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Violencia Contra a Mulher

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UNIVERSIDADE DA AMAZÔNIA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E EDUCAÇÃO CURSO DE SERVIÇO SOCIAL

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: Uma reflexão sobre as conseqüências da precariedade de programas de proteção social

AUTORA: VERA LÚCIA NASCIMENTO DE SOUZA

BELÉM - 2001
5

UNIVERSIDADE DA AMAZÔNIA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E EDUCAÇÃO CURSO DE SERVIÇO SOCIAL

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: Uma reflexão sobre as conseqüências da precariedade de programas de proteção social

AUTORA: VERA LÚCIA NASCIMENTO DE SOUZA

Trabalho de Conclusão de Curso, elaborado pela aluna VERA LÚCIA NASCIMENTO DE SOUZA, apresentando ao Curso de Serviço Social, da Universidade da Amazônia, como requisito para obtenção do grau de Assistente Social, sob a orientação da Professora Maria José Campos de Melo.

BELÉM – 2001
5

FOLHA DE AVALIAÇÃO NOTAS ATRIBUÍDAS: NOTA DO PROCESSO: ____________ ORIENTADOR: ___________________ EXAMINADOR: ___________________ MÉDIA DA BANCA: _______________ NOTA FINAL: ____________________ DATA: _____/_____/_____ 5 .

EPÍGRAFE “’E preciso sinalizar para a sociedade que a violência doméstica é inaceitável. É preciso entender que a cidadania não pode acabar na porta de casa. Bárbara Musuméa Soares 5 . mas não se pode apenas reforçar as providências punitivas.

A todas as mulheres que tiveram a coragem de reagir à violência. pela força que me deram. sacrificando seus sonhos em favor dos que amam. e denunciaram seus agressores. 5 . revestiram experiência com amor. Trabalharam dobrado. Não contente em presentear-me com ela. Abriram as portas para o meu futuro. iluminando o caminho mais precioso – o Estudo. carinho e dedicação.DEDICATÓRIA Aos meus pais. Obrigada. pois foi de vocês que recebi o Dom precioso do universo – a Vida. meus pais.

A todos aqueles que direta e indiretamente contribuíram para a construção deste TCC. Professor Edval Bernardino pelo conhecimento transmitido e pelas discussões que muito contribuíram para minha formação profissional. A minha orientadora Maria José Campos. A meus colegas de turma pelo carinho e amizade nesses cinco anos. que suportaram minhas ausências e ansiedades com paciência e compreensão. em particular a amiga Suely Pantoja. que me deu força para chegar até o fim e que sempre acreditou em minha capacidade. que durante minha vida acadêmica trocaram comigo seus conhecimentos e experiências. Aos professores do Curso de Serviço Social. A meus amigos. que iluminou meu caminho e minha mente nesta jornada e sempre. 5 .AGRADECIMENTOS A Deus. Aos meus familiares. que me apoiou. me entendeu e vibrou comigo nesta nova conquista. Ao Coordenador do Curso de Serviço Social.

desrespeito aos direitos das mulheres. Problemas decorrentes de fatores emocionais. que o trauma físico é a expressão de um conjunto de problemas que a sociedade contemporânea (não só a brasileira) precisa enfrentar. discriminações típicas como de gênero. culturais. nas atividades de representação política. Durante o estágio. psicológicos. A tese que o estrutura afirma que a ausência de programas de proteção social às mulheres. exploração e expressão. entre outros. enfim. Nesse sentido. creio que os equipamentos públicos de atenção às demandas na área de saúde precisam assegurar serviços específicos de proteção à mulher. tem sofrido os efeitos de inúmeras discriminações no ambiente familiar. submete este segmento social à condição de vulnerabilidade social. vítimas de violências. historicamente. Estes serviços são necessários para construir condições básicas de cidadania a um segmento social que. como expressão de uma “normalidade social”.VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: uma reflexão sobre as conseqüências da precariedades de programas de proteção social Vera Lúcia Nascimento de Souza Resumo: O presente Trabalho de Conclusão de Curso é uma reflexão sobre as múltiplas expressões da violência contra a mulher. Percebi que a violência contra a mulher tem causas múltiplas. constatei a elevada incidência de mulheres vítimas de agressões físicas. no trabalho. observei entretanto. que converte diferença de relações hierárquicas com fins de dominação. 5 . Violência. Meu interesse em debater este tema teve origem nas observações registradas durante o estágio curricular que realizei no Hospital de Pronto Socorro Municipal de Belém (HPSM). no ano 2000.

O drama da violência contra a mulher é uma questão importante a ser estudada. visitas à Delegacia de Mulheres. pois à medida que permite a construção de novos conhecimentos e melhor compreensão de suas causas e efeitos. posteriormente. Portanto. no que concerne à ausência de programas de proteção social a estas pessoas. mas sim a uma análise mais abrangente do problema. faz uma reflexão no que diz respeito às políticas públicas como forma de proteção social às mulheres vítimas de violência. mas sim discutir os aspectos que possam. seu objetivo é refletir sobre os efeitos negativos diretamente associados às mulheres. observações no ambiente do estágio. esta abordagem se constrói com observações extraídas da sociedade brasileira. através dos resultados analisados. por fim. acrescentar entendimentos acerca deste problema existente nas sociedades contemporâneas. também pode orientar intervenções profissionais mais seguras e apoiadas em conhecimentos teóricos mais atualizados. 5 . Este trabalho não pretende partir de uma pesquisa de campo direcionada às mulheres atendidas no HPSM. a reflexão não deverá se prender ao ambiente do estágio. Todavia. A finalidade deste artigo não é esgotar o assunto. retrata a violência contra a mulher e a negação de sua cidadania. Obviamente. entrevistas com assistentes sociais na Delegacia de Mulheres e no HPSM. primeiramente. Para a elaboração deste trabalho fiz levantamento bibliográfico. aborda o papel do Serviço Social no trabalho com as mulheres vitimadas pela violência e a contribuição que este pode oferecer na construção da cidadania. Este artigo.

Os indicadores da violência contra a mulher ainda são imprecisos. Indiscutivelmente. Como conseqüência. por muito tempo.1. a vítima procura denunciar o agressor. 5 . temos a impunidade dos agressores e a transformação da vítima em ré. no âmbito privado. local onde acontecem relações contraditórias. não se tornou conhecido pelo fato de acontecer. contribuindo para que este grave fenômeno social seja um problema com pouca visibilidade. devido à fragilidade e precariedade de pesquisa. durante muito tempo. principalmente. O agressor. na maioria das vezes. o milenar silêncio das mulheres agredidas e as idéias sobre sua inferioridade têm contribuído para a manutenção e o aumento deste tipo de violência. Como sabemos. neste caso. isto porque. um sujeito social com pouco ou nenhum direito e que. e por variados motivos. é membro da família. cria-se um círculo vicioso para o agressor que. conflituosas e de poder. enquanto a mulher. procura exercer um controle social e reafirmar seu poder sobre a mulher. Neste espaço. A idéia de violência que adoto nesta reflexão está baseada em VILLELA (apud AZEVEDO. entretanto. os quais não são objetos deste estudo. o espaço doméstico familiar. Ocorre. produto e vítima desta mesma cultura. VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: a negação da cidadania O fenômeno da violência contra a mulher ocorre nas sociedades há milhares de anos. sem o protagonismo da sua própria história. a mulher foi considerada como objeto. Neste sentido. sofre inúmeros tipos de violência. por isso mesmo. tem se revelado propício para o exercício da violência. uma inversão de papéis e de valores. por muito tempo se recolheu na intimidade do lar e nas sombras da cultura que a subordinou ao espaço doméstico. dado ao seu papel de “provedor da família” é beneficiado pela tolerância da cultura machista. 1985:19). nem sempre.

de decisão e que termina por rebaixar alguém ao nível de meio ou instrumento num projeto. No âmbito da família. traumas psicológicos ou mortes. em geral. Talvez por ser a forma de violência com maior grau de agressividade e também aquela que mais põe em risco a vida da pessoa agredida. que absorve e engloba. três tipos mais freqüentes de violência praticadas contra a mulher: a) agressão física é aquela que. ataca diretamente a estrutura psicológica da mulher usando palavras que agridem a sua integridade fazendo com que esta se sinta inferior. mas é importante chamar atenção para o fato de que a violência inclui também agressões que afetam a auto-estima e a capacidade de relação de decisão da pessoa agredida. como por exemplo. Esta forma de agressão se manifesta de diferentes formas: desde um “simples” empurrão. sem tratá-lo como parceiro livre e igual. injúrias e repetidas acusações de infidelidades e sem motivos. que tenta impedir-lhe a liberdade de reflexão. O homem. o tipo de violência que tem mais visibilidade para os registros de delegacias de polícia e para as matérias jornalísticas é a violência corporal. 5 . nesta ocasião. de constranger e renegar-se a si mesmo. b) agressão psicológica ou emocional que é feita através de diminuição moral da mulher. ainda. A preocupação com a violência coloca-se hoje como uma questão central para muitas sociedades e se expressa de diferentes maneiras. até às formas mais contundentes. revestir-se sob a forma de ameaças dirigidas à vítima. para ilustrar a minha discussão. O objetivo é diminuir socialmente a mulher. de julgamento. Porém. resultando em lesões corporais. esta situação pode manifestar-se através de cenas de ciúmes. O termo violência é geralmente associado a agressões físicas ou sexuais. A violência é uma tentativa de diminuir alguém. Destacarei. a morte. Pode. mais leva as vítimas a apresentarem queixa.Violência é toda iniciativa que procura exercer coação sobre a liberdade de alguém. intelectualmente incapaz.

que este quadro vem sofrendo importantes alterações. FONSECA (2001:10).c) agressão sexual caracteriza-se em obrigar a vítima a praticar qualquer tipo de ato sexual contra a sua vontade. Nestas sociedades . quando. devo lembrar que a luta das mulheres brasileiras adquire relevância desde a década de 30. surgiram vários movimentos sociais que procuraram transformar esta realidade. na passagem para a década de 80. No entanto. por escrito. ainda. na tentativa de tomar novos rumos e de obter novas conquistas numa perspectiva de construção da cidadania. tais como: conversas obscenas. concordo com CAMPOS (2001:13) quando afirma que: Cidadania é o conjunto e a conjugação de direitos civis. de utilizarem todas as potencialidades de realização humana aberta pela vida social em cada contexto historicamente determinado. adquire importância a formação da sociedade capitalista . entre outros. de inserção nos processos produtivos e de construção de uma identidade social. Pode-se dizer que com o crescimento da luta pela democracia brasileira. ao longo do século passado. ou por todos os indivíduos (no caso de uma democracia efetiva). em atuar por outros meios. do século XX. as mulheres em suas lutas passaram a preocupar-se com questões específicas como as relações de gênero e sexualidade. todavia.é pela busca de espaços de participação política. Com efeito. lutando em prol da causa feminista: a emancipação social e política da mulher.e o Brasil também se beneficia disto .o século XX se revelou como inegável palco das manifestações feministas. de se apropriarem e utilizarem os bens socialmente criados. objetos pornográfico. Neste sentido. Cabe destacar. Este tipo de violência consiste. A cidadania é a capacidade conquistada por alguns indivíduos. sociais e políticos assegurados aos membros de um a determinada sociedade. Tais direitos 5 . no Brasil. sobretudo nas sociedades ocidentais.

em gerência e direções 5 . buscam a construção da cidadania. Podemos observar que mesmo nas sociedades atuais. temos mulheres ocupando cargos de representação política. Como é sabido. contudo. É inegável.adquirem efetividade através do exercício das liberdades individuais. A relação violência . Devo registrar. ou seja. o que vem resultar na neutralização do fenômeno violência contra a mulher”. não posso falar sobre direitos humanos. Esta afirmação tem sentido teórico e político pelo fato de acreditar que uma civilização somente se afirma como protagonista da cidadania. Com base no exposto. culpabilizando a mulher pela violência contra ela cometida. mas também a influência do moderno sistema capitalista que persiste em definir o homem como ser produtivo de maior importância. da participação política e do acesso à bens de consumo e à proteção social. sociais. como nos diz KOLLONTAY (1978:15). entretanto. Talvez seja a inclusão dos direitos das mulheres na pauta dos direitos humanos a chave para a ampliação da cidadania em geral. por sua emancipação e contra as discriminações. políticos e econômicos que orientam as ações do Estado e o cotidiano dos cidadãos em uma sociedade injusta e excludente. sem questionar os modelos éticos. “a ideologia patriarcal subordina a mulher utilizando-se da disciplina para obtenção de sua sujeição. que nas sociedades capitalistas as relações sociais se estruturam com um certo grau de complexidade que reafirma a supremacia masculina (ideologia dominante). Esta cultura vem sendo questionada pelos movimentos feministas que lutam pela valorização da mulher. enquanto que a mulher é apenas a parte complementar. se seus benefícios se constituírem em patrimônio de toda a sociedade.mulher demonstra atualmente um aumento que tem por base não só a idéia de inferioridade da mulher. que nos centros urbanos mais desenvolvidos estas relações já registram algumas mudanças.

2. É preciso compreender que a violência contra a mulher faz parte dos recursos de poder utilizados pelos homens para manter os privilégios e os benefícios que a milenar cultura machista lhes tem assegurado. não se trata de um presente ou concessão masculina. Segundo CAMPOS (2001:13) a política social. As políticas sociais são de fundamental importância nas sociedades contemporâneas porque atende reivindicações em nome da ampliação da cidadania. Porém. é a presença de mulheres como motoristas de táxi. é um conjunto de ações públicas.de empreendimentos econômicos. em Belém. Estas ações públicas integram o elenco da estratégias utilizadas pelo Estado com vistas à reprodução da força de trabalho e preservação da ordem sócio econômica e política vigente. políticas significam o corpo dos serviços como forma de atender às reproduções das forças de trabalho. governamentais ou não. 5 . ônibus e outras atividades. Os exemplos que acabo de registrar fazem parte de um processo contraditório. Estou convencida de que o ambiente social que utiliza a violência como forma de preservação do poder é um ambiente de discriminação e não de cidadania. Esta intransigência para construir novos relacionamentos entre gêneros. Exemplo disto. destinadas a satisfação de necessidades sociais. baseados em valores de igualdade efetiva e de liberdade se constitui em mecanismo de negação da cidadania para as mulheres. tradicionalmente ocupados por homens. como também em atividades de menor especialização. POLÍTICAS PÚBLICAS COMO PROTEÇÃO SOCIAL À MULHER VITIMA DE VIOLÊNCIA. geralmente distribuídas na forma de benefícios e atendimento das necessidades pela assistência social.

pela mulher. representa um inegável avanço comparado aos períodos anteriores da constituição vigente. No Brasil. ou seja. os partidos políticos e os postos de representação de maior importância nos Estados. Em meados daquela década (1988). essa conquista se processa através de árduas lutas. o elemento fundamental das relações de gênero. constitui um elemento básico na conformação dos seus direitos de cidadania. cujo teor enumerava os interesses e direitos das mulheres. Os movimentos de mulheres desempenham uma tarefa histórica para elaboração da Constituição Federal vigente. as mulheres já conseguiram do ponto de vista legal. ainda são ocupados majoritariamente pelos homens. cuja satisfação pode mais facilmente ocorrer se as categorias de gênero mantiverem relações iguais. institucionais e políticas que mantêm a mulher no lugar subalterno. No entanto. Portando. numa perspectiva de transformar a mulher em cidadã plena e participante da história. A constituição de 1988 assinala importantes direitos individuais e sociais para a mulher. Ao longo dos séculos.Efetivamente. É necessário criar condições para a mudança de mentalidade. muito por fazer. o movimento de mulheres mobilizou-se com o objetivo de elaborar uma carta – Programa de ação que foi enviada aos seus representantes na constituinte. Do ponto de vista legal. Todavia. Cabe registrar que a conquista dos direitos políticos. algumas vitórias e muitas derrotas. principalmente no que diz respeito a mudanças culturais 5 . há ainda. para o reconhecimento e superação das condições sociais. faz parte da luta política ir além da denúncia da existência da violência contra as mulheres. podemos pensar os seres humanos como portadores de necessidades. culturais. através do debate e de sugestões sobre os seus direitos. igualdade de participação política. interesses e aspirações diferentes. a igualdade constitui o pano de fundo.

igualdade civil. Vale ressaltar também que. não apenas como esposa ou mãe. com base 5 . a capacidade de compreensão e armazenamento de conhecimentos pode fazer com que a mulher se promova intelectualmente e possa demonstrar capacidades e aptidões para ocupar espaços que são vedados a ela. levaram à ampliação da participação das mulheres no mercado de trabalho. Agora. 1994:190 ) quando afirma que a “Identidade Feminina é hoje um projeto em construção que depende do rompimento com os velhos modelos impostos à mulher e da construção da plena cidadania para a mulher pela garantia de seus direitos fundamentais”. mas no mundo do trabalho. ou seja. tais como: participação política. política de promoção funcional. ocorridas na última metade do século XX. Algumas políticas de proteção social são fundamentais para que a mulher adquira igualdade de condições para o desenvolvimento de suas faculdades e possibilidades na sociedade brasileira. Concordo com CARNEIRO (apud SAFFIOTI e VARGAS. passando a ocupar postos cada vez mais elevados. entretanto. medidas públicas que contribuam para a redução do tratamento discriminado entre homens e mulheres . enquanto projeto em construção. Essa identidade. por exemplo: igualdade de salários para as mesmas atividades. E a atual geração de mulheres começou a projetar-se. acesso à programas sociais específicos e outros. econômicas e sociais. as transformações políticas. pois percebemos que persistem diferenças hierárquicas entre o masculino e o feminino em benefício do homem.na sociedade. É necessário. Essa nova consciência sobre a identidade feminina tem organizado as mulheres em torno de diversas bandeiras de luta. Destaca-se como fundamental a educação formal a qual tem grande importância para a superação da discriminação à mulher. depende hoje da aquisição deste conjunto de direitos capazes de garantir às mulheres a cidadania.

é necessária a existência de programas destinados especificamente para a saúde da mulher. Observei como estagiária do Serviço Social do Hospital de Pronto Socorro Municipal (HPSM) inúmeros casos de mulheres vitimadas pela violência. Dentro da política de saúde. contra preconceitos. Devo destacar que a licença à maternidade. seja em Pronto Socorro. contra o racismo. do respeito aos direitos humanos. Porém. abrigos e outros estabelecimentos do gênero. conquistada pelas mulheres. autoritarismo. Engaja-se a movimentos de outras categorias sociais em defesa num plano maior da liberdade. É de conhecimento público que a ausência ou deficiência de programas tem levado muitas mulheres à morte prematura. e percebi que os serviços oferecidos são incipientes e precários por falta de espaço físico adequado para o acolhimento. a conquista do direito ao acesso universal estabelecido na Constituição Federal.em critério de desempenho profissional. contra a violência em todos os sentidos. Devo destacar que programas emergenciais são indispensáveis para assegurar condições humanas a mulheres vítimas de violência. é uma importante medida de política pública em benefício da mulher. 5 . é de grande importância para a sociedade brasileira. de 1988. ou seja. pela deficiência de pessoal habilitado para o atendimento dessas demandas e também pela falta de programas destinados a estas situações específicas. entre outras. A luta da mulher não é um simples processo reivindicatório para ocupar espaço no mercado de trabalho ou ter sucesso profissional reconhecido. o abuso do poder. Delegacias de Mulheres. inserida no mercado de trabalho. em 1988.

mais seguras para denunciar seus agressores e serem ouvidas e aconselhadas por pessoas especializadas sobre os problemas vivenciados por elas. como forma educativa e repressiva de combate à violência contra a mulher. Considerando que grande parte de mulheres brasileiras vivem em condição de pobreza. a política de assistência social pode servir para colocar as mulheres em condições sociais minimamente adequadas para a vida social. na medida em que sentiram-se um pouco mais amparadas pelo poder público. A criação da Divisão de Crimes Contra a Integridade da Mulher – DCCIM. programas de apoio nutricional a gestantes. das organizações e movimentos de mulheres. uma conquista social para as mulheres. É importante entre outras iniciativas. de atividades culturais e políticas. foi. programas de creches que permitam à mulher participar do mundo do trabalho. no conjunto de esforços que operam no sentido de romper bandeiras do silêncio e da cumplicidade diante desse fenômeno. de programas para a qualificação de mão-de-obra feminina. a Delegacia especializada no atendimento à mulher constitui-se em um mecanismo importante no momento atual da sociedade brasileira. a partir da luta. incontestavelmente. surgem organizações voltadas a assegurar e/ ou defender os seus direitos. Entre estas destacam-se as Delegacias de Mulheres. Segundo ROCHA (2001:112) a violência contra a mulher vem se constituindo uma das mais graves formas de violação dos direitos humanos em nosso País. Violentadas pelo fato de tais crimes enfrentam a complacência e a legitimidade social que garantem aos seus agressores a impunidade. Esta medida de política pública tem grandes significados para a proteção dos direitos individuais. 5 . Registra-se neste particular um avanço na política de justiça e segurança pública.É importante lembrar que. Nessa perspectiva.

é de se esperar que no seu cotidiano profissional esteja presente o compromisso com a superação da violência contra a mulher. a partir do seu local de trabalho. Neste sentido. pois como diz (YAZBEK. 3. Aquela população que não é imediatamente visível aos olhos do capital. 5 . MULHER. conforme o seu Código de Ética. 1998:218). pertencem aos grupos sociais mais pobres. Acredito que o profissional de Serviço Social pode. 1999: 150) “o assistente social é o intermediador direto tanto no atendimento concreto às necessidades apresentadas. Devo registrar que grande parte das mulheres vitimadas pela violência e que se dirigem aos equipamentos públicos de proteção social. de “defesa intransigente dos direitos humanos e recusa do arbítrio e do autoritarismo” (BONETTI. SERVIÇO SOCIAL E CIDADANIA O objetivo principal da abordagem deste item é refletir sobre algumas contribuições que o profissional de Serviço Social pode dar para a construção de cidadania de mulheres vítimas de violência. SPOSATI (1989:14). como o Hospital de Pronto Socorro Municipal e Delegacia da Mulher.A assistência social é uma forma discriminada e parcial de estender algumas condições para a reprodução social de determinados segmentos da população. O profissional de Serviço Social. como responde pelo componente socioeducativo que permeia a produção dos serviços assistenciais”. As reflexões aqui apresentadas são produtos de minhas observações no campo de estágio e também em visitas realizadas à Delegacia de Mulheres de Belém. pois esta violência é uma manifestação de autoritarismo. vítimas de violência. direcionar suas ações para proteger e orientar estas mulheres. a buscarem seus direitos. tem suas ações comprometidas com o ideal de emancipação humana.

é necessário que a prática 5 . econômico) sobrepõem-se à plena realização dos indivíduos.1998:218). cultural. principalmente se levarmos em conta que ela é agravada pela discriminação e opressão a que historicamente as mulheres estão submetidas. no compromisso com a democracia. Os desafios para os assistentes sociais contribuírem com a construção da cidadania das mulheres. quero enfatizar a responsabilidade que os profissionais do Serviço Social que trabalham na área da saúde têm no direcionamento das Políticas Sociais. A questão da saúde/doença muitas vezes é determinada pela situação de desrespeito e abusos vividos pela mulher que só é valorizada em seu papel de mãe. em que a desigualdade social e as diversas formas de exclusão (moral. (BONETTI. Nessa perspectiva. o Código de Ética do Serviço Social aponta em seus princípios fundamentais a “opção por um projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária. sem dominaçãoexploração de classe. Tratando-se da saúde da mulher. etnia e gênero”. não é tarefa simples. enquanto agentes éticos. na garantia de realização dos direitos humanos e na construção de uma sociedade justa e igualitária para todos. vítimas de violência. perceberemos um caos. social. A superação desses limites supõe o estabelecimento de atitudes críticas da parte dos profissionais. Isto quando é vantajoso para o sistema e não prejudica interesses políticos e econômicos. os assistentes sociais encontram limites concretos para a ação ética em defesa da realização dos direitos humanos impostos pelas contradições da sociedade brasileira capitalista. Ou seja. Ou seja. de avançarem em suas práticas. Se olharmos a situação da saúde no Brasil. com a sociedade civil. podendo destacar as mulheres vítimas de violência. se o objetivo é ter Políticas Sociais integradas que atendam as reais necessidades dos usuários. constatado pela falta de uma política séria e de investimentos na área. a desatenção é maior ainda.Estou consciente de que.

não é capaz de perceber outras demandas para além da rotina do Hospital. realizando práticas técnicas e administrativas. intervindo na problemática das mulheres vítimas de violência de forma fragmentada e solta. possibilita condições para o paciente participar do que é seu direito. evidencia apenas o aparente. 5 . Como afirma BERTANI (1993: 49) O assistente social tem como função observar. liberação de ambulância e outros. não podendo limitar suas ações no sentido de atender essas mulheres dentro de suas especificidades. Este é um serviço importante. como estagiária do Serviço Social no HPSM. . que a prática desenvolvida pelos assistentes sociais do Hospital. Observei. Neste sentido. não contribuem para uma mudança de consciência por parte da paciente. mas também no sentido de fazer da prática cotidiana uma prática de natureza investigativa. contudo. então. contribuindo efetivamente no processo proporcionando real benefício às pessoas que utilizam a instituição. Como diz BERTANI (1993:43) A intervenção profissional direta remete as reflexões e tomadas de posição sobre saúde. atuar e até exercer pressão no inter-relacionamento entre sistema social e pessoas. não pode se limitar a execução de tarefas burocráticas como: encaminhamentos. A função do assistente social do Hospital. . não buscando conhecer as mulheres nas suas múltiplas relações. o atendimento por mais humano que seja. tão pouco esclarece sobre seus direitos.profissional ultrapasse os limites dos programas previamente estabelecidos pelas organizações sociais. É necessário salientar que. numa esfera maior e mais ampla do que a situação concreta possa transparecer. Esta é que poderá subsidiar a implementação e avaliação de novas políticas e programas sociais adequados às demandas relacionadas às conseqüências da violência. propor. Tais procedimentos embora necessários. transferência de pacientes. é urgente um repensar desta prática profissional para que ela assuma um compromisso com os princípios que orientam o Código de Ética profissional. por exemplo. acesso a tratamento e condições de vida dos doentes.

sexual. Esta foi a forma encontrada de eliminar o constrangimento e recusa de expor-se. além de um compromisso éticopolítico com as mulheres vítimas de violência. verifiquei através de visitas. O trabalho do assistente social na DCCIM é ser o agente mediador entre a mulher e a organização na busca de encaminhamentos. assim como proceder os encaminhamentos legais competentes para cada caso. No ambiente da Delegacia. o atendimento é feito por mulheres. tanto junto ao próprio Hospital. e reflexão 5 . é garantir o atendimento às mulheres vítimas de violência física. reagindo. pois a universalização de direitos é uma conquista política que precisa acontecer à partir dos espaços de ação profissional no ambiente institucional. moral ou psicológica. deve estar em constante modificação.Por isso. Poucos homens tem a exata dimensão da singularidade da mulher. Em face a esta situação. interagindo e provocando mudanças em função de um compromisso ético. a ação profissional do assistente social também precisa estar orientada para a perspectiva de relações sociais. humanas. quanto fora dele. mobilizando meios e recursos ao seu alcance. muitas vezes até intimamente diante de um delegado. o Serviço social necessita ter conhecimento que possa fundamentar sua ação profissional. Por esse motivo. a prática do assistente social deve assegurar à essas mulheres acesso aos direitos. que o objetivo daquela organização. no setor de atendimento social. o que consideravelmente dá uma nova direção ao trabalho. objetivando um trabalho que seja possibilitador de mudanças na busca de cidadania e não simples mantenedor das relações impostas. seja referente à conjuntura ou aos recursos da instituição. entrevistas realizadas. político e profissional que deve ser trabalhado conjuntamente. solidárias e de respeito. observações. A ação profissional. em sua relação tanto com o usuário quanto com outros profissionais da organização em que atua . No que diz respeito à Divisão de Crimes Contra a Integridade da Mulher – DCCIM.

coloca a cidadania. orientação. tem esperança-dúvida de ser bem atendido e deseja resolutividade para sua solicitação. A contribuição do profissional do Serviço Social se dá na medida em que se reflete a condição da mulher vitimizada. 5 . encaminhamento. O Serviço Social possui uma interface histórica com o Direito. à medida que ação dos profissionais.sobre essas questões de desigualdades e direitos. ao tratar das manifestações e enfrentamento da questão social. Pois. Abre um pouco a janela de sua privacidade para poder ter o que é seu direito. preservação e conquista de direitos. como destaca BERTANI (1993:44-45) O cliente expõe publicamente sua necessidade para receber ajuda. Deve-se refletir sobre todas as questões da usuária. proporcionando com isso uma visão crítica da realidade. bem como sua efetivação e viabilização social. a defesa. como foco de seu trabalho.

como medida de proteção individual e social. 5 . A existência de programas sociais destinados ao atendimento de mulheres e.CONSIDERAÇÕES FINAIS A violência sempre esteve presente nas relações sociais ao longo da história da humanidade. Os movimentos de mulheres lutam contra os modelos repressivos que afligem a condição feminina em todas as suas instâncias. de fato. voltar-se para um melhor direcionamento das políticas sociais. Percebo que a mesma encontra-se inserida neste processo. estando sempre articulados e mobilizados em prol da emancipação da mulher e pela garantia de seus direitos. na aplicação de seus conhecimentos teóricos e operativos. de forma a torná-las em medidas concretas de promoção social e de construção de cidadania. porém seu acirramento deu-se com o advento da propriedade privada. Nesta perspectiva. em especial. da sociedade de classes e do modelo de produção capitalista. Estou convencida que iniciativas como a Delegacia de proteção à mulher se apresenta. como mão-de-obra barata e como configuradora da base familiar . o Serviço Social deve estar capacitado e compromissado com as classes subalternas.estigmatizando na condição de sexo inferior e discriminado. da mesma forma acredito que seja urgente e inadiável a adoção de programas de proteção à mulher em estabelecimentos hospitalares como o Hospital de Pronto Socorro Municipal de Belém. da cidadania plena.a reprodutora da vida . à mulheres vítimas de violência se constitui importante fator na luta pela emancipação feminina. para assim. especificamente a violência contra a mulher. o qual explora a mulher duplamente. tendo com isso uma presença marcante e conquista significativa de seus intentos.

as mulheres devem continuar a se organizarem a fim de estarem dismistificando para os demais segmentos da sociedade as minuciosidades que envolvem a luta para a libertação e emancipação da mulher. 5 . na medida que homens e mulheres forem capazes de participar de uma prática política. na busca de novas relações sociais. baseadas na “igualdades de classes”.Acrescenta-se a isto que. Paralelo a isto. o fim da violência acontecerá. de sexo e de cor. A minha conclusão – esperança é de que devemos continuar lutando para que se instaure um novo tempo de tolerância e entendimento capaz de permitir que homens e mulheres se tornem igualmente seres humanos.

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