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Rio São Francisco referencial sobre a questão da transposição e revitalização

Rio São Francisco referencial sobre a questão da transposição e revitalização

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Trata-se de um referencial teórico, com inserção de diversos autores, sobre o tema proposto. Tendo por finalidade proporcionar um alicerce para uma pesquisa aprofundada sobre o tema.
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O rio São Francisco possui características que podem ser vinculadas

desde o séc. XVI, de propiciar a união de diferentes locais. De acordo com

Lins, o papel desempenhado pelo rio está vinculado a garantia de uma

unicidade do Estado. 1

Considerando que no Império se observou uma

consonância das elites quanto ao objetivo de manutenção da unidade territorial,

explica-se a reiterada afirmação e veiculação desta construção do rio São

Francisco em diversos textos referentes à história brasileira. Quando são

efetuadas análises sobre questões relacionadas a unidade territorial nacional

torna-se inevitável a associação com o ³Velho Chico´ . É um rio autenticamente

brasileiro, unindo cinco estados e percorrendo um total de 3.161 km do país, e

com um forte apelo de unicidade em consonância com a construção da própria

trajetória do rio. Sob um prisma de concepção de sua importância e relevância

na construção do Brasil, enquanto Estado, o rio São Francisco é lembrado

como ³aquele que une, liga e aproxima´.2

O rio São Francisco nasce no estado de Minas Gerais, na serra da

Canastra a uma altitude de 1.600 metros e desloca-se 2.700 km para o

Nordeste. O rio desloca-se, em grande parte no semi-árido do Nordeste, tendo

uma grande importância regional dos pontos de vista ecológico, econômico e

1

LINS, Wilson. O Médio São Francisco - uma sociedade de pastores e guerreiros, 3ª ed,
São Paulo: Ed.Nacional, 1983.

2

BRASIL, Vanessa M. O Rio São Francisco: a base física da unidade do Império. Revista

Mosaico,

v.1,

n.2,

p.133-142,

jul./dez.,

2008.

Disponível

em:

http://seer.ucg.br/index.php/mosaico/article/view/572/456. Acesso: 10/jun/2011

social. Atualmente, os grandes aproveitamentos hidrelétricos, a irrigação,

navegação, suprimento de água, pesca e aquicultura constituem os principais

usos deste rio e de suas barragens. A bacia hidrográfica do São Francisco tem,

aproximadamente 640.000 km, estende-se por regiões com climas úmidos,

semi-árido, e árido; a bacia pode ser subdividida em quatro principais sub-

bacias Alto, Médio, Sub-Médio e Baixo São Francisco. Muitos tributários do rio

São Francisco são perenes, bem como o próprio São Francisco. No Médio São

Francisco há tributários temporários na margem direita, onde predomina

também a caatinga como vegetação. Na parte mais baixa do médio São

Francisco a agricultura irrigada é predominantemente com fruticultura de

exportação e produção hortícola.

Os principais reservatórios do rio São Francisco, Sobradinho,

Itaparica, Paulo Afonso e Xingó produzem energia hidrelétrica e se

transformam em pólos regionais de desenvolvimento, com a intensificação de

usos múltiplos nos últimos 10 anos: aquacultura, irrigação, suprimento de água,

turismo e recreação, pesca comercial e pesca esportiva. Os dados para a

represa de Xingó, indicam um reservatório pouco eutrofizado, mas com

evidências claras de efeitos ambientais resultantes dos usos das bacias

hidrográficas, principalmente na qualidade da água.

A vegetação da bacia do baixo São Francisco é predominantemente

cerrado e Floresta Atlântica. O baixo São Francisco tem clima úmido, porém

com tributários que provêm do semi-árido. A descarga anual do rio São

Francisco é de 94.000.000 mil m3. O fluxo varia de 2.100 a 2.800 m3/s com

cerca de 3.000 m3/s próximo à foz. Estes fluxos são naturais, ocorrendo

atualmente regularizações através dos reservatórios, para otimização dos usos

das cheias.

O rio São Francisco tem uma enorme importância regional, e pode

ser considerado como um dos principais fatores de desenvolvimento no

Nordeste. Através de inúmeros planos de desenvolvimento, um conjunto de

idéias de grande porte foi sendo construído, de tal forma que um plano

integrado de desenvolvimento, envolvendo agências de governo federal,

governos estaduais, iniciativa privada foi gerado. Este plano, que incorpora

várias idéias e projetos anteriores, de acordo com Rebouças e Braga, essas

medidas propõem:

y avaliação permanente dos impactos;

y monitoramento e controle da qualidade das

águas;

y preparação de diagnósticos adequados;

y recuperação das matas de galeria;

y disciplinamento os usos da água;

y proteção ambiental da bacia;

y implementação de parques, reservas

florestais e áreas de proteção ambiental;

y articulação das atividades ambientais e

integração com os usos do sistema;

y ampliação do banco de dados hidrológico,

meteorológico, ecológico, sociólogo, geomorfológico e

econômico da bacia hidrográfica;

y estabelecimento de uma autoridade de

bacia hidrográfica para implantar os projetos;

y estudos detalhados integrados sobre o

projeto de transposição das águas do rio São Francisco,

e seu impacto na bacia e em outras bacias hidrográficas.3

3

REBOUÇAS, Aldo da C. e BRAGA, Benedito (Org.). Águas Doces no Brasil - Capital
Ecológico, Uso e Conservação. Escrituras: São Paulo - 2002.

2. TRANSPOSIÇÃO DO RIO SÃO FRANCISCO

2.1 Histórico da Transposição

No século XIX, os engenheiros do imperador Dom Pedro II já

sonhavam em utilizar as águas do São Francisco para combater os efeitos da

seca no sertão. Após a grande seca que vitimou 1,7 milhão de pessoas entre

1877 e 1879, os republicanos criaram uma inspetoria que produziu o mapa de

um canal que interligaria o rio São Francisco ao Jaguaribe. O assunto voltou à

tona em 1943, no Governo de Getúlio Vargas, com a criação do Departamento

Nacional de Obras contra a Seca (DNOCS). Em 1980, os técnicos do DNOCS

chegaram a elaborar um projeto de transposição em parceria com um

organismo norte-americano especializado em agricultura, irrigação, solos e

recursos hídricos. A idéia era captar 15% da vazão do Velho Chico.

A proposta mais consistente foi apresentada em 1983 pelo ministro

do Interior do Governo João Figueiredo, Mário Andreazza. Dez anos depois, no

Governo de Itamar Franco, o ministro da Integração Regional Aloísio Alves

tentou implantar o projeto. Esse estudo foi retomado em 1994 no primeiro

mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Foi grande o choque das entidades ambientalistas, de ribeirinhos,

pescadores e a comunidade científica ao ver o presidente Luiz Inácio Lula da

Silva, oriundo do movimento popular sindical e eleito com sustentação dos

movimentos sociais e ambientalista ressuscitar esse Projeto, amplamente

rejeitado, com nova maquiagem e nomenclatura.

2.2 Aspectos conflitantes sobre a transposição

O rio São Francisco é o único rio perene do semi-árido.

O Projeto de Transposição tem dimensões gigantescas. A

transposição do São Francisco, com seus 2.200 quilômetros de canais ± o que

dá um pouco mais que a distância de Aracaju a São Paulo ± e oito grandes

barragens, tem todo o enredo para se transformar na ³Transamazônica

Hídrica´. O impacto nocivo ao meio ambiente, ao invés de transformar o sertão

em mar, como propaga o Governo Federal, poderá nos deixar um grande

deserto, com milhares de quilômetros de canais de cimento espalhados pela

caatinga e a população necessitada sem uma gota sequer de água. E uma

gigantesca conta para ser paga por muitas gerações.

Essa obra cara e desnecessária é tecnicamente incapaz de resolver

a problemática da seca. Ela não beneficiará a população que mais sofre com o

período da estiagem. Da água que o governo quer transpor, 70% irá para

irrigação e 26% para o abastecimento de grandes cidades, restando 4% para o

consumo humano difuso, os incontáveis sertanejos que passam sede no meio

da caatinga.

A população potencialmente beneficiada não ultrapassaria 0,28% de

todos os habitantes do Semi-árido Brasileiro, em não mais que 5% dessa sub-

região. E a água será levada para onde mais tem, pois é a segunda região

mais açudada do mundo ± o Ceará é suprido por açudes em toda a sua

extensão.

Segundo o hidrólogo João Abner, professor da Universidade Federal

do Rio Grande do Norte, a água da transposição seria das mais caras do

mundo, inviabilizando qualquer projeto econômico que nela se baseasse, pois

chegaria entre o dobro e o quádruplo do que custa hoje às margens do São

Francisco ± R$ 0,023 por m³ ±, nos projetos de irrigação de Juazeiro e

Petrolina. No EIA/RIMA (Estudo de Impacto Ambiental ± Relatório de Impacto

Ambiental) o custo estimado é de R$ 0,11 por m³. ³Mas esse valor não

contempla os gastos com bombeamento das fontes de abastecimento até as

propriedades: se computados, podem chegar ao seu destino final a uma cifra

entre 4 a 7 centavos de real o m³´, calcula o professor.

³Contornar o problema só será possível com o sistema de subsídio

cruzado, mediante a conexão das águas transpostas em uma única rede de

distribuição, pelo que se cobrará de todos os consumidores, inclusive o

doméstico, a mesma taxa pelo serviço´, avalia João Abner. O Professor

esclarece que, inicialmente, caberá aos Governos Estaduais arcar com tais

subsídios ± por exemplo, cerca de 20 milhões de reais por ano só do governo

do Rio Grande do Norte.

O professor acredita que se água e irrigação fossem soluções, não

haveria seca nem fome a poucos quilômetros do rio São Francisco, nem tanta

insegurança em Juazeiro e Petrolina, ³Mecas da irrigação´, com índices de

violência entre os piores do interior do Nordeste. ³Ou repensamos o modelo de

Agricultura, de Desenvolvimento e de Sociedade, ou todas as tentativas de

solução serão, ao cabo, agravamento do problema´, diz.

2.3 Sobre a disponibilidade de recursos hídricos e energéticos

No Plano de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do São

Francisco, aprovado pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco,

consta que, de um total alocável de 360 m³/s, 335 m³/s já se encontram

outorgados, restando apenas 25 m³/s para os múltiplos usos, tanto na bacia

como externamente. Mas o Governo insiste em fazer o projeto para uma vazão

de 63 m3/s. Para isto, terá que cancelar as outorgas existentes e outros

investimentos que demandem água na Bacia.

O planejamento e a avaliação de disponibilidade hídrica deverão ser

feitos com dados reais de toda a bacia, computando-se os usos das águas

superficiais e subterrâneas. Nos estudos apresentados pelo Governo Federal

estão computadas apenas as captações outorgadas na calha do rio, tidas como

grandes consumos.

O Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco ± composto por 60

representantes dos governos nas três esferas, grandes usuários de água e

sociedade civil, reunido em 27 de outubro de 2004, em Salvador, Bahia,

aprovou o uso externo das águas, exclusivamente para abastecimento humano

e dessedentação animal, desde que seja comprovada a escassez nas regiões

receptoras, no entanto, vale ressaltar que o Projeto de Transposição foi

rejeitado por todas as audiências públicas e plenárias realizadas pelo Comitê

da Bacia Hidrográfica do São Francisco.

O São Francisco é responsável pela geração de mais 95% da

energia elétrica do Nordeste, mas seu potencial de uso já está no limite. Com a

implantação do projeto, provavelmente, haverá uma mudança na matriz

energética da região. Essa mudança, a princípio, visa atender as demandas

para funcionamento da infra-estrutura do projeto e das obras complementares,

as quais não poderão ser absorvidas pelo sistema hidrelétrico atual. Isto

resultará no aumento de custos, em grande impacto ambiental não apenas na

região do Nordeste Setentrional, mas em toda a bacia do São Francisco.

Segundo os especialistas João Abner, da Universidade Federal do

Rio Grande do Norte, e João Suassuna, Hidrólogo da Fundação Joaquim

Nabuco de Pernambuco, ao se analisar o Estudo de Impacto Ambiental ± EIA ±

apresentado pelo Ministério da Integração e em tramitação no IBAMA, conclui-

se que não existem déficits hídricos globais nos Estados do Nordeste

Setentrional. Os consumos prioritários urbanos (humano e industrial) e difusos

rurais (humano e animal), desses Estados, de acordo com o estudo, somam

22,5 m³/s. Essa demanda é plenamente atendida pelas ofertas atuais e mesmo

para o futuro, pois a disponibilidade na região é de 220 m³/s´, garantem os

especialistas.

O Projeto não é necessário nem para atender a expansão da

agroindústria na região. O EIA apresenta uma ³demanda potencial´ para

irrigação no Nordeste Setentrional de 131 m³/s, que corresponde a uma área

irrigada de 226 mil hectares. ³Como podemos constatar, não há déficit nem

para abastecimento humano e animal e nem para irrigação. O que há é

carência de uma política de gerenciamento dos recursos hídricos existentes e

infra-estrutura inadequada para suprimento dessas demandas´, afirmam.

2.4 Contexto geral sobre o tema transposição

Muito tem sido dito sobre a inviabilidade do projeto de Transposição

do rio São Francisco. O que se pode vislumbrar em meio à névoa que se

formou em torno do assunto são posições variadas, calcadas em argumentos

técnicos, sentimentalismos, denúncias de vantagens políticas e

beneficiamentos econômicos, entre outros. Antes de qualquer consideração

sobre os temas acima mencionados, é importante esclarecer que regiões

áridas não são próprias para incentivo de adensamento humano. Poucos são

os exemplos de regiões áridas com grande população residente ou grandes

metrópoles. O atual projeto, além de teoricamente melhorar a condição de vida

dos que lá já se encontram pode, por outro lado, incentivar o aumento de sua

população. Isso acarretaria novos problemas e necessidade de mais água no

futuro. Em ecologia, o conceito de capacidade suporte define que uma área

não comporta mais do que um número definido de organismos vivos, por serem

finitos os recursos disponíveis na mesma. Tais aspectos remetem à ³Indústria

da Seca´ em toda a história brasileira. O custo inicial estimado remonta a R$

4,5 bilhões, podendo alcançar US$ 10 bilhões em 15 anos. A grande maioria

dos empreendimentos de grande porte nesse país, senão todos, contaram com

recursos da iniciativa privada ou de financiamento externo (Banco Mundial,

Banco Interamericano de Desenvolvimento, Agências Internacionais Norte-

Americanas, Européias ou Japonesas). Mesmo que o atual governo pleiteasse

financiamento ou empréstimo, não conseguiria, pois esses organismos já se

posicionaram contra o projeto, face aos impactos ambientais que ele causará. 4

Também muito se ouve de especialistas, inclusive nordestinos, que

é possível aumentar a oferta de água para a população da região através da

4

ALVES, Carlos B. M. Transposição do São Francisco: incoerências e os peixes.

Disponível

em:

http://noticias.universia.com.br/ciencia-
tecnologia/noticia/2005/10/14/460070/transposio-do-so-francisco-incoerncias-e-os-peixes.html.
Acesso: 10/jun/2011.

interligação mais eficiente dos açudes existentes, coleta de água de chuva e

armazenamento, e perfuração de poços artesianos. Diz-se que a água

armazenada atualmente é bastante para manter a população e que não é

utilizada para reservar para épocas de seca mais severa. Se isso é verdade,

então não se confirma que a capacidade suporte do ambiente está esgotada ou

próxima de seu limite. A água que atualmente flui pelo rio São Francisco,

abaixo do ponto de captação previsto, passa por 5 grandes usinas hidrelétricas.

Além de restringir a produção energética numa região ainda carente desse

insumo, a elevação da água por meio de potentes bombas (160 m no eixo

norte e de cerca de 300 m no eixo leste) consumirá, por outro lado, porção

relevante da energia produzida na região. Surgem também suspeitas de que o

equipamento a ser comprado para o bombeamento teria sido adquirido por

outro país e não foi utilizado. Será que essas bombas são dimensionadas para

o volume projetado para a nossa transposição ou para o projeto do outro país?

Ainda em relação ao volume a ser bombeado paira uma dúvida: será retirado

um volume constante de 26 m

3

/s, que passa a um volume médio de 63 m

3

/s,

caso a barragem de Sobradinho alcance seu NA (Nível de Água) máximo e

houver vertimento. A capacidade máxima das bombas é de 127 m

3

/s, caso haja

excesso de água. Se, por um lado, você utiliza apenas a quinta parte de seu

potencial há uma superestimação do equipamento, por outro, quem acredita

que não seriam utilizados os 127 m

3

/s da capacidade total. Em se tratando de

Brasil, pelos exemplos que temos, é difícil acreditar que a segunda opção seria

adotada, ou seja, as máquinas seriam utilizadas a todo vapor o tempo todo. A

despeito da ³criação de empregos´ que se apregoa na fase de construção, há

uma névoa densa pairando nos interesses escusos por trás do Projeto. O

Governo ressalta que o projeto visa exclusivamente o abastecimento humano.

Mas sabe-se que outros grandes grupos têm seus interesses: as fazendas de

camarões e de criação de tilápias em larga escala, hoje incentivadas pela

Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca (SEAP) , os grupos produtores de

frutas irrigadas, as empreiteiras que conduzirão a obra e os fornecedores de

grandes volumes de cimento e ferro, entre outros. Outrossim, a possibilidade

de perda da qualidade da água é iminente. Em se falando dos canais, numa

região de temperaturas médias elevadas, haverá evaporação de grande

quantidade da água originalmente bombeada. Esse aspecto é abordado nos

estudos, mas nem todos têm conhecimento dele. Dos 44 impactos listados no

Relatório de Impacto Ambiental, somente 11 são considerados positivos, e

muitas incertezas ainda pairam inexplicadas nessa discussão.5

2.1 Aspectos ambientais do Projeto de Transposição do Rio

Para poder propor ações revitalizadoras consistentes, eficazes e

eficientes, por primeiro é preciso analisar porque o Rio São Francisco precisa

de revitalização e quais as principais causas da degradação e da perda da

vitalidade, que seriam, forçosamente, as frentes principais da revitalização. Dos

indícios de degradação salta aos olhos o assoreamento. Calcula-se 18 milhões

de toneladas de arraste sólido carreados anualmente para a calha do rio até o

reservatório de Sobradinho. A erosão, fruto do desmatamento e do

5

ALVES, Carlos B. M. Transposição do São Francisco: incoerências e os peixes.

Disponível

em:

http://noticias.universia.com.br/ciencia-
tecnologia/noticia/2005/10/14/460070/transposio-do-so-francisco-incoerncias-e-os-peixes.html.
Acesso: 10/jun/2011.

conseqüente desbarrancamento, além de alargar a calha do rio, gera uma

carga elevada de sedimentos, constituindo bancos de areia e ³ilhas´ (as

chamadas ³coroas´ ou ³croas´, no linguajar ribeirinho), constantemente se

movendo e mudando de lugar. O Rio São Francisco, pode-se dizer, é um

milagre da natureza, pois faz o capricho de correr ao contrário e se estende do

Sul, mais baixo, para o Norte, mais alto, devido à falha geológica denominada

³depressão sanfranciscana´. Isto o torna muito vulnerável, pois a pequena

declividade (em média 7,4 cm por km) na maior parte de sua extensão,

justamente a que recebe poucos afluentes, favorece o desbarrancamento e o

assoreamento. O assoreamento provoca anualmente uma perda de 1% da

capacidade dos reservatórios (Coelho, 2005: 138-139). Um indicador deste

processo acelerado de assoreamento é a condição precária atual de

navegabilidade do Rio São Francisco. Até pouco tempo o Rio era navegado

sem maiores restrições entre Pirapora e Petrolina/ Juazeiro (1.312 km), no

médio curso, e entre Piranhas e a foz (208 km), no baixo curso. Hoje, só

apresenta navegação comercial no trecho compreendido entre os portos de

Muquém do São Francisco (Ibotirama), na Bahia, e Petrolina/Juazeiro, na

divisa entre Bahia e Pernambuco. Mesmo neste trecho, a navegação vem

sofrendo revezes por deficiência de calado, sobretudo na entrada do lago de

Sobradinho, onde um intenso assoreamento multiplica os bancos de areia

(ANA/OEA/GEF/PNUMA et al, 2004b : 32).

Outro sinal alarmante da situação deplorável do Rio é a diminuição

da sua vazão. Em 2001, o reservatório de Sobradinho chegou a 5% de sua

capacidade (ANA/OEA/GEF/PNUMA et al, 2004b: 20-21); em outubro de 2007,

atingiu um pouco mais de 20%1. Em combinação com a elevada carga de

poluição doméstica e industrial que cai no Rio, o ecossistema aquática nos

períodos mais secos regularmente chega ao colapso. O resultado é a

mortandade de peixes.

Em outubro de 2007 aconteceu em proporções inéditas um desastre

ecológico decorrente desta poluição e da diminuição da vazão: uma

contaminação com algas azuis (cianobactérias) que se proliferaram no Rio das

Velhas e no Médio São Francisco, levando a uma enorme mortandade de

peixes e à inadequação da água para consumo humano e animal, enquanto

não aumentasse o volume com a chegada das chuvas nas cabeceiras. A

infestação é efeito de uma alta concentração de emissões de esgotos

domésticos e industriais, de agroquímicos e fertilizantes usados nas lavouras,

resultando numa eutrofização dos cursos d¶água2. O mais problemático é o Rio

das Velhas, que coleta a maior parte do esgoto da Região Metropolitana de

Belo Horizonte (MG), sendo, por isso, um dos rios mais poluídos da Bacia do

São Francisco. Esta contaminação com cianobactérias mostra que em épocas

de poucas chuvas o Rio não consegue mais diluir os poluentes. Mesmo com

algumas melhorias dos sistemas de saneamento nos córregos Arrudas e Onça,

em Belo Horizonte, o Rio não suporta mais carga de poluição, não tem mais

capacidade de diluição das emissões. Isso pode ser causado por um aumento

de poluição mas, com certeza, é um indicador da diminuição da vazão. Além

disso, este desastre leva à tona o fato de que a eutrofização pela agricultura

intensiva não é resolvida com melhorias no saneamento ambiental das

cidades.

Outro indicador bastante claro mas pouco considerado pelas

autoridades é a diminuição constante do pescado no Rio São Francisco. Para

entender as causas dos sinais de degradação do ecossistema de um Rio é

preciso olhar além da calha do Rio e observar toda a sua Bacia hidrográfica. O

programa oficial de revitalização acintosa e sintomaticamente se nega a esse

olhar ou não tira dele todas as conseqüências de decisão política.

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