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Princípio constitucional da dignidade da pessoa humana

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Princípio constitucional da dignidade da pessoa humana

Atualizado em 03.2001.

Fernando Ferreira dos Santos
promotor de Justiça no Piauí, mestre em Direito Público pela UFC

1- Introdução Assente é, na moderna doutrina constitucional, que a Constituição é uma norma jurídica e não uma norma qualquer, mas a primeira entre todas, lex superior, que, em virtude de sua supremacia, erige-se como parâmetro de validez das demais normas jurídicas do sistema, inexistindo, portanto, como já asseverava Rui Barbosa, cláusulas ociosas, com mero valor de conselhos, avisos ou lições. O presente trabalho busca, assim, contribuir para uma reflexão em torno das seguintes perguntas: Qual o sentido e a função da expressão dignidade da pessoa humana? Qual o seu alcance? Que significa dizer-se, como está inscrito no inciso III, art. 1º, da Constituição Federal, que o Brasil é uma República Federativa que tem com fundamento a dignidade da pessoa humana?

2- Origem e desenvolvimento do conceito de Dignidade da Pessoa Humana Não há, nos povos antigos, o conceito de pessoa tal como o conhecemos hoje. O homem para a filosofia grega, era um animal político ou social, como em Aristóteles, cujo ser era a cidadania, o fato de pertencer ao Estado, que estava em íntima conexão com o Cosmos, com a natureza, como ensina Jaeger(1). Zeller, citado por Batista Mondin, chega a afirmar que "na filosofia antiga falta até mesmo o termo para exprimir a personalidade"(2), já que o termo "persona" deriva do latim. O conceito de pessoa, como categoria espiritual, como subjetividade, que possui valor em si mesmo, como ser de fins absolutos, e que, em conseqüência, é possuidor de direitos subjetivos ou direitos fundamentais e possui dignidade, surge com o Cristianismo, com a chamada filosofia patrística, sendo depois desenvolvida pelos escolásticos. A proclamação do valor distinto da pessoa humana terá como conseqüência lógica a afirmação de direitos específicos de cada homem, o reconhecimento de que, na vida social, ele, homem, não se confunde com a vida do Estado, além de provocar um "deslocamento do Direito do plano do Estado para o plano do indivíduo, em busca do necessário equilíbrio

a razão se libertará da autoalienação na teoria. assim. "Neste sentido . Caracteriza-se o individualismo pelo entendimento de que cada homem. pois.(6) Para Kant. pois isso significaria submeter o homem a outro homem. são estes que giram em redor daquele. tem valor absoluto. é que ele nunca pode ser meio para os outros. o homem é um fim em si mesmo e. mas fim em si mesmo. o sujeito transcendental. em que tudo o mais tem significação relativa. Concepções do conceito de dignidade da pessoa humana Utilizando-nos da terminologia empregada por Miguel Reale. justamente por isso tem dignidade. O que significa não procurar as normas do agir humano na experiência. em vez de o sujeito cognoscente girar em torno dos objetos.diz Manfredo A. por isso. o sujeito torna-se o elemento decisivo na elaboração do conhecimento. é pessoa. Seu ponto de . não podendo. por conseguinte. que faz da pessoa um ser de dignidade própria. e o faz dotado de dignidade especial. o sujeito kantiano. protege e realiza. como comenta Georges Pascal. assim. porquanto. a existência de. de uma hipótese idealista à hipótese realista(4). para Kant. 1. é "uma estrutura vazia". Só através da práxis. ser usado como instrumento para algo. "Só o homem não existe em função de outro e por isso pode levantar a pretensão de ser respeitado como algo que tem sentido em si mesmo". basicamente. de uma substituição. E o que caracteriza o ser humano. e. a dimensão da autoalienação da razão"(5). a razão universal. uma mudança de método no ato de conhecer. Ou seja. a razão está a serviço de si mesma. na sua investigação sobre o verdadeiro núcleo da teoria do conhecimento. portanto. de Oliveira -. Trata-se. cuidando dos seus interesses. nada pode conhecer. constatamos. no domínio da prática. Porém. pois. separada da sensibilidade. historicamente. ao reino dos fins. transpersonalismo e personalismo. em teoria de conhecimento.entre a liberdade e a autoridade"(3). de que o nosso conhecimento deve amoldar-se aos objetos. Pertencemos. Para Immanuel Kant. três concepções da dignidade da pessoa humana(7): individualismo. que ele mesmo denomina "revolução copernicana". os interesses coletivos. e o constitui como ser livre. Propôs ele. a razão prática possui primazia sobre a razão teórica. dependente da sensibilidade. pois. que. 2. pode-se dizer que a teoria é. A moralidade significa a libertação do homem. mas que estes devem ajustar-se ao nosso conhecimento. indiretamente. pela práxis. Não se trata mais. Para Kant. O pensamento humano é. a consciência enquanto tal.

São direitos contra o Estado. aqueles nada mais são que os direitos do homem separado do homem e da comunidade. se abster. seja a subordinação daquele aos interesses da coletividade. a dignidade da pessoa humana realiza-se no coletivo. em sua arbitrariedade privada e dissociado da comunidade"(15). resultando.partida é. para Marx. Distinguindo os direitos dos homens dos direitos do cidadão. direitos de autonomia e direitos de defesa(11). Ademais. que ora se denomina personalismo. de se intrometer na vida social. compreende um modo de entender-se os direitos fundamentais. interpretar-seá a lei com o fim de salvaguardar a autonomia do indivíduo. Assim. portanto. inexistindo harmonia espontânea entre o bem do indivíduo e o bem do todo. Consectárias desta corrente serão as concepções socialista ou coletivista. ainda. a fortiori. da Constituição. a pessoa humana como valor supremo(14). Enfim. que tende a identificar os interesses individuais com os da sociedade. do indivíduo voltado para si mesmo. num balizamento da compreensão e interpretação do Direito e. do homem como membro da sociedade burguesa. direitos inatos e anteriores ao Estado. Com efeito. portanto. sempre. Nega-se. numa preponderância do indivíduo sobre a sociedade. os valores coletivos. para seu interesse particular. num conflito indivíduo versus Estado. característico do liberalismo ou do "individualismo-burguês"(8). preservando-o das interferências do Poder Público. que privilegia estes em detrimento daqueles. "como esferas de autonomia a preservar da intervenção do Estado"(10). rejeita quer a concepção individualista. Estes serão. "dista de ser una respetable reliquia de la arqueologia cultural"(9). o quanto possível. temos o contrário: é realizando o bem coletivo. que se salvaguardam os interesses individuais. que deve. sem dúvida. nega seja a existência da harmonia espontânea entre indivíduo e sociedade. Conseqüência lógica será uma tendência na interpretação do Direito que limita a liberdade em favor da igualdade(16). Tal juízo da dignidade da pessoa humana. isto é. do qual a mais representativa será. os direitos do homem apregoados pelo liberalismo não ultrapassam "o egoísmo do homem. o bem do todo. por demais limitado. pois. a marxista. . o indivíduo. privilegiase aquele. Redunda. A terceira corrente. devem preponderar. antes de tudo. por isso. como advertem Reale(12) e Canotilho(13). Já com o transpersonalismo. Denominam-se-lhes. e impostos como limites à atividade estatal. quer a coletivista. como vimos.

Assim. princípios positivos. é absoluto. de igual positividade. Em O Conceito de Direito. sacrificar. em sentido amplo . em que se busca.Os princípios como espécie de norma Estabelecido que a pessoa  distinta do indivíduo  é um valor e o seu princípio correspondente  a dignidade da pessoa humana  é absoluto. e há de prevalecer sempre sobre qualquer outro valor ou princípio. impõe-se. um minimun. é a distinção entre indivíduo e pessoa(17). Se ali. numa palavra. portanto. se se defende. que "não há no mundo valor que supere ao da pessoa humana"(20). uma forma do mais alto gênero. São. enquanto valor. Ele mesmo. Neste sentido. e o princípio correspondente. igualmente. "fruto de uma ponderação na qual se avaliará o que toca ao indivíduo e o que cabe ao todo"(19). principalmente. nunca. enquanto o indivíduo é uma "unità chiusa in se stessa". Como uma pedra-de-edifício no todo. como sintetiza Nicolai Hartimann. não obstante. como Lacambra. Porém. e há de prevalecer.(18). o homem abstrato. de acordo com as circunstâncias. não há que se falar. num predomínio do indivíduo ou no predomínio do todo. 3. ser a preeminência de um ou de outro valor. destaca-se que ele "não é apenas uma parte. que se precise o conceito de princípio. na busca sobre a natureza do Direito. a interrelação entre os valores individuais e valores coletivos. lógica e qualitativamente. sobre qualquer outro valor ou princípio(22). A solução há de ser buscada em cada caso. citado por Mata-Machado. solução que pode ser a compatibilização entre os mencionados valores. lançado em 1961. aqui. ser. dotados. princípios expressos constitucionalmente. há certas questões principais recorrentes: uma delas refere-se a que o sistema jurídico consiste pelo menos em geral em regras. ao qual o Estado. das regras. diferentes.Marcante nesta teoria. defende-se que a pessoa humana. exalta-se o individualismo. valor não pode ultrapassar(21). aprioristicamente. ele é. ferir o valor da pessoa. a compatibilização. agora. ou qualquer outra instituição. a pessoa é uma "unità aperta". Em conseqüência. sempre. assim. uma pessoa. típico do liberalismoburguês. Herbert Hart. Alinhamo-nos entre aqueles — contrariamente ao pensamento dominante ainda no Brasil — que propugnam serem os princípios espécies de norma.o que uma unidade coletiva jamais pode ser". de que aqui se trata. a primazia pelo valor coletivo não pode. mas que pode. constrói um modelo . A pessoa é. pois. ensina que.

Para tanto. inexistindo. . como lembra Vera Karam de Chueri que "o texto constitucional  não importa se brasileiro ou americano  faz com que a validade de um direito dependa não de uma determinada regra positiva. impedindo. de forma alguma. num caso concreto. Regra que. enquanto padrão de comportamento. distinguem-se as regras primárias e as regras secundárias.complexo. Em vez de se falar nela como predição ou cálculo de probabilidades. em que se supera a antinomia clássica Direito Natural/Direito Positivo(29). sobretudo. quando os juristas debatem e decidem em termos de direitos e obrigações jurídicas. Dworkin monstra que. foi violada uma regra primária(25). c) de julgamento ou de adjudicação (rule of adjudication). assim. que é. estas asseguram às pessoas a possibilidade de criar. ele remete-o necessariamente a uma regra. mas de complexos problemas morais"(28). mas trabalham com princípios. Por sua vez. "a chave para a ciência do direito"(23). permitem definir quais as regras que pertencem ao ordenamento. em seus escritos(26). as regras secundárias são de três tipos: a) de reconhecimento (rule of recognition). o jusfilósofo norteamericano Ronald Dworkin. O direito é. extinguir. Assim. Princípios (principles) são. para ele um sistema de regras e princípios. política e outros gêneros de standards. por conseguinte. o Direito como a união entre regras primárias e regras secundárias. Seu objetivo é eliminar as incertezas quanto às regras primárias. fundamentalmente. por conseguinte. a dicotomia entre questões de direito e questões de justiça. assim. eles utilizam standards que não funcionam como regras. de eqüidade ou de qualquer outra dimensão da moral. necessidade de assinalar os diferentes tipos. de caráter lógico. b) de alteração (rules of change). modificar. uma idéia simples. dão poder aos indivíduos para proferir determinações dotadas de autoridade respeitantes à questão sobre se. valer-se-á. Por sua vez. Nas palavras de Hart: "As regras do primeiro tipo impõem deveres. Deste conceito decorre. que conferem poder a um indivíduo ou a um corpo de indivíduos para introduzir novas regras primárias e eliminar as antigas. mostrar as insuficiências seja do positivismo seja do utilitarismo(27). Há. sucessor de Herbert Hart na cattedra de Jurisprudence na Universidade de Oxford. as regras do segundo tipo atribuem poderes. nos chamados casos-limites ou hard cases. que sejam estáticas. segundo este autor. da diferença. Reformulando o conceito de obrigação. público ou privado"(24). devese dizer que a atitude de uma pessoa enquadra-se em tal regra. de reação ao desvio. pois. exigências de justiça. entre princípio e regra. objetiva. Aquelas determinam que as pessoas façam ou se abstenham de fazer certas ações. julgar as regras primárias. "um guia de conduta da vida social" não é.

cuja diferença é de caráter lógico. deve-se aceitar a conseqüência que ela fornece. as regras. da especialidade  lex specialis derogat generali(32). Desta primeira diferença decorre uma outra: os princípios possuem uma dimensão de peso ou de importância que as regras não têm. estabelece uma razão (fundamento) que impele o intérprete numa direção. As regras não possuem esta dimensão. está fora do jogo. não prevaleça.. que "se se dá um fato F qualquer. pois. com Lourival Vilanova. Quem deve decidir um problema. mas que não reclama uma decisão específica.Afirmar que os juristas empregam princípios e não regras é admitir que são duas espécies de norma. Daí acontecer que um princípio. se duas regras colidem. não influi sobre a decisão. diferem pelo cunho da orientação que sugerem. em tal caso. numa determinada situação. dentro do sistema da civil law. e frente a outro princípio. O pensamento de Ronald Dworkin é retomado. Assim. Ao revés. Num jogo de basquete. indicam conseqüências jurídicas que se seguem automaticamente quando ocorrem as condições previstas. são aplicáveis na forma do tudo ou nada. considerando o modelo do jusfilósofo . no sentido de que. Em conseqüência. que deixe de pertencer ao sistema jurídico. ou a regra é inválida e. então uma delas não pode ser válida. Se se dão os fatos por ela estabelecidos. Embora orientem para decisões específicas sobre questões de obrigações jurídicas. as regras. Por conseguinte. única. se duas regras colidem. mais que identificar um princípio válido. Assim. ao contrário dos princípios. então o sujeito S deve fazer ou deve omitir ou pode fazer ou pode omitir conduta C ante outro sujeito S"(30). em que se requer a valoração de todos os princípios concorrentes e controversos que ele traz consigo. então ou a regra é válida e. citado por Grau. que são resolvidas pelos critérios: cronológico  lex posterior derogat priori. Dizemos. Quando os princípios conflitam (como a política de proteção aos consumidores de automóveis e os princípios da liberdade contratual) para resolvê-lo é necessário ter em consideração o peso relativo de cada um. que. ao contrário dos princípios. Não podemos afirmar que uma regra é mais importante do que uma outra dentro do sistema jurídico. cada sistema jurídico possuirá meios que possibilitem regular e decidir tais conflitos. impõe-se encontrar uma conciliação entre eles(31). se um jogador comete três faltas. Um princípio não determina as condições que tornam sua aplicação necessária. uma prevalece sobre a outra em virtude de seu maior peso. o que não significa que ele perca a sua condição de princípio. por exemplo. em tal caso. A este conflito a doutrina denomina antinomia. hierárquico  lex superior derogat inferior. pelo constitucionalista alemão Robert Alexy.

conduzem a resultados incompatíveis — diferenciam-se. Daí que o conflito entre duas regras há de ser solucionado por outras regras. Assim. E conclui Alexy :"lo fundamental es que la decisión es una decisión acerca de la validez"(38). Se uma regra é válida. no âmbito do fática e juridicamente possível. como "lex posterior derogat legi priori" e "lex specialis derogat legi generali". há de fazer-se exatamente o que ela exige. com ela. o ponto de partida para responder à pergunta acerca da possibilidade e dos limites da racionalidade no âmbito destes direitos. quanto à colisão entre estes e uma teoria suficiente acerta do papel que eles desempenham no sistema jurídico. Em Robert Alexy. Embora apresentem um aspecto em comum — o fato de duas normas. sem uma perfeita compreensão desta distinção. porém. Para Robert Alexy.americano "demasiado simple" busca formular "un modelo más diferenciado"(33). pois. debilitando o seu caráter definitivo. Ou seja. Assim. pelo menos. somente podem ser solucionados introduzindo-se uma regra de exceção. o ponto decisivo para distinção entre regras e princípios é que estes são mandados de otimização. e não apenas de grau(36). nem menos. . aplicadas independentemente. nem mais. é impossível formular-se uma teoria adequada dos limites dos direitos fundamentais. Que podem ser cumpridos em diferentes graus e que a medida devida de seu cumprimento depende não somente das possibilidades reais mas também das jurídicas(35). a base da fundamentação jusfundamental e a chave para a solução dos problemas centrais da dogmática dos direitos fundamentais(34). a teoria dos princípios — e a distinção entre princípios e regras — constitui o marco de uma teoria normativa-material dos direitos fundamentais e. ou declarando-se inválida. por conseguinte. E se ela vale e é aplicável a um caso. Onde. os conflitos de regras se resolvem na dimensão de validez. Por sua vez. E será. significa que vale também sua conseqüência jurídica(37). isto é. fundamentalmente. então. as regras são normas que somente podem ser cumpridas ou não. Elas contêm. determinações. Isto significa que a diferença entre regras e princípios é qualitativa. Com efeito. a distinção entre regras e princípios se mostra mais claramente se dá nas colisões de princípios e no conflitos de regras. dentro das possibilidades jurídicas e reais existentes. própria da estrutura das normas de direito fundamental. na forma como se soluciona o conflito. uma das regras. uma norma vale ou não vale juridicamente. são normas que ordenam algo que deve ser realizado na maior medida possível.

a colisão de princípios se resolve na dimensão de peso. também. todo o ser racional. se um diz que algo é proibido e outro. topograficamente. tal como o expressa Ronald Dworkin. E se o texto constitucional diz que a dignidade da pessoa humana é fundamento da República Federativa do Brasil. denominada personalista. Ou seja. Conseqüentemente. "o homem. um predomínio do indivíduo ou o predomínio do todo.O princípio da dignidade da pessoa humana na Constituição brasileira de 1988 Em Kant. aprioristicamente. para reforçar a idéia anterior. O que não implica que o princípio desprezado seja inválido. não nos conduz a uma concepção individualista da dignidade da pessoa humana. Quando dois princípios entram em colisão — por exemplo. a raiz antropológica constitucionalmente .De sua banda. Com efeito. paradigma avaliativo de cada ação do Poder Público e "um dos elementos imprescindíveis de atuação do Estado brasileiro"(40). Aliás. que a dimensiona e humaniza(41). como. um dos dois tem que ceder frente ao outro. importa concluir que o Estado existe em função de todas as pessoas e não estas em função do Estado. cada homem é fim em si mesmo. privilegie-se sempre aquele. a preeminência de um ou outro valor. de maneira pioneira. solução que pode ser tanto a compatibilização. busca a compatibilização. que num conflito indivíduo versus Estado. a concepção que aqui se adota. É. o legislador constituinte. como vimos. a interrelação entre os valores individuais e coletivos. de acordo com as circunstâncias. assim. sob pena de inconstitucional e de violar a dignidade da pessoa humana. toda e qualquer ação do ente estatal deve ser avaliada. existe como fim em si mesmo. como meio para outros objetivos. o valor último. pois a colisão de princípios se dá apenas entre princípios válidos. duma maneira geral. que é permitido —. porquanto um limita a possibilidade jurídica do outro. A pessoa é. tomar o homem como fim em si mesmo e que o Estado existe em função dele. e. não só como meio para o uso arbitrário desta ou daquela vontade"(39). o que caracteriza o ser humano. o capítulo dos direitos fundamentais antes da organização do Estado. o valor supremo da democracia. Como diz Kant. Assim. A solução há de ser buscada em cada caso. e o faz dotado de dignidade especial é que ele nunca pode ser meio para os outros. 4. Ela é. mas fim em si mesmo. considerando se cada pessoa é tomada como fim em si mesmo ou como instrumento. igualmente. No entanto. inexiste. colocou. nesta perspectiva. portanto.

ressaltamos nós. CF). defendido por W. tem particular importância na fixação. na elaboração de seu significado parte-se da situação básica (Grundsituation) do homem em sua relação com os demais. pelo caráter intersubjetivo da dignidade da pessoa humana. que "ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante"(art.estruturante do Estado de Direito o que. por conseguinte. Relembre-se. Maihofer. em conseqüência. Aquela significa que a pessoa não venha ser objeto de ofensas ou humilhações. Ernst Bloch. em caso de colisão entre direitos fundamentais de dois indivíduos. repetimos. dentre os quais se incluem a possibilidade de trabalho e a garantia de condições . como vimos. como destacou Pérez Luño. ainda que se opte. impõese modificar o conceito de princípio. contribuir no estabelecimento dos limites e alcance dos direitos fundamentais. da situação do ser com os outros (Mitsein). Neste sentido. que. III. precisando justamente o significado da primazia da dignidade da pessoa humana (art. constituindo. como vimos. ou o "antropologicun fixo". por exemplo. não implica um conceito "fixista" da dignidade da pessoa humana. Saliente-se. sugere uma "integração pragmática"(42). rejeita. citado por Pérez Luño(45). sublinhou que a dignidade há de permanecer inalterável qualquer que seja a situação em que a pessoa se encontre. coerentemente. a sua autodeterminação relativamente ao Estado. isto é. porquanto. às demais entidades públicas e às outras pessoas". em lugar de fazê-lo em função do homem singular encerrado em sua esfera individual (selbstein).1 da Constituição espanhola). além de. a afirmação da integridade física e espiritual do homem como dimensão irrenunciável da sua individualidade autonomamente responsável. radicalmente. pelo valor coletivo. pois. chegando a afirmar que se os há. em determinada situação. a decisão do Tribunal Constitucional espanhol que. Distanciamo-nos. que a pessoa é um minimun invulnerável que todo estatuto jurídico deve assegurar. Ao contrário. a existência de princípios absolutos. dissemos que a dignidade da pessoa humana é um princípio absoluto. Daí o nosso texto constitucional dispor. neste momento. Impõe-se. ou seja. O que. a libertação da "angústia da existência" da pessoa mediante mecanismos de socialidade. um mininum invulnerável que todo estatuto jurídico deve assegurar(44). "a dignidade — ensina Jorge Miranda(46) — pressupõe a autonomia vital da pessoa. destaca que a dignidade da pessoa humana possui duas dimensões que lhe são constitutivas: uma negativa e outra positiva. do minimun invulnerável. sendo a pessoa unidade aberta. ainda. citado por Pérez Luño (43). 5º. que. 10. ferir o valor da pessoa. o "homo clausus". Com efeito. esta opção não pode nunca sacrificar. do pensamento de Robert Alexy. a garantia da identidade e integridade da pessoa através do livre desenvolvimento da personalidade.

Daí falar-se. na centralidade dos direitos fundamentais dentro do sistema constitucional. a fonte ética. de una capacidad de proyectar-se. que los derechos fundamentales son el parámetro ‘de conformidad con el cual deben ser interpretadas todas las normas que componen nuestro ordenamiento’"(57). "Los derechos fundamentales son la expresión más inmediata de la dignidade humana"(53). que supõe. a autodeterminação que surge da livre projeção histórica da razão humana. antes que uma predeterminação dada pela natureza(48). tanto formal como material. a interpretação dos demais preceitos constitucionais e legais há de fazer-se à luz daquelas normas constitucionais que proclamam e consagram direitos fundamentais. . de outro. a dimensão positiva presume o pleno desenvolvimento de cada pessoa. a fundamentalidade destes direitos(55). Outrossim. Por sua vez. Vimos que a proclamação do valor distinto da pessoa humana teve como conseqüência lógica a afirmação de direitos específicos de cada homem. nas palavras de Pérez Luño. em conseqüência. Canotilho fala "que a interpretação da Constituição pré-compreende uma teoria dos direitos fundamentais"(56). E. A dignidade da pessoa humana é. Dessa maneira. a través de los consguientes métodos o técnicas. o "valor que atrai a realização dos direitos fundamentais"(51). são "conditio sine qua non del Estado constitucional democrático"(54). a "fonte jurídico-positiva dos direitos fundamentais"(49). Com razão. nuestro Tribunal Constitucional há reconocido. constituem limites materiais da própria revisão. de valor e de concordância prática ao sistema dos direitos fundamentais(50). sem interferências ou impedimentos externos. a la interpretación de todas las normas del ordenamiento jurídico. Ou seja. as normas de direito fundamental. Así.existenciais mínimas"(47). das possibilidades de atuação próprias de cada homem. que confere unidade de sentido. "el valor básico (Grundwert) fundamentador de los derechos humanos"(52). estão submetidas a processos dificultosos de revisão. o núcleo essencial dos direitos fundamentais. por conseguinte. significam a abertura a outros direitos fundamentais. de um lado. "para cumplir sus funciones los derechos fundamentales están dotados de una especial fuerza expansiva. de forma expressiva. que eles apresentam não apenas um caráter subjetivo mas também cumprem funções estruturais. vinculam imediatamente os poderes públicos. o sea. o reconhecimento da total autodisponibilidade. as normas de direito fundamental ocupam o grau superior da ordem jurídica.

.O pensamento de Kant. . p.38. p.PASCAL. . 505. 39. cit. por sua vez. Luis Prieto .. Contribuição ao personalismo jurídico. Jorge Miranda. p. 4. p.Estúdios sobre Derechos Fundamentales. . REALE.OLIVEIRA. G. são usados em sentidos diferentes daqueles por nós empregados. 23 7. . 13..Colisão de Direitos. p. . cit. 278. que. . quem é ele? P. 26.OLIVEIRA. Gomes . Jorge Reis . 8. Manfredo – A Filosofia na crise da modernidade. MIRANDA. p.. portanto. Miguel Questões de Direito Público.REALE.CANOTILHO. o excelente e inovador trabalho de MATA-MACHADO. p. que. 285.Filosofia do Direito.FARIAS. 6. p. 2.Contributo para uma Teoria do Estado de Direito. 3. 14.J Gomes . da. . E.. Manfredo . 278 17.NOTAS 1. podemos entrever em algumas interpretações da Constituição e dos Direitos Fundamentais inúmeros traços individualistas 10. .REALE. . . para ele. p.SANCHIS. 19. Miguel .REALE. Miguel . . 3. Miguel . p. cit. Miguel . 12. . p.J.REALE. p.MONDIN.NOVAIS. nota 2. Apud. tomo IV.op. 9.O homem.Direito Constitucional.op. p. no qual se defende a pessoa como fim do . J.A questão judaica. José Castan . p. p. utiliza os termos individualismo.MARX. 277.Manual de Direito Constitucional.Los Derechos del Hombre. Edilsom Pereira . Karl . Jorge . . p. Miguel . .Veja-se.TOBEÑAS. também pode ser chamado personalismo. Battista . 505. 15.Idem.. a propósito. . 47. 16. Aliás. 36.REALE. 11. 277. supraindividualismo e transpersonalismo. 73. p. 44. 5.op. fala "que a interpretação da Constituição pré-compreende uma teoria dos direitos fundamentais".CANOTILHO. J.Filosofia do Direito. 4. Georges .idem.

-MATA-MACHADO. p.HART. . cit.op. 29. mas também por sua possibilidade de conjugar-se com outras normas específicas constitucionais que contribuem para elucidar o sentido lógico e objetivo do texto fundamental em seu conjunto. .G.op. Miguel . Antonio E. p. I diritti presi sul serio. 31. . cit.MATA-MACHADO. Paulo .op. . Estado de Derecho y Constitución. 117. Edilsom . 24. p. p.Derechos Humanos.ALEXY. . Robert . G. Robert . . .. 294. em que ele se detém sobre o modelo de regras e princípios. Herbert .DWORKIN.FARIAS. os artigos recolhidos no livro.Segundo Pérez Luño. 32. e se expõe. . 99. FARIAS. 20. p. . 18.. p. terminam por aceitar que o principio da dignidade da pessoa humana geralmente prevalece sobre os demais. tal tese desconhece a possibilidade de uma interpretação sistemática da Constituição.BONAVIDES. 19. cit. E.op. 142.Teoria do Ordenamento Jurídico. Herbert L. p. em que as distintas normas constitucionais recebem seu sentido não somente de sua adequação ao postulado pelos valores e princípios constitucionais. 21. 278.Curso de Direito Constitucional. Eros Roberto – A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). 47. p.Utilizaremos. p. Porém. e inobstante tal afirmação. 92 a 107 33. A.O conceito de Direito. p.I diritti presi sul serio. . a distinção entre indivíduo e pessoa. Ronald .. PÉREZ LUÑO. 90. sobretudo.Teoria de los Derechos Fundamentales.De idêntica opinião é Reale e Farias. 25.. 124. ao final. 85. ALEXY.CHUERI.. E.HART.. -HART. cit. op. 91. cit. Herbert . p. 91. .. p. p.. 30. . .GRAU.Em sentido contrário. .op. 141. p. . Norberto . se pode dizer que os dois autores. historicamente. E. Vera Karam de – Filosofia do Direito e Modernidade – possibilidade de um discurso instituinte de direitos. 48. Apud.op. cit. 23. p. 28. p.Direito.Teoria de los Derechos Fundamentales. da . cit. . . 26. segundo a versão italiana. 247.BOBBIO. 22. REALE. 102 e segs. 27. da .

.ALEXY. Antonio. cit.ALEXY.. 35.. cit. fala "que a interpretação da Constituição pré-compreende uma teoria dos direitos fundamentais". Edilsom.J. 46. op.. cit. . p. .Anais da XV Conferência Nacional da OAB. 505. cit. Antonio E. p. . Gomes. 45. . 56.. p.ALEXY. Robert . p. .Direito Constitucional.ALEXY.. p..Anais da XV Conferência Nacional da OAB.Direito Constituiconal. p. . op. op.34. 53. op. 503 e segs.. p. Francisco Fernández. 51.op. 549.SEGADO. cit. . Jorge – Manual de Direito Constitucional. cit. Robert . Robert .PÉREZ LUÑO. cit. 44. . op. 40.SEGADO. 39. . p. cit. p. ..PÉREZ LUÑO.J..FARIAS. tomo IV.MIRANDA.J. p. . 48. Antonio. 77.Fundamentação da Metafísica dos Costumes. J. p. 498 e segs.. 318. 362/363.PÉREZ LUÑO. 88. p. . 549. Cit. Robert . José Castán. 318. .op. J. J. 77. .PÉREZ LUÑO. p.op.ALEXY. 36. ob. op. 318.Idem. . p. Francisco Fernandez. 68. 50. p. aliás. p. J. 54. José Afonso da . 88. op. ..op. cit. 87. op. op. 52.Direito Constitucional.CANOTILHO. Francisco Fernandez. . 42. que. Robert . . diz ser a dignidade da pessoa humana "a raiz fundamentante dos direitos fundamentais". 54..ALEXY. op. Gomes . 166/167. Robert. J. 51. 41.SEGADO.MIRANDA.. 86.. 38. 49. Edilsom.. . 81. p. cit.. p. tomo IV. 55. 363.. p. .. p. 74. Antonio E.KANT. op. p. cit. Gomes . 168/169 47. Gomes . 37. p. CANOTILHO..Manual de Direito Constitucional. p. cit.CANOTILHO. cit.CANOTILHO. TOBEÑAS.SILVA.. p. . cit. Jorge . p. cit. I. . 318.FARIAS. . Immanuel . 43.

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