DIALÉTICA: UMA VISÃO MARXISTA

José Francisco de Melo Neto

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Apresentação

Este trabalho pretende apresentar o movimento teórico que tem girado em torno de um tema tão antigo como atual – a dialética. É um ‘olhar’ para o movimento que tem sido o debate em torno da questão, envolvendo suas diferenciadas formulações. Daí o título: Dialética - várias possibilidades. A dialética tem sido compreendida como um método de divisão, uma lógica do provável, uma lógica simplesmente ou, ainda, como uma síntese dos opostos. Este texto pretende, de forma muito geral, mostrar essas diferenciadas percepções, iniciando com o percurso desenvolvido dos gregos até Kant, em seguida, apresentando-se a visão invertida de mundo, mostrada em Hegel, e, finalmente, a formulação presente em Hegel e Marx. Os autores buscaram tornar essa discussão algo mais intelegível, sem cair no simplismo discursivo que, muitas vezes, esse tema tem proporcionado. Assim, é que apresentam este tema importante e necessário, sobretudo para a teoria do conhecimento ou, em particular, para as metodologias da produção do conhecimento, tornando este texto de fácil acesso aos estudantes e interessados na compreensão de um caminho do vir a ser. Este caminho conduz, previamente, a uma reflexão mais pormenorizada da perspectiva da dialética como um método, e mais, como um método que se coloca ao debate, privilegiando a natureza (a realidade) mesma, dando-lhe anterioridade em suas possibilidades de análise. Na parte final, procurando tornar-se aplicável, mantém o debate teórico, porém em torno da questão: que dialética pode ser utilizada como constituinte metodológico-analítico de questões sociais?

Os autores

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Introdução1
Para a análise de uma realidade concreta, têm-se muito presente, os desafios

contemporâneos do fazer ciência, como também, uma busca para novos caminhos e, necessariamente, novos encontros com outros tantos desafios. Ao se estudar uma realidade, através de um ‘olhar’ crítico, faz-se necessária uma maior exigência metodológica. Não pode ser uma metodologia fixa, determinada e sem abertura para as tantas possibilidades novas que surgem, a cada momento, na procura de se produzir conhecimento. Carvalho (1995: 25), na busca de caminhos/descaminhos para a razão, procura estar atento aos caminhos que se descortinam quando perscruta as trilhas do “fragmento, do particular e do sentido”. Em que bases fundamenta-se a análise de práticas educativas que busquem as suas dimensões voltadas para processos de construção de hegemonia de setores sociais não burgueses? Que elementos compartilhar, quanto à metodologia, na busca de constituintes que possam contribuir para a superação de concepções que não atendam às necessidades políticas de liberdade de setores sociais subalternos? Como analisar a realidade na “sua essência contraditória e em permanente transformação”? (Melo Neto, 1996: 12). É nessa perspectiva que se colocam, como contribuinte à realização de pesquisas, nessa área, os constituintes da análise dialética. Como escapar das críticas à Ciência Moderna, consideradas pertinentes e fecundas? Segundo Fausto (1987: 15), esta fechou-se numa perspectiva instrumental, perdendo-se em modelos universais abstratos, definidos a priori, acrescentando que “desconsiderou a riqueza e multiplicidade da experiência humana e mais: vulgarizou a dialética”. Nesse sentido, a questão a ser respondida é: Que dialética pode ser utilizada como constituinte metodológico- analítico de questões sociais?

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O autor é professor do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba, Campus I, João Pessoa, integrando o Programa de Pós-Graduação em Educação – Educação Popular, onde coordena o Grupo de Pesquisa em Extensão Popular.

por exemplo. a dialética como síntese dos opostos. Esta definição. não tem sentido a defesa de uma determinação ou uma definição como mecanismo de exclusão das demais. Vimos que. Ainda. que parece elucidativa. com base em considerações etimológicas. é a arte do diálogo. em seu ser. São quatro conceitos pautados em quatro doutrinas que exerceram ‘forte’ influência na história da dialética. mesmo que diferentes. ou uma clareza.3 Elementos teóricos da dialética Para se iniciar a tentativa de apresentação dos constituintes da dialética. no decorrer do tempo. nada passível de ser determinada ou explicada de uma vez por todas. a doutrina aristotélica. considerando-se que os autores a definem e a interpretam de várias maneiras. surge a dificuldade de uma compreensão em um único significado. Um conceito que tem recebido diferenciados conceitos que têm sido formulados. apresentam pontos de identificação entre si. como a discussão sobre o sentido do diálogo. Entretanto. podem ser consideradas. pelo menos. Para vários autores e intérpretes. onde se pode encontrar a utilização da noção de dialética de várias maneiras e. ou que ela é uma lei” (Bornheim. A discussão será conduzida na tentativa de chegarse a uma síntese conceitual. segundo esse intérprete. presente em Aristóteles. Com isso. acrescentando (ibid. dessa forma. segundo Kant. vista por Platão. Há. em virtude da impossibilidade de se englobarem todas essas formulações em um só conceito. Parece que cada procedimento nessa direção se apresenta como insatisfatório. respectivamente: a doutrina platônica. a dialética . será mantida a sua generalidade. para o autor. 1983: 153). a dialética “é a arte do diálogo. a dialética como lógica. a doutrina estóica e a doutrina hegeliana. apresenta-se. é necessário buscar-se a resposta à questão: O que é dialética? Essa resposta exige um debruçar-se sobre a história da filosofia. do ponto de vista histórico. A resposta à questão acerca do conceito de dialética apresenta grande dificuldade. de base de que a dialética. com nuanças que abrem outros tipos de questões fundamentais. é lei. uma certeza. porém. a partir das formulações de Hegel/Marx. a dialética como lógica do provável. De forma sintética.: 154): “Nada prova que diversas determinações não possam corresponder de algum modo à índole interna da dialética. algumas fases dos quatro conceitos principais da dialética: a dialética como um método de divisão.

Político) da coleção Os Pensadores. durante). o autor destaca que “dia” também adquire uma variedade de significados. Entretanto. sem ser. talvez. entre outras. ou de certos setores do real. “a tradição homérica já toma o verbo. a dialética pode ser a arte do diálogo.4 metafísica não só se justifica como foi necessária. no seu estudo etimológico. às vezes.: 3). “muito estudada. Historicamente. em Platão. quer como lei.. a expressão “dialégein“‘ que significa “desenvolver (de forma completa) um discurso”. Mostra. a dialética terá 2 Utilizou-se a tradução de Jorge Paleikat e João Cruz Costa (Fédon. assume valores espaço . entre. dialética e persuasão .. bem como de estado ou condição. 1979. a expressão dialegein para significar. tem se apresentado como arte entre os sofistas. Abril Cultural. importante ainda é o advérbio “dia” que. ele apresenta “diápempo” “estou em desarmonia”. São Paulo. Aponta também o verbo “légein”. “contendo com”. por fim. modais (com). que é rico de significados. entre os quais “divisão” e “separação”. Como exemplo. causais. Essa multiplicidade e ambigüidade lingüística repercutem nas concepções filosóficas fundamentais da dialética. segundo Azevedo (l996: 2). Assim é que a dialética. necessariamente. . quer como suprema ciência da realidade e como arte do debate. o vocábulo abriga um grande número de significados que vêm sendo mantidos ao longo da história. “escolher”. o termo. “diagonizomai” “luto com”. em Sócrates e. Muito “dialesgesthai” com a significação de “conversar com”. a vivacidade do real que a dialética expressa. foi entendida. no sentido de individuar na gênese da palavra o seu significado profundo”. O autor encontra. contudo. que a dialética é uma das expressões filosóficas muito usadas e que a sua universalidade tem sido. ou a lei do real.temporais (através. e a sua forma derivada “raciocinar com”. “. relacionada com a busca da verdade. em Platão2. Do ponto de vista filológico. demonstrando.uma das poucas razões válidas a operar dentro da chamada civilização ocidental”. contar”. Para Sichirolo (1980: 20). Assim também. Sofista. muitos convergindo para a concepção de dialética. Para Azevedo (ibid. Mesmo diante dessas dificuldades. entre outras coisas. “selecionar”. Talvez a dialética seja ainda outras coisas”. Como prefixo verbal. como exemplo: “escolher cuidadosamente. no sentido de tomar uma deliberação/discussão e pensamento sobre uma situação em que se apresenta a negatividade do risco e do perigo da morte”. pode-se ver.

.e por isso pode dar tanto razão a si como aos outros (ibid. bc). Pode ainda “. mediante divisão de gêneros. Fedro. isto é. da Ediouro. 266 b-c). juntos.” (Fedro. ao explicitar 3: “Amo. Sofista. a sinóptica. 516.. 3 Utilizou-se a tradução de Jorge Paleikat.: 534. 253cd). especificar a unidade precedentemente definida. A dialética como técnica/arte. por seu lado.: 534. Se descortinar alguém capaz de lançar o seu olhar sobre o uno e sobre a unidade natural de um múltiplo. por meio de uma instituição. São dois processos que. nem pela mesma uma forma que é outra. Dois momentos que fazem coincidir. espécies e sua conexão: “Dividir assim por gêneros. procura. o segundo. a diarética. dedicar sobretudo àquele tipo de educação que confira capacidade de interrogar e responder o mais cientificamente possível” (ibid. uma forma que é a mesma.se é justo ou não.. isto é. por meio do procedimento socrático da pergunta e da resposta . Aqueles que sabem fazer isto .) Sim. como instrumento da busca associada que se efetiva através da colaboração de duas ou mais pessoas. mediante uma divisão dela segundo as suas articulações naturais. sendo esta a sua lei. Platão deixará mais claro esse movimento sinóptico e diarético.5 significado de método da divisão. de busca de uma definição verdadeira. seguí-lo-ei. reconhecer quais as formas que dependem da natureza daquela unidade. que deve descer à caverna buscando a justiça do Estado (Fedro. de uma idéia. diremos nós. designados por Platão de ascendente e descendente. . as suas espécies” (Sichirollo. s/d. se condicionam e constituem toda a dialética. só Deus o sabe . Dois momentos que constituem tanto uma unicidade como uma totalidade... o que é diverso e múltiplo. consiste em conduzir à unidade de uma forma. e não tomar por outra. O dialético é aquele que vai ao fundamento da essência . como diríamos. de uma visão. assim diríamos” (Platão.dou-lhes o nome de dialécticos. tanto o especulativo da inteligência como o ciclo da educação do filósofo. não largarei as suas pegadas como se fossem as de um deus. Um procedimento que se realiza em duplo movimento: “O primeiro.. d-e). não é essa. de uma compreensão da totalidade. 1980: 49). a obra da ciência dialética? (. Este é o conceito que estabeleceu para a dialética. c). estas operações de dividir e unificar a fim de se ser possível falar e pensar.um procedimento processual.

por Aristóteles. . 5. Ambas se interessam por tudo e se aproximam da arte do sofista. nem a crítica nem a dialética são ciências de um objeto determinado. Essa prática não deverá guiar-se apenas pela exercício socrático de sempre perguntar sem. Aristóteles. a dialética é entendida. existindo cada uma separadamente. d) a existência de muitas idéias diferenciadas. como a arte da discussão ou disputa retórica e da disputa e do exercício da lógica. começar-se pela parte final do Órganon. opiniões ‘geralmente aceitas’. as quatro possibilidades que se apresentam nesses dois momentos indicados na passagem do Sofista (253. além disso. Já Aristóteles apresenta uma diferenciação. em relação aos seus predecessores. É uma arte que se serve de premissas 4 Ver Aristóteles. outras idéias distintas entre si. por outro lado. O silogismo é dialético em Aristóteles4 que. entre si. 20 ). contudo. É comum. 166 a. ou os filósofos em outras palavras: todos. 1. Assim. Dos Argumentos Sofísticos. desde o exterior. “São. sobretudo a partir de 4. E isto em virtude de sua proximidade com a sofística” (Sichirollo. como se se conhecesse o objeto da discussão. pois este o faz de forma apenas aparente. aquelas que todo mundo admite. parte de premissas prováveis/plausíveis. Mas.d) são: a) a existência de uma idéia única e que dela surjam outras tantas idéias. ao invés de partir de premissas verdadeiras. ou os mais notáveis e eminentes” (Tópicos. assim concebida. uma relação da crítica com a dialética. divididas. “dar” alguma resposta. A argumentação ou o raciocínio crítico se objetivam na interrogação. b) a existência de uma única idéia que englobe. “mas também na capacidade de responder e de defender a própria tese. é entendida como o procedimento racional sem necessidade de demonstração. Premissas sempre colocadas de forma genérica e geralmente admitidas. 1980: 65). ou a maioria. A dialética. A capacidade de colocar as premissas. c) a união da totalidade dessa multiplicidade de idéias para se chegar a uma única idéia. I. ao tratar a dialética. enquanto o dialeta desenvolve a crítica por meio da arte silogística. num esforço para sustentar a própria tese. para fins de estudo dessa temática. ou a maioria das pessoas. . É neste livro que o filósofo vai elaborar a sua concepção de dialética como a lógica do provável. mas não se confundem. no seu Órganon. as mais prováveis possíveis.100b.a dialética precisa apoiar-se em duas dimensões principais.6 Finalmente. associa.

não como arte de alimentar tal ilusão: “Mas como uma crítica do entendimento e da razão no tocante ao seu uso hiperfísico. apenas com o entendimento puro. O ponto de partida de seus estudos. e até Schopenhauer. Neste caso. a historia e a dialética de Kant até Hegel. Coleção os Pensadores. inspirado na moral de Kant. independentemente dos resultados e interpretações de cada um dos historiadores da filosofia. um dos eventos importantes da história da dialética se dá com o advento da obra de Kant. A doutrina da ciência e o saber absoluto. Jacobi . contudo. a partir de uma desvalorização da dialética enquanto instrumento cognitivo. “escreveram as suas obras mais significativas como resposta aos problemas que a filosofia de Kant pôs ao seu tempo”. segundo ele. 1984. Reinhold.7 prováveis. portanto os seus representantes mais “ilustres”. Entretanto. conclui que. ao interpretar a razão.. Coleção os Pensadores. em que consiste essa dimensão negativa da dialética? Ao discorrer sobre a divisão da lógica transcendental. ao contrário de se pautar pelas dimensões positivas da dialética. 1980. expressado por Fichte5. Kant mostra que a lógica transcendental deveria tornar-se apenas um cânone para a avaliação do uso empírico. Bruno ou do princípio divino e natural das coisas.. que ela supõe 5 Ver Fischte. vai mostrar a necessidade de uma segunda parte de sua lógica transcendental que deverá. o uso do entendimento puro seria dialético” (Crítica da Razão Pura.. São Paulo. Nesse aspecto. o idealismo alemão. “as teses são apresentadas como resultantes da imposição de uma situação humana: a razão exposta ao erro da ilusão” (ibid. Kant.: 140). a sua discussão. Schelling6. Abril Cultura. a lógica vem sendo mal utilizada ao se deixar valer como órganon ”de uso geral e ilimitado e se ousa. 6 Ver Schelling. julgar. ressalta que na dialética kantiana. normalmente. em A analítica transcendental e dialética transcendental. contudo. em particular o item B) exposição da filosofia mesma (porém “não tanto dela mesma. para que se possa descobrir a falsa aparência de tais presunções infundadas e reduzir as suas pretensões de descoberta e ampliação. segundo seus antecessores. Mas. Sichirollo (l980: 139). . afirmar e decidir sinteticamente sobre objetos em geral. São Paulo. ser crítica dessa ilusão dialética . É também um instrumento com o qual se pode chegar aos princípios das ciências possibilitando. quanto do solo e fundamento sobre o qual ela tem de ser construída”). Mesmo Hegel. se impõe. ao comentar a Metafísica dos Costumes e escrevendo uma Vida de Jesus. iniciara seus estudos como kantiano. /4. Para ele. Abril Cultural. segundo o autor. & 88).

56). como uma função considerada ‘cruel’ para a ‘dialética transcendental’. para Reale (1990: 695). A ilusão permanece. em Kant. que a cada uma delas se opõe também um princípio contraditório. foi substituído por um universo de fenômenos unificados. essas antinomias estão radicadas. segundo o tempo e o espaço. Tese 4 .8 alcançar unicamente através de princípios transcendentais.Há no mundo causas através da liberdade. Antítese . que é o exame da “validade das tentativas da razão de se evadir do círculo de sensações e aparências para o mundo.Na série das causas do mundo. Esse controle ou regulação. segundo Maritain (1964:143). & 88). Kant exemplifica com algumas espécies de afirmações dialéticas da razão pura que demonstram.Não há liberdade. A dimensão negativa da dialética em Kant é vista por Durant. que são da razão pura e igualmente aparentes. segundo o filósofo. tem um começo (limite). bem como o seu estudo crítico. é infinito. nada é necessário.O mundo. tudo isto é dialética. mas tudo é natureza. & 51). coisa essa que. no mundo.: / 4.Tudo.Nada é simples. que não se pode conhecer. continuava 7 Os grifos das teses aparecem no texto de Kant. sob as formas a priori da estrutura cognoscitiva do sujeito.Nesta série. exatamente. contudo. Esses erros. é constituído pelo simples. Tese 3 . eliminando-as. E mais. das ‘coisas em si’ “. Contudo. Esta é uma busca constante do filósofo para se evitar não só as sensações como as aparências. assim. por conseguinte. . libertou o espírito do controle exercido sobre ele pelas coisas ou pela realidade extramental. Para Kant.O mundo. Tese 2 . /144. Antítese . tem-se o dualismo dos fenômenos e da coisa em si. por seu caráter dialético. por se tratar de uma ilusão que é natural. sendo. à mera avaliação do entendimento puro e sua proteção contra ilusões sofísticas” (ibid. mas tudo é aí contingente” (Prolegómenos. Antítese . existe um ser necessário. “na natureza da razão humana. Porém. São as seguintes suas teses 7 : “Tese 1 . mas tudo é composto. segundo o tempo e o espaço. Antítese . essas ilusões da razão. em seu estudo sobre a Filosofia de Kant (p. trazida por Kant. A revolução. mesmo desmascarando os sofismas erísticodialéticos e as aparências sofístico-dialéticas e. constituem a dialética das aparências. “as ilusões e aparências transcendentais permanecem”. mesmo em sua incognoscibilidade. inevitável e jamais tendo um fim”.

no intuito de levá-la a termo. na sua conceituação mesma. A filosofia identificase. sendo o absoluto em movimento. e se. seja através de um instrumento com o qual dominaria o absoluto.9 a pertencer ao mundo do ser extramental.: 48) continua: “As representações do conhecimento entendido como instrumento e meio e. inaugurada por Kant no campo da filosofia. libertando-o da regulação das coisas extramentais exercida sobre ele. abraçando-o em sua e por sua unidade. entre o sujeito e o objeto. seja como meio com o qual seria possível a sua contemplação. com o próprio absoluto e suas automanifestações. um contra-senso. partindo da ‘revolução copernicana’. para Kant. . o universo real que é apreendido. o traço genial de Hegel foi o de fazer dessa idéia de absoluto. por meio do conhecimento. gerador de suas diferenciações. O pensamento. o que é em si é. Na introdução da Fenomenologia do Espírito. uma separação da coisa em si. mesmo sendo algo de real. bem assim. a partir desse intento. e de que o conhecimento e o absoluto sejam separados por uma nítida linha de fronteira”. foram os idealistas alemães que. A crítica de Hegel (ibid. pressupõe. existia. agora. Ainda para o autor.: 144). Hegel destaca a impossibilidade do conhecimento formulado por Kant. o real é manifestação do pensamento no seio de si próprio. o entendimento. conseguiram destruir toda e qualquer barreira que limitasse as ambições da razão e do saber filosófico. a coisa em si está superada. que o Absoluto esteja de uma parte e o conhecimento. ultrapassaram o dualismo kantiano dos fenômenos e da coisa em si. bem como as suas autodiferenciações. uma diferença entre nós mesmos e esse conhecimento. sobretudo. para si e separado do absoluto”. pensamento ou espírito. passa a encerrar sobre si mesmo tudo enquanto de si surge. Conseqüentemente. Hegel (1974: 47) explicita sua crítica com o seguinte raciocínio: “Essa precaução deve até transformar-se na convicção de que toda a tarefa de conquistar para a consciência. Segundo Maritain (ibid. já que o espírito era esse mesmo princípio da unidade absoluta. esteja de outra parte. não por possuir uma existência fora do pensamento. Ainda para Maritain (ibid. mas no sentido de que o real passa a ser uma manifestação do pensamento no seio de si próprio. o objetivo de Kant era limitar o campo do nosso saber e restringir as ambições da razão.: l45). Se. Assim é que a filosofia idealista caminhou no seu intento de levar o universo a conhecer a suprema unidade.

ela vai com desconfiança.10 Isso é algo inadmissível para ele. senão o que já está conhecido em nós mesmos. se assumem enquanto conhecimento verdadeiro. vem após . No entanto. As ciências. já posta por Fichte (Doutrina da Ciência. No desenvolvimento dessa crítica. e a conciliação se dá pela oposição do “eu“ ao “não eu” e pela determinação que. desenvolve uma crítica à ciência. como científico. uma crítica sobre sua desconfiança. na Fenomenologia do Espírito. fora do absoluto? Sua resposta. os seus próprios pressupostos. para ter essa certeza de que esse conhecimento é verdadeiro. precisa de “ferramenta” para parametrá-lo. na medida em que esta se reivindica verdadeira. E mais. l974: 329). agora: Como é que se apresenta o movimento dialético de Hegel na Fenomenologia do Espírito? Ou como o absoluto faz sua odisséia na história. pressuposições e até de precauções. ‘ousadamente’. deve partir de deduções. já que Ele está e quer estar “em nós tal como é em si mesmo e para si mesmo” (ibid. É como se a consciência precisasse de algo para “cientificizar” o seu conhecimento e tê-lo como verdadeiro. como também o seu fazer história “é a história do pensamento que a si próprio se encontra” (Hegel. & 4e). Para Hegel. por sua vez. apontam para diferentes absolutos e. como “síntese dos opostos por meio da determinação recíproca”. Hegel pergunta. Os opostos de que fala o autor são o “eu” e o “não eu”. tornandose saber absoluto? Na busca do conhecimento verdadeiro ou saber absoluto. A exigência colocada é que da ciência precisam ser examinados. não atingindo o que em verdade é. quando a ciência vai em busca do conhecimento. o Absoluto não pode utilizar-se de qualquer ‘astúcia’ para se chegar ao conhecimento. produzindo nela a representação. para esta questão. em verdade. mostra o percurso da consciência e a sua dialética. Hegel. Exige-se. Pode-se perguntar. Além do mais. “não eu” reflete no “eu”. à ‘exaustão’. pois no seu sistema não há separação entre o sujeito e objeto. Trata-se de uma síntese. Essa desconfiança é um temor de errar. a consciência.: 48). Não só não há separação. como nas ciências. Ora. Um movimento dialético se instala como a síntese dos opostos. dessa forma. Este temor é eregido sobre a própria verdade que busca. a ciência faz uma divisão entre o conhecimento e o absoluto (essência). na Fenomenologia do Espírito: Como algo pode ser verdadeiro se está. não se conhece nada.

a consciência submete a consciência natural ou saber natural para dirimir a dupla aparência. Nesse sentido é que a filosofia torna-se ciência porque ela quer o querer do absoluto. O objeto não é material e está na consciência. Ora. Hegel busca o absoluto único. que entra em cena. Não há oposição entre a aparência e a idéia. que entra em cena. Surge a necessidade de uma medida. Mas existe. Entrar em cena é pôr-se a caminho da crítica que descobre o ser em si. o critério de verdade. os ditos populares. A aparência envolve o saber verdadeiro. agora. modos de vida que formarão os tipos de saberes. O caminho da dúvida é entendido como procedimento da ciência com a consciência (saber surgente). Este entrar em cena é pôr-se a caminho da crítica. O para sí é o movimento da essência para a consciência. a ciência. O conhecimento da ciência não passa de uma aparência e não conduz à busca da verdade ou conhecimento verdadeiro. o outro critério. que é o caminho do algo para a consciência. Hegel parte da consciência natural. a que as ciências não respondem. de sabedoria popular. Para mostrar esse movimento de busca do saber absoluto. do saber natural. o em si do . Cada momento histórico tem uma forma de discurso. o desejo de exame desse saber. aquela que tem por base a sabedoria popular. leve isto à crítica. que é a verdade ou a consciência do para si. O que se deseja é que a ciência. A consciência tem. A aparência desse saber que se arvora em ser ciência e a aparência enquanto pretensa totalidade de um processo de conhecimento. contendo a exigência de saber algo. O ser em si é objeto (essência).11 formular a crítica ao saber da consciência surgente (de algo). uma exigência do saber que conduz imediatamente à descoberta da estrutura da própria coisa como uma dupla aparência. o senso comum. agora como ciência que entra em cena. Um percurso em que o indeterminado determina-se como determinado fora dessa determinação. gera o saber surgente ou ciência surgente que. Hegel descobre. O saber surgente é saber de algo. deve dar a medida à consciência surgente (de algo). pois ambas são um só mundo. É o campo da aparência que não está em oposição ao supra-sensível. dentro de si. assim. É o nível da formação de um discurso que não se pretende científico. O saber está na consciência. isto é. e esta não pode vir do exterior da consciência. o saber. Com isso. E na busca da coisa como em verdade é. ser ciência da totalidade. se põe a caminho da crítica. Busca um absoluto que está em nós e sem nós não pode ser.

Assim é que a partir de qualquer momento. É nessa direção a afirmativa de Cezarino (l996: 3): “A ciência verdadeira é o sistema de conhecimentos em razão da crítica levada a cabo. O princípio da identidade do racional com o real. o saber verdadeiro. pode-se iniciar esse movimento da dialética. a dialética não é apenas a lei do pensamento.: 3). com uma direção de finalidade para o saber absoluto. principalmente em seu resultado positivo e em sua realidade substancial. a dialética não é apenas o segundo momento. quando a crítica é levada à exaustão e a conexão de tipos de saber são vistos como conexão. esse processo de negação pode ser tomado como o “caminho da consciência natural. 3 .12 objeto tornando-se para si. que contém também o saber das determinações (momentos).a ciência verdadeira. respectivamente. É o próprio processo. o qual a consciência natural percorre como uma necessidade. É a passagem da ciência que entra em cena. Todavia. Dialética como a essência mesma da coisa. É como se tratasse de um processo de progresso. como: momento intelectual. dialeticamente em movimento.na supressão deste conceito como algo “finito” e no passar a seu oposto. momento dialético e momento especulativo ou positivo racional. está em permanente devir. Um processo que não é a soma dos distintos momentos. Para Azevedo (1996: 7). presente em Hegel. mas é a lei da realidade. Os seus resultados não são meros conceitos puros ou conceitos abstratos.na síntese das duas determinações anteriores. chegando ao ‘conceito’ . 2 . que penetra no verdadeiro saber” (ibid. mas ‘pensamento concreto’. mas o conjunto do movimento. . implica que a natureza do pensamento seja a mesma natureza da realidade. A realidade. Hegel denomina esses três momentos. a dialética em Hegel consiste: “1 . O saber é então saber em e para si”. pois não existe oposição entre esses momentos. Assim. no propor de um conceito “abstrato e limitado”. o qual é somente acessível. A verdade e o saber estão na consciência e são os parâmetros de chegada de Hegel ao absoluto.na colocação. Só assim se chega à totalidade e a totalidade é todo esse processo. síntese que conserva o que há de afirmativo em sua solução e em sua transferência”. Ainda para o citado intérprete de Hegel.

: 110) se constituía num materialismo. Na evolução do pensamento de Marx. Toda a crítica formulada (ibid. Ideologia Alemã (1845-46) e Sagrada Família (1845). no seu próprio tempo. ao mesmo tempo. tanto na forma como no conteúdo. Isto confere à filosofia o papel de instância. os momentos anteriores estão suprimidos (negados). portanto. metafísico e antropológico. ostentando um “caráter contemplativo. seria possível ser efetivada por Marx. Assegura. 8 Ver Karl Marx. em que a síntese representa a ‘negação’ ou o ‘oposto’. A condição de possibilidade da dialética. pela ciência do real e de seu desenvolvimento histórico. Weber (l993: 41) coloca que “em cada síntese. ou o ‘ser outro’ da tese. integrados numa forma superior”. Marx vai realizar a inversão da dialética. A passagem do culto desse homem abstrato. A síntese constitui a unidade. mas.as formas finitas da consciência . .13 A filosofia hegeliana vê. Bornheim. isto é. centro da formulação feurbachiana. Para Llanos (1988: 94).humano mas abstraído e separado do homem”. É esta lição primordial da dialética hegeliana. Teses contra Feuerbach (1845). segundo Llanos (1988: 109). manifestada pela negatividade. não via a passagem do homem abstrato para um homem que atuasse. embora esse materialismo fosse limitado. em todos os lugares. como uma categoria afirmativa que se há de converter na base de uma nova tríade”. combinando-se com uma concepção idealista de sociedade”.sobre as formas infinitas da mesma consciência. se revela como sendo a transcendência da consciência sobre o dado. segundo o autor. Feuerbach. Lima Vaz. que mostrara ser o espírito absoluto hegeliano “ o espírito finito . a primazia dos conteúdos materiais ou históricos . segundo intérpretes. a crítica às formulações idealistas de seu tempo. na história. tanto de uma como de outra. colocando o objeto ou ‘dado’ como primeiro. “uma vez alcançada a síntese. como Azevedo. antítese e síntese. necessariamente. Coube a Feuerbach. em suas obras: Crítica da Filosofia Hegeliana do Direito Público (1844). esta se põe a si mesma como uma nova tese. em Hegel. Thadeu Weber. tríades do tipo: tese. o confronto definitivo com Hegel é exposto em várias obras8. Ao analisar esse movimento triádico da dialética. o natural imediato antes da consciência. Llanos. Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844). ao contrapor-se à idéia da transcendência sobre o dado no pensamento de Hegel. a verificação. tanto doadora como reveladora de sentido.

freqüentemente omitido. quando Marx mostra a pobreza crescente do operário. Assim. É justamente do pensamento abstrato que estes objetos se alienam. da crítica ao idealismo. Impossibilita também qualquer transcendência do sujeito sobre o mundo. concreta.. . 1978: 16). Será cada vez mercadoria de pouco valor quanto mais criar mercadorias. “o homem torna-se cada vez mais pobre enquanto homem. segundo Dantas (1996: 11).. o ponto de partida das análises filosóficas de Marx. ao método hegeliano e a um reconhecimento da contribuição de Feuerbach. na Fenomenologia do Espírito.). isto é. sobretudo aquela que concebe a riqueza. Essa crítica exige de Marx uma adequação rigorosa entre o sujeito e sua esfera objetiva ou o mundo material. Todo movimento termina assim como o saber Absoluto. é “uma situação de fato empírica e concreta. etapa por etapa. de Hegel. isto só acontece na sua forma de pensamento (. assume teses. uma situação histórica. por Marx. cujo alcance decisivo sobre sua época foi esclarecido.. além disso. como relação fundamental a relação econômica da produção. o poder estatal. e é justamente ao pensamento abstrato que se opõem com sua pretensão à efetividade” (ibid. revolucionário e pensador. encontrando. Para Markus (1974: 81).: 36). A inversão vai se constituir na adequação do método dialético a um conteúdo material inicial. Marx continua a sua análise sobre o pensamento de Hegel. sobretudo a análise de que a filosofia não passa de religião transportada para o pensamento e desenvolvida em pensamento. Deste. como “essências alienadas para o ser humano. durante sua evolução precedente”. Sua crítica ao idealismo ”consiste na denúncia do processo dialético no âmbito da consciência. à medida que maior for sua produção de riqueza. etc. Esta situação empírica. e o poder do seu dinheiro diminui em relação inversa à massa da produção” (Marx. Define. de modo que a disjunção se faça entre o objeto como ser ideal e o sujeito como autoconsciência”. Descobre erros nas formulações hegelianas. São seres de pensamento e por isso simplesmente uma alienação do pensamento filosófico puro.14 Marx incorpora o postulado materialista feuerbachiano e o método dialético. precisa cada vez mais do dinheiro para apossar-se do seu inimigo. a fonte originária de sua filosofia. abstrato. está presente em várias passagens nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos.

em Hegel. segundo ele. Em lugar de explicitar o seu método dialético. O valor científico de semelhante pesquisa consiste em esclarecer as leis especiais que regem o surgimento.. No estudo de um país. contudo. Ao estudar o método de análise da economia política. na verdade. verdadeiro. é. pois esse é o homem efetivo como o resultado de seu próprio trabalho” (ibid. 15. mesmo sendo tão concreta. Mostra o processo de exposição que deve diferenciar-se pela forma do processo de pesquisa.: 15). Por conseguinte. Marx prefere aceitar como suas as palavras de comentador: “Assim. esse método é falso. Só depois de cumprida esta tarefa pode-se expor adequadamente o movimento geral” (ibid. uma observação mais atenta. “A pesquisa deve captar com todas as minúcias o material. o desenvolvimento e a morte de um organismo social dada a sua substituição por outro organismo mais elevado. parecendo esta a forma correta. uma abstração. . a existência. em que compreenda então a essência do trabalho e conceba o homem objetivado. alienação e superação dessa alienação. após a explicitação de sua crítica ao movimento dialético no campo das idéias. apud Haguete. analisar as suas diversas formas de desenvolvimento e descobrir a sua ligação interna. a grandeza do pensamento hegeliano na obra referida e.. Marx vai concordar com o comentário e também se perguntar se não é esta a definição do método dialético. Marx descobre que esse método inicia-se sempre pelo real e pelo concreto. E esse é o valor que tem realmente a obra de Marx” (Marx. a objetivação como desobjetivação. mostra que a população.: 37). ao se propor a tarefa de analisar e explicar a organização econômica capitalista. particularmente. Porém.15 Marx reconhece. no seu resultado final: “A dialética da negatividade na qualidade de princípio motor e gerador consistindo de uma parte que Hegel compreenda a autogeração do homem como processo. 1990:163). Mas. parece ser correto iniciar-se pela população que se constitui na base e no sujeito social da produção. Prefácio. Marx não faz senão formular de um modo rigorosamente científico e objetivo que deve ser perseguido por toda investigação exata da vida econômica. Após a citação do texto. pode-se perguntar qual é a dialética ou o método de Marx.

por exemplo: o trabalho assalariado. porém com uma rica totalidade de determinações e relações diversas” (Marx. rico e variado.. como também de todas as sociedades anteriores. Chegados a este ponto. Por seu lado. A sexta retorna ao método. Contudo. apreender as suas interconexões e o conjunto no qual elas se fundem. e através de uma determinação mais precisa. teríamos que voltar a fazer a viagem de modo inverso. l978: 116). entendendo-o subdividido . etc. este é o método cientificamente exato. sem o valor. por exemplo. A terceira propõe e resolve uma relação específica entre o real e o teórico. “. ao estudar o lugar da forma e o do conteúdo na dialética. empurra o pensamento filosófico para fora do seu isolamento idealista e introspectivo”. Este é o seu método dialético. etc. Assim. Para Prado Junior (1980: 513). se desprezarmos. em função da sua importância correlativa dentro da sociedade mais complexa. “transposto e traduzido no espírito humano”. Essa formulação viabiliza uma visão de que o universo vai se tornando possível revelar-se tal qual é. em seis partes: “A primeira trata do método em geral e indica um movimento que é exclusivamente teórico.16 “A população é uma abstração. por exemplo.. passando-se totalmente no abstrato. as classes que a compõem. até dar de novo com a população. Estes supõem a troca. a matéria é em Marx o lugar da inscrição das formas. teríamos uma representação caótica do todo. O mundo das idéias. se começássemos pela população. passa a ter o sentido de mundo material. O pensamento pode mover-se por dentro de suas partes. chegaríamos a conceitos cada vez mais simples. etc. Marx. estas classes são uma palavra vazia de sentido se ignorarmos os elementos em que repousam. os preços. aproveitando-se das comportas abertas por Hegel e do terreno desembaraçado que se estendia à sua frente. através de uma análise. sem o dinheiro. “o sistema de formas permanece sempre inscrito na matéria.. Fausto (l993: 49). a divisão do trabalho. mas desta vez não com uma representação caótica de um todo. do concreto idealizado passaríamos a abstrações cada vez mais tênues até atingirmos determinações as mais simples. base das abstrações mais gerais e categorias mais simples. A quarta precisa a condição da produção das abstrações mais gerais a partir do desenvolvimento concreto mais rico. O capital. estabelecendo que a ordem das categorias deve seguir uma hierarquia teórica. agora. sem o trabalho assalariado. não é nada. sem o preço. o capital. A quinta indica que é no último modo de produção já estabelecido. não mais mas não menos do que isto”. Para Marx. é em Limoeiro Cardoso (1990: 19) que se verifica um acompanhamento mais explícito sobre o desenvolvimento do método de Marx. Assim. A segunda afirma a anterioridade do concreto. que se torna possível a inteligibilidade não só dele mesmo. desdobrando as relações entre as categorias mais simples e as mais concretas. observa que em Marx. e não em função do seu aparecimento histórico”. porque o mais complexo.

seria possível apenas o estudo de suas descrições e. contudo. porque supõe. e não pode sequer procurar condições para re-encontrar o concreto. Na verdade. só podendo ser atingida pelo pensamento que a investiga. Esta investigação. “E isto acontece no mundo dos conceitos. jamais. não terá respostas imediatas dos dados ou contatos do real. de que partem os economistas clássicos. enganosamente. quando também se apreender a sua determinação. A realidade social é determinada. informada pela teoria. é que se torna possível conhecê-la e explicá-la racionalmente. mas será produto da reflexão que. aprofundando-se no mesmo. o mundo seria fenômenos completos em si mesmos. Abstrato que tem a pretensão de reproduzir o concreto. no plano teórico. não na sua realidade imediata e sim na sua totalidade real” (ibid. Em havendo uma ordem no real. O concreto real. e sim da abstração.17 Esta divisão vai possibilitar. essa ordem não está dada e não transparece. Este concreto real é uma abstração. “Assim. O real. no abstrato. Neste sentido.: 21). respondendo a uma certa causalidade. apresenta um sentido que não é já dado. nesse sentido. e assim é não por obra natural.Do abstrato para o concreto pensado.: . mas sim “adquirido pela ação do pensamento. vai em busca da realidade externa. Na não existência das determinações. ao se atingir os seus determinantes fundamentais. se apresenta com um caráter caótico. as explicações precisarão melhor o próprio fenômeno e a sua completude nas relações (de superfície) que mantêm uns com os outros. Em sendo esta realidade determinada. todavia. Há relações específicas que a determinam.: 21). considera-se que esta inicia sua análise a partir do ‘concreto’ A autora citada vai entender que tal ‘concreto’ só tem sentido à medida que se vão descobrindo as suas determinações. na abstração” (ibid. um procedimento como este não parte do concreto. de suas explicações. uma segunda apreensão do método. que está assim exposta: 1 . para a autora. a realidade social é determinada e só é possível a sua explicação. Não existindo as relações entre os fenômenos. Na crítica ao método da economia clássica. como se supõe. Isto só é possível. que já o incorpora à analise desde o início” (ibid.

não se poderia atingir essa totalidade real. porque pensado.: 24). em que “o concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações”. do conjunto das determinações. bem como o que constitui esse concreto a que se chega. Este traz. seu verdadeiro ponto de partida é o real. conforme sua interpretação. assim. precisam ser explicitados. A totalidade real se constitui. é uma totalidade: ‘unidade determinante/determinado’ ou unidade de múltiplas determinações. a compreensão da formulação de Marx. É um concreto produzido no pensamento. “O caráter de concreto está estreitamente vinculado ao de determinação. juntamente com o que elas determinam. A resposta para isto está. valendo-se do estilo daquele método. mas é o resultado de um elaborado processo de pensamento. em que o concreto é concreto porque ele se constitui como síntese de múltiplas determinações. Ele não se constitui de um dado simplesmente. “E se esse processo começa cientificamente no abstrato. um impeditivo para tal conhecimento. como resultado e não como ponto de partida. em si mesmo. Está dito. portanto. Em Marx. Ao tempo da produção de Marx. O concreto é síntese de muitas determinações e. “E o mais importante. que o verdadeiro ponto de partida do pensamento é o real. O movimento produção/reprodução do concreto. explicitamente. Esta concepção estabelece que o fato de se ter realidade não garante ser concreto. assim. este concreto é um concreto novo. Atinge-se o concreto quando se compreende o real pelas determinações que o fazem ser como é” (ibid. no caminho de volta. há uma proposta de procedimento novo . segundo a autora.: 23). para reproduzir o concreto real (‘as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto por meio do pensamento’)” (ibid. na formulação do texto de Marx.Anterioridade do concreto. que é o ponto de partida da percepção e da representação. pois unidade do diverso. Esse processo ainda aparece no pensamento como expressão de uma síntese.18 22). Possibilita-se. onde dominavam as perspectivas empíricas. Não será a partir de toda uma análise procedente do real. O que conta de fato são as determinações. O papel do real para o pensamento e para o conhecimento não é. eliminado . pois. 2 . segundo a autora.“do abstrato (determinações e relações simples e gerais) ao concreto (que então não é mais ‘uma representação caótica de um todo’ e sim ‘uma rica totalidade de determinações e de relações diversas’ )”. já apresentado. O método de Marx vai do abstrato ao concreto.

onde se parte do real. O pensamento parte do concreto (real). (concreto) abstrato 3o) abstrato --------------------- concreto (pensado) . Nesse movimento não se parte do real ou de sua representação imediata caótica e abstrata. o terceiro movimento será de construção teórica de reprodução do concreto. de que o concreto aparece no pensamento como resultado.: 25). Parte-se dos conceitos mais simples produzidos pelo movimento anterior. observa-se em Marx. embora seja o verdadeiro ponto de partida. onde se tem como caótica a representação do real. através dos seguintes vetores básicos: 1o) real (concreto) -------------------- abstrato 2o) abstrato --------------------. sob a alegação de que o teórico só pode afirmar do concreto o que sabe dele. . Finalmente. Nesse momento. O segundo movimento é o início da atividade científica propriamente dita. porém afastando-se cada vez mais dessa realidade. por ser o abstrato o campo próprio do teórico (em que se move o pensamento para produzir conhecimento) para ele. através da abstração. o real não existisse senão sob a forma pensada. configurando um movimento de reconstrução teórica. os movimentos são colocados. o que tem precisado sobre ele. pensando-o. teórico. segundo Limoeiro Cardoso. De forma simplificada. isto é. atingindo conceitos mais simples desse real. A perspectiva seguida por Marx é a que ele explicita. ainda que só se torne verdadeiramente científico quando retoma o concreto. O primeiro. Uma coisa é afirmar que o concreto só faz parte do teórico como concreto pensado (acentua-se aí o fazer parte de ). Esse movimento seria a busca pela especificação das determinações gerais e simples. outra coisa diferente é afirmar que o concreto real não se relaciona com o teórico (abstrato). a partir do abstrato (suas determinações atingidas pelo pensamento originado no concreto” (ibid. . um triplo movimento.19 como se.

presente em Marx. diferente do abstrato a que o método anterior permitia chegar. esse ponto de partida do método de Marx é outro ponto diferente daquele de chegada do primeiro método . Esta produção se dá ao nível do teórico. tem início com a produção crítica das suas determinações. “a realidade concreta preexiste. segundo Limoeiro Cardoso. Não significa apenas a troca do ponto de saída pelo de chegada ou o ‘começo pelo resultado’.20 Para a autora. pode ser entendido que o ‘caminho de volta’ não se torna nada simples. Dessa forma. e não concreto. É um abstrato reconstruído criticamente a partir deste” (ibid. diz a autora. o real está presente e alimentando a percepção e a representação e. constituindo-se como crítica da produção anterior. “Marx argumenta que mesmo o pensamento mais simples só existe como relação unilateral e abstrata de um todo concreto. de forma explícita.: 28). se iniciaria o que Marx aponta como ‘método cientificamente correto “(ibid.: 28). já dado. subjaz e subsiste ao pensamento. Foi analisada até agora. “não esquece que o concreto produzido pelo pensamento é apenas pensamento.o da economia política de seu tempo. Porém. na interpretação de Limoeiro Cardoso. “Não só porque é abstrato. bem como a concepção de que o pensamento se basta a si mesmo e se movimenta por si mesmo. Em Marx. Também não pode ser apenas uma troca de sentidos ou inversão de uma rota. por outro. ao nível das categorias. a afirmativa de Marx de que os conceitos mais simples permitem chegar a uma . É neste ponto que contesta Hegel. uma negação. Esclarece ainda a autora que. ela só se realiza quando da existência de um desenvolvimento teórico ‘razoável e disponível’. 3) . “com o segundo movimento.Relação categorias/real. É este que de algum modo depende dela. dessa forma. Na contestação marxista de que o pensamento seja a gênese do concreto. também. é outro abstrato.: 32). vivo. O conhecimento científico do real. “É daí que o método para produzir este conhecimento se eleva do abstrato ao concreto” (ibid. ou a relação que este propõe entre abstrato e concreto” (ibid. e não ao contrário” (ibid.: 30).: 27). Contesta dessa forma a possibilidade de um movimento de categorias autônomas e produtoras do real. por um lado. Esta compreensão traduz. de que o real seja resultado do pensamento. Sendo abstrato.: 29). É neste sentido que para ele o real é anterior ao pensamento” (ibid. não real. Além do mais.

na primeira parte da discussão. na segunda.relações estas expressas em categorias mais concretas. 9 Salientam-se. como ponto de partida. 2) a da simplicidade originária dessas categorias. mesmo categorias as mais simples. Além disso. abstração das determinações que se expressam naqueles conceitos simples. e estas não existem antes de relações mais concretas. Mirian. ”para produção teórica. Supõe também a exposição desses conceitos a partir de uma abordagem que parta do próprio real. expressando-se como relação unilateral e abstrata de um todo concreto já dado. Para a autora.: 32).: 34). salienta a autora.. 4) a evolução histórica do real. As categorias mais simples não se apresentam em Marx com existência independente sem nenhuma característica histórica ou natural. busca-se a relação existente entre ambos. “É sobre ele que se erigem as categorias. 32-44. 3) as categorias simples terem ou não existência independente e anterior às das mais concretas. 1990. também é uma abstração. assim. A discussão passa por uma análise de que as categorias simples têm ou não existência independente e anterior às categorias mais concretas. Tais questões são formulações postas e melhor analisadas por Limoeiro Cardoso. algumas questões suscitadas. tem-se o mais geral . o pressuposto básico é que ela seja comandada pelos conceitos mais simples. Estabelecido o conceito do método. na terceira. Dando sustentação a esse pressuposto. A exigência fundamental de sua existência está na admissão do concreto vivo. Uma análise que convém salientar não se dá apenas no campo de categorias teóricas. pp. que é anterior a ele. isto é. que não são capazes de captá-lo no plano do teórico a não ser parcialmente. As categorias simples expressam. para ser possível a reprodução do concreto no pensamento” (ibid. Nesse sentido. cit. Acrescenta que esse real.: 33). no sentido de que se referem a um grau mais baixo de abstração” (ibid. empreendida por Marx. então. .o da exterioridade e independência da realidade . relações simples. o primeiro momento desse movimento consiste em que “as relações mais simples sempre pressupõem relações mais concretas .a tese materialista fundamental9. expressadas também em categorias mais concretas. Op. Quanto à discussão do simples originário. e. afirma a existência do real fora do pensamento. tais como: 1) o porquê das determinações do real são formuladas através de conceitos simples. Limoeiro Cardoso vê um movimento em três dimensões. do real.21 inteligibilidade do real. unilateralmente” (ibid.

como o Peru précolombiano. para superação dos questionamentos. em que a existência do dinheiro limitava-se às atividades comerciais nas suas fronteiras. O real aparece relacionado com cada uma destas categorias através dos diferentes graus do seu desenvolvimento e da sua complexidade” (ibid. 1990. superada apenas quando inicia com a distinção que é feita entre posse e propriedade. influenciando tanto na diferenciação como na produção das categorias. bem desenvolvidas e não historicamente maduras. A relação dinheiro e capital é uma relação entre categorias pensadas. uma contradição. Apresenta-se. “As categorias mais simples são as mais abstratas(abstrações simples). Acontece que não há posse sem a família. o mais simples se torna anterior ao mais concreto10. a autora mostra que esta é uma contradição. no segundo. a autora sistematiza esses três momentos da seguinte forma: 10 Esta aparente aporia é resolvida em Limoeiro Cardoso. o concreto é real.22 O segundo movimento se dá de forma mais complexa a partir da exemplificação de Marx. pode se entender que é numa sociedade mais complexa. onde se analisa a categoria simples. Ao colocar e discutir a questão.posse. Dessa forma. entender-se que “a categoria mais simples exige um certo grau mínimo de desenvolvimento para que possa seguir a relação mais simples que ela exprime” (ibid. até agora. a questão da evolução histórica real. mesmo que haja sociedades. é parcial no sentido de não impregnar “todas as relações do setor a que se refere”. Este também se constitui como o terceiro momento. No primeiro. No segundo momento. pp 38-41. A relação proposta é uma relação real. em que a categoria mais simples se apresenta com maior desenvolvimento.: 37). que exige uma relação mais concreta. o concreto pertence ao plano do pensamento. é o dado. portanto. como o dinheiro. De forma sintética. a categoria mais simples também existe. onde não existia qualquer forma de moeda.: 39).propriedade.. . “A posse é uma relação simples. Aí também se insere. porém. em que a posse se torna a relação jurídica mais simples. O mesmo ocorre com os povos eslavos. com sua contrapartida pensada: família . comunidade de famílias . O segundo momento não é pura negação do primeiro. mas que não é produzida por pura negação. No primeiro momento. É importante. Op. como a família”. Ele é outro momento. Em sociedades com grau de desenvolvimento menor. Tais exemplos mostram a sua existência como categoria simples. cit. o mais concreto é anterior ao mais simples. Miriam.

As categorias mais simples exigem um substrato mais concreto.fundamento: relação simples/complexo (concreto) 3) complexo (concreto) ------------- simples . Contudo. é no mais complexo (completo) que o simples pode estar mais desenvolvido. .A Produção das abstrações mais gerais. Agora. e neste sentido. que se fará no concreto pensado.a categoria mais simples só tem seu desenvolvimento completo numa sociedade complexa. É aí também onde se alcança o elo específico entre o real e o conceito: “O abstrato de que se deve partir para começar a produção do conhecimento. que se . já não depende só da produção teórica anterior. Aqui. . o mais simples pode preceder o mais complexo.fundamento: relação concreto/abstrato (abstração simples).23 “1) concreto ------------- simples . um todo vivo. Desses movimentos resultantes da relação entre categorias e real. ele pode ser pensado de forma teórica e mais completa. 4) . 2) simples ------------- concreto ( complexo) .categorias mais simples são anteriores a relações mais complexas (expressas em categorias mais concretas). surge a constatação de que o simples não é a origem. Observa-se também que o processo histórico real vai do mais simples ao mais complexo. enquanto que as categorias mais concretas podem ter seu desenvolvimento completo anteriormente” (ibid. A autora identifica uma quarta parte no texto e descobre que é na sociedade mais complexa que a categoria mais simples se completa.relações mais concretas são anteriores a categorias mais simples. uma certa organização social.: 42). isto é.

Pode-se entender como a categoria trabalho é uma categoria simples. é recente. trabalho é uma categoria simples quando ele é pensado como trabalho em geral. a produção teórica deriva de condições reais” (ibid.: 44). contudo. pela diversidade de formas de realização. segundo o economista. A sociedade mais complexa possibilita o deslocamento do trabalhador. mais abstrata. a idéia de trabalho é bastante antiga. analisa a autora que a categoria. desde aí. e isso só é possível em uma sociedade mais complexa. Então.A anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco. já está presente em A. Em última instância. “aparece O aqui a primeira especificação precisa da categoria simples: a sua generalidade. . em sendo mais simples. no caso. pela sua generalidade. As categorias mais simples detêm as abstrações mais gerais. criticando. mais geral. se torna. como trabalho sem determinações.: 46). entendida como trabalho em geral. criada na sociedade mais complexa. para outro ofício. a categoria mais simples. indo além da formulação anterior. Neste tipo de sociedade. como categoria econômica. tem-se o trabalho em geral.24 utilizará. simplesmente”. gerador de riqueza. É no atual estágio de sociedade em que se vive com a diversidade de formas de trabalho. Tem-se. Estas produções teóricas e o movimento que as produz despontam numa íntima conexão com o real e o seu movimento próprio” (ibid. Ora. como trabalho. uma sociedade mais complexa. Como trabalho em geral. mesmo especializado. O trabalho em geral. O trabalho é a relação daquele que produz com o produto. A categoria trabalho. pelo alto grau de abstração. comercial e agrícola. A sociedade que possibilita a existência da categoria mais simples. é aquela em que concretamente existe o trabalho em geral. Smith. pois são úteis a todas as ‘épocas’ e. de trabalho manufatureiro. 5) . o papel do abstrato (conceito simples. o trabalho em geral. Análise feita até agora tem mostrado o método como um caminho. onde a categoria simples completa o seu desenvolvimento. deixa-se de pensar nas particularidades da relação entre produtor e produto. São definidas pela simplicidade. retira deste qualquer determinação possível que possa conter. econômica.: 45). Para Limoeiro Cardoso (ibid. portanto. mas nas formas de trabalho no seu caráter comum. o trabalho em geral. Este desenvolvimento teórico “não depende exclusivamente da capacidade e da disponibilidade teórica.

diferenciando-se. em última instância. não há a possibilidade de ocorrer a perda da especificidade dos distintos momentos históricos. Em Marx. considerando a história um estudo do determinante da totalidade social. No entanto. Para a autora. mas “o último modo de produção completo. Convém destacar que a sociedade. a análise entre esses diferentes momentos exige que não se perca a diferença essencial entre eles. ao se fazer uma análise com categorias geradas na sociedade mais complexa. possíveis de serem utilizadas em análises de sociedades menos desenvolvidas. em si mesma. a relação da abstração com a realidade e a importância da fase do desenvolvimento da realidade social para a produção das abstrações mais gerais. A teoria desenvolvida aponta para a economia numa perspectiva histórica. é neste tipo de sociedade. Com esse cuidado de não perder a própria história. é a sociedade burguesa. a autora vai mostrar que há em Marx uma concepção de história evolutiva. conseqüentemente. acrescentando: “A lição dada é no sentido de que se disponha de categorias gerais que na sua generalidade abranjam todo o desenvolvimento desde o ponto em que foram produzidas. A análise desta totalidade remete. a própria história. Portanto. questiona também se o olhar do presente não deformará o passado. assim. Segundo Limoeiro Cardoso. mais complexas e mais abrangentes. o modo de produção capitalista” (ibid. . A sua generalidade. mais complexa.: 50). que se torna possível a criação de categorias as mais simples e. um do outro. “a análise da história deve ser conduzida por categorias simples e gerais produzidas no estado mais avançado da própria história” (ibid. em estudo. residindo nela também a determinação. apoiada numa abstração que é condicionada historicamente. O presente significa não o contemporâneo ou o que está ocorrendo.: 48). contudo. da totalidade social. a autora levanta a questão do risco que se corre.25 determinação) na reprodução do concreto no pensamento. inclusive e principalmente para este” (ibid. lhes dá validade para todos os momentos anteriores ao da sua produção. para o conhecimento da economia. em que laços orgânicos ligam os diferentes momentos históricos. uma vez que cada um deles se define por suas peculiaridades. Esta é uma preocupação para que não venham se perder as especificidades de cada momento histórico. que é uma totalidade histórica. Esta última incorpora. por sua vez e necessariamente.: 53).

conseguindo se ver como diferente. . buscando as conseqüências importantes dessa argumentação. ainda que lhe sejam anteriores” (ibid. para a sociedade mais desenvolvida socialmente. pp 52-53. em que a autora vê várias conseqüências11.. as diferenças essenciais. a demarcação das diferenças essenciais de cada momento histórico exige uma definição de onde devem incidir os cortes na história ou a periodização. por exemplo. A terceira é que “tanto ‘presente’ como ‘passado’ sejam entendidos (argumentos) em termos de ‘organização histórica da produção’. Mas quando isso se torna possível? “Somente quando uma sociedade deixa de se absolutizar e passa a ser. outras particularidades e especificidades diferentes da sua. isso também é verdadeiro. ela destaca.: 53). A primeira nega a possibilidade de explicação genética da história. está na capacidade dessa própria sociedade para se aperceber na sua singularidade no tempo. para um estudo do desenvolvimento social mais complexo na sua especificidade histórica. antes de tudo. um momento histórico consegue fazer sua crítica. Limoeiro Cardoso. contudo. Esta análise conduz. é capaz de atingir. que a produção é histórica é dizer que ela surge num determinado momento da história e se extingue em outro. 11 Um desenvolvimento teórico mais elaborado encontra-se em Limoeiro Cardoso. capaz de assumir sua própria particularidade e especificidade.: 51). que a sociedade tem dificuldade de se ver criticamente. continua seu questionamento. É preciso respeitar as especificidades históricas. Ela vê no texto de Marx a condição de possibilidade de relativizar os outros modos de produção. reconhecendo-as e conhecendo-as. A autora levanta novo questionamento: como realizar a periodização? Respondendo. aponta a crítica ou particularmente a autocrítica. “tanto as do presente como as do passado”. Isto ocorre quando esta não mais se identifica com o passado. Como solução. Toda esta discussão é travada no nível teórico do modo de produção” (ibid.26 Ora. necessariamente. portanto. Isto supera a possibilidade de uma visão genética que vê o desenvolvimento da história de modo linear. quando tem condições de relativizar a si próprio. Miriam. cit. A autocrítica de uma sociedade. A segunda é que se busquem ver. Em condições bem determinadas. na sua historicidade. Em sendo assim. Dizer. op. mais complexa. contudo. 1990.

tentando mostrar como a agricultura. se constituiu como principal atividade. e se constitui. como categoria principal diante da renda fundiária. Esta é a última parte do texto do método. por sua vez. Trata-se do momento no qual se estabelece o plano de análise e a ordem das categorias nesse mesmo plano. responde à ordem de importância relativa das relações que expressam. E aí de novo surge a questão: qual é o princípio organizador dessas categorias? Busca-se resposta para a questão apresentando-se os diferentes modos de produção. conseqüentemente das condições históricas. como base. Uma suposição primeira. num determinado modo de produção. Conseqüentemente.A ordem das categorias. Na sociedade burguesa. agora. e uma outra que é a mutabilidade histórica. Isto exige organização dessas categorias para que se possa chegar ao conhecimento mais abrangente e mais profundo da realidade. tem início no campo das abstrações (as determinações mais simples). são como montar essa análise e por onde começá-la. dar conta do real em toda sua completude. portanto. afirma a autora: “A ordem das categorias. reproduzindo essa sociedade no pensamento. teoricamente. Todas as categorias criadas têm. ao realizar a análise crítica de conceitos gerados na empiria da economia clássica. mas destas “não são mais que parciais em relação a ela”. Conclusão É com este método que Marx busca analisar a sociedade burguesa. As categorias não conseguem. Tem precedência teórica a categoria que expressa as relações mais determinantes” (ibid. a renda fundiária e a propriedade vão se constituir como categorias que expressam essas dominâncias. o pressuposto da anterioridade da realidade. no capitalismo. importância que é relativa à capacidade das relações em determinar a organização da produção. o capital é ponto de partida e de chegada de tudo. caracterizado por atividades apenas teóricas. Esta crítica vem sob o confronto destes conceitos com a realidade. Finalmente. As questões levantadas. é que são produzidos . presa à exterioridade e anterioridade do real. Sua independência a localiza fora do espírito.: 54). a não ser de forma unilateral.27 6) . Chega às determinações. Sob o manto da mutabilidade. Como método geral. Convém destacar que a realidade concreta existe independentemente de estar sendo pensada ou mesmo depois de ser pensada.

em particular a perspectiva em Marx. Referências ARISTÓTELES. Além disso. de forma crítica. São Paulo. São Paulo. como um método. Diante das considerações apresentadas. Edmilson A. Hegel e o mundo invertido. Tópicos.aquelas que se quer estudar.os mais abstratos . O desafio contemporâneo do fazer ciência: em Serviço Social Sociedade. mimeo). pode-se apresentar a dialética. mas sim uma ordem significativa para a sociedade em estudo. continua atualizado e aberto. ago/1995. Dialética: (48) ano XVI. 1983. São Paulo/SP. João Pessoa. da fundamentação ontológica da Dialética. busca Dialética: etimologia e pré-história. a ordem dos conceitos trabalhados não é a do seu aparecimento histórico. BORNHEIM. teoria.28 determinados conceitos. em condições ‘razoáveis’ de se poder analisar. (16 p. CARVALHO. Heleno. Gerd Alberto. 1996. AZEVEDO. podendo realizar abstrações suficientes e contributivas ao exame das possibilidades prospectivas de trabalhos acadêmicos e para análises de políticas no campo social. Seleção de José Américo Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. as condições de existência que estão sendo definidas para a realização da vida humana. CEZARINO. Ed. Ensaio para uma crítica da Porto Alegre. jun/96. . de novos caminhos/descaminhos da razão. Universidade de São Paulo. Para os dias atuais. l978. práxis. Alba Maria Pinho. Globo. mimeo). (10 Peçanha. Dos argumentos sofísticos. este método. O princípio que rege essa ordem é o da hierarquia teórica. Abril Cultural. p. João Pessoa. Conceitos simples .só são possíveis em sociedades mais complexas .

Emamnuel. Terra. F. __________. Abril Cultural. Tomo I.30. Tereza Maria Frota Haguette. empírica. l987. 1988. Georg W. l974. HEGEL. A filosofia de Emmanuel Kant. ed. Rio de . sd. DISCURSO (20). Alfredo. MARKUS. DURANT. 1978. A doutrina . Edições 70. LIMOEIRO CARDOSO. Tradução de Torres Filho. 2a. l987. l980. Tradução: Antonio Pinto de Carvalho. Will. __________. Dialética hegeliana. São Paulo. A Atualidade da dialética em questão. Janeiro. Abril Cultural. Rodrigues sentido 1996. Crítica da razão pura. LLANOS. O capital e a lógica de Hegel. Pe1990. Universidade Federal Fluminense. Abril Cultural. João Pessoa. KANT. l980. Miriam. São Paulo. Paz e Terra. São Paulo. mimeo). FAUSTO. HAGUETTE. Pensadores. Brasiliense. Tradução: Henrique de Os Pensadores. dualismo epistemológico e pesquisa trópolis. l974. (21 p. de Introdução à dialética. Prolegómenos a toda a metafísica futura . Ruy. Editora Civilização Brasileira. __________ Introdução à história da filosofia. FICHTE. Abril Cultural. Teoria do conhecimento no jovem Marx. Vozes. Ediouro.Brasil: JK . Rio Janeiro. Marx: lógica e política. Rio de Janeiro.JQ. In: Dialética hoje. Lisboa. Gyorgy. Tereza Maria Frota. Dialética. Cadernos do ICHF Anotações sobre a Paz e “Introdução” de 1857. Investigações para uma reconstituição do da dialética. no. São Paulo. Org. Rui Gomes.29 DANTAS. Ideologia do desenvolvimento . Dialética marxista. A fenomenologia do espírito. São Paulo.que queira apresentar-se como ciência. Os Grandes Filósofos. set/1990. São Paulo. Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. Os Lima Vaz. Para uma leitura do método em Karl Marx. l974.da ciência de 1794 e outros escritos. Baldur __________. Tradução de Valério Rohden e Udo Moosburger. 1993: 41-47.

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