidade da Bahia:

'Senhora Dona Bahia,
nobre e opulenta cidade,
madrasta dos naturais,
e dos estrangeiros madre.¨
A cidade e assim descrita num poema:
'Terra que não aparece
neste mapa universal
com outra; ou são ruins todas,
ou ela somente e ma.¨

Mas nem sempre o poeta e rancoroso com sua cidade. No Iamoso soneto 'Triste Bahia¨, ia
musicado por Caetano Veloso, Gregorio identiIica-se com ela, ao comparar a situacão de
decadência em que ambos vivem. O poema abandona o tom de zombaria das satiras para tornar-
se um quase lamento:

'Triste Bahia! o quão dessemelhante
Estas e estou do nosso antigo estado!
Pobre te veio a ti, tu a mim empenhado,
Rica te vi eu ia, tu a mim abundante.¨

Depreende-se desse texto que as satiras de Gregorio de Matos desagradavam a muita gente.
Por isso ele deIende seu direito de escrevê-las.

Aos vícios
Eu sou aquele, que os passados anos
cantei na minha lira maldizente
torpezas do Brasil, vicios e enganos.
|...|
De que pode servir, calar, quem cala,
Nunca se ha de Ialar, o que se sente?
Sempre se ha de sentir, o que se Iala?
Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?
|...|
Se souberas Ialar, tambem Ialaras,
Tambem satirizaras, se souberas,
E se Ioras Poeta, poetizaras.
A ignorância dos homens destas eras
Sisudos Iaz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas Ieras.
Ha bons, por não poder ser insolente,
Outros ha comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.
Quantos ha que os telhados têm vidros,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos.
Uma so natureza nos Ioi dada:
Não criou Deus os naturais diversos,
Um so Adão Iormou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos perversos,
So nos distingue o vicio, e a virtude,
De que uns são comensais outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse so me censure, esse me note,
calem-se os mais, chitom, e haia saude.
'ocabulário
canonizar: considerar santo, incluir no rol dos santos;
quem maior a tiver: quem tiver virtude maior;
chitom: silêncio (do Irancês 'chut donc¨)

A producão satirica de Gregorio de Matos não Ioi incomoda apenas para seus
contemporâneos, esta parte de sua obra, principalmente em seus momentos mais
"Iortes", Ioi muitas vezes censurada e cortada em varias antologias escolares. Portanto,
antes da analise do poema gregoriano, Torna a deIinir o poeta os maus modos de obrar
na governanca da Bahia, principalmente naquela universal Iome de que padecia a
cidade, iremos analisar etimologicamente a palavra SATIRA e SATIRO.
A satira age sobretudo pela deIormacão caricatural daquilo que se pretende
atacar ou desmoralizar. Contem, com Ireqüência, uma intencão reIormadora, porque o
conceito de satira esta ligado ao sentimento de indignacão e a vontade de moralizar os
costumes. Como elemento motivador da satira, distingue-se o senso do ridiculo, que e a
percepcão do lado cômico de personagens, situacões e ideias.
E e com o estilo satirico que desenvolveremos um estudo mais direcionado a
Gregorio de Matos, ele que pretendia, atraves da satira, maniIestar explicitamente o
Iuncionamento dos discursos do poder. Em seus poemas utiliza de elementos como a
"malandragem", "plagio", "imoralidade", "adulterio", "inveia", "racismo", "realismo",
"Iurto", "repudio", "libertinagem" e "promiscuidade". Portanto, partiremos para a
analise deste discurso satirico de Gregorio de Matos, no seu poema Torna a deIinir o
poeta os maus modos de obrar na governanca da Bahia, principalmente naquela
universal Iome de que padecia a cidade.
Que Ialta nesta cidade?................Verdade (1)
Que mais por sua desonra?...........Honra (2)
Falta mais que se lhe ponha..........Vergonha. (3)


O demo a viver se exponha, (4)
Por mais que a Iama a exalta, (5)
numa cidade, onde Ialta (6)
Verdade, Honra, Vergonha. (7)

Quem a pôs neste socrocio?..........Negocio (8)
Quem causa tal perdicão?.............Ambicão (9)
E o maior desta loucura?...............Usura. (10)

Notavel desventura (11)
de um povo nescio, e sandeu, (12)
que não sabe, que o perdeu (13)
Negocio, Ambicão, Usura. (14)

Quais são os seus doces obietos?....Pretos (15)
Tem outros bens mais macicos?.....Mesticos (16)
Quais destes lhe são mais gratos?...Mulatos. (17)

Dou ao demo os insensatos, (18)
dou ao demo a gente asnal, (19)
que estima por cabedal (20)
Pretos, Mesticos, Mulatos. (21)

Quem Iaz os cirios mesquinhos?...Meirinhos (22)
Quem Iaz as Iarinhas tardas?.........Guardas (23)
Quem as tem nos aposentos?.........Sargentos. (24)

Os cirios la vêm aos centos, (25)
e a terra Iica esIaimando, (26)
porque os vão atravessando (27)
Meirinhos, Guardas, Sargentos. (28)

E que iustica a resguarda?.............Bastarda (29)
E gratis distribuida?......................Vendida (30)
Que tem, que a todos assusta?.......Iniusta. (31)

Valha-nos Deus, o que custa, (32)
o que El-Rei nos da de graca, (33)
que anda a iustica na praca (34)
Bastarda, Vendida, Iniusta. (35)

Que vai pela clerezia?..................Simonia (36)
E pelos membros da Igreia?..........Inveia (37)
Cuidei, que mais se lhe punha?.....Unha. (38)

Sazonada caramunha! (39)
enIim que na Santa Se (40)
o que se pratica, (41)
e Simonia, Inveia, Unha. (42)

E nos Irades ha manqueiras?.........Freiras (43)
Em que ocupam os serões?............Sermões (44)
Não se ocupam em disputas?.........Putas. (45)

Com palavras dissolutas (46)
me concluis na verdade, (47)
que as lidas todas de um Frade (48)
são Freiras, Sermões, e Putas. (49)

O acucar ia se acabou?..................Baixou (50)
E o dinheiro se extinguiu?.............Subiu (51)
Logo ia convalesceu?.....................Morreu. (52)

A Bahia aconteceu (53)
o que a um doente acontece, (54)
cai na cama, o mal lhe cresce, (55)
Baixou, Subiu, e Morreu. (56)

A Câmara não acode?...................Não pode (57)
Pois não tem todo o poder?...........Não quer (58)
E que o governo a convence?........Não vence. (59)

Que havera que tal pense, (60)
que uma Câmara tão nobre (61)
por ver-se misera, e pobre (62)
Não pode, não quer, não vence. (63)

Analisar o poema gregoriano exige um olhar critico e observador. E necessario
compreender as Iiguras de linguagem, a mensagem e as Iormas como as palavras vêm
arrumadas no poema. De inicio, o titulo do poema e instigante, causa no leitor uma
estranheza por ser um pouco extenso. Este, porem, revela uma caracteristica unica do
autor, que vem satirizando de Iorma aguda o governo estabelecido na Bahia, bem como,
as autoridades religiosas, os militares e o "povão" em geral.
Neste poema, ha uma critica obvia a promiscuidade e a libertinagem (versos 46
a 49), ao racimo (18 a 21), imoralidade (versos 11 a 14), assim como tambem, a
incompetência e a desonestidade. Por meio de Ialsas perguntas, para as quais o poeta
oIerece respostas, Gregorio vai decompondo o interior da organizacão social. Este
procedimento parece dar um certo didatismo, reIorcado pelo processo de disseminacão e
recolher, muito comum na poesia barroca. Primeiro, as palavras se disseminam, se
dispersam para depois serem recolhidas, reunidas num mesmo verso. Assim, cria-se um
tom conclusivo no Iinal das estroIes. Conclusão que abrange desde morais (verdade,
honra, vergonha) e abstratos ate os motivos concretos da degradacão desde valores
(negocio, ambicão, usura) e seus principais agentes: pretos, mesticos, meirinhos,
guardas, etc.
Neste poema, o mundo presente e insatisIatorio, corroido pela inversão de
valores. O honesto e pobre; o ocioso triunIa; o incompetente manda. O racismo e a
libertinagem são representados de maneira inversa: o racismo pela ascensão do negro e
a libertinagem pelo declinio do clero. No discurso satirico de Gregorio, os termos
"negros", "mulata", "puta", "mesticos", etc., aplicam-se tambem como metaIoras
estereotipadas, como caracterizacão peiorativa e insulto.
Como vemos, do alto da pirâmide social a "rale", dos donos do poder aos
mesticos, todos são responsaveis pela universal Iome que padecia a Bahia. As estroIes
se assemelham do ponto de vista das rimas, quando nos três primeiros versos são rimas
horizontais; nos quatro restantes, rimas verticais; e de sua disposicão graIica: estroIes de
três versos seguidas de estroIes de quatro versos, sendo o ultimo um coniunto de sete
versos que compõe cada esquema duplo de estroIes.

Que Ialta nesta cidade?................Verdade Rimas horizontais
Que mais por sua desonra?...........Honra
Falta mais que se lhe ponha..........Vergonha.

O de mo a vi ver se exponha,
Por mais que a Iama a exalta, Rimas verticais (opostas)
numa cidade, onde Ialta
Verdade, Honra, Vergonha.

Em termos de conteudo, as estroIes tambem se assemelham: do abstrato para o
concreto (verdade, honra, vergonha... negocio, ambicão, usura), dos tipos sociais as
instituicões, do povo nescio a El-Rei, Gregorio de matos vai decompondo a organizacão
de uma sociedade barroca baiana. A coloquialidade da linguagem, o uso de termo "de
baixo calão", o tom de oralidade e principalmente a arrasadora critica que Iaz as
desigualdades mostra como e Iorte o discursos satirico de Gregorio, um poeta ligado as
questões sociais e publicas, que tambem deIende momentos melhores para sua terra, a
Bahia.
Portanto, o discurso satirico de Gregorio serve para criticar os costumes e
preconceitos de uma sociedade e muitas vezes, a critica Ieita a comportamentos
explicitos ou encobertos, pode-se transIormar em uma denuncia a atos dissimulados que
contrariam a ordem e as normas humanas.
No que se reIere a teoria de Sartre (2004), conclui-se que o poeta e engaiado
sim, e Gregorio de Matos e Guerra caminhou por essa linha de engaiamento. Por isso
mesmo ele Ioi um homem amado e odiado. Numa antitese tipicamente barroca, ele
andou pelas trevas, mas tambem conheceu a luz, tudo em busca de uma poesia Ieita para
o OUTRO. Assim, Iica o mito eternizado e o Cânone brasileiro Gregorio de Matos e
Guerra

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