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De Emilio a Emilia - A Trajetario Da Alfabetizacao

De Emilio a Emilia - A Trajetario Da Alfabetizacao

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Pensamento e Ação no Magistério

DE EMÍLIO A EMÍLIA A trajetória da alfabetização

Marisa Del Cioppo Elias

• Formada em Pedagogia e Ciências Sociais pela PUC-SP • Mestre em Educação (PUC-SP) e Doutora em Educação (USP) • Professora titular na PUC-SP, professora de pós-graduação da Faculdade Braz Cubas e pesquisadora do CNPq e da Fapesp

editora scipione

Créditos Responsabilidade editorial Heloísa Pimentel Assistência editorial Thereza Pozzoli e Mauro Aristides Revisão Andréa Vidal e Claudia Virgílio Coordenação de arte Maria do Céu Pires Passuello Programação visual de capa Jayme Leão Capa Maurício Negro Pesquisa iconografica Edson Rosa, Lourdes Guimarães e Vanessa Manna editora scipione www scipione com br MATRIZ Praça Carlos Gomes, 46 01501 - 040 São Paulo SP DIVULGAÇÃO Rua Fagundes, 121 01508-030 São Paulo SP Tel (OXX11)3272 8411 Caixa Postal 65131 VENDAS Tel (OXX11)3277 1788 Expediente Direção adjunta editorial Aureélio Gonçalves Filho Direção adjunta editorial Dorival Polimeno Sobrinho Chefe de revisão Miriam de Carvalho Abões Coordenação geral de arte Sérgio Yutaka Suwaki Edçâo de arte Didier D. C. Das de Moraes 2003 ISBN 85--262-3830-2 1ª EDIÇÃO (2ª impressão) Impressão e acabamento G´rafica VIDA & CONSCIÊNCIA

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Elias Marisa Del Cioppo De Emílio a Emilia — a trajetória da alfabetizaçao / Marisa Del Cioppo Elias — São Pauto Scipione 2000 — (Pensamento e ação no magistério) 1 Alfabetizaçao — Historia 2 Alfabetizaçao — Métodos 3 Educação — Historia l Titulo II Serie 00-2556 Índice para catalogo sistemático 1 Alfabetizaçao Metodologia Educação Historia 37241609 CDD 372 41609

Aos meus netos, Gabriela e Gustavo, no momento em que iniciam suas trajetórias de alfabetização

metodologia e. pesquisadora contemporânea . A seguir. ela. Emitia Ferreiro.A série Pensamento e Ação no Magistério reúne as contribuições teóricas e práticas necessárias a todos os educadores que desejam modificar seu fazer pedagógico no dia-a-dia em sala de aula. divergências e aplicação à nossa realidade. com seus pontos em comum. Em busca de respostas.são as referências que marcam no tempo este estudo original sobre a alfabetização. a autora revê aqui as contribuições de alguns educadores e nos oferece um painel das principais teorias relacionadas à alfabetização. cujas idéias de homem. Editora scipione .Rousseau -. DE EMÍLIO A EMILIA A tragetória da alfabetização Emílio e Emilia . a idéia de que toda educação deve levar em conta a vivência e as experiências significativas da criança.ele. que não encontram respaldo nas recentes teorias educacionais. participando vivamente de seu desenvolvimento global. do século XVIII. infância e conhecimento possibilitaram construir os conceitos de jardim-deinfância. sobretudo.Decroly e Freinet -. expõe as idéias de dois educadores do início do século XX . O ponto central da obra são as questões de hoje. personagem de Rousseau. que criticaram a educação de sua época. Termina com a apresentação das conclusões a que chegou Emilia Ferreiro. no que se refere à psicogênese ou aos processos pelos quais a criança aprende a ler e a escrever. Começa por um mestre clássico . A série é dirigida àqueles que buscam interagir com a criança e o adolescente. propondo programas e métodos novos. trabalho na escola.

.. 149 Textos selecionados de Freinet..5 1. 116 Motivação: a vida da criança... 50 Textos selecionados de Rousseau. 120 As fases da escrita...... 154 4..... 53 2. 80 Recapitulando......... Recuperando Emilia Ferreiro.. 92 Decroly e Freinet..... 203 .144 A aula viva: um sonho a ser realizado.. 63 Decroly e os educadores de sua época .. 109 Em busca do equilíbrio: a escola do trabalho e do pensamento. 187 Considerações finais.. 69 Programas de ensino: busca da unidade do saber..SUMARIO Introdução. 97 3.. 176 Textos selecionados de Emilia Ferreiro. 105 Proposta pedagógica de Freinet.66 A proposta pedagógica de Decroly.... Recuperando Freinet.117 A sensibilidade do educador. 30 A educação como processo de vida... Recuperando Decroly...... 68 As tendências elementares.. 113 A livre expressão. Recuperando Rousseau.. 166 Revendo a psicogênese da língua escrita.... 15 Rousseau: crítico do passado e precursor da educação moderna.... 17 A proposta educacional de Rousseau..... 72 Método global... 195 Bibliografia... 161 A proposta pedagógica de Emilia Ferreiro... 95 Textos selecionados de Decroly. 124 Escrita pessoal e livre ...

. por tanto tempo quanto a esperança viva no coração dos homens.] estão normalmente satisfeitos com o passado [. os historiadores nãopodem libertar-se inteiramente das idéias preconcebidas mais gerais da época em que vivem... Quando os tempos são calmos [. quando a vida parece sair dos seus esquemas habituais. [. 1935. ....] Mas nos períodos tempestuosos..] O passado é uma espécie de tela sobre a qual cada geração projeta sua visão do futuro e. p. as histórias novas sucederse-ão.. CARL BECKER. 168-70. aqueles que o presente descontenta ficam igualmente descontentes com o passado.Cada século reinterpreta o passado de modo que este sirva aos seus próprios fins [.] Qualquer que seja o esforço feito para preservar o seu recuo.

formularam os conceitos de dialética e aprendizagem. De Platão a Montaigne. Filósofos. temos assistido à ampliaçãodos movimentos em favor da criança e do adolescente em busca da melhoria de metodologias e/ou didáticas. principalmente. Toda doutrina é uma antecipação do futuro. A epistemologia vem desafiando os filósofos durante toda a evolução histórica da humanidade. ”Doutrina” é a moda de pensar de procedesTodas as doutrinas reproduzem um pensamento anterior. quanto as finalidades e metodologia de ensinar ou aprender Não se podem aceitar todas as novidades em matéria de educação. mas algo que se forma no decorrer do processo do saber. Para verificar esses pressupostos. o analisa. de Rousseau a Emilia Ferreiro. não há conhecimento neutro independente do objeto. Todos proclamam que a missão do homem consiste em realizar sua essência. Se o sujeito é histórico. Concepções diversas surgem buscando explicá-la. e com as estruturas disponíveis no estágio de maturação psíquica em que se encontra o sujeito.As grandes doutrinas ou tendências pedagógicas surgiram na história nos momentos em que se preparavam transformações profundas na concepção de homem.400 anos. O sujeito interage com o objeto. acomodar e adaptar os objetos pela ação sobre eles. E preciso analisar as informações e teorias construir um corpo de conhecimentos sólido (filosofia e psicologia). há 2. o conhecimento cientifico não pode ser algo pronto e acabado. Aprender significa conhecer. .chegando-se a conclusão de que só se conhece o que se compreende. O desenvolvimento científico e a organização social dos séculos XIX e XX tem propiciado condições para o debate so5 bre o conhecimento humano. sociólogos contribuem para enriquecer os conhecimentos relativos à ciência pedagógica O compromisso político-pedagógico dos educadores com a democratização do saber exige que se apropriem dos conheamentos específicos dessas ciências para tomardecisões quanto ao conteudoe. pisicólogos. revisitamos os teóricos com os quais aprendemos os conceitos de homem. “Tendência pedagógica’’ tomou-se uma expressão da moda que identifica as idéias e os autores de maior influência sobre o ducador no processo de ensinar ou de buscar uma metodologia própria. para fundamentar a prática pedagógica Aristóteles e os gregos. uma vez que uma das principais atribuições do processo educativo é promover a apropriação do conhecimento acumulado historicamente Por “tendência” entende-se a inclinação do pensameto e comportamentos. entende e reconstrói. isto é. conhecimento. educação e ensinoaprendizagem.m não há doutrina pedagogica totalmente original. que precede de uma revisão e renovação do conceito de homem.INTRODUÇÃO Desde fins do século XIX. biológos lingüistas. mundo. assimilar.

Vygotsky e outros soviéticos. pois. transformando-a a partir do próprio trabalho. O conhecimento mostra-se intimamente ligado às coajdjgões sociais em transformação e aos substratos biológicos do comportamento.). olhar. passa pela compreensão. enquanto Piáget descreve os estágios universais. vemos. tocamos. Wallon. Não é considerado um verdadeiro conhecimento uma vez que precisa ser explicado. sua corrente de pensamento é denominada genético-estruturalista ou construtivista.. que a psicológia genética pareceu ignorar. antes. cada indivíduo. escutar. esse tipo de conhecimento é construído por meio das operações mentais do sujeito sobre os dados obtidos da experiência em relação ao objeto da aprendizagem. fizeram avançar o construtivismo mostrando que no processo de aprendizagem participam também. descritos por Piáget. Isso vai acontecer no conhecimento lógico-matemático. É um novo enfoque dado ao construtivismo. ele interage com objetos cultunis e. o contexto histórico. Pela explicação que Paget dá de conhecimento. o conhecimento acontece pela interação que o sujeito desenvolve no processo de sua ação sobre o mundo.. regras. puxar. não é o mais avançado. ”Nossa pedagogia atual é um complexo de tradições. este é antes resultado da elaboração pessoal. o conhecimento deve ser compreendido como processo em movimento e mudança. A compreensão permite ao sentir tornar-se saber e ao saber tornarse sentir. político e social de. o lógico-matemático e o social. A educação. a intuição concorra para o conhecimento. além dos aspectos biológico e psicológico. Piaget.Para Piaget.] o esforço do homem para compreender a realidade onde está inserido. responsáveis pela unidade. Conhecer faz parte ”da reação instintiva do homem em busca da modificação da própria prática [. ligado à história individual e social. Portanto.. ou seja. os soviéticos os estudam como produto do processo de desenvolvimento humano. mediado pelos esquemas motores e perceptivos (tocar. nessa interação. Considera três tipos de conhecimento: o físico. derivada de nossas experiências: do que lemos. ouvimos. valores. esse conhecimento é específico para cada cultura ou grupo social. No entanto. morder. uma vez que vincula o processo de aprendizagem ao desenvolvimento biopsicogenético do sujeito. Embora. como Leontiev e Luria. um fazer e e faer que só se transforma em saber quando. chutar. envolve a relação eni (dimensão sóciohistórica e política). como prática social. não se limitando aos processos de aprendizagem. Logo. trabalhado em nível lógico ou operatório. dialética de cada estágio do desenvolvimento. O conhecimento físico é obtido pela ação direta do indivíduo sobre o objeto da aprendizagem. etc. Para eles. dando-lhe sentido e significado”.. auxiliada pelos sujeitos com os quais convive. em6 bora seja mais conhecido entre os construtivistas e por muitos tidos como o fundador dessa tendênci. GRAMSCI. mas vivo e dinâmico. de inovações e de . in GRISONI & MAGGGIORI O conhecimento não é estáüco. A criança desenvolve sua lógica pela interação social.) e o transmite para outras pessoas ou grupos (interação social). As mudanças sociais e materiais geram mudanças na consciência do homem. constrói seu conhecimento (linguagem. Como o sujeito é social.

Era importante conhecer como essas informações ligavam-se à nossa formação e prática docente e à perspectiva psicogenética de aprendizagem da leitura e da escrita. Viam as coisas. a concepção predominante era transmitir à criança uma cultura legítima. não somente para compreender a natureza. 1964. pois não víamos nelas sentido. As leituras apontavam a necessidade de observar melhor nossos alunos.reações contra a tradição que não pode ser alcançado pelo espírito senão à luz do conhecimento histórico”. Tal prática não nos impediu de ousar. tinham muito contato com a natureza. ginásio e colegial). que apenas nos havia proporcionado estratégias voltadas para crianças da zona urbana. São Paulo. em que se deu a nossa formação no que hoje é o ensino fundamental e médio (na época. HUMBERT.. O material e as estratégias para trabalhar com aqueles alunos na aprendizagem da leitura e da escrita teriam de ser significativos e próximos..11-2. que faria reencontrar a leitura do mundo (contexto). em que somente os mais aptos tinham sucesso. O que encontramos? Um Rousseau que já havia advertido os educadores do seu 8 tempo sobre a necessidade de ajudar a criança a observar melhor. . do qual os estímulos eram bastante escassos em seu contexto. zona rural de Mirante do Paranapanema.1946 p.” FREIRE.310. Sabíamos que os conhecimentos teóricos eram importantes mas também que era preciso questioná-los. mas para desenvolver a lógica e a razão. para levá-los à leitura da palavra. vivendo no campo e desde muito cedo ajudando os pais na lavoura. os animais. embora nela fossem buscar informações sobre o código escrito. nossos alunos da Escola Mista do Bairro Novo Oriente. mais expostas a experiências de leitura e escrita. Disso veio a compreensão de que. de fugir à regra e não aceitar as receitas da antiga Escola Normal. armas eficazes contra o obscurantismo e o enciclopedismo da época. Retomar com eles a leituta do seu mundo. Procuramos a coerência entre a teoria e a prática para criar estratégias próprias de intervenção pedagógica. E isso nós não havíamos aprendido durante nossa formação.p. e formulavam hipóteses sobre sua realidade muito antes de irem para a escola. Não esperavam esta para se alfabetizar. 7 Nas décadas de 50 e 60. ] daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. primário. Fomos aos mestres clássicos.1985. Voltamos no tempo para rever a lição de coisas e de ciências do mundo de ontem. présistematizada e homogeneizada. Precisávamos pesquisar uma maneira de interessar aqueles alunos diferentes. Como pretender ser a única a ensinar? Qual a melhor estratégia para ensinar a leitura e a escrita a quem já tinha uma riquíssima leitura de mundo? Como impor uma cartilha se nenhuma das que conhecíamos fazia parte daquele contexto social e econômico? “A leitura do mundo precede a leitura da palavra [.

Em educação isso vem ocorrendo com muita freqüência. saber se é compatível com os valores assumidos. o tateio experimental. muitas vezes. baseia-se na teoria de que o indivíduo já possui todos os conhecimentos. plantas. Daí a importância de. Todos os métodos de ensino sofreram modificações em resposta às mudanças de valores da cultura. mas é o tempo que demonstra o seu valor e aceitação. computadores. Essa atitude não ocorre por comodismo. que cada educador trazia. Diante desses novos e constantes estímulos. de forma contextualizada. Nossa cultura não tem memória. uma ação inovadora em termos metodológicos. não um método. é que os métodos de ensino resultem sempre de pesquisa sistemática sobre as possibilidades de ensinar/aprender um mesmo conteúdo. sozinho. Procuramos conhecer os conceitos e teorias em sua fonte opriginaí. mas automóveis. é necessário que o educador.O contexto mudou. visando a ajudar a criança a avançar cognitivamente. As filosofias da educação podem produzir um sistema de valores. O professor deve utilizar fatores subjetivos em muitas decisões de ensino. é gerada pela ansiedade de buscar segurança ou pela necessidade de sistematizar o próprio trabalho. Desconhecem que o interesse e necessidade dos alunos é que devem determinar o que é mais favorável à aprendizagem no momento. criando condições para ele. principalmente o alfabetizador. em textos de fácil leitura. já possui conhecimentos da língua falada e escrita. Todo método novo procura avançar em relação ao anterior. Eles (os conceitos e teorias) foram a gênese de nossa prática. rebanhos. O importante. As técnicas usadas no passado são revivificadas e voltam a ser utilizadas como se fossem novas. que precisava ser analisada. sua proposta metodológica. O método socrático. Como nós. Como afirma Emilia Ferreiro. nossa percepção captava a totalidade do pensamento. o interesse e a interação com os outros. Foi o que procuramos colocar em prática. a sua construção. A influência de Rousseau em nosso trabalho decorre de seu pensamento coincidir com valores em que acreditamos: a criança deve desenvolver-se naturalmente. chegar ao conhecimento. . e imagina os princípios científicos em que se baseia o seu funcionamento. ao se escolher um método. À medida que aprofundávamos a leitura.. mais a possibilidade de extrapolar e questionar seus conceitos. muitos professores esperam obter essa teoria nos cursos de formação e/ou atualização. e a tarefa do professor é guiá-lo para que possa redescobri-los. a criança não está simplesmente esperando que alguém lhe venha fornecer esse conhecimento. entenda que a criança (e o adulto). quando inicia o seu processo de escolarização. pois não existem fórmuIas ou receitas que possam ajudar os inexperientes. Não foi a mera intuição que nos levou a aproximar o aluno do objeto a ser co9 nhecido. Hoje. Foi um período de muitas buscas pedagógicas! Sentíamos que precisávamos nos aproximar das teorias. por exemplo. para nós. A criança não vê hoje flores. o trabalho. Internet e televisão. Não se pode presumir que tudo o que há de novo é o melhor. não deturpada por intermediários. de forma mais ou menos explicita. muitos educadores buscaram novos métodos para o ensino da leitura e da escrita. e assim o fará se oferecermos a ela ambiente apropriado para a observação.

”O grande méri10 to dos filósofos educadores é haver demonstrado plenamente. Há 200 anos Rousseau já lembrava aos educadores"Sempre acreditei que antes de instruir aos outros era preciso começar por saber o suficiente para si mesmo".) vêm incitando os adores a investir em sua formação. que é por onde se deve começar. nossos inspiradores Eles acompanharam as etapas da aquisição da escrita pela criança. de suas relações e de seu destino comum " HUMBERT. seja qual for sua escola. no início do século XX. Em todosos momentos. passar do conhecido ao desconhecido. na Europa Exerceu influência na reorganização escolar e nas metodologias de ensino Esta fundamentada na capacidade criadora do aluno. embora em outros contextos. localizá-las no contexto em que surgiram. o processo de conhecimento não é linear.Corrente pedagógica que surgiu no início do século XX. colocado como centro do universo educacional. (Escola Nova. não desanimam diante da indiferença ou hostilidade dos outros. senão que essa técica requer imediatamente bases ciêncitficas.P. para possibilitar a mudança da prática pedagógica do professor e da escola. proposta por Emilia Ferreiro e Ana Teberosky em obra de mesmo título (1985). Foi um trabalho isolado. Já no início do século XVIII Herbart e Frobel sustentavam que a criança deve adquirir a idéia da forma e compreender a palavra por meio do objeto.310. como o de muitos educadores que. Para quem ousa inovar. à luz do presente. procurávamos estimular e acompanhar seu processo de aprendizagem. p 42 É preciso resgatar a identidade da educação. felizmente. Assistimos à formação de pequenos grupos de estudo e de trabalho que procuramn aprofundar seus conhecimentos e dar maior embasamento ao próprio fazer.baseada em princípios que ajudam o educando a associar cada novo conhecimento ao anterior. Vygotsky. recuperamos as propostas de três grandes mestres. Recentes programas de apoio de Secretarias da Educação no Brasil (Citação: Em 1997. avançar cognitivamente. 1986. Tal afirmação representa uma revolução da teoria e da prática. desenvolvido em parceria com universidades e instituições credenciadas de formação de educadores. individualmente ou em grupo. já estudara a psicogênese e suas idéias estão sendo hoje analisadas. Confrontamos seus estudos e conceitos com a psicogênese da língua escrita.) por ignorar as teorias de Vygotsky ou em razão de um conhecimento superficial . para então revivificá-las e inovar em educação. como teoria. com base em nossa história imediata e passado recente. que a pedagogia não pode limitar-se a uma idéia técnica da educação. Os progressos têm sido grandes para a Educação Básica. Os escolanovistas. a Secretaria da Educação instituiu o Programa de Capacitação (PEC) em serviço para professores e especialistas. o que justifica ir às propostas dos grandes mestres da pedagogia. Exige períodos dedicados a organizar os conflitos e contradições entre a prática e a teoria. Na natureza é possível descobrir as leis ou princípios em que se baseia a educação. descobrir as intenções com que foram formuladas. psicológicas e inclusive uma concepção ultracientífica da natureza. superar o erro. nunca bloqueá-lo. 1946. ROUSSEAU. do homem e da sociedade.

Ajudar o aluno a compreender. Surgiram muitas propostas inovadoras no início do séculoXX. nossos primeiros parceiros na aquisição de novos conhecimentos. GRISONI & MAGGIORI. que não considerava a importância do conhecimento da natureza da criança — o que ainda hoje permeia a prática de muitos educadores. Conseguimos recuperar a história dos teóricos da educação. mas começar a investigar nossa própria história de educadora. sua própria identidade para entender os teóricos e a prática de qualquer escola pedagógica. fizeram sua transposição para a prática sem atentar à nova realidade Daí surgem o psicologismo. compreendidas e 12 . Freinet (o método natural). Freinet articula a teoria com a prática e encontra uma forma original de trabalhar as possibilidades infantis e o mão educativo: o diálogo entre docentes e a troca de materiais didáticos. Foi um recomeçar. Emilia Ferreiro e outros (construtivismo). de modo a identificar o que têm de aceitável e vantajoso. seu método busca despertar o interesse da criança para que esta. uma escola popular. na atualidade. se esforce no trabalho proposto. Emílio. que distorcem a identidade das teorias de educação. aquele que compartilha falas. 1973. É preciso analisá-las e aperfeiçoá-las na prática. in FAZENDA. é um ponto de convergência. o sociologismo ou o filosofismo. O conjunto de idéias. p 32 (grifo do autor). A construção de uma teoria da educação implica que o educador teorize sobre os seus próprios atos. Para mais esclarecimentos. Montessori (as letras móveis). cúmplice”. aparecem nas obras de psicólogos e pedagogos de renome e.1999.delas.) Rousseau é o grande precursor da reforma pedagógica contemporânea. com vida e movimento. por meio do compreender. todos enfatizam a necessidade de conhecimentos para aqueles que pretendem organizar e sistematizar um trabalho pedagógico que leve em consideração o desenvolvimento cognitivo do aluno e a língua escrita. na França. mais que uma reação ao passado ou uma perspectiva para encarar o futuro. não na leitura. Decroly propõe um método global para o ensino da leitura calcado na observação e associação de idéias. o saber não é estático e unilateral mas deve ser visto como um fazer e um fazer-se. uma revisão do passado com as teorizações adquiridas nesse passado. são aplicadas pelos professores na sala de aula. 11 Para Gramsci. Partindo do conceito de ”centros de interesse”. É preciso que o educador recupere. Rousseau critica a educação de sua época. Suas idéias e metodologia. porém revisitadas com os olhos do presente. antes. século e meio mais tarde. "uma contextualização teórica que lhe possibilite articular o lógico com o real" de modo a "trabalhar com a teoria teorizante e não a teoria teorizada".(O termo PARCEIRO (do latim partianu) significa ”o igual. SEVERINO. articular seus interesses com o dominado foi o que levou Célestin Freinet a criar. consulte FAZENDA. 1991. compreendendo os fenômenos estudados. espaços. p 327 O significado de recuperar nosso passado foi o de não mais teorizar de fora.

"o conhecimento não é algo acabado. a realidade. para recriar. Segundo Schaff. Os estudos de Emilia Ferreiro e colaboradores sobre a psicogênese da língua escrita nos ajudaram a entender os processos pelos quais o educando chega às linguagens. p. entendida como mundo concreto. 1986. p. 119. 13-4). mas uma construção que se refaz constantemente". sociolingüística. construir com integridade profissional e autonomia intelectual o próprio fazer e tomar decisões pedagógicas lúcidas em sala de aula. Não simplesmente expor suas idéias. torna o professor um profissional competente. a exploração. abandonadas. 1986. lingüística. cada presente reescreve a história". principalmente à língua escrita. refletir e fazer a propria interpretação do pensamento dos autores. /Para levar os alunos a aprender o mundo concreto. p. do já produzido. Nessa construção (reconstrução) buscamos novas respostas e novas indagações às investigações mais recentes da psicologia. atua por meio do conhecido. como afirmam Lüdke e André. significa a compreensão da essência do fenômeno e precisa ser descoberta. Inova-se com base no velho. 13 Os textos de Rousseau. LÜCKE & AXDRÉ. para Kosik (1976. "cada presente tem o seu passado. mas chamar a atenção para algumas aproximações e questionamentos que apresentam ao trabalho pedagógico atual. A ciência em educação é uma forma de poder porque cria as coisas. no rotineiro. A ciência é um produto social que convive com a dominação. Como o pintor vê a natureza a seu modo e a fixa na tela. as incertezas. buscamos recuperar o discurso de educadores que nos antecederam na história da pedagogia. impelindo-o a modificar sua prática.\DA. . pois. os interesses. Decroly e Freinet visam a dar ao leitor a oportunidade de sentir. percebemos que muitas teorias e idéias que considerávamos novas já haviam sido enunciadas e praticadas — além de. da pesquisa: é ajransfQrmação da insegurança num exercicio de pensar num construir. 18. nas idéias já expressas. para que cada leitor tire suas conclusões. as mentiras. p. fazer "a cisão do único"e captar "a coisa em si"pelo pensamento. 18. visando ao progresso. "decompô-la". Para perceber a totalidade é necessário "isolar" a realidade. para que realizem uma opção crítica a partir das dúvidas e incertezas do que conhecerem: os dados levantados. infelizmente. SCHAFF. As idéias dos educadores considerados clássicos apontam caminhos para uma prática interdisciplinar. Acreditamos ser esse o caminho para conseguir a coerência entre a teoria e a prática. reconstruir ou recuperar o saber acumulado através dos séculos. enquanto outras vão sendo abandonadas. pois "não se manifesta diretamente". 1991.." FAZE. aproximar dele nossos educandos (futuros mestres).) é preciso mergulhar cientificamente no passado.aprofundadas. as /teorias estudadas e todo conhecimento que cada um já possui. psicolingüística. Ao estudar os antigos. É preciso aprofundar o estudo dos clássicos e verificar como suas idéias principais permanecem em nossa prática. banindo qualquer dogmatismo. "O que caracteriza a atitude interdisciplinar é a ousadia da busca. etc. )A REALIDADE. por razões diversas.

na medida em que se faça essa ponte entre o antigo e o novo.] E. p 20 14 . não preparado.Segundo Bochniak. ”é importante a percepção de não se desprender do antigo [. Apud FAZENDA. 1992.. o que se pretende não é a eliminação do velho e muito menos da insegurança.. mas a simples consciência da perplexidade do homem. enquanto (sempre) fazedor da História — enquanto (sempre) pesquisador (ainda que muitas vezes não consciente ou não investido. não autorizado a isto) — e do caráter ético subjacente a seus (perenes) papéis”.

mas. o conhecimento conforme as necessidades do educando. é preciso vê-los agir. nas tradições sem sentido da escola e na ignorância da infância. O verdadeiro amor pelas crianças e pela liberdade nele revelado o tornam um romance pedagógico para todas as gerações de educadores) As formas de relacionamento do homem com a natureza e com a cultura sempre estiveram ligadas às modificações socioeconômicas e políticas. na relação educador/educando. gerando inimigos e perseguições a Rousseau propósito de Emílio é forma um homem livre.. mostram os seus discursos e escondem as suas ações. pois. Nele. sobretudo. não apenas descreve a necessidade do relacionamento homem/natureza.1 Recuperando Rousseau. ao preconizar o retomo às origens do homem como ser que naturalmente conhece. Suas idéias de homem. elas são desvendadas e julgamo-los pelo que fizeram. É considerado um tratado sobre a educação. infância e conhecimento possibilitaram construir os conceitos de jardimde-infáncia. 1990b. fornecendo-lhe os meios para que construa seu próprio conhecimento. Revendo Rousseau hoje. quando se pensa na influência que exerceu (exerce?) na educação. bastante minucioso. ao qual apenas um pequeno grupo tinha acesso. p 39 Recuperar Rousseau representa a tentativa de esclarecer equívocos pedagógicos que a leitura de um clássico como Emílio suscita. vê-se o que são e o que querem parecer: quanto mais se disfarçam. sentimo-nos À reconstruindo a educação. 16 Embora o próprio Rousseau afirme que não é um tratado de educação. demonstrar como educar cietificamente uma criança. na História. Emílio é um romance pedagógico que combate as teorias tradicionais de ensino. Sua proposta está alicerçada não nas formas da sociedade. como tenta ser veículo que mostra tanto as desigualdades sociais da época. a idéia de que toda educação deve partir da criança. Muitas teorias da educação não priorizam essa relação. comparando o que fazem com o que dizem. Causou grande revolução nas idéias da época. Ao romper com a proposta de ensino . foi apresentado como um novo sistema educacional. Mesmo os seus propósitos ajudam a apreciá-los..(citação: Emílio foi publicado pela primeira vez em 1762. ouvimo-los falar. como a necessidade de uma nova proposta educacional que priorize a aprendizagem como processo de vida. Com sugestões simples. Por várias décadas suas idéias foram vistas como coisas do passado e não como elementos do presente. mais bem os ficamos a conhecer. metodologia e. o que leva a um ensino descontextualizado. Nosso fazer didático sofreu influência dos pressupostos rousseaunianos que mostram a possibilidade de uma educação transformadora. mas no conhecimento da verdadeira natureza do homem. cujo objetivo é atingir. do que ela é. trabalho na escola. Rousseau procura. Para conhecer os homens.JEAN-JAC QUÊS ROUSSEAU. na procura de caminhos para minimizar as injustiças econômicas e sociais — geradas fora da escola mas que nela se refletem e expressam. No mundo. Emílio denuncia o ensino elitizante. Emílio.

Foi o que fizeram os enciclopedistas: o reexame de todos os conhecimentos e problemas do presente e do passado. o absolutismo dominava a Europa. marcada pelo aumento da produtividade no campo. Em Emílio. iluminados. que desse ao homem consciência de si mesmo e de suas potencialidades. florestas e lagos. Os avanços técnicos propiciaram o desenvolvimento de uma mentalidade que. ou melhor. em vez de celebrar o ”progresso das luzes”. Inglaterra e Alemanha.vigente. viessem a ser esclarecidos. rejeitava as velhas idéias e os antigos valores — e começava a confiar no progresso e em um novo mundo 17 que estava para ser construído. preocupa-se mais com o processo do que com os resultados. . é difícil enquadrá-lo aos iluministas. desencadeando a Revolução Industrial. O aperfeiçoamento das máquinas de fiação e tecelagem mais á invenção da máquina a vapor e da locomotiva alteraram profundamente a economia. Ao escrever para um aluno imaginário. ao moderno. propõe a mesma reconstrução por meio da educação. Nessa época. Rousseau é utópico. cede lugar definitivamente ao novo. afirma que as necessidades criadas eram fontes de escravidão e inimigas da moral: ”Tudo o que distingue o homem civilizado do selvagem é um mal”. a poesia das montanhas. em quaisquer setores. Havia a expectativa de que todos os problemas. Para a filosofia. principalmente na França. para ”iluminá-los”. possibilitados pelo acúmulo de capital no século anterior. Em A nova Heloísa destaca as delícias da virtude. seria o fim da superstição e da ignorância. milhares de pessoas deixam a agricultura e entregam-se ao trabalho nos ateliês. O contrato social é um plano para a reconstrução das relações sociais da humanidade. por obra do homem. tornava-se necessária uma nova avaliação do conhecimento acumulado. Como todo transgressor. pois. o prazer da renúncia. A autoridade dos antigos clássicos do pensamento e da arte. Melhoram as condições de vida em muitas regiões e a população cresce em proporções nunca antes atingidas. animada pelos êxitos das ciências. Embora Rousseau critique a ordem estabelecida. abalada desde o Renascimento. Para análise e transformação do mundo. exigindo do educador que ele mesmo construa o processo pedagógico. O homem tem de sair de si para a si mesmo chegar. adotando uma posição que vai influenciar a Europa e todo o Ocidente: acabar com a falsidade social. Rousseau opõe-se à sociedade. pela urbanização e desenvolvimento da atividade artesanal. tem de obter o seu eu para atingir o outro. Desenvolvem-se grandes cidades. mostrando a possibilidade de formar um novo indivíduo e uma nova sociedade. ROUSSEAU: CRÍTICO DO PASSADO E PRECURSOR DA EDUCAÇÃO MODERNA Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) viveu num período de grandes realizações intelectuais. Rousseau resgata o ”bom selvagem”. Sentindo-se estrangeiro em sua própria época.

1983. todas as ervas da terra. XVII François Rebelais / (1495-1553) Histórico Crítico da escola do seu tempo. voltado para a formação do homem integral. que não fique mar. tudo te seja conhecido. Rousseau propõe a simplificação do processo educativo. etc.) (citação) ROUSSEAU. XVI. nesse período. Rousseau condena o progresso dizendo que as artes infundem a hipocrisia entre os homens. principalmente as chamadas Escolas Novas. Idéias/propostas pedagógicas — Método de ensino atraente. Com freqüentes anatomias adquirir o conhecimento perfeito do outro mundo que é o homem. que iluminaria com a razão o obscurantismo da tradição. que satiriza a educação formalista. ridiculariza a educação escolástica e formalista da época.) 18 Idéias e propostas pedagógicas de autores dos séculos XV. — Conhecimento tirado da natureza e não dos livros. todas as árvores. além de criar depravação moral. fundamentadas em valores como o respeito à personalidade. obra monumental. todos os metais ocultos em seu seio. influencia e determina aonde a criança deve chegar. Comenius. sendo o primeiro a escrever sobre elas. todos os pássaros do ar.. (citação O século XVIII também é conhecido como o ”século das luzes” ou ”do iluminismo”. as pedrarias do Oriente do Meio-Dia. p. criando uma espécie de conformismo histórico. Montaigne. propõem uma educação que dirige. Ele próprio recebeu influências das tronas dos humanistas Rabelais. Gargântua escreve a seu filho: ”Quero que te dediques a teu estudo cuidadosamente. Foi o precursor do realismo e do naturalismo na pedagogia. pitoresca no vocabulário e no estilo. vida ao ar livre e prática de exercícios físicos. Em todas encontramos enunciados da proposta rousseauniana. Suas idéias pedagógicas estão em Pantagruel e Gargântua. — Educação alegre. em ambiente de liberdade: primazia ao desenvolvimento do corpo. Embora tais escolas pareçam libecâs. rio ou fontes cujos peixes não conheças. Locke e propostas renovadoras para a educação do seu tempo. paixão pela justiça e culto à verdadeira ciência. e cita exemplos de povos aos quais o progresso das artes (ou civilização) corrompeu. demonstrando grande amor pela humanidade. à espontaneidade da criança e a inteira confiança na natureza.. risonha. 337-436.” Michel Eyquem de Montaigne 1553-1592) . muitas outras pedagogias foram objeto de nossos estudos. arbustos e árvores dos bosques. insurgindo-se contra o artificialismo e as convenções da sociedade.Mais de trinta anos nos separam da primeira leitura de Emílio e. E o fez com tanta clareza e originalidade que ainda hoje sua comcepção de educação é bastante atual. baseada na aprendizagem das palavras e submissão às regras.

a famosa Didática magna e Orbis pictus. escolher e discernir por si mesmos. Jan Amos Comenius 1592-1670) Histórico Um dos mais notáveis pedagogos do século XVII e um dos maiores da história. Foi o fundador da Didática e. as ações mais que as palavras. Trabalhou nas escolas de Lissa (Polônia). da pedagogia moderna. Nessa época..] não conhece de si senão uma aparência obscura e sombria. como Janua linguarum (”Pórtico das línguas”). deve-se atentar para a formação do juízo. a tolice de um criado. Suas teorias foram ampliadas por Locke. e. em 1651. 19 Elogiou a grandeza da condição humana. em 1654. interessou-se principalmente em saber como ele é: ”Outros formam o homem. — O ensino das coisas é bem mais vantajoso que o das palavras. mas em assimilá-los. e Patak (Hungria). as quais exigem que o livro do meu aluno seja o vasto mundo. Influenciado pelas idéias de Bacon e de Ratke. por acréscimo. polemizando contra as escolas da verbosidade. uma discussão de sobremesa são outros métodos de ensino”. ”Que nosso discípulo esteja bem apercebido de coisas. — Na instrução. o mestre deve mostrar aos discípulos ”o exterior das coisas. Critica o abuso dos livros. Suas teorias são profundamente atuais. Seus trabalhos chamaram a atenção do mundo contemporâneo. em parte. Suas opiniões e princípios nascem de idéias bem definidas só bre o homem. escreveu algumas de suas obras principais. só se formam bons carregadores de livros”. fim último a que se deve dedicar a educação. Seus Ensaios trazem algumas das páginas mais brilhantes sobre a educação da época. as lembranças pessoais lhe serviram de orientação para suas críticas e propostas. — O conhecimento é apenas um instrumento na formação do juízo. Segundo ele. é o maior representante do humanismo francês. Afirmava: ”A ciência começa nos sentidos e neles se resolve”. sobre os limites de tal ciência: ”A natureza humana [. virão depois as palavras.Histórico Escritor e moralista. ”tudo o que se nos mostra à vista é suficientemente livre: a malícia de um pajem. Idéias/propostas pedagógicas — Aprender não consiste em amontoar conhecimentos. fazendo-os experimentar. Daí a frase: ”Mais vale um espírito bem formado do que uma cabeça bem cheia”. caso contrário. deixando-lhes liberdade de buscá-lo”. contribuiu para a reforma da educação em vários países. preparando-lhes o caminho. A educação pode ser ocasional. Embora não tivesse experiência direta de ensino.” — A instrução deve ser adquirida pela experiência. uma visão incerta e insegura”. eu o descrevo” É considerado o precursor das modernas tendências pedagógicas. os educadores nunca deveriam esquecerse de que ”não há nada melhor que despertar o prazer e o amor pelo estudo.. sendo o pioneiro em aplicar um método que desperta .

que inclui não só as boas maneiras como o domínio das paixões. artes e línguas. e Alguns . medindo. cantando. • escola única. No plano da prática didática. dividida em oito graus. do corpo pela medicina e dos bens externos pela jurisprudência. a intuição e a memória — com seus órgãos executivos —. que. humanista. da inteligência pela filosofia. da escola maternal à universidade. ou bons costumes. isto é. É necessário buscar a unidade do conhecimento por meio de: • método natural. e a sua sistemática adequação às capacidades infantis são o grande tema da pedagogia de Comenius [. 1989. a mão e a língua. ricos e pobres. etc. ou religião. gramática e demais ciências e artes de utilidade prática. salienta Manacorda. e a piedade. que compreende o conhecimento de todas as coisas. 220-1). • gradação e continuidade da educação. a veneração pela qual a alma do homem se une ao Ser supremo. — A escola maternal é fundamental e deve cuidar principalmente do exercício dos sentidos externos. uma escola para todos. — A educação deve atingir a todos. por ter contribuído para a reforma da educação em vários países. As universidades destinam-se ao cultivo da alma pela teologia. 21 John Locke (1632-1704) Histórico Grande filósofo e não menor psicólogo. experimentadas desde o humanismo: areforma escolar dacultura. ensine tudo a todos totalmente” (Manacorda. sobretudo no pensamento inglês Escreveu Ensaio sobre a mente humana. p. da política e da moral.. Idéias/propostas pedagógicas — São fins da vida e da educação: o saber. que tentou de vários modos. todos educados conjuntamente nos mesmos estabelecimentos (antecipa a idéia de escola democrática). Comenius propunha a pesquisa e a valorização de todas asmetodologias que hoje chamaríamos de ativas. 20 Sua obra sintetiza o velho e o novo da pedagogia: ”A reelaboração de toda a enciclopédia do saber. por meio de dialética. escrevendo. orbis scihttium. Isso pressupunha uma nova sistematização de todo o saber. teoria empírica do conhecimento. com base na observação e na experiência. médico e professor. conforme o desenvolvimento do homem. lendo.” No ginásio deve-se trabalhar o entendimento e o juízo.]. cujo conteúdo muito contribuiu no campo educacional. ”Nada há no intelecto que não tenha antes passado pelos sentidos. a imaginação. propõe uma escola para a vida toda (desde o seio materno até a morte). A escola comum deve cultivar os sentidos internos. pesando. dotou-o a natureza de um fino espírito de observação que de muito lhe serviu para adquirir a experiência pedagógica revelada nos seus escritos e para formar idéias que tiveram larga repercussão. a virtude.crescente interesse no aluno. É conhecido como Mentor das Nações.. meninos e meninas. pintando.

ampliando as idéias de Rousseau. ”É ela que produz as diferenças entre os homens [. Ressoueau foi o profeta que denunciou os males do passado. nas delicadas análises de Montaigne. Ao apoiar-se nos paradoxos de Rabefcrê. Formulou a teoria empírica do conhecimento. incluindo o próprio Rousseau. mas despertar neles amor e respeito pela ciência e colocá-los no caminho certo. conforme mostra o quadro a seguir. Freinet e outros. isto é. não se consegue educar os jovens com castigos duros. e antecipou. onde podem conseguir conhecimentos e aperfeiçoar-se. Pestalozzi.pensamentos sobre educação. Muitos filósofos e educadores antes de Rousseau criticaram o enciclopedismo. muitos dos quais transformaram em procedimentos os seus devaneios: Basedow. mostrando que as raízes do conhecimento devem ser buscadas no próprio homem. na Alemanha.” O educador deve estar consciente de que ”sua tarefa não é tanto ensinar aos jovens tudo o que os homens podem saber. montou um curso de pedagogia tão completo que permitiu dispensar até os estudos na universidade.a vino do moderno. Idéias/propostas pedagógicas — Na educação. Rousseau ama delineando uma nova concepção de ensino. — Inverteu todas as idéias e princípios educacionais da época: saúde e disciplina corporal têm primazia sobre o saber e a eloqüência. ainda que vagamente e em esboço . Decroly. ou filosofia baconiana: todo conhecimento vem dos sentidos e do intelecto. três são os aspectos a ser considerados: o físico. como ser total e uma totalidade. Dewey. título modesto de uma das mais célebres e originais obras educativas. porém. Fundou em Dessávia o Instituto Philantropium.. Lutou pela reforma completa nos métodos de ensino e no preparo de professores. para formar professores. Foi. Em 1775. tentou reformar a educação.. de acordo com a natureza racional do homem.] E isso. destinado ao desenvolvimento da . Frõbel. bem diferente das escolas do século XIX. mas por meio de jogos adequados podese ajudá-los a aprender a viver. na intuição de Gomenius e na proposta utilitária de Locke. Locke quem a recuperou. etc. virtude e saber. — Princípio epistemológico: a educação tem grande poder. aos quais devem corresponder três objetivos: vigor do corpo. da experiência. Foi o precursor e inspirador 22 dos reformadores da educação. o moral e o intelectual. Seus Princípios elementares (1774) constituíram-se num sistema completo de educação primária. se quiserem”. Montessori. a educação como exercício da memória e acúmulo de conhecimento. As idéias de Rousseau na prática de pedagogos dos séculos XVIII e XIX Jobann Bernhard Basedow 1723-1790) Histórico Notável educador alemão. cuja influência é notória nos escritores que o sucederam.

Na moral: dar bons exemplos e resguardar o educando da prática de maus hábitos. em princípio. e influenciaram largamente os métodos de educação da época. a história é despojada de datas e de tudo que se refere à erudição. Idéias/propostas pedagógicas — A pedagogia de Basedow propõe oferecer: • educação nacional e independente das religiões. pintura. Seu livro Investigações sobre a marcha da natureza no . e toda bênção humana está fundada neste sentido da siinpiicidade e da inocência”. Ainda jovem. julgá-la corretamente e apontar caminhos educacionais que. tornando-se a mais importante experiência pedagógica na Europa (1774-1785). um revolucionário cheio de entusiasmo não só pelas obras de Rousseau como pelas de todos os demolidores sociais e políticos. A filosofia de seu Instituto era a dedicação ao próximo. a geografia vai do quarto à casa. dois séculos após a sua morte. Soube perceber a situação política do seu tempo. porém mais promissor. seguir ”a verdade do mais íntimo de sua natureza”. com visitas freqüentes às oficinas e fábricas. ainda são válidos. 23 Johann Heínrích Pestalozzi (1746-1827) Histórico Pedagogo por índole. conhecimento da vida prática: fatos e não palavras. pela educação. no qual já delineava suas idéias sobre a reforma política. Era seu aforismo predileto: ”Aprender pouco — e esse pouco. à cidade. Preferia um caminho mais lento. com conseqüente melhoria de sua situação econômica. vivenciou as discrepâncias entre as idéias e a realidade dos problemas sociais. com pouco êxito Como Rousseau. Considerava a instrução menos valiosa que a educação. ciências e línguas sem teorias. dança e até acrobatismo). — Preocupação central: noções de vida real. Em plena Revolução Francesa. Se este se orientar ”pelas necessidades de sua natureza”. • método intuitivo e recreativo. social e moral. o paciente educador suíço alcançou reputação universal pelos esforços dedicados a melhorar a educação e a instrução das crianças pobres. só em aplicações e na natureza. estará no caminho certo e verdadeiro.inteligência dos alunos. ao país todo e depois às várias partes do globo. educando o próprio filho segundo os preceitos rou&seaunianos. obediente à verdade. — Valoriza a educação física. sempre brincando”. para uma sociedade mais justa e humana. música. Seu filantropismo influenciou e sugeriu a pedagogia de Pestalozzi. Foi. — Dos 8 aos 12 anos apenas lições de coisas. vê o homem originariamente bom. Tornou-se conhecido com a publicação do romance Leonardo e Gertrudes (1781). Toda sabedoria humana ”baseia-se na força de um bom coração. • cultura utilitária. Entre suas principais obras estão: Manual elementar ott Coletânea metódica dos conhecimentos e Discurso sobre escolas. aboliu a gramática e a retórica. trabalhos manuais e artes (desenho. com total desprendimento pessoal. impressionou-se com a leitura de Emílio.

colégio conhecido internacionalmente. . fornecendo os germes das idéias educacionais modernas. estou longe do conhecimento dessa ciência. estimulante da atenção. essencialmente e em todas as partes. Os exercícios de ginástica devem ser freqüentes e variados. Fundou. ”O pobre deve ser educado” e levado a ”autoeducar-se”. Obviamente. porque a ”intuição” é tanto mais clara quanto maior número de sentidos a perceberem. Fróbel e Herbart.” 3. dizia. — ”A arte da educação deve ser. que deve desenvolver a sensibilidade. França. Influenciou a pedagogia da Alemanha. alternar os trabalhos manuais e as excursões às montanhas.desenvolvimento do espírito humano conferiulhe o renome de pensador e pedagogo erudito.” — Propõe ligação rigorosa entre os ensinos sucessivos. partindo do conhecido para o desconhecido. Sua mais importante obra pedagógica é Como Gertrudes ensina a seus filhos. base de todo conhecimento. Estabelecendo a relação entre as práticas tradicionais da sua época e o desenvolvimento natural definido por Rousseau. em 1805. Vale mais o desenvolvimento intensivo das faculdades do que a extensão dos conhecimentos. habituemos. Destaca a importância da formação e não da mera instrução. Ela se encontra apenas como idéia na minha alma. do concreto para o abstrato. com os estudos. — Todos devem ter direito à educação. 2. Inglaterra e Estados Unidos. aprofundador. A missão do educador é ajudar o indivíduo a desenvolver de maneira mais completa sua natureza. seus colaboradores. A intuição. Considera que qualquer conhecimento deve ser aplicado a outras situações. Idéias/propostas pedagógicas — Seu método dá ênfase à atividade do aluno. portanto. o Internato de Yverdon. De nada vale. Seu princípio é a observação. do particular para o geral. juntar o poder com o saber. 4. Tudo ativo. a criança a observar. reduziu os exageros para reconhecer os fins humanos e o fim social da educação. O saber e o saber-fazer. — Entre os princípios do método pestalozziano destacam-se: 24 1. É preciso aliar ao saber o poder. elevada a uma ciência constituída pelo mais profundo conhecimento da natureza humana e constituída sobre ele. O amor. ”Saber e não saber fazer é talvez o presente mais temível que um gênio malfazejo tenha feito à nossa geração. O poder. é necessário que nossas idéias venham acompanhadas da ação que as exteriorize. e seus discípulos as extraíram de seus escritos e processos de ensino. a mentalidade e a capacidade física. Nada de ensino mecânico e verbalista. iniciando-o pelo conhecimento de objetos simples até chegar aos mais complexos. às noções teóricas a habilidade prática. Jamais formulou suas idéias pedagógicas. As relações entre professores e discípulos devem ser amorosas.

O aluno. os métodos de nossas cartilhas eram. avelãs. A geometria era ensinada experimentalmente. Mas. abriu em Blankemburgo uma escola educação infantil. algumas merecem atenção. — O estudo da aritmética era experimental e feito por meios concretos. por aumento gradual de complexidade do material. não visível a si próprio como o próprio rosto que só pode ser contemplado no espelho. Em 1817. Embora influenciou pelas teorias de Rousseau e Pestalozzi. colocadas num cartão de modo que. levar a criança à compreensão simétrica e ordenada de toda a matéria. . ou ”parte-to elaborada por Pestalozzi. Em geral. etc. Cada ser é um núcleo necessário e essencial da humanidade: possui o infinito em forma limitada e o eterno em aspecto temporal. Foi totalmente independente e crítico. Na observação da infância”. fazia adições de objetos reais — nozes. sem papel. delineou os rumos da pedagogia contemporânea. As palestras ou contos da mãe e dois periódicos. Em 1840. começando pelo estudo das vogais. Os primeiros cálculos eram mentais. Para a leitura. botões. mas o cultivo da verdadeira humanidade e o desenvolvimento espiritual de cada indivíduo. O aluno começava cedo a aprender a ensinar. o Instituto Uruve sal Alemão de Educação. o adulto vê como num espelho sua própria infância distante. Suas principais obras são: A educação do homem (na qual desenvolveu os princípios filosófico-antropológicos da sua pedagogia). 25 Fríedrich Frôbel (1782-1852) Histórico Educador alemão. apoiado por fanáticos pelo seu saber pedagógico. Ao considerar que ”toda vida é unidade e o homem um criador”. aproximadas umas das outras. e nunca deixou de pregar a necessidade de respeitá-la. depois. que intitulou Kindergarten (jardir de-infância). em Griesheim. dos esforços de Pestalozzi em analisar a matéria em seus elementos mais simples e. resultado direto. O educador que considera a humanidade no homem como sujeita a um contínuo desenvolvimento está sempre aberto a novas perspectivas. embora não imediato. As famílias educadoras e Vivamos para os nossos filhos Apesar da fragilidade e obscuridade de suas idéias. É considerado o fundador da pedagogia do brinquedo e do jardim-de-infância. achava indispensável saber falar. Ao individualismo do primeiro propôs a doutrina da unidade. que administrou com dificuldade. desenvolveu sua pedagogia inspirado nas idéias de atividade e liberdade. até bem pouco tempo. que reformulou e ampliou. antes de saber ler e escrever. empregava letras móveis. fundou. Idéias/propostas pedagógicas — O fim da educação não é a vida prática nem a abundância de valores intelectuais. Foi um dos primeiros educadores a buscar um nétodo para a educação da criança pequena. antes de conceber abstratamente os números. formavam as sílabas.— O ensino da leitura e da escrita era feito por meio do método sintético.

John Drwey 1859-1952) Histórico Educador. palestras. As atividades manuais e a aplicação adequada de objetos concretos. criou uma escola experimental famosa na Universidade de Chicago (1894-1904). linhas e pontos. A criança e o programa escolar. ”Toda a educação seja socializada: a tríplice unidade moral da escola pode enunciar-se: fim social.. porém. 3. porque são um jogo. pauzinhos. É preciso que exerça seus sentidos com liberdade. 26 Princípios gerais: 1. que se propagou por todo o mundo a partir da primeira metade do século XX. — Idéia fundamental em seus jardins-de-infância: os brinquedos e os jogos simbólicos ajudam a exteriorização do pensamento e a construção do conhecimento. 4. apesar de bastante ricos. 2. cultura de jardinzínhos. acompanhados por cantos que representem cenas da vida cotidiana.. A criança gosta de observação e de movimento. É o criador do chamado Método dos Projetos. são o melhor caminho para a criança desenvolver-se de modo sadio e natural. poesias e contos.] vida social simplificada [.] A escola é antes de tudo uma instituição social [. 3. 5. do cotidiano infantil. jogos e ginástica. que propõe substituir a ação dos professores pela ação dos alunos. quer apalpar tudo o que vê. Cada criança tem a sua individualidade e índole. Sua obra acentua as relações e a interação entre a vida social e a vida escolar. ] O professor é empenhado não somente na formação dos indivíduos. etc. argolas. mas na formação da justa vida social. tanto de crianças como de adultos. cartões. dobradura. não devem. caixas de areia. emprego de sucatas (ervilhas. filósofo e psicólogo norte-americano. recorte e colagem. tecedura. 4. força social [. Seus materiais de jogo e ocupação. modelagem com argila. 2.).. propondo as atividades: caixa quadrangular. ocupações. ser entendidos como algo concluído.” . dignas de respeito. etc. Interesse e esforço na educação. A educação deve começar antes dos seis anos.. principalmente para as crianças das classes menos privilegiadas. a reconhecer as relações dos objetos entre si.. Partindo do concreto para o abstrato. como também o respeito aos homens e a Deus. Suas obras Democracia e educação. Frõbel decompõe o sólido em superfícies.. Só as atividades manuais satisfazem as crianças. mas como uma semente que deve brotar e crescer na alma dos homens. Meios educativos: 1.— A escola deve levar o educando a reconhecer e adquirir consciência da essência e vida interior das coisas e de sua própria personalidade. prendas. A escola e a sociedade e outras serviram de base ao movimento chamado Escola Nova. brinquedos e instrumentos de trabalho (tudo muito colorido para educar a atenção e orientar os sentidos).

2. ou. Não deve haver nenhuma separação entre vida e educação. As crianças devem ser preparadas para a vida. em condições integrais. entre a idéia de que educar é fazer expandir as inclinações naturais e não levar o aluno a vencer essas inclinações. projetar. substituindo-as por hábitos. exerceram infulência universal. Suas teorias e práticas pedagógicas. iniciou a prática. Antropologia pedagógica e O método da pedagogia científica. é uma das maiores representantes da pedagogia científica moderna. produção e sociedade. Deve compreender. Observando os defeitos das escolas comum. (u)riting (a)rithmetic (ler. A escola deve assumir a feição de uma comunidade em miniatura. A educação deve ser “uma contínua reconstrução de experiência”. 3. A fórmula de sua pedagogia – aprender fazendo – resume a adeqüação dinâmica que propôs a fim de que a escola estivesse voltada para a mudança. “Vida. muito coerentes. 28 Estudou profundamente a psicologia experimental. visando a propósitos comuns. transmitidos por pressões externas. escrever e contar). Idéias/propostas pedagógicas Princípios gerais: 1. e educação são o mesmo. 4. estimando em situações de comunicação e cooperação entre as pessoas. Publicou. experimentar e conferir os resultados das aprendizagens. .27 Sintetiza a história passada e futura da escola. Como sistema social. propôe às crianças de inteligência normal os mesmos processos empregados na educação das anormais. É comsiderado um dos mais gentis observadores das relações entre educação. Dedicou-se à pedagogia terapêutica e à educação das crianças anormais. a escola deve estar conectada com a vida social e com o trabalho de todas as outras instituições. Maria Montessori (1870-1952) Histórico Médica e pedagoga. no qual predominava aseparação das matérias e dominava a discriminação e a seletividade. Em 1907. Sistema didático: Estabelecer oposição entre dois conceitos: o do que educar é promover o desenvolvimento “de dentro” e não a formação por elementos “de fora”. definindo o sistema de insturução tradicional como a escola dos três erres: reading. entre outros. abrindo a primeira Casa dei Bambini. realizando numerosas observações antropológicas em escolas primárias.

não pelos professores que teve. se faz passo a passo. A concretização desses direitos conduz aos dois princípios básicos do seu método: despertar a criatividade infantil por meio do estímulo e promover a auto-educação da criança. uma ”junção impossível” mas que procura recuperar na prática. À semelhança do bom jardineiro de Rousseau. Guiado em parte por sentimentos pessoais e em parte por simpatia pelo povo. para a formação do todo. ao preparar o homem desde criança para a vida na sociedade — a qual deve considerar as necessidades e condições que este tem como ser livre. propondo a educação do interesse natural em oposição ao esforço artificial. mas por aquilo que ele mesmo realizou [. O constante ir e vir do homem. ou seja. em vez de por passividade e imobilismo. não atuando diretamente por meio do diálogo pedagógico. o conhecimento como desenvolvimento interno e não como acréscimo externo. para agir eficientemente sobre o que . médio e superior. no homem selvagem e na capacidade deste para realizar o seu próprio bem na vida. Ao trabalhar tais conceitos.] A disciplina deve nascer da liberdade. O ensino é individual e os estímulos para o desenvolvimento psíquico são externos. Ela está presente na obra dos seus seguidores. Rousseau destaca o poder da educação como construção e necessidade de despertar a curiosidade e o in29 teresse da criança para chegar ao conhecimento. na nova maneira de fazer e entender educação — nas quais é tão importante desenvolver o corpo quanto a inteligência da criança.. o homem busca compreendê-lo para transformá-lo com base nas limitações de seu estado social. baseando-se em suas experiências e observações. o que confirma a unidade indispensável entre conhecimento teórico e prático. para Rousseau. predomina um ambiente favorável à educação. o educador montessoriano promove o desenvolvimento da criança. diz.. As matérias e as lições comportam uma extrema discriminação. Tendo encontrado o mundo já construído. à liberdade e à autonomia. seu contato com a realidade de forma indireta.O trabalho faz parte de sua pedagogia. fornecendo-lhe meios adequados de trabalho. sendo a realidade um fenômeno objetivo.” 2. produto dessa realidade. A influência de Rousseau ocorre na teoria e na prática de pré-escolas. ”Um homem é aquilo que é. A concepção de sua didática é analítica. escolas de ensino fundamental.. mas da oferta de meios adequados para a autoformação da criança. e o homem.. fundamenta sua proposta na natureza. importante e único. Rousseau nos remete ao que o homem deveria ser. Pela ênfase que dá ao sujeito e a sua formação natural. Observação científica do comportamento infantil e realização dos direitos da criança: direito a vida própria. a educação por trabalho e ação. levando-a a aprender a ser dona de si mesma.] só a criança é a educadora de sua personalidade [. Considera que tudo na natureza é ordem e harmonia. É preciso muita arte. em que o educador mantém-se em segundo plano. deixa clara a oposição entre indivíduo e sociedade. Idéias/propostas pedagógicas Princípios educativos: 1.

Rousseau reconstitui a história da evolução humana. tem sua própria história. sobre as oportunidades que a natureza oferece ao homem de experienciar. ao contrário. é um ser concreto e real. com suas características e necessidades. o trabalho livre e disciplinado. sem o que não conseguirá o equilíbrio externo para enfrentar a vida. muito especialmente. em Emílio. Se a primeira não depende de nós e a das coisas é em parte dependente. etc. ambiente adequado. Deve haver equilíbrio entre o desenvolvimento físico e o cognitivo. filósofos e pedagogos buscaram métodos e técnicas para ensinar. volta sua preocupação para a própria conservação. construtiva e crítica. um ser livre. retornando às origens do homem. é sujeito a poucos males. para mostrar que o conhecimento é um processo interno. Deve ter início desde que a criança nasce e passa a ter contato com o mundo. que. tais métodos têm ajudado a escola a deixar de ser o que era: um campo . . deve demonstrar o quanto o significado dessa história contribui para o desenvolvimento do indivíduo. tem condições de viver uma completa felicidade. intelectuais e afetivos — o que torna mais complexo o trabalho educativo. a criança e sua formação como indivíduo livre para querer. a educação pode assegurar o livre desenvolvimento das faculdades naturais do educando. vivendo na simplicidade. a apropriação e a construção — individual e coletiva — do saber. ser situado no tempo e lugar. a iniciativa. uma vez que a criança não entende os valores que se lhe impõem. reconstruí-la de forma calma. sem cair no artificial que a sociedade impõe. o homem. provenientes de três instâncias: a natureza. É uma arte que requer observação constante. toda educação dogmática tende a fnossar Partindo da premissa filosófica de que o ”homem é naturalmente bom”. O verdadeiro indivíduo precisa valorizar-se e equilibrar-se internamente. que desde cedo constrói suas próprias experiências. cultivando o que tem em comum com os animais e plantas. A verdadeira educação deve encaminhá-la para essa liberdade natural e. personalidade preparada. compreensiva.. A PROPOSTA EDUCACIONAL DE ROUSSEAU A criança não é um adulto em miniatura. a liberdade de expressão. ser que naturalmente conhece. limitando sua interferência apenas à manipulação do meio. O ponto de partida será sempre o sujeito.ainda resta de natural. Como exemplo toma o modo de vida do homem primitivo. as pessoas e as coisas. os homens e as coisas. Durante séculos. Se não há perversidade original no coração humano. físicos e morais. privilegia. da psicologia da criança. sinal de que a escola ainda não contribuía para os verdadeiros saber e saber-fazer. ao desenvolver seu corpo. que acontece de dentro para fora. pensar e proceder. e o de chegada. da mera transmissão de conhecimentos. com o progresso das ciências e. uma intenção. a educação exige ação planejada que propicie ao homem a experiência do real. Rousseau considera três tipos de educação. não podendo restringirse ao ato mecânico do ensinar. que compreende o que conhece. A formação deve levar em conta todos os aspectos. 30 O trabalho educativo supõe um propósito. e ser acompanhado durante todo o processo.

pois para haver aprendizagem significativa é necessário estimular na criança o desejo de aprender e conhecer.. Ao fazer suas experiências. Rousseau reafirmava constantemente a importância do método natural. Observando a atividade da criança. considerando-a sujeito da própria aprendizagem. 114-5. pois todos. e não apenas formar o homem pela inteligência. possuímos conhecimentos. de não confundir aprendizagem com aquisição de conhecimentos. Ao educador cabe colocar à escolha da criança os objetos que poderão vir a influenciar.. Emílio ia descobrindo a ciência. estratégias utilizadas na educação do personagem-título de Emílio. comparação e exploração de objetos e na interação com o meio ambiente. o seu desenvolvimento. se o seu método fosse seguido. se se aproximasse a criança da natureza. Rousseau afirma a importância de conhecer a criança. ao mostrar que ensinar não é só questão de métodos. é preciso haver outra relação com o conhecimento e com a sociedade. isto é. Ilustração de Gustave de Staalpara uma das edições de Emílio . mesmo os mais simples. retira dela essa faculdade para o resto da vida”.31 vastíssimo de ensino pelas palavras.] Se o vosso educando não aprende nada convosco. valor o que conduz à verdadeira aprendizagem. mantendo-a atenta a si mesma e àquilo que diretamente lhe diz respeito. p. onde o livro imperava e a memória era sobrecarregada. Rousseau foi o primeiro a perceber isso. O ideal consiste em que ”a criança aprenda por si só. durante a infância. segundo ele. Em vários pontos de Emílio. criando seus próprios conceitos e construindo o próprio conhecimento. ao propor uma metodologia calcada na observação. As novas propostas pedagógicas mostram que a escola ainda não corresponde (como não correspondia naquela época) aos padrões de qualidade. ou impor-lhe o impossível foi o grande erro da pedagogia tradicional. Qualquer método que se baseie apenas na memorização não conduz à aprendizagem e está condenado ao fracasso. Contrariá-la. aprenderá com os outros [. a sua faixa etária e observar atividades que experimenta e vivencia.. e só depois definir o tipo de trabalho a ser feito. desligada do seu conteúdo objetivo. dois séculos antes. que a razão dirija a própria experiência [. Afirmava que. As atividades infantis podem e devem ser disciplinadas e orientadas pela educação.. e dizia que o conhecimento precisa ser construído.] A falta da prática de pensar. sendo sujeito de sua educação. Rousseau. dar es32 paço para a criança ir conquistando a própria autonomia. É preciso estudar bem a criança. por si só ela desenvolveria seus conhecimentos. que seria descrito por Piaget. 1990ª. positivamente. deixando-a experimentar em vez de fazer por ela. dizia ele. o educador saberá o que precisa fazer e quando. mas não se pode esquecer da natureza humana. forneceu os determinantes do conhecimento.ROUSEAU. Para que o ensino concorra para a verdadeira educação.

A infância. como sintetizamos no quadro a seguir. o mestre poderá auxiliar na sua aprendizagem e no seu desenvolvimento.Aquisição de conhecimentos. Emílio: Livro III período de vida: 12-15 anos período: Adolescência Característica do ser humano: Ser que pensa e julga Propostas pedagógicas .A relação entre professor e aluno é horizontal. segundo ele. etc. higiene Importância do papel da mãe e do pai. história. Curiosidade: único motivo e guia. O aspecto afetivo entre educador e educando deve ser suficientemente forte para um trabalho conjunto. 33 Proposta pedagógica definida por Rousseau em Emílio. para cada uma das quais propõe um trabalho pedagógico específico. correspondentes a cinco etapas evolutivas. nada de história (esta só aos 18 anos) . há imposição em vez de educação. jogos bem escolidos. É algo mais importante daí procurar estudá-la em profundidade Divide Emílio em cinco partes. escrita. Característica do ser humano: Crescimento das forças Propostas pedagógicas Aprender brincando: sem livros. a geografia (se possível. adquire os primeiros conhecimentos: leitura. prática do pensar e julgar. Só convivendo com os alunos. prática de um ofício. Cuidados físicos. leitura de Robinson Crusoé (história do homem segundo a natureza) Programa de estudos: ciências físicas. Emílio: Livro II período de vida: 2-12 anos período: Infância Característica do ser humano:Ser predominantemente sensível Propostas pedagógicas Educação sobretudo no campo pela ginástica. ensinar o menos possível. natação e cultura dos sentidos. de amigos. geografia.Exercícios do corpo e dos sentidos: muita liberdade. Período sem lições formais: observação da natureza e lições das coisas. Recursos: supressão de qualquer manual (substituído pelas lições das coisas). segundo o período de vida e as características do ser humano: Emílio: Livro I período de vida:1º ano período: lactância Característica do ser humano: Ser ativo Propostas pedagógicas . observando seus comportamentos. amando-os. Característica do ser humano: Força corpórea supérflua Propostas pedagógicas . não é apenas um período de insuficiências intelectuais. o aprendizado de um ofício (marceneiro) Nada de gramática. nas viagens. pelo próprio objeto). (em particular a astronomia). conversando com eles. favorecendo os seus jogos e prazeres. na qual ambos aprendem.Papel do preceptor: manter a criança sempre interessada. Quando essa relação não se efetiva.

**Esta parte do livro é consagrada à educação de Sofia. Porém não deixou de reconhecer a necessidade de uma ação pedagógica planejada. Propõe uma educação puramente negativa.. durante o qual experimenta. alicerçada na confiança mútua entre educador e educando. isto é. A educação deve dar espaço ao educando para conduzir apropria aprendizagem. a possibilidade de conciliar sua proposta com a educação dada nas escolas públicas (colégios).Desenvolvimento do sentimento. . ou dar ao homem a oportunidade de educar-se naturalmente. amizade e amor Característica do ser humano: Despertar das paixões Propostas pedagógicas Cultivo das letras e dos idiomas estrangeiros Introdução à religião Emílio: Livro V período de vida: 21-25 anos período: Início da idade adulta Característica do ser humano:Ser vigoroso e viril Propostas pedagógicas Entrada no mundo adulto: noivado. antes dos 12 anos. 34 Vemos a importância da observação da criança e do método natural. com sua própria história de vida. consiste não em ensinar a virtude e a verdade. O educador é o mediador cuja influência deve ser muito mais voltada para facilitar e aproximar a criança da informação/conhecimento. Rousseau mostra a importância dessa fase da vida do homem. uma educação que permita que a criança descubra por si mesma e construa os próprios conhecimentos. Rousseau considera que. mas em ”preservar o coração do vício e o espírito do erro”. A filosofia de educação subjacente à postura rousseauniana é a autoeducação. imita e enriquece o reduzido capital que lhe foi transmitido por herança. Rousseau foi o primeiro a encarar a infância de uma nova maneira: período por excelência da plasticidade. viagem. A verdadeira educação. segundo ele. sem a qual. estudo do homem pela história. uma educação a ser dada apenas no lar ou pela natureza. o trabalho é uma forma de a criança obter conhecimento. na época. joga.Emílio: lIvro IV período de vida: 15-20 anos período: Mocidade Característica do ser humano: Ser amoroso e sensivel Propostas pedagógicas . Auto-educação e método natural Dedicando as duas primeiras partes de Emílio ao estudo da criança de 0-12 anos de idade. dizia. educação pela compaixão. casamento *Para Rousseau. futura esposa de Emílio. a valorização do cultivo do corpo e dos sentidos e a consideração da criança como indivíduo. a criança não pode ter ainda qualquer idéia sobre os seres morais e as relações sociais. Rousseau não via. não há verdadeira aprendizagem. daí usar a expressão” prática de um ofício”.

sem imposições. mas aceitar que escolham o aue devem conhecer. vai adquirindo os conhecimentos necessários. de desabrochar do caráter com plena liberdade de ação. Mas só poderá fazê-lo. com liberdade. o professor precisa aproximar-se da criança. Cita como exemplo sua própria educação. mais do que nunca. compreendendo o que está fazendo e para que serve. Se lhe déssemos a oportunidade de experienciar. alicerçase no tripé: liberdade. Segundo ele. Hoje. a criança educa-se a si mesma e. Em vez de ser o resultado da educação. mas um pacto de liberdade. não haveria necessidade de lição alguma. mantendo o interesse e levando ao avanço cognitivo. temos muitos hábitos. repetimos. para Rousseau. do mundinho da criança e que dirijam sua curiosidade. É necessário que a criança seja livre para selecionar o que quiser aprender. desde os primeiros anos de vida. fundamentado num projeto pedagógico de amor e respeito mútuo. gozando de liberdade para refletir sobre o que observava e raciocinar sobre os fatos. facilitar as descobertas e sua reconstrução. no senti35 do de construção e integração de conhecimentos. da experiência. Isso implica não mais esperar que os alunos aceitem passivamente os conteúdos dados (ou esforçar-se para isso). Cabe ao professor propor atividades que partam do real. confiança plena na natureza infantil. se realmente acreditar ma criança e souber esperar que se aproprie do co•hcdmento. numa época em que se visava apenas à reprodução exata do conteúdo comunicado pelo ”adulto que sabia” para a ”criança que desconhecia tudo”. A natureza não é apenas o meio ambiente. Acreditando que a criança é realmente o sujeito da própria aprendizagem. sem nada impor. Essa é a verdadeira educação. Por ter sido um solitário e vivido pouco com os homens. mas um doutor. O verdadeiro conhecimento. como ser. . mas o pior é querer fazer da criança não uma criança. Recuperar suas idéias na prática do professor continua tão importante como foi no passado. por meio de sua própria ação. mas o próprio ser em desenvolvimento. É a defesa da liberdade. retira do homem essa faculdade para o resto da vida. desejar conhecer e ser estimulada a construir o próprio conhecimento. segundo ele. o ato educativo não pode ser um pacto de simples submissão. que a executará com satisfação. Sugere que se observe a natureza e a própria criança antes de lhe dirigir a palavra. busca enfrentar a vida de forma segura. o professor saberá favorecer o mais possível a sua ação sobre o objeto do conhecimento. pouco também foi influenciado por seus preceitos. interesse e ação. com suas capacidades e potencialidades para crescer de forma consciente e ajudar seus semelhantes. Ela exerce influência positiva na criança. confiar na sua natureza e procurar entender o que ela pensa. A falta da prática de pensar durante a infância. que. Hoje percebemos o quan36 to é importante que a criança se descubra. Para tanto. mas baseada apenas em um acordo com o adulto. Toda atividade que for do próprio interesse ocupa a criança.

até chegar à idade da razão. e o conhecimento se constitui. deve partir do conhecimento da criança. Na infância a criança retém rostos. Qualquer interferência do educador deve limitar-se a aproximar o educando da natureza. adquirindo as formas necessárias para avançar no conhecimento até tomar consciência de si mesma. Ao ensinar a razão ou o porquê das coisas que observa. de todas essas sensações. Quando isso não acontece. a metodologia rousseauniana exige treino e observações freqüentes. 37 O tipo de exercício tem importância secundária. Rousseau propõe que a criança ignore tudo o que não puder descobrir por si mesma. O educador deve proporcionar condições adequadas ao crescimento corporal da criança. Quando a criança já percebe os objetos que estão a sua volta. Aos poucos. é preciso responder à curiosidade e às necessidades das crianças. É a curiosidade natural que todo homem sente por tudo quanto. começa com as primeiras sensações. Pouco a pouco.Caracterizada pela busca de modelosnão no homem mas na natureza e nos objetos. deve ser uma resposta aos problemas que a ela se colocam. vai percebendo as coisas. dar-lhe oportunidades de expressar-se emocionalmente para apreender o mundo a sua volta. É preciso deixar de lado a mania de querer ensinar às crianças e impedir que aprendam por si próprias. Rousseau distingue razão. desde os primeiros dias de vida. a criança saberá extrair os elementos para sua plena realização e autoconhecimento. apesar de raciocinar a respeito de tudo quanto conhece e se relaciona com o seu interesse. mas não as relações que os ligam. adquirir experiência para sentir a impressão complexa que resulta. Em contato com a natureza. a criança fica reduzida ao silêncio e o professor deixa de transmitir-lhe seus conhecimentos e experiências. simultaneamente. As . dizia Rousseau. (citação: Por razão entenda-se o estabelelecimento lógico do raciocínio. etc. Uma vez que a criança é ao mesmo tempo a natureza e uma natureza. independentemente de si mesmas. as sensações representativas que lhe mostram os objetos vão-se formando. o conhecimento deve ser desejado e aceito com gosto. que levam a criança a representar o original e não o papel que ele representa. possa lhe interessar que leva a criança a querer conhecer e examinar tudo o que está ao seu alcance. precisa ser levada a experimentar novos sentimentos. ao dar à criança oportunidade de descobrir o que é realmente útil conhecer. as sensações representativas dos objetos independentes de si mesma. sensações. de prazer e dor. o educador fará com que ela saiba tirar proveito das informações recebidas. a criança destrói e quebra tudo o que consegue atingir e quer modificar tudo o que vê. considerado como conhecimento inteligente) O conhecimento da criança.. de perto ou de longe. É esse o motivo pelo qual. e que não busque apenas nos livros ou aprenda apenas por meio das palavras do educador. puramente afetivas. para ele. mas raramente retém as idéias e as relações entre elas. embora as reconheça dependentes entre si. Para ensinar algo. enquanto faz sua leitura de mundo. porque qualquer ensino. imaginação e memória. para proporcionar avanços. o método natural é o mais eficiente. é receptiva à comunicação.

portanto. Rousseau mostra que a vida intelectual é sensitiva: o que ajuda na construção do conhecimento é o contato imediato com as coisas e não explicações que nem sempre são entendidas. nos olhos. Rousseau nunca o fez em relação aos exercícios físicos. pouco a pouco adquire força e aprende a fazer uso dela. A ação consiste em aprender as coisas. as noções de lugar e distância desenvolvem-se graças ao movimento. tão importantes para a coordenação dos movimentos posteriores e o desenvolvimento de habilidades que ajudarão a criança a desenhar e a escrever. Tal contexto valoriza trabalho e ação. Para pensar utilizamos nossos sentidos e órgãos. a mão para apanhar o objeto que a toca ou que está distante dela. Com a recomendação de deixar a criança formar os conhecimentos. apesar de inerente à atividade humana. Nos primeiros anos de vida. quando forma a imagem do objeto no cérebro e. No início da infância. A maturação orgânica acontece mais depressa quando enriquecida com as experiências resultantes da interação da criança com o meio ambiente ou a natureza. indiferentemente. começa a imaginar o espaço para atingi-lo. com o objetivo de estimular suas operações. em deteminada situação. depois. levando-a de um lugar para outro para que aprenda a calcular distâncias. Pelo exercício. afeta seus sentidos embora não deixe de estar atenta a tudo quanto a rodeia. as primeiras devem ser ricas e abundantes. a criança tem necessidade de muito movimento para exercitar os membros. Da mesma forma. os quais precisam estar em perfeitas condições. enquanto os primeiros gritos e movi•iraim são puramente mecânicos. O importante é o educador fornecer meios para a criança educar-se de maneira natural. Rousseau mostra que. Mas o exercício só é bom se leva a adquirir a agudeza do sentido e o bom hábito do corpo. Embora criticasse a educação precoce das crianças. o que a faz aprender. A criança possui ten38 são momentânea somente para aquilo que. É pelo movimento que a criança adquire a idéia de espaço: quando estende. Os aspectos físico e motor têm influência sobre o comportamento geral da criança e estão intimamente ligados à atividade mental e às aquisições nos primeiros anos de vida. as sensações experimentadas são os primeiros elementos do conhecimento. primeiro no plano das sensações e do instinto. quando se põe a criança em contato com a natureza. expressar tudo o que sente.sensações irão se converter em idéias e. o conhecimento não se forma independentemente do corpo. O bom hábito do corpo Assim que a criança começa a distinguir os objetos e a interessar-se por eles. . deve-se colocar a sua disposição os mais variados possíveis. em contato com elas. O conhecimento do próprio corpo e de seus movimentos é necessário para a criança vir a saber distinguir o eu do mundo que a rodeia. fontes de conhecimento presentes na natureza da criança.

em inteligência. nos seus desejos. prometendo coisas que não se podem cumprir. Rousseau quer que as crianças . Tais máximas mostram a importância teórica e prática e a atualidade de um autor tão criticado e. uma vez que todo projeto de educação se define na prática entre professor e alunos. levaram Rousseau a elaborar quatro mácimas:ROUSEAU. É preciso nos auxilios que lhes prestamos. 40 Tratar a criança de acordo com sua idade requer estratégias diversificadas de ensino. distinto do adulto. saber como agir em cada situação. valorizando a leitura e a escrita como práticas sociais e. 2. É preciso estudar-lhes atentamente a linguagem e os sinais. sem nada conceder à fantasia nem ao desejo sem razão. 3. 4. 1990ª p 53 1. requer um conhecimento profundo da criança. trabalhar todas as linguagens. pouco lido pelos educadores. É preciso auxiliá-las e suprir o que lhes falta. a fim de que – numa idade em que não sabem dissimular – se possa distinguir. Rousseau propôe a liverdade bem-regrada. em tudo quanto for da necessidade física. inserir no fazer pedagógico a vida da criança. bem como acreditar na sua capacidade. limitar-nos unicamente ao realmente útil. O mérito da psicologia rousseauniana é considerar a criança um ser pensante. O educador precisa considerar o que já foi conquistado. priorizar o conteúdo a ser ensinado. o de sua pedagogia. supérfluas. ao mesmo tempo. considerar os interesses e a capacidade de aprendizagem da criança. Por conseguinte.”. repensar a questão do erro e da avaliação em geral. Recuperá-las significa reforçar a necessidade de o educador conhecer a a criança (educando) para saber como e quando intervir na sua educação. porque a fantasia não as atormentarás se não lhes dermos origem. aqueles que vêm diretamente da natureza e os que vêm da opinião. porque naturais. principalmente. Esses dois aspectos. devemos deixar-lhes a utilização de todas aquelas que elas lhes dá e de que não seriam capazes de abusar. “Longe de terem forças. dado que não é da natureza. em força.39 Crianças devem ser crianças A criança por desconhecer o mundo intelectual. as crianças nem sempre têm forças suficiente para tudo quanto lhes pede a natureza. dende a pensar apenas naquilo que está diante dos olhos e compreender o que pode medir no seu espaço. atender às necessidades das crianças. fruto do questionamento das das práticas de ensino tradicionais. apoiar-se na obeservação da realidade de cada criança para levá-la a refletir e julgar o que vê. embora situado na prática social mais ampla. evitar estragar a criança pela educação.

escrever. isto é.(citação: Por dialeto entende – se a variedade linguistica falada pelas pessoas com as quais a criança interage). positiva ou negativamente. a quantidade de conhecimentos está relacionada com a qualidade. Para atingir uma personalidade integrada — aspectos emocionais e intelectuais —. o educador deve antes levar-lhe conteúdos que tenham utilidade prática. Ficamos muitas vezes revoltados quando vemos uma criança imperiosa. o equilíbrio. que lhe permita estruturar seu mundo interior. é mais importante dar à criança apenas o necessário. de sentir-se segura. pois o que se ganha em aparência se perde em profundidade. que quer comandar tudo quanto a rodeia. rebelde. 41 Sem a pretensão de que a criança saiba muita coisa. e no momento propício. É preciso sacrificar um tempo para. coragem. . Segundo ele. a linguagem é manipuladora. prestar atenção ao verdadeiro sentido daquilo que ela quer dizer. segundo Rousseau. de agredir ou chorar. limitando-se. escrever e ler. Para Rousseau. ou chocados diante de uma criança receosa. desenhar A criança fala conforme as regras do seu próprio ”dialeto”. O educador não deve corrigir todos os erros gramaticais que a criança comete ao falar. raiva e carinho. no momento em que ela necessita. por não querer perder nada. ao conferir valor muito especial às palavras e pressupor que. satisfação. para que ela entenda o que o conhecimento representa e possa utilizá-lo. ler. não demasiado. Assim.sejam crianças antes de serem homens. ela use esse ”dialeto”. o ajustamento social e emocional da criança. É importante que o educando determine o que quer aprender e que o educador desperte sua vontade e forneça os meios para satisfazê-lo. numa prática sem medo ou opressão. para instruir uma criança. pois a inteligência humana tem os seus limites. de início. instaurando um primado da linguagem do adulto (oral e escrita) sobre a infantil. é necessário considerar a infância como realmente ela é. conhecendo melhor a criança. ao seu vocabulário. O trabalho em pequenos grupos é um dos melhores procedimentos que o professor pode utilizar para o desenvolvimento socioemocional do educando. recuperá-lo com juros em idade mais avançada. tanto quanto possível. fez as crianças para serem amadas e ajudadas. quando dele necessitar. A natureza. É importante deixá-la falar bastante e falar sempre corretamente diante dela. segurança. medrosa e totalmente obediente. seja necessário encher-lhe a cabeça de palavras. porque só falando ela aprenderá a falar. Falar. Rousseau não desvincula os processos de falar. Esquecemos que o ajustamento emocional manifesta-se por alegria. Rousseau recomenda dar ensinamento bastante. Propõe um trabalho intenso de linguagem oral e a exposição da criança a modelos corretos de fala. tristeza. O educador que considera importante o quantitativo é um avarento que perde tempo. atitudes e comportamentos que expressam a alegria de viver e conviver. É importante permitir que. Todas as experiências vivenciadas na escola concorrem para reforçar. o homem não pode saber tudo nem saber completamente o pouco que os outros homens sabem.

buscar novos caminhos. açoites da infância. Não tenha pressa de ensinar a ler e a escrever. formular hipóteses sobre suas formas. articulando bem as palavras. achando que não sabia falar. obtemos com certeza e muito rapidamente o que não temos pressa de obter mas que nos é de utilidade social. sua leitura não é significativa e ele não entende o conteúdo. porém no tocante à leitura e à escrita os potenciais cognitivos se eqüivalem. é preciso que alguém os leia e nem sempre isso é possível. desde que tenha hipóteses claras sobre a natureza do objeto a ser aprendido e sobre sua aprendizagem. É preciso ensinar a criança a falar uniformemente. propõe a liberação das capacidades do aprendiz. claro. é a oportunidade para a criança atuar sobre esse objeto (língua oral).É importante relacionar as palavras dirigidas à criança a objetos sensíveis aos quais possa ter acesso e não alimentá-la com palavras inúteis que ela não compreende. Qualquer método será eficaz. O desejo e o interesse levam o aprendiz a relacionar-se convenientemente com o objeto do conhecimento. o que dificulta avançar da mesma forma e ritmo que com as crianças das classes favorecidas. da mãe. sem alterações ou afetação. Embora os escritos contenham poucas palavras. de experiências com materiais e atos de leitura e escrita. segundo Rousseau. Dota42 da de capacidade inata para falar e em contato com modelos corretos de fala. a importância do ato de ler. Quando alguém se acostuma a utilizar palavras que não compreende. nas quais a criança perceba. as crianças das classes populares chegam à escola com uma bagagem de conhecimentos bem diferente da de crianças das classes média e alta. dos familiares e amigos bilhetes com convites para almoços. Embora Emílio faça esforços e até consiga decifrar parte de alguns deles. por parte do primeiro grupo. 43 Emílio recebe do pai. quando ocorre é tarde. Hoje. Rousseau chega a afirmar que os livros são instrumentos de tortura. Às vezes. Aconselha a distinguir entre a ”boa” e a ”má” linguagem sem impedir a criança de falar. passeios ou festas. que aprendem independentemente do método. cresce. a criança usará com propriedade todas as expressões da língua. O contato com o modelo correto. uma vez que a linguagem se desenvolve. por vezes. . condenando o conteúdo veiculado pelos livros da época distante do interesse imediato das crianças. Segundo ele. facilmente será levado a dizer o que interessa ao outro. expondo-o a modelos de linguagens de vários níveis e dialetos. Rousseau coloca Emílio participando de eventos de leitura e escrita como espectador atento. a oportunidade já passou. A diferença está principalmente na ausência quase completa. além de aborrecidos. que impedia a criança de falar ou a levava a encolher-se. Rousseau condena o ensino represser da época. quando é praticada em situações diversificadas. por si. Por isso é necessário criar condições favoráveis. tentar. Como parte da aprendizagem natural.

que fornece satisfação à necessidade de movimento e de ação. O sinal absorve a atenção da criança e a leva a esquecer o objeto representado. Para Rousseau. Porém. . mostrando a importância que dá à questão da unidade lingüística. qualquer pessoa irá borrar muitos papéis antes de obter alguma coisa compreensível. como o uso de materiais pedagógicos. como atividade de preparação para a vida. O trabalho manual também é visto. o jogo de pela. antes mesmo de Piaget. o que. o balão. motivam e ajudam a criança a assimilar e transformar a realidade segundo suas necessidades. os instrumentos musicais. e o mesmo fará com as outras linguagens. p. o bilhar. nunca substituindo o objeto pelo sinal. Rousseau hesita na escolha de um método para o ensino da leitura e da escrita. etc. a linguagem do desenho é uma forma de a criança começar a diferenciar significantes de significados. como a palavra (todo) ou a sílaba (parte). por ele. a não ser quando for impossível mostrá-lo. com melodia simples. levando o aluno a observar os fenômenos repetidas vezes. pois não aceitava que a criança fosse obrigada a adaptar-se ao social dos mais velhos. começando pelo trabalho manual. Tais jogos orientam e disciplinam. ou entre a análise e a síntese. O educador deve utilizar-se das artes. Rousseau propõe o trabalho como o meio de levar a criança a obter um conhecimento prático e sugere procedimentos metodológicos. que a criança possa sentir e acompanhar sem dificuldade. nesse caso. aos adultos: o arco. intelectuais e sociais. Insiste na importância destes. contribui. é visto de forma construtiva. mundo que não compreA imobilidade proposta pela educação tradicional fatigava as crianças. como a música. preparando cada observação com um objetivo claro. com cadência e regularidade. Numa época em que a leitura era considerada algo externo ao indivíduo. A leitura de uma partitura musical. sugere um trabalho de equilíbrio entre as várias linguagens. pois o homem só aprende bem aquilo que pratica e experimenta. Ao desenhar. 113 Em vez de ensinar mecanicamente a criança a ler e a escrever. a experiência lúdica. acreditava que o conteúdo dos livros didáticos e a forma como eram trabalhados representavam o flagelo da infância. O erro. pois leva a criança a adquirir golpe de vista. na época. uma atividade espontânea. contribuindo para a aquisição de idéias nítidas e precisas sobre medidas e proporções práticas.Propõe que a criança é capaz de descobrir caminhos para o uso da comunicação. Propõe a utilização de jogos de destreza restritos. trabalhos manuais. satisfazendo às necessidades afetivas. para os exercícios de composição de frases. sem dúvida. que não praticavam atividades 44 lúdicas. Rousseau 1990a. Qualquer método que se baseie na memorização não conduz à aprendizagem e está condenado ao fracasso. irá favorecer o domínio pleno do código alfabético. como os jogos e brincadeiras. em diferentes contextos socioculturais. O professor deve caminhar devagar. mão mais segura e o conhecimento das relações entre os objetos. A leitura já era vista por ele como verdadeira arte de comunicar.

não humilhação para o aluno. ao propor uma metodologia que concebe a linguagem como ação intersubjetiva e prática. do sistema escrito. avaliando o seu progresso individualmente. Em vários pontos de Emílio. O professor acompanhará o progresso do aluno para melhor direcionar seu trabalho. comparando-os om os que fez e fará. identificar o melhor ou pior. como diz Rousseau saber esperar. com seu educando. ou seja. se não tornar decisões com base em um aluno concreto. Rousseau avança. em marcante contraste com a escola que quer impor uma linguagem escolar. expressões artificiais e clichês! Rousseau propõe a preservação e a valorização do discurso pessoal da criança. Vivendo em uma época em que a leitura era distinta da aprendizagem da escrita e o falar não era permitido. destaca-se a importância da observação constante do educador em todas as atividades. avaliação cooperativa – se não refletir sobre a realidade de seus alunos. A avaliação O processo de avaliação deve ser o mais natural possível. mas às medidas tomadas em conjunto com o professor para melhorar o desempenho. “ser” rival de si mesma. A auto-avalição deve ser prática permanente entre educador e educando. O educador Para Rousseau educar não é tarefa fácil – como mostra seus escritos. levá-la a querer ultrapassar-se. A auto-avalição porposta não se restringe à descrição do desempenho do aluno. deve constituir auxílio e estímulo ao sucesso. É importante que a criança não tenha rivais ou concorrentes e que o professor anote os progressos que ela fez. também são vistos como abertura para a integração social do homem e sua transformação. uma vez que é sujeito do próprio desenvolvimento. considerando aquilo que a criança já conquistou. A avaliação deve ser honesta e sem conotação de punição. o que não significa impedir que se esforce para assimilar as normas convencionais. e quem se propôe a educar crianças deve saber disso. historicamente construídas. se não se esforçar por avaliar com mais qualidade. Emílio diariamente depara com textos significativos e variados. 46 . avaliação participativa. principalmente sua constante preocupação com a formação do mestre. a leitura e a escrita. como processos de comunicação.O desenho. O importante 45 é não apresentá-las antes que a criança tenha construídas as noções básicas que facilitarã essa aquisição formal. Rousseau é o primeiro a intuir que não adianta o professor introduzir auterações em sua prática de avaliação – auto-avaliação. Ela não visa a comparar alunos. com uso prioritário de termos sofisticados. mas acompanhar o nível de crescimento de cada um em relação aos critérios a atingir. é preciso. O magistério é uma tarefa difício.

Aebli defende não só a aprendizagem. etc. como a de São Paulo. Por isso. uma. Segundo Aebli. Na linha de Rousseau. afirmando que este ajuda a direcionar melhor o olhar sobre o objeto: ”o que caracteriza as grandes descobertas e invenções é o fato de seus autores olharem uma parte da realidade sob um ponto de vista bem diferente e assim chegarem a novos conhecimentos”. fazendo nascer o desejo de conhecê-las e dando-lhe os meios para isso. ainda hoje. 1970.AEBLI. médio e/ou superior. ou HTPC). 1970.A precária formação do educador. Não faz mal que reine um minuto de silêncio na sala de aula”. p. deve tirar de cada resposta o que ela .) não possibilita identificação profissional. Se ela pergunta é porque quer saber o que ignora. deve-se dar-lhes tempo para refletirem. em vez de fugir à resposta. à criança cabe desejar. mas também o ensino por perguntas. para que o aluno faça as suas. Para Rousseau. O professor deve alimentar os questionamentos que a criança faz. ou seja. ”professores muito impulsivos deverão dominar-se e saber esperar depois que fizeram uma pergunta. o professor deverá evitar tomar posição logo na primeira resposta. embora seja utópico ao imaginar que cabe à educação realizar a transformação estrutural da sociedade (tarefa pedagógica e politicamente impossível). deve perguntar pouco e escolher muito bem as perguntas. variar. 204. o professor recémformado começa o magistério isolado e assim continua. professor de pré-escola. sem contato direto com seus colegas ou com superiores responsáveis por sua iniciação. sem feedback do próprio trabalho (embora já existam proposições de algumas Secretarias de Estado da Educação. AEBLI. Aebli propõe conduzir o aluno a uma melhor percepção do objeto para levá-lo ao verdadeiro ato cognitivo. complementar e explicar perguntas que não são respondidas imediatamente. uma prática que busque criar no educando e em suas relações com o mundo as possibilidades de superação de dificuldades concretas na vida. a base comum sem especialização (direção. Numa pergunta bem feita. orientação escolar. O professor. procurar e encontrar. colocar as curiosidades a seu alcance. segundo Rousseau. A relação entre teoria e prática (por meio dos estágios supervisionados) parece não favorecer esse desenvolvimento. coloca-o como vítima do processo. A paciência e a espera precisam acontecer. p. partícularmente no caso de uma pergunta difícil. a hora de trabalho pedagógico coletivo. julgando-a incapaz de compreender. que o torne consciente da realidade. o novo educador assume o compromisso com o povo. de ensino fundamental. uma vez que terá muito o que perguntar. 197. supervisão. ao mesmo tempo que o convida à tomada de uma posição crítica frente ao mundo. No entanto.prática transformadora não só é possível como necessária. Ao contrário de outros profissionais. explora as contradições que se manifestam no ato educativo. Ao professor compete pro47 por a criança o que deve aprender. É uma tendência muito natural repetir. tal pfocedimento é não só inútil. mas até confunde os alunos ao invés [sic] de ajudá-los. de horário comum de trabalho para professores da mesma escola.

sempre que se busca obtê-la pela força. recompensas e castigos. pois tudo o que fizerem na pré48 sença dos alunos ficará gravado nas suas memórias mesmo antes de penetrarem em seus corações. o valor do exemplo e a necessidade de uma disciplina bem-regrada que forneça parâmetros para solucionar as questões da obediência. No entanto. não se deve confundir disciplina com a imobilidade proposta na época. AEBLI.] A função da escola é transmitir ao aluno pontos de vista. p. Para a primeira. As recompensas têm grande inconveniente: podem desenvolver a vaidade. na relação professor/aluno. independência significa saber resolver problemas com as próprias forças e ser capaz de compreender e dominar os fenômenos do mundo com os próprios conceitos e operações mentais [. pela bajulação e promessa. pois educar é disciplinar. os prêmios podem alimentar. pior. 294-306. . ”escondidos procuram sempre fazer as próprias vontades.. portanto. nas crianças ambiciosas. por ameaça ou.. há necessidade de disciplina. embora de forma dissimulada”. o despeito e a malevolência naqueles que não os recebem. precisa não só de idéias e conceitos reduzíveis.. A disciplina Rousseau recupera duas questões presentes no trabalho em sala de aula e. o orgulho e o egoísmo naqueles que recebem prêmios.Aebli concorda novamente com Rousseau: ”A missão do professor é realmente a de tornar-se supérfluo. mas a forma como era aplicado na maioria dos casos. Rousseau encarava a disciplina como adaptação a normas e regras. Para tanto precisa não só saber mas também saber fazer. sonhos desproporcionais de grandeza. O educador não deve falar em moral apenas quando repreende. atividades de percepção e métodos de trabalho com o auxílio dos quais ele possa agir sozinho. O receio do castigo leva a obedecer. Muitas vezes. No entanto. uma vez que a obediência lhes traz vantagens e a rebelião lhes é nociva. mas também quando o educando pratica atos louváveis. pois ignoram a própria obediência.. não só intelectual como também moral.tiver de bom e repeti-la em parte (mas não estereotipadamente). A disciplina é necessária para a educação. O medo tem na vida humana importante ação inibidora.1990ª. Pessoas moralmente educadas desenvolvem o gosto pelo ensino e aprendem. fazer com que o jovem alcance a independência e darlhe condições de dominar o mundo e sua vida com suas próprias forças [. certos de que procedem bem. mas também de instrumentos mentais”. Um castigo injusto ou excessivo é mais prejudicial que benéfico.] No campo intelectual. p. as crianças fingem estar convencidas pela razão. Para a formação equilibrada do indivíduo. 1970. Entretanto. Não é o elogio ou prêmio que Rousseau condenava. 78. que as afastam de uma vida simples. aconselha aos mestres que sejam bons e virtuosos. podem despertar o rancor. Rousseau era adepto do bom exemplo e de considerar a criança pelo que ela é e não pelos defeitos que apresenta. Quanto à obediência.ROUSEAU.

para Rousseau era uma atividade normal. Rousseau recomenda o método socrático. sua maneira de ser. Não se pode orientar para um caminho seguro sem 50 que o equilíbrio entre as várias linguagens. Antecipando-se aos psicólogos do século XIX. Para muitos. ROUSEAU. permitem-lhe notar as diferenças nas divisões das idades das crianças — que. exigem que se conheçam suas concepções político-filosóficas. e de Locke. vista como defeito. De Rabelais e Montaigne utiliza as idéias de educação segundo a natureza. que sobrecarrega a criança com cadeias de todas as espécies e começa por fazê-la infeliz visando a prepará-la muito tempo antes para uma pretensa felicidade que provavelmente nunca chegará a gozar?”. 1990ª. o livro didático. mostrar sua aplicação prática. o abstrato. A educação proposta por Rousseau é um processo de vida.Quanto à mentira. quando se lhe impõe a lei da obediência. da liberdade. a importância da experiência e da observação para o conhecimento da criança. é contraditório e apenas repete verdades já apontadas por pedagogos. P. a educação popular e educação pelo trabalho. quando se a obriga a obedecer sem saber o porquê ou a importância da obediência. que . de Comenius. Os conhecimentos da psicologia infantil. ao desconfiar do adulto que a contraria. dizia. seu mérito está em ter sabido reuní-las. suas idéias agora parecem utopia: intranqüilizam. oferecendo-nos reflexões que ainda hoje nos levam a repensar os métodos e processos de ensino-aprendizagem. A criança só mente. não num estado futuro mas no próprio processo. ainda estão bem distantes da prática. Hoje usamos na escola a palavra. todo estudo deve ter começos experimentais e o raciocínio não deve chegar antes que tenhamos um amplo fundo de observações acumuladas. afirmava que a criança deforma a verdade por força da sua própria natureza. do jogo espontâneo de suas energias psíquicas exuberantes. que tão bem soube delinearr. ”O que devemos pensar dessa educação bárbara que sacrifica o presente a um futuro incerto. sem nunca ter analisado diretamente a psicologia infantil. isto é. em qualquer etapa. a regra e a explicação. Sem nunca ter sido professor. 49 A EDUCAÇÃO COMO PROCESSO DE VIDA Pelo estilo sedutor de Rousseau. antes que se observe bem a criança. embora bastante divulgadas na teoria. Para Rousseau. da importância dos exercícios físicos e da formação do homem integral. que aparece ao despontar do psiquismo e aumenta até certo momento. ele poetizou magnificamente sobre a infância. Para nós. deve durar toda a vida e encontrar sua significação. avesso a qualquer disciplina científica. o que só foi possível graças a sua inteligência superior e talento estilístico. o lúdico e o jogo sejam utilizados como recursos para levar ao conhecimento que melhor corresponde às necessidades da criança. consideramos a criança um recipiente vazio que o professor deve encher com matérias e pontos. para se reduzir a proporções mínimas na puberdade. isto é. 65.

deve confiar na natureza humana e defender a sua liberdade. embora limitado. o mesmo processo pelo qual passara a História. Segundo Emílio. Emílio é divisor de duas épocas na história da pedagogia: o homem na ciência sem pensar no que ele é antes de ser homem. dar ao menino os conhecimentos dos deveres do homem. ao exaltar a infância. a observação direta. Enaltece os trabalhos manuais para ajudar o desenvolvimento físico e psíquico. A Educação Nova tem suas origens nas intuições geniais desse mestre que. destacando a importância da interação entre professor/adulto e aluno. Robinson Crusoé. portanto. toda aprendizagem precisa ser conquista ativa. um mundo de representações que o educador deve conhecer se pretende realizar algo. útil e válido — ainda estão presentes no trabalho diário dos professores em sala de aula. mas reconhecem quer avancar e aprimorar o seu trabalho. Muitos princípios ou máximas de Rousseau — não os desvios ou excessos. Em vez de rompimentos construções diferentes e todas consideradas válidas. Foi quem primeiro chamou a atenção 51 para o fato de que a cabecinha da criança não é um recipiente vazio que o educador deve encher com os conhecimentos que domina. Na geografia local. da pesquisa e da ação revelouse praticável. excetuando o romance de Daniel Defoe. Nada de ensino dogmático. do pensamento infantil. e o conhecimento psicológico. Nada de mapas e globos. a educação deve estar centrada mais na criança e menos no adulto. Rousseau pode ter sido contraditório. vendo o conhecimento como processo interior do indivíduo. o aluno deve reinventar a ciência em lugar de repetir fórmulas verbais. mas sim um mundo novo. Rousseau recoloca o processo de ensino. vivendo à custa de si mesmo. e suas idéias propiciaram caminhos e possibilidades que originaram novas teorias para a modificação da prática de ensino. Rousseau enraizou em nossa consciência o significado funcional da infância.considera o melhor auxiliar da intuição. esquecendo os conteúdos inúteis e decorativos. o que talvez aumente seu fascínio. Ao opor-se à educação que queria formar o espírito antes da idade. mas aquilo que na longa história do pensamento. Nenhum livro. o corpo deve trabalhar em proveito do intelecto. apenas a lição das coisas. pensar e sentir próprias. as etapas do desenvolvimento intelectual e moral. As mãos devem ser exercitadas. porque o protagonista dispensou a sociedade. resgata a natureza e aponta a perversidade da sociedade. Não concordamos com sua concepção de uma educação puramente negativa. como também o cérebro. auxiliado por inúmeras descobertas. A criança tem maneiras de ver. do interesse e da verdadeira atividade. Quanto ao programa de ensino. . não há perversidade original no coração humano. A contradição leva ao avanço. Emílio representa mais um processo que uma ruptura com o que até então se falava sobre educação. enfatizando o desenvolvimento dos músculos e a necessidade de a criança se movimentar e adaptar ao meio. deve basear-se na utilidade.

julgar. ao sair das mãos do Autor das coisas. morreria de miséria antes de ter conhecido as suas necessidades. e o mais sábio é aquele que melhor se sabe servir desse instrumento” Rousseau 1990a.impedindo os outros de pensar de assistir-lhe. os elementos. A criança deve crescer segundo as leis da natureza. sem liberdade para auto-educar-se naturalmente.Rousseau não se preocupa apenas com o indivíduo. Se o homem nascesse grande e forte. com os homens e com as coisas. como nós. o seu próprio escravo.. questionando a dominação a que a criança está sujeita por parte do adulto. precisa modelá-lo a sua maneira. como um cavalo de manejo. como se fosse uma árvore do seu jardim” Rousseau 1990a. precisa adestrá-lo para si.] formam-se as plantas pela cultura. A educação deve ter início desde o nascimento e primeiro contato com o mundo. os seus frutos farão suas deliícias [. nem sequer o homem. ser-lhe-iam prejudiciais. não quer nada que seja como o fez a natureza. Decroly e Freinet. abandonando a si mesmo. a sua estatura e a sua força ser-lhe-iam inúteis enquanto não tivesse a servir-se delas. transtorna tudo. Condena os métodos que se baseiam apenas na memorização. p. serão alvo de nossa reflexão. e o homens pela educação. 52 Textos selecionados de Rousseau Em Emílio (1990a para o volume l e 1990b para o volume 2). na sociedade humana. Muitos. antes que ela morra. dos monstros. mas com os vários aspectos da relação professor/aluno. SOCIEDADE ”Tudo está bem. e. uma árvore a dar frutos de outra.203 53 CRIANÇA “Cultiva rega a jovem plantinha. o cavalo. partiram de seus ensinamentos e avançaram. tudo desfigura. tentando colocá-los em prática. mas o dos homens e dos seus juízos ainda vale mais. Rousseau nos alerta para a massificação a que o homem está sujeito na sociedade. p.. aprendendo a prever. tudo degenera entre as mãos do homem: força uma terra a nutrir os produtos de outra. Há quem lamente o estado da infância. porque. as estações. por meio da experiência organizada. onde cada vez mais se torna uma fração do social. mutila o cão. mostrando a importância de trabalhar conteúdos relacionados com a vivência da criança e propondo o trabalho como meio de levá-la a um conhecimento útil à vida. ser suficiente para si mesma. o mais importante instrumento do homem é o homem. raciocinar. um dia. gosta da deformidade. 15-9 ”O verdadeiro conhecimento das coisas pode ser bom. mistura e confunde os climas. não vêem que a raça humana teria . entre eles.

de pensar. p. Nas vossas mãos.] A cada instrução precoce que se pretende meter-lhes na cabeça. Rousseau 1990a. nada teria. nada há de mais insensato que querer substituí-las pelas nossas [. a controlar tudo quanto se lhes diz [. sem hábitos. Se queremos perturbar essa ordem. sem maturidade nem sabor o que não tardarão a apodrecer. 16 “A natureza quer que as crianças sejam antes de serem homens. desde as vossas primeiras lições. produzimos frutos precoces.. e vereis que todo o seu tempo ficará mais que ocupado.. em breve se tornaria o mais sábios dos homens. sem que ele soubesse distinguir a sua mão direita da sua mão esquerda. sem que ainda se disponha de nenhum sistema chega. precisamos de razão.” Rousseau. 212 MÉTODOS E ESTRATÉGIAS DE ENSINO ”O adulto se engana quando pretende que a criança preste atenção a conteúdos distantes de sua realidade. 1990a.desaparecido. 1990a. falando-se-lhes. se pudésseis conduzir o vosso pupilo. Tudo que não temos quando nascemos e de que precisamos quando somos adultos nos é dado pela educação”. sem preconceitos.. que pudesse contrariar o efeito dos vossos cuidados. de sentir que lhes são próprias. habituamo-las a contentarem-se com palavras vãs. 84. Se as crianças tivessem razão. através de discursos que não compreende e problemas que não lhe interessam. são e robusto. [. se o homem não começasse por ser criança. precisamos de assistência. Rousseau. 80 “O intervalo mais perigoso da vida humana é o que decorre desde o nascimento até a idade dos 12 anos. desde a sua mais tenra idade. EDUCAÇÃO ”A obra-prima de uma boa educação é fazer um homem razoável. numa linguagem que elas não compreendem. p. teremos jovens doutores e velhas crianças. não precisariam ser educadas.]”. 192.p. 78-82 ”A instrução das crianças é um ofício em que é necessário saber perder tempo. p. é querer utilizar a obra como instrumento.. começando por não fazer nada. 1990a.” Rousseau. teríeis conseguido um prodígio de educação”.] Se pudéssei nada fazer e nada deixar fazer. É durante essa época que germinam os erros e os vícios. e. e há quem pretenda educar uma criança pela razão! É começar pelo fim. p..” Rousseau 1990a.” Rousseau 1990a. p. a fim de ganhá-lo. os olhos do seu entendimento abrir-si-am para a razão. as raízes já são tão profundas que é tarde demais para arrancá-las. e não para aquilo que não é ele. em si. precisamos de forças. até a idade dos doze anos. ”Adaptai a educação do homem para o homem. planta-se-lhes um vício no fundo do coração. Nascemos fracos. p. nascemos desprovidos de tudo. nascemos estúpidos. 144-5. Rousseau. mas. 1990a. As lições que os estudantes . A infância tem maneiras de ver. 54 ”Será preciso e será possível que uma criança aprenda tudo o quanto é útil para a sua idade..

o tomareis curioso.] Uma crian56 . ”[.. É necessária uma experiência que ela ainda não adquiriu. faríamos bem se aprendêssemos o delas [das crianças]. p. na casa das próprias crianças.” Rousseau.. 179. nunca vos apresseis a satisfazê-la. a arte de lhes comunicar. não pode compreender a doce harmonia do seu concerto. 1990a. fazei alguma operação que a leve a dar por eles. por que motivo haveriam de querer aprender a ler? A arte de falar aos ausentes e de compreendê-los.aprendem entre si. mas.] Uma criança só encontrará motivos para ler. os nossos desejos.] No dia seguinte. [. 178.] um lugar agradável.]” Rousseau.] é preciso que ele [Emílio] saiba ler quando a leitura lhe for de alguma utilidade. um passeio por ”[. p.......] lera sem saber o que lê e. não lhe digais nada. 1990a. não corrijais os seus enganos. volta-se ao mesmo lugar. p.. os nossos sentimentos. neste caso. é preciso sentimentos que ela ainda não experimentou. [. para poder sentir a impressão complexa que resulta simultaneamente de todas essas sensações. 55 Sugere. 149. num momento favorável... em breve. ministrado pelo preceptor. nos pátios dos colégios. 149-50 ”Fazei que o vosso pupilo esteja atento aos fenômenos da natureza e. só pode servir para aborrecê-lo [.. é uma arte cuja utilidade se pode tornar sensível em todas as idades..] Se se enganar. para alimentar a sua curiosidade.. num obstáculo para a verdadeira educação [. sem dizer nada. quando muito. Por que prodígio essa arte tão útil e agradável se teria tomado um tormento para a infância? [.. até lá.. ou. até que ela se encontre em estado de se aperceber deles e de corrigi-los. Na época. Ponde as perguntas ao seu alcance e deixai que ele encontre respostas para elas.” Rousseau.. antes de o sol nascer. para vê-la é preciso senti-la.. o ensino era fundamentalmente individualizado. se converte num meio a mais de aprender palavras. p. 1990a. sem intermediário. ”Em vez de lhes ensinarmos o nosso método. as nossas vontades. 1990a. a distância. Que ele não saiba as coisas porque vós lhas dissestes mas porque ele próprio as compreendeu.. Se ela nunca se enganasse. 182 e 193. onde o horizonte bem desanuviado permite assistir ao pôr-do-sol [.] É no coração do homem que se encontra a vida do espetáculo da natureza. em uma bela tarde. [. não aprenderia tão bem [.” Rousseau. A criança apercebe-se dos objetos mas não se pode aperceber das relações que os ligam entre si. lhes são cem vezes mais úteis do que todas as que se ensinam na classe. LEITURA E ESCRITA A leitura é o flagelo da infância e quase a única ocupação que se lhe sabe dar..] se assim não fosse. só se interessará e gostará de ler se lhe pusermos nas mãos leituras que incitam o prazer de ler e a sua utilidade. que ele não aprenda a ciência: que a invente. esperai. para se tomar um pouco de ar fresco.

como exemplo. Rousseau. previnem-se ou corrigem-se com a maior das facilidades. mas antes que elas possam imitar as vozes que ouvem [.. 113-5. analisando todas as suas palavras. distante da idade infantil. cujo conteúdo moral apresentava-se encoberto. esse alguém.. p. Rousseau. p.ça não se sente intensamente interessada em aperfeiçoar o instrumento de que se serve para atormentar. sem entender — e se cala. é Robinson Crusoé”.] os vossos dados. o momento passa.] A . é o mais precioso tratado de educação natural. as fábulas. para assistir a alguma festividade pública.. Esses bilhetes contêm poucas palavras... tímido. para um passeio. Desse modo.” Rousseau. explica: ”Desde que a primeira seja bem estabelecida. mesmo sem o vosso esforço. estamos concorrendo para que ela se cale. e ela rapidamente se dedicará a ele. confuso. p.. mas [deveis] fazer que esse instrumento sirva os seus prazeres.] A criança que quer falar só deve ouvir palavras que pode compreender. Ao corrigir todos os erros que a criança comete ao se expressar. Será este o primeiro que lera o meu Emílio. a outra segue-se-lhe necessariamente. dizer as que consegue articular. ou retribui à criança o pouco de complacência que esta teve para com ele. todos os métodos serão bons. nítidos. Rousseau considera duas máximas inseparáveis: sempre o suficiente e nunca em excesso. [. a leitura de Robinson Crusoe: ”Já que temos uma absoluta necessidade de livros. 1990a. Muitas vezes. e que sempre é esquecido. onde nunca deixará de ocupar um lugar de honra. mas àquele que se lhes faz contrair ao tornar o seu modo de falar abafado.. Recomenda. açoites da infância”. falase-lhes. de sua mãe.] Todos os pequeninos defeitos de linguagem que tanto se receia que as crianças contraíam não têm importância nenhuma.. Rousseau exagera quando afirma que os livros são ”instrumentos de tortura..] Desde que nascem.. alguém lhe lê o bilhete. consiste no desejo de aprender. para uma festa aquática. E cita. dos seus amigos bilhetes de convites para um almoço. o 57 aluno ouve o que o professor fala. bem escritos. [. Plínio? Será Buffon? Não. criticando incessantemente a sua inflexão. ora se encontra auxílio. não só antes de elas poderem compreender o que se lhes diz. além de aborrecidos: ”Odeio os livros. ou nem sempre se encontra quando é necessário. Ai! Se ele soubesse ler! Recebe outros: são tão breves! E tratam de um assunto que interessa tanto! Querer-se-ia experimentar decifrálos. 200.] transforma-se o quarto de uma criança numa oficina gráfica. É preciso encontrar alguém que esteja disposto a lê-los. são claros.. na minha opinião. Todos se dão a muito trabalho para procurar os melhores métodos de ensinar a ler [.” Às vezes. mas já é demasiado tarde.. porque..] Um meio mais seguro que tudo isso. apenas ensinam a falar daquilo que se não conhece”. durante muito tempo será o único livro a compor a sua biblioteca. Sobre as duas máximas. [. Como se chama esse maravilhoso livro? Será Ariosto! Será. Locke quer que ela aprenda a ler com dados [.. existe um que. Dai esse desejo à criança e deixai [. as crianças ouvem falar. se ela quiser aprender. no entanto. 1990a.. na véspera. 190-200.. ora se recebem recusas. dos seus familiares.] Emílio recebe de seu pai. a oportunidade. nunca se corrige. 1990a. [. Finalmente.

muito . até agora menos necessário.] Disponho-os por ordem.] e ficai com a certeza de que. nos mais grosseiros desses desenhos. não precisamente pela arte em si. e corporal.” Rousseau 1990a.]” Rousseau 1990a. que esboce uma árvore vendo uma árvore. e não a considerar como verdadeiras imitações aquelas que são falsas e convencionais. como ele. 56-60. DESENHO Rousseau extrapola o universo da comunicação oral e adentra o universo semântico da linguagem gráfica.. o palavreado do professor. p. a fim de que se acostume a bem observar os corpos e as suas aparências.infeliz facilidade que temos para empregar palavras que não compreendemos começa mais cedo do que se pensa. na aula. insensivelmente. todas as crianças tentam desenhar: desejaria que o meu pupilo cultivasse essa arte. é para Rousseau uma das possibilidades para a criança vir a diferenciar significantes de significados: ”Grandes imitadoras. mostrando o progresso do autor. Dentro dessa perspectiva. as suas sombras se encontram na mais exata verdade [. com o tempo elas acabam sempre por corrigir por si próprias.. em cada exemplar.. trataremos de imitar os coloridos dos objetos e todo o seu aspecto [. [. sem que preciseis de lhes fazer observações. Seu exercício.. sob os olhos.. ”É preciso prestar menos atenção às palavras que ela [criança] pronuncia que aos motivos que a levam a falar. que esboce um homem vendo um homem. O aluno escuta.. reprodução 58 material de um modelo.] manterme-ei sempre a par dele. nas crianças.] Nos primeiros. Recomenda. pois...] Quero que tenha. desde que natural. que.] Disporemos de cores. mando-os cobrir com belos vidros [.] que adquira a agudeza do sentido e o bom hábito do corpo que se consegue através deste exercício. o próprio original e não o papel que o representa. começarei por utilizá-lo tão desajeitadamente como ele [.. mas para que a sua vista se torne justa e a sua mão flexível [. no berço. da mesma maneira que. trinta vezes. de pincéis.] É uma pretensão insuportável e um cuidado dos mais supérfluos dedicar-se a corrigir.] não deixaremos de espiar a natureza [.. e implica uma função semiótica. ou ultrapassálo-ei tão pouco que sempre lhe será fácil alcançar-me [.” Rousseau 1990a. Falai sempre corretamente diante delas [. p. o desenho é visto como uma imitação da grafia. 148. tornase da maior importância logo que a criança começa a raciocinar. p. p.... o seu perfil... que esboce uma casa vendo uma casa. a linguagem delas se moldará pela vossa.. as suas proporções. a valorização das produções infantis e como exemplo cita o que faria com o desenho de Emílio: ”Mando emoldurar os nossos desenhos. em volta do quarto... escutava a tagarelice da ama. cada desenho repetido vinte. [. ponho molduras muito brilhantes.. 147.” Rousseau 1990a. e. Este aviso. E exemplificava como isso poderia ser feito: ”Pegarei no lápis. 183. desde o momento em que a casa não é mais que um quadrado quase informe até o momento em que a sua fachada. todos esses pequeninos erros contra o uso [gramatical]..

] o preceptor de uma criança deve ser jovem. Rousseau 1990a.. p. muito cedo..douradas. 149. 60 RELAÇÃO PROFESSOR/ALUNO Ao ensinar às crianças pequenas palavras ou coisas que ainda não podem compreender ou não servem para nada. ela se habitue a não dar ordens. e que. prêmios e castigos A educação proposta para Emílio tem por objetivo a formação do homem livre... “É essencial que o educador não confunda a liverdade de criança com a satisfação de todos os seus caprichos. as crianças só gozam de uma liberdade imperfeita.] Há duas espécies de dependências: a das coisas. Rousseau 1990a. tirando inclusive sua própria naturalidade. “[. [. deixando ao seu corpo o hábito natural. a tirar partido de si própria. 7. ela será boa.” Rousseau 1990a. p. 47. logo que tenha alguma”. 52. não precisa de outro ornamento a não ser ele próprio... em tudo.p. mas. pondo-a em estado de ser sempre dona de si mesma e de. que é a da sociedade. aquele que tudo pudesse.. nem aos homens – pois que não é dona deles – nem às coisas. dou-lhe apenas uma moldura preta. que os realçam. Gostaria que ele próprio fosse uma criança. se possível... a criança só é má porque é fraca. que é a da natureza: e a dos homens... recusai-lhes sempre o que só podem por fantasia ou para fazerem ato de autoridade [. “Preparai antecipadamente o reino da sua liberdade e a utilização das suas forças.. p. “Não há submissão mais perfeita que aquela que conserva o aspecto da liverdade [. tudo quanto lhes possa proporcionar um verdadeiro prazer... [.] É indispensável que. quando a imitação se torna mais exata e o desenho começa a ser verdadeiramente bom. mas de uma má disciplina: é porque obedeceram ou comandaram [. O homem verdadeiramente livre só quer o que pode e faz o que lhe apraz.. tornai-a forte. nem a criança a quem se faz ditoso cm aquela que amima”.. nunca faria mal nenhum”. p. a saber viver e a tornar-se feliz. p.. [.] Geralmente a criança lê muito melhor no espírito do mestre que o mestre no coração da criança. [... exceto a conhecer a si mesma. muito simples. “Toda a maldade nasce da fraqueza.] Consedeilhes. na medida do possível. semelhante àquela de que desfrutam os homens no estado civil. 71-7. o educador: ”[.]” Rousseau 1990a. Rousseau 1990a. [.] O capricho das crianças nunca é obra da natureza.] lhe ensina tudo. Rousseau 199a.] o maior de todos os bons não é a autoridade.] Mesmo no estado de natureza. e mesmo tão jovem quanto o pode ser um homem sábio. 59 liberdade. É essa a minha máxima fundamental..] pois isso tranformará o jovem num escravo e não num homem livre: “não há que confundir com a licença com a liverdade. mas a liverdade. porque não as compreendem”. se pudesse tornar no . que passa pelo respeito e pela liberdade da criança. 117-9. fazer a sua vontade.. [..

me imitar. devemos aceitar que as crianças imitem os adultos cujo hábito lhes queremos incutir.] Não deve dar preceitos: deve levar o seu pupilo a encontrá-los. encontrálo.] pensai bem que raramente compete a vós propor-lhe o que ele deve aprender. [. e essa autoridade nunca será suficiente. porque importa que ele não se acostume a considerar os deveres dos homens unicamente como deveres de crianças.. p.]” Rousseau 1990a. ”Sempre acreditei que antes de instruir aos outros era preciso começar por saber o suficiente para si mesmo [. porque.. tornam-se amigos [. o mal não está no que ele não compreende mas no que ele crê compreender. como se fosse uma honra imprópria para a sua idade.” Rousseau 1990a.. Não podereis dominar a criança se não puderdes dominar tudo quanto a rodeia. em si mesmo. [. 42-4. p.trar que não sabe o que responder e a confessar os seus erros ao seu pupilo? [.. mesmo.] onde está o mestre que esteja disposto a mos.. 97-8.. ”Lembrai-vos de que aquele que se atreve a empreender a formação de um homem precisa começar por se ter feito homem a si mesmo. 85-7. não deixará de vos interrogar...] nunca será demais exortar o governante a dar as suas explicações consoante às capacidades de compreensão do pupilo.. ”É preciso falar.. p. tem-se tempo para preparar tudo quanto se aproxima dela..] A cada explicação que se quer dar à criança. e. 181-2. não penetramos nas idéias delas e emprestamo-Ihes as nossas [.. ”Nunca sabemos nos colocar no lugar das crianças.” Rousseau 1990a.companheiro do seu pupilo e conquistar a confiança deste.” Rousseau 1990a. 62 . esperando que possam vir a praticá-los por discernimento e por amor ao bem.] Nada de belos discursos.” Rousseau 1990a..] Ensinará impedir que alguma coisa seja feita. compartilhando as suas distrações.. 193. prefiro praticá-los na sua presença.” Rousseau 1990a. fazer nascer habilmente esse desejo e fornecer-lhe os meios para o satisfazer... nisso.” Rousseau 1990a. uma pequena demonstração que a preceda é muito útil para conseguir que ela preste atenção. se não for baseada na estima da virtude [. a fim de que todos procurem agradarvos..] Entre nós. 197. tanto quanto possível.. p... começai por fazer-vos amar. ”[. o fundamento da imitação deriva do desejo de continuamente nos transportarmos para além de nós mesmos. repíto-o.] interessa-lhes fazerem-se amar um pelo outro. procurá-lo. através de ações..] e todo o mérito que atribui ao seu pupilo é um capital que investe em proveito de seus velhos dias. nenhuma única palavra! Deixai vir a vós a criança: surpreendida com o espetáculo.. é preciso que encontre. é a ele que compete desejá-lo.] numa idade em que o coração ainda não sente nada. 2935. e apenas dizer o que é impossível fazer [. para que os seus primeiros olhares só sejam feridos por objetos que importa que ela veja. p. e. p. retirar-lhe os meios de. por isso mesmo. 61 ”Em vez de me apressar a exigir que o meu pupilo pratique atos de caridade.. [. [. absolutamente nada. a vós compete colocar a curiosidade ao seu alcance. [.. Tornai-vos respeitáveis para toda a gente. Enquanto a criança ainda está sem conhecimento. o exemplo que tenciona propor. p.

esses dois educadores aprofundaram estudos sobre a psicologia infantil. 1906. de leitura difícil. Lse tests de Binet et Simon pour la mesure de I’intelligence. OVIDE DECROLY. entre publicações e simples traduções da época. Ovide Decroly (1871-1932) devotou-se ao estudo da educação. Embora por meios diferentes. julho/agosto. 1902. entre os quais JeanJacques Rousseau. A maior parte do material era tão antiga e frágil que foi necessário xerocá-la. combatendo o adestramento paciente e contínuo ao qual era submetida a criança na escola. passando para a história com o nome de Escola Nova.p. Rapport au Congrés d’Anvers pour I’ assistance familiale dês alienes.. em grande parte foi escrita por seus discípulos ou em colaboração. La psychologie des enfants anormaux. março. extensa e constituída quase exclusivamente por trabalhos específicos sobre temas complexos.. fruto do progresso científico em desenvolvimento. a partir de 1906: Quelques considerations sur la psychologie et la pedagogie de la lecture. doutor em Medicina. Percorrendo bibliotecas e sebos. 1935. Classification des enfants anormaux. estão: •Os trabalhos de 1902 a 1906. principalmente sobre a criança com necessidades especiais. readaptar os estudos às crianças. 16. como é o seu papel na vida real. No século XIX. e Freinet. 1905. Acreditamos poder respeitar a lógica até o fim e fazer da leitura e da escrita instrumentos. Uma obra rara. Archives de Psychologie. conseguimos reunir vários textos. com Rousseau. Entre esses textos. principalmente os que trabalham no ramo editorial. Année psychologique. Contribution à la pedagogie de la lecture et de I’écriture. mais ainda nos originais. Propõe coordenar as diferentes atividades escolares.2 Recuperando Decroly. . 19031904. solicitando a colaboração de amigos. um movimento que atinge todo o mundo. professor primário. fazer da escola um meio onde elas pudessem exercer uma atividade pessoal: a escola para a vida pela vida. escolhemos os dois nomes mais ligados ao nosso passado de educadora: Decroly. 1906. Revue Scientifique. abril. na linha do autor de Emílio. surgem as primeiras instituições escolares de cunho democrático apoiadas na ciência moderna. Conhecer todos os matizes da obra de quem sempre se negou a colocar em livro o próprio trabalho foi para nós um verdadeiro desafio. Archives de Psychologie. Bulletin de Ia Société de medicine mentale. Estavam delineados os novos rumos que tomaria a pedagogia! Entre os seus representantes. sobre psicologia e pedagogia dos anormais: Assistance de I’ enfance anormale. e nas idéias de filósofos e pensadores. Nasce. 64 •Os trabalhos de psicologia e pedagogia com crianças normais. Sua bibliografia. 1907.

1907. 4. 1919. M. Madri: F. Decroly fazia. Archives Internationales d’higiene scolaire.La mesure de I’intelligence cbez les enfants. 1913. ainda não revisitados por aqueles que querem construir uma verdadeira teoria da educação. Beltrán. especialmente as de ordem metodológica. s. El desarrollo del nino de dos a siete anos. RUBIÉS. 1929. da vida infantil. G. A. Seus discípulos Hamaide. este não a deixaria cair na rotina. 1929. Los centros de interés en Ia escuela Madri: Publicaciones de Ia Revista de Pedagogia. L’Éducateur moderne. Muito há para ser pesquisado sobre os centros de interesse e a Escola Nova. DESCOEUDRES. Madri: Estúdio. Tradução e notas Jacobo Orellana Garrido. 1919. La psycbologie du dessin. Comunication à Ia Société belge de neurologie. Madri: Espasa Calpe. corrigia as próprias opiniões e as minúcias de seu método. La pedagogia Decroly. Aplicación del método Decroly a Ia enseñanza primaria. foi compensador. s. por exemplo. 1907. Tradução espanhola. uma vez sua proposta pedagógica fosse compreendida e vivificada pelo professor. La iniciacion a Ia actividad intelectual y motriz por los juegos educativos. GUILLÉN DE REZZANO. DtSCHAMPS. Hacia Ia escuela renovada. Tradução e notas Jacobo Orellana Garrido. 8. Beltrán.d. Madri: F. ainda continua muito ”vivo”. Madri: Espasa Calpe. Madri: F. •Os trabalhos escritos em parceria com seus discípulos e publicados em livro: BOON. humildemente. junho. O esforço. publicados em 1906 e 1907. ed. 65 O interesse por suas idéias. L’École nationale. 1932. ed. porém. abril. diariamente. prólogo e notas de R. É inestimável poder ler. Madri: F. d. Revue de Pédotechnie. HAMAÍDE. Beltrán. le developpement de l’aptitude graphique. C. La autoeducación en Ia escuela aplicada al programa del Dr. ”Quelques considerations sur Ia psychologie et la pedagogie de la lecture” ou ”La méthode de la lecture et ses bases”. 1926. A. M. 1923. Tradução espanhola. ed. 1922. . Tradução espanhola. Aplicación del método Decroly a Ia ensenãnza primaria y Ia instrucción obligatoria. Les classes homogènes et I’examen mental. Prefácio do Dr. Tomás e Samper: 8. L. e acompanhar a prática e os estudos que o Dr. R. El método Decroly. La méthode de la lecture et ses bases. Claparède. Examen mental dês enfants anormaux. 1914. DALHEM. 1912. 1924. (Estúdios de Psicologia Experimental). Beltrán. Tradução. El método Decroly. La iníciacíón a Ia actividad intelectual y motriz por los juegos educativos: contribución a Ia pedagogia de los niños y de los irregulares. Sua expectativa era de que. Madri: Espasa Calpe. Madri: Publicaciones de la Revista de Pedagogia. Congrés de neurologie. Madri: F. LLOPIS. janeiro. verificar como ele. MONTCHAMP. Beltrán. A. Decroly.

Deschamps. de ordem essencialmente biológica. a Escola da rua Ermitage. pois não se pode deter a investigação científica. entre outros. como afirmam os que a observaram e registraram.o positivismo e o pragmatismo . enfim. Enquanto. dedicou-se principalmente à educação das crianças de baixa posição social (tal qual idealizara Rousseau). . Rompendo com as técnicas tradicionais. soube integrar sociedade e natureza. Ambos dedicaram-se aos estudos da psicologia e pedagogia de crianças anormais. para retardados e anormais. onde. Decroly coloca o aluno no meio dos 66 fenômenos que está estudando (o que Rousseau faz o tempo todo em Emílio). para o aprendizado da leitura. no interesse. procura levar a criança a esforçar-se para compreender os fenômenos estudados. Boon. com o intuito de integrálas à sociedade. nas necessidades da criança e no conhecimento do meio que a rodeava. p 22 DECROLY E OS EDUCADORES DE SUA ÉPOCA A carreira pedagógica de Decroly começou em 1901. na capital belga. de remeter a educação à própria vida da criança.Dalhem. uma vez que todos os dias nascem idéias que ampliam as anteriores ou retificam algum erro”.e ambos propunham a atividade espontânea da criança como ponto de partida para a construção contínua da inteligência. de sua escola para crianças normais. Rousseau. o pai da educação nova. mais que um teórico. no Brasil.. possuía idéias comuns sobre o desenvolvimento da criança. se tivesse sido gravada em livro. etc. levado por seu grande coração. Isso. Apud HAMAIDE. Desde que o interesse tenha sido despertado. a criança se esforçará no trabalho proposto. Montessori se dedicava aos materiais didáticos. quando fundou o Instituto de Ensino Especial. não sem antes fazer infinitas comparações. de cuidar do meio educativo. sobretudo Dewey. do cálculo. transferido depois para Uccles. Abner de Moura. especulações e experiências que a levarão ao verdadeiro conhecimento. Decroly. dificulta o conhecimento de sua pedagogia. Para ele. Bruxelas. cujo ponto de partida era a Medicina. Ao entrelaçar conteúdos. em Ixelles. e Pestalozzi e suas idéias de liberdade e espontaneidade. Como a doutora Maria Montessori.”todo trabalho do tipo manual corre o perigo de tornar-se ultrpassado. Momento decisivo em sua carreira foi a criação. de integrar sociedade e natureza. porém. Tão rica vivência. e. Decroly criava um método específico. Decroly sempre evitou colocá-los em prática. de aprender por si mesmas. ambos sofreram a mesma influência espiritual . Embora tenha aprofundado seus conhecimentos teóricos. naturalmente. de planejar situações que possibilitem a utilização das vivências.. é a manutenção da rotina sobre a qual tão bem soube teorizar. para ele. o método global. sua doutrina sobre a importância do trabalho ativo e dos centros de interesse. O novo. Decroly trabalha com base na teoria herdada e assimilada. Degand.. porém. não poderia ter sido mais bem representada. desenvolveram o estudo dos centros de interesse. em 1907. 1923. que substituiu por uma educação e um ensino baseados na liberdade. foi um técnico em educação Seus escritos foram influenciados por educadores de seu tempo.

ao preparo da criança para a vida social. 1931. a ocasião. FAZENDA. não de fórmulas”. principalmente com crianças pequenas ou no início da escolarização (6-7 anos).63. através do desenvolvimento da disciplina com liberdade. que ainda não conseguem perceber os fatos isolados e seus detalhes. Decroly ”imaginou um sistema de princípios. consiste numa organização diferente dos programas escolares. O grande valor do método de Decroly é propor a globalidade e a integração entre as disciplinas. cada um dando uma parcela para a formação do conhecimento único. método de complexos ou. para alcançar seu ideal e expectativas e preparar-se para compreender as aspirações e os ideais da humanidade Decroly acreditava ”ter criado um sistema de transicão entre a escola verbalista e [a] da atividade”. à qual acomoda também seus centros de interesse e de idéias associadas. Aponta uma nova atitude em educação. partindo do: 67 • conhecimento da própria personalidade: consciência de si mesma. ao sugerir a necessidade de buscar a unidade do saber. Ainda segundo Abner de Moura. obviamente implicarão no efetivo exercício da responsabilidade”. de tendência atomística e analista. programa de idéias associadas. para renovar os centros de interesse e manter constantemente a comunicação espiritual com os discípulos”. A escola que propôs visava à educação geral. de suas necessidades. o qual deve defender e no qual vai agir.1980. 193. tinham o objetivo de ”conciliar a aquisição dos conhecimentos previstos pelos programas oficiais com a atividade espontânea dos alunos.Seus centros de interesse(Centro de interesse: também conhecido como método Decroly. voltada para objetivos práticos. ele antecipa as noções de interdisciplinaridade ao mostrar que um conhecimento evoca outro. MOURA. p 14. que. depois de conhecer bem a psicologia infantil. ainda. Sua pedagogia considera que toda educação deve basear-se na atividade da criança e suas necessidades. úteis à vida. canalizar a imaginação e a criatividade infantis para um aprendizado no qual venham a ocorrer o imprevisto. que cria um vínculo entre as disciplinas. em que a ação e o trabalho ativo estão impregnados pela observação e análises que a criança faz do que observa e documenta. Apud MOURA. P 6 A PROPOSTA PEDAGÓGICA DE DECROLY O método Decroly acentua a idéia de caráter global da vida anímica. Ela se baseia no estudo da constituição psíquica de cada criança. Para Luzuriaga. Rompendo com a rigidez do programa escolar. a atualidade. Não basta o professor mudar o método ou a técnica de ensino se mantiver a . levando-as a convergir para um mesmo centro). deixando a cada professor a tarefa de inferir desses princípios as suas fórmulas pessoais. ”o sistema Decroly exige atividade criadora e reflexiva por parte do mestre. E é justamente esse conceito que diferencia a sua pedagogia das do século anterior. aspirações e ideal. mas apenas a totalidade. indivisível.p. • conhecimento da natureza do ambiente.

in HAMAIDE. na linha da escola de Stanley Hall e de Dewey. os programas escolares mas.FERRIÉRE. no jardim. numa escola onde imperava a obediência passiva e não havia preocupação com o desenvolvimento do espírito crítico. desde a fecundação do ovo até a maturidade para reprodução. no prefácio a El método Decroly. na loja. No espírito mais que na letra. visando a desenvolver as capacidades criadoras da criança ou. dizia. os procedimentos metodológicos. A sala de aula.1923. mesmo sendo impossível mudar todas as escolas. Filogênese – história da evolução das espécies animais e vegetais). afirma Claparède. uma nova maneira de ensinar e de aprender dependente de um novo entendimento. Embora reconheçamos sua proposta como um tanto utópica.mentalidade em relação à educação. dentro e fora da sala de aula. na sua maior parte. como diz Ferrière. A reforma que propôs abrange a organização física da escola e da sala de aula. Decroly dá grande importância ao ambiente. que deverá manter permanente contato com a vida. ne vartetur. não de um modelo para copiar ponto por ponto. uma nova postura do professor sobre o seu papel no processo. servilmente. CLAPARÈDE. não se deve ficar inerte. desde a 69 sua origem. AS TENDÊNCIAS ELEMENTARES Por sua formação em medicina. nos passeios. buscar seu marco natural.1929.94-5.. como seria desejável.P. está em toda parte: na cozinha. temos que aprender”. prefácio Decroly nunca se conformou com o adestramento paciente e contínuo da criança. no campo. ”Não há necessidade de dizer que esta ex68 posição deve constituir principalmente um magnífico exemplo de um método de vida. Dedica muitos anos à observação da vida instintiva da criança. principalmente. O pouco que se fizer em prol da mudança da escola já constituirá um avanço.acreditava que a vida espiritual superior é regulada. O próprio Decroly dizia que.. ”colocar o espírito da criança em contato com a moral humana”. Decroly pesquisa a evolução ontogenética e as etapas da filogênese. e que podem influir positiva ou negativamente no seu desenvolvimento. Seus vinte anos de trabalho e observação lhe permitiram afirmar que é necessário encontrar meios para tornar prazerosa a permanência das crianças nas escoías.. Propõe diversas medidas. (citação: Ortogênese – processo de diferênciação e crescimento que se produz durante o desenvolvimento do individuo. acreditar nela e procurar aproximar-se dela o mais possível é condição importante para o êxito do trabalho escolar.Ele quer entender os fatores que agem sobre a criança. por tendências e impulsos instintivos. . que considerava de grande interesse para a prática educativa . a fim de descobrir as leis do inconsciente. na oficina. Propõe a quebra da rigidez do mobiliário escolar e a atividade livre da criança.

Compara o jogo ao trabalho escolar. 13. o medo. proteger-se. há manifestações que permitem a conservação da vida e sua adaptação. do caçador selvagem ao nômade. desde os bárbaros até a civilização mais refinada. Distingue-se do trabalho. ( citação: Jogo: atividade instintiva. de defesa (medo e cólera). a criança organiza os próprios conhecimentos. necessariamente.”DECROLY & BOON. Decroly insiste na importância de o educador conhecer bem as tendências. exprimindo-os em função de suas necessidades vitais: comer. de amor-próprio. as etapas do desenvolvimento intelectual e a interferência da família e da sociedade. muitas vezes. que provoca reações espontâneas. isto é. mostrando o raciocínio como ponto de partida para a reflexão. exercem influência sobre a imitação. as tendências que não estão voltadas apenas para as necessidades fisiológicas ocorrem mais tarde. reprimidas pela vida familiar e social. 1939. ou seja. Observando a realidade. defender-se e produzir. específicos ou sociais). etc. a agressão. ”Em todos os seres. mesmo os mais sensíveis. Decroly busca nas reações e interesses das crianças vestígios dessas etapas de desenvolvimento intelectual. de como ele encontra em determinado objeto satisfação para as suas necessidades biológicas e psicológicas. Daqui a origem dos centros de interesse. tirar partido delas e favorecer suas manifestações. o interesse depende da evolução biopsicológica do indivíduo. É em função das tendências que se organizam as informações e representações. e necessidades conscientes. da consciência. As tendências não se manifestam ao mesmo tempo. Até a idade adulta o homem está em contínua evolução. e agradável. do industrial ao comerciante. atitudes sensoriais e motrizes. como a capacidade de atenção. umas após as outras. movido pelo interesse. Estabelece a distinção entre as reações espontâneas. inconscientes. surgem por simples imitação) não provêm. da educação. das experiências desenvolvidas. nem tomam o caráter de reflexão. vão determinando as atividades das crianças. O meio e outros fatores. a relação do eu com o não-eu. de antecipação (imitação e jogo). Aponta três fatores que modificam ou moderam as manifestações instintivas: o surgimento das habilidades motoras. Para Decroly. aos 3 ou 4 anos. e são dependentes das funções mentais superiores. aproximando-se mais de uma ocupação forçada. distante e que provoca reações não-agradáveis) na forma como era organizado na época. do pastor ao lavrador primitivo. Afirmava que o trabalho escolar não correspondia à condição de jogo. uma . cujo objeto é consciente. Logo. Decroly situa na base do comportamento da criança instintos que se organizam 70 em sistemas de atração (individuais. sendo possível associálas.Seus estudos trouxeram muitas informações novas para a época. do meio ambiente e do nível de consciência que a criança tem de si mesma. principalmente sobre as tendências elementares da criança: a curiosidade. P. Os atos instintivos (tendências primárias) e os atos adquiridos (hábitos que. Analisando a sociedade humana.

atividade sem nenhum interesse para a criança, nem por si nem pelo objeto que perseguia. As tendências podem combinar-se ou opor-se, provocando antagonismos, ou neutralizar-se, eliminandose umas às outras. Decroly dá como exemplo o antagonismo entre o amor-próprio e o instinto nutritivo: uma criança, ”mesmo tendo fome, não ousa às vezes comer diante dos outros um pedaço de pão porque se sente humilhada por não ter outra coisa que comer; ou, então, não quer comer sentada a uma mesa na qual se acham outras crianças porque estas estão mal vestidas ou porque as considera de uma classe inferior à sua”. DECROLY, 1929, p 57 . É um conflito de sentimentos, isto é, de tendências evoluídas, complexas e submetidas ao controle da inteligência. A educação deveria oferecer à criança oportunidade para expandir os impulsos característicos de cada fase de seu desenvolvimento, com o seu ciclo de instintos e interesses. É uma nova visão. O interesse do educando é valorizado. O processo de formação passa a associar-se àquilo que tem maior relação com o aluno, isto é, ao que lhe pertence, ao que existe no seu ambiente. A natureza primitiva do homem, baseada no instinto, segundo ele, sofre influências do meio, do qual o homem retira os 71 critérios do seu conhecimento. São os instintos, diz Decroly, que se transformam em memória e conhecimento. O educador precisa conhecê-los para adaptar o programa e a organização escolar. Os centros de interesse não visam à simples manifestação dos instintos. Decroly dá grande destaque ao papel da motivação, não só do instinto, mas da gerada a partir da vivência de grupo bastante intensa, nos moldes de uma cooperativa. Esta é uma das razões pela qual seu sistema necessita ser reinterpretado, vivificado pela atividade do professor: não basta a reforma da estrutura física ou da organização da escola, afirmava Decroly, é preciso analisar os erros do ensino, estudar a sua natureza para propor soluções. PROGRAMAS DE ENSINO: BUSCA DA UNIDADE DO SABER Analisando os programas de ensino vigentes na época, Decroly propõe algumas medidas para modificá-los. Propostas de Decroly para reforma dos programas de ensino Defeitos 1 Nenhuma ou muito pouca coesão entre as diversas atividades da criança; Medidas preconizadas - Aplicação de um programa de idéias associadas, estudo da criança e do seu meio, Defeitos 2 Materiais desvinculados dos interesses fundamentais da criança e sua evolução, Medidas preconizadas - Emprego do método dos centros de interesse, Defeitos 3 Muitas lições com assuntos e objetos diferentes,

Defeitos 4 Divisão em disciplinas, sem levar em conta o processo de pensamento da criança; Medidas preconizadas - Divisão das disciplinas de ensino, levando em conta as grandes funções psicológicas: observação, associação e expressão; Defeitos 5 Disciplinas que subestimam a capacidade de assimilação e de memória da maioria das crianças, Medidas preconizadas - Disciplinas apropriadas aos diferentes grupos; Defeitos 6 Predomínio de disciplinas ensinadas por métodos verbais; Medidas preconizadas - Preferência aos métodos intuitivos ativos e construtivos; Defeitos 7 Exercícios que não dão oportunidade à atividade espontânea da criança Medidas preconizadas - Atividade pessoal favorecida pela prática de trabalhos manuais e jogos educativos DECROLY & BOON, 1939. p 33 Decroly discutia com os professores as propostas de reformulação dos programas de ensino, destacando o que era necessário alterar e por quê. ”O principai defeito do programa primário é ter sido elabora72 do por homens muito sábios em suas especialidades mas pouco preocupados com a psicologia infantil. Para eles a criança é o acessório [... ] é necessário dar a todas as crianças cultura geral e comum, desde a escola primária, sem se preocupar se ela convém à criança [...] Tudo o que proponho oferecer com os conhecimentos se encontra nos programas atuais, só que há uma diferença: meu objetivo é criar um vínculo comum entre as disciplinas, fazê-las convergir ou divergir de um mesmo centro; é da criança que tudo se irradia, e este é o fio de Ariadne que permite ao espírito do programa orientarse no dédalo infinito das noções que os séculos acumularam. E, desse modo, tenho em conta que o elemento afetivo primordial é o interesse da criança [...] alavanca por excelência que conduz ao conhecimento.” DECROLY, 1939, p. 65-8. Na linha de Rousseau e outros filósofos da época, Decroly sugere a reforma da prática educativa, sobretudo dos programas e métodos bastante fragmentados. Diferentemente de Rousseau, que propõe isolar o educando, ele considera a convivência com o grupo a forma natural de o educando interagir e cooperar. Sua proposta de trabalho individual e coletivo prevê atividades pessoais e de grupo, equilibradas de modo harmônico, como nos centros de interesse. A escola deve refletir a organização, as ocupações da sociedade, ser uma opção à mudança social, concentrando todo o empenho possível para levar o aluno a beneficiar-se das atividades de ensino, a fim de desenvolver-se afetiva, social e cognitivamente. A criança é imediatista, só compreende o que é objetivo e concreto, e se interessa pelas coisas e pessoas que lhe estão próximas. Por isso, o ensino deve ser baseado nesse egocentrismo, nas necessidades e interesses das crianças e no conhecimento do meio que as rodeia. O programa deve buscar na vida real o conteúdo a ser trabalhado, visando a quatro objetivos:DECROLY, 1939, p. 13-4.

1. Buscar a unidade do saber, a interdisciplinaridade, ou seja, a atitude de quem vê a ciência, o cálculo, a história na sua totalidade, sem divisões. 2. Atingir o maior número possível de educandos. 3. Permitir a aquisição de um mínimo de conhecimentos, os indispensáveis. 4. Favorecer o desenvolvimento integral de todas as faculdades e a adaptação ao meio natural e social no qual a criança passa sua existência. 73 Decroly não explicita as faculdades, isto é, deixa a discussão em aberto, mostrando o quanto era sábio. São outras coisas além de ortografia, leitura ou regra de três que dão valor ao homem. Muitos que a escola considera os melhores nem sempre o são na vida. Para Decroly, na vida há duas categorias de atividades: as pessoais, para o crescimento do sujeito, e as sociais, para o crescimento da cultura. Decroly acreditava que, à medida que os professores fossem mudando sua prática, a escola também se transformaria. Isso exige dedicação, um professor preparado para estimular e acompanhar o trabalho pessoal do aluno, avaliar suas conquistas, ou seja, o processo. Toda educação autêntica reclama a participação efetiva do sujeito em seu próprio aperfeiçoamento; caso contrário, é domesticação e conformismo. O trabalho não será verdadeiramente pessoal e funcional se suas técnicas, ritmo e conteúdo não forem apropriados às características pessoais de quem trabalha. Sua proposta metodológica considera a criança centro do processo e sujeito da própria aprendizagem. O educador precisa conhecer bem o educando, observar seus processos, para perceber os fatos que o rodeiam e que podem servir-lhe de intuição. O conhecimento, para ele, acontece de dentro para fora, dependendo da evolução biopsicológica do indivíduo. Para atingi-lo, isto é, para satisfazer as necessidades do homem, propõe o estudo do meio, dividindo o programa em dois grandes tópicos: • a criança e os outros homens; • a criança e a natureza. No primeiro, analisam-se todos os fatores relacionados ao meio humano: familiar, escolar e social; no segundo, o meio vivo (animal e vegetal) e não-vivo, que inclui a terra (água, ar, solo) e o cosmos (sol, lua, estrelas). A prática consiste em trabalhar cada unidade, tendo em vista a ação do meio sobre o indivíduo e a reação do indivíduo ao meio. Não há limite de idade nem divisões de ensino. Afirmava que o seu programa poderia ser aplicado com crianças pequenas, de 3 ou 4 anos de idade, e com crianças maiores, bastando repetir e ampliar cada centro com outros procedimentos, de forma a levar a criança a aumentar seus conhecimentos. 74 O importante era manter a integração dos conteúdos, uma vez que nos programas da época eles se apresentavam ”de forma arbitrária, sem enlace, sem coesão. As oito ou dez lições diárias que compreende o horário tratam de oito ou dez noções diferentes que não têm entre si nenhuma relação. Além do

embora possa existir integração e até previsão da distribuição das unidades programáticas ao longo do ano letivo. contribuindo para que venha a construir os próprios conceitos. Os exercícios de observação dão oportunidade à criança de trabalhar sobre fatos concretos. Decroly propõe a aplicação dos conceitos em todos os seus aspectos ou divisões. cagados. mosquitos. exercícios de expressão do pensamento. etc. p. Seu método compreende três fases: observação. p.) e animais (caracóis. moscas. mas ”podem ser tomadas de acontecimentos atuais importantes. Parte do princípio de que cada um constrói o próprio 75 conhecimento na interação com o ambiente. 1924. A distribuição da matéria mostra a presença da interdisciplinaridade na sua proposta. p. que é difícil fazer outra coisa”. se estes forem capazes de interessar as crianças e servirem como ponto de partida para uma observação direta”.1926. classifiquemnos. 1926. o chapéu ou a bota? O material de . que a criança seja estimulada a explorar e conhecer materiais diversos. associação e expressão. compreendendo e interpretando seu contexto. As idéias não devem limitar-se a acontecimentos passados.mais. com exercícios voltados para a aquisição pessoal — comparação. etc. 71. É o chamado método de associação de idéias. Para Decroly. É necessário nova atitude.DECROLY & BOON. não fragmentados mas incorporados à vida. cenoura. mais criativa e mais reflexiva. caramujos. adquirir experiência de vida. classificação e associação — e para aquisições ou recordações das aquisições anteriores. Os conhecimentos trabalhados deveriam convergir para um ponto comum. respondam a perguntas sobre a relação dos objetos apresentados e novos com os objetos familiares ou conhecidos e percebam as analogias para chegar à formação do conceito. Observação Decroly dá grande valor à atividade de observação. para propor o trabalho em sala de aula. DECROLY apud DALHEM. observando. para que o aluno chegue à sua construção. isto é. o horário é tão pouco flexível. Algumas perguntas podem direcionar a descoberta de detalhes e estimular a curiosidade: O que pesa mais. de maneira que sejam associados.74 É importante manter em classe plantas comuns (couve. É o que Decroly chama de educação pela inteligência. 24. cebola. Adverte que. as atividades devem ser planejadas para que os principiantes agrupem os objetos. Cada grupo de idéias associadas (que contemplavam todos os conteúdos dos programas da época) compreendia uma série de lições de observação. nada acontecerá na prática se não houver mudança de postura do professor. É fundamental. afirmava.) para que as crianqas acompanhem o seu desenvolvimento. Destaca a manipulação dos objetos como meio natural por excelência para conduzir as atividades mentais e os exercícios. DECROLY & BOON.

Expressão A expressão compreende todo ato que visa a exprimir. 76 a criança se serve dos meios de medida que existem na natureza. o que permite detectar lacunas ou conhecimentos já adquiridos. coordenar seus conhecimentos e promover a passagem gradativa do nível concreto para o abstrato. a ortografia e os trabalhos manuais (modelagem. a linguagem gráfica. As adivinhações. os motivos para reelaborar seus conhecimentos. planos e mapas — geografia. 2. são o ponto de partida para os exercícios de leitura e cálculo. por existir um conhecimento prévio do objeto. 4. com o auxílio de recordações de experiências passadas. ou elocução. Compreende: a linguagem oral. absurdas. por meio de formas variadas.que é feito o chapéu deixa passar o calor? E a luz? É melhor ou pior que o couro da bota? Por que se engraxam as botas e não o chapéu? E assim por diante. com escrita e desenho. o teatro. enriquecem o vocabulário da criança e acostumam-na a expressar o pensamento com precisão. Tempo presente e tempo passado — exercícios de associação por meio de documentos. . Ao fazer comparações sobre fenômenos meteorológicos. as idéias sobre o que foi observado. Isso exige do professor observação e criação de espaço para a expressão das idéias. podem ser apenas verbais. recorte. Relações de causa e efeito. etc. As lacunas. O professor deverá suprir o que falta em vocabulário e detectar dificuldades para relacionar significados aos signifícantes que podem prejudicar a formação de idéias claras e coordenadas. a criança. colagem e dobradura). sobre peso e valor dos objetos ou outros temas. desenvolvidas pelas crianças graças às noções adquiridas nos exercícios anteriores — representam o porquê e o como de os fenômenos se tornarem conscientes. com utilização de recursos apropriados. não é dar noções prontas. a dramatização. O papel da escola e do professor. Decroly divide esses exercícios em quatro grupos principais: 1. visitas a museus. para Decroly. o espaço. pode ser incapaz de respondê-la com termos apropriados. 3. mas permitir que a criança chegue a elas. graças à repetição constante de palavras. a leitura. Os exercícios de associação ajudam a criança a buscar. as noções transmitidas por via oral ou iconográfica. Associação Nem sempre a observação é possível e necessária. As perguntas podem provocar respostas contraditórias. teatros e bastante intuição. Exercícios tecnológicos — exame dos materiais brutos e seus derivados e sua aplicação industrial. por ignorar o sentido de alguma palavra da pergunta. Objetos e fatos da atualidade. dizia Decroly. reforça Decroly.

no mínimo reterão alguns conceitos. sentindo-se estimulada e desafiada a reagir ativamente no processo de aprendizagem. colagem e dobradura. aprendem a ler e a escrever. de cérebro bem constituído. onde ela possa agir e ter contato com a vida. descreve o percurso de cada. as habilidades básicas para a alfabetização podem ser trabalhadas de forma ampla: utensílios de cozinha. DALHEM. tão complexa. como Dewey. saber avaliar. Decroly chegou à conclusão da necessidade de individualizar o mais possível o ensino: ”A psicogênese (Citação: O termo psicogênese. as crianças de inteligência normal. alimentos. Apud DALHEM. com os instrumentos culturais. Uma intuição genial! Nossa experiência de educadora nos tem mostrado que todos os alunos. seus gostos e interesses. 45-8 As figuras a seguir mostram como. combinam dois fatores: o conhecimento que a criança tem das coisas e do mundo e a relação individual que estabelece com eles. devemos respeitar essa individualização na compreensão e na aquisição dos conceitos”. apenas o método e a escola que produzem conhecimentos. acima de tudo. d.. pois. sua personalidade —. Não é.Segundo Alice Descoeudres. a princípio. porém as crianças de inteligência mediana. Surpreende a variedade. desde que se lhes dê tempo e condições para tal. DESCOEUDRES. destinado a crianças anormais. porém não devemos contentar-nos com essa individualização na prática. em um ambiente propício à experimentação. a necessidade de um ensino apropriado aos interesses da criança. Emilia Ferreiro e colaboradores. os trabalhos manuais. p. utilizando meios apropriados”. Ele buscava procedimentos que ajudas77 sem a trazer essas crianças à sociedade. [.p. ”aprendem independentemente do método e da escola. de tal modo que é necessário considerá-las como outras tantas individualidades. por meio de atividades de recorte. s. os jogos ou qualquer atividade criadora. dizia. mas também para a 78 de outras habilidades e conhecimentos.1924. o trajeto à . indivíduo para adquirir a base alfabética da língua escrita) nos mostra de um modo claro que nem todas as crianças podem ser parecidas. Decroly vê. o café da manhã. o trabalho do professor deve ser muito mais conhecer em que tipo de atividade seu aluno é mais lento para ajudá-lo a avançar e. entre as crianças. Os trabalhos manuais concorrem não somente para . aos excluídos das escolas ou àqueles que transgridem as regras: os não-normatizados. DALHEM. 22-3. p. 1924. Ótimos para conhecer bem as crianças — em suas diferenças. um método que as fizesse aprender. Para Decroly. o sistema Decroly era. Para essas é necessário favorecer a aparição destes.] O trabalho livre e pessoal nela é uma aplicação. 1924. 24-9.. Achava que a capacidade da criança para estabelecer relações sociais está intimamente associada à forma como expressa suas idéias. inclusive os provenientes de classes cultural e economicamente menos privilegiadas. a aquisição da leitura e da escrita. mais lentas.

e por Nicolas Adams. com ele. O ”todo” era a palavra. perceber formas e estruturas. como foi proposta pelo abade Radonvilliers. que dá enorme importância à percepção visual no processo de leitura. . ( figura de uma rua com os carros e casas e figura de uma cena familiar. sugerindo a utilização de sucata ou o aperfeiçoamento do trabalho. Eles dão à criança a oportunidade de interagir com a leitura e a escrita de forma lúdica e prazerosa. Decroly já condenava a cópia como simples reprodução do pensamento adulto: ”Convém que o trabalho da criança não se reduza a uma simples cópia. ”A alfabetização ou o ensino da leitura deve partir do todo.1979. é necessário que seja realmente a experiência do seu pensamento” Apud DALHEM. Consistem. o professor recupera a globalidade do ensino. proposta para ser trabalhada como centro da aprendizagem. 79 MÉTODO GLOBAL O método decrolyano global ou visual-ideográfico foi adotado durante muito tempo no Brasil. os meios de locomoção. associadas com rodas cantadas. aguçando sua sensibilidade quanto ao meio ambiente. em 1768. imitação abstrata de memória. porém estabelece uma diferença: as palavras de que faz uso são retiradas do vocabulário de cada centro de interesse. Tudo está relacionado à criatividade do professor. a fim de que esta possa opinar. associam os movimentos às idéias e auxiliam o desenvolvimento dos reflexos e da motricidade. Eles disciplinam e coordenam os gestos. a mesma usada para aprender a língua falada. O desenho e o jogo dramático devem ser igualmente estimulados. sintetizar e compreender as idéias. Os jogos dramáticos devem ser introduzidos no horário das aulas. principalmente. trabalhando as diferentes aprendizagens de forma integrada e não estratificada. pois concorrem para a globalidade do processo educativo. Há sete décadas. ouvir. mantendo a idéia principal. O caráter global do método Decroly não se /imita ao estudo da palavra. os objetos de uso pessoal. A visão é o sentido que mais cedo e mais ativamente se desenvolve. deve partir do vocabulário da criança. DECROLY apud BELLENGE. p. 1924. com isso. os avós e os netos. em imitar ações com graus variados de dificuldade: movimentos vistos. Autores: Agostinho de Paula/Cira Sanches). podemos ler um texto apenas com os olhos (leitura mental). O processo de alfabetização. que recomendava seguir a ordem natural. sem utilizar a linguagem verbal. etc. encenações teatrais. levando a criança a ver. que deve ajudar a criança.escola. para ter sucesso. Decroly recupera a questão da globalidade. O primeiro contato da criança com o símbolo gráfico deve estar associado á imagem visual. para posteriormente passar à decomposição”. compreendê-lo. em 1787. A leitura e a escrita devem estar sempre associadas a uma idéia. A criança aprende quando entende ou produz o processo.52. Decroly também utiliza a palavra. por intermédio de atividades rápidas com a participação de todas as crianças.

o conhecimento 80 é organizado segundo as estruturas cognitivas. A atividade da criança é determinante na construção do conhecimento. ”encosto”. . que adquire a noção de ”cadeira” (síntese). a pretexto de que é preciso começar do simples para o composto. as letras ou os sons constituem o abstrato para ela. A leitura Como Piaget. 53. representam a idéia expressa verbalmente. a criança vai querer aprender a ler. melhor será a sua expressão. ou visual-ideográfico. Não é natural obrigar a criança a memorizar sílabas e letras. no primeiro ano de vida. As frases escritas. frase ou palavra significativa — é o concreto para a criança. ”as crianças aprendem a ler antes de conhecer os nomes das letras. O educador deve compreender que as questões envolvidas nos atos de ensinar e aprender não são meramente de ordem motora. sílabas e letras — é um processo natural de aquisição do ensino. O todo — texto. DALHEM. os quais consideramos bastante avançados. 1924. ”O que se constata é que se empregam esses termos de maneira totalmente equivocada. p. Para ele. Isso só viria a ser feito a partir da década de 70.p 57. por meio dos estudos de Emilia Ferreiro. utilizando a leitura e a escrita como critérios de correção da fala. do concreto para o abstrato. Decroly considera importante que. 81 Partir do que é significativo para a criança e depois passar às partes — palavras. a leitura seja ensinada por meio de frases e pensamentos ou como se aprende a falar. durante muito tempo. com a parte das letras dos sons ou das sílabas. Para Decroly. O mesmo processo se dá com a leitura: quando exposta a atos de leitura significativos.Construir seu conhecimento e não repetir o de outrem! Não é fantástica essa antecipação? O que Piaget viria a caracterizar em 1923 já estava delineado nos escritos de Decroly (principalmente os de 1906 a 1922). Decroly dizia que. Piaget é um dos maiores teóricos do construtivismo De acordo com a psicologia genética. ” DECROLY apud DALHEM. quando exposta ao mundo lingüístico que a rodeia. 1924. a leitura e a escrita são o resultado de um processo de representação de linguagem. As sílabas. desde o início. a última expressão da análise. antes das noções de ”cor”. uma vez que são partes do todo. “ Não foi porém. por traduzirem pensamentos. Por isso Decroly propõe o método global. ”assento” (análise). preocupação de Piaget investigar ou ligar o construtivismo ao ensino-aprendizagem da leitura e da escrita. que determinam o modo pelo qual o sujeito apreende o objeto do cohecimento. para o ensino da leitura. confundindo-se o simples com o mais curto. a criança aprende a falar e a entender o que lhe dizem desde muito cedo. Além do mais (a leitura) é mais rápida que com os outros métodos”. e nunca por meio de letras e sons. nossa escola não considerou a fala. quanto mais estímulo e contato a criança tiver com o meio e as coisas que a rodeiam. No entanto.

Não há limites à imaginação. que possam ser confeccionados pelas próprias crianças. 1924. porém. p 56 ”’Senhor João. A escrita O mesmo procedimento global deve ser utilizado na escrita. As crianças devem utilizar materiais de leitura significativos para elas. desenvolvendo a observação e a linguagem oral pelo maior tempo possível. você lera hoje o alfabeto. Calcado na observação e na associação de idéias. era comum os métodos apelarem para recursos que pudessem auxiliar o aluno a descobrir e memorizar a relação letra/som. Uma possibilidade é que a criança elabore seu próprio livro de leitura em vez de utilizar a cartilha ou um modelo — isso representaria um grande avanço. de acordo com o interesse da criança. p. Ele . o espírito da criança não trabalha. Não se deve precipitar o ensino da leitura. Buscar um método de leitura completamente novo foi. desde o início. com assuntos de suas vidas. que extrapola o pretendido nos programas oficiais. sem dúvida. Tinha eu seis anos. o professor tem a ilusão de que o aluno tenha conseguido vencer a dificuldade. em oposição ao que se pensava e aplicava nas escolas. do diaa-dia. La initiation a Ia actividad intelectual y motriz por los juegos educativos (1919). Numa época em que as bases científicas sobre a comunicação verbal mostravam-se bastante reduzidas. Dizia que. a grande inovação do sistema Decroly. Apud DALHEM. para que suas idéias venham a associar-se intimamente. seu raciocínio também se desenvolverá. Gostava de belos livros de imagens. tão pouco explorado. Decroly descreve vários deles. com aquilo que lê. o desprezava. Porém me enfastiava e não queria seguir estas largas regras que enegrecem as páginas. 1924. portanto. a criança não sofrerá restrições e a leitura cumprirá seu objetivo: a expressão. 57.Se esse processo for seguido. mas deixá-lo acontecer naturalmente.” 82 Em 1912. levá-la a observar e experimentar. como o jogo para o conhecimento de palavras novas. Em seus estudos da psicologia da criança e experiências. Decroly analisa o processo de abstração simbólica da leitura/escrita.’ Ouço ainda esta palavra que me causa nojo. Os procedimentos devem basear-se em jogos simples. é ele quem faz o trabalho cerebral e proporciona os frutos a seus alunos”. com essa opção para o ensino da leitura. na realidade. e o conhecimento da linguagem e do pensamento. Este trabalho não me divertia e. Sluys afirmava que. imprimindo-os em um duplicador. a escola torna-se pouco atrativa e deixa de ocupar as crianças com exercícios de observação. afirma Decroly. Deve-se colocar a criança em contato com o ”grande livro” que é a natureza. Dalhem comenta a tortura de uma lição de leitura: DALHEM. para quem dar sons analisados era fazer uma abstração precoce ou antecipar a evolução mental da criança. No livro que escreveu com Montchamp. ”decompondo-se as palavras-chave. de formação e de enriquecimento do vocabulário.

precisava antes fazer uma análise e descrição dos fonemas de modo a simbolizá-los. 1924. uma caneta e tinta e se manda escrever. aprenderá naturalmente a escrever. A representação da linguagem não depende do domínio de atividades motoras. a representação gráfica dos sons da fala segue as mesmas etapas pelas quais a humanidade passou até dominar esse instrumental para comunicar-se.” DALHEM. DALHEM.orienta que se escrevam as palavras em tiras de papel. para construir a escrita. “Desde o primeiro dia a criança escreve o que lê. contextualizadas. não uma simples imagem auditiva associada a uma imagem motora. A escrita passa a ser um processo de descoberta para a criança. Exemplifiquemos com uma criança que nunca tenha escrito. A palavra ”cachorro”. Aqueles que dão importância ao caderno limpo e bem cuidado devem se abster de fazer esse ensaio. que não interessam nem divertem e que são sempre mal feitas. Da mesma forma. Quanto às regras gramaticais.74. DECROLY & MONTCHAMP. As primeiras experiências com crianças pequenas (fase pré-escolar) datam de 1920 e foram registradas por 83 L. A palavra passa a se constituir num tesouro para a criança. como a busca do saber científico. Dalhem. esses incômodos exercícios sistemáticos. sabendo para que serve a escrita e o que esta representa para ela. p. mas de um processo histórico e individual de estruturação de todo um sistema de representação simbólico. isto é. Por considerarem que essa aprendizagem provém de experiências significativas. por meio deles. 1919. ser o esboço das idéias. sem medo. uma vez que. dizia que. Dalhem estava não só rompendo com o que se fazia no ensino da escrita. estará associando a palavra à idéia (significado e significante). a quem se dá uma folha de papel. As frases e as palavras são consideradas desenhos que deve reproduzir. deve evocar a imagem e a idéia de cachorro. perdem os resultados de uma experiência verdadeiramente interessante. Observa Dalhem que os educadores ”podem e devem suprimir. Não deixam de ser revolucionárias. ela interage com outros conhecimentos (idéias) a sua volta. como também valorizando . Para Decroly.74. pois foram desenvolvidas numa época em que se privilegiava a posse do código gráfico e o domínio de habilidades perceptivo-motoras. para eles o bonito caderno é o critério do bom ensino. para a criança desenhar e copiar. a cada repetição. A introdução de jogos e brincadeiras para esse tipo de ensino já demonstra a percepção de que eles constituem uma rotina na vida da criança. essas idéias intermináveis dos mesmos caracteres ou dos mesmos elementos. p. 1924. Ao colocar em prática o método Decroly. O período preparatório para a escrita não era visto por Decroly nem por seus discípulos como etapa necessária ou que devesse anteceder a escrita. como nos adultos. que a guarda e utiliza várias vezes. A escrita deve ser um desenho abstrato como o croqui é um desenho concreto”. p. seu sucesso estaria ligado muito mais às oportunidades de a criança operar com a palavra ou o texto escrito — numa totalidade significativa —. 68. A escrita deve derivar da linguagem gráfica. por exemplo. do que a treinos de discriminações e percepções.

. escritos. pictórica.Dalhem. discípula de Decroly.. p. a criancinha . De início. Dalhem a considera uma tentativa de imitar a escrita do adulto. histórica e contextualizada: ”Não se deve seguir as recomendações do programa de Bruxelas. Na primeira etapa.] porém inspirar-se sempre na forma com que a criancinha aprende a falar. Etapas de aquisição da escrita As cinco etapas do processo de escrita da criança são muito semelhantes aos resultados dos estudos que Luria. uma vez que de uma para outra havia avanços significativos. uma mistura de grafias retas e curvas. nessas tentativas. 1924. passando a ser consideradas hipóteses — que Daíhem classifica como etapas. Para Descoeu84 dres. ”Estas etapas de aquisição da escrita correspondem à evolução da linguagem e da leitura. que exigem a repetição em grande escala com o mesmo elemento”. p.desenvolveu na mesma época (década de 20) com crianças que ainda não freqüentavam a escola. e aos resultados das pesquisas de Emilia Ferreiro. realizadas a partir de 1974. p. imagens de idéias. 1924. DALHEM. retratos esquemáticos das coisas. embora concorde que já corresponda a uma primeira forma de construção real da escrita. chegando a conclusões bastante semelhantes. investigador soviético e discípulo de Vygotsky.muito mais o processo de aprendizagem. quando diz: é necessário fazer exercícios especiais graduados. Embora não apresentem forma definida — freqüentemente desalinhados ou um conjunto de rabiscos. Devem abandonar as lições sistemáticas com exercícios extensos e demorados sobre os elementos das letras. uma mistura de linhas retas e curvas —. Os três pesquisadores procuram investigar as concepções que as crianças pequenas (com algumas diferenças nas idades) têm em relação à escrita. 85 Aquisição da escrita. ser o resultado de um processo de representação da linguagem oral. já têm a intenção de expressar uma idéia ou produzir um significado. mas à imagem do que se quer representar. 74. a escrita se assemelha a desenhos abstratos dos objetos representados e ainda não é associada ao som. [. 75-6. 77 As frases ou palavras eram ditadas pelo professor ou outro aluno. O importante é que. primeira etapa. os primeiros traçados das crianças já indicam o aparecimento de uma relação funcional com a escrita. a aprendizagem deveria ser o mais natural possível. DALHEM. As ilustrações das cinco etapas foram extraídas do caderno de um mesmo aluno. 1924. composta por signos. deveria representar idéias ou cenas observadas. nunca provenientes da cópia de um trecho lido. mas representar o que ela imagina que é a escrita. a fim de familiarizar os alunos com as formas gráficas e habituais de traçar corretamente as letras. a criança não procure apenas copiar. As tentativas de escrita das crianças pequenas (pré-história da escrita) deixavam de ser vistas como rabiscos. Segundo Dalhem.

[. etc. que são mais fáceis de serem emitidas do que uma sílaba separada..” DALHEM.] pegávamos uma criança que não sabia escrever e lhe dávamos a tarefa de relembrar um certo número de sentenças que tenham sido apresentadas [. nené. Isto fica especialmente evidente em casos nos quais o escrever é nítida e sensivelmente divorciado da sentença a ser escrita e começa a desempenhar um papel completamente independente e auto-suficiente [. 1924.. empreende longas e divertidas conversações. quando afirma que o ambiente e as condições de vida concorrem para levar a criança a querer escrever como os adultos. Não basta reproduzir traços ou rabiscos e identificá-los como escrita. mama. a criança toma sua forma externa e acredita-se capaz de escrever. DALHEM. 1924. Seus estudos reforçam e ampliam os de Decroly... ”a conexão entre os rabiscos das crianças e a idéia que representam é puramente externa.p. Pouco a pouco se percebem as palavras. LURIA. que a capacitava gradualmente a aprender a usar este novo instrumento cultural. como Dalhem acrescenta.).] lhe entregávamos um pedaço de papel e lhe dizíamos para tomar nota ou escrever as palavras por nós apresentadas. . Era nossa intenção fornecer uma análise psicológica do desenvolvimento da escrita desde suas origens e. I988. dentro de um curto período. [. Luria explora essa tendência natural. 1924.. com uma seriedade muito grande.emite sons disformes. LURIA.. antes mesmo de saber o que deve ser escrito”. de preferência aquelas que têm sílabas repetidas (papá. ”ser imagens de idéias.147-8. p. acompanhar a transição da criança desde as formas primitivas e exteriores de comportamento até as complexas formas culturais”. apontando o fato de que. leitura e escrita). 1988. se não dermos à criança os aspectos externos da técnica a ser trabalhada. DALHEM.. Ao considerar que a criança escreve para imitar o adulto. Luria relata os passos de um experimento: ”[. porém totalmente ininteligíveis. Mais tarde.. p 148 As conclusões de Luria são muito parecidas com as de Dalhem.81 A primeira etapa da escrita apresentada por ele visa a ”dar à criança alguma tarefa acessível e observar os estágios sucessivos pelos quais ela passa a assimilar a técnica da escrita”.. é necessário haver pelo menos uma hipótese ou idéia relacionada com a escrita real — ou. p. ficaremos sem condições ”de observar toda uma série de pequenas invenções e descobertas feitas por ela. 1988. embora de forma totalmente intuitiva. retrato esquemático das coisas”..] de forma puramente externa e imitativa [. as sílabas vão se tornando compreensíveis e isoladas.] apresentávamos à criança várias (quatro ou cinco) séries de seis ou oito sentenças simples. Dalhem insiste no método natural tanto para o ensino da leitura como para o da escrita. curtas e não-relacionadas umas com as outras”. dentro da própria técnica. p. Efetuando um paralelo entre as três evoluções (fala.] escrever. ”precisamente porque apresenta muita analogia com o método usado pelas mães para ensinar seus filhos a falarem”..] sugeríamos que tentasse [. 149-50. p. 80-1... conside86 rando-a uma imitação puramente externa.] Por não compreender o princípio subjacente à escrita. LURIA.. 73 Segundo Luria.

no entanto. um sistema de auxílios técnicos da memória. Na segunda etapa. sem. na qual a escrita apresenta características de simples brincadeira. com grafismos já 87 bem definidos.78 Como Luria. embora distribuídos em forma linear. separa-se em pedaços. 9. o que demonstra certo conhecimento em relação à forma como o adulto escreve. conforme registrado por Dalhem. a criança utilizou grafismos constituídos por linhas onduladas ou em forma de ziguezague. chegarem a diferenciar suas escritas ou fazê-las expressar um conteúdo específico. e chega à palavra. perguntamos: ”Será que isso significa que agora compreende o mecanismo integral de seu uso?” O mesmo autor responde: ” LURIA. A escrita. O mesmo acontece com as etapas seguintes. nitidamente. nos primeiros estágios de aquisição desse domínio. quando as crianças passam a utilizar. no qual ele considera que a criança já elabora uma produção gráfica definida. Dalhem nota mudanças da primeira para a segunda etapa: uma tentativa de produzir uma escrita com traços bem próximos à escrita cursiva. aparecem palavras isoladas. observa-se certo crescimento no processo de escrita: embora Luria ainda a considere uma escrita que busca auxiliar a memória. reconhece que ela demonstra. que Luria denomina pré-cultural oupré-instrumental. Nesse estágio. segunda etapa Letras reto-altas e retobaixas. a criança já conhece letras isoladas. Comparando as figuras que ilustram as etapas iniciais.77 O ingresso na terceira etapa da evolução da escrita. 88 Figura: Aquisição da escrita. é marcado por maior preocupação com o traçado da letra e as propriedades sonoras do significante. vemos que. as escritas não apresentam relação alguma (diferença ou semelhança) com os significantes sonoros. a relação da criança . Figura) Aquisição da escrita. o número ou a quantidade do referencial e a natureza do conteúdo começam a diferenciar-se: o símbolo adquire significado funcional e começa. um esforço da criança em aproximar sua escrita (que continua cursiva) da escrita-modelo do adulto. é semelhante à primeira etapa descrita por Dalhem. Parece claro que. 1924. ou seja. mais ou menos formadas. cortando a cadeia. na primeira. nas duas etapas. semelhante à escrita dos povos primitivos. como elas se unem para registrar um conteúdo. antes ligada. 9. Dalhem. graficamente. p 181 Estamos convencidos de que uma compreensão dos mecanismos da escrita ocorre muito depois do domínio exterior da escrita e que. Dalhem. numa amostra muito semelhante ao estágio que Luria definiu como quarto.Essa primeira fase dos atos imitativos. 1988. Aparecem números e palavras isoladas. terceira etapa As letras reto-altas e retobaixas se distinguem claramente. 1924. segundo Luria. a refletir o conteúdo que a criança deve anotar.

1924.Dalhem. deverá vir a preocupação com o aperfeiçoamento ortográfico. p 183 Na quarta e quinta etapas de evolução da escrita. no qual ”a criança começa a escrever e ler o que escreve” LURIA. para quem ”escrever é reproduzir traços típicos da escrita que a criança identifica como a forma básica da escrita”. DALHEM. associando as palavras às idéias (significante e significado) Segundo ele. p 79. mas deve-se ir . aproxima-se mais de Luria que de Emilia Ferreiro. Só depois de dominada a escrita. pois. Além de levar em conta a individualidade da criança. necessidade de uma quinta etapa. p 181 A escrita da quarta etapa é considerada intermediária por Dalhem. p. Figura:Aquisição da escrita.78 Figura: Aquisição da escrita. porém sem ainda dominar toda a complexidade da relação fonema/ grafema. Ela compreende que pode usar signos para escrever qualquer coisa. nem sobre elas. como diria Luria. a criança já escreve de forma original. É o momento. FERREIRO & TEBEROSKY. mostram que não se pode privilegiar apenas o atual. mas é ainda incapaz de usá-la”. ] as etapas também não são imutáveis. Decroly propõe que as crianças sejam instruídas a escrever frases e pensamentos.1986. Nenhuma revolução conceituai pode ser feita sem que se resgate o passado. não se apresentam sempre nas crianças na ordem indicada. 1924. 1988. ”Distinguem-se as palavras. p. falta-nos o conhecimento do contexto onde ela se desenvolveu. 1924. p 41. quinta etapa O aluno não distingue o o do a. Há. porém não se escreve geralmente nem entre as linhas de caderno. mas não entende ainda como fazê-lo.79 Bem próximas. aplicados por seus discípulos. Além do mais. Decroly é parte importante do pás90 sado da alfabetização. as pesquisas fazem parte da história da pedagogia e precisam ser resgatadas Afirma Emilia Ferreiro: ”Em alguns momentos da história faz falta uma revolução conceituai. Assim. quarta etapa Dalhem. o que dificulta a análise da lógica interna das produções. para escrever não é necessário que a criança compreenda o processo de escrita. sem exercícios prévios nem sistemáticos. é preciso lembrar que se trata de uma pesquisa com crianças francesas. Torna-se assim inteiramente confiante em sua escrita.com a escrita é puramente externa. 1986. Agrega-se uma etapa de aperfeiçoamento com tendência a evoluir mais ainda na aquisição da escrita. Seu programa e método. A indivi89 dualidade infantil se destaca desde os primeiros ensaios. FERREIRO. [. alguns alunos apresentam uma evolução mais rápida ou mais lenta que o normal”. às vezes contraditórias. Acreditamos ter chegado o momento de fazê-la a respeito da alfabetizacão”.

supera o mestre. 38. Qualquer método por si só não resolve os problemas do ensino.” DALHEM. Recomendava o que chamamos ditado surdo: mostrar a escrita correta alguns segundos para a criança (clichê visual). Decroly postulou uma visão globalizante das questões ligadas ao processo ensino-aprendizagem. Elas seriam adquiridas e. As regras gramaticais elementares. o próprio desenvolvimento infantil. 1983. sobretudo. resgatar contribuições valiosíssimas sobre práticas de introdução da criança na língua escrita que fugiram à rotina tradicional. exigem observação e conhecimento profundo do aluno. 1924. p. do qual depende e no qual vai agir. se consolidariam pela leitura. Além disso. Na seqüência das etapas apresentadas por Dalhem. como é o caso das escritas espelhadas — que. uma vez que apresentava certa analogia com o método empregado pelas mães para ensinar os filhos a falar. percebemos todo o caminho do desenvolvimento da escrita pela criança: da tentativa de imitar a escrita adulta. com freqüência o a em Ia. Os princípios da pedagogia decrolyana — respeitar a liberdade e a espontaneidade da criança — foram retomadas das idéias mais avançadas dos . podem aparecer em frases inteiras. a escola deve fornecer educação geral. a seguir tampa91 la e então pedir que a criança a escreva. no início. depois em palavras e. Recuperar de escritos o que têm de positivo contribui para aperfeiçoar o nosso trabalho em sala de aula. segundo ele.à fonte primeira. ou seja. muitos fazem entrar uma letra na outra. da fala e da escrita. Esse discípulo. dedicado à prática. o que nos levou a considerá-las inovadoras. começar apenas quando a criança já consegue isolar palavras. Todos os métodos dependem da atividade criadora e reflexiva do professor. p. ”Quando os alunos começam a escrever palavras (quarta etapa). sugeria os jogos de paciência: recortar as palavras. Pouco a pouco se separa dela como uma bolha de sabão se separa do canudo. recomendava também a aplicação das palavras mais difíceis. m em ma. propôs para o ensino da ortografia. aspirações e ideais — e do conhecimento do ambiente. a criança percorre o mesmo caminho que a humanidade tem percorrido até chegar à obtenção das leis e às conclusões científicas”. SAUSENFEIL. o que considerava um método natural. 80-1. Os experimentos de Dalhem e discípulos confirmam a visão e a prática de Decroly: ”Na aprendizagem da leitura e da escrita. de forma que a criança a ela retornasse em diferentes contextos. Para Decroly. Retrata. Para as frases completas. uma vez que não se constrói uma língua pela gramática. aponta como naturais aspectos que os professores ainda consideram problema. Decroly defendia o paralelismo entre as evoluções da leitura. tendem a desaparecer. preparando a criança para as exigências sociais por meio do conhecimento que tem de si mesma — suas necessidades. aos poucos. não deveriam ser trabalhadas de início. em outros textos escritos. dos simples rabiscos não-diferenciados até a escrita com signos diferenciados. Os mesmos princípios que empregou para a leitura e a escrita. as sílabas da frase e recompô-las. além da história da civilização.

propondo inverter a ordem tradicional do ensino. formando um todo homogêneo. A observação diária de fenômenos da natureza. O ponto de partida dessa concepção foi rejeitar o manejo de símbolos abstratos. RECAPITULANDO Em 1907. destaca-se o conceito de globalização para o ensino da leitura de idéias e não de sinais gráficos — visão de idéias. com as quais a criança pode colocar-se em contato direto — observação. que contribuísse para o livre desenvolvimento das atitudes naturais do ser humano. deixando ao professor liberdade para propor. a criança é o centro do universo escolar e o seu desenvolvimento cognitivo. Desejava que a escola pública fosse uma escola de formação. psicologia e sociologia surgiram idéias que acrescentam valor a sua proposta. vivendo as noções em vez de escutá-las. Quanto à divisão em disciplinas. social. As disciplinas devem convergir para um mesmo terna (idéias associadas). vazios de sentido. Decroly recoloca a questão do interesse do aluno. imagens. a vista). já destacada por Dewey. mantém os alunos ocupados e interessados. Para Decroly. Decroly considera as três etapas da atividade mental: a recepção ou impressão. DECROLY & DEGAND. especialmente no ensino do desenho. usa o poder globalizador ou valorizador. seres vivos. Para ele. a elaboração e a expressão. as matérias se entrelaçam em torno de uma idéia central. ajustado à experiência globalizada e às relações afetivas das crianças. etc. diretamente pelos sentidos e pela experiência imediata com a natureza. textos. Das áreas da biologia. O conhecimento é adquirido por vias ativas (as mãos. acessíveis aos sentidos. físico e emoci92 onal é simplesmente um processo biológico. Dentre elas. de cultura geral. leitura. somente a representação concreta das idéias com base em coisas ou figuras pode despertar o interesse e orientar o próprio conceito de globalização.1910. escrita. O programa de ensino deve ser um faciíitador da individualização e atingir o maior número de crianças possível. o contato da criança com o concreto. p 117-91. etc. separando-se o mais possível tudo o que não tem relação com a sua vida. Seu método respeita as leis fundamentais que regulam o desenvolvimento e a conservação da vida. muito objetivas. Os exercícios da segunda etapa devem empregar materiais mais abstratos: recordações. Os exercícios da primeira etapa utilizam-se de materiais palpáveis. para que a criança chegue a idéias mais gerais. o propósito é trabalhar por grandes sínteses. comparar os . individual e social.clássicos da época (Rousseau e Pestalozzi). Decroly apresentou as conclusões práticas do seu trabalho. Cabe ao educador ajudar a criança a classificar. principalmente durante os primeiros anos de escolaridade. Esse tema deve ser selecionado desde o ponto de vista da criança. que englobem precisamente as atividades principais da vida humana. e não apenas um estabelecimento onde se oferecem rudimentos de instrução. numa palestra dirigida a professores. trabalhos manuais. Em seus centros de interesse. levando-a a experiências sensoriais e motoras. deve ainda permitir amplas adaptações ao meio em que vivem.

264. Segundo Leif e Rustin. Durante um exercício de observação. constituindo um ciclo de atividades mentais sintéticas. É importante lembrar que as atividades mentais não se excluem umas às outras. defender-se. um foi determinante para a inovação da prática metodológica do início do século: a descoberta de que a vida ammica da criança difere da do adulto. de forma suave. ou subtítulos. do concreto para as abstrações materializadas. um filme. marcenaria). e as ciências. Entre os muitos acertos da nova psicologia infantil. com simplicidade e regularidade para agradar a todos. auxiliadas pelos jogos visuais. que carac94 teriza como visão de conjunto — mais tarde denominada ”sincretismo” por Claparède (1908). do que lhe é lógico e natural. a criança passa. a associação e a expressão (concreta ou abstrata). é a manifestação do pensamento. linguagem falada ou gráfica. O estudo da peculiaridade do pensamento infantil foi por ele abundantemente desenvolvido e serviu de sustentação para outra convicção: o conhecimento não é construído com base nos elementos trazidos pelo adulto. que compreende: a observação. O programa decrolyano propõe nova ordenação às disciplinas do currículo. É uma forma de estudar as letras. chamado de segunda mão.achados atuais com suas experiências ou com as explicações do professor. cada vez mais específicos. intervém a observação e a associação. segundo um plano estabelecido. intervém os mecanismos superiores do pensamento e da expressão. Os exercícios integram-se numa ordem psicológica. ou expressão. 1968. proteger-se contra as intempéries. uma base. a ortografia.. por exemplo. repousar. LEIF & RUSTIN. sons ou cores (música e pintura). trabalhar. inovadora. de manipulação. 93 O terceiro tipo de exercícios. etc.. e o conhecimento constrói-se sobre a interdisciplinaridade. resultante da apropriação do conteúdo e expresso por meio de trabalhos manuais (modelagem. p. distrair-se. imagens ou leitura. até então. Decroly retomou essa feliz concepção de Rousseau acerca da originalidade da psicologia inpara nela fundamentar sua proposta. ”é dos jogos aritméticos de Decroly que derivam os livros atuais nos quais as noções dos números e das operações são dadas por imagens variadas e nos quais por vezes até os problemas são concretizados e se transformam em jogos”. partindo das aquisições do próprio indivíduo e de suas necessidades vitais: alimentar-se. mas de elementos que precisam ser elaborados pela própria criança. Entre os escolanovistas. Decroly vê a sala de aula como uma oficina em que os alunos podem praticar a livre expressão. . Os conhecimentos vivenciados devem ser conduzidos com método. A associação permite recuperar as observações no tempo e no espaço e leva à ampliação dos conhecimentos históricos e geográficos. etc. mesmo no curso de um trabalho de expressão que se desenvolve com diferentes matérias. recorte e colagem. Os centros de interesse subdividemse em componentes.

DECROLY E FREINET O método Decroly é ainda utilizado no mundo inteiro e influenciou os trabalhos de muitos pedagogos, entre os quais Freinet. As idéias de Decroly sobre delegar ao mestre a tarefa de recriar e refletir sobre os métodos, buscar técnicas e recursos novos para concretizar a tarefa educativa — uma vez que a manutenção da interação espiritual com os alunos, dizia, é sempre incompatível com a rotina tradicional — levaram Célestin Freinet a propor o método natural para o ensino da leitura e da escrita, buscando suprimir o hiato entre a escola e o meio. A pretensão de Freinet era ”contribuir não só com as respostas indispensáveis, além das respostas teóricas cada vez mais fáceis, mas também, sobretudo, com a prova de que as teorias generosas dos grandes pedagogos podem [...] tornar-se realidade”. FREINET, 1975a,p. 14-5. Sobre Decroly, afirmou Freinet que o considerava ”traído por todos aqueles que, tanto na Bélgica como na França, tornaram escolástico o método global”. FREINET, 19’75a, p 14 Freinet propõe uma pedagogia da totalidade, que não pode ser dividida em compartimentos estanques, dos quais cada um retiraria, aleatoriamente, alguns procedimentos. Propõe a associação de conteúdos — os centros de interesse —, porém a aplicação depende da mentalidade do professor, que deve levar a criança a criar, agir e construir um verdadeiro conhecimento. Era uma nova pedagogia para as classes populares, ou massas, calcada na experiência de um professor que atuou nas séries iniciais do ensino fundamental, comprovou a eficiência da aprendizagem da leitura pelo método global e utilizou-se dos conhecimentos da psicologia experimental. 95 Tais práticas e idéias possibilitaram à escola, durante muito tempo, aplicar o método global para o ensino da leitura. No entanto, essa mesma escola esqueceu a vida, esqueceu que a palavra, a frase e o texto precisam estar inseridos intimamente no contexto da vida dos indivíduos. A criança hoje vive em um mundo repleto de escrita, presente na TV, nos jornais, nas revistas, nas embalagens dos produtos, cartazes, letreiros, placas de rua, cartas e bilhetes que recebe. A palavra escrita faz parte do contexto de vida dessa criança, e ela vai fixá-la e procurar reconhecer sua estrutura. Porém, essa palavra só terá sentido no próprio contexto. As constatações de Decroly, como as de Freinet, são clássicas, embora sejam negligenciadas na aprendizagem escolar. Elas valorizam uma dimensão afetiva e humana que consideramos basilar para a reconstrução do conhecimento histórico e social da humanidade. Textos selecionados de Decroly Considerando as já mencionadas dificuldades de acesso a textos de autoria do próprio Decroly (e ainda que sua extensa produção constitua-se mais de trabalhos específicos sobre temas complexos), recorremos, em boa parte, aos escritos de alguns de seus discípulos, principalmente Dalhem, que foi quem aplicou seu método na prática.

CRIANÇA ”A criança precisa possuir a compreensão de si mesma; de seu próprio ser, de suas necessidades, desejos, ideais e propósitos. Precisa saber para que servem seus órgãos, o modo de comer, ler, trabalhar e jogar; como funcionam seus sentidos; como estes a defendem e a ajudam; como se movem seus membros e, especialmente, que serviços lhe presta a mão; por que sente fome, sede e frio, por que se amedronta e encoleriza; quais as falhas e as virtudes que possui. Depois de conhecer-se a si mesma, precisa conhecer o meio natural e o meio humano em que vive, de que depende e onde deve trabalhar a fim de satisfazer suas necessidades, desejos, desígnios e ideais. As necessidades da criança, as que servem de eixo, e tudo o que a sociedade e a natureza, viva ou não-viva, realiza para sua satisfação podem ser objeto de conhecimento na medida em que o cérebro da criança possa assimilá-lo. Em todos os seres, mesmo nos mais sensíveis, há manifestação que permite a conservação da vida e sua adaptação. O homem para viver tem, como todo ser, necessidades essenciais: alimentar-se, proteger-se das intempéries, defender-se contra os inimigos. Deve preparar-se para ser 97 capaz, quando adulto, de bastar-se a si mesmo (funções individuais); para bastar à sua família e para cumprir suas obrigações sociais (funções sociais). [...]Todo ser humano deve possuir um mínimo de conhecimentos que lhe permitam compreender as exigências da vida em sociedade, as obrigações que isso impõe e as vantagens que disso resultam.” DECROLY & BOON, 1939, p. 66-7. EDUCAÇÃO Decroly enaltece e privilegia a conservação da vida, fim último de sua educação. Sua pedagogia, além de ativista — pois considera que toda educação deve apelar em primeiro lugar à própria atividade da criança, às suas necessidades —, volta-se também para objetivos práticos, úteis à vida. ”A escola responderá pela sua finalidade de educacão geral, preparando a criança para a vida moderna. Esta preparação será melhor se iniciarmos a criança praticamente na própria vida em geral e na social em particular.” DECROLY apud DALHEM,1924, p 9-11 ”O destino de um ser qualquer é, antes de tudo, viver [...] a educação deve, pois, ter por fim: primeiro,manter essa vida; segundo, colocar o indivíduo em condições tais que possa conseguir, com um mínimo de tempo e de esforços, o grau de desenvolvimento que implique sua constituição e exija seu meio.” DECROLY & MONTCHAMP, I9i9,p 19 ESCOLA Decroly acreditava que a escola, por não ser uma instituição independente das outras, precisava preparar para a vida individual e coletiva, refletir tanto a organização como as preocupações da sociedade. Para

transformar o ensino, dizia, deve-se iniciar pela modificação na estrutura física da escola. Queria uma escola viva e para todos. ”A escola que os pedagogos da instrução obrigatóo ria desejam impor a todos não é uma escola para a 98 vida, mas uma escola que já não atende aos interesses da maioria devido aos resultados passados por seu atual ensino e às condições ilógicas e anticientíficas nas quais ele se dá [...] Se se tratasse apenas de fazer adquirir a técnica de leitura, da escrita e do cálculo, esse ensino poderia, em rigor,bastar; porém se se pretende, ao mesmo tempo, dar às faculdades e por cima de tudo favorecer a educação, pode-se dizer que o papel que a escola desempenha é bastante insuficiente. [...] há necessidade de progredir com vistas ao futuro e que se leve isso em consideração [as exigências da nova pedagogia] ao construir novos prédios escolares. É necessário pensar em escolas para o povo [...] Uma escola em lugar agradável, pensando-se na rua, rios, bosques, seus habitantes; uma escola onde a natureza variada sirva de modelo para as lições, melhor que as paredes nuas; onde a criança possa observar mais que partes de fenômenos e processos muitos complicados para a sua inteligência, onde possa presenciar o trabalho do homem (lição moral por excelência) [...] Não se pode pretender organizar uma escola para a vida dentro de um quartel sem vida, com um ensino de coisas inertes. [...] Como se pode pretender favorecer a evolução das faculdades da criança, condenando-a à imobilidade e ao silêncio durante as melhores horas do dia e os anos mais formosos de sua existência? [...] Podem-se culpar os métodos e os professores, mas o melhor seria ir mais fundo e recriminar em primeiro lugar a disposição da escola mesmo e o programa imposto. Como modificar este estado de coisas? [...] As reformas necessárias são numerosas [...]” DECROLY & BOON,1939,p 7-29. Sobre as condições das escolas, os programas e métodos de ensino, recomendava: DECKOLY & BOON, 1939, p 31-2 ”— Não passar de trinta o número de alunos das classes comuns, de quinze para a classe de alunos readaptados e doze para a classe de alunos verdadeiramente anormais [,..] — Modificar o programa de maneira que ele leve em conta a evolução dos interesses, do mecanismo do pensamento, das condições locais, das capacidades da maioria para a aquisição de um programa de idéias associadas; — Modificar os procedimentos de ensino desde o 1º grau (termo utilizado por Decroly), aplicando-lhes o método dos centros de interesse; — Dar preferência aos exercícios e à disciplina que favoreçam a atividade pessoal.” 99 APRENDIZAGEM ”[...] aprendem [as crianças] independentemente do o método e da escola, porém as crianças de inteligência mediana, mais lentas, no mínimo

de um modo natural.. solidariedade e inter-ajuda. sobre as que l não podem ser previstas pelo instinto — e sobre os meios de vencê-las. para outros.p 60. que o fundamentem. Para essas é necessário favorecer a aparição destes utilizando meios apropriados.. mas possuir algumas idéias gerais...” METODOLOGIA ”[O educador deve] dar [à criança] as noções sobre seu próprio organismo não por meio de uma nomenclatura seca e árida. o que significa que faz ressaltar os dados do problema a resolver e permite descobrir os meios de solucioná-las.] as propriedades da inteligência se traduzem nas definições que se tem dado dela. p. O papel do meio ambiente pode ter. ”O que importa não é isso [dar um número determinado de conhecimentos]. em resumo. segundo se exerça favorável ou desfavoravelmente. adquirir noções sobre as dificuldades que apresenta a vida — quer dizer. BOON. significando aqui. à qual se une. significa que serve para aprender ou é função que serve para pensar [. mas fazendo-a .reterão alguns conceitos.” DECROLY apud DALHEM 1924. formando um todo indivisível {.] função que permite tirar proveito do passado para prever o futuro.. A inteligência também é considerada como um meio de assimilar o conhecimento. utilizando as recordações das experiências feitas. enfim. 18-35. 1939.” DECROLY. ”1º) Necessidade de alimentar-se. para outros. ou seja. o que. ou diretrizes. p 29 ”[.] O programa deve facilitar a mdividualização indispensável se se deseja que o mai100 or número de crianças alcancem o fim que se propôs fazê-las alcançar. aqui uma influência muito marcante. à qual se junta a necessidade de luz. esta palavra. P. 4º) Necessidade de atuar e de trabalhar solidariamente. associação. para uns é um meio de adaptar-se às circunstâncias novas. portanto. deve ser considerada como a função que permite aprender.” DECROLY & BOON P 13-8 PROGRAMA DE ENSINO Um programa de ensino não deve preocupar-se com minúcias.. se caracteriza essencialmente pela compreensão e a invenção. repouso. Deve também permitir amplas e fáceis adaptações ao meio no qual a criança vive e não encerrar o professor em limites estreitos. ele distingue quatro necessidades básicas do ser humano: DECROLY & BOON.” DECROLY &. àquelas para as quais não serve o instinto comum. de recrear-se e de melhorar. 2º) Necessidade de lutar contra a intempérie. 13-4 No programa. ”O programa deve buscar a unidade no sentido de que todas as suas partes relacionem-se entre si. 1929. a necessidade de respirar e de limpeza. com o objetivo de organizar as do futuro. 3º) Necessidade de defender-se dos perigos e inimigos diversos. mas dar-lhes o gosto para conhecê-los e a chave para aprendê-los.

” DECROLY & BOON.] Quanto ao cálculo. repousar. p. próprias. a dramatização e os exercícios físicos [. mulher. Destacamos a importância dos trabalhos manuais.] nelas são maiores as possibilidades de se elegerem centros de interesse a partir do estado da própria natureza. que mostrem o grau de . associados à aquisição do vocabulário e portanto dos elementos sobre os quais se referem a leitura e a escrita.. porém concebidas de um ponto de vista mais amplo. etc. 1939.. assim como os trabalhos manuais.. conduzamo-lo a investigar [. 1939.] como poderá satisfazer suas necessidades de homem. ”A observação deve ocupar lugar preponderante nas atividades escolares.” DECROLY & BOON.] que na realidade são noções apresentadas de forma atrativa. jogos e trabalhos manuais: ”De um lado. 109.. pôr-se ao abrigo das intempéries. cada dia se farão pequenos exercícios de observações ocasionais. 1º) a observação representa a lição das coisas e de palavras e as lições de ciências naturais elementares. quando necessário. 2º) a associação no espaço e [a] no tempo substituem a Geografia e a História. se une 101 também estreitamente às outras disciplinas e sobretudo à observação da forma. qualquer que seja a matéria. p.compreender os mecanismos de seu próprio organismo físico e mental.Todo esse material não é necessário estar completo todo o tempo.] de solução de problemas. ou seja. cidadão. 18-35. [.. desenhos.] Façamo-lo consciente de sua existência e de sua invencibilidade e mostremo-lhe a contribuição oferecida pela natureza [. através de elementos fortuitos que surgem e que se aproveitam para fazê-los objeto de um centro... que são o meio mais poderoso para exaltar e respeitar as individualidades.] Os mesmos [mecanismos] que o homem usou para satisfazer as necessidades indispensáveis — alimentar-se. Se fará uso de jogos educativos [. 1939. ”Os exercícios de observação consistem em fazer trabalhar a inteligência sobre materiais recolhidos em primeira mão.. primeiro de exercícios de comparação. o canto... incluindo neles a ortografia. modelagem. prepará-lo para a vida [. Por outro lado. gráficos. a linguagem oral e escrita. o ensino absorverá muito material. toda lição compreenderá exercícios para firmar o caráter pessoal da criança. a modelagem... a produção de textos. por último [. não sob a forma de gravuras.” DECROLY & BOON. Este material deverá ser intuitivo.] as primeiras classes são aquelas onde a observação tem maior importância e deve ser mais investigada [. ”[.] por último. p... onde se encontra a escola. sobretudo no 1a grau (termo utilizado por Decroly)” [. mas de seres e objetos reais.. anotar o resultado por meio de representações objetivas.. etc. do meio onde vivem. o jogo.. Não se trata de obter trabalhos idênticos para todas. dos acidentes e das enfermidades — devem também ser usados para instruí-lo.. Sobre o emprego de materiais. dos quais se poderá. 76-88. 3º) a expressão compreende todos os exercícios de linguagem. p.. depois de medidas com unidades naturais e. pelos sentidos da criança.]”DECROLY & BOON.. mas produções pessoais diferentes. 86-7.. levando-se em conta os interesses desta. o desenho. mãe e cidadã. 1939.

vagões. a criança pode imitar o jogo do outro e. [. que o professor não esperava.] é necessário introduzir a leitura desde o primeiro ano.. Igualmente.] Para mentalidades fechadas. é necessário que seja realmente a expressão de seu pensamento. sobretudo. devem-se usar caixas de fósforos (carrinhos. do ponto de vista psicológico. a criança que imita pode transformar em jogo o que viu outro realizar. e estará criado o conceito.. quer dizer.. locomotivas. Por pouco que a ajude uma execução em trabalho manual. depois. todos os materiais que se puderem obter: além do papel e da cartolina. 102 ”[. etc. será este superado pelo aluno.. para construir uma cadeira [.. 29.” DECROLY apud DALHEM. [.] Recordemos que o espírito da criança não é sintético.. Este modo de proceder leva o aluno a classificar e ensina-o a agir com ordem e método em seus deveres. A evolução mental vai da síntese à análise. as de imitação.. os veículos.. p.] Seu espírito curioso e investigador fará descobrimentos nos símbolos abstratos de urn texto de leitura.. a letra é mais . então. [..] Assim. As fases de aquisição da linguagem oral nos mostram que é assim [. mais fácil de compreender que a letra. o que dá uma manifestação mais completa das duas tendências.] A criança classifica espontaneamente os calçados..] se recortam os pés.... carreteis de linha ou rolos usados de filmes (rodas.] O que se constata e que se empregam esses termos de maneira totalmente equivocada. A aquisição da linguagem oral é uma prova disso e nós consideramos que a aquisição da leitura e da escrita deve seguir a mesma evolução.. também. LEITURA/ESCRITA ”[..] Nada há de novo em tudo o que eu proponho. dos sons ou das sílabas.. [.] O mesmo ocorre com a escrita e a leitura. se unem essas partes da mesma forma que faz o carpinteiro. este último apresenta as características de jogo e o primeiro. confundindo-se o simples com o mais curto.). Nisto. verá que basta uma palavra para designar essa classificação..1924.. [. que para ela a frase é mais fácil que a palavra e essa. etc.] Os dedos são os que devem trabalhar.” DECROLY apud DALHEM. prescindindo de toda ferramenta. Os métodos de ensino devem inspirar-se no princípio de que o que é simples no sentido habitual da palavra não pode ser concreto e. [...] Devem ser empregados. inversamente. pedestais.. 1924. p 45-6 ”O trabalho manual é um instrumento de cultura dos mais importantes. com o partir das letras. o assento e o encosto e. os chapéus. o que é concreto não pode ser simples. para quem o simples é a síntese e o composto é a análise.abstração atingido [. não somente do ponto de vista técnico mas.... Convém que o trabalho da criança não se reduza a uma simples cópia. [. Precisamos suprimir a maior parte 103 de abstrações na leitura..] Somente este processo segue a evolução mental da criança.] o jogo pode associar-se à imitação.. p 45. [.)” DECROLY apud DALHEM. 1924.. [. uma vez que esta deve basear-se em idéias o mais concretas possível.

fazê-los brotar quando ainda latentes e explorá-los ao máximo quando despertam.] cumpre ao mestre renovar a sua mentalidade. 1924. 35. PROFESSOR ”[. nosso mais poderoso inimigo.” DECROLY apud DALHEM. 1931. experimentando aos poucos [.” DECROLY apud MOURA.sensível que a palavra. [. ao micróbio. o que resultará num ensino com maior liberdade. que produz o calor e a luz. manancial de toda a vida.. meditando. 104 . até o átomo infinito. mais que a letra. a frase é mais sensível que a palavra e esta.” DECROLY & BOON. e [a criança] descobrirá a importância do trabalho pessoal... desde um raio de sol.] um trabalho de criação e não uma cópia servil. p. Para mentalidades infantis. do qual o microscópio apenas se nos permite adivinhar os contornos.] é necessário que a mão seja dirigida pelo cérebro da criança e não pelo professor.] ter presentes esses interesses espontâneos do escolar.] o professor deve ressaltar em cada oportunidade a união íntima que existe entre todos os fenômenos e todos os elementos do universo. p 52... ”[. lendo. a palavra é mais sensível que a frase.... 1939. [. 21. p...

Para Freinet. e por processos de tentativas. com a sua Escola Ativa e a Prática da Escola Ativa. do coletivo. e mais tarde Pestalozzi. antes. 297. que os alunos podiam escolher livremente. a criança que a todo instante dá provas dejsuas aptidões criadoras. só pode ser compreendida e orientada mediante uma pedagogia e uma psicologia da construção e do movimento. considerando o erro como possibilidade para aprendizagem. Fundamentados em uma vivência histórico-social situada e em um pensar interdisciplinar mostram a valorização do homem. sem nos pedir licença. Nelas acomodava toda a programação escolar. ”Li Montaigne e Rousseau. temos de esquecer a nossa formação escolar em que a objetividade pretendia explicar tudo e as nossas obrigações estritamente pedagógicas se identificavam com a mania de ensinar.3 Recuperando Freinet. como Decroly. uma metodologia que não se acomodava com os velhos . os que lhe são próprios. que procurou interpretar e vivenciar com os alunos. queconsiderava desligada da vida. Encarava-os. essencialmente instintivos. proporcionando ampla gama de atividades. embora ele mesmo nunca tivesse chegado a considerar os anos de investimento e trabalho como aquisições definitivas. tinham como suporte as teorias dos grandes clássicos e educadores escolanovistas. Freinet procurou fazer da escola um centro de atividades e a tudo recorreu para transformar a situação social que não aprovava. valorizou a proposta de globalidade da vida anímica. com o qual senti ter grandes afinidades. psicologia da ação. 1977. Apesar das dificuldades e limitações do período que mediou as duas guerras mundiais. deslocando-se para onde quer. teórica e dogmatica. do homem da periferia e das classes trabalhadoras. 106 Freinet propõe uma metodologia da ação totalmente diferente da utilizada na época. Essas idéias. 21. p. Seus escritos são o registro vivo do trabalho e das pesquisas que desenvolveu e documentam uma concepção antropológica de educação bastante inovadora. certa do concurso dos seuspoderes como o caracol segregando a concha. orientou as minhas tentativas”. Celestin Freinet. Como Rousseau em Emílio.. Freinet é filho de sua época.. individual ou coletivamente. Há que entrar resolutamente no reino da infância. Célestin Freinet (1896-1966) foi exemplo de luta pela transformação da escola. distante da família. Frinet procurou conhecer a maneira de ser e pensar da criança para ajudá-la nas dificuldades quando da estruturação dos próprios conhecimentos. Seja como for. Rousseau 1975a. com o interesse da criança ou com a vida. sem rompimento com o meio. É considerado o primeiro educador a fixar as bases para o desenvolvimento de uma. Ferrière. inventa e cria. p. a criança envereda por outros caminhos. que imagina. como um grande passo para o conhecimento dialético e humano do pensamento infantil e de suas possibilidades. inteiramente inéditas. à nossa frente.

Semjnenhuma experiência docente e com pouco conhecimento teórico. lê e relê os autores que haviam influenciado o desenvolvimento da Pedagogia e da Escola Ativa: Comenius. Procura relacionar todas essas teorias com as suas intenções e e com o tipo de ensino e aprendizagem em que acreditava. pois havia interrompido os estudos no segundo ano da Escola Normal. p. Ribot. Sentia necessidade de reaproximar a escola da sua essência. símbolo da pedagogia opressiva. o homem construiu sua cultura. . William James.. por tentativas. Em vez de tirar patente ou guardar segredo da descoberta do material que estaria na base do novo bétodo – o material --. os educadores ”deixavam essa ocupação aos técnicos de base que. Na linha de Rousseau. tínhamos consciência das lacunas a eliminar e não deixávamos de procurar. o que não poderia ser feito sem uma mudança metodológica. onde se formaria professor primário.instrumentos. Pestalozzi. calcado em reflexões críticas sobre a educação da época. além dos educadores escolanovistas.. Embora ainda em recuperação dos ferimentos de guerra (lesão pulmonar). não conseguiam transformar seus sonhos em realidade”. ”Está falseada toda pedagogia que não se apoie em primeiro lugar no educador. Rousseau. Wundt. eis a sabedoria [. que nunca deixou de questionar. cuidar pessoalmente de acompanhar. deixando de lado os manuais escolares. enfrenta muitas dificuldades. Rabelais.] Bem longe de ficarmos satisfeitos com os primeiros sucessos. reinventando e inventando técnicas e atividades. Spencer. nas suas necessidades. utilizando o programa proposto 107 para o concurso. de instrumentos e de técnicas. do tateamento. inicia imediatamente o magistério. recuperar o homem natural. é nomeado (1º de janeiro de 1920) professor adjunto de uma classe rural em Bar-sur-Loup (Alpes Marítimos). precisa trabalhar a terra onde a semente deve germinar. 17-8.” Freinet 1977a. Ao regressar da guerra. Começou por pesquisar e testar com seus alunos as novas técnicas de ensino. Freinet voltou a estudar para adquirir a cultura e a formação pedagógica que lhe faltavam. da satisfação das necessidades e interesses. nos seus sentimentos e nas suas aspirações mais íntimas. Montaigne. Para ele. por falta de organização. no processo de construção da cultura. A essa pedagogia experimental dedicou a maior parte do seu tempo. p. 8. que o ajudaram na edificação de um projeto próprio. constrangiam-nos as insuficiências e as fraquezas. os ajustamentos materiais e técnicas susceptíveis de tornar mais eficiente todo o nosso sistema educativo. mas nada o faz acomodar-se. Para ele. p. como um jardineiro. o homem trilhou caminhos diferentes graças a circunstâncias históricas. no sul da França. quando foi convocado para o serviço militar. Inscreve-se como candidato ao cargo de inspetor primário e. era preciso não separar a educação da vida ou isolar a escola dos fatos sociais e políticos que a determinam e condicionam. dizia que o educador. dirigir o nascimento e crescimento da planta. mas percorreu as mesmas etapas na elaboração e aquisição de conhecimentos.” Freinet 1973b. 206. ”Duvidar do que é certo e não do que é duvidoso. Por meio do fazer. Em vez de isolarse procurou uma forma de trabalhar melhor com os professores. Freinet abriu-se à coooperação. Para construir uma teoria com base na ação. e foi assim que descobriu o uso da imprensa na escola. Freinet 1975.

sim. pode conseguir resultados satisfatórios Basta saber coordenar. seu pensamento e sua ação. sistematizar. Freinet nunca negou o que devia a seus predecessores. Freinet não aceitava os procedimentos clássicos ou dicotômicos. Para ele. a terra. PROPOSTA PEDAGÓGICA DE FREINET Freinet chama seu método de natural porque procura aproveitar o meio natural. Qualquer criança. suas transformações. A releitura dos clássicos orientou. as técnicas mais adequadas ao objetivo pretendido. ( Citação: Freinet . que o homem construiu a ciência? Com boa vontade e muitas idéias. enriquecer ou ampliar as suas experiências. Para ele. No entanto. uma escola e uma pedagogia que não preparavam para a vida. até sem preparação especial. despertando a curiosidade. deve criar situações desafiadoras que. suas técnicas já haviam sido propostas por outros — o que também teria ocorrido com Rousseau e Decroly. domínio e autoridade. Sua originalidade está na forma como assimilou esses ensinamentos e na coerência com que os utilizou. as plantas e os animais. seu ritmo. a água. pois não pára nunca. Depois volta a pesquisar e experimentar. propõe um outro papel para a escola e para o professor. eram considerados por Freinet como pilares na construção de uma escola viva: a escola moderna. Para apurar e selecionar. Não foi assim. 108 Para alguns. isto é. mas não sem antes querer resolvê-las. observando a natureza. que. o professor deve buscar e encontrar as soluções para um born trabalho. o homem só ousa lançar-se à frente quando se sente apoiado em patamar firme. sobre os alunos. até erguer um novo plano cultural. dominá-la. organizar.Freinet compara a construção da cultura à de um edifício: sem alicerce. pode retirar dela seus ensinamentos. organizar ointereses das crianças. da postura de quem quer aprender — sobre o mundo. no processo. sem quedas ou erros a humanidade não teria chegado ao ponto atingido nem continuaria a avançar com novas conquistas. relacionados uns aos outros nas trocas e cooperação mútua. ou seja. ele criou muitos princípios novos. sem técnicas ou material. as levem a pensar. rever a própria formação (possivelmente escolástica e autoritária) é o primeiro passo para a mudança Na classe Freinet. sem andaimes. depois. toda a natureza. com equilíbrio. Freinet não inventou nada. Freinet pesquisou alternativas de ensinar e de aprender que lhe permitiram priorizar o trabalho como meio e a busca do conhecimento integral e interdisciplinar como fim. com 109 intuição e sensibilidade. mesmo as da periferia e da classe trabalhadora. a questão metodológica é de exclusiva responsabilidade do professor. tentando explicar suas leis. Os conhecimentos das crianças. sobre si mesmo —. incentivar a descoberta e aguçar a curiosidade O emprego do método pessoal. A escola deve colocar à disposição das crianças os meios para.

. 1978. do exagero das tarefas e exames Se o aluno não aprende é porque o ensino de alguma maneira não lhe interessa. É. era capaz de apontar o que lhes era necessário.. etc. a Fimem facilita os contatos e auxilia a pesquisa. melhorando. Dia a dia. o professor pode gerar desprazer e desatenção nas crianças. pela vivência coletiva permeada pelo meio ambiente. encontros. os pontos positivos e negativos do seu desenvolvimento. 1985. caminhos para melhorar a qualidade do ensino. seminários. que se inspiram na pedagogia popular e na educação operativa iniciada por ’Freinet. Experimentando. entre os seus pares. é o caso das longas exposições orais. tentava captar o momento em que uma criança demonstrava interesse em aprender para imaginar ou inventar novas formas de ensinar. a constituição de grupos de trabalho (nacionais e internacionais). Para ele. a troca de materiais didáticos. as publicações de jornais. a divulgação de experimentos e inovações cooperativas. do uso intensivo dos manuais e das composições. No braasil. a organização bienal de um Encontro Internacional dos Educadores Freinet (Ridef).. utilizando: a correspondência internacional. ”muito naturalmente. comparando. tentou adaptar um ensino livre de formalismos às suas possibilidades físicas limitadas e às reações dos seus pequenos alunos. procurava estreitar as relações com o outro e com o mundo. comparando o seu comportamento com o dos alunos”. mostras e exposições de trabalhos. que estão ligados à Fimem. foi improvisando. observando. Freinet erigiu as bases de um movimento hoje conhecido internacionalmente.) Dependendo dos procedimentos que utiliza. procura seguir o empenho dos alunos e transformá-los pela livre expressão. sua esposa e colaboradora. FREINET. há três grupos regionais — Norte/Nordeste/Sudeste e Sul —. É também reconhecida como organização não-gomamental pela Unesco. os progressos dos alunos. Freinet começa por anotar. A Fimem é uma associação de movimmentos nacionais e grupos regionais de todo o mudo. P. 16 A sua proposta pedagógica exige uma postura diante da \ ida que difere de tudo o que se ensinava nas escolas. . revistas.FREINET. 110 Na prática. Freinet tinha a obstinação de honrar a profissão que escolhera e de buscar. p. para desenvolver a cooperação internacional e o intercâmbio de práticas pedagógicas em todos os continentes. havia como que um hiato entre as escolas e i vida impedindo que a criança buscasse ou trabalhasse com fatos de sua própria existência e da natureza. Por meio do diálogo com os professores e com o uso do conhecimento científico. Segundo Élise Freinet. Como associação. sediada em Bruxelas. pela ação. sem ambição nem preconceitos. Nada lhe escapava’ Conhecedor das personalidades. Quarenta e três países estão ligados à Federação Internacional dos Movimentos da Escola Moderna (Fimem).empregava muito o termo escolástica com o siguinificado de formação tradicional. Graças à confiança que depositava nas suas crianças e à observação constante. a organização de estágios. diária e minuciosamente. etc. É de lamentar ”qualquer método que pretenda fazer beber o cavalo que não está com sede”. 22-3.

No projeto interdisciplinar não se ensina. Visitas a várias escolas comunitárias e participações em congressos..desejando ”encontrar uma maneira de trabalhar sem me isolar dos meus colegas”. Ele mesmo começou a traçar suas trilhas pedagógicas. A classe popular começou.] com o seu jardim — horta e pomares —. descobria e redescobria técnicas que facilitassem a tarefa de orientar a aprendizagem dos alunos. ao mesmo tempo. FREINET. Rompeu-se o isolamento em que vivia o professor e que lhe gerava insegurança. não lhe forneceram nenhuma solução acabada que pudesse aplicar em sua escola de aldeia. Aprofundava Conceitos. espontâneo. dando significação social ao trabalho. 1991 a. a luta para adaptar a educação dos seus filhos às suas necessidades específicas. FREINET. embora o tenham ajudado. Cooperativa de Ensino Leigo. a fabricação e a difusão de novos instrumentos pedagógicos. de terrenos de cultura. Lançaram-se as bases de um movimento pedagógico fortalecido e integrado. na qual as crianças se realizavam e onde.. o seu rochedo.. um esforço . 20-1 Ao descobrir a imprensa escolar. 1975. no suceder diário da vida. se ela não pode estar sempre nas proximidades dos bosques. é indispensável. pelo menos. precisa ser um projeto que não se oriente apenas para o produzir. revistas de textos infantis. no qual todos participam de alguma forma. exerce-se. Considera que a concentração necessária para qualquer aprendizagem deve significar. acampamentos. p.”. que esteja rodeada e reforçada pelo meio 112 natural [. construções. onde se trabalha e constrói. O exercício da vivência cooperativa é um elemento do processo experimental que Freinet coloca no centro do próprio conhecimento pedagógico e de suas técnicas de vida. lança-se à execução de um projeto interdisciplinar: a organização da primeira cooperativa para divulgação das experiências. são impressos e intercambiados. o seu prado. contribuindo para a produção de um conhecimento gerado da experiência. antes. etc. p. como 111 La Gerbe.68-9 Sua pedagogia preconiza uma escola viva. O importante era mudar os espaços e as mentalidades dar outra abertura ao processo educativo. organização financeira para amparar as publicações. Nesse sentido.” FAZENDA. boletins. feliz.] Se a própria escola não estiver no centro da natureza auxiliar. mas que surja espontaneamente. priorizavam-se o meio natural e a atividade construtiva. p17. o seu aviário. de riachos. nem se aprende: vive-se. Sobre a escola. de rochedos. sem esquecer os espaços livres para os jogos. de um ato de vontade frente a um projeto que procura conhecer melhor. 1976b. assim. Freinet dizia: ”Concebemos a esta instalação material (da escola primária) uma importância mais decisiva do que geralmente se crê no que respeita ao sucesso dos métodos [.. Circulares. ”Um projeto interdisciplinar de trabalho ou de ensino consegue captar a profundidade das relações conscientes entre pessoas e coisas. Nascia a CEL. A confiança na criança e a fé na vida foram essenciais para a criação de uma escola do trabalho.

gerações anteriores e usava as mesmas ferramentas. é a criança que deve lançar ”os pilares em que vai assentar a sua construção”. p 75 Para trazer a vida até a escola é necessário mudar a concepção do processo de ensino-aprendizagem Para Freinet. e muito. da sociedade à qual a criança pertence e das experiências bem-sucedidas. a vida é alterada por uma tecnologia ao inovar. O indivíduo necessita se equilibrar. proceder de forma que a Teve à plena realização do seu potencial de adaptação à ação. aquele que orienta. nos mesmos campos. alimentava-se e trabalhava da mesma forma que as gerações que a haviam precedido. 1976a. realizar. antigamente. Agora. a busca de determinado objetivo que está naturalmente na linha da vida. por envolver integralmente o ser. Comparando o ritmo de vida da criança contemporânea com a de alguns séculos atrás. o que não pode ser conseguido num meio escolar diferente do meio vital da criança. para fazer nascer os mesmos grãos e colher os mesmos frutos. no sentido da sua construção. Logo. tanto como de avançar. respeitando o seu ritmo. Ao medir sua força diante do obstáculo. fornece abertura para a sua realização psicológica. Cabe ao educador conhecer as tendência.p 41 O meio é o determinante da mudança: ”Um indivíduo maguinifico à partida. com um potencial máximo de poder e equilíbrio.normal. uma vez que ambas dependem. com sucesso. desequilibra e modifica o homem e o meio. comia o mesmo tipo de alimento que havia alimentado. EM BUSCA DO EQUILÍBRIO: A ESCOLA DO TRABALHO E DO PENSAMENTO O trabalho. glorificará o destino do homem”. para não se ’opor à corrente de água mas trabalhar no seu sentido e ritmo. enquanto um ser deficiente pode ser regenerado por um meio mais favorável e mais eficiente”.. deve partir da base. o trabalho pedagógico deve ser dinâmico. caso contrário estaremos ”no campo da domesticação” e ”domesticação não é educação”. . e o professor. pela qual a criança herdava naturalmente os conhecimentos. do conhecimento que a criança já domina. 44-5 Freinet destaca a importância da integração entre família e escola. a pessoa ”mudará o aspecto do mundo. pode soçobrar rapidamente a um meio hostil e pervertido. FREINET. ele percebeu que. ao exaltar seu potencial de vida e levar ao outro sua ajuda 113 individual. isto é. As regras não devem ser impostas pelos adultos. dominará a natureza. FREINET 1976a p. a criança habitava. 1976a. a escola do futuro será a escola do trabalho e do pensameto integrada no processo geral da vida ambiente: a criança torna-se sujeito.s naturais da criança para orientar sua intervenção. Era uma técnica de vida quase perfeita. as reflexões e o born senso das gerações que caminhavam bem próximas dela. FREINET. não havia alterações profundas e radicais do meio: morava na mesma casa. estimula e facilita sua aprendizagem. ou seja. tutelarmente. e. ultrapassar a si mesmo e dominar os obstáculos.

” A criança que com efeito se entrega ao trabalho-jogo [. se não sentir um clima de confiança. que não chega a ser transformado pelo indivíduo em verdadeiro conhecimento. A metodologia é essencial. surge o equilíbrio necessário. justiça. bondade.] é constantemente solicitada pela sua necessidade de conhecer. criar. em si. . faz parte da vida e do trabalho de cada um. ela adquire disciplina de forma natural.p. das ciências ou das matemáticas. dizia Freinet. E. O essencial é permitir que a criança. p.. Usando as próprias 114 vivências.. Como a criança traz. a intervenção do professor limita-se à organização do trabalho. quando a criança executa uma atividade que a envolve.. o único elo comum entre os membros da sociedade.. cabendo ao educador tornar possível o trabalho-jogo. não se lhe retira o encanto de construir. Com o trabalho.44-5. aceitação e permissão. pois a verdadeira fraternidade. ainda. que leva ao verdadeiro conhecimento.] é um processo profundo que exige muito mais que uma simples explicação verbal. 1978b. o homem desenvolve total e afetivamente suas potencialidades. a criança vai querer expressarse. 171. triunfando ao descobrir as próprias potencialidades. Inteligência. É. os germes para o própno desenvolvimento e realização. desde pequena. conheça não só o que está a sua volta. e também pela sua tendência para reproduzir por sua vez pela criação e ação [. embora relativa. que privilegie suas atividades criadoras. ela concentrase naturalmente na tarefa. generosidade são características que estão presentes somente no homem que ”pode conservar o sentido do trabalho-jogo” . O educador pode ajudar a criança motivando-a a agir. Não o fará. realizar — ou simplesmente impor seus métodos. porém. A criança quer trabalhar. para seu papel social. ”é a fraternidade do trabalho”. Da fusão dos dois. de comparar. empenhada em uma atividade que a requisite física e psicologicamente. aquilo que lhe vem dos sentidos. Necessita de um esforço que busca penetrar no objeto para conhecê-lo em profundidade. razão. Quando a criança trabalha de acordo com seus interesses e necessidades. não apenas ensinar-lhe os elementos da história. pois ele (o trabalho-jogo) é tudo. mas permitir que conheça para enriquecer sua natureza e exaltar seu poder sem limite à imaginação. conhecimentos.. sua disciplina e passar um saber pronto. Para Freinet. mas também o que rio passado ou no espaço. sentimentos. sem imposições ou ameaças. Por meio do trabalho-jogo. basta o educador a palavra e proporcionar os meios para que se de forma consciente.. da geografia. poderoso elemento do comportamento humano. 1978. FREINET. A criança deve ser preparada para o papel de homem e trabalhador ativo ou seja. de controlar. desenvolvendo o melhor que existe em cada um. pelo seu desejo de experimentar. caridade. fraternidade. O meio ambiente contribui na medida em que proporciona experiências e ensaios mais ricos.Os jogos devem ligar o interesse da criança às tendências vitais do ser se quisermos um ensino ativo.” FREINET. O trabalho é o único meio de expressão e de exaltação das necessidades de ser. a liberdade é necessidade individual e social e. ocorre o estreitamento de relações entre os membros da sociedade.

com desenhos ou fotos.115 A LTVRE EXPRESSÃO O conhecimento é necessário e os indivíduos procuram-no espontaneamente. a criação. quase não é praticada nas escolas. a documentação só é obtida por meio de registros como o livro da vida. de forma que seja . os acontecimentos mais importantes de cada dia da classe). que devem se interpenetrar e completar a experimentação. [. ajuda o conhecimento a avançar até lugares distantes. do unicelular aos seres superiores da mais complexa fisiologia. Praticar a livre expressão significa inverter o método que a escola utilizava para produzir a aprendizagem. A documentação representa uma tomada de consciência de alguma experiência realizada.” FREINET. ] estabelecendo o elo permanente entre os impulsos internos e a crescente multiplicidade dos estímulos externos [. com audácia e segurança. a ficha. O importante é que o desejo de aprendizagem e de conhecer parta da própria criança e ela sinta sem demora o resultado da sua atividade. as fotografias e outros meios e materiais. permite que ela se expresse. É. para ensinar. a criação e a documentação. p 12-3 A experimentação é o eixo em torno do qual giram todas as aquisições infantis. ”A livre expressão foi para Freinet uma aventura. escrever ou contar. ”a livre expressão não é invenção de um cérebro particularmente privilegiado: é a própria manifestação da vida!” FREINET. com a sua construção. Não há a preocupação com a quantidade de conhecimentos. alunos registram. Enquanto a experimentação e a criação são atividades mais comuns.. devolvendo-lhe o verdadeiro sentido e amplitude. No entanto.. Como documentar sem aprender ao menos os rudimentos dessas técnicas? (citação: Livro da vida livro no qual os.] há um único prouni\ersal. Há dois conceitos-chave na proposta de Freinet: trabalho e livre expressão. pesquisar. Na Escola Moderna. A inversão começa quando a escola passa a ver a criança não mais como um ser que não tem conhecimentos e ao qual o professor tudo precisa ensinar.. Freinet considera três estágios de aprendizagem. 1979. às mais altas funções da consciência e da vontade. a vida. Cabe ao professor favorecer e organizar o meio. os intercâmbios interescolares. ela mostra que Freinet desvincula a livre expressão de seu significado parcial e escolar. o professor parte da tendência natural da criança para a ação.p 12 Citando Lamarck. É. a pesquisa válida no decor116 rer de toda a ascensão universal da vida. Poderia ajudar a criança que ainda não sabe ler. 1979. mas com o processo. a correspondência. exteriorize seus conhecimentos Como afirma Élise Freinet.. ] a criatura se impõe como ator de seu próprio equilíbrio e didotação de sua ação de viver [. o jornal.

normas e um rol de disciplinas. a vida é uma mesa posta com uma variedade infinita de manjares. onde. 43.. exigindo atividades vivas ou relacionadas com a vida da criança. Novinha. a escola tradicional não se concentrou no que realmente poderia levar a criança à verdadeira educação. 25. ou a escola como continuidade da vida. não considerou a natureza social e formativa do trabalho.] Intrigado. É para isso que propõe atividades relacionadas ao dia-a-dia dos alunos.. Ela deve trabalhar com prazer. a fim de evitar desintegração do pensamento infantil. Freinet percebe que esse interesse deve ser trazido para a sala de aula. uma vez que todo o seu trabalho foi voltado para a criança da classe popular. Quando prudentemente dirigida. 1977a. Freinet observa Joseph que. Das tentativas experimentais e das combinações conseguidas. despertar o interesse e orientar a criança que. o trabalho e todas as formas de exploração. incompreendidos pelas crianças. é a educação da vida pela própria vida. diminuindo as falsas manobras e os riscos de erro”. substituiu-o por regulamentos. . FREINET.] e vai ajoelhar-se diante de um muro. . tudo está para ser explorado. flagelo da escola tradicional. eleva os braços para a parede. . Freinet também a faz. Joseph. subestimaram os gestos construtivos e sobre eles quiseram enxertar outros gestos. Esquadrinha as ve117 lhas pedras com o olhar ávido [. se o homem não o limitar arbitrariamente. que. por si só. em qualquer . à altura dos olhos”. dinâmica. agir e realizar. que são ”a sistematização dos triunfes. enquanto uma criação propriamente dita parte do conhecimento. Élise Freinet conta o caso do aluno Joseph. eleva-se à concepção ideal do devir humano. que vinha atrás. sai a correr [. real ou instintivo.. p. os êxitos são repetidos e se transformam em regras de vida. . o amigo dos bichos: ”Acabado o recreio [. Preocupada em ensinar. vai querer criar. p. O seu campo de experimentação é infinito. para Freinet. é o interesse que a faz avançar. MOTIVAÇÃO: A VIDA DA CRIANÇA Uma das críticas mais comuns à escola é a excessiva importância dada ao aspecto intelectual. FREINET. a criança chega a um mundo em que tudo é mistério para ela. E nisso também ele inova.possível a tentativa experimental. O controle e a autoridade do adulto devem reduzir-se a fornecer os meios. Havia no buraco do muro uma lagartixa que prendera o interesse do menino. por meio da imaginação. A motivação é intrínseca. A escola muitas vezes exclui a criança por não lhe proporcionar uma educação efetiva e eficaz. Freinet alerta para a força dinâmica que é o interior de uma criança. é parte do interesse sem o qual não se conseguirá concentração e atenção. da experimentação consciente ou inconsciente e. As experiências bem-sucedidas passam a integrar os hábitos de vida e conduzem a novas situações. propondo a desintelectualização dos processos de aprendizagem: coloca na base a ação. Os educadores tradicionais tomaram por pensamento vital palavras vazias. ] enquanto a coluna se põe em marcha. essa força conduz a um beneficio próprio: uma aprendizagem significativa. com gesto devoto. É. 1978. ”Para a criança.

p. será forçada a procurar. os conteú118 dos que transmitem são alienados da vida. as lições só têm valor se ligados às experiências pessoais. Em vez de buscar enriquecer o ser humano. Ela não pára de comparar. ela encontra alimentos ao seu gosto. Segundo Élise Freinet. enchem-se cadernos. seu marido ”começou por ir buscar à vida da aldeia. A solução encontrada foram as aulas-passeio. p. outras regras às quais tem de se adaptar mais ou menos depressa. Os indivíduos que viveram os seus primeiros anos em contato com a natureza têm. Na escola. as linhas normais e salutares do seu crescimento”. Para Freinet. não der tempo para o aluno assimilar os conteúdos. com outro ritmo. Segundo Freinet. Ela deve gravar-se na criança para toda a vida. compreendia que precisava colher. em que levava os alunos para onde eles se sentiam felizes. ”a natureza terá que quebrar esta crosta que incomodará e desviará o seu florescimento e porque. praticar espontaneamente a mais normal e proveitosa das iniciações. impõe-se a memorização. na escola. não fará mais que um trabalho de superfície. fazem-no por meio do professor ou para o professor. 62 A educação não deve ser apenas um verniz espalhado sobre o metal fundido. diferente do que vive. a escola e o educador tradicionais têm demasiada pressa. a criança fora das aulas retoma quase todos os seus direitos. As crianças convertem-se em sujeitos orientados exclusivamente sob o ponto de vista escolar. em geral. FREINET. 1976.” FREINET. um mundo de horários e deveres. acompanhando e interpretando suas hipóteses e nunca reduzindo a sua ação a um ensino estreito. em vez de assimilar os conhecimentos por si mesmas. para satisfazer a necessidade üfc Síwòaòe òa criança. pode acontecer que a criança se afaste. que não só pode ser inútil. De temperamento audacioso e não se conformando com a passividade que a escola do seu tempo impunha à criança. Felizmente. que mostre fastio ou repulsa. Com freqüência. 1977a. mostram-se mais dinâmicos para a realização do seu destino. sofre como as plantas e as flores. como também perigoso. calcular. estimulando experiências pessoais. os novos elementos para o seu trabalho pedagógico. Os conhecimentos. pois possuem experiências tateadas na base de seu comportamento atual. A criança também participa da vida da natureza: cresce. cabe ao professor oferecer modelos. na própria vida das crianças. desabrocha. Se o educador não tiver paciência.momento. os elementos de base dessa nova educação. exclusivamente escolar e individualista. finalmente. as explicações. experimentar. fora das quatro paredes da sala de aula. 216-7. vivência muito mais rica e equilibrada. a criança precisa encontrar a continuação da vida no lar e não ser transportada para outro mundo. produzir marcas permanentes. Levou os alunos à oficina . há preocupação apenas com a quantidade. acanhado. apenas do mal que lhe fizeram. às cercanias da escola. Freinet fugia às regras preestabelecidas pela escola. que se oponha e bata com os pés no chão. Se reduzirmos essa escolha apenas a algumas variedades.

porém o rigor do controle a excessiva preocupação com a disciplina exterior atropelam e inibem a espontaneidade da criança. A velocidade e a qualidade da aquisição infantil serão função da riqueza não só formal mas também afetiva do exemplo permanente que ela oferece às suas experiências. pela organização regular do trabalho e pelo estabelecimento de relações mais humanas entre professores e alunos. Como a criança aprende a falar experimentando sucessivamente todas as possibilidades fisiológicas e técnicas.6. fez um pequeno tear na sala de aula. 1978. p. muito obsequiosamente. p.do tecelão. Se o trabalho escolar fosse motivado como o comportamento fora da escola. imitando o adulto. 120 A expressão livre não é uma simples fórmula que o educador se limita a observar e deixar seguir. ”A mãe não se contenta em escutar o balbucio do filho. 119 Para manter o interesse que a visita havia causado. 1976. mas uma pedagogia ousadamente centrada num trabalho interdisciplinar. que. os alunos compreenderam a utilidade dos poemas e começaram a aprender alguns. FREINET. Para desabrochar. integrada na vida dos homens.” FREINET. no qual a simpatia e a disponibilidade venham ao encontro das suas iniciativas mais secretas. inspiração e expiração —. ação dos dentes. a criança exige um clima de liberdade e confiança. deverá ser orientada pela escola a aperfeiçoar mais e mais a sua linguagem. consciente de seus direitos e capaz de cumprir seus deveres no mundo. mas o aluno que procurava aprender. fala-lhe constantemente. Logo. embora aparentemente lógico e científico. todas as combinações que o seu organismo permite — movimento da língua e dos lábios. O processo precisava ser natural. Esta se abrira para a vida pela cooperação. A SENSIBILIDADE DO EDUCADOR Um método artificial. um círculo grande de profissões havia sido transposto para poemas: marceneiro. não permitindo avaliar suas reais possibilidades. integrado com a vida comunitária e social. 32. Ela não tinha mais só a preocupação de formar o homem de amanhã. a criança naturalmente sentiria a necessidade e o desejo de estudar.27. por intermédio de uma pedagogia popular e democrática. ferreiro. A partir desse dia. Uma metodologia voltada para o rendimento escolar pode ter boas intenções. etc. Freinet pretendia buscar na experiência coletiva os elementos necessários para uma aprendizagem crítica e dialética. padeiro. Toda aprendizagem deve permitir o conhecimento das própias regras que lhe formam a base. explorando os arredores da escola. . não nos permite captar toda a sensibilidade infantil. compôs um poema sobre o tecelão e leu-o aos seus alunos. mas também a de transmitir-lhe a verdadeira cultura. num meio pedagogicamente favorável. pôs todo o seu saber à disposição do bando juvenil e curioso”. Não era mais o professor que ensinava.

o processo ocorre de forma diferente: a criança ainda muito nova faz-se compreender muito antes de dominar a técnica da fala. para formar sílabas e sons mais complexos. Quando dá uma lição ou trabalho ao aluno. a criança aprende as vogais — a. Mesmo conhecendo apenas quatro ou cinco sílabas e/ou palavras. O desafio é o professor ser formado para entender que a criança. e. Devem começar pela preparação do terreno: oferecer born alimento à jovem plantinha. I977a.p 60 Talvez a filosofia que ainda falta ao nosso educador e que Freinet recupera de Rousseau seja a paciência da espera. cumprindo. de forma a construir palavras e frases que chegam a surpreender os adultos. os educadores. conforme os caprichos da vossa vontade. . Mas a questão continua: qual o caminho para diminuir a defasagem entre aquilo que o professor conhece/aprendeu sobre a alfabetização e o modo como desenvolve essa alfabetização em sala de aula? Ao contrário do jardineiro. assusta. possa levar a pessoa a ler e escrever sem erro. quer imediatamente verificar o resultado. A proposta de Freinet constituía o início da transição da 121 mecanização (codificar e decodificar) para a construção (ênfase nos conteúdos ou no processo de aprendizagem da escrita). Deveis [os educadores] aprender do jardineiro esta integração da vossa ação na harmonia natural e principalmente esta comovente confiança na vida. folhas e ramos supérfluos. t. abstrair o objetivo da alfabetização. e cuidadosamente manter afastadas as ervas daninhas. Grita. i. traduzir as palavras em pensamento. É necessário deixar a criança falar e/ou escrever livremente e a sua maneira as palavras do próprio vocabulário. conscientes dos erros de sua formação. tudo devem fazer para não os passar adiante. depois as combina comp. já interage ou tenta compreender que espécie de sinais são aqueles que se utilizam para ler e escrever. pois. crescerão o e florirão. fatos ou acontecimentos expressivos. cada uma delas.” FREINET. que é favorecer o desenvolvimento da comunicação e expressão com ênfase no processo de produção e utilização de textos.] as vossas pequenas plantas viverão.. Embora aalfabetização. ar e sol. permitindo que chegue à planta o máximo de luz. Portanto. ela dificilmente estará harmonizada com os pensamentos. não. no entanto. Há o mecanismo da leitura ou da escrita e a compreensão do sentido. ela as modula com habilidade. mas segundo as linhas misteriosas da sua compleição. r. Era preciso conseguir. que só cuida das flores do jardim quando elas estão prestes a desabrochar.. tornando-as mais eficientes diante dos problemas complexos da vida. o melhor possível o apelo profundo do seu destino. ”[. que dão origem às palavras. a calma serenidade do Inverno. na verdade. sem esquecerse de motivá-la a buscar o próprio aperfeiçoamento. u —. a fecundidade do Outono. Pela pedagogia tradicional. Na vida. é a da dependência entre mecanização e processo inteligente. Leitura e/ou escrita e compreensão são dois momentos distintos da mesma operação. da leitura ou da escrita.aperfeiçoar experimentalmente suas técnicas. quando chega à escola. a questão que se coloca. o. esta paciência exemplar na presença do lento processo pelo qual se elaboram a riqueza da Primavera e do Verão. ainda que mecânica. s. e que não deveria existir. A criança pode chegar a decifrar sem saber.

(esquema: um fator seguido do outro) humano durante o . desempenhando o papel de catalisador e de confidente. não pode esquecer as riquezas da infância. no geral. pesquisar é um processo instintivo através do qual o homem busca o próprio crescimento: tateia porque quer caminhar em direção a um objetivo que serve à vida. Mas. É. antes mecânica. consiste precisamente em permitir a experiência por tentativas da criança em todos os domínios”. O grande segredo da educação inicial. 123 Síntese de É. A automatização só acontece como um ato inteligente. No entanto.” FREINET. conservar a iniciativa e o entusiasmo. a pesquisa. É. Hoje. duram toda a vida. adverte Freinet: ”A simples explicação teórica e o estudo formal das regras e das leis não bastam para fundamentar algo de sólido. 1979.FREINET. ”Todos somos pesquisadores. antropólogos. O verdadeiro educador deve ser sensível para acompanhar a construção do conhecimento por parte da criança. isto é. nos grafismos infantis. Nessa aprendizagem. Élise Freinet sintetiza as palavras de Freinet pelo esquema que veremos na página seguinte. para isso. 1979. Não são as conquistas que impulsionam o homem para a frente? Escrevia Freinet em sua sétima lei do comportamento: ’Uma experiência vitoriosa enquanto se pesquisa cria como um apelo ao de poder. uma demonstração da sua ciência especial e tudo. como em todas as outras. Sistematizam as diligências da criança apenas num sentido ou projetam situações adultas e mais ou menos fantasiosas nas situações simples e ingênuas das crianças. de que estamos a nos ocupar. torna-se inteligente ao inscrever-se no processo funcional do indivíduo (permeabilidade à experiência). P. suas demonstrações e seus raciocínios devem proporcionar uma modificação imediata no pensamento e na ação dos educandos. P. proporcionando-lhes maiores possibilidades de triunfo na vida. Acreditam que uma teoria advinda de uma pesquisa em laboratório pode esclarecer definitivamente o que a criança pensa em relação à escrita. Cada qual a seu modo busca descobrir. 108. O professor que dá apoio a seus alunos. quando esses achados chegam à prática e são utilizados por professores reais no contato diário com a criança. e tende a se reproduzir mecanicamente para transformar-se em regra de vida. que. psicólogos. Não devemos assumir uma postura de especialistas que dominam o saber. 123 )grifo nosso). ajuda122 os a veneer obstáculos. continua dentro de concepções puramente pessoais. surgem algumas dificuldades e perigos. segundo Bachelard e os artistas e poeus citados por Freinet. mas simplesmente de profissionais conscientes do seu papel de educador. 1976. Freinet sobre o comportamento processo de pesquisa: FREINET.p 124. lingüistas procuram estudar e interpretar como a criança constrói o seu conhecimento da língua escrita. inúmeros pedagogos. de lógico ou de definitivo.castiga porque acredita que suas palavras.

Freinet acompanha o processo de aquisição natural da língua observando longamente sua filha Baloulette (Bal). organiza-se lentamente [. meandros. a livre expressão e a pesquisa experimentai são o prolongamento da experiência pessoal. precisar-se e florescer a sutil expressão gráfica [. A linguagem familiar contrasta com a linguagem aprendida na escola — para fazer os exames ou satisfazer as exigências do currículo escolar —. Para Freinet. diz Freinet. linhas quebradas ou circulares. de forma natural.. porque foi construída no período afetivo da primeira infância.] O grafismo. À medida que melhora seu traçado. que precisa ser constantemente praticada para não ser esquecida. nem uma sílaba sequer.. ou nãodiferenciado. FREINET. Dependendo de cada criança. respondem a todas as exigências do indivíduo e favorecem as aprendizagens. a comparação e o pensamento. 124 As linhas duplicam-se. para exercitar a mão.Recarga vital → pesquisa → Conquista → Permeabilidade à experiência → Regra de vida O fator: Recarregamento de energia reflete sobre: Permeabilidade à experiência e Regra de vida AS FASES DA ESCRITA O método natural. Em estudo . às vezes. toda tentativa da criança tem um objetivo. De modo algum. Como toda criança normalmente desenvolvida. Deste lado. É o indivíduo que deve construir as bases profundas de seu conhecimento. como se pode ver no quadro. a representar figuras geométricas mais ou menos regulares e até justapostas.. as crianças realizam suas primeiras tentativas de comunicação por escrito. chegando. ao contrário. 1977a. a princípio absolutamente informe. constituída de tentativas de exercitar a mão. À primeira chama fase do grafismo simples.] Este primeiro domínio do utensílio é incontestavelmente um progresso e uma vitória”. ou uma combinação de vários elementos.. pode-se considerar que nessa fase é o pensamento que dirige e regula qualquer ato de criação. há como que uma intenção automática. sem qualquer ensaio de coordenação e. que nunca conheceu o método tradicional. podem apresentar-se por meio de grafismos retos ou verticais. uma finalidade — imediata ou não — que precisa ser iluminada por atividades construtivas. cruzam-se ao acaso. Freinet divide em cinco as fases da aquisição da escrita. é deste que originalmente nascem a explicação. contudo. a criança tenta justificá-lo com uma explicação posterior. desde muito cedo buscou experimentar o seu poder: ”Bal (l ano e 8 meses) viu-me escrever com um lápis numa bela página branca e imediatamente sentiu a necessidade de me imitar. A língua materna nunca é esquecida.. pega num lápis que agarn desajeitadamente como um cabo. Como outros pesquisadores. decepção! Não há riscos! Mas do outro — que maravilha! i movimento da mão deixa o seu traço mágico. deste primeiro e informe desenho. progressivamente vamos ver nascer. pois só assim obterá a unidade do saber. p 79-80 Nessa fase. Na repetição e conseqüente aperfeiçoamento do grafismo.

p.fase da utilização dos sinais convencionais (letras e números). Não é expressão nem comunicação consciente. a criança desenha. A criança só consegue traçar com êxito uma linha reta ou um oval regular depois de ter rabiscado linhas curvas. [. A criança desenha para imitar o adulto.fase do grafismo simples ou não. Existe. enriquecer-se e crescer. na base.fase . A criança já percebe que há regras e formas fixas a imitar. uma realidade material: a possibilidade de dispor de um instrumento — lápis.. ”Ao primeiro grito corresponde o primeiro grafismo. com ou sem valor sonoro. isto é.fase do graftsmo diferenciado e/ou justaposto. Esta lhes forneceria as noções técnicas necessárias.diferenciado. giz ou esferográfica — que produz o primeiro traço”. I977b. grafismos separados ou ligados por linhas curvas ou quebradas. pois os pais e os educadores afirmavam que as crianças não sabiam desenhar nem pintar e deveriam ir à escola para aprendê-lo. FREINET. a criança procura interpretar seus desenhos e sua escrita. passo a passo. mas um processo de criação como muitos outros. suas idéias eram bastante avançadas. por meio da aquisição de mecanismos e conhecimentos. 1977b. irregulares. Para aprender a desenhar.” (FREINET. Os grafismos começam a se aproximar das formas das letras e dos numerais Nessa fase. uma vez que os sistemas psicológicos e pedagógicos consideravam que a formação do indivíduo devia acontecer de forma cumulativa.] O mesmo sucede com o primeiro grafismo. 2ª fase . afirma: ”Ao nascer. p. 38) Esta ainda não é uma escrita. I977b. quebradas. 126 pois a livre expressão e a intuição proporcionam à criança a progressão indispensável para a criação e integração metodológica. Suas primeiras garatujas.fase da escrita alfabética. o trajeto rumo à aquisição da escrita. da qual a criança não se separará mais. Na época. mas o primeiro desenho.comparativo entre a evolução do grafismo e da linguagem oral na criança. a criança já começa a diferenciar desenho e escrita 125 3ª fase -fase da imitação da escrita: utilização de letras do próprio nome ou nomes conhecidos com repetição e automatização do grafismo conseguido..20. a criança grita porque o seu aparelho respiratório e a conformação da sua laringe são tais que produzem sons à passagem do ar. 5ª fase . Freinet descreve. seus primeiros triunfbs precisam ser transformados num sólido ponto de partida para uma educação altamente promissora. Pelo método natural. É o começo da escrita consciente. ”Não obstante os ensinamentos dos pensadores e as . Observando seus alunos e sua filha Bal. para copiar exatamente um modelo ou para realizar-se.p 37-8 Fases da escrita segundo Freinet: 1ª fase . A criança domina e identifica um número razoável de palavras e sabe se comunicar por escrito. A criança utiliza – se de garatujos. 4. Começa a interpretar e reproduzir textos e a solicitar referências aos adultos.

Freinet indica as formas técnicas desse auxílio que. não tinha ainda condição de entender o que são e o que representam a leitura e a escrita. da pintura. Freinet afastou sua filha Bal da tirania dos métodos tradicionais porque ela. que seriam os seus elementos constitutivos. sinais de qualquer ordem)”. da linguagem escrita. E o indivíduo quer viver”. para ele. pormenorizadamente. 1977a. o esqueleto a que em seguida bastará insuflar vida. que não é pela explicação intelectual. Nesse momento. continua persuadida de que não há cultura possível sem um estudo metódico de tegsas e àe. o mesmo que regula a aprendizagem da fala e do andar e que está na base de todos os atos correntes da vida. por exemplo. ”antes mesmo de entrar para a escola infantil. p 44 Alguns desses sinais.”FREINET. Ao relatar. a escola. a experiência . É uma aprendizagem na qual não há necessidade de lição ou regra. dinâmica e dialética. FREINET. I977c. convida-nos a acompanhar a evolução da criança no desenho e na escrita. do canto. Freinet considera que. as lições e os fatores de sanção inerentes. expressão e relação. ou seja. da música. FREINET. O objetivo dessa intervenção era mostrar-lhe exemplos melhores e colocar a sua disposição instrumentos próprios para suas necessidades de criação. Freinet vê o educador como aquele que medeia a construção do conhecimento pela criança. para Freinet. conhecidos e compreendidos. 1977b. Freinet. Os meios práticos desta cultura são a memorização. aos 2 anos. é a tarefa por excelência do educador que quer contribuir para a formação e as aquisições da criança. Foi esse o seu objetivo e não o desejo de fazêla viver afastada do mundo. como qualquer criança pequena. como tal. Como ela. à utilização de palavras e sinais. Todo homem tem necessidade de triunfar e. para desenvolver. etc. A primeira fase é semelhante à que Emilia Ferreiro denomina nível I. como um novo Robinson Crusoe (citado por Rousseau). pelo recurso às regras e às leis que se faz uma aquisição. ficando entre esta e o objeto do conhecimento. Freinet mostra o contrário. p 22 Toda aquisição é fruto de tentativa experimental pessoal. o fracasso é sempre destruidor e perturbador: ”É a doença. quando o espaço é demasiado restrito para a circulação sem regras. a evolução do processo de aquisição do grafismo pela criança — do desenho à escrita —. a ”leitura” é global.21. o sofrimento e a morte. Ambos confrontaram 127 suas propostas com as dos métodos tradicionais. \e\s. estabelece-se um contato entre a criança e o sinal convencional (cartazes. seja de que nível for. mas pelo mesmo processo geral e universal da tentativa experimental (a mesma utilizada para falar e andar) é que a criança construirá o seu conhecimento.demonstrações teóricas dos investigadores do passado e do presente. que apenas diversifica e acelera o processo. serão retomados espontaneamente pelas crianças na aula: o sentido de proibido. no seu método natural. ou pré-silábica. um processo global.p. os exercícios. em planos sempre mais complexos. evidenciando que a prática da alfabetização (como a prática pedagógica em geral) é sempre social e. depois à imitação dos sinais gráficos de palavras e de letras. A criança evolui naturalmente dos rabiscos ao desenho.

39-40.” (FREINET. É um novo triunfo. Para Freinet. que a criança vai procurar reproduzir mecanicamente até dominar. 1977a. riscos carregadost. ela executa o seu primeiro grafismo. É o início da segunda fase da escrita. Daí a importância dos estímulos e da paciência. sobrepostos ou mesmo circulares. aos 2 anos e 4 meses. certos de que o vôo há de chegar sem falta. FREINET. 41) 129 Nascem pontos e manchas que antes não existiam.45. segundo Freinet. esboça com gestos mais bruscos traços atiguíosos. ou fase do grafismo diferenciado e/ou justaposto.parfim. sobrepostos e circulares. Da mesma forma.] não basta partir muito cedo e a toda velocidade. Aos riscos arredondados acrescenta pontos e manchas. Para a criança ascender de uma fase a outra é necessário. p. FREINET. agora também justapostos. vai querer repeti-lo..fatigaila. que aperfeiçoará a sua expressão. 1977b.”(FREINET. Desde os primeiros desenhos ou garatujas das crianças. aos 2 anos e 4 mesesFREINET. FREINET. que gradualmente irão se complicando com a introdução de linhas quebradas.. O importante é o ponto de chegada e o estado da criança nessa chegada. ’A criança. p. Freinet referese à ilustração a seguir. FREINET.) “Os traços inicialmente direitos.Dominique. é como o desejo ”de dominar o instrumento e orientar o seu uso no sentido de formas que representam já um começo de diferenciação”. mas de reinventá-la.. um triunfo mais especializado. de esperar a criança caminhar no próprio ritmo: ”[. natural e forte”. depois vai repetilo e aparecerão traços retos. no monento desejado. ao perceber a sua repercussão no ambiente. p. I977b. 40-3. . 4) Mariette. acaba por dar grandes pancadas com o bico do lápis. complicam-se gradualmente com a introdução de linhas quebradas. p 44 (Primeiros grafismos de Claude e Netty: diferenciação entre desenho e escrita. Não sabe ainda como fazê-lo. imitando a forma estabelecida e imposta pelo meio. diferenciando-os em muitos outros elementos. 1977c p.tentada. Podem ou não acompanhar desenhos”. imtada por ter feito nscos circulares. sem o qual não há razão de ser da escrita. 119-22 128 Não se trata de inventar a técnica da escrita. da mesma forma que acrescentará o grito aos gestos. Deixaremos pacientemente que as penas cresçam e se desenvolvam. I977c. ”aparecem sinais diferentes do desenho que a crianca interpreta como sinais escritos. que um novo elemento intervenha. porém é importante afirmar o seu poder e alcançar o domínio fisiológico desse êxito. 1977b. Estas primeiras formas da ’escrita’ podem estar ligadas ou separadas. 1977b. Seus desenhos são um meio de ação sobre o meio.] Não tentaremos dotar os passarinhos de asas fictícias para os pôr demasiado cedo fora do ninho.p. A criança que deu um grito.. [. Repete grafismos. (Desenhos de 2 crianças: Bruno aos 2 anos e 3 meses.

p 46 Leonel (4 anos) copia o nome. p. 43) Na fase anterior.47: Leonel. p. Esse grafismo será particularmente um triunfo. etc. ela iria procurar explicar seus grafismos. distingue no desenho uma maçã e uma flor. 1977b. a lua. a criança familiariza-se com o valor. (Figura: Bruno. f. empregando simultaneamente os sinais primitivos. como na figura anterior. aos 2 anos e 4 meses. ”Vê-la-emos seguidamente utilizar certos elementos-letras desse nome para ’escrever’. “criança esforça-se para reproduzir a mancha negra no meio dos rabiscos.” (FREINET. no seu estojo. após ter tentado escrevê-lo sozinho. ”a profundidade e a riqueza desta primeira . De início a criança ”lê” as palavras que escreve. na sua mesa. l e outras (p) — e. se lhe perguntássemos o que desenhara. a criança ainda não havia tentado explicar o seu desenho.FREINET. nas quais Nicole e Mariette procuram interpretar os próprios grafismos..p.1977c. 1977b. mas também da lógica da explicação. se o adulto ou as outras crianças lhe derem importância. biscoitos. aos 4 anos. que a professora escreve nos seus desenhos. 44) Na tentativa de interpretar o mesmo desenho.p. vai penetrando cada vez mais no reconhecimento dos sinais que. o medalhão da mamãe e até o coração da flor.O primeiro contato da criança com a língua escrita é pelo seu próprio nome. utilizando certas letras desse nome — L. Depois.45) 132 O reconhecimento sincrético e sensível do conteúdo do texto é a única razão de ser da leitura. Escrita a partir das letras do nome) Bal também aperfeiçoará sua técnica não só do ponto de vista gráfico. No entanto. pois nada significava. aos 2 anos e 5 meses. 1977b. constituirão a verdadeira leitura. Para Freinet. (FREINET. 131 (Figuras) Nicole (aos 2 anos e 5 meses). Mariette distingue sobre o papel: um sol. Primeiro. como dois processos simultâneos. por tentativas. 130 (Figura FREINET. e que a criança consegue reconhecer.p47) A repetição de grafismo conseguido e mais especializado automatizase. simultaneamente. uma vez que só escreve aquilo que compreende. 1977c.A criança conquistou um um novo patamar. sinais gráficas pessoais para dar os parabéns à mãe. o sentido e a figura psíquica das palavras. em cumplicidade com oprimo Alain. É o que está representado nas figuras a seguir. n. mudos ou verbalizados.” FREINET. vitória traduz por pequenos grafismos isolados. 1977c. (FREINET. era apenas uma forma global imitada do adulto. E Mariette.

. p. novamente.) Diferenciação entre desenho e escrita (FIGURA: Bal imita Freinet: ao terminar a página< assina e sublinha. ajustando lentamente as suas experiências. dispõe de lápis e papel. por um lado. A criança que convive com a escrita e que encontra desenhos por toda parte (em jornais. mas porque acredita realmente que aqueles que lêem decifram no papel aquilo que está nele. 133. a flor. um clima favorável à eclosão e ao desenvolvimento da escrita e do desenho infantil. 1971 a. o desenho e. (FIGURA : FREINET. é muito importante. Uma vez que é tão fácil ler. Ele compara essas duas primeiras fases com o treinar a pegar no arco e a fazer gemer as cordas do violino: enquanto não dominar a técnica do grafismo. 93-8. repetindo os êxitos conseguidos. O mesmo acontece com o desenho e a escrita: a criança que vive em um ambiente estimulante — em que vê o adulto escrever e desenhar. como se eu fizesse uma coisa natural. embalagens) vai querer escrever e/ou desenhar. da sua rapidez e dos seus sinais dispostos em linhas. 134 O exemplo. o automóvel. Mas toma consciência da escrita adulta. anúncios. Assim.p. na carta à avó sente . é porque vê nisso uma finalidade.. como forma de expressão. E. certamente não é mais difícil escrever [. Ela vai querer se apoderar desse instrumento social mais rapidamente.p. diz Freinet. que reduzem os exercícios a séries de palavras descontextualizadas e que não levam em conta o esplendor das conquistas vivas das crianças. embora não tenha ainda qualquer idéia da significação da leitura e do que a escrita representa. tal como ela lê nos desenhos o que está no seu próprio pensamento e apenas isso [.. ”Ela não faz aquilo como um jogo. a criança avança por tentativas. convive com adultos que valorizam suas primeiras produções — experimenta com mais intensidade o êxito. 1977a. ] Bal chegou agora a uma etapa nova: na sua página existe. depois. por outro. etc. pelo método natural de leitura a criança começa lendo as próprias palavras que escreve. pois. isso não a surpreende. um texto manuscrito que 133 é o complemento necessário para a explicação narrativa do desenho ou que talvez não seja mais que um ensaio que vai aperfeiçoando na imitação de uma técnica a que o adulto ostensivamente da grande importância ” FREINET.aquisição experimental são o escalão prévio do qual decorrerão a rapidez e a segurança das aquisições ulteriores”. Cabe ao professor criar. Diferentemente do aprendizado da leitura em cartilhas. revistas. primeiro como meio de ação sobre o ambiente e. 96. se a criança tem a tendência de imitar o adulto ao querer inserir uma ação exterior no processo de sua própria tentativa. 1977a. Tal como para a leitura.. FREINET. Bal passa a imitar Freinet na leitura e na escrita. na sala de aula.] Bal vê-me escrever com uma grande facilidade. exemplifica com um desenho de Bal: observa que a menina ”desenha grafismos bem definidos na carta que o pai escreve à avó: um pato.

Só ganha o seu valor pela sua função de instrumento. diferenciando-se do desenho Seus caracteres aproximam-se mais das letras convencionais. configurando uma nova fase.p 48 (FIGURA: Freinet.p. o texto precisa ter a função de um instrumento ao qual aquele que escreve sente o desejo de recorrer. Aparecimento do e ou /. que Freinet descreve minuciosamente: ”Vemos aparecer o primeiro sinal diferenciado: a cruz que imita o í. além dos sinais já citados. ] Mas. Observa-se também um regresso ao desenho justaposto e sobreposto com texto a completar a página. para que a evolução prossiga. cores. por isso. O processo empregado para o desenho transfere-se agora para a escrita 135 Se o ambiente favorecer a tentativa experimental da criança. FREINET. (FIGURA: FXEI. 49) Desenho de Bal aos 3 anos e 10 meses. Além dos t e dos /. p 101 Na figura que ilustra a escrita autônoma. essa escrita é repetida e se diferencia totalmente do desenho. 1977 a. p 103 Enquanto o desenho pode bastar-se a si mesmo. Se antigamente a escrita era pouco utilizada. 136 (FIGURA: FREINET. mais rapidamente ela avançará na escrita e entenderá o que é e o que representa. p 100) Diferênciação da escrita. 1977 a.\ET. I9~!7b.necessidade de reforçar a sua aquisição gráfica com a imitação da escrita. . Em nosso século. A escola tradicional não descobriu 137 essa motivação e. Ao assinar seu desenho.. mas não deixa de ser para a criança uma conquista definitiva. 1977a. Bal usa o mesmo princípio dos grafismos conseguidos e escreve duas vezes o mesmo motivo. produzir beleza. É o alvorecer da verdadeira escrita Quando acontece essa libertação. 1977 a. um degrau vencido que servirá de ponto de apoio para as outras conquistas. um pensamento ou uma ordem”. de intérprete para exprimir um desejo. como se pode ver a seguir. um meio de expressão até então desconhecido”. a partir dessa separação. 1977b. p 101) Escrita autônoma. [. impõe um ensino de fora ou pelo constrangimento. FREINET.] O texto manuscrito entregue à sua própria sorte não é mais que um rabiscar sem significação intuitiva nem beleza atraente. é necessário que intervenha um elemento novo sem o qual a escrita não teria razão de ser. há disposição sintética do texto.. [. apoio para novas conquistas. assegura Freinet. Posteriormente. ”começa a sua história autônoma. os o ou a diferenciam-se lentamente”. É um primeiro triunfo de uma reprodução fácil e simples. grifando-os. FREINET. vida.. com título e assinatura (sublinhados). é porque o homem nada tinha a dizer para corresponder-se com outros homens afastados.

as descobertas e a intensificação dos deslocamentos humanos tornaram mais e mais necessária a utilização de meios de comunicação a distância — e a escola permaneceu, timidamente, no estágio primitivo, sem motivar para a escrita. Hoje, as crianças e familiares recebem cartas com fotografias, convivem com muitos escritos, percebem a razão da escrita e da leitura. Isso é ainda mais acentuado nos lares onde elas são expostas freqüentemente a atos de leitura e escrita. Freinet criou em sua sala de aula um ambiente semelhante ao das crianças da classe média, introduzindo nela o jornal escolar e a correspondência ínterescolar, reproduzindo o mesmo ambiente que Bal vivenciava em sua casa. Escrevendo muitas vezes e em presença da filha, correspondendo-se com parentes distantes, ele vê que a menina também sente vontade de escrever para a madrinha, para a avó ou para as primas. Aos 4 anos e 3 meses, Bal começa a escrever as suas primeiras cartas independentes do desenho, iniciando a utilização dos sinais gráficos convencionais, embora sem valor sonoro ou qualquer diferenciação progressiva e global do conjunto gráfico. (FIGURA: FREINET: 1977ª, p. 106.) Bal, com 4 anos e 3 meses, escreve à prima O documento mostra progresso na escrita linhas quase regulares, margem, uso de sinais convencionais da escrita (t, o, a, e, l) 138 (FIGURA: Freinet, 1977,a, p. 107.) “Bal copia para adquirir o dominío da técnica.” A menina passa a perceber que há regras e formas fixas a imitar. Já escreve o próprio nome e os das pessoas queridas, começando a relacionar o som à grafia. O sentido da escrita, como a ligação entre a língua falada e a escrita, está descoberto e já aparece o entendimento da convenção (emprego de letras e números). Não há mais mistura entre o desenho e a escrita. Começa a quarta fase da escrita ’e é somente nela, diz Freinet, que a criança vai se interessar pelo texto redigido em comum na sala e tentar reproduzi-lo: ”Copia algumas letras ou palavras de um livro ou de um jornal. Aplica-se durante alguns dias a reproduzir números que são sinais nitidamente separados, de uma forma mais geométrica e menos caprichosa do que as letras. Vamos assistir primeiro à evolução destes ’exercícios’ espontâneos ou, antes, continuados, não como obrigação, mas sob o impulso das necessidades nascidas da nossa poderosa motivação”. FREINET, 1977a, p 107. (FIGURA) ”Bal experimenta o seu domínio, utilizando sinais em cujo traçado triunfou anteriormente.” (FREINET, 1977a, p. 108) 139 Os sinais, longe de serem rígidos e quebrados como numa escrita de base analítica, são ágeis e ligados, formando uma espécie de harmonia sintética. Só após atingir o domínio da técnica, a criança começa a estabelecer relação entre o grafismo das palavras e a palavra oral ou o pensamento.

Percebe que as letras e as sílabas são sinais, grafias de sons que ela pronuncia ao falar e que, associados ou combinados, permitem traduzir graficamente, escrever as suas palavras e as suas frases. Durante muito tempo, a criança utiliza essa conquista para pôr a funcionar o novo instrumento adquirido, nomeando desenhos, escrevendo os nomes próprios de familiares: papai, mamãe, vovô, Max, Germaine, Dedé... Essas palavras conhecidas são como que o eixo para todos os grafismos. Começam os pedidos de referência à professora e a sua utilização em frases e expressões. Numa classe Freinet, os textos das crianças são afixados e, depois de impressos, constituem o livro da vida da sala de aula.”[...] a identificação da palavra com o objeto, a compreensão do código e a cópia cada vez mais correta das letras avançam consoante o ritmo de cada criança, mas num ambiente rico e numa atmosfera propícia.” FREINET, 19770, p 49 Aos poucos, as crianças deixam de utilizar essas referências e, com um maior domínio da língua escrita, o sentido do sinal passa a revelar-se na identificação do objetohistória com a expressão escrita (sentido do texto) Quando dominar e identificar um número razoável de palavras, suficientes para compreender o pensamento nelas expresso, a criança conseguirá ler o texto. Bal, comenta Freinet, no dia em que lê a palavra forêt (”floresta”), ”começa por ler ’for-te’... Mas que quer dizer aquiIo? Lê finalmente: Ia forêt, mas precisa ainda um momento para vestir a palavra na sua verdadeira figura, para identificar o grafismo e o som e o sentido que contém. Ah! compreendi, disse ela por fim.. Por vezes lemos sem saber ler Sabemos ler a palavra, mas não sabemos o que ela quer dizer. É como se não soubéssemos ler”. FREINET, 1977a, p 134 As palavras de Bal nos esclarecem sobre o fenômeno da explosão, ao qual os pedagogos davam tanto destaque com sua ingenuidade, a menina fala aquilo que o educador nem sempre consegue dizer. O verdadeiro sentido da leitura, para Freinet, não se adquire por meio de exercícios estéreis de fonetização com base em si140 nais manuscritos ou impressos, “mas pelo reconhecimento do pensamento expresso pela interpretação destes sinais”.FREINET, 1977a, p. 135. No decorrer da evolução novas conquistas vão se juntando, integrando e justapondo às primeiras, de forma mais ou menos lógica. Às vezes, temos a impressão de que a crança regride. É o começo da escrita consciente e da qual ela não se separará mais. Difere da escrita em que a criança é treinada e passa a imitar letras, copiar palavras e frases. (FIGURA: FREINET, 1977a, p. 114.) Bal, aos 5 anos e 6 meses.Novas palavras ou sinais vêm intercalar-se ao texto, totalmente original, ao lado de desenhos explicativos (reminiscências do passado). A copia e o ditado nessa metodoligia tomam outro sentido “A criança escreve todas as palvras que conhece, seja pela cópia imediata de um modelo, seja por uma construção fonética que irá aperfeiçoando até reproduzir o mais exatamente possivel a figura gráfica, por assim dizer, “oficial destas palavras”. FREINET, 1977a, p.134.

Ele convida o educador a abandonar, temporariamente, as preocupações escolares para ver os problemas da construção e uso da língua escrita com mais objetividade. Já no inicio do século. XX, denunciou que o ensino praticado nas escolas impedia a criança de redigir, ao impor prioridade ao dominio do rabiscar com modelos ou pontilhados. “Tais documentos obrigan-nos a ultrapassar as considerações escolares do realismo, as explicações parciais e tão pobres pela habilidade motora da 141 mão, coordenada com a acuidade visual. A criança situa-se para além das preocupações pedagógicas do pedagogo; acha-se imersa num estado de vida total que ultrapassa os seus meios de expressão; arrisca-se integralmente numa tentativa experimental que inflama todas as lenhas; é por si próprias que as energias instintivas se invocam, se disciplinam e se educam para criar.” FREINET, 1977b, p. 380. ”Não lhe virá à idéia, para escrever, de fazer uma aborrecida página de ’i’, depois uma página de ’o’. Reproduzirá à sua maneira os grafismos de que viu os modelos. Esboçará primeiro os gestos rápidos da vossa caneta, que vai e vem, gira como uma formiga atarefada e pára de quando em quando para fazer pontos. Ah! isso mesmo, os pontos e os pequenos riscos serão as primeiras conquistas no seu grafismo, com que semeará a página. Depois deste rabiscar por imitação, sempre emergirão alguns triunfos [...] aos quais a criança ciosamente se afeiçoará, primeiros degraus de onde partirá com segurança e dinamismo para continuar a ascensão.” FREINET, 1977a, p. 73. Na quinta fase, propõe explorar totalmente a livre expressão da criança que, segundo ele, ultrapassa em amplitude o simples globalismo, segundo o qual a criança vê o todo antes de distinguir as partes. Mesmo admitindo as descobertas psicológicas e pedagógicas da época, como as de Decroly, Freinet entende, diferentemente desse, que a criança constrói pelo processo de tentativa experimental, por atos conseguidos, sucessivamente encadeados e subordinados a uma visão central que domina ao mesmo tempo o todo e aparte. Piaget, contemporâneo de Freinet, gostava de repetir: ”Tudo aquilo que se ensina à criança impede que ela o invente. [...] isso porque não há maneira de apropriar-se de um conhecimento sem compreender seu processo de construção, quer dizer, reconstruí-lo”.PIAGET, apud, AMAE, S.D, P.5 Se hoje temos muitas crianças desadaptadas, evasão e repetência, uma das causas, talvez a maior, esteja nos erros metodológicos, na repetição de lições enfadonhas das cartilhas ou manuais, cujos resumos, questionários ou exercícios os alunos precisam decorar. Freinet propõe uma metodologia que restabeleça os circuitos normais com a vida, permitindo que a criança se expresse naturalmente, construa e crie. Propõe partir não do texto do adulto, mas da vida da criança, da sua expressão lê escrita, do seu texto livre; basearse nos princípi142 os das práticas ancestrais que asseguraram o êxito na aquisição da fala, do andar da criança e para os quais todo ato conseguido se reproduz até tornar-se

que o trabalho da criança esteja fundamentado na pesquisa e ação próprias (fundamento da investigação científica) e não seja artificial. como é o caso das ricas coleções de desenhos dos alunos. tal como se ensina um papagaio a falar. p. Comenta Freinet: ”Nossa criança saberá ler e para sempre. O educador não deve apressar. frutos quase sempre de realizações coletivas. poderá então partir para outras experiências. porque esta aprendizagem natural fará corpo com a própria vida e o processo de evolução do indivíduo”. a menina falaria.p 209. umas conseguem mais rapidamente apoderar-se de uma experiência e automatizála. pois a criança não conseguirá realizar as ligações íntimas que fazem da leitura/escrita uma expressão e não uma eterna e desesperante tarefa. a criança só pensará em dominar o equilíbrio. enquanto outras demoram mais. I977b. na hora certa. ”Enquanto não dominar a marcha. imposto pelo adulto. mas estimular o processo. Uma vez senhora desse equilíbrio. Comunica-se com outras crianças ou pessoas familiares e vai sempre aperfeiçoando essa técnica.) Sexta-feira 17 18 de março de 1966 / hoje há sol / hoje as nuvens foram-se embora / ontem brinquei com os meus carros em casa / ontem houve nuvens no lago . FREINET.51. precisam de vários estímulos. são ainda uma constante entre os simpatizantes do movimento da Escola Moderna em todo o mundo.p 35 Quanto à questão do tempo.” FREINET.técnica de vida. Élise organizou todos os registros deixados por Freinet e publicou-os depois de sua morte. para se comunicar a criança utiliza-se do registro da correspondência. cuja gênese se desconhece. que tudo é questão de tempo. por um processo autoritário. É o que aconteceu com nossa filha Paula. com um ano e oito meses ainda não falava. O mesmo acontece com a escrita e a leitura. Ele costumava repetir que as experiências que nós mesmos construímos são como degraus sólidos de uma escada que nos conduzirá aos andares superiores. Embora algumas crianças possam levar dois ou três anos para dominar a escrita. Pedimos-lhe paciência pois. Imaginemos se todas as famílias resolvessem apressar seus filhos para que falassem antes de estarem aptos para tal. Alguns meses depois. viajávamos juntos de carro e mamãe chegou a se irritar porque Paula falava tanto que a impedia de conversar. Mas isso prejudica o seu equilíbrio. O tempo que o educador julga ganhar com essa iniciação será perdido. ensinar uma criança a ler e a escrever mais rapidamente. É possível. ele deve saber esperar. 1977a. cada criança tem seu próprio ritmo. Quando o processo de aprendizagem da leitura e da escrita está ligado intimamente à vida psíquica e social da criança. O importante é o educador saber que todos chegam lá. (FIGURA: freinet. Do mesmo modo que adquire a técnica da linguagem escrita. 1977c. 143 O trabalho do professor é acompanhar essa evolução em seus diferentes estágios e registrá-la. O registro e a troca de materiais escritos (produções infantis). como fazia Freinet. Mamãe chegou a sugerir que consultássemos um especialista. surge com sentido total e verdadeiro.

uma flor prestes a desabrochar que murcha e seca. mas exprimir-se-á de forma satisfatória para a sua idade. nos dá uma grande lição. apenas com a expressão e a compreensão. que vai muito além do aspecto puramente ortográfico.Aperfeiçoará cada vez mais sua escrita. atrelada à lição e à cópia.p 224. É uma nova visão. continuarão a aperfeiçoar-se. não se preocupavam com a ortografia. Seu ensino serve para aperfeiçoar a escrita. O estudo da Ortografia constitui para a criança uma considerável perda de tempo e contribui para restringir o desenvolvimento do conhecimento humano”. Sabe escrever: sabe fixar no papel os pensamentos que deseja comunicar. FREINET. 1977a. convencer. não copiará. enchendo páginas e páginas dos seus cadernos. Desse momento em diante. Ao vir para a escola. A criança marcada por um ensino autoritário. No entanto.. aquisição de formas escritas. Freinet mostra a evolução da escrita de sua filha: ”Bal descobriu. Não basta saber se a criança é capaz de escrever sem erros — valor especificamente escolar —.. pode chegar a traduzir graficamente.p 124-5. é como uma chama que. compreensão dos textos e de cartas dos correspondentes. se está em condições de manejar a língua com destreza e habilidade. etc.ESCRITA PESSOAL E LIVRE Freinet fazia o estudo global dos textos que as crianças escreviam livremente e traziam para a sala de aula e dos que elas recebiam dos correspondentes. depois de acesa. Freinet considera a ortografia como complemento. Freinet valorizava a escrita pessoal e livre que permite à criança expressar seus sentimentos. afirma Freinet. portanto que as letras são sinais gráficos de sons que ela pronuncia ao falar e que. escrita espontânea de textos ou de palavras escolhidas pela criança. buscando à sua volta os meios para enriquecer e variar sua técnica.p 126. podendo construir belos textos mesmo com incorreções ortográficas.] E conseguirá com tanto mais segurança e rapidez quanto o ambiente for favorável e a ajudar”.. 1977a.. em palavras —. se sabe demonstrar. 144 As crianças eram acostumadas a escrever sozinhas. comover. Contrário ao ensino de regras gramaticais e sintáticas na fase em que a criança ainda está aprendendo a língua escrita. Cita Anatole France: ”Os grandes clássicos. de Comeille a Voltaire e o próprio rei Luís XIV. mas se sabe exprimirse com elegância e sentimento. vacila e apaga-se. em vez de utilizar apenas a lógica e a memória. a criança tem conhe145 . ainda não há preocupação com a ortografia. propondo varias atividades: reconhecimento das palavras do texto — com recorte e reconstituição em linhas. 1977a. [. ao associar e ao combinar estes sinais. a ’escrever’ as suas palavras e as suas frases”. FREINET. ”o caminho à sua frente está livre. Ao condenar os exercicios sistemáticos com que se leva a criança a praticar ortografia apenas pela repetição. cópia do texto. nessa fase. FREINET.

são as primeiras tentativas para montar a bicicleta [. enquanto os exercícios formais estão na razão inversa da atividade criadora. Só depois de ter passado pelo processo de criar a própria frase ou texto. as dificuldades de sua vida. sem necessidade de regras. não há idade definida para introduzir a criança na escrita. só depois de ter passado pelas mesmas dificuldades dos escritores e dos poetas. em linguagem coloquial. que é convidada a copiar o seu texto ou o do 146 coleguinha ou. do ensino fundamental. o professor é o escriba e precisa ser fiel ao pensamento da criança. FREINET. Disso resulta termos mais oradores — um domínio no qual ainda não se impuseram regras — que escritores. voltamos a uma expressão e a modificamos. (FIGURA) . A expressão e a criação pessoais são nossas marcas. muito semelhante ao de pessoas com pouca experiência em manejar o instrumento da escrita. De acordo com Freinet. se não têm idéias e esperam passivamente que o professor ou o livro as forneça. o erro dos métodos tradicionais está em partir dos textos eruditos para ensinar a língua. só depois de o ver escolhido e valorizado pelos coleguinhas. Estamos aperfeiçoando o nosso texto. Em nossa própria escrita de adulto. Apesar das medidas do Ministério da Educação e Cultura e das Secretarias de Educação — horário integral nas escolas para permanência dos alunos das séries iniciais. desgostos ou sonhos. O texto de Bal mostrado a seguir é uma verdadeira composição livre. devemos valorizar os textos infantis. porque.cimentes que devemos ajudar a ampliar. por escrito. os modelos de textos literários simples. mesmo. Desde a escola maternal. que conta um pouco do seu cotidiano. Nessa fase. Continuamos a preparar uma massa de crianças analfabetas. é porque foram marcados por um método que lhes tirou essa espontaneidade para a criação. o que é muito triste. formação em serviço de professores pelo Programa de Educação Continuada (PEC) —..] O essencial é que a criança sinta e mantenha a necessidade de escrever que lhe fará vencer todas as dificuldades”. 1977a. muitas vezes riscamos o que escrevemos. a mudança de postura dos educadores ainda não se completou. Os métodos tradicionais ainda são praticados em nosso país. Bastamlhes os bons exemplos. Sensíveis à experiência dos outros.. é que a criança ganha consciência de suas insuficiências e êxitos e começa a apreciar a arte dos outros. produzir a própria escrita Começa o trabalho de composição e de criação. ”por mais desajeitados que sejam. mesmo sabendo ler e escrever. Para Freinet. são incapazes de exprimir. Se os alunos não sabem desenhar nem pintar. estes textos assim redigidos são os primeiros exercícios indispensáveis. É a criação literária em toda a sua complexidade. com todas as suas virtudes arrebatadoras e fecundas. começamos tudo de novo. as suas alegrias. com base nos quais poderão criar a própria forma ou marca de escrita. elas progredirão com mais rapidez e segurança.p 261. Segundo Freinet.

Sabendo se ouvida. ou seja.Trecho de um rios primeiros textos livres escritos por Bal.”Não será isto aprender a escrever e a viver?” FREINET. o estudo ortográfico ou gramatical. etc. palavras com oi. detectava as dificuldades (”erros”). p 55 A escrita deve traduzir o mais exatamente possível o que se pretende dizer. famílias de palavras. O ditado era usado para as crianças avaliarem a si mesmas e aos outros. juntamente com as crianças. até a linha tornar-se impecável. seguindo os passos de Freinet: 1. f. etc. individualmente ou em pequenos grupos. A mesma ajuda solicitada ao coleguinha é retribuída com gentileza. Nesse exercício de reconhecimento. adjetivos. mas por meio de um exercício inteligente. 1977a. 4. todos os dias. mesmo não iniciado. . es. deve compreender com clareza a maior parte do que se quis exprimir. a mesma atenção é dispensada a todas as crianças: todas participam das descobertas. letra por letra. a concordância. br. bl. sinônimos. sem regra especial. 3. O trabalho de ajustamento da forma 147 escrita ao pensamento e à sua expressão só pode começar a partir do momento em que a criança for autônoma na escrita. sem finalidade. o uso dos verbos. Aperfeiçoado o texto.pr. As crianças procuravam num texto de seu interesse palavras que ajudariam. o uso dos adjetivos e dos pronomes demonstrativos e. Conduzida e amparada pela vida coletiva da aula. ele procedia. mp. Os alunos copiavam textos vivos. aos 6 anos e 6 meses ”Ontem à noite quando Lucrene e Germaine e Pigeon foram deitar-se ” (FREINET. mas um trabalho motivado. 5. ar. Propunha exercícios de caça de palavras. os femininos.. trabalhar a gramática pelo método natural. homônimos. Todos têm seu texto afixado. pronomes. Deve-se ajudar a criança a aperfeiçoar o próprio texto. participa da seleção dos textos que serão aperfeiçoados (textos escolhidos por votação entre as produções livres dos alunos) e polidos. mb. Quanto ao sentido das frases. I977c. construídos por eles mesmos. s. porém corretos. e o leitor. verbos.posteriormente. experiências e achados. a criança da classe Freinet trabalha consoante o próprio ritmo ou em conjunto com toda a classe. ur. Faziam a composição de textos e frases na tipografia. A cópia só era feita dos textos já aperfeiçoados (corrigidos) no quadro. sintática e gramaticalmente. principalmente. 6. que utilizava para exercícios de aperfeiçoamento (correção): os plurais. 2. Munida da técnica da escrita. trabalhava a análise lógica de forma contextualizada. Não era um exercício passivo. ss. num clima de confiança que suscita as trocas e permite o born desempenho das crianças no grupo. participa da discussão e pesquisa para a reelaboração. a criança age sempre por tentativa experimental. p 130) Começa agora o trabalho de ajustamento da forma escrita ao pensamento e expressão de seu autor. a um rápido exercício de reconhecimento das palavras: substantivos.

olha como as folhas estão contentes: estão a esfregar as mãos”. tu estás zangado. e cabe ao professor descobrir. no futuro. 1977a. por meio de lições e exercícios controlados e sancionados. Este ”é como uma claridade que ilumina bruscamente. aos 3 anos: ”Oh! mamãe. Freinet cita o exemplo de Bal. Freinet encarava as suas crianças como seres criativos procurando a verdade. busca equilíbrio. 282. FREINET. a postura de ”caminhar 148 como conquistadores”.p. E acrescenta o de Christian. talvez a marca verdadeira da nossa superioridade pensante e atuante”. 285. ainda. suprimindo as lições mortas. o intuitivo. As crianças mostram-se mais criativas quando não há intervenção da autoridade do adulto para corrigir seus erros. que. Ao dar a palavra à criança. principalmente. Então o mundo já não está mudo. p. libertar.p. baixou as pálpebras e disse: ”Vovô. FREINET. FREINET. e cujos êxitos eram ponto de partida para novas superações. ouvindo um ralho do avô. o seu desenvolvimento e.Freinet garantia grande espaço às técnicas de trabalho que contribuem para a manutenção e o desenvolvimento dos sentidos matemático. Quem lhes deu nome não teria dado nome a si mesmo. de forma progressiva e inteligente. através das nuvens. é o apelo da vida. quando a experiência boa ou má tiver marcado os seres”. 1977a. de 4 anos. o sonho é um meio de conhecimento e aprofundamento do ser: ”Quem vai ao fundo do sonho 149 encontra o sonho natural. 283.. que não nasce. um sonho de primeiro cosmos e de primeiro sonhador. Para Bachelard. Humildemente confessava que também aprendia com suas crianças: ”as próprias palavras das crianças tornam-se para nós ensinamentos. O sonho poético reanima o mundo das primeiras palavras. Tudo acontece por tentativas. 1977a. tropeça. o indispensável impulso do homem no sentido do futuro. artístico e poético e. de que não se compreendem as palavras. valorizar. a sua frutificação”. 1977a. tão . num céu agitado. nos seus pensamentos. de forma metódica e racional. de que não se abordam as situações aos dois ou quatro anos como se fará mais tarde. A criança começa a emitir palavras intuitivamente.p. A AULA VIVA: UM SONHO A SER REALIZADO O sonho de Freinet era que a escola fosse um dia ua magnífica continuação da infância e sua florescência. porque nos lembram de que não se vê o mundo. preocupações e primeiros contatos com o mundo. científico. 208. BACHELARD apud FREINET. não se adquire nem se cultiva segundo normas escolares. 287. os educadores ficarão maravilhados com o mundo de sensibilidade que ela nos fornece: ”É esta candura sistematicamente revelada que nos deve dar o puro acolhimento dos poemas”. Todos os seres do mundo se põem a falar segundo o nome que usam. Valorizava. FREINET. I977a. subestimar e asfixiar seu impulso e seu gênio que nasce. eu me escondo atrás dos meus olhos”.. p.

BACON apud. FREINET.. Todo o processo de integração da criança ao ambiente físico e social que a rodeia já era vivenciado por ele na prática. 1977a.. nem o mundo nem o sonhador.] precisa-se de gênios para fazer ramalhetes literários”. CIARI. que favoreça a explosão de talentos e garanta o equilíbrio do ser. que poderão ajudar o educador a aproximar o educando o mais possível de uma compreensão crítica àa realiàaàe e dos conhecimentos. A poesia é a criação do ser pela palavra”. a resposta é: quando a sala de aula tornar-se um ambiente em que professor e alunos vivam juntos a mesma aventura de suas vidas. No sonho cósmico. I977a. não vale de muito o intelecto deixado entregue a si próprio. um ambiente no qual encontrem oportunidades de vivenciar uma pedagogia libertadora. O sonhador sabe bem que. mesmo que intuitivamente.1979.p 310-3 Freinet questiona: ”Quando consentirão os adultos que as crianças caminhem pelos próprios passos infantis? Quando verão [. Bacon refere-se a meios materiais. As palavras do mundo querem fazer frases. as aulas-passeio. Embora as propostas de Freinet encontrem fundamentação em teorias e experimentos científicos. encontramos a poesia. Como seria born se os educandos voltassem a sonhar e conseguissem captar. a imprensa. alcançar os frutos do próprio conhecimento (construído). O educador. uma pedagogia que suscite novas possibilidades de penetração e de poder. etc.p. Tudo vive numa vida secreta de que tudo fala sinceramente. faz sair uma avalanche de palavras. ”as palavras se atraem e se cortejam [. de linguagem bastante pobre. Nenhuma metodologia de ensino que priorize a alfabetização pode desconhecer a proposta de Freinet.21. a correspondência. e de instrumentos e ajuda necessitam tanto o intelecto como a mão”. I977a. criados e desenvolvidos segundo os modos de vida e de trabalho do meio em que a criança vive (meio vivo) entre os seus. não despertará o interesse ou organizará de forma útil a vida da classe no vácuo.p 333 Para nós. Quando a criança pode exprimir com espontaneidade sua fantasia e sentimentos. mesmo dotado de espírito inovador e criativo. nada fica inerte. Era suficiente um meio estimulador em que abundassem exemplos (perfeitos) para a criança neles se agarrar e subir sempre mais alto. como a imprensa utilizada por Freinet. às técnicas. 309. mas que pode adquirir quando se lhe dá a possibilidade de fixar mais profundamente os olhos na realidade.. como o texto livre. os pensamentos que chegam de todos os lados! Como seria born se pudessem pôr à mostra toda sua riqueza interior.bem escolhido foi? Uma palavra arrasta outra. detectando os instantes privilegiados nos quais a criança se torna sobrenatural Segundo Bachelard. a atividade inte150 lectual só pode desenvolver-se plenamente e dar fruttos com o auxílio de uma multiplicidade de meios: ”Tal como a mão desarmada. e valores humanos — que não possui por si próprio. Trabalhando num meio popular.p. Ter os pés bem seguros e firmes no solo .. com instrumentos e ajuda se leva a cabo a empresa. BACHELARD apud FREINET. o ensino que propõe é sobretudo prático. o jornal.] a vida das crianças com olhos de crianças?” FREINET. duma palavra que sonha... Freinet propõe-se a melhorá-la por meio de variadas técnicas. os métodos são naturais.

feitos como uma obrigação e segundo regras impostas de fora. descarta a cópia e a regra como forma de correção. Freinet utilizava-se de fichas de leitura para trabalhar pequenas canções e histórias. nos outdoors. gera a compreensão. a criança passa por três fases na aquisição da leitura: global. Na rua. mediante experiências e tentativas. Por isso.. em que a criança. receitas traduzidas por eles. A precisão e a riqueza da leitura dependem unicamente da prática e da compreensão global das palavras desconhecidas do texto. reconstituição ativa. Freinet valoriza a leitura. adivinhas.. as descobertas e as pesquisas das crianças. Condena a escola da época. quando lê. Acredita na criança pois sabe (por ter trabalhado a prática) que os erros que comete serão corrigidos por ela mesma. Essa nova realidade vem conduzindo o educador (alfabetizador) a rever suas hipóteses metodológicas sobre a aprendizagem da leitura. aos poucos. Freinet aprofunda o conhecimento da criança por meio da investigação coletiva. Freinet é um inovador quando propõe criar um ambiente rico. As palavras desconhecidas ou desligadas do cotidiano conduzem a uma técnica falsa e à deformação do próprio sentido da leitura. No emprego do método global para iniciar a criança na leitura. Coca-cola. muitas palavras reaparecem nos cartazes. A leitura representa uma etapa intermediária indispensável no processo de relações entre a criança e o meio. cantos populares ou parlendas que redescobria com os alunos. São numerosos. dar exemplos e amor. Juntos. estudar e compreender as produções das crianças. passa a reconhecêlas. hoje. etc. sem significado. A escolha e a busca das primeiras leituras são importantíssimas. Em qualquer lugar está presente um aparelho de televisão. Para Freinet. jovens e adultos e até mesmo os bebês — ficam a ver com olhos atônitos antes mesmo de poder compreender a signi151 ficacão das histórias que são transmitidas. os estímulos à leitura. seus seguidores de todo o mundo levantam e discutem os . analiticamente. a escola deveria contribuir para o seu aprimoramento constante. que impunha ao desenho e à escrita infantil uma finalidade e uma motivação. como uma espécie de anomalia. dar destaque às formas de comunicação. A criança aprendia a ler de forma natural. Quando nascida da compreensão. no ambiente social e familiar. Freinet soube utilizar-se da observação e do registro para avançar na compreensão e definição das etapas de evolução da escrita e do desenho. não se detendo apenas num processo estritamente global. não procura decifrar a palavra simplesmente pela leitura dos seus elementos. isto é. acolhedor e propício. não balbucia. devem-se utilizar palavras já conhecidas. Todos — crianças. quando se familiariza com a figura gráfica de palavras que são de seu conhecimento e de frases que quer utilizar de maneira prática. na qual parte dos sinais fonéticos das palavras e expressões que ela própria criou e quer aperfeiçoar (que não deixa de ser um exercício no qual avança. do elemento para a síntese viva da palavra) e regresso à identificação global. Depressa aprendem a distinguir certas palavras: fim.era oportunidade suficiente para triunfar. Longe de negligenciá-la. permitir a contínua construção do conhecimento pela tentativa experimental e nela incluir a cultura e a arte. decisivas. A criança.

criança. conhecedores do valor dos elementos e do esforço exigido Os métodos naturais possibilitam ao mestre acompanhar os processos de tentativa de cada criança. o ar e a folha. trabalho e relação professor/aluno. Adverte que. Para servir a essa vida. falsamente científico. avançadas para a época.. Não é do fruto que se deve tratar. É possível perceber uma profunda preocupação em integrar os aspectos sociais. p. trazem grande contribuição para a formação de educadores. 1985. cognitivos e afetivos do funcionamento psicológico humano à consideração que a sua pedagogia tem para com a educação e a escola. é porque a própria árvore que o gerou estava enferma e degenerada. com base em uma pedagogia libertadora. eleva-se e que. a raiz. sobre educação. pela v ida. mas da vida que o produziu. liberdade. para ser eficiente. 7 ”[. Figuram também em seus textos concepções. a escola precisa construir as bases. 153 Textos selecionados de Freinet Os escritos de Freinet.. ou seja.] É já na semente.] domesticação não é educação. lançam mão de todos os recursos disponíveis. fatalmente atingirá e ultrapassará os objetivos propostos ou impostos pelos programas e discursos oficiais. sugerir a mudança metodológica necessária. É deles que devemos cuidar. se quisermos enriquecer e garantir a colheita. descobrindo os patamares pelos quais o ato conseguido se mecaniza e estrutura em técnica. que o jardineiro prudente cuida e prepara o fruto que virá. perceberá a diferença radical da prática metodológica do educador Freinet Seria um sonho que essa aula se tornasse realidade na maioria das escolas públicas do Brasil e do mundo? Talvez possamos realizá-lo antes do que imaginamos. Não estão em busca de originalidade ou de novidade. Quem observar o espetáculo de uma aula viva. 152 ação e trabalho. mas de vida. enquanto esperamos essa evolução consciente da prática. leitura/escrita/desenho. das xcot\a¥> do passado. . Mas. transcritos nos decretos ou regulamentos —. Apóiam-se no velho para construir o novo. ou no broto. O fruto será o que fizerem dele o solo. Se esse fruto é doente.. cabe a nós.. como trabalhadores esclarecidos e conscientes.problemas dos alunos. mas sim uma obra de vida [. substituir toda aquisição metódica e j ensino mecanicista. bastante atuais. educadores ao çtesenxe. aprendizagem/conhecimento. entusiasta — que caminha. ao seguir em frente. EDUCAÇÃO ”A educação não é uma fórmula de escola.” FREINET. cwvYveceàotcs q\xt %omos.

. 187. permitindo o funcionamento normal da tentativa experimental. já não veremos alunos sentirem gosto pela escola em formas de linguagem de expressão ou de ortografia erradas em relação às normas do meio.. o que se encontra. na música e em todas as manifestações humanas da cultura... irá aper155 feiçoando as suas técnicas ao máximo: na linguagem.] a criança quer conhecer o que se passa. p. 1977a.p.]”FREINET.” FREINET. na redação. p 53.. capazes de desenvolver a personalidade da criança... 1973t>. p.] a única educação efetiva e eficaz é a educação da vida. o que vive. 1977a. p. a pescar à linha. de respirar. p 209 CRIANÇA Compara o desenvolvimento da criança com a construção de uma casa: ”[. 1978. preparando-a ao máximo para o futuro..” FREINET. se quisermos equilibrar a educação e dar-lhe o máximo de eficácia que a justifique. é a criança que edifica a sua construção. no desenho e na pintura. no cálculo. fiquei convencido de que havia necessariamente algo de .] a criança precisa de brincar. pela própria vida. com a ajuda dos adultos. 373. de acordo com as linhas que mais respondem às suas necessidades instintivas.Na educação. o que cresce. APRENDIZAGEM E CONHECIMENTO ”Se atingirmos uma pedagogia viva e motivada. ao lembrar como aprendi a falar e a andar. ”[. é a criança que sobe. 83. adaptarse a ela para suscitar seus valores mais ricos. 1977a.. que parte da primeira balbuciação..” FREINET. de dormir bastante e deve ter um horário semanal [de aula] mais curto do que o dos adultos [. de correr. A criança. ”Ao comparar a eficiência dos métodos escolásticos com as aquisições obtidas experimentalmente através da vida. ”Basta um ambiente que auxilie e uma tentativa experimental suficiente [. 118-20 ”[. em seguida a cavar. e como. É este mínimo que é preciso procurar conquistar.” FREINET apud É..” FREINET. a lavrar. cada vez mais alto [.. ”[.] existe um mínimo de arrumação abaixo do qual a vida de um indivíduo não pode decorrer normalmente. cada vez mais longe. p. 130. e a indestrutível riqueza que me ficou.” FREINET.” FREINET.. FREINET.] a educação precisa seguir os passos da vida.] e a introdução de instrumentos e técnicas que permitam um trabalho que corresponda às necessidades funcionais das crianças. nas ciências. p 75 154 ”Temos que alargar o horizonte da escola. 1976. 1976a. 1976a. temos que integrar o seu processo no processo da natureza e da vida social..

] É preciso..p 46. para uso das pessoas afastadas. Cabe apoiar-se nestas [experiências] bem-sucedidas para estabelecer os próprios pontos de apoio. Os métodos naturais são os únicos que corrigem a fragmentação e a dispersão dos conhecimentos científicos [. essa apropriação opera-se agora à base e em função da experiência pessoal que continua a orientar a tentativa.” FREINET apud É FREINET.p. que se apropria ”[.. Porém..] muito maior relevância do que se pensa. para nós.. mas exclusivamente pelo método natural da tentativa experimental viva. [. I977c. Se é raro ouvir conversas ao seu redor. é um meio incomparável de aprendizagem.p 17 ”O caminho normal da aprendizagem da leitura parece-nos [. Reconhecimento destas palavras quando as encontram num texto estranho.] por observação ou por leitura da experiência alheia.. Expressão oral das palavras. Riqueza do ambiente para facilitar e acelerar esta experiência por tentativas.” FREINET.] com o máximo de riqueza. Sobre a imitação. ”[. pois toda classe continua sendo única. algo que fazia com que. .p 134 1. 1979. na aprendizagem.. as reações dos adultos à criança. pelo intérprete da escrita destas mesmas palavras.” FREINET.. 141-3 As considerações sobre o ambiente..” FREINET. servida por um ambiente rico e auxiliar mas com exclusão de qualquer lição pretensamente metódica. porque dá uma unidade permanente aos nossos comportamentos e aquisições de saber. levará mais tempo a aprender a falar.. pelos mesmos processos.] — não dá importância aos seus primeiros gritos. Expressão. a máquina funcionasse muito mal. e tende a englobar toda a Pedagogia.] ser o seguinte: FREINET. de vocábulos e de frases obtidas [.] Nunca editamos uma regra intransigente de Pedagogia Freinet. vocábulos e frases. como continua sendo única a personalidade de educador.] E preciso mudar a técnica de aprendizagem.. da experiência presente e passada das gerações. É. I977a. professores [.1979. [. conceber ou encontrar outra mais viva e decisiva.deturpado no processo de ensino da Escola. São elas que constituem definitivamente as verdadeiras condições determinantes da educação.... como afirma Freinet.” ”A literatura psicológica sobre a aprendizagem é profusa e diversa. associar sempre teoria experimental a prática experimental.. sobre os quais talvez seja o único a poder passar. a criança não sentirá tão depressa a alegria de exprimir-se com êxito. Apresentamos todo um conjunto de experiências bem-sucedidas.. 3. 2. Nem mesmo dizemos que se devem empregá-las na classe.. considerava o homem um imitador.. têm muita importância no processo de tentativa experimental ou. de 156 técnica e de cultura. se o ambiente — pais. com um rendimento ínfimo. p 141-3. ”Pelo fato do Método Natural tocar as bases profundas e seguras da vida. uma sempre levando a outra. 1977b. isto é. com exclusão de qualquer lição formal.

p.. [. que condiciona amplamente. de aumentar o nosso poder. o seu sentido por assim dizer dialético. Produz beleza. mas segundo o seu emprego na frase. I977a. 1977a. Eis o motivo por que. a criança caminha para uma diferenciação crescente dos seus grafismos. em vias de destronar e de ultrapassar. os computadores] estão. é uma coisa completamente diferente.] etapa indispensável ao acesso normal à escrita e à leitura. tal como a linguagem.. na nossa época. [. 1977b..] atividades maiores..[.] poderíamos interrogar-nos se os alunos que têm a melhor ortografia são aqueles que melhor conhecem as regras ou se.. LEITURA/ESCRITA/DESENHO Destaca o desenho como uma ”[.p. [. as suas recíprocas ressonâncias.] Os erros acidentais de alguns adultos são sempre superados e corrigidos pelas conquistas experimentais da vida.” FREINET.” FREINET. as quais também não são [.] Mas saber exprimir-se não só corretamente. não é uma mecânica que se suba sistematicamente. saber demonstrar. somos capazes de aceitar os mais pesados sacrifícios em matéria de liberdade. o cinema e a rádio [e agora. estar em condições de manejar a língua com destreza e habilidade.. 157 ”O desenho pode bastar-se a si próprio. de triunfar na luta contra a natureza. mas a possibilidade maior ou menor que temos de satisfazer as nossas necessidades essenciais.. Para consegui-lo. não segundo a etimologia ou as regras forjadas arbitrariamente pelos pedagogos. não é a liberdade em si mesma. Nela as palavras ganham primeiro o seu rosto.. contra os inimigos. por que o êxito é tão total. como pensamos. o nosso comportamento e a nossa vida. sem qualquer dos dramas que acompanham na escola a língua escrita. principalmente quando se enfeita com a magia das cores. tal como a língua falada. 1977a.” FREINET.] É uma criação exaltante.22-3 ”À medida que se exercita a segurar e a manobrar o lápis.] A privação da liberdade é a .. indispensáveis ao equilíbrio e ao poder. 227-8. vida [. É uma parte da vida. 233-4 LIBEHDADE ”O que conta. mas com elegância e sentimento.299. convencer.] a escrita. em todas as circunstâncias. p. Ninguém apela para a regra na aprendizagem da ortografia. mas utensílios que o disco. aliás.. as ligações que se estabelecem entre os elementos do pensamento e da ação..p... de maneira a permitir-lhe reproduzir imagens [grafias] cada vez mais próximas da realidade...” FREINET.. de nos elevarmos.. comover.. 93. 1977b. [. na aprendizagem da linguagem. fazse apenas por tentativa experimental.” FREINET.p.] a língua escrita. 103 ”[. contra os elementos. as palavras estão sempre carregadas de pensamento e de vida e por que os mecanismos nunca funcionam em falso. não existe qualquer relação entre estes dois fatos.

] Poremos à sua disposição os entrepostos logicamente ordenados onde ela os poderá ir buscar. a atividade de onde advirão todas as aquisições. ela interroga incessantemente sobre a ordenação e os mistérios da natureza. despojando os nossos esforços de todo o seu sentido humano. principalmente nas vossas práticas diárias. 1977a. ”A criança que se apercebe de que o seu trabalho tem um objetivo e que pode abandonar-se completamente a uma atividade não já escolar mas simplesmente social e humana sente-se invadida por uma forte necessidade de agir. é uma necessidade que se inscreve no corpo. da sociedade atual. Esse desejo faz parte da sua permanente sede de poder e de conquista. de procurar. músculos que funcionam. impõelhes um trabalho e vão verificar imediatamente.. e na sua falta. 1978b. como aqueles pobres citadinos que plantam na terra uma estaca. É esta filosofia que lhes falta..] O trabalho será o grande princípio. 1973a. o motor e a filosofia da pedagogia popular.p.p 144-5 158 TRABALHO ”A nossa reforma educativa não deve ser uma regressão. 1978b... Gritam. de saber. Dão [os professores da escola tradicional] uma lição aos vossos filhos. ”O trabalho [escolar] não é uma coisa que se explique e se compreenda. não originaram uma modificação . p. relações de íntima concordância que se estabelecem. a calma serenidade do Inverno.” FREINET. assustam. RELAÇÃO PROFESSOR/ALUNO Na classe Freinet.p. porque a vossa palavra. é o extravio em atalhos sem objetivo onde os nossos inimigos nos dominam incessantemente. os vossos raciocínios. 113-4. 1978b. de criar. [.] Prepararemos tecnicamente uma escola onde [a criança] se construa. ”Devem aprender do jardineiro esta integração da vossa ação na harmonia natural e principalmente esta comovente confiança na vida. mas um progresso. 125.” FREINET. a regam apressadamente e vêm ver no dia seguinte se os frutos cresceram. uma adaptação às realidades. uma função que procura satisfazerse. trajetos que despertam e se reforçam. a fecundidade do Outono. castigam. por certos jogos [. as vossas demonstrações.” FREINET.” FREINET. o efeito que dali resultou. não apenas pelo estudo. no próprio momento em que deles sentir necessidade. mas pelo trabalho único criador. 110. consciente ou não. com umajniopia de burocrata. cuja atração sentimos. FREINET. 60-74 (grifos nossos). esta paciência exemplar na presença do lento processo pelo qual se elaboram a 159 riqueza da Primavera e do Verão.p. e também sobre as espantosas maravilhas da máquina e da ciência. por mais decepcionantes que elas sejam por vezes.impossibilidade em que caímos de caminhar assim para a luz. uma reação. A criança tem necessidade de conhecer.. o professor deverá buscar e encontrar as soluções certas para um born trabalho.. onde se edifique. [.

. [. das tentativas naturais à ação. vamos sempre mais alto e mais longe [. [. Ajudamos o indivíduo a realizar-se e a apurar.] pela nossa intervenção generosa. finalmente..] ”Em vez de considerar. instantaneamente.. 88 160 . incorporados na seiva e que esta. dissolvidos. ao amor do belo. e. para o nosso ensino.p. I977a. I977b... lentamente filtrados. as flores nascerão e a seara ficará cor de ouro. pela ação.237 ”[Não nos precipitemos] a submeter a criança a nossa norma: deixemola treinar-se a dominar os seus grafismos e a pôr os seus êxitos aos serviços da sua expressão viva e dinâmica.” FREINET.. já não distinguirão sequer no crescimento a parte especial da vossa intervenção. poético. à necessidade de se exprimir e de se exteriorizar. à criação. como faz a escola tradicional. aliás. trazer proveito aos vossos filhos? É realmente preciso que os elementos que lhes trazem sejam pacientemente assimilados.. científico. E nesse momento. matemático. sejam quais forem os seus autores anônimos. Encorajemos mesmo a eclosão de gêneros expressivos que serão como flores silvestres suscetíveis de fazer esquecer por vezes a monotonia e a rigidez dos jardins cultivados demasiado metodicamente.. o seu sentido artístico latente [.]”FREINET. suba enriquecida..] nele preservamos e cultivamos o seu sentido literário. com este expediente. que a criança nada sabe e que ao educador cabe ensinar-lhe tudo — o que é pretensioso e irrealizável — partimos.p. Mas o essencial não é que o crescimento corresponda aos vossos desejos.imediata no pensamento e na ação daqueles que os escutam.. [.] Como querem que as vossas lições possam.

em função dos novos saberes que se produzem e que demandam um novo tipo de profissional. como vimos nos capítulos precedentes. pontos de chegada e marcos do caminho a ser percorrido por professores e alunos. como queria Decroly. a objetivação do Espírito. preparado para lidar com as novas tecnologias e linguagens. Uni-Verso. mas não tiveram continuidade. no sentido de uma reformulação curricular. dentro do seu silêncio. As pesquisas de Emilia Ferreiro tratam da aplicação da teoria psicogenética de Piaget e dos conceitos da psicolingüística contemporânea na compreensão dos processos de aquisição de conhecimento e da língua escrita. ou numa revisão da prática pedagógica. evitando a repetição de rotinas construídas ao acaso.. é a construção de uma proposta educacional que leve o aluno a adquirir e desenvolver novas competências. É a palavra que é o sentido do universo. Na terminologia hegeliana. aqueles que deveriam construir a proposta pedagógica e a prática escolar num contexto de mudanças. É a Lua que aponta para o dedo. como apontava Freinet. a Palavra. Não é o universo que é o sentido da Palavra.4 Recuperando Emilia Ferreiro. estudo e reflexão contínuos sobre as experiências acumuladas.. adotar uma proposta que permita a todos os alunos desenvolver suas capacidades e aprender os conteúdos necessários para compreender e intervir na própria realidade. o universo. É função da escola criar tais condições. A Palavra assumindo visibilidade. sem definição de metas. a prá- . e que emergiu naturalmente no fim do século XX. Reconhece-se a necessidade de preparar o aluno para o exercício da cidadania. não falado. Universo. Espelho de Deus. Não é o dedo que aponta para a Lua. mudando a maneira de encarar a prática em sala de aula e. portanto. surgiram iniciativas desde há muito tempo. Ao recuperar os resultados dos seus estudos — que sem dúvida contribuíram (e contribuem) para uma revolução conceituai. (Guimarães Rosa) Os resultados das pesquisas desenvolvidas por Emilia Ferreiro e colaboradores a partir da década de 70 vêm constituindo importante referencial para a reorganização gradativa da prática de sala de aula. na qual o eixo central muda radicalmente. Rumo a essa reorganização. Sentido do universo é o verso que jaz escondido. Depois. Mas qualquer proposta só contribuirá para a melhoria da qualidade do ensino se não se apresentar como uma receita metodológica a ser seguida. para responder a novos ritmos e processos. A questão que colocamos. passando de ”como se ensina” para ”como se aprende”. No princípio. Também não contaram com a participação do professor e do aluno. Exige. mais especificamente. qualificando-o para o trabalho e possibilitandolhe amplas condições e oportunidades de aprendizagem.

ela mostra que o problema principal da alfabetização é político. destaca como causa e justificativa principal da repetência a não-aquisição dos rudimentos de leitura e escrita. poucos eram os estudos e documentação sobre a natureza dos sistemas de leitura e escrita. p. houve sensível redução do gasto público em educação. 1992.” FERREIRO. 10. não trabalhar com informações isoladas. e que é difícil falar desta sem reproduzir as posturas dominantes: de um lado. o discurso meramente ideológico da denúncia. acordo que teve a participação da Unicef do Banco Mundial. foi assinada a Declaração Mundial sobre Educação para Todos. Emilia Ferreiro mostra que o sucesso da alfabetização requer a superação da visão estreita que considera a aprendizagem inicial da leitura e da escrita como uma técnica. mas também de várias. mesmo sem intenção. como as relatadas nos capítulos anteriores. nos deu a conhecer. ”Ainda que seu discurso não possa ser neutro. especialmente nos três primeiros anos do ensino fundamental.162 tica da alfabetização —.” FERREIRO. receber apenas a técnica da leitura e da escrita para poder codificar e decodificar textos breves e escrever algumas palavras. até a década de 70. organizada pelo escritório regional da Unesco — Orealc —. A Unesco declarou 1990 como o Ano Internacional da Alfabeti:ação. Freinet e muitos outros filósofos e pedagogos. ou seja.) Emilia Ferreiro ressalta que a mais básica de todas as aprendizagens continua sendo a alfabetização. Ao analisar as propostas para reduzir as altas taxas de retenção e evasão escolar. o pesquisador deve cumprir com os requisitos elementares de seu ofício: distinguir as afirmações que podem sustentar-se com evidência empírica satisfatória daquelas que só podem apresentar-se como hipótese plausível. ”Não adianta a criança freqüentar a escola e ser promovida mediante a exigência de um mínimo de alfabetização. Considera que os pesquisadores não podem ter uma perspectiva estritamente técnica porque a persistência do analfabetismo na região da América Latina e Caribe é antes de tudo um problema político. nosso intuito é tão-somente desvelar a face oculta da alfabetização que Ferreiro. mas com a congruência ou a incongruência que resulta das intenções para integrar essas informações. e de outro. 1992. O que encontramos são iniciativas e reflexões individuais. em março de 1988). o discurso oficial. em Havana. (Citação: A partir da década de 80. com o aumento da crise econômica nos países da América Latina. Como Rousseau. 10. distinguir entre o dado e as leituras possíveis dos dados. na Tailândia. não confundir as expressões verbais utilizadas com as distinções conceituais estabelecidas. reconhecido como tal não apenas por grupos de uma só tendência política. descobrir os pressupostos subjacentes a certo modo de descrever ou avaliar um fenômeno ou uma situação. p. pois o fato de recitar o alfabeto não . sem significação real de comunicação ou intenção de atingir a língua escrita para expressar-se. 163 Sabemos que. Em lomtien. inaugurando a década da educação básica. Ao discutir as aprendizagens básicas (na reunião de Consulta Técnica Preparatória. Decroly.

sociais e culturais) e elementos acrescentados pelo sujeito (com a organização de seus esquemas de assimilação). Emilia Ferreiro conclui. Considerando que a psicologia genética não é simplesmente uma psicologia evolutiva. ou o percurso de cada indivíduo para adquirir a base alfabética da língua escrita. para o início desse processo. que mudam de natureza ao entrar em um novo sistema de relações. A preocupação era como ensinar a ler e a escrever. leitura e escrita. Eles nos fazem rever a psicogênese que até então vinha sendo reduzida a uma seqüência cronológica e à noção de estágio ou catálogo de noções. existe um universo de conhecimentos. a momentos de reestruturações totais (uma reorganização completa dos esquemas cognitivos) a partir da ação. a psicogênese da língua escrita. o desenvolvimento cognitivo é um processo interativo e construtivo. como estabelecer a correspondência entre a oralidade e a escrita ou decodificar as grafias em sons — e não acompanhar o processo ou obter informações sobre o que a criança já dominava em relação à escrita e suas hipóteses antes de iniciar a aprendizagem escolar. Atualmente. uma vez que todo conhecimento implica a existência de elementos fornecidos pelo objeto (com suas propriedades físicas. Por meio de organizações parciais o sujeito chega. pensamento) e dos conhecimentos (todo e qualquer conhecimento). a necessidade de trabalhar ambos. reestruturação das mesmas informações anteriores. isto é. Também recebia pouca atenção dos educadores a constatação de que. FERREIRO: 1992. ser alfabetizado. Emilia Ferreiro concluiu que ”as crianças são facilmente alfabetizáveis. é a mais conhecida. nem havia preocupação em identificar os processos cognitivos infantis subjacentes à aquisição da escrita. e a de escrever é uma tarefa de ordem conceituai que precisa ser retraduzida. com Piaget. passamos a perceber também que o crescimento intelectual não se dá apenas pela acumulação de uma série de conhecimentos. evitando ao máximo a fragmentação do conhecimento.) À medida que desvendamos a alfabetização. que o conhecimento é de natureza assimiladora e não simplesmente registradora. O processo alfabetizador tem uma tradição de séculos ligada à idéia de aprender o alfabeto. obrigatoriamente. com base na compreensão de suas funções na sociedade. Até então não se dava a mínima atenção ao significado da escrita embutida nos rabiscos artísticos das crianças. p. mas também por grandes períodos de 164 reestruturação. Como ele nos deu a conhecer.(Citação: Psicogênese: estudo da origem da mente (representações mentais. além da leitura e da escrita. Remetendo-nos ao que já foi enfatizado . Ao pesquisar o desenvolvimento das conceitualizações infantis sobre a língua escrita.assegura a ninguém o acesso à leitura ou à escrita. 17. Os resultados de suas pesquisas apontam. foram os adultos que dificultaram o processo de alfabetização delas”. memória. ao buscar conhecer a seqüência evolutiva de como se passa de um estado de conhecimento a outro e os elos entre os níveis de conceitualização da escrita. de novas linguagens e recursos da tecnologia moderna que precisamos dominar durante toda a vida. que só recentemente veio a ser desmistificada.

psicóloga da Universidade de Telavive. Em mais de um decênio de pesquisa para descobrir qual era o processo de construção da escrita. Lilíana Tolchinsky Landsmann. porém nos restringiremos apenas a alguns. a leitura tal como a entende e os problemas tal como os propõe para si. enquanto os outros dois (Decroly e Ferreiro) coletaram dados em estudos experimentais. Argentina de nascimento. Vindos de diferentes épocas e áreas de estudo e. p 21 A PROPOSTA PEDAGÓGICA DE EMILIA FERREIRO Utilizando a abordagem clínica ou método de exploração crítica. onde investiga o desenvolvimento da leitura e da escrita do ponto de vista do sujeito que aprende. Psicóloga e pesquisadora do Instituto Municipal de Educação de Barcelona. precisamente porque redefinem a noção de aprendizagem e apontam caminhos para recuperar o prazer de aprender. 1992. tornase necessário falar um pouco mais das experiências de Emilia Ferreiro e colaboradores. desenvolvendo pesquisas semelhantes em seus países. realizou suas primeiras pesquisas em seu país de origem.no capítulo anterior. Rousseau. foi orientanda e colaboradora de Jean Piaget. Como afirma Ferreiro: ”A escrita é importante na escola porque é importante fora dela. Freinet. e não o inverso”. Decroly e Emilia Ferreiro sinalizaram a necessidade de proceder a uma revisão completa das idéias sobre a aprendizagem da língua escrita. no qual Freinet nos propõe uma pedagogia do trabalho. interessados na temática. A primeira e mais conhecida entre esses pesquisadores é Ana Teberosky. desde 1974 dedica-se à aplicação da teoria psicogenética diretamente na sala de aula. ainda. Emilia Ferreiro pesquisou os conhecimentos da criança no que se referia às atividades de leitura e escrita. portanto. Emilia Ferreiro tem entusiasmado pesquisadores de várias partes do mundo. enfocando o impacto da colaboração de ambientes bilíngües (catalão e espanhol) sobre a alfabetização de crianças. com orientações diversas. Estas. a ação está na origem de todo conhecimento (não só o material). atualmente. pois propicia a transformação tanto do sujeito (ampliando seus esquemas de assimilação e modificando seus esquemas cognitivos) como do objeto (que pode ser transformação física. planejando e divulgando as situações experimentais em que a criança evidencia a escrita tal qual a vê. coletando informações e observando os quadros reais da vida. amplamente desenvolvido na escola de Genebra. transformação nas interações sociais ou. É professora do Centro de Investigação de Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional do México. muitos tornaram-se seus colaboradores. uma transformação conceituai). Doutora em psicologia pela Universidade de Genebra. colocam-se como as mais recentes contribuições a rés165 peito da compreensão das funções da língua escrita e sua importância na sociedade. Os primeiros (Rousseau e Freinet) acharam as suas respostas por meio da pesquisa naturalística. . Muitos outros podem ser citados. Ao resgatar propostas e resultados de estudos de grande relevância para a educação. FERREIRO.

E. 3. permitiram que Emilia Ferreiro concluísse ser possível encarar de maneira diferente a aprendizagem da leitura e da escrita. Telma Weisz. uma vez que. em particular. Estes e pesquisadores de muitos outros estados brasileiros utilizam os resultados das experiências de Emilia Ferreiro para um melhor entendimento dos processos cognitivos envolvidos no ato de escrever e vêm provando que as conceitualizações da escrita de nossas crianças seguem uma linha evolutiva similar à das crianças de língua espanhola. mais conhecido como Geempa. cada uma se define em função das outras. entender ”o que a escrita representa e como se estrutura esta forma de representação. Virgínia Balau e toda a equipe técnica do ciclo básico da Secretaria de Estado da Educação. Os contatos com pesquisadores de todo o mundo. psicóloga e diretora 166 do Departamento de Psicologia do Desenvolvimento da Universidade de Roma. em Pernambuco.pesquisa o desenvolvimento cognitivo e da linguagem escrita. Metodologia de Pesquisa e Ação. A escola (como instituição) deve apresentar a língua escrita para a criança. buscando. e aplica o conhecimento da psicogênese na sala de aula. importante dentro da escola. entre falantes da mesma língua. 2. como um objeto sobre o qual pode atuar. Alguns aspectos apontados como necessários para entender os objetivos dessa alfabetização são aqui apresentados de forma esquemática. basicamente. em especial os latinoamericanos. A escrita deve ser apresentada à criança como o produto de uma prática histórica. uma alfabetização de melhor qualidade. Clotilde Pontecorvo. evolui. utiliza as abordagens piagetianas e vygotskianas de pesquisa. enfocando o entendimento de como os processos cognitivos se desenvolvem ao longo do currículo e. conseguindo. e não como um objeto em si. assim. com diferentes objetivos e variações para sua identificação. um poderoso 167 instrumento nas ações sociais. enunciando os resultados de suas pesquisas para a prática educacional. Terezinha Carraher e Lúcia Brown Rego. ao pensar sobre|’a escrita. em São Paulo. quase sacralizado. a criança procura compreender a natureza desse sistema simbólico de representação e levanta hipóteses sobre ele. O importante é a criança saber que as letras. 1992 pp 17-32 1. doutora em psicologia cognitiva. 4. as normas ortográficas são convenções necessárias para uma comunicação a distância. FERREIRO. de Porto Alegre. que participa do Grupo de Estudo sobre Educação. A . como unidades da língua. nas áreas das disciplinas como ciências naturais e sociais No Brasil. a escrita. colaboram com Emilia Ferreiro: Esther Pular Grossi. sem a preocupação inicial com detalhes. tal como a língua oral. Deve ser feita a distinção (não apenas termiriológica) entre sistema de codificação e de representação. não possuem forma fixa.

o processo de produção e a interpretação final dada pelo sujeito”. cópia de modelos de escrita ou mecanização. 1992. 6. p. tanto os elementos como as relações já estão predeterminados. justamente as que mais necessitam da escola para se apropriar da escrita ou de informações sobre suas funções na sociedade. memorização. FERREIRO. 8. 5. Interpretar as escritas infantis é um longo aprendizado. embalagens de produtos comestíveis ou de medicamentos. No caso da codificação. etc. e também estimulando seu raciocínio próprio e sua criatividade. 1985. cartas. Restituindo à língua escrita seu caráter de objeto social. Emiliaa Ferreiro esclarece. (FERREIRO. 1985. 7. estaremos ajudando a criança a descobrir a importância da leitura em sua sociedade. Para entender essas descobertas. ou o modo de representação da linguagem e sua correspondência com o sistema alfabético de escrita. que requer uma atitude teórica definida. 80. e terminam sua alfabetização inicial com sucesso. ”Se pensarmos que as crianças são seres que ignoram que devem pedir permissão para começar a aprender.). 17.invenção da escrita foi um processo histórico de construção de um sistema de representação. Outras. o educador precisa ”cotejar uma série de produções escritas e conhecer as condições de produção. 23-73 • A compreensão das funções sociais da escrita pela criança determina diferenças na sua organização da língua escrita e. embora não tenha sido dada a elas a autorização institucional para tanto. Na visão construtivista. sua aprendizagem se converte na apropriação de um novo objeto de conhecimento. jornais. não um processo de codificação”.” FERREIRO. p. talvez comecemos a aceitar que podem saber. manuais ou programas ainda apegados à concepção de que só se aprende algo por meio de repetição. são vítimas de métodos. 12-6)) 168 9. o novo código não faz senão encon trar unia representação dife rente para os mesmos elementos e as mesmas relações. No caso da criação de uma representação. o que interessa do erro (ou desvio) é a sua lógica. porém. p. 1992. se for ”concebida como um sistema de representação. . Deve-se considerar que muitas crianças chegam à escola sabendo para que serve a escrita. considerada como poder. (Citação:A escrita pode ser concebida de duas formas: como transcrição gráfica de unidades sonoras ou como uma representação da linguagem. a obter e ampliar seus conhecimentos sobre a língua escrita. outras questões importantes: Cf. pois tiveram oportunidades de interagir com ela. gera diferentes expectativas a respeito de o que se pode encontrar nos múltiplos objetos sociais que são portadores de escrita (livros. p. portanto. sua aprendizagem é entendida como uma técnica. FERREIRO. Para entender o processo construtivo da criança. ainda.cartazes na rua. em uma aprendizagem conceituai”. nem os elementos nem as relações estão determinados. ou seja. A construção de um sis tema de representação envolve um processo de diferenciação dos elementos e relações reconhecidos ou objeto a ser apresentado e uma seleção daqueles elementos e relações que serão retidos na representação Se a aprendizagem da escrita é concebida como um código de transcrição.

jornalísticos. informativos. os dados textuais. etc. . a construção gráfica.o acesso à leitura em voz alta. Qualquer tentativa de justificar a ortografia com base na pronúncia despreza ou ignora as variantes de fala das populações socialmente marginalizadas e dificulta a aprendizagem dessas crianças.explorações ativas dos vários tipos de objetos materiais que são portadores de escrita (e. telegramas. Consultar ELIAS. dicionários. . em contextos em que as escritas serão aceitas.Alfabético Cada um deles apresenta uma fase de evolução. cartas. além disso.) e para sua realização contribui mais a leitura silenciosa do que a oralidade convencional. perguntar e obter resposta. • A produção de textos respeita os modos de organização da língua escrita. • A escrita representa a língua. listas.Silábico-alfabético Nível V .antecipar o conteúdo de um texto escrito. . os níveis de conceitualização da escrita e os da leitura. recados. enciclopédias.• A leitura compreensiva de textos fundamenta a percepção dos diferentes registros de língua escrita (textos narrativos. utilizando inteligentemente os dados contextuais e. ou oral. calendários. revistas. instruções. para descobrir. receitas.participar de atos sociais de utilização funcional da escrita.escrever com diferentes propósitos e sem medo de cometer erros. recibos. Características das escritas pré-silábicas (Nível I) Hipótese central • Escrever é reproduzir os traços típicos da escrita. livros de poesias. livros sem ilustração. Emilia Ferreiro concluiu que há uma série de modos de representação da linguagem. Para compreender o desenvolvimento da leitura e da escrita do ponto de vista dos processos de apropriação de um objeto social. . que procuramos sintetizar em quadros com base em quatro tópicos principais: a hipótese central da criança. livros ilustrados.). livros de canções. . 169 .Silábico Nível IV . 1992. para julgar. e não a fala. para inventar. analisadas e comparadas sem serem sancionadas. dos diferentes registros da língua escrita que aparecem nesses distintos materiais. agendas.perguntar e ser entendido. . identificados pela criança como a forma básica da escrita. cartas. conhecê-los por seus nomes específicos: jornais. etc. à medida do possível. • É preciso estimular na criança uma atitude de curiosidade e coragem diante da língua escrita. para saber o que se diz.Pré-silábico Nível III . Sua psicogênese da língua escrita distingue cinco níveis: Níveis I e II .interagir com a língua escrita para copiar formas. • É preciso permitir: .

Pode ser sempre a mesma grafia (repertório fixo) ou diferente (repertório variável) 170 • Escritas convencionais. —grafismos ligados entre si com uma linha ondulada. • Cada um pode interpretar sua própria escrita mas não as dos outros: a escrita é individual e instável. — escritas unigráfícas: uma só grafia para cada nome (quantidade constante). • Todas as escritas se assemelham. por se encontrarem escritas iguais para palavras diferentes.Construção gráfica • Escrita não formada por grafias convencionais. com um número indefinido ou variável de grafismos. Escrita (níveis de conceitualização) • A criança acredita que a escrita é outra maneira de desenhar as coisas ou que escrever é produzir um traçado que se diferencia do desenho por possuir alguns traços típicos da escrita Há a intenção subjetiva da criança quanto ao significado atribuído à escrita ou existe intenção de escrever. mas as crianças as consideram diferentes. A escrita representa os nomes dos objetos e a criança a imagina como um dos atributos do objeto: coisas grandes devem ter escritas grandes. . • As diferenças dos significados não são modeladas objetivamente na produção gráfica. sem buscar correspondência entre as partes. compostos de linhas curvas e retas e suas combinações (grafia de imprensa). — a quantidade de grafia é constante. na qual se inserem curvas fechadas e semifechadas (grafia cursiva). coisas pequenas. mas sem controle de quantidade: sucessões de grafias só interrompidas pelo limite da folha. • Ocorrem tentativas de correspondência entre o tamanho do objeto e a escrita. • Não há definição quanto à orientação espacial dos caracteres. • A escrita do nome próprio é impossível ou se realiza segundo as características das outras escritas. • A leitura do nome também é global. • Presença de letras e números. • Formas básicas utilizadas: — grafismos separados. • Surgimento da ordem linear na escrita (traçado linear de diferentes formas’ ondulados ou descontínuos) • No uso da letra de imprensa aparecem duas hipóteses: — as grafias são variadas. escritas menores. • Formas utilizadas: — grafismos primitivos: predomínio de garatujas ou pseudoletras. Leitura • A leitura é sempre global correspondência do todo sonoro com o todo gráfico.

Escrita (níveis de conceitualização) • A criança antecipa a hipótese silábica. mas simplesmente para garantir o significado diferente para escritas idênticas). na ausência do modelo não haverá possibilidade de escrita. • Aparecem reações de bloqueio com base no seguinte raciocínio: se aprender a escrever copiando a escrita do outro. seriação e ordenação. Leitura . ou seja. deve haver uma diferença objetiva nas escritas. • Descobre os antecessores da análise combinatória. que as grafias podem variar na ordem linear e que pode ser mantida a quantidade constante. A correspondência se estabelece entre as ”partes-palavras” do nome próprio e as letras. lê as figuras. • As relações entre as partes e o todo não são analisáveis. • A criança descobre a possibilidade de uma correspondência termo a termo entre cada letra e uma parte do seu nome completo. Construção gráfica • A forma dos grafismos é mais definida. • Formas estáveis e fixas de escrita: relacionadas com contingências culturais e pessoais (estas não são usadas para produzir diferenças objetivas na escrita. e que essa diferença pode ser marcada pelo uso de letras diferentes para cada palavra (de seu repertório ou inventadas). que em geral se situa em termos de três grafias ou caracteres. cada letra vale pelo todo. — necessidade de uma variedade de caracteres para que uma série de letras ”sirva para ler”. • Ao resolver problemas que a escrita lhes apresenta.• A representação é alheia a qualquer busca de correspondência entre a pauta sonora de uma emissão e a escrita. não lhe basta a intenção subjetiva. • Predomínio da escrita de imprensa em maiúscula (influência dos estímulos do meio). • A criança pensa que. 171 Características das escritas pré-silábicas (Nível II) Hipótese central • Para ler coisas diferentes. as crianças enfrentam necessariamente problemas gerais de classificação. quando alguém lê. • Elabora duas hipóteses: — necessidade de quantidade mínima de grafias para que se possa ler algo. • O nome próprio geralmente é o ponto de partida (primeira forma estável dotada de significação) para o uso de letras na escrita. mas não entre ”partes-sílabas” do nome próprio e as letras. mais próxima das letras. Chega à conclusão de que para ler coisas diferentes deve haver diferença objetiva nas escritas. atribuir significados diferentes. isto é.

• Leitura global, sem correspondência entre as partes sonoras e gráficas. • Cada letra vale como parte de um todo e não tem valor em si mesma. • A correspondência entre a escrita e o nome é ainda global e nãoanalisável: à totalidade da escrita corresponde o nome. 172 Características das escritas silábicas (Nível III) Hipótese central • Tentativa de dar um valor sonoro a cada uma das letras que compõem a escrita. Construção gráfica ’ • Podem aparecer grafias distantes das formas das letras e também grafias bem diferenciadas • Escnta de letras com ou sem valor sonoro convencional. • Uso da primeira letra da palavra, cujo valor sonoro é importante. Escrita (níveis ãe conceitualização) • Tentativa de foneüzação da escrita: a criança estabelece uma livre (simples) correspondência entre aspectos sonoros e gráficos em sua escrita. Porém, os valores atribuídos às letras não são fonéticos, mas silábicos • Ao atribuir a cada grafia o valor de uma sílaba, a criança antecipa progressiva e regularmente a quantidade de grafias e escreve tantas letras quantas forem as sílabas das palavras. • As escritas são construídas com base na análise silábica da palavra, mas em alguns casos podem apresentar mais grafias do que as exigidas, como para os monossílabos e dissílabos. • Quando a criança começa a trabalhar com a hipótese silábica, a exigência da quantidade de grafias (três letras) pode desaparecer. • Uma vez instalada a hipótese silábica, a exigência de variedade volta a aparecer. • Conflito cognitivo entre a quantidade mínima de caracteres e a hipótese silábica, por ocasião da escrita de dissílabos ou monossílabos. • Esses conflitos obrigam a criança a abandonar progressivamente a hipótese silábica em favor de uma análise fonética mais exaustiva da palavra. • Utilização sistemática da hipótese silábica aplicada ao nome próprio. Leitura • Na leitura, a criança tenta passar da correspondência global para a correspondência termo a termo, isto é, do todo para as partes da expressão oral (recorte silábico do nome). • Na leitura de monossílabos e dissílabos nos quais sobram letras, a criança tende a atribuir significados complementares à interpretação da palavra ou à sua omissão na leitura. • A mudança qualitativa em relação ao nível anterior justifica-se por:

— superação da correspondência global entre escrita e expressão oral, que passa a ser recortada (sílabas orais) para expressar-se em partes do texto (cada letra); f — pela primeira vez a criança trabalha a hipótese de que a escrita representa os sons da fala. , • As formas fixas aprendidas do meio geram novos conflitos quando a criança propõe a ^ leitura destas em forma de hipótese silábica. O mesmo acontece com relação à leitura do ’ nome (forma fixa recebida do meio). Esses conflitos ajudam a criança a ”ir mais além” da sílaba para encontrar uma correspondência satisfatória. • A leitura tende a limitar-se ao nome (sem sobrenome), a não ser nos casos dos nomes dissílabos ou quando há sobra silábica na leitura (correspondência de uma sílaba para cada letra). 173 Características das escritas silábico-alfabéticas (Nível IV) Hipótese central • Coexistência de duas formas de corresponder sons e grafias, fonemas para algumas partes das palavras e sílabas para as outras. Construção gráfica • Escritas diferenciadas com valor sonoro inicial. • Quantidade e repertório variáveis • Escrita na qual algumas grafias representam uma sílaba e outras, um fonema. Na perspectiva da psicogenética, não se trata de omissão de letras, mas de um tipo de escrita que procura incorporar grafias rumo a escrita alfabética • A construção total não é determinada por uma intenção de correspondência sonora. Escrita (níveis de conceituallzação) • A criança abandona a hipótese silábica e descobre a necessidade de fazer uma análise que ”vá mais além” da sílaba. Surge um conflito entre a hipótese silábica e a exigência de quantidade mínima de grafias (conflito entre uma exigência interna e uma realidade exterior ao próprio sujeito). • Passo intermediário entre a ausência de correspondência sonora e o começo dessa correspondência ou passagem da hipótese silábica para a alfabética. • As escritas aparecem com a característica de ”omissões” de letras pela coexistência das hipóteses alfabética e silábica. • A letra que inicia cada escrita não é fixa nem aleatória- é uma das letras que correspondem ao valor sonoro da primeira sílaba da palavra. • Surgem perguntas e pedidos de ajuda em relação a qual fonema ou sílaba usar. • São feitas seguidas análises sonoras das palavras. • É típica a mistura, na leitura do nome, da hipótese silábica e de um começo da hipótese alfabética.

Características das escritas alfabéticas (Nível V) Hipótese central • Compreensão de que. — cada som (fonema) corresponde a uma letra; — as letras combinam-se para formar sílabas e palavras. 174 Construção gráfica • Escrita alfabética com valor sonoro convencionado. Escrita (níveis de conceitualização) • A criança compreende que: — os caracteres da escrita correspondem a valores menores que as sílabas (antecipação quantitativa); — devem-se escrever tantas grafias quantos fonemas tenha a palavra. • A criança elabora sistematicamente uma análise dos fonemas das palavras que vai escrever. • Esse nível constitui o final da evolução, pois a criança já compreendeu o modo de construção do código. • A partir desse momento, a criança já compreendeu o modo de construção do código. • A criança não terá problemas de escrita (no sentido estrito, conceituai), mas se defrontará ainda com duas dificuldades. — a ortografia das palavras, — a separação entre palavras, pode escrever orações (frases) sem deixar espaço entre as palavras ou fazer cortes que não correspondem à separação convencional da escrita. Leitura • A criança já lê alfabeticamente. • A escrita e a leitura do nome próprio operam sobre os princípios alfabéticos, aparecendo, no entanto, problemas ortográficos. A leitura de partes do nome já não oferece nenhuma dificuldade. Por meio de seus numerosos livros e artigos, Emilia Ferreiro permite-nos conhecer as conclusões a que tem chegado utilizando como informação básica as descobertas sobre a psicogênese da língua escrita, tanto na criança como no adulto. Esses escritos contribuem para o aprofundamento de pontos fundamentais do construtivismo e do processo de alfabetização. Embora não seja nosso objetivo discutir o construtivismo, sabemos que o pensamento ocidental moderno, marcado desde Rousseau pelo conflito entre o racionalismo e o empirismo, vem sendo revitalizado com as teorias de conhecimento de origem construtivista. Mencionaremos alguns pontos necessários para um melhor entendimento da psicogênese da língua escrita e dos processos de aprendizagem. (Citação: Racionalismo-teoria epistemológica que valoriza a razão, ou o pensamento, como fonte de conhecimento. Empirismo: teoria epistemológica segundo a qual o conhecimento vem de fora, dos objetos, por meio das sensações ou experiências, e o sujeito as

vemos que esses elementos são inseparáveis quando se trata da construção do conhecimento. quando afirma que o conhecimento deve-se dar na relação entre o sujeito e o objeto e por meio dela. p. mas o meio (o objeto) entra como parte integrante do próprio sujeito. Leontiev. As contribuições de Vygotsky. antecipa Piaget. A psicologia recebeu grande influência. Nuttin e outros vieram imprimir dimensão cultural ao objeto e histórica ao sujeito. 42. como matéria e conteúdo cognitivo e histórico. uma nova visão de mundo e da natureza humana — embora ainda seja considerado por muitos educadores um métov do de ensino (talvez pela própria necessidade de encontrar uma forma ou caminho para melhorar o rendimento escolar). do empirismo comportamentalista fbehaviorismo) e do associacionismo (em razão dos condicionamentos e das associações estímulo-resposta). a epistemologia genética. com efeito. visto depender do objeto.) 175 REVENDO A PSICOGENESE DA LÍNGUA ESCRITA No século XVIII. Incorporando a proposta de educação para Emílio. na constituição do conhecimento. p. antes de tudo. Para Kant. Não há sujeito sem objeto e não há objeto sem sujeito que o construa. mas a forma. tentou casar as duas visões díspares do conhecimento: a visão de que a análise lógica das ações e objetos conduz ao aumento do conhecimento e a visão de que a experiência individual de alguém gera novo conhecimento. num processo extremamente dinâmico e reversível de equilíbrio majorante”. Rousseau já percebera o erro das filosofias da época que analisavam apenas. a príori. 1996. será reencontrada invariavelmente em todos os objetos e por todos os objetos”. E a maneira de captá-lo ou assimilá-lo é pelo diálogo. sendo imposta ao objeto pelo sujeito. Se retrocedermos no tempo para acompanhar um pouco mais da discussão sobre a construção do conhecimento (o que é fundamental para entender o construtivismo). O sujeito não está simplesmente situado no mundo. ”conhecer é dar forma a uma materia. Luria. o papel do sujeito (no caso do racionalismo) ou do objeto (no caso do empirismo). Todo objeto é 176 cultural e se apresenta na sociedade.recebe passivamente. a matéria do conhecimento é variável de um objeto a outro. deixa claro que não concorda com nenhum dos dois reducionismos (que consideram o conhecimento em função de um dos elementos da relação sujeito/objeto). Wallon. Em seu tratado sobre educação. MATUI. Segundo Jiron Matui. construtivismo é ”um sistema epistemológico que fundamenta a construção da mente e do conhecimento sobre bases anteriores. de Jean Piaget. e a forma. a principal questão levantada pelos teóricos é a de que o construtivismo é. Este. Ao considerarmos a interação entre sujeito e objeto uma estrutura bifásica. 1996. Foi. MATUI. pela ótica de como se . e é claro que a matéria é a posteriori. veremos que as idéias de Rousseau de que o sujeito recebe as impressões do mundo exterior (sensações) e deve trabalhá-las para chegar aos conceitos (que dão forma aos objetos) foram retiradas de Kant. por sua vez. no entanto. 32. Logo.

que se constróem no tempo. . Para Piaget. ou seja. Da mesma forma. chegam a um estado de equilíbrio perfeito. alcançando as características intemporaís das estruturas lógico-matemáticas. Daí a necessidade da interação social. o conhecimento prolonga-se em função das múltiplas relações existentes na sua realidade material e toma a forma de ”uma espiral que se amplia infinitamente em altura”. p. a consciência. PIAGET. É. o pensamento. concluem que. SINCLAIR. equüibração e transformação) Em Genebra. em situação de dialogicidade. Sinclair e Bovet. p. como afirmamos acima. universidade e necessidade. Se considerarmos o desenvolvimento cognitivo um (processo interativo e construtivo. 1996.origina o conhecimento científico na criança. 22. os pesquisadores de Emilia Ferreiro. BECKER. mediatizados pelo mundo. 1983. FREIRE. para pronunciá-lo. participando da prática social de sua comunidade. Freire destaca a importância do diálogo. Essa integração produz-se como conseqüência dos conflitos que surgem quando os esquemas existentes encontram-se com outros em novos contextos e mostram-se impossíveis de ser relacionados e aplicados. Inhelder. tanto da pessoa como da mente. acabado. corresponde ao conjunto dos elementos e à relação contínua e dialética destes entre si. ”As estruturas mentais.p 77 (Citação: Estrutura. Sendo. a essência do sujeito surgem como ”emanação direta do seu comportamento material. com base em conhecimentos anteriores que são reestruturados a cada nova informação recebida.45. portanto. definindo-o como o ”encontro dos homens. durante toda a vida. a rigor. MARX. estes têm sua gênese (origem) no ser humano por internalização e reconstrução. da cultura a que pertence. Daí a afirmação de Becker 177 de que o construtivismo significa que ”nada. na relação eu-tu”. pois. MATUl.” O ser vivo interage com o meio físico e social. que nos deu a conhecer essa nova visão sobre o processo de interação entre sujeito e objeto da aprendizagem. histórico e social. o homem os constrói. isto é. não se esgotando. em nenhuma instância. reconstrói e internaliza. cada nova estrutura forma-se mediante a integração e coordenação de esquemas jáexistertes. e de que. fazendo parte dela conceitos de totalidade.p 78. concluiremos que se trata de um processo dinâmico e dialético.1977. 33. 1987. está pronto. como algo terminado”. Sendo de formação histórica. o sujeito não nasce com o pensamento ou os conhecimentos.1972. p 88-9.” MATUI. p 75. com base em estudos experimentais. ao mesmo tempo que têm uma gênese. BOVET. de acordo com os seus esquemas. especificamente o conhecimento não é dado. juntamente com outras pessoas. Para Marx. 1971. ”não é a consciência que determina a vida mas a vida é que determina a consciência”. e por força de sua ação constrói conhecimento. como ”forma privilegiada de acesso à informação/ao objeto de conhecimento”.” RAMOZZI-CHIAROTTINO. ”Não ocorrerá a construção de novos conhecimentos se não ocorrer a reconstrução de velhos conhecimentos.p. INHELDER.1996. nível de desenvolvimento e participação na sociedade. enfim. 1983.

em situação de aprendizagem. Em primeiro lugar. discurso interior (Vygotsky). na construção do conhecimento. Daí a importância de proporcionar o contato com símbolos (figuras. Daí a constatação de que. recriada de forma didática.1972. A ação da práxis humana. RAMOZZI CHIAROTTINO. fotos. ação sobre ação ou experiência lógico-matemática (Piaget).vivenciando as funções sociais da leitura e da escrita. ela transpõe para um plano superior aquilo que retirou do plano anterior. etc ) quando for impossível o contato direto com o objeto No caso da alfabetização. tato. Piaget chama a isso réfléchissement. Em segundo lugar. como um ser total. o sujeito age sempre de forma integral. Freinet si178 tua no tateio experimental o patamar inicial dessa construção. para as quais faltam os nexos lógicos de explicação que ocorrerão em outro plano. ou metacognição Para Vygotsky. a ação é internalizada. alimentado pela aprendizagem e pelo desenvolvimento dos conceitos científicos. em nível mental. olfato) e dos sentimentos com o objeto do saber. filmes. deve-se levar em . audição. o sujeito reconstrói sobre o plano das formas ou das representações (plano B) aquilo que é retirado do plano das ações (plano A). recomenda-se que as funções sociais da linguagem e da escrita sejam vivenciadas interindividualmente. Essa reconstrução no plano B é um estabelecimento de relações entre as representações. como a que se deve realizar num ambiente escolar. deve possibilitar a produção dos conhecimentos. em ”esquema antecipador ou procedural”. e aquelas que já existiam em B com certa organização. Para conhecer. nas palavras de Piaget. É quando ocorre a elaboração interna. atingindo o patamar da abstração reflexiva. ou experiência de experiência. ou. O discurso interior evo179 lui. a criança formará imagens mentais (mas não conceitos) dos objetos. que é a construção do saber de forma global. Inicialmente.p 69 A passagem da ação para a conceituação é que per mite a construção do conhecimento. Segundo Ramozzi-Chiarottino. constituído — como para Piaget — pelos primeiros contatos dos sentidos (visão. fenômenos e acontecimentos (representações simbólicas) Ao vivenciá-los em grupo (por meio do diálogo). paladar. ou verdadeiro conhecimento. A essa reorganização Piaget chama reflexão. patamar da reflexão e abstração lógico-matemãtica. Transforma todos os seus esquemas de pensamento em ação. descobertas mediante ação direta do sujeito sobre o objeto. pensar a palavra. devemos entender a abstração reflexiva em dois sentidos complementares. Os conhecimentos construídos nesse segundo plano chamam-se conhecimentos físicos e são formados de características e propriedades do objeto. As escritas ainda não são verdadeiras construções. ou formas novas. que seria o refletir (espelho). o ato de pensar as palavras é o próprio desenvolvimento do discurso interior (metacognição). que a criança aprende sobre esse objeto de conhecimento.

São elas que. As estruturas não derivam ”exclusivamente da sensação ou da percepção. então.” 180 Cada estrutura cognitiva é um esquema operatório ou sensório-motor que capacita o sujeito para a aprendizagem de novos conteúdos e faz parte de um conjunto estruturado de respostas ou sistemas. cada hipótese que a criança elabora sobre a leitura/escrita permite-lhe adquirir novos conhecimentos. que consiste não mais em reunir entre si os indivíduos considerados como equivalentes (como em 1). A estrutura pressupõe um conjunto de elementos e suas relações. aquisição da estrutura própria de cada nível do desenvolvimento e da própria aprendizagem. Considera [Piaget] que a função semiótica aparece durante o segundo ano de vida. O conhecimento é construção da função simbólica. implica a função semiótica. o som que ouve e não mais escrever a idéia que pensa.marcas ou traços visíveis sobre o papel. reprodução material de um modelo. de início. mas também dos esquemas de ações ou dos esquemas operatórios de diversos níveis. para Piaget. 92. De um lado. .O agrupamento lógico mais simples é o da classificação ou encaixamento hierárquico das classes. do esquematismo das ações ou das operações”. 118. 1971.ideográfica). que no início da representação gráfica infantil. entendida como a possibilidade de diferenciar significantes de significados. mas em ligar as relações assimétricas que expressam suas diferenças. p. Quando a criança constrói a hipótese de que o texto está no lugar do desenho. ”o desenho. uma ordem de sucessão. ambos consistem em .consideração as estruturas mentais. O modelo completo é construído pelas classificações zoológicas ou botânicas. colocando em ação todas as suas estruturas. No caso da alfabetização. PIAGET. 71 (grifo nosso). Repousa ele numa primeira operação fundamental: na reunião dos indivíduos em classes e das classes entre si. a criança avança para novos conhecimentos. Os elementos que serão conhecidos fazem parte de um todo que se regula e se transforma de forma dialética. permite à criança escrever. sendo uma imitação gráfica. contínua. uns e outros irredutíveis à mera percepção. na qual intervém decisões e pré-inferências e que é devida à influência. determinam a aprendizagem e permitem a ampliação dos conhecimentos. o sujeito age de forma integral. PIAGET. Um segundo agrupamento elementar põe em prática a operação. 2. pela primeira vez. espontânea. Observa. E exemplifica: ”l. 1973. uma seriação qualitativa. totalidade. denominado. Na Psicogênese da língua escrita ela mostra que. e o agrupamento constitui. p. Daí a importância dos resultados das pesquisas de Emiíia v. Ferreiro. quando desenvolvidas. Diante de uma situação nova. desenho e escrita se confundem. de agrupamento. que são. mas comporta uma organização ativa. que é uma verdadeira revolução dentro do processo de alfabetização. Na perspectiva de Piaget. A reunião dessas diferenças supõe. consegue escrever o que pensa (imagem mental) por meio da escrita (embora. p.” MATUI. por Piaget. sobre a percepção. por exemplo. equilibração (ou auto-regulação) e transformação. por conseqüência. 1996. a cada hipótese cognitiva. a própria percepção não consiste em simples leitura dos dados sensoriais. ”A hipótese silábica.

64 A escrita também é um objeto simbólico. as ações sensório-motoras iniciais. crianças de classe baixa. a criança é capaz de usar significantes diferenciados. acompanhados ou não por ilustrações (desenhos. não começam do zero na primeira série. bilhetes. p. desde muito cedo. alguns dos quais freqüentavam pela primeira vez uma escola (7 crianças) e outros haviam cursado ou o jardim-de-infância ou a pré-escola. é algo que serve para olhar e para muitos. Percebeu-se que as crianças de 4 anos esperam encontrar no texto o nome do objeto desenhado. todos eram de famílias de baixa renda. FERREIRO & TEBEROSKY. com outros textos que não do livro didático: jornais. com efeito. eram 17 meninos e 13 meninas. Entrevistadas no começo. p 37 .continuando. desenvolver leitores comprometidos.1986. mais especificamente. livros de história. cartas. enciclopédias. com idades variando de 5 a 11 anos no início da pesquisa. etc. a imitação diferida. fotografias. as crianças deram indícios que permitiram a Emilia Ferreiro agrupar as questões. panfletos. as crianças aprendem muitas das coisas que as cercam. sejam estes símbolos individuais ou sinais sociais”. concluindo que o processo de aprendizagem da criança pode acontecer por vias insuspeitadas para o docente e. FERREIRO & TEBEROSKY. p 64 Os textos que contém estão distribuídos de forma diferenciada pelas páginas que o compõem. a imagem mental e a expressão gráfica envolvem a função semiótica. para si. São elementos novos que podem contribuir para a organização do trabalho em sala de aula. o problema suscitado foi: em que momento a escrita se constitui em objeto de conhecimento? As sondagens feitas por Emilia Ferreiro indicam que até por volta dos 4 anos as crianças espontaneamente fazem perguntas do tipo como se escreve? ou o que se diz?. de forma irregular (21).1986. no meio e no final do curso. Ao ler as imagens. os significados traduzidos em linguagem escrita. em outro nível. em relação ao construtivismo sob o enfoque pedagógico. por outro lado. a criança já possui várias jconcepções sobre a escrita e é preciso procurar sua gênese em idades mais precoces. cartazes.para ler”. o jogo simbólico. um significante que mantém relações muito estreitas com o desenho e com a linguagem — embora não seja transcrição desta nem derivada daquele. durante o período escolar. Na posse dela. FERREIRO & TEBEROSKY. foi como conciliálas em função da imagem e a realidade das propriedades do texto. por acreditarem que este representa o nome do objeto total presente no desenho Esse e outros mal-entendidos. capazes de ampliar. inclusive as da pesquisa.1986. Um fato observado por Emilia Ferreiro durante suas pesquisas sobre as hipóteses das crianças com respeito à escrita. A experiência relatada a seguir foi realizada^çQni urna amostra de 30 crianças argentinas nos anos de 1974 a 1976. Aos 6 anos. Emilia Ferreiro procurou desfazer com exemplos tirados de suas pesquisas. e que lhe causou preocupação. gráficos) e estão 181 impressos em diferentes tipos de letras As crianças também deparam. A linguagem. ao mesmo tempo que solicitam do adulto a leitura de histórias ou revistas. quando esta viesse acompanhada de imagem. O ”livro.

O conhecimento de uma pesquisa sobre a história da escrita. Os egípcios foram também os inventores do papel. O educador precisa ter claro que a criança primeiro aprende a escrever para só depois dominar a ortografia. formavam a casta mais poderosa da sociedade e exerciam grande influência sobre os faraós [. permanecem extasiantes. aprender a ler e a escrever eqüivalia. pode ajudá-los a encontrar respostas para questões que.182 Ferreiro afirma que o interesse pela escrita não começa quando a criança atinge determinada idade cronológica. em encantamentos secretos cuja eficácia não era jamais posta em discussão. O sistema gráfico por eles utilizado era. a descobrir uma arte encantadora exercida por poucos eleitos e que atribuía ao seu aprendiz poderes supremos..] Foi graças ao seu rigor que os antigos egípcios puderam registrar sua história. de certo modo. detentores deste conhecimento e responsáveis por ensiná-los aos jovens. . Naquela época. eles se fazem quando precisam realizar tarefas impostas pelos professores e para as quais nem sempre encontram sentido. É preciso compreender as causas do erro para levá-la a superá-lo com base em um trabalho de conhecimento da forma ortográfica correta. tais como: Por que todos devem escrever com a mesma ortografia? Por que é preciso caprichar na letra? Por que a língua escrita tem regras de acentuação? Por que a gramática da língua escrita nem sempre corresponde à da língua oral? Outra tarefa louvável é transmitir aos alunos a idéia de que a escrita é um instrumento fascinante que a humanidade levou séculos para criar. Ao contrário do que educador e criança esperam quando esta inicia sua escolaridade. o deus da sabedoria na mitologia egípcia. Como o trabalho no papiro exigia muita minúcia e paciência. havia criado o sistema da língua escrita e presenteado os homens com esse novo saber. sua medicina.. aliados a uma combina183 cão de signos para exprimir idéias). gastronomia. em função dos sujeitos e das condições ambientais. feita com os alunos. uma das primeiras civilizações a adotar a escrita como disciplina escolar. certamente. Era a época da crença na magia da palavra. Os escribas. As incorreções que comete. paciência e maturidade. o aprendizado da escrita requer tempo. uma escrita dos deuses — a palavra ’hieróglifo’ significa ’grafia sagrada’ — e era composta de magníficos desenhos admiravelmente estilizados. em sua forma mais arcaica. realmente. os fonogramas (desenhos que representam sons) e os determinativos (os signos que permitem saber a que categoria pertencem as coisas e seres em questão). tantos séculos depois. mitologia e literatura. formando belíssimos poemas visuais que. o papiro. A originalidade e complexidade dessa escritura contém três tipos de signos’ os pictogramas (desenhos representando coisas ou seres. astronomia. Thot. o aprendizado da escritura estava impregnado de magia. e é possível que essa preocupação comece muito antes. como ilustra a história relatada a seguir: ”Para os antigos egípcios. portanto. não significam que não tenha aprendido.

outdoors”’.. na Grécia se falava uma língua muito diferente e que não era capaz de transcrever os alfabetos existentes.C. colocando-o à sua disposição para 184 que. história e filosofia. Como se vê. A escola não pode. Para uma criança egípcia. que se distingue de outros sistemas de escrita por permitir escrever tudo que se desejar com uma pequena quantidade de signos. O ato de ler. dezessete consoantes e sete vogais. cópias e ditados. Foi nessa época que os gregos tiveram uma idéia simples e genial — para anotar suas vogais. com a invenção do alfabeto grego. Em meados de VIII a. As letras maiúsculas eram utilizadas para gravar em pedras. 1996. conhecer o momento do processo de compreensão da língua escrita em que está a criança e resgatar com ela esse objeto de conhecimento. mais fácil de ser aplicada sobre esse suporte e que contribuiu para a popularização da escrita. as crianças custavam alguns anos a alfabetizar-se. Sabe-se também que esse alfabeto podia ser escrito em letras maiúsculas ou minúsculas. quando os egípcios ainda traçavam hieróglifos e na Palestina já se utilizavam escritas alfabéticas. As questões relativas à leitura e aos gestos de ler ”vêm sendo discutidas já há mais de duas décadas. o indivíduo recebe outras mensagens escritas: placas. Os gregos haviam inventado as ’ardósias’. antes restrito a ambientes fechados.C. Precisa. E — epsílon. no ônibus. luminosos. nos aviões. nas ruas. rezava um provérbio da época. hoje acontece em todos os lugares. Lê-se em casa. o alfabeto grego já existia contendo vinte e quatro signos ou letras. tabuletas cobertas de cera sobre as quais os alunos traçavam as letras com um estilete e que depois podiam apagar. . surge nos séculos V e VI antes de Cristo uma das mais ricas literaturas de todos os tempos. O método utilizado pelos mestres egípcios consistia em exercícios de memorização. Os alunos com mais facilidade de aprender eram escolhidos pelos escribaspara que prosseguissem com os estudos até a idade adulta. tomaram emprestado do alfabeto aramaico diversos signos que representavam caracteres inexistentes na língua grega. portanto. Y— ipsilon. 1996. justificando a prática de bater com varas nas costas das crianças que por ventura dessem um pequeno sinal de distração durante as aulas. Todas as formas de leitura são importantes e devem ser valorizadas.criou-se a escrita cursiva. mas lê-se também nos bancos das praças. Ingressando na escola aos dez anos de idade. por meio de experiências significativas. sobretudo. avisos. representada por todos os gêneros: poesia. ao passo que as minúsculas eram usadas para escrever sobre o papiro. desconsiderar as informações que a criança domina e exigir dela o que não tem. ’O melhor ouvido da criança são suas costas’. 5. no metrô. suas estratégias ainda freqüentam muitas salas de aula contemporâneas. O — ômicron. ela possa interagir com ele e compreender seu significado e uso. No século V a.” CAVALCANTI. p. E além de textos nas mãos. Assim nasceram o A — alfa. 5. ROCCO. leitura. É desse alfabeto que nasce nosso alfabeto latino. p. teatro. o caminho da alfabetização era um tanto árduo.

o professor vinculará os conteúdos de ensino à realidade. Isso. Todo professor precisa ter um born preparo profissional que garanta. ou contradições que levam a um desequilíbrio. uma vez que a psicogênese é evolucionista ou um ramo do evolucionismo. estamos nos referindo às questões do ensinar e aprender. seja paciente para ouvir as leituras que fazem dos textos estudados e/ou que venham a produzir com a expressão ”preparo teórico e metodológico”. classificação. tempo. deles entre si e deles com o conhecimento. isto é. de um recipiente baixo e largo para outro estreito e alto. aprofundando e ampliando o domínio dos níveis de leitura e escrita. Essas aprendizagens são o ponto de partida para a conclusão de um ciclo de desenvolvimento ou amadurecimento das estruturas mentais. está marcada por documentos escritos.A vida do homem. Podemos exemplificar com a experiência de Piaget sobre o transvasamento de um líquido. da metodologia do processo ensino-aprendizagem entendido como prática social transformadora e democrática. A condição primeira para que isso aconteça é que o professor também goste de ler. tenha preparo teórico e metodológico para selecionar textos interessantes. o domínio do saber e do saber-fazer. seriação. aos quais a leitura está intimamente associada. Isso mostra a importância de conhecer o nível de desenvolvimento de cada aluno para poder orientar sua aprendizagem. Ciente de que conhecimento. Ao período que vai da inexistência de uma estrutura até sua existência. como processo específico e intencional de organizar e propor situações para que ocorra determinada aprendizagem. prevendo interações com os alunos. fazem parte da busca de entendimento maior dos níveis intermediários. e orientar a escolha dos materiais de leitura. auxilia o nível seguinte. baseando-se em procedimentos que assegurem uma aprendizagem significativa e prazerosa. leia para e com seus alunos. desenvolvimento e aprendizagem são processos relacionados entre si. uma vez que cada um deles é marcado por novas características de desenvolvimento que auxiliarão o nível subseqüente. no âmbito da escola. A aprendizagem é provocada mediante um problema que toque realmente cada aluno. acaso. principalmente nos últimos dois séculos. Seus estudos sobre conservação de número. espaço. entre outros requisitos. Só quando tiver adquirido a reversibilidade de pensamento. Categorias ou estruturas mentais surgem e se desenvolvem durante toda a vida do indivíduo Cada desenvolvimento corresponde a uma possibilidade de aprendizagem nova. em vez de prejudicar. O professor só pode trabalhar se os alunos e seus desejos estiverem presentes: é o prazer de dar significação às coisas e ao universo que move o ensino-aprendizagem. etc. Algumas vezes. Piaget chama nível intermediário de desenvolvimento (corresponde à área de desenvolvimento proximal de Vygotsky). embora apoiada nas já existentes (funções mentais previamente 185 amadurecidas). em que o nível de líquido sobe. Cabe à escola estabelecer relações entre leitura/escrita e criança/adulto. características do nível anterior se conservam (desenvolvimento real) e surge um conflito. que acontecem por construção e interação. a .

aprendizagem. a seguir. nunca da condição social da criança. 1996.) 186 Textos selecionados de Eimília Ferreiro Desde 1974. de modo independente da camada social. avaliação. Sua preocupação como pesquisadora volta-se. O nível silábico-alfabético é um exemplo típico dessa afirmação. um nível de desenvolvimento potencial (desenvolvimento que a criança pode alcançar) e uma área de desenvolvimento proximal (distância entre o nível real e o potencial). que considera a criança um sujeito do conhecimento que. chegando à conclusão de que existe a mesma quantidade. eles desvendam a história da pré-escrita. uma vez que apresenta as características do nível alfabético (sílabas de consoantes e vogais). variando apenas em função da idade. mas que estuda o processo que percorrem aqueles que se apropriam de leitura e escrita. em seus escritos. conforme mostra Emilia Ferreiro. porém conserva as características da escrita silábica (uma letra para cada som). (Citação: Estrutura e desenvolvimento são por nós utilizados como sinônimos. . A psicogênese da língua escrita. escola.. uma vez que. mostrando como. há um nível de desenvolvimento efetivo ou real (desenvolvimento das funções psicointelectuais da criança). passa necessariamente por etapas. segundo a autora. linguagem escrita/leitura. As etapas são iguais. nesse processo. Para Piaget. conforme descrevemos no quadro da página 174. em que o outro desempenha um papel mediador fundamental. uma vez que não se acrescentou nem retirou líquido. o desenvolvimento das estruturas mentais é que produz a aprendizagem Para Vygotsky. o faz por causa de uma inadequada proposta escolar ou por ter uma bagagem de conhecimentos muito diferente da trabalhada pela escola. Emilia Ferreiro vem afirmando que não construiu nenhum método de alfabetização. Apresentamos.” MATUI. 122. principalmente em situações de grupo ou atividades interindividuais. Os estudos de Emilia Ferreiro sobre a psicogênese da língua escrita são suficientemente fundamentados. conhecimento. ”A passagem [de um nível a outro] se completa pela tomada de consciência. significando o produto do processo de construção ou da aprendizagem. é um tratado sobre as hipóteses cognitivas e os conflitos presentes nos níveis intermediários do processo de construção da escrita e da leitura pela criança. métodos/ metodologia. p. situados entre a teoria de Jean Piaget e a sala de aula. como ser histórico. professor. para o caminho que percorrem aqueles que se apropriam da leitura e da escrita. quando deve ser alfabetizada e que tipo de alfabetização é necessário. a criança depende das solicitações culturais do mundo em que vive. quando fracassa. portanto.criança irá compreender que o líquido se conservou. A alfabetização. trechos que ilustram seu pensamento em relação a criança. Afirma com clareza. Todo professor que alfabetiza deve ter consciência de porque a criança precisa ser alfabetizada.

65. as crianças de todas as épocas e de todos os países ignoram esta restrição. Através das interações adulto/adulto. necessariamente. levantam problemas muito difíceis e abstratos e tratam.] Tratando de resolver os problemas que a escrita lhes apresenta.187 CRIANÇA ”A criança é também um produtor de textos desde tenra idade. não lhes permitem apropriar-se de nada: acabam por ser meras reprodutoras de signos estranhos. neste contexto. E quando dizemos ações. No esforço de compreender o mundo que as rodeia. de interagir com a língua escrita. que pode estar longe de ter descoberto sua natureza fonética. no mundo ’letrado’.] Se pensarmos que a escrita remete de maneira óbvia e natural à linguagem. p. Logo. Desde que nascem são construtoras de conhecimento. as crianças enfrentam... p.. 181-190. queremos dizer interações.. 1985. Descobrir que duas ordens diferentes dos mesmos elementos possam dar lugar a duas totalidades diferentes é uma descoberta que terá enormes conseqüências para o desenvolvimento cognitivo nos mais variados domínios em que se exerça a atividade de pensar. Porém há outras crianças [. [.” FERREIRO & TEBEROSKY. p. criamse as condições para a inteligibilidade dos símbolos.] que necessitam da escola para apropriar-se da escrita.] A criança que cresce em um meio ’letrado’ está exposta à influência de uma série de ações.” FERREIRO.. Essas são as que terminam de alfabetizar-se na escola. 59-61. entretanto. de descobrir respostas para eles. 188 Há crianças que chegam à escola sabendo que a escrita serve para escrever coisas inteligentes. Nunca esperaram completar 6 anos e ter uma professora à sua frente para começarem a aprender.1986. estaremos supervalorizando as capacidades da criança.[. Estão construindo objetos complexos de conhecimento e o sistema de escrita é um deles. quando se dedicam a ordenar os objetos mais variados (classificando- .. adulto/criança e crianças entre si. a aprendizagem deve realizar-se na escola. através da possibilidade de entrar em contato. 22-5.” FERREIRO. ”Propõem-se à criança orações para ler e para copiar que constituem uma afronta à inteligência infantil. 1992. ESCOLA ”A instituição social criada para controlar o processo de aprendizagem é a escola. problemas gerais de classificação e ordenação.. ”A criança se vê continuamente envolvida. mas começaram a alfabetizar-se muito antes. por si próprias. divertidas ou importantes. APRENDIZAGEM ”As crianças iniciam o seu aprendizado de noções matemáticas antes da escola.. [.” FERREIRO. 1985. Essas práticas escolares. p. Felizmente. como agente e observador.

mas não é o único (nem sequer é o mais importante). o que não pode ser entendido como uma opção individual. quando o reconstituiu internamente. e. no entanto.” FERREIRO & TEBEROSKY1986. na medida em que a participação na sociedade global (não apenas nacional.. mas como uma necessidade social. [.] Contudo. 1992. e não aprendizagem de uma técnica. mas também internacional) requer o domínio dos conhecimentos que são ’essenciais’ em uma cultura urbana. ” Dizemos apropriação de conhecimento. portanto. há reconstrução de um saber construído previamente com respeito a um domínio específico para poder adquirir outros conhecimentos do mesmo domínio que..os ou colocando-os em série).. Iniciam o aprendizado do uso social dos números. a fim de registrarem a informação. participando de diversas situações de contagem e das atividades sociais relacionadas aos atos de comprar e vender.” FERREIRO. também há reconstrução do conhecimento da língua oral que a criança tem para poder utilizá-lo no domínio da escrita. 1992. A cultura do campo exige conhecimentos diferentes da cultura da cidade. elas a transformam. Mas as práticas sociais. Aprende-se mais inventando formas e combinações do que copiando.” FERREIRO. os indivíduos podem exigir o direito à alfabetização. assim como as informações sociais. o que é que se reconstrói? É preciso reconstruir um saber construído em certo domínio para aplicá-lo a outro. p 98 102 ”O desenvolvimento da alfabetização ocorre.” FERRíIRO. 1985. têm sido registrados sem poder ser compreendidos. A tão comentada ’prontidão para leitura-e-escrita’ depende muito mais das ocasiões sociais de estar em contato com a linguagem escrita do que de qualquer outro fator que seja invocado. aqui como em qualquer outro domínio da atividade cognitiva: um processo ativo de reconstrução por parte do sujeito que não pode se apropriar verdadeiramente de um conhecimento senão quando compreendeu seu modo de produção. .. O funcionamento da sociedade global requer indivíduos alfabetizados. a falta de capacidade para manejar os sistemas simbólicos de uso social põe qualquer indivíduo em situação de carência. em um ambiente social. elas necessariamente transformam o conteúdo recebido. Quando tentam compreender. de algum modo.p. 275. 1980. quer dizer. [. p 24 CONHECIMENTO ”Sabemos perfeitamente que o conjunto de conhecimentos que um indivíduo adquire no curso de seu 189 desenvolvimento depende das exigências do meio cultural em que cresce. na medida em que esses conhecimentos são transmitidos de maneira privilegiada através de textos escritos.] A cópia é um dos procedimentos usados para apropriar-se da escrita. Este é o significado profundo da noção de assimilação que Piaget colocou no âmago de sua teoria.” FERREIRO. p. p 578 (grifo nosso) ”Os processos de construção sempre supõem reconstrução. com tudo o que essa apropriação significa. 87. Além do mais. não são recebidas passivamente pelas crianças. sem dúvida.

porque se supõe que não possa escrever nada até ter recebido a instrução formal pertinente (na realidade: é melhor que não escreva até saber grafar de modo conveniente). Ninguém tenta compreender o que a criança quis escrever. Ninguém espera que.. desde as primeiras combinações de palavras que tente produzir. e a ortografia. p. Desde as primeiras escritas o traçado deve ser correto.. a repetir o traçado de outro.] a evolução da escrita que nós evidenciamos não depende da maior ou menor destreza gráfica da criança.] Quando a criança faz suas primeiras tentativas para escrever é desqualificada de imediato porque ’faz garatujas’. deixamos de lado o essencial do texto: o que se quer representar. de sua maior ou menor possibilidade de desenhar letras como as nossas. quer dizer. vasilhames comerciais. a pronúncia seja correta. o conjunto de hipóteses exploradas para compreender este objeto. curva fechada. que possa receber informação e transformá-la em conhecimento). p.) ou em termos de letras ’de mais’ ou ’de menos’. 190 LINGUAGEM ESCRITA/LEITURA ”No caso da aprendizagem da língua oral. Ninguém tenta retraduzir o que a criança escreveu. Todos tentam compreender o que a criança disse supondo que quis dizer algo. 1992. No mundo circundante estão todas as . descobrir por si mesma. 27-30.” FERREIRO.” FERREIRO. Implica a construção de um esquema conceituai que permita interpretar dados prévios e novos dados (isto é. Quando corrigimos sua escrita-cópia em termos de relações espaciais (barra à esquerda.. propagandas.1986. encontram escritas por toda parte (letreiros da rua. com uma existência social (e não apenas escolar). porque lhe nega o direito de aproximar-se da escrita por um caminho diferente do indicado pelo método escolhido pelo professor. os adultos que rodeiam a criança manifestam entusiasmo quando ela faz suas primeiras tentativas para comunicar-se oralmente.). 1985. um esquema conceituai que permita processos de inferência acerca de propriedades não observadas de um determinado objeto e a construção de novos observáveis. “[. sem compreender sua estrutura) a impedimos de aprender. de explorar suas hipóteses no ato de produção de um texto) e obrigando-a a copiar (isto é. 66. retraduzindo no código adulto o significado identificado na emissão infantil).. Ninguém espera que. convencional. mas sim do que chamamos seu nível de conceitualização sobre a escrita. quer dizer.” FERREIRO & TEBEROSKY. a sintaxe seja perfeita. anúncios da tevê. a emissão infantil (isto é. [.”A construção de um objeto de conhecimento implica muito mais que mera coleção de informações. desde a primeira palavra emitida. e a maneira na qual se representa. duas barras no lugar de três. na base do que se antecipou e do que foi verificado. Impedindo-a de escrever (isto é.p 274-5 191 ”A língua escrita é um objeto de uso social. etc. Quando as crianças vivem em um ambiente urbano. e dão feedback lingüístico ao responder as suas perguntas parafraseando. etc. quando parece necessário.

p 37-8.Todas as letras em uma grande quantidade de estilos e tipos gráficos. Ninguém pode impedir a criança de vê-las e se ocupar delas. no domínio da língua escrita como em todos os outros.] que essa querela é insolúvel. essa distinção entre métodos de ensino. 192 certas práticas aparecerão como ’normais’ ou como ’aberrantes’. a menos que conheçamos quais são os processos de aprendizagem do sujeito. Há práticas que levam a que o sujeito (a criança neste caso) fique de fora’ do conhecimento. e processos de aprendizagem do sujeito. p. embora seja mais difícil porque os obriga continuamente a pensar. sem nunca encontrar respostas aos ’porquês’ e aos ’para quês’ que já nem sequer se atreve a formular em voz alta.letras. como um conjunto de coisas fechado.” FERREIRO.p. e conforme se caracterize a ambos. tão criativo quanto eles. Ferreiro. Todas estão apoiadas em certo modo de conceber o processo de aprendizagem e o objeto dessa aprendizagem. estimular ou bloquear. mas com a freqüência que cada uma delas tem na escrita da língua. o professor precisa ser tão ativo quanto seus alunos. 1992. Há práticas que levam a criança à convicção de que o conhecimento é algo que os outros possuem e que só se pode obter da boca dos outros. Os professores que começam a entender a alfabetização como um processo falam menos e escutam mais. 1985. 1985. Nenhuma prática pedagógica é neutra. processos que tal ou qual metodologia pode favorecer. deve estartão interessado em ajudá-los quanto eles em aprender coisas novas.” FERREIRO. Porém. ”É útil se perguntar através de que tipo de práticas a criança é introduzida na língua escrita.1986.” (Anotações nossas em palestra de Emílio. 30-1. pelo outro.” PROFESSOR ”Para que uma proposta construtivista possa se realizar em sala de aula. já assinalamos [. sagrado. São provavelmente essas práticas (mais do que os métodos em si) que têm efeitos mais duráveis a longo prazo.. e como se apresenta este objeto no contexto escolar. 50-2.) ”O que sabemos é que os professores que se atrevem a dar a palavra às crianças e a escutá-las descobrem rapidamente que seu próprio trabalho se torna mais interessante (e inclusive mais divertido). imutável e não modificável. 26. . requer uma justificativa teórica. não em uma ordem preestabelecida. E escutar é infinitamente mais importante do que falar. FERREIRO.p. Há práticas que levam a pensar que ’o que existe para se conhecer já foi estabelecido.. certamente. como espectador passivo ou receptor mecânico.” FERREIRO & TEBEROSKY. Conforme se coloque a relação entre o sujeito e o objeto de conhecimento. por um lado. MÉTODOS/METODOLOGIA ”No que diz respeito à discussão sobre os metodos. É aqui que a reflexão psicopedagógica necessita se apoiar em uma reflexão epistemológica. sem nunca ser participante na construção do conhecimento.

. ”[.... 1992. já que obriga a redefinir o papel do professor e a dinâmica das relações sociais dentro e fora da sala de aula. p.] Uma das coisas mais reprimidas na escola tradicional tem sido a escrita. [.39-40. portanto.. considerando unicamente os resultados. todos podem ler e escrever. A conseqüência inevitável é a inibição: as crianças não tentam ler nem escrever e.] precisamos adotar o ponto de vista do sujeito em desenvolvimento.p. Alguns desses conflitos entendemos muito bem. não se dá conta de que algumas crianças chegam sabendo mais do que outras. Definir semelhanças apenas na base dos resultados é .” Anotações nossas em palestra de Emilia Ferreiro. ou de idéias que necessitam ser diferenciadas ou coordenadas. sendo pertinentes apenas em alguns casos. uma mão que pega um instrumento para marcar e um aparelho fonador que emite sons.”A transformação destas práticas é que é realmente difícil. [.. E quando digo avaliação não estou pensando em prova específica.” FERREIRO.] é muito difícil julgar o nível conceituai de uma criança. sem criar inibições. A escola fala em texto livre.. um par de ouvidos.” FERREIRO. supondo que só se aprende através da reprodução correta. não aprendem.JTemos uma imagem empobrecida da criança que aprende: a reduzimos a um par de olhos.” FERREIRO. que por sua vez desempenham papel de primeira importância na evolução. e que é melhor não tentar escrever.] Uma das coisas que sabemos hoje em dia com maior clareza é que a correção ortográfica fora de tempo pode inibir a língua escrita. se não se está em condições de evitar o erro. mas simplesmente em atividades que permitam ao professor ver o que a criança pode fazer. [.. Uma das coisas mais proibidas é a escrita es193 pontânea. 31. [. mas proíbe textos livres como representação da escrita da melhor maneira que o sujeito é capaz de conseguir em cada momento de sua evolução.. ”Em uma visão construtivista o que interessa é a lógica do erro: trata-se às vezes de idéias que não são erradas em si mesmas. idéias que geram conflitos..] o professor não é mais o único que sabe ler e escrever na sala de aula. 82-3. sem levar em conta o processo de construção. esperamos entender melhor outros em um futuro não muito distante. apenas que deve saber qual o momento certo para fazê-lo.] É através desse material. 1985.. AVALIAÇÃO ”Como a escola não faz avaliações do nível inicial.] A correção sobre a ortografia não se deve confundir com a avaliação da língua escrita que está por trás. que devemos acompanhar o processo de aquisição da língua escrita. Porque eu me nego a chamar de alfabetizada a criança que produz apenas estereótipos. 1992.. produzido espontaneamente pelas crianças. p. ”Em língua escrita todas as metodologias tradicionais penalizam continuamente o erro.. [. cada um ao seu nível [.. às vezes. nem ler. [... Eu não estou dizendo que a escola deva ignorar o erro ortográfico. ainda que seu texto não tenha erros ortográficos. mas aparecem como errôneas porque são sobregeneralizadas. Só a consideração conjunta do resultado e do processo permite-nos estabelecer interpretações significativas. ou.

823. 1985.privilegiar nosso próprio ponto de vista. Esta é uma das razões pelas quais é tão difícil fazer uma análise psicogenética coerente. p. 194 .” FERREIRO.

ousamos recuperar os clássicos da pedagogia que mais nos influenciaram: Rousseau.Considerações finais A eficiência da ação docente depende não só da consciência crítica da realidade. a teoria em que se fundamenta a prática pedagógica também se modifica e precisa ser reelaborada. as experiências que procuram acompanhar a evo196 lução da aquisição da escrita pela criança contribuem para o aprofundamento e o entendimento das questões do ensinar e do aprender e também para a construção de uma teoria de alfabetização. exige investimento permanente em recursos humanos e materiais. Toda medida. mesmo. precisávamos recuperar a identidade dos primeiros teóricos ou a origem de suas idéias. não sendo possível ignorá-los. e disso se originará a nova teoria e prática. econômicas. Por que não as revisitar? Constatamos que Dalhem (discípulo de Decroly) e . fundamentado nos vários campos do conhecimento [. p 6 Buscar respostas a questões presentes em nosso saber-fazer pedagógico. nos textos de estudiosos e educadores do passado e do presente. permanecendo alheias aos profissionais. representa uma inversão dos procedimentos que utilizávamos para teorizar sobre educação. como se não tivessem ligação com a prática pedagógica. Neste livro. As teorias aqui resgatadas priorizam a criança e a construção do seu conhecimento. a qual se efetiva com a conquista da cidadania. da consciência crítica da realidade e do papel da escola dentro deste contexto. Só assim poderíamos entender por que muitas teorias ainda são tão pouco divulgadas ou apreendidas tão superficialmente no curso de formação. 1986. Para conhecer como nosso fazer pedagógico vem sendo estruturado.. dando lugar a uma nova teoria: teoria teorizada e não teorizante. Ninguém constrói uma verdadeira teoria da educação sem antes rever as teorizações já realizadas. Para haver avanço é preciso entrelaçar o passado e o presente. A problemática da alfabetização continua. para surtir efeito.. pois não se enfrentam as causas da retenção e da evasão nem se analisa por que a escola continua não sendo atraente para o aluno. E é esse instrumental teórico. Seu conhecimento passou a ser fragmentado e. cientes de que suas propostas representam uma busca para o processo particular de apoderar-se da escrita.] que constitui a base do saber-fazer pedagógico O professor-educador se forma a partir de uma base sólida de conhecimentos da prática refletida. deturpado. As preocupações dos educadores do passado são as mesmas de hoje. sentíamos que precisávamos captar nelas a totalidade do que havia sido pensado e produzido. Não nos satisfazia apenas analisar as teorias. Eles fazem parte de nossa formação e de nosso processo de conhecer. em informações ligadas a nossa prática. mas também do instrumental teórico que o professor recebe durante o processo de sua formação. Decroly. Conforme ocorrem as mudanças sociais. políticas e culturais. que não cessa nunca. NICOLAU & MAURO. para que o conhecimento avance. Freinet e Emilia Ferreiro. Certamente é porque lhe falta vida! A democratização da sociedade passa pela democratização do ensino e do saber.

O conhecimento não deve esgotar-se na compreensão. da sociologia. As de Emilia Ferreiro têm o mérito de haver contribuído para a gradativa mudança da prática pedagógica dos professores alfabetizadores. A educação deve fundamentar-se na natureza. não deve ser vazio. tudo quer conhecer. em suas palestras: que não criou nenhum método de alfabetização. são tão pouco conhecidas e divulgadas. o verdadeiro conhecimento tem como alicerces o trinômio liberdade/interesse/ação. O educando (criança ou adulto) não é passivo. diferentemente. da lingüística. cujo somatório levaria o educando a avançar letra por letra. Nossos teóricos nos ensinam muitas coisas sobre a criança e sua educação. os educadores começam a ter uma visão mais clara dos processos cognitivos envolvidos nessa aprendizagem e das características de cada etapa dessa evolução. sem conhecimento e adaptação metodológica. aplicar essas pesquisas em sala de aula. com passos e seqüências a seguir. no homem e na sua capacidade de construir o conhecimento. Em suas propostas. considerando a leitura e a escrita objetos de instrução sistemática. Ao proporem um trabalho em que todos possam expressar-se socialmente. Logo. na década de 80. . até atingir a totalidade ou viceversa. interesses e tateios experimentais da criança constituem o ponto de partida para a. sim. por Emilia Ferreiro e colaboradores — e que. ação pedagógica. que seus estudos são experimentais e voltados para entender e explicar o processo pelo qual a criança constrói o conhecimento da língua escrita (sua psicogênese). abstrato. ativá-los constantemente. mas voltar-se para a prática. Elas apontam aos educadores um novo entendimento da prática da alfabetização — que. não consideram a escrita processo isolado. mas está em constante atividade. mero receptor. por meio das várias linguagens. no entanto.Freinet chegaram a algumas conclusões bastante semelhantes às apresentadas. Este só é verdadeiramente construído quando a criança dispõe de liberdade — para selecionar o que quer aprender. avançam no tempo e nos deixam um grande ensinamento: o educador é um agente político que precisa estender sua esfera de atuação para além dos limites da sala 197 de aula. A maioria das pesquisas e estudos que analisaram a psicogênese da língua escrita é proveniente da psicologia. cabendo à escola não anular essa vivacidade e esse interesse com imposições e. ainda privilegiava o método. mas vinculado à experiência para. para desejar — e de estímulo. sílaba por sílaba. ao serem divulgadas pelas universidades e órgãos centrais da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Hoje. que exige compreensão de como se ensina e como se aprende. Os autores estudados. Alguns professores tentam. palavra por palavra. hoje. da sociolingüística e de outras ciências. Esses professores desconhecem algo que a própria Emilia Ferreiro procura esclarecer. linear. já estavam embutidos os fundamentos do construtivismo de Piaget. Chegam a utilizá-las como se fossem um método. Mostram que atividades. que os conteúdos devem ser buscados no meio em que a criança vive e se desenvolve.

assimilam. e o educando. avançá-la. Combina o novo com o já conhecido. perguntando. Muitas vezes. processam. no qual tanto a linguagem oral como a escrita sejam aprendidas no uso e na interação com as pessoas. Deve conviver com os alunos. representações. Deve catalisar as informações para ajudar a criança a vencer obstáculos. a sala de aula. a criança reformula seus mecanismos cognitivos. a escola passa uma experiência estranha. para saber estabelecer relações entre os conteúdos em um processo interdisciplinar Cabe ao educador partilhar com os alunos a análise de suas produções para juntos reconhecerem seus avanços e . Somente um clima em que todos selecionam conteúdos. conferem significado — isto é. Como media198 dor da aprendizagem. expressão e relação É preciso valorizar o repertório e as experiências de vida da criança. em diferentes contextos socioculturais. sem imposições. solta e sem significado. descobrirá que nela existe um mundo de sensibilidade a ser estudado.posteriormente. na qual o aluno possa compor e ampliar seu repertório de significados. o educador deve propor problemas. afastado de situaçõesproblema que os motivem e desafiem. progredir cada vez mais. em que todos aprendem e ensinam — possibilita que o educador se torne educando. aceitação e compreensão. Ao dar a palavra à criança. Assim. com disponibilidade dos instrumentos para satisfazer essa necessidade de criação. Vista como oficina de trabalho. possibilitandolhe atingir a livre expressão na escrita e a plena autonomia para agir. provocar desequilíbrios. num clima de confiança. nunca apresentando as soluções. inventar e criar. sendo interrogado e com eles realizando experiências para auxiliar sua aprendizagem e desenvolvimento. Os fracassos da escola em transmitir conhecimentos residem sobretudo no divórcio entre ela e a vida. mas para a vida. enquanto aprende. do registro e da expressão livre. em que a criança tenha oportunidades de falar e escrever sem que o educador se preocupe em adivinhar o que ela quer dizer/escrever. interpretam. numa relação horizontal. A aprendizagem deve ser significativa. Aprender não consiste apenas em somar informações. descobrir. para a busca de objetivos da vida por meio do trabalho-jogo. A leitura e a escrita não se aprendem mediante regras. acompanhado e interpretado. conversando com eles. acompanhar e interpretar a evolução do seu grafismo. em ambiente desestimulante. Cabe ao educador motivá-la para a leitura e a escrita. mas busque o verdadeiro sentido do que diz/escreve O processo de alfabetização deve ter conteúdos reais e próximos da criança. construindo conhecimentos novos mediante conceitos. deve ser um espaço acolhedor e estimulante. lançar desafios. em que exista uma rotina diária que favoreça a organização das atividades individuais e grupais Um ambiente no qual se possibilite ao aluno ler e escrever não para a escola. levar a criança a reformular idéias anteriores. um espaço natural. educador. idéias. realizar um trabalho de forma cooperativa. observando seus comportamentos. Não se pode esquecer da relação afetiva: educador e educando precisam ser amigos. os alunos aprendem (ou tentam conviver com) uma realidade escolarizada. com eventos de leitura e escrita. mas por tentativa experimental.

se apenas se fizer texto livre. cartazes e outros materiais e. mas ouvia atenta a fala dos coleguinhas Logo que conheceu algumas palavras. mas que agradavam bastante. não gostava de se expressar em voz alta. comunicados e conferências. Deve colocar à disposição deles todos os recursos necessários para que aprendam. temos de nos aproximar muito delas. • redigir. ”Se esta atividade de expressão criadora motivada pudesse ser representada na vida escolar. Por intermédio do trabalho com textos. 1977a. com o auxílio das experiências e das tentativas de sucesso. 199 O professor deve ter clareza do cotidiano da aprendizagem de seus alunos para saber onde e como intervir a fim de que avancem na direção desejada. se apenas se fizer um texto livre sem repercussões escolares e extra-escolares. a orientação do professor. muito curtos. visando a melhorá-la. Não funciona senão a 50%. e eliminar bloqueios. • registrar no livro da vida os acontecimentos mais importantes. A rotina de uma sala de aula Freinet consiste em levar a criança a. Não dará mais que 5%. trabalhando a gramática em conjunto.” FREINET. aluna de Freinet. a criança tem oportunidade de exprimir os pensamentos que dominam sua vida. A organização do tempo e do espaço. traçado individualmente. começou a escrever seus próprios textos. se se fizer texto livre sem tipografia. eles nasciam espontâneos e dispensavam correção coletiva. O erro é visto de forma construtiva. sem correspondência e sem jornal. p 288 200 Como transmitir aos alunos a varinha mágica que nós próprios perdemos? Deixando emergir nossas reações profundas e não somente intelectuais. Só funciona a 20%. Cabe a ele ajudar a criança a refletir sobre sua escrita. Freinet conferia grande importância à poesia. todos esses recursos devem estar a serviço da aprendizagem efetiva. • ler os textos e cartas recebidas dos correspondentes. textos para serem comunicados e conferências. corrigido pela criança. Vejamos três deles: . • rever e aperfeiçoar o texto selecionado para ser impresso. FREINET. uma menina de 5 anos e meio. Nady. as que vibram em nosso ser como batidas de coração. Para entender a criança. • escrever aos correspondentes. a disponibilidade de livros. sobretudo. detectar-lhe as tendências poéticas. • escrever textos livres para ler durante as aulas e selecionar alguns para serem impressos. o mecanismo de aprendizagem natural funcionaria a 100%. de acordo com o plano de trabalho semanal. mapas. p 283 A sensibilidade das crianças dará harmonia às frases e ao texto todo. dizendo que ”uma classe onde não floresce a poesia é uma aula onde o professor não conseguiu ainda libertar-se”. desenvolvendo neles a consciência dos progressos feitos em relação às situações anteriores. 1977a.suas dificuldades.

/ lua de prata. / noite negra e azul. se quisermos modificá-la A elaboração e o desenvolvimento do conhecimento estão ligados ao processo de conscientização que condiciona pensamento e ação./o meu texto é pequenino. pp. beau. aproximar a criança da realidade para ./Belo. Noite / Noite bonita / noite azul e negra / estrelas de ouro. lune d’argent. lune d’argent. Ob! Qu’ils sont pauvres dans Ia pluie et dans lê vent. Je me cache et je dors sous le ciei bleue et noir de Ia nuit noire et bleue. étoiles d’or. e é preciso responder de forma original. Beau. 294-295. 201 Não existem receitas ou modelos A realidade nos desafia a cada momento. Belo. FREIRE. Nuit mignonne. / Escondo-me e durmo / sob o céu azul e negro / da noite negra e azul. lune d’argent Nuit mignonne./Se fosse ande/seria feio. mon texte est tout petit. S’il ètait grand il serait laid.Les oiseaux Les oiseaux sont mignons Malheureux Comme des pauvres gens lis s’en vont vite. Beau. /Noite bonita. étoiles d’or. belo. belo. / estrelas de ouro. / Oh! Como eles são pobres/na chuva/ao vento.Ao educador cabe fornecer condições de trabalho e ação. Nuit mignonne. nuit noire et bleue. . /lua de prata. 1977a. Os pássaros / Os pássaros são bonitos / Infelizes /Como gente pobre / Depressa se vão embora. Nuit Nuit mignonne nuit bleue et noire étoiles d’or. beau./ Noite bonita.

ritmo e tempo.p 11. Para Decroly. transcendendo a simples esfera da apreensão Para Rousseau. pensar e proceder. apresenta diferenças. realiza. A alfabetização passa a ser um processo que se inicia muito antes da entrada na escola — processo que. nos diz Paulo Freire. O ambiente alfabetizador. 202 . Todos os nossos autores concordam em que. ”A leitura do mundo precede a leitura da palavra. ao fornecer elementos estimulantes. progredir e tornarse autônomas. livre para querer. Não há possibilidade de alfabetização sem relação escritamundo. em conseqüência.desvelá-la e criticá-la. todas as crianças são capazes de conhecer. cria. evidentemente. Quando a criança é estimulada por materiais escritos. conhecimentos do mundo. a criança possui os germes do próprio desenvolvimento e realização Quando motivada e orientada. ela constrói conhecimentos sobre a escrita e a leitura e. age. disciplina-se sozinha. cada uma a seu modo. sentir. mais que do desejo ou intenção das pessoas que com ela convivem. pois depende do ambiente social em que a criança vive. 1985. desafia o sujeito a pensar sobre a língua escrita como sistema de representação de significados contextuais. reconstruí-la e reinventá-la. daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele”. FREIRE. escrita-contexto. é uma individualidade — o que exige um trabalho diferenciado Todos aprendem com ritmo e estímulos diferentes Para Freinet. é um ser concreto e real. a criança tem a sua própria história.

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