P. 1
Resumo Pedagogia Da Autonomia

Resumo Pedagogia Da Autonomia

|Views: 8.728|Likes:
Publicado porpaula_adri

More info:

Published by: paula_adri on Jun 18, 2011
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOCX, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

06/27/2013

pdf

text

original

Capítulo 1 ± Não há docência sem discência Em sua análise menciona alguns itens que considera fundamentais para a prática

docente. Paulo Freire afirma que ³não há docência sem discência´, pois ³quem forma se forma e re-forma ao formar, e quem é formado forma-se e forma ao ser formado´. Dessa forma, deixa claro que o ensino não depende exclusivamente do professor, assim como a aprendizagem não é algo apenas de aluno, em outras palavras, ³quem ensina aprende ao ensinar, e quem aprende ensina a aprender´, quer dizer, o professor não é superior, ou mais inteligente, mas é, como o aluno, participante do mesmo processo da construção da aprendizagem. 1.1 ± Ensinar exige rigorosidade metódica Paulo Freire diz que o educador deve ter um rigor metódico e intelectual, deve ser um pesquisador curioso, que busca o saber e age de uma forma crítica, não com questionamentos, e orienta seus educandos a seguirem também essa linha metodológica de estudar, relacionando os conhecimentos adquiridos com a realidade de sua vida. Uma das condições necessárias a pensar certo, é não estarmos demasiado certos de nossas certezas. 1.2 ± Ensinar exige pesquisa Paulo Freire afirma que ³não há ensino sem pesquisa nem pesquisa sem ensino´. Esse pesquisar, buscar e compreender só ocorrerá, se o professor souber pensar. Para Freire, saber pensar é duvidar de suas próprias certezas, questionar suas verdades. Ensinar, aprender e ensinar lidam com dois momentos: o em que se aprende o conhecimento já existente e o em que trabalha a produção do conhecimento ainda não existente. 1.3 ± Ensinar exige respeito aos saberes do educando Paulo freire diz que o professor, mais amplamente a escola, não deve pensar somente em respeitar os saberes com que os educandos, sobretudo o das classes populares chegam a ela. Devem aproveitar as experiências dos alunos que vivem em lugares descuidados pelo poder público, que vivem em áreas de poluição, etc. Devem aproveitar esta realidade de alguns alunos e discutir isso nas escolas, desenvolver uma solução e orienta-los. O educador deve discutir com os alunos a realidade concreta a que se deve associar a disciplina, estabelecendo uma familiaridade entre os saberes curriculares e a experiência social de cada um de seus educandos. 1.4 ± Ensinar exige criticidade O educador deve ter uma postura de curiosidade e inquietação indagadora dicernidora. Toda a curiosidade de saber exige uma reflexão critica e prática, de modo que o próprio discurso teórico terá de ser aliado à sua aplicação prática. A superação da ingenuidade levando a criticidade demanda profundidade e superficialidade na compreensão dos fatos. A curiosidade leva à criticidade, pois o homem necessita de um estímulo para que isso o leve a críticas de um determinado assunto.

O velho que preserva sua validade ou que encarna uma tradição ou que marca uma presença no tempo continua novo. 1. têmse a certeza de que tal professor está andando e. reflexivo. Quem pensa certo.1. que não dá lugar para sentimentos discriminatórios. ético e moral. aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação A aceitação do novo não pode ser negado ou acolhido só porque é novo. o ensino dos conteúdos não podem estar alheios a formação moral do educando.6 ± Ensinar exige a corporeificação das palavras pelo exemplo ³Pensar certo é fazer certo´. A experiência. tudo concorrendo para melhorias reais acerca da prática ensino-aprendizagem. como diz Rolando Toro. entre o fazer e o pensar sobre o que fazer. dialético. por outro lado. pesquisador. Facilitar o crescimento.7 ± Ensinar exige risco. pensando e ensinando a pensar certo. o professor não pode estar longe ou fora da ética por ser portador do caráter formador.5 ± Ensinar exige estética e ética Estética e Ética emergem da mais profunda experiência afetiva com o outro. Quando há uma tomada de consciência sobre os fatos que envolvem a prática. 1. O conhecimento racional é diretamente ligado ao nosso instinto afetivo. ³Mas não há pensar certo à margem de princípios éticos´. empatia. Para permitir e facilitar um processo de formação do educando é necessário esta mobilização . implicante do pensar certo envolve movimento dinâmico. mas o exemplo arrasta´. 1. ³pensar certo é fazer certo´. um crítico autônomo de seus próprios atos. a vivência afetiva. Paulo Freire sabe muito bem que as palavras que não ganham corpo são vazias. O ser é ofendido e para ele é restrito o direito a democracia. quase nada valem. quando acontece qualquer uma das práticas de discriminação. mostra muito bem que a mesma atitude em nível político se revela ineficaz. às emoções e aos sentimentos de atração. que assume a si próprio com seus acertos e seus erros. tem consciência que palavras nada valem se não forem seguidas do exemplo. Não é possível ao professor pensar que pensa certo mas ao mesmo tempo pergunta ao aluno ³com quem está falando´. Faz parte do pensar certo. a rejeição mais decidida à qualquer forma de discriminação. etc. O educando desenvolve o pensar certo em comunhão com o educador. é a fonte nutridora da inteligência afetiva. a raiz da ética e da estética é também a base estrutural do pensar certo. A prática educativa tem a obrigação moral de ser um testemunho rigoroso de decência e de pureza. e não se deve recusar o velho. Não há pensar certo fora de uma prática testemunhal que o re-diz em lugar de desdizê-lo. Sendo assim. da mesma forma é um serviço de amor e de dedicação. sendo cada educador. 1. que respeita os saberes prévios do educando. Uma expressão popularizada diz que ³as palavras comovem.8 ± Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática Esta prática docente crítica. onde suas palavras e ações servem como testemunho.9 ± Ensinar exige o reconhecimento e a assunção da identidade cultural Reconhecer a qualidade do outro é um ato afetivo de qualificação e de promoção.

4 ± Ensinar exige bom censo O bom senso se faz no corpo da curiosidade. no encontro com o educando. Quanto mais se vinculou a relação entre mente e mãos o suporte (ambiente) foi se tornando mundo e a vida se tornando existência. Saber que devo respeito á autonomia e a identidade do educando. Isso na proporção que o corpo humano se torna corpo consciente. por isso a experiência muda de qualidade em relação à dos animais. Diz Freire: ³o respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético. exige de mim uma prática em tudo coerente com este saber.3 ± Ensinar exige respeito à autonomia do ser do educado Outro saber necessário à prática educativa. Ensinar como transmissão de conhecimento significa que há um conhecimento pronto. significa assumir-se como ser histórico e social. é o que fala do respeito devido à autonomia do ser do educando: jovem. diz Freire. A consciência disso implica na impossibilidade de minha ausência na construção da própria presença. histórica. que não se faz no isolamento. ³Gosto de ser gente porque percebo afinal que a construção de minha presença no mundo. criador de beleza e não ³espaço´ vazio a ser cheio de conteúdos. O inacabamento de que nos tornamos conscientes nos fez éticos. mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção. apreendedor. captador. transformador. adulto. por ser ético. isenta da influência das forças sociais´. podemos desrespeitar a rigorosidade da ética´. 2. e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros. Capítulo 2 ± Ensinar não é transmitir conhecimento Ensinar não é transferir conhecimentos. renuncio a cumprir minha missão ontológica de intervir no mundo. política. Paulo Freire destaca que o inacabamento se tornou consciente nos homens e nas mulheres. social.1 ± Ensinar exige consciência do inacabamento O inacabamento do ser ou sua inconclusão é próprio da experiência vital. acabado e que a tarefa do educando é simplesmente absorver e memorizar. pensante. Ao assumir nós mesmos não estamos excluindo os outros. É uma diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado. 2. Precisamente.afetiva sem a qual este processo não acontece. e que se funda no inacabamento. A capacidade de amar é o fundamento do processo de assumir e de assumir-se. A questão da identidade cultura é fundamental na prática educativa e tem a ver diretamente com assumir-nos enquanto sujeitos. transformador e criador. 2. há inacabamento´. criança. A frase lapidar é que ³onde existe vida. No exercício do bom senso se supera o que há nele de instintivo na avaliação que fazemos dos fatos e dos acontecimentos. Na ausência renuncio à minha responsabilidade ética.2 ± Ensinar exige o reconhecimento de ser condicionado Paulo Freire afirma que consciente do seu inacabamento o homem sabe que pode ir para além dele. Não me . 2. A afetividade como respeito à autonomia e à dignidade emerge de uma exigência radical constituída no relacionamento com o aluno.

estamos dando nosso atestado de omissão e de falta de cuidado afetivo. E ninguém escapa ao juízo dos alunos. A desesperança é a negação da esperança. recriando-a. A capacidade de aprender. 2. tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores A luta dos professores em defesa de seus direitos e de sua dignidade deve ser entendida como um momento importante de sua prática docente. A responsabilidade amorosa do professor é sempre grande. igualmente resistir aos obstáculos à nossa alegria. algo. 2. por isso mesmo. mas sobretudo para transformar a realidade para nela intervir. produzir e. não apenas para nos adaptar. A natureza de sua prática é formadora. em função de seu caráter diretivo. A esperança de que professor e aluno juntos podemos aprender.8 ± Ensinar exige a convicção de que a mudança é possível . daí seu cunho gnosiológico: a existência de objetos. A esperança é um condimento indispensável á experiência histórica. 2. juntos. ensinar. sem ela não haveria História. Aprender para nós é construir. mas algo que dela faz parte. Não é algo que vem de fora da atividade docente.6 ± Ensinar exige apreensão da realidade A raiz da educabilidade do ser humano está no fato de sua inconclusividade. de um lado. Isto fazia o clima do espaço pedagógico. Assim a rigorosidade científica é perpassada pelo cuidado amoroso. reconstruir. À medida que assumimos a postura da chamada neutralidade. de materiais. 2. não assumimos o compromisso com o outro. ³E o pior juízo é o que considera o professor uma ausência na sala de aula´. utopias.7 ± Ensinar exige alegria e esperança A alegria é resultado da conexão com a nossa vitalidade. com o potencial de um grupo unido numa luta comum. implica. inquietar-nos. vinculado pelos laços afetivos.permitirá afirmar que a fome e a miséria é uma fatalidade e que devemos esperar pacientemente que a realidade mude. é uma aventura criadora.Ensinar exige humildade. a nossa rejeição a entendê-la e a exercê-la como prática afetiva de ³tias e de tios´. sequer com a gente mesmo. e de outro. é a nossa recusa a transformar nossa atividade docente em puro bico. muito mais rico do que meramente repetir a lição dada. enquanto prática ética. conteúdos a serem ensinados e aprendidos. mas puro determinismo. Paulo Freire sempre se envolveu com alegria em sua prática educativa. Há uma relação entre a alegria necessária à pratica educativa e a esperança. envolve o uso de métodos. fala de nossa educabilidade a um nível distinto do nível do adestramento dos outros animais ou do cultivo das plantas. sonhos. A presença do professor é exemplar na sala de aula. de técnicas. Freire dirá que isso é imoral e exige de minha rigorosidade científica a afirmação que é possível mudar. Aprender. Uma das formas de luta contra o desrespeito dos poderes públicos pela educação.Toda a prática educativa requer a existência do sujeito. para nós.5 . objetivos. o que não se faz se abertura ao risco e á aventura do espírito. constatar para mudar.

É a segurança que se manifesta na firmeza com que atua. não podemos esquecer. indagadora e não apassivada. Capítulo 3 ± Ensinar é uma especificidade humana Uma das qualidades essenciais que a autoridade docente democrática deve revelar em suas relações com as liberdades dos alunos é a segurança em si mesma. às emoções. a intuição. indispensável a quem chega na favela e que pretende que sua vivência se vá tornando convivência. A mesquinhez inferioriza a tarefa formadora do professor. assim como a liberdade deve estar sujeita a limites eticamente assumidos por todos. de comparar. da cultura. É a partir deste saber fundamental: mudar é difícil mas é possível. O fundamental é que professores e alunos saibam que a postura deles. O mundo está sendo. que vamos programar nossa ação político-pedagógico. na busca da perfilização do objeto ou do achado e de sua razão de ser. Mas. é dialógica. Um professor que não leva a sério a sua formação não tem força moral para coordenar as atividades de sua classe. Autoritarismo e paternalismo são duas formas de negação da curiosidade dos educandos. que seu estar no contexto vá virando estar com ele. constato. competência profissional e generosidade A segurança com que a autoridade docente se move implica na sua competência profissional. com que aceita rever-se. 2. Ninguém pode estar no mundo. Uma dimensão patológica do afeto é a arrogância farisaica e malvada com que o professor julga aos outros e a indulgência macia com que se julga. com que decide. A curiosidade que silencia a outra se nega a si mesma. é o saber do futuro como problema e não como inexorabilidade. Não somos apenas objeto da História. não para me adaptar. É da competência que nasce a segurança. Opção e prática democrática do professor não são determinadas por sua competência científica. Nenhuma curiosidade se sustenta eticamente no exercício da negação da outra curiosidade. É o saber da história como possibilidade e não como determinação. com que respeita as liberdades. Importante é ser seguro de sua autoridade e exercê-la com sabedoria. do professor e dos alunos. enquanto fala ou enquanto ouve. Há professores preparados e que são autoritários.O mundo não é. A incompetência profissional desqualifica a autoridade do professor. aberta. que a curiosidade. A arrogância que . Outra dimensão da afetividade destacada como qualidade indispensável à autoridade em suas relações com as liberdades é a generosidade. à capacidade de conjeturar. mas seus sujeitos igualmente. mas para mudar. da política. Constatar e conscientizar-se é condição de operacionalidade e motivação afetiva para nossa luta de transformação. com que discute suas próprias posições. Minha curiosidade não tem o direito de invadir a privacidade do outro e expô aos demais. -la Para Freire o exemplo de contra-educação está nos processos que inibem ou dificultam a curiosidade do educando. Uma autoridade segura é uma autoridade afetivamente centrada. Para Freire se trata de um saber primordial.1 ± Ensinar exige segurança. O que importa é que professor e alunos se assumam epistemologicamente curiosos.9 ± Ensinar exige curiosidade O exercício da curiosidade convoca a imaginação. Constatando nos tornamos capazes de intervir na realidade. tarefa incomparavelmente mais complexa e geradora de novos saberes do que simplesmente a de nos adaptar a ela. No mundo da história. curiosa. 3. com o mundo e com os outros de forma neutra.

de avaliar. ensino de conteúdos. elitista. A liberdade amadurece se confrontando com outras liberdades. de decidir. A educação não é. prejudicando assim o seu funcionamento. afirma Freire. 3.Comprometimento ético. Minha capacidade de fazer justiça. 3. do professor e do Estado. na defesa dos direitos em face da autoridade dos pais. contra a dominação econômica dos indivíduos ou das classes sociais. de optar. ser omisso. Sou professor a favor da liberdade contra o autoritarismo. Do ponto de vista dominante a educação deve ser uma prática ocultadora e imobilizadora. de comparar. A liberdade deve ser exercitada assumindo decisões. Precisamos compreender a significação de um silêncio. Nossa preocupação deve ser de aproximar cada vez mais o que dizemos e o que fazemos.nega a generosidade nega também a humildade. O grande problema ao educador de opção democrática é como trabalhar tornando possível que a necessidade de limite seja assumida eticamente pela liberdade. Não mentir ao aluno é fundamental. 3. de não falhar à verdade. de uma retirada da sala de aula. E a maneira como eles nos percebem tem importância capital para o nosso desempenho. históricos. por não poder ser neutra. da autoridade contra a licenciosidade. mas um sujeito de opções. Somos determinados por condicionamentos genéticos. minha prática exige de mim uma definição. ³Quanto mais solidariedade exista entre educador e educandos. Enquanto presença não posso ser neutro. reprodução da ideologia dominante ou seu desmascaramento. de classe que nos marcam.4 ± Ensinar exige liberdade e autoridade Para ele não está resolvida a tensão entre liberdade e autoridade. não pode e jamais será neutra. sociais. Se minha opção é prática progressista não posso ter uma atitude reacionária. Ser licencioso seria permitir que a indisciplina de uma liberdade mal centrada desequilibrasse o contexto pedagógico. Uma tomada de decisão. de um sorriso. Nossa presença em aula em si é uma presença política. Devo estar atento da leitura que fazem de nossa atividade com eles. É ofensiva e se regozija com a humilhação. Devo revelar aos alunos a minha capacidade de analisar. por isso tem que ser meu testemunho´ . de romper. efetivo é um comprometimento afetivo. Atitudes afetivamente doentias. Sou professor a favor da luta constante contra qualquer forma de discriminação. Somente com afetividade e solidariedade nos comprometemos. no ³trato´ deste espaço. da democracia contra a ditadura de direita ou de esquerda. Não posso discriminar aluno por qualquer motivo.2 ± Ensinar exige comprometimento Não escapamos à apreciação dos alunos. autoritária. tanto mais possibilidade de aprendizagem democrática se abrem na escola´. ³E não sou neutro. É uma questão ética. A liberdade sem limite é tão negada quanto a liberdade asfixiada. presencial. Não posso ser professor se não percebo cada vez melhor que. É necessário que os . continua Freire. Ético.3 ± Ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo A educação como uma forma de intervenção é uma forma especificamente humana e que implica. culturais.

]. que aprendemos a escutar. da propriedade. (. onde se situa nosso gesto de decisão. A chamada politicidade da educação. às vezes necessário.. sem sombra de dúvida. que é um direito. O racismo é uma das formas. o homem tanto pode ser ético como transgredir a mesma.. em uma fala com ele´. como um ato de intervenção no mundo´ Freire coloca a educação como intervenção referindo-se tanto àquela que aspira a mudanças radicais da sociedade. termina por esgotar a sua capacidade de dizer por muito ter dito sem nada ou quase nada ter escutado. Não posso aprender a ser eu mesmo se não decido nunca. dizia a Paulo Freire da importância de saber escutar.. à educação.5 ± Ensinar exige tomada consciente de decisões A consciência tem seu fundamento na afetividade. Quem tem o que dizer tem igualmente o direito e o dever de dizê-lo. No processo da fala e da escuta a disciplina do silêncio a ser assumido com rigor e a seu tempo pelos sujeitos que falam e escutam é um ´sine quae´ da comunicação dialógica. 3. utopias e objetivos. A partir da questão central ³a educação. Inacabado e consciente do seu inacabamento. não ser o único ou a única a ter o que dizer. A qualidade de ser política é inerente à sua natureza. 3. como se fossemos os portadores da verdade a ser transmitida aos demais.) É preciso que quem tenha o que dizer saiba que. O primeiro sinal de que o sujeito que fala sabe escutar é a demonstração de sua capacidade de controlar não só a necessidade de dizer a sua própria palavra. histórico. ao aluno. é preciso a virtude da coerência. ela é política. idéias. de patologia da afetividade. é escutando que aprendemos a falar com eles. quanto aquela que reacionariamente pretende imobilizar a História e manter a ordem injusta. ³Se. profundamente respeitável. sobretudo.pais tomem parte das discussões com os filhos em torno do amanhã. mas. Um exemplo profundamente incoerente é o discurso progressista e a prática racista. do direito ao trabalho. fala com ele [. necessariamente o ser humano se faria um ser ético. um ser de opção. de expressá-la. nessa fonte nutridora e sustentadora de um saber permeado pela ética. de decisão´. Escutar significa disponibilidade permanente por parte do sujeito que escuta para abertura à fala . ³A raiz mais profunda da educabilidade da educação se acha na educabilidade mesma do ser humano e da qual se tornou consciente. Freire a identifica na vocação especificamente humana de endereçar-se até sonhos. Assim Ensinar exige tomada consciente de decisões. a mais profunda. A educação não vira. É preciso. à saúde. Somente quem escuta paciente e criticamente o outro. pedagoga Olgair Garcia.. Conforme reiterou Freire muitas vezes. no campo da economia das relações humanas. na verdade o sonho que nos anima é democrático e solidário. Escutar é obviamente algo que vai além da possibilidade auditiva de cada um. especificidade humana. É decidindo que se aprende a decidir. que quem tem o que dizer saiba. não é falando para os outros de cima para baixo. sem escutar o que quem escuta tem igualmente a dizer. Nesta referência Paulo Freire coloca um dos aspectos fundamentais do movimento afetivo das relações. porém. mas também o gosto pessoal. O educador que escuta aprende a difícil lição de transformar o seu discurso. Às vezes cometemos a incoerência do nosso discurso progressista e o nosso estilo elitista. Voltado para interesses. à terra.6 ± Ensinar exige saber escutar A educadora experiente. É impossível a neutralidade da educação.

A ideologia é o conjunto de argumentações carregadas de emoção que tem a finalidade de envolver e seduzir a pessoa para aderir a um ideal. seu fund amento político. É sua expressão que não podemos temer. aberto à fala. a um determinado procedimento. de acordo com o momento. Um dos modos como se opera a afetividade é o diálogo. às diferenças do outro. mas respeitar as diferenças sendo coerente entre o que eu faço e o que eu digo. que acolho. mas não divisamos bem. É a maneira de autenticamente selar o compromisso com os educandos. É impossível criar a segurança fora do risco da disponibilidade. de certo modo. nos tornando míopes. Essa penumbra faz com que nós aceitemos docilmente um discurso fatalista. 3. de um credo religioso. A disponibilidade curiosa à vida. É na minha disponibilidade à realidade que construo a minha segurança.8 Ensinar exige disponibilidade para o diálogo O diálogo é o elemento essencial da pedagogia progressista. Para seduzir ela. A abertura ao querer bem significa a disponibilidade à alegria de viver. são saberes necessários à p rática educativa. tem que velar ou esconder uma dimensão da realidade. pedagógica. a boniteza que há nela como viabilidade do diálogo. O bom escutador fala e diz de sua posição com desenvoltura. A experiência da abertura como experiência fundante do ser inacabado que terminou por se saber inacabado. Nas minhas relações com os outros. É como se algo estivesse metido na penumbra.9 ± Ensinar exige querer bem aos educandos Mais uma vez a afetividade ganha ainda maior clareza e consistência nas palavras e análises de Paulo Freire. que fizeram opções distintas de mim. A abertu é ra possibilidade de diálogo. inclusive do devoto de uma crença partidária. A razão ética da abertura. indispensável à própria disponibilidade. do cidadão. sua referencia pedagógica. distante e cinzento. Viver a abertura respeitosa aos outros e. de respostas a múltiplas perguntas. Freire nos fala dessa maneira: Tendo a ver diretamente com a ocultação da verdade dos fatos a ideologia nos põe a cair em suas armadilhas. Ás vezes a força da ideologia é maior que a força do pensamento. não devo partir para conquistá-los. A abertura deve ser vivida e refletida. ao acontecer do outro é essencialmente afetivo. Justa alegria de viver.do outro. Não posso condicionar a minha avaliação pelo maior ou menor vínculo que tenha com meu aluno. 3. se expressar e acontecer. a seus desafios. É falsa a separação entre seriedade docente e afetividade. A afetividade não se acha excluída da cognoscividade. de me opor de me posicionar. O âmago de todo esse processo de escutar. tomar a própria prática de abertura ao outro como objeto de reflexão crítica deveria fazer parte da aventura docente. de estar disponível. Sendo crítica não teria a força de mobilização e de adesão. Não diminui em mim nada do direito de discordar. Dialogar é antes de qualquer coisa permitir ao outro ser. numa prática específica do ser humano. a um projeto. 3. frio. Não sou melhor professor sendo mais severo. que me encontro com eles ou com elas. que não permite que me torne um ser adocicado nem tampouco um ser . ao gesto do outro. ao gesto. de vez em quando. Isto se dá na medida que sou disponível. Seria impossível saber-se inacabado e não se abrir ao mundo e aos outros à procura de explicação.7 ± Ensinar exige reconhecer que a educação é ideológica A ideologia supõe um envolvimento afetivo do educando. e vou facilitando o processo educativo. O autor declara que a afetividade não o assusta e não teme expressá-la.

Não posso negar o direito de sonhar. Seriedade docente e alegria não são contraditórias e inconciliáveis. Não posso fechar-me ao seu sofrimento e inquietação. de que nossa capacitação científica faz parte. tanto mais alegre me sinto e esperançoso também. fora da boniteza e da alegria. Quanto mais metodicamente rigoroso me torno na minha busca e na minha docência.arestoso e amargo. . Ensinar e aprender não podem dar-se fora da procura. prática docente exige um alto nível de responsabilidade ética. A alegria chega no encontro do achado e faz parte do processo da busca. A atividade docente é alegre por natureza. Posso ter cuidado sem ser seu terapeuta. negar minha atenção dedicada e amorosa à problemática mais pessoal deste ou daquele aluno.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->