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Hegemonia e Revolução Passiva:

Conceitos de Gramsci e História do Brasil Republicano


Marcelo Badaró Mattos (UFF)
V Simpósio Nacional Estado e Poder: Hegemonia.

Parto do princípio de que o melhor parâmetro para avaliar a importância de um autor no


campo do marxismo foi-nos dado pelo próprio Marx, em sua 11a. Tese sobre Feuerbach, quando
afirma que: “Os filósofos tem apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes: a questão,
porém, é transformá-lo.” (MARX, 1982, 3)
Digo isso não para louvar acriticamente a militância ou para desqualificar a reflexão
universitária séria, mas para valorizar as relativas atualidade e universalidade de conceitos e
propostas a partir de um critério da práxis: tais conceitos e propostas continuam fazendo sentido
para entender o Brasil e o mundo de hoje?; e, além disso, continuam sendo instrumentos úteis a
uma intervenção que se pretende transformadora?
Neste sentido é que defendo a atualidade e a universalidade relativas das reflexões de
Antonio Gramsci, que muito propriamente costumava chamar o marxismo de filosofia da práxis.
Entendo que o Brasil e o mundo de hoje podem ser mais inteligentemente analisados se fizermos
uso do instrumental de categorias formuladas ou desenvolvidas por Gramsci, assim como
defendo que suas propostas estratégicas continuam sendo relevantes para os que se posicionam
pela necessidade de e buscam criar as condições para revolucionar o mundo.
Este texto é parte de uma reflexão maior sobre essa dupla dimensão da herança de
Gramsci (Gramsci para entender a sociedade em que vivemos e Gramsci para revolucioná-la), a
partir de alguns conceitos fundamentais por ele apresentados e/ou desenvolvidos (como os de
hegemonia, Estado integral, revolução passiva, classes e luta de classes/correlação de forças,
cultura/nacional popular/senso comum, partido, conselho). Como a maioria dos leitores de
Gramsci, parto da compreensão de que o conceito de hegemonia pode fornecer o nexo
articulador desse conjunto de instrumentos analíticos. Aqui, centro a análise nas formulações de
Gramsci sobre Estado e revolução passiva, em suas conexões com o conceito de hegemonia, e a
partir dele compreendendo as elaborações gramscianas sobre classes sociais e cultura, tentando
localizar sua utilidade para a compreensão dos processos históricos no Brasil.

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Gramsci para entender a sociedade em que vivemos
A - Estado integral e hegemonia

O ponto de partida para uma avaliação do alcance analítico e político das reflexões de
Antonio Gramsci deve ser a sua concepção de Estado integral (mais freqüentemente chamado de
ampliado), desenvolvida com vistas a melhor compreender as formas atuais (em relação à
atualidade de Gramsci e, defendo eu, à nossa) da dominação de classe.
Há muita polêmica em torno das interpretações dos usos de “sociedade civil”, “sociedade
política” e Estado em Gramsci. Muito sinteticamente posiciono-me com Guido Liguori que
afirma que o conceito de sociedade civil em Gramsci é utilizado de forma distinta tanto da noção
tal como aplicada por Hegel (como um “sistema de carecimentos”), quanto por Marx (como a
“estrutura”). Para o revolucionário sardo, o processo de ampliação do Estado – iniciado após
1848 e aprofundado com a expansão imperialista do fim do século XIX – é marcado pelo “nexo
dialético de unidade-distinção” entre o exercício da direção hegemônica desde a sociedade civil e
o exercício da dominação, da qual nunca se descarta uma dimensão coercitiva, através do
controle da sociedade política.(LIGUORI, 2007) Parto pois da constatação de que sua concepção
integral de Estado buscou dar conta da compreensão de como as classes dominantes organizam
seus interesses, nas sociedades complexas em que vivemos, de modo a exercerem sua dominação
da forma a mais ampla possível.
Assim, tais classes dominantes não apenas monopolizam agências de governo para
garantir seus interesses (embora o façam), mas para tanto, antes já se organizaram em espaços da
sociedade civil – associações, sindicatos, clubes, ongs, fundações privadas, etc. – onde
fortalecem os laços de unidade entre os que defendem suas propostas, difundem/propagandeiam
essas propostas como de interesse geral (nacional, de todos, dos cidadãos, etc) e a partir daí,
estabelecem consensos, que muitas vezes incluem setores dominados que aceitam tais propostas
como se suas fossem.
Esta é a plataforma de força para que esses projetos alcancem a sociedade política (ou
Estado no sentido mais restrito), para serem executados como políticas públicas que se
apresentam como atendendo a interesses gerais. Isso sem abrir mão dos instrumentos coercitivos
de que dispõe esse Estado, para reprimir os descontentes e manter sob controle o conjunto dos
dominados. O Estado, em seu sentido ampliado, é assim concebido, como ele afirma no Caderno
13, a partir da “dupla perspectiva”, teoricamente sintetizada nos pólos fundamentais: “da força e
do consenso, da autoridade e da hegemonia, da violência e da civilidade...” (GRAMSCI, 2000,
33)

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A Gramsci atribuímos um salto na análise das relações de dominação nas sociedades
capitalistas contemporâneas, por conta desta – muitas vezes empregada de forma pouco afim ao
seu texto – noção de hegemonia. No interior daquela dialética unidade-distinção que caracteriza
as reflexões dos Cadernos, o conceito de hegemonia aparece não apenas como sinônimo de
consenso, mas como a “combinação da força e do consenso, que se equilibram de modo variado,
sem que a força suplante em muito o consenso, mas, ao contrário, tentando fazer com que a forca
pareça apoiada no consenso da maioria, expresso pelos chamados ‘órgãos de opinião pública
a'...”. (idem, 95)
Uma concepção que começa a ganhar seus contornos mais precisos por volta do início
dos anos 1930, como se percebe pela evolução da redação dos Cadernos do Cárcere, ou pela
afirmação contida na carta de setembro de 1931, enviada para Tatiana Schucht , na qual Gramsci
afirma que o estudo sobre os intelectuais que tentava fazer teria escopo muito amplo:

“Este estudo também leva a certas determinações do conceito de Estado, que,


habitualmente, é entendido como a sociedade política (ou ditadura, ou aparelho
coercitivo, para moldar a massa popular segundo o tipo de produção e a
economia de um dado momento), e não como um equilíbrio da sociedade
política com a sociedade civil (ou hegemonia de um grupo social sobre toda a
sociedade nacional, exercida através das organizações ditas privadas, como a
Igreja, os sindicatos, as escolas, etc.)...”. (GRAMSCI, 2005, 84)

Antes de avançar, porém, cabem duas notas de teor metodológico. Gramsci é um


marxista que recusa a fossilização dos conceitos ou sua imposição à realidade histórica. Para ele,
suas observações teóricas não deviam “ser concebidas como esquemas rígidos, mas apenas como
critérios práticos de interpretação histórica e política. Nas análises concretas dos eventos reais, as
formas históricas são determinadas e quase ‘únicas’” (idem, 67)
Outra observação importante diz respeito ao fato de que os pares conceituais empregados
por Gramsci – Ocidente e Oriente, sociedade civil e sociedade política; consenso e coerção,
direção e domínio, entre outros – não se apresentam jamais como mutuamente excludentes, pois
“cada termo das díades de Gramsci (...) pressupõe o outro, de tal modo que o emprego de um
depende do emprego do outro. Desse modo, o problema reside na determinação empírica da
proporção, peso e valor de cada elemento da díade no contexto de uma situação histórica
concreta.” (FONTANA, 2003, 119-120) Ou seja, essa fina determinação empírica das
proporções em que cada face das díades se manifestam em cada situação histórica “determinada
e quase única” é o principal desafio do historiador desconfiado dos modelos rígidos ao empregar
o arsenal conceitual de Gramsci em suas análises.
E esse alerta deveria ser particularmente importante para nós, a partir do lugar de onde

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falamos, pois pensar a realidade brasileira no último século, de construção da sociedade
capitalista, não é necessariamente pensar num quadro de dominação exercida por uma
hegemonia plena de uma determinada classe ou frações de classe dominante. Por isso, um
conceito útil, se respeitarmos os limites da metodologia de análise que ele propõe e dos
processos históricos “quase únicos” a partir dos quais foi formulado, é o de revolução passiva.

B - Hegemonia e Revolução Passiva

Num país como o Brasil, atrasado e periférico no quadro do capitalismo global, em que a
introdução das relações capitalistas se deu de forma subordinada aos interesses imperialistas das
nações de desenvolvimento industrial mais antigo, as mudanças de conteúdo modernizante
vieram, no mais das vezes, circunscritas por um quadro político em que os mecanismos de força
do Estado eram hipertrofiados (ou seja, fizemos modernizações econômicas aceleradas em
contextos de ditaduras abertas), pois que as classes dominantes locais, não estiveram dispostas a
arriscar-se diante da ameaça dos movimentos dos dominados.
A idéia de Gramsci, pensada a partir da Itália do século XIX, de uma revolução passiva,
ou revolução restauração, é bastante útil, neste sentido, para pensarmos a realidade brasileira,
como perceberam diferentes autores, como Coutinho (2003) e Aggio (2003). Sempre
comparando o caso Italiano, em que a Unificação se deu a partir da direção imposta pelo Partido
Moderado (e pelo Reino de Piemonte) sobre os setores mais radicais do Partido da Ação – sem
um recurso à mobilização das massas pelo temor da ação política das classes subalternas –, com
a Revolução Francesa, em que a vanguarda da burguesia, os jacobinos, mobilizou as massas
trabalhadoras para revolucionariamente superar as forças do Antigo Regime, Gramsci demonstra
como a revolução passiva, ou revolução restauração, é um processo em que a ruptura com o
antigo regime, a aristocracia, os grandes latifundiários e as instituições políticas a eles ligadas, é
parcial, limitada.
No caso italiano, a burguesia do norte do país se recusou a assumir um papel dirigente a
partir de um projeto nacional (ou limitou-se a dirigir as demais frações da classe dominante),
mas valorizou o papel de dominação que o Estado pode lhe conferir, através de seus mecanismos
de força. Na ausência de um projeto burguês de revolução (embora não de um projeto burguês de
avanço do capitalismo), é o Estado que assumirá uma posição dirigente sobre o conjunto da
sociedade. Tratando do Reino de Piemonte e de sua função no processo da unificação Italiana,
Gramsci nos fala do Estado nas revoluções passivas:

“Um Estado [que] substitui os grupos sociais locais, ao dirigir uma luta de

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renovação. É um dos casos em que esses grupos tem função de ‘domínio’, e
não de ‘direção’: ditadura sem hegemonia. A hegemonia será de uma parte do
grupo social sobre todo o grupo, não deste sobre outras forças para fortalecer o
movimento, radicalizá-lo, etc., segundo o modelo jacobino” (Caderno 15, vol.
5, p. 330)

Notas sem dúvida bastante úteis para se pensar a trajetória republicana brasileira.
Analisando, por exemplo, como desde a Primeira República há um elevado grau de organização
na sociedade civil das diferentes frações da classe dominante rural no Brasil. Nesse processo
podemos localizar os passos iniciais de um processo de complexificação do Estado (em seu
sentido integral), na busca de uma hegemonia “sobre todo o grupo”, de forma a exercer seu
domínio. (MENDONÇA, 1997)
Notas úteis também para pensar como, durante a chamada era Vargas, diferentes frações
das classes dominantes brasileiras apostaram no fortalecimento do Estado e em torno dele
pactuaram a garantia de seus interesses específicos, bem como o acordo geral em conter as
mobilizações dos subalternos.
Algo que ajudaria a entender ainda como, por uma lado, no início dos anos 1960, aquela
que se constituiu como fração hegemônica – a grande burguesia industrial associada ao capital
estrangeiro – das classes dominantes não se encontra satisfeita com as bases do pacto de
dominação anterior e, por outro lado, o avanço das mobilizações das classes subalternas cimenta
um novo pacto intra classes dominantes em torno da proposta de ruptura institucional e
instalação da ditadura empresarial-militar. Naquela quadra, revelava-se o alto grau de
organização da sociedade civil e o enorme empenho da fração dominante em estabelecer sua
hegemonia no interior das classes dominantes e, em grande medida, também sobre setores
dominados (pois que a dimensão do consenso permanece presente mesmo nos quadros em que a
saída da força é empregada). (DREIFFUS, 1981) Mas, uma organização na sociedade civil e a
elaboração de um projeto hegemônico moldados para construir uma forma de dominação em que
no par consenso-coerção a segunda face seria dominante.
Ou seja, tanto em 1930 quanto em 1964, a despeito do avanço das classes dominantes em
construírem na sociedade civil os aparelhos necessários à moldagem de consensos, teríamos
assistido a situações de crise orgânica, ou crise de hegemonia:

"que ocorre ou por que a classe dirigente fracassou em algum grande


empreendimento político para o qual pediu ou impôs pela força o consenso
das grandes massas (...), ou porque amplas massas (...) passaram subitamente
da passividade política para a atividade e apresentam reivindicações que, em
seu conjunto desorganizado, constituem uma revolução". (GRAMSCI, 2000,
60)

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E situações desse tipo, como também alerta Gramsci, abrem “o campo às soluções de
força”, que muitas vezes podem significar a “atividade de potências ocultas representadas pelos
homens providenciais e carismáticos” (idem, ibidem). Assim, o processo que atravessa 1930
pode ser lido como uma crise de hegemonia que não encontrou “solução orgânica” – unificação
dos vários partidos sobre um só representando e sintetizando melhor as necessidades de toda a
classe –, mas sim a saída do chefe carismático, o que significa falar de um equilíbrio em que
“nenhum grupo, nem o conservador nem o progressista, dispõe da força necessária para vencer e
até o grupo conservador tem necessidade de um senhor.”(GRAMSCI, 2000, 61) Entramos aí no
terreno do bonapartismo, com Vargas em 1930, mas em grande medida também com o Exército
em 1964.
Porém, a díade dominação hegemônica-revolução passiva também pode nos auxiliar a
entender o processo de disputa pela hegemonia, de luta de classes enfim, entre aqueles dois
momentos, particularmente entre 1945-1964. Naquelas duas décadas, viveu-se a contradição
entre a emergência política das massas trabalhadoras urbanas, limitadas pelo esforço de controle
exercido por políticos interessados em seu voto e, portanto, de propostas voltadas para um
projeto modernizador ancorado na idéia da conciliação de classes. É precisamente a
ultrapassagem na prática, pelas mobilizações dos subalternos, dos limites colocados por essas
propostas que instaura a crise. As noções de populismo e crise do populismo foram empregadas
justamente para tentar dar conta dessa contradição. Embora as idéias de “manipulação” das
massas, ou “passividade” da classe trabalhadora, associadas à noção de populismo, devam ser
rejeitadas, pouco úteis parecem ser as tentativas de superar seu emprego pela desconsideração da
dimensão de conflito e da contradição de classes que a noção pretendia explicar. Daí o limite de
concepções como as que entendem o papel do Estado naquele período como o de um efetivo
representante de aspirações da classe trabalhadora, sublimando a dominação para apresentar
“uma relação, em que as partes, Estado e classe trabalhadora, identificaram interesses comuns.”
(FERREIRA, 2001, 103)
De forma mais profícua, pode-se pensar a partir de Gramsci que a situação histórica que a
categoria populismo tenta apreender é em grande medida advinda do instável equilíbrio entre o
projeto hegemônico da(s) classe(s) dominante(s) e os interesses dos dominados que tal projeto
afirma representar. Algo que Gramsci abordou, ao tratar das relações de forças políticas e
abordar as situações em que se cria “a hegemonia de um grupo social fundamental sobre uma
série de grupos subordinados”:

“O Estado é certamente concebido como organismo próprio de um grupo,


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destinado a criar as condições favoráveis à expansão máxima desse grupo, mas
este desenvolvimento e esta expansão são concebidos e apresentados como a
força motriz de uma expansão universal, de um desenvolvimento de todas as
energias ´nacionais`, isto é, o grupo dominante é coordenado concretamente
com os interesses gerais dos grupos subordinados e a vida estatal é concebida
como uma contínua formação e superação de equilíbrios instáveis (no âmbito
da lei) entre os interesses do grupo fundamental e os interesses dos grupos
subordinados, equilíbrios em que os interesses do grupo dominante
prevalecem, mas até um determinado ponto (...).”(Idem, 42-43)

Dito de outra forma, para Gramsci, as relações de dominação numa sociedade complexa,
implicam concessões da(s) classe(s) dominante(s) aos trabalhadores, o que não significa que a
dominação deixe de se efetivar ou que, através do Estado, seja possível atender aos interesses
fundamentais da classe trabalhadora, pois as concessões têm limites reais muito claros:
“O fato da hegemonia pressupõe indubitavelmente que sejam levados em
conta os interesses e as tendências dos grupos sobre os quais a hegemonia será
exercida, que se forme um certo equilíbrio de compromisso, isso é, que o
grupo dirigente faça sacrifícios de ordem econômico-corporativa; mas
também é indubitável que tais sacrifícios e tal compromisso não podem
envolver o essencial, dado que, se a hegemonia é ético-política, não pode
deixar de ser também econômica, não pode deixar de ter seu fundamento na
função decisiva que o grupo dirigente exerce no núcleo decisivo da atividade
econômica.” (Idem, 48)

Assim, também podemos refletir que, ainda que o Estado seja hipertrofiado em processos
de revolução passiva, ele jamais perde seu conteúdo de classe. Afinal, Gramsci, como pensador
revolucionário da tradição crítica do materialismo histórico, atribuiu centralidade em seu
entendimento do social aos conceitos de classe e luta de classes.

C - Hegemonia, ocidentalização e protagonismo (?) da sociedade civil – o lugar da luta de


classes

Vivemos uma época em que tanto os sujeitos sociais encontram dificuldades para a
construção de sua unidade organizativa e de intervenção em termos classistas, quanto as ciências
sociais de uma forma geral parecem secundarizar ou mesmo negar a validade analítica dos
conceitos de classe sociais e luta de classes. Neste quadro, mesmo leitores de Gramsci podem
tentam apreender suas propostas a partir de uma ótica que subestima o peso que o
revolucionário sardo atribuiu às classes e à luta de classes em suas análises.
É o caso das propostas que tendem a dicotomizar os conceitos de sociedade civil e
Estado, para construir, com gradações diferentes, uma imagem de valorização positiva da
sociedade civil, como território da construção dos consensos, em relação ao Estado, espaço do
exercício da coerção. Esse viés interpretativo torna-se particularmente sensível em situações

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históricas de superação de regimes ditatoriais, como o Brasil da redemocratização dos anos 1980.
As diferentes gradações dessa matriz não podem ser tratadas sem as devidas nuances.
Assim é que, sem em nenhum momento questionar a luta de classes, Carlos Nelson Coutinho
apresenta o quadro geral da história brasileira, desde o Império até os anos 1970, como
dominantemente “oriental”, pois, como resultado da trajetória da revolução-passiva entre nós,
apesar de traços ocidentalizantes visíveis desde a virada do século XIX, “não só a sociedade civil
brasileira era até pouco tempo 'primitiva e gelatinosa', mas também (...) o Estado (...) foi sempre
bastante forte”. (COUTINHO, 2003,212)
Daí que o resultado da “modernização conservadora” promovida pela ditadura militar,
inscrevendo o Brasil na fase do capitalismo monopolista, portaria a contradição de um avanço no
processo de ocidentalização pós-década de 1970, visto que a perda das bases de consenso (um
consenso passivo conforme destaca Coutinho) da ditadura criou o espaço para que “os aparelhos
da sociedade civil pude[ssem] de novo voltar à luz, hegemonizados agora por um amplo arco de
forças antiditatoriais, que ia da esquerda socialista aos conservadores esclarecidos” (idem, 217)
O pressuposto desse tipo de avaliação parece ser uma associação imediata entre emergência da
sociedade civil e ampliação da organização das massas trabalhadoras, expressa, por exemplo, na
perspectiva de que ainda resta um longo caminho a percorrer em direção à socialização da
política no Brasil, “para construir um efetivo protagonismo das massas, capaz de consolidar
definitivamente a sociedade civil brasileira como protagonista de nossa esfera pública.” (idem,
217)
Pode-se questionar tal análise por deixar à margem da explicação a efetiva e bastante
antiga organização dos interesses das classes dominantes na sociedade civil brasileira. Neste
sentido, ainda que sob a lógica geral de um processo de revolução passiva, ou seja, de uma
valorização da iniciativa estatal para operar as mudanças preservando a ordem (e, portanto,
reprimindo a organização e mobilização das classes subalternas), as classes dominantes
investiram e muito em suas associações de classe, órgãos de construção da chamada “opinião
pública” e na constituição das bases para o consenso ativo no interior do bloco dominante, assim
como para o consenso (predominantemente passivo, mas em certos momentos com algum grau
de atividade) dos subalternos. Trata-se, mais uma vez, como sempre, de tentar dosar o peso
específico em que as díades de Gramsci podem ser empregadas para a “análise concreta de
eventos reais”.
Embora partindo de marcos cronológicos e pressupostos de leitura de Gramsci
semelhantes, outro sentido político e analítico parecem ter as avaliações de Evelina Dagnino,
(2003) para quem o instrumental conceitual de Gramsci também é fundamental para analisar o

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Brasil contemporâneo, mas para explicar um avanço da cidadania e da democracia, a partir de
parâmetros teóricos que resgatam a centralidade da dimensão cultural dos processos sociais.
Muito embora ciente da inexatidão das concepções que dicotomizam em Gramsci as dimensões
da sociedade civil e do Estado, a leitura de Dagnino procura enfatizar que a “emergência da
sociedade civil” no processo de redemocratização – por ela associado aos movimentos sociais
dos subalternos (tratados quase como se estivessem sozinhos na arena da sociedade civil) –
gerou não uma recusa ao Estado, mas uma reivindicação de transformação da institucionalidade
política, através da sua democratização (entendida como ampliação da cidadania a partir da
instauração de novos direitos).
Ainda que de forma pouco explícita, o resultado dessa perspectiva é a diluição do sentido
de classe dos movimentos e organizações com origem classista. Em suas palavras, o projeto de
hegemonia da “esquerda” – num contexto em que os movimentos sociais buscam reverter a
“cultura autoritária” e democratizar não apenas as instituições políticas, mas principalmente a
“sociedade” – passa a ser o da construção da democracia: “Essa nova postura em face das
relações entre cultura e política esteve, como já foi mencionado, inteiramente ligada ao
surgimento da construção hegemônica da democracia como projeto da esquerda.” (idem, 77)
Este tipo de concepção reintroduz pela porta dos fundos a dicotomização Estado-
sociedade civil que parecia ter expulsado pela porta da frente, e o faz justamente porque retira a
centralidade da luta de classes, da dimensão conflitual que caracteriza a perspectiva ampliada do
conceito de Estado em Gramsci. Uma dimensão que inclui a sociedade civil como lócus da luta
de classes e, numa sociedade dominada pelos representantes do capital, como espaço em que se
constrói a dominação. Maior ocidentalização – no sentido de sociedade civil mais forte – está
distante de ser sinônimo de maior protagonismo dos subalternos, segundo os parâmetros de
Gramsci. Afinal, como bem aponta Liguori, na visão de Gramsci:

“a sociedade civil é uma arena privilegiada da luta de classes, uma esfera do


ser social em que se dá uma intensa luta pela hegemonia e, precisamente por
isso, não é o 'outro' em relação ao Estado, mas – junto com a sociedade
política, isto é, o 'Estado-coerção' – um dos seus inelimináveis momentos
constitutivos. Para Gramsci, nem tudo que parte da sociedade civil é bom (nela
não prevalece a 'lei da selva'?) e nem tudo que vem do Estado é mau (ele pode
expressar instâncias universais que se originam na luta das classes subalternas,
pode servir de barreira contra as forças abusivas dos 'poderes fortes', pode ser
instrumento capaz de redistribuir recursos segundo critérios de justiça). Só uma
análise histórico-concreta das relações de força presentes em cada momento
pode definir, da perspectiva das classes subalternas, às quais Gramsci jamais
deixou de se referir, a função e as potencialidades positivas ou negativas tanto
da sociedade civil quanto do Estado.” (LIGUORI, 2007, 54)

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É interessante notar que, também com nuances sensíveis, há um ponto comum entre as
interpretações que anulam o conflito e a dominação nas relações entre Estado e trabalhadores no
pós-1945 (rejeitando as categorias de Gramsci a partir de uma proposital confusão entre a a díade
consenso e coerção de sua análise com um raciocínio dicotômico entre repressão e persuasão),
quanto aquelas que valorizam positivamente Gramsci, mas para afirmar uma suposta emergência
da sociedade civil, acompanhada de uma luta por um projeto hegemônico de democracia via
ampliação da cidadania, no período da última redemocratização brasileira. Trata-se da ênfase na
importância da “cultura popular”.
Tal ênfase pode aparecer através de um apelo genérico à contribuição de autores como
Carlo Ginzburg e Roger Chartier para traçar a equivalência entre as visões de mundo da classe
trabalhadora e a noção de cultura popular:

“Os trabalhadores, os camponeses e as pessoas comuns também produzem suas


próprias crenças, valores e códigos comportamentais, o que, no conjunto,
convencionamos chamar de cultura popular. Carlo Ginzburg, por exemplo,
sugeriu o conceito de circularidade cultural e demonstrou (...) que as idéias
não são produzidas e impostas, sem mediações, de cima para baixo. (...) as
idéias, longe de serem instituídas por um grupo e disseminadas por toda a
sociedade, circulam e, como defende Roger Chartier, as camadas populares se
apropriam das mensagens dominantes, dando-lhes novos e diferentes
significados.” (Ferreira, 2001, 98)

Ou ainda como uma análise mais nuançada que, embora criticando a positivação acrítica
da “voz do povo”, acentua a substituição de um paradigma que definia no negativo a
subjetividade coletiva dos subalternos, envolvida pela ideologia dominante, por uma visão mais
positiva da cultura popular: “A negatividade implícita na análise marxista tradicional foi
substituída por uma visão positiva que enfatiza a autonomia criativa, a capacidade de
reelaboração simbólica e a negociação, como traços das práticas culturais dos setores
subalternos.” (Dagnino, 2000, 76)

D - Hegemonia, cultura e classe

Gramsci possui chaves interessantíssimas para fugirmos a debates dicotômicos entre


cultura popular e cultura das elites, sem cairmos na saída fácil de que ambas possuem níveis
relativos de autonomia e entre elas há ampla e livre circularidade. Pelo contrário, para o marxista
sardo, a definição de uma assim chamada cultura popular passa por um conteúdo classista, dado
o caráter dual adquirido pelo sentido do “nacional-popular” em suas reflexões. De um lado, o
“povo” é uma categoria construída pelas classes dominantes, em seu esforço de construção dos

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Estados Nacionais, como um ente homogêneo e como justificativa final para a unidade e o
domínio constituídos por esses Estados. Para que tal construção seja efetiva, quer dizer, seja
incorporada pelos de baixo como verdadeira em grande medida, é preciso que os intelectuais
organicamente vinculados às classes dominantes e os que gravitam em torno de sua órbita de
influência compartilhem, elaborem, revivam e se apropriem dos sentimentos populares, criando
o cimento da dominação hegemônica. Mas, o povo é também pensado como o “conjunto das
classes subalternas e instrumentais de toda forma de sociedade que existiu até agora”, e não
apenas como invenção do projeto de dominação que se quer hegemônico. (GRAMSCI, 2002,
134)
Tal análise da situação italiana é feita por Gramsci não para reclamar nostalgicamente a
falta de um “bloco nacional intelectual e moral hierárquico”, ou seja, construído pelos
dominantes para cimentar sua dominação elevando-a a um patamar de direção, mas sim para
apontar a necessidade de efetivação de uma outra “reforma intelectual e moral”, que produza
uma “vontade coletiva nacional-popular” de sentido “igualitário”, cujos protagonistas serão os
próprios populares (as classes subalternas, tendo a frente a classe operária organizada em seu
partido).(GRAMSCI, 2000, 16-19)
Portanto, neste sentido gramsciano, o povo é explicado em termos classistas e, a luta por
um novo projeto nacional-popular protagonizado pela classe operária é, em si, a manifestação em
território nacional da dimensão internacional da luta histórica dessa classe pelo socialismo.
E a “cultura do povo”, base sobre a qual se constrói a hegemonia das classes dominantes,
mas que também deverá ser, necessariamente, o espaço para a construção de uma consciência de
classe contra-hegemônica, é pensada a partir de um outro conceito fundamental e de extrema
atualidade para avaliar-se os limites da consciência do “homem massa”, ainda mais se tivermos
em conta o peso da indústria cultural nos dias de hoje. Trata-se do conceito de senso comum. O
projeto emancipatório de Gramsci – a construção de uma nova vontade nacional-popular
transformadora (através da reforma intelectual e moral conduzida pelas classes subalternas, com
o protagonismo da classe operária, por meio do partido e dos intelectuais que dela surgem) –
dependerá, fundamentalmente, da capacidade da filosofia da práxis apresentar-se como crítica e
superação do senso comum de uma época. Este é definido, em termos negativos, como oposto ao
“senso crítico” (uma filosofia, no sentido de concepção autônoma de mundo). O senso comum
aparece, pois, como um amálgama de “características difusas e dispersas de um pensamento
genérico de uma certa época em um certo ambiente popular”. (GRAMSCI, 1999, 101) Mas
também existe, no senso comum, um “núcleo sadio”, “que merece ser desenvolvido e
transformado em algo unitário e coerente”. (Idem, 98) Por isso, a superação crítica do senso

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comum pela filosofia da práxis deve “basear-se sobre o senso comum para demonstrar que
‘todos’ são filósofos e que não se trata de introduzir ex novo uma ciência na vida individual de
‘todos’, mas de inovar e tornar ‘crítica’ uma atividade já existente”. (Idem, 101)
Retomamos, assim, ao argumento inicial desta intervenção. Não há como avaliar a
importância da contribuição teórico-analítica de Antonio Gramsci separando-a da dimensão
política de intervenção estratégica que norteia toda a sua análise. Assim, o Estado ampliado e a
hegemonia; as dimensões históricas específicas assumidas pela revolução burguesa em processos
de revolução passiva; bem como a dinâmica conflituosa de classes que se percebe até mesmo nas
práticas culturais, tudo isso é avaliado por Gramsci a partir de seu papel nas formas
contemporâneas de exercício da dominação. Tal avaliação serve não apenas para que Gramsci
interprete o mundo de uma maneira que desenvolve e avança em relação às proposições de Marx
e Engels, mas também para que ele atualize, diante dos novos desafios da complexificação da
realidade histórica da dominação capitalista, a perspectiva de intervenção revolucionária que
nutriu aqueles dois comunistas do século XIX.

Referências bibliográficas:

AGGIO, Alberto. 2003. “A emergência das massas na política latino-americana e a teoria do


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