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Crise Da Divida Externa

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A Economia Brasileira na Década de 80: consequências da crise da dívida externa, inflação e crise do Estado

ANTÓNIO JORGE FERNANDES, CASSIANO PAIS

Universidade de Aveiro, Departamento de Economia; Gestão e Engenharia Industrial – 3810193, Aveiro-Portugal INETI- Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial, DMS- Departamento de Modelação e Simulação, 1649-038 Lisboa-Portugal

Resumo
A interrupção na década de oitenta, de uma longa história de crescimento que caracterizava o Brasil, é resultado de um amplo conjunto de causas entre as quais, o peso insustentável da dívida externa, o imobilismo gerado por uma excessiva protecção à indústria nacional, o fracasso dos programas de estabilização no combate à inflação e o esgotamento de um modelo de desenvolvimento, baseado fundamentalmente na intervenção generalizada do Estado na economia, esgotamento esse assente na crise do Estado brasileiro que diminuiu sensivelmente a sua capacidade de investimento, retirando-lhe o grande papel de principal promotor do desenvolvimento. No entanto, é no seu aspecto financeiro que a crise se torna mais aguda, levando a economia a uma espiral inflacionária, que provocou uma queda nos níveis de poupança do sector público, criando um ambiente de incertezas que dificultou a retomada dos investimentos e continua a provocar o alargamento dos desníveis sociais, com consequências imprevisíveis no futuro.
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1. estagnação económica e redução da renda por habitante. frustrando os intentos de colocar o país na trajectória do progresso e da modernidade: a dívida externa. Embora variem os graus de relevância destes três factores. quando o fluxo de financiamento externo líquido cessou em 1982. problemas crescentes com a gestão das dívidas externas. através dos chamados choques económicos heterodoxos. na maioria destes países porém. através do investimento directo do Estado ou do investimento privado subsidiado.A partir de 1979. com alguns conseguindo taxas de crescimento razoáveis e uma relativa estabilidade de preços. emerge uma questão política básica. as elevadas taxas de inflação e uma profunda crise do Estado. para logo a seguir voltar de uma forma geral a níveis iguais ou superiores aos anteriormente estabelecidos. na tentativa vã de retornar a níveis de crescimento e de controlo inflacionário que permitissem a recuperação económica do país. o Brasil perdeu o controlo do seu destino. analisar as causas que provocaram a profunda crise brasileira da década de oitenta. crise que aliás se estenderia a praticamente toda a América Latina. só foi parcialmente interrompida em períodos de congelamentos de preços. Este trabalho procura assim. o que verificou foi a manutenção prolongada de elevadas taxas de inflação. Três factores contribuíram decisivamente para isso. que é a de que nos anos oitenta. 2 . entrou em crise. bem como as consequências das sucessivas medidas económicas e planos de estabilização tentados pelos sucessivos governos. naquela que é considerada pelos latino-americanos como a “década perdida”. o padrão de crescimento baseado no financiamento externo ou estatal. A crescente espiral inflacionária vivida na maior parte destes países. em razão da crise nacional que se segue. Assim é que. Introdução Ainda que durante a década de oitenta o desempenho económico dos diferentes países latino-americanos não tivesse sido uniforme. que tinha prevalecido durante a década de 70. eles estiveram sempre presentes na conjuntura da crise.

6% no final da década e a taxa de investimento em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) caiu de 24. in Bresser.0 100.157. Os dados contidos na Tabela 1.2 1.TABELA 1: A CRISE NA AMÉRICA LATINA. reduziu-se em 8. ALGUMAS VARIÁVEIS MACROECONÓMICAS NOS ANOS 80 Variações percentuais % Crescimento do PIB (índice) Crescimento do PIB per-capita (índice) Investimento/PIB Inflação Dívida/ Exportações 1980 100.1 1985 103. A renda por habitante na América Latina.2 16.C. procurando detectar as causas da crise e orientar os governos para que estes implementassem as reformas necessárias. inclusive a brasileira. são elucidativos do tamanho da crise latino-americana. excesso de intervenção estatal na economia e uma crise fiscal profunda do Estado que lhe retirou toda a capacidade de poupança e praticamente o imobilizou.2 1. Durante os anos setenta.9% no início dos anos 80. De qualquer forma não há como negar que a grave crise que se abate sobre as economias latino-americanas.9 2.2 Fonte: CEPAL (Comissão Económica para a América Latina das Nações Unidas.3% no período de 1980 a 1989.5 92.1 91.3 274. altas taxas de inflação. Os economistas brasileiros dividem-se quanto ao grau de importância a conceder às principais causas da crise. subiu para 1157. Santiago. não foi diferente. a abundância d e recursos em poder dos bancos internacionais viabilizou o crescente endividamento dos países da América Latina. o maior e mais rico país da América Latina. mas são praticamente unânimes quanto a elas: A dívida externa excessiva.7 3.5 1989 113. Estes dados claramente negativos. está intimamente relacionada com o grande processo de endividamento externo. que 3 .7 16. L. No caso do Brasil. enquanto a inflação que era em média de 54.0 24. "A C RISE DO E STADO: E NSAIOS SOBRE A CRISE BRASILEIRA ".6 3.2 54. levaram vários economistas a formularem diferentes teorias para o caos económico que se instalou no continente Latino-Americano.2 para 16. Chile).

É possível observar que à excepção da proposta para os salários. sempre foi o arrocho salarial. adoptando políticas económicas ortodoxas com o objectivo de aumentar as exportações. deverá aumentar. reduzir as importações e combater a inflação já então em níveis bastante acentuados. Assim.ultrapassou em 1982 os US$ 300 bilhões. • liberalizar a taxa de juros. • reduzir e controlar a quantidade de moeda em circulação. a redução da quantidade de moeda em circulação e a elevação da taxa de juros (que leva tecnicamente à redução dos investimentos) têm como consequência reduzir a procura agregada e provocar a recessão (aumentando as taxas de desemprego e diminuindo os níveis de produção). Se a inflação e o desequilíbrio externo decorrem das distorções do mercado e do excesso de procura agregada. os bancos credores mostravam já sinais de preocupação e impaciência. Diagnosticar este tipo de política económica não é difícil. uma 4 . • reduzir os salários dos sectores público e privado. Como consequência. há que corrigir essas distorções eliminando todo e qualquer controlo de preços e procurando reduzir a procura agregada. todas as demais são liberalizantes. estavam geralmente contidas nas recomendações do Fundo Monetário Internacional (FMI) e consistiam basicamente em: • reduzir as despesas do Estado e equilibrar o orçamento público. adoptado em nome do combate à inflação. ao pressionarem os devedores com a recusa da concessão de novos empréstimos. No entanto. como a inflação e o desequilíbrio externo. a redução das despesas do Estado. • eliminar todos os subsídios. • liberalizar (geralmente desvalorizar) a taxa de câmbio. As políticas económicas ortodoxas. deixando-lhes clara a necessidade de se ajustarem. em função dos desequilíbrios mais comuns destas economias. que dada a redução da oferta monetária. • liberalizar os preços de quaisquer tabelamentos. Aliás. desde 1979. uma constante das propostas ortodoxas de política económica. provocando uma recessão na economia. a inflação cairia.

0 11.1 -2.4 12.8 1.139 95.6 3.6 9.5 -0.7 11.623 120.6 102.3 1.4 -5.6 5.2 7.9 -0.8 9.7 9.8 81.6 2.2 5.0 95.0 0.7 92.2 115.2 5.818 100.4 43.TABELA 2: BRASIL.5 4.9 7.640 128.0 67.5 4.0 8.3 -1.0 1.9 5.6 -2.0 -8.1 6.8 9.450 97.891 110.1 1.646 138.7 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 10.0 6.6 2.568 113.0 0.256 125.7 7.0 8.0 15.8 -0.0 73.3 5.5 96.7 48.8 11.6 100.547 133.918 123.9 0.1 3.3 11.0 11.1 102.6 -0.4 77.1 6.6 5.7 3.0 -5.070 130.4 2.9 -6.4 113.0 95.3 2.6 2.0 -0.4 95.4 8.1 70.731 105.122 118.2 11.4 6.5 -3.6 54.7 100.9 14.3 7.4 10.2 6.2 10.8 9.8 6.6 3.2 4.8 2.3 11.5 5.3 -6.2 3.6 87.0 93. TAXAS REAIS DE VARIAÇÃO ANUAL DO PIB E DO PIB PER CAPITA 1970 / 1990 Taxas Reais de Variação Anual do PIB Anos Agropecuária Industria Serviços Total Índice PIB Real População 1980=100 (Mil) PIB Per Capita Taxa Real Índice Real de Variação 1980=100 55.6 8.5 8.6 1.1 92.8 4.6 105.944 143.2 12.270 140.8 93.8 93.4 117.9 5.6 8.5 79.4 66.4 117.5 0.7 4.7 91.9 -3.8 14.072 135.6 89.6 90.311 116.670 Fonte: Fundação Instítuto Brasileiro de Geografia e Estatística (FIBGE) 5 .2 -8.1 -2.6 2.5 85.3 3.2 60.4 62.6 10.3 3.3 6.2 17.2 -4.3 4.3 -4.3 121.0 6.280 107.9 -8.4 15.5 100.9 11.7 101.244 102.7 97.7 85.6 77.0 -2.4 87.

que se considera ter sido a mais grave desde a Grande Depressão de 1930. 6 . a queda do consumo faria com que sobrassem mais mercadorias para serem exportadas. uma vez que no ano de 1979. a queda no investimento implicaria numa menor procura por bens importados. Aqueles choques externos só poderiam ter sido compensados com uma aceleração do endividamento externo. captados durante a década de 70. ocorreram três choques externos que viriam a causar graves problemas aos países latino-americanos. E finalmente a recessão norte americana reduzia as exportações latino-americanas para aquele país. o que a esta altura e frente ao elevado grau de endividamento dos anos 70.vez que por definição é considerada como sendo causada por um excesso de procura. De um lado. Aumentadas as exportações e reduzidas as importações. em virtude das desconfianças quanto à s egurança dos seus empréstimos. De outro. que aumentou de forma significativa o total dos juros pagos pelos países devedores e finalmente a recessão norte -americana de 79/82. decorrentes do grande volume de financiamentos externos. que triplicou os seus preços. 2. O aumento da taxa de juros elevava os pagamentos anuais de juros. No entanto este tipo de política económica. a balança comercial tornar-se-ia superavitária e o balanço de pagamentos tenderia a equilibrar-se. era impensável. a elevação brusca das taxas de juros internacionais. claramente o seu principal parceiro comercial. A triplicação dos preços de petróleo aumentava sensivelmente o valor das importações da maioria dos países latino-americanos (excepto o México e o Equador) e particularmente do Brasil. O Caso Brasileiro O Brasil tentou aplicar esta política económica ortodoxa em diversas ocasiões. começou a ser sugerido pelos credores externos. A pressão destes três factores foi contundente. com mais efeitos negativos do que práticos. Estes três choques foram o segundo choque do petróleo. A redução da procura interna teria um efeito duplo sobre as contas externas. levando a América Latina na década de 80 à maior recessão de toda a sua história.

mudaram os preços relativos. Há estudos mostrando ter havido uma queda nos salários reais da América Latina em 10% no mesmo período2. de importadores de capital nos anos setenta. a que os economistas chamaram a década perdida. a par dos demais países da América Latina viu assim iniciar-se a década de oitenta. O Brasil. para pagar os juros da enorme dívida externa. E a inflação que por exemplo. sobretudo após a moratória do México em 1982. Outra grave consequência foi que os países latino-americanos. reduzindo importações e aumentando exportações era inevitável. a uma redução de 8. penalizando os salários e favorecendo o lucro dos exportadores. passaram a exportadores líquidos de capital nos anos oitenta. os países latino-americanos tivessem podido e querido unir-se e usar o seu poder de negociação para fazer face à questão da dívida. um processo de ajustamento capaz de equilibrar a balança comercial. havia sido no Brasil de 93. era provável que tivessem obtido reduções nas taxas de juros e financiamentos adicionais. Esta pressão contava com o apoio dos seus respectivos países e também do Fundo Monetário Internacional. subiu em 1984 para 239%. que permitissem um ajustamento mais suave e gradual. cerca de 5% do PIB.5% em 1981. tendo esta alta sido extensiva à generalidade dos demais países latino-americanos. Se nesta fase. E o ajustamento acabou realizando-se nos termos determinados pelos bancos credores e por este organismo.Dado o desequilíbrio externo. Foi um ajustamento realmente drástico. que levou o PIB per capita da América Latina. Só na primeira metade da década.9% entre os anos de 198l e 1984. uma vez que as desvalorizações reais das moedas locais (as chamadas maxidesvalorizações) necessárias para estimular as exportações e conter as importações. como um período que viria a ser pródigo numa série de tentativas ortodoxas de estabilização na primeira metade da década e 7 . Os maiores prejudicados foram os trabalhadores. expresso por elevados défices na conta corrente do balanço de pagamentos e frente à decisão dos bancos internacionais de não continuarem a financiar esse défice com o aumento do endividamento e xterno. Os bancos credores aumentaram a pressão. passou a ser enviado directamente para o exterior. Mas isso efectivamente não aconteceu.

0 6.1 0.2 5.1 21.1 8.8 2.1 23.8 40.2 3.5 25.8 15.2 99.5 34.9 16. Julho de 1993.5 18.5 5.5 5.3 4.5 23.1 27.6 9.2 475.3 23.7 15.9 14.2 10.5 19.8 9.7 27.4 17.1 4.2 23.8 21.6 1.3 5. VARIÁVEIS MACROECONÓMICAS INTERNAS (%).9 7.5 29.2 -1.3 -0.2 22.0 17.3 11.4 23.4 2.6 -2.5 17.2 31.6 -0. Editado pelo Departamento Económico do Banco Central do Brasil.585.3 3.3 21.0 8.5 0.4 2. Volume 29 .0 23.3 -0.6 1.3 38.2 11.7 15.6 2.8 0.1 239.0 25.1 25.0 209.7 93.7 5. Brasil .7 24. Boletim do Banco Central do Brasil.3 3.1 58.6 1.1 3.2 6. 1970 / 1991 Anos PIB Investim.1 21.3 -1.7 26.6 3.3 Fonte: FIBGE/Banco Central do Brasil: A.7 18.0 6.1 -2.2 0.5 4.3 -6.3 5.2 22.6 2.3 1. Inflação %/Anual / PIB IGP/IPC PIB Per Capita % Anual Poupança (% PIB) Total Externa 1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 8.TABELA 3: BRASIL.6 2.9 -6.4 46.5 26.0 1.4 13.0 2.6 2.0 19.9 5.3 178.Dezembro de 1992.3 11.0 26.9 19.9 5.5 22.0 20.8 3.2 5.3 7.9 25.8 19.8 77.3 -4.4 23.6 16.7 7.2 16.2 16.7 24.5 26.4 -5.5 -1.2 17.6 396.nº 1.0 24. 8 .0 994.3 4. B.2 -4.Programa Económico nº 35 .2 30.4 0.5 -3.5 100.863.

não pode ser considerada acidental e está 9 . mas veremos que a exemplo das receitas ortodoxas do FMI. retirando-lhe o grande papel de principal promotor do desenvolvimento. levando a economia a uma espiral inflacionária que provocou uma queda dos níveis de poupança do sector público. quando o desenvolvimento da cultura de café permitiu superar a crise que se arrastava desde meados do século anterior. quando a sua taxa histórica de crescimento tinha sido de aproximadamente 7% ao ano desde os anos 40. é resultado de um amplo conjunto de causas entre as quais. com consequências imprevisíveis no futuro. é menor em 1990 do que no começo da década. baseado fundamentalmente na intervenção generalizada do Estado na economia. A renda por habitante. de uma longa história de crescimento que caracterizava o Brasil. é no seu aspecto financeiro que a crise se torna mais aguda. que nos oito anos anteriores 1973/1980 crescera 52. Isto permite-nos constatar que foram cento e cinquenta anos de extraordinário crescimento. Estes planos económicos de estabilização heterodoxos tiveram a sua máxima expressão em países como a Argentina e o Brasil. esgotamento esse assente na crise do Estado brasileiro que diminuiu sensivelmente a sua capacidade de investimento. mas a partir de 1981. a economia brasileira entra num longo período de estagnação que se arrasta por toda a década. o peso insustentável da dívida externa. A interrupção na década de 80. quando se esgotara o ciclo do ouro. No entanto. a economia brasileira não parou de crescer desde aproximadamente os anos 40 do século XIX. a quase hiperinflação e a profunda crise fiscal do Estado. Essa redução da taxa de crescimento da economia brasileira para uma média praticamente constante ao crescimento da população durante a década. Na história do seu desenvolvimento capitalista. foram incapazes de resolver os problemas básicos que afligiam estas economias: a enorme dívida externa e interna.7%. o imobilismo gerado por uma excessiva protecção à indústria nacional. o fracasso dos programas de estabilização no combate à inflação e o esgotamento de um modelo de desenvolvimento.heterodoxas na segunda. criando um ambiente de incertezas que dificultou a retomada dos investimentos e continua a provocar o alargamento dos desníveis sociais.

Esta taxa que tinha sido de 23% em média nos anos 70. A redução da taxa de poupança está claramente relacionada com o declínio da poupança externa. enquanto o investimento estatal se ficava em torno dos 27%. De um valor máximo de 31. Observando esta tabela é possível examinar comparativamente o padrão de financiamento dos investimentos na década de setenta e na década de oitenta. nomeadamente subsídios para exportação.3% para menos de 1%. Em 1974. para 18. às vésperas do pr imeiro choque económico heterodoxo. uma vez que além de investir directamente ou através das empresas estatais.75 do PIB em 1975.9% em 1990. crédito subsidiado. cujos sintomas básicos são a estagnação da renda por habitante e a drástica redução da poupança e investimento do país. através de uma forte redução dos investimentos públicos que eram em 1985 de zero.4% em 1984.2% de 1975.4% a partir de 19813. o total da poupança caiu para 16. apesar dos investimentos privados se terem mantido praticamente ao mesmo nível. recuperando-se posteriormente para o nível de 21. Na verdade e durante este período. Os investimentos caíram de 31. mas durante os anos setenta. contrastando com os 8. No Brasil.5% em 1990. mas com uma participação externa insignificante. Enquanto a taxa de crescimento do produto flutuou acentuadamente. o processo de financiamento dos investimentos seguiu o padrão clássico dos primeiros estágios de desenvolvimento. as taxas de poupança e investimento declinaram significativamente. chegando a ser negativa em alguns períodos. o investimento externo rondava os 22% do investimento total. o que significava 42% do total e que caiu para zero em 1985. durante a década de 1970. subsídios fiscais para sectores industriais e regiões e preços artificialmente baixos 10 . A crise brasileira configurava-se como uma crise estrutural. e sobretudo com o da poupança do Estado.7% do PIB em 1975. Não há dados exactos sobre o montante desses subsídios. baixou para 17. que era de aproximadamente 10% no início dos anos setenta. É necessário porém admitir que o investimento estatal foi superior a este valor. a poupança externa declinou de 5. como se pode observar na tabela 3. o Estado subsidiou fortemente o investimento privado.intimamente ligada à queda do investimento no país. havia subsídios para uma série de actividades. em que o investimento total era função do endividamento externo e do investimento estatal.

5% em 83) foi devida a um esforço de ajustamento imposto pela crise da dívida e pelos choques externos já citados. ao mesmo tempo em que a inflação chegava aos 50% mensais no final do ano. o Brasil perdeu o controlo do seu destino. em razão da crise nacional. de 3. esse padrão baseado no financiamento externo ou estatal. Três factores contribuíram decisivamente para isso. Em 1989. entre 1981 e 1983. emerge uma questão política básica. inferior ao de 1980.5% em 82 e -3. mas em 1987.4%. Embora variem os graus de relevância destes três factores. Assim é que. eles têm estado sempre presentes na conjuntura da crise. quando o fluxo de financiamento externo líquido cessou em 1982. as elevadas taxas de inflação e uma profunda crise do Estado. Na verdade a estagnação e as altas taxas de inflação são assim as principais características da economia brasileira nos anos oitenta. frustrando os intentos de colocar o país na trajectória de progresso e modernidade: a dívida externa. a crise volta a instalar-se na economia brasileira. A crise da economia brasileira na década de oitenta pode ser explicada por várias causas. Num primeiro momento. o denominado Plano Cruzado. sobretudo os preços do aço e da energia eléctrica. a economia volta a apresentar um crescimento positivo embora modesto. viu este ciclo de crescimento interrompido em 1981. ou seja. a economia volta a apresentar uma taxa negativa de crescimento do PIB em torno aos 4. a crise parecia estar sendo superada.5% em 81. uma taxa de inflação que se poderia inserir num processo hiperinflacionário. Está de facto bem clara a sua relação com a dívida externa e com a crise fiscal do Estado que se desenvolveu a partir desta dívida e que levou a economia a um prolongado processo de estagnação. 0. que é a de que nos anos oitenta. um ano após a implementação do primeiro choque económico heterodoxo.1% em 1988. Entre 1984 e 1986.de bens e serviços produzidos pelas empresas estatais. 11 . com a constatação de que o PIB per capita era em 1990. entrou em crise. com investimento directo do Estado ou com investimento privado subsidiado que prevaleceu durante a década de setenta. Em 1990. Porém a partir de 1979.3%. O País que vinha ao longo de quase um século crescendo a ta xas elevadas. a diminuição do ritmo de crescimento do PIB (4. com o PIB tendo uma taxa de crescimento negativa de 0.

GRÁFICO 1. EVOLUÇÃO DAS TAXAS REAIS DE VARIAÇÃO ANUAL DO PIB E DO PIB PER CAPITA. BRASIL. 1970 / 1990 ( 1980 = 100 ) 140 120 100 80 60 40 20 0 P I B R e a l PIB Per Capita Real 140 120 100 80 60 40 20 0 1970 1972 1974 1976 1978 1980 1982 1984 1986 1988 1990 P I B R e a l PIB Per Capita Real 12 .

uma nova política salarial e o aumento de alguns preços dos bens públicos. o que levou um grupo de economistas brasileiros. à medida que agiu ag ravando directa ou indirectamente o conflito distributivo. mas é o conflito distributivo. mantendo-se em torno aos 100% até 1982 e coincidindo com a crise da dívida. Por sua vez. que caracteriza uma economia em que a renda é fortemente concentrada.A aceleração da inflação durante este período. a inflação sofre uma nova aceleração para perto dos 200%. afasta os investimentos e diminui a produtividade do capital. A dívida externa. um congelamento geral de preços. que como veremos tinham sido mantidos artificialmente baixos no período 74/78. de Fevereiro de 1986 foi o resultado dessa proposição teórica. a taxa anual média de inflação no Brasil foi de 40%. O Plano Cruzado. quando se alcançou o equilíbrio na conta corrente. Entre 84 e 86. que se iniciara em 1979. As principais causas para a subida da inflação nesse período foram uma maxi-desvalorização do cruzeiro em 1979. acreditou-se que a crise da dívida estava a ser superada e que o défice orçamentário estava sobre controlo. Nos anos setenta. a formular a teoria da inflação inercial e a propor como solução. pelo que a única causa visível dos problemas do país era a inflação. a causa fundamental dessa inflação e da sua aceleração. mas sim à administração populista que se lhe imprimiu. está fortemente associada à crise fiscal e à dívida externa. As recessões profundas de 1981 e 1983. mantendo-se nesse nível até 1985. fruto de uma nova maxi-desvalorização do cruzeiro. com o segundo choque do petróleo e a subida dos juros internacionais. o que viria a ser chamado de choque heterodoxo. Esse plano assim como o Plano Bresser (Junho de 87) e o Plano Verão (Janeiro de 89). foram pois incapazes de controlar a inflação. Em 1983. teve um papel importante como factor alimentador da inflação. 13 . associada a um aumento significativo dos preços agrícolas. a inflação agrava o défice público. o aumento das taxas de juros internas. foram incapazes de eliminar a inflação. O fracasso desse plano atribuiu-se não à concepção original do plano. Em 1979 essa taxa sobe para 77%.

EVOLUÇÃO DAS TAXAS DE VARIAÇÃO ANUAL DO PIB. INFLAÇÃO E TAXA REAL DO PIB PER CAPITA. 1990 1980 = 100 5 % PIB Per Capita 80 14 . nem se praticou uma política monetária rígida que garantisse taxas de juros positivas. BRASIL. baseados na mais importante contribuição dos economistas latino-americanos à teoria económica. a teoria da inflação inercial. fracassam devido fundamentalmente à incapacidade do governo de conter a procura agregada. devido também à recusa do governo em corrigir os preços relativos que estavam distorcidos à época dos choques e devido ainda e sobretudo. 1970/1990 (1980 = 100) 1 5 1 2 0 1 0 1 0 0 Crescimennto 60 0 40 -5 20 -10 0 1970 1972 1974 1976 1978 1980 1982 1984 1986 1988 Média de crescimento do PIB PIB Per Capita Taxas Anuais de Crescimento do PIB Estes planos. à cont inuidade de uma dívida externa extremamente elevada e à incompatibilidade desta com a estabilidade dos preços internos.GRÁFICO 2. na medida em que não se conseguiu reduzir o défice público.

a teoria da inflação inercial. nº1. "DISTRIIBUIÇÃO DE RENDA NO BRASIL ". nem se praticou uma política monetária rígida que garantisse taxas de juros positivas. só podendo ser eliminada através da redução da dívida pública interna e a eliminação do défice orçamentário. 1991 15 . na medida em que não se conseguiu reduzir o défice público. na aula magna do XVIII Encontro Nacional de Economia da ANPEC (Associação Nacional de Centros de Pós-Graduação em Economia). As razões para que somente um congelamento de preços combinado com tímidas medidas de política fiscal e monetária é incapaz de controlar a inflação. Sem estas medidas. devido também à recusa do governo em corrigir os preços relativos que estavam distorcidos à época dos choques e devido ainda e sobretudo. Abril de 1991. que por sua vez condiciona a acção do Estado. baseados na mais importante contribuição dos economistas latino-americanos à teoria económica. para de uma vez por todas eliminar definitivamente a crise instalada de uma forma visível e intensa na economia brasileira. Edit. é que é necessário encontrar uma solução definitiva para a crise da dívida externa. Rio de Janeiro. v. à continuidade de uma dívida externa extremamente elevada e à incompatibilidade desta com a estabilidade dos preços internos.M. Paz e Terra. J.21. NOTAS 1 Dados apresentados por Luiz C. sobretudo a partir do final dos anos setenta. a inflação não cede e estamos assim. Bresser. fracassam devido fundamentalmente à incapacidade do governo de conter a procura agregada. perante um círculo vicioso cuja corrente é necessário quebrar. através de uma evidente crise fiscal.Estes planos. 2 Camargo. em Brasília a 4 de Dezembro de 1990 e posteriormente publicados na revista "PESQUISA E PLANEJAMENTO ECONÓMICO".

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